Finalizada

Capítulo Único

O salão da Universidade de Moda Haneul estava agitado, como sempre. A luz suave das lâmpadas de design moderno refletia nas prateleiras recheadas de tecidos, sketches e materiais. estava lá, absorvendo o clima criativo, sem se preocupar com os olhares curiosos. Ela nunca se intimidou com a atenção — e, naquela manhã, as pessoas estavam definitivamente olhando.
A aula começou com o professor Jang explicando os parâmetros do novo projeto final: uma coleção cápsula inspirada na fusão de culturas. Tema perfeito pra brilhar, ela pensou. Até Min Ho abrir a boca.
— Então vai ter gente usando a própria nacionalidade como desculpa pra fazer algo brega? — ele falou casualmente, enquanto mexia nos lápis como se não tivesse soltado uma bomba.
— Tem gente usando a própria arrogância como desculpa pra ser ignorante. — girou lentamente o corpo até encará-lo.
— Ignorância é achar que tropicalismo combina com alta costura.
— E você é a definição de colonialismo fashion, sabia?
— E você a definição de alguém que fala bonito, mas ainda não mostrou nada que preste.
O professor pigarreou alto, interrompendo a troca venenosa com um sorriso diplomático.
— Fico feliz em ver tanta... paixão criativa. Por isso mesmo, decidi que o projeto final será feito em duplas. As duplas serão definidas por mim.
e Min Ho trocaram um olhar alarmado.
— Eu só espero que o senhor saiba combinar bem. Estética é tudo. —  Min Ho disse.
Jang ignorou.
e Moon Min Ho.
Silêncio.
arregalou os olhos.
Min Ho empalideceu.
— Isso só pode ser piada — ela murmurou.
— Quero ver o contraste entre vocês dois virar força. É disso que se trata o tema. E antes que peçam pra mudar: não vou trocar nenhuma dupla. Boa sorte.
A aula terminou mais cedo. Mas os dois continuaram sentados, em silêncio. A tensão entre eles podia ser cortada com uma tesoura de alfaiate.
— Eu não vou fazer esse trabalho com você — ela disse, por fim, se levantando.
— Que bom. Vai ser menos humilhante quando eu tirar nota máxima sozinho. — Ele sorriu vitorioso.
— Você não vai tirar nota nenhuma sem mim, Moon. — Ela voltou atrás, odiava o fato de ter que fazer aquilo com ele, mas odiava ainda mais aquele sorriso nos lábios dele.
— Então ótimo, pode vir pra minha casa amanhã. Tenho tudo pronto no meu estúdio. Assim a gente termina rápido e você pode voltar a fingir que me odeia. — Deu uma piscadinha para ela.
— Eu não finjo. — franziu a testa.
— Então vai ser divertido. — Min Ho sorriu. Mas dessa vez, havia algo diferente naquele sorriso. Algo que a fez hesitar.
O bairro onde Min Ho morava parecia ter saído de um editorial de revista: prédios elegantes, portões altos, árvores perfeitamente podadas. chegou ao prédio de Min Ho com o mesmo entusiasmo de quem vai pra uma endoscopia. — Senhor Moon já autorizou a entrada da senhorita. —  O porteiro sequer perguntou quem ela era  Classe alta tem dessas. O elevador subiu devagar, e o nervosismo dela crescia na mesma proporção. O apartamento dele era moderno, espaçoso, e tinha aquele cheiro caro de difusor de ambiente e ego inflado. Min Ho a esperava no estúdio, ajustando o caimento de um tecido no manequim. — Demorou — ele disse, sem tirar os olhos do manequim onde pendurava um blazer estruturado. O apartamento era moderno, espaçoso, e exalava bom gosto. Tinha uma parede inteira só de tecidos. odiou o quanto ficou impressionada.
— Eu tive que pegar metrô e depois andar. Não nasci em berço de ouro.
— Os croquis estão ali. Vê se consegue acompanhar. — Min Ho deu um sorrisinho e apontou pra mesa.
Ela ignorou e começou a tirar o casaco. Passou os olhos pelo lugar, reparando em tudo, foi até a mesa com os croquis, já pronta pra soltar uma provocação, mas a porta dos fundos se abriu com força.
— Moon Min Ho! — a voz firme preencheu o cômodo. — É assim que você se comporta? Trazendo mulheres pra casa a essa hora da tarde?
se virou tão rápido que quase tropeçou. A senhora era imponente, vestida com um conjunto elegante e um colar de pérolas que provavelmente custava mais que a passagem de avião da até a Coreia.
— V-vó — Min Ho gaguejou, tentando caminhar até ela. — Não é nada disso. A ... quer dizer, a ... é minha…
— Sua…? Vai me falar que é colega da faculdade, tentando me enganar uma hora dessas? A gente já teve essa conversa sobre comprometimento, e você me prometeu que não traria mais casinhos de algumas noites para dentro da sua casa, você já está na idade de namorar sério e até mesmo se casar. — A avó ergueu uma sobrancelha.
Ele engoliu em seco. O olhar dela o atravessava como uma espada.
— Não é nada disso vovó, ela é minha namorada — ele disse, rápido demais.
Silêncio.
congelou.
”Namorada? Que papo era aquele?” ela pensou.
Ela olhou pra ele, depois pra senhora, que agora a analisava com ainda mais atenção. tentou sorrir. Saía mais como um espasmo facial.
— Hm. Sim. Isso mesmo. Namorada — ela falou, forçando o tom doce.
A senhora cruzou os braços.
— E por que eu não soube disso antes? Onde está meu jantar de apresentação? O respeito?
— É... foi tudo muito recente — Min Ho respondeu. — A gente ia contar, mas...
— Mas o quê?
deu um passo à frente, tentando impedir que ele cavasse um buraco maior.
— A gente não queria causar um tumulto na faculdade e nem na mídia — ela improvisou, ela já sabia que ele pertencia a uma família rica e poderosa do mundo da moda, então podia usar aquilo a seu favor, já que não sabia do que aquela farsa se tratava. — Sabe, estudamos juntos e somos de classes diferentes, então estávamos esperando o momento certo para contar. — Ela tocou de leve no braço dele e quase engasgou com o gesto.
A avó os olhou por mais alguns segundos. O silêncio pesou como concreto.
— Muito bem — ela disse por fim. — Então quero ver esse “amor sincero” em ação. O jantar da família é na próxima sexta. Quero vocês dois lá. Juntos.
E antes que eles pudessem protestar, ela virou e saiu com o mesmo ar de tempestade que chegou. Foi embora, deixando um rastro de Chanel no ar.
Min Ho olhou pra .
— Então, basicamente minha avó está me forçando a ser alguém mais comprometido, para que ela passe a diretoria da empresa para mim e não para o meu primo, todos e inclusive ela, sabem que eu sou o mais focado e o mais bem preparado para isso, mas minha fama de irresponsável por gostar de, digamos, namorar muitas mulheres, acaba manchando a minha imagem. — Deu um sorriso amarelo, meio sem graça, como se fosse pedir um favor enorme logo em seguida. — Ela quer que eu esteja em um relacionamento sério até o aniversário dela de 80 anos e eu até poderia contratar alguém, mas como ela te viu aqui e você meio que foi na onda. — Min Ho ficou parado. Olhou pra . E então soltou — Você poderia…
— Nem vem — ela disse, levantando a mão. — Nem começa.
— É só fingir. Por um mês. Até o aniversário. — Ele deu um meio sorriso e fechou os olhinhos como se aquilo fosse convencer ela de alguma coisa.
— Isso é insano. E o projeto final já é forçado. Não podemos piorar. — estava relutante, não sairia nada de bom daquela história.
— É só fingir que somos um casal. Ela vai te adorar, ela gosta de gente simples e meio brega — ele deu de ombros, cínico, rindo um pouco.
— Você é inacreditável. — Ela revirou os olhos, como ele poderia ser tão cínico, quando precisava que ela fizesse um favor para ele.
— Vai me dizer que não seria divertido fingir que você me ama? — Ele deu um passo mais perto.
— Não seria nada divertido, eu acho que nunca conseguiria fazer isso. Você me enfiou nessa mentira do nada! — Ela travou o maxilar e os pés no chão.
— Então faz um trato comigo. — Ele estreitou os olhos, sorrindo.
— Que tipo de trato? Você me deve e muito. — Ela bufou e cruzou os braços.
— Eu fico com a avó feliz. Você fica com a nota alta no projeto. A gente finge estar juntos. Até o aniversário dela. Ou até alguém desistir antes. — Ele estendeu a mão.
— Tá. Mas com uma condição: você vai ter que seguir minhas regras. — Ela pensou. Ele tinha uma boa lábia. E um sorriso irritantemente bonito.
— Combinado! E você vai ter que fingir que me ama. — O sorriso vitorioso estava novamente plantado nos lábios dele.
— Prefiro fingir que tô doente. — Ela bufou mais uma vez, querendo esfregar o resto da paciência que restava no meio da cara dele.
— Isso também funciona. — ele deu de ombros, divertido. — Casais que passam por tragédias costumam comover velhinhas ricas.
Ela riu, contrariada.
Fingir um relacionamento parecia simples na cabeça de Min Ho. Ele já tinha feito isso com contratos, eventos e entrevistas. Só que nenhuma das parceiras anteriores o olhava como se estivesse a um empurrão de jogar café quente na cara dele.
, por outro lado, estava convencida de que ia cometer um crime em breve. E talvez fosse justificado.
— Você tá andando muito perto — ela sussurrou enquanto cruzavam o pátio da faculdade. — Vai parecer que a gente se gosta de verdade.
— Esse é o objetivo, “namorada” — Min Ho respondeu com aquele tom debochado. — Relacionamentos exigem proximidade. Ou você prefere que eu entre na cafeteria gritando "EU TE AMO, "?
— Você não ousaria.
— Duvida?
Ela bufou e apertou o passo. Ele alcançou fácil, com aquele andar relaxado e irritantemente seguro.
O plano era simples: tomarem um café juntos no intervalo e fingirem normalidade. Algo fofo, mas crível. Só que, no segundo em que entraram no café, os olhares começaram. E claro, como tudo que envolve Min Ho, as pessoas cochichavam, apontavam, tiravam fotos.
Ele se inclinou em direção a ela.
— Estamos viralizando — disse, exibindo o celular com uma notificação do grupo da faculdade.
“Moon Min Ho e a intercambista brasileira??? Namorando???”
— Eu vou te matar — sussurrou entre os dentes.
— Sorria. Por que senão vão pensar que a gente brigou. Ou que você descobriu que sou apaixonado pela sua irmã. — Ele abriu um sorriso encantador depois que disse aquilo.
— Eu nem tenho irmã! — A cara de brava continuava em sua feição.
— Então ótimo. Menos drama no nosso enredo.
Ela revirou os olhos e seguiu até o balcão, onde pediu um cappuccino como quem assinava a própria sentença. Min Ho pediu o mesmo, só pra provocá-la.
Sentaram-se à mesa, e por um segundo, houve silêncio.
Um silêncio que Min Ho quebrou do jeito mais irritante possível:
— Qual foi o seu primeiro pensamento sobre mim?
— Que você é um pavão narcisista com cara de quem nunca lavou uma louça. — Ela foi simples e deu um gole no café.  — Tão específica. E errada. Já lavei uma. Em 2016. — Ele sorriu.
— Que orgulho. — Ela fingiu admiração. Ele sorriu. — E você?
— O quê? — Ele pareceu genuinamente confuso, às vezes era um pouco lentinho mesmo.
— Sua primeira impressão sobre mim. — Ela respondeu como se a pergunta anterior tivesse sido óbvia e tinha mesmo. Ele parou por um minuto, observando o rosto dela enquanto dava um gole na sua própria bebida — Lá vem.
— Achei você mandona. E grossa. Mas... interessante. E bonita, claro. Isso atrapalhou o julgamento. — A resposta dele também veio com um tom neutro, como se aquilo não fosse novidade pra ninguém.
Por um segundo, ficou muda.
— Isso é parte do teatrinho? — Ela arregalou os olhos.
— Quem disse que eu tô fingindo?
Ela travou. Não sabia o que responder. Felizmente (ou não) a porta da cafeteria se abriu e alguém entrou chamando atenção demais. Alto, bem vestido, com aquele jeito polido típico dos coreanos de família rica — o tipo que você reconhece de longe, mesmo que quisesse esquecer.
Ela viu antes de Min Ho. E congelou um pouco mais.
