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Última atualização:19/01/2022

9

- Feliz natal. – Giovanni me surpreendeu assim que fechei a porta atrás de mim.

Primeiro congelei com as mãos na maçaneta, coração acelerado enquanto ainda não conseguia forçar meus neurônios em choque a reconhecer a sua voz. Depois, quando me lembrei da sonoridade, girei em meu próprio eixo para encontra-lo sentado, com a filha nos braços que dormia tranquilamente. O rosto era iluminado pelas luzes de natal que piscavam entre os galhos da grande árvore na sala. O relógio acima de sua cabeça, na parede, marcava quase seis e meia da manhã e alguns raios de sol tímidos atravessavam as nuvens espessas e refletiam na neve acumulada na janela fechada.
Eu não reagi a sua presença, apenas o encarei sem dizer nada, com a cesta em uma mão e as chaves do carro em outra. Giovanni me encarava como se soubesse de algum segredo sujo e de fato sabia.
- Cedo para um piquenique, irmã. – Ele estreitou o olhar sarcasticamente e eu apenas levantei os ombros, como se não me importasse. – Eu estava me perguntando quanto tempo levaria até você voltar ao hospital.
- Quem te disse que eu estava no hospital?
- É sério, ? – Vanni arqueou uma sobrancelha. – Vai mesmo manter essa?

Expirei pesadamente e pousei a cesta no chão, depois me joguei sobre o sofá. Giovanni sabia de tudo, não haviam razões para que eu inventasse uma desculpa ou mentisse para ele, nem valeria o esforço mental.
- O que você quer que eu diga? – Perguntei, jogando a cabeça para trás, encarando o teto.
- Quando você vai contar ao ?

Ergui o corpo e arregalei os olhos.
- Enlouqueceu? Não vou contar a ninguém! Nem você!
- Pretende fazer isso, então? Ter um caso? – Giovanni inclinou-se para frente e sacudiu a cabeça negativamente. – Olha, eu gosto do , mesmo. Ele é incrível e eu apoio vocês dois juntos, mas também apoio . Ele é o cara mais tranquilo que eu conheço e como um cunhado amoroso e irmão preocupado, acho que você devia contar a verdade. Se separar, resolver a vida.
- Eu não estou tendo um caso com , Giovanni. – Declarei chateada.
- Não? – Ele uniu as sobrancelhas confuso. - Como? Mas...por que não?
- Porque aparentemente, ser madura e responsável tem a ver com deixar, abrir mão de coisas que me fazem feliz, do que eu realmente quero fazer para facilitar a vida dos outros. – Desabafei. – Para continuar servindo, para manter todos com suas necessidades sanadas e com seu estado de paz em segurança. Não importa a qual preço para mim.
- Não estou entendendo.
- Eu só...- Levantei-me, ainda mais enlutada pelo meu destino. – Só estou cansada de existir. De me sacrificar em silêncio. De fechar a porta para tudo que eu sempre quis, porque algumas vidas podem ser atingidas no caminho.
- ? Você está falando do seu marido e do seu filho. – Giovanni repreendeu empático. – Não se importa com eles?
- Com eles eu me importo. – Dei de ombros. – Só não sei quem ficou responsável por se importar comigo.


🍁


Era quinta, o ano novo estava perto e nós abriríamos o Eau de Mer, mas encerraríamos as atividades mais cedo, depois comemoraríamos o ano novo com nossas famílias. Os iriam para a casa de Giovanni, perto do centro, ver os fogos e as pessoas, ouvir os shows a distância enquanto bebíamos. Todos estavam se esforçando para parecer animados em passar a virada no centro em um apartamento pequeno demais para comportar toda nossa família barulhenta. Não iriamos ficar com a família de , porque segundo ele, já haviam sido muitas festas com a família , muito além do recomendado.
No Eau de Mer, as coisas iam plenas e douradas, muitas reservas para todos os dias, compras chegando, visitas de fornecedores. A cozinha estava lotada e o salão todo dia era redecorado com flores frescas da estação, apesar do frio que acabava com parte da essência praiana do restaurante, as flores, o cheiro de mar e as toalhas brancas quentes devolviam certo conforto e aconchego.
Enquanto me distraía da súbita vontade de falar com Dom que me ocorrera de repente e que não havia conseguido sanar, mesmo com três ligações e várias mensagens em sua caixa postal, tentava me concentrar em nosso estoque. Na despensa e em todos itens que precisariam ser repostos para o feriado.
- Chocolate, acho que temos o suficiente para o ano novo. Mas estou com medo de não recebermos o foie gras a tempo. – Falei enquanto Charles anotava.
- Você sempre cuidou dessas coisas tão de perto em todos seus restaurantes? – Ele quis saber, sempre atento e curioso com minha carreira na cidade grande.
- Sempre. Mas comecei picando legumes e lavando louça, limpando o chão, só tive acesso a isso muito tempo depois. – Contei saudosa. – Tive um professor...um chef que me ensinou tudo. Minha mãe. – Charles riu surpreso. – Ela ia ao mercado e passava horas analisando cada coisa, lendo rótulos, escolhendo as verduras e legumes. Às vezes até plantava os próprios, só para garantir a qualidade.
- Por essa eu não esperava. – Ele riu.
- Eu aprendi tudo que sei sobre culinária italiana com minha mãe, apenas refinei e aprendi os termos gastronômicos corretos na faculdade. – Pisquei. – Quando pude tomar conta dessa parte, já estava pra lá de formada.
- Você não pensou em abrir um francês em Nova York?
- Não. – Confessei, me afastando da despensa e aproximando-me dele. – Não, não sabia que queria um francês até chegar aqui. Sabe, Charles...as vezes a vida pode ser bem surpreendente. – Sorri e Charles fez o mesmo. – Você continua? Quero tentar ligar para o meu filho de novo.

Charles assentiu e eu me afastei um pouco, apoiando o celular no ombro, tentando falar com Dom pela quarta vez no dia, sem resposta.
- Que droga. – Resmunguei finalizando a ligação antes que caísse na caixa postal de novo. – Por que os filhos nunca atendem as ligações dos pais?

Charles riu nasalado, balançando a cabeça e ajeitando a bandana preta que afastava os cabelos castanhos dos olhos.
- Ele deve estar jogando alguma coisa, dormindo. Não precisa se preocupar. – Disse ele. – Está de férias. Quando eu era adolescente e estava de férias, não queria ficar no telefone com a minha mãe.
- Quando você era adolescente? – Ironizei, fazendo piada com a pouca idade dele, que rolou os olhos e depois sorriu.

Sorri sem mostrar os dentes, apesar de detestar as ocasiões onde Dom decidia simplesmente não atender o telefone, precisava ser prática. Pelo horário, devia estar em casa dormindo, nada para se preocupar. Mas ser mãe tinha daquelas coisas, decidir de repente e sem qualquer explicação que precisa ouvir a voz do filho, sem justificativa plausível, só porque seu coração quer. O tão famoso sexto sentido de mãe era realmente algo misterioso e inexplicável. Era ele agora que me infernizava, me incomodando como uma roupa apertada demais ou um sapato de um número a menos em um pé com bolhas.
- Quero garantias de que não vamos ter o mesmo problema que no natal, com fornecedor de aves. – Lembrei Charles, voltando para perto dele. – Eu gostei desse novo, queria que você me apresentasse, conhecer o espaço deles, essas coisas...
Peter, nosso maitrê, se juntou a nós com sua expressão pacífica de sempre e se aproximou de mim, me interrompendo educadamente.
- Seu esposo ligou, disse que não consegue falar com você no celular.
- E o que ele quer? – O olhei de soslaio.
- Pediu para avisar que Dom sofreu um pequeno acidente e o levaram para o hospital. Ele está enrolado e não vai conseguir acompanha-lo, perguntou se poderia.

Eu sabia.
Coração de mãe não se engana nunca, sabia desde o início que algo estava errado. Não fui capaz sequer de esperar Peter terminar sua frase, ouvi o resto da informação enquanto pegava minha bolsa e corria para a porta dos fundos, rumo ao carro. De longe, ouvi Charles e os outros pedindo para que mandasse notícias, mandaria se me lembrasse, mas no momento tudo que importava era encontrar meu filho e descobrir o que droga havia acontecido, se ele estava bem, onde estava e como tinha se acidentado. Queria saber porque soubera antes de mim, eu era a mãe, devia ter ficado sabendo primeiro, o que estava acontecendo com o mundo?
Mas nada daquilo era importante, a única coisa que conseguia ver ou querer ver era a entrada do hospital, e para lá me direcionei, sem me importar com mais nada. Tirando a dólmã e a jogando dentro do carro, afogada em ansiedade e medo.

🍁


Depois de atravessar a cidade e o hospital como um furacão, enfim encontrei Dom sentado sobre uma maca em um dos quartos do hospital. Estava cega de preocupação, e mesmo o enxergando ali, com um sorriso leve no rosto, corado e acordado, não parecia o suficiente para acalmar meu coração.
- Meu menino. – Disse o abraçando apertado, ignorando uma figura de jaleco que assistia a cena de dentro do quarto. Voltando a sentir o chão sob meus pés, como se em ter Dom em meus braços, quente e vivo me trouxesse de novo a vida, a realidade.
- Tudo bem, mãe. Eu estou bem. – Dom tentou me acalmar afastando o rosto do aperto de meus braços. – Tá tudo bem.
- Tem certeza? – Perguntei segurando seu rosto e analisando todo pedacinho dele que meus olhos podiam tocar. – Mas se não fosse nada importante, você não viria para cá. – Completei, o abraçando de novo.
- Não há com o que se preocupar, senhora . – A figura com jaleco se pronunciou com um sorriso. – Sou a doutora Dubeux. – Ela se apresentou, esticando a mão e eu apertei, ainda mantendo Dom próximo a mim.
- O que houve? Não precisa me esconder nada, pode falar a verdade. – Pedi nervosa e ela sorriu.
- Não foi nada sério...
- Eu caí, mãe. – Dom a interrompeu. – Estava jogando futebol e caí.
- O trouxeram por precaução, mas não houve nada. – A médica continuou. – Só um galo e uma torção no punho, por isso a tala. – Explicou paciente.
- Quem te trouxe? – Eu quis saber segurando os ombros dele.
- O senhor e senhora Spilner, pais do Tyler. – Ele contou.
- O que é que você estava fazendo com Tyler Spilner sem me contar, Dominic ? – Indaguei séria, sentindo a ansiedade e preocupação se tornarem irritação.
- Bom, Dom já pode ir para casa, é só assinar os papéis de alta e registrar a saída dele, senhora . – A médica se pronunciou. – Se cuide, Dom. Boa tarde!
- Eu posso explicar. – Dom sorriu amarelo, descendo da maca e eu estreitei o olhar como nunca antes.


Ter filhos era uma loucura. Suas prioridades mudam, o que importava antes deixa de importar, como um estalo. Um dia você define sua felicidade em estar em uma viagem com amigos, conhecer lugares novos, gastar dinheiro com pequenos ou grandes luxos ou em um fim de semana romântico com alguém especial. De repente, você passar a ser a pessoa mais feliz do mundo quando vai checar o bebê durante a noite e ele ainda está respirando.
Me lembrava das outras mães dizendo sobre os desafios da maternidade, das partes boas e ruins, me lembrava de cada vez que desdenhei e disse que seria diferente. Besteira. No final, a mãe perfeita não existe, não passa de um ideal romantizado pela mídia e pela sociedade para reduzir a mulher ou colocar sobre nós outro fardo de perfeição inalcançável. O que é real e verdadeiro não são mães perfeitas, mas sim mães que fazem tudo que podem com ótimas intenções. Não se trata de ser a melhor mãe do mundo, mas a melhor mãe que se pode ser.
Amar tanto alguém teria seu lado ruim, obviamente. Não que Dom fosse um filho dos tido como ruim, era o contrário, ele era um ótimo menino, quase nunca causava problemas ou confusão. Mas mesmo assim eu ainda era capaz de me assustar com meu estado, com meus pensamentos e com minhas atitudes quando ele estava em risco ou quando eu achava isso. Perdia a lucidez, era como se um espírito se apossasse, me tornando um tipo de animal feroz e selvagem protegendo a cria. Não combinava com a imagem de chef fria e elegante que eu sempre gostei de vestir. Mas ainda assim, aquela era a melhor parte de mim.
- Você pode me explicar agora o que foi que aconteceu? – Pedi, depois me sorrir me despedindo para uma recepcionista, pronta para atravessar o hospital até a saída.
- Eu juro que não fiz nada errado. – Dom se justificou. – Tyler estava com os pais dele, visitando a casa ao lado da nossa, que está à venda. – Contou. – Enquanto eles conversavam, nós fomos jogar no quintal e eu cai quando fui receber uma bola alta demais.
- Só isso? Tem certeza? – Desconfiei e ele assentiu rápido. – E quem te trouxe até aqui?
- Os pais do Tyler. – Falou ele. – Eles não puderam ficar porque tinham um compromisso, mas ligaram para o meu pai.
- Por que não ligaram para mim? – Perguntei, parando de repente no meio do corredor e o encarando, Dom levantou os ombros.

No fundo sabia o motivo, meu último encontro com Gina não havia sido muito amistoso, não a culpava por não querer falar comigo. Repentinamente me senti mal por tudo que havia dito a ela. Gina desde sempre tentara se aproximar, ser gentil, ajudava com Dom sem que pedíssemos, foi uma amiga quando tive a ideia idiota de apimentar as coisas com . Apesar da péssima ideia ter sido dela, também foi a amiga que precisei naquela fase. Devia um pedido de desculpas, se por acaso meu orgulho me permitisse.
- Dá próxima vez, me ligue. – Ordenei, voltando a andar e Dom voltou a me seguir.
- Mãe. – Ele chamou e eu olhei em sua direção, ainda andando. – Esse é o hospital que seu amigo está?

Senti os ossos congelarem por um instante.
- Por que?
- Eu queria ver ele.
- Não hoje, estou cheia de trabalho no restaurante e além disso, nós já viemos aqui no natal. Não quero aborrecer o com muitas visitas, em outro momento talvez. – Comecei a me justificar, falando rápido demais.
- Mas eu não estava. Por que vocês não me chamaram?
- Você estava com o vovô e a vovó. – Respondi.
- Por que eu não posso ir? – Dom parou no meio do corredor, era definitivamente um péssimo momento para fazer birra.
- Dom. Por favor, não insista nisso, já disse a você que temos que ir. – Sibilei.
- É rapidinho. – Dom sorriu.

Não estava em meus planos ver novamente tão cedo, nem o apresentar a Dom. Naquela tarde havia até mesmo esquecido que ele estava no mesmo hospital e estava feliz por isso. Não precisava de Dom insistindo sem razão para conhece-lo.
- Dom, hoje eu realmente preciso voltar logo. Mas posso trazer você outro dia, okay? – Propus, mas antes de Dom responder, algo chamou minha atenção, me fazendo tirar os olhos de meu filho.
- ! – Matt acenou animado, parecendo um parente que te encontra depois de vinte anos em um aeroporto.
- Matt. – Cumprimentei sem muita empolgação.
- Quem é vivo sempre aparece, não é? – Matt me abraçou, mesmo sem correspondência. – Como você está? E quem é esse carinha? – Perguntou apontando para Dom. – Não. Não me diga que ele é o seu filho. – Matt gargalhou batendo no ombro de Dom. – Caramba, você é idêntico ao seu tio, não é? Caramba! Sua mãe...eu tenho várias histórias...
- Querido, este é Matt Shay. Um amigo dos tempos da escola. – Apresentei sem jeito.
- Dom. – Ele estendeu a mão educado e eu teria ficado orgulhosa se em outra situação.
- Ai ai ai, cumpadre. – Matt imitou um espanhol péssimo. - O que foi isso aí? – Quis saber apontando para o pulso enfaixado de Dom.
- Torci jogando futebol e ainda bati a cabeça. – Dom contou orgulhoso.
- Você joga futebol? – Matt gargalhou jogando a cabeça para trás. – Sabe, eu joguei futebol na minha época. Era o melhor do time.
- Não, não era. – Falei sem pensar.
- Era sim. – Matt se defendeu.
- Não, não era. era. – Repliquei.
- , o seu amigo? – Dom perguntou para mim, animado com a conversa.
- Esse mesmo. – Matt assentiu. – Você já conhece ele? – Dom negou e antes que eu pudesse me pronunciar, Matt começou a o arrastar pelo corredor. – Vamos resolver isso então, ele vai amar te conhecer. Tenho certeza. E você também.
- Matt. – Chamei correndo atrás deles. – Eu sinto muito, mas realmente preciso ir. Trabalho, sabe?
- Ah, entendo. – Matt piscou algumas vezes. – Sinto muito, cara. – Disse, batendo no ombro de Dom, que trancou a expressão em um bico frustrado.

Dom torceu o canto da boca num tipo de sorriso frustrado e baixou o olhar. Eu mantinha os dentes apertados, apreensiva e ansiosa para ir embora, Matt encarou Dom e apertou os lábios pensativo.
– Quer saber, eu acho que tive uma ideia. – Matt sorriu comovido. – Por que você não vai e eu levo ele para casa depois?
- É, mãe. – Dom concordou sorrindo grande e eu me perguntei para onde tinham ido todo sermão sobre não aceitar caronas de estranhos.
- Vai ser bom para ver alguém diferente e eu me responsabilizo, estou de viatura e tudo. – Matt sorriu orgulhoso. – Pode ir tranquila. A mamãe ocupada aí, pode deixar com o tio legal e ir trabalhar.
- Eu não sei. – Tentei ganhar tempo para pensar em uma desculpa.
- Relaxa, . Está decidido, deixo ele em casa ou na casa dos seus pais, podemos dar um rolê de viatura também, mostrar a delegacia...se der tempo podemos até ligar para o Giovanni e tomar um suco. – Matt começou a puxar Dom para o caminho do quarto de .
- É, mãe, vai ser legal. – Dom sorriu para mim. – Você é policial? Tem uma arma de verdade? Eu posso ver? – Pediu a Matt, ignorando minha figura estática no corredor.

Não sabia se era um pesadelo se tornando realidade ou um sonho, não sabia como me sentir a respeito daquela cena e acontecimento. Dom estava indo até , mais um nó na teia complicada que minha vida havia se transformado. Como eu pretendia continuar fiel e casada com fazendo visitas mais que semanais a , apresentando ao meu filho. Não que eu estivesse sendo fiel, já o tinha beijado duas vezes, mas gostava de pensar que o esforço mais que dolorido para me manter longe serviria como penitência para me livrar desse pecado.
Estava parada, congelada em meio a um corredor movimentado, com pessoas que pareciam me atravessar. Inerte, sem saber o que fazer ou como reagir. Devia me manter firme e ir embora, confiando que Matt traria Dom são e salvo? Ou atender a minha curiosidade e ir até aquele bendito quarto para vê-lo com meu filho?
Como reagiria a Dom? Ele diria algo? Estaria curioso para conhece-lo? Dom gostaria dele? Me perguntava essas coisas e muitas outras enquanto me mantinha tão automática que quando percebi, estava há alguns metros da porta de .
A porta estava entreaberta e eu podia ouvir os risos que ecoavam, ocupando aquele canto do hospital. A risada alta e escandalosa de Matt, a gargalhada que as vezes denunciava o início ou quase da puberdade de Dom e o riso harmônio e doce dele. estava gargalhando. Dom estava gargalhando.
Tentei me aproximar, queria com todas as minhas forças ouvir o que falavam.
- Ele nunca teve altura para um quarterback. – Matt implicou com alguém.
- Isso nunca me impediu de ser melhor que você. – devolveu.
- Você e o convencido do Oliver vivem dizendo isso, mas eu fiquei dois anos a mais que os dois no time. Ninguém passava quando eu estava na linha de defesa. – Matt argumentou cheio de si.
- Você fez o último ano duas vezes, Matthew Shay. – lembrou como se fosse óbvio e eu tentei não rir alto. – É claro que esteve por mais tempo no time.
- Você jogou com tio Oliver também? – Dom quis saber.
- Não. – negou e pelo tom de sua voz, de alguma forma, soube que estava sorrindo. – Eu conheci o outro irmão, Giovanni. Ele me ajudava, estudávamos juntos, mesmo eu sendo um pouco mais velho e nos tornamos amigos. – riu e Matt o acompanhou.
- Giovanni sempre foi um Eistein. Mais inteligente que a maioria, por isso sempre estava nas turmas avançadas ou com turmas mais velhas. – Matt lembrou.
- É, uns com tanto e outros com tão pouco. – provocou e ouvi Matt resmungando.

Me aproximei um pouco mais da porta.
- Giovanni não era do time, ele gostava de outras coisas. – continuou. – Depois, por causa dele eu conheci os gêmeos. – As palavras dele fizeram meu coração esquentar. – Seu tio Oliver e sua mãe.

Fez-se silêncio.
- Eles eram diferentes do Giovanni, muito diferentes. Eram populares e descolados. – recordou e Matt concordou com uma risada. – Tinha o Ted também e a Gina. Eles andavam juntos e tinham uma mesa. Oliver não era do time nessa época, não ainda.
- Minha mãe era popular? – Dom perguntou curioso e eu balancei a cabeça, soltando um riso nasalado.
- Sua mãe? – riu também, parecia saudoso. – Sua mãe era super popular. Ela era confiante, inteligente, os professores gostavam dela, os alunos gostavam dela. Todo mundo queria estar por perto.
- Era maluquinha também. – Matt completou e eles riram.
- Vocês não andavam juntos? Você era popular, não era? Era do time. – Dom continuou investigando.
- Eu não ligava muito para essas coisas, e além disso sempre ficava com o pessoal do time e era tímido. Não gostava muito dessa atenção toda. – se explicou.
- Não acredita nele. – Matt interveio. – Ele era popular, vivia rodeado de pessoas também. Só que tinham vários grupos de populares, mas não se engane com esse aqui.
- Só tio Vanni que não era popular? – A pergunta de Dom me fez sorrir de novo.
- Ele não se dava muito bem com os irmãos, acho que não combinava. – Matt lembrou. – Mas todos o conheciam por ser muito inteligente e pelo teatro.
- Dá para ser popular com teatro? – Dom quis saber.
- Como você acha que Giovanni e conseguiam namoradas? – Matt acusou e os três riram.
- Não é bem assim, não era tão fácil. – defendeu, ainda rindo. – Por que pergunta? Não me diga que Giovanni te convenceu a entrar para o teatro também.

Fez-se silêncio novamente, Dom não respondeu e fiquei um pouco apreensiva.
- E você é bom? – perguntou docilmente.
- Eu acho que sim. Eu gosto, mas as vezes tenho vergonha. – Confessou.
- Você é o quarterback, é um cara durão. É de Nova York e Paradise é uma cidade pequena, com certeza todos devem ficar morrendo de medo de você. – falou com delicadeza. – Qual é, você quase veio da Broadway.
- É isso aí! – Matt concordou. – Se alguém implicar com você, chama a galera do time.

Os três riram e eu sorri, feliz e aquecida. Dom parecia à vontade com eles, estavam se divertindo e tranquilos. Talvez aquele fosse o super poder de , fazer com que todos se sentissem a vontade ao seu lado.
- . – chamou e eu me inclinei um pouco para mais perto da porta. – Como o filho do cara dos búfalos acaba no time de futebol e não hockey? – Indagou e eu pude sentir a acidez ocupar todo ambiente.
- Não tem hockey na escola. – Dom deu de ombros. - Ele queria que eu fosse parte da equipe de natação, mas não gosto. Às vezes ele joga futebol comigo, as vezes jogamos hockey também.
- Espera aí, você conhece o marido da ? – Matt perguntou confuso.
- É, a gente se esbarrou. – não deu muita atenção a pergunta. – E você gosta mais de futebol, não é? Aposto.

. Onde você pretende chegar? Perguntei junto a meus neurônios, baixando a cabeça e começando a me preocupar.
- Não, eu gosto dos dois. – Dom respondeu com simplicidade. – Mas gosto mais do teatro, eu acho.

Matt riu entredentes e fez silêncio.
- Olá, . – disse de repente, me fazendo arregalar os olhos e levantar o rosto devagar.

Me revelei, não sabia como tinha me descoberto em meu quase esconderijo, aparentemente ele estava ficando bom nisso. Devia estar com o rosto em chamas, vermelho como uma pimenta e estava morta de vergonha.
- Achei que ia embora. – Matt falou inclinando a cabeça sobre o ombro, confuso.
- É, mudança de planos. – Disse entredentes. – Não quis te dar trabalho. Já que já se conheceram, podemos ir agora?
- Mas mãe, eu ainda não andei de viatura. – Dom choramingou. – E está legal aqui.
- deve querer descansar e já está ficando tarde. – Falei, olhando em seus olhos. – Além disso, seu pai deve estar preocupado com você.
- Eu estou bem, ele pode ficar o tempo que quiser. – pôs lenha e eu o ignorei, estava evitando olha-lo desde que entrei no quarto.
- E você também precisa descansar, foi um baita susto hoje. – Continuei e estiquei a mão, bagunçando os cabelos de Dom.
- Mas está divertido aqui, mãe. – Tentou argumentar.
- Sua mãe tem razão, Dom. – disse depois de um longo suspiro. – Vou continuar aqui, pode vir me visitar quando quiser, fazendo companhia a sua mãe. – sugeriu e eu apertei os lábios, ainda sem encará-lo. – Na próxima te conto algumas histórias sobre o treinador, o que acha?
- Sim. – Dom riu, aproximando-se de e o cumprimentando.
- Vamos, querido. – O chamei.
- Quer ver a viatura antes de ir? Promessa é dívida. – Matt propôs e ele concordou, acenando para , que assentiu depois que Matt sussurrou um “já volto”.
- Tchau, . – Disse sem olha-lo e lhe dei as costas.
- . – Ele chamou, com o tom um pouco mais firme.

