Contador:
Última atualização: 30/03/2021

Capítulo 1

O barulho das roldanas fazendo o caixão descer para os confins da terra era irritante. Alguém precisava jogar um óleo lubrificante nelas urgentemente. Era inconcebível que, em um cemitério caro como aquele, a roldana simplesmente não estivesse lubrificada. O valor que eu estava pagando naquele enterro daria para cobrar os gastos com óleo lubrificante por anos. Ainda assim, havia o barulho irritante de metal com metal incomodando os meus ouvidos.
Ao receber a ligação do hospital na manhã anterior, soube que minha vida teria que passar por uma mudança brusca em poucas horas. Nem me dei o trabalho de atender, senti o que havia acontecido antes mesmo do telefone começar a vibrar sobre a mesa do escritório. Fui treinada desde que me entendia por gente para lidar com aquele tipo de situação, não tinha motivo para que eu me desesperasse diante da notícia, com exceção de que meu pai estava morto e havia tanto a se fazer que eu não sabia por onde começar.
O primeiro passo era comunicar seus sócios, já que havia um estrito testamento sobre o qual eu tinha ciência e que elegia-me como sucessora de seu poder como dono da montadora da Dodge em Milão. O segundo também envolvia sócios, mas se tratava de outro tipo de sócio, o mais perigoso. Com esses, eu não via necessidade em correr contra o tempo. Descobririam depois, provavelmente antes mesmo que eu contasse. Qualquer coisa, eu tinha a desculpa perfeita: meu pai estava morto e eu não tinha cabeça nenhuma para lidar com aquilo.
À minha volta, estavam dezenas de homens engravatados, acompanhados de suas esposas retocadas por bisturis e outras coisas mais. Poucos deles me conheciam, poucos deles conheciam de fato o meu pai. Talvez eu estivesse anestesiada pela dor, talvez eu estivesse tão revoltada com a morte dele que não estivesse sã. Mas a verdade é que eu sentia que estava fazendo mais um circo para pessoas que eu não queria por perto, ainda mais em um momento de luto.
Cada um fez questão de me cumprimentar antes de ir embora. Não entendiam o quanto aquele cumprimento seria melhor se não existisse, mas eu me portei educadamente e fui a menininha do papai que todos esperavam que eu fosse. Já tinha feito aquilo anos antes, quando estava naquele mesmo lugar, em pé no mesmo ponto, vendo o caixão que carregava o corpo da minha mãe descer para a terra. Não tinha como ser mais difícil, já que eu havia amadurecido. Ao menos, meu pai não havia sido levado repentinamente por um tiro como minha mãe, e o câncer me permitiu a preparação para o momento que, apesar de tudo, estava sendo difícil.
Ao longe, um pouco afastado do túmulo, eu pude ver um grupo que me observava desde o início da cerimônia. Eu já havia notado, mas procurei ignorar porque a presença deles ali podia desencadear respostas indesejáveis. Meu pai gostaria de paz ao menos naquele momento. Então eu esperei, junto com eles, que todos os presentes se afastassem. Fiquei ali até os coveiros terminarem de cobrir o caixão com a terra, mesmo sendo aconselhada a me afastar porque seria uma cena difícil de ver. Eu insisti, queria ficar. Mais do que nunca, precisava ser tão forte quanto fosse possível.
Quando eles terminaram, ainda fiquei ali por uns segundos, processando o que estava acontecendo e quais seriam os meus próximos movimentos. Tentava segurar dolorosamente as lágrimas para não sucumbir ao desespero, meu maior medo. E então decidi andar na direção deles de cabeça erguida. Não sabia exatamente por qual motivo estavam ali, deveria estar preparada para tudo, até para o pior. E foi por isso que chequei a pistola carregada no cós da minha calça antes de me aproximar definitivamente.
– Vocês podiam ter esperado o corpo esfriar, pelo menos. – Resmunguei.
– Hoje, mais do que nunca, estamos apenas cumprindo ordens. – Namjoon disse.
– Vi que você mudou o carro.
– Não é a hora pra isso, Hoseok. – Namjoon o interrompeu. – Nossos pais querem saber se o acordo permanece de pé.
– Eles precisam de uma resposta hoje?
– Eles não estão felizes com a morte de seu pai. – Taehyung disse. – Mandaram as mais sinceras condolências deles. Seu pai era muito útil para nós todos e prezava por uma relação de paz. Ninguém queria isso, por motivo nenhum.
– Eu vou pensar e entro em contato pra informar sobre a minha decisão. – Revelei. – Meu compromisso é honrar, momentaneamente, com as palavras do meu pai enquanto não decido de vez o que fazer a respeito de tudo.
– Eles têm pressa porque um carregamento vai chegar hoje à noite. – Seokjin falou baixinho atrás deles.
Merda... – Sussurrei.
Os sete me encararam. Nós nos conhecíamos havia um bom tempo e jamais havíamos estado em situação tão intensa quanto àquela, nem quando a polícia quase nos pegou. Éramos o elo entre a máfia italiana e a coreana. A morte do meu pai podia significar a quebra do elo ou o maior fortalecimento dele. Ter a decisão nas minhas mãos não era fácil.
? – Namjoon insistiu.
– Digam a eles que o carregamento está de pé e que vou providenciar o necessário pra isso. Só me passem o horário exato pra eu alinhar com os carros.
– Vou enviar as informações por mensagem pra você. – Jimin disse e eu assenti.
– Nós sentimos muito por precisarmos vir aqui a essa hora. – Jungkook tomou a frente pela primeira vez. – Fomos forçamos a isso. Nós realmente sentimos muito.
Em silêncio, um a um foi virando de costas para mim e caminhando para longe. Eu engoli em seco, a garganta apertada em um sentimento sufocante que eu nunca havia vivido. Yoongi ficou por último, ainda quieto. Olhou para mim com extremo carinho. Nunca havia visto aquele sentimento nos olhos dele, mas o dia estava todo estranho, então eu não estava disposta a considerar aquilo como novidade. Os outros já estavam afastados quando ele finalmente deu um passo na minha direção, ainda hesitante.
– Eu sinto muito, . – Ele disse, abaixou o olhar e afastou-se com os outros seis.
Esperei que se distanciassem. Não havia motivo para que desconfiasse deles, naquele momento mais do que nunca. Mas não era dos coreanos que eu tinha medo. Desde os quinze, eu tinha plena ciência de tudo o que meu pai fazia, como dono da unidade da montadora ou como um dos líderes de um dos movimentos mais importantes da máfia italiana. E se tinha uma coisa que eu sabia era que, com o passar do tempo, todos os colegas do meu pai eram contra aquele acordo com os coreanos mas não se metiam com o meu pai por medo, o que me colocava como alvo dos dois lados: os coreanos lutando em me manter a favor deles e os italianos torcendo para que eu fosse mais maleável que meu pai – um termo mais doce que ‘manipulável’.
Eu sabia que, do lado dos coreanos, dificilmente me colocariam em uma posição onde eu me sentisse acuada. Estavam em meu território, distantes da casa deles. Precisavam de mim e precisavam manter-me ao lado deles. Não era como se eu achasse que eram uns santos. Sabia também que eles usariam do que estivesse ao alcance deles para conseguirem o que queriam, mas tinha muito menos medo deles do que dos italianos.
Dirigi para casa bem irritada naquele dia. Irritada pelas decisões à minha frente, irritada por ser tão cobrada o tempo inteiro, irritada por causa do maldito carcinoma que tirou meu pai de mim. Entrei em casa pronta para socar o primeiro que passasse na minha frente. Todos os funcionários, sem exceção, me esperavam no hall de entrada. Eu respirei fundo após olhar para cada um deles por, ao menos, um segundo. Até eles esperavam que eu tomasse decisões que não estava pronta para tomar.
– Tranquem o quarto e o escritório do meu pai e não abram novamente até segunda ordem. – Disse, firme. – Retirem todas as pinturas de todas as paredes, todos os enfeites antigos, tudo que não seja desse século, e coloquem no quarto de hóspedes maior. Depois disso, quero todos de folga durante três dias.
– Mas senhorita ...
– Ainda não acabei, Luna. – Interrompi uma das empregadas. – Não se preocupem, o pagamento de vocês não sofrerá nenhum tipo de prejuízo. Esses três dias de folga serão remunerados devidamente, como se fosse um dia trabalhado normal. No quarto dia, estejam prontos para voltarem ao trabalho. Vocês acham que conseguem terminar o que pedi ainda hoje?
– Sim, senhorita. – Disseram em um coro.
– Enquanto isso, vou estar entre meu escritório ou meu quarto. Não precisam se preocupar com me incomodar antes de saírem. Se tudo estiver feito, estão liberados. Vejo vocês na sexta.
Eles assentiram e dispersaram-se. Eu ajeitei a bolsa em meu ombro e subi para o quarto. Deixei a bolsa em cima da cama e fui para o banheiro da suíte. Olhei meu reflexo no espelho e fiquei lá, encarando-me como se aquilo fosse ajudar com alguma coisa. Não encontrei o que estava procurando e fui para o escritório. Liguei o computador mas não sentei na cadeira. Ao invés disso, fui até a parede que dividia o meu escritório do escritório do meu pai. Afastei a estante o suficiente para deixar à mostra a porta blindada do cofre. Digitei a combinação que formava a senha e, segundos depois, a porta estava aberta.
Entrei e analisei o cenário à minha volta. Mais uma vez, estava diante de escolhas que devia mas não queria fazer. Deixei a arma que havia levado para o enterro e peguei outras três, também Berettas. Enchi os pentes, vesti o cinto, encaixei os coldres e guardei as pistolas nele, colocando pentes reservas ali também. Fiquei observando, quando a tarde já estava chegando ao fim, enquanto um por um dos funcionários deixava a casa em direção ao centro de Milão.
Quando a noite chegou de vez, liguei os sensores de movimento da parte externa da casa e voltei ao cofre, preparando duas submetralhadoras para uso também. Desci para a cozinha, esquentei um resto de macarrão no forno e sentei na sala para comer na companhia das armas e assistindo o circuito interno de monitoramento da casa. Seria assim enquanto a noite não terminasse, eu teria o dia para dormir.
Às onze e doze da noite, recebi uma mensagem de texto de Namjoon, agradecendo a minha parte na colaboração com eles e avisando que tudo tinha, mais uma vez, dado perfeitamente certo. Deixei o celular de lado e continuei focada em observar o que estava no entorno da casa. O sensor de movimento foi disparado duas vezes, mas era apenas um esquilo, talvez o mesmo nas duas vezes.
Em certa altura, o cansaço e tudo o que estava somado àquilo me tomou por completo e eu apaguei, inconsciente até mesmo de que estava deitada sobre as armas. Acordei no susto depois de sonhar que meu pai estava morrendo novamente. Dessa vez, ele morria na ponta de uma pistola, apontada por uma pessoa cujo rosto eu não conseguia identificar. Tinha medo daquilo, mas era um problema solucionável. O câncer não era, o que me fez achar que talvez as armas não tivessem aquele poder todo.
No dia seguinte, após muito considerar, peguei o carro e segui para o endereço que conhecia melhor do que seria capaz de assumir. Não confiava em ninguém além dele para repassar a minha mensagem, ainda mais depois de receber dezenas de e-mails dos companheiros do meu pai pedindo por uma reunião. Eu sabia o que ia ser falado, tanto naquela reunião quanto quando eu cruzasse a porta do apartamento de Yoongi. Mas eu teria que pagar para ver e estaria fazendo o que sabia que meu pai faria no meu lugar – ou o que eu achava que ele gostaria que eu fizesse.
– Não esperava te ver de novo tão cedo. – Yoongi disse ao abrir a porta para mim.
– Eu não esperava sair de casa de novo tão cedo. – Resmunguei enquanto entrava, parando no meio da sua sala de estar. – Diga ao seu pai que eu quero manter o acordo.
– Foi o que você decidiu de ontem pra hoje?
– Sim. Mas tenho condições.
– E quais são elas? – Ele me perguntou enquanto me observava atentamente.
– Precisamos remodelar as operações e elas vão ficar em segredo. A partir de hoje, só eu saberei disso e vou ser a única conexão entre vocês e a Itália.
– Os outros concordam com isso?
– Eles não têm que concordar.
, você tem certeza disso?
– Não. – Encolhi meus ombros. – Mas sei o que vai acontecer se não começarmos logo por esse caminho. Depois vamos estudando as opções. Por enquanto, não quero que saibam da minha decisão de continuar apoiando vocês. Conto com você pra me ajudar com isso.
– Você sabe que pode contar comigo. – Ele falou e chegou mais perto de mim, levantando o meu rosto para que eu olhasse em seus olhos.
– Não banca o carinhoso comigo só porque eu perdi meu pai, Yoongi.
– Estou bancando o carinhoso com você porque quero bancar o carinhoso com você, , então só aproveita um pouco. – Ele disse e nós nos beijamos.


