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Última atualização: 23/04/2021

Prólogo

tamborilava nervosamente os dedos pela grande mesa de madeira. Eram quase duas da tarde e havia mais de quarenta minutos que ele estava sentado na mesma posição, com as mãos oscilando entre o apoio da cadeira e o novo instrumento que tinha inventado à sua frente.
O som que ele produzia pareceu irritar profundamente Steve, que fez questão de parar seu monólogo furioso, para fuzilar com os olhos e encará-lo em silêncio por alguns segundos antes de dirigir a palavra especificamente a ele.
— Você ouviu alguma coisa do que eu disse? — o agente perguntou, irritado, soltando um longo suspiro em seguida e pegando um copo de água em cima da mesa.
se contentou em balançar a cabeça para cima e para baixo algumas vezes. Se resolvesse falar, muito provavelmente pioraria toda a situação, que já não estava muito ao seu favor.
Ok, estava querendo enganar a quem? Não tinha nada a seu favor naquele momento. Até seus colegas de banda o olhavam atravessado do outro lado da mesa, certamente incomodados por terem que estar escutando também aquele discurso, que claramente estava sendo direcionado somente a ele.
— Desculpe por estarem ouvindo isso, meninos. — Steve confirmou as suspeitas do vocalista enquanto olhava para Benji, Bob e Bondy, que se olharam rapidamente sem saber muito bem o que responder.
O olhar do homem se voltou novamente para , que encarava os dedos finos, agora quietos, estendidos em cima da mesa.
— Quanto a você. — ele disse numa voz cansada, suspirando e procurando os olhos baixos do rapaz. — O que faço com você, ? — balançou a cabeça, largando o copo de vidro. — Tem noção de que é a terceira vez que cancelo com o estúdio? Tem noção de que não irão nos aceitar mais se eu cancelar novamente? — e o monólogo recomeçava. Não que tivesse acabado efetivamente em algum momento. — Nenhuma música, ! Nem uma. O que está acontecendo? Vamos ter que cancelar o álbum? Tem noção de que posso ser demitido?
apenas balançava a cabeça, pois, sim, ele tinha noção de tudo aquilo. O último álbum tinha sido lançado em 2016. Deste então, o vocalista do Catfish and the Bottlemen tinha entrado em uma espécie de comodismo. Não que ele gostasse de admitir isso, mas era algo evidente para todos naquela pequena sala de reuniões.
O comodismo, que no começo achava que era nada mais do que uma consequência natural e merecida de um longo e exaustivo processo de produção de músicas para o The Ride, foi se tornando algo muito maior. E, agora, enquanto Steve o encarava furiosamente esperando por respostas, tinha certeza de que o que estava tendo, afinal, era um gigante e insuportável bloqueio criativo.
Evitou pensar nisso nas duas primeiras vezes em que o estúdio havia sido reservado. Já era quase 2018 e não havia nenhum indício de álbum novo para fãs que o pediam diária e incansavelmente. pensava que conseguiria se conectar novamente com seu eu-compositor assim que entrasse em contato com a rotina outra vez. Não foi o que aconteceu.
Agora, já quase no meio de 2018 — fala sério, quando especificamente haviam chegado em maio? —, a reserva no estúdio havia sido cancelada pela terceira vez, e Steve tinha no rosto o mesmo olhar que dirigia a quando ele chegava atrasado para algum show ao vivo. As sobrancelhas juntas, a pupila anormalmente dilatada, a veia enorme saltando na testa, o maxilar travado e o nariz soltando ferozmente uma enorme quantidade de ar. Um olhar nada amigável, que o vocalista sabia que merecia.
Com certeza não lançariam nada naquele ano. E odiava saber que, além do olhar de Steve, teria que lidar com mais uma temporada de reclamações de patrocinadores, donos de gravadoras e, principalmente, dos fãs.
, ouviu? — o homem perguntou mais uma vez, levantando as sobrancelhas.
balançou a cabeça para cima e para baixo, mesmo não tendo escutado uma palavra.
— Ótimo. — ele retomou, arrumando alguns papéis em suas mãos. — Me avise se precisar de alguma coisa. Ouvi dizer que terapeutas são úteis nessas horas.
rolou os olhos, escutando algumas risadas discretas de seus companheiros. Decidiu se levantar logo, antes que o agente lembrasse de mais alguma coisa e recomeçasse a falar.
— Claro, Steve, obrigado. — disse já em pé, pegando o casaco, que estava apoiado na cadeira, e o colocando sobre os ombros.
O mais velho suspirou alto uma última vez, encarando os três rapazes sentados e o vocalista em pé, já dirigindo-se à porta da sala.
É melhor que façamos esse álbum dar certo. — ele falou, mas já tinha saído do local.


Capítulo 1: It’s like I’m on the outside

— Tudo bem. Entendo. — balançava a cabeça afirmativamente, como se a pessoa no outro lado da linha conseguisse ver seu gesto. Aliás, seria ótimo se conseguissem. Assim poderiam ver a tristeza claramente estampada em seu rosto, e sentir pelo menos pena dela naquele momento. — Nem como uma auxiliar? Posso ajudar algum professor mais experiente. — ela suplicou uma última vez, ouvindo a senhora negar novamente e sentindo seus ombros pesarem. — Tudo bem, obrigada.
Ela tentou sorrir enquanto desligava o telefone, mas seus olhos ardiam e ela não tinha vontade de fingir que estava minimamente feliz. Jogou o aparelho em cima da cama e suspirou, passando as mãos pelo rosto.
— Nada? — Jordyn, sua melhor amiga, perguntou apreensiva ao entrar no quarto com uma tigela e uma colher nas mãos.
Ela encarava , tentando adivinhar alguma resposta — embora o suspiro alto já a tivesse dado uma dica. balançou a cabeça, negando, e Jord soltou um suspiro pesaroso, indo em direção à amiga e batendo carinhosamente em seu ombro.
— Calma, você vai conseguir. — ela falou, tentando lhe passar força, e levou a colher à boca. — Olha, os meninos fizeram feijão e eu roubei um pouquinho, se você quiser. — disse com a boca ainda cheia.
fez uma careta, negando com as mãos e sentando-se na cama.
— Você tem que tomar cuidado com o que come. — ela disse, enquanto se acomodava e pegava o notebook aberto ao seu lado. — Não confio na comida do Mason. — ela balançou a cabeça, com a expressão séria. Ela arregalou os olhos de repente, olhando para Jordyn, que levantou as sobrancelhas. — E amanhã, quem limpa o banheiro sou eu. Larga isso agora.
Jordyn riu, colocando a tigela na estante ao lado da cama e sentando-se ao lado de , que procurava algo no notebook em seu colo.
— Sabe que dia é amanhã? — Jord perguntou, com um sorriso divertido estampado no rosto e uma voz animada.
— Sexta-feira. — respondeu simplesmente, sem tirar o olhar da tela à sua frente. — Escola de Música do Sr. Pérez. Acha que eles estão precisando de alguém? — virou-se rapidamente para a amiga, observando ela rolar os olhos.
— Você é tão chata, . — cruzou os braços, bufando.
— Desculpa, preciso de um emprego. — ela deu de ombros enquanto alcançava o telefone que havia jogado por ali minutos antes. — Nem vou conseguir pagar o aluguel do mês que vem se o Sr. Pérez não me aceitar na sua escola.
, você já ligou para todas as escolas de música do condado. — Jordyn choramingou, recebendo um olhar esperto da amiga.
— Não para a do Sr. Pérez. — ela piscou, fazendo com que Jord bufasse pela terceira vez em menos de um minuto. — Já sinto que ele será um ótimo chefe.
O cômodo ficou em silêncio por algum tempo, enquanto digitava algo em seu celular e Jordyn a encarava com um semblante que misturava surpresa e decepção.
Amanhã — a menina retomou o assunto anterior, impaciente. — É o Indiependence.
demorou alguns segundos para processar a informação e fazer as devidas conexões, e então arregalou os olhos antes de fechá-los com força, batendo com a palma da mão na cabeça e se sentindo a pior pessoa do mundo.
Antes de encarar a amiga, direcionou rapidamente o olhar para o canto inferior da tela do computador, onde a data piscava, e não entendeu como haviam pulado de março para maio em tão pouco tempo. Não se lembrava de nenhum dia de abril e não acreditava que, com todo esse desespero, tinha realmente esquecido que o dia seguinte já era dia 11.
— E, se não se lembra... — Jordyn fez questão de frisar as palavras, fazendo com que a menina se sentisse mil vezes pior. — Também é o aniversário da sua melhor amiga.
— Jord, eu… — largou o celular e colocou o computador de lado, virando-se para a garota, que tinha os braços cruzados e uma expressão abatida.
— Compramos os ingressos há meses, . — ela falou, realmente triste, e engoliu em seco.
Ótimo. Outro detalhe relativamente importante que fora totalmente esquecido. Tinham comprado os ingressos do festival Indiependence há pelo menos cinco meses. O que significava que também havia os comprado, junto com elas, nesse mesmo quarto em que se encontravam, quando tudo ainda era bom e feliz. A mente de trabalhava rapidamente para tentar entender como diabos ela podia ter simplesmente esquecido que esse dia chegaria em algum momento. No que ela estava pensando todos esses meses, afinal?
— Compramos, sim. — ela confirmou, balançando a cabeça e pensando que não seria nada mal vendê-los agora. Pelo menos já garantiria o aluguel do mês seguinte.
Mas ela sabia o quanto Jordyn havia planejado seu aniversário de vinte e um anos, e o quanto havia ficado feliz quando viu que ele cairia justo no primeiro dia de seu festival favorito. Fazia três anos que ela, Jord e não o perdiam por nada nesse mundo, e, nesse ano, além do aniversário de Jord, Catfish and the Bottlemen seria um dos headliners. Eles definitivamente não perderiam.
sentiu o ar sumir enquanto tentava sorrir, ou pelo menos parecer visivelmente normal.
— Você sabe se… — limpou a garganta antes de continuar, ou tentar continuar. — Bem, se… — “se ele vai”, era o que queria perguntar, mas ao invés disso, fez gestos com as sobrancelhas e com os olhos para que a amiga entendesse o que ela queria dizer sem que ela tivesse que fazê-lo propriamente.
— Não sei, . — ela deu de ombros, entendendo os sinais e olhando para baixo. — Não falo com ele há tanto tempo quanto você.
balançou a cabeça, assentindo, e virou-se para frente, encostando a cabeça na parede atrás de si e soltando a respiração calmamente. e Catfish and the Bottlemen no mesmo lugar, e na mesma hora, seria definitivamente demais para ela. Já sentia o choro lhe subir pela garganta.
Observou Jordyn calada ao seu lado, mexendo nos dedos das mãos e encarando qualquer coisa no quarto menos ela, e forçou-se a abrir um sorriso antes de pegar nos ombros baixos da amiga e balançá-los.
— Então vamos ter que acordar bem cedo para pegar o primeiro ônibus pra Mitchelstown.

[...]