? — o rapaz parou ao lado da mesa, surpreso. — Nossa... quanto tempo.
Min Ho observou com interesse, mas foi o jeito que ficou tensa que fez ele se endireitar na cadeira.
— Taejun — ela disse, com a voz contida. — Que surpresa.
— Eu soube que você estava de volta na Coreia, mas não achei que fosse te encontrar assim, achei que, depois de tudo, terminaria a faculdade no Brasil, você não voltou lá nas férias?... — Taejun olhou para Min Ho, e só então notou que havia alguém ali. — Me desculpe, não queria interromper.
— Você não interrompeu — Min Ho respondeu antes que ela pudesse. O sorriso dele era o mesmo que usava em reuniões de negócios quando queria intimidar. — Sou o namorado da . Min Ho.
— Namorado? — Taejun ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Uhum — respondeu, seca, forçando um sorriso. — Aconteceu, assim que eu voltei da breve visita que fiz para os meus pais.
Taejun deu um passo para trás, parecendo assimilar a ideia. O sorriso hesitante dele não convenceu ninguém.
— Que bom por vocês. ... a gente pode conversar depois? Colocar o papo em dia?
— Acho que não é uma boa — ela respondeu firme.
— Entendi. Bom ver você. Cuide-se.
E saiu. Mas não sem olhar para Min Ho uma última vez — e não com bons olhos.
— Ele é bem... arrogantezinho, né? — Assim que a porta se fechou, Min Ho se virou para ela com um brilho no olhar.
— Você também é. — A provocação dela veio sem muita força, foi mais como a força do hábito.
— Mas eu sou charmoso. E, no momento, o namorado fake que acabou de te salvar de um ex. Eu mereço uma estrela dourada. — Ele tentou um pouco do humor que sabia que ela detestava, para ver se seu humor melhorava um pouco.
— Você merece um chute. — Ela se sentiu menos tensa, odiava demais aquelas piadinhas dele para ficar com a sombra de Taejun por muito tempo ocupando a sua mente.
— Mas com carinho, né?
— Por que você parece se divertir tanto com isso? — Ela tentou segurar o riso, mas falhou.
— Porque você ainda não percebeu que eu tô gostando desse teatrinho muito mais do que devia. — Min Ho piscou.
Ela olhou pra ele, sem saber se ele estava brincando. Maldito.
O silêncio entre eles durou alguns minutos após saírem da cafeteria. Não era desconfortável, mas também não era leve como o habitual. Min Ho não era bom em ficar quieto por muito tempo — principalmente quando o assunto envolvia alguém deixando daquele jeito.
— Então... — ele começou, olhando pra ela de canto —, você vai fingir que aquele tal de Taejun nunca existiu ou vai me contar por que seu humor ficou nível “matar ou morrer” depois que ele apareceu?
— Você é insuportável, sabia?
— É o que dizem. Mas você continua andando do meu lado.
— Talvez porque eu esteja perdida — ela retrucou.
Ele riu, mas esperou. Não pressionou. Só deixou o silêncio fazer o que tinha que fazer.
— Ele me traiu — ela disse de repente. — Com a garota que morava no andar de cima do meu antigo dormitório. Me fez acreditar que eu era a maluca por desconfiar. Depois que terminou comigo, ainda teve a cara de pau de dizer que eu era “intensa demais” e que isso era culpa minha que não entendia a cultura em que eu estava me enfiando. — Respirou fundo, foi um relacionamento conturbado e complicado.
— Ele te traiu... e ainda tentou te culpar por isso? — Min Ho ficou sério. Parou de andar e virou de frente pra ela.
— Clássico, né? — ela forçou um sorriso. — Depois disso, decidi que ia focar só nos estudos. E em me proteger. — Ela chutou uma pedra imaginária.
— Bom plano. Só tem um problema. — Ele parou olhando para ela.
— Qual? — Parou surpresa.
— Eu sou péssimo em respeitar limites emocionais de garotas interessantes com olhares assassinos. — Ele deu uma piscadinha.
— Min Ho… — Ela riu, mesmo sem querer.
— Não precisa dizer nada. Só queria que você soubesse que, mesmo sendo fake, eu jamais faria algo assim com você. E se ele aparecer de novo... bom, digamos que você tem um namorado de mentira com cara de príncipe e vontade de bater em canalhas. — Ele foi sincero e ela pode notar pelo tom
— Isso foi quase fofo. — Ela o encarou por um segundo mais longo que o necessário.
— Eu tenho meus momentos. Bem raros, então aproveita. — O tom saiu afetado da garganta dele. Ela voltou a andar, agora com o passo mais leve. Min Ho a acompanhou em silêncio por alguns metros antes de falar de novo. — Só por curiosidade... você sempre foi intensa?
— Desde que nasci. — Abriu um sorriso genuíno, tinha orgulho daquilo
— Então tá explicado por que eu não paro de pensar em você. — Ele riu de forma afetada.
Ela bufou, tentando esconder o sorriso.
A mansão Moon parecia saída de um drama coreano caro. Alta, imponente e tradicional até nas plantas do jardim, ela intimidava por si só. E dentro dela, mais ainda.
Min Ho caminhava com um leve nervosismo — e não era fácil deixá-lo assim. , por outro lado, parecia mais preocupada em manter a postura do que em fingir qualquer sorriso.
— Lembra do plano? — ele sussurrou quando pararam em frente ao grande salão de jantar.
— Fingir que sou perdidamente apaixonada por você. Fácil — ela respondeu, revirando os olhos. — Eu já gostei de verdade de gente muito pior.
— Você vai ver como isso vai ser divertido. — Ele queria estar no clima, porque estava realmente muito nervoso.
Antes que ela pudesse retrucar, as portas se abriram e a cena parecia um quadro. Uma mesa imensa, com a família Moon toda arrumada como se fosse jantar com a realeza. E no centro, a temida senhora Moon.
— Min Ho. — A voz dela era firme. — E essa é...?
— ele respondeu, puxando-a para frente. — Minha namorada. — cutucou ele de leve e sorriu.
— Me chamo , e é um prazer conhecer todos vocês. — Ela se curvou em cumprimento.
Um silêncio. Um segundo inteiro de silêncio pesado.
E então, a senhora Moon sorriu.
— Que bom que finalmente criou juízo. Estávamos começando a perder as esperanças de que você se estabilizasse.
Enquanto todos os olhares se voltavam para , um homem do outro lado da mesa estreitou os olhos. Terno engomado, sorriso falso e uma arrogância que dava vontade de enfiar o prato na cara dele.
— Namorada, é? — ele disse, mexendo no copo de vinho. — Engraçado, nunca ouvimos falar dela antes.
— Porque preferimos viver longe dos holofotes, primo — Min Ho respondeu com um sorrisinho afiado. — Diferente de algumas pessoas que namoram a própria conta bancária.
A senhora Moon ergueu uma mão, pedindo silêncio.
— Quero dizer uma coisa antes que comecemos o jantar. — Todos se calaram. — Estou prestes a completar oitenta anos. E como é tradição em nossa família, vou passar adiante o nome e a liderança da Moon Fashion para o neto mais preparado. — olhou para Min Ho. — E para que essa pessoa assuma o cargo, espero algo em troca. Comprometimento. Estabilidade. — Os olhos dela pousaram sobre o casal. — Um relacionamento sério, pelo menos uma prova que esse relacionamento é real, até o meu aniversário, Min Ho terá de mostrar que está pronto para o futuro, e isso inclui manter um relacionamento digno, sem escândalos ou farsas.
— Perdão, vovó, mas... a senhora vai mesmo colocar toda a empresa nas mãos do Min Ho? Um rapaz que até mês passado apareceu em colunas de fofoca por dormir em uma sacola de grife em uma festa? — O tal primo disse com desdém.
— Era uma Balenciaga vintage, primo. Tem gente que nem saberia reconhecer uma. — Min Ho sorriu sem vergonha alguma.
— E quem me garante que esse namoro é verdadeiro? — o primo insistiu, encarando como se ela fosse um projeto de conspiração. — Nunca vimos essa moça, não sabemos de onde veio, e agora ela aparece assim, justo quando o cargo de CEO está em jogo?
abriu a boca, pronta para responder, mas a senhora Moon ergueu uma sobrancelha — um gesto tão imperceptível quanto ameaçador.
— Está duvidando do meu julgamento, Kyun? — ela disse com doçura venenosa.
— Jamais, vovó. Só estou... zelando pela transparência. — Ele pareceu um pouco mais nervoso que descarado.
— Então fique atento. Mas não ultrapasse os limites da sua competência. — O tom dela era sereno, porém firme.
— Viu só? Já estamos no modo casal em apuros. — Min Ho sussurrou e pegou a mão de por baixo da mesa.
— Eu devia ter te deixado se ferrar sozinho. — Ela disse entredentes do sorriso enorme que plantou no rosto, como se ele tivesse elogiando ela naquele sussurro.
— Você ainda pode. —  Ela olhou pra ele. Pela primeira vez naquela noite, os olhos dele não estavam zombando, estavam... sinceros. E por mais louco que fosse, ela sentiu que estavam juntos naquilo. Contra o mundo. Ou melhor, contra a dinastia Moon.
O jantar tinha acabado há poucos minutos, mas o gosto da tensão ainda pairava no ar.
estava sentada na beira da varanda, observando o jardim escuro e perfeitamente simétrico da mansão Moon. As luzes suaves da casa refletiam nas taças vazias e nos pratos de porcelana ainda empilhados sobre a longa mesa. A brisa fria da noite coreana dançava nos fios soltos do seu cabelo.
Min Ho apareceu com dois copos na mão, vinho para ele, suco de maracujá pra ela, que tinha reclamado do paladar coreano "extremamente não frutado" logo no primeiro gole de soju.
— Sobreviveu? — ele perguntou, estendendo o copo.
— Sobrevivi, mas ainda tô esperando a parte em que a mesa vira e alguém joga arroz no teto. — Ela aceitou o copo tomando um gole.
— Isso é só nos jantares de Natal. — Ele brincou e se sentou ao lado dela.
Ela riu, apesar de tudo.
— Aquele primo seu... me odeiam — ela disse, encarando o fundo do copo.
— Ele e os outros me odeiam. Você tá só de brinde. — Min Ho ficou em silêncio por alguns segundos, o sorriso sumindo devagar.
— Por quê? — Ela virou o rosto pra ele, surpresa com o tom. Ele não estava brincando.
— Meu pai era o caçula da vovó Moon. O mais querido. E o único homem da família que realmente se importava com o legado da marca. — Ele fez uma pausa. — Quando ele morreu, a vó meio que… travou. Fez de tudo pra que eu seguisse o caminho dele. E eu segui. Porque amava meu pai. E porque… bem, porque eu amo moda. — Ele deu um gole no vinho antes de continuar. — Só que isso nunca caiu bem com o resto da família. Eles achavam que ela devia deixar o império nas mãos do irmão mais velho dela ou dos outros netos. Mas ela nunca confiou neles. Nunca confiou em ninguém além do meu pai. E agora…
— Agora você virou o alvo — completou.
— É. Qualquer passo que eu dou é julgado, qualquer escolha é motivo pra drama. Eles ficam esperando eu tropeçar pra poder comemorar. — O tom dele era sentido e ela pode perceber.
Ela ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. Pela primeira vez, ela via Min Ho sem as camadas de sarcasmo e provocação. Ele não era só um príncipe arrogante da elite coreana. Era um cara tentando se manter inteiro num campo minado.
— Eu só queria provar que posso fazer isso do meu jeito. — Ele olhou pra ela. — E por mais louco que pareça… você ajudando nessa farsa me faz sentir que talvez eu consiga.
desviou os olhos, desconcertada. Aquelas palavras mexeram com algo dentro dela. Algo que ela não estava pronta pra encarar ainda.
— Tá. Mas não se apaixona por mim de verdade, tá legal? — ela resmungou, meio séria, meio provocando.
Ele riu, mas o olhar dele ficou preso nela por um segundo a mais do que devia.
— Tarde demais, . — Ele abriu aquele sorriso afetado e piscou.
— Idiota. — Ela virou o rosto, corando discretamente, mas tentando manter a pose.
E ficaram ali em silêncio por um tempo, dividindo o ar da noite, como se o caos lá dentro tivesse ficado preso nas paredes da mansão e, por um instante, só eles dois existissem.

