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Última atualização: 29/09/2020

Capítulo único

Reggie estava muito animado com a grande apresentação no Orpheum. Só os integrantes da Sunset Curve sabiam como tinha sido difícil chegar até ali e o que abrir aquele show significava para suas carreiras.
— Finalmente o grande dia — Luke pulava dando tapinhas nas costas dos amigos — Tudo que fizemos até aqui finalmente vai valer a pena — sua voz atingiu um tom triste, que tentou inutilmente disfarçar.
Alex, Bobby e Reggie se olharam. Todos sabiam o que se passava na mente do vocalista mas ninguém sabia o que deveria ser dito. Incerto, Alex se aproximou abraçando o amigo. Luke não queria chorar, mas queria acima de tudo que as coisas tivessem acontecido de uma maneira diferente.
— Eles vão ficar orgulhosos quando fizermos sucesso, sei que vão — disse sem soltá-lo — As coisas vão voltar ao normal, Luke.
— E não é que eu não goste de ter você lá em casa — Reggie riu, se juntando ao abraço — Mas eu vou adorar ter meu quarto de volta.
— A gente sabe pra que você quer seu quarto de volta — Bobby riu cutucando o garoto.
— Um pouco de privacidade não faz mal pra ninguém — gargalhou balançando a cabeça.

De fato Reggie sentia falta em ter seu quarto só para ele e . Desde que Luke brigou com os pais e passou a morar com ele, o casal precisava encontrar lugares alternativos para namorar. Não que fosse um problema muito grande para os dois, mas não iam reclamar quando voltassem a ter o quarto de Reggie só para eles.
adorava cada um dos Sunset Curve e nunca perdia uma apresentação, então o baixista sabia que a qualquer momento a garota bateria na porta do camarim. Ela era a coisa mais importante que ele tinha, junto com a música.
— Eu mal posso acreditar que chegamos até aqui — Bobby deu uma boa olhada no camarim — Da para acreditar que tem até chocolates para gente?
Alex gargalhou.
— Como você pode pensar em mais comida se acabou de comer um hambúrguer?
— Porque não é comida, é doce.
Teriam começado uma discussão se doce contava ou não como comida, não tivessem ouvido três batidas familiares na porta.
— É impressão minha ou vocês já estão discutindo? — abriu a porta rindo — Porque eu não posso ficar cinco minutos fora antes de vocês começarem a se matar.
— O Alex que gosta de implicar com o meu apetite — Bobby se defendeu — Por isso é sempre bom te ver, .
— É bom ver todos vocês — ela abraçou os garotos um por um, deixando seu namorado por último. Reggie foi cumprimentado com um beijo.
— Mas você vê o Luke literalmente o tempo todo — Reggie reclamou — E ainda acha que é bom ver ele?

— É o charme, meu querido Reginald.
— Ou é porque ele ta me devendo cinco pratas por não ter pulado na piscina da escola ontem a noite — a garota ergueu uma das sobrancelhas — Você acha que eu esqueci?
— Eu nem contaria com isso — ele riu negando — Te pago com o dinheiro do show.
As palavras do guitarrista causaram um impacto positivo em . Era incrível como tudo soava tão natural para aqueles quatro.
— Ai eu estou tão orgulhosa de vocês — a garota pulou, os puxando para mais um abraço em grupo — Amanhã seus rostos estarão estampados em todos os jornais! Sunset Curve a melhor banda de rock desde os Beatles! — completou sonhadora.
— Amo o jeito que você me apoia — Reggie depositou um beijo no canto da boca da menina, a fazendo sorrir e abraçá-lo mais forte.
— Não sei se você reparou, mas ela está apoiando todos nós — Luke piscou para o amigo, sentindo seu ombro ser empurrado por Alex
— Não estraga o momento deles, cara.

suspirou fundo, olhando devagar para todos os meninos. Nos dois anos em que eles ensaiavam na garagem de sua casa, todos os dias eles ansiaram pelo momento em que sua carreira daria uma guinada. E não existia nenhuma banda que chegou a tocar no Orpheum e que não foi um sucesso. A Sunset já tinha seu primeiro cd, camisetas e fãs. Inclusive algumas vezes teve que lidar com olhares atravessados de fãs quando era abraçada por seu namorado. Ela não poderia estar mais feliz.