Depois de abrir o sorriso mais largo que já tinha visto, e repetir “obrigada” pelo menos umas trezentas vezes, Jordyn pegou seu pote de feijão e deixou o quarto da amiga, dizendo que iria arrumar sua mochila e prometendo que lavaria o banheiro para ela assim que chegassem do festival no dia seguinte. Claro que aceitou, era uma troca bem justa, aliás, pois 1) ela sabia que Jordyn com certeza havia voltado a comer o feijão no minuto em que pisou para fora de seu quarto; e 2) as chances de encontrar por lá eram de, pelo menos, 75 em 100.
Respirou fundo antes de levantar da cama. Já passava do horário comercial, então teria que deixar para receber o “não” do Sr. Pérez no dia seguinte. Não que quisesse receber outro “não”, mas, visto o histórico das últimas quatorze escolas, era o que ela esperava.
Sentiu sua barriga roncar e até pensou em ir até a cozinha e pegar um pouco do tal feijão, mas desistiu assim que lembrou da última vez que havia comido algo que Mason havia feito. Duas horas no banheiro deveriam ser algum tipo de recorde. Será que ela conseguiria algum dinheiro com isso caso se inscrevesse no Guiness?
Riu de seus pensamentos enquanto abria o pequeno guarda-roupas para pegar uma mochila.
morava em uma casa alugada, que dividia com Jordyn e outros quatro meninos, uma espécie de república, desde que havia se mudado para Dublin, há quase quatro anos. Assim que terminou o Ensino Médio no pequeno vilarejo de Menlough, no interior de Galway, onde nascera e vivera a vida toda, a menina deixou os pais e o irmão mais novo para seguir seu sonho na capital da Irlanda: trabalhar com música.
Óbvio que, depois de alguns meses tentando, a garota não conseguiu mais do que algumas demos gravadas e algumas letras vendidas a gravadoras, o que não a rendeu muito dinheiro. Então se contentou em trabalhar como professora de violão, guitarra, piano, bateria e todos os outros instrumentos que sabia tocar — e que havia aprendido sozinha — por pouco mais de um salário mínimo. Bom, pelo menos era um salário que dava para ela pagar o aluguel de seu quarto e viver razoavelmente bem — bem razoavelmente, na verdade. Foi demitida há duas semanas porque a escola em que trabalhava decidiu que queria alguém com diploma.
Ainda não havia contado aos pais, pois estava certa de que conseguiria facilmente um emprego em uma outra escola de música, mas parecia que o tal do diploma tinha virado moda de uma hora para outra. Deveria ter escutado seu pai quando ele avisou que seria melhor fazer uma faculdade antes de tentar seguir seus planos, para não acabar como ele. Mas, bem, dizem que palavras comovem, mas exemplos arrastam, e a carreira de seu pai era o que a impulsionava quando ela decidiu imitar seus passos.
Não parecia uma ideia tão boa agora.
Desistiu de procurar a mochila quando seus olhos bateram em uma caixinha roxa de madeira no fundo do armário. Geralmente, ela ignorava aquela caixa, porque nela tinham memórias, e memórias faziam ficar nostálgica e triste por algum tempo. Mas, enquanto pensava no rumo que sua vida vinha tomando, achou que aquele fosse um ótimo momento para recordar algumas coisas. Sabe, quando se está na merda é comum procurar coisas que te afundem mais ainda. Para , geralmente músicas tristes realizavam esse papel, mas aquela caixa pareceu estar no lugar certo na hora certa. Então ela respirou fundo antes de pegá-la e sentar-se na cama com ela nas mãos.
Fotos de seus pais, de seu irmão, Phil, e de seus cachorros, Janis Joplin e John Coltrane, fizeram seu nariz arder instantaneamente. Entradas de cinema, tickets de trem e papéis de bala fizeram com que ela sorrisse, relembrando bons momentos que nunca esqueceria.
No fundo da caixa, onde ela sabia que tinha escondido muito bem, estava entocado aquilo que ela sabia que estava procurando, mesmo que inconscientemente: as fotos com e de , os bilhetes em papéis de caderno ou post-its cheios de corações, os ingressos dos shows do Catfish and the Bottlemen e um colar de conchas.
Ela fechou os olhos, como se isso a fizesse voltar no tempo, e pegou o colar, o cheirando, como se ele ainda guardasse um resquício do perfume do ex-namorado.
No próximo dia 13, faria quatro meses desde que e haviam terminado seu relacionamento de três anos e alguns dias. Fazia quase quatro meses que não se viam ou se falavam, sequer tinham notícias um do outro, e fazia quase quatro meses que sentia falta dele todos os dias, culposa e silenciosamente, quase como se fosse uma criminosa.
Consequentemente, também fazia quase quatro meses que se recusava a escutar Catfish and the Bottlemen, sua banda preferida. Havia conhecido num show deles, e praticamente todas as suas memórias afetivas se relacionavam com alguma música deles.
Transaram pela primeira vez ao som de Business, foi pedida em namoro ao som de Cocoon, e foram juntos em tantos shows deles que ela não saberia quantos se não tivesse guardado cada um dos ingressos. Depois de três anos e alguns dias apaixonada e com essa trilha sonora, ela simplesmente não conseguia mais escutar a voz de sem que começasse a chorar imediatamente.
E é claro que, além de tudo o que estava acontecendo em sua vida, o destino a forçaria a escutá-los no dia seguinte, ao vivo, com a poucos metros de distância. É óbvio que Catfish and the Bottlemen teria que ser um dos headliners do festival estúpido, que também havia feito parte da história deles.
segurava o choro que prendia em sua garganta enquanto imaginava o quão péssimo seria encarar escutando a banda favorita deles, o quanto ela teria que se segurar para não chorar na frente dele ou, pior, para não correr de volta para ele, mesmo depois de tudo. Isso era o cúmulo da humilhação. E, se não amasse tanto Jordyn, faria questão de rasgar o ingresso naquele instante, sem nem se importar com o quanto ele tinha custado.
Depois de pensar por alguns minutos, decidiu que o melhor seria entrar em um banheiro químico assim que o show do Lewis Capaldi, que cantaria antes do CatB segundo a programação do site, terminasse. Lá, poderia chorar à vontade e não correria o risco de esbarrar em , nem vê-lo cantando a plenos pulmões. Não sairia de lá até ouvir os últimos acordes de Tyrants, que era sempre a última música que eles tocavam. Ou até que alguém chamasse os bombeiros para tirá-la de lá à força. Pensaria nisso mais tarde, de qualquer forma.
Quando estava pronta para fechar a caixa, certa de seu plano quase-infalível, seus olhos se estreitaram ao enxergarem um papel azul-claro em meio aos bilhetes de coração. Seu peito apertou assim que seus dedos o pegaram.
Na letra cursiva nada organizada de , entre notas musicais e desenhos de cubos e espirais — que ela geralmente desenhava quando estava se esforçando muito em alguma coisa —, estava escrito Dreams.
Não conseguiu mais segurar as lágrimas, que caíram uma a uma no papel em suas mãos. Aquela era a última coisa que ela precisava ver naquela noite. Ou em qualquer outra.
Diante de seus olhos marejados, estava a letra da música que havia escrito para assim que começaram a namorar. Era o gatilho perfeito para que ela chorasse como um bebê a noite inteira.
A letra retratava o quanto estava, e era, totalmente entregue a , desde o começo. As noites em que ficavam juntos, depois de já terem perdido a vergonha um do outro, e riam e cantavam até o amanhecer. E os sonhos...
Ela não conseguiu terminar de ler. Também desistiu de arrumar qualquer coisa naquela noite. Enquanto colocava a caixa de volta no guarda-roupas, decidiu procurar pela mochila no dia seguinte, antes que Jordyn acordasse.
Antes de fechar as portas do móvel, porém, sentiu o coração apertar e abriu a caixa novamente, retirando o papel azul-claro antes de fechá-la definitivamente.
Colocou-o em cima da estante e apagou a luz do quarto antes de deitar na cama, sem se preocupar em tirar a calça jeans que usava, e puxando o cobertor branco para cima de si.
não era de chorar, mas, naquela noite, lembrando-se de , de Catfish and the Bottlemen, dos nãos que havia recebido o dia todo e da letra de Dreams no papel azul, deixou que as lágrimas banhassem seu rosto e seu travesseiro.

[...]


Já passava das nove quando Jordyn e entraram no ônibus para Mitchelstown, onde ocorreria o festival. O plano era pegar o primeiro da manhã, mas acordou às oito aos gritos desesperados de Jor, que já estava completamente pronta e com uma feição nada amigável, e ainda teve de explicar o porquê de suas coisas ainda não estarem nem perto de prontas. Claro que não explicou o real motivo, inventou que a mãe tinha ligado e que isso teria lhe custado as últimas horas de disposição da noite. Felizmente, Jordyn não perguntou mais nada e nem reparou nos olhos um pouco inchados da amiga, que arrumou a mochila em poucos minutos depois que Jor a achou embaixo da cama.
A viagem duraria um pouco mais de três horas, o que significava um pouco mais de três horas de Jordyn falando incansavelmente enquanto tentava simplesmente não entrar em pânico. Sua mente ainda estava presa na noite anterior, e focava em elaborar planos para que não esbarrassem com de jeito nenhum pelo festival.
Era tudo questão de probabilidade. Tinha calculado uma porcentagem de 75% de chance de ele efetivamente ir. Ele estando lá, qual seria a possibilidade de realmente se esbarrarem, no meio de umas 5 mil pessoas? A parte racional a dizia que era mínima, de uns 20%, no máximo. A parte pessimista a dizia que tudo o que estava pior, tendia de alguma forma a piorar, e que o destino sempre gostava de pregar esse tipo de peças nas pessoas, então seria de uns 90%.
Achou melhor fazer uma média entre os dois, para não ficar muito paranoica, e concluiu que a chance, no final das contas, era de algo próximo aos 55%.
O papel azul-claro que estava no bolso secreto de sua mochila e o colar de conchas que pendia em seu pescoço, porém, a deixavam em dúvida se ela realmente não queria o ver. Eram quase quatro meses sem notícias. A mente de trabalhava ininterruptamente, e sequer prestava atenção no que a amiga ao seu lado falava sem parar.
? — Jordyn estalava os dedos na frente do rosto da menina, que balançou a cabeça, atordoada, assim que os viu.
— O que foi? — ela perguntou, encarando a amiga pela primeira vez desde que tinham entrado no ônibus.
— Sei lá. — Jor fez uma careta, tentando entender a expressão indecifrável no rosto de . — Você tá aí toda pensativa, não ouviu uma palavra que eu falei. — deu de ombros, observando a menina dar um sorriso amarelo. — E olha que eu falei umas quinhentas. — ela riu consigo mesma, ficando séria de repente, assim que seus olhos desceram para a mão direita de , que segurava com força um colar em seu pescoço.
… — ela falou baixo, fazendo a menina olhar para onde ela estava olhando e encarar a própria mão por alguns segundos antes de soltar o colar rapidamente, balançando a cabeça. — Isso é do…
— Faltam menos de duas horas para chegarmos. — a cortou, mostrando para ela a hora que brilhava em seu celular. — Eu trouxe Skittles. — sorriu, antes de abaixar o corpo em direção à mochila que estava entre seus pés.
Jordyn assentiu, sem saber o que pensar. Daria tudo para saber o que se passava na cabeça da amiga naquele momento. sempre fora muito fechada, então Jor ainda não sabia o que ela pensava quando escutava a palavra “”, pois ela sempre mudava de assunto antes que Jor descobrisse. Algo a dizia, porém, que ela estava bem perto de descobrir.

[...]