Capítulo 2

Os papéis pareciam multiplicar à minha frente. Eu respirava fundo e coçava os olhos a cada trinta segundos. Estava demorando cinco vezes mais o tempo que costumava levar para ler um parágrafo simples. Se não envolvesse uma quantia grande, talvez eu me sentiria tentada a assinar a papelada sem ler o que estava escrito nela minuciosamente.
– Senhorita , – Bianca bateu na porta, permanecendo do lado de fora da minha sala. – os senhores Rossi e Romano estão solicitando uma reunião com a senhorita hoje à tarde, se possível.
– Tente marcar pras três, Bianca, por favor.
– A empresa de buffet contratada para o lançamento do novo modelo RAM quer saber se o evento continua de pé.
– Claro que continua. – Ergui uma sobrancelha. – Pode responder isso a qualquer um que perguntar algo do tipo. A programação seguirá normalmente, apenas o no comando que foi... Mudado.
– Sim, senhorita.
Ela saiu da sala e eu decidi jogar a toalha. Juntei todos os papéis e guardei na segunda gaveta na minha mesa – bem, tinha passado a ser minha naquela semana. Tranquei a gaveta e guardei a chave no bolso da minha calça. Olhei para o monitor no mesmo instante em que subiu a notificação de uma nova mensagem chegando no meu celular pelo aplicativo de sincronização. O conteúdo não apareceu, o que eu estranhei a princípio, mas logo entendi do que se tratava. Peguei o celular na minha mão e verifiquei o que tinha sido enviado para mim.

Lugar de sempre
Oito horas da noite
Esteja lá
B.


Estava demorando. Surpreendente foi os coreanos terem ido atrás de mim primeiro. Mas então eu precisava lembrar de que, formalmente, já havia feito um comunicado a eles sem consultar os italianos antes. Eu precisava mesmo era de tempo para parar e pensar no assunto, mas isso era o que eu tinha de menos.
– Senhorita , repórter do Corriere della Sera no telefone. – Bianca gritou de sua mesa, do outro lado da parede que dividia a minha sala do ambiente dela. – Posso repassar?
– Pode. – Gritei de volta e deixei a mão pronta sobre o meu telefone, que tocou logo depois. – falando.
Senhorita , Eugenio de Luca. Eu troquei e-mails com a sua equipe de comunicação pessoal. Conversei com Rachel Caputo pessoalmente na semana passada, a nossa intenção é fazer uma reportagem especial como forma de homenagem póstuma a seu pai. Ela me orientou a entrar em contato diretamente com a senhorita para conversar mais a respeito.
– Certo, a Rachel me informou por alto sobre suas intenções.
Fiquei sabendo que a senhorita vai seguir com o planejamento para a festa de lançamento do novo modelo?
– Sim, correto.
Gostaria de saber se é negociável a exclusividade de cobertura do evento.
– Posso levar a ideia para o meu conselho e repassar a decisão na próxima semana.
Perfeito, eu agradeço a disposição. – De Luca disse. – Agora gostaria de saber se a senhorita estaria disponível para um encontro pessoal a fim de conversarmos mais detalhadamente a respeito das várias possibilidades que temos para trabalhar nessa homenagem em conjunto.
– Claro, pode ser. Você tem mais alguma observação a fazer ou posso devolver a ligação para a minha secretária? Ela tem controle da minha agenda, pode fazer a programação junto a você.
Ótimo, ficaria extremamente grato. Foi um prazer, senhorita .
– Igualmente. – Falei e apertei o botão para repassar a ligação para a mesa de Bianca.
Decidi sair para o almoço mais cedo do que o previsto. Peguei o motorista disponível e solicitei que ele me levasse ao Giannino dal 1899, meu restaurante favorito, onde eu já havia efetuado reserva previamente. Fui mais do que grata por aceitarem adiantar o horário da reserva e sentei à mesa já tendo feito o pedido por saber o menu de cor. Mesmo que estivesse em um dia de trabalho, eu me permiti tomar ao menos uma taça de vinho.

Estou aguardando uma confirmação
B.


A mensagem insistente no meu celular estava acabando com a minha paciência. Eu não tinha a mínima vontade de responder. Para ser bem sincera, eu nem tinha vontade de ir ao encontro solicitado. Enquanto aguardava o meu pedido chegar, fiz uma ligação.
Senhorita , em que posso ser útil hoje?
– Lorenzo, preciso de dois códigos vermelhos pra hoje à noite. – Informei. – Preciso estar às oito no B.
Perfeito, vou providenciar, senhorita. Com motorista?
– Sim, por favor.
Estarão em sua residência às sete e aguardarão pelos seus comandos.
– Ok, Lorenzo, obrigada.
Disponha, senhorita .
Conforme ele desligou, eu abri um aplicativo de mensagens e enviei um texto breve para Dorotea, responsável por fazer os vestidos especiais que eu utilizava em eventos de gala organizados por meu pai ou seus amigos. Pedi para entrar em contato com minha secretária para combinar um bom horário entre os que ela tinha disponíveis e os que eu tinha na quinta-feira. Então o garçom chegou com o meu prato e eu agradeci com um olhar e um sorriso, ambos suscintos.
Após o almoço, de volta ao escritório da montadora, eu percebi como a atmosfera do lugar havia mudado. Não só os membros do executivo me olhavam com outros olhos, mas os trabalhadores também. De repente, quase que do dia para a noite, eles não eram mais comandados pelo temível Giuseppe , bruto em tudo, mas sim pela filha dele, , que parecia delicada demais para o cargo. Eu sabia que era isso que pensavam de mim, e sabia também que não poderiam estar mais errados.
– Senhorita , nós gostaríamos de apresentar ao conselho a proposta de nomear nossa sala de conferências como a sala Giuseppe . – Rossi disse assim que eu lhe dei a palavra em nossa reunião na tarde daquele dia.
Você me chamou aqui, interrompeu o meu dia, pra falar disso?, foi a primeira coisa que passou pela minha mente, mas eu me contive no deboche.
– Acredito que há coisas mais importantes para serem definidas no momento. – Falei, dizendo o que queria nas entrelinhas com o tom de voz alterado.
– Como o quê?
– Como a lista de convidados para o lançamento do novo modelo da RAM. – Disse e abri a planilha pelo notebook que levava comigo, cuja tela era transmitida por conexão wireless à televisão de setenta e cinco polegadas na parede do lado oposto da sala de reunião. – Eu repassei essa planilha por e-mail para vocês dois e ainda não obtive resposta sobre a necessidade de efetuar correções ou substituições nelas.
– Minha secretária está cuidando disso, senhorita . – Romano interferiu.
– Você está cobrando urgência? – Perguntei. – A confirmação de presença deve ser recolhida até sexta.
– Vamos reforçar o pedido com nossas secretárias.
– Entendem que isso é o que temos de mais importante agora? – Questionei os dois, que estavam com tanto medo de mim quanto tinham do meu pai, de uma hora para a outra, e eu realmente achava que aquilo era algo bom. – Nossa concorrência não pode sequer imaginar que temos alguma fraqueza com a troca na diretoria. Nossos clientes e fornecedores precisam confiar que estamos, mais do que nunca, sólidos. Temos contratos fechados para daqui a três anos e eles vão continuar chegando porque, em hipótese alguma, essa fábrica vai fechar, entenderam?
Os dois assentiram. Eles se olharam e mantiveram um silêncio sepulcral.
– E o relatório de caixa que eu solicitei, Rossi?
– Será enviado até o final do expediente de amanhã.
– Será mesmo? – Insisti, desafiadora.
– Nós estamos nos esforçando para cumprir a agenda, senhorita.
– Não quero que se esforcem. Quero que cumpram e ponto final.
– Sim, senhorita, vamos mudar nossas estratégias.
– Quero também um relatório minucioso sobre todos os que estão abaixo de vocês dois. Quero que cada um de vocês faça relatórios sobre os que estão diretamente sob o seu comando e ordene que eles façam relatórios sobre os que estão sob suas respectivas supervisões também, até chegar à escala mais baixa da hierarquia.
– Sim, senhorita, vamos providenciar esses relatórios com urgência.
– Alguma intercorrência que tenha comprometido, mesmo que minimamente, a cadeia de produção hoje?
– Não que seja do meu conhecimento.
– Do meu, também não. – Rossi completou. – Se houve algo, resolveram antes que ficássemos sabendo.
– Ótimo. Eu quero os relatórios sobre a movimentação do caixa dos últimos vinte meses para ontem. Vamos rever os gastos e verificar onde podemos fazer economias sem perda de qualidade aqui. E quero isso feito imediatamente. A única coisa mais importante que isso é a confirmação de presença no lançamento que vocês devem orientar as suas secretárias a fazerem até o final do expediente de amanhã, sem exceção. Fui clara?
– Sim, senhorita. – Os dois responderam ao mesmo tempo.
– Bem melhor assim. – Fiz a observação sem muita paciência. – Espero não termos outros problemas além desses nos próximos dias, não há necessidade para desandarmos agora.
Com todos os meus compromissos profissionais encerrados naquele dia, fui para casa. Os últimos empregados já estavam indo embora quando eu cheguei. Deixei o carro na garagem, tomei um banho, separei uma arma e coloquei uma roupa para o encontro que tinha marcado para aquela noite. Às sete, em ponto, os homens que fariam companhia a mim como seguranças até Pietro Bianchi se apresentaram. Não muito tempo depois, eu estava pronta para ir.
O trajeto até o restaurante de fachada no coração de Milão levou menos tempo do que o previsto, mas eu fiz questão de esperar no carro para ser anunciada na hora certa. Tinha fama de ser extremamente pontual e gostava de manter aquela reputação. Então, quando finalmente o relógio anunciou oito horas da noite, entrei pela porta principal.
– Senhorita ...
– Bianchi... – Eu acenei com a cabeça para ele. – Qual o assunto?
– Está melhor?
– Por que eu deveria estar mal? – Perguntei ao sentar na poltrona do salão nos fundos do restaurante, ajeitando a arma que deslocou-se com o movimento que eu fiz.
– Bem, eu...
– Sem falsas condolências, Bianchi. Nós dois sabemos que a única coisa pela qual você tem sentimento são as cédulas.
– Ótimo então. – Bianchi se levantou, dispensou os dois seguranças que estavam com ele, eu dispensei os meus com apenas um olhar e ele fechou a porta em seguida. – Passei a tarde de ontem conversando com Ricci, Manzino e Ferrara sobre como vamos prosseguir com os negócios daqui pra frente.
– E o que decidiram?
– Sabe que não podemos tomar nenhuma decisão sem os cinco presentes.
– Bem, tomaram a decisão de fazerem uma reunião sem mim.
, por favor, não encare as coisas dessa forma.
– Sobre o que vocês conversaram? – Cruzei as pernas após fazer a pergunta.
– Sobre os coreanos. – Ele disse e sentou de volta em sua poltrona, o que deu-me tempo para disfarçar qualquer possível reação. – , o que pensa sobre eles?
– São bons aliados.
– Só isso?
– Não acho que tenha mais o que falar sobre eles. – Dei de ombros. – As relações entre nós e os coreanos sempre foram inabaláveis, eles sempre cumpriram muito bem com a parte deles do acordo, a função deles nunca foi manchada por um erro sequer.
– Você apoia a continuação do acordo então. – Bianchi concluiu.
– Sim, apoio.
– Bem, nós quatro não apoiamos.
Respirei fundo lentamente. Na minha cabeça, planejava o próximo movimento e tentava montar uma estratégia rapidamente. Eu só tentava lembrar constantemente que precisava agir como durona, tal qual meu pai, porque era disso que eles tinham medo.
– Fui devidamente orientada pelo meu pai a seguir com o acordo com os coreanos em qualquer condição.
– Mas seu pai morreu, .
– E deixou a filha. – Insisti.
, eu não queria ir por esse caminho mas, infelizmente, é necessário. – Bianchi pegou a taça de vinho à sua frente e tomou dois goles. – Você sabe que eu tinha muito respeito pelo seu pai, e que esse respeito se mantém mesmo após o seu falecimento. Mas os outros três não são assim, não pensam assim, e eles são a maioria entre nós. E eles podem recorrer a métodos bem incomuns para fazerem verdade a vontade deles. Então preciso perguntar... É da sua vontade continuar nos negócios?
– Eu herdei os negócios, herdei essa posição. Não estou aqui por vontade, estou aqui porque é meu lugar por direito. Lugar esse que está acima do lugar que vocês ocupam, devo lembrar.
– Eles querem que você prove que merece estar aqui então.
– O que eles querem, Bianchi? Vá direto ao ponto!
– Querem que você execute os sete.


