Eros & Psiché
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Última atualização: 22/03/2021

Capítulo 1

“When you lose small mind, you free your life”
Aerials – System of a Down


Mesmo com a preocupação do fim do prazo para entrega de um relatório me cegando de qualquer pequeno detalhe, não pude deixar de observar as pessoas passando pela rua, os casais abraçados compartilhando todo o amor um pelo outro sem se importar se pareceriam ridículos ou inapropriados. Porque ultimamente era assim que eu pensava quanto a relacionamentos: são todos ridículos e inapropriados.
Não exatamente todos, pois acredito que existe, sim, amor. Dividido em Ágape, Storge, Philia e Eros – amor religioso, amor à família, amor aos amigos e amor entre duas pessoas, respectivamente. Porém, depois de duas experiências intensas e fracassadas que tomaram anos da minha vida, passei a me questionar mais sobre esse Eros, e a conclusão foi de que não nasci para isso. Definitivamente, não. Não só por não alcançar o conhecido e desejado “final feliz”, mas por não conseguir compreender mais o sentido de namorar. Eu frequentemente me lembrava das dores de cabeça, das brigas, das limitações que o envolvimento trazia. Lembrava também dos momentos felizes e todos os sentimentos bons que vinham agregados, contudo, agora, observando de longe, parecia uma parcela tão pequena que eu não sabia bem se valiam a pena. Apaixonar-se custa paciência e empenho, e eu não tinha mais isso. Eu não queria mais isso. Queria uma vida tranquila, um emprego legal e meus amigos e familiares ao redor, o que já me trazia dois tipos de amor. Metade é melhor que nada.
Quanto ao emprego, eu me empenhava em não me distrair com as pessoas que passavam do outro lado da rua, bem no meu campo de visão. Meu chefe ficaria louco de raiva, se eu não entregasse aquela droga de relatório semanal até o fim do expediente. Eu não era do tipo desorganizado nem atrapalhado, estava em tempo de encaminhar aos meus superiores, mas ainda assim fazia em mim mesma um pouco de pressão para que não diminuísse o ritmo e acabasse atrasada. Eu odiava atrasos, principalmente os meus – e óbvio, nenhum chefe gostava também. Talvez eu até ganhasse uma bonificação no fim do ano por isso e pelo ótimo desempenho que estava obtendo.
Perto das seis, terminei, salvei e entreguei tudo que precisava. Como de costume no escritório, os últimos minutos eram liberados para os colaboradores se prepararem para voltar para casa, tomarem café etc., exceto na sexta. Existia a tradição da sexta-feira livre, e sem a obrigação do código de vestimenta, todos – sem exceções – usavam aqueles minutos para retocar a maquiagem, fazer ligações e chamar de última hora alguns colegas para uma happy hour no bar da rua debaixo. Sempre as mesmas pessoas. Sempre o mesmo bar. Logicamente, sempre as mesmas histórias. Eu não reclamava, no entanto. Achava controversamente divertido ver Kyle – chefe do departamento – lutando contra a solteirice na meia-idade ao tentar levar para cama as novas trainees que se arriscavam a ir conosco. Era quase uma iniciação: para permanecer no escritório por mais de três semanas e não sujar o currículo, era preciso ceder ao assédio escancarado e erroneamente não repreendido, ou então ser mais esperta e conseguir um jeito de enganá-lo a ponto de o próprio Kyle admitir a derrota. Para a minha sorte, a mentira de que eu estava nas primeiras semanas de gravidez colou, e seis meses depois eu já estava efetivada. Sem filho, claro.
Seria a primeira happy hour depois das minhas férias e licença por motivos de saúde. Eu havia tido um colapso nervoso assim que voltara de Chipre, com meu até então noivo, Kenneth. Descobrira lá, graças a um estranho gosto por arrumar malas, que ele tinha uma amante. E – pasmem – ela acreditava em amarrações de amor, uma vez que tinha bordado o próprio nome nos cós de várias cuecas dele. Uma atitude tão ridícula e íntima quanto aquela não poderia vir nem da mãe dele, que havia falecido um ano antes, fazendo nosso casamento ser adiado.
Inclusive, nossa relação tinha esfriado tanto em razão do seu luto que eu não soube o que fazer, senão suportar quieta. Mas chegamos ao patamar da falta de tesão, então tentamos nos agarrar ao resto de sentimento que tínhamos um pelo outro e arquitetamos a viagem, que tinha de tudo para reacender nossa vida sexual tão parada quanto o rosto da Donatella Versace. Os primeiros cinco dias na ilha onde Afrodite nascera tiveram resultados extraordinários, até a fatídica tarde em que resolvi guardar as roupas recém-trazidas da lavanderia e percebi relevos que não deviam existir nas peças íntimas de Kenny – além de abusada, a amante era esperta o suficiente para bordar com linhas da mesma cor dos tecidos, para que eu não percebesse. Após dois dias inteiros de brigas e um voo enjoativo de horas até Londres, tive de encarar o fim de um relacionamento que já durava três anos e meio. Quarenta meses perdidos e sem recuperação. Nem mesmo os presentes de noivado eu pude guardar, já que não casaria mais, então sofri a humilhação de anunciar o término publicamente antes de devolvê-los.
Estava morando sozinha desde então. Um apartamento pequeno na região central da cidade, longe o bastante dos meus pais para que eu não fosse perturbada o tempo todo sobre meu peso e meus problemas, e perto o suficiente para que eles não sentissem tanto a minha falta e quisessem passar alguns dias me fazendo companhia. Também não gastava muito com passagens, o que poupava o meu vale-transporte, e tinha o benefício de o comércio local ser variado e movimentado. Recebia visitas ocasionais dos meus pais em datas comemorativas que eles não queriam cozinhar, e regulares quando era sobre Terence, Paget, Louise e Ramona – meus melhores amigos, irmã e sobrinha –, mais precisamente às terças, quintas e sábados. Abria exceção nas sextas somente em casos de emergência, como encontros duplos, fuga de compromissos indesejados ou festinhas de pijama para Ramona. Como eu não havia sido avisada de nada do tipo, não ficaria em casa esperando por ninguém.
