16/01/2026

Capítulo 1: Parabéns! Você agora é pai.

6:30 da manhã e o celular de não parava de tocar. Era folga dela, na verdade, era feriado, um com emenda, e ela não teria que acordar cedo pelo menos quatro dias aquela semana, uma das bênçãos de se trabalhar em uma escola, mesmo sendo uma particular católica e com trabalho que a deixava exausta quase todos os dias, bom, o salário e os benefícios faziam tudo valer a pena.  estava planejando acordar depois do meio dia, tinha desativado o despertar, mas o aparelho não parava de tocar.

, você precisa me ajudar. — A voz de era apavorada, nervoso era pouco.
— O que aconteceu? Você mato… — Que barulho de choro é esse ?? — ainda estava sonolenta, mas o melhor amigo sabia que só podia ligar para ela aquela hora da manhã se tivesse entre a vida e a morte.
— Então, é com isso que eu preciso de ajuda, alguém largou um bebê na porta da minha casa e ela não para de chorar. — A voz dele ainda estava no mesmo tom de desespero, mas conhecendo o melhor amigo, como conhecia, aquilo estava com cara de pegadinha, ele era idiota o suficiente para aquilo e estava prometendo uma das grandes para se vingar da que ela tinha feito com ele na última estação.
— Eu não acredito que me acordou de madrugada no dia da minha folga, poxa , colasse chiclete no meu cabelo ou então riscasse meu carro, mas isso é sacanagem, desliga esse Youtube com esse neném chorando e volta para a cama, a gente sabe que não somos pessoas diurnas, eu porque tenho poucos dias para acordar tarde e você porque é um vagabundo mesmo. — Ela riu não foi seguida e ainda ouvia ao fundo não somente o neném chorando, mas também.
— É sério , eu estava dormindo lindo e confortável na minha cama quando a campainha tocou, como qualquer pessoa que me conhece sabe que eu não levanto cedo, nunca! Porque sou músico e não um vagabundo, já peguei o taco de beisebol e desci, porque a pessoa na porta não parava de tocar. Quando eu cheguei perto da porta abri sorrateiramente e aí não tinha ninguém, quando eu me virei ela começou a chorar e está chorando até agora, já tem pelo menos uma meia hora.
 Desespero era realmente o que o amigo estava passando naquela ligação e quis que aquela história de bebê fosse verdade, porque se não fosse ela ia chegar lá em ser presa por homicídio duplamente qualificado, porque estava planejando matar ele ali mesmo, enquanto levantava da cama e procurava um casaco grosso para esconder o pijama, se a criança estava chorando há meia hora, não podiam mais perder tempo dela se trocar, ela poderia ficar doente, isso se já não estivesse, fazia muito frio aquela época do ano para alguém largar uma criança a deriva na porta das pessoas.
— Eu estou indo, mas vê se essa desnaturada deixou alguma mamadeira e leite em algum lugar, porque aí eu já passo no mercado. — disse séria, estava preocupada e aquilo seria a maior vigarice de se fosse mentira.
— Ah, ok, eu não sei se consigo fazer isso com uma criança no meu colo. — Ele parecia atrapalhado.
— Bom, você vai ter que aprender, mas por agora só coloca ela de volta na cesta que ela tava e vê, aproveita e vê a fralda, se tem mais ou se tô tem a que ela tá usando e vê se a que ela tá usando está suja. — Ela procurava as chaves e a carteira, provavelmente precisaria passar no mercado e fazer outras coisas durante o dia, então, usaria o automóvel, não gostava muito de usar o carro, mas em ocasiões como aquela que eram emergência, era necessário e ela sentiu que a partir dali não pararia mais de usar, porque estavam lidando com uma criança e não tinha nem carteira de motorista, quem dirá carro.
— Meu Deus, como eu vejo se a fralda está suja? — que fazia barulho de procurar coisas parou e o tom de desespero ainda estava lá.
— Olha, geralmente as pessoas abrem a fralda para ver, mas eu mesma, na correria enfio o dedo dentro da fralda, se estiver molhada na frente é que tem muito xixi e se tiver com coco, bom, você vai saber. — Ela começou a rir finalmente achando a bendita chave, já estava com a bolsa e o necessário.
— Eu não vou fazer isso, ela tem leite aqui e mamadeira, mas não está pronto, e tem um pacote pequeno de fraudas fechado e um monte de coisa se higiene de bebê. — Ele disse para que a amiga pudesse sair de casa, sabia tanto quanto ela que o caso era grave demais para tanta demora.
— Bom, veja logo a fralda dela, porque precisamos eliminar algumas possibilidades. — A essa altura, já estava no carro e tinha colocado a ligação no viva voz do automóvel. — Ah, vê também se ela estava aquecida o suficiente, ela estava ou está enrolada em pelo menos um cobertor e com roupas quentes? — Já estava no meio do caminho, felizmente não morava tão longe da casa do amigo.
— Ela está embalada do jeito que eu a encontrei, estava enrolada em uma manta com um cobertor mais pesado em cima, você quer que eu desenrole ela da manta? — estava mesmo perdido tadinho, dava para sentir que o amigo estava ficando doido e se fosse só uma pegadinha, ele deveria mudar o nicho dele de cantor para ator.
— Claro que sim, as vezes ela não tá com roupas quentes o suficiente para ser deixada na porta da casa das pessoas nesse frio e claro, você vai ter que checar a fralda, então precisa desenrolar ela. — O tom de estava sendo calmo o tempo todo, o amigo já estava agitando o suficiente para que ela pilhasse ainda mais. Estava surtando por dentro, a possibilidade de ser real era assustadora para ela também.
— Está com um macacão de pelinho, igual aquela sua jaqueta rosa e com minis roupinhas por baixo. — Ele soltou uma risadinha, provavelmente achando engraçado as mini roupinhas que ela usava.
— Perfeito, não é frio, viu a fralda?
— Você não vai deixar passar, né? — Ele ria de nervoso.
— É que pode assar ela e depois você que vai sofrer, e é uma judiação, para de frescura e vê logo eu estou chegando. — A voz dela era mais séria naquele momento e soube entender a gravidade.
— Ok, ok. Pera aí…— Ele ficou um tempo em silêncio e pode ouvir um barulho de plástico abrindo.
— Espero que saiba fechar isso sem apertar ela depois. — disse do outro lado da linha, parando o corro em frente a garagem da casa dele.
— Porque você me assusta assim? Ela tá seca, o que eu faço agora? — parecia exausto.
— Abre a porta que eu te ajudo! — Ela sabia a senha da porta, mas não queria que um balde com alguma coisa gosmenta caísse em cima dela, ainda estava com um pé atrás sobre aquela história de neném, quem seria a maluca que largaria uma criança tão pequena ainda por cima sob a responsabilidade daquele homem?


Ele desligou a ligação e ela ouviu passos até a porta e um choro forte, que não acompanhava os passos, então, na cabeça dela poderia ser a tv, mas ele estava meio que trocando a pequena, então também fazia sentido ser um neném também. O choque de foi mesmo ter um neném com metade da fralda aberta e chorando muito no meio do sofá imenso que tinha na sala, agradeceu a Deus pelo amigo não ser tão irresponsável e ter colocado almofadas ao redor da bebê para que ela não caísse enquanto ele abria a porta.

— Meu Deus do céu, , é verdade! — passou por ele só colocando a sua bolsa na mão dele e saiu em disparada até o sofá.
— Você achou mesmo que eu tava te zuando? — colocou as coisas dela no móvel específico e foi até ela.
— Claro, você é o mais sem noção dessa terra! Achei que fosse trolagem e já estava preparada para te matar e te jogar no valão lá da esquina!
— Mas as pessoas iam encontrar meu corpo rápido.
— O intuito é esse e todos iam saber que não devem me pregar peças de manhã na minha folga.
— Eu tenho medo das suas brincadeiras. — disse rindo.
— Eu não estou brincando, não deveríamos estar tendo essa conversa enquanto a sua filha não para de chorar. Vai lá esquentar 200ml de água pra mim, e aproveita e ferventa essa mamadeira, não sabemos o que passou aí, a gente já sabe que a mãe dela é doida e…
— Pera aí , que papo é esse de filha? — nunca tinha arregalado tanto os olhos como estava fazendo ali e caiu na risada.
— Meu amor, olha a cara dessa criança, ela é cagada e cuspida você e ninguém deixaria de graça uma criança na sua porta, aposto que ela deixou uma carta para você em algum lugar, primeiro vamos alimentar ela e depois a gente procura. Vai anda logo. — Ela terminou de vestir a menina que não parecia ter mais que 4 meses, e a pegou no colo fazendo ela se acalmar, embora ainda choramingasse, podia ser fome, saudades da mãe, cólica por ter pego friagem, quente ela não estava, então não estava doente. queria logo ajudar a menina e ficou parado igual uma estátua com a cara do meme da Nazaré.
— Não é possível! — voltou à realidade quando jogou uma almofada nele.
— É possível sim, você transa, lembra? E uma dessas vezes deve ter sido sem camisinha, porque né? A gente sabe que mêses atrás, quando entrou na puberdade aos 26 anos comia tudo o que tinha buraco e a gente sabe também como são os hormônios na puberdade, então sim, eu acho que é imensamente possível e você acha que alguém que teve um romance com você ou sei lá, saiu com você na vida ia abandonar uma criança incapaz de se cuidar na sua porta se não fosse sua filha? Caia na real e vai logo para a gente procurar alguma pista da mãe dela, pelo menos do nome dela né? — carregava a bebê, a bolsa e o pote de leite, e empurrava para a cozinha para que começasse logo a fazer o que ela pediu.
— Mas
meu querido…— pegou a leiteira e encheu de água o suficiente para jogar na mamadeira e para fazer o leite, ainda segurando a criança nos braços e embora atordoado ficou impressionado, ele quase não conseguiu ligar para ela enquanto segurava a menina. Sabia que ela trabalhava com crianças pequenas na escola, mas não sabia que tinha tanta experiência assim, ela era a "prô" e eles conversavam sobre o trabalho dela, mas era realmente impressionante o tato que ela tinha com crianças. — O que está feito, está feito e embora eu ache de uma irresponsabilidade enorme largar uma criança na porta da casa de alguém, ela deve ter tido os motivos dela e essa criança é tão responsabilidade sua quanto dela, se quiser fazer um exame de DNA a gente faz, hoje em dia é menos invasivo e sai o resultado em horas, mas agora, ela sendo a sua filha ou não, a gente tem que focar no bem estar dela. Se você vai ficar e cuidar dela, se vai entregar para o conselho tutelar e ela vai ser adotada ou ficar na custódia do estado, a gente resolve depois, agora eu preciso que você ligue esse fogo, coloque essa mamadeira na pia ou pegue ela que eu faço. — O tom de era calmo, mas sério e conseguiu entender que cuidar da criança era prioridade naquele momento.
— Certo!

Eles fizeram, esterelizaram a mamadeira e fizeram o leite. Depois que ela mamou ficou mais calma e dormiu. Improvisaram o mesmo lugar no sofá e acomodaram a pequena.

Capítulo 2: O nome dela é Amélie.

— Pega a bolsa dela e o bebê conforto que ela estava. — sussurrou para e se levantou de onde estava para se sentar na mesa de jantar que graças a Deus e ao pequeno espaço daquela casa ficava na sala também, precisavam procurar por alguma coisa.
— Aqui! — colocou tudo em cima da mesa com cuidado para não fazer barulho.
— Bom vamos ver, um pacote de fraudas, duas latas de leite, duas mamadeiras, uma chupeta, duas trocas de roupa, mais uma mantinha e um envelope. — foi dizendo ítem por ítem para não deixar escapar nada.
— O que tem neste envelope? — que mexia no bebê conforto parou o que estava fazendo e deu atenção para a mulher.
— Está pesadinho, vamos ver agora. — Ela abriu o papel pardo e puxou o primeiro papel de lá. — Bom… Isso aqui parece ser uma carta. — Ela passou os olhos bem por cima, mas parecia mesmo uma carta redigida à mão.
— Vamos ler ela primeiro. — disse rápido, queria desvendar aquele mistério antes de saber o que mais tinha no envelope.
— Ok… "…" começou a ler com a voz afetada e baixa, como se estivesse dublando um personagem. —... espero que para o bem da nossa filha, você esteja bem, ou pelo menos melhor que eu… olhou para e abriu um sorriso vitorioso. — Eu sabiaaaa, eu te disseeee. — Gritou em voz baixa para não acordar a bebê.
— Mas isso não prova nad…
— Cala a boca , vamos ouvir o que a moça tem a dizer. — interrompeu a ladainha do amigo e voltou a atenção para a carta. — … Você não deve estar acreditando em mim com todo esse negócio de filha, pois saímos pouquíssimas vezes, mas eu tenho toda a certeza do mundo, é só olhar para o rostinho dela, ela é a sua cara e também, desde a época em que saímos até agora, você foi o único homem com quem eu transei, então não tem erro, claro que você pode também fazer um exame de DNA para acreditar nas minhas palavras. Sabe , eu tentei criar minha menina, não quis te falar nada, pois não queria que ficasse com a gente por dó ou formalidades e nem assumisse uma responsabilidade que era uma escolha minha, eu nunca ia tirar minha criança, e eu não sabia e nem sei qual seria a sua reação, enfim, eu falhei, não consigo criar ela sozinha, eu não tenho uma rede de apoio como você, você tem sua família por perto, seus amigos e você sabe, não sei se lembra, eu fui para um abrigo muito pequena, mas nunca consegui criar vínculo com nenhuma família com quem eu passei, sem irmãos ou família próxima e os  "amigos" que eu tinha se afastaram de mim depois que eu engravidei, eu quero viver a minha vida, , quero ir atrás dos meus sonhos, quero ser a estrela que eu mereço ser, então, como essa vida também é responsabilidade sua, cuide bem dela, o nome dela é Amélie, como aquela personagem do filme que gostamos, dentro desse envelope também tem a certidão de nascimento dela, carteira de vacinas, um documento consentindo que você assuma a paternidade e outra abrindo mão da minha parte da guarda, espero que ela seja feliz. Ass: Natalie"
estava vermelha, mas não como costumava ficar quando estava prestes a chorar e sim quando estava prestes a virar a mão na cara de alguém, a conhecia muito bem
— Essa vagabunda, como ela pode? Ela sabe o sentimento de ser abandonada pelos pais e faz isso com a filha, essa história de que não tem rede de apoio é balela, se ela tivesse te contato todos nós estaríamos do lado dela agora, e não era nescessário que se casassem se não quisessem, a gente não vive mais no século passado, quer seguir os sonhos? Pensasse antes de sair transando sem camisinha por aí, ou pelo menos tivesse contado para o pai da criança que estava grávida, ela com certeza conseguiria seguir os sonhos com a sua ajuda, meu Deus, que ódio, onde essa desgraçada mora, eu vou lá esfregar a cara dela no asfalto quente.
, se acalma. — disse, quando Amélie começou a resmungar no sofá, pelo barulho de coisa caindo, quando a mulher se levantou de uma vez da cadeira e derrubou o que estava no envelope.
Além dos documentos que ela tinha citado na carta ainda tinham alguns ultrassons e algumas lembrancinhas de quando a menina era uma recém nascida, como fotos e pequenos objetos.
— Como uma mãe pode abandonar uma filha, ? Como ela some assim, sem nem te dar a oportunidade de fazerem isso juntos, ela é sua obrigação também, mas… — começou a soluçar, parecia que ela não tinha um coração, porque era a mulher mais durona que conhecia, mas ele sabia o quão doce e incrível ela era, sensível e amorosa, fiel e amiga. As lágrimas quentes escorriam pelas bochechas dela. — ela precisa de uma mãe, ela precisa de todo amor do mundo, não de ser abandonada desse jeito, o que a gente vai falar para ela quando ela perguntar porque as outras crianças têm mamães e ela não?
estava mesmo muito chateada, conseguia ver em seu semblante e no tom de voz dela também.
 — Ela não vai sentir falta de uma mãe, ela vai ter você na vida dela, quem tem você na vida não precisa de mais nada, eu posso garantir, agora a gente precisa resolver isso não é? — pegou as mãos de com delicadeza e acalmou a mulher, não que ele estivesse levando de boa todo aquele rolê, mas sabia que era difícil a amiga ficar naquele nível de chateação e caindo na real, ele ia mesmo precisar resolver aquilo.