Congelei mais uma vez.

🎵 Dê play na música e deixe tocar durante toda cena. Aquilo - Silhouette🎵


- Por favor, . – tornou a falar.
- Podem ir na frente, alcanço vocês. – Sorri leve para Dom e Matt, que seguiram seus caminhos.

Stood at the cold face, stood with our backs to the sun. I can remember being nothing but fearless and young
Ficamos no lado frio, parados com nossas costas para o sol. Posso lembrar-me de ser nada além de destemido e jovem



- Achei que tínhamos um combinado sobre não fazer isso, não de novo. – apontou com um pouco de chateação na voz, enquanto eu ainda estava de costas. – Pode pelo menos olhar para mim? Por favor.
- O que você pretende com isso? – Indaguei girando em meu próprio eixo e me aproximando dele, para que pudesse falar baixo e não correr o risco de ser ouvida.
- Não sei do que está falando. – uniu as sobrancelhas, diminuindo o olhar e levantou o queixo, como se estivesse confuso.
- Mas eu sei. – Acusei. – Falar para que meu filho me acompanhe nas visitas?
- É pecado querer que você me visite?
- O que você está fazendo, ? – Perguntei, depois de expirar pesadamente e balançar a cabeça.

We’ve become echoes, but echoes, they fade away, We've fallen to the dark as we dive under the waves (I heard you say)
Nos tornamos como ecos, mas ecos desaparecem, caímos no escuro enquanto mergulhamos sob as ondas (Eu ouvi você dizer)



- Você não levou a sério quando disse que ia estar aqui? Que não ia desistir? – inclinou-se um pouco em minha direção.

Me permiti observá-lo, tinha os cabelos recém cortados, cheirava a sabonete e a barba estava feita. Usava um moletom escuro e parecia saudável, corado e com olhos atentos e alerta.
- Não pretendo usar seu filho, se é isso que te preocupa. – Ele continuou. – Dom parece um bom garoto, gostei dele não só porque é seu filho. Não sou covarde a ponto de usar uma criança contra o casamento dos pais. Mas, se ele quiser me ver mais vezes e com isso eu puder ver você junto...desculpe, , mas não me peça para não o incentivar.

Devil's on your shoulder, strangers in your head, as if you don’t remember, as if you can forget
O diabo está em seu ombro, estranhos em sua cabeça, como se você não lembrasse, como se pudesse esquecer



- Eu não posso estar aqui. Não posso ficar vendo você. É como se eu traísse toda vez que cruzo aquela porta. – Falei nervosa. – Não viria aqui hoje se não tivesse sido quase obrigada.
- Eu sei. – sorriu triste. – E é por isso que preciso me agarrar a qualquer chance de ter você aqui.
- Isso não vai dar certo. Para ninguém. – Me afastei o suficiente para que seu rosto sumisse de meu campo de visão. – Você os viu. Conheceu , conheceu meu filho. Agora me diga, , e seja sincero. O que você faria no meu lugar?
- Eu não posso dizer isso, não sou você. – afastou a manta que o cobria e se arrastou para mais perto de mim. – Não dá para mudar o passado, mas por isso se torna justo condenar o futuro?

It’s only been a moment, it’s only been a lifetime, but tonight you’re a stranger, some silhouette
Foi apenas um momento, foi apenas uma vida, mas esta noite você é um estranho, apenas uma silhueta



- Se fosse eu, há quinze anos atrás te pedindo a mesma coisa. Deixaria Sarah por mim? – Indaguei.

não respondeu de pronto, pareceu pensar, abriu a boca algumas vezes e depois baixou a cabeça.
- Você acha que eu estou fazendo isso porque...porque a Sarah...- Ele não continuou.
- Se tudo estivesse bem, talvez não teríamos essa conversa...talvez nunca teríamos conversa alguma. – Desabafei.
- Ou talvez nos encontrássemos no estacionamento da escola, no mercado ou no seu restaurante. – continuou, ainda de cabeça baixa. – E tudo mudaria, como mudou quando você entrou aqui pela primeira vez.
- Existem muitos talvez e se nessa conversa.
- Você está com medo, é compreensível...- começou a argumentar, mas eu o interrompi.
- Medo? – Ri sem humor. – É simplificar demais.
- Então é isso? – Questionou sem me olhar, parecendo ter entendido o que eu, apesar de dizer, não queria aceitar.
Suspiramos pesadamente, juntos.
- Você escolheu. – Ele entendeu. – Você está me dizendo que já escolheu? - Perguntou.
- Eu aprendi que certas escolhas não têm volta. – Falei, estava certa de que aquela era mais uma vez a escolha certa. – Fiz essa escolha quinze anos atrás, não podia prever o que aconteceria. Não posso voltar atrás hoje.
- Você pode fazer outra escolha agora, nada é permanente. – Ele argumentou.
- A aliança no meu dedo e um garoto me esperando lá em baixo dizem que não.
- E é isso? Mais uma vez... – Fora a vez de rir sem qualquer traço de humor, um riso frio que me fez gelar a alma e arrepiar a nuca. – Agora seria a hora que você se explica e diz que apesar do que sente, precisa fazer uma escolha que julga ser altruísta. Você vai embora e eu fico aqui pensando o que podia ter feito de diferente, remoendo o último ano e rezando para que essa doença apague minha memória ou me mate de vez. Sofrendo como um cachorro, sem nem mesmo entender porquê. Visitando cada momento, analisando, tentando imaginar formar de consertar...se ao menos eu pudesse ir até ela...se eu pudesse contar como me sinto...se tivesse a chance...- Ele riu mais uma vez. – Aparentemente nada adiantaria, não é?

Mordi a boca e respirei fundo, não queria chorar mais uma vez.

Let's go out in flames, so everyone knows who we are. 'Cause these city walls never knew that we'd make it this far. We've become echoes, but echoes are fading away. So, let's dance like two shadows, burning out a glory day
Vamos terminar espetacularmente, para que todos saibam quem somos. Porque os muros dessa cidade nunca souberam que chegaríamos tão longe. Nos tornamos como ecos, mas ecos estão desaparecendo. Então, vamos dançar como duas sombras, aproveitando um dia de glória



- Da outra vez pelo menos tudo fazia mais sentido, dessa vez você mal pode olhar para mim, não é? O que é, ? O que te impede? A culpa ou vergonha?

Não respondi, estava concentrada demais em me manter estável, sem choro. Não conseguiria explicar o caos para Matt ou Dom. A raiva de era justa e eu me achava uma pária, a pior pessoa do mundo por provocar aquilo, merecia a raiva dele, a mágoa. Se alguém merecia ser punido por tudo aquilo, era eu.
- Mas...- hesitou. – Eu não vou implorar de novo. Dessa vez não. – Ele sacudiu a cabeça negativamente. – Também estou cansado. Não quero ser...você fez sua escolha e embora eu tenha dito que iria brigar por você, me referi a brigar com . Não quero ser o homem a te convencer de algo que não queira. Não quero esse lugar, não era o lugar que achei que tivesse, de qualquer modo.


Devil's on your shoulder, strangers in your head. As if you don’t remember, as if you can forget. It’s only been a moment, it’s only been a lifetime, but tonight you’re a stranger, some silhouette
O diabo está em seu ombro, estranhos em sua cabeça. Como se você não lembrasse, como se pudesse esquecer. Foi apenas um momento, foi apenas uma vida, mas esta noite você é um estranho, apenas uma silhueta



voltou a sua posição inicial no leito e apoiou a cabeça nos travesseiros, fechando os olhos e eu pude encara-lo de novo.
- Dessa vez eu não vou implorar, nem pedir que volte ou fique. Não faz sentido. – Declarou. – Não quero ser a pessoa a tornar isso tudo pior. Não precisa voltar, . Também não precisa ficar.

Era merecido, mais que merecido. Mas sentir a dor na voz de me matava, sentir a tristeza, ver seu estado, seu queixo tremendo quando ele tentava segurar o choro, a voz embargada e tudo por minha culpa. Estava sendo estraçalhada.
- Na verdade, eu até prefiro que não venha. – Pediu ele. – Você vem e eu me encho de esperanças, fico imaginando um futuro, pensando em possibilidades...vendo seu rosto todos os dias quando acordo, porque preciso melhorar para você...e então você diz que apesar de gostar de mim, isso não é certo, não pode deixar a vida que tem por mim. Por nós. – Ele continuou de olhos fechados. - Fica meses longe, sem qualquer notícia ou sinal. Então quando sua vida fica tediosa demais, ou precisa de alguma reviravolta para movimentar sua rotina, vem aqui, aparece e eu...- abriu os olhos, ferido profundamente e cuspiu as palavras. – E eu estou aqui. Ansioso. Mal podendo respirar porque você chegou e enfim está comigo. Mas...o que é que eu posso fazer, não é? – O riso frio inundou o quarto de novo. - O destino...talvez seja eu o problema.

It’s only been a moment, it’s only been a lifetime, but tonight you’re a stranger, some silhouette
Foi apenas um momento, foi apenas uma vida, mas esta noite você é um estranho, apenas uma silhueta



- Eu entendi. – Me pronunciei pela primeira vez, esfregando os olhos com as costas das mãos, secando algumas lágrimas teimosas.
- Eu não quero isso. Não é o que eu quero.
- Mas tem que ser assim. - Tentei ser firme, mesmo desmoronando por dentro.

Ficamos em silêncio por alguns instantes que pareceram horas. Então assim seria, alguém sofreria e eu sem querer tinha sentenciado , um inocente que sofria por minha causa. A última pessoa que queria magoar no mundo, o homem que eu estava apaixonada. O homem que eu sempre fora apaixonada. Poupando meu casamento, meu marido e filho eu estava o entregando, sacrificando o único olhar capaz de me trazer paz e segurança, a única risada capaz de me fazer estremecer por dentro. Estava dilacerando um coração cujo as expectativas eu alimentei para depois partir, sem pensar duas vezes.
Não sabia qual era a sensação de perder alguém próximo para a morte, nem qual era a sensação de morrer, mas desconfiava que a dor que sentia adormecer meu corpo era semelhante a estas de algum modo.
- Quando você...quando passar por essa porta hoje...vou me esforçar para esquecer que tudo isso aconteceu. – Alertou ele, com certa expectativa no olhar.- Então se por acaso você não tem certeza ou se...só me diga. Eu só preciso de uma palavra sua. Uma palavra sua ou eu vou ter que descobrir um jeito de te arrancar de mim.
- Eu espero que consiga.

Disse e fui embora. Sem vida.

But tonight you’re a stranger, some silhouette
Mas esta noite você é um estranho, apenas uma silhueta





10

Trinta minutos para meia-noite.
Estava debruçada no parapeito, encarando a noite, ouvindo os sons das muitas festas de réveillon se misturarem em um eco sem sentido. Tinha bebido algumas taças de vinho e estava sozinha, Dom brincava com alguém na sala e estava junto dos outros, comendo e rindo de alguma piada boba. Oliver, magicamente estava de volta. Havia aparecido de surpresa algumas horas antes, com a pele queimada de sol e uma barba digna de um viking antigo, usando dreadlocks que chegavam até quase sua cintura.
As histórias de meu irmão gêmeo pareceram providenciais para distrair a família da minha apatia crônica, todas as atenções estavam voltadas a Oliver e eu podia desaparecer de tempos em tempos sem precisar me explicar. Depois da montanha-russa de emoções que foram os dias desde o natal, não sentia nada. Absolutamente. Eu era um vazio sem sentido, início ou fim. Me lembrava todos os dias das palavras de , de sua voz embargada e de sua expressão triste e decepcionada e morria todos os dias por isso.
Fora tudo muito rápido, em um encontro estávamos dizendo de nossos sentimentos e prometera lutar por mim, para que no encontro seguinte eu destruísse todos seus planos. A sensação que tinha sobre e eu era de que tudo era ao mesmo tempo rápido e lento demais. Como uma história escrita sem pausas, não havia um espaço de tempo em que tivéssemos aproveitado o tempo de paz entre nós. Aproveitado a possibilidade de enfim ouvir sua voz, conversar, coisas simples e que sempre nos foram tomadas.
- Sabia que já é dois mil e quinze em algum lugar no mundo? – Oliver surgiu de repente, deixando um dos braços sobre meu ombro e falando perto o suficiente do meu rosto para que eu me sentisse incomodada com seu hálito.
- Quando foi a última vez que você foi ao dentista? – Indaguei, tentando empurrá-lo.
- E quando foi que você se esqueceu o que é uma festa? – Ele devolveu sorrindo, bêbado.
- Quem esqueceu o que com quem? – Giovanni se aproximou de nós, trazendo duas taças de vinho, uma para ele e outra para Oliver.
- Vocês precisam me atualizar. – Oliver pediu, apoiando as costas no parapeito e erguendo um dos dedos, chamando atenção. – De zero a dez, sendo zero a participando de piqueniques no parque e dez, se mudando para outro planeta e recomeçando a vida outra vez. Onde estamos?
- Onze. – Giovanni ergueu a taça em minha direção, sorrindo e eu franzi o cenho.
- Oi? – Estava começando a perder a paciência com aquele tipo de brincadeira idiota. – Sinceramente...
- , escuta. – Giovanni inclinou-se para mais perto, também estava bêbado e os cabelos já estavam desordenados. – Amanhã vamos ao hospital ver o , pode ir com a gente e não precisa fugir como da última vez.
- Giovanni! – O repreendi, mas percebi pelo vinco entre as sobrancelhas de Oliver que ele havia escutado e que era tarde demais.
- Você fugiu para ver ? ...- Oliver riu alto, jogando a cabeça para trás. – Que malandra.
- Não é bem assim. – Tentei me justificar, balançando a cabeça negativamente. – Foi uma visita de cortesia.
- No meio da noite de natal. – Giovanni continuou a me entregar. – Chegou só pela manhã. De fininho.
- Obrigada, Giovanni! Sinceramente. Muito. Obrigada. – Ralhei irada, apertando os dentes e tentei me afastar dos dois, mas Oliver me seguiu.
- Você está tendo um caso?
- Não, Oliver. Não. – Neguei sem olhá-lo, ocupando outro canto da varanda, dando as costas para os dois.
- Por causa do e Dom. – Giovanni explicou a ele, tentando falar baixo e eu tentei controlar minhas emoções, se demonstrasse qualquer pedaço da raiva que sentia por Giovanni estar contando tudo a Oliver, outros poderiam descobrir também.
- Ah...Então é isso. Por isso está tão amarga. – Oliver percebeu e eu voltei-me para eles, girando em meu próprio eixo e o encarando, sentindo um olho piscar de forma involuntária.
- Não estou amarga. Você não pode falar do que não sabe.
- Claro que está. – Oliver apontou, sorrindo. – Você vive amarga, . É seu estado natural. – Aquilo me feriu de modo inesperado. Abri a boca, tentando dizer qualquer coisa que tivesse potencial de feri-lo na mesma proporção, mas não pude.

No instante seguinte todos se amontoaram na varanda, juntando-se ao trio de irmãos, estava começando a contagem regressiva. Com os olhos ainda presos as írises azuis de Oliver, ferida e chocada por estar ferida, ouvi a contagem e depois os fogos que coloriram o céu, estática, lacônica. Amarga.
Era assim que me viam todo esse tempo?
Era assim que eu era? Amarga.
Talvez fosse, depois dos últimos meses, percebendo todas as minhas estupidezes, sabia que tinham razão. O grande problema não era eu ser alguém amarga, mas sim que todos soubessem, uma vez que eu, em minha inocente arrogância, sempre imaginei saber esconder muito bem aquele fato.
🍁


bateu sem muito jeito em minha cabeça enquanto tateava o despertador que devia estar do lado oposto e que gritava irritante, me acordando do modo mais abrupto possível. Ele resmungou contra o travesseiro, depois ergueu o rosto em minha direção.
- Você está acordada?
- Não se você me deixasse dormir. – Resmunguei enquanto me virava de costas para ele.
- São dez horas. – constatou com voz de sono. – Eu acho que bebi demais. Nunca dormi até tão tarde desde que sai da adolescência.
- Então levante e vá fazer o café, ainda tenho pelo menos duas horas de sono. – Falei, cobrindo o rosto com o cobertor.
- Acho que você devia se levantar também. – sugeriu enquanto se arrastava para fora da cama e abria as cortinas de uma vez, iluminando o quarto por inteiro.
- Por que você me odeia?
- É ano novo, . – Ele sorriu e ao contornar a cama, dirigindo-se ao banheiro, inclinou-se sobre mim e beijou minha testa. – É feriado.

Puxei o coberto mais para cima e xinguei mentalmente todas as gerações por terem criado . Poucas coisas tiravam meu humor como acordar cedo ou não dormir ao menos oito horas de sono. Na noite anterior, depois da queima de fogos, resolveu que seria o dia em que ficaria o mais bêbado possível e depois de duas garrafas de vinho, apagou no sofá. O transito no centro estava péssimo e gastamos duas horas a mais para chegar em casa. Eu estava cansada, com sono e com uma suave ressaca pela noite anterior, enquanto cantarolava uma música qualquer durante o banho do modo mais desafinado possível.
- Me convidaram para uma partida de hóquei no gelo hoje, mais tarde. – contou e eu afastei o cobertor dos olhos, passando a acompanhar seus movimentos, ainda com visão embaçada pelo choque com a claridade. – O pessoal do escritório. – Ele falava com o celular em uma das mãos, enquanto secava os cabelos com a toalha

estava com uma toalha marrom enrolada na cintura e outra sobre o ombro, o abdômen definido completamente a mostra, e o peito parecia ainda mais firme, talvez pelo frio. Demorei algum tempo contemplando a tatuagem acima do peito esquerdo, marcando a pele sobre o músculo definido. Era uma rosa dos ventos, desenhada com a delicadeza de um presidiário e que já começava a adquirir um aspecto esverdeado. Mais abaixo, do lado direito do abdômen, quatro símbolos chineses que eu sabia significar harmonia, virtude, sabedoria e moralidade. Aquela tatuagem era mais antiga, feita na faculdade de modo exagerado para esconder a quase invisível cicatriz de uma apendicite.
Quando se virou para escolher o que vestiria, meus olhos caíram sobre outra cicatriz levemente curva em sua cintura, alguns centímetros de distância do quadril. Era a herança de uma de nossas viagens, quando tivera a brilhante ideia de mergulhar para ver os corais sem qualquer proteção ou um guia.
- O que foi? – Ele sorriu ao me flagrar o analisando.
- Contemplando o que me resta de marido. – Provoquei e ele riu nasalado.
- E te resta muito. – Ele balançou a cabeça, ainda apenas de toalha e se aproximou de mim, sentando-se na beira da cama. – Foi um ano bem intenso.
- É, eu sei bem. – Sorri arregalando os olhos e ele riu de novo.
- Você mudou. – disse, esfregando minhas pernas sobre o cobertor. – Está mais aberta, mais madura, diferente.
- O que posso dizer? Acho que precisava enfrentar algumas coisas. – Dei de ombros, fingindo não estar feliz com sua validação. – Foi bom redescobrir Giovanni, meus pais, Oliver e essa cidade.
- Eu também gostei. Aprendi a amar Paradise. – sorriu com doçura e meu coração se apertou um pouco. – Estou feliz aqui, com você e Dom, com nossa família.
- É, eu também estou. – Falei, tentando afastar as memórias do último encontro com de minha mente culpada. – Aprendi a valorizar o que nós temos.
- O que nós dois temos é a melhor coisa que existe. É nossa melhor parte. – segurou minhas mãos e eu assenti. – Nós...nossa amizade e companheirismo é maior do que qualquer coisa. Você é a mulher que eu mais amo no mundo.
- Que bom. – Sorri, tentando disfarçar a culpa. – Que bom que nos amamos.
- É, esse ano foi meio confuso e nós...acho que encaramos a realidade dos fatos e eu gostei disso. É a hora de renovar nossos votos por mais um ano. – Ele brincou, beijando minha aliança e me encarando com seus belíssimos olhos azuis, capazes de deixar qualquer mulher de pernas bambas.
- Fala sério. – Rolei os olhos sorrindo.
- , aceita ser minha parceira, companheira e amiga por mais um ano maluco? – Perguntou segurando minha mão esquerda.
- Que pergunta idiota, quem aceitaria isso? – Fingi enquanto me sentava, mas depois sorri fraco. – Eu assinei um contrato. – Pisquei. – Eu aceito, Pertenço a você até que me mande embora, ou que você faleça. – Pisquei, implicando e ele sorriu grande, enquanto eu ignorava o peso invisível daquelas palavras.
- Então temos um pacto. – Ele sorriu, beijou minha mão e depois selou nossos lábios rapidamente.

Continuei com um sorriso manso nos lábios enquanto se afastava cantarolando, para se vestir. Me corroía a hipótese de contar a ele sobre , sobre minha traição e sobre minhas dúvidas. Mas agora, já não havia qualquer sentido em fazer isso, não existia mais a possibilidade de estar com , de escolhe-lo. Minha escolha estava feita e se não fosse , não seriam mais ninguém.
Não era como se eu estivesse com um grande prejuízo. Estava bem com , éramos felizes, parceiros. Ele era um homem inteligente e absolutamente atraente, poderia me esforçar para aproveitar mais década ao seu lado. Talvez precisasse aceitar aquela vida e deixar de me lamentar, esquecer para não ser sempre presa e torturada por lembranças que nunca poderiam ser revividas. O sorriso de direcionado a mim e por minha causa, suas piadas, seus olhares, seu toque, seu beijo. Tudo que eu mais queria no mundo e que conscientemente havia negado. Era como se meu maior desejo tivesse se realizado e eu não desse a mínima.
As palavras de Oliver também ecoavam em minha cabeça. Amarga. Talvez eu realmente fosse ou estivesse me tornando uma pessoa amarga, mas quem era ele ou qualquer um para me julgar. Estava sofrendo muito e em silêncio, sem o benefício de sequer desabafar com alguém. Só uma pessoa poderia me julgar, e infelizmente eu já conhecia seus pensamentos sobre mim.
Mas não podia deixar que isso respingasse em mais alguém, ou me tornar a que partira de Paradise anos atrás. Tinha feito uma escolha e precisava lidar com as consequências dela, feliz ou infelizmente. merecia uma esposa agradável, Dom uma mãe devotada, meu restaurante uma chef profissional e a minha família merecia uma ao menos um pouco mais gentil.
- Pensei em levar Dom ao jogo comigo. – gritou do banheiro. – O que acha?
- Ele vai gostar. – Concordei, levantando-me devagar.
- Preciso evitar que ele se esqueça do hóquei. – riu. – Principalmente se estiver convivendo com pessoas como seu amigo .

Congelei onde estava, sentindo meu sangue coagular por inteiro de uma só vez.
- Ele precisa de boas influencias, isso sim. – continuou. – Aliás, como ele está? Já está pronto para aquela aposta? – Ele quis saber, colocando a cabeça para fora do banheiro e me encarando com olhar doce e expressão leve.
- Eu não sei. – Respondi rápido, assustada e franziu o cenho.
- Como assim?
- Não o tenho visto. – Confessei marmorizada.
- Mas...- hesitou, apoiando o ombro no batente da porta. – Há alguns meses você mal ficava em casa, viva no hospital e agora que ele parece melhorar, você não tem ido mais?

Dei de ombros, fingindo indiferença e fiquei de costas para ele, daquele modo conseguiria disfarçar melhor caso minha expressão me traísse.
- Aconteceu alguma coisa? – Ele se aproximou, mudando o tom suave para um mais severo, inquisitivo e preocupado. – Por acaso ele disse algo a você? Algo que te ofendeu? Porque se for isso...
- Não, . Não. – Respondi firme, erguendo uma mão e o encarando. – Só estou ocupada. Tenho meu restaurante, você e o Dom, minha família e várias outras coisas. Não posso passar tardes papeando no hospital. Nada é mais como antes.
- Tudo bem. – assentiu com suavidade e expirou com calma. – Tudo bem, se é assim, tudo bem.