Enquanto se passavam os derradeiros minutos para o fim do expediente, ao contrário das outras mulheres do escritório, que estavam enfurnadas no banheiro, eu comia uma barra pequena de chocolate na copa. Desde minha crise, vinha me dando ao luxo de comer doces escondida, e obviamente vinha também ganhando peso e espinhas com isso. Não que eu fosse neurótica por beleza e boa forma, pelo contrário; sou péssima com dietas e exercícios, mas um pouco de autocuidado nunca matou ninguém, não é? A minha autoestima que andava meio morta ou só desaparecida, então eu me esforçava o mínimo do mínimo nesse quesito. Além dos quilos extras, meu gosto para maquiagem também havia adormecido; usava somente o essencial para não parecer uma ameixa seca depois das noites frequentemente mal dormidas. Kyle até tinha notado e desistido definitivamente de mim. Há males que vêm para bens, de fato.
Sentada em um banquinho na pequena copa, já com a minha bolsa e meu indicador pronto para bater o ponto, eu comia e observava a pressa com que um ou dois colegas arrumavam seus pertences. Alguns ligavam para casa, outros conversavam, mas todos estavam acelerados, decerto. E dentre todos os rostos que eu já conhecia até se não visse, existiam três novos. Uma menina ruiva, o rosto cheio de sardas e enormes olhos castanhos; falava pouco, assentia a praticamente tudo que lhe dissessem. Outra que parecia também ser nova, porém se vestia e falava com mais virilidade que metade do escritório, em contrapartida ao corpinho magrelo e rosto que aparentava vulnerabilidade. Por fim, um garoto que, fosse eu mais nova, ficaria com fogo só de olhar para ele. Seu rosto ainda era de moleque – devia ter no máximo uns vinte –, mas se portava como um homem. Com toda certeza, ele também era o motivo das minhas colegas ainda estarem no banheiro. Carne fresca sempre é bem recebida com milhares de elogios às escondidas.
Dadas as 18h, como se tivessem atirado água ao formigueiro, uma enxurrada de pessoas começou a jornada em direção à saída. Era necessária uma fila de espera para os três elevadores do edifício e mais alguns metros para chegar ao bar, no meu caso e de alguns colegas. Eu me sentia um pouco sociofóbica depois do meu retorno, na segunda-feira, pois nenhuma boa alma quis realmente conversar além do casual. Em partes, era bom pra eu me resguardar dos burburinhos de corredor; por outro lado, não me sentia realmente acolhida e queria me retrair.
Na verdade, eu nem mesmo sabia por que ia ao happy hour. Talvez fosse a esperança de que alguém puxasse assunto comigo e me fizesse esquecer metade dos problemas que passei, quiçá voltar ao mesmo ritmo de antes de tudo desmoronar. O que era certeza, mesmo, era de que eu havia tirado meus restinhos de motivação para ir, mas estava desistindo a cada minuto porque estava com medo. Poderia ser só paranoia minha, contudo, eu sentia que não estava ainda tão preparada assim para me envolver emocionalmente com ninguém em nível algum. Eu havia perdido a autoconfiança para isso.
Ainda assim, eu estava ali, cercada por Kyle, Alexis, Juliet, Caesar e duas das novas contratadas. Ainda que eu estivesse receosa, ansiosa e com uma enorme vontade de comer qualquer coisa que me aparecesse, não desviei do caminho ao atravessar a rua. Não fiquei como uma coruja, apenas olhando os outros conversando, por menos que eu falasse. Mesmo que minha vida estivesse estagnada no inferno, eu precisava ter força de vontade para seguir. Paget me disse isso e ficaria orgulhosa de mim, se me visse.
Descobri que uma delas, a ruiva, era Guinevere, e a outra, Nancy. Eram amigas de infância, moraram anos na mesma rua, tiveram as mesmas escolas, amigos e, agora, trabalho. A única coisa diferente, além do sobrenome, era a idade, já que Guinevere era dois anos mais velha. Descobri também, mas não através de conversas, e sim pela troca de olhares, que Alexis e Caesar não eram mais somente colegas de trabalho. Eu conhecia aquele tipo de olhar furtivo e os segredinhos por trás das palavras para despistar os outros. Havia feito isso três anos antes, quando comecei a sair com Kenneth, mas ainda queríamos manter a discrição. Com a exceção de que eu e ele não tivemos que esconder por muito tempo por culpa de uma política de empresa nunca cumprida: relacionamentos entre empregados não eram permitidos – a menos que você fosse chefe de departamento e um completo escroto.
Assim que chegamos ao bar, um lugar até agradável, que misturava várias culinárias e ornamentações sem ficar chamativo, um dos garçons nos levou até a mesa onde costumávamos nos sentar. Éramos os primeiros, então já pediríamos, para não esperar tanto. Menos de dois minutos depois, a mesa já fervia com as conversas paralelas. Eu apenas olhava e assentia, sentada exatamente no limite entre os dois assuntos.
– Tina disse que o problema do marido dela era pedra nos rins – disse Juliet para Caesar. – Uma delas tinha o tamanho de um caroço de feijão, você acredita?
– Nossa! – Alexis se meteu no assunto. – Ele operou?
– E vocês moram juntas? – Kyle, cheio de más intenções, perguntou a Guinevere e Nancy.
– Sim, há quatro anos – respondeu Nancy, parecendo já entender onde ele queria chegar. Parecendo não gostar nem um pouco, também. – Por quê?
– Não, por nada – disse Kyle, com um sorriso de falsa simpatia e verdadeira taradice. Nojento. – Só acho interessante amigas de tanto tempo compartilhando a vida inteira com a outra.
– Geralmente é isso que se faz em casamentos também, não é? – Guinevere observou, sorrindo também. No entanto, seu sorriso era irônico. – Esse negócio de compartilhar a vida e tal.
– Eu acho que é, sim. – Nancy meneou a cabeça.
– Concordo – disse Kyle, sem perceber onde elas queriam chegar. – Mas é importante ter amigos assim, principalmente para as mulheres.