☆☆☆


Lotte World Tower & Mall — Loja Moon

— Essa composição de vitrine tá equilibrada, mas previsível demais — comentou, anotando algo no tablet. — A marca tem um nome forte, poderia ousar mais.
— Você quer que a minha avó tenha um ataque cardíaco? — Min Ho rebateu, olhando para os manequins. — Essa loja é a mais tradicional da rede. Mas... — ele parou, analisando melhor — talvez se a gente mudar a iluminação e reposicionar os acessórios...
— Eu sabia que você ia concordar comigo — ela sorriu, e os dois se aproximaram da vitrine para fazer anotações e fotos.
O clima entre eles era colaborativo, leve e eles estavam fazendo bem aquele trabalho de campo para o projeto deles. Até a voz indesejada surgir novamente.
— Ainda tentando trabalhar com moda, ? — Ela virou devagar, já reconhecendo o tom arrogante antes mesmo de ver o rosto. Taejun. — Que coincidência te encontrar de novo.
— Coincidência nada — ela respondeu, firme. — Se você soubesse o quanto estou tentando não te encontrar, entenderia.
— Você ainda é tão espirituosa... Era isso que me fazia gostar de você. — Taejun sorriu, fingindo charme.
Min Ho se aproximou, largando o tablet e cruzando os braços. A presença dele era impossível de ignorar — mas Taejun conseguiu.Taejun sorriu, fingindo charme.
— Você tá ocupada agora? Podíamos tomar um café, conversar... você sabe, matar a saudade. — O sorrisinho nos lábios dele embrulhava o estômago dela.
— Eu já te disse que não da outra vez — ela rebateu. — e agora de novo.
— Você sempre dizia não, mas no fundo...
Ela disse que não. — Min Ho interrompeu, a voz carregada.
Taejun finalmente olhou para ele, como se estivesse notando sua presença pela primeira vez.
— Ah, o tal do novo namorado — disse, com desprezo.
— Isso mesmo. E você devia começar a agir como alguém que entendeu isso da primeira vez. — O tom protetor na voz de Min Ho pegou de surpresa.
— Eu só quero conversar, . Você deve isso a nós. — Taejun deu um passo em direção a , ignorando completamente o clima tenso.
Ela sentiu o coração acelerar, não de nostalgia, mas de incômodo. Aquele jeito de manipular, de inverter tudo — ainda era o mesmo.
Min Ho se colocou entre os dois. Corpo firme. Olhar frio.
— O que ela deve é ser respeitada. Se não consegue entender um não, vai entender a segurança. Porque eu não vou deixar você chegar perto dela de novo. — Min Ho falou com firmeza, olhando o homem vestido de terno preto que observava tudo não tão de longe assim.
— Bom saber que você ainda precisa de um defensor. Sempre tão... frágil. — Taejun parou. Olhou para Min Ho, para , e riu com escárnio.
— Ela não é frágil. Você que é covarde. — ia responder, mas Min Ho foi mais rápido.
Um silêncio denso se instalou. Clientes olharam. Funcionários pararam por um instante. Taejun percebeu que não ia ganhar aquele jogo.
— Divirtam-se no teatrinho. Isso não vai durar. — E saiu.
Quando o clima começou a voltar ao normal, Min Ho olhou para , que tentava manter a postura, mas tremia levemente.
— Eu tô aqui. E não foi atuação nenhuma. — Ele pegou a mão dela com cuidado.
Ela assentiu, e não soltou a mão dele por um tempo.
soltou a respiração com força, como se tivesse prendido o ar o tempo inteiro, soltou a mão dele e virou de costas, fingindo ajeitar a bolsa, mas Min Ho percebeu que o leve tremor nos dedos dela ainda estavam lá.
— Ele sempre foi assim? — a voz dele saiu baixa, sem o tom provocativo de sempre.
— Ele sempre foi pior — ela respondeu, tentando soar firme. — Só que com sorrisos e palavras bonitas. — Min Ho não disse nada. Só observou. E aquilo dizia muito mais. — Você vai soltar alguma piadinha agora? Tipo "uau, gosto duvidoso"? — perguntou quando ele não retrucou.
— Não. — Min Ho respondeu simples.
— Por quê? —  Ela o encarou, surpresa.
— Porque... eu vi o jeito que você ficou. — Ele deu de ombros, o tom mais sério do que ela esperava. — E porque tem gente que não merece espaço nem em piada. — O silêncio entre eles foi diferente dessa vez. Mais pesado. Mais íntimo. — Não foi só um namoro ruim, né? — ele arriscou.
— Ele me fazia sentir que tudo era culpa minha. Que se ele me ignorava era porque eu exigia demais. Se ele mentia, era porque eu não era suficiente. E eu... acreditei por um tempo. — Ela hesitou. Mas algo no olhar dele a fez responder.
— Ele é um idiota. — Min Ho respirou fundo. Deu um passo mais perto, ainda respeitando o espaço dela.
— E você é... surpreendentemente decente quando quer — ela respondeu, com um meio sorriso cansado.
— Não espalha. Vai que estraga minha reputação de babaca insuportável. — e ele sorriu de verdade dessa vez. E ela soltou uma risada fraca. — Mas sério — ele completou. — Qualquer coisa, qualquer hora, é só me chamar. Até se for pra chutar o traseiro de ex’s metidos a gostosões.
— Obrigada, Min Ho. — Ela riu mais um pouco. E pela primeira vez, não parecia tão tensa.
Ele não respondeu com palavras. Só olhou pra ela. Longo demais pra ser casual. Curto demais pra ser seguro.
E então desviou o olhar.
— Vamos terminar esse relatório antes que eu acabe me apaixonando pela minha parceira de projeto — ele disse, revirando os olhos. — Aí sim seria trágico.
— Seria mesmo. — Mas ela estava sorrindo.
☆☆☆


— Isso aqui está parecendo mais um desfile da ONU do que uma coleção cápsula — Min Ho comentou, analisando o moodboard que acabava de colar na parede com fita crepe. Ele estava com os braços cruzados, aquele sorriso cínico que ela já aprendera a odiar (e talvez gostar um pouquinho).
Estavam na sala de aula da faculdade trabalhando na montagem do projeto.
— É esse o ponto, gênio — ela respondeu, pegando outro recorte. — Difusão de culturas, lembra? Não é pra ser um look de aeroporto. A gente tá misturando o streetwear coreano com influências do norte da África e da América Latina.
— Tá, mas tem coisa demais. Visualmente, tá gritando. Você vai assustar o consumidor.
— Você vai me assustar se continuar falando como se fosse um executivo da Chanel. A gente combinou, lembra? Você ganha uma namorada fake pra limpar sua imagem de playboy e eu comando a parte criativa do projeto. Foi esse o trato. — Os olhos dela brilharam ao relembrar ele do combinado.
— Eu me lembro... Mas é difícil seguir suas regras quando elas não fazem sentido. — Ele ficou em silêncio por meio segundo. Só meio.
— Não fazem sentido pra você — ela rebateu, colando outro tecido no painel. — Porque você não consegue ver além da estética clean e minimalista que usa até pra dormir.
— Mentira. Eu durmo sem camisa. Clean até demais. — Ele piscou pra ela.
— Credo, Min Ho — murmurou Lina, do outro lado da mesa, onde estava montando a base do croqui de um dos figurinos. — Vocês dois discutindo é meu entretenimento da semana.
— Semana? Isso aqui parece novela diária — disse Jaeho, colega da turma dele, rindo enquanto mexia no notebook. — Eu tô só esperando a cena do beijo dramático na chuva.
— Ou na sala do professor Jang — completou Yuna com um sorriso malicioso, e os outros riram.
— Tá. Você quer discutir as cores? Discutimos. Mas se você me vier com tons neutros e alfaiataria fria de novo, eu juro que vou gritar. — bufou e cruzou os braços, encarando Min Ho.
Min Ho deu de ombros.
— E se eu disser que algumas misturas que você propôs estão exageradas, e que usar o conceito de simetria da indumentária tradicional africana com sneakers ocidentais pode funcionar se a gente equilibrar com a silhueta moderna coreana? — Ela piscou. — Ok... isso não foi horrível. — E então, desconfiada: — Você tirou isso de onde?
— Do cérebro de alguém que também estuda moda, pasme — ele respondeu, rindo. — Eu só gosto de te provocar. Mas nem tudo o que eu falo é zoeira.
Ela o olhou por um segundo, como se o avaliasse de verdade pela primeira vez naquele dia. Ele tinha um ponto. Mesmo sendo insuportável, às vezes ele era irritantemente... brilhante.
— Hm. Talvez a gente consiga fazer funcionar. Se você parar de atrapalhar e começar a colaborar de verdade.
— Eu colaboro, docinho. Inclusive, eu posso colar minha boca na sua e acabar com essas dúvidas todas da galera — ele disse num tom provocativo, mas baixo, um que só ela conseguiria escutar e só pra ver ela revirar os olhos.

☆☆☆


Bairro têxtil de Dongdaemun.

— A gente precisa de algo com textura. Algodão cru ou sarja, talvez. Não aguento mais seda e linho — murmurou, folheando um rolo de tecido como se fosse um livro de suspense.
— Tô começando a achar que você tem fetiche por tecidos brutos — Min Ho respondeu, erguendo um rolo de lona pesada como se fosse um troféu. — Isso aqui dá pra montar até uma barraca de acampamento.
— E combina com seu jeitinho gentil como uma rocha — ela rebateu, revirando os olhos.
Eles estavam discutindo baixo, como sempre, quando notou um movimento estranho entre as araras de tecidos mais ao fundo. Um cara de boné, óculos escuros e celular em punho observava-os de longe... e nada discretamente.
Ela se aproximou de Min Ho sem tirar os olhos do sujeito.
— Min Ho... aquele cara ali parece um detetive ruim de um dorama. Ou um stalker.
— Hm? — ele virou discretamente, olhou por cima do ombro e sorriu de canto. — Ah... ótimo. Tenho 90% de certeza que isso é coisa do meu primo. Parece alguém que trabalha como assistente para o  meu tio.
— Por que ele estaria aqui? — estava meio perplexa, tinha tido o desprazer de conhecer o primo dele, mas aquilo era um pouco demais.
— Porque o meu querido primo não engoliu a história de que estou apaixonado por você. Deve estar tentando provar que nosso namoro é fachada. — Min Ho disse simples e sorriu.
— Ai, que inferno — ela sussurrou. — E agora?
— Agora... hora do show, baby.
Antes que ela pudesse protestar, Min Ho passou um braço pela cintura dela e a puxou para mais perto, sorrindo com tanta doçura que quase engasgou com o próprio ar.
— O que você tá fazendo? — ela sibilou.
— Atuando. — Sussurrou. — Te amo tanto, docinho — ele falou alto e falso, afagando o cabelo dela com um exagero digno de comercial de xampu.
— Amor, acha que esse azul-cobalto realça o seu tom de pele de príncipe? — Ela prendeu a risada, mas entrou no jogo. Passou o braço por trás do pescoço dele e falou bem alto.
— Só se você prometer costurar ele com todo o seu amor — ele respondeu, colocando a mão sobre o coração dramaticamente.
girou os olhos e encostou a cabeça no ombro dele, num falso suspiro.
— Eu nunca pensei que ia dizer isso, mas você tá até convincente. — Ela sussurrou para que o homem que os observava não os entendessem.
— Ah, claro. Eu deveria ganhar um Oscar por essa performance. Ou pelo menos um beijo de mentirinha, pra reforçar a narrativa… — Ele sussurrou igualmente, com um tom divertido.
— Tenta de novo e eu te deixo trancado na seção de organza — ela sussurrou entre dentes, ainda sorrindo falsamente para o “detetive”.
— Isso é que é amor tóxico... — ele disse, antes de apertá-la um pouco mais e mirar o stalker. — Sorri, docinho. O paparazzi tá amando. — Ele percebeu quando ele levantou o celular e começou a tirar fotos.
Eles seguiram assim por vários minutos: mãos dadas, risadinhas, declarações cafonas e olhares apaixonados tão forçados que beiravam o teatro. Até que o “espião” se afastou, aparentemente satisfeito — ou confuso demais para continuar a missão.
Quando saíram da loja, soltou a mão dele como se tivesse segurado uma granada.
— Se isso acontecer de novo, da próxima vez é você quem vai se fingir de namorado, só que da minha avó. — O tom dela era engraçado, mas com uma pontinha de provocação.
— Sua avó vai ter muita sorte. Eu sou um ótimo acompanhante. — Ele jogou os cabelos e deu um sorriso brilhante.
— Eu tenho as minhas ressalvas quanto a essa informação. — Ela saiu rindo e saltitando na frente dele.
— Eu sou o melhor namorado falso que alguém poderia ter. — Andou rápido para alcança-lá, fingindo um tom magoado.
— Você é insuportável, isso sim. — Disse em um tom satisfeito.
— E você é um sucesso de bilheteria. A gente devia fazer isso mais vezes. Quem sabe num encontro falso pra reforçar a mentira… — Deu uma piscadinha, jogando o bom e velho charme que ela estava cansada de presenciar desde começaram aquela farsa.
— Você tá se divertindo muito com isso. — Ela olhou pra ele com desconfiança.
— Talvez porque... tô gostando demais do papel. — O tom dele não era tão sacana assim.
ficou em silêncio. Talvez ele estivesse brincando. Ou talvez... não tanto assim.

☆☆☆


— Isso tá torto. Olha essa proporção... o detalhe da gola ficou completamente comprometido — Min Ho murmurou com o cenho franzido, puxando o papel sobre a mesa até ele, enquanto girava levemente a xícara de café entre os dedos.
A cafeteria estava cheia. Barulho de louças, vozes misturadas em diferentes tons e o aroma forte de grãos moídos preenchiam o ar. Mesmo assim, a tensão entre os dois fazia com que o resto do mundo parecesse em segundo plano.
— Porque você rabiscou por cima! — rebateu, esbarrando o cotovelo na borda da mesa ao se inclinar para frente. — Era só um esboço da ideia! Você tem essa mania insuportável de achar que tudo precisa ser perfeito, do seu jeito. Como se fosse um dom divino, ser insuportavelmente metódico.
Ela cruzou os braços, irritada, o blazer encostando nos farelos de croissant ainda no prato. Min Ho soltou um suspiro exagerado, recostando-se na cadeira com a elegância cínica de quem se recusa a perder a pose.
— Eu só não quero entregar um projeto medíocre. Desculpa por me importar, viu? — respondeu, com um tom levemente teatral, como se estivesse no palco. — Mas vai em frente, continua liderando com sua impulsividade criativa e esse caos visual que você chama de processo. Tá funcionando super bem mesmo.
— Você é incrivelmente insuportável — ela disse entre os dentes, pegando uma caneta e rabiscando círculos nervosos no guardanapo.
— Então deve ser como olhar no espelho — retrucou ele, sorrindo de lado, o tipo de sorriso que dava vontade de arremessar algo. — Porque você é igualmente insuportável.
A caneta escapou da mão de e caiu com um “clac” seco na mesa. Ela a empurrou com força, o barulho chamando atenção de um garçom próximo, que hesitou por um segundo antes de continuar servindo outra mesa.
— Isso era pra ser um trabalho em dupla, não um concurso de quem tem o ego mais inflado.
— E se fosse, você já teria ganhado. Eu até teria chances, mas você já nasceu com um trono cravado na cabeça.
arqueou uma sobrancelha, prestes a responder com mais veneno, mas algo no canto do olho dela a distraiu. Uma movimentação sutil. Nada suspeito, apenas... estranho.
No canto da cafeteria, num sofá próximo à janela, um homem aparentemente comum folheava um jornal encardido. Usava um boné puxado até quase cobrir os olhos, óculos de grau redondos e um suéter antiquado demais para a temperatura do dia. Seu café esfriava intocado na mesa enquanto ele virava páginas com a lentidão de quem não estava realmente lendo.
Mas ninguém parecia notá-lo. Nem Min Ho, que agora argumentava sobre proporção e textura de tecido como se fosse uma questão de vida ou morte. Nem , que já se curvava novamente para defender sua ideia com gestos amplos e indignação no olhar.
O homem levantou brevemente o jornal, onde dois furinhos grosseiros haviam sido cortados na altura dos olhos. Discretamente, ativou a gravação no celular posicionado dentro da bolsa a seus pés. O microfone preso na manga do casaco já captava tudo com nitidez.
Ele sorriu com o canto da boca, satisfeito. As ordens do primo de Min Ho eram claras: observe, grave e reporte tudo.
E até agora, o conteúdo era melhor que novela.