Indiretamente tinha se envolvido com os problemas de cada um dos integrantes. Os pais de Luke não apoiavam sua carreira, então depois de uma briga terrível ele se mudou para a casa de Reggie. Não tocaram muito no assunto desde então, mas a garota percebia o quanto ele estava sofrendo pela separação. Alex tinha tomado coragem e conversado com seus pais sobre sua sexualidade. Não estava sendo fácil para eles lidarem com isso, mas estava sendo ainda pior para o garoto conviver suas caras de decepção. Os pais de Reggie estavam em uma briga eterna sobre se divorciarem e o garoto tentava não demonstrar o quanto estava chateado com aquilo. E era por isso que aqueles meninos, três mais do que outro, passavam todo o tempo que podiam ensaiando, ou jogando conversa fora, no estúdio improvisado que fizeram na garagem de sua casa. Só ali conseguiam se esquecer de todos os seus problemas e focar nas coisas que eles amavam.
Mas todos eles sabiam que seus problemas acabariam quando começassem os shows. Os pais de Luke saberiam que tudo valeu a pena, os pais de Alex provavelmente esqueceriam a sexualidade do filho e os pais de Reggie poderiam se esquecer de todos os problemas que tinham em seu relacionamento se tivessem um filho famoso. E foi com esse pensamento que os quatro se dirigiram para o palco, e para a frente do mesmo, para passarem o som.
— Eles são incríveis — uma garota ao seu lado comentou enquanto limpava uma das mesas do bar — De todas as bandas que eu já vi passarem por aqui, são uma das melhores.
— Esses meninos dão a vida pela música — riu fraco, vendo Reggie piscar para ela — Estamos todos esperando o dia em que eles se tornarão um grande sucesso.
— Não vai demorar muito, pelo visto.
— Eu espero que não — respondeu se virando para a garota — Muito prazer, eu sou .
— E eu sou Rose — ela riu meio sem jeito, ajeitando seus cabelos cacheados.
— E então, você toca alguma coisa?
— Já estive em algumas bandas, mas nada realmente grande por enquanto — deu de ombros.
— Qualquer coisa você pode trabalhar em uma gravadora, sabemos que você sabe reconhecer talento — a garota piscou — Ai eu amo Now or Never. Vem, você pode fazer uma pausa né?
não esperou uma resposta antes de pegar Rose pela mão e guiar para mais perto da banda, enquanto os meninos davam risada. Bobby não tirava o olho da morena, o que fez gargalhar alto.

Clocks move forward But we don't get older, no


cantava a plenos pulmões pulando e fazendo com que Rose pulasse junto, sentindo a música.

Keep dreaming like we'll live forever But live it like it's now or never


— Essa música vai ser o maior sucesso da banda, pode escrever o que eu digo — riu enquanto Rose concordava — Ai, minha parte favorita — gritou.

We're the revolution that's been singing in the rain


— Não pode ser sua parte favorita só porque é o seu namorado quem canta — Luke falou no microfone enquanto o resto da banda começou a rir. se limitou a dar de ombros e sorrir.
— Eu achei um parâmetro muito bom — Reggie piscou.

— Bom, essa foi a última — os meninos desceram do palco — Estamos preparados!
— Vocês vão arrasar — comentou orgulhosa, sentindo Reggie abraçar suas costas.
— Essa noite vai mudar as nossas vidas — Luke concordou.
Todos eles conseguiam sentir o quanto aquela noite seria importante, mas nem em seus piores pesadelos seriam capazes de imaginar o que realmente estava para acontecer.

— Acho que a gente devia comer alguma coisa antes do show — Luke sugeriu — Eu tava pensando em um cachorro quente!
— Boa! — Alex e Reggie falaram juntos, batendo as mãos.
— Eu tô de boa, não como carne — Bobby respondeu jogando o cabelo em uma tentativa de impressionar Rose.
A garota riu, não querendo dar muita atenção para o garoto a sua frente.
— Vocês são muito bons — respondeu simplesmente.
Os meninos se apresentaram e Reggie lhe deu um cd e uma camiseta - tamanho gatinha - o que fez automaticamente arquear as sobrancelhas enquanto o garoto ria dizendo só ter olhos para ela. No fundo ela adorava ver o namorado tão feliz distribuindo sua banda por aí. Sabia que era o primeiro passo para a Sunset Curve ser conhecida e eles receberem o reconhecimento pelos dois anos de ensaios, composições e noites mal dormidas.