🍁


Depois do almoço, foi para seu jogo de hóquei levando Dom consigo. Minha cabeça estava tão culpada e pesada que já nem conseguia entender o que realmente me afetava e o que só causava efeito pela consciência pesada. Desde o natal tudo que antes era confusão, parecia mais claro. A escolha estava feita e não havia mais como voltar atrás e talvez fosse por isso que minha infelicidade me angustiava tanto.
Amava e em momento algum aquilo foi uma mentira, sabia que ele me amava também e me apoiaria sempre. Perceber seu corpo, relembrar das cicatrizes e das tatuagens me mostravam que aquele homem me era querido e que apesar dos apesares, me atraía de alguma forma. Amava nossas histórias, poderia contar cada uma delas por horas sem me cansar, amava seu jeito despreocupado e centrado ao mesmo tempo. Me encantava com sua aptidão para coisas naturais e esportes e, sabia, que se precisasse de conselhos sobre mercado financeiro e academia, polo aquático ou pesca, ele era a pessoa certa. Éramos íntimos, conhecíamos o corpo um do outro, os gostos e desgostos, conhecíamos feridas antigas, traumas. Só eu sabia de seu terrível pavor de esquilos e só sabia das minhas teorias mais bizarras sobre o mundo e de como eu odiava estar na presença da maioria das pessoas.
E tudo sempre me trazia a mesma questão, por que eu não podia estar feliz ao lado dele?
Por que não podia ficar satisfeita? Feliz?
era o homem dos sonhos de qualquer mulher heterossexual, e isso fazia com que eu me sentisse ainda pior. Era como se não ficasse satisfeita nem com o melhor, como se eu fosse a pior das ingratas. Talvez fosse mesmo. Será que aquilo só acontecia comigo? Ter alguém perfeito por perto, mas se sentir incapaz de se apaixonar?
Não pude continuar em minha sessão de auto piedade, a campainha estridente fez minha cabeça doer e me incomodou a ponto de fingir não estar em casa deixar de ser uma opção segura. Felizmente, de modo rápido pude por fim naquele barulho horroroso e quando a porta foi aberta, revelou um Oliver mais limpo, menos bêbado e barbeado, com olhar ansioso e que sorria apertando os lábios.
- Oi, . – Ele cumprimentou incerto.
- Oi. – Respondi e Oliver me abraçou de modo repentino, em sufocando um pouco.
- É bom de te ver, estava com saudades. – Oliver sussurrou contra meu ombro.
- Passamos a noite juntos, Oliver.
- Eu sei. Eu sei. – Ele balançou a cabeça, afastando-se. – Mas eu estava bêbado demais para dizer isso.
- O que aconteceu? O que está fazendo aqui? – Quis saber eu, enquanto abraçava meu próprio corpo por causa de uma rajada repentina de vento frio que nos atingiu.
- Eu vim me desculpar. – Disse ele e eu uni as sobrancelhas, confusa. – Sobre ontem. Giovanni me contou o que aconteceu e eu...não quis dizer aquilo. Não quero começar um ano com essa energia ruim entre nós. – Eu expirei um riso sem humor e balancei a cabeça negativamente. – Olha, eu sei que não sou um cidadão modelo, só bebi um pouco e falei coisas sem filtro.
- Tudo bem, Oliver. – Assenti uma vez.
- É isso? Vai me perdoar tão fácil? Não vai nem me chamar para entrar ou me contar o que realmente aconteceu enquanto eu estive fora? – Ele riu, insensível e piadista como quase sempre. Sentia falta de Giovanni nesses momentos.
- Eu não estou no clima de receber visitas, nem de falar sobre essas coisas. – Confessei desviando o olhar.
- E é por isso que vou ficar. – Meu irmão sorriu grande e passou pelo pequeno espaço entre eu e a porta. – e Dom estão em casa?
- Não. – Respondi chocada, ainda estagnada na porta de entrada.
- Me diga, quando é que isso começou exatamente? – Oliver começou a perguntar, depois se jogou em um dos meus sofás, cruzando as pernas e apoiando as mãos atrás da cabeça.
- Não sei do que está falando. – Desconversei, me unindo a ele e sentando-me em uma das poltronas.
- Eu já sabia que você tinha uma queda pelo , mas me surpreendi com as coisas que o Vanni deixou escapar ontem. – Oliver torceu os lábios em um bico e arqueou uma sobrancelha. – Embora ele tenha se negado a repetir hoje de manhã.
- Não existe nada para ser dito, Oliver.
- Você está com a mesma vibe escura e pesada de quando voltou para Paradise no ano passado. – Ele acusou. – Essa coisa mal resolvida, essa energia pesada. Quase vejo raios e trovões também. Dá para ver no seu olhar, no seu tom de voz. – Neste momento, rolei os olhos. – Mas eu não entendo, quando chegou aqui você odiava tudo e todos, não queria ficar na cidade. Só que isso mudou, quando eu fui viajar, você estava diferente, solar e ainda um pouco melancólica, mas estava bem. O que mudou?
- Nada mudou. – Garanti firme, tentando manter a comporta da minha culpa bem fechada.
- Ah, por favor, . – Oliver rolou os olhos desta vez, depois se sentou e aproximou-se de mim. – Eu sou seu irmão gêmeo. Podemos não ser tão ligados quanto os outros gêmeos, mas eu sinto o que você sente. É como o reflexo de uma mesma pessoa dividida em dois.

O olhar de Oliver parecia ter algum poder sobre mim, como se eu não pudesse esconder nada dele. Mas ao mesmo tempo, estava extremamente segura, como se desabafasse comigo mesma, com um reflexo no espelho, como dissera ele. Depois de dois segundos com os olhos de meu irmão presos aos meus, não pude mais segurar e baixei os ombros, baixando junto todas as minhas defesas. As lágrimas começaram a rolar por meus olhos de modo descontrolado, como uma represa que se rompe, jogando água para todo lado, sem qualquer chance de ser contida.
- Caramba. – Oliver arregalou os olhos, mas logo se sensibilizou e tentou se aproximar mais para me abraçar de modo desajeitado.
- Eu estraguei tudo. Acabou. Estraguei tudo mais uma vez. – Desabafei entre soluços.
- Do que está falando? Você e ?
- Não. – Neguei com a cabeça. – Eu não pude deixa-lo...o Dom...não podia. – Tentei explicar enquanto chorava. – Não era justo.

Eu simplesmente não conseguia conter as lágrimas, conter meus sentimentos, minha culpa, minha tristeza e pesar por ter magoado justamente quem mais amava. O olhar de no final, a proteção de naquela manhã. Me perguntava por que as coisas não poderiam ser mais simples pelo menos uma vez. Não queria muito, só que não precisasse fazer aquela escolha e já a tendo feito, mesmo que de modo inconsciente, que não tivesse que sofrer tanto com aquelas consequências.
Estava infeliz, era claro.
Mas nem mesmo sabia porque estava infeliz, já não compreendia o que sentia, porque sentia ou como sentia. Meu único desejo era parar de existir por algum tempo, para não precisar pensar, decidir ou fazer nada. Como se congelada esperando o momento certo, recuperando as energias extenuadas até aquele momento.
Devagar, enquanto Oliver me afagava as costas, consegui controlar o choro e quando percebeu isso, meu irmão voou até a cozinha, voltando instantes depois com um copo de água.
- Aqui. Vai se sentir melhor. – Disse ele entregando-o a mim.
- Desculpe. – Pedi tentando recuperar o fôlego. – Acho que havia muito reprimido em mim.
- Eu imagino. – Ele me encarou com olhar cheio de compaixão e sorriu leve, apertando os lábios. – O que houve entre você e eles?

Respirei fundo e afastei o olhar, encarando todos os quatro cantos da sala, organizando os pensamentos antes de dizer qualquer coisa, e decidindo se queria dizer.
- Fiz uma escolha errada quando sai de Paradise, as consequências dela voltaram para me assombrar. – Falei por fim, secando os olhos com as costas das mãos.
- Você vai precisar ser um pouco mais clara, . – Oliver pediu.
- Tudo começou quando sai daqui há mais de quinze anos, uma sucessão de erros e fugas que não funcionaram. Você pode fugir da verdade, dos seus sentimentos, mas isso não significa que eles não vão nunca bater à porta. Que vão desaparecer.
- Você está gostando mesmo do ? – Oliver uniu as sobrancelhas, confuso.
- Sempre foi o . – Declarei, deixando que aquelas palavras tomassem vida na minha voz pela primeira vez. – E sempre será.
- Uau. – Oliver expirou espantado. – Mas, e então? Você e o se separaram? Vai contar a ele? Por isso você fugiu no natal?
- Fugi porque não consigo ficar longe do . – Me levantei, tentando organizar os fios de cabelo desgrenhados e Oliver me encarou atento. – Mas não posso me separar do . Não seria justo com ele e com Dom, fiz a minha escolha.
- Espera aí. – Meu irmão também ficou de pé, me encarando enquanto abria e fechava a boca, ainda em silêncio. – Eu fiquei confuso. Você acabou de falar que gosta de outro cara, mas divórcio não é uma opção? O que vocês vão fazer? Relacionamento aberto ou pior? Ficar em um casamento sem amor?
- Eu amo o e ele me ama, não se trata disso. – Dei-lhe as costas, encarando uma das janelas. – As escolhas já estão feitas, Oliver, não há como voltar atrás.
- Isso não te soa nem um pouco absurdo quando diz em voz alta? – Ele se aproximou de mim, segurando meus ombros com as duas mãos e olhando firmemente em meus olhos. – Você está com um homem e gostando de outro. Não acha isso um pouco errado?
- Eu vou superar. Isso vai passar.
- Irmã. – Oliver respirou mais fundo e fez uma breve pausa antes de falar. – Já se foram mais de quinze anos. – Falou com certo pesar.
- Não há mais o que ser feito, Oliver. – Neguei devagar com a cabeça. – Está feito.
- E você infeliz. Não acha que com o passar dos anos, sua infelicidade nesse casamento possa se transformar em amargura e rancor, até que você culpe de não ter escolhido ?
- Só há um culpado na história, só uma pessoa a ser odiada. Eu.

🍁


Os primeiros dias do ano foram mornos e parados, nenhuma coisa nova ou emoção inesperada. Estava de volta a rotina do restaurante, que tinha o movimento um pouco reduzido por causa das festas. Dom estava envolvido em mil planejamentos junto a Oliver e , aproveitando a neve, enquanto Giovanni e sua família passavam pequenas férias junto a família de Susan, em uma cidade chamada Westing City.
Depois do pequeno incidente de Dom, Gina e nossa amizade naufragada surgiam em minha mente com muita frequência. Principalmente quando eu buscava refúgio de outras memórias infinitamente mais dolorosas.
Por isso eu estava decidida, após uma noite cheia no restaurante, resolvi ir até a casa dela. Ainda era muito cedo, mas se fosse para a casa, desistiria da ideia e aquela não era a ideia. Precisava me desculpar, não queria ser a babaca de sempre e parte da mudança devia ser reconhecer meu erro com Gina. Ainda não entendia porque sempre me armava em sua presença, nem a razão de ser tão reativa e dura, mas aquilo já estava passando dos limites.
Quando Gina abriu a porta, depois de minhas quatro batidas, não escondeu sua surpresa e reticência.
- Oi, Gina. – Cumprimentei sem jeito.
- . O que você quer? – Perguntou sem se importar em soar ríspida.

Sorri fraco, arqueando uma sobrancelha e respirei fundo.
- Me desculpar com você. – Disse e ela se espantou.
- Estou te ouvindo. – Gina torceu os lábios e ergueu o queixo, com o mesmo olhar que devia direcionar aos filhos quando lhe contavam coisa suspeita.
- Eu fui uma babaca. Sou uma. – Admiti sem pensar muito. – Você tentou ser gentil, sempre. Ajudando com Dom e tentando se aproximar de mim. Não sei lidar com essas coisas, eu acho. Fui injusta e uma pessoa horrível, me arrependo.
- Sabe, , você nunca foi uma pessoa muito fácil de amar. – Ela devolveu e eu me encolhi. – Sempre fechada, dura, crendo que não precisava de ninguém e que podia controlar qualquer coisa. Tão concentrada no que acontecia com você que era incapaz de pensar em como outros se sentiam. E quando fazia, era só para pensar em como se sentiam sobre você. Você é uma vaca egoísta, cheia de si, que pensa que o mundo para de rodar se não for por você. – Ela acusou erguendo o dedo em minha direção.

Meus olhos estavam arregalados e ombros encolhidos, não sabia o que dizer, nem mesmo esperava aquela reação. Mas do mesmo modo surpreende que Gina tinha me atacado antes, ela simplesmente cessou. Expirou profundamente, fechou os olhos e juntou as mãos na frente do corpo.
- Pronto. Agora sim. Me sinto aliviada. – Ela disse e eu estreitei o olhar, ainda mais confusa. – Meu terapeuta diz que não posso ficar guardando tudo que penso. Uma vez que disse tudo que penso sobre você, posso aceitar seu pedido de desculpas.
- Espera. O que?
- Eu te desculpo por ser uma grande babaca, vaidosa e egoísta, . Por ser grossa, mal educada e péssima amiga.
- É me sinto até melhor agora. – Falei sarcástica, ainda chocada, encarando Gina.
- Ah, cala a boca. – Ela sorriu. – Um café? Você está com uma cara péssima.

Gina me puxou para dentro antes que pudesse responder e quando percebi, já estava em sua cozinha, sentando-me em uma cadeira alta e sendo servida com uma xícara grande de café preto. Espalhadas pela mesa estavam mamadeiras, pequenos talheres de criança e tigelas com frutas picadas. Gina também se serviu com uma grande xícara de café e se sentou de frente para mim.
- O que te fez vir aqui a essa hora? Alguém inventou que eu estava com câncer e ficou com a consciência pesada?
- Até parece que eu tenho consciência. – Rolei os olhos e ela sorriu. – Precisava agradecer por ter levado Dom ao hospital.
- já fez isso. – Contou depois de beber um pouco de seu café. – Seu marido é muito educado.
- É, ele é. – Assenti sorrindo fraco.
- E Dom? Como está?
- Bem. Oliver voltou para a cidade, ele está matando a saudade. Muitos passeios e esportes na neve.
- Não me diga que é por isso que Tyler vem me atormentado porque quer patins novos, é?
- Vamos inaugurar uma colônia de férias, em breve mais informações no blog do Oliver. – Brinquei e ela riu alto.
- E as coisas com ? – Gina quis saber e eu franzi os lábios, mas ela maneou a cabeça, como se aquilo fizesse parte do pacote das desculpas e eu não pudesse fugir de qualquer pergunta feita por ela.
- Eu desisti daquela história de apimentar as coisas. – Confessei depois de um suspiro. – Eu e somos parceiros, amigos, sempre foi bom assim e não precisamos que isso mude.
- Você provavelmente vai se levantar assim que eu perguntar, mas aqui vai. Você está feliz, ?
- O que? – Por muito pouco não coloquei para fora o café que já havia bebido. – Por que essa pergunta?
- Não me leve a mal, mas é que você fala com tão pouca emoção. Não me parece feliz. E eu digo isso de forma geral, parece uma daquelas atrizes novas, interpretando um papel sem muita verdade. – Ela se corrigiu.
- Estou bem. – Respondi encarando a xícara. – Só estou cansada. Mas você precisa se decidir, ou a mau humorada ou essa aqui. – Brinquei, tentando disfarçar o que aparentemente estava explícito demais.
- Precisamos com urgência criar uma terceira versão. – Gina riu alto e tentei acompanha-la, mesmo que fingindo. Mais uma vez.

🍁


Depois da manhã com Gina, que fora agradável e reconfortante, apesar de cansativa por precisar fingir emoções mesmo falhando significativamente. Eu havia ido para casa e dormido o sono dos justos, tomado um banho e voltando ao restaurante, apenas para conferir se tudo estaria no lugar para a folga. Era segunda-feira e eu me recusava a abrir o restaurante em segundas-feiras, minha equipe agradecia e eu também.
Os finais de semana eram fortes apesar das festas e da metade da cidade estar fora, aproveitando a neve no interior. Durante as noites geladas, o salão ficava vazio na maior parte do tempo, nós contávamos piadas e jogávamos cartas, com a equipe reduzida. Talvez fosse uma boa ideia para os negócios investir em entregas, principalmente para os dias frios. Parte de ser uma empresária era pensar sobre aquelas coisas, precisava de conselhos de sobre aquele assunto, com urgência.
Pensava nisso enquanto empurrava a porta, entrando na casa silenciosa e escura, já era noite e e Dom deviam estar jantando com meus pais ou com Oliver.
Mas o destino é galopante.
Assim que coloquei os pés para dentro de casa, a luz fraca e trêmula que escapava da sala de jatar captou minha atenção. Por alguns segundos, pensei que a casa estava em chamas e congelei no lugar. Nunca tinha sido elogiada por uma boa velocidade de reação, mas assim que meu corpo voltou a responder meus comandos, larguei a bolsa no chão e corri em direção ao fogo e assim que alcancei a sala, congelei mais uma vez.

🎵 Dê play na música e deixe tocar durante toda cena. Are You Leading Me On – Kiernan McMullan🎵


De pé, atrás de uma das cadeiras, estava . Meu marido vestia uma camiseta escura e sorria, o cabelo estava cortado e o cheiro de seu perfume ocupava o cômodo. A mesa estava arrumada, posta para dois. Iluminada por velas em meus castiçais caros que tinha muito ciúmes, haviam flores também, rosas brancas no aparador atrás de e tulipas sobre a mesa, minhas favoritas.
- Uau. – Foi só o que consegui dizer.
- Oi, . – sorriu, caminhando com firmeza em minha direção. – Estava te esperando.
- Bom saber, por um instante pensei estar invadindo o jantar de outra pessoa. – Ironizei, ainda chocada e ele riu alto.
- Eu estava refletindo sobre o nosso último ano. – começou a dizer, tocando e acariciando minha bochecha. – Foram tantas novidades, tantas questões enfrentadas. E claro, a rotina, que quase sempre é uma vilã. Eu resolvi te lembrar, ou pelo menos tentar lembrar a razão pela qual estamos aqui, mesmo depois de todo esse tempo. – Aquelas palavras foram como socos no estômago.
- , eu...- Tentei dizer, mas ele me beijou. – É sério, eu...- Hesitei. – Não mereço isso. Não mereço que faça isso, nem mereço você.
- Pssssi. , nenhum de nós é adolescente, não precisamos fingir isso. – Ele falou, tomando meu rosto em mãos e olhando com doçura em meus olhos. – Nossa relação é muito mais que só um casamento e sabemos disso, então só vamos aproveitar a viagem. Minha mãe sempre diz que nós somos traiçoeiros, por isso temos que nos lembrar sempre do porquê, para seguir em frente.
- Por que está me dizendo isso agora?
- Se lembra do nosso primeiro encontro? – Ele sorriu, se afastou e puxou uma cadeira.
- O que? O que tem a ver? – Uni as sobrancelhas, mas dirigiu a mim um olhar imperativo, pedindo para que eu me sentasse e eu obedeci.
- Depois de insistir milhões de vezes, você aceitou. Venci pelo cansaço. – Ele riu entredentes, ocupando o lugar ao meu lado.
- É. Você se matriculou no mesmo curso de verão que eu e inventou para o professor que eu era tímida e sofria de ansiedade social, e que apenas conseguiria me sentir à vontade se você fosse minha dupla nas atividades. – Lembrei.
- Eu odiava aquelas aulas. Discussões intermináveis sobre Virginia Woolf.
- Era um curso de verão sobre ela, . – Eu gargalhei.
- Você podia ter gostos mais fáceis de imitar. – Ele deu de ombros, ainda sorrindo. – Mas eu escolhi justamente a garota que tinha aula de literatura no verão e que ouvia música indie, tendo o verão de Nova York para aproveitar.
- O que? Homicídios, poluição e músicos de rua? – Ironizei.
- Não se esqueça dos pombos e dos ratos. – ergueu um dedo.
- Não é tudo a mesma coisa?

Nós dois rimos.
- Bons tempos. – suspirou, segurando minha mão.
- Meses depois eu estava grávida, dividindo um apartamento no Bronx com um labrador. – Impliquei e ele riu alto de novo.
- Se lembra da vizinha de porta, a senhora com o cachorrinho?
- A que era apaixonada por você? Sim. Como poderia esquecer dela. – Assenti. – Nunca consegui tirar da cabeça o dia em que ela bateu na nossa porta com o roupão aberto, pensando que só você estava em casa.
- Uma boa mulher. – zombou e eu belisquei sua costela. – Era boa com os animais, é o que eu quis dizer.
- E tinha o estúdio no andar de cima, lembra? Eles fumavam tanto que nos deixavam chapados apenas pela fumaça. – Lembrei saudosa.
- E claro, as crianças correndo no corredor todo domingo de manhã. – sorriu. – Aquele prédio nem mesmo tinha escadas de incêndio.
- Era um buraco. – Eu ri de novo. – E o encanamento vivia entupido. Como passamos dois anos naquele lugar?
- Pela força do dinheiro. – fez uma breve pausa e depois sorriu. – Ou a falta dele.
- Foi uma subida e tanto. Bronx para o Upper West Side, em dez anos. – Lembrei, segurando sua mão.
- Sabe que lá, as vezes eu sentia falta do Bronx? – declarou e eu riu, incrédula.
- Foi um bom pedaço de chão, mais de dez anos. – Suspirei o encarando e ele piscou.
- Foi sim.


11

Meses depois…

Um dia depois do outro.
Era isso que pensava toda manhã, o primeiro pensamento que chegava a minha mente. Só precisava sobreviver a aquele dia e então mais um seria vencido. Alguns eram piores que outros, alguns eram mais fáceis e passavam mais rápido, outros eram arrastados e insuportáveis. e eu estávamos mais unidos intelectualmente, ele e Giovanni me auxiliava com questões burocráticas e de planejamento do restaurante, por isso passávamos mais tempo juntos agora, embora não como um casal. E a vida, de todo modo, continuava a mesma.
Ele tinha seus amigos, os jogos de hockey, poker e polo e os fins de expediente em bares, e eu tinha o restaurante, minha família e agora, Gina. Estávamos próximas e conversávamos sobre muitas coisas, as vezes até tomávamos café juntas. Me distraía por algum tempo e era uma boa aquisição. Não tinha me arrependido de deixá-la entrar em minha vida, muito pelo contrário. Me flagrei algumas vezes sugerindo que ela e sua família comprassem a casa a venda ao lado da nossa, para que nossos encontros fossem facilitados.
Com exceção da questão que sempre me povoava a mente e atormentava meu coração, responsável por toda dor diária que sentia, a vida estava boa. Tinha amigos, família por perto, sucesso no trabalho e tentava me ocupar com isso, evitando que sobrasse qualquer tempo em que eu pudesse pensar sobre ELE.
Desde da última despedida, antes de dormir e durante o dia, era preciso muito esforço para não pensar em . Era vergonhoso como eu tinha ido e voltado tantas vezes, reconciliações, fugas, depois outra reconciliação e então dias depois uma promessa de nunca mais voltar, só para estar lá de novo. tinha razão, eu o estava usando como escape, como um passatempo na minha vida monótona.
Depois da nossa última e definitiva conversa, outra culpa era sempre frequente em meu cotidiano. Desde o ano novo, me torturava por ser rude, austera e ainda mais fechada com Giovanni, Oliver e todos os outros. Por estar deprimida com toda aquela situação, estava descontando nas pessoas que de algum modo me lembravam daquele problema. Giovanni ainda o visitava e era amigo dELE, Oliver constantemente fazia questão de me lembrar o quão infeliz eu estava.
Não era uma tarefa fácil simplesmente ignorar, esquecer tudo que minha mente criava. Todos os cenários e filmes criados em minha cabeça, onde eu nunca havia saído de Paradise, onde tudo era perfeito e eu feliz. Essas fantasias ainda me geravam culpa, mas nos momentos a sós, enquanto bebia vinho e fechava os olhos, sentindo o vento fresco da tarde me envolver, era o único momento em que eu vivenciava um pouco do que podia ser a felicidade plena. Fugindo para um mundo construído por minha imaginação.
Felizmente, estava tão ocupado com sua própria vida que não parecia notar a plasticidade de nosso contexto familiar. A realidade sobre a vida é que não importa o quão próximo alguém esteja, seus pais, filhos, maridos ou esposas, as pessoas só te notam no fundo do poço ou em outro universo se aquilo as afetar. Enquanto cada um consegue manter seu pequeno universo a salvo, não existe tempo a ser gasto explorando se os universos da pessoa ao lado estão indo bem. Uma multidão de pessoas angustiadamente juntas, e ao mesmo tempo, tão tristemente isoladas.
Sempre refletia sobre essas questões quando estava sozinha ou durante jantares, momentos em família. Todos tão ocupados com suas questões, com seus próprios problemas, eu poderia estar tendo um caso e ninguém notaria. Do mesmo modo que estava, nos últimos oito meses, deprimida e irritadiça e ninguém havia percebido. Mas talvez, e só talvez, todos estavam tão acostumados com meu mau humor e personalidade babaca, que já não podiam perceber diferença. De todo modo, eu tinha uma grandíssima parcela de culpa.
- Tudo certo, chef? – Charles se escorou no balcão do bar, onde eu estava sentada encarando papéis e divagando sobre as pessoas e as relações que estabelecemos.
- O que? – Franzi o cenho, tentando voltar minha atenção para o momento presente.
- As ideias. Os pratos novos no cardápio que sugerimos. – Ele apontou com o olhar para algumas folhas a minha frente, inclinando-se sobre o balcão.
- Ah. – Assenti, me lembrando de mais uma tarefa em que não conseguia me concentrar. – Eu vou fazer isso.
- Você está bem? – Charles arqueou uma sobrancelha, estreitando o olhar e me analisando.
- Estou perfeitamente bem, por que a pergunta?
- Eu e o pessoal estávamos falando. – Ele começou a dizer e eu estreitei o olhar, ameaçadoramente, mas Charles se manteve firme. – Percebemos que está desatenta, sem empolgação. Ontem você não conseguiu terminar um crème brûlée.
- Por favor, Charles. – Me coloquei de pé. Chocada e irritada com aquele assunto, se não tivesse certeza sobre ser processada, teria dado um soco em Charles. – Se lembre de duas coisas. – Rosnei erguendo a mão e mostrando a ele dois dedos. – Primeiro, eu sou . Segundo, você é o sous chef. Nada mais. Não é um restaurante barato onde se arma um complô na cozinha, boicota o chef para subir mais depressa.