— O que você quer fazer primeiro? Hoje é feriado, então não vamos conseguir resolver as coisas burocráticas. — Depois de se recompor, disse, arrumando as coisas que estavam espalhadas pelo chão.
— Hmmm, que tal irmos às compras? Não acho que seja confortável dormir no sofá. — disse pegando as coisas que tinha juntado e agrupando para guardar no armário da sala onde absolutamente todos os seres humanos que frequentavam a casa dele sabia que ele guardava seus documentos e coisas importantes para não perder.
— Ainda bem que eu tô de carro, mas você não acha que a gente deveria contar para a sua família? — arrumava algumas coisas na bolsa da bebê, para que não passassem dificuldades na rua.
— Eu acho que manter ela confortável é a minha prioridade, sabe, meu pai vai vir com um milhão de perguntas, minha mãe querendo se meter e o , sabe como ele é, é o irmão mais velho, mas parece que ele tem 5 anos de idade. — conseguia ver a exaustão na fala de , conhecia BEM a família dele também, sabia como eles eram amáveis, mas que sufocavam muitas vezes.
— Tá bom, hoje fazemos as compras necessárias, e amanhã falamos com as pessoas que temos que falar, você com a sua família e eu com o nosso advogado. — tinha terminado de arrumar as coisas e eu estava esperando se arrumar, não ia para o shopping com ele de pijama, já bastava ela, embora, aquele pijama fosse belíssimo e nem parecesse um.
— Que escritório de advocacia vamos contatar em ponte de feriado? — nem deixou que a amiga respondesse e já caiu em si. — Ah não, aquele João bobão não! — Protestou fazendo um bico e cruzando os braços.
— Olha, é o meu melhor amigo e é um ótimo adv…
— Alto lá! Eu sou seu melhor amigo. — sabia que a maior birra que sentia de era pelo fato dele ser um dos melhores amigos de e ele sentia ciúmes de suas amizades sim, às vezes parecia que ele tinha 13 anos e ele não ligava.
— Meu OUTRO melhor amigo é um ótimo advogado, provavelmente não vai cobrar nada da gente e não o chame de João bobão, ele é muito competente. — sentia orgulho de todos os amigos, mas com era diferente, ela o admirava, ele era um ser humano magnífico, além de lindo, atencioso, carinhoso e um excelente amigo, não tinha como reivindicar o posto de melhor amigo somente para si, ele tinha que aceitar que ocupava um espaço imenso na mesma salinha que ele no coração dela.
— Mas…
, a gente já vai gastar dinheiro com muita coisa, porque não pensamos no futuro da Amélie e poupamos dinheiro, não sei se você sabe, mas fralda é caro e gasta muito e leite é caro também, quando a gente chegar no hipercenter você vai ver, por favor, vamos falar com o , ele é gente boa, você devia dar uma oportunidade para ele.
— Como assim a gente?
— Caia na real, quanto dinheiro guardado você tem? E o seu limite de crédito? Você é um músico independente meu amado ou seja, zero de estabilidade financeira e acabou de investir seu fundo para emergência naquele projeto com os rapazes. Eu, como sou uma pessoa precavida, tenho bastante dinheiro guardado e ainda uma carteira assinada, então sim, a gente e…
— Mas isso é responsabilidade minha, você não tem que dar dinheiro ou pagar alguma coisa, eu tenho que me virar.
— Meu mel, não é porque a filha é sua que você tem que aguentar e fazer as coisas sozinhos, você disse que ela não vai sentir falta da mãe porque eu vou estar ao lado dela, não disse? Então me deixa estar do lado de vocês, afinal, eu sou a tia preferida dela e se isso não for o suficiente para você, eu viro a madrinha e sabe o que os padrinhos fazem? Eles cuidam dos seus afilhados na ausência dos pais, então, na ausência da mãe dela, quem vai ajudar a criar sou eu, e eu não quero saber de protestos, eu já decidi isso e se o seu "se virar"... — Fez aspas com os dedos — … for pedir ajuda financeira para os seus pais, você já sabe que vai virar refém, eles vão te fazer procurar um emprego de verdade, tá, isso eu deveria fazer também. — Ela riu. — E todas as coisas pelas quais não quer contar para eles agora vai se agravar em 1.000%. Sabe, eu não vou me meter na sua vida, eu só vou ajudar a Amélie a ter uma vida mais confortável. — disse com sinceridade, ela sabia da condição do amigo, sabia que a música era tudo na vida dele e mesmo ela brincando sobre não ser uma profissão, ela sabia que ele se virava bem e estava prestes a abrir um estúdio em sociedade com os 3 amigos e companheiros de música, então, até o negócio dar certo ninguém sabe quanto tempo demoraria.
— Tudo bem, mas eu vou te pagar de volta e…
— Santo Cristo, , eu não vou discutir isso com você, então, vá trocar de roupa para que possamos começar às compras.
Claro que ele tocaria no assunto em outra oportunidade, não seria o que ela conhecia há anos se não fosse daquela forma, mas evitaria o máximo possível, não iria debater aquilo, não estava fazendo ou planejando fazer nada por dó ou qualquer outro sentimento ruim, ela queria e iria ajudar o amigo e mais que tudo a criança, a pequena não tinha culpa de nada naquela situação e ela faria de tudo para amenizar aquela loucura para aquela menina.

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— Eu sabia que essa fralda estava apertada. — disse ao pegar alguns pacotes da fralda M na mesma marca que a mãe tinha deixado na bolsa de Amélie, pelo fato de não estar assada quando a trocou para saírem, sabia que ela se dava bem com a marca.
— É, aqui nesse pacote tá P. — verificou mais uma vez, estavam tão atônitos com todas as novidades antes que nem repararam que a fralda que a mulher deixou era pequena demais para Amélie, talvez não a incomodasse tanto, porque não estava muito pesada, mas mesmo assim, ainda apertava em um pouco e devia não devia ser confortável
— A gente precisa marcar um pediatra para ela o mais rápido possível, acho que está abaixo do peso. Falando nisso, depois que terminarmos aqui vamos ver os leites. — disse indo até a sessão de pomadas e lenços umedecidos. — Olha, a gente vai levar uns só para emergência, mas vamos limpar ela com algodão e água, entendeu? Vamos comprar bastante algodão e sabonete líquido. Meu Deus, é coisa demais para lembrar, acho que você devia fazer um chá de bebê. — riu, mas não muito alto, estava carregando Amélie no "canguru" que dormia enquanto eles faziam aquelas compras, ainda iam passar em lojas de roupas e móveis então, podia deixar a menina descansar um pouco.
— Você acha? — a olhava com um olhar de filho, parecia que ela era a mãe dele e ele estava prestes a ser educado.
— Olha, não seria ruim não, a gente vai ter que comprar o grosso, mas seria legal fazer uma festinha para apresentar a Amélie aos nossos amigos e ganhar presentes, olha o preço do pacote de fraudas mais baratinho. — tinha falado na brincadeira, mas parando para analisar não era um mau negócio.
— Podemos ver isso sim, eu preciso contar mesmo para os caras que agora eu sou pai de família e vou precisar que a gravadora dê certo ou dê certo. — Ele riu, indo até a prateleira com algumas coisas de bebê, por sorte aquele mercado era completo e eles acharam tudo o que precisavam para higiene e alimentação da neném.
< Seguiram para o shopping mais próximo, lá também era um lugar completo, tinha loja de tudo, incluindo roupas para bebê e móveis.

Estavam saindo da segunda loja de roupas quando o celular de começou a tocar, nesse momento Amélie estava acordada e era ele quem a carregava.

— Alô! Mãe, aconteceu alguma coisa? — atendeu assustado, a mãe dificilmente ligava, geralmente mandava mensagem ou ia até ele pessoalmente.
— Meu filho, o que está acontecendo? Eu vim até a sua casa e você sabe, eu tenho a senha e tudo mais e eu toquei a campainha e você não atendeu, daí eu entrei e vi coisas de bebê espalhadas pela sala…
Nesse momento Amélie se sentiu desconfortável e começou a choramingar.
, você está machucando ela, me dá, deixa que eu pego, quando terminar essa ligação quero que pegue aqueles bodys que estão naquela sessão, são do tamanho dela e estão baratinhos, eu vou ver se ela quer mamar. — pegou a menina do canguru que continuou vestindo e saiu para longe dele, pegando a mamadeira na bolsa que ele carregava.
— Mãe, eu preciso te contar uma coisa — Ela já tinha descoberto mesmo, pelo menos não faria drama de ser avisada por último e blá, blá, blá.
, essa voz aí no fundo era a , vocês… meu Deus, ela teve um filho seu e você não me disse nada, ai minha pressão…


Capítulo 3: Olá Vovó.

— O que? Não mãe, não é nada disso…
— Não minta para mim , eu te coloquei no mundo, como vocês puderam esconder isso de mim? Eu sempre apoiei a relação de vocês, mesmo vocês jurando que eram só amigos, essa foi a maior traição que vocês puderam fazer comigo, eu vi não tem um mês e ela não me falou nada. — ouviu a mãe fungar do outro lado da linha.
— Como eu pude ter um filho com se você viu ela não tem nem um mês e seis meses atrás vocês estavam se vendo quase todos os dias por conta daquela promoção do mercado que fica perto da sua casa? — entendia que a mãe talvez estivesse em estado de choque, mas não tinha mais tempo para dramas, precisavam terminar as compras e ainda faltavam os móveis e o carrinho.
— O que isso tem a ver? — A mulher estava mais agressiva naquele momento.
— Quer dizer que a conta não fecha, minha senhora, se ela não estava grávida há seis meses atrás e nem há um mês. E as roupas que eu tenho certeza que você mexeu, são de uma criança de que idade? Pelo menos uns 3 meses! Então me deixa explicar, por favor? — foi o mais paciente possível, nem parecia que tinha surtado também há algumas horas atrás.
— Está bem, me explique direitinho. — Ela pigarreou esperando que ele falasse.
— Tá, mas te explico quando eu chegar em casa, estou no shopping com as meninas e temos que terminar de comprar umas coisas, pode ir para a sua casa mamãe, nós falamos mais tarde, te amo.
— Meninas?

Mas antes dela terminar de falar, desligou o celular e respirou fundo, sentindo a tensão do momento se dissipar ligeiramente. Ele olhou para , que estava ao seu lado, segurando Amélie nos braços.
— Era a sua mãe? — perguntou apreensiva.
, estou em pânico! Minha mãe está convencida de que você estava grávida e nós escondemos isso dela! — Ele riu um tom nervoso, conhecia a mais velha como ninguém, seria difícil fazer a mulher entender.
— Grávida?! Mas eu... Eu nem tive tempo de comer um pote de sorvete sozinha, imagina gerar um bebê!
Enquanto faz um gesto exagerado de espanto, começou a imitar os cálculos matemáticos da mãe, exagerando nos movimentos das mãos e nas expressões faciais.
— Ela contou os meses, fez equações... Foi tipo "CSI". Eu explique para ela que era impossível, porque ela te viu mês passado e há alguns meses atrás, mas sabe, acho que ela não estava convencida. — Ele foi andando até a sessão de bodys que ela tinha indicado antes.
soltou uma risada nervosa, imaginando a mãe de como uma detetive obstinada.
— Será que ela está tomando algum remédio controlado ou bebendo mimosas logo de manhã? Ela é uma mulher esperta, não é possível… Quer dizer, ela é sua mãe, é possível sim! — riu, seguindo e escolhendo mais algumas roupas enquanto Amélie brincava com um brinquedo de morder que eles acharam nas coisas dela mais cedo.
riu, imaginando sua mãe como uma espiã matinal.
— Não sei, , mas acho que seria bom se você pudesse conversar com ela depois, sabe, talvez ela acredite mais em você ou sei lá.
faz uma pose teatral, imitando uma negociadora habilidosa.
— Sabe, eu te disse para contar para eles primeiro, mas é claro, eu posso tentar, mas não garanto que ela vai acreditar. Afinal, ela já fez uma investigação mais minuciosa do que a CIA.
faz uma expressão dramática, como quem pede desculpas e súplica com o olhar para que a amiga o ajude mais uma vez.
— Estamos em uma situação digna de um filme de espionagem familiar.
— Parece que toda a sua família precisa de uma ajuda psiquiátrica. — Ela riu e por mais improvável que parecesse, riu também.
e trocam olhares cúmplices, prontos para enfrentar a loucura que era aquela mulher.
— Mas vamos terminar as compras e depois resolvemos tudo, certo? — Ele tentou manter o tom tranquilo, apesar da confusão que pairava sobre eles naquele momento.
— Viemos aqui para isso, não é mesmo! Ainda precisamos comprar as coisas mais importantes, um carrinho para colocarmos essa belezinha para passar menos tempo apertada na gente. Não é meu amor? — Fez voz de neném enquanto falava com Amélie e voltou a atenção para . — O berço, e uma cômoda para colocar todas essas roupinhas e brinquedos que já compramos. Sabe o que vai ser ótimo também? Aquelas cadeirinhas que o bebê fica deitado e a gente balança sabe? Acho que vi uma naquela loja de móveis infantis. — A medida que falava fazia cara de espanto, achou que não demorariam muito ali, ainda tinha a questão da família que quando saíssem dali todos os membros da familia já saberiam que ele era pai e todo o resto, mas tinha que aceitar e viver aquilo com confiança, afinal, aquela vida era responsabilidade dele agora.
Depois de todas as roupinhas necessárias para aquele primeiro momento, porque claro, não deixou que levasse a loja toda, porque a menina ia crescer e perder metade das roupinhas que ele queria levar, foram direto para a loja de móveis que também tinham os carrinhos e outras coisas que eles iam precisar também.
Para o carrinho escolheram um modelo Fisher Price passeio 2 em 1, dobrável moisés, modelo Jazz na  cor preto já o berço foi o de cabeceira baby delight beside me dreamer bassinet & bedside sleeper, daqueles que encostam na cama, preferiu, pelo menos naquele primeiro momento em que precisavam se adaptar à nova rotina, e aquele modelo também se transformava em um berço solo para o quarto dela que eles iam montar no futuro. Embora o berço fosse na cor preta para combinar com os móveis do quarto do homem, era lindo, e já estava procurando kits berço para deixar um pouco mais feminino e delicado. Daí saíram os travesseiros, protetores de berço, mosquiteiro, enxoval e tudo mais que precisavam para a boa hora de sono da pequena. Compraram também uma cômoda e a cadeira de descanso e balanço dobrável Spice na cor rosa. que além de linda era super funcional e ia agradecer a amiga depois daquele investimento.
Por sorte tudo coube perfeitamente no porta malas do carro e no espaço do banco de trás e do carona, já que foi atrás com a bebê.
Quando chegaram a casa de tinha passado da hora do almoço, as coisas de Amélie estavam arrumadas e agrupadas em um canto e o cheiro maravilhoso de comida que sentiram ao estacionar em frente a casa anunciou que lá havia uma senhora ainda esperando por eles e fazendo o almoço.

— Filho… — A mulher disse com um avental pendurado no pescoço e um pano de prato enxugando as mãos quando ouviu a porta abrindo e vendo uma com um bebê conforto pendurado em uma das mãos junto com umas sacolas e as chaves na outra.
— Olá senhora , pode dar uma olhadinha na Amélie rapidinho, vou ajudar o com as compras, ela está dormindo, vou deixar-la aqui no sofá, obrigada! — disse com pressa deixando as coisas junto com a menina no sofá e deixando uma senhora parada no passagem da cozinha para a sala, imóvel e pálida ao ver a bebê no bebê conforto e as sacolas com as roupinhas que eles tinham comprado.

Capítulo 4: Bem vinda a família.

