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Última atualização: 10/12/2021

Prólogo


“Cause I don’t wanna lose you now
(Porque eu não quero perder você agora)
I’m lookin’ right at the other half of me
(Estou olhando bem para a minha outra metade)
The Vacancy that sat in my heart
(O vazio que se instalou em meu coração)
Is a space that now you hold”
(É um espaço que agora você segura)

Justin Timberlake – Mirrors


100 a.C. (Antes de Cristo) – Grécia Antiga

Kalel franziu o cenho e crispou os lábios ao sentir o líquido doce-amargo ficar impregnado em seu paladar. Respirou fundo, esperando ansiosamente sentir alguma diferença em seu corpo, porém não notou nenhuma modificação.
Suspirou de modo frustrado.
Esperava — do fundo de seu coração — que aquela poção realizasse o que lhe fora designado. Possuía completo conhecimento de que Cibele era bem mais recomendada para criar aquele encanto, principalmente por ser filha de quem era e por estar mais acostumada a trabalhar com aquele tipo de feitiçaria.
Porém não podia pedir para que a mulher lhe fizesse uma poção tão poderosa como aquela, quando não tinha o mísero desejo de dividir tal preciosidade com a mesma e sequer queria que Cibele descobrisse seus planos.
Pousou o cálice sobre a mesa — procurando fazer o mínimo barulho para que não acordasse a mulher que dormia do outro lado da tenda — e pegou o punhal de prata de Cibele. Necessitava de alguma confirmação de que o elixir tinha funcionado, e a ideia que passava em sua mente era sua única opção.
Não pensou duas vezes antes de cortar a palma da mão em uma linha horizontal.
Pressionou os lábios — para que nenhum som escapasse de sua boca — ao sentir o latejar causado pelo corte aberto. Observou o sangue manchar a palma de sua mão recém-cortada e o punhal. Retornou o pequeno objeto cortante ao local que pertencia ao sentir o leve ardor em sua pele diminuir.
Limpou o sangue fresco em seu próprio quíton, sem se importar com o fato de que poderia manchar o tecido claro. Tinham coisas mais importantes em jogo do que uma simples peça de roupa.
Sorriu abertamente ao fitar a fina linha reta em sua mão. O corte aberto poucos segundos atrás estava completamente fechado, e o único sinal de que Kalel tinha se cortado era a pequena cicatriz esbranquiçada que reluzia devido à pouca luz presente no local.
Tinha conseguido.
A poção para a imortalidade estava finalizada, e parecia estar funcionando perfeitamente.
Kalel apressou-se para sair da tenda. A lua cheia brilhava no céu, iluminando as poucas cabanas espalhadas por aquele acampamento. Encarou a enorme esfera redonda no céu, que parecia estar poucos centímetros afastada do antigo e amplo salgueiro. Estava na hora de ir, Kalel sabia disso.
Não se preocupou com o que pensariam ao lhe ver correndo, a única coisa que importava para ele, naquele momento, era encontrar Calista o mais rápido possível. Tinham marcado de se encontrar na saída da cidade, afastados dos olhares curiosos e das ameaças que os cercavam. Iriam fugir naquela noite após se tornarem imortais.
Viveriam por toda a eternidade juntos, desfrutando do amor que nutriam um pelo outro.
Kalel parou de correr ao observar a estrada de terra a poucos passos à sua frente, tinha chegado até a saída da cidade. Permaneceu ali, parado — com o coração batendo a milhas — e encarando atentamente ao seu redor, esperando ansiosamente por Calista. Sabia que sua amada estava receosa, tinha medo de que fossem pegos, mas tinha total noção de que ela não o abandonaria.
Afinal, não existia nada mais puro do que o amor dos dois.