– Tenho sorte de ter alguém assim, então – Guinevere afirmou. – Principalmente pelo fato de essa pessoa ser minha amiga e minha esposa.
Em alto e bom som, todos na mesa ouviram e pararam para esperar a reação de Kyle. Instantaneamente vermelho e sem graça, ele ficou quieto por uns instantes. Guinevere e Nancy deram as mãos e as puseram sobre a mesa, mostrando o par de alianças douradas. Alexis e Caesar trocaram olhares cúmplices e de admiração pelas novas colegas, e imagino que os dois pensavam sobre um dia fazer o mesmo. Juliet e eu apenas olhávamos ao redor; ela tentando entender todo o excesso de informações, eu as processando.
– Infelizmente teremos que tomar alguma providência quanto a isso... – ele começou, tentando se manter sério, enquanto seu rosto continuava em tom de escarlate. Eu queria muito rir daquilo. – Não é permitido o envolvimento de funcionários--
– Dentro da empresa. – Nancy o interrompeu. – Sim, eu sei. Li o termo de responsabilidade antes de assinar e estou ciente de tudo isso.
– Além do mais – eu finalmente tomei coragem para falar mais quem “Sim”, “Não” ou “É mesmo” –, por que iriam tomar uma providência, partindo do princípio de que o próprio chefe de departamento se envolve com as funcionárias?
– Não sei do que você está falando, .
– Eu sei – Juliet, que havia se situado finalmente, disse. – E garanto que muitas outras ex-funcionárias também.
– Mas a gente pode esquecer isso, se você esquecer o casamento das meninas – sugeri por fim, sendo apoiada pelos demais.
Kyle passou de pena a ódio de mim em dois segundos. O que muito me agradou, já que eu não queria ser motivo de pena, muito menos queria que ele gostasse de mim. No momento em que ele iria soltar mais uma evasiva, outro grupo de pessoas do escritório chegou. Foram se espalhando, sentando e expandindo os assuntos do caminho até ali para a mesa. Sharon, única pessoa que tinha chegado mais perto de manter contato comigo por toda a semana, sentou ao meu lado, cheia de sorrisos. O motivo era óbvio. E tinha olhos , cerca de 1,80m...
– Ele está solteiro, . – Foi a primeira coisa que ouvi, estranhando o uso de apelido. – O nome dele é , tem vinte e dois anos e é com-ple-ta-men-te solteiro!
– Investe, então – falei sem muito entusiasmo, dando de ombros. – Você também está solteira.
– Será que eu devo? – Ela parou para pensar, falando mais para si que para mim.
– O que custa? Só lembre depois de me contar como foi.
Agradecendo o meu incentivo com um sorriso, ela assentiu. Sharon não era feia, pelo contrário, era o tipo de beleza estonteante de fazer um cara cair de quatro. Além de tudo, era simpática e extremamente confiante. Seria fácil para ela conseguir alguma coisa com o tal . Os dois tinham a mesma faixa de idade, com certeza teriam gostos parecidos e várias pequenas coisas em comum. Eu a invejava por ter quase dez anos a menos que eu e toda a vida pela frente ainda, porém, ao invés de lhe desejar o mal, ajudava-a em algumas escolhas, quando era procurada. Como agora há pouco.
Depois de alguns drinks sem álcool e a certeza de que Kyle não me encheria mais o saco pelo resto da noite, fui embora. Alexis e Caesar saíram poucos minutos antes, cada um com uma desculpa. Aposto que ririam de todos, achando que ninguém havia descoberto sobre eles. Sharon tomou coragem – duas doses, conhecidas como gim tônica – e foi até assim que eu disse que iria embora. Senti-me satisfeita por ela. De certa forma, via-a como eu mais nova, motivo pelo qual tinha algum pequeno afeto por ela, mesmo que nos restringíssemos a conversar no trabalho. E era bom ver a minha projeção de felicidade nos outros.



Capítulo 2

“Sometimes I can’t believe it, I’m moving past the feeling”
The Suburbs – The Arcade Fire



Louise e Ramona me esperavam no pé da escada de casa, sentadas. Minha irmã parecia sem paciência, e minha sobrinha, triste. Ao me verem, apenas Louise esboçou alguma expressão, tornando-se aliviada enquanto caminhava até mim. Pagando ao motorista, mal tive tempo para me virar antes de ouvir “Tome conta dela por hoje, ela precisa de você”. Até mesmo parecia que eu era o pai ausente da menina de doze anos, e apesar de eu não estar exatamente com ânimo para bancar a conselheira – isso era o que significava “ela precisa de você” –, concordei.
Enquanto Louise dava as costas, olhei para Ramona. Seu rosto inchado e vermelho, assim como seus olhos, denunciava o choro, coisa que vinha acontecendo constantemente, pelo mesmo denominador comum a mim: homens. No caso dela, garotos. Compreendendo seu olhar pedinte, ofereci a mão a ela, que a segurou e se levantou para entrarmos. Em um silêncio cúmplice, ela ligou a TV e eu mexi no termostato, pois a temperatura do lado de fora era de sete graus. Retirando o casaco e jogando-o junto à minha bolsa no sofá menor, sentei ao seu lado e fiquei a examinando por alguns segundos, até que se acalmasse e se sentisse melhor para falar sem voltar a soluçar.
– O que minha mãe te disse? – perguntou, sem desviar os olhos da TV.
– Que você ia ficar aqui hoje.
Com um som de compreensão, Ramona voltou a se calar. Abaixou os olhos e encarou as mãos, ainda cobertas pelas luvas. Se ela soubesse a sorte que tem por ainda ter doze, e não trinta e dois. Se soubesse como seria mil vezes mais fácil encarar um fiasco amoroso com essa idade, e não com a minha. Se eu ainda tivesse doze anos...
– Você estava chorando, não estava? – voltei a despertar sua atenção, vendo-a assentir. – O que houve?
– É complicado... – disse ela, enfim despindo as roupas de frio.
– Descomplique – retorqui de imediato. – É alguma coisa a ver com Louise?
– Também. – Ramona suspirou. – Mas é bem mais a ver comigo.
– Vai falando... – Peguei suas roupas e atirei sobre as minhas, no outro sofá.