Depois de tudo descarregado e colocado em seu devido lugar para a montagem, e , embora exaustos, estavam famintos, nem lembravam se tinham tomado café da manhã e o cheiro do almoço inebriava todos os sentidos.
Chegaram até a sala, já que, foi até o carro para colocar na garagem e eles tirarem as compras mais confortavelmente pelo acesso da garagem na casa que ficava mais perto das escadas também e por este motivo não tinham passado pelo cômodo novamente e encontraram a senhora cantando uma musiquinha de bebê, que ela costumava cantar para quando ele era pequeno.
— Mãe, a gente pode conversar? — perguntou, chegando perto da mulher que estava tão envolvida com a canção que nem tinha percebido que eles estavam ali.
— A gente precisa explicar direi… — Um barulho de estômago roncando fez parar o raciocínio no meio.
— Vamos almoçar primeiro? Aposto que essas compras deixaram vocês com fome. — A mais velha disse em um tom estranhamente calmo, pegou o bebê conforto e o levou até a mesa de jantar, que já estava posta.
— Jubileu…
— Está estranho!
completou a frase de , mas eles estavam com tanta fome, que nem estavam muito chocados com o fato de que parecia que a mulher tinha sido abduzida e trocado de skin com outra pessoa.
— Eu cuido dela enquanto vocês comem. — Ela tinha colocado a cadeirinha do carro que Amélie estava em uma cadeira ao seu lado e estava esperando que os outros sentassem.
— Senhora , eu sei que pode parecer estranho, porque estou em uma situação assim com o seu filho, mas eu garanto que, embora eu já cuide da sua neta como se fosse minha filha, ela não nasceu de mim, a gente tem como provar e…
— Eu sei , agora eu sei! — embora trajasse um belo sorriso nos lábios, seu tom era de tristeza e solidariedade de uma certa forma.
— Como assim a senhora sabe? Fez um escândalo no telefone mais cedo. — perguntou e deu um tapão na cabeça do homem que estava sentado ao seu lado. — Aí, isso doeu. — Ele reclamou.
— Cala a boquinha, ela disse que sabe, então ela sabe, dá para parar de me colocar em uma situação difícil? — disse entre dentes, sorrindo  e pensando que estava disfarçando a bronca que estava dando nele da mãe.
— Eu encontrei a carta e tudo mais, eu entendi agora o que o irresponsável do meu filho e daquela mulherzinha fizeram e que nem você  e nem a minha neta tem culpa disso. Eu agradeço sua ajuda até aqui, mas você tem coisas maiores em se preocupar, como arrumar um marido, construir uma família e essas coisas das moças da sua idade, então, pode deixar que daqui em diante eu vou cuidar da minha neta. — Ela sorria um sorriso doce e genuíno, o que deixava a situação toda muito bizarra, parecia mais que ela estava possuída do que abduzida.
— Que história é essa de dispensar a pessoa que EU chamei para me ajudar nessa situação e esse papo de "eu vou cuidar da minha neta"? — que até o momento só usava a boca para encher de comida disse incrédulo com as falas da mãe, quer dizer, não tão incrédulo assim, sabia como a mais velha gostava de controlar as coisas.
— Você acha que vai dar conta de uma criança sozinho? — A gargalhada que saiu do fundo da garganta dela era tão espantosa quanto ela querer impor que arrumasse um marido, quando todo mundo sabia que casamento era a última escolha de sua vida.
— Ele não vai estar sozinho, senhora , não sei se a senhora leu a carta toda, mas nela a Mãe da Amélie diz que confiou a vida da filha nas mãos de , porque ele tem uma rede de apoio, ele tem com quem contar, não vai ser um momento fácil, não estão dizendo que ele vai tirar de letra, mas seu filho é um homem adulto, que tem que arcar com as próprias consequências e eu vou estar aqui, porque eu fiz uma promessa a sua família toda quando virei melhor amiga do seu filho de que nunca o deixaria na mão, porque eu sei que ele nunca me deixaria também. — era firme nas palavras, mas em momento nenhum desrespeitosa, sabia como era o relacionamento e os egos daquela família, ela os conhecia há muito tempo. — Eu espero do fundo do coração que a senhora não fique chateada com a decisão que seu filho está tomando de assumir essa paternidade, como tem que ser, e que ainda possamos contar com a sua ajuda sempre que precisarmos. Mas não se preocupe, sua neta estará em boas mãos, eu moro aqui perto e vou estar aqui sempre.
ficou tão atônito e sem palavras quanto a mãe. A aura de leoa protegendo seu filhote exalava da mulher, embora, é claro, sem nenhum tipo de agressividade ou falta de respeito. achou lindo que desde o primeiro momento, teve consideração e apego com aquela criança, mesmo quando ele mesmo questionava a paternidade, mesmo quando ele não sabia o que estava acontecendo. Ele sempre admirou a amiga, porque ela corria atrás dos sonhos, era batalhadora, trabalhadora e decidida, mas cada segundo que passava parecia que ela brilhava mais, como algo precioso, que ele facilmente passaria o resto da vida admirando. Ele sentia orgulho do ser humano, e do adulto que a melhor amiga de anos tinha e estava se transformando.
— Eu acho que isso não é uma questão a ser discutida. — A mais velha disse, depois de se recompor daquelas palavras que ouviu de .
— Eu concordo. — disse, se levantando da cadeira ao lado de , dando a volta na mesa e indo até a filha que brincava com os pés. — Não vamos mesmo discutir sobre isso com a senhora, mãe, a Amélie é a minha filha, e eu vou cuidar dela, eu vou me virar e dar um jeito. E como a disse perfeitamente, espero que ainda tenha seu apoio e ajuda, quando eu precisar, mas eu não vou deixar que criem essa criança longe de mim, ela já foi abandonada por um adulto de confiança uma vez, não vou permitir que essa criança se sinta abandonada, eu sei mamãe. — disse aquela última parte com uma voz afetada conforme ia pegando a filha do bebê conforto e balançando a pequena no ar.  — Filho, eu só quero o seu bem, você vai poder continuar sustentando a sua filha e isso é quase como se estivesse criando. Agora vai ter que arrumar um emprego de verdade e empregos de verdade não te dão flexibilidade de horário para cuidar de crianças e você não tem nenhuma experiência com isso, sabe, nem com crianças e nem com empregos de verdade…
— Senhora , a senhora pode me desculpar, mas nos meus anos trabalhando com crianças, o pai que só sustenta não é a mesma coisa do pai que acompanha o crescimento, desenvolvido e formação do caráter da criança, além de não criar quase vínculo nenhum, que somente o financeiro, eles não sabem qual foi a primeira palavra da criança, quantos anos tem, quanto pesa, qual seu animal favorito, o que elas gostam de fazer, o que acalma elas. Eu sei que a senhora nunca viveu uma família disfuncional, pois vem de uma boa estruturação familiar, com pais, avós, tios todos casados e com suas famílias, embora isso não signifique necessariamente uma família funcional, mas a gente pode deixar esse papo para outra hora. — Tomou um gole de água, porque percebeu que estava falando e quase esquecendo até mesmo de respirar. — Mas sabemos que a senhora tem um casamento sólido e que o pai dos meninos é hiper presente na vida deles. Assim como a senhora é…
— As vezes é até demais. — murmurou enquanto caminhava com Amélie nos braços, até a cadeira que estava antes, ao lado da mulher.
simplesmente ignorou o comentário do amigo, fingindo que ele não tinha falado nada e retomando para a fala.
—... E não sabe como uma criança de pais ausentes sofre, no início é doloroso ver como elas criam independência precoce ou então uma dependência emocional do parente que as criam, com medo de que esse também vá se ausentar e depois a gente sabe, cresce e vira um adulto cheio de traumas e essas coisas que estamos cansados de ver todos os dias. — Ela sempre ficava triste quando tocava naquele assunto. — Sabe, eu sei que nem todo relacionamento parental faz bem para a criança, já vi casos de negligência que uma avó como a senhora salvaria a vida da criança, mas a gente sabe que aqui é diferente, a senhora é a primeira a saber o que eu acho da falta de responsabilidade que o tem às vezes, é o desvio de caráter dele, mas dessa vez é diferente, e como eu disse, eu confio nessa decisão dele e vou estar ao lado deles a todo tempo, eu serei a primeira a ligar para a senhora vir buscar sua neta se esse cabeça oca — Deu um tapa de leve na cabeça do rapaz que estava ao seu lado. — estiver fazendo tudo errado. Então, por favor, não se ofenda com a vontade dele de ser um pai responsável e seja uma avó presente na vida dessa criança, ela vai precisar de todo amor possível, depois que aquela mulher a abandonou. Não faça com que o pai a abandone também.
Mesmo com o tapão na cabeça, até ficou emocionado com o discurso da mulher, a única coisa que ele pensava em fazer para que a mãe se mancasse era falar "a filha é minha e eu não vou te dar ela, não está satisfeita, a porta é a serventia" , mas sabia que era muito mais racional que ele e que ela sabia que qualquer atrito a mãe o ignoraria e ignoraria a criança também, pelo menos por um tempo e eles não tinham aquele tempo a perder, embora trabalhasse com crianças, a única pessoa naquela conversa que tinha colocado no mundo e cuidado 24 horas por dia de um bebê era a mais velha e eles precisariam dela com a mais absoluta certeza.
— Tudo bem! Eu vou me comportar como uma avó, mas, por favor, me promete que vai me dando notícias? Meu coração vai ficar apertadinho.
A mais velha tinha baixado a guarda naquele momento, podia ser orgulhosa e egoísta o quando fosse, mas sabia que tinha razão, tudo o que ela disse era verdade, deveria ser pelo menos, ela trabalhou e trabalhava  com muitas crianças durante aqueles anos que tinha se formado em pedagogia. Se ela não soubesse, ninguém mais saberia.
— Ok, eu mesmo te aviso mãe, agora eu acho que a senhora deveria voltar para a casa, o papai deve estar preocupado, a senhora está a manhã toda fora e já é hora do almoço, duvido que o vá cozinhar, ele vai para o restaurante mais tarde. — As defesas de também estavam desarmadas, eles pareciam mais civilizados aquela altura.
— Eu acho que você deveria acompanhar a sua mãe e conversar com os outros, o que você acha? — mantinha o tom doce enquanto questionava sobre a próxima decisão, e a senhora "shippava" os dois mais ainda naquele momento.
— Acho que não tenho muitas escolhas não é? Mas você vem comigo? — Sentia que precisaria da mulher com aquele discurso incrível ao lado dele todas as vezes que alguém fosse questionar a sua responsabilidade com aquela criança.
— Eu acho que isso é um assunto de família , eu não posso me meter nessas coisas assim, vai acabar pegando mal.
sabia que havia um limite ou deveria haver um limite até onde ela poderia se meter naquele assunto de família, com a senhora era diferente, pois ela estava achando que aquela criança era dela no início, mas com o senhor e o irmão de as coisas eram mais embaixo, não é mesmo?
— Mas você é da família, você mesmo disse que ia me ajudar com a Amélie, e eu preciso da sua ajuda agora. — fez um beicinho e quase derreteu, porque era o mesmo que Amélie fazia quando ia começar a chorar, era impressionante a semelhança dos dois, mesmo com aquele tempo tão curto de convivência entre eles.
— Venha conosco , talvez assim a gente evite do meu marido ter um ataque cardíaco. — A senhora disse se levantando da mesa e tirando o avental que usava, para guardar no lugar em que achou.
  — Tudo bem! Eu vou, porque a conversa provavelmente vai ser longa e eu posso ficar tomando conta da Amélie enquanto isso acontece. Ela vai querer descansar, já saiu bastante, deve estar cansada. — disse juntando a louça da mesa e colocando na máquina de lavar louça e depois pegou o que sobrou e guardou na geladeira. permaneceu sentado à mesa brincando com a filha.

                     
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estava nervoso enquanto dirigia em direção à casa dos pais, acompanhado por sua mãe que estava sentada no banco do carona e Amélie na cadeirinha ao seu lado no banco de trás. A brisa suave da tarde que entrava pelo vidro aberto do automóvel acalmava seus nervos, mas a notícia que estava prestes a compartilhar com os outros membros importantes da sua família, ainda pesava em seu coração.
Ao chegarem à porta da casa dos pais de , a mãe abriu a porta suavemente. O pai de , estava perto da porta com um sorriso caloroso. A senhora avisou que estava chegando, então, como de costume, quando ela saia sem ele e ele estava em casa, resolveu esperar a mulher na porta.
Surpreso ao ver e acompanhados pela esposa, o mais velho disse:
— Oi, pessoal! Que surpresa agradável. O que os traz aqui?
Aparentemente ele não tinha percebido Amélie com as perninhas balançando no canguru que o filho usava, nem a bolsa escandalosamente rosa pendurada nos ombros de .
— Querido, precisamos conversar sobre algo importante. — A senhora disse com um olhar sério e compreensivo.
— Claro, venham, entrem. — O homem disse notando a seriedade e abrindo caminho para que todos passassem.

Eles se foram para a sala de estar, onde , o irmão mais velho de , estava assistindo televisão.
, mãe, , o que está acontecendo? — disse levantando o olhar da tv para todas aquelas pessoas na sala, inclusive percebendo que o irmão carregava algo a mais.
— Pai, , eu tenho algo para contar. É sobre Amélie. — disse fazendo menção a criança que continuava com as perninhas balançando no canguru.
— Amélie? Quem é Amélie? — Senhor perguntou surpreso, notando finalmente a garotinha ali.
— É sobre a filha do , senhor . Uma criança que foi deixada hoje pela manhã na porta dele. — disse intervindo, prometeu que não se envolveria, mas lá estava ela, envolvida até o pescoço.
— Como assim você é pai, ? — O mais velho disse incrédulo.
— Sim, pai. Amélie é a minha filha. Ela foi deixada na minha porta e eu decidi cuidar dela. — Ele disse firme, segurando o canguru como se fosse uma barriga de grávida.
parecia congelado processando a informação.
— Meu filho, isso é sério. Você está preparado para isso? — Senhor perguntou olhando para o filho com preocupação e um certo orgulho.
— Sim, pai. Eu sei que é um grande desafio, mas estou disposto a enfrentá-lo. — disse determinado.
— Eu acho que você será um ótimo pai para Amélie. — finalmente disse, depois que foi em silêncio até perto do irmão e viu a garotinha dormindo com a cabeça apoiada no peito dele. — Claro que eu serei um tio ainda melhor, porque sou mais legal e muito mais bonito. — Ele riu, aquela risada esganiçada e contagiante dele. — Conte conosco para o que precisar. — Finalizou, quando queria, sabia se comportar como um irmão mais velho.
A conversa continuou, com explicando mais detalhes sobre Amélie e como eles estavam lidando com essa nova fase da vida. No final, mesmo com a surpresa inicial, a família de mostrou-se solidária e disposta a apoiá-lo nessa jornada como pai.

Capítulo 5: Sr. Advogado

O escritório de era acolhedor e discreto, com estantes cheias de livros e certificados emoldurados nas paredes.
tinha ligado previamente para o amigo e explicado a situação, então, mesmo sendo ponte de feriado, ele aceitou receber os dois, para aquela orientação juridica.
sentia a tensão de enquanto ele segurava os documentos deixados pela mãe de Amélie. Ela o acompanhava não apenas como amiga, mas como alguém que ele sabia que podia confiar naquele momento. E para ajudar a cuidar da neném, que respirava tranquila em seu colo, enquanto tirava o cochilo da tarde. , sentado atrás da mesa, ajustou os óculos e analisou os papéis em silêncio antes de começar a explicar o que precisava saber.
, esses documentos significam que a mãe de Amélie abriu mão da guarda e da responsabilidade legal dela. Ao assinar, você estará assumindo a paternidade e a guarda total — disse , olhando diretamente para ele. — Isso significa que, de agora em diante, você será o responsável integral pela vida dela.
suspirou, absorvendo as palavras. Ele sabia mais ou menos o que aquilo significava quando leram a carta e viram os documentos, mas ali, na sala de um advogado, pareceu que peso daquela responsabilidade, que vinha e ia era esmagador.
— Eu… eu não tenho certeza se estou pronto para isso — ele confessou, a voz baixa e cheia de insegurança. — Sabe, eu aceitei que sou o pai dela, mas tudo está acontecendo tão rápido. Não sei se tenho capacidade de ser o único responsável legal de tomar decisões sobre a vida da Amelie.
apertou levemente a mão dele, um gesto silencioso de apoio, e o observou com um olhar compreensivo, deixando de lado um pouco o papel de advogado. Embora não fosse próximo de , nesses anos todos em que muitas vezes era a mãe que ele tinha de acolher e apoiar, sabia que ele precisava de uma palavra que viesse de fora de seu seio familiar.
, ninguém está realmente pronto para ser pai ou assumir tamanha responsabilidade sobre a vida de outra pessoa. O que importa é o compromisso e o amor que você está disposto a oferecer. A decisão da mãe de Amélie de abrir mão da guarda foi definitiva, e é claro que ela confiou em você para cuidar dela, além disso, agora ela só tem a você mesmo, pode parecer assustador, mas aposto que nem sua família e nem seus amigos, te deixaram sozinho nessa. — Olhou primeiro para a mão livre de que segurava a mão dele e depois para o rosto de , que olhava atento suas palavras.
respirou fundo, os olhos baixos. Ele sentia uma mistura de medo e uma responsabilidade imensa, mas também uma necessidade de fazer a coisa certa por Amélie.
— E se eu não for capaz? E se eu errar com ela? — perguntou ele, a voz embargada.
trocou um olhar significativo com , antes de dizer, com firmeza:
— Você vai errar, . Todos erramos. Mas você estará presente, fazendo o melhor por ela. Esse é o maior presente que você pode dar. Ser um pai presente é muito mais importante do que ser perfeito.
Houve um momento de silêncio enquanto deixava aquelas palavras penetrarem. Ele olhou para , que assentiu com um sorriso suave.
— Eu vou assinar os papéis — disse ele finalmente, tomando coragem. — Amélie merece alguém que a ame e cuide dela. Eu vou fazer o meu melhor para ser esse alguém.
sorriu e começou a preparar a documentação, enquanto sentiu uma onda de alívio e orgulho ao lado dele.
— Eu não sei nem como te agradecer. — disse a , apertando o mais alto em um abraço. segurava a filha que já estava acordada e brincava com as próprias mãos.
— Você sabe que é sempre um prazer para mim poder te ajudar, não é o primeiro caso de criação solo que trabalhamos juntos e eu gostaria que fosse o último, mas a gente sabe como essa sociedade e o abandono parental é. — Ele sorriu exibindo os dentes irritantemente brancos e as covinhas mais fofas do mundo, mesmo querendo dar um chute, por todo aquele discurso dele, tinha que admitir que o cara tinha um sorriso lindo.
— Te pago um jantar então, em gratidão, de todos os casos que te trouxe até agora esse é o mais especial para mim e eu preciso de agradecer de maneira mais efetiva. — parecia que ia derreter de tanto que sorria e embora também estivesse grato por todo aquele aconselhamento jurídico gratuito, estava achando toda aquela lambeção dos dois insuportável.
— Não precisa pagar jantar para ele, quanto que custam seus honorários? Eu pago. — Ele não conseguia esconder o tom de voz carregado de ciumes e incomodo com aquele papo dos dois.
— Não sera necessário, , todo amigo da , é meu amigo também, e eu fico extremamente feliz por poder ajudar um amigo, principalmente em um caso tão interessante, como o seu. — Ele abriu novamente aquele sorriso que detestava profundamente.
— Não vamos mais ocupar o seu tempo. — pegou a bolsa de Amelie que descansava em uma terceira cadeira a frente da mesa e se posicionou para porta de saida do escritório. — A gente vai se falando para marcar o Jantar. — Sorriu é mandou um beijo no ar para o amigo, antes de sair e ser seguida por e Amelie.
o final do encontro, saíram do escritório com o caminho mais claro, e , apesar das dúvidas, sabia que estava tomando o primeiro passo para ser um pai de verdade para Amélie. E depois da assinatura daqueles papéis, não tinha como voltar atrás.
— Até que seu amigo é bom! — disse assim que eles saíram do estacionamento, com no volante, indo em direção a casa dele.
— Ele é o melhor, eu confiaria minha vida jurídica de olhos fechados na mão dele. — Pelo retrovisor conseguia ver o sorriso enorme que deu depois de pronunciar aquelas palavras e aquilo o incomodava demais.
— Faz o favor de não babar, eu só trouxe fralda de boca para a Amelie. — O tom de ciúmes estava presente e sabia, mas aquilo a divertia, morria de rir quando o melhor amigo tinha ciúmes do seu outro melhor amigo.
— Você é uma comédia. — riu enquanto parava no sinal vermelho. — E aí, casa, gravadora ou outro lugar? — O escritório de ficava exatamente entre a casa e a gravadora, que os meninos ainda trabalhavam, antes da inauguração da deles.
— Vamos para casa, precisamos organizar um chá de apresentação para a Amelie, precisamos apresentar ela logo aos mais chegados, antes que a notícia chegasse por terceiros.
— E eu achando que ia descansar nesse feriadão. Doce ilusão. — disse rindo e fazendo a curva para seguirem até o endereço dele.

Capítulo 6: Bem vindos ao Chá Apresentação.