Todos se conheceram na escola. Se esbarravam todos os dias pelos corredores e frequentavam as mesmas aulas. já namorava Reggie a quase um ano quando os garotos fizeram amizade e resolveram juntar sua paixão pela música por meio de uma banda, achando que a garagem não usada na lateral da casa da garota era a melhor opção. Ela não se opôs e muito menos seus pais que apareciam de vez em quando para levar refrescos, lanchinhos e aproveitar o som que começava a surgir.
— Vocês não tem que ir não? — Bobby cerrou os olhos querendo ficar sozinho com Rose o mais rápido possível. Os quatro deram de ombros, disseram até logo para a garota e saíram.
— Bom, também é aqui que eu me despeço! — segurou Reggie e abraçou sua cintura — Até logo, rapazes.
— Você não vem com a gente? — Reggie a abraçou de volta e beijou o topo de sua cabeça.
— Preciso de um banho antes do show, nem estou com a minha camiseta da Sunset ainda.
— Mas não vamos demorar — Luke interviu — Tem tempo para o show.
— Você pode comer com a gente e ainda vai dar tempo de voltar para sua casa e tomar um banho — Alex completou enquanto os outros assentiram.
— E a camiseta não é problema, tenho várias tamanho gatinha bem aqui — Reggie piscou — A gente pode ir lá dentro para você se trocar e…
— Eu adoro passar um tempo com vocês, sabem disso. E também sabem que eu deixei o carro na oficina depois que deixei Reggie e Luke aqui — puxou Alex e Luke para um abraço apertado — Preciso buscá-lo, mas estarei de volta em meia hora. Amo vocês.
— Amamos você! — os dois responderam correspondendo o abraço.
se dirigiu até seu namorado.
— Vê se não come demais antes do show, você precisa estar na melhor forma — ela gargalhou o puxando para um beijo demorado — Te vejo em meia hora. Te amo.
— Te amo — o garoto respondeu, observando enquanto ela se distanciava.

Como já ia ter que tomar banho, correu até a oficina para buscar o carro. Não teria problema em ficar suada e economizaria tempo o suficiente para conseguir dar um abraço nos garotos antes do show começar. Pegou o carro e foi para casa, tomando um banho rápido e colocando uma de suas camisetas da Sunset Curve. Essa em especial era importante demais para a garota. Se lembrava perfeitamente do dia em que Reggie e Luke chegaram de bicicleta no estúdio com duas caixas cheias de cds e camisetas. Todos decidiram que a primeira camiseta deveria pertencer a como fã #1 da banda. E foi exatamente o que eles escreveram nas costas da camiseta “a primeira camiseta para nossa primeira fã”. acreditou que seria um símbolo de boa sorte usá-la no primeiro grande show da Sunset Curve.

Enquanto dirigia de volta para o Orpheum, o cd da banda tocava no rádio do carro e a menina cantarolava Now or Never animadamente. Resolveu estacionar perto do bar, mas não o suficiente para que a lotação de carros a impedisse que sair depois. Estava virando uma das ruas perpendiculares quando viu uma ambulância e o relance de uma jaqueta que ela conhecia muito bem. Freou bruscamente e correu para fora do carro, deixando a chave na ignição. Ouviu um grito ao ver o corpo de Reggie deitado em uma das macas, Luke e Alex em macas próximas. Demorou para perceber que o grito tinha saído de sua garganta e que tinha abraçado o pescoço de seu namorado, já que tinha alguém tentando tirá-la de cima dele.
— Senhorita… senhorita…
chorava descontrolada, sem conseguir falar. Queria gritar que algo estava errado, que aquele era o seu garoto e que aquilo não poderia estar acontecendo. Mas por mais que tentasse, não conseguia pronunciar nenhuma palavra. Mal ouvia o paramédico que tentava a todo custo acalmá-la.
— Eu sinto muito — o homem dizia — Não pudemos fazer nada.
Mas não era nisso que ela queria acreditar. Involuntariamente tirou o colar do pescoço Reggie e colocou no seu próprio e depois se sentou no chão enquanto a ambulância levava as pessoas que ela mais amava no mundo. Quanto mais a ambulância se distanciava, mais chorava pensando que não tinha conseguido se despedir de Alex e Luke. Atrapalhou o trânsito até seu pai chegar para buscar o carro. Ela não sabia como ele soube e nem porque tinha ido até lá, mas não tinha forças para se levantar e dirigir. Sentiu que alguém a guiava e se permitiu ir junto, mesmo sem saber para onde. Não retomou a consciência de nenhum de seus atos até que se viu sentada no chuveiro abraçando as próprias pernas enquanto a água caia em sua cabeça. Pensou em Reggie, no resto da banda e nos sonhos interrompidos. Tentou se levantar mas mal conseguia sentir as próprias pernas. Então a garota se arrastou para fora do chuveiro e deitou do lado de fora, sentindo o gelado do piso contra suas costas. Fechou os olhos desejando estar com o homem que amava e o sorriso de Reggie invadiu seus pensamentos lhe dando uma onda de coragem. Ela continuaria sua vida do jeito que eles sempre sonharam, por ele. Apertou o colar contra o peito e voltou a chorar até pegar no sono.