Alguns dias depois…
O salão era amplo, iluminado por um lustre de cristal que pingava luz dourada sobre a longa mesa de madeira maciça. Cadeiras entalhadas acomodavam tios altivos, primos competitivos, a mãe de Min Ho — impecável como sempre — e, ao centro da cabeceira, a matriarca da família, com expressão de quem já aguentou coisa pior e hoje não tem paciência para amadorismo. nunca se acostumava com aquilo.
e Min Ho estavam lado a lado. A perna dele tocava a dela de leve sob a mesa. Trocaram um olhar — uma mistura de exasperação e cumplicidade silenciosa, típica de quem já se meteu junto em encrenca antes.
O primo se levantou com ares de espetáculo. Alisou o paletó como se fosse um advogado prestes a derrubar um réu no tribunal.
— Com todo o respeito, avó... eu trouxe provas — anunciou, triunfante. — Provas de que esse relacionamento é falso.
Min Ho fechou os olhos por um segundo. arqueou uma sobrancelha.
— Observe esta gravação — disse o primo, erguendo o celular como quem carrega um troféu. — Eles discutindo. Chamando um ao outro de insuportável. Criticando tudo. Um casal de verdade não age assim. Isso é encenação barata!
Ele apertou o play, e a gravação preencheu o salão, nítida demais:
“— Você é incrivelmente insuportável.
— Olhar pra mim é como olhar no espelho, porque você é igualmente insuportável.”

Seguiu-se um silêncio espesso, daqueles que pesam no ar. A mãe de Min Ho levou discretamente a mão à boca, sufocando um riso mal disfarçado. Um tio pigarreou. Uma prima desviou o olhar para a taça.
A avó ergueu apenas uma sobrancelha. Letal.
— E isso... prova o quê, exatamente? — perguntou, sem sequer levantar a voz.
— Que eles não se amam! — o primo insistiu, nervoso. — Que estão fingindo! Eles vivem brigando! É óbvio que é tudo armado!
Ela inspirou fundo, como quem conta até três por elegância, e então apoiou o cálice de vinho na mesa com precisão cirúrgica.
— Ah, meu querido... — disse ela, com a serenidade de quem sobreviveu a gerações inteiras de homens burros. — Em sessenta anos de casamento com seu avô, eu quis envenená-lo pelo menos umas quarenta. E mesmo assim, era amor. Amor verdadeiro. — O primo arregalou os olhos, sem saber se era uma metáfora. A avó continuou. — Você está confundindo briga com ausência de afeto. E intensidade com falsidade. — Ela fez uma pausa, observando cada rosto ao redor da mesa até pousar os olhos diretamente em e Min Ho. — Eles são jovens. Teimosos. Impetuosos. E ainda assim, estão nos sites de fofoca toda semana. Cafés, galerias, shoppings, aeroportos. Tem mais gente shippando os dois do que torcendo pro seu time de futebol — e, nesse ponto, um tio tossiu de leve em risada contida. — O mundo inteiro acredita. — sentiu as bochechas esquentarem. Min Ho ajeitou a gola da camisa e coçou a nuca, visivelmente desconcertado. — Agora — continuou a avó, cruzando os dedos com elegância —, se quiser competir com seu primo pela sucessão, que o faça por mérito. Influência, visão, resultado. Não por fofoca de corredor. E, por favor... — ela virou-se para um dos funcionários — tire esse detetive falido, digo, assistente da minha folha de pagamento. Não vou pagar por amadores mal disfarçados com microfones improvisados.
O primo desabou na cadeira, derrotado e vermelho.
mordeu o lábio para não rir. Min Ho a olhou de lado e depois encarou a avó com um novo respeito nos olhos.
— Obrigado, vó — disse ele, quase emocionado.
Ela o encarou por cima dos óculos.
— Não me agradeça ainda. Você continua sendo insuportável. Mas... ao menos encontrou alguém à altura.
, dessa vez, sorriu sem pressa. Um sorriso real, de quem sabia que, apesar de toda a encenação, alguma coisa ali talvez fosse verdade demais pra ser fingida.

☆☆☆


O céu parecia uma pintura em tons de mel e ferrugem, espalhando uma luz dourada sobre o jardim bem cuidado da mansão. A brisa era suave, e o som distante de pássaros quase dava a falsa sensação de paz.
segurava a taça de chá com as duas mãos, mais por hábito do que sede. Os dedos estavam gelados, apesar do calor suave da tarde. Ela não dizia nada. Nem ele. Min Ho estava ao lado, com as pernas esticadas no banco de madeira e a cabeça inclinada pra trás, como se quisesse absorver os últimos raios do dia com o rosto.
Mas ela sentiu.
Aquele arrepio sutil na nuca.
O tipo de sensação que não vinha do vento — vinha de dentro.
De um sexto sentido que, quando apitava, geralmente estava certo.
Ela olhou de canto, fingindo admirar o jardim.
E foi então que viu.
Ali, entre as folhas perfeitamente podadas da trepadeira, uma figura espiava.
De binóculos.
A avó dele.
congelou.
Por um instante, pensou que talvez estivesse imaginando.
Mas não. Era ela mesma, com postura de agente secreta e tudo. Sério, faltava só o ponto eletrônico e um disfarce com bigode postiço.
— Ai, meu Deus… — murmurou, quase sem som.
— Hm? —  Min Ho virou o rosto pra ela, curioso.
Ela engoliu seco.
Primeiro pensamento: Ela não pode ver a gente assim. Lado a lado, frios, comportados. Como dois colegas de trabalho em pausa pra café.
Segundo pensamento: Ela vai acabar com tudo se achar que isso aqui é uma farsa.
Terceiro pensamento: Faz alguma coisa, . AGORA.
Ela se virou.
— O quê? — Min Ho tentou perguntar, mas não teve tempo.
Ela o beijou.
Sem aviso. Sem rodeios.
Do jeito que só ela fazia as coisas: direto ao ponto, um pouco imprudente, intensamente decidida.
O beijo começou desajeitado, por pura surpresa. Mas durou o suficiente para se transformar em algo... diferente.
Mais quente.
Mais profundo.
Min Ho retribuiu. E não foi um beijo qualquer. Foi o tipo que faz o tempo dar uma vacilada.
Os dedos dele tocaram sua cintura devagar, e ela sentiu um arrepio correr pelas costas.
Um beijo com gosto de coisa engasgada. Com pressa contida.
Com fome de algo que nem sabiam que tinham.
Quando ela se afastou, faltou ar nos dois.
levou a mão à boca, como se não acreditasse no que acabara de fazer. Ou sentir.
— Sua avó… — ela sussurrou, ofegante. — Tá com binóculos. Tava... espiando.
Min Ho piscou, como se estivesse voltando de um sonho.
— Hã? Ah. Por isso... o beijo?
— Sim! — ela respondeu, rápido demais. — Só por isso.
Ele assentiu lentamente, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Entendi...
Silêncio.
Constrangedor.
Eles olharam para frente. Depois para as próprias mãos. E, por fim, para qualquer coisa que não fosse o rosto um do outro.
— Você podia avisar — ele disse, sem olhar pra ela. — Sei lá, me dar um sinal.
— Um sinal?
— É. Algo como: vou te beijar agora, finge que tá gostando. — Ele riu sozinho, balançando a cabeça. — Porque eu não fingi nada, tá?
— Que bom. Porque eu também não sou atriz. — Ela virou o rosto devagar.
— É. Percebi. — Ele deu um sorriso de canto. — E devo dizer que foi... convincente.
— Ótimo. Agora, além de uma avó com delírios de KGB, eu tenho que lidar com um narcisista alimentado por beijo surpresa. — Ela bufou, tentando disfarçar a confusão interna.
— Eu prefiro o termo “apaixonado em crise de negação”. — Ele riu de forma afetada.
— Você se escuta quando fala? — o encarou por alguns segundos.
— Às vezes. Mas hoje em especial tô gostando da minha voz.
— Eu vou calçar meus sapatos. Bem longe de você. — Ela se levantou num movimento brusco.
— Vai me deixar aqui? Sozinho? Com esse beijo na cabeça? — O tom de drama forçado fez o clima ficar mais ameno entre eles.
— Leva ele pro terapeuta, Min Ho. — Ela deu as costas e começou a andar.
— Ou acho que vou escrever uma música! — ele gritou atrás dela. — Pode chamar de "O Beijo Que Me Fez Idiota."
Ela não respondeu. Mas foi impossível conter o sorriso no canto dos lábios.
Min Ho ficou no banco.
Ainda segurando a xícara, que agora parecia ridiculamente pequena diante do que tinha acabado de acontecer.
Ele passou a mão pelos cabelos, rindo sozinho.
Porque não havia nada de falso naquele beijo.
Nada.
☆☆☆


O sol do fim da tarde pintava a cidade com tons de cobre, refletindo nos vidros dos carros e nas vitrines das lojas. A porta da cafeteria se fechava atrás deles com o tilintar suave do sino, e ainda gesticulava com empolgação, os olhos brilhando sob os óculos escuros empurrados para o topo da cabeça.
— Você viu aquele mostruário da seda lavada? — perguntou, apertando o passo ao lado de Min Ho. — Aquilo grita verão, Min. Eu já imaginei um kimono com aquela estampa de lótus em negativo. Tecido fluido, leve, com movimento…
— Sim, e o toque era ótimo — respondeu ele, ajustando a sacola com as amostras de tecido no ombro. — Mas aquela representante da empresa francesa, a Jeanne, me deu arrepios. Falava como se estivesse vendendo tecidos direto de Versalhes.
— Eu amei ela! Achei chiquérrima. Meio esnobe, sim, mas imagina as legendas que dá pra fazer com aquele material? "Direto de Lyon para a passarela” — riu alto, sincera, jogando a cabeça para trás.
Continuaram conversando sobre o encontro com os fornecedores  e caminhando pela calçada dourada da avenida principal, envoltos em uma bolha de leveza. A cidade seguia seu ritmo frenético ao redor deles — buzinas, pessoas cruzando apressadas, a música de um saxofonista de rua ecoando a alguns metros —, mas entre os dois havia algo mais quieto. Um entendimento silencioso, uma calma compartilhada.
Foi quando a voz cortou o ar.
— Ah, olha só quem eu encontrei... — A entonação era familiar, venenosa. — A “atriz” porque está encenando muito bem esse namoro falso, que tenta ser estudante de moda nas horas vagas... e o namorado “super oficial”. Li que vocês estão juntos há seis meses agora. Que romântico, hein? Eu já achava que o namoro de vocês era mentira, agora tive certeza.
Ambos se viraram. E lá estava ele. Taejun.
Camisa de linho aberta até o terceiro botão, bronzeado forçado, pulseira de couro no pulso. O mesmo sorriso cínico de sempre. O mesmo olhar de quem julgava saber mais do que todo mundo.
— Há cinco meses, , a gente era um casal apaixonado — ele continuou, com a fala treinada de quem já tinha repetido aquele discurso no espelho. — Eu errei, tá bom? Eu sei. Te traí. Fui um idiota. Mas você jurava amor eterno. Agora aparece com esse cara? — Apontou Min Ho com o queixo, o desprezo escorrendo da voz. — Isso tá fedendo. Tá tudo muito estranho.
travou. Por um segundo. Como se algo tivesse congelado dentro do peito. Mas logo respirou fundo e se endireitou.
— Eu te jurei amor eterno antes de descobrir que você me trocava por uma trainee de perfume barato num apê alugado de 40 metros quadrados, Taejun. — A voz dela saiu firme, pontuada por cada palavra como um tapa. — E isso não foi há cinco meses. Foi bem antes. Eu só demorei pra aceitar que você era um traste. O Min é um namorado totalmente diferente de você, começando pelo fato de que ele não é descartavel, como você e segundo, que ele é homem o suficiente para sustentar um relacionamento por vez, não dois, tres de uma vez.
Ele deu um passo, tentando manter a pose.
— Isso tudo é encenação. Você sempre foi dramática, . — Os olhos dele se voltaram para Min Ho, com aquele mesmo veneno escorrendo. — E ele... ele parece mais seu sócio de marketing do que seu namorado.
— Vai querer resolver no soco, campeão? — Min Ho franziu o cenho, deu um passo à frente, com os ombros duros e o queixo erguido.
A tensão se acumulava no ar como uma tempestade prestes a romper. Os carros continuavam passando. Um vendedor de flores empurrava seu carrinho ao longe. Mas ali, naquele pequeno espaço entre os três, o tempo parecia prestes a explodir.
esticou o braço e segurou o pulso de Min Ho, sem tirar os olhos do ex.
— Não vale a pena, Min. — A voz dela suavizou, mas ainda havia ferro nela. — Ele já teve tempo demais da minha vida. Você não precisa sujar suas mãos com alguém tão... descartável.
Taejun abriu a boca para rebater, mas a resposta morreu antes de nascer. Talvez tenha sido o jeito como ela olhava para Min Ho. Ou o fato de que, pela primeira vez, ela não tremia diante da presença dele.
Do outro lado da rua, escondido de forma patética atrás de um poste de luz, o primo de Min Ho se agachava com o celular na mão. Gravava tudo. O reflexo nos óculos espelhados denunciava sua excitação.
— Cinco meses. — murmurava para si mesmo, quase salivando de antecipação. — Não era seis? Vocês estão ferrados.
Enquanto isso, Min Ho ainda sustentava o olhar em Taejun. Mas não por raiva.
Era como se, naquele instante, ele tivesse entendido por que se fechava tanto. Por que demorava a confiar. Por que, às vezes, falava demais para evitar sentir. Taejun não era só o ex. Ele era a cicatriz.
E agora, ela escolhia não sangrar mais.
Min Ho estendeu a mão, firme. E a aceitou, sem hesitar.
Eles se viraram. Deixaram Taejun para trás.