Depois que saíram do escritório de Namjoon, ainda passaram no mercado para comprar o que estava faltando, e quando chegaram em casa, enquanto trocava a roupinha que ela sem querer sujou de gorfo, descarregava as compras.
saiu do quarto devagar, com Amélie já dormindo em seu colo, enquanto organizava o resto das compras que ainda estavam espalhadas pela sala. Ele olhou para ela com aquele sorriso cansado, mas empolgado.
— Tá. E você pensa em fazer isso quando? — perguntou, quando ele tomou o assunto do chá apresentação mais uma vez.
— Sábado que vem, preciso contar logo para os rapazes. Tem oito dias. Tempo suficiente pra organizar uma bagunça linda. — era um festeiro de marca maior e pode ver ali, com empolgação que ele estava em fazer daquele evento real.
— Oito dias?! — queria somente bater no amigo e fingir que aquilo nunca aconteceu.
— Relaxa, a gente consegue. Eu, você, e o que provavelmente vai ser pior do que crianças empolgadas numa loja de brinquedo. Vai ser divertido!
Amélie que despertou no meio da conversa, soltou um gritinho, como se estivesse concordando.
— Isso vai dar trabalho. — disse já exausta e quase desistindo da ideia que ela mesmo deu.
— Vai, mas vai ser incrível. E eu vou mandar mensagem para o agora, acho que não está no turno dele.
colocou Amelie no cercadinho que eles tinham comprado e levou as compras para a cozinha, enquanto mexia no celular com a outra mão.
— Você acha que ele vai achar uma loucura? — perguntou assim que colocou a cara de volta na sala para pegar a última sacola.
— Claro que vai. E ele vai adorar. Cê’ Sabe que ele é o mais velho, mas parece o mais novo às vezes e…
— Vendo pela sua empolgação, gostar desse tipo de festa deve ser de família. — riu, fazendo o maior perder a linha de raciocínio. — Vou esboçar algumas coisas aqui enquanto isso.
puxou um caderno de dentro da bolsa que estava jogada no sofá e começou a escrever algumas coisas. Passado um tempo, ela sentiu a barriga roncar, e olhou para Amelie que estava mais agitadinha também.
— Aqui está o seu almoço. — estava de volta à sala com a mamadeira da filha em uma mão e o paninho de boca dela pendurado no ombro.
Embora não parecesse, ele pegava rápido as coisas e em poucos dias já estava muito melhor naquele negócio de ser pai.
— E aí, você conversou com seu irmão? — perguntou, se levantando para ir até a cozinha e preparar o almoço deles, sabia que as habilidades de tinham aumentado como pai, mas fazer duas coisas ao mesmo tempo, era demais para ele.
— Onde você vai? — Perguntou, antes de responder a pergunta dela.
— Fazer nosso almoço, estou faminta e…
— Não precisa, eu pedi para o trazer nosso almoço e aí falamos com ele, Por telefone pode ser confuso, não sei se ele já se acostumou com a ideia de ser tio.
sabia exatamente como o outro poderia estar se sentindo, ela mesmo não tinha se acostumado 100% com a ideia de que o melhor amigo tinha virado pai, faziam poucos dias também, estão eram sentimentos válidos.
— Eu trouxe a comida! — entrou já falando alto, carregando três sacolas de marmitas. — Vim almoçar com vocês também, é sempre divertido comer em grupo.
riu e apontou para o sofá.
— Senta, a gente precisa conversar. — disse em um tom sério, parecia que estava com receio de pedir aquilo ao mais velho, mesmo tendo sido ideia dele.
parou, olhou para o com Amélie mamando no colo, para , e fez aquela expressão dramática digna dele.
— Meu Deus... vocês vão casar?
— O QUÊ?! — quase derrubou Amélie.
— Claro que não! — respondeu em coro.
— Desculpa, foi irresistível. Tudo acontecendo tão rápido e tantas novidade que achei que essas caras sérias de vocês fosse isso. — riu — Então... o que aprontaram?
— A gente vai fazer um chá de apresentação para Amélie. Pros meninos, a família e alguns amigos próximos. — pegou o caderno e mostrou a ele.
— Espera... um chá de apresentação? — piscou algumas vezes, absorvendo a ideia.
— É. Nada muito tradicional. Uma festa leve, divertida... e a gente quer você ajudando a organizar — disse, com aquele olhar de "por favor, me salva".
— Ahhh, eu sabia que minha função na vida era salvar vocês do caos. Claro que eu ajudo! — Deu um sorriso cheio de orgulho e empolgação e percebeu mesmo que aquilo era um gosto peculiar daquela família.
— A gente quer fazer surpresa pros meninos. Montar um grupo e mandar o convite especial, só depois que tudo estiver organizado. E quando eles souberem, já vai estar tudo pronto — explicou.
bateu palmas. — Eu amo! Ok, me atualizem... data, orçamento, lista de convidados e tema. Vamos lá.
— Eu sabia que você era a pessoa certa pra isso. — suspirou aliviado.
— Claro, vamos almoçar primeiro… — pegou as sacolas das mãos do mais velho e foi até a mesa de jantar arrumar as marmitas, enquanto ninava Amelie que já tinha comido, arrotado e limpinha com a frauda trocada.
Assim que acabaram de comer abriu o notebook de e começou a organizar a planilha.
— Tema?
— Que tal "Baby Rock Star"? — disse, empolgada.
— Eu gostei da ideia — disse empolgado, depois de dar a décima olhadela em Amélie dormindo no chiqueirinho que ele tinha colocado.
— Perfeito! Eu já estou vendo mentalmente a Amélie com jaquetinha de couro e óculos de coração. — sorriu aberto com a imagem que projetou em sua mente. — Tá, vamos lá. — disse depois de anotar o tema no notebook. — Data: será sábado que vem. — Mais uma anotação — Local: aqui mesmo na sua casa, já que tem espaço e você tem um quintal ótimo. — Mais uma anotação e um querendo protestar, mas sabendo que ali era o melhor lugar, porque era de graça. — Lista de convidados: seus sócios, amigos próximos, nossa família…
— E não esquece do disse, mordendo o lábio, estava ansiosa para contar aquilo para o rapaz, mas como a novidade não era dela, não achava justo fazer aquilo.
— O seu meio-irmão carrancudo? — arregalou os olhos.
— Claro, e ele não é carrancudo, ele só é sério demais, e você sabe que não temos segredos um do outro, então como Amélie faz parte da minha vida agora, ele precisa conhecer. — Os olhos da mulher brilhavam enquanto falava do irmão, mesmo sendo filho de outro pai, eles eram muito unidos e tinham uma ótima relação.
— Certo, então vou acrescentar o rabugento do seu irmão. — digitou mais uma vez. — Ele vai trazer alguem? — Perguntou sem tirar os olhos da tela.
— Estamos falando do mesmo ? — soltou uma gargalhada sincera.
— Claro, o maior anti romântico do universo traria quem? — Dessa vez tinha se pronunciado.
— Eu tenho fé na humanidade, tá bom? — Riu. — tá, voltando pra lista — olhou sério. — Tarefas: eu fico responsável pela comida, convites e a ordem. supervisiona a decoração, lista e lembrancinhas. Você...
— Eu? — arregalou os olhos.
— Do som e da playlist, obviamente. E das bebidas. — abriu um grande sorriso.
— Nada de bebidas alcoólicas pesadas. — disse constatando que o amigo cachaceiro - só perdia para , um dos sócios dele, o guitarrista da banda, que era uma versão mais “hard” de tanto nas mulheres quanto nas bebidas - ficaria responsável pelos drinks tanto alcoólicos, quanto os não alcoólicos.
— Lembra que é um evento família e que precisamos de bebidas sem álcool também. — Como se lesse a mente de , complementou o raciocínio.
— Eu sou um homem responsável agora — disse com orgulho exagerado, pegando Amélie que tinha acabado de acordar e colocando no colo com cuidado, ajeitando o body dela.
— Sei… Só não me venha com food truck de cerveja artesanal. — retrucou. Antes que ele pudesse responder, irmão se pronunciou de novo.
— Se você aparecer de boné para trás e óculos escuros, achando que é DJ e tocando aquelas músicas ridículas de balada, eu abandono essa missao.
— Vocês realmente acham que eu sou irresponsável assim? — parecia um pouco magoado, ele não se sentia tão irresponsável assim. Mas ele não enxergava mesmo, porque antes de Amélie, ele era virado no jiraya.
— SIM.
e responderam juntos.
— QUE TAL BALÕES DE UNICÓRNIO GIGANTES? — que mexia no celular, provavelmente procurando referências no Pinterest, disse muito empolgada.
— Depois eu que sou o irresponsável, claro que não , isso vai combinar com tema da festa? E se a Amélie se assustar? Onde eu vou enfiar balões de unicórnio gigante quando tudo acabar? — tinha um tom semi desesperado.
— Te acalma meu irmão, foi só uma sugestão, eu realmente tinha esquecido sua fobia de unicórnios. Ce tá ligado que eles não existem, não tá? Eles não vão te matar, fica calmo. — segurava a risada, sabia exatamente como provocar o amigo e amava fazer aquilo.
— Eu amo vocês! — gargalhou tão alto que deu um leve susto em Amélie. — Podemos fazer uma mesa de doces temática? — Quando parou de rir, voltou a atenção para sua lista com aquela nova ideia, já tinha pensado e anotado todas as comidinhas que serviriam.
— Desde que não custe o PIB de um país pequeno, tudo bem. — estava mesmo preocupado com o orçamento daquele evento, se gostassem muito nem varia a pena, estavam fazendo aquilo para apresentar a bebê para as pessoas e para ganharem fraldas também, se ficasse muito caro, era melhor ter mandado só uma mensagem no WhatsApp e investir aquele dinheiro em fralda e leite.
— Combinado! — Embora tivesse empolgado, o mais velho sabia que o irmão estava certo. — E o convite... vai ser especial. Quero criar algo com a foto da Amélie, data, horário, e uma frase que seja a cara do mais bagunceiro que eu conheço — disse, já pegando o celular. — Me manda umas fotos boas dela, .
— Já separando! Ela riu e abriu a galeria do celular.
Enquanto começava a esboçar o convite no computador, e se entreolharam, cúmplices.
— Isso vai ser incrível — ela disse, deitando a cabeça no ombro dele estava ficando cansada. E aproveitou para brincar com os pezinhos da neném.
— Vai sim. E com você e o me ajudando, eu acho que consigo não deixar tudo virar um circo.
— Circo vai virar de qualquer jeito, . Mas vai ser o circo mais lindo da vida. Eles riram juntos. E ali, entre planilhas, ideias e fotos da bebê, começaram a preparar o maior e primeiro chá apresentação do mundo. - pelo menos na cabeça deles.

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Duas horas e um litro de café depois, ajeitava o notebook na mesa, satisfeito.
— Prontinho! Convite feito, revisado e digno de tapete vermelho.
— Mostra! — e praticamente pularam em cima dele.
Na tela, o convite brilhava:
> Convite Oficial — Chá de Apresentação da Amélie

"O rockstar virou papai! E nós queremos dividir esse novo show com vocês.

Este é um convite para que você conheça a pequena Amelie em um chá da tarde diferente, pois nossa menina já nasceu, então será um chá de apresentação.

Data: sábado, às 16h. Local: Casa do Tema: Baby Rock Star — porque ela já nasceu brilhando Sugestão de presente: 1 Pacote de fraldas do M em diante e um mimo de sua preferência.

Vista-se confortável, traga muito amor e prepare-se para conhecer o nosso maior sucesso: Amélie."


Abaixo, uma foto perfeita da Amélie sorrindo com uma mini bandana rosa e uma chupeta de glitter.
... isso tá perfeito! — sorriu, emocionada.
— Eu sou o gênio dessa família, bebê — ele respondeu, piscando.
— Ok... vamos enviar? — passou a mão nos cabelos.
— Vai, . É agora ou nunca — disse, rindo da expressão nervosa dele.
respirou fundo, criou um grupo chamado NÃO PIREM adicionou , e , que eram seus sócios e companheiros de banda, o guitarrista, o baterista e o baixista. Colocou também o irmão de , que era produtor musical, então de certa forma fazia parte do grupo de amigos, mesmo sendo mais chegado nos outros caras da banda, do que no próprio em questão. Copiou a imagem e, tremendo um pouco, mandou no grupo

> NÃO PIREM


: Galera… tá na hora de vocês conhecerem minha nova parceirinha de vida. Convite oficial abaixo.

Silêncio. Um minuto inteiro sem resposta.

Capítulo 7: Amélie a nova integrante da banda.

Até que:


: VOCÊ TÁ BRINCANDO COM A MINHA CARA?!

: Isso é sério ou pegadinha? Porque se for zoeira, vou te bater, !

: SOCORRO! Ela é a coisa mais linda desse planeta! Como assim apresentação de uma filha desse tamanho? Quando é a festa? Eu levo o presente mais fofo!

— Pronto. Agora não tem mais volta.— leu as mensagens e suspirou.
— Não tinha desde o momento que ela apareceu na sua porta, querido. — deu um tapinha nas costas dele.


: COMO ASSIM VOCÊ ESCONDEU UMA FILHA DA GENTE, SEU TRAIDOR?!

: EU VOU SER TIO, EU VOU SER TIO!!!

: …

(dois minutos depois)

: Não entendi porque estou nesse grupo, mas parabéns. Precisam de ajuda pra montar a mesa ou com alguma coisa?


— O é sempre o mais prático.— gargalhou, aliviado.


: Você nega, mas sabe que faz parte do grupo .

: Eu vou levar presente, mas também vou levar você pro psicólogo, ! COMO ASSIM? QUANDO ISSO ACONTECEU?

: ELA TEM SUA CARA! EU QUERO UMA FOTO DELA TODOS OS DIAS NA MINHA MESA!

: EU JÁ ESTOU NA RUA INDO COMPRAR O MAIOR URSO DE PELÚCIA DA HISTÓRIA!


ria tanto que estava com lágrimas nos olhos.

— Como eu amo esse grupo, mas eu sou o tio preferido, viu? — cruzou os braços, satisfeito.


: Se precisar de som profissional ou ajudar a descarregar as coisas no sábado, me avisa.


— Viu? Eu disse que meu irmão é incrível — sorriu, orgulhosa.


: Preciso saber... ela gosta mais de música pop ou hip hop?

: Por enquanto, gosta do barulho do micro-ondas esquentando a mamadeira e eu conto melhor para vocês como isso aconteceu na festa, pode ser?

: EU. NÃO. AGUENTO. MAIS. EU PRECISO VER ESSA CRIANÇA!

: Conta tudo! Nome, idade, cor favorita, altura, peso, o signo dela!

: O signo é o que importa mesmo, né?


— Acho que eles gostaram.— respirou fundo e olhou para , sorrindo.
— Gostaram é pouco. Eu acho que eles vão invadir minha casa antes de sábado.
— E aí, senhor papai... pronto pra esse novo show? — riu, pegando o celular.
olhou para Amélie, dormindo tranquila no chiqueirinho perto deles, e sorriu.
— O melhor show da minha vida.

👶🏻👶🏻👶🏻


O sábado chegou rápido demais. A casa do estava impecável, decorada com o tema Baby Rock Star, balões metálicos, luzinhas e uma mesa digna de Pinterest — graças ao toque de e .
Os convidados começaram a chegar, e logo o quintal estava cheio de vozes, risadas e música ambiente suave.
Antes que o evento de fato começasse, , e chamaram de canto, perto da sala de música. O clima mudou.
... — começou, colocando a mão no ombro do amigo — a gente tá super feliz por você, mas... cara, isso é enorme.
respirou fundo e assentiu. — Eu sei. Por isso queria ter contado pessoalmente.
Eles se sentaram nos pufes que estavam espalhados pelo quintal e ele resumiu tudo: a manhã do feriado, a bebê na porta, a carta, a decisão de assumir a responsabilidade, o apoio da , o susto da mãe dele, a conversa com o pai e o irmão, o advogado, tudo.
Quando terminou, o silêncio ficou pesado.
— Cara... isso muda tudo, né? — passou a mão no rosto, visivelmente emocionado.
— Muda — respondeu com sinceridade. — Mas eu não vou desistir do nosso projeto. Só... vou ter que equilibrar mais pratos do que imaginava.
— E a gente vai estar aqui. Pra tudo. Não somos só seus sócios, somos seus irmãos. — olhou fundo nos olhos dele.
— E ela vai ter os tios mais babões do mundo. — suspirou e abriu um sorriso.
— Eu sei. Por isso eu não tive medo de decidir. Porque eu tenho vocês. — sorriu, os olhos marejados.
— Se precisar, a gente troca fralda também, viu? — puxou todos para um abraço em grupo.
— Calma, calma! Vamos começar com o básico: segurar no colo — riu, limpando discretamente o canto dos olhos.
— Obrigado, de verdade. — riu com eles, aliviado.
Do outro lado da festa observava de longe o pequeno aglomerado de pessoas ao redor do e da bebê, enquanto fingia estar mais interessado no chá do que realmente estava. se aproximou e cutucou o braço dele com o cotovelo.
— Você tá com uma cara ótima de quem tá se perguntando “como diabos isso aconteceu”, né?
— Porque eu tô — ele respondeu sem rodeios, virando-se para ela. — Me explica: ele virou pai… como?
respirou fundo, tentando conter o riso, e começou:
— Feridado prolongado. Ele acorda, vai abrir a porta achando que era algum maluco que queria matar ele, porque era muito cedo e a gente sabe que ele nunca acorda cedo… e: surpresa! Uma bebê no capacho e uma carta dizendo: “Ela é sua.”
— É sério isso? — arregalou um pouco os olhos.
— Se eu tô mentindo, que eu tropece e derrube o bolo agora.
— E ele só… pegou a criança?
— No começo, ele congelou. Ficou uma meia hora chorando… e aí ligou fazendo a maior cena que eu ja tinha visto: “, abandonaram um bebê na minha porta, me ajuda??” — ela imitou o desespero dele, rindo.
— E você foi salvar. — soltou uma risada curta.
— Claro, né? E a Amélie já colocou ele no chinelo.
olhou novamente para , que tentava fazer a bebê arrotar enquanto murmurava alguma música do Queen baixinho.
— Tá dando conta?
— Tá se virando — respondeu, com orgulho escondido na voz. — É desajeitado, desorganizado, atrapalhado… mas dá pra ver que tá tentando de verdade.
— E você? Tá conseguindo ajudar ele nessa loucura toda? — assentiu, silencioso.
— Eu achava que a gente já tinha passado por tudo nessa amizade… mas trocar fraldas às três da manhã definitivamente é um novo nível. — deu um sorrisinho de canto.
— E vocês…? — olhou para ela, curioso.
— O quê? — ela ergueu a sobrancelha, desconfiada.
— Nada não — ele disfarçou, mas sorriu de canto, voltando a olhar para e Amélie juntos.
suspirou, mordendo o lábio para não rir.
— Não viaja, . Somos só um time de emergência.
— Veremos. — deu um gole em sua bebida, sem desviar o olhar do trio à sua frente.
O senhor e a senhora chegaram, trazendo um presente enorme e sorrisos calorosos — e um leve olhar de alerta maternal da senhora , claro.
Namjoon apareceu logo depois, elegante, carregando uma cesta cheia de produtos de bebê e um envelope.
— A papelada da guarda definitiva chega na semana que vem, . Já está tudo resolvido — ele disse, apertando a mão do amigo. — Parabéns, de verdade.
— Obrigado, Namjoon — sorriu.
apareceu, pegando o microfone improvisado no mini-palco:
— Senhores e senhoras, amigos e família... está na hora de apresentar oficialmente o novo amor das nossas vidas: Amélie !
Aplausos e risadas ecoaram enquanto , com Amélie no colo, subiu ao palco improvisado.
Ela, com um vestidinho preto de tule e mini jaquetinha de couro, segurava uma chupeta rosa enquanto balançava as perninhas, arrancando "awwws" coletivos.
— Essa aqui chegou de surpresa, bagunçou minha vida inteira, e eu não trocaria nada disso por nada no mundo — disse, a voz embargada. — Obrigado por estarem aqui e fazerem parte dessa nova fase.
O público aplaudiu e subiu ao palco para um abraço rápido nele e na bebê.
Entre confusão, emoção e gargalhadas, o chá de apresentação da Amélie estava oficialmente acontecendo.
E o melhor ainda estava por vir.

Capítulo 8: Respira, Amélie.