Capítulo 3

A tensão que pairava no ar quando ele estava por perto era quase palpável. Eu sabia antes mesmo que ele pusesse os pés no meu escritório propriamente. Havia poucas mulheres ali, mas até os homens pareciam ficar intimidados. Nunca tinha aviso antes, era sempre alguma surpresa que fazia com que eu segurasse a revirada de olhos na frente dele. Enrolá-lo estava ficando cada vez mais complicado.
– Senhorita , o senhor Morrone está aqui.
Respirei fundo assim que Bianca fez o anúncio e contive a vontade de arrumar uma desculpa. Suspendi a energia do computador e puxei o celular rapidamente para enviar uma mensagem enquanto Bianca voltava para a antessala. Não levou dez segundos até que ele passasse pela porta. Tinha um sorriso de ponta a ponta do rosto e um buquê de três lírios brancos.
– Oi, Michele. – Tentei sorrir para ele.
– Oi, . – Ele se aproximou de mim, dando a volta na minha mesa e deixando um beijo rápido em meus lábios que eu negaria caso estivesse em meu alcance. – Trouxe pra você.
– Obrigada, vou pedir pra Bianca dar um jeito nelas.
– Como foi o dia?
– Cheio, e o seu?
– Minha agente tem organizado a minha agenda, como você sabe, então as coisas seguem um pouco confusas ainda. Estava com tempo livre e achei que poderia vir até aqui te fazer uma visita. Espero que não esteja te incomodando.
– Eu tenho algumas coisas a resolver, na verdade.
– Meu alfaiate perguntou sobre a tonalidade do vestido que você vai usar na festa da semana que vem.
– Vou fazer uma prova do vestido hoje e te envio a foto, pode ser?
– Claro, seria ótimo. – Ele sentou na quina da minha mesa e eu fiquei extremamente incomodada com aquilo mas, mais uma vez, precisava disfarçar. – Tenho que perguntar... Você está bem?
– Sim, estou. Por quê?
– Com tudo o que aconteceu com o seu pai, seria normal não estar.
– Mas também é normal que eu já soubesse o que esperava no fim da jornada dele no hospital. Fui preparada para passar por essa situação e me sinto bem para seguir em frente, obrigada pela preocupação.
– Tem certeza de que tá tudo ok em prosseguir com a festa? Eu tenho alguns conhecidos que podem ser extremamente úteis nisso, são boas pessoas e...
– Fica tranquilo, Michele, eu consigo lidar com isso, obrigada.
Ele ia falar mais alguma coisa, mas o telefone tocou. Salva pelo gongo. Quase corri até o aparelho.
– Sim?
Senhorita , ligação.
– Quem é?
Ele disse o nome, é estranho, não é daqui.
– Pode repassar.
Esperei os segundos necessários até que ouvi uma respiração do outro lado.
– Quem é?
Uau, você podia ser mais carinhosa comigo, bebê.
Segurei a milésima revirada de olhos no dia. Puxei a cadeira para perto e sentei, levando o telefone comigo.
– Diga o que quer.
Estou livre hoje à noite.
– Certo, você pode confirmar meu horário com a minha secretária.
Ficou doida? – Yoongi perguntou. – Ah, está acompanhada?
– Sim. – Respondi, simples.
É ele?
– Afirmativo. – Disse enquanto sorria educadamente para Michele. – Não acho que seja um momento bom para tratarmos do assunto. Se o senhor puder ligar em uma outra hora, eu agradeceria.
Não vou deixar você sozinha com ele. Já passou dos limites esse seu fingimento só pra fazer a vontade do prefeito. E eu quero te ver. Hoje.
– Receio que não será possível.
Vai ser possível sim, , você consegue tudo que eu sei. Dá seu jeito.
O ‘vai se foder’ foi até a ponta da língua e voltou, deixando minha garganta com um nó. Manter as aparências estava sendo mais difícil do que costumava ser sempre. Mas então eu tinha como trocar de posição e passar a mandar naquele jogo.
– Marque uma reunião às sete para hoje então, em ponto. Quero todos presentes. Às sete.
Que joguinho é esse, ?
– Grata. Jenjang. – Finalizei e desliguei na cara de Yoongi.
– Coreanos?
– Sim. Eles querem apoio pra marketing.
– Por quê às sete?
– Porque é o horário que eu tenho mais cedo hoje.
– Você acha que a reunião pode acabar a tempo de eu e você sairmos para jantar?
– Não sei, Michele. Eles são chatos, tem a barreira da língua, preciso ainda contatar os meus advogados...
– Quando você pode jantar comigo então?
– Tenho que ver com a Bianca.
– Você não pode acertar uma noite com seu namorado? – Michele perguntou e eu parei de disfarçar para dar atenção a ele finalmente. – Quero dizer... É o que somos, não?
– Por quê?
– Você é incomum, talvez eu simplesmente não esteja acostumado com um tipo de mulher tão segura de si mesma.
Talvez. – Ponderei com um sorriso. – Isso ou você se convenceu de que as histórias em que atua ou as músicas que canta contam a única versão possível da história. Mas eu sou tão ou mais ocupada que você, não se esqueça disso.
– Não estou me esquecendo. Mas e a data?
– Data?!
– Do jantar.
– Ah... – Suspirei e deixei os ombros caírem. – Ok, terça.
– Ótimo, esteja pronta às seis e meia que eu passo na sua casa.
– Posso ir sozinha, Michele.
– Você me daria a honra de fazer algo por você uma vez sequer na vida, ?
– Senhorita ... – Bianca deu os dois toques de sempre na porta e colocou a cara para dentro. – Rosario Cremonesi está aqui para vê-la.
– Mande-o entrar assim que Michele sair, Bianca, por favor.
Ela assentiu e saiu. Estava de costas para ele e podia sentir sua presença, podia sentir que ele se aproximava. Não demorou para que eu sentisse as mãos nas laterais da minha cintura, leves como uma pena mas, ainda assim, presentes.
– Você é uma mulher incrível, sabia? – Michele sussurrou ao pé do meu ouvido, aproximando o rosto do meu pescoço e deixando roçar a barba no que estava exposto da minha pele.
– Eu não consigo, Michele.
Fiz todo o discurso sobre como a produção em que ele tinha acabado de estrelar afetava o meu psicológico. Tinha treinado falar a respeito daquele assunto de diversas formas, em várias frases diferentes, de frente para o espelho. A verdade era que, por mais que Michele fosse inegavelmente um homem bonito, não havia interesse romântico da minha parte para com ele.
O acordo com seu tio, prefeito de Milão, era simples. Enquanto eu fosse parte da família – ou uma possível futura parte –, estaria intocada. Ele e meu pai se acertaram meses antes, e foi assim que fui apresentada a Michele. Era um homem galanteador, respeitador e compreensivo, o que fazia com que eu pensasse que não era justo com ele. Estava usando-o apenas para proteção própria, para dar prosseguimento aos negócios. Mesmo com meu pai morto, sequer pensava em mudar o rumo das coisas. E enquanto eu estivesse enrolada com a adaptação ao meu mais novo posto, precisava sim da proteção concedida por ser uma agregada da família Morrone.
Após uma breve conversa sobre a paleta de cores escolhida para decorar o evento que carregaria o nome de meu pai, fui para casa. Tomei um banho, coloquei uma roupa mais confortável, entrei no carro que ninguém sabia que eu tinha e parti para o apartamento de Yoongi. Fui recebida imediatamente, ele já estava esperando por mim junto ao olho mágico. Do jeito que entrei, Yoongi me puxou para um beijo ardente. E do mesmo jeito, eu enfiei a mão com tudo na cara dele.
– Você nunca mais ouse falar comigo daquele jeito.
– Uau... – Ele alisou a bochecha que eu havia acertado. – Quem vê pode até pensar que você não gosta.
– Eu juro, Yoongi, que eu vou te...
– Estou atrapalhando os pombinhos? – Uma voz se fez ouvir atrás de nós.
Revirei os olhos e dei passagem.
– Oi, Jin.
– E aí? – Ele sorriu para mim com deboche estampado no rosto.
Um por um, eles foram chegando. Eu fiquei quieta no sofá, esperando pacientemente até que aquela reunião estivesse completa. Jungkook foi o último a chegar. Eu me limitei a pegar o envelope no bolso da minha calça, retirar as cartas de lá e colocá-las sobre a mesa de centro da sala de Yoongi. Todos os presentes engoliram em seco. Até eu.
A rosa negra era um símbolo usado pela minha família havia gerações. Meu pai usou, meu avô usou, meu bisavô usou... Ela era escolhida única e exclusivamente para anunciar a morte de alguém. Ficava claro que, se havia sete rosas negras, eram para os sete ali. Desde que recebi a notícia da boca de Bianchi, eu tentava ver como fazer aquilo da melhor forma possível. Ao menos, com a rosa negra, havia uma garantia: ninguém, fosse quem fosse, poderia matá-los. Com exceção, é claro, de quem havia entregado a rosa negra.
– Diz que isso é brincadeira, . – Namjoon disse, a voz extremamente baixa.
– Gostaria que fosse. – Eu engoli em seco mais uma vez. – Recebi a notícia na semana passada. Os termos não são exatamente os melhores agora.
– O que nós vamos fazer? Você... Isso não pode...
– Calma, Jimin. – Hoseok se pronunciou. – O que aconteceu, Giovana?
– Aconteceu o que todos sabíamos que ia acontecer. – Declarei.
– Quanto tempo você tem?
– Vou enrolar o máximo possível, mas não é muito.
– Se eu puder falar com meu pai, ele...
– Não, Jungkook. – Eu o interrompi. – Deixem os pais de vocês fora disso. Preciso saber se posso confiar em vocês. Isso não se trata das transações, é sobre a vida de vocês. E a minha também, porque eu vou correr risco se não resolver isso de cara.
– Você vai nos matar? – Jin perguntou, o rosto em choque e a voz temerosa.
– Eu posso confiar em vocês?
Depois que eu insisti na pergunta, todos assentiram. Em silêncio, peguei as cartas em cima da mesa e entreguei para cada um individualmente. Da minha bolsa, fui tirando aparelhos celulares. Sete, precisamente. Cada um ganhou um aparelho e eu voltei à posição central em que estava quando comecei o discurso.
– Os celulares estão criptografados, os números de todos estão salvos. Usem apenas para conversarmos entre nós, não pode haver exceção.
– Mas você...
– Eu não vou matar vocês, Jin. Me recuso. A rosa negra é apenas pra garantir a proteção de vocês. Vão sair como pessoas marcadas por mim, o que é o necessário pra salvar a nossa pele por um tempo. A partir de agora, vocês não devem ser vistos comigo de jeito nenhum. Não liguem para meu telefone pessoal, não liguem para o trabalho, não me procurem pessoalmente. Os negócios devem seguir todos os padrões de sempre, eu estou dando aval para que vocês decidam isso. Se houver alguma emergência extrema, entrem em contato pelos celulares que acabaram de receber. Emergência extrema, garotos. E eu vou atualizá-los sobre qualquer novo detalhe por esses celulares também. Ficou alguma dúvida?
Seis deles afirmaram com a cabeça. Um a um, da mesma forma que chegaram, foram deixando o apartamento. Mais uma vez, apenas eu e Yoongi estávamos ali. O clima, no entanto, estava bem diferente de minutos atrás.
– Quer dizer que eu não vou poder te ver?
– Isso é um prêmio pra você, considerando o ódio que você sente por mim.
– Eu te odeio o mesmo tanto que te amo.
– Você demonstra de um jeito bem engraçado. – Praticamente rosnei. – Mas saiba que eu não sinto nada de positivo por você, o que facilita muito as coisas pra mim.
– Sua tentativa de mentira é patética.
– Aprendi com você.
Yoongi suspirou e sentou no braço do sofá.
– Não quero te entregar de bandeja praquele ator meia boca babaca.
– Ele não é babaca e eu não sou sua, pra começo de conversa.
– Você entendeu...
– E você também. – Concluí. – Não pode mais me procurar, Yoongi, não é brincadeira.
– Então vou te dar algo para se lembrar enquanto estivermos afastados.
Yoongi me puxou sem delicadeza nenhuma pelo cabelo, enfiando os dedos por dentro da base do meu rabo de cavalo. Levantou minha cabeça e começou a sugar exatamente o ponto onde Michele havia passado mais cedo naquele mesmo dia. Com a mão livre, segurou minha cintura com uma firmeza que quase machucava, mas a dor era gostosa. Então ele olhou nos meus olhos e eu derreti. Queria resistir, queria dizer que ele era um grande filho da puta por fazer aquilo comigo, mas meu corpo pedia cada vez mais de Yoongi. Eu não tinha como dizer não. Literalmente, porque meus lábios estavam ocupados nos seus.