Os dias são muito confusos depois que você perde alguém muito importante, principalmente os primeiros dias. Os garotos tiveram velórios separados, então decidiu que acompanharia os pais de Reggie e visitaria o túmulo dos outros depois. Não saiu do lado da mãe dele nem por um segundo sequer. Gostaria de dizer que ela se manteve forte ao lado da mulher para lhe passar conforto, mas seria difícil dizer quem chorou mais, mesmo com a garota se esforçando. Eles se divorciaram logo depois, admitindo que era pelo garoto que continuavam juntos, e depois desse dia, não houve um em que não acordasse e fosse para a casa da mãe do garoto. Era reconfortante saber que existiam pessoas que sabiam exatamente o que ela estava sentindo e estariam unidos pelo resto de suas vidas pelo amor que sentiam por Reggie.
Mas estava cada dia mais difícil continuar sem ele. A porta do estúdio improvisado foi trancada permanentemente depois que os garotos se foram. Ela não tinha mais coragem de entrar no lugar onde cada centímetro a lembrava daquilo que perdeu. Também tinha perdido o contato com Bobby. De todos, sempre foi aquele que ela fora menos próximo. E sabia que não conseguiria olhá-lo sem desmoronar novamente.
Seus pais começaram a se preocupar depois de um ano. No começo, acreditavam que era saudável ela viver o luto, mas depois começaram a perceber que a fase de luto já deveria ter passado. Depois que recuperaram os pertences do menino, seus pais decidiram que poderia ficar com o que quisesse, então ela separou suas peças favoritas. Não tinha tirado o colar desde o dia do acidente, mas agora também não ia para lugar nenhum sem sua jaqueta de couro e a camisa xadrez. Com o tempo ficou mais parecida com Reggie do que com ela mesma.

— Precisamos vender a casa — seu pai disse uma vez, mas a garota se limitou a assentir. Nunca prestava atenção nas coisas a sua volta.
Seus pais se entreolharam sem saber direito o que fazer, não era a primeira vez que tentavam tocar no assunto mas a garota sempre tinha a mesma reação. Sabiam que ela não estava ouvindo nem uma palavra. Sua mãe respirou fundo e decidiu que o dia não poderia acabar sem que tivessem aquela conversa.
querida — chamou, a buscando pelas mãos — Seu pai e eu decidimos que vamos vender a casa e nos mudar.
— Não! — ela respondeu, como se saísse de um transe — Eu não posso ir embora, tudo o que eu conheço está aqui.

— Oh meu amor — sua mãe a abraçou — Ele não vai voltar.
— Eu não posso, mãe, não posso deixá-lo. Deixar sua mãe .
— Vai ser mais fácil para vocês seguirem em frente dessa forma.
negou e subiu correndo para o quarto. Se abraçou sentindo o perfume nas roupas do garoto, que fazia questão de lavar do mesmo jeito para manter o mesmo cheiro, e se sentiu subitamente acolhida. Decidiu que talvez seus pais estivessem certos. Não precisava perder o contato com a mãe do Reggie e também não estaria o deixando para trás. Ele estaria onde ela estivesse.