– Lembra aquele garoto que te disse? Joshua? – Assenti à sua pergunta. Ela vinha ouvindo sobre esse garoto há dois meses, como não lembraria? – Nós saímos umas vezes, uns dias atrás, e de repente ele sumiu. No início eu juro que não liguei muito, até fiquei quieta pra não incomodar ninguém, mas machuca ver que eu tô sozinha sem saber o que eu fiz de errado.
– Se você não sabe, é porque não fez – comedi. – Nem tudo que acontece de ruim é exatamente culpa nossa.
– Mas dessa vez eu sei que a culpa foi minha – ela insistiu, a voz fina como um miado. – Ele não teria sumido do nada, se eu tivesse feito tudo certo.
Não teria? Por algumas semanas me perguntei o mesmo sobre Kenneth, porém a resposta era sempre tão vaga quanto a pergunta era incisiva. Ele não teria me deixado? Ele não teria arrumado outra? Ele não teria me enganado sem razão aparente? E de tudo que havia acontecido, o quanto eu sabia? O que acontecia que eu nem mesmo imaginava? Depois do término, e somente depois de muito refletir, percebi que, na verdade, eu não conhecia nada, não sabia de nada. Não havia meios de eu saber absolutamente tudo, muito menos sobre uma pessoa. Só queria ter descoberto de maneira mais simples.
Talvez até nem quisesse saber, para me poupar da frustração e da humilhação que viriam a seguir. Quiçá fingir não saber, por mais que isso fosse me torturar aos poucos até que eu tivesse uma última reação, que me levaria a todo o mesmo estresse. Eu adiaria a dor e me sentiria melhor durante um tempo. No fim, a única alternativa realmente aceitável era a de não saber. O que os olhos não veem, o coração não sente; não saber de nada é melhor que tudo.
– Já ouviu falar que existe muito mais coisas entre o céu e a terra que não sabemos? – perguntei, rodeando um pouco. Se eu precisava citar Shakespeare pra minha sobrinha de 12 anos entender alguma coisa, sinal que essa coisa não era nada fácil. – Uma delas é o que se passa na cabeça de cada um. Não se pode saber o tempo todo o que todo mundo pensa. E também não se pode sacrificar a si mesmo porque você não consegue decifrar a mente dos outros. Da mesma forma que pensamos independentemente das pessoas ao redor, elas fazem isso. E se ninguém te obriga a contar tudo que se passa, por que você deveria fazer isso?
– Onde você quer chegar?
– Aqui, Mon – apontei para seu coração – e aqui – apontei para sua cabeça. – Se ele te deixou, foi porque achou que se sentiria melhor. Ele provavelmente percebeu que algo não se encaixava na cabeça dele, antes mesmo de você se dar conta de que vocês acabariam mal com isso. E veja bem, não estou defendendo o Joshua. Foi uma atitude infeliz dele que te machucou, mas o que você poderia fazer depois? Forçar uma pessoa a ficar é o mesmo que pedi-la para fugir. Se isso acontecesse, seria a pior coisa que você faria com ele e, principalmente, contigo.
Ramona, interessada e intrigada com o que eu dizia, abriu seus enormes olhos cor de ocre como os de Louise.
– Há também o detalhe de que vocês dois são mais novos. E mesmo que você sinta que sua mentalidade esteja à frente das outras meninas – aliás, na sua idade eu ainda brincava de boneca –, você é totalmente inexperiente. Nem mesmo eu, que já tive uma lista considerável de caras com quem saí, sei lidar bem com términos. Esse não é o ponto forte da nossa família. Temos um péssimo gosto pra homens.
– Até hoje minha mãe não gosta de falar sobre meu pai... – comentou Ramona.
– E nem vale esquentar a cabeça com isso – adverti. – Do jeito que ela é, só vai querer conversar daqui a vinte anos. Ou mais.
Concordando com um riso fraco, minha sobrinha, mais tranquila e tão pensativa quanto antes, se esticou pelo sofá e pôs as pernas sobre a mesa de centro. Eu decerto não tinha acabado com todas as suas perguntas e preocupações, mas havia aliviado grande parte. Ramona nunca precisou muito de conselhos, na verdade, somente de um norte para refazer suas ideias. Geralmente eu que a fazia achar esse norte, por mais que minha própria vida andasse meio sem rumo. Em alguns casos eu até descobria mais sobre mim que achava que sabia.
O que não havia acontecido neste, uma vez que eu já havia descoberto, aprendido e aplicado.
– Então, Mon, o que a gente vai fazer? – tornei a puxar assunto, levantando-me e a encarando.
– Hoje é sexta, sexta é dia de comida tailandesa – disse ela, com um sorriso largo.
– Você não é o Sheldon, não começa com essa de “dia de x coisa” – repreendi, fingindo mau humor. – Além do mais, já passa das dez e o restaurante deve estar fechando.
– O que tem pra comer?
– Comida congelada – respondi por instinto. Sempre sobrava metade de um Gouda, vidros de ketchup e mostarda na geladeira e qualquer tipo de comida pré-cozida no congelador, no fim do mês. Terence e Paget que costumavam abastecer minha geladeira com fast-foods e refrigerante regularmente.
– Tipo...?
– Não sei, torta de frango, acho. – Dei de ombros, reparando que estava muito mais disposta que imaginava. Ramona reagiu com contrariedade, mas no fim aceitou a opção.
– Vou baixar algum filme, enquanto isso.
Concordei, vendo-a se levantar e ir até o meu quarto. Sua pequena e magrela silhueta não negava que ela era filha de Louise. Na aparência, as duas eram idênticas, ao contrário da personalidade, cuja influência até hoje é um mistério. Talvez para a sorte de Lou, nada em Ramona lembrava o pai, que as deixou no primeiro mês de vida de Mon. A razão de sua partida não era nem um pouco secreta: Dave, um aspirante a ator, era genioso, vaidoso e cafajeste demais. Ele e Louise até haviam tentado manter uma relação saudável, e conseguiram durante três meses – tempo máximo que ela pôde esconder a gravidez, antes de a barriga ficar notavelmente grande, mesmo debaixo de roupas largas.