Capítulo 4

– Você é doida por não já ter sentado naquele homem maravilhoso.
– Menos, Chiara... – Resmunguei ainda de olhos fechados, curtindo o pouco que o sol queimava a minha pele naquela folga programada no meio da semana.
– É sério, . – Ela insistiu. – Você já viu o filme?
365 giorni?
– Óbvio.
– Não vi e nem vou ver.
– Pois deveria. – Ela disse e o barulho da espreguiçadeira rangendo denunciou que Chiara estava levantando. – Ele tá um tesão naquele filme.
– Você sabe muito bem que eu não estou afim dele de verdade.
– E daí? – Sua voz subiu uma oitava. – Desde quando a gente precisa estar apaixonado por alguém pra ir pra cama com a pessoa?
– Você é uma Ricci mesmo.
– Mazzanti! – Ela me corrigiu.
– Escolher usar o nome da sua mãe não muda nada. – Eu disse entre risos. – Você ainda é filha de Angelico Ricci, o italiano mais safado que esse país já conheceu.
– E o mais filho da puta também. – Quase pude ouvir os seus olhos revirando enquanto Chiara entrava na água da piscina.
– Deveríamos marcar esse tipo de encontro mais frequentemente.
– Eu concordo. Ainda mais se formos falar sobre aquele seu namorado...
– É fingimento e você sabe! – Protestei.
– Foda-se que é fingimento, . Ele ainda é lindo pra caralho e eu ainda ficaria de quatro por ele com um único sinal.
– Por Deus, eu preciso de uma outra amiga além de você.
– Vai dizer que não concorda?
– Quer que eu diga que o Michele é lindo pra caralho? – Perguntei conforme abaixei meu óculos escuro para poder olhar em seus olhos. – Ele é lindo pra caralho. Pronto, tá dito. Mas eu não vou pra cama com ele.
– Por quê não, ?
– Porque é sacanagem com ele, Chiara. Você não entende? – Eu levantei da espreguiçadeira também, seguindo-a em direção à água. – Eu não gosto dele, não sei se seria capaz de gostar mediante os papeis que ele anda interpretando. O motivo pelo qual estou com ele é sujo, tenho certeza de que ele não gostaria se ficasse sabendo.
– Ele sabe que você é uma mulher de negócios. E você fala como se ele não fosse querer te comer... Porra, ele é homem. Qualquer buraco, tá enfiando o pinto dentro.
– Então eu sou qualquer buraco? – Eu me fingi de ofendida e revirei os olhos, provocando uma risada em Chiara. – Ótimo.
Chiara era filha de Angelico, um dos parceiros do meu pai em seus negócios obscuros. Sabia de tudo o que o pai fazia. Embora nutrisse um ódio intenso por ele – e devia mesmo, porque ele fizera sua mãe sofrer diversas vezes por motivos fúteis ligados a outras mulheres –, fingia que não dava a mínima para continuar aproveitando as regalias. Por ela saber, era a minha única amiga real, porque eu simplesmente não conseguia criar amizades sólidas tendo que esconder tanto sobre minha própria vida. Nós nos entendíamos e, sobretudo, encaixávamos perfeitamente como um par.
– Senhorita , – Franca, uma das empregadas, saiu da casa e chamou por mim. – sua estilista está aqui.
Nós duas saímos da piscina e pegamos as toalhas que tínhamos levado. Eu me sequei e entrei no roupão, indo direto para a sala de estar, onde certamente era aguardada, com Chiara em meu encalço.
– Chegou cedo, Dorotea. – Falei para que minha presença fosse notada no ambiente.
– Olá, queridas! – Ela se virou para nós duas com um sorriso no rosto. – Sabe que eu sempre chego mais cedo que o horário previsto, não sabe?
Nós trocamos um abraço breve e ela logo seguiu para Chiara.
– Estamos molhadas da piscina, mas podemos ir lá pra cima que nos trocamos e já começamos.
– Certo, seria ótimo.
Callimaco, o único homem na casa durante aquele dia, ajudou Dorotea a carregar suas coisas escada acima. Eu fui para meu quarto e coloquei roupas secas, Chiara também foi para o que ela estava usando em minha casa a fim de fazer o mesmo. Em poucos minutos, nós estávamos no meu escritório.
– Quem vai começar?
– Pode ir na frente, Chiara. – Anunciei, indo para a minha mesa.
Ela subiu no pedestal improvisado após ficar apenas de calcinha e sutiã enquanto Dorotea pegava o modelo dela em uma das malas. Disfarçadamente, chequei o celular criptografado. Não havia nada nele, devia ser um bom sinal. Então abri o computador e fingi responder um e-mail.
– E seu bonitão, ?
– Ela tá se fazendo de difícil. – Chiara respondeu antecipadamente por mim.
– Eu estou me guardando.
– Para quem?! – Dorotea respondeu com curiosidade enquanto fazia ajustes no corpo de Chiara. – Querida, estamos nessa vida por pouco tempo. O amanhã pode ser nosso último dia na terra. Já cheguei longe nessa vida, vocês deviam estar curtindo o máximo de homens que estão à altura de vocês.
– Você fala como se fosse velha.
– Pra uma Romano como eu, chegar a essa ideia é praticamente assumir que estou decrépita.
– Os Romano deixaram esse mundo faz tempo, Dorotea... – Observei.
– Mas não faz tanto tempo assim. Eu ainda restei, eu ainda sou a última geração.
– Esse negócio de herança de família é um saco, puta merda.
Nós três rimos da afirmação de Chiara. Logo, ela desceu do pedestal sem seu vestido e deu-me lugar. Eu tirei minha roupa, tal como ela, e fiquei na posição que era necessária. Quando Dorotea tirou meu vestido de uma das malas, meus olhos brilharam.
Particularmente, aquele era um luxo que eu adorava ter. Sempre havia necessidade de vestidos de gala novos, e eu não podia amar mais construir um vestido do zero como fazia com Dorotea. Ela era a estilista de todas as mulheres da máfia, tal como seu irmão, Leonardo, era o alfaiate de todos os homens. Conheciam sobre nossa vida, sobre nossas necessidades. Eram pessoas em quem confiaríamos nossas vidas cegamente.
Olhei para o espelho enorme na parede lateral à minha mesa. O modelo, mesmo inacabado, era o mais perfeito que Dorotea já havia levado. As mangas eram caídas e pequenas, não serviam para sustentação do vestido em si. Nas costas, levava um trançado com fita de seda e era todo trabalhado em tule rendado. O corpete era para ser extremamente justo, o que esclarecia a razão de um trançado nas costas e não botões ou zíper, valorizando meus seios, que deveriam chamar atenção de uma forma discreta – se é que aquilo era possível. Por fim, a saia era distribuída em diversas camadas, que davam a ela um volume enorme, proporcional ao peso, com uma cauda de dar inveja a qualquer outra mulher que estivesse naquela festa. A cor vermelho sangue era apenas um detalhe adicional.
– Parece exagerado para você.
– Parece que eu nasci pra ele. – Corrigi Chiara. – Aquele detalhe que eu pedi...
– Aqui está. – Dorothea disse e mostrou os dois espaços bem escondidos no meio do tule do vestido que davam lugar a compartimentos perfeitos para guardar uma arma.
– Perfeito.
Dorotea finalizou as marcações no meu corpo e, logo, estava tirando-me do meu vestido dos sonhos. Levei-a até a porta para despedir-me propriamente dela e fui para a cozinha em seguida, estava com fome. Chiara me observava atentamente.
– O que houve agora?
– Não vai sequer dar ouvidos ao que Dorotea falou?
– Sobre o quê?
– Michele. – Ela deu de ombros.
– Ah, você tá muito insistente com isso hoje... Vou ver com o prefeito se ele aceita que ele namore com você ao invés de namorar comigo pra pagar a dívida que tenho com ele. Mas é verdade, você confessaria que se tratava de um relacionamento falso rápido demais e estragaria todos os planos.
– Eu não preciso fingir ter um relacionamento com um homem daqueles, , eu... Ai, minhas pernas ficam bambas só de imaginar.
Eu ri e abri o freezer, pegando dois potes individuais de sorvete de chocolate, um para mim e um para Chiara.
– Você deveria pensar naquilo. Hoje, estamos nos divertindo aqui. Amanhã, com uma ligação, você pode estar envolvida em uma situação com armas que nenhuma de nós deseja e acabar perdendo a vida sem ter aproveitado tudo o que deveria.
– Estou bem aqui, Chiara.
– É por causa daquele coreano, não é?
Eu revirei os olhos.
– Não, não é.
– Você vive dizendo que ele é o maior filho da puta desse mundo todo, que ele é isso, que ele é aquilo, mas não assume que queria mesmo era estar na cama dele a essa hora.
– Eu e ele não existimos mais.
– Terminaram? – Ela arqueou uma sobrancelha.
– Não. – Eu disse, pegando o meu pote de sorvete. – Não dá pra terminar algo que nunca começou.
– Livre-se da culpa, convença-se de que você não tem nada sério em seu coração com nenhum deles e de que sua vagina está livre para ter quem quiser, quando quiser e como quiser. – Chiara brincou em alto e bom tom.
Olhei para trás, reprovando sua atitude, principalmente o seu volume, já que ainda tínhamos empregados na casa. Nós duas seguimos até a sala e eu liguei a televisão, havíamos mencionado uma nova série documental que estava disponível em um serviço de streaming que ambas queríamos assistir. Dei play e nós duas nos colocamos em sofás diferentes para maior conforto. Nesse momento, o celular criptografado em meu bolso vibrou. Nem Chiara poderia saber sobre aquilo, então precisava disfarçar.
– Eu vou no banheiro e já volto, pode ir assistindo sem mim. – Falei ao colocar meu pote de sorvete na mesa de centro.
No corredor, eu peguei o celular do bolso. A ligação vinha do número que eu havia dado para Taehyung, o que era incomum. Entreguei um celular para cada um deles porque tudo era possível, mas só esperava uma ligação de Namjoon por ele sempre assumir a posição de líder perante os sete, ou de Yoongi, porque... Bem, porque era o Yoongi.
– Pode falar. – Atendi sussurrando depois de trancar a porta do meu quarto e, por segurança, também trancar a do banheiro.
Código amarelo.
– Merda... – Eu suspirei e encostei as costas na parede perto da pia do banheiro. – Onde?
Porto.
– E Namjoon?
Tentando resolver.
– Vou ligar pro prefeito. Mande Namjoon deixar as coisas como estão e saiam daí agora, sem hesitar. Me mande um ‘ok’ quando todos estiverem em segurança
Será feito.
Eu assenti, como se Taehyung pudesse ver, e desliguei. Peguei meu outro celular, o de uso profissional, e busquei número do prefeito nos contatos salvos. Três toques depois, ele atendeu.
Senhorita , um prazer receber sua ligação.
– Eu achei que o acordo estava de pé.
Também pensei o mesmo, senhorita , mas sabe com quem almocei hoje? Meu sobrinho. Perguntei sobre o relacionamento entre vocês dois e, de fato, ele foi bem convincente em contar como você tem sido... Qual foi a palavra que ele usou? Ah... Arredia! Não descreveu bem o último encontro de vocês.
– Eu estive ocupada, Genovesi.
Sempre ocupada, não é mesmo, senhorita ?
– Ao contrário de você, – Eu alterei o tom da minha voz. – há pessoas que trabalham de fato para conseguirem seu dinheiro, e eu sou uma delas.
Está mexendo em um ninho de vespas, .
– ‘Senhorita ’ pra você. E, se seu sobrinho estivesse insatisfeito, já teria terminado nosso suposto relacionamento. Agora não se esqueça que eu to nessa vida desde que nasci e você só começou a se meter com as coisas erradas agora. Não tente competir comigo, Genovesi, ou eu vou foder com você.
Desliguei repentinamente, sem dar chance para que ele respondesse. Chequei, no espelho, para ver se eu estava apresentável ou se parecia abalada. Positivo para o primeiro, negativo para o segundo. Ótimo. Desci de volta para a sala de estar, o episódio já estava um pouco avançado. Eu ainda pensava que, de qualquer forma, não queria estresse, então provavelmente teria que melhorar minha atuação junto a Michele. Tudo bem que não era sacrifício, como Chiara costumada relembrar sempre que podia, mas eu não me envolvia quando se tratava desse tipo de coisa. Fingir estar apaixonada por um ator mundialmente famoso não estava sendo exatamente seguindo suas próprias regras.
– Demorou...
– Recebi uma ligação.
– Trabalho?
– Sim, mas já resolvi.
– Quer que recomece o episódio? – Chiara perguntou. – Tá interessante...
– Pode deixar, eu pego os detalhes conforme o episódio for avançando.
Deitei de forma que o celular criptografado não ficasse à vista de Chiara enquanto estivesse na minha mão. Só esperei pelo ‘ok’ que pedi e, logo, fiquei mais tranquila. Não havia razão para que eu me preocupasse. Era só mais um dia de tráfico e ameaças na vida da família – de um membro só – .