No dia seguinte acordou se sentindo melhor do que se sentiu nos últimos meses. Tem coisas que mesmo sabendo, precisamos que alguém nos fale. Desceu e anunciou que para ela tudo bem se mudarem da casa. O que não podia imaginar é que faziam meses que estavam planejando se mudar e já tinham até arrumado uma casa e uma companhia de mudanças. Estavam apenas esperando que a menina se sentisse confortável para ir embora.
Como queriam ir embora o mais rápido possível, ligaram para a corretora de imóveis e para a transportadora, descobrindo que poderiam se mudar já no dia seguinte. não pensou duas vezes antes de sair naquele dia, sem mesmo terminar seu café. Não tinha voltado a dirigir desde o incidente, então foi de bicicleta o mais rápido possível até a casa que a tempos atrás era onde se encontrava com seu namorado. Desceu afobada e entrou na cozinha, onde a mulher estava sentada tomando café.
— Preciso falar com você — começou sem saber direito o que falar — Meus pais acham que seria uma boa ideia nos mudarmos e eu aceitei — falou devagar — Mas de jeito nenhum eu quero perder o contato com você… é muito importante para mim.
— Sei disso — a mulher sorriu gentilmente, colocando sua mão sobre a cadeira ao seu lado e pedindo para que a garota se sentasse — Você tem sido uma luz em minha vida e eu sou muito grata por ter ficado todo esse tempo do meu lado. Mas eu também falei com os seus pais e concordamos que é uma boa ideia vocês se distanciarem. Não está fazendo bem para você estar o tempo todo em contato com o passado. Podemos conversar todos os dias — a mulher continuou — Não vamos ficar longe, você é minha filha.
começou a chorar, sem saber muito bem o porque. A abraçou apertado querendo aproveitar o máximo aquele momento, sem saber quando a veria novamente.
— Eu amo você — ela sussurrou.
— Eu também amo você, querida.

Ficou algumas horas com a mulher mas resolveu que não ficaria para o almoço. Se sentasse para comer com ela, talvez nunca mais fosse capaz de ir embora. Passou rapidamente em cada um dos três cemitérios e deixou um beijo para os meninos que roubaram seu coração. Prometeu que jamais se esqueceria deles. Como ainda tinha mais um lugar que queria ir antes de voltar para casa e encaixotar suas coisas, pedalou o mais rápido que conseguiu para a Sunset Avenue. Precisava estar mais uma vez no Orpheum antes de ir embora.
Entrou pela porta dos fundos, por onde entravam os artistas, sabendo que uma hora dessas o bar estaria vazio. Em uma das mesas laterais tinha uma pessoa extremamente familiar, que fez prender a respiração. No mesmo momento a garota também virou, colocando o pano que usava para limpar as mesas em cima do ombro.
— ela sussurrou como se não acreditasse no que estava vendo.
— Rose — respondeu, desviando o olhar. Nenhuma das duas sabia muito o que falar.
— Eu sinto muito — Rose falou e assentiu, inconscientemente colocando a mão sobre o colar em seu pescoço.
— Eu vou me mudar — resolveu falar — Meus pais vão vender a casa e eu achei que deveria vir aqui uma última vez. Mas agora que estou aqui — sua voz começou a falhar — não tenho muita certeza se fiz a coisa certa.
A menina se sentou no chão, no lugar onde a um ano atrás Reggie a abraçou pelas costas pela última vez. Sentia o coração bater mais rápido e dificuldade para respirar. Talvez tivesse sido uma péssima ideia ter voltado ao bar.
Rose se aproximou incerta.
— Precisa que eu ligue para alguém? — perguntou, mas não recebeu resposta.
A garota começou a responder alguma coisa incompreensível, deixando Rose preocupada. A barista se abaixou e pegou seu celular, procurando por algum contato que pudesse buscá-la. Encontrou um intitulado “pai” e discou, explicando toda a situação. O homem apareceu vinte minutos depois e agradeceu veemente a menina pela ajuda.

— Talvez eu não tenha superado tanto quanto imaginei — comentou com sua mãe horas depois enquanto dobrava uma das camisetas da Sunset Curve e colocava em uma caixa a sua frente.
A mulher observava com cautela o jeito que sua filha tratava as coisas que um dia foram do namorado. Mesmo com lágrimas nos olhos, ela sabia que a garota tentava a todo custo não demonstrar o quanto estava se sentindo triste e perdida. Não achava que andar por aí como se ele pudesse voltar a qualquer instante faria sua garota se sentir melhor.
— Você não acha que deveríamos devolver algumas das coisas do Reggie para seus pais? — arriscou, vendo a menina negar.
— Não, eu preciso dele.
— Ele não vai deixar de estar com você se parar de usar as roupas dele.
— Sei disso, mamãe.