Falei rápido e lhe dei as costas, mas ele continuou a falar.
- Eu sei quem você é! Todos nós sabemos! – Charles argumentou com tom mais alto. – E esse é o problema. – Eu parei de andar, girando em meu próprio eixo para encará-lo. – Viemos aqui para trabalhar com a brilhante , mas nos últimos meses parece que a substituíram por um pedaço de carne. Que aliás, talvez tivesse mais vontade de estar aqui.
- Cuidado com o que fala, Charles. – Fui em sua direção. – Ou vai terminar o dia assinando sua demissão. – Alertei, apertando os dentes, estava com raiva, acuada, traída, nervosa, tudo ao mesmo tempo.
- É assim? – Ele expirou um riso frio. – Essa é a brilhante . Tudo antes foi uma máscara esfarrapada. Até que demorou. Tudo era mentira, então? Tudo que ouvimos desde o início, sobre a razão de estarmos aqui, a importância da equipe...tudo se resume ao estrelismo de uma chef frustrada?
- O que foi que disse? – Indaguei sentindo meu corpo ser movido pela raiva, e àquela altura o salão antes vazio, já estava ocupado pela equipe.
- Você ouviu, . – Charles balançou a cabeça, agora usava seu tom normal e parecia desapontado. – Você ouviu.

Rapidamente, meus olhos alcançaram os rostos expectadores daquela cena idiota, todos pareciam ostentar olhares tão desapontados quanto os de Charles. Pela primeira vez em muito tempo, me senti desamparada naquele lugar, não me sentia parte daquilo, como se o restaurante, meu restaurante não me quisesse mais ali. Todos aqueles olhares acusadores gritavam o quanto estavam decepcionados comigo, o quanto eu os havia desapontado.
Em minha vida, poucas coisas pareciam tão estáveis quanto o Eau de Mer, mas talvez já não fosse mais assim. Só percebi que não estava respirando quando senti alguma dor, tentei inspirar, mas o ar parecia ser insuficiente. Precisava sair dali e ir para fora, respirar, sair do foco daqueles olhares duros e acusadores.
- Parece que o problema sou eu. – Desdenhei, tentando disfarçar meus reais sentimentos.

Sobre o balcão do bar, junto aos papéis que devia estar estudando, estavam minha bolsa e um avental. Sem olhar para Charles ou para qualquer um da equipe, caminhei até o balcão e peguei a bolsa e o avental. Depois, voltei-me para Charles e atirei o avental sobre ele, sem qualquer cuidado.
- Parabéns pela promoção. – Ironizei e saí pela porta da frente, o mais rápido que pude.

Precisava de ar, precisava de espaço, precisava entender que diabos tinha acabado de acontecer. Atravessei a rua em direção à praia e comecei a andar sem prestar atenção para onde ia. Tudo a minha volta era um borrão, pelo nervosismo ou pelos olhos marejados. Estava fora de controle.
Não sabia o que sentir, nem nomear o que estava se passando pela minha cabeça. Tudo parecia distante, fora do lugar, inalcançável, enquanto eu estava à deriva, tentando tocar e juntar o que me pertencia, o que me constituía como pessoa. Meu casamento, que antes de retornar para a maldita Paradise, parecia estável e confortável, agora ficava cada dia mais frio e angustiante. , que antes estava soterrado entre as dores mais profundas, agora me causava dores lancinantes por minha própria culpa. O restaurante, que devia ser um sonho, já parecia não ter espaço para mim. Não os culpava, estava sempre tão distraída com todos os acontecimentos da vida pessoal, tão irritada comigo mesma e frustrada, que todo o resto parecia não ter qualquer importância. Tudo era cinza, sem gosto, sem vida. Os meses haviam se passado como um piscar de olhos, e ao contrário do que todos diziam, o tempo não havia curado nada.
Não era justo.
Eu tinha feito a escolha certa, tinha escolhido ficar com e aquilo era o certo e justo a se fazer. Então por que é que eu ainda estava sendo punida? Por que não podia esquecer de uma vez e seguir em frente? Por que eu não tinha direito de ser feliz?
Fazer aquelas perguntas à Deus, universo, seja lá para quem, intensificou meus sentimentos, tornando impossível conter as lágrimas. Era um dia nublado e com vento forte, felizmente as ruas estavam vazias e ninguém poderia testemunhar meu colapso. Abracei meu corpo com força, tentando sentir alguma coisa que não fosse raiva ou dor, enquanto lágrimas salgadas rolavam sem qualquer controle.
Não era justo.
Não entendia porque mesmo depois de abrir mão da coisa que mais quis na vida, continuava sendo punida de forma tão cruel. Talvez fossem meus instintos, mas quando percebi, estava no píer, no final da praia. Do píer era possível enxergar as colinas verdes, salpicadas de cinza e preto, dos túmulos mais antigos do cemitério da cidade. Atrás, os restos de uma grande igreja velha, que estava em ruínas desde a minha infância. Quanto mais andava, mais distante ficava do antigo ancoradouro e da faixa de areia. O píer invadia o mar o suficiente para que no passado fosse usado para embarque e desembarque de navios grandes.
Está só ali. De um lado as colinas do cemitério, do outro o verde acinzentado do mar agitado pelo vento, criando paredes de espuma branca onde as ondas se chocavam com violência contra a estrutura de madeira do píer velho e do quebra-mar, mais afrente e quase completamente escondido pela força do oceano. Tudo era silencioso, mas ao mesmo tempo confuso e barulhento, como estava minha mente. Me aproximei das cordas bambas que no passado deviam ter servido de proteção, mas que talvez pelo trabalho das ondas, estavam agora tão úteis quanto um garfo para comer sopa.
De pé, olhando para baixo, tentava ver algum sentido em toda aquela confusão. Estava tão envergonhada pelo que acontecera no restaurante, duvidaria se em algum momento conseguiria olhar nos olhos daquelas pessoas novamente. Charles. Ele tinha razão, eu estava desatenta, não queria estar no restaurante, preferia morar em minha cama, sem ver ou falar com ninguém, e não fazia qualquer questão de esconder isso. Estava, aos poucos, destruindo tudo que havia construído. Pedra por pedra. Talvez o problema fosse eu, talvez se desde o início não tivesse feito escolhas erradas, nada daquilo teria acontecido, ninguém teria sofrido.
As ondas agitadas batiam com violência contra o píer, vez ou outra respingando sua espuma branca e gelada sobre mim. Seria fácil resolver tudo aquilo. Se caísse no mar, não teria mais dor, não teria mais que lidar com os olhares decepcionados, nem destruiria mais nada. Não causaria mais sofrimento, não teria que viver com aquele monstro insuportável que devorava aos poucos minha alma.
Nada importava. Nada mais tinha cor. Tudo ficaria melhor sem mim.
Todos sobreviveriam, não precisavam de mim em suas vidas, ninguém precisava. E também, já não importava. Nada importava. Não sentia mais nada. Só precisava dar mais um passo. Um passo e tudo estaria terminado. Terminar nos braços do oceano seria poético, um final dramático e sofrido, mas enfim era o final.
- ! – Alguém gritou e tentei ignorar. – ! Hey!

Em instantes, a mão firme de alguém se apertava ao redor do meu braço, atraindo meu olhar vazio. Era Matt.
- Não me ouviu chamar você? – Ele perguntou, mas sua voz era abafada pelo som das ondas, mal podia ouvi-lo.
Balancei a cabeça negativamente e Matt me puxou pelo braço, afastando-me da beira.
- Vem. É perigoso ficar tão perto em um dia como esses. – Alertou. – O píer balança demais, pode te jogar no mar.

Não respondi.
Matt cobriu a cabeça com o capuz de seu casaco, se protegendo do vento e me analisou, sem tentar disfarçar. Meus olhos ainda estavam no verde acinzentado do mar e no céu pesado que denunciava uma tempestade galopante.
- O que está fazendo? – Matt quis saber. – Por que está aqui?

Ergui as sobrancelhas sem muita ênfase, balançando a cabeça negativamente e devagar.
- Vamos, você está gelada. Vamos tomar um chocolate quente. – Disse ele, abraçando meu corpo e guiando-me, enquanto eu olhava para trás, para onde instantes antes teria sido minha sepultura eterna.

🍁


Estávamos sentados em uma mesa nos fundos da cafeteria, longe da porta e encostada a vidraça, que nos oferecia vista para a rua calma e para a viatura de Matt, estacionada ao lado de fora. Aquela cafeteria era onde nos reuníamos nos tempos de escola, depois das provas ou quando só queríamos passar um tempo longe dos pais. Ali aconteciam os primeiros encontros, na escola, não havia um casal sequer cujo o primeiro encontro não tivesse sido no Leo’s.
O lugar permanecia igual, o mesmo de mais de quinze anos atrás. Como uma fotografia, uma viagem ao passado. As mesas de madeira avermelhada um pouco gastas, o estofado azulado que continuava gasto pelo tempo, adotando tons brancos desgastados. O balcão com suas estufas de vidro e seus pãezinhos, bolos e rosquinhas, o cheiro de canela, embora nenhum café, bebida ou comida servidos ali levasse canela na composição. E claro, os atendentes, que em nossa adolescência já eram pessoas com mais de sessenta anos e que por obra de alguma força atemporal, continuavam ali.
Matt bebia um café puro, tentando disfarçar sua curiosidade e hesitação, olhando para mim por sobre a xícara, tentando me analisar. Enquanto eu encarava sem muito ânimo uma xícara de chá de camomila que ele havia pedido para mim.
- Você devia tomar um pouco. Vai te fazer sentir melhor. – Pediu ele.

Eu assenti e levei a xícara a boca, fingindo beber. Matt parecia preocupado, me encarando como devia encarar um suspeito em uma situação de perigo. Olhos atentos, vigilância, poderia ser um pouco assustador se já não o conhecesse e soubesse de sua natureza tranquila e gentil.
- Se lembra de quando nós vinhamos aqui? Tomar suco de limão e comer sanduíche de frango? – Ele ergueu as sobrancelhas e sorriu leve, tentando me animar um pouco e eu assenti. – Bons tempos...as vezes eu ainda faço isso, para relembrar os velhos tempos.
- Por que? – Quis saber eu.
- Ah...- Matt ponderou por alguns instantes. – Por que me traz lembranças boas. Uma época sem preocupações, sem essa loucura que é ser adulto e todas as responsabilidades. Eu tenho boas lembranças, gosto delas.
- Mas para que se lembrar de algo que não se pode mais ter?
- Não sei. – Matt recostou-se ao assento. – Minha mãe dizia que é preciso lembrar de onde veio para saber para onde vai. Acho que gosto de me lembrar da minha versão adolescente, para garantir que minha versão adulta faça a coisa certa.
- E como você sabe qual é a coisa certa?

Matt não respondeu imediatamente. Me olhou e abriu a boca duas vezes, sem dizer qualquer palavra, depois olhou para fora e tomou mais um pouco de seu café.
- Por que você estava no píer? – Ele indagou sem se importar em fazer rodeios.
- Tentando fazer a coisa certa. – Respondi.

Matt não respondeu de novo, mas dessa vez suspirou e encarou sua bebida por tempo demais. Pensei que talvez ele não dissesse mais nada, foram muitos minutos em silêncio, sem que sequer me encarasse. Resolvi provar o chá, até que era bom.
- Como está o Dom? – Matt quis saber, ainda com olhos baixos.
- Bem, na escola. Está no time de futebol e no clube de teatro. – Contei sem muita empolgação.
- É um bom garoto. – Matt comentou sem jeito. – Olha, eu não tenho nada com isso. – Começou a falar depois de um longo suspiro. – Mas o píer não é conhecido por ser um lugar de calma e felicidade. Se está acontecendo alguma coisa, ou se eu puder ajudar...
- Está tudo bem, Matt. – Respondi encarando a rua do lado de fora.

Matt me analisou, procurando qualquer sinal em minha expressão que pudesse usar como argumento. Por fim, falhando, ele suspirou de novo e esticou a mão sobre a mesa, segurou minha mão e a apertou.
- Eu sempre estou por aí, okay? – Ele ergueu as sobrancelhas, me olhando nos olhos e eu tentei sorrir. Não queria que alguém se preocupasse e estivesse vigiando meus passos, por isso precisava manter a postura de sempre.
- Eu agradeço, Matt. Mas só estou estressada, precisava pensar em silêncio, sem os gritos da cozinha de um restaurante. – Sorri, inclinando-me um pouco sobre a mesa. – Mas agradeço a preocupação. Acho que é melhor eu ir, já está ficando tarde.
- Eu te acompanho. – Afirmou ele, jogando algumas notas sobre a mesa.
- Não precisa, meu carro está logo ali. – Garanti sorrindo do modo mais tranquilo que conseguia.
- Você pega depois, eu insisto. Por favor. – Matt enfatizou e eu assenti, me esforçando para manter o personagem.
- Oba, sempre quis saber como é andar no banco da frente de uma viatura.

🍁


Estava em casa.
Depois de um trajeto silencioso e com um sorriso plástico no rosto, enfim estava em casa. Depois de um banho quente, resolvi comer qualquer coisa. Era estranho, há menos de algumas horas, se não fosse a aparição repentina de Matt, não teria nunca mais tomado um banho quente, nunca mais entrado em casa. Nunca mais comeria algo feito por mim, nunca mais estaria naquela cozinha.
Ouvi a porta da frente ser aberta e os passos pesados de Dom anunciarem sua chegada e um aperto dolorido tomou meu peito. Se eu estivesse no fundo do mar agora, Dom chegaria e não encontraria ninguém, ou seria recepcionado por uma notícia que certamente o marcaria para sempre.
- Oi, mãe. – Ele cumprimentou, entrando na cozinha e deixando a mochila jogada em um canto. – Nossa, eu estou morrendo de sede. – Dom sorria enquanto abria a geladeira.

Olhando-o ali, só conseguia pensar no que estava prestes a fazer. Fui capaz de sacrificar uma das coisas que mais queria no mundo para o bem de e Dom, mas agora, estive prestes a desmoronar a vida dos dois. Assistindo Dom tomar seu suco de laranja, sorrindo e tranquilo, não podia conter as várias imagens de seu precioso rosto triste, e do que podia acontecer caso minha quase tentativa tivesse tido sucesso.
- Querido, venha aqui. – Pedi, indo até ele e o abraçando com força.
- Mãe, você está me sufocando. O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Não aconteceu nada. – Garanti, aliviada.
- Você é estranha as vezes, mãe. – Dom riu. – Você pode ir na escola na quinta-feira? É dia da profissão dos pais e eu contei que você tem estrelas Michelangelo.
- Michelin. – Corrigi, sorrindo fraco e sentindo o cheiro de seu cabelo.
- Isso. É. Você é a única mãe que tem isso. – Ele disse e eu sorri. – Vai ser muito legal.
- Tenho certeza que sim. – Assenti emocionada e Dom percebeu, afastando o rosto de mim para me olhar melhor.
- Está chorando? O que aconteceu? – Perguntou preocupado e eu sequei uma lágrima solitária que escorreu com as costas da mão.
- Nada, querido. Não se preocupe. – Dom estreitou o olhar. – A vida as vezes é muito complicada, mas isso é coisa de adulto. Não se preocupe com isso. Certo? – Pedi, acariciando seu rosto.
- Você quer ver filme? A gente faz pipoca e assisti filme. Podemos pedir pizza também. – Ele sugeriu prestativo. – Você pode escolher o filme.

A cada palavra de Dom, me sentia mais culpada e mais grata por Matt ter aparecido de repente naquele píer.
- Obrigada, querido. Seria ótimo. – Sorri e depois lhe beijei a fronte. – Eu amo você.
- Também te amo, mãe. – Dom declarou e me abraçou de novo, com um pouco mais de força.
🍁


Divisores de água. O divisor de águas costuma ser uma situação, evento, fato que representa uma mudança importante no rumo dos acontecimentos, sejam eles históricos, sociais ou pessoais: um filho costuma ser um grande divisor de águas na vida de uma mulher. E de fato, a chegada de Dom fora o maior divisor de águas para mim, na forma com que eu me enxergava o mundo, no modo como via a vida e todo o resto. E talvez ele estivesse sendo um divisor de águas mais uma vez, ou melhor, permanecendo como um divisor de águas.
Naquela tarde, olhando a água turva e agitada do mar, nada pareceu ter qualquer importância. Muito pelo contrário, tudo parecia não ter qualquer relevância. A carreira, família, casamento e até mesmo Dom. Talvez essa fosse a pior parte, me odiava por não ter pensado nele. Por ter considerado deixa-lo sozinho, não acompanhar sua vida, sua formatura, seu casamento, seus filhos. Que tipo de mãe seria se o deixasse? Me odiava por isso, mesmo não tendo feito, apenas por ter considerado.
O convite de Dom para assistirmos filmes, como sempre fazíamos juntos, fora talvez minha tábua de salvação. O abrir de olhos, o suspiro que precisava para entender que por pior que as coisas estivessem, eu não podia simplesmente me entregar. Desde que aquela criança nascera, minha vida não era vivida apenas por mim, mas por ele. Quando tudo estava escuro e perdido, depois de minha partida para Nova York, fora Dom que me trouxe de volta a luz, e agora, a maternidade e Dom me salvavam mais uma vez. Talvez não tivesse nascido para ser a chef do Eau de Mer, talvez não tivesse nascido para ser a esposa de , ou o amor de , mas sem qualquer dúvida, tinha nascido para ser a mãe de Dom. Isso me salvava, era o meu respiro, a única parte boa em mim, incorrupta e segura.
Mesmo em todo caos, todo desastre, era a Dom que devia me agarrar. Talvez em nossa relação, conseguisse a força que precisava para seguir em frente mais uma vez. No olhar dele, no sorriso dele, ou no jeito com que seu lábio inferior ficava projetado enquanto dormia, aquela era minha força. Naquele corpo pequeno e frágil de criança quase adolescente estava a minha razão de viver. Não , não , não o restaurante, a carreira, amigos ou família, a resposta era Dom. Sempre foi, só demorei a perceber.
Acariciei o rosto sereno de Dom, que dormia tranquilo no sofá, decidida e fortalecida, sentindo-me consumir por uma energia que há muito tempo era estranha a mim. Levantei-me devagar, estava na varanda, lendo um livro e fui até ele, depois de pegar o celular e as chaves do carro. Não me importei em trocar de roupa ou coisa do gênero, tinha muita urgência no que fazer e nenhum instante podia ser perdido.
- Preciso resolver uma coisa. – Avisei e ele ergueu o olhar para mim.
- O que? Agora? São quase dez horas.
- É. É muito urgente. – Enfatizei, unindo as sobrancelhas.
- Tá legal. Já que parece que sua vida depende disso. – Ele suspirou. – Volta hoje?
- Eu preciso voltar. – Garanti.
- Vou te esperar acordado. Tenha cuidado. – Ele sorriu de canto e eu assenti, correndo em seguida para a garagem.

🍁


A vida é cheia de ironias, cheia de contradições. Pela manhã você é uma pessoa, e a noite, pode já ser outra completamente diferente. Mais cedo naquele mesmo dia, havia estado no Leo’s com Matt Shay, tomando chá de camomila após uma frustrada quase tentativa de suicídio. Agora, passava de dez e meia e eu estava no Leo’s mais uma vez, sentada na mesma mesa, tomando limonada e com o olhar ansioso pregado a porta, apressando Matt com a força do pensamento.
Não demorou para que ele chegasse, me procurando com olhar preocupado, e quando me viu, rapidamente ocupou o assento a minha frente.
- , o que aconteceu? – Perguntou, dispensando uma garçonete que se aproximava de nós.
- Você disse que eu podia contar com você. – Fui direta, afastando o copo de limonada e Matt assentiu. – Eu acho que preciso de ajuda.
- O que houve? Aconteceu alguma coisa? Se meteu em alguma coisa? – Ele quis saber com olhar agitado.
- Você sabe o que é, Matt. Por favor, não me faça dizer em voz alta. – Implorei com o olhar e ele respirou fundo, apertou os lábios e baixou a cabeça.
- Eu sei.

Ficamos em silêncio por alguns instantes, sem que pudéssemos nos olhar nos olhos.
- Soube assim que te vi.
- Como foi parar lá? Ninguém deve ir para aquele lugar há anos.
- Estava no hospital visitando . – Senti um arrepio gelado percorrer meu corpo com a menção a aquele nome. – O médico. Rafael. Me disse que achava que você não estava bem, me pediu para conferir. Ele me disse onde ir.
- Rafael? Como ele soube? – Indaguei chocada e Matt apenas levantou os ombros.
- Que bom que ele disse. – Matt suspirou, apoiando as costas no assento e eu assenti.
- Obrigada. Por ter...você sabe. – Hesitei. – Nunca vou conseguir agradecer o suficiente.

Matt assentiu e sorriu de canto, um sorriso contido, mas que parecia aliviado de algum modo.
- Quando isso começou? – Ele quis saber, depois de algum tempo em silêncio.
- Eu não sei, acho que alimento esse monstro no sótão há anos. – Confessei encolhendo os ombros e olhando para baixo. – Foram más escolhas, e nunca quis lidar com elas, só ignorar tudo. É a minha forma de lidar com toda essa bagunça.
- Acho que não funciona muito bem, pelo menos não por muito tempo. – Matt comentou.
- Eu achei que se me ocupasse, não sobraria tempo para sentir ou para sofrer e então, tudo desapareceria. Mas não é assim que acontece. – Cobri o rosto com as mãos, dizer aquilo em voz alta ainda era estranho e constrangedor. – Você acha que é perfeitamente capaz de controlar o caos, até perceber que não. Então, sem que saiba como, começa a se afogar e não existe forma de voltar a superfície.
- Existe sim. – Matt interveio, aproximando-se e tocando meu antebraço, atraindo minha atenção. – Existe. Tem muita gente por você aqui. Tem seu marido, Dom, Oliver e Giovanni, a mim. – Ele falou e eu ri entredentes.
- Obrigada, Matt, mas as vezes isso não significa nada. Por mais que deva. – Falei.
- E Dom? Ele não significa?
- É por ele que estou aqui. – Disse com firmeza. – Quando cheguei em casa hoje, quando o vi e me dei conta do que quase estive prestes a fazer com ele...me odiei com todas as forças. Mais do que tenho me odiado todo esse tempo.

Matt mudou de lugar, ocupando o assento ao lado do meu e me abraçando de lado.
- Vai ficar tudo bem. Estou com você. – Garantiu. – Eu conheço uma pessoa, ela pode te ajudar. É uma ótima psicóloga. Você vai gostar dela. Vai ficar tudo bem. – Matt segurou meu rosto e olhou em meus olhos. – Como nos velhos tempos, vou cuidar de você. Vai ficar tudo bem. Estou com você. – Afundei meu rosto em seu peito e me permiti chorar, colocar toda aquela angústia para fora. – Estou aqui com você.