Capítulo 5

Rodei a mesa de reunião com os olhos fixos na tela. Tudo parecia bom, mas eu ainda procurava por erros. Perfeição era sempre o meu objetivo, em tudo. Não havia motivo para não ser o meu objetivo ali, naquela reunião. Por mais que não fosse nada demais, algo que era conversado frequentemente na empresa desde que eu comecei a trabalhar nela, eu queria que os planos saíssem dentro de todo o esperado. Meus funcionários não sabiam que eu me cobrava mais do que cobrava a eles.
Estava sendo observada, e não era pela roupa ousada, pelo cabelo novo ou por causa do som que o salto fazia. Minha aprovação estava sendo ansiosamente aguardada por todos naquela sala e eu adorava fazer um jogo de mistério.
– Está ok por mim. – Falei, finalmente. – Fanucci, eu quero um relatório sobre a taxa de perda total de toda a matéria-prima que recebemos nos últimos seis meses. Milanesi, estou aguardando o relatório sobre a pesquisa de satisfação dos funcionários do setor de produção há semanas, preciso dele no máximo sexta-feira. Lucchese, preciso das estatísticas pra enviar ao Cocci para que o pedido de compra das peças seja feito o quanto antes, quero que nossos prazos e nossas execuções sejam os melhores do mundo como montadora da Dodge. Iadanza, a equipe de design gráfico tá ciente da urgência do projeto?
– Sim, senhora.
– Ok, o prazo pra eles tá dado. Padovesi, em que pé estamos?
– Já montei o contrato e enviei pra empresa de cenografia, estou aguardando o retorno deles.
– Cobre então. Castiglione... – A pausa na minha voz foi quase dramática, eu olhei para a mulher quase com pena. – Berta, nós precisamos que a sua parte seja cumprida de forma urgente.
– Será feito, senhora, eu sinto muito, as coisas desandaram e...
– Tudo bem. Essa semana, ok? – Perguntei e ela assentiu. – De resto... Estamos todos alinhados para a festa?
– Sim, senhora. – Todos responderam em coro.
– Se ninguém tiver algo a falar então, estão dispensados.
Um por um, os integrantes da reunião foram recolhendo suas coisas e deixando a sala. Eu ainda mantinha os olhos na tela.
– A senhorita quer que eu peça para que refaçam o orçamento?
– Não, Bianca, vamos seguir com o plano atual. – Eu sentei na beira da mesa, ainda olhando para o modelo que teríamos que lançar antes do final daquele mês. – O Gallo não voltou a ligar, voltou?
– Não, senhorita.
– Um representante da Pirelli entrou em contato comigo, os valores estão bons. Prefiro a Pirelli à Michelin, confio mais em produtos italianos. Se ele não bater o preço da Pirelli com folga de pelo menos vinte por cento, diga a ele que não fecharemos negócio.
– Sim, senhorita. Mais alguma coisa?
– Tudo certo pra minha viagem a Turim na semana que vem?
– Reserva em hotel com as características que a senhorita solicitou confirmada hoje mesmo com o gerente. O carro que irá lhe levar também já foi preparado.
– Pode cancelar, eu vou dirigindo por conta própria.
– A senhorita tem certeza?
– Sim, Bianca. – Peguei o controle, que estava próximo, e desliguei a televisão onde o assunto da reunião estava sendo projetado. – Estou de saída. Se alguém perguntar, você sabe o que responder.
Deixei alguns documentos no meu escritório, peguei minha bolsa e saí do prédio executivo da montadora. O trajeto até o restaurante era conhecido e, para qualquer um que tentasse espiar, faria total sentido. A CEO da montadora da Dodge indo ao melhor restaurante da cidade almoçar ou jantar com frequência? A história era perfeita, sem furos. Os seguranças que arrumava com Lorenzo? Bem, Lorenzo tinha de fato uma empresa de segurança privada. Faria total sentido também que eu contratasse seguranças para minha própria proteção quando eu tinha um cargo importantíssimo na cidade – quiçá no país. Lorenzo saber das minhas subfunções era apenas um detalhe que ficava entre nós.
Assim que entrei no restaurante, fui até a sala privativa. Os meus seguranças ficaram na porta, Bianchi dispensou os dele imediatamente. Foi só olhar melhor para dentro da sala, antes de entrar, que verifiquei que todos estavam ali. Como era padrão nas reuniões em que nós cinco nos uníamos – era como faziam com meu pai também –, deixamos nossas armas pessoais em um cofre, que ficou em posse de nossos seguranças do lado externo da sala.
– Falem. – Disse de uma vez.
– Já fez sua escolha? – Ricci perguntou. – Estamos esperando a resposta há dias.
– Quintiliano Zito.
– Você só pode estar brincando...
– Nem um pouco. – Cortei Bianchi logo. – Ele seria o consigliere que meu pai escolheria se não tivesse o Costa. E se vocês pensam que eu não vou seguir os passos dele, estão muito enganados. Até porque, se fosse para não seguir, eu já teria deixado esse posto a um de vocês quando meu pai adoeceu.
– Por que a rosa negra aos coreanos se as ordens foram para uma imediata execução?
Ordens, Ricci? – Eu levantei uma sobrancelha para ele e coloquei os punhos cerrados na mesa à sua frente. – Desde quando você me dá ordens?
– Vamos acalmar os ânimos, não viemos aqui para discutirmos. – Manzino se meteu entre nós.
– Certamente não. – Eu concordei. – O que eu faço ou deixo de fazer é da minha conta. Eu herdei essa posição e não vou regê-la com mão mais leve que a do meu pai, muito pelo contrário. Fui criada para assumir o lugar quando meu pai morresse. Eu sei o que é melhor para mim ou para a Família. Que fique bem claro, vocês não me dão ordem porra nenhuma. A rosa negra foi instituída por essa Família e eu vou honrá-la e exigir que vocês a honrem também ou sofrerão as devidas consequências.
– Isso é uma ameaça, ?
– Considerem como quiserem. Mas não se esqueçam que os políticos estão na minha mão, exclusivamente, não na mão de vocês. Principalmente o prefeito. – Disse, ciente de que aquilo significava mais para mim do que para eles, e eu precisava agir a respeito desse detalhe. – Avisem os soldiers e os avvicinatos. Não quero dor de cabeça quanto a isso. Os coreanos vão continuar vivos enquanto for interessante para mim e ponto final. Agora, se vocês forem idiotas o suficiente pra começarem uma guerra contra eles, estejam preparados, porque eu tenho álibis, no plural, prontos pra me livrar de qualquer acusação em um piscar de olhos.
– Tá agindo nas nossas costas? – Ferrara rosnou.
– Já disse que o que eu faço ou deixo de fazer é da minha conta, não disse?
Dei uma boa olhada nos quatro. Tinham a mesma idade que meu pai, mas uma maturidade que caberia na boca de um camundongo. Ajeitei imediatamente a bolsa no ombro, então, indicando que não havia necessidade de prolongar a reunião.
– Eu espero que estejamos entendidos.
...
– Lembrando que eu não abri espaço para discordarem de mim nesse ponto. – Nem deixei que Manzino falasse. – Nenhum de vocês é bem-vindo na festa que irei dar na semana que vem pela empresa. No entanto, sei que vão dar um jeito de colocarem seus espiões lá dentro de qualquer forma. Um último aviso: não me testem. E Bianchi... Faça com que uma reunião da Família inteira seja agendada. Primeira segunda do próximo mês.
– Você vai se arrepender de estar agindo dessa forma.
– É o que veremos. – Disse e dei dois toques na porta da sala, indicando para os seguranças, do lado de fora, que a reunião estava acabada.
Meus dois seguranças pessoais me acompanharam até a saída. Eu os dispensei de lá mesmo e fui direto para o carro. Soltei uma respiração pesada assim que o vallet parou a pick-up na minha frente e eu entrei. Demorei uns trinta segundos ainda para sair com o carro, mas nem dava para disfarçar que eu estava arrumando alguma coisa ou até mesmo mexendo no som.
Uma mensagem chegou no meu celular enquanto eu dirigia para casa, sem a mínima vontade de voltar ao escritório. O sistema multimídia do carro a leu para mim, anunciando que Dorotea havia finalizado com meu vestido e que eu poderia ir até seu ateliê ou marcar uma visita à domicílio para a última prova. Eu estava sem saco até para aquilo.
– Senhorita , chegou um pacote em seu nome há poucos minutos. – Fui recebida por uma das empregadas.
– Onde está?
– Deixei em seu escritório, como a senhorita gosta.
– Obrigada, Delma. – Eu me virei para ela. – Se vocês já deram conta de tudo, podem ir pra casa. Avise aos outros por mim, por favor.
– Sim, senhorita. – Ela assentiu e afastou-se corredor adentro.
Mal entrei, o telefone criptografado tocou. Já esperei pelo pior quando tirei o aparelho da minha bolsa às pressas, jogando tudo em cima da mesa para encontrá-lo mais rapidamente. O desespero deu lugar à raiva e à incredulidade quando a mensagem de Yoongi chegou com um ‘sinto sua falta’ em coreano ao lado do emoji de uma beringela.
– Filho da puta! – Falei para mim mesma.
Tranquei a porta do escritório, conferi duas vezes se estava trancada mesmo. Afastei a estante. Quanto mais os dias passavam, mais fácil ficava de tirá-la ou recolocá-la em seu lugar. Talvez eu simplesmente estivesse ficando acostumada. Até digitar a senha para a porta de dois metros de altura abrir estava sendo um processo mais rápido.
Deixei as duas armas que levei comigo para o trabalho em cima da mesa principal, ao centro do enorme cofre. Arregacei as mangas, peguei as ferramentas necessárias e comecei o processo de limpá-las. Ao fim, recoloquei as munições, preparei mais pentes e deixei na minha bolsa, as melhores amigas da mulher moderna prontas para mais um dia de trabalho.
Em um lapso de incoerência, fui até a outra porta do cofre, exatamente oposta à porta por onde eu tinha entrado. Digitei a combinação no painel eletrônico e a porta deslizou. Tive que fazer bastante força para empurrar a estante para a frente.
O cheiro lá dentro era de mofo. O escritório já estava fechado por dois meses diretos, era de esperar que não estivesse um ambiente exatamente agradável. Tudo estava no mesmo lugar em que ele deixou quando passou mal pela última vez em casa, logo antes de eu o levar para o hospital às pressas. O retrato na parede atrás de sua mesa ainda trazia sentimentos saudosos a mim.
O sorriso da minha mãe era lindo, o mais lindo que eu já havia visto. Nós estávamos felizes naquela foto, era meu aniversário de vinte e um anos. Com o passar dos anos, a ausência dela foi sendo suprida pelos incessantes esforços do meu pai, apesar de tudo. Eu me sentia solitária, extremamente, mas era estranho, como se eu sentisse que não estava passando pelo luto da forma correta. Talvez fosse o amontoado de coisas a resolver que eu, de repente, tinha em minhas mãos.
Quando meu celular corporativo tocou, eu dei um pulo no lugar. Peguei o aparelho no bolso e, após verificar que o número era o de Bianca, atendi.
– Oi, Bianca.
– Senhorita , desculpa atrapalhar... O senhor da Michelin disse que não consegue cobrir o preço da Pirelli.
– Então já sabemos qual pneu vai na RAM quando ela for lançada. – Falei e fui até a mesa do meu pai, curiosamente checando as gavetas em razão de um instinto que mal reconheci em mim. – Pode comunicar a quem for interessante. Se falar com o representante da Pirelli, peça pra ele formular um contrato e enviar por e-mail que eu vou olhar e repassar ao nosso departamento jurídico.
– Mais alguma coisa?
– Quando terminar de fazer os devidos comunicados, tranca a nossa sala, vai pra casa curtir o seu namorado, dorme bem que amanhã tem mais.
– Mas tem os agendamentos do...
– Esquece a festa, Bianca, – Disse, tentando soar solidária. – tá tudo saindo direitinho, conforme os planos. Fica tranquila, eu resolvo o que precisar de casa mesmo.
– A senhorita tem certeza?
– Absoluta. Vai descansar um pouco, você merece.
– Obrigada, senhorita .
– Não há de quê.
Desliguei a ligação mas ainda fiquei olhando para as gavetas trancadas à chave. Meu pai nunca tinha mencionado nada a respeito delas, e eu também não tinha perguntado porque não era do meu interesse. De repente, eu sentia que precisava abrir aquelas gavetas a qualquer custo. Então eu ouvi uma batida na porta do meu escritório, do outro lado do cofre. Saí de lá às pressas, fechei o cofre pelo meu lado, recoloquei a estante em seu lugar.
– Sim? – Abri a porta após destrancá-la.
– A senhorita tem visita.