A inclinação da lua mostrava que Calista estava atrasada. Kalel conhecia a jovem extremamente bem para saber que ela não se atrasaria, muito menos em um dia como aquele. O dia em que eles finalmente estariam livres para se amarem sem nenhum empecilho.
Vagou por entre as árvores, seguindo o caminho pelas sombras da noite para que ninguém o enxergasse. Locomoveu-se pelo caminho que lhe era demasiadamente conhecido — devido às diversas vezes que fugia no alto da noite para poder encontrar Calista. Porém, naquela noite, tinha um sentimento desconhecido percorrendo seu corpo conforme se aproximava da morada de seu amor.
Possuía o presságio de que algo estava errado.
Franziu o cenho ao notar todas as velas acesas e a porta de madeira aberta. Mordeu o lábio inferior e respirou fundo, criando coragem para adentrar o local e dissipando de sua mente a preocupação. Porém o aperto em seu peito continuava presente e sua respiração acelerada denunciava o seu nervosismo.
Adentrou o local e estancou poucos passos após cruzar o batente da sala. Sentiu o aperto em seu coração aumentar e todo o sangue parar de circular por seu corpo. Estava em choque ao observar o corpo desfalecido de Calista jogado de qualquer jeito sobre a cadeira.
Saiu do transe apenas quando a mulher virou sutilmente a cabeça em sua direção, deixando um suspiro fraco sair pelos lábios sem cor. Kalel correu em direção ao corpo da amada, tomando-o nos braços com cuidado e abraçando-a conforme se acomodava no chão próximo onde Calista estava antes.
O corpo de Kalel tremia sutilmente contra o tronco frio de Calista. A respiração fraca e entrecortada da mulher batia contra o peitoral do amado. Os olhos femininos estavam fracos devido a todo o sangue perdido, porém permaneciam fixos na face do homem que ela tanto amava. Sorriu fraco — o máximo que sua condição lhe permitia — e sentiu o gosto metálico por todo seu paladar.
— Você bebeu? — Kalel perguntou de modo desesperado ao notar o cálice vazio.
Recebeu como resposta um simples balançar de cabeça em sinal positivo.
— Mas como... — deixou a pergunta morrer no ar ao observar a peônia branca pousada sutilmente em sua direção.
Sabia exatamente o que estava acontecendo.
Aumentou a intensidade do abraço, sentindo os olhos lacrimejarem ao compreender que aquilo tudo era sua culpa. Calista estava morrendo, e a culpabilidade era inteiramente sua. Amaldiçoou a si mesmo mentalmente. Ele estava a perdendo, sabia disto.
Não compreendia como Calista estava morrendo, mesmo após tomar a poção da imortalidade, mas sabia quem tinha feito aquilo com ela. Sentiu a mão trêmula e feminina pousar sutilmente em seu rosto, atraindo sua atenção para a face pálida de sua amada.
— Eu te amo. — Cal falou com dificuldade, o tom de voz não era nada mais do que um simples sussurro.
— Eu te amo. — Kalel repetiu e notou o sorriso fraco nos lábios da amada. — Por toda a eternidade.
Não conteve o choro ao sentir a mão de Calista abandonar seu rosto e a respiração fraca cessar. Deixou que as lágrimas rolassem por sua face, nada mais importava naquele momento, tinha acabado de perder o amor de sua vida. Apoiou o rosto de Calista na curva de seu pescoço e gritou.
Gritou o mais alto que conseguia, sem se importar com a atenção que atrairia.
A mulher que amava estava em seus braços, morta, por sua culpa. O peso em seu coração era enorme. Estava sem Calista, sabia que nunca mais amaria alguém como amou aquela mulher, com todo o seu ser.
Encontrava-se perdido, sem rumo, mas agora estava obrigado a viver por toda a eternidade.