🍁


Depois do meu colapso, fiquei reclusa por dois dias em casa. Sem ir ao restaurante ou qualquer contato humano que não fosse com ou Dom, Matt apareceu quatro vezes nos dois dias, preocupado e solícito, como me lembrava dos tempos da escola. Na noite em que o procurei, ao voltar para casa, me esperava na varanda, curioso sobre meu paradeiro e sobre a razão do meu rosto inchado de chorar.
Contei a ele.
Contei sobre a situação no restaurante, sobre o humor instável, sobre a ausência de contorno e a intensa sensação de vazio inexplicável. Obviamente omiti tudo sobre e minha cena no píer. Não precisava de mais alguém vigiando meus passos e perdendo o sono por minha causa. me acolheu, como em todas as outras milhões de vezes, me incentivou a procurar a terapeuta indicada por Matt e me apoiou no que decidisse fazer dali em diante.
Estava tão cansada de tudo, escolhi apenas dormir. Descansar e tentar me recuperar, não era um plano ruim, podia ajudar.
Os dois dias que seguiram foram silenciosos, e Dom apareciam com frequência ao meu lado, perguntando sobre como eu estava, se precisava de algo. Eu sempre respondia que não, e então, eles ficavam parados em silêncio, do meu lado. Sem dizer qualquer coisa, apenas ali, oferecendo companhia e uma espécie de apoio silencioso.
No terceiro dia, resolvi tomar um banho pela manhã e levar Dom a escola, já bastava e sabia que além de mim, ninguém mais conseguiria me tirar daquele quarto escuro. Fora uma grande surpresa para os dois, e depois de mil recomendações de , conseguimos sair de casa. O caminho fora completamente ordinário, comentários sobre o clima e o trânsito, as aulas do dia. Precisava daquele momento com Dom para conseguir a força necessária para vencer aquele dia. Só assim teria alguma chance.
Depois de deixa-lo na escola, resolvi visitar Ted, já havia algum tempo em que não ia ao cemitério. Por muito pouco não estava agora lá de modo permanente, então pensei que seria justo vê-lo, conversar. Ted sempre fora um de meus confidentes mais sensatos, seria bom ouvi-lo um pouco.
O cemitério estava vazio, só podia ouvir a algazarra de uma revoada de andorinhas barulhentas, o céu azul do início da manhã, combinado com o vento fresco montavam um dia bonito. As árvores balançavam vez ou outra, quando um vento um pouco mais forte as atingia, mas nada conseguia tirar a calma silenciosa do lugar. Caminhei devagar até o túmulo de Ted, lendo algumas lápides pelo caminho, prestando atenção nas datas de nascimento e falecimento nas escrituras, direcionando meu foco às que pertenciam a mães. Logo cheguei a meu destino, e somente lá, ao me sentar junto a lápide, pensei que podia ter trago flores.
- Espero que não se importe, mas esqueci das flores. – Contei sorrindo, cruzando as pernas e relaxando os ombros. – Já faz algum tempo desde a última vez que vim até aqui, e sendo sincera, nem me lembro quando foi. Acho que preciso te atualizar. – Hesitei por um instante. – Se bem que, você morreu, deve saber tudo que acontece. Você é quem devia me atualizar.

Sorri fraco, pensando no quanto queria saber o que Ted sabia, principalmente sobre uma pessoa específica.

- Eu fiz besteira. Fiz uma besteira muito grande. – Confessei. – Teve toda essa coisa com , um dia eu ia até lá e estávamos bem, no outro eu aparecia e dizia que não podia ficar com ele. Dias depois, eu voltava e o ciclo recomeçava. Na verdade, dizendo em voz alta, acho que minha vida é cíclica de alguma maneira. Eu me frustro e fujo, tenho uma decisão difícil a tomar e fujo. Não tenho me importado muito com o que fica e essa é a verdade. Minha primeira fuga deu origem a tudo isso, não é bizarro? – Eu ri. – Não posso dizer que perdi , porque nunca o tive. Mas sofro como se tivesse. É difícil. – Suspirei profundamente, tomando coragem para dizer o que precisava. – Você deve me odiar, mas pensei em acabar com tudo. O que é ridículo, principalmente pensando no meu filho e, bem...pensando em você.

Toquei com a ponta dos dedos as inscrições no túmulo de Ted.
- Você teria dado tudo para não deixar seu filho sozinho, eu sei. E eu, quase escolhi isso, quase deixei meu menino aqui, sozinho, por escolha própria. Por opção única e exclusivamente minha. – Expirei profundamente, sentindo certo tipo de paz me envolver, embora não soubesse de onde vinha. – Talvez isso seja o acumulado de todos esses anos fugindo. Tentei me tornar alguém melhor e acho que de fato consegui. Me reconciliei com meu irmão, com meus pais e até Gina agora é minha amiga de novo. Mas não parei de fugir, não parei de me esconder e talvez esse seja o problema. Ou um dos problemas. Eu não sei, parece coisa de adolescente querer se jogar no mar por causa de um amor que não deu certo. – Eu sorri, porque era idiota e porque mal podia acreditar quando dizia em voz alta. – Mas o que posso fazer? Talvez não seja só por causa de , talvez seja uma junção de coisas que sequer sei nomear.

Fiz silêncio.
Uma andorinha pousou tranquila na lápide, como se eu não estivesse ali e eu a observei por algum tempo. A plumagem branca do peito parecia macia, em contraste com o azul quase metálico de seu dorso, os olhinhos escuros e profundos que pareciam conseguir ler mentes. Como um daqueles pássaros de desenho animado que entende e fala com humanos. Era bonito, mas um pouco bizarro.
- Vou entender que essa andorinha que parece me julgar é um sinal de que me escuta, Ted. – Brinquei, apoiando o tronco nos braços esticados, apoiados ao chão. – Quase estive aqui, sendo sua vizinha. – Falei, olhando ao nosso redor. – Nunca vou conseguir agradecer o suficiente a Matt por ter me salvado. A vida tem dessas coisas, sabe? E agora, estou viva ainda, preciso lidar com meus problemas. O restaurante, minha família, preciso ir à terapia também, o que é bem estranho para mim. – Sorri. – Mas é o certo. Preciso garantir que Dom não fique sozinho, se não por mim, por ele. Sempre por ele.

🍁


Foram algumas horas com Ted, ora falando trivialidades, ora em silêncio observando a paisagem silenciosa, a beleza da natureza, a simplicidade da vida acontecendo mais abaixo, na cidade. Sentindo o cheiro da relva, ouvindo o som dos pássaros, o som das ondas se quebrando na costa rochosa, o chacoalhar das árvores. Sentia certa paz ali, como se não precisasse lidar com todas aquelas coisas que sentia, como se pudesse apenas existir, sozinha, sem pensar em mais nada, sem sentir nenhuma angustia ou dor.
De algum modo, estava mais confortada, um pouco mais motivada a seguir. Minha primeira sessão de terapia estava marcada e aquele era um grande passo para resolver as coisas. Estava cansada de fugir, cansada de correr e sempre voltar ao mesmo lugar, de sempre voltar para a mesma ilha deserta depois de semanas de nado.
Quando alcancei os portões do cemitério, a fachada do hospital se iluminou. Lembrei de Matt e de sua confissão sobre como soubera de mim, como havia me encontrado naquela fatídica tarde. Estava cansada de fugir e me esconder, e precisava, queria muito saber como aquele médico esquisito e enigmático sabia que não estava bem.
Já dentro do hospital, o primeiro lugar em que procurei foi o grande jardim, e para minha surpresa, lá estava ele, passeando de modo despreocupado, analisando um canteiro de margaridas amassadas.
- Rafael. – Chamei-o, aproximando-me dele e o médico voltou seu olhar para mim e sorriu alegre.
- . – Celebrou. – Bom ver você. Sabia que viria.
- Sabia? Como? – Arqueei uma sobrancelha, desconfiada.
- Intuição. – Ele respondeu, depois balançou a cabeça e sorriu. – Brincadeira, estive com o detetive Shay, foi só juntar as peças.
- Como você soube? Como sabia que eu...como? – Indaguei sem rodeios e sem me importar em soar educada. Ele sorriu sereno, e pediu, com um aceno que eu o seguisse. Obedeci.
- Sabe, , a vida é aleatória na maioria das vezes. As infinitas possibilidades de escolha que se entrelaçam todos os dias. Tomar suco de laranja em vez de café numa manhã de quarta-feira pode gerar consequência inimagináveis. Nossos atos e ações interferem no universo de milhões de maneiras, todas aleatórias. Nem mesmo o mais poderoso ou o mais inteligente dos homens é capaz de prever ou controlar a aleatoriedade da existência humana. Mesmo em ambientes controlados, você pode oferecer três caminhos a alguém, e isso não vai impedir que se crie um quarto, quinto. É curioso. – Ele dizia enquanto caminhávamos ao redor do pequeno lago na área externa do hospital. – Só existe uma lei que parece sempre funcionar. Tenho desprendido certo tempo pensando nisso, formulando teorias. Pode-se dizer que é o que chamam por aqui de hobbie - Rafael sorriu. – Podem existir mil caminhos, as vezes mais longos, mais curtos, mais rápidos ou mais lentos. Infinitas possibilidades de jornadas, mas com sempre o mesmo destino. Voltando ao exemplo que dei, ofereço, por exemplo, três caminhos a você. Três caminhos que levam a mesma coisa. Você não escolhe nenhum dos três, mas cria um quarto, quinto, sexto caminho completamente diferente. Talvez estes caminhos sejam mais lentos, mais difíceis, mas no final, vão levar ao mesmo lugar.
- Desculpe, mas eu não estou entendendo o que isso tem a ver com minha pergunta. – O interrompi e ele riu entredentes.
- Aí está o sétimo caminho. – Ele continuou sorrindo e eu franzi o cenho, explicitando minha impaciência. – Havia algum tempo que não a via aqui, pensando em nossas conversas sobre nosso amigo e notando o estado dele, imaginei que algo não estivesse bem.
- O que houve com Adam? – Indaguei alarmada.
- Pode vê-lo, se quiser. – Rafael me fitou sorrindo. – Vai ser bom, talvez para ambos. – Disse e eu encarei o chão, respirando devagar.
- Isso não explica como sabia onde Matt poderia me encontrar. – Falei depois de algum tempo em silêncio.
- O píer. O chamam de farol dos afogados, não é sem razão. Talvez esteve fora da cidade por muito tempo para se lembrar. – Rafael piscou com simplicidade. – Foi por precaução. No fundo, eu sabia que nada aconteceria.
- Não. – Declarei, parando de andar e o médico girou o corpo para me olhar. – Se Matt não tivesse aparecido...eu...
- Quantas vezes você olhou para a água antes de pular?
- Não sei, eu...- Respondi confusa e ele sorriu, aproximou-se e tocou meu ombro.
- Você não queria ir, por isso não foi. – Disse ele em tom sereno. – Pare de criar um caminho novo toda vez que se aproxima na linha de chegada, . Continue, é só isso. Continue.

Ele piscou e eu o assisti partir, dando-me as costas e desaparecendo ente outros pacientes e médicos. Deixando-me perdida, ainda mais confusa e à deriva em minha própria cabeça.
Os encontros com aquele médico sempre criavam dúvidas, teorias e incertezas. Abalavam meu estado de espírito e as certezas nas quais estava firmada. O que ele queria dizer com aquilo? Que caminhos eu estava criando? Caminhos para onde? E como ele poderia saber o que teria acontecido se Matt não aparecesse naquele píer, se nem eu mesma sabia?
Estava parada, congelada, com mil questões brotando em meu cérebro e me impedindo de pensar com qualquer pouco de clareza. Queria respostas quando entrei naquele hospital, mas só tinha recebido mais perguntas. Mais dúvidas.
Respirei fundo, não adiantaria ficar ali, encarando o nada e tentando buscar algum sentido nas palavras tortas do médico. Precisava caminhar, precisava seguir e ir em frente. Ficar presa aos enigmas de Rafael era parte dos ciclos que lutava para sair, não podia deixar que se repetissem. Passei as mãos nos cabelos, tentando me organizar enquanto os organizava e voltei-me para o hospital, precisava sair dali o mais depressa possível.
Talvez fosse sobre esse tipo de acontecimento que Rafael se referia em seu discurso sobre a imprevisibilidade da vida.
Sentado, sob a sombra de um freixo grande demais para ocupar aquele lugar, estava ele, me encarando tão chocado quando eu devia estar. Não devia vê-lo, não devia estar ali, não devia ser fraca mais uma vez e dar início a tudo de novo. Não podia estar acontecendo. Parada ali, com os olhos conectados ao dele, mal conseguia respirar. Parte de mim gritava de necessidade, de urgência, precisava de mais do que de ar, mas outra parte queria correr, fugir dele e de tudo que representava. Não queria repetir tudo outra vez, provocar mais dor a quem mais amava. Talvez nem mesmo quisesse falar comigo, talvez depois de tudo, ele me odiasse.
Queria fugir, fugir como todas as outras vezes, mas sabia que assim como sempre fazia, eu voltaria, no meio da noite, ou em outro momento inapropriado. Era hora de enfrentar minhas escolhas, estava cansada de fugir. De esconder. Dei o primeiro passo em direção a ele, tentando ser firme e segura. estreitou o olhar rapidamente, como se surpreso por minha atitude. Depois do primeiro, os outros passos foram fáceis, fáceis como andar em nuvens, e quando estava perto o suficiente, ficou de pé.
Mal podia crer no que estava vendo.
estava de pé, diante de mim, era a primeira vez que o via assim, a primeira vez que o via quase como antes, bem. Ele estava apoiado a com uma pequena bengala, mas estava de pé, a menos de um metro de distância. Sentia uma mistura de alívio, alegria, hesitação e saudosismo. Congelei onde estava, sentindo todas aquelas emoções me atingirem como ondas fortes em um mar de ressaca. Meus olhos embaçaram um pouco, o suficiente para que eu percebesse estar prestes a chorar e então, ele veio até mim. Acabando com a distância pequena que ainda existia entre nós e me abraçou.


🎵 Dê play na música e coloque para repetir se necessário for. You Are The Reason – Calum Scott🎵



me abraçou com força, trazendo-me junto a seu peito, sem ressalvas ou cuidado. Pela primeira vez em muito tempo eu sentia seu cheiro, o calor de seu corpo, a sensação de seu corpo junto ao meu. Me sentia segura. Salva. Era o que precisava. Sempre fora o que precisei. Seus braços era o lugar seguro que precisava habitar.
Quando percebi, estava chorando.
Talvez de alívio, talvez enfim permitindo que todo aquele medo e tensão se esvaíssem de vez do meu coração. ainda mantinha seu abraço apertado, uma mão estava em minhas costas e outra, afagando meus cabelos. Ele estava em silêncio, apenas ali. Mesmo sem dizer qualquer coisa, sua presença era mais reconfortante do que qualquer palavra que alguém pudesse dizer.
- E-eu sinto muito. – Disse eu, entre meio um soluço e outro, mas não disse nada, apenas me apertou um pouco mais. – Me desculpe. Vo-você tinha razão, eu sempre faço isso. Sempre...
- . – Ele chamou com seu tom sereno, segurando meu rosto para que eu o olhasse nos olhos. – Não precisa se desculpar comigo. Você pode fazer o que quiser comigo, eu sou seu. Para fazer o que quiser.
- ...- Fechei os olhos, culpada e sentindo dilacerada por não ter direito de me sentir feliz em ouvi-las.

Era tortura demais.
- Não importa o que aconteça. – Ele continuou e eu ergui os olhos para vê-lo. – Eu não consigo deixar de gostar de você. Eu tentei. Tentei muito nesses meses, mas não funcionou, nada funcionou. Então eu desisti. Percebi que pertenço a você, mesmo que você não pertença a mim. Isso não vai mudar. E desde que você esteja viva e que eu possa ter um pouco de você, mesmo que a distância, é o suficiente para mim.

tinha os olhos cintilantes e estreitos, as sobrancelhas juntas enfatizavam o quão profundas e sérias eram aquelas palavras. Mas com a menção a estar viva, fechei os olhos, sentia vergonha. Uma vergonha dolorosa.
- Eu sinto muito. – Falei sem olhá-lo.
- Eu sinto. – falou. – Não devia ter te pressionado, eu sempre soube sobre o . Quando Matt me contou sobre...- fechou os olhos, parou de falar e encostou sua testa a minha. – Eu não sei o que faria...quis ir até você, mas não pude. Não sei o que faria se perdesse você para sempre assim.
- Eu sinto muito. Estou tão envergonhada. – Confessei, cobrindo o rosto com as mãos.
- Não há do que se envergonhar. Por favor. – afastou minhas mãos com delicadeza, tomou-as e as beijou. – Por favor. Eu estou muito aliviado que está aqui, não sei o que faria se não estivesse. E me odeio muito por talvez ser parte nisso, por ter causado isso.
- Não, ! Não. – Neguei rápido, tocando seu rosto. – Não é culpa sua. Talvez não seja culpa de ninguém. Eu só não suportava mais causar dor as pessoas que amo e...nem conviver com as minhas escolhas.
- Olhe para mim, . – sorriu fraco. – Me salvou, não me causou dor. A única dor que sinto em relação a você é de não ter feito escolhas melhores no passado. Mas mesmo assim, você me salvou. Me deu um motivo para querer acordar todo dia. Uma razão para continuar vivendo, quando tudo parecia me convencer do contrário. Você me salvou. – acariciou minha bochecha com o polegar, enquanto olhava em meus olhos. – Confie em mim, . Você me salvou, me deixe tentar fazer o mesmo agora. Se estou aqui hoje, você é a razão.
- eu...- O rosto de povoava minha cabeça, não queria repetir mais uma vez o discurso de despedida.
- Não estou pedindo para que deixe , não posso pedir isso. Por mais que seja o que mais quero no mundo, prefiro que você me escolha porque quer e não porque estou pedindo. E desde que esteja feliz e viva, mesmo que isso me dilacere em milhares de modos diferentes, eu ainda ficaria feliz. – Ele disse. – Só quero me deixe ficar perto. Que, por favor, me deixe ficar perto de algum modo. Não me afaste agora, principalmente depois disso. Eu vou enlouquecer se tiver que ficar longe de você sabendo que precisa de...- hesitou.
- De você. – Completei.



12

Participação Especial: Rena como Uyara Houston



- Como posso te ajudar? - A psicóloga perguntou.

Fora preciso de o dobro da coragem que imaginava ter para entrar naquela sala e começar a falar qualquer coisa, desde meu nome, idade e qualquer outra informação banal. Era estranho me ver em uma sessão de terapia, me abrindo, falando de mim, principalmente quando o assunto era meu colapso. Tinha certeza que precisava estar ali para enfim resolver aquela situação e sair da confusão que estava, das repetições terríveis e angustiantes. Talvez, se quinze anos atrás tivesse tomado esta decisão, tudo poderia ter sido diferente.
Respirei fundo e esfreguei as mãos nas pernas antes de responder.
- É uma boa pergunta, eu acho. - Sorri fraco. Estar ali de fato, mesmo com a motivação e apoio de todos aqueles rostos que me esforçava em lembrar a cada segundo, era muito difícil. - Eu acho que preciso de ajuda. Eu sei que preciso, na verdade. Eu…- Hesitei, tentando respirar com mais calma. – Eu fugi por muito tempo da minha própria confusão, mas acho que não foi suficiente. - Confessei um pouco sem jeito.
- Que bom que já sabemos que fugir não foi o suficiente. - A psicóloga, Uyara Houston, assentiu. - Por que não me conta de onde fugiu?
- Não sei se foi de um lugar específico. - Ponderei por alguns instantes, recostando-me de modo mais relaxado a poltrona, tentando pensar antes de responder. - Acho que foi de mim. Das minhas escolhas. Ou melhor, da consequência delas. É idiota dizer em voz alta, parece que tudo isso é baseado em um drama adolescente, sobre uma rejeição nos tempos da escola, e isso é tão ridículo…- Ri entredentes, envergonhada. - Sou uma mulher casada há quinze anos, com uma carreira e um filho, mas que sofre por que foi rejeitada no colégio? É vergonhoso.
- A sua rejeição no colégio te fez fugir? – A Houston cruzou as pernas, ainda com olhar preso a mim. - E para onde você foi? Ou melhor, ainda está no mesmo lugar?
- Em resumo, eu tenho dois irmãos. Um irmão gêmeo, Oliver, na época da escola éramos uma dupla inseparável, Oliver e eu vivíamos colados. Tínhamos dois outros amigos, Gina e Ted, éramos do mesmo ano e tínhamos as vidas perfeitas. - Sorri saudosa, lembrando-me um pouco daquela época. - Essa coisa de líderes de torcida, jogos de futebol, como nos filmes. Meu outro irmão, Giovanni, era mais velho que nós. Era inteligente, obediente e tinha saúde frágil e por isso eu sempre achei que ele fosse o favorito dos nossos pais, que fosse o ser humano mais chato da face da terra. Oliver, nossos amigos e eu sempre zombamos dele por isso. Mas Giovanni tinha um amigo, . Assim que eu o vi, que vi o pela primeira vez, me apaixonei por ele. Sabe quando essas coisas acontecem? Você não explica ou entende, só acontece. Quando percebe, está tão apaixonada que seu mudo gira em torno daquela pessoa, no sentido mais literal da coisa. Como um tipo de ligação de vidas passadas ou sei lá. Sem explicação.

Ajeitei a postura e cruzei as pernas, tentando editar o filme da minha vida, e contar os fatos relevantes da história a psicóloga. Poderia falar por horas do quanto era incrível e lindo, mas não era o foco ali.
- Mas o era amigo do irmão que eu detestava, isso não ajudava. E eu sempre ficava paralisada quando estávamos no mesmo espaço, não conseguia dizer uma só palavra. Nunca pude me declarar, nunca consegui, mas sempre sofri em silêncio por isso. Tentei esquecê-lo, tentei me interessar por outras pessoas, mas não funcionava, tudo parecia feito de plástico, entende? Sem cor. E um dia, perto da formatura, descobri que ia se casar com a garota perfeita que namorava há anos. O chão se abriu e eu fui engolida. Foi horrível. Não sei descrever em palavras como me senti. E a única saída que encontrei foi fugir, ir embora da cidade e nunca mais olhar para trás, tentar esquecer e tudo e qualquer coisa que me fizesse lembrar dele.
- Então, deixe-me ver se consegui entender. - Ela cruzou as duas mãos sobre o colo, com os olhos conectados aos meus. - O foi o amor que você disse que sofreu rejeição e por causa dele você se mudou da cidade, correto? – Eu assenti. - Mas se nunca falou com ele, como isso caracteriza uma rejeição para você?
- Viu como tudo é ridículo? – Sorri sem jeito e passei as mãos no cabelo. - Eu sempre o amei, desde o primeiro momento que o vi, mas depois ele conheceu alguém e se apaixonou. Mesmo antes disso, eu não tinha coragem de me aproximar, de me declarar. Talvez rejeição não seja a palavra certa, acho que está mais para falta de coragem. Não tive coragem para me declarar, em vez de enfrentar o que sentia, dizer a ele ou então conviver com a felicidade dele, escolhi ir embora. Deixei meus amigos, minha família, fiquei quinze anos sem qualquer contato com essa cidade, a não ser através do meu irmão ou dos meus pais. – Dizer aquilo em voz alta, agora, me parecia o maior absurdo dos absurdos. Não conseguia entender como eu fora capaz de simplesmente cortar laços, sumir da vida de todos que amava e que me amavam sem nem mesmo me despedir ou pensar em como se sentiriam. – Talvez eu seja uma pessoa amargurada, na verdade acho que sou. Não me declarei, nem pude conviver com a felicidade alheia, precisei fugir e deixei um rastro nada agradável por onde passei.
- Certo, chegamos em um consenso, não diria rejeição, diria frustração. Não são grandes opostos, na verdade muitas pessoas confundem. – Ela sorriu. - Mas então, quinze anos se passaram, e agora, como está o ?
- Você não acreditaria, parece coisa de filme. Se não fosse a minha vida, não sei se eu mesma acreditaria. – Sorri fraco. - Quando fui embora, acabei conhecendo um cara, ele estudava engenharia. Gostava dele, mas não era apaixonada. Acabei engravidando e nos casamos. Quinze anos depois, ele recebe uma proposta de emprego irrecusável aqui em Paradise. Voltei com ele e com nosso filho, Dom. Voltei para descobrir que no tempo que estive fora, Ted morreu, ficou doente e sua noiva o abandonou. O reencontrei ano passado, em meio a uma crise terrível, sem qualquer prognóstico bom.
- Como você se sente ao vê-lo assim? Depois de tantos anos, e em uma situação de saúde complicada, e sem a noiva que o fazia feliz, motivo pelo qual você fugiu. Como está se sentindo agora que está perto?

Sentia-me um pouco angustiada, havia tanta coisa para ser explicado, tanto que ela não sabia. As idas e vindas, o processo de cura de , meu mergulho de cabeça naquele sentimento que fingia não alimentar enquanto o visitava todos os dias. Os beijos, a culpa, a traição, a viagem, sua recaída, o desejo de separação, minha outra fuga, depois o retorno, o natal passado, a culpa mais uma vez e nosso distanciamento. Não sabia como contar tudo aquilo enquanto respondia às perguntas da psicóloga.
- É que aconteceu tanta coisa desde então, que a forma com que me sinto sobre já mudou centenas de vezes. – Contei tentando facilitar seu entendimento, mas perdida em como fazer isso. - É uma história longa demais, com muitas idas e vindas.
- Ele é o motivo que te trouxe aqui?
- Seria fácil dizer que sim, mas acho que não é verdade. – Confessei torcendo os dedos das mãos que estavam descansando no colo. - Estou aqui porque…- Continuava muito difícil dizer aquilo em voz alta. - Estou aqui porque há alguns dias quase me atirei no mar. Um amigo, o detetive Shay, me encontrou bem a tempo e…bom, aqui estou eu. – Sorri tentando disfarçar, mesmo não tendo certeza sobre o que exatamente queria disfarçar. - Quando cheguei em casa, encontrei meu filho e percebi o que estava prestes a fazer. Me odeio por ter considerado deixá-lo sozinho. Me odeio mil vezes por isso. Por pior que seja, por pior que esteja me sentindo sobre tudo, a única coisa que realmente importa a mim é o Dom, e quase acabei com isso também.