Contudo, por ainda terem vinte e poucos anos, as carreiras ainda estarem no começo e a pressão ao redor deles ser grande, a cada mês que se seguia, seus laços se desfaziam. Pior que perder o noivo de uma vez, como eu, seria vê-lo te deixando aos poucos, como ela. Eu entendia perfeitamente sua mágoa, sua vontade de esconder de Ramona o pai relapso que Dave sempre fora antes de se mudar para Los Angeles para tentar a vida. Eu acatava seu pedido para não dizer uma palavra sobre o acontecido.
Por essa razão, toda vez que mãe e filha discutiam, uma tocava a ferida aberta e a outra a punha para fora – no caso, para minha casa.
, você é dois anos mais nova, não é? – ouvi Ramona gritar.
– Aham – respondi alto, indo até o outro cômodo após pôr a torta para assar.
– Escolhe um dos sete pecados – ela continuou o questionário.
– Não sei... Luxúria? – Era o único que eu me lembrava.
– Racional ou passional?
– Por que isso? – indaguei da porta, fazendo-a olhar para trás em reflexo.
– É um quiz, responde – ordenou Ramona.
– Passional. – Olhei por cima do seu ombro, tentando descobrir sobre o que ela respondia e por que com os meus dados. – Sobre o que é isso?
– Espera, já vem o resultado... – Novamente entretida com o tal quiz, ela mal me olhou. – Da mitologia grega, você é... Eros & Psiché! “Eros – o cupido, filho de Afrodite – e Psiché – jovem de tamanha beleza que despertou a inveja da Deusa do Amor – viveram um amor intenso, até que ela o traiu por querer saber sua real aparência. Para recuperá-lo, Psiché teve de passar por três desafios propostos por Afrodite, mas no fim a jovem mortal os superou. Eros e Psiché voltaram a viver juntos e tiveram uma filha, Prazer.”
– Três perguntas chegaram a isso? – perguntei, cética. Nem mesmo sabia sobre essa história, achava que Eros era só o tipo de amor e Psiché era aquele conceito da Psicologia sobre a mente.
– Três mais sete – disse Ramona, em tom de riso. – Fiquei em dúvida nas últimas.
– Ah, sua engraçadinha! – estrilei. – Por que não fez de você mesma?
– Eu fiz – respondeu ela. – Sou o mito de Ícaro, aquele que o pai criou asas pra fugir de Creta, mas o idiota voou muito perto do Sol e se espatifou.
– Pelo menos o meu final é feliz – constatei, levando-a a concordar. – E qual filme vamos ver?
– Que tal Chicago? – Concordei com a cabeça. – Aqui no quarto, por favor. Sua cama é mais confortável. Aliás, vou dormir contigo hoje, ok?
– Definitivamente, preciso arrumar um namorado – comentei, olhando-a com os olhos semicerrados. – Dividir a cama com uma pentelha metida a adulta cansa.
– Pensamento positivo, vai que você encontra seu Eros?
– Do jeito que tenho sorte com os “Eros” da vida, é mais fácil eu encontrar uma Psiché.
– Não tenho nada contra! – Ramona ergueu as mãos, ausentando-se de qualquer culpa.
– Eu só tenho uma coisa contra: infelizmente sou hétero, gosto dessa porcaria. – expliquei, gesticulando de forma dramática. – Se tivesse como escolher, com certeza não escolheria homem. Ai, mas que saudade de um pa...
! – Ramona me censurou, envergonhada e rindo ao mesmo tempo. Não que não conversássemos sobre sexo, só o fazíamos de forma mais civilizada e educativa, e menos chula também. – Que isso?!
– Ok, desculpa. Eu não me interesso por mulheres no geral. As cisgênero, é isso, né? – dando-me conta da gafe, corrigi-me. – Pessoas trans já não sei, nunca conheci nesse nível, então não posso dizer. Vai que?
– Acho que você ainda tem muito o que desconstruir – disse Ramona, de repente invertendo a conversa e parecendo a adulta experiente de novo. Boa parte do que eu havia dito tinha sido influência positiva dela, mas ainda assim era estranho ver esse tipo de coisa acontecendo. Minutos atrás ela era uma menina precisando de conselhos sobre a vida, agora aparentemente já sabia mais que eu.
– Se você vier com conversa difícil pra cima de mim agora, eu vou dormir, viu? – apontei o dedo e usei meu melhor tom de ameaça, fazendo-a rir. – Depois das dez eu só sirvo pra ver memes e comédias românticas.
– E musicais?
– E musicais – continuei com a mesma postura. – A menos que seja Les Misérables, porque ninguém merece chorar até dormir numa sexta à noite.
Eu falava com propriedade de causa, é claro.



Capítulo 3

“People so busy makes me feel dizzy”
Waterloo Sunset – The Kinks


As semanas se estenderam, e minha relação com meus colegas de trabalho já havia passado do estágio de estranheza a normalidade. Ninguém se sentia mais na necessidade de me tratar com mais cuidado, com medo de me ferir por qualquer coisa. Eu não era boba, sabia que os boatos já haviam corrido o suficiente para que todos estivessem informados. Embora nos primeiros dias a ideia de comentarem sobre mim me fizesse sentir exposta e vulnerável, com uma vergonha e culpa que não eram minhas, agora isso não me afetava da mesma forma. Se há uma certeza nessa vida, é a de que todo adulto que se preze vai ser corno um dia, restava apenas aceitar. Minha vez tinha chegado. Foi mais ou menos o que meu terapeuta disse, mas com sutileza, porque era para isso que eu o pagava.
Agora eu recebia vários “Bom dia” sem olhar de pena, “Tudo bem?” com interesse genuíno e começava conversas de corredor sobre coisas leves durante o expediente. Tinha conseguido até contar a Alexis e Caesar, em um almoço com os dois, que já sabia sobre eles, o que rendeu mais confissões: ela estava grávida, e assim que ele conseguisse um novo emprego, pediria as contas para fugir de qualquer problema na empresa. Tinha também conversado mais com Guinevere e Nancy, no caminho para casa, e soube que elas tentavam uma adoção e eram criaturas adoráveis. Esses dois momentos, no meio e fim do expediente, faziam o resto do dia ficar um pouco mais leve por causa de todos eles.