Três meses haviam se passado desde o chá de apresentação da Amélie, e, apesar do susto que aquele dia trouxe para todos, uma nova rotina começava a se desenhar — meio torta, às vezes caótica, mas ainda assim uma rotina.
O quartinho antes improvisado agora era um espaço cheio de vida. A antiga poltrona de estúdio virou o lugar oficial das mamadas noturnas, o chão era coberto por tapetes coloridos e brinquedos espalhados, e a parede tinha adesivos delicados de nuvens, estrelas e até um foguete — sugestão de , que queria que a filha "mirasse alto".
A guarda provisória de Amélie já estava oficialmente com , algo que ainda parecia surreal para ele. Havia dias em que parava na porta do quarto só para observá-la dormindo e se perguntar se aquilo tudo era mesmo real. A vida dele — antes regida por acordes, festas, agendas e decisões por impulso — agora girava em torno de mamadeiras, fraldas e risadinhas de bebê.
E ? era o porto seguro no meio do caos.
Ela não era mãe. Nem madrinha. Nem tia de sangue. Mas ninguém — absolutamente ninguém — duvidava do quanto ela era parte essencial daquela nova família. Era ela quem o ensinava a fazer os primeiros banhos sem parecer que ia deixar a bebê cair, quem marcava os horários das vacinas no calendário, quem acordava no susto ao menor barulho do berço. E era ela também quem cantava as músicas mais doces enquanto balançava Amélie no colo, como se o mundo inteiro estivesse em paz naquele momento.
muitas vezes ficava parado no corredor, só observando. E mesmo sem saber como agradecer, sentia o coração apertado de gratidão toda vez que ouvia a risada baixa das duas preenchendo a casa.
Mas nas últimas semanas... algo parecia fora do lugar.
Amélie, que antes era uma bolinha de energia, cheia de risinhos e gracinhas, começou a mudar. Dormia mais do que o normal, chorava mais fácil, tossia durante a madrugada — uma tosse seca, repentina, que vinha do nada e fazia se levantar num pulo. Os pezinhos estavam sempre gelados, a respiração parecia mais curtinha. O pediatra dizia que era normal. Frases prontas, repetidas com leveza: “sistema imunológico em desenvolvimento”, “tempo seco”, “coisas de bebê”.
Mas não estava convencida.
Ela via Amélie todo dia. Sentia as sutilezas. O jeito como a bebê já não sorria tanto, como se cansasse fácil. E aquilo apertava seu peito de um jeito que ela não sabia explicar — só sabia que algo não estava certo.
Numa noite particularmente abafada, o silêncio da casa foi cortado por um som engasgado. pulou da cama num segundo. Correu até o berço e seu coração quase parou. Amélie chorava baixinho, os olhos marejados, o rostinho vermelho e a testa absurdamente quente. A respiração vinha em suspiros curtos, como se cada ar fosse uma luta.
— Amélie...? — ele murmurou, apavorado, se ajoelhando ao lado do berço.
A pequena o olhou com os olhos arregalados, cheios de pânico, como se pedisse ajuda sem saber como. O peito dela subia e descia num esforço visível.
! — gritou, a voz embargada de desespero.
Ela apareceu segundos depois, correndo, o cabelo preso de qualquer jeito, a expressão grave. Viu a cena e, sem hesitar, pegou a bebê nos braços. Sentiu o calor da testa, a pele fria dos pezinhos e a respiração irregular.
— A gente vai pro hospital. Agora.
Não era uma sugestão. Era uma decisão. apertou Amélie contra o peito com firmeza, como se quisesse protegê-la do mundo, enquanto já pegava as chaves com as mãos trêmulas. Não havia tempo pra pensar. Só pra agir.

👶🏻👶🏻👶🏻

O hospital estava iluminado, mas para , aquela luz parecia uma ilusão. Tudo ao redor dele estava imerso numa escuridão densa e implacável. O som das portas se fechando atrás de Amélie, enquanto ela era levada às pressas para os exames, ecoou como um peso insuportável, que se agarrou em seu peito. Cada passo dado pelas enfermeiras parecia atravessar sua alma, cada movimento delas uma lembrança do quão vulnerável ela estava. Ela, uma garotinha tão pequena e cheia de vida, agora estava ali, em um lugar estranho e frio, com os olhinhos cheios de medo e a respiração rasgada. Ela não merecia estar ali, com o próprio corpo se tornando seu inimigo, sem saber o que estava acontecendo. sentiu que sua vida, o mundo dele, tudo estava sendo tirado de suas mãos.
Ao seu lado, estava firme. Ou ao menos, ela tentava ser. Ele podia perceber o nervosismo em cada gesto dela. A voz, antes cheia de confiança, agora vacilava, e ela apertava sua mão com força, como se esse simples contato fosse a única coisa que os mantinha conectados à realidade. Mesmo no meio daquela tempestade, ela estava ali, com ele. Mas, por dentro, ele sabia que ela também estava perdida. , com sua energia, com seu jeito forte, também parecia não saber como lidar com o que estava acontecendo. Ela só podia tentar confortá-lo, mas as palavras, como sempre, pareciam vazias. Ele sabia que ela queria dizer “vai ficar tudo bem”, mas, naquele momento, não havia espaço para otimismos, não havia espaço para promessas que não poderiam ser cumpridas.
— Vai ficar tudo bem. — disse, mas sua voz parecia mais um sussurro, uma tentativa desesperada de autoafirmação. não acreditava nessas palavras. Ela também não.
O tempo passou como se estivesse paralisado. Cada segundo ali dentro parecia uma eternidade, uma espera angustiante que os consumia lentamente. O tic-tac do relógio na parede parecia um som distante, abafado, como se estivesse vindo de outro mundo. A presença das enfermeiras, que corriam de um lado para o outro, soava como uma melodia triste e distante, misturada com o murmúrio dos outros pacientes e dos visitantes. E, no centro disso tudo, estava Amélie. Ela estava lá, e o mundo todo parecia se resumir a ela. O foco era ela. Cada pensamento, cada respiração, cada batida do coração de pulsava com o medo de perder algo tão precioso.
Quando finalmente a médica apareceu, a visão dela com seu semblante sério não trouxe alívio, mas uma sensação de inevitabilidade. A leve compaixão no olhar dela foi o único sinal de que talvez, ainda, houvesse algum fio de esperança. levantou-se rapidamente, como se estivesse esperando uma resposta que, no fundo, já sabia que não poderia ser fácil.
— A Amélie tem uma condição chamada displasia broncopulmonar — começou a médica, direta, mas com a suavidade de quem tentava suavizar a dor daquelas palavras. congelou. O nome da doença, embora técnico e desconhecido, parecia ter um peso inimaginável. Era como se a própria palavra tivesse o poder de invadir sua mente, tomando forma e se transformando em algo monstruoso. O ar, já pesado, parecia fugir dele. Ele tentou se manter de pé, mas a sensação de vazio o sufocou. O chão parecia sumir, e tudo o que ele conseguia fazer era segui-la com os olhos, tentando entender, tentando achar sentido em algo que não fazia sentido algum. — Não é raro em crianças pequenas, especialmente nas que nascem prematuras ou que têm dificuldades respiratórias no início da vida. E, apesar de parecer assustador, tem tratamento.
O alívio que as palavras “tem tratamento” tentaram trazer, se perderam na confusão de sentimentos. "Tratamento" parecia uma palavra vazia diante da magnitude do que ele estava ouvindo. E, para , as palavras "não é raro" não trouxeram consolo. Ele queria entender, mas cada frase parecia trazer mais peso, mais dor.
— Tratamento? O que ela precisa? — As palavras saíram apressadas, como se sua garganta estivesse apertada, incapaz de formar as perguntas que ele realmente queria fazer. O medo apertava seu peito de uma maneira que ele nunca havia experimentado antes. Ele precisava de respostas, precisava de algo que o fizesse acreditar que ela ficaria bem. Mas, no fundo, ele temia que nenhuma resposta fosse suficiente. A possibilidade de algo tão grande e irreversível parecia engolir a esperança.
A médica suspirou, como quem tenta encontrar as palavras certas. Ela estava claramente ciente da gravidade da situação, mas tentava transmitir as notícias de uma forma que não os deixasse desmoronar ali, naquele momento.
— Fisioterapia respiratória especializada, medicamentos controlados e acompanhamento constante — ela explicou, sem pressa, como se estivesse tentando dar um mapa, mesmo sabendo que o terreno era desconhecido. — A boa notícia é que, com o tratamento adequado, ela pode levar uma vida normal. A má notícia… — Ela hesitou por um momento, como se as palavras que ela estava prestes a dizer fossem tão pesadas que seria difícil engolir. — É que os custos não são baixos. E a frequência é alta.
sentiu como se o chão sob ele tivesse se partido. Seu coração estava apertado, sua mente girava. Ele sentiu se aproximando, o calor da mão dela no seu ombro. Ela queria confortá-lo, queria ser o pilar, mas ele sabia que, naquele momento, ela também estava quebrada. não tinha as respostas que ele tanto desejava. Ela sabia, no fundo, que nada daquilo seria fácil. E, ainda assim, o silêncio entre eles se estendeu por alguns segundos, uma troca de sentimentos sem palavras.
— Mas isso não quer dizer que ela está... — começou a perguntar, sua voz falhando, como se fosse difícil entender a realidade que se impunha.
— Não — respondeu a médica, com uma calma que só aumentava o peso da verdade. Sua voz, agora mais suave, parecia preencher a sala com uma sensação de que o pior ainda estava por vir. — Não quer dizer que ela está morrendo, mas se não for tratado corretamente, pode se agravar. E aí, sim, se torna irreversível.
Aquelas palavras ecoaram no peito de como um grito. O tempo se esticou, congelou, e, de repente, ele se viu caindo na cadeira, os olhos perdidos, tentando encontrar algum tipo de lógica, mas tudo parecia desconexo. Nada fazia sentido. Ele havia sido pego desprevenido, envolvido em algo que ele não sabia como lidar.
— Eu... eu não tenho um plano que cobre tudo isso. Eu tô tentando, mas é tudo tão recente... — murmurou, sua voz embargada, falhando a cada palavra. O medo o envolvia, o desesperava. Ele se sentia pequeno, impotente, como se estivesse à deriva, perdido em um mar de incertezas.
olhou para ele, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ela sabia que ele estava perdido, que ele não via saída. Mas, naquele momento, ela precisava ser a força que ele não conseguia encontrar. Ela não poderia deixá-lo afundar, não agora. Ela se aproximou, com os olhos fixos nele, transmitindo-lhe uma calma que ela própria não sentia.
— Vamos resolver isso — disse ela, com firmeza. Sua voz não vacilava. Ela estava decidida a encontrar uma forma de dar a Amélie o que ela precisava. E ela sabia que, juntos, eles poderiam enfrentar qualquer coisa.
Ela olhou para a médica, aguardando mais detalhes, mas o olhar de a distraía. Ele estava ali, perdido, com a cabeça cheia de medos e pensamentos desconexos, tentando entender como a vida deles, a vida de Amélie, havia virado de cabeça para baixo tão de repente.
A médica, ciente da fragilidade do momento, deu as instruções finais, explicando os próximos passos. Ela indicou o quarto onde Amélie estava, sugerindo que eles ficassem lá o tempo necessário. Ela ainda estava em observação, e a situação, embora tensa, estava controlada.
— Ela está sendo medicada e vai ficar em observação, já está no quarto, eu vou passar lá mais tarde para ver como ela está — disse ela, oferecendo uma última informação que parecia pouca, mas era tudo o que eles podiam receber naquele momento.
Quando a médica saiu apressada, deixando-os sozinhos, olhou para , tentando encontrar nele alguma resposta que ele não sabia dar. O medo ainda pairava no ar, o peso da situação ainda era esmagador, mas ela sabia que, de alguma forma, eles iriam encontrar um caminho para superar aquilo. Mesmo que fosse apenas um passo de cada vez.
Ela segurou a mão dele com mais força, como um pacto silencioso, um compromisso de que nenhum deles enfrentaria isso sozinho.
O som do monitor de batimentos cardíacos foi a única coisa que preencheu o vazio no quarto. O hospital, com suas paredes frias e luzes intensas, parecia um universo distante, e se sentia completamente deslocado ali. Ao lado dele, permanecia imersa em silêncio, sua expressão travada entre a ansiedade e o alívio. O choro abafado de Amélie ainda ecoava em sua mente, um lembrete pungente do quanto a vida da pequena era frágil.
Quando a porta se abriu, sentiu a respiração suspensa. A médica que estava de volta, entrou com uma calma que contrastava com a turbulência interna que ele sentia. Seus olhos estavam focados em Amélie, deitada na cama do hospital, mas ele não conseguiu evitar a sensação de que, enquanto ela estava ali, tão vulnerável e pequena, ele não poderia fazer nada para protegê-la. Sua mente estava um turbilhão de dúvidas, medos e incertezas.
A médica se aproximou com um sorriso suave, tentando transmitir alguma sensação de controle, mas a tensão no ambiente era palpável.
— A Amélie está estável agora — disse com voz suave, como se fosse uma declaração de vitória. Mas sabia que aquilo não era o fim, era só o começo de algo muito maior e muito mais complexo do que ele jamais imaginou. — Fizemos uma nebulização com broncodilatadores e administramos corticosteroides. A resposta foi boa, a respiração dela já está mais controlada. Por enquanto, ela está confortável — continuou a médica, tentando aliviar a ansiedade deles.
fechou os olhos por um momento, ouvindo aquelas palavras e tentando entender. A sensação de um peso imenso no peito não desapareceu, mas ao menos ele podia respirar um pouco mais facilmente agora.
Ele soltou o ar lentamente, sentindo o alívio invadir seu corpo, mas ainda com um nó na garganta.
— Mas isso resolve? — perguntou, a voz tremendo de apreensão, como se ainda esperasse uma resposta que trouxesse segurança.
A médica olhou para ele com compreensão, um olhar que, por mais suave, ainda carregava a responsabilidade de uma realidade dura.
— É paliativo, senhor . Ajuda agora, mas não é cura — respondeu. Suas palavras caíram pesadas no coração de , como um lembrete cruel de que a batalha estava apenas começando. — A displasia broncopulmonar precisa de acompanhamento e tratamento contínuo. Se começar logo, temos grandes chances de evolução positiva. Mas se for adiado… os pulmões dela podem sofrer danos permanentes.
A última parte das palavras da médica foi como uma lâmina afiada, cortando qualquer vestígio de alívio que ainda restava. Amélie não estava fora de perigo, e o tempo, que antes parecia algo distante, agora se tornava um inimigo invisível e implacável. sentiu o peso do futuro apertando sua mente. Cada segundo importava. Cada decisão. O fato de que o tempo era um fator tão crucial lhe causava um nó na garganta.
Ele olhou para , que estava ao seu lado. Ela parecia absorver cada palavra da médica, cada diagnóstico, com uma força que ele ainda não conseguia compreender completamente. Ela apertou sua mão, um gesto silencioso, mas repleto de significado. Ela estava ali, ao seu lado, como sempre esteve, e isso era o que o mantinha firme, apesar de tudo. Mesmo quando ele sentia que o mundo ao seu redor estava desmoronando, ela era a base. Ela era o farol no meio da tempestade.
A médica fez uma pausa, estudando as reações dos dois antes de continuar.
— Eu sei que é muita coisa — disse ela, sua voz agora mais suave, como se estivesse tentando transmitir alguma forma de conforto. — Mas vocês são jovens, claramente preocupados com ela. Vocês vão encontrar um caminho. Só… não deixem o tempo passar, ok?
As palavras dela se entrelaçaram com o peso da situação. O tempo estava passando, e as oportunidades de tratamento logo se tornariam mais limitadas. queria acreditar que tudo ficaria bem, mas a incerteza ainda pairava sobre ele. Ele queria encontrar uma solução, uma maneira de fazer tudo dar certo, mas parecia que nada estava sob seu controle.
Ele assentiu, sentindo o olhar de em seus olhos. A confiança dela, a determinação silenciosa que ela sempre demonstrava, o apoiava. Mas ele sabia que aquele caminho seria longo, cheio de desafios que ele não sabia se conseguiria enfrentar sozinho. Porém, não estava mais sozinho. estava ao seu lado, mais do que nunca, e isso era o que realmente importava.
— Vamos resolver isso — ela disse, suas palavras firmes, mas o tom de sua voz não escondia a preocupação que ela sentia. Ela sabia que a tarefa era enorme, mas, para ela, não havia outra opção. Eles iriam enfrentar tudo juntos, não importava o quanto fosse difícil.
olhou para ela, seus olhos buscando algum tipo de resposta, algum tipo de clareza, mas a única coisa que ele encontrou foi a certeza silenciosa de que ela faria tudo o que fosse possível. Ele não sabia como, mas sabia que ela faria. E isso, de alguma forma, o fazia sentir um leve alívio, como se fosse possível, sim, vencer a batalha.
— Como? — ele perguntou, a voz rouca de quem ainda não sabia se conseguiria lidar com tudo aquilo.
respirou fundo, o olhar fixo na médica por um momento, como se estivesse organizando seus próprios pensamentos. Quando seus olhos se voltaram para , havia uma determinação inquebrantável.
— Eu tenho um plano de saúde que cobre tudo — disse ela, sua voz agora mais firme, como se já tivesse encontrado uma maneira de seguir em frente. — E na escola, se ela for minha dependente… consegue bolsa integral, acompanhamento, suporte.
franziu a testa, tentando compreender.
— Mas ela não é sua filha.
o encarou diretamente. Não era uma resposta simples, mas ela sabia que tinha que ser clara, e sua postura não vacilou.
— Ainda não — ela disse, um tom de certeza na voz. Ela estava ali, fazendo tudo o que podia para ajudá-los a lidar com essa situação, e ela sabia que o tempo para hesitar já havia passado. A única coisa que restava era agir.
Naquele momento, com as palavras de ainda reverberando no ar, sentiu que, embora o futuro fosse incerto e repleto de desafios, ele não estava sozinho. Ele tinha , e juntos, eles enfrentariam o que fosse necessário para garantir que Amélie tivesse a chance de viver da melhor forma possível.