☆☆☆


A luz suave da manhã atravessava as cortinas de linho, pintando listras douradas sobre o tapete oriental. A avó de Min Ho estava sentada em sua poltrona favorita, com as pernas cobertas por uma manta fina e um livro de capa dura aberto no colo. Um bule fumegava sobre a mesinha lateral, exalando o aroma delicado do chá de crisântemo.
Ela virava a página com calma, os óculos escorregando suavemente pela ponte do nariz, quando a tranquilidade foi quebrada pela entrada repentina do neto mais novo.
— Vovó. — A voz dele cortou o ar como quem entra com um mandado judicial. — A senhora tem um minuto?
Ela suspirou, sem levantar os olhos do livro.
— Se for mais uma teoria sobre o relacionamento do Min Ho, espero que dessa vez tenha algo novo. E concreto. Não me tire da minha leitura à toa.
— Eu tenho. — Ele já puxava o celular do bolso, a tela tremendo em suas mãos de tanta empolgação. — Isso aqui vai abrir seus olhos.
Ela apenas ergueu as sobrancelhas, apoiando a xícara nos dedos com elegância.
Ele deu play. O som abafado do vídeo começou a ecoar pela sala: a voz exaltada de Taejun, o tom cortante de , e a fala marcada: "Há cinco meses, , a gente era um casal apaixonado."
Ele pausou ali, como se tivesse acabado de revelar o maior escândalo da história.
— Eles disseram à imprensa que estão juntos há seis meses. Mas ele fala “cinco”. Isso muda tudo, vovó! O relacionamento deles é uma farsa! Uma encenação ridícula! Eu avisei, desde o começo!
Ela terminou um gole do chá com a mesma calma com que enfrentava reuniões de condomínio. Depois pousou a xícara e o fitou como quem avalia uma criança tentando argumentar sobre política com base em um desenho animado.
— Você está ouvindo a si mesmo, querido?
— O quê?
— Escute sua voz. Suas palavras. Está obcecado. Perseguindo os dois. Isso não é só desconfortável — ela fechou o livro com suavidade —, é doentio.
Ele deu um passo para trás, como se ela tivesse lhe empurrado sem levantar um dedo.
— Mas, vovó...
— Mais ainda... — Ela se levantou, devagar, ajeitando a manta nas costas. Foi até a janela, onde a brisa da manhã entrava preguiçosa. — Eu vi os dois outro dia, no jardim. Estavam se beijando. Sem plateia. Sem pose. Sem marcação. Nada de takes perfeitos ou ângulos pensados. — Virou-se lentamente, os olhos cravados no neto como agulhas de ouro. — Vi desejo. Vi verdade. E eu sei reconhecer uma mentira — deu um pequeno sorriso de canto —, já fui atriz amadora antes de você nascer. — Ele tentou falar de novo, mas ela ergueu a mão. Um gesto leve, quase imperceptível. E absolutamente inquestionável. — O que você viu nesse vídeo foi um homem ferido tentando manipular a situação. E mesmo que fosse tudo mentira... — ela se aproximou, com os olhos mais firmes que nunca — me diga: o que é que te faz perder tanto tempo tentando provar isso? — Um segundo de silêncio. Dois. — É medo de perder algo que você nunca teve? — O impacto dessas palavras ricocheteou pela sala como um trovão suave. Ele ficou ali, parado, o celular ainda tremendo em sua mão. Sem saber o que responder. Porque, no fundo, ela havia acertado. — Agora, se me der licença — disse, voltando à poltrona —, quero terminar meu livro. Min Ho e se resolvem melhor do que você imagina.
Ele se virou e saiu, com passos lentos e frustrados, como quem foi ao ringue e saiu sem acertar um soco.
A avó retomou seu lugar. Pegou a xícara, ajeitou os óculos no nariz e abriu novamente o livro onde havia parado. Mas, antes de retomar a leitura, permitiu que um sorriso quase imperceptível escapasse.
Talvez... só talvez... ela estivesse começando a gostar muito daquela moça para o neto.

☆☆☆


A porta bateu atrás deles com força. O som ainda ecoava quando entrou com os passos firmes, batendo os pés no piso de madeira como se pudesse esmagar o dia inteiro com as solas das botas. As bochechas estavam coradas, os olhos brilhavam — raiva, claramente, mas talvez... algo mais.
Min Ho trancou a porta e jogou as chaves na bancada com um movimento preguiçoso. Recostou-se ali, de braços cruzados, observando andar de um lado para o outro como um furacão contido.
— Quer chá, vinho ou gasolina? — perguntou, com a voz baixa, provocativa. — Porque, sinceramente, você parece que vai pegar fogo.
— Você podia ter ficado fora. Era minha briga. — Ela girou nos calcanhares e apontou um dedo para ele.
— Tecnicamente, era nossa — respondeu ele, levantando uma sobrancelha. — Já ouviu falar em solidariedade de casal?
— Você se meteu sem pensar! — Mesmo sem querer, ela meio que estava descontando nele.
— E você queria que eu deixasse aquele canalha gritar com você no meio da rua? — Ele sabia daquilo, mas entendia as emoções dela naquele momento, ele também fervilhou por dentro e queria ter quebrado pelo menos um dente de porcelana daquele babaca no soco.
abriu a boca para responder, mas ele se adiantou.
— Aliás, você viu a cara dele quando disse que ele era descartável? Quase chorei... de orgulho. — O dele tom tinha mudado para descontraido, para ver se ela conseguia se acalmar minimamente.
— Cala a boca, Min Ho. — parecia menos tensa.
— Tá bom. — Ele ergueu as mãos, rendido. — Mas só se você admitir que foi gostoso me defender daquele idiota.
Ela cruzou os braços, firme. Estava claramente tentando manter o controle, mas havia algo nos olhos dela — um vacilo, um ponto fraco exposto.
— Você não fazia ideia do quanto ele me fez mal. — A frase saiu mais baixa do que ela queria.
— Eu tinha uma leve ideia. Mas ele não te merecia nem como lembrança. — Min Ho mudou na hora. Desfez o sorriso debochado, deu um passo à frente e a olhou com suavidade. — Ela engoliu em seco. O peito subia e descia devagar. O silêncio que se seguiu parecia denso, incômodo — mas familiar. — Eu, por outro lado... — disse ele, retomando o meio sorriso torto — tenho sido um ótimo namorado. Fiel, bonito, engraçado. E agora ainda te defendo em brigas de rua. Sou praticamente um cavaleiro medieval com tênis de marca.
— Você é insuportável. — Ela tentou conter o sorriso, mas falhou. O canto da boca se curvou antes que pudesse evitar.
— Você também. A gente fica perfeito junto.
Ela riu, cansada, e caminhou até o sofá. Deixou o casaco sobre a poltrona e se jogou no estofado como se estivesse exausta demais para manter a postura.
Min Ho a acompanhou logo depois, jogando-se ao lado dela com os braços abertos, o corpo relaxado demais para alguém que quase arrumara uma briga.
— Acha que a gente conseguiu enganar o detetive? — Respirou fundo, também estava ficando cansado daquela situação.
Ela soltou um suspiro e inclinou a cabeça para trás.
— Se não conseguimos depois daquele beijo no jardim... — começou, mas parou. O corpo enrijeceu. O coração bateu mais rápido, como se só naquele instante ela tivesse percebido o que estava dizendo.
— Sobre o beijo… — Min Ho virou o rosto devagar, encarando-a.
— Eu só beijei porque vi sua avó com um binóculo. — Ela virou o rosto também, hesitante.
— Eu sei. — Ele assentiu. — Mas eu retribuí porque... não consegui evitar.
O ar entre eles pareceu mudar. Ficou mais pesado. Mais íntimo. Como se o espaço entre os dois tivesse virado um segredo.
Ela engoliu em seco. Tentou pensar em algo cortante, sarcástico, uma resposta que o colocasse no lugar dele de novo.
— Você beija bem demais pra alguém que eu deveria odiar. — foi tudo que conseguiu dizer
— Então talvez esteja na hora de parar de me odiar. — Ele sorriu. E dessa vez, não foi de deboche. Foi um sorriso pequeno, contido... e sincero.
Ela desviou o olhar, mas não respondeu. E só isso já era uma resposta.
O silêncio que se instalou entre eles dizia tudo que ainda não tinham coragem de falar. Quando ela voltou a encará-lo, Min Ho ainda a observava. Com aquele olhar que atravessava todas as camadas dela. Como se já soubesse o que ela sentia.
E o pior era que ela sabia que ele sabia.

Faculdade de Moda, sala de ateliê, quase meia-noite
O campus permanecia mergulhado num silêncio quase absoluto, interrompido apenas pelo som abafado de uma brisa noturna que passava entre as árvores. Todas as luzes do prédio já haviam sido apagadas — todas, exceto a do ateliê, onde e Min Ho ainda trabalhavam nos últimos ajustes da coleção cápsula.
A sala estava tomada por tecidos empilhados, linhas soltas pelo chão, e manequins vestidos com peças inacabadas, como soldados aguardando ordens. O som suave de um jazz instrumental preenchia o ar com uma melancolia elegante, vinda do celular esquecido sobre uma bancada. Havia algo mágico — quase íntimo — naquela cena: dois jovens, exaustos, mas determinados, dando os últimos pontos de uma criação que carregava mais do que moda. Carregava história.
estava curvada sobre a máquina de costura, concentrada, os cabelos presos de qualquer jeito com uma lapiseira e alguns grampos, enquanto Min Ho, do outro lado da sala, revisava os croquis, rabiscava notas e repassava a sequência da apresentação. O olhar dele, de vez em quando, escapava para ela — como se se perdesse sem querer.
— Isso aqui tava ficando absurdo de bom, — ele comentou, parando diante de um manequim com uma blusa assimétrica e estruturada. A voz carregava admiração genuína, sem filtros.
Ela não tirou os olhos da costura, mas o canto da boca puxou um leve sorriso.
— Nem parece que você discordou de metade das minhas ideias.
— Discordei por esporte, — ele rebateu, se apoiando na beirada da mesa com um meio sorriso provocador. — Você irritada ficava... surpreendentemente eficiente. Como se costurasse com raiva.
Ela suspirou e revirou os olhos, mas não conseguiu disfarçar o sorriso. Ainda terminando os últimos pontos, soltou:
— Você é um idiota funcional. Um milagre que só aparece de madrugada.
Ele riu, se aproximou, e antes que ela percebesse, pegou o tecido recém-costurado das mãos dela. Os dedos se tocaram — não como um descuido, mas como se o toque pedisse um segundo a mais. Talvez dois. Um tempo suspenso.
O olhar de subiu lentamente, encontrando o dele. Era um olhar denso, carregado de cansaço, sim, mas também de algo que vinha crescendo há dias. Sem ensaio. Sem planejamento.
... — ele começou, num tom mais baixo, como se a noite inteira tivesse sido uma preparação para aquela frase.
Mas ela se esquivou, levantando-se rápido, como quem teme o que sabe que virá.
— A gente devia focar, — disse, tentando controlar o tom. — Faltavam menos de nove horas pra apresentação.
— Eu sei... — Min Ho respondeu, dando um passo na direção dela. Os olhos, fixos. A voz, mais firme agora. — Só que... eu tava cansado de fingir que não queria te beijar.
Ela abriu a boca para dizer algo — um protesto, uma piada, qualquer coisa. Mas ele não esperou. Puxou-a pela cintura e a beijou.
Dessa vez, ela não hesitou.
Retribuiu com a mesma intensidade, como se todo o cansaço evaporasse naquele instante. Como se os corpos falassem mais do que qualquer croqui, como se aquele beijo dissesse o que meses de convivência haviam silenciado. Não havia mentira ali. Não havia "personagem". O que existia era calor, urgência... e verdade.
Separaram-se aos poucos, ainda ofegantes. Ela encostou a testa na dele, os olhos fechados, tentando encontrar algum equilíbrio.
— Isso não está nos fazendo bem... — ela murmurou. — A gente está começando a misturar tudo. Confundir os sentimentos.
— Sinto muito. Não vai mais acontecer. — Ele recuou levemente o rosto, só o suficiente para encará-la. — O silêncio caiu entre eles. Denso. Quente. Então ele continuou, com um sorriso quase triste. — Mas será que a gente podia terminar isso umas duas semanas depois do aniversário da vovó? — Os olhos dele tinham um brilho que misturava esperança e ironia. — Acho que ela gosta de você agora.
— Min Ho… — Ela hesitou. Sabia que devia dizer algo. Cortar o laço. Apontar a linha entre o que era real e o que era parte do plano. Mas a voz dele tinha perfurado alguma coisa dentro dela.
— Eu juro que não vou mais te beijar... a menos que você queira.
Ela o encarou, sentindo o chão se dissolver sob os pés. Ele a desarmava. Sempre. E ela estava cansada de fingir que não sentia nada.
Mas, ainda assim, se afastou. Foi até o varal improvisado onde penduravam os looks e começou a organizar as peças restantes. Tentava recuperar o foco, colocar as emoções de volta dentro de uma caixa.
Mas ambos sabiam.
Sabiam que aquela linha tênue entre o que era fingimento e o que estava nascendo ali — naquela madrugada silenciosa, entre moldes, tecidos e respirações aceleradas — já não existia mais.