Capítulo 6

– Tá arrasando, chefinha! – Foi só um dos gritos que eu escutei enquanto caminhava imponente do escritório até o estacionamento da montadora.
Com um imprevisto – que, inevitavelmente, levou a um atraso –, precisei pedir que toda a minha equipe fosse para o escritório. Não que eu não andasse com classe durante os meus dias, mas ninguém jamais havia visto a CEO da montadora usando um vestido de gala, ainda mais um vermelho chamativo como aquele. A maior parte dos que estavam ali não iam a tais tipos de festa, ou por não serem convidados ou por realmente não terem interesse em eventos como aqueles.
O elevador, por fim, parou no subsolo, quase vazio já pelo avançado horário. Meu carro se destacava dentre os menos de dez restantes ali, principalmente pelo tamanho. Os saltos batendo no chão faziam eco no estacionamento vazio. Não havia uma única alma à vista. Eu destravei as portas e entrei. Coloquei a chave remota no console, pisei no freio e apertei o botão para ligar o carro. O meu celular conectou no sistema de som e eu escolhi a playlist para seguir meu caminho.
Joguei no celular no banco do carona. No segundo em que estava pronta para sair com o carro, meu coração gelou, não só por sentir a presença ali dentro mas também porque eu vi a sombra pelo retrovisor central. Uma mão tampou a minha boca com firmeza pelo lado da janela e, por entre os bancos, outra segurou o braço que ia pegar a arma escondida.
– Calma, amore, sou eu. – A voz baixinha soou bem próxima a meu ouvido.
Engoli em seco por um motivo diferente então. As mãos foram soltando-me com lentidão.
– Você não deveria estar aqui, Yoongi.
– Eu não resisti, precisava fazer uma visitinha. – Tinha um sorriso presente na voz dele, embora eu não pudesse ver propriamente o seu rosto. – E foi um bom dia pra escolher, já que eu tive a chance de te ver tão gostosa nesse vestido...
– Não fui clara quando eu disse que nós não poderíamos nos ver de novo enquanto eu não resolvesse essa questão da rosa negra?
– Juro que tomei cuidado. Aposto um oral. Se eu for pego, eu te faço um. Se não, você faz em mim.
– Se você for pego, não vai sobrar um pinto pra eu chupar. – Eu cuspi as palavras mas fiquei arrependida logo depois, porque o jeito sujo de falar certamente seria de seu agrado.
– Sai com o carro, vai ficar estranho você demorar tanto aqui depois de ligar o carro.
Eu obedeci sem pestanejar, mas olhava para ele pelo retrovisor com os olhos pegando fogo. O desgraçado estava recostado com o maior conforto no banco de trás, rindo da sua própria façanha. Cerca de cinco minutos depois de sair da montadora, enquanto seguíamos em silêncio, fui obrigada a parar em um sinal vermelho.
– Em três, dois...
Depois que sua voz soou dentro do carro em uma contagem regressiva que não entendi a princípio, tudo apagou. O sinal, os postes, as casas. Não havia uma lâmpada acesa que não fosse oriunda de faróis.
– Vira à esquerda na próxima rua e estaciona na primeira vaga que achar.
– O que foi que você fez, Yoongi?
– Eu não fiz nada, quem fez foi o Jungkook. – Ele riu. – Aquele pestinha pode ser um pentelho, mas é bem útil também.
– Yoongi!
– À esquerda, . – Ele repetiu.
Eu queria ir contra, mas a minha curiosidade venceu a minha implicância. Cerca de cem metros depois de entrar na rua cercada de prédios residenciais, eu achei uma vaga que comportasse o tamanho do meu carro. Acionei o modo de self parking e o sistema colocou o carro no espaço. Desliguei tudo e conferi se as portas estavam trancadas.
– Pronto, o que você quer?
– Pula pro banco de trás.
– Yoongi, você já viu o que eu to usando?
– Você tá dirigindo um carro bruto como esse usando saltos extremamente finos e uma arma presa em cada perna. Se você consegue fazer isso usando um vestido desse, você consegue pular pro banco de trás.
– Eu não sei o que...
– Vamos, , seu carro é um dos maiores já construídos. Espaço, você tem.
– Quer saber? Não! Chega dos seus joguinhos. Você me diz o que quer agora ou sai do meu carro, por bem ou por mal.
Sem iluminação, eu não senti a mão se aproximar e invadir o meu vestido por cima, agarrando o meu seio direito. O gemido só escapou porque o contato foi repentino.
– Vai vir ou não?
– Não. – Eu respondi e ele apertou mais ainda o meu seio.
– Vem.
– Não. – Insisti.
– Tem certeza?
– Absoluta.
– Eu não seria tão incisivo assim. – Yoongi fez mais pressão.
Eu fechei os olhos e gemi. A minha calcinha já recebia um sinal do meu corpo de que eu estava negando contra a minha própria vontade.
– Vem pra cá. – Ele repetiu o convite.
– Yoongi, eu preciso ir pra festa.
– E eu preciso foder você.
– Você não vai tirar o meu vestido.
– Tic toc. Quem disse que eu preciso tirar o seu vestido pra te comer, ?
Eu comecei a rir.
– Agora que eu não acredito mesmo.
– Me deixa provar então, já que você não tá colocando fé em mim.
Rindo e revirando os olhos, soltei o cinto de segurança e joguei meu corpo para trás, apoiando nos encostos dos bancos do passageiro e do motorista para dar impulso e levar as pernas também. Eu mal passei de vez para trás, fui empurrada de volta parcialmente. Meu corpo ficou debruçado sobre o apoio de braço central e Yoongi abriu minhas pernas, mudando de posição para ficar atrás de mim. Eu ouvi o barulho da embalagem do preservativo de sobrancelha arqueada.
– Mandou fazerem um buraco no vestido e eu não sei?
– Você vai se arrepender de duvidar de mim, .
Com pressa, ele começou a levantar as camadas da saia do vestido até que estivessem todas emboladas. O primeiro contato que senti foi o do seu dedo e nós dois gememos juntos.
– Eu adoro como você nunca me dá trabalho com isso, é só puxar a calcinha pro lado e... – Antes que ele terminasse a frase, fez o que começou a narrar e entrou em mim sem cerimônia.
A pequena dor inicial se transformou em prazer rapidamente e nós dois gemíamos em sincronia conforme Yoongi entrava e saía de mim devagar. Enquanto isso, usava a mão no meu clitóris, massageando o ponto com a precisão cujos efeitos ele sabia que causaria em mim. O volume aumentou e eu sentia que podia começar a suar a qualquer momento. Ao contrário do medo, a escuridão externa só aumentava a minha sensibilidade e o meu foco naquele momento. Então, tão rápido quanto começou, Yoongi se retirou por completo de mim.
– O quê?!
– Eu falei que você ia se arrepender. – Ele riu.
– Yoongi!
– Foi só um gostinho pra você não esquecer de mim enquanto estiver do lado daquele ator filho da puta. – Ele seguiu tentando devolver meu vestido para o lugar mas fui eu quem parou o movimento.
– Min Yoongi, – Minha voz saiu como um rosnado, e eu torci um pouco o meu corpo a fim de olhar para ele diretamente. – você vai terminar de me foder e vai me fazer gozar agora que começou.
A risada dele fez a minha lubrificação aumentar.
– É assim que eu gosto de ouvir a minha menininha falar.
Antes de deixar o carro de vez nas mãos do valet, chequei se a maquiagem estava no lugar mil vezes. Conferi o banco de trás, como se eu não tivesse certeza absoluta de ter deixado Yoongi para trás muito antes de sequer chegar perto do hotel reservado para o evento. Bati a mão por cima do vestido para checar se as armas estavam ainda presas nas cintas ligas. Arrumei uma mecha de cabelo fora do lugar, colocando-a atrás da orelha, e destravei as portas. O valet abriu a porta para mim, cumprimentou-me e eu saí de vez, indo com passos largos para dentro do hotel. Não era a primeira vez que aquele salão era utilizado para um de nossos eventos, muito embora fosse a primeira vez em que era eu quem coordenava tudo.
Conforme eu avançava, já dentro do salão, atraía alguns olhares. Não, não era porque estava bonita, porque o vestido era deslumbrante. Era porque eles queriam saber o que seria da minha administração dos negócios uma vez que meu pai estava morto. Mas um olhar específico se destacou e foi até ele que eu rumei. Se Yoongi estivesse mesmo de olho em mim na festa como prometeu que estaria antes de sair de vez do meu carro, aquilo faria seu estômago revirar e eu me vingaria de modo preciso da invasão arriscadíssima. Ele não fazia ideia de que eu sabia ser muito mais suja do que ele.
, você está...
Sem cerimônias, eu o tomei pela nuca e troquei um beijo quente com ele – abençoada seja a pessoa que inventou o batom sem transferência. Quando eu me afastei, os olhos de Michele faiscavam na minha direção e um sorriso tomou conta dos seus lábios.
– Oi. – Ele mordeu o lábio inferior.
– Oi. – Respondi de volta. – Nós podemos recomeçar, certo? Eu precisei recolocar a minha cabeça no lugar depois de tudo o que aconteceu e eu to pronta pra...
– Tá tudo bem, fico feliz que você esteja se sentindo melhor. – Michele acariciou a lateral do meu rosto, ainda sorrindo.
– Eu perdi muita coisa?
– Nada demais. Posso pegar uma bebida pra você?
– Sim. Uísque, por favor. Sem gelo.
– É um começo de noite intenso, não?
– Eu prefiro dizer que é o necessário pra aguentar esse pessoal. – Ele riu da minha resposta.
– Acho que você tá certa. Um uísque saindo então, já volto.
Peguei o celular do bolso imperceptível do vestido. Estava para digitar uma mensagem para Chiara quando eu a vi acenar a cerca de trinta metros de mim. Primeiro, fez um sinal de positivo, mas apontou com o olhar então, com uma cara não muito feliz, para a sua esquerda. Eu olhei e vi Ricci, seu pai, com uma loira mais nova que eu colada nele. Yoongi era cara de pau, mas Ricci...
– Aqui seu uísque, querida.
– Obrigada. – Eu sorri para Michele enquanto pegava o copo da sua mão.
– Senhorita ! – Uma Bianca esbaforida mas, ainda assim, extremamente linda, com seu vestido azul petróleo, veio correndo na minha direção. – O senhor Sabbatini não consta como presente na lista de convidados que já chegaram.
– Como assim o engenheiro não tá aqui ainda?
– Eu não sei, senhorita , estou tentando ver com quem posso para saber onde ele se encontra.
– Faça isso, eu vou tentar enrolar os convidados enquanto isso. – Pensei na solução para ganhar tempo até que o principal responsável pela apresentação da noite tivesse tempo para chegar. – Michele, você me acompanha em uma rodada de cumprimentos?
– Claro. – Ele respondeu de imediato e ofereceu o braço para mim.
Percorri o salão trocando apertos de mão com todo tipo de pessoa. Jornalistas, engenheiros, representantes de marcas de peças automotivas das mais diversas categorias, velhos endinheirados com modelos em ascensão aos seus pés. Posei para algumas fotos. Sozinha, com Michele, com gente que eu não conhecia, de todo jeito possível. Depois de mais duas doses de uísque, nem estava tão desconfortável assim.
Mas eu ainda sentia um buraco. Ainda sentia falta do meu pai me apresentando a pessoas que já encontraram comigo, de tê-lo na minha cola recomendando todo tipo de homem que ele considerava um bom partido, de escutar a sua voz elogiando as minhas roupas e ver seus olhos brilhando quando dizia que a garotinha dele estava crescendo. O aperto era disfarçado pelos vários compromissos, as conversas que eu tinha que manter. Por acaso, eu estava consciente de que era mais acostumada com aquele ambiente do que eu me lembrava.
Recusei o convite de Michele para passar a noite em sua casa ao fim da festa. Recusei a chamada de Chiara para terminarmos de beber até a cabeça doer na minha casa ou na dela. Recusei dezenas de caronas para casa e ofertas para que um táxi fosse chamado. Não, eu não estava sóbria. O volume de álcool no meu sangue era perfeitamente ilegal quando eu tomei o volante do meu carro. Mas foi só tirar o salto que eu estava em condições. Eu estava pensando em provocar Yoongi ao beijar outro homem em um momento e, no outro, o luto caía sobre mim. Foi então que lembrei das gavetas.
Tinha alguma coisa lá e eu ia descobrir naquela mesma noite.