— ISSO NÃO É O MÁXIMO?! — Jordyn gritava enquanto seus pés saíam do chão constantemente em pulos desengonçados. — , ISSO É O MÁXIMO! — ela repetia, se referindo a Lewis Capaldi no palco a poucos metros de distância.
se perguntava o porquê de a amiga estar tão feliz, e extremamente agitada, se as músicas que o cantor escocês performava eram majoritariamente tristes e deprimentes. Estava preocupada demais em fingir não procurar para questioná-la, por isso se contentou em responder:
— Claro, o máximo!
Jord continuou pulando e sorrindo, e continuou virando a cabeça ocasionalmente para os lados enquanto as músicas tristes tornavam aquela cena ainda mais dramática.
Quando Lewis anunciou que aquela tinha sido sua última música e se despediu, arregalou os olhos. Tinha esquecido de seu plano do banheiro químico por alguns instantes, e agora estava cercada por uma multidão agitada que aplaudia incessantemente o cantor que saía do palco e aguardava pela próxima atração, que ela sabia muito bem qual era.
— Jordyn, preciso ir ao banheiro. — ela falou alto no ouvido da amiga, que ainda estava extasiada.
— O QUÊ? — a mais nova gritou, sem entender nada.
A música de transição entres atrações parecia ainda mais alta do que o som das bandas que tocavam. Os gritos das milhares de pessoas em volta também não ajudavam muito a compreensão de qualquer conversa.
— PRECISO IR AO BANHEIRO! — repetiu, fazendo gestos, e Jord balançou a cabeça, apreensiva.
, AGORA É O CATFISH. — ela apontou para o palco, sabendo que era a banda preferida da amiga e preocupada que ela pudesse perdê-los.
— ESTOU MUITO APERTADA. — mentiu, colocando a mão no pé da barriga, onde acreditava ser a bexiga, e fazendo uma careta de dor.
... — a expressão de Jord explanava que ela não acreditava nas palavras de , ainda mais porque elas tinham ido ao banheiro antes do show de Lewis, mas a amiga não deixou que ela continuasse.
— VOLTO ANTES DE ELES COMEÇAREM. — mentiu novamente, sabendo que já estava bem perto de isso acontecer e tentando ser o mais rápida possível.
Não esperou outra resposta de Jordyn e pegou a mochila, que estava entre seus pés na grama, antes de começar a andar por entre os corpos colados demais.
Os gritos começavam a acentuar, o que indicava que Catfish and the Bottlemen subiria a qualquer momento no palco. As mãos de suavam e ela não sabia bem o porquê de estar fazendo aquilo.
Estava fugindo de ? Não. Seria bem mais difícil encontrá-lo na aglomeração em que estava antes, nem notariam a presença um do outro caso estivessem a duas pessoas de distância. Estava com medo de escutar CatB após quatro meses? Em parte, sim. Tinha medo de como seria sua reação ao escutar as músicas que tanto tinha evitado no meio de tantas pessoas.
De qualquer forma, isso talvez não justificasse o esforço que ela estava fazendo para se ver livre da concentração de pessoas que começava a deixá-la nervosa. Alguma força apenas a expelia para fora, talvez nem exatamente para o banheiro, mas para algum lugar em que pudesse sofrer dignamente ao escutar as músicas que talvez ainda não estivesse pronta para escutar.
Ouviu os gritos se intensificarem absurdamente assim que conseguiu sair do tumulto. Uma ovação interminável a confirmou que a banda já tinha subido ao palco.
Respirou fundo pela primeira vez, encarando a grama verde e o espaço livre do enorme campo onde o festival estava acontecendo. Algumas pessoas caminhavam livremente e numa distância ideal uma das outras. Procurou rapidamente pelos banheiros químicos entre as outras tendas de comércio que se espalhavam pelo local.
O que seus olhos encontraram, porém, ao invés de pessoas enfileiradas na frente de caixotes azuis, foram os olhos dele, a alguns passos de distância e com outro par de olhos bem cravados nos seus.
À essa altura, a banda já tinha se instalado e os primeiros acordes de Outside já explodiam nas caixas de som. sentiu que poderia vomitar a qualquer momento quando escutou a primeira linha da música. olhava para ela sem nenhuma reação enquanto seu pescoço era enrolado pelos braços de uma moça loira de olhos castanhos e sorriso estonteante.

We’d let them knock like crazy, cause I’d not seen her in months
Nós deixamos que eles batessem na porta feito doidos, porque eu não via ela há meses



percebeu os olhos dele descerem até o colar em seu pescoço e sentiu a garganta apertar como se ele estivesse a enforcando. A música parecia entrar em seus ouvidos queimando e descer de alguma forma por todo seu corpo, o fazendo tremer involuntariamente.
Se sentia ridícula. E nada parecia algum dia poder mudar aquele sentimento. Sempre fora assim durante sua vida toda, afinal. Todos sempre passavam à sua frente e ela sempre ficou para trás. Por isso não tinha conseguido, e nunca conseguiria absolutamente nada num ramo tão competitivo quanto a música — ou em qualquer outro ramo, ela chegou a pensar —, todos sempre a ultrapassavam.
Enquanto observava atentamente, sem que sua nova namorada percebesse que ele também a observava, soube que ele, como todos as outras pessoas no mundo, tinha passado à sua frente, com bastante facilidade inclusive, enquanto ela, mais uma vez, ficava para trás. sempre ficava para trás. E nada, nunca, iria mudar aquilo.

I just came along for the ride
Eu só vim para dar uma volta
And I tried my best to keep away from you
E tentei o meu máximo para ficar longe de você


Enquanto os olhos atentos de ainda pousavam sobre ela, levou a mão até seu pescoço e puxou dele o colar com a maior força que conseguiu, fazendo com que as conchas caíssem espalhadas na grama fofa aos seus pés. Ela jurou ter ouvido o som de cada uma delas encontrando o chão, apesar de a música sair de forma quase ensurdecedora dos alto falantes.
O contato visual entre eles durou menos de um minuto, mas, para ambos, pareceu durar bem mais de um século. sentia o papel-azul em sua mochila pesar mais do que oitenta pedrinhas de chumbo e seus ombros caíram com o peso, que parecia também afundar aos poucos seu pulmão.

I used to carry you through town
Eu costumava te carregar pela cidade
You used to smother me in lippy
Você costumava me sufocar com batom


Como se estivessem ambos em um lapso de tempo, e ambos prendendo a respiração, o contato apenas se quebrou quando simplesmente virou-se de costas, pisando nas conchas e começando a caminhar na direção contrária. Seu peito doía, seus olhos e seu nariz ardiam, e sua cabeça latejava no ritmo da música.

Now, if we ever get an hour together,
Agora, se algum dia passarmos uma hora juntos,
It’s like I’m on the outside
Parece que estou do lado de fora.


Sem saber muito bem para onde estava andando, se sentia do lado de fora.
Do lado de fora da vida de todos, como que em escanteio. Do lado de fora da indústria da música. Do lado de fora de Dublin, e do lado de fora de Galway. Do lado de fora de tudo o que queria, e de tudo o que havia sonhado para si. Se sentia do lado de fora da sua própria vida. E queria mais do que tudo entrar em si mesma.
Sentou-se na grama, um pouco afastada de tudo e de todos, e permitiu-se chorar pela primeira vez naquele dia, ouvindo a voz de estourar seus tímpanos e tendo ainda estampados em sua mente os olhos vidrados de e os olhos castanhos de sua acompanhante.
O papel azul-claro parecia gritar em sua mochila fechada. E, como num estalo, ele pareceu ser a solução para seus problemas naquele momento.
Enquanto a melodia de Homesick se iniciava, sentia seu coração vibrar e secou rapidamente as lágrimas que desciam por sua bochecha.
Aquela era a sua banda favorita. Aquela era a sua vida. E o papel que pesava e gritava em sua mochila eram seus sentimentos transcritos em uma música sua.
Ela respirou fundo, sentindo o ar entrar livremente pelas narinas e finalmente alcançar plenamente seus pulmões, antes de levantar-se. Iria aproveitar as músicas do Catfish and the Bottlemen pela primeira vez depois de quatro meses. E, depois disso, ela sabia exatamente o que faria.