Auditório da Faculdade de Moda, manhã seguinte

O auditório estava lotado. Fileiras inteiras de cadeiras de veludo azul acomodavam estudantes ansiosos, professores exigentes, profissionais da indústria e até alguns investidores discretamente interessados. Um murmúrio constante pairava no ar, como se todos estivessem à beira de algo grande.
Bem no centro da plateia, destacando-se em meio à multidão, estava a senhora Moon. O coque cinza perfeitamente preso, o blazer de linho bege sem um vinco, e a bengala de madrepérola repousando com elegância ao lado, sobre o apoio da cadeira. Seus olhos — experientes e afiados — acompanhavam cada detalhe do ambiente com uma curiosidade atenta, quase inquisidora. Ela não era o tipo que se impressionava fácil.
No palco, Min Ho e aguardavam sua vez. Permaneciam lado a lado, impecáveis em preto e branco, transmitindo uma harmonia que ia além da estética. A tensão da noite anterior ainda parecia flutuar entre eles, mas ali, naquele instante, ambos vestiam a armadura da compostura profissional. Tinham trocado o calor de um beijo por olhares contidos e discretos sorrisos cúmplices.
— Nervosa? — Min Ho perguntou em voz baixa, a cabeça levemente inclinada na direção dela, os olhos brincando.
— Não — ela respondeu, sem tirar os olhos da passarela. — Mas espero que você tenha decorado direitinho aquela parte em que me chama de gênio criativa e visionária incompreendida.
— Cada palavra. Prometo até emoção na entonação. — Ele riu, baixinho, com um sorriso enviesado.
Foram chamados ao palco naquele momento. As luzes se voltaram para eles, e uma nova energia percorreu o auditório. O burburinho cessou. Os olhares se fixaram.
A entrada da coleção cápsula transformou o cenário. Modelos cruzaram a passarela improvisada com confiança e leveza, vestindo peças que pareciam contar histórias. Havia tecidos fluidos que dançavam ao caminhar, bordados que misturavam referências asiáticas, africanas e latinas, tudo costurado com a linguagem da moda contemporânea. Cores vibrantes, tons terrosos, cortes que valorizavam o movimento do corpo. A estética era forte, mas não gritava — ela encantava.
A plateia silenciou. E esse silêncio era o maior elogio.
foi a primeira a falar. Sua voz saiu firme, clara, com a segurança de quem sabia exatamente o que estava fazendo — e dizendo. Explicava as inspirações culturais, as escolhas de materiais sustentáveis, o propósito por trás de cada peça. Min Ho a seguia com falas perfeitamente pontuadas, fazendo contrapontos técnicos e comerciais, sem jamais ofuscar ou competir com ela.
Eles se alternavam sem esforço. Como se tivessem ensaiado por semanas. Mas não era ensaio. Era sintonia. Era respeito.
E no meio da plateia, a senhora Yoon observava cada palavra com um sorriso discreto brotando nos lábios. Não era fácil agradá-la. Mas aquilo… aquilo estava além das expectativas.
Quando a apresentação terminou, o auditório irrompeu em aplausos. Um professor se levantou. Depois outro. E outro. Os colegas se entreolhavam, visivelmente impressionados. As amigas de cochichavam, de olhos brilhando de orgulho. Até os amigos de Min Ho pareciam surpresos — e, pela primeira vez, genuinamente admirados com o que ele e haviam construído juntos.
Ao deixarem o palco, a tensão finalmente começou a escorrer pelos ombros deles, como se o peso de dias e noites intensas começasse a se dissolver.
— Foi perfeito — ela sussurrou, com um sorriso leve, enquanto os bastidores os envolviam novamente.
— A gente faz uma boa dupla — ele respondeu, com aquele brilho debochado nos olhos. — Mesmo quando você ameaça cortar meus tendões.
— A ameaça continua válida — ela rebateu, com doçura fingida.
Ambos riram. Era um alívio. Mas também era mais. No olhar que ele lançou de soslaio, no jeito como os ombros dela relaxaram… havia algo novo. Algo que escapava do controle.
Mais atrás, quase invisível entre os bastidores, a senhora Moon cruzou os braços e murmurou, com uma sobrancelha arqueada:
— Hm. Se isso for fingimento… esses dois deviam ganhar um Oscar.

Refeitório da Faculdade, um dia após a apresentação final.

O refeitório estava lotado, como de costume, mas naquela tarde havia algo diferente no ar. O fim do semestre soprava seu alívio pelas janelas abertas, misturado ao burburinho dos estudantes celebrando apresentações finalizadas e noites em claro que, enfim, chegavam ao fim.
entrou com a bandeja nas mãos, os passos lentos, como se o peso da exaustão finalmente a alcançasse. Observou o movimento à frente, sem muita atenção, até sentir uma presença conhecida se aproximando por trás.
— Ué — comentou, virando o rosto sobre o ombro com um meio sorriso contido. — Achei que ia almoçar com os seus amigos hoje.
Min Ho deu de ombros, como se aquilo fosse o gesto mais natural do mundo.
— Eu vi que você estava sozinha — respondeu, simples, sem rodeios.
Ela revirou os olhos, mas não escondeu o leve sorriso que apareceu nos cantos dos lábios. Silenciosos, seguiram pela fila do almoço. Pegaram as bandejas, os talheres, os pratos fumegantes. Tudo como sempre — menos o que vibrava por dentro.
Sentaram-se lado a lado em uma das mesas próximas à janela, onde um feixe de luz dourada atravessava o vidro e transformava o refeitório banal em algo quase cinematográfico. O sol tocava o rosto dela, e ele reparou nisso, mesmo que não dissesse nada.
Ela começou a comer devagar, o garfo deslizando no prato. Ficaram assim por alguns minutos, até que ela, ainda encarando a comida, soltou:
— Você sabe que não precisa mais ficar colado em mim, né? Nosso projeto já acabou.
Min Ho mastigou devagar, como se digerisse mais que a comida. Depois virou o rosto para ela com o típico ar debochado, o sorriso de sempre escondendo algo mais fundo.
— Ainda somos namorados, . Pelo menos até o meio do mês que vem. — Ele a olhou de lado, arqueando uma sobrancelha. — Não esquece que a festa da vovó é no fim desse mês... e você me prometeu pelo menos mais duas semanas depois disso.
— Isso não te parece um pouco obsessivo, Min Ho? — Ela pousou o garfo com um leve tilintar no prato, apoiando o cotovelo na mesa.
— Só estou sendo comprometido com a mentira que você topou manter — rebateu ele, inclinando-se para mais perto, o tom mais baixo, mais íntimo. — A menos que queira desistir agora e dizer pra minha avó que tudo era fingimento. Nesse caso, a herança vai direto pro meu primo esquisito que coleciona ossos de galinha e acredita em conspirações alienígenas.
Ela ergueu uma sobrancelha, lutando para manter a expressão séria:
— Nossa, você é mesmo um romântico.
— Eu me esforço. Juro. — Ele sorriu de lado, como se cada resposta fosse pensada para provocá-la. — Mas você é difícil.
Eles riram juntos. Não era mais como antes. As farpas afiadas agora vinham envoltas em veludo. A ironia permanecia, mas tinha calor. Tinha intenção. Tinha cuidado disfarçado.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Era um silêncio morno, preenchido apenas pelo som de talheres, pelas vozes ao redor e por uma música pop esquecida tocando ao fundo, baixa demais para ser identificada, mas suficiente para criar um clima.
Min Ho desviou os olhos para ela. Observou-a com mais atenção do que deveria. Os fios soltos do cabelo, os cílios longos, o canto da boca que parecia sempre prestes a zombar dele.
— Obrigado por ontem — disse, a voz saindo mais baixa do que planejava. — Por ter feito tudo parecer... real.
— Às vezes eu me surpreendo com o quão boa atriz eu sou. — Ela não o olhou de imediato, mas seus lábios se curvaram num meio sorriso, quase melancólico.
— Às vezes eu me pergunto se você está mesmo fingindo — ele retrucou, sem se mover, sem desviar o olhar.
Ela enfim virou o rosto para encará-lo. E ali estava — aquele instante frágil, cheio de possibilidades. Havia algo nos olhos dela que ele não soube decifrar. Talvez fosse um aviso. Talvez um convite. Um desafio, um medo, uma súplica para que ele não atravessasse aquela linha.
Mas ele apenas piscou, tranquilo, e voltou a comer. Fingiu que não dissera nada demais. Fingiu que não sabia o que aquela pergunta tinha aberto entre os dois.
Mas ambos sabiam que ele sabia.

Ruas do centro de Seul, fim de tarde

As ruas do centro fervilhavam com a agitação típica do fim de tarde. Pessoas iam e vinham em um balé apressado entre vitrines coloridas, letreiros piscando com promoções exageradas, o som de música pop saindo de alguma loja e se misturando ao barulho dos carros, buzinas e conversas apressadas.
caminhava com as mãos ocupadas por sacolas. A alça da bolsa escorregava do ombro a cada três passos e ela precisava reajustá-la com um movimento automático. Apesar do caos ao redor, havia algo de reconfortante na rotina barulhenta da cidade.
Parou diante de uma loja de artigos vintage, os olhos atentos à vitrine que exibia caixinhas decoradas, incensos e objetos antigos com cheiro de história. Estava prestes a entrar quando ouviu, atrás de si, a voz que já reconhecia antes mesmo de ser pronunciada:
— Uau, que coincidência!
Ela se virou devagar, já com um sorriso de canto nos lábios. E lá estava ele — Min Ho, parado com um milk tea na mão e o capuz da blusa puxado como se aquilo fosse o suficiente para esconder seu rosto conhecido.
— Coincidência, Min Ho? Sério?
— Aham. Coincidência total — ele respondeu, dando um gole na bebida, com a expressão mais descaradamente inocente que conseguiu fazer.
— Eu te disse que viria aqui hoje, no intervalo da aula. — Ela ergueu uma sobrancelha, sem pressa.
— É mesmo... — disse ele, como se estivesse lembrando naquele instante. — Então eu vim porque... que tipo de namorado deixaria a namorada andar sozinha pelas perigosíssimas ruas de Seul?
— Ah, claro. Um perigo real comprar incenso e chá pra minha avó às cinco da tarde, numa rua cheia de turistas e música tocando do lado de fora de uma loja de pelúcias. Tô correndo um risco enorme. — Ela riu, e ele sorriu junto, os olhos iluminados por aquele brilho que ela já tinha aprendido a identificar: o de quem estava se divertindo por estar ali com ela.
— Você tá carregando demais. Vamos fingir que eu sou prestativo também. — Sem pedir permissão, ele se aproximou e pegou uma das sacolas da mão dela.
Ela o observou por um segundo. Não disse nada. Poderia ter contestado, feito alguma piada, acusado o teatrinho. Mas apenas suspirou, como quem cansou de lutar contra pequenas gentilezas, e entrou na loja, com ele logo atrás.
O lugar tinha um cheiro leve de madeira envelhecida e lavanda. Sons baixos vinham de um toca-discos antigo em algum canto, tocando uma música instrumental dos anos 70. Enquanto ela examinava uma caixinha de madeira entalhada à mão, ele se afastou alguns passos e parou diante de um balcão lateral.
— Isso aqui combina com você — disse ele, surgindo ao lado dela e estendendo uma pulseira feita de contas vermelhas e douradas.
— Não sou muito de usar acessórios — respondeu, olhando a peça com desconfiança.
— Eu sei. Mas... essa parece meio “você”. Sabe? Meio brava, meio bonita.
— Você me chama de brava como se fosse um elogio. — Ela soltou um riso abafado, baixinho.
— Talvez seja.
Ela pegou a pulseira e a prendeu no pulso, testando. Observou o brilho discreto das contas sob a luz quente da loja. Ele observava ela. E por um instante, os dois ficaram assim: parados, calados, imóveis diante de algo que nenhum dos dois queria nomear.
Silêncio. Mas daqueles bons. Um espaço que não precisava ser preenchido.
— Quer um café depois? — ela perguntou, sem olhar diretamente pra ele.
Ele sorriu, devagar, como quem vinha esperando aquele convite desde o momento em que a viu na vitrine.
— Achei que não fosse perguntar. — Ele sorriu, devagar, como quem vinha esperando aquele convite desde o momento em que a viu na vitrine.
Saíram juntos da loja, lado a lado. As sacolas estavam divididas entre os dois, e os passos pareciam estranhamente sincronizados. Havia algo de natural, de inevitável na forma como caminhavam juntos.
E talvez, só talvez, já não soubessem mais o que exatamente estavam fingindo.