CAPÍTULO 9: Uma proposta absurda (ou não)

Na manhã seguinte, o silêncio no escritório de Namjoon era quase sufocante. Os ponteiros do relógio pareciam mais altos do que o normal, marcando cada segundo como se zombassem da tensão entre os três presentes. e estavam sentados lado a lado no sofá de couro do escritório dele, e apesar de estarem próximos, a tensão entre eles preenchia todo o espaço vazio. Não falavam nada. Nem precisavam. Estava tudo ali: na forma como mantinha os dedos entrelaçados no colo, como se tentasse se ancorar. No jeito como mexia a perna sem parar, o olhar perdido em algum ponto do tapete.
apoiou os cotovelos na mesa e falou devagar:
— Então… vocês querem que a adote a Amélie pra incluí-la no plano de saúde, é isso?
assentiu, sem tirar os olhos do chão. Ele parecia longe. Como se estivesse ali em corpo, mas com a cabeça girando em mil direções.
foi quem respondeu, a voz firme, mesmo que por dentro ela estivesse uma bagunça.
— O tratamento é caro, Joon. E meu plano cobre tudo. Inclusive, a escola onde eu trabalho tem benefícios para filhos de funcionários. Bolsas, atividades, acompanhamento psicológico… seria tudo que ela precisa agora. Mas pra isso, ela precisa ser legalmente minha filha.
respirou fundo, passando uma das mãos pelo rosto.
— Entendo. Mas… não é tão simples assim, . A legislação só permite essa adoção imefiata se houver vínculo familiar direto.
— E o que isso quer dizer, exatamente? — levantou os olhos, finalmente. A voz saiu áspera, tensa.
— Quer dizer que, juridicamente, você só pode adotar a Amélie se vocês forem casados — explicou, com aquela calma profissional que às vezes irritava.
O silêncio caiu como um peso no ar. franziu o cenho, processando.
— Casamento? — repetiu Jungkook, a voz carregada de incredulidade, como se ainda estivesse tentando processar o que acabara de ouvir. Primeiro tinha virado pai do nada e agora marido, era loucura demais, até pra ele.
não hesitou, como o melhor amigo. Permaneceu sentada com as costas eretas e o olhar firme, ela parecia estar travando uma batalha interna para manter o controle.
— Isso mesmo — repetiu . — Se vocês não forem casados, a única alternativa é você, , abrir mão da guarda total e transferir completamente para . E… convenhamos, isso seria um problemão. Ainda mais agora, com o processo de guarda permanente andando. Você é o pai biológico. Os juízes não olham com bons olhos para esse tipo de renúncia.
ficou em silêncio, a garganta apertada. Não queria que precisasse abrir mão de nada. Aquela menina era dele. Mas… também era dela. Pelo menos, era o que sentia no coração.
coçou a nuca, visivelmente atordoado. Estava suando frio.
— Então… ou eu deixo de ser pai da minha filha no papel, ou a gente casa?
— Basicamente, sim — respondeu . — O casamento permite que a se torne co-responsável legal. Vocês mantêm a guarda compartilhada, e ela consegue colocar a Amélie no plano e nos benefícios.
bufou, se levantando do sofá, caminhando até a janela como se o ar estivesse faltando. Ficou ali por um instante, em silêncio, com as mãos nos quadris. O sol atravessava o vidro e desenhava sua silhueta no chão. Ele parecia pequeno diante de uma decisão tão grande.
acompanhava cada movimento dele com o coração na garganta.
— E se a gente… só casar no papel? — ela perguntou, com cuidado. — Sem cerimônia, sem anúncio… só pra resolver.
inclinou o corpo para frente, unindo as mãos sobre a mesa.
— Não é ilegal. Mas tem que parecer legítimo. A papelada, os registros, testemunhas, a linha do tempo… tudo precisa bater. Se o Ministério Público for chamado, qualquer inconsistência pode gerar uma investigação. E aí, vocês sabem: uma criança no meio, nesse tipo de situação, vira alvo de disputa.
voltou a sentar, mais calado. — Eu… — ele começou, depois de longos minutos naquele silêncio dos três, depois parou. Respirou fundo, e então continuou. — Eu quero o melhor pra Amélie. E se isso vai garantir que ela tenha tudo que precisa… então, sim. Eu topo.
— Eu também topo. — disse com firmeza, de quem acaba de fazer uma grande promessa. — A gente pode explicar pros nossos irmãos. Eles entenderiam e acho que até nós ajudariam. Mas pros meus colegas, pros nossos pais…
— Vamos fazer parecer real — completou , por fim.
— E precisa parecer — confirmou. — Porque se parecer falso, é ainda pior. Um casamento mal explicado chama mais atenção do que um casamento súbito. — Ele os observou por um momento, depois soltou — Vocês sabem que isso vai levantar muitas sobrancelhas, né?
assentiu, sem hesitar dessa vez.
— Sabemos. Mas… é pela Amélie. E só isso já vale o incômodo.
olhou pra ela de novo. Dessa vez, demorou mais. Os olhos se encontraram, e nenhuma palavra foi dita. Mas naquele olhar havia tudo: a história deles, os anos de amizade, os momentos em que quase aconteceu… e a sensação de que, mesmo sem querer, estavam prestes a cruzar a linha do “quase”.
suspirou e puxou uma pasta de documentos da gaveta lateral.
— Então vamos começar. Eu cuido da papelada. — Ele abriu a pasta, posicionou o primeiro formulário sobre a mesa e ergueu os olhos uma última vez.— E vocês… cuidam do teatro. — Deu um meio sorriso, meio cético, meio irônico.
— Você sabe que eu era a melhor da nossa turma de teatro. — disse rindo, dessa vez mais relaxada. — Eu sei, você é a melhor em tudo que se propõe a fazer. — Ele abriu um sorriso lindo, aquele que deixava as covinhas evidentes. — mas sabe que isso é diferente, não sabe?

O som da porta do escritório de se fechando atrás deles soou mais alto do que o normal. Um estalo seco que reverberou no corredor silencioso do prédio comercial que ficava o escritório chique do mais velho, como se selasse um pacto silencioso e irreversível.
caminhava um pouco à frente, as mãos enfiadas nos bolsos do moletom, os ombros tensos como se carregasse o peso do mundo nas costas. seguia logo atrás, abraçando o próprio corpo, tentando processar o que acabara de acontecer.
Eles não trocaram uma palavra enquanto desciam os degraus do prédio. A tarde estava fria, abafada por nuvens pesadas, como se o céu estivesse esperando para desabar a qualquer momento. O silêncio entre eles não era estranho — era cheio. Carregado.
Quando chegaram ao carro, destravou as portas com um clique. entrou no banco do passageiro e fechou a porta com um suspiro, afundando no estofado como se o simples ato de sentar exigisse mais força do que ele tinha no momento.
ainda ficou alguns segundos parada do lado de fora, olhando para o céu escuro como quem buscava respostas ali. Por fim, entrou também, mas não ligou o motor.
— A gente vai mesmo fazer isso? — ele perguntou, olhando fixamente para o painel, a voz rouca e baixa, como se estivesse com medo da resposta.
soltou uma risada breve, cansada. Daquelas que vêm quando a mente ainda está girando em círculos.
— Eu tô me perguntando a mesma coisa.
— Parece loucura, né?
— Parece. — Ela virou o rosto pra ele, apoiando o braço na porta. — Mas também parece certo.
Ele finalmente olhou pra ela. Os olhos vermelhos de tanto chorar mais cedo agora estavam serenos, como um mar depois da tempestade. Mas ainda havia incerteza ali. Medo. Gratidão demais pra caber em palavras.
— Eu nunca imaginei me casando assim. Na marra. Com uma amiga.
— Ei — fingiu ofensa, erguendo as sobrancelhas — com uma excelente amiga.
— A melhor. — Ele sorriu fraco.
Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando. Sem pressa. Sem necessidade de dizer mais nada. Era como se, de alguma forma, eles estivessem lendo um ao outro com mais nitidez do que nunca.
— Você tem certeza? — ele perguntou de novo, mais sério. — Porque se você me disser agora que é demais… eu dou um jeito. Eu vendo o estúdio. Me viro.
fechou os olhos por um momento e respirou fundo. Depois, virou-se por completo para ele, determinada.
— E você vai se culpar pelo resto da vida por não ter conseguido bancar o tratamento dela. Eu te conheço, . Você vai se punir, mesmo que ninguém mais faça isso. E eu também conheço essa menina. Ela é um pedacinho seu que eu aprendi a amar sem nem perceber. — Ele arregalou os olhos ligeiramente, surpreso com a escolha de palavras, mas não a interrompeu. — Eu tô dentro. De verdade — ela completou, com firmeza.
engoliu em seco. O coração apertava no peito. Queria agradecer, mas “obrigado” parecia pequeno demais. Queria abraçá-la, mas também parecia pouco. Queria dizer que ela estava salvando a vida dele e da filha dele, mas a garganta simplesmente não deixava.
Então ele apenas encostou a cabeça no encosto do banco, encarando o teto do carro como se assim conseguisse não chorar de novo.
respirou fundo, relaxando no banco.
— Só quero deixar claro que eu exijo peônias no nosso casamento falso. E música boa. Nada de sertanejo universitário.
Ele riu pela primeira vez em dias. Riu de verdade. O som da risada dele preencheu o carro como um alivio.
— Tá bom, madame. Eu boto Queen na playlist.
— Melhorou. — Ela sorriu de lado. — Então vai ser o casamento mais esquisito, mas também o mais bonito que a gente podia dar pra Amélie.
— Vai ser o nosso jeito.
— Agora temos que contar para os nossos irmãos. — levou a cabeça até o volante apoiando a testa no mesmo, exausta.
— Nenhum minuto de paz. — riu, igualmente exausto.

CAPÍTULO 10: No Papel, Só No Papel

O som da porta batendo ecoou pelo corredor antes que surgisse, já com aquele ar teatral característico. Ele entrou com passos largos, espalhando presença, e sem se dar ao trabalho de pendurar o casaco, jogou-o de qualquer jeito sobre o encosto do sofá.
— Tá, agora me digam… qual é o mistério? — disse, estreitando os olhos de propósito, como se estivesse prestes a desvendar uma trama policial. — A me manda mensagem dizendo que tem uma notícia importante, o me liga com a voz nervosa… Eu tô preparado pra tudo. — Ele fez uma pausa dramática, olhando do irmão para , os dois sentados lado a lado, rígidos como duas estátuas. — Vocês estão grávidos, né? Vão me dar outro sobrinho? Porque, sério, eu não tô pronto pra ser tio de novo. — completou, já rindo alto, batendo palmas.
arregalou os olhos e soltou uma risada nervosa.
— Quê? Claro que não!
— Ainda. — piscou, levantando as sobrancelhas com malícia, antes de se jogar na poltrona como se estivesse numa plateia VIP esperando o espetáculo começar. — Vai, soltem logo. Aposto que é sobre vocês dois finalmente criarem coragem.
coçou a nuca, a clássica mania de quando estava desconfortável, e lançou um olhar suplicante para . Ela, firme mas visivelmente tensa, apenas acenou de leve, dando permissão.
Ele respirou fundo.
— A gente vai se casar.
O silêncio caiu na sala como um piano despencando do nada.
piscou uma vez. Depois outra. Arregalou os olhos como se tivesse ouvido errado.
— Espera… o quê?!
— No civil. — explicou com calma, tentando manter o controle da situação. — Só no papel.
— Só no papel… — repetiu, se inclinando na poltrona, apontando um dedo acusador para eles. — Vocês têm a cara de pau de casar e nem me dar a chance de comprar um terno novo? E olha que eu já estava ensaiando meu discurso de padrinho desde 2018!
— É sério, . — interveio, tentando cortar a onda de piadas. — A Amélie precisa de um tratamento caro, contínuo. O plano da cobre tudo. Mas pra ela entrar como dependente, a gente precisa estar casado.
— Ou seja… — completou com delicadeza. — É a forma mais rápida e segura de cuidar dela.
ficou alguns segundos oscilando entre a expressão séria e a de quem estava prestes a explodir em gargalhadas. Até que baixou a cabeça… e riu. Alto.
— Eu sabia. — disse, quase dobrando de rir. — Eu sempre soube! Desde o dia em que vocês se conheceram, eu falei: “esses dois vão acabar juntos”. Eu só não imaginei que ia ser nesse nível novela mexicana, com criança deixada na porta de casa, casamento no civil às pressas… Cadê as câmeras? Isso merece ser transmitido em horário nobre!
… — tentou interromper, já corando, mas ele levantou a mão teatralmente.
— Calma, calma. — Ele respirou fundo, ajeitando-se na poltrona como quem ia anunciar algo muito sério. — Agora falando como irmão mais velho: eu apoio. De verdade. Porque conheço vocês dois. Sei o quanto você se importa com esse cabeça dura aí — apontou para , que fez uma careta —, e sei o quanto ele confia em você mais do que em qualquer pessoa. E se alguém já é mãe da Amélie sem precisar de documento… é você, .
Ela baixou os olhos, emocionada, enquanto suavizava o tom.
— Pra mim, esse casamento pode até ser só no papel. Mas, na prática, isso aqui já é uma família. E quando vocês dois finalmente admitirem que esse negócio de “só amigos” foi uma ilusão coletiva… eu vou ser o primeiro a levantar a plaquinha de “eu avisei”.
bufou, tentando segurar o riso. — A gente tá tentando manter as coisas sob controle, hyung. Sem confundir nada.
— Boa sorte com isso. — ergueu uma sobrancelha cúmplice, antes de se levantar e puxar os dois para um abraço apertado.
— E, por favor… me deixem organizar alguma coisa nesse casamento. Nem que seja o bolo! — completou, dramático. — Aliás, se vocês não deixarem, eu vou aparecer no cartório de smoking branco e topo de cartola, só pra constranger vocês.
gargalhou, e até não resistiu. sorriu satisfeito, como quem sabia exatamente que tinha cumprido o papel de irmão mais velho: apoiar, mas sem perder a chance de provocar.
— Agora o ! — disse séria, parecia que juntava forças para àquilo.
— Eu queria ser uma mosca para ver a reação aquele chato, aposto que ele vai ser contra. — disse, enquanto pegava Amélie no colo para brincar um pouco com a sobrinha.
— Que horas você quer que a gente vá? — perguntou, também parecia que estava juntando forças para aquele momento. — O fica com a Amélie para nós.
— Ei! — O mais velho ia começar a reclamar, não de ter que ficar com a sobrinha, mas porque ele ia ter que abrir o restaurante em poucas horas, talvez não desse tempo.
— Eu preciso fazer isso sozinha, , essa conversa tem que ser só nós dois, tudo bem? — sabia que o irmão não reagiria bem, e era mais fácil para ele lidar com aquilo sem muitas pessoas ao redor.
— Tudo sim, eu tenho medo dele, mesmo, vai ser um alívio. — riu sendo seguido por .
— Mas é um poço de coragem esse meu irmão. — disse rindo mais alto.

👶🏻👶🏻👶🏻


O estúdio estava silencioso naquela noite. Apenas a luz âmbar refletia na janela, misturada ao zumbido suave dos equipamentos. O único som era o clique ritmado do mouse nas mãos de , concentrado na mixagem como se o mundo lá fora não existisse. A atmosfera era calma, quase sagrada — até a porta ranger devagar.
Ele não precisou olhar para sentir que algo estava fora do lugar. O silêncio que entrou junto com era diferente. Pesado.
Ela caminhou com passos suaves, mas decididos, segurando uma pasta contra o corpo. O cabelo estava preso de qualquer jeito, o olhar firme. notou na hora: não era visita casual.
— Que cara é essa? — ele perguntou, sem tirar os olhos da tela.
— A gente pode conversar? Só eu e você.
O cenho dele se franziu. Sem dizer nada, fechou o projeto, deixando a sala mergulhar num silêncio ainda mais denso. Girou a cadeira devagar, encarando-a, antes de puxar outra para o lado.
— Pode falar.
se sentou, cruzando as pernas. A pasta permaneceu fechada em seu colo, como se guardasse uma bomba prestes a explodir.
— Eu e o … vamos nos casar.
O tempo parou.
— O quê? — a voz dele saiu baixa, mas cortante.
— Calma! — ela ergueu as mãos. — É no papel. É só pra poder adotar a Amélie. Pra colocar ela no meu plano de saúde, conseguir a bolsa na escola… A médica disse que o tratamento tem que começar logo. E isso resolve tudo. O já tá cuidando da parte legal, não tem nada de errado nisso.
ficou em silêncio, mas o silêncio dele falava alto. O maxilar travado, o olhar afiado. Ele respirava pesado, como se lutasse para não explodir.
— Você tá ouvindo o que tá dizendo, ?
— Tô. — ela respondeu firme. — E tô ciente.
Ele se inclinou, os olhos queimando de indignação.
— Você vai se casar com seu melhor amigo. Fingir que é real, pra todo mundo. Mesmo sem amar ele. Mesmo sabendo que isso pode dar uma merda monumental. Você tem noção da encrenca emocional e jurídica que tá arrumando?
— É pela Amélie.
— E quando isso sair do controle, hein?! — se levantou de repente, começando a andar de um lado para o outro, as mãos nos cabelos. — Quando começarem a olhar torto, a questionar, a desconfiar? E se alguém te denunciar por fraude? Você quer nossa família nos jornais?
— Eu não tô fazendo nada ilegal. — a voz dela não tremeu, embora os olhos já brilhassem. — Eu só tô usando os recursos que existem. E eu confio no .
— Confiar não é sinônimo de casar, cacete! — ele explodiu, o tom mais alto do que pretendia. — E você ainda nem ama esse cara desse jeito!
— Eu não preciso amar ele pra amar a filha dele. — rebateu. — E eu amo.
Aquela frase o atingiu como soco no estômago. Por um instante, o silêncio voltou a reinar, cortado apenas pela respiração pesada de ambos.
— E quando você se apaixonar por outra pessoa? — insistiu, quase desesperado. — Quando tiver que explicar essa farsa? Quando chegar a hora do divórcio?
— A gente lida com isso depois. — ela disse, com uma calma quase cruel. — Agora, a prioridade é a Amélie. Eu pensei em tudo, oppa. Não tomei essa decisão de impulso.
Ele parou, ofegante, encarando-a como se ainda buscasse uma brecha para convencê-la. Mas só viu determinação. Teimosia. O mesmo olhar da menininha que ele lembrava chorando na escola porque não tinha os pais nas apresentações. Agora, ela queria ser isso para uma criança que não era nem dela.
— Se você fizer isso… eu vou contar pro nosso pai. E pra sua mãe.
respirou fundo, os olhos marejando, mas a voz saindo firme como aço. — Pode contar. Se isso vai te fazer dormir melhor, conta. Mas eu não vou voltar atrás. E se eles ficarem contra mim… tudo bem. Eu já tô acostumada a não ser a filha perfeita que esperavam.
engoliu seco. Sentiu o peito apertar com força. Era a irmãzinha dele ali na frente. Não a filha perfeita, não a rebelde. Apenas . E ele sabia que, contra ou a favor, ela ia até o fim.
— Você vai se machucar. — ele murmurou, baixo.
— Talvez. — ela admitiu. — Mas vai valer a pena.
O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Até que despencou de volta na cadeira, soltando um suspiro longo, rendido.
— Esse casamento vai ser ridículo. — disse, cobrindo o rosto com a mão. — Vocês vão ser o casal mais fake da história. Vai ter gente achando que casaram depois de uma noite de tequila.
riu baixinho, enxugando as lágrimas.
— Pior que seria uma história boa.
Ele bufou, desviando o olhar.
— E se isso der errado, você jura que o te tira da reta?
Ela riu mais alto dessa vez.
— O jurou que blinda todo mundo.
a encarou por alguns segundos, e enfim estendeu a mão. O gesto era brusco, mas o significado, claro. Ela segurou forte, e ele não soltou.
— Tá. — ele disse, finalmente. — Mas se alguém fizer você chorar… mesmo que seja o … eu acabo com esse casamento. E não vai ser só no papel.
— Combinado.
O aperto de mãos foi a trégua. O jeito dele de dizer: eu tô aqui. Sempre.
Era o jeito dele de amar.