A psicóloga ficou em silêncio por alguns instantes, parecia me analisar, ou devia pensar no quanto tudo aquilo era besteira. Talvez pensasse no quão longe eu tinha ido por um delírio adolescente.
- Você quer falar sobre o acontecido? Quer me contar como aconteceu?
- É muito acumulado. - Ri entredentes, de modo nervoso, depois respirei fundo. - Bom, acho que…quando eu reencontrei , tudo virou de cabeça para baixo. Em resumo, tudo que achei estar soterrado, voltou com força total, e embora de alguma forma ele correspondesse, eu continuo casada. Então eram idas e vindas, estávamos íntimos em um dia, no outro me sentia culpada e me afastava, depois não conseguia ficar longe e me aproximava mais uma vez, pedia desculpas. E então tudo se repetia. Eu não podia me separar, mas não tinha forças para ficar longe do . – Contei a ela, sentindo-me um pouco mais leve a medida com que cada palavra saía pela minha boca. - Até que depois do natal, deixou claro que queria ficar comigo e tivemos uma discussão. Ele se aborreceu e eu quis morrer por magoar justamente quem mais... – Hesitei. Estando com e tendo Dom, me parecia errado dizer que era quem eu mais amava. – Desde então, tudo perdeu a cor, nada tinha ou tem sentido. Uma das únicas coisas estáveis que tinha era meu restaurante e eu meio que perdi isso também. – Dizer tudo em voz alta também me lembrava do caos em que estava morando, de tudo que estava destruindo. - Quando percebi, estava no píer, encarando as ondas agitadas, a um passo de me lançar para elas.
- O que você queria quando estava no píer? – A psicóloga perguntou.
- Parar de sentir dor. – Respondi sem hesitar.
- E agora, a dor aumentou?
- Eu não sei. - Respondi encolhendo os ombros. - Acho que quando consegui pensar com um pouco de clareza, me lembrar do meu filho…as coisas pareceram fazer algum sentido. Quero dizer, não importa o tamanho da dor que sinta, nem a quão perdida esteja, eu vivo pelo Dom e por isso é tão absurdo que tenha pensado em acabar com tudo. Ele é a resposta, faz sentido? – Ergui os olhos, procurando seu olhar.
- Eu não estou aqui para dizer o que faz sentido, Olívia. – Disse ela. - Essa resposta é você quem tem, você me disse que conseguiu pensar com clareza e entendeu que vive pelo seu filho. Então não tem mais vontade de acabar com a dor da mesma forma?
- Eu não poderia. Se não por mim, pelo Dom. – Fiquei de pé, com as mãos na cintura, sentia-me agitada, talvez por encarar o que havia feito e pensado, talvez por ter tudo exposto a outra pessoa. - Eu acho que ele tem esse poder, a maternidade tem esse poder. Não importa quão terrível as coisas estejam, ser a luz no final do túnel, uma razão para continuar vivendo. E sendo sincera, é por isso que vim aqui. – Suspirei pesadamente e voltei a me sentar na poltrona confortável do consultório no centro. – Eu não quero que isso aconteça de novo, eu não posso fazer isso com meu filho ou com , , Matt e os outros. Eu preciso de ajuda.
- Você não quer isso com os outros, mas me disse que as consequências das suas escolhas te colocaram nessa situação, não acha que já se sacrificou demais? Não quer fazer com os outros, mas o que está fazendo com você?

🍁


O que eu estava fazendo por mim?
A pergunta feita pela psicóloga ecoava em minha mente desde a sessão de terapia. Sempre que me distraía fazendo qualquer coisa, meus pensamentos vagavam até aquela questão, que martelava sem pausa. Não era uma resposta fácil.
Pensando desde o início, voltar a Paradise não fora por mim, fora por . Visitar no hospital, passar todos os dias com ele, fora por mim, única e exclusivamente. não se comunicava com mais que expressões faciais e piscadas, não poderia usar nada disso como argumento para validar sua necessidade da minha presença. A viagem que fizemos fora por , mas também pelo bem da nossa família. O retorno a e o beijo fora por mim, a ideia de separação, por mim. A dúvida e a desistência, por e Dom, embora por decisão única e exclusiva minha.
Era estranho pensar desse jeito, fazia parecer que todas as escolhas sobre meu casamento, desde o princípio não foram tomadas porque eu quis, mas sim porque era o melhor a se fazer, mais cômodo. Sair com o bonitão da faculdade? Era o que devia fazer, certo? Me casar com ele quando engravidei era o certo pela criança e para ficar protegida, não é?
Me perguntava se todas as decisões, se tudo sobre e eu era assim. Decidido por comodidade e não por realmente querer. Como se minha vida fosse decidida sem importância, como se dissessem “já que não há muito o que ser feito, façamos desse modo, todo mundo fica feliz. ” Era estranho.
Tentava pensar nas decisões tomadas conscientemente e que envolvessem , mas só conseguia pensar em férias, decisões pequenas sobre como organizaríamos a casa, quais cores as paredes teriam, onde passaríamos o feriado de quatro de julho, quem queríamos ou não em nossa casa, quando ele poderia sair para jogos e quando não. Talvez a única grande decisão tomada juntos e em consenso fora a de não ter mais filhos depois de Dom, mesmo tendo a questionado nos últimos tempos.
Enquanto isso, me fazia ser impulsiva e tomar decisões importantes de modo inconsequente e inesperado. Quando ele estava na equação eu tinha certeza de que queria estar ao seu lado. Toda decisão tomada ou quase, que o envolvia, era unicamente porque eu queria que fosse assim, sem considerar ninguém mais, apenas a minha vontade. O que também era estranho, me via agindo como uma adolescente outra vez. Com meu esposo, eu estava acomodada e com meu antigo amor, inconsequente, bela mistura, , pensei.
E se, de algum modo, e não fossem certo para mim? Com eu não fazia coisas por mim, mas sim por ele e pensando em todos, menos em mim mesma. Com , eu voltava a ser a adolescente, pensando unicamente em mim e em minhas vontades e necessidades momentâneas. Será que nesses momentos é que muitas mulheres decidem passar a vida sozinhas, para se redescobrir?
Precisava falar sobre aquilo com minha psicóloga.
Queria uma luz, queria perguntar o que é que ela pensava a respeito, se eu estava certa em meu pensamento ou apenas procurando uma forma de escapar, criando outro caminho para fugir da consequência de minhas ações.
Me lembrei da fala de Rafael, sobre criar novos caminhos e sorri. Médico maluco, pensei.

🍁


Estava na porta dos fundos do restaurante, era meio da tarde e ainda estava fechado para o jantar. A equipe estaria sozinha, ajeitando tudo para a noite e a cozinha em algumas horas viraria o caos na Terra. Sentia uma tonelada de vergonha me esmagar, mas desde que saí pela porta, depois da pequena discussão com Charles, dias atrás, que tinha certeza de que devia voltar e me desculpar. Aquele tipo de chef não era o tipo que queria ser, não era o tipo que eu era.
Ainda não estava pronta para assumir a cozinha, talvez precisasse de alguns dias para me organizar e retomar a vontade de estar ali, a vontade de cozinhar. Amava o que fazia, entendia que cozinhar era um dom, que era de certo modo levar amor através do paladar, mas mais que isso. Era aguçar os sentidos, tomar a alma de alguém através de texturas e sabores, lembranças ativadas pelo paladar e olfato. Não podia ser displicente com a cozinha e não seria mais uma vez.
Respirei fundo e abri a porta devagar, era possível ouvir um burburinho agitado, algumas pessoas riam de uma piada qualquer, enquanto se movimentavam de um lado para o outro, limpando, organizando, preparando tudo.
Aisha, uma das cozinheiras foi a primeira a me ver, era árabe, de olhos sempre atentos e profundos. Ela me encarou sem sorrir e então olhou para o lado, onde Charles estava escorado, desatento, conversando com algumas outras pessoas. Quando Charles e os outros me notaram, a cozinha caiu em um silêncio sepulcral, e o resto dos funcionários que estavam no salão vieram ver o que estava acontecendo. O circo estava armado mais uma vez.
- Oi, pessoal. – Cumprimentei olhando para eles, tentando manter a postura firme e forte que havia planejado.
- . – Charles respondeu com um aceno de cabeça. Os olhos verdes estavam me analisando, a feição jovem e bonita estava séria, como se alarmada. No cabelo, a bandada verde afastava a curta franja dos olhos.
- Eu vim aqui para falar com vocês. – Disse eu e todos se entreolharam, talvez ansiosos, esperando uma represália da minha parte.
- Estamos todos aqui. – Charles avisou depois de conferir, olhando para trás.

Houve um silêncio constrangedor.
Entre a decisão e planejamento, e o falar literal, havia muita coisa e eu mal conseguia pensar sem gaguejar, minha voz soaria tão trêmula quanto um liquidificador.
- Eu...- Hesitei e tentei limpar a garganta mais uma vez. – Eu primeiro gostaria de agradecer. Agradecer por apesar de tudo, terem estado aqui e fazerem o Eau de Mer continuar de portas abertas. – Respirei fundo mais uma vez. - Sempre soube e disse que o que mantinha um restaurante aberto não era o chef, mas sim a equipe, e estava certa.

Alguns membros da equipe assentiram, ou acenaram com a cabeça para mim, outros se mantinham imóveis, me analisando.
- Depois, queria me desculpar. Me perdi e não fui capaz de perceber. – Falei sincera. – Estava passando por um processo complexo e difícil na minha vida pessoal, não é uma boa fase, mas felizmente já foi pior. Eu deixei que isso atingisse tudo na minha vida, deixei que afetasse minha saúde, minha vontade de viver, meu trabalho...- Disse correndo os olhos pela cozinha de modo saudosista. – Deixei que afetasse vocês. Ninguém está imune a isso e eu não fui uma boa profissional, não percebi. Charles estava certo e vocês também. Não queria mais estar aqui, não queria cozinhar, só queria estar na minha cama e me afundar nela tão profundamente até que desaparecesse. – Confessei e percebi algumas pessoas trocarem olhares. – Mas nada justifica. Eu me arrependo e sinto muito pelo modo como agi, o que falei ou não falei. Sinto muito. Vocês merecem respeito e merecem uma chef que esteja à altura de vocês. Charles tem sido assim há muito tempo. Bem antes do meu surto. Fico feliz em saber que estão em boas mãos.
- O que quer dizer? Não vai voltar para o restaurante? – Peter, o maître, quis saber.
- Eu vou, em algum momento. – Expirei profundamente. – Agora ainda preciso melhorar, preciso voltar a ser a chef que sempre fui, mas preciso me curar de outras coisas antes. Na hora certa eu volto. – Sorri fechado. – Mas não podia esperar mais para dizer essas coisas.

Sorri de canto, olhei mais uma vez para cada rosto ali e acenei, balançando a mão. Algumas pessoas responderam e então, dei as costas e saí pela mesma porta que havia entrado. A porta dos fundos do restaurante dava em um beco, que por sua vez, levava até uma área afastada e vazia da praia, no início, onde não havia areia, apenas pedras e uma mureta de ferro de proteção. Comecei a caminhar até lá devagar, até ouvir meu nome sendo chamado enquanto atravessava a rua.
- Sim. – Respondi antes de me virar, e quando o fiz, encontrei Charles. – Charles.
- Podemos falar? – Ele perguntou, ainda sério.
- Claro. – Assenti e nos dirigimos até a mureta, onde nos encostamos e ficamos observando o mar esverdeado se desmanchando em espuma quando batia contra a costa rochosa.
- Foi legal o que você disse lá dentro. – Ele falou depois de algum tempo em silêncio.
- Foi a verdade e o mínimo.
- Achamos que nos demitiria, ou fecharia o restaurante. – Confessou ele e eu ri abafado.
- Posso ter agido como uma babaca, mas não sou uma. – Olhei-o e sorri de canto. – Você tinha razão em tudo que disse. Sem tirar uma vírgula sequer. E se serve para alguma coisa, depois daquilo eu percebi que precisava de ajuda. Tentei me jogar na baía antes, mas isso é outro assunto. – Charles arregalou os olhos e abriu a boca, chocado, mas eu sorri e o balancei, apertando seu ombro. – Ânimo, Charles. As coisas acontecem.
- Eu...eu não fazia ideia...sinto muito. – Ele tentou dizer. – Se soubesse não teria...
- Isso não é necessário, está tudo bem. – Tentei amenizar. – Como disse, estou me tratando e vou ficar bem. As coisas se acertam.
- Como você consegue falar assim? Como consegue...
- Agora eu vejo uma luz no final do túnel, acho que é por isso. – Sorri mais uma vez, não queria preocupa-lo. – Além disso, nas últimas semanas eu meio que tirei muito peso das costas e vir aqui, falar tudo que falei para você e a equipe, foi libertador.
- Sentimos sua falta aqui. Não é a mesma coisa sem você. – Charles declarou sorrindo fraco.
- Não sei se já te disso isso, mas você é bom, Charles. – Falei olhando em seus olhos, tocando seu ombro. – Vejo isso em você. Você é forte, criativo, talentoso, tem liderança nata. Durmo mais que tranquila por saber que é você quem está no comando. Você é melhor que eu, não vai demorar para que todos percebam isso.
- ...- Ele riu balançando a cabeça negativamente.
- É a mais pura verdade e logo o Eau de Mer não vai comportar mais você.
- Isso é você avisando que vai me demitir? – Ele brincou.
- Só se eu fosse muito burra. – Nós dois rimos. – Eu até sou, mas não profissionalmente. Só estou fazendo previsões óbvias de um futuro próximo.
- Só tem lugar para um chef temperamental e com estrelismo no Eau de Mer, e é você. – Charles implicou franzindo o nariz.
- Charles, Charles. – Balancei a cabeça negativamente e o abracei sorrindo. – Vai descobrir, assim como eu, que não se pode fugir do destino.

🍁


- Não é chocante como o centro de Paradise sempre seja cinza e tenha cheiro de carbono e óleo diesel? – Oliver perguntou para Giovanni e para mim, depois de tomar um pouco mais de seu drink colorido. – Parece que estou no cenário de algum filme sombrio de herói.
- O nome disso é urbanização, Oliver. O progresso do mundo. – Giovanni respondeu sem muita empolgação. – Do alto das suas cabanas em ilhas exóticas você não enxerga, os macacos e onças pintadas atrapalham.
- É chocante que você seja o mais inteligente de nós, Giovanni. – Oliver uniu as sobrancelhas, incrédulo. – Onças pintadas? Vai dizer que há ursos polares na Antártica? Macacos no Centro de São Paulo? Que América e Estados Unidos da América são sinônimos?
- Será que vocês dois podem tomar seus drinks em silêncio como dois adultos normais? – Eu intervim, impedindo a resposta de Giovanni. – Isso devia ser uma tarde agradável.
- Não há chance de ter uma tarde agradável quando o Giovanni está por perto, . – Oliver bufou e Giovanni arremessou uma bolinha de guardanapo em sua direção.
- E o que vai fazer? Chorar? – Vanni continuou. – Posso colocar a mamãe na discagem rápida para você.
- Giovanni! – Eu o repreendi. – Quando você se tornou o Oliver? Por favor, é um homem de quarenta anos.
- Trinta e cinco. – Ele ergueu um dedo, corrigindo-me.
- Em dois mil e treze você tinha essa idade, não é? – Oliver implicou e Giovanni o encarou sério.
- Você esqueceu como os números funcionam? – Meu irmão mais velho resmungou, depois voltou-se a se concentrar em sua bebida. – Depois, o burro sou eu.
- Giovanni fez aniversário em fevereiro, Oliver. – Eu o lembrei.
- Não. Claro que não. Eu não estava aqui. – Ele respondeu tocando o peito.
- Você estava em Jalisco, aproveitando o sol do outro hemisfério. – Vanni rolou os olhos.
- Ah. – Oliver encarou o nada, depois pareceu encontrar a lembrança em sua cabeça. – Mas...se eu não estava aqui, de quem foi o aniversário que comemoramos naquele restaurante temático horrível? Que só tocava músicas sobre Nova York e serviam comida de rua?
- . – Giovanni e eu respondemos ao mesmo tempo, ambos com expressivas caretas de reprovação.
- Isso foi em maio. – Vanni lembrou. – Depois ele quis que fossemos a um jogo de hockey no gelo, e no final da noite, ele vomitou no meu carro.
- Obrigada, Giovanni, por me garantir outras lembranças sobre aquela noite, como se as que já tenho não fossem vergonhosas o suficiente. – Bufei remexendo minha bebida com o canudo.
- A culpa não é minha, é do seu marido. – Giovanni uniu as duas palmas das mãos e apontou para mim, sentada a sua frente.
- Já que mencionamos o marido. – Oliver começou a falar depois de terminar seu drink. – Eu posso tocar naquele nosso assunto secreto? – Sussurrou, inclinando-se sobre a mesa. Giovanni e eu nos entreolhamos confusos. – O que é? Sabemos bem do que estou falando. – Oliver sorriu como uma criança que acaba de descobrir onde os doces estão escondidos.
- Não, na verdade não. – Giovanni e eu dissemos ao mesmo tempo, mais uma vez.
- Ah, qual é!? – Oliver protestou. – O vocês sabem quem...o outro...
- Outro? – Giovanni franziu o cenho.
- É, sabe...aquela coisa proibida...
- Que coisa proibida? – Fora minha vez de perguntar.
- . – Oliver falou, entediado com nossa dúvida.
- Oliver! – Eu o repreendi e Giovanni desviou o olhar.
- O que é? Estamos só nós aqui. Reunião de irmãos. O clube. Nosso clube secreto.
- E? Isso é um assunto pessoal. – Falei tentando não parecer muito culpada, o que surpreendentemente foi fácil.
- Nós vamos fingir que ninguém quer falar disso? É sério? – Oliver bateu com os dois dedos indicadores na mesa, olhando para Giovanni e eu. – Vamos fingir?
- Não quero ser desagradável. – Giovanni ergueu a mão, pedindo fala. – Mas eu concordo com Oliver. Só dessa vez.
- Certo, quando estiverem a sós os dois, falem sobre isso. – Disse de modo ríspido, cruzando os braços sobre a mesa.
- . . . Qual é o problema? Somos seus irmãos mais velhos. – Oliver tentou me abraçar de lado, esticando um braço até que alcançasse meus ombros. – Queremos saber tudo sobre seu novo namorado.
- não é...- Retorqui, mas assim que me lembrei de onde estávamos, baixei o tom de voz. – não é meu novo namorado! Eu sou casada!
- Okay. É você quem diz. – Giovanni apertou os lábios e encarou sua bebida.
- Não comecem!
- Está aí uma coisa que não entendo em vocês. – Oliver recostou-se de modo mais confortável na cadeira. – Vocês complicam demais as coisas.
- Complicar demais? – Arqueei uma sobrancelha incrédula. – Isso significa não ser displicente. Ser responsável.
- Com quem exatamente? – Fora vez de Oliver arquear uma sobrancelha. – Você está apaixonada por outro homem. – Tentei protestar, mas antes que conseguisse abrir a boca, Oliver já tinha seu dedo apontado para o meu rosto. – E não ouse negar. Somos gêmeos, eu sei. Você está apaixonada por outro homem, que pelo que sei, é livre e desimpedido. – Ele continuou. – Enquanto perde tempo com , que perde tempo com você, uma mulher que não o ama.

As palavras de Oliver bateram forte em mim, como um soco no estômago.
- Mas eu amo o .
- E eu amo você e o Oliver, mas nem por isso deixei de me apaixonar pela Sue. – Giovanni disse usando seu melhor tom patriarcal e austero, me encarando como se pudesse ler minha alma.

Fiquei em silêncio.

🍁


Em junho o clima estava ótimo, era verão e o balneário estava movimentado e cheio de turistas com suas roupas de banho e máquinas fotográficas. Era sábado e todos restaurantes, bares, cafés e qualquer outro estabelecimento comercial estava lotado. O trânsito era uma confusão pior que nos dias normais, na beira da praia estavam estacionados trailers, motorhomes e dezenas de carros de cores e modelos mais variados.
Paradise era uma cidade grande em extensão, mais muito polarizada. Seu centro cinza, a selva de concreto concentrava o foco da urbanização. Quando éramos adolescentes, todas festas boas e coisas interessantes para fazer ficavam no centro. Os mais ricos viviam em arranha céus, acima das nuvens de poluição do bairro e dos inúmeros moradores de rua e da violência urbana. No centro ficava o porto, as docas, os grandes armazéns, e na faixa de mar que sobrava, uma praia poluída por minério de ferro, com pequenas pedras no lugar da areia.
Alguns quilômetros ao sul, cruzando a ponte, quanto mais ao sul, mais azul o céu ficava e mais limpo o ar. As praias eram mais extensas com areia quente e dourada, a água era azul e um pouco mais quente, com palmeiras ao redor de toda orla. Não haviam prédios com mais de três andares e cinquenta anos na orla. Sendo justa, não haviam prédios altos e modernos em lugar nenhum. Aquela área da cidade era uma península, ligada ao continente por uma ponte, na parte do centro, e com as montanhas por terra.
Os moradores eram os mesmos desde sempre, as casas também, todos terrenos tinham o mesmo espaço e a única coisa que fazia com que aquela parte da cidade não parecesse um filme dos anos setenta, eram as construções na parte mais alta da cidade. Casas modernas, exatamente iguais e quase sempre compradas por novos moradores, vindos de outros estados. Ali morávamos e eu.
Estas casas eram quase sempre de cores neutras, com jardim bem feito, fachada de vidro e exibiam uma arquitetura minimalista e cara. O resto da península era de casarões antigos, sobrados e casas de praia, com cerca de madeira, jardim amplo e antigas. Aos poucos, pela qualidade de vida, baixa densidade demográfica e segurança, aquela parte da cidade se tornou a zona mais nobre e agora, a mais cheia de turistas e barulho durante os verões.
Devia ser bom para jovens e para solteiros, mas não nos encaixávamos em nenhuma das categorias. Naquele sábado, teria tarde de poker com o pessoal do trabalho e eu, ainda afastada do Eau de Mer, que estava absurdamente lotado, resolvi que seria uma boa ideia tentar algo diferente. Depois de travar uma verdadeira luta para sair da cama, decidi que queria fugir da repetição de meus ciclos e depois da conversa com a terapeuta e com Oliver e Giovanni, estava curiosa para ficar ao lado de mais uma vez. Queria analisar o que sentia, pensar nos efeitos que a presença dele me causava, estando consciente para entender o que sentia.
Para evitar qualquer momento íntimo demais ou outra crise de consciência e fuga, estava levando Dom comigo. Não faria mal, e desde o último encontro dos dois, aquela ideia não deixava minha cabeça.
- Seja educado, está bem? – Pedi mais uma vez, conforme nos aproximávamos de , sentado, distraído à sombra de uma árvore qualquer, jogando pão para os gansos no lago.
- Eu sei, mãe. – Dom bufou, rolando os olhos. – Você já disse umas mil vezes.
- Eu convenço pela repetição. – Pisquei e ele bufou de novo.

Nos aproximamos de devagar e quando estávamos perto o suficiente, ele pareceu nos notar e sorriu. Meu dia ganhou mais cor.
- . – tinha o semblante leve, os cabelos pareciam ter sido cortados recentemente e a barba estava feita. Ele usava uma camiseta vermelha e aparentava estar mais forte, devia ter engordado alguns quilos. – Dom. É bom ver vocês.
- É sim. – Eu assenti sorrindo e Dom acenou com uma mão. – Como você está? – Perguntei, aproximando-me mais um pouco.
- Bem, eu acho. – ainda sorria. – Consigo fazer a barba sozinho agora. Logo vou conseguir andar por aí sem ajuda e quem sabe jogar futebol. – Brincou, piscando para Dom.
- Você ainda joga futebol? – Dom perguntou boquiaberto, e eu apertei seu ombro, numa tentativa falha de repreendê-lo.
- Estou um pouco enferrujado, mas isso é uma coisa que vem daqui e daqui. – disse, tocando com dois dedos sua própria testa e depois o peito. – Se não tirar desses lugares, nunca esquece.
- Ainda estamos falando sobre futebol? – Tentei brincar.
- Isso é sobre qualquer coisa que se goste na vida. – olhou para mim de modo significativo. – Se não tirar da cabeça e do coração, não importa quanto tempo passe, não muda.

Engoli em seco e desviei o olhar rapidamente, sabia do que ele falava. Ao menos achava que sabia.
- Quando você melhorar, a gente podia jogar. – Dom se desvencilhou de mim, ocupando o lugar vago ao lado de , no banco de ferro onde se sentava.
- Não precisamos esperar, eu ainda consigo fazer ótimos arremessos. – argumentou, concentrando-se em Dom.
- Eu não sei não. – Dom fez careta, apontando com o olhar a bengala que usava.
- Ah, isso? – Ele acompanhou seu olhar e ergueu o objeto. – Você se espantaria com o estrago que posso fazer, mesmo com essa coisinha aqui.
- Você devia tentar hockey, então.
- Você e seu pai estão recebendo alguma coisa da liga para fazer propaganda, não estão? – sorriu.
- Você não gosta de hockey? – Dom arregalou os olhos e riu alto.
- Eu sou tradicional, gosto do bom e velho futebol. – falou saudoso. – Sou da época em que todo mundo da cidade torcia pelos Sharks e queriam jogar no time. Muito antes de termos vencido o St. Louis Rams no super bowl de dois mil e dois? Vinte a dezessete. Ótimo jogo aliás.
- Está brincando? – Dom estava chocado e animado, e eu, feliz por estar ouvindo , e interessada em suas histórias.
- Não mesmo. – Ele riu, apoiando-se de forma mais confortável ao banco. – Eu tinha acabado de assinar com o Paradise Sharks e estava no time, era um sonho jogar no time da casa. – Ele começou a contar. – Talvez tenha sido um dos melhores momentos da minha vida.
- Espera. – O interrompi de modo brusco. – Você jogou num time de futebol profissional? Você venceu um super bowl?
- É, . – franziu o cenho. – Achei que soubesse.
- Eu...- Não consegui terminar.