Capítulo 2: I am never going back to thinking straight

A melodia de Tyrants chegava ao fim quando começou a caminhar em passos agitados e nervosos em direção ao backstage. Sabia que escutaria Jordyn buzinar em seu ouvido durante todo o trajeto de volta à Dublin por simplesmente ter dado um perdido nela no dia de seu aniversário. Sabia também que estava errada em fazer isso, mas não conseguia se sentir culpada. Pelo menos não no momento.
Ela quase podia sentir a adrenalina correr em suas veias e acelerar seu sangue enquanto ouvia gritos intermináveis denunciarem que o show tinha realmente acabado. Não sabia por que iria fazer o que estava prestes a fazer, nem por que estava tão esperançosa em relação a isso, mas seu coração pulsante, batendo no ritmo das palmas do público, a fazia sentir que, sim, era exatamente aquilo que ela deveria estar fazendo
Depois que teve seu pequeno momento de recaída, voltou ao tumulto de gente que curtia animada as músicas que ela tanto amava. Até tentou achar Jordyn novamente, no mesmo lugar que acreditava estarem antes, mas fora impossível no meio de duas mil pessoas desesperadamente agitadas e incrivelmente grudadas umas nas outras.
A solução foi fechar os olhos ali mesmo, rodeada por corpos desconhecidos que se balançavam sem parar, e sentir. deixou-se sentir e entregou-se a uma experiência catártica quase sobrenatural. Cada nota tocada pelos diferentes instrumentos tocava diretamente a sua alma, e cada palavra que saía da boca de entrava continuamente por seus poros e eriçava todos os pelos de cada parte de seu corpo. Ela estava energizada. E sentia que poderia ficar nesse estado para sempre que não se importaria nem um pouco.
De repente, toda a sua vida fazia sentido. Aquela era sua paixão. Música era e sempre seria a única coisa que a deixava do jeito que ela mais gostava de ficar. Daquele jeito que se encontrava enquanto ouvia cantar maybe i don’t mind just getting high in mine. E, naquele momento, simplesmente não lhe importava o fato de estar desempregada, sem nem um centavo na carteira; não lhe importava o fato de ter ou não uma nova namorada de cabelos loiros e olhos castanhos; não lhe importava o fato de ainda não ter conseguido o que queria. Porque, ali, naquele instante, a única coisa que realmente importava era a música. E, cantando a plenos pulmões que (Cristo!) nunca voltaria a pensar direito, ela simplesmente sabia que, independentemente de tudo e qualquer coisa que pudesse ocorrer de ruim em sua vida, no final daria certo. Não sabia como, nem de que forma daria certo, mas simplesmente sabia que daria.
Twice it brought me down, but it’s the last time
. prometeu para si mesma que aquela seria a última vez que ficaria para baixo. E era com esse pensamento que seguia confiante para o backstage do festival, as mãos suadas segurando firme as alças da mochila em seu ombro.
Pessoas vestidas de preto com fones de ouvido gigantes na cabeça e carregando os mais diversos instrumentos andavam rapidamente em todas as direções e se esbarravam apressadas entre os fios coloridos que se estendiam no chão. Todos pareciam extremamente ocupados para sequer perceberem a presença da garota ali. Também não era como se fosse necessária qualquer segurança por aquela área, os mais fortes e mal encarados se encontravam na porta que dava acesso ao corredor de camarins. Ali ela nem arriscaria tentar se enfiar, por isso a pressa em tentar alcançar a banda logo que eles saíssem do palco.
Teria que disputar com alguns jornalistas e com o pessoal da produção, mas, novamente, estava extremamente confiante enquanto abria o bolso de fora de sua mochila para pegar o papel azul-claro. Suas mãos tremiam e amassavam ainda mais a folha, já totalmente amassada.
Bob e Benji já tinham descido as escadas que os colocavam para fora do palco e já estavam próximos aos seguranças quando ela conseguiu se aproximar, afobada. Infelizmente não a tempo de alcançar os dois, que já entravam pelo corredor de camarins quando ela os gritou.
Bondy desceu do palco e fez o mesmo trajeto dos companheiros de banda, de forma tão rápida que não teve nem tempo de tomar fôlego para poder chamá-lo.
Quando já estava prestes a choramingar como uma criança mimada que tem seus planos frustrados pela mãe, pensando que já teria entrado no camarim antes de ela chegar, pôde observar o vocalista descer calmamente os degraus, um por um, secando o rosto com uma toalha branca que contrastava completamente com suas roupas pretas.
A menina soltou um suspiro alto, dignamente aliviada, antes de andar até ele.
— Oi, ! — ela disse, animada, não conseguindo conter a emoção que era estar frente à frente com um de seus ídolos, dirigindo a palavra diretamente a ele.
O rapaz pareceu não escutar, apesar do tom relativamente alto que ela usara, pois continuou fazendo seu percurso como se nada tivesse acontecido, colocando a toalha por cima dos ombros e balançando os cabelos sem sequer dirigir o olhar a ela.
balançou a cabeça, fazendo uma careta antes de segui-lo até uma mesa que se encontrava em um dos cantos do local, onde ela conseguiu enxergar ele pegar uma garrafa d’água.
— Oi, ! — ela repetiu atrás do rapaz, um pouco menos empolgada.
O vocalista sequer virou-se para ela. Continuou de costas enquanto abria a garrafinha e a levava à boca. A menina sentiu-se levemente irritada por estar sendo ignorada, mas pigarreou antes de continuar amigavelmente:
— Meu nome é , sou uma grande fã…
Ele então virou-se, com a garrafa em mãos e uma expressão totalmente indiferente no rosto. Percebeu a menina à sua frente olhando diretamente para ele e mexendo a boca sem parar. Juntou as sobrancelhas antes de levantá-las e colocou a mão na frente de seu corpo antes de perguntar, gritando:
— DESCULPE, ESTÁ FALANDO COMIGO? — ele levou a mão livre ao ouvido esquerdo e então ao direito, fazendo com que dois fones de retorno de palco, que bloqueavam quase que totalmente os ruídos externos, caíssem sobre a toalha em seus ombros.
se sentiu idiota quando percebeu que o rapaz sequer a ouvia e fechou os olhos, envergonhada, antes de sorrir e voltar a falar:
— Desculpa, não percebi que você estava com o retorno.
assentiu, sem mudar a expressão de sua face, como se deixasse claro que pouco lhe importava o que ela tinha percebido ou não.
Estava irritado e impaciente. Tinha passado o dia anterior inteiro tentando compor uma mínima frase, mas nem uma mísera palavra havia saído da caneta que jogara com força contra uma janela depois do tempo desperdiçado. Estava com raiva de tudo, e principalmente de si mesmo.
Junho logo chegaria e, com ele, a quarta reserva de estúdio sem que ele tivesse sequer uma composição. Podia sentir o olhar de Steve fulminar sobre si toda vez que ele ligava perguntando sobre o andamento das músicas.
Tudo ainda piorava pelo fato de estarem na Irlanda. E pelo fato de que seria ali, daqui menos de um mês, onde estariam novamente para a gravação do terceiro álbum. Steve achou que um tal de Grouse Lodge seria o estúdio ideal para se concentrarem, longe de tudo, no meio do nada e logo na Irlanda. Por que não gravavam logo em Llandudno? Pelo menos ficaria perto de sua família.
Sabia que não estava em condições de exigir nada, mas sinceramente, queria voltar para casa, entrar no chuveiro e esquecer que era uma pessoa pública pelos próximos meses, ou quem sabe para sempre. A última coisa que precisava no momento eram fãs o cobrando por um álbum, ou fãs o procurando pelo backstage.
Levou a garrafa à boca novamente e deu dois longos goles, esperando que a garota continuasse o que quer que estivesse falando, mas ela tinha ficado muda e o encarava com uma expressão estranha. Então ele abaixou o olhar novamente para ela, a encontrando parada no mesmo lugar, e levantou as sobrancelhas, como se dissesse que estava esperando sua pronunciação.
Ela se embaralhou, balançando a cabeça, e piscou várias vezes os olhos antes de continuar:
— Meu nome é , sou uma grande fã do seu trabalho. — ela falou, envergonhada, apertando cada vez mais o papel em suas mãos.
— Bem, obrigado, . — ele disse simplesmente, depositando a garrafa já vazia na mesa e forçando um sorriso antes de voltar a seguir seu caminho para o camarim.
A menina arregalou os olhos, surpresa com o comportamento do ídolo, e demorou alguns segundos para entender que ele estava realmente a deixando ali plantada enquanto caminhava para longe dela, sem ao menos dar a oportunidade para que ela continuasse.
— Ei! — ela gritou ao perceber que ele caminhava apressado em direção aos seguranças.
Ele não parou, apesar de ter ouvido claramente o chamado dela dessa vez, mas apressou o passo para que conseguisse alcançá-lo. Ele a olhou por um momento, mas continuou andando, fazendo com que a menina o acompanhasse e quase tropeçasse em seus próprios pés para poder terminar de falar.
— Queria que desse uma olhada no que eu escrevi. — disse rapidamente e esticou a mão trêmula, que segurava o papel azul, em direção a ele, que continuava olhando para frente. — Ficaria feliz se me dissesse o que achou…
— Claro, claro, vou dar uma olhada. — ele balançou a cabeça, assentindo, e pegou a folha de qualquer jeito, impaciente, passando rapidamente pelos seguranças e deixando para trás com a cara de quem tinha presenciado um enterro de alguém que sequer conhecia.
Então aquele era ? O cantor que a inspirava e cujas músicas a faziam entrar em um estado catártico? Não passava de um filho da mãe egocêntrico que sequer podia escutar por um minuto alguém que admirava seu trabalho há tanto tempo.
estava totalmente puta da vida. Sentia-se enganada pela imagem que as letras de passavam dele. Ele não era nada sensível como parecia ser através das músicas, e isso a irritava profundamente. Estava com raiva dele, de suas músicas ridiculamente boas, e de si mesma, por achar que aquele plano idiota de entregar sua composição para o vocalista do Catfish and the Bottlemen seria uma boa ideia.
O que esperava, afinal? Que ele lesse Dreams em sua frente e batesse palmas, a elogiando pela letra, e talvez a comprasse dela? Sim, era basicamente isso que ela esperava. E se sentiu idiota e burra quando ele sequer olhou direito na sua cara e pegou o papel azul-claro que tanto significava para ela com tanto descaso.
— Que ódio! — ela soltou um gritinho fino para si mesma, segurando ambos os pulsos com força, e chutou a grama embaixo de seus pés num impulso irritado e raivoso, quase involuntário.
Pôde sentir o olhar dos seguranças sobre si e pensou que até eles estivessem com pena dela, ou com vergonha alheia pelo papelão que tinham acabado de presenciar.
Sabia que tinha acabado de prometer a si mesma que não ficaria para baixo, e irritou-se consigo por sentir-se impotente, mas tudo parecia conspirar contra ela naquele dia 11 de maio. 2018 definitivamente não era o seu ano, e ele nem havia chegado ao meio.
Ela sorriu amarelo para os seguranças, que retribuíram sorrisos tão amarelos quanto, antes de pegar o celular no bolso e discar o número de Jordyn.

[...]


deixou o papel azul-claro em cima de uma mesa qualquer assim que entrou no camarim, uma sala pequena com pôsteres de diversas bandas colados pelas paredes bege. Tirou a toalha que pendia em seus ombros e a jogou no sofá antes de jogar a si mesmo por cima dela. Desde quando era inútil daquele jeito?
Benji, Bob e Bondy conversavam sobre o show, que aliás tinha sido ótimo, enquanto se afundava cada vez mais no couro preto e macio do móvel. Parecia que, nos últimos tempos, ele só conseguia ser ele mesmo e sentir alguma coisa quando estava no palco, tocando e cantando e expressando tudo o que queria falar e tudo o que sentia. Assim que saía daquele ambiente mágico, a pressão do mundo tomava conta da mente e do corpo dele e ele simplesmente se transformava. Não aguentava nem mais pensar na figura de um estúdio sem que se irritasse profundamente ou fosse consumido por calafrios.
Ali, deitado naquele sofá, não era o que estava no palco há poucos minutos, mas alguém totalmente desprovido de vontade e energia. Alguém que nem ele mesmo conhecia e alguém que ele odiava profundamente ter parcialmente se tornado.
— Tudo bem, cara? — Bob perguntou para quando os outros meninos pararam de rir de algo que ele falava.
O rapaz apenas assentiu com a cabeça, sem forças para responder qualquer coisa verbalmente.
— Você mandou muito bem lá! — o amigo continuou, referindo-se ao show. — A energia do pessoal tava incrível!
— Realmente. — falou, sem mover um músculo e sem que sua face alterasse a expressão de tanto faz que ele carregava desde o backstage.
— Cara, não fica assim. — Benji disse, aproximando-se do vocalista. — Esse bloqueio vai passar.
Na cabeça de , aquele bloqueio parecia infinito. Para alguém que escrevia músicas desde que se entendia por gente e que aos catorze anos escreveu a obra prima que acabara de encerrar o show, aquele tempo em que sua criatividade se esvaía por completo parecia ser eterno.
O rapaz chegava a pensar que nunca mais conseguiria expressar seus sentimentos, uma vez que era na música, e somente na música, que eles conseguiam sair das profundezas da sua alma. Um de seus únicos talentos havia simplesmente se esgotado de uma hora para outra, sem mais nem menos, como se nunca houvesse realmente o pertencido e estivesse somente de passagem por sua vida.
Não conseguir se comunicar através das letras de suas canções o deixava totalmente deprimido, e drenava absolutamente toda a sua vontade de continuar e de seguir em frente com a sua carreira.
— Pelo visto, esse bloqueio já passou. — Bondy comentou, dando um meio sorriso enquanto olhava fixamente para um papel em uma das mesas do local. — Here’s to the nights we’d come in, having lost all judgement, and those dreams that we made would remind me of the ways… — ele lia num tom sério, embora estivesse quase saltitante por dentro.
O bloqueio de afetava todos os membros da banda indiscriminadamente, eles funcionavam como um conjunto. Lendo aquela letra, Johnny Bond sentia-se extremamente feliz pelo vocalista, que era inegavelmente um de seus melhores amigos e para o qual Bondy sabia muito bem a importância que tinham as composições.
Deitado no sofá, a alguns passos de distância, escutava tudo o que o amigo falava e não reconhecia uma palavra sequer.
— Você escreveu isso, ? — Bond perguntou, maravilhado, apesar de tentar manter sua personalidade séria.
Ele juntou as sobrancelhas, finalmente levantando seu corpo do sofá. Era óbvio que ele não tinha escrito aquilo. Nunca tinha ouvido aquela letra em toda sua vida. E era mais do que óbvio que, mesmo se tivesse ouvido, não teria tido condições de escrever nada nem parecido com aquilo em sua condição atual.
Bondy terminava de ler silenciosamente a letra quando aproximou-se, sem entender de onde o guitarrista estava tirando aquelas palavras. Foi quando enxergou a folha azul amassada que ele estava segurando.
Não era possível. Ele sequer havia olhado o conteúdo daquele papel amarrotado, tinha pensado que era só uma carta de fã ou alguma bobagem irrelevante que aquela menina empolgada o entregara. Mas não. Era a porra de uma letra de música. A porra de uma letra de música boa. Era exatamente o que ele estava precisando no momento.
Bondy o encarou rapidamente com um sorriso orgulhoso antes de estender o papel para ele e dar dois tapinhas em seu ombro. Na folha azul-claro, numa caligrafia que considerou horrorosa, estava escrito “Dreams”.