Assim que saiu da sala sentiu que tinha tirado um peso enorme das costas, tudo bem que o irmão não foi totalmente a favor como o irmão de , mas só dele ter contado para ele, já deixava aliviada, odiava esconder coisas do mais velho.
Deu mais alguns passos e pegou o celular para mandar uma mensagem para , ainda tinham uma última leva de pessoas que eles contariam toda a verdade, o resto teria de acreditar que aquilo era verdade mesmo.

”Pronto, conversa feita! Sabe como ele é, mas no final entendeu que era a minha decisão e me apoiou, mesmo falando que se eu chorar, ele vai quebrar seus dentes…”
Apertou o botão de enviar e conseguiu dar uma breve risada, antes de digitar mais uma mensagem.
”Quando vamos contar para os meninos? Acho que eles precisam saber a verdade também, tanto, porque eles não cairiam na conversa de que fomos nós apaixonando tão rapidamente que vamos nos casar do nada, quanto para nós ajudar com essa farsa”

Não demorou nem dois minutos para que ela recebesse uma resposta do rapaz.
”Ainda bem que eu não fui, era capaz do quebrar meus dentes hoje mesmo, rs. Quanto aos meninos, se você ainda estiver na gravadora, me espera ai, vou deixar a Amelie com a minha mãe e já chego ai, vamos terminar essa maratona de verdades secretas logo hoje, o que acha?

se sentiu aliviada, queria terminar aquela primeira parte do plano logo, porque depois teriam de começar a fingir e isso demandaria muito mais tempo e energia dos dois.
Ok. Combinado! Te aguardo aqui, vou comprar um café, se eu não tiver no prédio quando chegar, me liga

👶🏻👶🏻👶🏻


O estúdio estava quase vazio naquela tarde. Apenas a luz suave de uma luminária sobre a mesa de mixagem iluminava os rostos tensos. encostava-se na mesa, tentando parecer calmo, enquanto estava ao lado dele, os dedos entrelaçados à pasta que segurava como se fosse um escudo.
No sofá gasto, que já tinha testemunhado incontáveis sessões, risadas e segredos, , e observavam, cada um com uma expressão diferente: curiosidade, desconfiança e uma pontinha de antecipação.
— Tá… vocês chamaram a gente aqui pra quê mesmo? — perguntou , ajeitando a touca, como se isso pudesse ajudá-lo a manter a compostura.
— Tem alguma coisa errada com a Amélie? — interveio, os olhos arregalados.
respirou fundo, os dedos tamborilando na madeira da mesa.
— Na verdade… sim.
O silêncio caiu como chumbo.
— Ela foi diagnosticada com uma doença. Nada incurável, mas o tratamento é caro. — explicou, tentando manter a voz firme. — E se não agirmos logo, pode deixar sequelas. É delicado.
— Caralho… — murmurou, tirando o boné e passando a mão pelos cabelos. — Ela vai ficar bem?
— Vai. — respondeu rápido, firme. — Mas a gente precisa agir agora.
— E o que a gente pode fazer? — se adiantou. — Vocês precisam de dinheiro? A gente ajuda!
— Não é isso. — negou, com um sorriso pequeno. — O plano de saúde da escola cobre tudo. Mas pra Amélie ser incluída como minha dependente legal… — respirou fundo — …ela precisa ser minha filha no papel também. — completou.
franziu o cenho, trocando um olhar rápido com e Taehyung.
— Mas ela é filha do .
— Sim, mas só dele. Legalmente, eu não tenho nada a ver. — deu de ombros. — Falamos com o , que está cuidando da parte jurídica, e ele disse que, pra eu adotar Amélie e incluí-la no plano…
— …a gente precisa estar casados. — completou, quase num sussurro.
O silêncio voltou, pesado, até que…
— VOCÊS VÃO SE CASAR?! — os três explodiram ao mesmo tempo, cada um com um timbre diferente.
— No papel! — ergueu as mãos, quase implorando. — Só no papel!
— Tipo… casamento falso? — arqueou uma sobrancelha. — Sério mesmo?
— Isso existe? — parecia entre chocado e fascinado. — É legal?
— É questionável — rebateu, cruzando os braços — mas a questão é: vamos contar pra todo mundo que é falso?
— Só pros próximos. Pros irmãos e pra vocês. — falou sério. — O resto vai acreditar que é real. Não temos escolha.
se levantou, andando de um lado pro outro, rindo nervosamente. — Isso parece roteiro de k-drama! Geralmente dá merda. Vocês têm consciência?
— A gente sabe. — disse, firme. — Mas é pela Amélie. Só por ela.
— Isso é perigoso. — parecia genuinamente preocupado. — E se descobrem? Se disserem que é fraude?
— Gente, calma! — levantou a mão, rindo e depois suspirando. — Não vamos deixar ninguém ser preso. Mas, pelo amor de Deus, chamem o de novo antes de assinarem qualquer papel. Legalmente, tudo precisa estar blindado.
— Já chamamos. — assentiu. — Ele vai cuidar de tudo. Com contrato, cláusulas, orientações… O casamento será legal, só não será… romântico.
— Isso vocês acham. — murmurou, com meio sorriso. — Só espero que o coração de vocês tenha lido as letras miúdas.
riu baixo, sacudindo a cabeça.
— Olha, vou ser honesto: isso me assusta. Estamos falando de bebê, saúde e lei… Mas se tem uma coisa que eu percebi é que vocês já são família, mesmo sem papel. E Amélie sente isso desde o dia que chegou.
— Família se protege. — completou, sorrindo.
se aproximou, pousando a mão no ombro de .
— A gente vai apoiar vocês. Vai ser estranho no começo, claro. Mas estamos com vocês.
— Até na despedida de solteiro? — brincou, arrancando risadas nervosas de todos.
soltou um suspiro, olhando para , que apertou sua mão discretamente. Eles permitiram aquele gesto. Não era amor — ainda — mas era confiança. Era parceria. Era pelo bem da Amélie.
— Então tá combinado — concluiu, sorrindo com ar de conspirador. — Mas se o casamento acabar dando merda, prometam que pelo menos a gente vai poder contar pros amigos que avisamos.
— Prometemos. — respondeu, aliviado, sentindo o peso do segredo se tornar mais leve com o apoio deles.

CAPÍTULO 11: Vamos Nos Casar

— Tá. Agora que vocês já contaram pra gente, falta só a parte mais difícil: os pais dele. — anunciou, sentado no tapete com as pernas cruzadas, apoiando o queixo na palma da mão como se estivesse prestes a assistir a um filme dramático.
— Na verdade… já devia ter sido a primeira coisa. — resmungou , recostado contra a parede, braços cruzados no peito e expressão azeda, como se estivesse pronto para redigir um relatório pro Ministério da Verdade.
— Não começa, oppa. — retrucou, já cansada, massageando a têmpora. — A gente não tá fazendo isso por diversão.
— Ah não? Porque até agora parece um roteiro de drama da Netflix com orçamento duvidoso. — rebateu, erguendo uma sobrancelha.
— Chega, . — interveio, a voz mais firme do que o habitual. Sentou-se no braço do sofá, inclinando-se um pouco pra frente. — Eles já estão fazendo isso pela Amélie. E vão continuar, então ou você ajuda ou sai da sala.
estreitou os olhos, mas não rebateu de imediato. Depois de alguns segundos de silêncio tenso, soltou seco:
— Eu fico. Mas não me peçam pra sorrir.
— Ninguém nunca pede. — murmurou, quase sem levantar os olhos do celular, arrancando risadinhas abafadas dos outros.
pigarreou, se endireitando no sofá. A mão dele apertava com força a de , como se buscasse apoio para continuar.
— O plano é simples… ou deveria ser. — ele começou, olhando para o grupo. — Vamos marcar um jantar com meus pais. E durante ele, vamos contar que nos apaixonamos e decidimos casar. Eles já sabem da Amélie. O que não sabem é… da gente. Juntos.
Um silêncio pesado pairou por alguns segundos. Até , sempre o mais otimista, respirou fundo antes de falar:
— Vai soar como um golpe. — disse com cuidado, levantando a mão como quem não queria jogar água no fogo, mas precisava. — Tipo… a amiga da família se apaixona pelo pai e de repente vai se casar com ele? Eles vão surtar.
— Por isso o plano precisa ser redondo. — rebateu, erguendo o queixo. A segurança na voz contrastava com os dedos nervosos entrelaçados aos de . — A gente tem que parecer tão apaixonado que eles nem tenham espaço pra questionar. Tipo… “aconteceu naturalmente”, “a gente se aproximou cuidando da Amélie juntos”, “percebemos que éramos o lar um do outro”…
— Isso tá me dando náusea. — interrompeu, seco.
— É porque você não tem coração. — devolveu na lata, teatral. — Mas essa fala do "lar um do outro" foi linda. Repete, . Repete com mais emoção!
ergueu os olhos para , suspirou fundo e, como boa atriz improvisada, colocou a voz embargada:
— Percebi que você era o lar que eu procurava desde sempre.
bateu palmas, encantado.
— Isso! Perfeito! Agora você, . Seu momento ator de novela turca.
soltou uma risadinha nervosa, mas entrou no clima. Virou-se totalmente para , segurando a mão dela com as duas mãos agora. O olhar sério, carregado de intensidade, fez até os mais céticos prenderem a respiração.
— Eu cuidaria da Amélie mesmo sozinho… mas quando percebi que queria que você estivesse lá em todos os momentos, eu entendi. Era você. Sempre foi.
Um arrepio percorreu a sala.
— Socorro. — murmurou , finalmente largando o celular. — Eu tô comprando isso real.
— Eu também. — concordou, arregalando os olhos. — Já até shippei.
— Isso é exatamente o que me preocupa. — se adiantou, batendo a cabeça de leve contra a parede, impaciente. — Se até vocês estão caindo nessa, imagina os pais deles?
— Mas é o objetivo, ! — respondeu, rindo e batendo palmas mais uma vez. — Ponto pro casal!
— Vamos combinar a história direitinho. — retomou, voltando o tom para o prático. — Quando foi que a gente percebeu que tava apaixonado? Precisamos de uma data, uma lembrança marcante.
— O dia do chá de apresentação. — sugeriu sem hesitar. — Podemos dizer que nos aproximamos muito organizando tudo juntos, e que foi ali que a ficha caiu.
— Boa. — acenou, animado. — E já tenham respostas prontas: por que casar tão rápido? Porque é um amor tão intenso que vocês não querem perder tempo.
— E respondam sempre com o mesmo tom. Nada de hesitar. — completou , entrando no modo sério. — Se perguntarem como foi o pedido de casamento…
— Eu posso dizer que pedi durante uma noite qualquer, depois de colocar a Amélie pra dormir. — sugeriu, já ensaiando. — Algo simples, íntimo. Combina mais com a gente.
— E que ele chorou. — acrescentou com um sorrisinho malicioso. — Diz que ele chorou! Isso vai derreter qualquer coração!
— Você chora por tudo, . — resmungou, revirando os olhos.
— Por amor verdadeiro, mesmo sendo falso, sim! — respondeu, orgulhoso, colocando a mão no peito como se fosse vítima do próprio romantismo.
O silêncio retornou por alguns segundos. Todos pareciam absorver a gravidade do plano que, até aquele momento, só tinha sido ensaiado como se fosse uma peça.
Então quebrou o clima, a voz mais baixa desta vez:
— Só me prometam uma coisa. Se esse negócio sair do controle, se tiver qualquer risco pra Amélie… vocês param. Na hora.
assentiu, sem hesitar.
— Eu prometo. Ela é a única coisa que importa aqui.
a encarou por um instante longo, estudando cada traço do rosto dela como se procurasse alguma mentira escondida. Depois suspirou, e a expressão azeda suavizou um pouco.
— Tá. Então vamos fazer esse teatro direito. Porque se isso falhar… vocês dois vão estar ferrados.
soltou uma risada curta e nervosa, coçando a nuca.
— Eu não sei o que é mais difícil: cuidar de um bebê, fingir um casamento ou convencer meu pai que eu sou capaz de amar alguém de verdade.
— Talvez, no fim das contas, não precise fingir tanto assim. — disse, o sorriso torto iluminando o rosto. — O jeito que vocês se olham já diz muito mais do que estão dispostos a admitir.
O comentário deixou o ar pesado outra vez. Todos se entreolharam em silêncio, como se tivessem percebido algo que os protagonistas não queriam confessar nem para si mesmos.
👶🏻👶🏻👶🏻


A noite estava tranquila, mas dentro de de , a tensão era palpável.
— Respira, . — sussurrou apertando de leve a mão dela. — A gente ensaiou isso. Vai dar certo.
— Eu tô respirando. Só não prometo que não vou vomitar nervosa. — ela respondeu entre os dentes, mas logo sorriu quando a campainha tocou.
— Showtime. — murmurou, indo abrir a porta.
A senhora entrou primeiro, toda arrumada, com um sorriso caloroso que desapareceu assim que viu a expressão nervosa do filho e da .
— O que aconteceu? — ela perguntou direto. — Vocês vão me matar de susto desse jeito!
O senhor entrou em seguida, mais contido, observando os dois com olhos atentos. Não disse nada de imediato.
— Melhor a gente se sentar. — disse, guiando os pais em direção a mesa de jantar, como se estivesse servindo os clientes de seu restaurante.
A mesa estava posta com o capricho de sempre: louças alinhadas, taças que refletiam a luz suave das velas, e a comida preparada por exalando um aroma caseiro. Tudo deveria transbordar tranquilidade, mas o ar estava pesado, como se todos soubessem que algo importante estava prestes a acontecer.
ajeitou-se na cadeira, entrelaçando os dedos nos de sob a mesa. O coração dele parecia bater alto demais, abafando até o som dos talheres.
— Então… — ele começou, limpando a garganta. — A gente chamou vocês aqui porque tem uma coisa importante pra contar.
A senhora se inclinou para frente, os olhos brilhando de expectativa.
— Eu sabia! — exclamou, já levando a mão ao peito. — Não me digam que vou ser avó de novo tão cedo…
— Mãe! — quase se engasgou, soltando a mão de . — Não, não é isso!
— Ainda. — cochichou
— É que… nós estamos juntos.— respirou fundo e assumiu a fala:
O silêncio foi imediato.
— Eu sabia! — apontou para os dois, quase ofendida. — Sempre negaram quando eu perguntava. Sempre com aquelas carinhas de “somos só amigos”. Vocês me enganaram direitinho! — A senhora arregalou os olhos, mas, em vez de desmaiar como parecia prestes a fazer, soltou um suspiro dramático.
— Juntos? — O senhor arqueou as sobrancelhas, sério, o olhar pesado sobre o filho.
— Sim, pai. — respondeu firme, mesmo com o estômago revirando. — Mas não é só isso… a gente vai se casar.
Foi como soltar uma bomba no meio da sala.
A senhora arregalou ainda mais os olhos e levou a mão à boca, sem saber se ria ou se chorava.
— Casar?! Meu Deus, , você não podia me preparar melhor? — Ela já abanava o rosto com o guardanapo. — Eu imaginava que ia acontecer, mas assim… tão rápido…
— Casamento é uma decisão séria. — disse, com a voz grave. — Vocês pensaram bem nisso? — O senhor não compartilhou do entusiasmo.
— Pensamos. — respondeu, firme, antes que tivesse a chance de gaguejar. — Pode parecer rápido, mas faz sentido pra gente. Nós nos aproximamos cuidando da Amélie, e entendemos que éramos o lar um do outro.
— Ai, que lindo! — suspirou a senhora , batendo palmas devagar, emocionada. — Eu sabia que tinha algo diferente entre vocês dois!
, até então calado, mexia na comida sem grande interesse. Não disse nada diretamente, mas o olhar dele para o casal dizia mais do que mil palavras. Um olhar pesado, carregado de desconfiança, como se fosse o único que não estava comprando aquela versão tão ensaiada.
— É sério, mãe, pai. — continuou. — Eu nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. Eu cuidaria da Amélie sozinho, mas percebi que quero a em todos os momentos. É com ela que eu quero formar uma família.
, como sempre, quebrou o clima denso com seu jeito teatral:
— Olha, eu só digo uma coisa: se isso fosse novela turca, eu já estaria torcendo pelo casal desde o primeiro episódio. — ergueu a taça, rindo. — E confesso, tô até emocionado.
— Você se emociona com comercial de margarina. — resmungou.
— Pelo menos eu sinto! — retrucou, sorrindo para o casal. — E eu sinto que isso aqui é de verdade.
A senhora suspirava alto, ainda em transe.
— Meu bebê vai casar… — repetia, como se a frase não coubesse na boca dela. — E eu nem comprei um presente de noivado
— Pois bem. Se essa é a escolha de vocês, espero que estejam preparados para lidar com todas as consequências. Porque casamento não é brincadeira. — O senhor , por outro lado, permanecia sério.
— Estamos.— assentiu, sem hesitar.
— E vamos provar isso. — apertou a mão dela de novo, olhando para os pais.
— Então que seja. Se é amor… eu só quero que vocês sejam felizes.— A senhora sorriu, mesmo ainda um pouco atônita.
O jantar continuou, mas o clima já estava longe de ser normal. Entre risos nervosos, silêncios pesados e olhares trocados, todos sabiam: o jogo tinha mudado de nível.
Ao fim da noite, enquanto lavavam a louça cansados, recebeu uma mensagem do irmão.
”Não esqueça de contar aos nossos pais também, se não a farsa não fará sentido”
acabou de me lembrar uma coisa horrivel. — disse virando o celular para a direção do rosto de para que ele lesse a mensagem.
— Verdade, tem seus pais ainda. — Suspirou cansado, aquela noite tinha sido difícil o suficiente, nem imaginava a energia que gastaria naquele encontro, conhecia os pais de e o clima era denso e esquisito sempre que eles se encontravam.
— Vamos precisar de paciência e saco. — digitou alguma coisa no aparelho e o jogou na bancada, para terminar de secar os pratos que estava guardando.
O celular vibrou sobre o móvel. Dessa vez não era o irmão e sim o pai:
”Combinado, podem passar aqui amanhã as 18:00hs, espero que seja rápido, temos outros compromissos para o jantar.”
— Vamos acabar logo com isso. — disse depois de ler a mensagem em voz alta e receber um abraço apertado de .
— Vamos fazer isso juntos. — Ele sorriu, e deu um beijo no topo da cabeça dela, embora estivesse tão exausto quanto, sabia que o encontro dela com aqueles dois sempre resultava em horas dos dois em silêncio, ela se afogando ou em um balde de sorvete ou uma garrafa de gin inteira.
👶🏻👶🏻👶🏻