Sabia que jogava quando estávamos na escola, depois, na faculdade também, mas nunca soubera de seu passado brilhante. Era estranho que o homem que havia morado em meus pensamentos por quinze anos fosse diferente do real. Não em tudo, mas em algumas coisas. Nunca soube sobre a vida profissional de , o que não era uma surpresa, principalmente considerando que antes de meu retorno, tudo sobre a cidade era bloqueado da minha vida.
Às vezes me flagrava pensando sobre como vivia, o que fazia antes de adoecer, como seria sua vida depois, se se recuperasse, mas tudo sempre fora tão abstrato...
- Você tem tipo, o anel? – Dom voltou a falar, empolgado.
- Tenho. Tenho o anel e toda a parafernália. – contou saudoso. – Foram bons tempos.
- Eu não acredito! Mãe, por que nunca me disse que seu amigo era um jogador de futebol de verdade? – Dom me olhou.
- Eu não...não sabia. – Confessei ainda atordoada e sorriu de canto.
- Eu não acredito no que estou vendo aqui! – Uma voz empolgada nos atravessou. – Grande ! – Matt Shay me abraçou pela cintura, de repente. – É bom ver você. – Sussurrou ele em meu ouvido.
- E aí! – o cumprimentou com um sorriso de canto e um aceno de cabeça.
- E olha o que temos aqui, sargento Dom . – Matt cumprimentou Dom com um abraço. – Já cresceu desde a última vez que te vi. Logo vai estar pronto para a prova da polícia.
- Por favor, querido, não dê ouvidos ao Matt. – Pedi, tentando disfarçar meu estado, ainda atônita.
- Que isso! Pode me dar ouvidos sim. Eu sou bem legal e tenho conselhos muito responsáveis. – Matt rebateu.
- O tempo passa, mas Matt Shay segue iludido. – o provocou.
- Você sabia que o já ganhou um super bowl? – Dom indagou, ainda super animado e chocado com a revelação.
- Se eu sei? – Matt fez um barulho engraçado com a boca e rolou os olhos cenicamente. - Eu estava lá. Assisti ao jogo, assisti todos os jogos. – Matt contou, mas sempre buscando o olhar de e sorrindo de forma contida.
- Uau! Isso é muito legal! – Dom riu.
- E o Matt ainda acha que vai te convencer a ser policial só por te deixar ver a viatura? – zombou.
- Olha, eu posso não ter um anel, mas eu tenho uma viatura muito maneira. Eu sou a lei. – Shay se defendeu.
- Você está de viatura? – Os olhos de Dom brilharam quando ele encarou Matt, que assentiu. – Eu posso dar uma volta?
- Está vendo, ? Quem precisa de um anel?
- Dom...- Tentei chama-lo.
- Mãe, por favor. Da outra vez eu não pude dar uma volta. – Dom pediu, projetando o lábio inferior.
- Matt acabou de chegar, querido.
- Não é um problema. – Matt apoiou as mãos aos ombros de Dom. – Eu quero é ficar longe desse metido. – Apontou com o queixo para , que sorriu. – Vamos, Dom. Vamos tirar onda por aí.

Dom não pensou duas vezes, apenas acenou e se foi, quase que saltitante, ao lado de Matt Shay, que felizmente, tinha a sensibilidade de disfarçar qualquer momento constrangedor entre nós, relacionado ao meu estado de saúde.
Gastei alguns segundos os observando partir, até que percebi os olhos de sobre mim, lembrando-me de que ainda estava ali corporalmente.

Dê play na música e coloque para repetir se necessário for: I Don’t Deserve You – Plumb



- Ele parece bem. Dom. – comentou e eu assenti.
- Ele gostou daqui e se adaptou bem. - Falei e ficamos em silêncio por mais alguns instantes, até que eu ocupasse o lugar onde antes estivera Dom. – Às vezes penso que não conheço você. – Confessei encarando o chão. – Jogador de futebol.
- É. – riu abafado, e me imitou, baixando a cabeça. – Mas já faz muito tempo. – Ele enfatizou.
- Como...por que ninguém nunca disse nada? Por que nunca me disseram nada? – Quis saber, erguendo o rosto e buscando seu olhar.
- Não sei responder a segunda pergunta, mas quanto a primeira...- respirou profundamente. – Ninguém fala disso desde que fiquei doente. Acho que talvez se sintam culpados, envergonhados...eu não sei. Como se fosse um tipo de tabu. Não vamos falar com ele sobre o que ele poderia ter sido. – finalizou sua imitação com uma risada amarga.
- Eu sinto muito. – Falei e ele apertou os lábios. – Desculpe.
- Tudo bem. Não precisa fazer isso, eu...eu já aceitei. – sorriu fraco.
- Acho que de qualquer forma, continua como se não te conhecesse. – Repeti sorrindo, tentando amenizar um pouco o clima. Sentia-me mal por , queria abraça-lo e dizer o quanto gostaria de ter estado ao seu lado quando aquelas coisas aconteceram.
- Não entendo. – Disse ele, voltando a me olhar.
- Eu acho que acabei de perceber que não sei nada sobre você. – Confessei sorrindo. – Conheci através dos meus irmãos e isso já faz muito tempo. Mas eu era uma adolescente...e sabe como são essas coisas, cheia de expectativas, se apaixonando por invenções, idealizações perfeitas e fantasiosas.
- Pode me conhecer agora. – Disse ele, segurando minha mão de repente.
- Seria um prazer. – Sorri grande e torceu o canto dos lábios num sorriso e ficamos em silêncio por mais alguns instantes. – Então...- Ri fraco, interrompendo nosso contato visual. – Você era famoso.
- Eu não diria isso. – sorriu sem graça. – Tá, legal. Talvez um pouco. – Admitiu sorrindo leve.
- O que aconteceu depois da escola? – Perguntei curiosa.
- Depois da escola... – Ele repetiu e pareceu pensar um pouco antes de responder e voltou a encarar o chão. – Eu fui pra faculdade. Depois fui anunciado como a mais nova contratação dos Sharks e no ano seguinte vencemos o super bowl. Dois anos e meio depois, comecei a me sentir mais cansado e mais fraco, não importava quanto exercício fizesse ou o quanto descansasse. – Enquanto contava, a feição de se escurecia. – Até que um dia, no primeiro lance do primeiro jogo dos playoffs, cai em campo e não conseguia me levantar. – riu amargo mais uma vez. – Depois tudo aconteceu absurdamente rápido enquanto o tempo parecia passar devagar demais.
- Deve ter sido difícil. – Falei e fora minha vez de segurar sua mão, torceu os lábios num sorriso educado e entrelaçou nossos dedos, sem me encarar.
- Tem sido difícil. – Ele corrigiu. – Mas as coisas tem melhorado.
- Posso perguntar uma coisa? – Pedi depois de alguns instantes e ele assentiu. – Quando deixei Paradise você estava noivo, porque não se casou? Que-quero dizer, é que...é que eu sempre soube que você rompeu depois que ficou doente. – sorriu.
- Eu estava noivo, mas...não tinha certeza se era o que queria, então adiamos. – Contou ele, deixando-me perplexa. – E ano após ano, adiávamos. Sarah era boa, mas não para mim, eu acho.
- Espera, você...você está dizendo que não se casou? Que estava noivo, mas que não se casou? Nunca pensou realmente nisso? – Questionei exasperada.
- Não. Acho que cedemos a pressão da família, eu não sei. – deu de ombros. – As coisas foram acontecendo, primeiro a faculdade, depois a carreira. Não quis dar um passo tão grande sem pensar bem. Depois que adoeci, não podia pedir para que ela ficasse.
- Por que você não me disse isso naquele dia? Quando perguntei se você a deixaria por mim se fosse o contrário?
- Isso muda alguma coisa? – me olhou.

Não respondi.
Ele tinha razão. Como o passado tinha sido não influenciava no nosso momento atual. Talvez se eu tivesse esperado um pouco, se tivesse mantido qualquer ligação com a cidade e com as pessoas...tudo poderia ter sido tão diferente...
Não conseguia não me odiar por pensar no quanto havia perdido por minha própria culpa. Podia ser diferente, poderia ter estado ao lado de durante seus piores momentos, não magoaria , talvez nem o conhecesse...mas em consequência disso, Dom não existiria e aquela ideia me causou um intenso desconforto.
- Já pensou em como a vida é irônica? – atraiu minha atenção outra vez. – Se tivéssemos tido uma chance de conversar antes, antes de você ir para Nova York, talvez tudo tivesse sido diferente. E se talvez, durante alguma viagem com o time eu tivesse entrado no bar certo, ido ao restaurante certo em Nova York, nós nos encontraríamos lá.
- Será que isso é um sinal do destino? Um sinal de algo que não seja para acontecer? – Pensei alto e riu pelo nariz.
- , depois de todas as chances que o destino nos deu e desperdiçamos, depois de cada corredor sem saída que levava ao mesmo lugar. Acha mesmo que tudo isso era um sinal negativo? – Eu o olhei. – Meu antigo treinador costumava dizer que se você interrompe o curso de um rio, ele vai encontrar outro caminho até o mar.
- É engraçado...eu...alguém me disse algo parecido. – Lembrei-me.
- Eu aprendi a ter fé durante esse tempo aqui, com nada mais do que o presente para me agarrar. – Disse ele. – Talvez, se tudo tivesse acontecido como achávamos que iria...se eu tivesse me casado com Sarah, poderíamos nos encontrar em Nova York, ou aqui, despretensiosamente...mas independente de como tenha sido, as coisas aconteceram dessa forma e eu acho. – Ele sorriu. – Acho não, tenho certeza, que esse rio vai encontrar seu caminho até o mar.
- e eu...- Tentei falar.
- Foram anos sem qualquer esperança e eu suportei, o quanto acha que posso aguentar enquanto vejo uma luz no fim do túnel?



13

- É verdade, eu juro. – ria enquanto contava. – Houve uma entrega da chave da cidade, desfile pelas ruas. Meu rosto esteve estampado em cada outdoor de Paradise, a cada dez quilômetros.
- Eu não acredito que Giovanni e Oliver nunca fizeram essa fofoca útil. – Eu tentava recuperar o ritmo da minha respiração, afetada pelas risadas com a história de quando o time de futebol com sede em Paradise havia vencido o Super Bowl.
- Acho que Giovanni teria contado se tivesse tido chance. – me alfinetou de forma sutil e eu o encarei com as sobrancelhas erguidas. – Só estou dizendo. – Ele piscou.
- Eu acabei de receber uma bronca? – Sorri fraco, cruzando as pernas e virando o corpo, ficando de frente para .
- Eu não seria tão atrevido. – Ele piscou e sorriu. – Mas é que Giovanni é meu amigo, sei que ele sentia falta de você. Sempre falava disso, sobre como estava orgulhoso do seu sucesso na selva de pedra, com seus restaurantes famosos. – Contou ele. – Seu marido bonitão...
- Eu não...Giovanni nunca me disse nada disso. – Sorri fraco, depois de empurrar pelo ombro por causa do olhar sugestivo que me direcionara ao falar do meu marido. Estava também surpresa com aquela informação e com a repentina participação de nos problemas da família. – Mas por que está me dizendo isso agora? – Indaguei depois de alguns instantes em silêncio. – Giovanni e eu estamos bem, melhores que nunca.
- Eu sei disso, ele me contou da última vez que veio aqui. – assentiu com a cabeça. – Eu fico feliz em saber, aliás.

Houve um breve silêncio, onde tudo ouvido eram as conversas distantes de outros pacientes que tomam sol, ou o som da água sendo remexida quando os patos mergulhavam suas cabeças.
- Você acredita mesmo nisso de que tudo é traçado? Que nosso destino é conhecido por alguém por aí, no universo? – Perguntei pensativa e me encarou um pouco confuso, com uma pequena ruga entre suas sobrancelhas.
- Eu acho que a vida sempre nos ensina alguma coisa. – Falou de modo despretensioso, encarando o lago e arremessando na água uma pedrinha que não o vi pegar. – Algumas coisas acontecem e podemos não entender no momento, mas depois elas se explicam sozinhas. As coisas acontecem por uma razão e eu acredito muito que a vida, Deus ou seja o que for que acredite, sempre nos dá chances para fazer a coisa certa. O que é seu sempre vai encontrar um caminho até você.

Antes que pudesse responder, Matt e Dom estavam de volta sorridentes e Dom tinha a camisa um pouco suja com o que parecia ser chocolate. Os dois vieram até nós, felizes e conversando como duas crianças no intervalo da escola.
- Mãe, nós fomos até a delegacia, depois passamos na praia, depois tomamos sorvete. – Dom contou agitado, enquanto Matt cumprimentava . – O Charles estava lá.
- Não na delegacia, eu espero. – Sorri, abraçando Dom pela cintura.
- Não, na praia. – Ele respondeu rápido.
- Charles? – me dirigiu um olhar curioso.
- Meu sous chef, é brilhante. – Contei, ajeitando os cabelos de Dom. – Tem tomado conta do restaurante enquanto descanso.
- E cozinha que é uma beleza. – Matt complementou.
- Espera. – Eu o encarei chocada. – Não me diga que foi ao meu restaurante sem eu estar lá.
- Foi uma coincidência, mas está aprovadíssimo. – Matt ergueu o polegar.
- Com uma coincidência ele quer dizer encontro. – entregou e Matt baixou a cabeça, envergonhado.
- Um encontro? – Eu ri. – Bom, deve ter sido dos bons. O Eau de Mer é bem romântico.
- Não foi bem um encontro, o exagera. – Matt tentou explicar. – Era um jantar com uma colega do trabalho.
- Um jantar de policiais em um restaurante francês chique. – provocou, cruzando os braços sobre o peito. – O que houve com o café e as rosquinhas?
- Você sabe que isso é um estereótipo, né? Ninguém come rosquinhas na delegacia. – Matt defendeu afetado.
- Espera, você acha o meu restaurante chique? – Perguntei, voltando-me para , que ergueu os ombros. – Você disse, disse restaurante francês chique.
- Eu só ouço boatos, . Só boatos. – estalou a língua, sorrindo de canto.
- Meu pai. – Dom disse de repente.
- Não, não acho que seu pai tenha contado. Quando esteve aqui só falaram de futebol e hockey. – Sorri distraída, ainda com olhos presos a expressão sarcástica de .
- Não, mãe. – Dom tocou meu ombro, chamando minha atenção. – É o meu pai. Bem ali. – Mostrou, apontando com um dedo a figura de a alguns metros de nós.

Fiquei de pé pelo susto.
A última pessoa no mundo que esperava ver naquele hospital era , meu marido. Minha mente fervilhou ao pensar nas milhões de razões que poderiam ter o trazido até ali. Talvez tivesse descoberto sobre e eu, talvez de alguma forma ele soubesse e estivesse ali a nossa procura, para acabar de vez com tudo.
Estava de pé, empalidecida, segurando com firmeza os ombros de Dom, sentindo o olhar quente e agitado de Matt e o olhar defensivo de , que corria de mim para . Nós três estávamos assustados com aquela aparição, embora talvez, por razões diferentes. estava deixando o interior do hospital sorrindo, parecia ainda não nos ter notado, mas ao seu lado estava Joy, a terapeuta de e única mulher capaz de me despertar ciúmes. Franzi o cenho ao reconhece-la, e toda ansiedade e medo que sentia desapareceram enquanto me perguntava o que diabos os dois faziam juntos.
Dom se desvencilhou de mim e correu até o pai, pegando-o completamente de surpresa. Graças a proximidade, pudemos ver Joy prender a respiração e arregalar os olhos, pareceu a imitar.
- Agora deu ruim. – Matt assoviou, preparando-se para apartar uma possível briga.
- Oi. – me cumprimentou com um sorriso confuso ao se aproximar. – O que está fazendo aqui?
- O que você está fazendo aqui? – Indaguei séria.
- Eu dei uma carona para a Joy e resolvi aproveitar e ir ao banheiro. – Ele se explicou, mas meu semblante não se alterou.
- Claro. Joy. – Assenti com olhar duro.
- E aí, cara. – Matt inclinou-se para apertar a mão de .
- Bom ver você. – respondeu, sorrindo para Matt. - . – Cumprimentou educado.
- . – ergueu o queixo, depois, com ajuda de sua bengala, ficou de pé, ao meu lado. – Aproveitando o final de semana!?
- É, acho que você entende. – respondeu, alinhando os ombros e baixando as sobrancelhas rapidamente, enquanto o encarava.
- Não tanto quanto gostaria, mas eu sinto que as coisas vão melhorar. – devolveu, ele mantinha o queixo erguido, olhos estreitos e parecia analisar com cuidado, sério. – Tenho sentido bons ventos para o meu lado.
- Aposto que sim. – Meu marido estalou a língua na boca, de modo irônico. - Não sei se contaria com isso, sabe como funcionam os ventos. – pareceu adotar a mesma postura combativa. – Em um minuto eles parecem estar a favor, e no outro...
- Eu sou um bom marinheiro, você ficaria surpreso com o tanto de tempestades que enfrentei. – devolveu, aproximando-se de um pouco mais. – Mais ainda com o número de vezes que passei delas sem despentear o cabelo.
- Já estou velho demais para qualquer coisa me pegar de surpresa. – torceu o canto dos lábios em um sorriso de desdém, aproximando-se também. – E ocupado demais para me surpreender com esse tipo de coisa.

E ali estava ela, brotando repentinamente, sem qualquer aviso ou gatilho, o espírito de competição entre e . Matt e Joy estavam confusos, Dom entretido com qualquer coisa aleatória perto do lago, enquanto os dois homens se encaravam de olhos estreitos.
- Estou vendo que já consegue ficar de pé. – tornou a falar, mas não em um tom amistoso.
- Já ouviu aquele ditado, sobre fazer você mesmo? – respondeu sorrindo de canto, provocador.
- Para isso é preciso bem mais do que só ficar de pé, não sei se ainda se lembra como é.
- Quer me ajudar a lembrar? – e estreitaram um pouco mais a distância entre os dois, para nosso total espanto.
- Acho melhor irmos embora. – Sentenciei, tentando chamar a atenção deles. – Se não tiver mais nada o que fazer aqui, . – Enfatizei olhando para Joy, ainda estava irritada com aquela situação toda, embora não soubesse bem o que exatamente me irritava.
- É, acho que o horário de visitas até acabou. – Matt concordou.

Toquei sutilmente o braço de e ele enfim me olhou, afastou-se de e voltou a se sentar, com Matt ao seu lado. procurou meu olhar, depois buscou o de sua nova amiga, que sorriu para ele de modo tenro, afagando seu ombro. A troca de olhares entre os dois me despertou algo estranho, diferente, não era exatamente ciúmes, estava mais para um tipo de sensação. Pareciam ligados, Joy sorriu de canto quando a olhou e depois os dois me encararam, como se esperassem minha reação.
- Eu só...só vou me despedir do e Matt. – Avisei apontando para trás. – Dom, querido, venha se despedir, estamos indo. – Chamei ao me aproximar dos dois que estavam sentados.
- Está tudo bem? – Matt foi o primeiro a perguntar.
- Não é para mim que deve fazer essa pergunta, Shay. – Torci os lábios, apontando com o olhar.
- Tchau, tio Matt. – Dom se aproximou, abraçando Matt sem muito jeito. – A gente pode fazer isso de novo outro dia?
- Claro, carinha. É só ligar. – Matt sorriu aberto. – Não para a polícia, para mim.
- Bom ver você, Dom. – sorriu e apertou o ombro de Dom. – Na próxima te conto mais sobre o futebol. – Disse ele e Dom o abraçou, pegando-o desprevenido. – Tchau. – sussurrou sorrindo e a cena dos dois aqueceu meu coração brevemente.
- Obrigada por essas coisas com o Dom. – Sorri para Matt e ele sorriu de volta, dando de ombros.
- Você volta? – perguntou quando Dom se afastou de nós, seu olhar parecia preocupado.
- Vocês dois precisam parar com essa rixa idiota. – Reclamei séria. – Não tem qualquer cabimento.
- Ter tem, você sabe. – maneou a cabeça. – Mas você volta?
- Sempre volto. – Respondi e ele sorriu com os olhos. – Não sorria, eu estou irritada com você também. Adeus.

acenou, depois me assistiu dar os passos até .
- Vamos agora. – Pedi sem muito jeito e , que já havia se despedido de Joy, assentiu. – Adeus, Joy.
- Hey, . – chamou antes que nós nos afastássemos, fazendo-nos girar para encará-lo. Sobre ele estavam três olhares chocados e o olhar incrédulo e impaciente de . – Cuide muito bem dela, ela vale a pena.
- Da minha esposa? – devolveu, enfatizando o pronome possessivo. – Pode dormir tranquilo, é o que eu faço.

🍁


Participação Especial: Rena como Uyara Houston



- Então, , como foi sua semana? – A psicóloga, Uyara, cruzou as pernas ajeitando a postura na cadeira ao meu lado.