I push back all my plans
Eu adio todos os meus planos
You’ve stayed up, Christ, I love it
Você ficou acordado, Cristo, eu adoro isso
And I’d write off every chance that I’ve ever had with someone
E eu descartaria todas as chances que já tive com alguém


O menino encostou-se na mesa e levou a mão que não segurava o papel à boca, puxando com os dentes a pele que envolvia sua unha. Hábito que tinha adquirido desde pequeno e que mostrava que ele estava nervoso ou tentando se concentrar em alguma coisa.
está de volta, pessoal! — Bondy falava com Bob e Benji, que pareciam tão animados quanto ele.

If should this mean the start
Se isso deveria significar o começo
You switch my faith then phone off
Você muda minha fé e então desliga o telefone
Just sat there sifting through my demos that I never had with someone
Só sentou e ficou examinando minhas demos que nunca mostrei a ninguém


Certo. Aquela letra era muito boa e parecia ter caído do céu nas mãos de na hora certa. Não pôde deixar de sentir-se animado com o que lia e com a animação dos companheiros de banda. Seria Dreams o início do fim de uma era? Seriam aquelas palavras a resposta para todas as suas perguntas e o final de todas as suas crises?
Não sabia. Mas sabia que, primeiramente, teria que mudar aquele nome. Dreams era cafona demais.

[...]


Quase três semanas haviam se passado desde o Indiependence. Havia quase três semanas que estava totalmente na fossa, mesmo tendo prometido a si mesma que nunca mais ficaria assim. Era meio impossível.
Tinha conseguido o emprego como auxiliar na escola de música do Sr. Pérez, mas auxiliar, no caso, significava fazer todo o trabalho que não fosse realmente ensinar música. Limpar, atender telefonemas, imprimir partituras e oferecer café ou chá com bolachas às pessoas que passavam pela recepção em alguma hora do dia. Não podia reclamar, de qualquer forma. Não tinha a merda de um diploma e recebia um salário que a permitia pagar as contas, afinal. Era o que precisava. Mas não era o que sonhava para a sua vida.
Jordyn também não falava direito com ela há duas semanas. Desde o festival, onde ela ficara sozinha enquanto quebrava a cara para nada. Como ela pensou que ir atrás de um cantor famoso para mostrar uma música idiota seria boa ideia? Como se ele tivesse tempo de sobra para ouvir uma garota inútil ou ler uma letra ridícula escrita por ela. Ele deveria estar bastante ocupado fazendo tudo o que ela gostaria de estar fazendo.
Era quarta-feira e estava na recepção da escola, pronta para desligar o computador, pois seu turno chegaria ao fim em exatos quatro minutos, quando o telefone tocou. Ela sinceramente pensou em não atender e ir logo bater o seu ponto antes que alguém ouvisse o barulho irritante e reclamasse com ela, mas ela estava tentando ser uma boa funcionária — quem sabe ganharia um aumento ou seria promovida por passar dois minutos de seu horário. Além do mais, era melhor ficar por ali mais tempo mesmo e demorar o máximo possível no metrô do que ir para casa e ver a cara emburrada da melhor amiga ou ouvir músicas latinas vindas do quarto de Mason pelo resto da noite.
Por isso, ela tirou rapidamente o aparelho do gancho.
— Escola de música do Sr. Pérez. Boa noite, com quem falo? — ela esboçou seu melhor sorriso ao atender a ligação. Tinha que parar com aquela mania de expressar-se visualmente através do telefone como se alguém pudesse a enxergar.
A ligação ficou muda por alguns segundos, como se a pessoa no outro lado da linha estivesse tomando coragem para falar. Uma respiração pesada era o único barulho que saía pelo alto-falante do telefone vermelho da escola do Sr. Pérez e isso assustou um pouco a menina, que chegou a tirá-lo do ouvido para desligá-lo quando ouviu uma voz masculina pigarrear nervosamente e finalmente se pronunciar:
...

Capítulo 3 - If you’re a blessing in disguise

simplesmente não conseguia acreditar que estava escutando aquela voz. Todo o seu sangue pareceu ir, de repente, para os extremos de seu corpo, o que fez suas mãos formigarem enquanto seu rosto adquiria a tonalidade exata de um tomate maduro.
Pensou que talvez pudesse ter escutado errado, ou que seu cérebro estivesse, por algum motivo, confundindo os seus sentidos, mas conhecia aquele timbre o suficiente para reconhecê-lo até mesmo numa multidão muito barulhenta ou num show com três mil pessoas. E não precisou aguçar os ouvidos para ter certeza de que não era um engano do seu subconsciente quando as ondas que saíam do telefone vermelho voltaram a vibrar no seu tímpano:
... — a voz repetiu, provavelmente imaginando que a menina estaria chocada ou confusa demais para responder. — Sei que provavelmente não quer falar comigo, até porque você me bloqueou de todos os meios de comunicação possíveis... — o tom ficou meio baixo, como se estivesse falando a última parte mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa. — Mas eu precisava falar com você, a Jordyn me falou que você estava trabalhando aí e então eu procurei o número na internet.
olhava fixamente para a parede branca em sua frente, sem saber como reagir sequer a uma de todas as palavras que acabara de ouvir. Sua cabeça estava literalmente vazia, assim como a parede insossa que encarava. O estômago dava voltas como as dos ponteiros do relógio, que parecia tiquetaquear muito mais alto e marcava um minuto para o fim de seu expediente.
A voz do outro lado suspirou:
, fala alguma coisa. — estava um pouco impaciente, quase como se tivesse algo muito importante para falar.
A cabeça da menina girava. Quatro meses e dezesseis dias. Era tempo demais sem ouvir sequer um oi para, de repente e do nada, receber uma enxurrada de palavras sem sentido. Seu cérebro simplesmente não sabia como processar, não tinha mais os mecanismos de resposta para o estímulo daquela voz em específico.
— A-alguma coisa. — ela balançou a cabeça, atordoada, se martirizando por ter gaguejado.
respirou aliviado e quase pôde sentir que ele dava um pequeno sorriso do outro lado da linha.
Ufa, pensei que ia me mandar para o inferno.
juntou as sobrancelhas, confusa. Seria possível que tenham ficado tão distantes durante esse tempo que o rapaz se esquecera de como ela era? A menina se imaginava fazendo muitas coisas antes de mandar alguém para o inferno.
Com a falta de resposta, o sorriso no rosto de murchou um pouco.
Bom, sei que não nos falamos há algum tempo, mas eu simplesmente precisava te dar os parabéns!
Parabéns?
pensou que essa conversa — ou monólogo — não poderia ficar mais esquisita. Não tinha nada, literalmente nada, pelo que merecia parabéns nos últimos dias — ou nos últimos anos.
— Não estou entendendo aonde você quer chegar. — resolveu encurtar o papo. Estava confusa. O seu horário já havia passado em três minutos. E já havia passado de sua vida há quatro meses e dezesseis dias.
Não seja modesta, ! — ele falou e a menina fez uma careta. — Queria que você tivesse me contado. Estou tão feliz por você!
Ok. Isso era algum tipo de piada?
Por acaso estava tirando sarro de sua situação? Estava feliz por ela estar trabalhando meio período como assistente em uma escola de música? Limpando, imprimindo partituras e oferecendo cafézinho?
E, fala sério, contar algo de sua vida para depois de mais de quatro meses sem notícias? Poderia ser boba, mas não a esse ponto.
— Muito engraçado, . — ela forçou uma careta, como se ele pudesse ver, e colocou a mão que não segurava o telefone na cintura. — Olha, pode parecer interessante para você, tirar sarro da minha situação, mas é única forma que estou conseguindo sobreviver e, aliás, meu expediente acabou há cinco minutos e você está me prendendo, sabia? Você deveria ter mais empatia…
! — ele aumentou o tom, cortando a fala da menina. — Para de bancar a engraçadinha, eu já vi o vídeo!
— Vídeo? Que vídeo? — ela juntou as sobrancelhas, sem entender absolutamente nada. — , querido, acho que você está me confundindo com outra pessoa da sua imensa lista de ex-amores.
Muito engraçado. — ele revidou. — Quem está zoando com a minha cara agora é você.
balançou a cabeça, estressada, e pensou em desligar o telefone bem ali, sem mais nem menos. Mas alguma coisa dentro dela — provavelmente algo perto de seu estômago, porque ele continuava se contorcendo —, estava realmente intrigada com sobre o que possivelmente estaria tentando falar com ela depois de quatro meses. Se ele inventou toda essa história de vídeo e parabéns só como uma desculpa para falar com ela, isso poderia significar alguma coisa, não?
— Sete minutos me segurando, . — ela suspirou, encarando o relógio. — Vá direto ao ponto.
Ele pareceu entender.
O vídeo do Catfish com a nossa música, . Eu vi.
Mais uma pegadinha? O que diabos estava acontecendo?
Por que você não me contou que tinha vendido a música para eles? Eu fui pego totalmente de surpresa, fiquei “caramba, não é possível”! — ele continuava a falar sem parar, parecia realmente animado. — E aquele arranjo que eles colocaram, , ficou incrível! Confesso que até me emocionei um pouco.
Foi aí que, além do estômago, a visão de também começou a girar e ficar turva. Preferia acreditar que não estava começando a entender o que poderia ter acontecido.
, eu realmente não sei do que você está falando. — ela falou pausadamente. A mão do telefone começou a tremer involuntariamente e as pernas ficaram meio moles.
Como assim, ? — ele riu. Parecia realmente acreditar que a menina estava totalmente a par da situação. — No show de sexta, em Newcastle, o cantou uma música nova. — o nariz da menina ardeu como sinal de que o choro subia pela garganta e as mãos, que antes tremiam, começaram a ficar duras. — Você vendeu Dreams para nossa banda preferida!
sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. De todas as coisas que imaginou que poderiam acontecer quando entregou o papel azul-claro com a letra de sua música para no festival há três semanas, ter ela roubada dessa forma certamente não era uma delas.
A mão que segurava a cintura passou para o balcão vermelho, onde cravou forte suas unhas.
— P-pode me mandar esse vídeo, ? — a voz trêmula denunciava que o sangue que corria pelas veias da menina borbulhava.
Pensei que você já tivesse visto. — ele respondeu, confuso. — Tá tudo bem, ?
tentava disfarçar que por suas bochechas desciam lágrimas de raiva enquanto ela encarava a parede branca e o relógio colorido na parede. Não podia estar acontecendo. Não imaginou que pudesse acontecer em seus piores pesadelos.
— Eu não vendi música nenhuma, .