Quíton: peça de vestuário unissex utilizada na época da Grécia Antiga. Era uma túnica, confeccionada por lã ou linho, usada tradicionalmente com um cinto à altura da cintura, preso sobre os ombros com alfinetes ou broches.


Capítulo Um


How can you miss someone you've never seen?
(Como você pode sentir falta de alguém que nunca viu?)

Oh, tell me are your eyes brown, blue, or green?
(Oh, me diga, seus olhos são castanhos, azuis ou verdes?)



How can you miss someone you've never met?
(Como você pode sentir falta de alguém que nunca conheceu?)

'Cause I need you now but I don't know you yet
(Porque eu preciso de você agora, mas ainda não te conheço)

Alexander 23 – IDK You Yet



1967 – Universidade Columbia, Nova Iorque, Estados Unidos
A jovem sentia-se feliz, completamente e inteiramente feliz, e sabia que o motivo para toda a sua felicidade era graças ao homem deitado ao seu lado. Não se imaginava vivendo um romance
— principalmente tão intenso quanto o qual estava vivendo —, não possuía sequer a mínima intenção de começar um, mas não pode negar a atração que sentiu pelo britânico que cursava história.
— Você está me encarando. — a voz do homem ecoou pelo quarto silencioso, arrancando pequenas gargalhadas de sua companheira.
Ela estava o encarando, adorava gastar longos segundos admirando sua expressão serena e sua beleza, mas não admitiria isto, não completamente.
— Não. — rebateu em falso ultraje, recebendo um arquear de sobrancelhas como indagação. — Estou apenas te admirando.
Os olhos masculinos foram abertos — pela primeira vez desde que a conversa fora iniciada — e o verde cativante atraiu a atenção da jovem. Lucille poderia facilmente passar o resto do dia apenas admirando o verde do olhar de Stephan. Suas íris eram como duas jóias preciosas as quais ela tivera a sorte de poder admirar.
— Eu fico sem graça com você me encarando desse modo. — Stephan confessou, fazendo com que dessa vez Lucille arqueasse a sobrancelha.
— Preciso guardar cada detalhe seu em minha mente, afinal este é o nosso último dia. — o tom de voz melancólico da jovem tornou-se presente, acabando com boa parte da felicidade que ela mesmo sentia minutos atrás.
Só o mero pensamento de saber que ficariam longe um do outro por um tempo indeterminado fazia com o que o estômago de Luci se embrulhasse e seu coração pesasse.
Stephan enlaçou os braços ao redor da cintura de Lucille e a puxou para perto, colando seus corpos.
— Olhe para mim, isto não é uma despedida. — o tom de voz rouco saiu suplicante conforme o polegar acariciava a bochecha de sua amada. — Eu preciso resolver algumas coisas na Inglaterra, trancarei o curso apenas por ser necessário, mas voltarei o mais rápido que eu conseguir.
Luci contentou-se em levantar a cabeça, apoiando-a no braço de Stephan de modo que conseguisse encarar cada detalhe do rosto do amado.
— Promete que voltará para mim? — questionou com a voz levemente embargada.
O medo de que Stephan poderia acabar não voltando para a Califórnia consumia seu ser, enchendo-a de dúvidas e incertezas, enquanto se esforçava para não derramar as lágrimas que já embaçavam sua vista.
— Eu prometo. — murmurou, beijando a testa de Luci em seguida. — Eu sempre voltarei para você.
Luci não conteve o sorriso bobo — que, verdadeiramente, sequer tentou —, Stephan a fazia sentir-se de volta à adolescência, onde tudo era novo e intenso. Afastou-se do amado, saindo do abraço e da cama, seguindo até a singela escrivaninha colada à parede.
— Sei que já lhe perguntei isto, mas por qual razão não ir apenas nas férias? — Luci questionou, apoiando-se na madeira do móvel e sentando ali.
— É uma situação importante e eu preciso resolver rapidamente, espero por ela há tanto tempo que já me parecem séculos. — murmurou com um falso tom brincalhão. — Prometo que não notará minha ausência.
— Impossível, não vou me acostumar a não encontrá-lo pelo campus. — a jovem confessou, pegando a câmera em mãos e apontando-a na direção de Stephan, que continuava deitado na mesma posição.
Lucille poderia fazer uma exposição de fotos apenas com registros de Stephan deitado em sua cama, utilizando apenas uma bermuda e com a luz que entrava pela janela e iluminava seu corpo.
— Estarei apenas a um oceano de distância, mas meu coração permanecerá com você. — a jovem sorriu abertamente ao ouvir o tom sincero e carinhoso do amado.
— Ao menos deixe que eu registre sua imagem, apenas para o caso de que minha memória não lembre com perfeição cada mísero detalhe seu. Mesmo que eu saiba que você estará sempre gravado em minha memória.
Lucille não esperou pela resposta, levantando-se logo em seguida do móvel enquanto ligava a pequena câmera fotográfica Diana. Posicionou-se do melhor modo possível, tentando lembrar de tudo o que tinha aprendido ao longo do curso, e, a cada respiração, uma nova foto era tirada. Acabaria com o rolo inteiro de fotografia, teria dezesseis fotos de Stephan para admirar sempre que seu coração apertasse de saudades ou sempre que quisesse sentir o conforto que apenas a sua pessoa era capaz de dar-lhe.
— Acredito ser o suficiente. — o tom de voz reclamão se fez presente no exato momento que um pequeno som ecoou da câmera, anunciando a tentativa falha de capturar o momento, indicando o fim do rolo de fotos.
— Acabou o rolo. — Luci murmurou dengosa, abandonando a câmera na escrivaninha e voltando para o seu lugar na cama.
Acomodou-se novamente nos braços de Stephan, lugar do qual queria poder não sair nunca, e passou a acariciar suavemente seu rosto enquanto o admirava.
— Quero que fique com isto. — Stephan segurou a mão que passeava por seu rosto, tirando o anel que ficava em seu dedo anelar e entregando-o para Lucille. — Uma garantia a mais de que irei voltar e uma parte de mim presente em você para quando eu não estiver.
Stephan fechou suavemente a mão de Luci, mantendo o anel guardado na palma da mão, e beijou seus dedos.
— Eu voltarei para você, Lucille. — murmurou ao afastar a mão feminina dos lábios, dando um selinho singelo na amada. — Eu sempre volto.