Pensei um pouco antes de responder, tanta coisa havia acontecido que era difícil decidir o que contar, por onde começar. Depois de respirar fundo e tentar limpar meus pensamentos, pensei ter encontrado o fio da meada.
- Acho que surpreendentemente boa. – Sorri, relaxando no divã. - Acho que pensei sobre tudo e consegui alguma força para tratar assuntos pendentes. – Confessei ainda pensativa. - Embora difícil, estou conseguindo sair da cama todos os dias. Não voltei ao trabalho ainda, mas fui ao restaurante, me desculpei pelo meu comportamento com a equipe, agradeci pelo comprometimento... – Hesitei tentando me lembrar de todos os detalhes importantes o suficiente para serem mencionados. - Conversei com Charles, meu sous chef, é um bom…
- Que acontecimento? - Uyara me interrompeu.
- Ah, claro. – Lembrei-me que ainda não havia contado tudo sobre aquele fatídico dia. - No dia do meu colapso, meu sous chef tentou falar comigo sobre a equipe estar preocupada, sobre eu não ser mais a mesma. Tive um ataque de raiva, acho que me senti acuada e culpada por terem percebido que eu estava mal, não sei bem. – Expirou ainda sentida pela forma com que havia reagido. - Me irritei, briguei, o acusei de tentar me boicotar para tomar meu lugar e atirei o avental nele, dizendo que ele estava sendo promovido. Não voltei lá até essa semana.
- Você concorda com o fato de acharem que não é mais a mesma? – A psicóloga olhou para mim, parecia me analisar e eu hesitei por um instante.
- Sim. – Sorri nervosamente. - Eu estava fora de controle. Cozinhar é mais do que só um trabalho, é afeto, é amor, dom. Estava sendo irresponsável, tratando a cozinha como um fardo. Por isso ainda não posso voltar, não enquanto não estiver pronta e com vontade de cozinhar.
- E não há o menor problema nisso. – A psicóloga voltou a falar. - Você precisa voltar quando sentir que está preparada, e então deixará de ser um fardo e voltará a ser amor, deixe que as coisas fluam de maneira natural. - Comentou ela e eu assenti. - Quais foram os assuntos pendentes que criou forças para tratar, além do restaurante?
- Saí com meus irmãos, foi bom. – Listei enquanto refazia mentalmente meus passos durante a semana, tentando me lembrar dos fatos relevantes, com os olhos presos ao teto. - Depois resolvi ver o . – Contei e me ajeitei no divã, sentando-me. Aquela era a parte que queria realmente compartilhar, que precisava contar para que a psicóloga me ajudasse a entender. - Sabe, eu percebi que minha vida é um ciclo e que eu tenho repetido este ciclo várias e várias vezes. Eu fujo do , fico longe e então algo acontece que me leva direto para ele. Cedo de novo e fico ao seu lado, me abro para o que sinto, depois a culpa me corrói e eu o abandono, parto seu coração. – Contei, falando tão rápido que duvidava que ela conseguia me entender. - Eu pensei sobre o que disse, sobre o que tenho feito para mim e…e de algum modo parece que…- Hesitei mais uma vez, depois tossi limpando a garganta. - É que eu andei pensando nas decisões que tomei que envolvessem o , mas só consegui pensar em coisas banais, como em férias, decisões pequenas sobre a nossa casa ou onde passaríamos o feriado de quatro de julho, quando ele poderia sair para jogos e quando não. E eu sei que são decisões normais de todo casal, mas é que talvez a única grande decisão tomada juntos e em consenso fora a de não ter mais filhos depois de Dom e isso tudo ainda é muito confuso para mim. Ao mesmo tempo que penso isso, penso que ter ficado ao lado dele também foi uma escolha minha. Mas decidido por comodidade e não por realmente querer, como me casar ao ficar grávida e essas coisas. Não quero também que pareça que não o amo, é meu parceiro, amigo, companheiro e eu o amo profundamente. – Declarei, desesperada por compreensão e por uma resposta.
- Mas também ama o ? – A psicóloga esfregou as mãos nas coxas.
- Eu sempre amei. – Confessei com um sorriso leve. - Sempre foi o e isso nunca mudou. Mas assim como fiz essa reflexão viajada sobre o , também fiz sobre o . O me faz viver e decidir tudo de modo inconsequente. Tudo que fiz em relação a ele foi porque eu quis, mas esse sentimento desperta em mim algo irresponsável, sem pensar em limites, vivendo pelo momento. – Falei e busquei o olhar da terapeuta. - Até pensei se não seria o caso de…sabe? Nenhum dos dois ser bom para mim.
- Eu não consigo entender a relação do ser irresponsável, com sem pensar em limites e viver pelo momento. – A outra comentou enquanto gesticulava com as mãos. - Por que elas estão relacionadas para você?
- Quando eu reajo as coisas, quando penso e tomo atitudes que envolvem o , eu não penso nas consequências ou em qualquer outra coisa. Não pensei no meu filho, não pensava em nada, apenas no momento e no que sentia. me faz ser impulsiva e tomar decisões importantes de modo inconsequente e inesperado. Quando ele está na equação eu tenho certeza de que quero estar ao seu lado. E aí, toda decisão que penso em tomar e que o envolve é unicamente porque eu queria que fosse assim, sem considerar ninguém mais, apenas a minha vontade – Narrei. - O que também era estranho, me via agindo como uma adolescente outra vez. Principalmente porque mais da metade de tudo que decidi e pensei, nem mesmo interferiu, porque não conseguia falar.
- , acho que precisa assumir algumas responsabilidades que te cabem. - Uyara respirou fundo antes de continuar. - Não se trata do , se trata de você. Você tende a querer viver o momento, porque nunca viveu. Não pensa nos limites, pelo fato de em todo momento precisar pensar, o filho, a casa, o marido. Tudo que foi reprimido dentro de você nos últimos anos, parece estar se revelando, e ao meu ver, a questão toda é você estar perdendo o controle e não gostar. – Sorriu ela, enquanto eu ouvia tudo completamente pasma. - Me diga, porque é ruim viver o momento? Por que é errado, aos seus olhos, não viver o que tem vontade?
- Por que eu não sou uma adolescente, tenho um filho, responsabilidades. – Respondi depois de alguns instantes, completamente desconfortável com as indagações dela e sem saber o que responder.
- Viver o momento não tira suas responsabilidades, o que te faz pensar que tira?
- As minhas decisões? – Respondi um pouco nervosa, ela parecia não entender do que eu estava falando.
- É o que você acha? – Devolveu a psicóloga e eu apenas a encarei, paralisada.
- Talvez você tenha razão. - Expirei pesadamente alguns minutos depois, encarando os pés. - Talvez eu esteja me comportando como uma adolescente porque não vivi esse amor adolescente com o . Ignoro minhas responsabilidades e vivo como se não tivesse que pesar as consequências porque talvez eu não tenha amadurecido o suficiente para isso. - Ponderei.
- Ou talvez seja você que esteja se cobrando uma postura que acredita ser a correta. – Interveio a psicóloga. - Não quer dizer que é falta de maturidade, ou que esteja fugindo de suas responsabilidades. Quer dizer que você precisa de uma pouco de flexibilização, que você pode amar intensamente o , e que fazer loucuras vivendo os seus desejos, e ainda assim, ser uma chefe renomada e uma mãe exemplar. Uma coisa não anula a outra, Olívia. Por que precisa abdicar de uma coisa para ter a outra?
- Como assim? - Ri sem humor, ajeitando-me ao divã. - Eu preciso. – Minha voz falhou, estava tão atordoada com aquelas questões que mal sabia o que responder. – Quer dizer, eu não posso…eu preciso abdicar, certo? É como uma boa mãe e esposa faria, não é? É como minha mãe faria. – Tentei argumentar.

Uyara não respondeu, ficou em silêncio deixando-me perdida com o eco de minhas palavras, enquanto me encarava. Aquela sensação era péssima, sentia-me exposta, e ao mesmo tempo confusa, assistindo certezas cristalizadas serem quebradas como castelos de areia que desmancham quando a água do mar os atinge.
- Quem foi que decidiu o que uma boa esposa e boa mãe fariam ou não fariam? Uma boa mãe não espanca seu filho, não o deixa com fome ou é negligente. – A psicóloga começou a enumerar nos dedos. - Uma boa esposa é uma mulher que cuida do marido? Que entende seu papel na família? Ou que é respeitosa? Quem deu o parâmetro, ? Quem decidiu que deve ser assim? E mais, porque você precisa concordar com a pessoa que estipulou isso?
- Porque é o certo. – Falei com a voz como um sussurro, e o olhar perdido. - Minha mãe é assim, minha avó era, até minha amiga Gina é. Eu não posso…eu não…eu nem sei mais o que estou falando. - Admiti enfiando os dedos nos cabelos e percebendo que talvez, só talvez o buraco em que estava era bem mais profundo do que achava.
- Eu compreendo sua aflição, , e está tudo bem se sentir assim, não tem nada de errado. – Falou ela, distraindo-me de mim. - Você vive repetindo as palavras, eu não posso, não é certo fazer isso...me pergunto o que você queria fazer, o que poderia ser tão ruim para que você reprimisse com tanta força.

Eu ri sem qualquer traço de humor, depois ergui os olhos.
- Eu acho que isso, viver um relacionamento com , isso é o que eu sempre quis, o que sempre fantasiei, desde menina. Acho que depois que deixei essa cidade, internalizei, cristalizei que nunca aconteceria e agora eu tenho essa chance. – Confessei enquanto pensava no que responder. - realizou minha maior fantasia se declarando para mim e sempre dizendo que não vai desistir. Isso é tão inacreditável…- Parei um pouco, aquela situação ainda era chocante para mim, ainda me surpreendia como tudo tinha acontecido entre nós. - Houve uma coisa que aconteceu e que não falei ainda. – Falei, havia um ponto que ainda precisava falar, ou mal dormiria. - Estou dizendo essas coisas para você e pode ser que faça algum sentido, porque fez sentido para mim.
- O que aconteceu que não falou? Quer me contar?
- E se eu estiver fugindo de novo? - Perguntei a si mesma e para a psicóloga. - Quando visitei , nós conversamos e eu percebi que mesmo com esse sentimento dentro de mim há mais de décadas, não o conheço. Me apaixonei por quando éramos adolescentes, através dos meus irmãos, do que via a distância e das minhas projeções. Continuei apaixonada por ele, embora reprimindo com toda força, e em minha cabeça, hoje ainda era apaixonada pelo mesmo adolescente do meu passado e tudo que achava e pensava que ele era. Mas descobri um pouco sobre ele, nada idealizado, mas detalhes reais de seu passado, da sua história e de quem ele é. E percebi que não o conheço. - Confessei sorrindo fraco e baixando os ombros. - Me pergunto se eu sou apaixonada pelo real ou pelo que idealizei por mais de quinze anos. Ou, se tenho medo de descobrir e isso responde a sua pergunta, sobre a razão de eu reprimir tudo com tanta força. E se eu não gostar dele de verdade, e tudo isso, todo esse furacão que transformei a minha vida e a dele, for por nada? E se eu só amo uma lembrança?
- Todo mundo em algum momento da vida idealiza alguém, . – A psicóloga respondeu. - Existem alguns traços no ser humano que jamais vão ser modificados por completo, podem ser moldados, aperfeiçoados, mas nunca completamente. A essência pode ainda ser a mesma e você precisa conhecer esse mais velho, maduro, entender quem ele é. Já parou para pensar que o fato de nunca ter superado, foi justamente por não ter sido resolvido? Por nunca terem vivido de fato o que queriam? Tudo que é inacabado volta, e se você fugir dele de novo, jamais vai superar o sentimento que tem.
- Mas será que é tudo real? Ou é só...só porque não vivi e reprimi? – Indaguei.
- O que acha de descobrir a resposta dessas perguntas?
- Como? Como eu posso descobrir? – A olhei.
- Vivendo, querida. – A psicóloga sorriu empática. - É a única forma de descobrir as coisas.

🍁


Depois de sair da sessão com a psicóloga, fui até o cemitério. O céu estava azul, sem qualquer sinal de nuvens, mas o dia era fresco, a brisa marítima balançava as árvores e fazia com que ondas grandes se quebrassem contra o paredão de pedra mais abaixo e contra o píer, que era possível ver dali de cima. Era um dia bonito e calmo, do tipo de dia que mães aproveitam levando seus filhos ao parque, e que solteiros aproveitam para andar de bicicleta na orla e nadar um pouco. Estava sentada junto ao túmulo de Ted, não porque queria vê-lo ou visita-lo, mas porque queria me afastar de tudo e refletir as milhões de coisas que haviam surgido durante a conversa. Aparentemente, apesar de sentir orgulho de minhas autoanálises, o olhar profissional podia ir bem mais longe e algo levantado por ela, em especial, não saia da minha cabeça desde então.
Pensava no ideal de mãe perfeita.
Desde o princípio havia adotado a bandeira da não romantização da maternidade, sem maquiar ou fantasiar, fingir que era algo bom e prazeroso o tempo todo. Inicialmente, por causa da pressão social e da idealização materna, fora complexo e difícil entender que eu poderia detestar ser mãe, mas amar meu filho. Odiava o fato de que por mais que fosse presente, todas as cobranças e culpas sempre recaíam sobre a mãe.
sempre fora antenado, atento a tudo, e, apesar de inicialmente não ter pensado ser uma boa ideia ter um bebê, abraçou a causa junto a mim de modo delicado e firme. Ele se levantava durante a noite quando Dom tinha cólicas, trocava fraldas, cozinhava, algumas vezes o havia levado junto para aulas na faculdade. era um homem diferente da maioria e tinha ciência do tamanho de meu privilégio. Mas apesar da realidade dentro de casa ser agradável, do lado de fora era excruciante.
Sua família nunca perdia qualquer mínima chance de me alfinetar. Em suas cabeças afundadas em romantização e com sérias pitadas de machismo, era um grande absurdo que cuidasse do bebê durante as noites, enquanto eu trabalhava, ou que ele trocasse fraldas e cozinhasse enquanto eu descansava. Uma mulher envenenada contra seu próprio gênero pode fazer mais estragos do que dez homens.
Os comentários, olhares e piadas eram sempre cansativos, estressantes e me faziam questionar nosso estilo de vida, como se estivéssemos errados e eu fosse culpada, uma mãe ruim. Junto a essa culpa, também trazia o sentimento de detestar ser mãe. Só queria dormir um pouco e o bebê parecia não parar de chorar nunca.
Nos primeiros meses, vivia estressada, cansada, com fome, eram condições extremas e por isso temia fazer algo ruim em algum momento de maior estresse. Lembrava-me das cenas de mães felizes e bonitas dando banho em seus filhos como se aquilo fosse a coisa mais preciosa, o melhor momento de seus dias e me culpava por não ser assim. Não ficava feliz em ter que dar banhos em Dom, não ficava feliz quando chorava de dor ao amamentar nas primeiras semanas, nem ficava feliz por não dormir sequer três horas por noite ou por não conseguir ir ao banheiro. Se existia algo que não sentia naquele momento, era felicidade.
Obviamente amava meu filho, embora naquela época não tivesse tanta certeza. Mas era difícil me desvencilhar e organizar todos aqueles sentimentos dentro de mim. A culpa por não estar bela, boa e amorosa como imaginava que devia estar, a preocupação com cada soluço diferente que o bebê dava, as caraminholas que minha sogra e outras pessoas colocavam em minha cabeça sobre o bebê não estar saudável, bem alimentando ou sobre meu leite não ser forte o suficiente.
Não era fácil.
Mas depois de passado, as coisas se acertaram e assim como antes, nossa rotina da porta para dentro era ótima. Criar nosso filho a nossa maneira, livre para experimentar a vida, oferecendo a ele todo suporte emocional que precisava estava sendo uma experiência fantástica. Dom era um garoto incrível e meu amor por ele justificava todo início caótico.
Mas depois da conversa com Uyara, algo havia mudado de lugar. Eu estava cedendo à pressão social e idealização da mãe perfeita? Por que viver o que queria viver com ou quem quer que fosse, me faria uma mãe ruim?
A segunda pergunta parecia ter uma resposta mais simples, porque provavelmente a resposta era . Me preocupava sobre como seria para Dom crescer com pais divorciados, me preocupava com a maneira com que isso refletiria em sua vida. Talvez, se não fosse isso, minha decisão sobre meu casamento fosse um pouco mais simples.
Meu Deus, o que estou pensando...
Estou mesmo concebendo que se não fosse por Dom, eu já teria me separado de ? Balancei a cabeça, incrédula com os lugares para onde meus pensamentos me levavam. Não, não é tão simples. Também amo o , embora de modo diferente, ainda o amo. Respirei fundo, encarando a relva verde do cemitério. Certo, é óbvio que tinha feito a escolha em meu coração e talvez fosse burrice negar para me sentir melhor. Era , sempre fora .
Ao mesmo tempo, por qual eu estava apaixonada? O adolescente e que existia apenas em minha imaginação ou o real, que agora estava do outro lado da rua, no hospital? Era algo que precisava descobrir com urgência. Não queria responsabilizar por minhas expectativas, tampouco desmanchar um casamento de anos sem sequer conhecer bem o motivo para isso.
Ironicamente tudo parecia ter uma resposta única: tempo.

🍁


Depois de refletir um pouco sobre tudo, resolvi visitar a razão daquele furacão: . Não era como se eu pudesse evitar, estava perto, queria vê-lo, queria desesperadamente saber mais sobre ele, sua vida e seu passado. Precisava descobrir por qual eu estava apaixonada, o real ou idealizado. Gostaria de trocar algumas palavras com doutor Rafael caso o encontrasse, mas o médico parecia ser tão talentoso em desaparecer quanto era em fazer seus enigmas indecifráveis e confusos.
estava no jardim outra vez, sentado perto do lago. Nos últimos tempos, parecia ficar mais do lado de fora do que dentro de seu quarto, o que era bom, talvez significasse que sua alta estava mais próxima do que o esperado.
- Tenho certeza que muitas pessoas devem confundir você com a pessoa que alimenta os patos. – Brinquei aproximando-me dele e ergueu os olhos ao ouvir minha voz.
- Não sabia que fazia essa linha, . – Ele devolveu, com um dos olhos fechados. – O que tem contra alimentadores de patos?
- Nada, na verdade. – Dei de ombros, sentando-me ao lado dele. – Uso muito foie gras no restaurante, sou grata, na verdade.
- Meu Deus, alguém devia chamar um órgão de proteção aos animais. – Ele balançou a cabeça negativamente e nós rimos. – Que bom que veio. – Disse depois de algum tempo.
- Já é parte da rotina.
- Devo me preocupar com seu marido aparecendo aqui de repente? – provocou olhando para os lados teatralmente.
- Você precisa parar de provocá-lo como um homem das cavernas. – O repreendi torcendo os lábios.
- Eu? – riu sem humor. - Não é como se eu fizesse sozinho.
- Por favor, . Não vamos fingir que eu não estava aqui e não vi exatamente o que aconteceu. – Pedi, voltando minha atenção para o lago.
- Certo, desculpe. – Pediu ele depois de alguns minutos em silêncio, rendido. – Eu acho que sinto ciúmes. – Confessou e eu o encarei pasma.
- Ciúmes? Você? De Mim?
- Por que o espanto? Você sabe melhor que ninguém o que eu sinto, acho que é normal ter ciúmes da mulher que eu amo e não posso ter. – Falou arqueando uma sobrancelha.
- Você sempre escolhe a guerra, não é? – Falei, inclinando-me para frente e cobrindo o rosto com as mãos, depois enfiei os dedos nos cabelos, estava cansada.
- Eu sou sincero. – falou rápido, olhando para frente. – E você sabe disso, sabe e concorda. Concorda e corresponde, porque está aqui.
- Vamos ter essa conversa mais uma vez? – Suspirei cansada.
- Não, apesar de você achar que sempre escolho a guerra, escolhi a paz sobre esse assunto. Não vou te pressionar ou tentar entender os motivos que tem para não se separar, embora sempre pense no assunto quando estou só. – Confessou ele.
- Se te consola, os motivos, na maior parte do tempo são nebulosos até para mim. – Cedi, procurando os olhos dele, era justamente da paz e segurança que eles transmitiam que precisava.
- Talvez seja porque você está tentando encontrar motivos que não existem.
- Ou porque são motivos não tão óbvios. – Suspirei.
- A terapia ajuda nisso? – Ele perguntou e eu sorri, baixando a cabeça.
- Eu acho que sim, tem ajudado a entender porque eu vivo nesse ciclo sem fim. – Contei. – Também está me ajudando a me priorizar, pensar no que é melhor para mim. Me permitir.
- Preciso mandar uma garrafa de alguma coisa boa para essa psicóloga, assim que possível. – brincou, sorrindo leve.
- Estive com ela hoje, falamos sobre você e . Ela acha que eu sou um pouco impulsiva quando se trata de nós dois, porque no resto da minha vida, em todos os outros espaços eu nunca pude ser. Sempre tive que pensar nas consequências, nos limites.
- Eu faço você se sentir...ser impulsiva? – quis saber pensativo.
- Não, eu sou impulsiva. Não é sobre você, ela disse que é sobre mim e sobre essas cobranças todas. – Contei a ele. – Falou até sobre um ideal de mãe perfeita. Disse que viver o momento, fazer o que eu quero realmente fazer não me impede de ser uma boa mãe.
- Imagino que quando diz de viver o momento, seja sobre mim de novo. – Ele tentou entender.
- É. É tudo sobre você, sempre foi. – Assumi.

De algum modo, me sentia pronta, aberta e queria falar, queria conversar sobre meus sentimentos de modo honesto. Dizer tudo a , já que ele era sempre a primeira pessoa para qual sempre queria contar tudo. E ouvia atentamente, concentrado e realmente interessado no que eu tinha a dizer.
- Eu acho que não deve ser fácil pensar no que quer fazer do seu lugar. – Disse ele depois de algum tempo. – E talvez eu esteja até sendo um pouco egoísta nesse sentido. Você tem o Dom, um casamento de anos e o , infelizmente, não me parece um cara ruim.
- É uma forma de pensar. – Concordei. – Mas eu acho que essa é a resposta fácil. – me encarou com o cenho franzido. – Acho que gosto de pensar que não consigo dar esse passo, seja para o seu lado ou para o do , ou para o meu, que seja...por causa do meu filho, principalmente.
- Tem uma segunda resposta? – uniu sua mão a minha. – O que está pensando?
- Acho que tenho medo. Acho que no final de contas, embora diga que tudo sempre seja sobre outras pessoas, é sobre mim. Sobre o que eu me sinto pronta ou não para fazer. Sobre o que eu vou ter que abrir mão.

não disse nada.
Não sabia como ele havia entendido aquilo, nem mesmo se ele havia entendido, mas assim que terminei de dizer, ele me puxou para junto de si e eu me aninhei em seus braços. Ouvia seu coração, sentia o calor de seu corpo e seu cheiro, talvez fosse daquilo que precisava para me encontrar.
De certo modo, tinha dado um passo importante, horas antes havia sentenciado que a razão pela qual não podia me decidir era Dom, mas no fundo, era uma mentira. Dom sobreviveria, assim como milhares de outras crianças de pais divorciados. e eu poderíamos tentar uma convivência amigável se fosse o caso. Mas não era sobre Dom, sobre ou sobre . Era puramente sobre o que eu não estava disposta a perder.

🍁


O cheiro do molho picante de tomava toda a casa, era quase como uma tentativa de homicídio. O cheiro sempre fazia meu nariz arder, impregnava no cabelo e parecia deixar a cozinha mais oleosa do que a de um restaurante na noite de ação de graças.
Mas era noite de jogo e meu marido tinha como tradição comer qualquer coisa com seu molho picante durante os jogos. Queijos, tacos, azeitonas, salame ou até batata frita, tudo era servido junto a seu molho mágico com ingredientes secretos. Talvez nunca quis me contar a receita porque sabia que eu, como profissional, nunca mais deixaria que ele entrasse em casa com os ingredientes.
Qualquer que fosse a razão para aquilo, a tradição perdurava desde a faculdade e nem o próprio Wayne Gretzky em pessoa seria capaz de convence-lo do contrário. Nos playoffs parecia ficar ainda mais enlouquecido e aquele era o motivo do meu colapso.
- Alguém quer sair e comer uma pizza? – Quis saber eu, encostada a porta, com os braços cruzados sobre o peito, enquanto contemplava Dom e ajeitarem a sala para o início do jogo.
- Está falando com a gente? – perguntou sem me olhar.
- Eu não vou comer seu molho picante com receita vinda da área cinquenta e um. – Neguei com a cabeça.
- Qual é, ...- pôs as mãos na cintura. – É tradição. Não vamos comer pizza. – Ele hesitou. – Ou melhor, podemos comer pizza, desde que seja com meu molho.
- Vou ligar para o Giovanni e Oliver, não me espere acordado. – Avisei, pescando minhas chaves.
- Está atrasada. – piscou, passando sorridente por mim para abrir a porta. – Oliver e Giovanni vem ver o jogo aqui. – Ele sorriu e ao abrir a porta, vimos meus irmãos saltando do carro com cervejas nas mãos e uniformes de time.
- Eu odeio você. – Resmunguei e ele riu animado.
- Irmã! – Giovanni beijou minha testa assim que passou pela soleira da porta. – Cunhado! – Celebrou abraçando como um urso.
- Oliver, o trato era torcer para o Buffalos. – fez careta ao ver o uniforme azul dos Rangers que Oliver usava.
- O que importa é participar. – Oliver ironizou, beijando o rosto de e passando por ele, dirigindo-se a Dom e em seguida o erguendo no ar, como costumava fazer.
- Mudei de ideia, acho que vai ser um jogo bem divertido. – Pisquei e sorri para provoca-lo, depois voltei para a sala.
- Vamos, ! O jogo já vai começar! – Giovanni chamou, já ocupando um lugar no sofá.
- Estou pegando meu molho. – Avisou ele da cozinha.
- Espera, esse cheiro horrível vem da cozinha de vocês? – Oliver franziu o nariz quando se aproximou.
- Cara...- Giovanni riu enquanto cobria o nariz. – Parece que você cozinhou o uniforme de treino de um time inteiro aí.
- É, eu sempre digo que é péssimo. – Concordei abanando o rosto.
- Agora eu entendo porque ninguém gosta de cunhados. – resmungou. – Oliver vem assistir ao jogo com o uniforme do rival e Giovanni fala mal da minha comida.
- E ninguém pode culpa-los por isso. – Eu impliquei.
- Alguém deveria pedir uma pizza. – Oliver sugeriu.
- Com muita urgência. – Vanni concordou rindo pelo nariz.
- Eu posso ligar? – Dom ficou de pé em um pulo.
- Claro, querido. – Assenti. – Sabe, Vanni. Você deveria comprar a casa a venda ao lado da nossa, eu ia amar ter mais alguém para atormentar além de mim.
- Posso pensar a respeito. – Ele brincou. – É tão chique e cara quanto a sua?
- Não, por favor. Eu volto para Nova York andando se isso acontecer. – protestou.
- Não seja bobo, . – Oliver o abraçou pelo ombro. – Giovanni não precisa comprar a casa ao lado, se eu posso simplesmente me mudar para o seu quarto de hospedes. – Provocou sorrindo e arregalou os olhos.





Continua...



Nota da autora:
Oie, pessoal!
O sentimento por essa história agora é confuso para mim, uma dualidade diferente. Estou feliz porque estamos a cada atualização mais perto do fim, e triste pelo mesmo motivo. Não sei como vou viver sem esses PPs.
Eu amo as reflexões que a história da Olivia traz, amo o fato dela não ser só uma mocinha perfeita, mas sim uma mulher de muitas facetas que erra, que é atravessada de inúmeras formas pelas pessoas que a rodeiam, ela é uma mulher comum, como eu e você.
Isso, parafraseando algumas leitoras que nesse percurso ganharam meu coração, me ensina e mostra que todos nós podemos fazer o caminho da Liv, que nós também podemos voltar atrás e escolher o que é melhor para nós. Que sempre é uma palavra pesada demais para nossa existência finita.
Estou muito orgulhosa, também, de como a Liv tem se saído com a terapia e espero que a decisão dela continue ressoando positivamente.

Antes de ir, preciso agradecer grandemente a autora Rena, que além de uma escritora poderosa é uma psicóloga brilhante, que com toda generosidade do mundo tem cedido seus conhecimentos a nossa história. Tudo que acontecesse nas sessões com a psicóloga da Olivia tem o respaudo e supervisão dela.

Sigo aqui, curiosa com as reações de vocês, se puderem não deixem de comentar.
Acessem a playlist no spotify e entrem no grupo do facebook. <3

Com todo amor e gratidão,
Carmen


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A Síndrome de Albizzi é fictícia, uma junção de sinais e sintomas de outras síndromes e doenças, e, todo tratamento também não tem compromisso com a realidade.




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05. Come Back Home Ficstape - I Met You When I Was 18:Lauv
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