[...]


passou os 32 minutos do trajeto que a levava da Escola de Música do Sr. Pérez até em casa assistindo e reassistindo o vídeo que a mandara — tivera que o desbloquear, afinal. Ela chorou nas primeiras vezes, mas, nas outras, estava tão, mas tão, puta, que as lágrimas não conseguiam mais descer.
Estava experimentando um ódio que nunca tinha sentido, ou que pelo menos não se lembrava de sentir, em seus vinte e quatro anos de existência. Ódio de e de toda a Catfish and the Bottlemen, é verdade, mas o que machucava em seu peito, lá no fundo, era o ódio que estava sentindo por si mesma. Tudo aquilo era culpa sua. Tinha entregado sua música para o vocalista de uma banda famosa, o que esperava que ele fizesse?
Sentiu-se tão idiota quanto se podia sentir enquanto ouvia, por algo em torno da vigésima sétima vez, cantar um trecho da sua música para uma plateia admirada. Idiota, idiota, idiota.
Era a sua música ali. Aquela que transmitia os seus sentimentos e a qual ela tinha trabalhado duro para escrever. Se lembrava de passar dias anotando coisas sobre e sobre seu relacionamento e de ficar horas acordada à noite tentando encontrar rimas e palavras que pudessem realmente captar tudo o que ela queria passar.
Se lembrava de tentar procurar combinações de notas no violão enquanto tentava não ouvir a música latina de Mason no último volume. De treiná-la no dia seguinte no teclado da escola que trabalhava e receber broncas de seu chefe. De tocá-la para pela primeira vez e de como tinha sido gratificante vê-lo colocar as mãos para cima, antes mesmo de ouvi-la cantar a parte que fazia referência justamente a esse ato tão marcante do namorado.
Agora, ao ver a banda tocando-a repetidamente, sem sequer mencionar seu nome — não que parecesse realmente ter sequer escutado quando ela se apresentou ou quando ela falou todo o resto —, todo o sentido da canção parecia ter simplesmente se esvaído, como uma piscina que perde toda a água quando alguém abre o seu ralo.
So pull the love over my eyes, cause I fluctuate about you? odiava que a única parte que não era dela naquela música tenha ficado tão boa e se encaixado tão bem à melodia. E que o arranjo tinha ficado tão bom que a fazia repensar as notas que ela tinha usado originalmente.
Se sentia insuficiente, insignificante, enganada e, o pior de tudo, sentia que não podia fazer nada em relação a isso. Não era como se tivesse entrado armado em sua casa no meio da noite, aberto o seu pequeno guarda-roupas e pegado o papel azul-claro dentro de sua caixinha roxa de madeira. tinha facilitado o trabalho e entregado a letra direto em suas mãos, como uma boa protagonista idiota de filme de terror que segue o barulho assustador ao invés de ficar quieta e protegida em seu canto e acaba ajudando o vilão a matar a si mesma.
Mandou mensagens nas DMs do Twitter e do Instagram da banda quando se acalmou, mas não tinha expectativas de que alguém de fato a respondesse, já que, ela observou, eles sequer utilizavam muito as redes sociais.
Estava tão chateada que, assim que chegou em casa, subiu direto para o seu quarto. Ignorou Mason, Philip e Jordyn, que conversavam animados na cozinha, e soltou o mais gutural dos gritos assim que colocou seu rosto sobre o travesseiro.

[...]


Os pés de batiam descontroladamente no solado do avião. Estava tão nervoso que poderia vomitar ali mesmo se Johnny não estivesse bem ao seu lado.
Estavam a caminho da Irlanda. Em algumas horas estariam adentrando o estúdio para começar a gravar o terceiro álbum. O único problema era que ele não tinha nenhuma música e, graças à letra irritavelmente boa da estranha que caíra do céu em suas mãos — literalmente, uma benção disfarçada —, todos estavam com expectativas altíssimas em relação a ele. Até Steve, sempre mal humorado ultimamente, lhe dera uns sorrisos e uns tapinhas nos ombros nos últimos dias, como se dissesse “esse é meu garoto, que não vai fazer com que eu seja demitido ao cancelar um estúdio pela quarta vez”.
quase podia sentir seus ombros afundarem com a pressão de suas responsabilidades.
Abriu a mesinha que ficava no banco à sua frente e procurou por um papel e uma caneta no bolso de seu casaco. Achou o papel azul, que já quase se esfarelava de tão amassado.
Embaixo da caligrafia de , estava a caligrafia do próprio , na primeira letra que havia produzido em quase dois anos.

So pull the love over my eyes, cause I fluctuate about you
If you're a blessing in disguise, how did I realise?


Estaria mentindo se dissesse que não estava minimamente orgulhoso consigo. Mas infelizmente não devia isso a si mesmo, e sim a uma menina a quem sequer tinha dado atenção e cujo nome sequer conseguia se lembrar.
Pediu uma caneta emprestada a Steve, no banco da frente, que o olhou com os olhos brilhando antes de entregar-lhe duas.
Virou o papel do outro lado e começou a escrever algumas palavras que vinham à sua cabeça. Queria escrever uma letra baseada nos dois últimos versos que tinham complementado a música da menina. Afinal, não poderia simplesmente roubá-la e colocá-la no álbum. Seus princípios o impediam de fazer isso, mesmo que todos ao seu redor achassem que ele a tivesse escrito.

[...]


— Como assim roubaram a sua música? — Jordyn perguntou, jogando-se na cama de enquanto a amiga mexia concentrada no computador, na escrivaninha.
Estava há dois dias, desde que havia conversado com , tentando achar alguma informação útil sobre Catfish and the Bottlemen na internet. Telefones, e-mails, qualquer coisa que a ajudasse a entrar em contato com alguém que pudesse ouvir sua reclamação.
Tinha encontrado números que deram direto na caixa postal nas quinze vezes que tentou ligar e e-mails que pareciam profissionais demais para responder nove mensagens com o assunto “URGENTE!!!!!! MINHA MÚSICA FOI ROUBADA.”. Sentia que estava jogando um jogo perdido tentando encontrar algo que a ajudasse.
— Eu dei a minha música para o . — explicava pela segunda vez, sem tirar os olhos da tela. — Ele foi um insuportável, nem falou comigo direito. — revirou os olhos. — E, de repente, o me liga dizendo que eles estão tocando a minha música. — virou a cabeça para a amiga e apontou para si mesma com força, para acentuar a indignação. — Aliás, eu só não te mato por ter falado para o onde eu estou trabalhando porque senão eu só saberia dessa confusão quando a música já estivesse lançada e eles estivessem faturando às custas da minha inteligência. — bateu o dedo indicador na cabeça algumas vezes e Jordyn deu uma risada baixa.
— Eu estava chateada com você. — ela se defendeu, levantando os braços. — Isso é o que acontece quando se deixa a melhor amiga sozinha no aniversário dela para dar uma de groupie. — lançou um olhar matador para Jordyn, que abriu um sorriso amarelo. — Tô brincando.
A menina voltou a prestar atenção no computador. Havia desistido da fase de encontrar algum meio de comunicação útil e procurava pelos próximos shows na Irlanda, em que ela poderia descontar sua raiva cara a cara.
O único problema era que não havia sequer uma mísera apresentação marcada. Nem na Irlanda e nem em nenhum outro lugar do mundo. Parecia que o show em Newcastle havia sido o último por um bom tempo. E que teria que lidar com o fato de que, a menos que algo misterioso acontecesse e colocasse bem na sua frente, ela não conseguiria ter sua música e sua dignidade de volta.
— Então, de qualquer forma, graças a mim você pôde ser alertada. — Jord voltou a falar e revirou os olhos. — Isso significa que você ainda está em débito comigo, só que dessa vez, em dobro.
Só que não, né. — ela juntou as sobrancelhas, os olhos fixos na tela. — Tenho que repetir que você ajudou o meu ex-namorado a me encontrar? — bufou. — E que eu ainda tive que desbloquear ele depois de tudo, para ele ficar se sentindo como se tivesse me salvado de alguma coisa ou algo do tipo? Estamos bem quites.
Jordyn ficou calada.
— Bom, é porque ele meio que… Te salvou, né? — fez uma careta.
estreitou os olhos. Conhecia bem a amiga para saber que, nas entrelinhas, ela queria falar outra coisa.
— Desembucha, Jordyn.
Jord olhou para as unhas e se consertou na cama antes de estufar o peito e voltar a olhar para a amiga.
— Até quando vocês vão ficar assim? — ela mordeu o lábio inferior. — Sabe, ele também era meu amigo e eu sinto falta de como a gente era.
suspirou antes de largar o computador, se dando por vencida na pesquisa e na conversa com a amiga.
— Eu nunca impedi que você falasse com ele, Jord. — ela balançou a cabeça, virando-se para a cama. — Eu só não consigo mais, não por enquanto, tudo ainda é muito recente para mim…
A frase foi interrompida por um bip do celular de , em cima da escrivaninha. Os olhos das duas se direcionaram imediatamente para o aparelho, como se fosse um imã.
Por um momento, a menina pensou que finalmente recebia a resposta de um de seus nove e-mails, mas seus ombros caíram assim que viu o nome que brilhava na tela: .
Mostrou a tela do celular para a amiga e revirou os olhos antes de abrir a mensagem:

: Grouse Lodge.

Juntou as sobrancelhas e encarou Jordyn.
— Grouse Lodge? — perguntou, confusa. — O que é isso?
A amiga levantou os ombros e balançou a cabeça, indicando que também não sabia.

: Localização.

— Aparentemente algo a uma hora e meia daqui. — falou ao observar a localização que o rapaz havia mandado.

: ?


: Você tem muita sorte, .
😝

— Está falando que eu tenho sorte. — ela riu irônica para o celular, balançando a cabeça. — E ainda mandou um emoji esquisito. — tentou imitar a carinha para a amiga, levantando as sobrancelhas. — É mole?

: ?
: Eu tô literalmente afundada na merda?


: Os caras vão gravar o novo álbum aqui.
: No estúdio do pai de um amigo meu!


arregalou os olhos inevitavelmente. Levantou o olhar do celular para Jordyn, que a encarava, curiosa.
— O que foi, ? — ela se mexia meio desajeitada na cama.
O lábio da menina começava a subir em um meio sorriso enquanto a amiga começava a quase pular, querendo chamar a sua atenção.
— Jord, você está a fim de dar uma volta?

[...]