Capítulo 7

Desencaixei o pente e encaixei um novo. Destravei a arma, apontei para o alvo e acionei o gatilho dezoito vezes seguidas, o máximo que o pente comportava. Liberei-o, fazendo com que ele caísse na minha mão, e coloquei sobre a mesa junto com os outros. Os clicks da câmera eram audíveis.
– E então, senhorita ?
– Fácil manuseio, eu gostei. – Virei-me para Timoteo. – Vou querer cinco desse pente. Vocês entregam lá em casa, como sempre?
– Claro que sim. Mais alguma aquisição?
– Esse modelo novo, a 92 Fusion Black... Dois. Eu queria adicionar um outro rifle à coleção, estava entre o ARX 160 e o Cx4 Storm. Qual você recomenda?
– Temos modelos pra testes, se a senhorita quiser experimentá-los e decidir por si só.
– Você me conhece, Constantini. Qual deles?
– Bem, o estilo da senhorita pede um ARX 160. Melhor manutenção da categoria, facilmente personalizável.
– E por quê não o Cx4 Storm?
– Design. A senhorita tem um gosto mais refinado que bruto.
– Hm... Certo, eu vou levar um também.
– Um ARX 160?
– Não, um de cada. – Disse sorrindo e tirando o óculos de proteção.
– A senhorita viu a nossa nova linha de bolsas?
– A Transformer? – Eu perguntei e ele assentiu. – Loredana me enviou algumas fotos por e-mail, já sinalizei algumas para o pedido, uma backpack e uma medium cartridge.
– Ótima escolha. E quando marcamos de novo, senhorita ?
– Acho que posso dizer isso após ver as fotos de hoje, então passo para a minha equipe de social media, eles definem por quando tempo as fotos serão úteis e marcamos novamente. Além disso, eu não esqueci o convite para a festa de lançamento dos novos modelos da Xtrema.
– A senhorita vem também para o evento de caça?
– Minha secretária tem cuidado da minha agenda e eu ainda não sei, sinceramente, se será possível. Vou remanejar alguns compromissos, mas a minha presença pode ser inviabilizada. De qualquer forma, vocês sabem que podem contar com a minha resposta, positiva ou não.
– Sempre podemos, senhorita .
– Acabamos por hoje então? – Perguntei, por fim.
– Na verdade, temos um novo convite. Gostaríamos que fizesse parte de um vídeo sobre tiro esportivo para o nosso canal no YouTube.
– Podemos arranjar isso. Assim que eu chegar em casa, preencho a documentação para a aquisição das novas armas e faço o envio por e-mail.
– A licença da senhorita segue como licença para colecionadores?
– Sim, juntamente com a licença para transporte oculto por causa do trabalho.
– A documentação mudou, podemos enviar o novo modelo.
– Por favor, me enviem assim que possível. Vocês podem entrar em contato com a Bianca sobre a agenda para a gravação do vídeo?
– Perfeitamente.
– Fico no aguardo então. Foi um prazer revê-lo. Minha equipe estará à espera das imagens de hoje.
– A nossa equipe de publicidade enviará as fotos tão cedo quanto possível, senhorita.
Trocamos um aperto de mão e eu entrei no meu carro, que estava bem perto do campo de tiro ao alvo. Liguei o carro, coloquei uma playlist divertida com clássicos do rock da década de oitenta e parti da propriedade da Beretta. Havia certos benefícios em ter virado uma garota propaganda deles, ainda mais com o crescimento exponencial do público no meu Instagram depois de assumir a posição do meu pai. Dinheiro não era problema, mas ganhar brindes de empresas como a Beretta em troca de apenas expor os produtos no Instagram era sensacional. Tinha, é claro, seus percalços, mas nada que uma boa tarde atirando em alvos de mentira não resolvesse.
O sol já tinha sumido quando eu cheguei em casa e os empregados haviam deixado o local. Eu tinha pena de demití-los, porque dinheiro não faltava, mas gostava muito da solidão da casa. Até quando meu pai estava vivo, ficar sozinha era confortante. Mas o conforto não durou muito. Mal entrei pela porta, o meu celular tocou, indicando uma chamada proveniente de um número desconhecido. Aquilo nunca significada boa coisa.
– Alô? – Atendi com certa estranheza.
, temos um rosa negra alegando ser alvo seu.
O meu coração disparou na hora. Minha garganta secou, era como se não houvesse ar para respirar. Eu saí procurando o celular criptografado desesperadamente.
– Quem é?
– Não sei, não fala italiano.
Fala sim, ele só não quer que você saiba disso. Ótimo...
– Me passa as coordenadas, vou encontrar vocês.
Desliguei imediatamente porque achei o outro aparelho. Eu sentia lágrimas nascendo nos meus olhos conforme selecionava o contato de Yoongi na chamada. Engoli em seco e coloquei o aparelho no ouvido. O aperto no meu coração era crescente, mas o nó na garganta afrouxou quando eu ouvi a voz do outro lado.
Aconteceu alguma coisa?
– Você tá bem?
To. O que houve?
– Onde tá todo mundo?
Nos apartamentos deles, eu suponho. , o que tá acontecendo?
– Pegaram alguém.
Merda.
– Yoongi, localiza todo mundo. Eu preciso saber quem tá faltando.
Vou fazer isso e enviar por mensagem.
Desliguei já correndo para o meu quarto. Com o outro celular, disquei o número do meu consigliere. Era uma das últimas esperanças que eu tinha e, mesmo que eu estivesse tramando algo contra alguém da família, ele havia sido escolhido justamente porque era quem tinha maior tendência a ser confiável e leal até para esse tipo de situação.
Senhorita .
– Zito, chegou a hora de você provar sua lealdade. Preciso de você agora, com mais dois soldiers que você terá a responsabilidade de escolher. É um chamado da rosa negra e eu preciso de proteção.
Certo, estarei aí em vinte minutos.
– Não entre, apenas buzine. Eu vou estar pronta.
Troquei de calça, optando por uma corta-vento. Prendi um dos meus maiores coldres de cada lado das minhas pernas, encaixando uma pistola carregada e equipada com silenciador em cada. Vesti uma blusa preta justa de mangas cumpridas. Peguei, por fim, o AR 70 no cofre de armas e mais três pentes para ele, porque eu não tinha como saber se precisaria ou não usar um fuzil. De qualquer forma, era um ótimo jeito de impor ordem.
Eu entrei na garagem e fiquei sentada dentro do carro, com ele ligado porém com as luzes apagadas. Foi naquela posição que eu recebi a mensagem de Yoongi, dizendo que ele não havia conseguido falar com três dos seus. Ajeitei a alça do fuzil para que ficasse em posição confortável para dirigir a RAM, já que eu não pretendia deixá-lo longe de mim. Eu nem esperei a buzina que pedi, já sabia que era Quintiliano chegando. Arranquei com tudo para fora da minha propriedade e seguimos na direção do Idroscalo.
O que era para fazer em vinte minutos, nós fizemos em dez. Ninguém no trânsito de Milão ousaria entrar no caminho de uma RAM completamente descaracterizada como a que eu tinha para usar para aqueles fins. Nem a polícia iria meter-se na história, graças ao então prefeito. Eu cheguei no local já saindo do carro quase sem pará-lo, segurando possessivamente o fuzil e não me importando nem um pouco com as pistolas à mostra.
– Ele é meu. – Eu disse de uma vez.
Manter a pose ao ver Jungkook amarrado no chão, amordaçado e com manchas do que poderia ser sangue em seu rosto, não era exatamente fácil, principalmente porque ele era o mais novo dos coreanos e porque até eu tinha um senso de protecionismo para com ele. Eu sabia que estava em uma vida não tão digna, mas era motivo de orgulho que eu nunca tivesse precisado usar a arma para uma finalidade diferente além de exibicionismo. Eu nunca fui responsável por machucar alguém inocente.
Meu pai me ensinou isso com os passos dele, atirando uma única vez na vida inteira na direção de uma pessoa: o assassino da minha mãe. Nós queríamos o dinheiro. Era dinheiro limpo? Não. Definitivamente não. A de dez, quinze anos... Ela talvez até pensasse que o certo seria outra vida. Mas a mulher em quem eu me transformei sabia coisas demais para pensar que existia uma vida correta entre aqueles da minha classe. E, naquele momento, eu me transformei em um deles.
Com Zito e os dois soldiers, que reconheci como sendo Amedeo Messina e Pericle Lombardo, fazendo um tipo de escolta em mim, eu fui até Jungkook, segurei-o pelas mãos, atadas atrás das costas com uma presilha de plástico, e levantei-o abruptamente. Empurrei Jungkook por trás e sinalizei com a cabeça para que alguém abrisse a tampa da caçamba da pick-up. Zito foi quem abriu e eu praticamente joguei Jungkook lá dentro de qualquer jeito, sussurrando um rápido pedido de desculpas em coreano que só ele entenderia. Eu mesma fechei a caçamba na cara dele.
– Ótimo, meninos, eu assumo daqui. Preciso de resposta antes que o alvo seja eliminado.
– Nós acompanhamos. – Eu reconheci a voz como sendo de quem ligou para mim.
– Com a permissão de quem? – Levantei uma sobrancelha e segurei o fuzil mais forte quando virei para eles. – Ah... Pensei ter ouvido coisa, mas não foi nada, não é mesmo? Zito, vamos.
Ele assentiu em resposta ao meu comando. Dirigi bem mais devagar na volta. Se Zito perguntasse, argumentaria que não estávamos mais com pressa. Além disso, ainda podia aumentar a história, dizendo que não podia correr o risco de machucar meu alvo e ficar sem as respostas que precisava. Foi a desculpa esfarrapada mais rápida que eu formei na minha cabeça durante a minha vida inteira para não andar mais rápido e correr o risco de machucar mais Jungkook. E era assim mesmo que eu precisava, porque chegamos na minha casa antes de eu perceber que o caminho havia acabado.
– Zito, leva o alvo pro porão. – Indiquei a porta que ele já conhecia na minha garagem.
– Sim, senhorita.
– Quanto a vocês dois... Nunca estiveram aqui, nunca viram essa noite acontecer. Isso fica entre nós quatro ou sabem o que vai acontecer, não sabem? – Fiz a ameaça mesmo sabendo que era muito improvável de ser necessário cumprí-la, e Zito estava de volta logo. – Ele está amarrado?
– Não vai sair daquela cadeira sem um milagre.
– Ótimo. Estão dispensados.
– Mas senhorita...
– Eu tenho total controle da situação. E só para lembrar... Isso não sai daqui pra ir para o ouvido de ninguém, não importa quem seja.
Eles assentiram e afastaram-se. Eu esperei que o carro tivesse partido há um tempo para descer as escadas correndo na direção do porão. Jungkook não estava com uma cara boa. A primeira coisa que eu fiz foi tirar a mordaça e partir para a abraçadeira que o prendia na cadeira metálica.
– Meu Deus, Jungkook, me desculpa...
– Tá tudo bem. – A voz dele saiu fraca enquanto eu pegava um punhal na prateleira de madeira e cortava as amarras.
– O que aconteceu?
– Uns caras me pegaram no posto de gasolina. Depois, eu só lembro de estar na beira do lado recebendo chutes.
– Você precisa de um médico?
– Não, vou ficar bem.
– Vou te levar lá pra cima, tenho que avisar o Yoongi e precisamos achar Jin e Jimin.
– O que houve com eles?
– Não sabemos, ele só não conseguiu falar com os dois, além de você, enquanto tentava descobrir quem tinha sumido. Mas espera... Te pegaram no posto? Não foi por acaso?
– Eu já desconfiava que tava sendo seguido, mas não deu certo a tentativa de escapar.
– Merda... – Eu soquei a parede, a dor voltando para o meu corpo imediatamente. – Vamos subir, você fica aqui essa noite e nós vemos o que fazer amanhã. Por hoje, alguém vai pagar pelo que fizeram com você.
Deixei Jungkook em um dos quartos de hóspedes com toalhas limpas e fui direto para o escritório do meu pai. Nem em mil anos, eu adivinharia que ele mantinha um dossiê detalhadíssimo de cada amigo dele naquela gaveta. Bem... “Amigo”, àquela altura, era uma palavra forte demais. E se ele não me contara nem em seu leito de morte que ele se preparara para virar-se contra eles, tinha algo muito importante em jogo. Mas eu só ligava para uma coisa naquele momento: vingança.
Eu me tornei suja naquela noite, e mais suja ainda por não me arrepender posteriormente. Ao menos, o sangue nas minhas mãos não era de inocente. A ordem foi dada, rápida e suscinta. Se eu não cumprisse as ameaças que estava fazendo, perderia poder, e aquilo poderia colocar a minha vida em risco. Então eu fiz com que Zito – e apenas ele – fosse até a casa de Ricci no meio da noite e instalasse uma bomba caseira que não pudesse ser rastreada no carro dele, ligada aos fios para que a ignição da bomba fosse a do próprio carro.
Na manhã seguinte, antes que os empregados chegassem, transferi Jungkook para o meu escritório. Liguei para Bianca, avisei que não iria ao trabalho pessoalmente e que desempenharia o que fosse necessário a partir da minha casa. De porta fechada, era só colocar Jungkook para dentro do cofre de armas se algum funcionário da casa batesse. Ele ficou particularmente atento ao noticiário, que avisava sobre o atentado que um grande empresário italiano sofrera na manhã daquele dia. Eu não podia ligar menos.
– Foi você, não foi? – Ele sussurrou.
– Que diferença isso faz?
– Você não precisava.
– E ele não devia. – Finalizei.