Terminou de encaixotar todas as suas coisas e desceu para ajudar seus pais com a mudança. No fim, só sobrou um lugar. caminhou lentamente até o estúdio e olhou pelas janelas. Embora muito empoeirado, tudo continuava exatamente onde deveria estar. Pensou se deveria levar o baixo consigo mas resolveu deixar. Seria demais entrar naquele ambiente e tinha a sensação que ele seria muito mais bem aproveitado se ficasse ali para os novos moradores. Por fim, eles foram embora.

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— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH — os três gritaram sentindo uma força invisível puxá-los. Quando bateram com tudo no chão, perceberam que estavam de volta ao estúdio — O que estamos fazendo aqui?
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAH — uma garota gritou, olhando assustada para os três e saiu correndo o mais rápido possível.
— E quem é aquela doida? E porque ela ta na casa da ? — Reggie perguntou confuso.
Olharam em volta, era realmente o estúdio. O sofá estava ali e o cd da Sunset Curve tocava ao fundo. Mas as semelhanças acabavam ali. Flores estavam espalhadas pelo cômodo e um piano pegava poeira ao centro.
— Parece que a resolveu redecorar o ambiente depois que saímos daqui — Luke respondeu, se jogando no sofá.
— E porque ela faria isso? — Alex franziu as sobrancelhas — Ela nem toca piano.

Tudo aquilo estava estranho demais para os garotos, mas Reggie não conseguia falar nada pois muita coisa se passava em sua mente naquele momento. Teve muito tempo para pensar enquanto Alex chorava no quarto escuro. Não conseguia tirar da cabeça a cena de agarrada em seu pescoço enquanto ele lentamente flutuava para fora da ambulância. Queria voltar e falar para ela que tudo estava bem, que ele não ficaria bem sem ela mas que ela conseguiria seguir sua vida sem ele. Que se ele pudesse, jamais sairia do seu lado por um momento sequer, mesmo após a morte. Sentia como se só ele tivesse reparado na garota chorando desconsolada enquanto um paramédico tentava tirá-lo de cima dele, mas não quis tocar no assunto com os amigos.
Foi tirado de seus devaneios quando tempos depois, a menina voltou com um crucifixo nas mãos, fazendo os garotos darem risada.
— Acho que não é assim que funciona.
— Quem são vocês e o que estão fazendo no estúdio da minha mãe?
— Estúdio da sua mãe? Esse estúdio é nosso! — Luke reclamou — A gente tem uma banda chamada Sunset Curve e noite passada ia ser muito importante para nós.
A garota rapidamente pegou seu celular e digitou Sunset Curve no Google. Várias notícias apontavam uma banda em ascensão que teve um destino trágico e morreu no dia de seu primeiro grande show. Só que tinha uma coisa escrita que ela não sabia muito bem como contar para os fantasmas a sua frente.
— Realmente existiu uma banda chamada Sunset Curve — falou cautelosa — Mas vocês morreram há 25 anos atrás em 1995 e não na noite passada. Nós estamos em 2020.

Os números rodavam na cabeça de Reggie. Então se ele ainda estivesse vivo ele estaria com... quarenta e dois anos? E aquela garota tinha dito que o estúdio era da mãe dela. Não, não podia ser.
— Você disse que o estúdio era da sua mãe? — Reggie franziu as sobrancelhas.
— É com isso que você tá preocupado? — Luke perguntou, sentindo o ombro de Alex bater contra o seu, seguido de um “se liga, cara”.
— Sim, da minha mãe — a garota assentiu.
O garoto respirou fundo antes de perguntar o que rondava em sua mente.
— Você é filha da ?
— Ah — Luke soltou pensando que era por isso que Reggie não tinha falado nada desde que caíram no estúdio. Claro que ele sabia que o estúdio era da , mas com toda a confusão e gritaria ele ainda não tinha ligado todos os pontos.