Isso porque, nas horas de trabalho, Kyle mal me olhava, mas passava tarefas complexas em prazos inacreditavelmente curtos. Eu sabia ele queria me desestabilizar dessa forma, e o motivo era seu rancor bem alimentado por mim. Talvez eu tivesse cruzado uma linha que não queria, no entanto, não poderia voltar atrás. Antes, eu ainda ria das tentativas patéticas dele de abordar as meninas sem sucesso, mas algo em Nancy e Guinevere me fizera mudar a postura. Estava cansada de ser subestimada e ignorada, provavelmente elas também, e ver mais uma vez o babaca do Kyle ser invasivo e sexista sem ninguém o repreender mexera comigo de forma que eu não pude evitar agir, naquele instante. Consequentemente, a frustração dele se voltou para mim como raiva, e sendo ele o ser mesquinho e desprezível que era, eu tinha então que lidar com a pressão psicológica que ele me fazia sob pretexto de ser meu trabalho. Eu não podia me negar a fazer o que meu superior dizia, ele estava resguardado pela hierarquia da empresa e eu não teria nenhuma credibilidade caso abrisse uma queixa contra ele. Era causa perdida.
Em partes, eu não me incomodava tanto por trabalhar mais. Ocupava minha cabeça e meu tempo, evitando pensamentos intrusivos e recorrentes sobre a bagunça que minha vida pessoal estava. Uma batalha perdida ali, outra vencida aqui. Era mais fácil eu me organizar dentro das 40h de expediente, e caso precisasse de ajuda, alguém do setor sempre estaria disposto a me auxiliar... em teoria.
Antes das minhas férias, quem costumava me ajudar era Sharon. Apesar de ambas sermos do Administrativo, nossas formações eram diferentes, e as tarefas também. Enquanto eu ficava responsável por processamento e gestão de dados, ela fazia o intermédio da comunicação com clientes da H&G. Apesar disso, conseguíamos ter uma troca vantajosa para as duas quando alguém precisava de socorro. Nossa relação profissional era objetiva e prática: se uma precisava, a outra dava suporte. No entanto, atualmente ela estava em um processo seletivo interno para o setor de Marketing, o que a deixava mais atarefada e indisponível. Nos últimos dias, com a demanda aumentada, eu precisava de alguém e ela não estava lá; não era sua obrigação, eu sabia, ainda assim eu ficava chateada quando a chamava e ela, sem nem mesmo me deixar falar, já respondia “Desculpa, tô super ocupada” e pouco depois se levantava. Eu tinha a leve impressão de que talvez não fosse só o processo seletivo que a tirasse de sua mesa com mais frequência.
Eu não tinha como confirmar que Sharon e continuassem saindo, mas era fácil presumir pelo jeito que andavam cheios de sorrisos – ele era muito discreto; ela, nem um pouco. Nós mal nos falávamos, para que eu pudesse perguntar, visto que Sharon passava maior parte do tempo livre na sala do Marketing e ia embora correndo, sem nem se despedir. No geral, eles já não eram mais novidade no escritório. Mal se comentava, aliás, a menos que fosse direcionado à inveja que sentiam de Sharon, uma das empregadas mais jovens e que teve a sorte de fisgar o novo trainee. Comum e previsível.
Durante o almoço, saía com Alexis e Caesar. Em vez do mesmo restaurante, preferíamos andar um pouco mais para termos mais privacidade para conversarmos sobre o que quiséssemos – caso contrário, a cada mesa haveria um rosto conhecido. Esse já era um hábito antigo que, inclusive, me distanciava muito dos meus colegas de trabalho, então eu estava disposta a mudar um pouco ao incluí-los. Nunca tinha notado como era agradável a presença deles antes do convite que fizera a Lexus, apelido que ela insistia que eu chamasse. Até mesmo sugerimos sairmos no fim de semana, com meus amigos e uns amigos deles, tamanha compatibilidade. Eu agora ficava ansiosa pelo meio-dia. Parecia até que havia voltado ao colegial, de certa forma, contando os minutos para o recreio. A diferença era que eu podia beber ao meio-dia, coisa que não faria nem louca, se tivesse treze anos. (E também não devia fazer atualmente, mas eu não estava exatamente tomando um porre.) Uma das regalias que a idade traz. Não que eu fosse muito a favor do avanço dela, já que a Lei da Gravidade vinha junto e era cruel, mas o que eu poderia fazer?
Aliás, um brinde à cosmética, grande aliada da mulher moderna nessa árdua batalha. Não fosse ela, minha irmã superestressada pareceria uma ameixa seca, de tantas rugas. A rotina de cuidados com a pele que ela tinha era longa, chata e surpreendentemente efetiva.
Em homenagem à minha independência e experiência de vida – sinônimos de contas para pagar e velhice –, tomava uma taça de Chardonnay enquanto esperava meu pedido chegar, fazendo inveja nos meus novos amigos. Ela fora forçada pelas circunstâncias a escolher entre chá gelado e suco, uma vez que álcool é terminantemente proibido em razão do bebê e refrigerante só aumenta ainda mais os gases das grávidas, que já não são poucos. Ele a acompanhava por apoio moral, e logicamente, os dois não iriam querer arruinar a noite deles, mais tarde, com – serei educada – flatulências.
Estávamos sentados na última mesa, encostados à parede, eu de frente para a entrada. Vez ou outra desviava o olhar para a porta, quando percebia outras pessoas entrando, para aproveitar a deixa e avaliar os bons frequentadores dali – como se eu sequer tivesse coragem pra flertar, mas olhar não matava ninguém. E em uma dessas olhadas, não pude deixar de comentar:
– O novo casal vinte descobriu nosso esconderijo.
– Quem? – Alexis olhou na mesma direção que eu, curiosa e com uma pitada de preocupação.
Vi de soslaio Caesar soltando sua mão, também se virando para ver Sharon e ainda na recepção.