levantou da cama em um pulo.
Abriu a mão direita, observando-a atentamente para ver se encontrava o anel em sua mão, mas a palma de sua mão estava vazia, por mais que conseguisse sentir o leve peso da joia depositada em sua mão.
Não tinha passado de um sonho.
Seu coração batia de modo acelerado, causando uma respiração desregulada que combinava perfeitamente com a face corada. Seu corpo estava completamente gelado, porém o suor colava sua roupa ao corpo e grudava alguns fios de cabelo em sua face e nuca.
Sabia com perfeição o motivo pelo qual se encontrava nessa situação.
Tinha sonhado novamente com o homem desconhecido, por mais que não conseguisse visualizá-lo em seu sonho.
Não lembrava com clareza sobre o sonho — apenas sobre o anel que estava tão vívido em sua mente, que sentia como se tivesse o visto com seus próprios olhos enquanto segurava fortemente a joia em sua mão. Sendo sincera, sequer saberia que tinha sonhado, se não fosse o estado em que seu corpo se encontrava — algo com o qual já tinha se acostumado após anos sonhando com a mesma sombra masculina.
A imagem do anel permanecia fixa em sua mente, mesmo sem nunca tê-lo visto, mas lhe parecia estranhamente familiar. Acreditou que poderia já ter sonhado com aquele anel, afinal aquele era o único motivo para que a joia desconhecida lhe parecesse tão familiar.
Também estava acostumada com aquilo. Afinal, esse foi o motivo pelo qual começou a pintar seus quadros. As belas paisagens, as faces diversificadas de sentimentos, os objetos esplêndidos, todos lhe eram completamente desconhecidos, porém extremamente familiares. E a partir do momento em que as imagens começaram a se tornarem repetitivas, aproveitou para pintá-las.
Nunca tinha visto — e sequer sabia se existia — o enorme e imponente castelo de pedras — com diversas janelas e com um jardim tão magnífico que foi necessário confeccionar outro quadro — que desenhara; ou a bela jovem de pele queimada pelo sol, com olhos expressivos e cabelos longos — os dois tão negros como a escuridão sem fim de um abismo –, e com uma túnica grega de cor rosada, que modelava inteiramente suas curvas e tampava mais da metade de sua face e arrastava até o chão; e muito menos o anel que estava mentalizado perfeitamente bem em sua mente.
Não compreendia o motivo pelo qual possuía aqueles sonhos — extremamente similares em vários aspectos e tão diferenciados em outros — e a razão para que acordasse tão afetada após eles; já tinha frequentado o psicólogo quando mais nova, porém desistiu ao ver que nada adiantava. Acabou aceitando os sonhos com o passar do tempo, ao notar que sempre após um aperto no peito, a respiração descompassada e o corpo suado, sua mente possuía uma imagem perfeita para, no mínimo, um quadro.
Após algumas noites de sono, até mesmo conseguia montar um acervo inteiro de novas obras. Não poderia reclamar, seu estúdio funcionava perfeitamente graças aos seus sonhos e praticamente quase toda sua renda era graças a isso.
Caminhou energeticamente até o banheiro de seu quarto, queria livrar-se o mais rápido possível daquela sensação agoniante que martelava seu peito sempre que possuía aqueles sonhos.
Precisava pintar.
Sentir o cabo de madeira do pincel em sua mão, misturar a aquarela de tintas enquanto buscava recriar o tom azul caneta tão perfeito e profundo quanto o que estava fixo em sua mente, desenhar a imagem que estava fixa em sua mente para que finalmente relaxasse.
Possuía a sensação de que já tinha visto aquele anel; se fechasse os olhos, podia claramente sentir o toque em relevo dos detalhes em seus dedos. A curvatura prata do anel, a forma oval e azul que ocupava o meio do acessório e até mesmo a letra S em um perfeito relevo ainda mais elevado do que os outros detalhes.
Despiu-se completamente da roupa, sentindo-a — em especial a blusa — levemente molhada pelo suor, e jogou as peças no cesto de roupas sujas. Estava acostumada com esse fato também. Alguns dias, acordava tão afobada e suada, que até a roupa de cama era necessário ser trocada.
Esses dias eram — normalmente — quando sonhava com o homem de face desconhecida chorando de modo tão doloroso que seu coração acordava mais apertado que nos outros dias, enquanto a figura masculina mantinha em seus braços uma jovem desfalecida.
Era sempre desse modo.
Nunca passou por episódios assim durante a infância, porém na adolescência — por volta dos dezesseis anos — começou a sonhar com o homem desconhecido que chorava copiosamente. Ao longo dos anos, os sonhos apenas aumentaram de frequência, tornando-se cada vez mais longos e marcantes. Nunca tinha conseguido observar o rosto do homem, mas sabia perfeitamente — igualmente naquele dia — que tinha sonhado com ele, pois a sensação de familiaridade que sentia pelo homem desconhecido era indescritível.