O silêncio naquela sala era quase sufocante. O ar-condicionado gelado fazia o ambiente parecer um inverno artificial, mas não era nada comparado ao clima frio entre aquelas quatro paredes.
O pai de estava sentado no mesmo sofá de sempre, postura rígida, braços cruzados, como um juiz prestes a dar a sentença. Ao lado dele, a madrasta mantinha a mesma expressão entediada de sempre, os olhos semicerrados, como se cada palavra da enteada fosse apenas mais um aborrecimento entre uma reunião importante e outra.
sentou-se ereta, mas não relaxada. O queixo erguido denunciava a defesa já pronta. Ao lado dela, permanecia em silêncio, a mão entrelaçada discretamente na dela — parte do teatro, mas também um apoio que ela não queria admitir que precisava.
— A gente veio contar uma coisa. — começou direto, sem floreios. Não havia motivo para enrolar.
O pai ergueu uma sobrancelha, sem pressa, como se a ousadia de interromper seu dia fosse uma afronta maior do que qualquer notícia que viria.
— Eu e o vamos nos casar. — ela disse, firme.
A madrasta apoiou a xícara no pires com um suspiro delicado, como quem tivesse acabado de ouvir sobre a alta do dólar. O pai inclinou levemente a cabeça, encarando os dois com descrença.
— Casar? — ele repetiu, arrastando a palavra como se ela fosse absurda. — Desde quando?
— Desde que a vida virou do avesso. — rebateu. — E a gente percebeu que o que tem entre nós vale a pena. Queremos fazer isso por nós… e pela Amélie.
O riso curto e debochado do pai ecoou pelo ambiente, seco como estalo de chicote.
— Ah, sim… a bebê da história que vocês inventaram. Isso ainda está acontecendo?
— Nós não inventamos nada. — interveio, com calma firme. — A Amélie é minha filha. Já consegui a guarda legal. E a esteve comigo desde o começo. A gente se aproximou, as coisas mudaram.
A madrasta os observava com a mesma atenção desinteressada de quem assiste a um reality show do qual não queria participar.
— E vocês vão casar… por amor? — perguntou, sem emoção, quase por obrigação.
— Que engraçado você perguntar isso. — deu um sorriso amargo, cortante.
A madrasta apenas arqueou as sobrancelhas, indiferente.
— Sim. — respondeu, firme. — Por amor. Pela vida que estamos construindo. Pela família que estamos formando.
— Família? Você acha mesmo que virar pai de uma hora pra outra te faz entender o que está fazendo? — O pai soltou outro riso baixo, debochado, inclinando-se um pouco para frente.
— Acho que ninguém entende de verdade. — devolveu, seca. — Mas pelo menos a gente tá tentando. O que já é mais do que muita gente nessa sala pode dizer com orgulho.
O silêncio que veio depois foi quase cruel. Nem o barulho do ar-condicionado parecia aliviar. A madrasta ergueu a xícara e deu um gole no chá, impassível. O pai desviou o olhar, bufando baixo.
— Se estão tão decididos… não há muito o que dizer. — ela comentou, desinteressada.
— Não mesmo. — confirmou, pegando na mão de de propósito. — A gente só veio contar por coerência. Nada mais.
— E os seus amigos? Os irmãos? Já sabem dessa decisão… impulsiva? — O pai ajeitou a postura, o olhar cortante de volta para eles.
— Já. — respondeu de pronto. — E, ao contrário de vocês, eles estão mais preocupados com a Amélie do que com qualquer outra coisa.
— Então pronto. Se não precisam da nossa bênção, essa conversa acabou.— A madrasta pousou a xícara no pires, como quem encerrava um capítulo sem importância.
O pai apenas soltou um “hm” seco, concordando em silêncio.
E foi o fim.
Ao saírem do apartamento, a tensão ainda parecia colada na pele. Só no elevador soltou uma risada nervosa.
— Você me assustou um pouco ali dentro.
— Eu me assustei com o quanto não senti nada. — admitiu, encostando a cabeça na parede fria.
— Nada mesmo?
— Talvez só um pouco de alívio. — ela suspirou. — Foi como riscar uma pendência da lista. Agora a gente pode seguir.
virou-se para ela, a mão ainda firme na dela.
— E a gente vai seguir. Juntos.
Foi ali, entre os números digitais descendo lentamente, que permitiu um sorriso sincero pela primeira vez naquele dia.
— A gente vai dar um show nesse casamento, .
— Como bons farsantes profissionais. — Ele piscou, divertido. — E com a Amélie como nossa daminha de honra. Tem como dar errado?
— Tem. — ele riu, puxando-a de leve contra si. — Mas a gente vai fazer dar certo mesmo assim.
O celular dele vibrou no meio do abraço, uma mensagem de sua mãe.
”Reservei o Maison Lumière para o sábado a noite, chame seus sogros, precisamos formalizar esse casamento, te amo”
— Parece que não acabou. — Abriu um sorriso forçado, entregando o celular para que ela lesse a mensagem.
— Porque sua mãe é assim? — Perguntou, encostando a testa na parede gelada do elevador, que estava quase chegando ao térreo, quando ela apertou o botão para subir novamente ao apartamento dos pais. — Vamos fazer esse convite logo, aproveitar que ainda estamos nessa merda de condomínio.
E eles subiram novamente, para convidar os mais velhos, que para a surpresa de ambos, confirmaram de imediato a presença, parecia que eles queriam que aquilo terminasse logo, sabiam que esse jantar entre as famílias aconteceria uma hora ou outra.

👶🏻👶🏻👶🏻


O restaurante reservado era um dos mais sofisticados da cidade, daqueles em que tudo parecia meticulosamente planejado para impressionar: as paredes em madeira escura refletiam a luz suave das velas, as taças de cristal cintilavam sob a iluminação amarelada, e os garçons se moviam como sombras silenciosas entre as mesas. A mesa para oito pessoas, no centro do salão, parecia imponente demais diante da tensão que começava a se instalar.
À cabeceira, o Sr. e a Sra. mantinham a postura elegante e atenta, tentando conduzir aquele encontro com a serenidade que a ocasião pedia. Para eles, era natural que as famílias se conhecessem antes do casamento dos filhos. e estavam lado a lado, mãos entrelaçadas debaixo da mesa, trocando olhares cúmplices que sustentavam a farsa e, ao mesmo tempo, serviam de apoio real. , sempre sorridente, sentava-se perto dos pais, pronto para aliviar qualquer silêncio desconfortável. , firme, permanecia ao lado da irmã, vigilante como sempre.
Do outro lado, a cena contrastava fortemente. O pai de encarava o prato com desinteresse, enquanto a madrasta folheava o cardápio com a impaciência de quem queria estar em qualquer outro lugar. Entre e , a pequena Amélie ocupava seu bebê-conforto, sorridente e inquieta, batendo as mãozinhas na mesa e soltando risadinhas ocasionais que destoavam da seriedade dos adultos.
— Estamos muito felizes com esse casamento. — disse a Sra. , abrindo a conversa com um sorriso caloroso. — Queríamos muito conhecer os pais da . Vocês criaram uma moça incrível.
A madrasta ergueu os olhos por um breve instante, assentiu com um sorriso curto e vazio, antes de voltar ao cardápio. O pai de sequer tentou disfarçar o desdém.
sempre foi independente. Se decidiu casar, que faça o que quiser.
O silêncio que seguiu foi cortante. A Sra. enrugou o cenho, surpresa com a frieza. , acostumada à indiferença, sustentou um sorriso delicado, como se já esperasse aquela resposta. , sob a mesa, apertou sua mão de leve, oferecendo-lhe um apoio discreto.
Nesse instante, Amélie bateu o brinquedinho colorido no tampo da mesa, arrancando um “ploc” alto que quebrou o silêncio. Ela gargalhou sozinha, como se tivesse contado uma piada.
— Até ela tá tentando salvar a situação. — murmurou , arrancando algumas risadinhas contidas. — Mas já que não posso deixar isso só na conta da bebê… preciso perguntar: já pensaram nas cores do casamento? Quero saber se vou poder reciclar meu terno ou se vou parecer um figurante de circo.
A piada trouxe um alívio breve, fazendo até a Sra. sorrir de forma mais solta.
— Ainda estamos decidindo… — respondeu , entrando no jogo. — Mas pode deixar, . Vou escolher algo que combine com você.
— Só não me venha com rosa choque. — retrucou ele, teatral. — Não quero virar marshmallow nas fotos.
Amélie, sem entender, bateu palminhas, como se aprovasse a ideia. O riso inocente da bebê trouxe um frescor genuíno à mesa, ainda que rápido. A madrasta revirou os olhos e voltou ao cardápio, enquanto o pai de limitou-se a bebericar o vinho.
— E vocês? — perguntou o Sr. , tentando trazer os pais de para a conversa. — O que acharam disso tudo? Devem estar felizes, imagino.
— Se é isso que ela quer… não temos o que opinar. Não é da nossa conta. — A madrasta não levantou os olhos.
interveio com calma, mas firmeza:
— O que a quer importa, sim. E ela quer isso. — disse, olhando diretamente para os . — Ela é a minha irmã, e eu confio no julgamento dela. Se ela diz que ama o , eu acredito.
A resposta pareceu deslocada aos ouvidos frios do pai de , mas tranquilizou os pais de , especialmente a Sra. , que o olhou com simpatia.
— É bom ver que ela tem pelo menos um irmão que a apoia. — disse, lançando um olhar leve à madrasta, que permanecia apática. — E você, ? Está mesmo preparado pra isso tudo?
— Mais do que nunca. Eu amo a . — respondeu ele, convicto. — E estou pronto pra fazer isso funcionar, juntos.
— Amor é bom. Mas não resolve tudo.— O pai de mexeu a cabeça em um gesto breve, sem emoção.
respirou fundo, e embora a vontade de retrucar fosse intensa, manteve-se elegante.
— Mas é um bom começo. Melhor do que o desprezo ou a indiferença. — disse com um leve sorriso, disfarçando a crítica.
olhou para ele com carinho, entendendo perfeitamente que, mesmo sem levantar a voz, o irmão estava lutando por ela. Ele permanecia firme, como sempre, enfrentando aquele jantar ao lado dela.
A Sra. , emocionada, olhava de um lado para o outro, tentando entender como uma garota tão gentil, afetuosa e educada como podia ter saído de pais tão gelados.
— Eu realmente fico impressionada. — disse ela, encarando a futura nora. — Você é doce, amável… e mesmo assim, tão forte. Não é todo dia que encontramos alguém assim..
— Eu aprendi a me virar cedo. E sempre tive o do meu lado. E agora, o . — sorriu com gratidão.
O jantar seguiu entre pequenos silêncios e trocas formais. Quando terminou, a impressão que restava era clara: o casal havia convencido os de que estavam apaixonados — mas, muito mais do que isso, os haviam percebido que a verdadeira força de não vinha da criação que tivera, e sim do amor que soube cultivar por si mesma, e agora, por .
Ao saírem do restaurante, a Sra. comentou com o marido em voz baixa:
— Como ela consegue ser assim com pais como aqueles?
— Sorte nossa que ela encontrou o . Ela vai finalmente ter uma família de verdade.— O Sr. balançou a cabeça devagar.

CAPÍTULO 12: Listas, Opiniões e Pessoas Demais

A casa nunca pareceu tão pequena.
Não era uma impressão passageira — era uma constatação física, quase matemática. Havia pessoas demais, vozes demais, opiniões demais para um espaço que, até pouco tempo atrás, era silencioso o suficiente para ouvir o próprio eco.
Agora, não.
estava sentado perigosamente no braço do sofá, gesticulando como se estivesse em um palco imaginário. ocupava o chão sem o menor constrangimento, espalhado sobre o tapete com um catálogo de buffet aberto e marcas de dedo de chocolate em pelo menos três páginas. tinha assumido a cozinha como território neutro, abrindo a geladeira sem pedir permissão — duas vezes — enquanto analisava opções como se estivesse em um reality culinário.
, como sempre, não ocupava espaço algum… e, ainda assim, parecia ocupar todos. Encostado no batente da porta, braços cruzados, observava tudo em silêncio, como se estivesse estudando uma espécie rara de comportamento humano.
E no centro do caos, .
Sentada à mesa, laptop aberto, planilha piscando em cores que gritavam organização, ela tentava manter alguma ordem enquanto Amélie engatinhava perigosamente perto de uma pilha de amostras de flores, puxando fitas, derrubando papéis e babando sobre tudo que parecia importante demais para ser brinquedo.
— Não… não isso… — murmurou, esticando o pé para afastar um catálogo do alcance da criança sem nem olhar. observava a cena com um misto de exaustão e algo que se parecia perigosamente com felicidade. — Ok. — disse, batendo palmas uma única vez, firme o suficiente para cortar o falatório. — Atenção, por favor. A ideia aqui era organizar o casamento. Não transformar isso numa convenção.
— Convenção não. — corrigiu, ofendido de brincadeira. — Consultoria artística. — Eu só vim garantir que você não vai escolher uma música cafona. — completou, sério demais para quem claramente estava se divertindo.
— O casamento não é seu. — rebateu.
— Ainda bem. Porque se fosse, teria fogos, coral e coreografia.
— Definitivamente não. — respondeu, sem levantar os olhos da tela.
— Pergunta importante. — ergueu a mão como se estivesse em sala de aula.
— Diga. — suspirou.
— Vai ter comida suficiente?
riu da cozinha.
— Ele fala isso como se tivesse passado fome. — veio até a sala, sabe-se lá de onde, inconformado.
— Casamento sem comida boa é crime. — concluiu, convicto.
— Você por acaso esqueceu que o irmão do noivo é simplesmente chef de um dos restaurantes mais renomados da cidade? — disse simples e sem muita agitação.
Amélie aproveitou a distração geral para agarrar um arranjo de flores artificiais e tentar levar à boca.
— Ei, ei, ei — interrompeu tudo, levantando-se rápido para pegá-la no colo. — Isso não é comestível.
Ela reclamou, contrariada, e logo se distraiu com o cordão da blusa dele.
— Vocês sabem que isso não é uma turnê, né? — resmungou, balançando a filha de leve.
— Relaxa. Se fosse uma turnê, isso já teria virado um caos maior. E alguém já teria desistido no meio. — soltou um meio sorriso, quase imperceptível.
— Provavelmente eu. — admitiu.
— Vocês já decidiram como vai ser a entrada? — se aproximou da mesa, apoiando as mãos na madeira.
— Ainda não. — parou de digitar, olhando para ele como se tentasse entender melhor a definição dele de “entrada”.
— Tipo… quem entra com quem. — ele continuou. — Principalmente com a Amélie.
A pergunta pairou no ar de um jeito diferente. Mais quieto. Mais atento.
ergueu o olhar para por um segundo antes de responder.
— A gente estava pensando em entrar com ela juntos.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi denso.
— Tá. Pronto. Acabou. Já chorei por dentro. — foi o primeiro a reagir, levando a mão ao peito de forma teatral.
— Não, sério. — apontou para eles. — Isso é muito simbólico. Tipo… somos um time.
sentiu o peso daquelas palavras de um jeito inesperado. Não como cobrança — mas como reconhecimento.
— Vocês perceberam que ninguém aqui tá duvidando disso? — ele comentou, quase para si mesmo.
— Porque esses palhaços shippam vocês. — descruzou os braços.
A frase não foi dita em tom dramático. Não precisou. Caiu no ambiente como algo definitivo. Pesado. Bom pesado. Daqueles que não machucam — sustentam.
engoliu em seco.
Amélie, completamente alheia à carga emocional do momento, bateu palmas no colo dele, orgulhosa do barulho que tinha acabado de fazer.
— Isso é um bom sinal, se a gente tá enganando quem sabe que é mentira, imagina quem não sabe e eu acho que a Amelie aprovou. — sorriu, os olhos levemente marejados sem perceber.
— Ela aprova tudo que envolve atenção. — respondeu, beijando a bochecha da filha.
— Então… flores? — pigarreou.
— Sim. — respirou fundo, voltando à planilha. — Flores, convidados, horários e limite de opiniões.
— Boa sorte com esse último. — murmurou.
Enquanto o caos voltava em forma de risadas, sugestões contraditórias e pequenas discussões inúteis, observou a cena com cuidado.
Não era apenas um grupo de amigos dando opinião demais.
Era gente que tinha ficado quando tudo virou do avesso. Gente que ajudou, que errou, que aprendeu junto. Gente que agora ajudava a construir algo novo.
Aquele casamento não estava sendo planejado por um casal isolado.
Mas por uma rede inteira que, aos tropeços, risadas e sustos, tinha aprendido a ser família.
E, pela primeira vez, isso não assustava, aquela ideia que precisava ser vendida, estava começando a ser vivida.


Continuaa...



Nota da autora: Olá Jiniers, como.estamos? aaaaa vamos começar a bagunça da organização desse casamento, eu amo. espero que gostem tambem :)
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.   



 

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