– Querem chamar eles? – perguntei por educação. Achava essa a melhor saída, uma vez que não tinha como ignorá-los. Ficaria nas mãos deles aceitar ou não.
– Não sei... – disse Caesar, pedindo ajuda a Alexis para decidir.
– Se ninguém falar nada, vai ser bastante indelicado, já que a gente passa o dia inteiro no mesmo lugar – argumentei. – Um pouco de educação nunca matou ninguém, né?
– Tem razão – Alexis me apoiou, dirigindo-se a Caesar. – Peça ao garçom para chamar os dois, por favor.
Com o pé atrás, ele atendeu ao pedido da namorada. Sorrindo mais que aquela garota da Disney que Ramona adora, Demi alguma coisa, Sharon chegou até nós com atado à sua mão. Poderia até dizer que, em vez de caminhar, ela bancou a gazela e veio saltitando de alegria. Era do seu feitio.
– Não acredito que era aqui que vocês se escondiam! – disse com animação, sentando-se.
– Nunca foi segredo – observei, sorrindo por simpatia. – Se você não me esnobasse, saberia.
– Tenho andado um pouco ocupada. – Lancei um olhar sacana para , ironizando o que tinha ouvido.
– Então nos conte o porquê, não consigo imaginar – Caesar instigou, com o mesmo ar de deboche que eu.
– É com o trabalho, juro, mas não posso contar muito. Ordens superiores – respondeu ela. – Dos sócios da empresa. Guinevere, Nancy e precisam apresentar um projeto de melhorias até o final do mês, e eu serei a supervisora. Se o projeto for aprovado pela banca dos associados, eles serão efetivados, e eu, promovida.
Inconscientemente, senti inveja. A carreira de uma recém-formada deslanchava com mais facilidade que a minha, sendo que eu estava no meio há anos. E mesmo que soubesse que levaria tempo até me aparecer uma oportunidade como aquela pelo tempo que passei afastada e pelo próprio Kyle me empurrando ao ostracismo, não consegui controlar. Eu queria um motivo de alegria, ver todas as pessoas ao meu redor obtendo sucesso despertava esse sentimento sem que eu pensasse, entrando em conflito com o entusiasmo pelo primeiro avanço de Sharon. Como na Física, uma força anulou a outra e acabei me tornando indiferente. Por sorte, eu não estava sozinha e outras pessoas estavam interessadas no assunto.
– E o que vocês fizeram até agora? – perguntou Alexis.
– Estamos tentando fortalecer mais a equipe – explicou Sharon, já sentada. – Uma espécie de tutoria por parte dos empregados mais antigos durante o período de experiência dos mais novos, com palestras, minicursos e feedback em etapas. Isso em todas as áreas, pra pessoa ter uma visão mais ampla da empresa.
– Mas isso não pode correr pelo escritório – alertou rapidamente, cortando o que Sharon falaria em seguida. – Como o projeto ainda não foi finalizado e apresentado, não podemos deixar outras pessoas saberem e influenciarem. Vocês são os primeiros.
– Me sinto honrada por isso – comentei sem emoção, logo levando à boca a taça. Estava explicado o motivo para eu não saber de nada por parte de Guinevere e Nancy. Confiáveis elas eram, pelo menos.
– E vocês dois, hein? – ouvi Alexis dizer, voltando a tomar minha atenção. Fazia tanto tempo que não conversava com Sharon que tinha de ouvi-la contar suas novidades por alto.
– A gente tem se conhecido melhor – respondeu Sharon, contendo o sorriso.
– Também é melhor esperar para dizer mais – encerrou o assunto, sem parecer envergonhado, intimidado ou nervoso. Sharon gesticulou para mim, dando a entender que depois falaria mais. Eu sabia que esse depois não chegaria. Assenti, conformada. Mais uma vez ficaria de fora, reclamando para mim mesma mentalmente, como uma velha. Ver Sharon cheia de toques com chegava a ser irritante, e apostava que não só para mim, ainda que não pelos mesmos motivos. Resignada, almocei e me arrependi por querer ser educada. Não que eu gostasse de ficar sobrando, mas entre dois casais e um só, preferia um só, sendo ele Caesar e Alexis. Mesma faixa etária, mesmos problemas, mesmos assuntos. Compatibilidade perfeita.
Na volta para o escritório, dei uma desculpa para voltar sozinha. Sentia-me incomodada sem saber exatamente o porquê. Talvez sufocada por ser a única solteira, sinal evidente de que eu ainda não havia reprimido minha vida amorosa o suficiente para esquecê-la durante o trabalho. Estava demonstrando que ainda podia ser facilmente afetada, por mais que eu negasse admitir. Um dia que havia começado apático, como todos os anteriores, tinha desandado justamente na hora que eu costumava me sentir melhor. Eu sabia que não podia culpar os outros por algo criado na minha cabeça, ninguém tinha culpa pelo meu estado, porém eu não conseguia equilibrar meu humor tão rápido, precisava de um tempo para respirar. Lidar com meus próprios demônios era cansativo, afinal. E além disso tudo, ainda tinha longas horas para revisar todas as fichas dos clientes avulsos a pedido de Kyle. Uma tarefa maçante e desnecessária, e exatamente por isso atribuída a mim.
Entendendo como uma provocação, comprometi-me a terminar tudo no mesmo dia, ainda que fizesse hora extra – e eu com certeza faria, o email para o RH já estava engatilhado. Eu seria bonificada, no fim das contas, querendo ele ou não. Ademais, não teria ninguém me esperando para voltar para casa, portanto poderia me ater às pilhas de papel de forma a não me interessar por mais nada; fiquei cega e surda para o mundo. Além dos dados dos clientes, na minha cabeça só havia o coeficiente de raiva reprimida pelo encarregado de me encher o saco. Eu não demonstraria o mínimo sinal de rancor, no entanto, porque seria um sinal de fraqueza para Kyle. Seria indiferente, evitando um embate direto na tentativa dele de me forçar a sair. Pelo tempo que eu estava na empresa, com a vida já equilibrada com base no salário que recebia, não iria embora por qualquer coisa. Eu não iria perder mais uma parte da minha vida para um babaca.