Na sexta-feira daquela semana, e Jordyn rumavam para o condado de Westmeath, onde ficava o tal estúdio de Grouse Lodge, a mais de cem quilômetros de Dublin.
Depois de mil mensagens pedindo para ir junto, de utilizar a vantagem de conhecer minimamente o dono do estúdio, a chantagem de que tinha um carro para levá-las e de contar com o apoio ferrenho de Jordyn — apesar de , a principal afetada da situação, se sentir mais afetada ainda com a presença extra —, quem dirigia o opala antigo de seu pai até a vila de Rosemount, em Westmeath, era .
— Por que eles se enfiaram no fim do mundo para gravar um álbum? — perguntou, deitada e enrolada em duas cobertas, enquanto observava árvores e mais árvores passarem por suas meias coloridas, encostas em uma das janelas do banco de trás.
— É um dos melhores lugares para se gravar na Europa. — começou a falar e ela revirou os olhos.
Ele parecia querer participar dos assuntos a qualquer custo. Até quando perguntara para Jordyn o que ela tinha usado para melhorar as cutículas na semana passada, ele fizera questão de se intrometer para dizer que cutículas eram boas para proteger as unhas e toda essa baboseira.
Sério, quem liga? pensou, mas não queria bancar a estraga-prazeres, já que Jordyn parecia muito animada no banco do passageiro — “Sério, ? Que saudade das suas curiosidades aleatórias!”
— É tipo um hotel, tem tudo lá! — ele continuava, sempre olhando no espelho retrovisor interno para observar as feições de , quase sempre se deparando com um revirar de olhos ou uma expressão nada amigável. — O intuito é que o artista se sinta à vontade para poder fazer música. Genial! Fico até surpreso que eles tenham verba suficiente para alugar um lugar como esses.
— Uau. — fingiu empolgação e bateu com as meias no vidro no ritmo da música dos Strokes que tocava nos alto-falantes. — Dinheiro para comprar a música que roubaram de mim que é bom, nada, né?
deu um sorriso quebrado. O carro ficou em silêncio novamente, o que parecia deixar e Jordyn desconfortáveis. , porém, preferia assim. Era bom que os dois entendessem que o tempo da amizade deles já havia passado. Estava feliz com a amizade de Jord, apenas, e tanto lhe fazia se ela e o rapaz fossem amigos também, contanto que não forçassem um laço que claramente não existia mais ali, tentando fingir que nada tinha acontecido entre e ela.
O som que saía do rádio era a única coisa que a interessava . Era a única coisa boa que ainda podia esperar do ex-namorado: seu gosto musical; e estava feliz em captar apenas isso dele durante essa aventura, se é que se podia chamar assim.
Jordyn, depois de uma hora e alguns minutos de viagem, pareceu entender isso e, como boa persuasiva, usou a seu favor.
, você adora essa música! — ela falou, aumentando o som de Piano Man, do Billy Joel. sorriu, encarando o retrovisor.
— Uhum. — respondeu, sem dar muita corda. — Estamos chegando?
— Em uns dez minutos. — o rapaz respondeu prontamente. balançou a cabeça, concordando, e a colocou para dentro das cobertas.
Apenas levantou quando, alguns minutos depois, ouviu os primeiros acordes de Business ameaçarem a começar.
— Pula essa, por favor, Jord. — seu rosto estava vermelho, por causa das cobertas que o abafavam e por causa das lembranças constrangedoras que a música a trazia.
Pôde ver esconder um sorriso e já estava preparada para falar algumas verdades que vinha segurando ao longo do caminho, quando ouviu a voz de Jordyn murmurar embasbacada:
Isso é um estúdio?!