adentrou ao estúdio, não contendo o singelo sorriso ao ser recepcionada pelo usual aroma de lavanda presente em cada canto daquela construção. Admitia que não era o seu perfume preferido, ou pelo menos não foi por bastante tempo, até que o cheiro começou a se tornar extremamente familiar de um modo desconhecido.
Sabia que era peculiar, já tinha se acostumado com o fato de que não gostava de algo e, do nada, passava a amá-lo de um dia para o outro. E isto foi o que aconteceu com o perfume de lavanda, tornando-se um de seus aromas preferidos sem, aparentemente, motivo nenhum.
— Bom dia. — cumprimentou a amiga com um sorriso nos lábios, apoiando-se sobre o pequeno balcão de madeira que as separava. — Madrugou hoje.
analisou a amiga da cabeça aos pés, notando que, diferente dos outros dias, Margot estava arrumada. Tão arrumada que mais parecia que iria sair para um encontro.
— Irei encontrar um cliente hoje. — murmurou como se não fosse grandes coisas, mas o brilho em seu olhar e suas roupas a entregavam.
A mais nova contentou-se em arquear a sobrancelha, arrancando um resmungo da amiga que revirava os olhos.
— Talvez esse cliente seja amigo do meu irmão e, hipoteticamente, pode ser que eu tenha uma quedinha por ele desde os meus dezenove anos. — respondeu contrariada, fazendo com que um sorriso se abrisse nos lábios de . — Ele me contratou para que recrie uma foto de sua família, irá dar o quadro de presente para algum familiar.
— E você vai se adicionar na pintura? — questionou com um sorriso arteiro, recebendo apenas o dedo do meio como resposta. — Estarei pintando nos fundos, me ligue antes de sair.
Não esperou a confirmação da amiga, apenas retomou o caminho que fazia até a área onde suas telas e cavaletes ficavam. e Margot se conheciam desde a faculdade de Artes Visuais; ao graduarem-se com louvor, decidiram por então abrir um pequeno estúdio. Faziam alguns quadros livres — como era o caso de — e os apresentavam ali mesmo no espaço delas, já Margot preferia trabalhar com o público, criando pinturas encomendadas por seus clientes.
Revezavam-se apenas as duas para administrar o espaço; enquanto uma ficava no balcão — ao aguardo de futuros novos clientes ou o retorno dos antigos —, a outra aproveitava o espaço local para que pintasse.
entrou na sala onde seus sonhos ganhavam uma verdadeira imagem fora de sua mente, dirigindo-se para o seu lado da sala e pegando o avental que repousava próximo à porta.
Amarrou o tecido em volta do corpo e parou próxima ao seu cavalete com a tela branca vazia, mas sua atenção estava presa na coletânea de obras depositadas ao lado do apoio de madeira. tinha dedicado os últimos meses na completa confecção daqueles quadros.
No total, possuía em torno de trinta e oito pinturas, todas sendo obras baseadas apenas em seus sonhos.
Arregalou os olhos ao dar-se conta do dia em que estavam e saiu rapidamente da sala. Retornou à recepção, atraindo a atenção de Margot assim que cruzou a porta, recebendo o olhar risonho de sua amiga como resposta.
— Hoje é sexta-feira, dia quatorze. — murmurou levemente atônita, recebendo apenas um balançar de cabeça como resposta. — É o final de semana da exposição dos meus quadros.
Margot repetiu o gesto, balançando a cabeça suavemente outra vez, deixando que um sorriso brotasse em seus lábios. Sabia, desde o momento que cruzou a porta, que a amiga não se lembrava que aquele era o fim de semana que tinham marcado para a exposição dos quadros.
— Meu Deus, preciso terminar de arrumar as coisas. — murmurou ainda atônita, com os olhos arregalados. — Marg, pelo amor de todas as entidades divinas superiores a nós, me diz que você não vai realmente encontrar um cliente.
— Eu vou. — respondeu simplesmente, observando a fisionomia da amiga mudar completamente. — Mas não hoje.
tombou a cabeça para o lado e deixou que sua descrença transparecesse em sua face.
— Obrigada por quase me proporcionar um enfarte cardíaco. — murmurou irônica, arrancando uma risada baixa da amiga. — Pelo menos desta vez já está quase tudo preparado.
Margot arqueou a sobrancelha em sinal de desconfiança, deixando nervosa outra vez.
— Não está? — questionou receosa, arrancando risadas da amiga. — Sabe, às vezes eu te odeio.
A mais velha contentou-se em dar de ombros, sabia que não era verdade.
— Você me ama, nem tente negar. — Margot apontou o dedo em riste na direção de . — E sim, pela primeira, está quase tudo pronto. Só precisamos arrumar o local.
— E estamos esperando o quê?! — questionou retoricamente.
Precisaria deixar a pintura do anel para depois, não conseguiria sequer triscar no cavalete aquele dia. só esperava que conseguisse manter a imagem perfeitamente vívida em sua memória para que pudesse recriar com perfeição aquele objeto.