Ao pensar dessa forma, lembrei-me de Paget e seu discurso motivador inspirado em livros de autoajuda. Como se houvesse um lembrete sobre a minha mesa escrito de forma gritante “FAÇA. VOCÊ CONSEGUE”. Eu conseguiria, sim, se quisesse. Eu queria, sim, se não aparecessem na minha mesa de cinco em cinco segundos para perguntar se eu não iria embora. Eu iria, sim, se terminasse. Mas para isso acontecer, precisava que as outras sentenças não fizessem o mesmo.
Mais uma vez abriram a porta do setor, e me negando a dar atenção, mal deixei de olhar a ficha em minhas mãos. Logo a porta se fechou novamente, porém, em vez de sozinha, estava dividindo minha sala com alguém. A pessoa se aproximou com passos leves, e eu apenas vi que era um homem pelos sapatos à frente da mesa.
– Te atrapalho? – disse ele, cauteloso. Levantei meu rosto, vendo ali.
– Se eu responder, serei rude. Ou mentirosa.
– Ajuda? – ofereceu-se ele, sem se importar com meu tom.
– Ah, por favor – piei, agradecida e instantaneamente mais calma. – Me desculpe o mau humor, meu dia não tem sido o melhor.
– Tudo bem, nem o meu tem sido – confessou ele, sentando-se à mesa e analisando os papéis ao meu redor. – O que eu tenho que fazer?
– É só checar os dados desses clientes – expliquei, voltando a abaixar o rosto. – Essa pilha é dos que já olhei; essa, não – acrescentei, apontando sem nem mesmo olhar. – Na primeira folha de cada pasta tem a ordem de serviço dos clientes, você tem que bater com as fichas coladas na frente da pasta.
– E quais os erros que eu tenho que procurar? – disse, separando um pequeno grupo de pastas. Ri sem vontade da sua pergunta, mas não por ele tê-la feito.
– Digitação – respondi. – Rasuras, borrões e coisas superficiais que geralmente estagiários fazem, e não quem já trabalha há anos aqui. E que também não fazem a menor diferença, já que tudo isso tem versão digital.
– Deve ter sido por isso que fui mandado pra cá dez minutos antes de acabar o expediente – ele observou, contrariado como eu.
– Kyle te fez isso? – indaguei com empatia, deixando de lado a cegueira por terminar, afinal, eu teria ajuda.
– Parece que ele não quer aumento no efetivo – constatou ele, dizendo nada além da verdade. – Há dias que eu tenho feito umas coisas meio absurdas que ele manda, tipo buscar o cachorro da ex-mulher dele na pet shop.
– Ultimamente ele não quer aumento do nível de testosterona por aqui – consertei, ouvindo-o rir baixo. – Aliás, a quantas anda o projeto?
– Já finalizamos, na verdade – continuava sereno como no momento em que entrou. – Mas Sharon às vezes fala um pouco além do necessário, então Guinevere, Nancy e eu preferimos não levar tudo a ela agora. Quando estivermos mais perto do prazo, mostraremos.
– Entendo sobre esse ponto de Sharon falar demais e vocês quererem esperar, mas não é muito seguro fazer isso – ponderei, deixando a caneta que segurava sobre a mesa. Ele mudou as feições, indagador. – O motivo para ela ser a supervisora é porque ela também vai ser avaliada, e pra isso, Sharon precisa estar a par de tudo. Fora que pode haver furos no projeto que ela, por trabalhar aqui há mais tempo, daria um jeito.
– Fazia parte do projeto não contar a ninguém antes do anúncio final, mas ela contou. Podia ter inventado qualquer coisa, até que estávamos juntos o tempo todo, mas não – retorquiu . Uma interrogação surgiu no fundo da minha mente. – Ficamos receosos de ela acabar espalhando por aí e perdermos a chance de entrar pra H&G.
Por mais insensato e infantil que parecesse o plano dos três ao se olhar de fora, fazia sentido. Não fora por simpatia ou predestinação que fiquei sabendo de grande parte da vida de Sharon; nós ainda nem havíamos saído juntas fora do expediente ou daquelas horinhas de happy hour, conversávamos somente no escritório e bem pouco sobre nossas vidas pessoais. Eu sequer podia considerá-la uma amiga, para falar a verdade. Entretanto, eu não poderia ser a favor de algo que a prejudicaria sem que uma voz insistente e chata ficasse martelando na minha cabeça, levando-me a falar algo ou ir à loucura.
– Querem ajuda? – ofereci-me sem nem pensar, no fundo, surpreendendo-me comigo mesma. – No que estiver ao meu alcance, podem pedir. E acredite, sei de histórias daqui que ninguém imaginaria, guardar um segredo por algumas semanas é fácil.
– E você vai ter tempo? – novamente olhou ao redor, indicando-me por entrelinhas que Kyle estava nas minhas costas, chicoteando-me com trabalhinhos desnecessários.
– Já estava na hora de mudar as minhas prioridades, mesmo. – Dei de ombros, sorrindo como se não ligasse. Uma mentira, a propósito, pois eu teria de arrumar um jeito para dar conta de tudo aquilo depois. Eu só queria um pretexto para mandar meu chefe tomar no cu para o espaço.
– Se é assim, então aceito – agradecido, ele sorriu também, e eu pude concordar com os comentários da primeira semana em que o vi: dentes perfeitos, bem alinhados, brancos e harmônicos. Combinavam com seus olhos bastante expressivos e .
– Quando podemos começar? – perguntei, empolgada com a ideia de sair daquele ambiente, mesmo que fosse para trabalhar mais. Eu duvidava muito que Kyle iria conferir ficha por ficha da maneira que eu estava fazendo até então, ele já devia estar bem longe dali.


Continua...


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Nota da autora (22/03/2021): Relou!!
Mais uma att que tarda mas não falha hehe Depois de dois capítulos mais introdutórios, agora entramos de vez na cabeça da pra conhecer seus conflitos internos. E tivemos a primeira aproximação com o (!), o que será que vem disso? Pra quem já leu a primeira versão, a resposta tá fácil hahaha
Nos vemos na próxima att!
Beijos,
Abby. ♥





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