Capítulo 8

Certo. Um encontro. Não era como se eu não soubesse o que aquilo significava ou como portar-me naquela situação em questão. E também era burrice minha não ter feito uma preparação psicológica mínima para aquele momento. Tudo bem que adiá-lo nem era tão difícil assim, mas eu podia arrumar trabalho demais para mim à toa. Ainda tinha o prefeito na minha mão perfeitamente, mas talvez fosse melhor guardar as minhas armas secretas para um momento mais importante. Então certo. Eu iria a um encontro decente com Michele. O primeiro nos poucos meses do nosso... Relacionamento? Não parecia a palavra certa a usar porque eu não nutria qualquer tipo de sentimento por ele – olhar e achar bonito não era um sentimento de nenhuma natureza, definitivamente.
No dia seguinte, eu sabia que haveria certo alvoroço nas redes sociais. Por conta de meios internacionais, talvez. Por conta de meios italianos, com certeza. Principalmente, aqueles com sede em Milão. Foi assim na primeira vez em que nós nos vimos, quando uma foto de um beijo na bochecha inocente por conta de um cumprimento formal viralizou no Instagram. Depois, rápidas menções a mim em entrevistas dele foram suficiente para criarem um frenesi por novas informações. E então, do dia para a noite, haviam centenas e centenas de pessoas desconhecidas interessadas na minha vida pessoal sem nunca terem ouvido falar de mim.
O sobrenome era conhecido apenas no meio dos negócios. A montadora da Dodge era nosso ganha pão principal, claro, mas nenhuma pessoa ganhava dinheiro sem colocar em prática o verbo mais importante para fazer dinheiro: diversificar. Meu pai construiu prédios comerciais em Milão para complementar a renda, um hotel pequeno mas completo perto do aeroporto – o que significava retorno fácil e sem esforço –, dono de uma rede de shoppings em sociedade com alguns amigos e ações em bancos de diversos países. Eu me livrei de quase tudo, chegando a vender ações a preços meramente significativos para não ter a responsabilidade nas minhas costas. Que o dinheiro seguisse rendendo em aplicações menos complicadas, ainda era bastante e eu poderia continuar vivendo confortavelmente e sem me preocupar. O único negócio que eu mantive além da montadora foi o acordo com os coreanos.
Não havia motivos para desconfiar, certo? Fazia total sentido, nós mantínhamos um negócio extremamente lucrativo. Eu era a porta de entrada para grande parte dos eletrônicos que serviriam, posteriormente, como suprimentos para não só a minha montadora, como algumas de outras marcas. Afinal de contas, o grupo Fiat incluía as grandonas também, como a Ferrari e a Maserati, e a movimentação financeira era significativa. E com os eletrônicos, eu botava para dentro outras coisas também e mandava para fora outras mais. Na televisão, faziam parecer muito difícil importar eletrônicos desviando de impostos e exportar armas, mas era até bem fácil.
E aí era básico. Eu tinha muito dinheiro. Eu ostentava carrões. Eu gostava de armas. Eu tinha um Instagram aparentemente interessante, o que acabou tornando-me uma “influencer”, embora eu ainda tivesse um certo problema para entender a definição desse conceito. A notícia de que um ator com a carreira em intensa ascensão e a praticamente herdeira – já que o pai estava em seu leito de morte – de uma das maiores fortunas italianas estavam em um suposto namoro se espalhou como fogo em palha. Eu me vi como um objeto na mão da mídia.
Isso não me ajudava em nada, a não ser na relação com o prefeito, que organizava tudo para que a entrada dos eletrônicos ilegais e a saída de armas não fosse rastreada. Claro, por um preço. E eu ainda queria entender o porquê de eu ter que sair com seu sobrinho como parte do acordo, porque não fazia o menor sentido. Mas eu obedecia. Sabe o porquê? Porque dava menos trabalho e eu era preguiçosa. Então era por isso, por todas essas conclusões, que eu, naquela noite, me arrumei para ir a um restaurante com Michele para o que seria o nosso primeiro encontro. Só eu e ele. E mais ninguém.
Até o último segundo, eu estava decidida a pedir um motorista, mas a escolha só seria justificada se eu consumisse uma quantidade considerável de álcool. Mudei de opinião em cima da hora, mas com tempo de sobra para pedir um segurança a Lorenzo. Um seria suficiente. Vesti uma calça jeans simples com uma bata comprida, larga o suficiente para esconder a arma. Não que eu me importasse com verem a pistola presa ao coldre em meu cinto. Todos já estava cansados de saber que eu era a última queridinha menina propaganda da Beretta e, mesmo que houvesse problemas com policiais, aquela era perfeitamente legal.
Michele se levantou de imediato quando viu que eu estava entrando no restaurante. Embora as minhas roupas fossem simples, coloquei um salto para elevar a classe. Fiquei feliz de primeira porque estava combinando em estilo com ele. Estava ali forçada, isso era fato, mas estava com a obsessão por manter as coisas no mesmo padrão intacta. E ai de Yoongi se achasse ruim. Eu estava ali para proteger não só a mim como também a eles. Precisava lembrar disso a todo momento para manter a atuação impecável.
– Desculpa o atraso. – Eu disse antes de mais nada.
– Você não tá atrasada, eu que cheguei cedo demais. – Michele deu um passo na minha direção e, antes que eu percebesse, nós nos beijamos. – Tudo bem?
Atue, ...
– Tudo ótimo, e com você? – Falei ao sentar na cadeira que ele mesmo puxou para mim.
– Melhor agora. Como estão as coisas no escritório?
– Não fui ao escritório hoje, – Respondi enquanto ele dava a volta na mesa e sentava no seu lugar. – trabalhei de casa.
– Ontem também. Aconteceu alguma coisa?
– Estou fazendo algumas mudanças em casa.
– Uma reforma? Eu posso ajudar?
– Não é uma reforma, diz respeito ao meu pai.
– Ah, certo... E você tem estado bem quanto a esse assunto?
A pergunta era sincera e conotava preocupação, o que fazia com que eu me sentisse um pouco culpada. Por sorte, o garçom nos interrompeu bem a tempo de evitar o clima estranho que o meu silêncio inevitavelmente causaria, entregando um menu para mim e um para ele. Fiz o pedido rapidamente com uma varredura simples na seção de carnes, sem paciência para pensar em uma three course meal, enquanto Michele se demorou mais um pouco na opção dele, mas não demorou para voltar a atenção na minha direção.
– E então, onde estávamos?
– Você disse que iria ao estúdio hoje.
– Ah, sim! Realmente, eu fui e foi ótimo. Tenho algo gravado no armazenamento online, poderia te mostrar se fosse do seu interesse. Uma das músicas ficou quase pronta, só faltam alguns ajustes mínimos.
– Você pode me mostrar depois, eu gostaria de ouvir.
E então, silêncio. Não era como se eu pudesse evitar ou como se eu fosse a culpada por aquilo. A situação era... Delicada.
– Acho que o fato de sempre estarmos com tanta gente tá tornando o nosso jantar um pouco estranho.
– Nós não temos uma vida exatamente simples, certo?
– A gente podia pensar em fazer isso mais vezes.
– O jantar?
– Sim.
– Certo, podemos pensar no assunto. – Respondi, já pensando em mil desculpas para evitar tanto quanto fosse possível.
– Meu tio disse que eu deveria te levar para um evento da prefeitura, aliás. Eu esqueci de comentar com você antes. Será na casa dele, é algo sobre uma instituição beneficente que eu não entendi muito bem. Mas ele me convidou, te convidou também e eu gostaria muito que você fosse minha companhia para a noite.
– Quando?
– Tenho que confirmar com ele.
– Você pode passar a informação pra Bianca, se for o caso, que ela verifica a minha disponibilidade.
– E por que eu não posso passar direto pra você?
– Eu não disse que você não pode, só que eu vou passar pra Bianca de qualquer jeito porque é ela quem cuida da minha agenda, Michele.
– Ok, me desculpa, foi uma fala inapropriada. De qualquer jeito, o traje é esporte fino.
– Vou ter isso em mente.
– E os coreanos?
– Por que o súbito interesse neles?
– Sei que eles costumavam aparecer eventualmente em seus eventos, mas não vi nenhum deles nos últimos. Romperam a parceria?
– Sigo recebendo produtos deles normalmente e o grupo não tem intenção de mudar isso por enquanto.
– Dizem que a China tem produtos mais baratos e, mesmo assim, seu pai convenceu um grupo econômico importante a importar produtos coreanos. Por quê?
– A Samsung é coreana, sabia? – Cruzei as pernas para conter o nervosismo, mas as palavras prontas sairiam sem dificuldade, era uma história coesa demais para falhas. – E eles são disparados quando se trata de tecnologia. Seu iPhone, por exemplo... A Samsung fabrica a câmera dele, sabia?
– Não fazia a mínima ideia.
– Os produtos são feitos na China porque sim, a mão de obra é mais barata lá. Mas são produtos coreanos e nós temos os melhores computadores de bordo a nível de tecnologia ao nosso alcance, desde os mais simples até os mais luxuosos.
– Você fala como uma verdadeira mulher de negócios.
– Não é o que eu sou?
– Aqui, eu esperava que você fosse apenas a , não a senhorita .
– É um defeito meu, não nego. Um dia, quem sabe, eu aprenda a separar os negócios da vida pessoal.
– Tem uma coisa que você nunca me contou sobre você.
– Pergunte.
– Como você herdou a montadora? Achei que essas coisas eram escolhidas por um grupo seleto de diretores importantes ou coisa do tipo.
– Eu sou dona da montadora porque o meu pai era dono. A propriedade é herdada. Cargos, não necessariamente, mas eu fui muito bem recomendada e sabiam que seria mais fácil me colocar no lugar do meu pai porque eu tive o melhor professor possível. – Cargos herdados acontecem na máfia, querido, e aí o buraco é mais embaixo, pensei, o que fez com que eu contivesse um riso. – Além disso, a minha especialização na área de Logística foi bem vista pelos CEOs do grupo...
A conversa foi interrompida pelo som do meu celular tocando. Não fazia o menor sentido porque eu sequer lembrava da última vez em que tinha tirado o celular do modo silencioso. E contra tudo o que eu acreditava ser certo naquela situação por causa de um pressentimento anormal, puxei o celular do bolso.
– Alô?! – Atendi, estranhando o número desconhecido, ignorando a educação que deveria ter porque, de qualquer forma, estava à mesa com Michele.
, vai pra casa agora.
– Quem... – Eu respirei fundo quando percebi que, inconscientemente, já sabia que era Namjoon do outro lado. – O que tá acontecendo?
É o Hoseok. Ele... Ele não... Uma ambulância vai... Ai, merda... Vem pra cá logo.
– O quê?!
, eu preciso de você, rápido.
– Eu chego em vinte minutos.
Desliguei a ligação e já saí pegando a minha bolsa sem nem olhar para Michele.
– Aonde você vai?
– Aconteceu uma emergência e eu preciso ir embora.
Do jeito que eu falei, estava determinada a ir embora de uma vez, mesmo que nem tivesse recebido a pedida que pedi, e senti a mão de Michele segurando meu braço. Não sei se aquilo era normal para ele. Se Yoongi usasse aquela força comigo, eu não me incomodaria, até porque ele já tinha usado bem mais com o meu consentimento. Mas o fato de ser Michele a segurar o meu braço daquele jeito sem a minha permissão somado à preocupação por escutar as palavras ‘Hoseok’ e ‘ambulância’ vindo de uma ligação de Namjoon... Uma ligação feita para o meu celular pessoal, não para o aparelho criptografado. Uma ligação feita por Namjoon, não por Yoongi, que podia muito bem pregar uma peça só por diversão. O meu coração disparou e a reação foi tão rápida quanto a dele ao puxar o braço de volta.
, me desculpa.
– Eu te ligo quando resolver isso.
Ouvi Michele bufar no exato momento em que retirei meus saltos e disparei para fora do restaurante, não me importando com o que os outros iriam pensar ao verem uma mulher como eu correndo descalça. Eu praticamente arranquei a chave do meu carro da mão do vallet e corri desesperada para casa, rezando silenciosamente para que o tempo estivesse do meu lado enquanto dispensava o segurança que Lorenzo havia arrumado para mim. O meu coração partiu em pedacinhos quando avistei, próximo à porta da minha garagem, o corpo nos braços de um Yoongi totalmente diferente das mil e uma facetas que eu vi desde que nós nos conhecemos.
Meus pés se atrapalharam na hora de descer do carro e eu quase fui ao chão, tropeçando mais duas vezes até chegar a eles. Eu não deixava o emocional tomar conta de mim mas, naquele momento, eu deixei. Parecia que um grito podia escapar da minha garganta enquanto eu passava as mãos nele como se pudesse resolver a situação, reparar o buraco à bala em uma posição extremamente sugestiva do seu peito. Doía. Doía no meu corpo inteiro. E eu pedia aos céus para que aquela dor passasse a qualquer custo porque eu sentia que ela me comeria viva por completo a qualquer momento.


Continua...



Nota da autora: MAIS UM SURTO.





PARA ACOMPANHAR GRUPOS NO WHATSAPP, NO FACEBOOK E PERFIL NO INSTAGRAM, COM INFORMAÇÕES EXCLUSIVAS E PRIORITÁRIAS, CLIQUE NOS ÍCONES ABAIXO:



Existem dezenas de fanfics minhas, com temas variados, no site. Dentre eles, posso citar Supernatural, Henry Cavill, McFLY, BTS... Confira tudo na minha página de autora, que você acessa clicando aqui.



comments powered by Disqus