— Que? Não, minha mãe não se chamava .
— Nem ? — Alex perguntou, pensando que a menina poderia não saber o antigo apelido de sua mãe. Colocou a mão nos ombros do baixista para consolá-lo com qualquer que fosse a resposta.
— Eu não tenho ideia de quem vocês estão falando.
Reggie respirou aliviado, então ela não tinha casado com outro cara e tido uma filha com ele, pelo menos não ali. Mas o que teria acontecido com ?

No dia seguinte, o Reggie decidiu que gostaria de visitar a casa onde morava com os pais, mas encontrou uma loja de bicicletas no lugar. Alex tentou consolá-lo dizendo que todo o quarteirão tinha mudado, mas não era um comentário que agradava.
— Todos eles se foram. Cresceram e superaram — Luke resumiu simplesmente, lembrando os amigos que nenhum deles tinha para onde voltar.
Mas era nisso que o baixista não queria pensar, que ela tinha crescido e se esquecido dele. Como se lesse seus pensamentos, Alex colocou o braço sobre seus ombros e sussurrou.
jamais se esqueceria de você e você também não precisa se esquecer dela. Podemos achá-la se quiser, não vamos descansar até vê-la de novo.
Reggie assentiu olhando para o que um dia foi sua casa e pensou em todos os momentos que tiveram juntos, enquanto uma lágrima escorria pelo seu rosto. Levou sua mão ao seu colar e em algum lugar bem longe dali, se sentiu compelida a fazer o mesmo.


Epílogo:

chegou cansada naquele dia. Depois que se mudaram tinha feito faculdade e começou a lecionar para adolescentes. Se sentia mais próxima de Reggie cada vez que estava junto de seus alunos pois conseguia ver neles o mesmo brilho que via no olhar da Sunset Curve.
As pessoas dizem que com o tempo você é capaz de superar qualquer perda, por mais importante que fosse para você. Mas a verdade é que as coisas nunca mais voltam a ser como eram antes. A dor continua ali, dia após dia em cada vez que acontece alguma coisa que te faz lembrar de tudo o que perdeu. A única coisa em que o tempo é capaz de ajudar, é fazer com que você se acostume com a dor e aprenda a conviver com ela.
Naqueles dias nenhum dos estudantes tinha prestado atenção na aula, devido a um vídeo que circulava nas redes sociais. prometeu para alguns deles que iria assistir quando chegasse em casa, mesmo sem ter a mínima intenção. Tinha se distanciado de qualquer tipo de música a anos e não sabia se estava pronta para isso. Mas também estava curiosa para saber o que tinha roubado a atenção de todos os seus alunos.
Jogou “Julie and the Phantoms” no Youtube pensando em como era um nome criativo e sentiu seu coração falhar uma batida quando a página abriu. O vídeo começava com uma garota tocando um piano bem onde morou a tantos anos, em frente ao estúdio onde a Sunset Curve ensaiava.
“É só uma coincidência boba” balançou a cabeça enquanto ouvia a garota cantar. Sentiu um quentinho no coração com a letra, que a lembrava de Luke. Talvez um dos cds que tinha deixado na casa tinha inspirado a garota, pois conseguia imaginar perfeitamente o vocalista cantando a melodia.
E então uma bateria começou a soar e dessa vez teve a certeza de que seu coração tinha errado todas as batidas. Não podia ser. O garoto cantando, os outros dois atrás no baixo e na bateria... Como uma coisa dessas era possível?
— Reggie?




Fim



Nota da autora: Eu queria muito uma fanfic de JATP então eu fui lá e fiz! HAHAHAHAH ficou bem tristinha mas é pra exaltar esse neném que é o Reggie.
E opa, eu tenho um aviso. No dia 31/10, Halloween, vai sair o primeiro capítulo da long de JATP que conta como o Reggie e a Liv se conheceram. Espero que gostem! O link já está no outras fanfics, então se você está lendo isso antes do dia 31, espera um pouquinho e volta aqui! E se você está lendo depois, vai em frente!





Fanfic de Julie and The Phantoms
Longfic:
Before I die

Fanfics de Harry Potter
Longfics:
Orchideous
Between the order and the death eaters
Shortfics:
Playing with the Moon
Under the Stars
The Moony's Way

Série Kisses com: Evie Darling, Samantha Black e Sophie Winter by Moony, Padfoot & Prongs
Kisses in the 3rd Room
Kisses in Hogwarts
Kisses in the Yule Ball
Kisses on Halloween



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