A Festa de Oitenta


O salão principal da mansão dos Moon estava irreconhecível, com arranjos florais elegantes, luzes pendentes em tons quentes e música ao vivo preenchendo o ambiente com sofisticação. Era uma noite digna da matriarca da família: a avó de Min Ho completava oitenta anos, e a alta sociedade de Seul marcava presença para celebrar.
estava deslumbrante. O vestido vinho, justo na medida, com um decote discreto nas costas, a fazia parecer saída de uma campanha da Dior. O cabelo preso em um coque baixo realçava sua nuca e seus brincos delicados. Quando ela entrou no salão, Min Ho teve que se lembrar de respirar.
— Vai continuar me encarando ou vai me levar para cumprimentar a sua avó? — ela disse, parando na frente dele com um sorriso que não escondia a tensão.
— Eu ainda estou tentando entender como você conseguiu ficar mais bonita do que já era — ele murmurou, oferecendo o braço com uma reverência teatral. — Mas vamos. Ela está te esperando.
E estava mesmo. A avó os recebeu com um sorriso discreto e olhos atentos, os cumprimentando como se não estivesse analisando cada gesto, cada palavra. foi impecável. Charmosa, educada, segura. Min Ho não conseguia decidir se estava impressionado ou completamente perdido nela.
A noite seguiu em um desfile de cumprimentos, discursos, danças e brindes. E a cada nova interação, o casal ficava mais afinado. As provocações ainda existiam, mas tinham mudado de tom. Eram mais suaves, com sorrisos no fim. Toques rápidos, como se um estivesse constantemente conferindo se o outro ainda estava ali.
Durante a dança, os dois riram de um passo desajeitado de Min Ho e passou a mão pelo rosto dele, limpando um pouco de glacê que havia escapado da sobremesa.
— Isso está me parecendo cada vez menos fingimento — ela sussurrou, tentando soar casual, mas ele segurou a mão dela por um segundo a mais do que o necessário.
Mais tarde, com o salão esvaziando, Min Ho puxou pela mão até o jardim. As luzes suaves dos postes ao redor criavam uma atmosfera quase mágica. Ela se encostou no parapeito da varanda, observando as estrelas tímidas entre as nuvens.
— Sua avó parece mesmo acreditar em tudo isso… — ela disse, sem olhá-lo.
— Acha que é só ela? — ele respondeu, a voz mais baixa.
Ela franziu a testa e o encarou. Ele estava sério, os olhos escuros fixos nos dela.
— Talvez eu tenha começado a gostar de você de verdade — ele confessou, dando de ombros. — E talvez isso esteja confundindo o que é mentira e o que é real.
— Min Ho… — O coração dela disparou. Ele estava brincando? Não parecia.
— Você não precisa dizer nada — ele a interrompeu, com um meio sorriso. — Só... precisava tirar isso do peito.
Antes que ela pudesse reagir, uma empregada surgiu chamando todos de volta ao salão. A avó de Min Ho estava prestes a fazer um anúncio.
De volta ao centro do salão, a matriarca pegou o microfone com a firmeza de quem sabia comandar uma sala.
— Quero agradecer a todos pela presença. E, já que estão aqui, aproveito para dizer algo importante: assim que Min Ho se formar, ele assumirá oficialmente o comando dos nossos negócios.
Todos aplaudiram. congelou.
— Ele cresceu, amadureceu... e com certeza fez boas escolhas — continuou a avó, olhando diretamente para ao dizer a última frase.
O aplauso foi geral. sentiu o olhar de Min Ho sobre ela e, ao encará-lo, encontrou um sorriso contido, quase inseguro. Ela retribuiu, mas havia algo em seu olhar — uma hesitação, uma dúvida — que ele percebeu imediatamente.
Min Ho subiu ao pequeno palco improvisado com o microfone em mãos e um sorriso que beirava o nervoso. Ajustou a gravata, limpou a garganta e olhou brevemente para , que estava entre os convidados, segurando uma taça de champanhe e o olhar curioso.
— Boa noite a todos. — A voz dele soou firme após a primeira frase. — Eu cresci ouvindo que minha família esperava muito de mim. Às vezes, aquilo soava como um fardo. Outras, como uma missão. Hoje, depois desse anúncio... — Ele lançou um olhar terno à avó, que assentiu com um sorriso. — Acho que posso dizer que transformei essa expectativa em combustível.
Alguns aplausos soaram aqui e ali.
— Quero agradecer à minha avó, por sempre acreditar que eu seria capaz, mesmo quando eu mesmo não tinha certeza. Ao meu talento — ele riu de si mesmo, arrancando risos dos convidados — que precisei aprender a respeitar e lapidar. E, claro… — Ele fez uma breve pausa e olhou diretamente para . — À . Que me incentivou, me provocou e, direta ou indiretamente, me ajudou a conquistar esse momento. Ter alguém ao seu lado que te desafia é, às vezes, tudo que a gente precisa pra sair do lugar. E eu saí. Estou aqui por minha avó, por mim... e por ela também.
O salão irrompeu em palmas, mas Min Ho não desviou o olhar dela até terminar o agradecimento com um sorriso suave.
— Obrigado por acreditarem em mim. Prometo estar à altura.
O ar fresco da noite envolveu os dois quando saíram da casa, os ecos da festa ainda soando ao longe. Caminhavam lado a lado até o carro dele, em silêncio, até que:
— O que foi aquilo no discurso de agradecimento? — cruzou os braços e olhou para ele de soslaio.
— Aquilo o quê? A parte em que agradeci ao meu talento? Porque, convenhamos, ele merecia. — Min Ho fingiu pensar por um momento, como se não tivesse ideia do que ela estava falando.
— A parte em que você praticamente disse pra todos os convidados que eu fui a inspiração da sua vida. Vai me dizer que não percebeu o tom? — Ela revirou os olhos.
— Ah! Isso. — Ele deu de ombros, com um sorriso safado. — Mas você me ajudou, ué. E seria estranho não agradecer à mulher que me fez começar a fazer boas escolhas.
— Isso foi uma referência à sua avó, né?
— Óbvio! — Ele ergueu as mãos, rindo. — Não viu o que ela disse? “Desde que começou a namorar, Min Ho, você finalmente está usando o cérebro.” Achei gentil da parte dela.
— Eu não sei se fico lisonjeada ou preocupada por ser o parâmetro das suas decisões racionais. — balançou a cabeça, tentando conter o sorriso.
— Fica lisonjeada. É mais divertido. E melhor do que ser o motivo das minhas decisões estúpidas — ele piscou para ela enquanto abria a porta do carro.
Ela riu baixinho e entrou, ainda meio sem saber como lidar com a naturalidade dele — e com o modo como, sem dizer mais nada, ele deixava tudo mais leve… e perigoso.

☆☆☆


o observava de longe, os olhos semicerrados, enquanto fingia prestar atenção no livro aberto sobre a mesa. Do outro lado do saguão da biblioteca, Min Ho sorria — aquele sorriso — para uma garota do curso de Design de Produto que ela mal conhecia, mas já considerava inimiga.
A tal garota ria, tocava o braço dele com naturalidade demais e… inclinava a cabeça como se estivesse hipnotizada por alguma coisa que ele dizia.
Ridículo, pensou. Absolutamente ridículo.
Min Ho voltou para perto dela alguns minutos depois, com um ar inocente demais para quem não tinha feito nada.
— Você acredita que ela queria saber qual perfume eu uso — ele disse, largando a mochila na cadeira ao lado e abrindo o laptop como se não tivesse acabado de desestabilizar o humor de alguém.
— Ah é? — respondeu, com o tom neutro demais para ser real.
— Você está com ciúmes de mim, ? — Ele a olhou de lado, a sobrancelha arqueada.
Ela bufou, virando uma página com força.
— Claro que não. — Mas estava. — A gente ainda tá namorando de mentirinha, lembra? Eu não quero levar fama de corna de mentirinha pelo campus todo, por você ficar de charminho com esse sorrisinho patético nos lábios para outras garotas.
— Sorrisinho patético? Agora doeu. — Min Ho riu, sem se abalar.
— Doeu? Mas nem tanto quanto o olhar babão daquela ali — ela apontou discretamente com o queixo. — Aquilo não era só curiosidade olfativa. Aquilo era flerte descarado.
— Ela só perguntou o nome do perfume porque queria dar de presente pro cara que ela gosta. — Disse simples.
— Ela estava dando em cima de você, criatura. — cruzou os braços.
— Então você estava com ciúmes. — Min Ho a olhou com um sorriso que era quase perigoso.
— Você tem muita autoestima pra alguém que usava Crocs com meia no primeiro semestre. — Ela desviou o olhar, resmungando.
— Mas você notou, não notou? — Ela prendeu um sorriso. Estava ferrada. Muito.

☆☆☆


Faziam dias que ela vinha empurrando os pensamentos para baixo do tapete mental, como se esconder sentimentos fosse uma arte. E, honestamente, achava que estava se saindo até bem — se ignorar completamente o fato de que quase deixou um copo cair quando ouviu o nome dele na aula, ou que andava se pegando rindo sozinha de coisas que ele dizia.
Mas agora, sozinha no quarto, deitada de bruços com a cara afundada no travesseiro, era impossível continuar fugindo.
O discurso dele na festa da avó ainda ecoava na sua cabeça como um refrão pegajoso. "Agradeço à minha avó, ao meu talento, e a essa mulher aqui do meu lado que me incentivou mais do que imagina." Ela se lembrava exatamente da forma como ele tinha olhado pra ela — como se aquilo fosse mais verdade do que fingimento.
E depois teve o beijo. O segundo beijo. Que, aliás, ela retribuiu. Com gosto.
virou o rosto no travesseiro e soltou um grunhido frustrado.
— Idiota. — Mas nem ela sabia se estava xingando ele… ou a si mesma.
E como se não bastasse, veio o episódio do ciúmes. Ela podia negar até a morte, mas sabia exatamente o que tinha sentido ao ver aquela garota sorrindo demais para ele. Uma pontada estranha, um incômodo no fundo da barriga, como se ela mesma fosse dona de algo que não tinha direito nenhum de possuir.
Você está com ciúmes de mim, ?
Sim. Sim, ela estava. E isso era o mais assustador de tudo. Porque significava que talvez — só talvez — tivesse deixado de detestar Min Ho faz tempo. E mais ainda: que a linha entre a mentira e o que ela realmente sentia tinha desaparecido sem aviso.
E o mais esquisito?
Eles nunca mais tocaram no assunto da declaração dele.
Ele apenas continuava ali, no mesmo lugar de sempre, com o mesmo sorriso idiota que ela achava patético, mas que estava começando a achar… bonitinho.
soltou outro suspiro.
Estava oficialmente ferrada.

☆☆☆


Min Ho encostou o ombro na lateral da porta da sala de estudos e cruzou os braços, observando como se fosse a primeira vez. Ela estava ali, sentada à mesa com o laptop aberto e o cenho franzido de concentração… ou de pura fuga emocional.
— Você tá me evitando. — Ele disse sem rodeios, com um tom divertido.
— Oi pra você também. — respondeu ela sem desviar os olhos da tela.
— Tô falando sério. Desde a festa da vovó, você anda me tratando como se eu fosse uma nuvem tóxica de gás. E sinceramente… nem perfume novo eu usei. — Ele se aproximou, puxando a cadeira ao lado com o habitual descaramento.
virou os olhos, mas a garganta apertou. Ele estava bonito. Estava sempre bonito, droga.
— Talvez eu só esteja ocupada. Faculdade, trabalhos, essas coisas que pessoas normais fazem. Vai ver você devia tentar também.
— Engraçadinha. — Ele apoiou o queixo na mão e a olhou de lado. — Isso tem a ver com o discurso? Ou com o ciúmes? Ou com o beijo?
— Eu não estava com ciúmes. — Ela girou o rosto na direção dele tão rápido que quase deslocou o pescoço.
— Claro que não. — Ele concordou, com a cara mais cínica do mundo. — Só me chamou de "criatura" e acusou uma moça aleatória de flertar comigo porque… defende os direitos das namoradas de mentirinha. Uma verdadeira militante.
— Você está insuportável hoje. — Ela bufou, tentando conter o calor no rosto.
— Ah, então voltou a me achar insuportável? Que alívio, pensei que estava começando a gostar de mim.
O silêncio que seguiu foi breve… mas revelador. Ela não rebateu. Só ficou olhando pra ele, como se esperasse que ele voltasse atrás, que risse e mudasse de assunto.
Mas Min Ho sustentou o olhar. Sério, pela primeira vez em muito tempo.
, a gente não falou mais daquele dia. E tudo bem, se você quiser fingir que nada aconteceu, eu respeito. Mas…
— Mas?
— Só queria que soubesse que, por mim, a gente podia parar de fingir de vez. O problema é que agora… eu não sei se você quer.
— Você tem muita certeza de si mesmo, né? — Ela sentiu a respiração travar por um segundo. E aí, como sempre, riu — meio nervosa, meio cínica, tentando controlar o próprio coração.
— Não. — Ele sorriu de canto. — Mas tô começando a ter certeza de você.