Os olhos de brilhavam de orgulho e felicidade ao observar as obras expostas, estava demasiadamente alegre por conseguir o feitio de confeccionar uma coleção tão bonita e completa como aquela, mas não conseguia resistir à leve melancolia que sentia sempre que observava suas maiores obras.
Era como se algo — ou alguém — estivesse faltando.
A exposição À Travers Les Siècles1 estava incrivelmente cheia para a sua noite de estreia, causando uma felicidade e um nervosismo ainda maior em . Aqueles eram seus quadros preferidos — mesmo que lhe despertassem inúmeros sentimentos sempre que os encarava —, e sentia-se como uma criança assustada ao exibir seu primeiro trabalho escolar.
Por mais que ela amasse a sua criação e soubesse que aquele era o seu melhor, ela tinha medo de que não gostassem.
Retornou inteiramente ao ambiente ao seu redor, ignorando seus pensamentos ansiosos e suas inseguranças, notando estar de frente para uma das primeiras pinturas expostas seguindo a ordem que julgou ser a cronológica.
Pegou uma taça de champanhe ao ver o garçom passando ao seu lado, agradecendo-o com um sorriso e agradecendo Margot mentalmente por ter arcado com aquele pequeno luxo.
Bebeu um gole de sua taça, focando sua atenção na pintura que mais lhe despertava sentimentos. Sentia seu coração aquecer com o amor, para logo em seguida as batidas descompassadas acabarem com a paz que sentia, fazendo com que o amor desse lugar para o medo.
As duas colunas gregas dóricas se encontravam nas extremidades próximas às bordas laterais do quadro; entre as colunas, uma tenda nude ocupava boa parte do fundo da tela. Mas a imagem que despertava tamanhos sentimentos em fora pintada mais para frente, ocupando a maior parte do quadro, de modo que a tenda não chegasse ao chão.
A figurinha masculina estava de um modo que seu rosto era uma incógnita, podendo-se observar apenas o pano vermelho naturalmente drapeado, cobrindo inteiramente seu ombro esquerdo, enquanto sua mão tocava o pano que cobria — quase que inteiramente — o rosto da mulher à sua frente, deixando apenas os olhos negros como os céus em uma noite nublada ao alcance da visão.
reconhecia-se naqueles olhos — não possuía o olhar tão marcante como o de sua pintura, não exalava todo aquele sentimento tão intenso de modo ingênuo —, mas sabia que acabava sempre se idealizando com suas criações femininas.
Toda vez que pintava um quadro com a face feminina, a desenhava naturalmente similar a sua — sem notar —, sempre constatando a semelhança apenas ao finalizar a obra.
Não sabia o motivo pelo qual fazia aquilo, ela apenas fazia.
— Boa noite, senhorita ? — a voz masculina e desconhecida a despertou de seus pensamentos, fazendo-a virar na direção do homem parado ao seu lado. — Sou Jonathan Edwards, pró-reitor da UCL2 e um amigo de longa data de Aurore Lavillant, preciso dizer que a pequena viagem da capital inglesa até a cidade das luzes valeu a pena.
— Muito obrigada, senhor Edwards. — sorriu verdadeiramente, estava feliz, aquela tinha sido a primeira pessoa desconhecida a parabenizá-la por seu trabalho. — Fico extremamente satisfeita em saber que a exposição compensou o trajeto.
— Posso perguntá-la sobre uma parte da coleção em especial? — Edwards questionou, recebendo um aceno de cabeça positivo, pondo-se a andar em direção à obra que desejava falar e sendo acompanhado por .