☆☆☆


O silêncio da biblioteca era quase sagrado àquela hora da noite. As luzes já tinham sido reduzidas pela equipe da limpeza, e os únicos sons eram o estalar de canetas, as páginas virando e os suspiros frustrados dos poucos estudantes que insistiam em estudar até o último segundo.
estava ali, firme, com os cabelos presos de qualquer jeito no alto da cabeça, a testa levemente franzida e uma expressão indecifrável entre concentração e desespero. As anotações à sua frente estavam organizadas, mas seus pensamentos estavam em completo caos.
Ela suspirou alto. Um daqueles suspiros que vinham das profundezas da alma cansada de teorias e datas.
— Você respira assim quando não entende ou quando entendeu demais e entrou em negação? — uma voz conhecida surgiu ao seu lado, baixa o suficiente para não atrair olhares de reprovação.
Ela deu um pulo na cadeira, virando o rosto rápido. O susto não durou muito, porque o alívio veio logo em seguida, como se a simples presença dele fizesse a noite parecer menos longa.
— Min Ho. — Ela o encarou com uma sobrancelha arqueada. — Você tá atrasado.
Ele tinha aquele meio sorriso debochado nos lábios, como se nunca estivesse realmente errado.
— Resolvi passar no café da esquina antes. Achei que você precisaria disso. — Ele estendeu para ela um copo com tampa plástica.
Ela pegou o copo, disfarçando o calor que invadiu seus dedos quando os dele encostaram nos seus.
— Chocolate quente? — perguntou, desconfiada.
— Meio amargo, com canela e sem chantilly. Do jeito que você gosta. — Ele piscou, como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo.
E foi nesse momento que ela sentiu uma pontada. Uma coisa estranha no peito. Como se o ato fosse pequeno demais pra significar algo, mas grande demais pra passar despercebido.
Ela baixou os olhos, tentando disfarçar.
— Tá tentando me comprar, é isso?
— É claro. Com chocolate. E depois eu ofereço um pedaço de bolo e te conquisto pra sempre. — Ele se sentou ao lado dela, abrindo o próprio livro com a maior naturalidade do mundo.
— Você é um idiota — murmurou, mas não havia rancor algum em sua voz. Na verdade, havia um toque de… afeição?
Eles seguiram estudando por mais algumas horas. De tempos em tempos, trocavam comentários sussurrados, piadas bobas e olhares cúmplices.
— Tchau ! — Min Ho gritou de dentro do carro assim que a mulher saiu, ele tinha dado uma carona para ela depois dos estudos.
— Tchau Min Ho, nos vemos na terça? — Ela respondeu virando em direção a ele que só acenou a cabeça em confirmação.
☆☆☆


Naquela terça-feira, Min Ho não apareceu na biblioteca.
Nem de manhã, nem à tarde.
estava sentada na sua cadeira favorita, a de sempre, perto da janela, onde podia olhar para o campus sem perder a concentração nos livros. Mas, ao invés de se focar na leitura, ela ficava lançando olhares furtivos para a porta, como se estivesse esperando um sinal. Esperando por ele. Porque, de alguma forma, ele sempre aparecia. Às vezes com um café em mãos, outras com um sorriso travesso e um comentário irônico sobre o quanto ela sempre estava pronta para "estudar até morrer".
Mas naquele dia não. Não havia sinal dele.
Ela tentou focar. Tentou se convencer de que estava tudo bem, que ele provavelmente estava atolado nos trâmites legais da posse da empresa da avó, como tinha comentado no dia anterior. Nada de mais, certo? Ele sempre esteve ocupado com aquilo. Não seria a primeira vez que ele se atrasaria.
Mas a mente dela não parava. Ela olhou para o lado várias vezes, inconscientemente, esperando vê-lo surgir pela porta, o olhar curioso, a piada pronta sobre o marcador de página “brega” que ela usava, ou quem sabe apenas a zombaria sobre como ela estava segurando o livro errado – como sempre fazia.
Mas nada. Nenhuma risada. Nenhum "Eu sou o salvador do seu dia, ". Apenas o silêncio pesado e a agonia crescente no peito dela.
Ela se forçou a continuar estudando, mas estava impossível. Toda vez que o relógio marcava uma hora a mais e ele não aparecia, um pedaço de ela mesma se perguntava se talvez ele tivesse mudado de ideia sobre a amizade deles. Ou pior, se ele estivesse começando a tratar o relacionamento deles como algo... superficial.
A noite estava chegando e ela sentiu uma estranha necessidade de quebrar aquele silêncio, então pegou seu celular. Com o dedo vacilante, ela digitou a mensagem.
“E aí, CEO da Coreia, tá vivo?”
A resposta não demorou. Alguns minutos depois, o celular vibrou, e ela quase se obrigou a não olhar tão rápido. Mas, ao vê-la, o sorriso involuntário apareceu.
“Mal aí, primeira-dama. Reunião eterna. Amanhã trago chocolate em dobro, juro.”
Ela sorriu. Um sorriso bobo e imenso que ela imediatamente tentou esconder, torcendo para que ninguém visse. E ali, no meio da biblioteca vazia, ela odiou o quanto aquilo lhe fez bem. O quanto a resposta dele a fez sentir uma pontada de alívio. Ele estava bem, ele estava... com ela, de alguma forma.
Mas ela odiou mais ainda o fato de se importar tanto.
olhou para a tela, sentindo a tensão da situação, a mistura de carinho e frustração. Depois, simplesmente guardou o celular e fechou o livro, decidindo que, por mais que o dia tivesse sido estranho, ele já estava começando a se tornar uma lembrança distante.
Mas o sorriso não saía do rosto dela. Ela sabia que o que estava acontecendo ia além do chocolate e daquelas mensagens rápidas. Ela só não queria admitir isso ainda.
☆☆☆


O ateliê da faculdade estava silencioso, com as luzes suaves refletindo nos tecidos e nas ferramentas de costura espalhadas pela bancada. estava sozinha, a única companhia sendo a máquina de costura que zumbia baixinho, como uma constante no meio do vazio.
Ela terminou o último modelo para o projeto final, um vestido estruturado, inspirado em arquitetura gótica. Os cortes ousados e a elegância pesada do design eram um reflexo de sua personalidade — cheia de contrastes e com um toque único de ousadia. A modelagem era impecável, como sempre, mas hoje algo estava faltando.
Ela o observou de longe, o vestido repousando no manequim, seu olhar crítico. Mas, por mais que tentasse focar no trabalho, sentia uma ausência. Algo que sempre a acompanhava quando estava ali, terminando suas criações: a voz sarcástica de Min Ho.
“Nossa, essa gola me lembra a muralha da China.”  A frase ecoava em sua mente, uma constante piada interna que ela já sabia de cor.
Ela suspirou, fechando os olhos por um instante, sentindo o vazio da sua ausência naquele momento.
— Não que sua opinião fosse importante… — murmurou, se virando para dar os últimos retoques no vestido.
Mas então, como se tivesse sido invocado por um feitiço, ouviu a voz dele, irônica como sempre, cortando o silêncio.
— Que susto! Eu achei que tinha entrado no set de um filme da Idade Média.
Ela se virou rapidamente, surpresa, e lá estava ele, parado na porta, com o sorriso travesso estampado no rosto. O contraste entre a seriedade do ateliê e a leveza dele era instantâneo. Ele estava, como sempre, descontraído, quase como se tivesse acabado de aparecer de algum lugar entre as sombras.
— Você não disse que ia chegar tarde hoje? — perguntou, ainda sem esconder a surpresa, embora um sorriso começasse a se formar em seus lábios.
— E perder a chance de criticar seu trabalho com amor? Jamais. — Ele deu um passo à frente, se aproximando da mesa onde o vestido estava exposto.
Ela rolou os olhos, mas era impossível não sorrir. Mesmo sabendo que ele estava ali para provocar, ela se pegou adorando aquele pequeno jogo entre eles. O jeito como ele a fazia se sentir à vontade e ao mesmo tempo desafiada, tudo ao mesmo tempo.
— Que amor, Min Ho? — ela provocou de volta, com um tom brincalhão, mas seus olhos estavam suavizados, não havia mais a energia desafiadora de antes. Ela não conseguia esconder o pequeno sorriso que estava tentando conter.
Ele olhou para ela com um sorriso de lado, aquele sorriso autêntico que ela sabia que ele só usava quando estava realmente se divertindo. Ele fez uma leve pausa, como se estivesse pensando no que responder, antes de soltar sua típica resposta irônica.
— O meu, ora. Amor próprio. Afinal, tenho que me valorizar se quero te aguentar até a formatura. — Ele deu uma piscada antes de se aproximar ainda mais do manequim, observando o vestido com um olhar crítico e curioso, mas também admirado.
Ela revirou os olhos, mas o riso não podia ser contido. Era algo inevitável quando ele estava por perto, como se ele tivesse uma maneira de fazer tudo parecer mais leve. Mas algo mais surgiu, quase imperceptível. O coração dela deu um pequeno salto, um movimento estranho e fora do lugar. Ela estava começando a perceber que ele não era apenas a companhia irônica e provocadora que ela tinha se acostumado. Havia algo mais.
Porque, no fundo, ela sabia: ela não queria que ele perdesse nenhuma crítica. Nem nenhum chocolate. Nem nenhuma aparição repentina. Não queria que ele desaparecesse quando o encontrava nos corredores, ou que as piadas sobre os seus modelos se tornassem apenas boas memórias.
Min Ho olhou para ela, como se sentisse algo diferente no ar, mas não comentou. Ao invés disso, ele pegou o vestido com uma das mãos e olhou para ela com um sorriso ainda mais largo.
— Se precisar de ajuda com isso aqui, você sabe onde me encontrar, né? — ele disse, e a provocação era evidente, mas havia um toque de suavidade na voz dele que não podia ignorar. Ela não sabia bem o que estava acontecendo entre eles, mas estava começando a perceber que as fronteiras entre o fingimento e a realidade estavam se tornando mais difíceis de distinguir.

☆☆☆


O camarim estava silencioso, algo raro para um dia de formatura. Os colegas já tinham saído, deixando apenas vestígios de glitter, perfumes caros e nervosismo no ar.
estava diante do espelho, ajeitando a gola do vestido, mas seu reflexo mostrava mais do que isso. Mostrava um turbilhão. Mostrava alguém tentando esconder algo que não dava mais para ignorar.
Min ho estava encostado na bancada ao lado, observando-a com atenção. Estava bonito demais naquele terno preto com detalhes sutis em azul, mas não era isso que incomodava — era o silêncio entre eles, diferente de todos os outros silêncios que já haviam dividido.
Ele quebrou primeiro.
— Ei, , como você está?
— Nervosa. Um pouco ansiosa. Não sei explicar. — Ela respirou fundo antes de encará-lo.
Min Ho assentiu devagar, passando as mãos pelos bolsos da calça como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
— Olha... foi mal te deixar nessa situação, ainda mais em um dos dias mais importantes da sua vida. Mas eu prometo que até o final da noite você não vai mais precisar se sentir nervosa ou ansiosa pensando se as pessoas vão descobrir se o nosso namoro é real ou não. — Olha, Min Ho, pra mim já chega. Eu não quero mais continuar com essa farsa. — Ela virou o rosto, encarando-o de verdade.
— O quê? Como assim? Quer terminar agora? Tudo bem... eu invento alguma desculpa pra minha avó e pras pessoas. Se alguém perguntar da gente, eu… — Ele ficou parado. Sem reação. A confusão nos olhos dele a fez hesitar por um segundo.
— Moon. Presta atenção em mim. — Ela deu um passo à frente, segurando o rosto dele, inclinando-o gentilmente para si. — Eu quero terminar essa farsa agora. Eu não aguento mais fingir que gosto de você.
— Tudo bem, eu entendo. Deve ter sido difícil pra você fingir gostar de alguém que você não… — Minho desviou o olhar, sua expressão murchando com uma rapidez dolorosa.
— Eu já não te mandei calar a boca? — interrompeu, apertando de leve o rosto dele entre as mãos. — Se não consegue fazer isso sozinho, eu vou te ajudar.
E então, sem dar tempo para mais nada, ela o puxou e o beijou. Sem aviso, sem hesitação, sem fingimento.
Foi intenso. Sincero. Como se todo o tempo fingindo tivesse servido apenas para preparar aquele momento.
Quando se separaram, ela ainda estava perto demais, olhos nos olhos, respiração acelerada.
— Eu quero parar de fingir. E quero ser sua namorada de verdade. — disse, firme, com os lábios ainda tingidos de um sorriso suave. — Deu pra entender ou quer que eu desenhe?
Minho piscou, atordoado. E então, enfim, sorriu — aquele sorriso que ela sempre amou e sempre tentou ignorar.
— Eu entendi, . — ele disse, pegando suas mãos com carinho. — Eu também quero isso.
A batida na porta anunciando que era hora de se alinhar para o palco ecoou como um lembrete: o mundo lá fora os esperava.
Mas naquele camarim, entre confissões e beijos, eles tinham finalmente deixado de ser uma mentira.


Fim



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? MOON MIN HO O MELHOR PERSONAGEM DE XO KITTY, GRAÇAS A DEUS, E EU PRECISAVA ESCREVER ALGO COM ELE KKKKKKK. Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.