Pararam de frente para o quadro, Jonathan extremamente fascinado e completamente receosa.
— A senhorita conhece este local? — o homem questionou curioso, mantendo a atenção fixada na pintura do majestoso castelo de pedras.
franziu o cenho em confusão; ela tinha criado aquele castelo, era apenas tudo fruto de sua imaginação.
— Não. — respondeu simplesmente, atraindo a atenção de Jonathan para si. — Confeccionei este quadro após um sonho sobre a época dos highlanders3 e lordes, mas nunca o vi em minha vida além disto.
As sobrancelhas de Jonathan arquearam-se em surpresa e confusão, enquanto ele revezava o olhar entre a pintora e a pintura. Não podia ser, era impossível que a francesa tivesse recriado perfeitamente o Castelo Leoch antes que o abandono após a Batalha de Culloden4 o atingisse.
— Este é o Castelo Leoch, localizado na Escócia. — o homem entregou seu celular para a artista, que, mesmo confusa, não tardou em segurar o aparelho.
A imagem de uma construção afetada pelo tempo ocupava toda a tela, atraindo completamente a atenção de . As pedras estavam desgastadas e boa parte das que deveriam estar situadas no topo da construção não se encontravam mais ali; os diversos formatos das antigas janelas permaneciam marcados nas pedras e, ao longo de todo o castelo, era possível observar as marcas escurecidas causadas pelo tempo e o domínio que o lodo começava a tomar ao longo das paredes.
A construção histórica não se encontrava em seu melhor estado, mas não era aquilo que fazia com o que estivesse tão fixada na imagem; o motivo de sua fixação era o fato de sua pintura ser uma versão bem conservada do Castelo Leoch.
— Eles são iguais. — murmurou surpresa, devolvendo o aparelho para Jonathan. — Bom, tirando a deterioração pelo tempo. Eu devo ter visto a imagem do castelo alguma vez e ela acabou ficando na minha mente.
Jonathan negou com um leve menear de cabeça.
— Não existe nenhum registro, além de desenhos antigos, onde o castelo se encontre completo do modo que você desenhou. — o homem não conteve o tom de entusiasmo em sua voz, mas estava demasiadamente confusa. — A organização de história da UCL estará organizando um baile beneficente em duas semanas, gostaria que estivesse presente. Não precisa se preocupar, a universidade irá custear tudo.
concordou com um aceno de cabeça, ainda levemente tonta por causa de sua confusão.
— Será um prazer. — deixou que um sorriso sincero pintasse seus lábios.
— Neste baile nós iremos tentar patrocínios para os ramos históricos da universidade, por isto estamos selecionando um acervo histórico que possa atrair a atenção do público. — Jonathan virou-se completamente de frente para , focando sua atenção inteiramente na mulher. — Gostaria que desse o seu valor para que a sua exposição À Travers Les Siècles fosse exposta em nosso baile.

À Travers Les Siècles1: Através dos séculos;
UCL2: University College London;
Highlanders3: Que habita as Terras Altas (Highlands), na Escócia, ou dela é natural;
Batalha de Culloden4: Confronto entre as tropas do governo britânico e os rebeldes jacobitas, ocorrido no pântano de Culloden, na Escócia, resultando uma vitória para as tropas do governo inglês fiéis à casa de Hanôver


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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