Capítulo 4: Something you never have and never will


Sim, a gigantesca construção de pedra de aparência medieval que se estendia à frente dos olhos abobados de , e Jordyn era um estúdio. “Um dos melhores da Europa”, fez questão de repetir enquanto desciam do carro e caminhavam temerosamente em direção ao enorme portão de ferro que parecia querer engoli-los.
pensava seriamente em desistir de tudo, dar meia volta e entrar no opala antigo do ex-namorado para voltar para segurança de seu lar pequeno e confortável. Coisas grandes demais a assustavam, e aquele estúdio — se é que se podia chamar assim — era definitivamente grande demais para o gosto dela.
Que importava se Catfish and the Bottlemen tivesse roubado a sua música, afinal? Ela tentava se convencer de que aquela canção não valia todo aquele esforço, mas, só de pensar nela, lembrava-se de tudo o que passara para compô-la, e toda raiva voltava para si como combustível para a grande loucura que provavelmente cometeria.
— Tem certeza que é aqui, ? — ela perguntou baixo, tentando camuflar o tremor que o medo começava a causar em sua voz.
— Tenho, sim. — ele encarava o celular em suas mãos, provavelmente conferindo o endereço no Google ou algo assim. — Embora até eu esteja bem surpreso com a estrutura desse lugar.
revirou os olhos com a fala do rapaz.
— Como se você fosse melhor do que a Jordyn ou eu pra se surpreender menos. — bufou ao cruzar os braços e observar a feição indecifrável da amiga. — Você ao menos realmente conhece o dono desse lugar? — virou-se para , que parecia se encolher dentro da jaqueta jeans que usava.
— Bom, ele realmente é pai de um garoto que fez um curso intensivo de Espanhol comigo no verão passado… — ele não precisou terminar para sentir o olhar raivoso de fervendo sobre si.
— Vamos voltar pra casa. — ela anunciou, mirando o olhar raivoso para Jordyn e depois retornando-o novamente para . — Eu avisei pra não trazermos ele, Jordyn, ele é um mentiroso filho da mãe! Ora, curso de Espanhol, você falou que era amigo dele, ! Vão rir da nossa cara quando pedirmos pra entrar nesse lugar, tudo o que eu ganho um ano inteiro não deve pagar o prejuízo que meus sapatos usados vão causar nesse gramado dinamarquês.
— Gramado dinamarquês? Você está sendo muito dramática, … — ele começou, tentando se defender, mas Jordyn, um pouco mais à frente do que eles, estava simplesmente cansada de ouvi-los.
— CALEM A BOCA, PELO AMOR DE DEUS! — ela gritou, exausta, colocando as mãos na cabeça enquanto observava os dois amigos a encararem, mudos e com as sobrancelhas arqueadas. Ela respirou antes de continuar: — Parecem duas crianças birrentas e insuportáveis. Eu achei que seria legal colocar vocês dois juntos em um carro porque estava com saudade da nossa amizade, mas, por Cristo, eu estava redondamente errada e não aguento ouvir mais nem uma palavra de nenhum de vocês dois a não ser que seja pra colocar todos nós pra dentro desse estúdio.
ainda mantinha os olhos visivelmente arregalados perante o discurso inesperado da amiga e sentia-se levemente culpada por tê-la colocado nessa situação, mas a raiva que sentia por era maior no momento.
— Bem, poderíamos entrar se o senhor bonitão aqui realmente conhecesse alguém…
Jordyn rolou os olhos, descendo as mãos da cabeça para a cintura.
— E como iríamos entrar antes, sem ele, então, bonitona? — ela perguntou, olhando para . — Você nem ao menos queria que ele viesse, ele teve que praticamente implorar pra vir junto, e agora de repente o considera parte indispensável do seu “plano”. — fez aspas com as mãos, fazendo com que engolisse as próprias palavras. — Como você queria entrar se viéssemos só nós duas, afinal? Ia chegar aqui e dar meia volta por causa de uma grama dinamarquesa? Faça-me o favor, . — e virou-se de costas para os dois antes de apertar com força o botão do interfone que pendia sobre a parede de pedra ao lado do portão.
e pareciam congelados, encarando um ao outro com feições extremamente aterrorizadas enquanto observavam Jord aguardar tranquilamente que alguém os atendesse.
— Eu passei quase duas horas dentro do opala fedido do pai do aguentando a sua cara de bunda e tentando ser gentil, agora é melhor você caminhar até aqui e falar o que quer que seja com quem quer que atenda a droga desse interfone. — ela cochichou, encarando a amiga.
olhou novamente para , tentando procurar ajuda na expressão desesperada dele enquanto seu coração parecia saltar freneticamente em seu peito.
— Você vai! — ela sussurrou para ele, que arregalou os olhos antes de balançar várias vezes a cabeça.
Você que quer falar com eles! — ele sussurrou de volta, parecendo tão nervoso quanto.
— Mas você que… — ela não completou o raciocínio, porque um audível “Alô” robótico alguns passos à frente a interrompeu.
Um silêncio terrível se instaurou enquanto os olhos grandes e mandões de Jordyn encaravam como se quisessem xingá-la de todos os nomes possíveis. olhou para a cara abobada de antes de fechar os olhos e crispar os lábios em uma careta de ódio.
Alguém aí? — a voz extremamente mecânica do interfone repetiu enquanto dava alguns passos até ficar ao lado de Jordyn, que tinha agora olhos brandos e um sorriso animado no rosto.
— Oi! — ela soltou, quase que em disparada, sentindo todos os seus ossos tremerem por baixo de sua pele frágil. — Meu nome é , estou aqui com Rover, ele é um amigo extremamente íntimo do dono desse belo estúdio. — segurou uma risada ao encarar a face do ex-namorado empalidecer enquanto seus olhos arregalados a fuzilavam com um olhar que ela costumava chamar de “Vou quebrar seu vinil favorito do Bob Dylan assim que chegarmos em casa”. — Viemos de muito longe pra dar uma palavrinha com ele.
O breve silêncio que se seguiu fez os três jovens quase vomitarem seus órgãos para fora de nervoso enquanto Jordyn gesticulava com os lábios “Sério, esse era o seu plano?”.
Ah, bem, ele não está agora… — a voz parecia incerta do que dizer e, embora ela estivesse extremamente afetada pela transmissão péssima do sinal, jurou já tê-la escutado antes. — Mas, bem… acho que vocês podem entrar enquanto eu ligo pra ele.
Jordyn fechou o punho e balançou o braço em sinal de vitória e voltava a respirar normalmente, aliviada, enquanto um pequeno sorriso saía do canto de seus lábios. parecia ter voltado à sua cor habitual, mas permanecia tenso quando o grande portão de ferro começou a fazer alguns barulhos antes de começar a se abrir sozinho.
— Bem-vindos ao Grouse Lodge. — falou baixinho quando eles puderam enxergar visivelmente o enorme jardim bem-cuidado e cercado por enormes construções de pedra. — Uau.
Ficaram parados em frente ao portão aberto, sem saber exatamente o que fazer e como proceder agora que o mais difícil havia passado. Decidiram adentrar devagar e fingir costume, já que, teoricamente, eram queridos amigos do dono do local.
Toda a polidez de costumes de , porém, foi embora assim que ela avistou sair por uma das milhares de portas que circulavam o jardim. Ela sentiu o sangue ferver antes de caminhar em passos firmes e apressados em direção a ele, deixando os amigos e qualquer vestígio de bons modos para trás.
— Você! — ela apontou ferozmente para o cantor, que tinha uma expressão extremamente confusa no rosto, enquanto e Jordyn apressavam o passo para alcançá-la antes que ela fizesse alguma bobagem.
— Vocês devem ser os amigos do Andy. — falou calmamente, com as sobrancelhas juntas, enquanto encarava a menina que se aproximava dele com a mão levantada e tentava entender a complexidade da situação. — Como eu disse, ele não está. Alugamos o estúdio pelos próximos meses, ele veio aqui pela manhã pra nos deixar as chaves. Vocês têm o número dele aí? Ele me deixou num papel, mas eu acho que perdi quando...
— Foda-se o papel. — falou, sentindo a raiva subir-lhe rapidamente o peito enquanto chegava bem próxima à feição indiferente do músico. — Foda-se o Andy e foda-se você e a sua banda…
! — os amigos a alcançaram e Jordyn a segurou pelos ombros, tentando externar sua cara mais simpática para . — Desculpe a minha amiga, ela está um pouco nervosa…
Mas já não escutava mais nada. . Assim que a menina chegara perto o suficiente para que ele pudesse enxergar sua expressão irritada, os olhos do rapaz se arregalaram involuntariamente e um enorme bolo pareceu ter surgido do nada em sua garganta, impedindo-o de engolir e respirar normalmente.
. Estava longe de ser um nome comum e, mesmo assim, ele tivera a estranha sensação de já o tinha escutado antes quando atendera o interfone.
O rosto do vocalista estava extremamente lívido e totalmente branco enquanto a moça loira que acompanhava falava sem parar e ele não escutava nada além do som que a faísca dos olhos da menina à sua frente parecia produzir.
— Podemos conversar? — cortou Jordyn, que estava no meio de um discurso pacificador, ao se dirigir especificamente a , fazendo com que a loira e (que estava se controlando de todas as maneiras que conseguia para não dizer o quanto admirava o trabalho do músico à sua frente) trocassem um olhar significativo antes de ele continuar: — A sós.
teve que se controlar para não soltar mais uma enxurrada de xingamentos e balançou a cabeça afirmativamente enquanto mantinha o semblante mais sério que conseguia sustentar. Ficar o atacando não iria adiantar de nada, afinal. Ele provavelmente sequer se afetaria com suas provocações e, se se afetasse, isso faria com que a tentativa de resolução das coisas de corresse ainda pior.
assentiu silenciosamente e virou-se de costas, esperando que a garota o seguisse até a porta de onde tinha saído alguns segundos mais cedo.
não sabia como se sentir. Sentia um misto de emoções incomodando seu peito. A raiva e a indignação eram as principais delas, é claro, e a parte consciente do seu cérebro repetia por diversas vezes “ele roubou a sua música depois de ter sido um completo babaca com você!”. Mas seu subconsciente simplesmente não podia deixar de ignorar o fato de que , um dos ídolos de sua adolescência e o rapaz cujas músicas lhe inspiraram inúmeras, únicas e inesquecíveis emoções, estava a alguns poucos passos de distância, caminhando à sua frente e a guiando para uma porta de um dos melhores estúdios de gravação da Europa.
Tudo era muito surreal, e tentava ao máximo manter a seriedade e a indiferença guiando suas emoções, já que não queria ser destratada mais uma vez pelo músico ao demonstrar uma possível admiração, mesmo que severamente reprimida.
, em seu mundo próprio e silencioso, sentia-se mal. Muito mal. Como boa parte dos músicos, tinha vindo de baixo. Sabia como era extremamente difícil ascender, mesmo que de forma mínima, em um mercado tão competitivo quanto o musical. Já fora um adolescente com sonhos — e apenas sonhos — tentando ao máximo ter sua música e sua história ouvidas pelas pessoas.
Já tinha ido atrás de cantores famosos para tentar agradá-los com o som que produzia, assim como a menina que o seguia displicentemente pelo gramado bem cuidado fizera com ele. Já havia tocado em estacionamentos, em refeitórios, em filas de shows para os quais não tinha o dinheiro do ingresso, tudo isso para tentar ser notado de alguma forma.
No final das contas, tinha dado certo. Estavam à caminho do terceiro álbum, afinal. Mas todo o esforço e todas as energias incrivelmente pareciam ir água abaixo em um ralo de pia quando simplesmente olhava para — agora parada à sua frente e encarando desconfortável a mobília que brilhava dentro de uma das salas do Grouse Lodge.
Apesar de nunca ter querido roubar a música dela ou algo parecido, era exatamente o que tinha feito. Tinha a cantado sem autorização e sem dar nenhum crédito à verdadeira autora na frente de toda uma plateia e de todos da produção. À essa altura, provavelmente, a performance estava circulando indiscriminadamente pela internet e por isso mantinha no olhar um misto de ódio, tristeza e decepção no rosto lívido.
Ele sequer conseguia imaginar como teria se sentindo se alguém tivesse feito isso com ele quando estava tentando trilhar seu caminho na música.
. — ele repetiu, em voz alta, mais para si mesmo do que para a menina, pensando que seria muito mais fácil ter lembrado do nome dela antes de tudo. — A sua música… — ele procurava palavras que pareciam ter sido apagadas de seu vocabulário enquanto a menina cruzava os braços abaixo do peito, evitando ao máximo encará-lo. — é realmente muito boa, eu…
— Eu vi o que você fez. — ela o cortou, séria, tentando manter a respiração em um ritmo aceitável.
balançou a cabeça, assentindo, e um silêncio extremamente incômodo inundou o local por alguns segundos. Embora internamente seus sentimentos e seus órgãos se contorcessem de remorso por todas as razões já relatadas, a fisionomia do músico demonstrava certa calma e até um pouco de descaso, imperceptivelmente. Mesmo vindo de baixo, talvez pela criação de filho único advindo de proveta ou seu sol em Leão, sempre fora orgulhoso o suficiente a ponto de não saber como desculpar-se ou assumir de forma satisfatória seus erros.
— É. — ele colocou a mão no queixo, parecendo analisar friamente a situação, enquanto apertava imperceptivelmente a barriga, querendo que tudo se resolvesse o mais rápido possível e ela pudesse ir embora para casa. Situações como essa a deixavam excepcionalmente nervosa. — Quanto quer por ela? — ele perguntou por fim, observando a menina tirar os olhos da mobília e encarar seus olhos azuis vibrantes pela primeira vez.
— Como é? — limpou a garganta, tentando entender a feição limpa do rapaz.
— A música. — ele sorriu, pensando que tinha achado a solução perfeita para a situação. — Quanto quer por ela?
permitiu-se abrir um sorriso doloroso enquanto balançava negativamente a cabeça e esticava os braços.
— Não quero dinheiro, . — ela disse com firmeza, fazendo com que o sorriso desaparecesse do rosto do vocalista, que começava por fim a adquirir uma expressão. — Eu quero a minha música de volta.
juntou as sobrancelhas, tentando acompanhar o raciocínio da garota enquanto ela respirava fundo tentando controlar suas emoções.
— Se está planejando gravá-la nesse estúdio chique ou fazer qualquer outra coisa com ela, está perdendo o seu tempo e o seu dinheiro. — vociferou, fazendo com que o músico sentisse seu coração pular uma batida e começar a bater em um ritmo bastante lento.
Dreams, ou qualquer que fosse o nome da música que se apagava aos poucos no papel azul-claro, era literalmente a única coisa que ele tinha para o novo álbum além de um puta bloqueio criativo que parecia que nunca mais passaria. Ainda mais, era a única coisa que tinha conseguido fazer com que ele se sentisse minimamente inspirado a ponto de escrever novamente.
Como se estivessem em um campo de batalha, os olhos de ambos se estreitaram e as respirações violentas se cortavam, parecendo tomar conta do ambiente. Todo o esforço que tinha feito para manter-se sóbria e calma ia pelos ares junto com raiva que emanava dos lábios trêmulos de .
— Você me deu a letra naquele dia. — ele cuspiu, sentindo as mãos suarem e o medo de perder a única letra que o tinha ajudado a produzir uma frase de música começar a palpitar em seu peito.
arregalou os olhos e abriu a boca, extremamente indignada com o quão desonesto o cantor se mostrava ser.
— EU QUERIA QUE VOCÊ LESSE, OUVISSE, ME ESCUTASSE, ME DESSE UMA OPINIÃO OU QUALQUER ESPERANÇA! — ela soltou, sentindo a respiração falhar e a garganta começar a doer.
também parecia ter sentido o impacto da exclamação, pois ficara alguns segundos inteiros mudo, pensando em sua trajetória e quase se vendo na menina que gritava.
— Eu sinto muito. — foi sincero, os olhos encarando qualquer coisa que não fosse o rosto vermelho e os olhos prestes a desaguar à sua frente. — Eu… realmente não era a minha intenção cantá-la no show em Newcastle, mas… — e sacudiu a cabeça, balançando os cabelos relativamente compridos e observando os sapatos marrons que usava. — Ela estava ali, e era tão boa, e todos estavam tão felizes por finalmente ter algo novo pra tocar depois de dois anos e…
Ele levantou o olhar, sem saber mais o que dizer e temendo a reação de . O rosto dela estava inalterado, permanecia vermelho, mas suas sobrancelhas estavam menos tensas e os olhos já estavam secos, o que fez imperceptivelmente soltar a respiração que não sabia estar prendendo.
— E você poderia ter me procurado. — ela completou a frase cortada dele, com a voz mais branda. — Poderia ter pelo menos tentado me procurar e ter dito que gostou da minha música, era só isso que eu queria. — uma lágrima fina rolou tão de repente dos olhos secos da menina que ficou assustado.
— Eu não lembrava seu nome. — ele disse simplesmente, tentando pensar em uma maneira de fazer com que ela parasse de chorar. Pessoas chorando deixavam o músico desconsertado e aflito.
Para alívio dele, a lágrima foi solitária e abriu um pequeno sorriso, cujo verdadeiro significado ele não entendeu.
— É claro que não lembrava meu nome. — balançou a cabeça. — Você me tratou como lixo. Fico surpresa que não tenha jogado o papel que te entreguei em qualquer lugar assim que chegou ao camarim.
engoliu em seco, já que tinha sido exatamente aquilo que tinha feito. Se Bondy não tivesse visto e lido a música, talvez nunca estivesse nessa situação, mas talvez também nunca tivesse escrito a estrofe que escrevera.
— Eu sinto muito, . — ele repetiu, mecanicamente. — Mas é quase como se uma bênção disfarçada tivesse caído sobre mim e eu tivesse ficado cego e flutuasse. — levantou as sobrancelhas, observando a menina ficar cada vez mais atônita. — Digo, você viu o arranjo e a estrofe que escrevi? Estava pensando inclusive em renomeá-la…
— Para! — ela o interrompeu, colocando as duas mãos em cada uma das orelhas. — Olha, , ficou tudo ótimo e já te expliquei que não teria absolutamente nenhum problema se você tivesse me consultado antes. — ela fechou os olhos, sentindo a cabeça latejar. — Mas eu realmente gostaria que você não utilizasse mais Dreams ou seja lá qual fosse o nome que você considerasse melhor.
O vocalista parecia ter perdido todo o ar no momento em que escutou as palavras caírem como bombas da boca da garota à sua frente. Não sabia porque se apegava àquela letra como se fosse sua única salvação, mas sabia que, pelo menos naquele momento, ela realmente se assemelhava à única coisa que poderia fazê-lo voltar a ser o que era antes e escrever como escrevia antes.
— Você não pode fazer isso. — ele atacou, na defensiva, sentindo o peito doer.
— O quê? — ela respondeu no mesmo tom, cerrando os punhos. — É claro que posso! A música é minha.
— Tecnicamente — ele continuou, respirando fundo por ter de utilizar a última carta em sua manga. — a música não é sua, já que você sequer a registrou.
O rosto de tornou-se lívido e extremamente branco de repente. Ela não tinha registrado Dreams. Todo o papelão que estava pagando na frente de de repente tornou-se totalmente inútil e desnecessário, e até um pouco vergonhoso.
Ela abaixou a cabeça, levemente envergonhada e extremamente irritada. Mesmo que tivesse utilizado suas próprias experiências e escrito cada palavra da canção com todo o coração, ela sequer podia recorrer os direitos sobre a música se Catfish and the Bottlemen a tivesse registrado antes.
Seu pai havia a alertado sobre isso antes de ela se mudar para Dublin. “O mundo da música é muito cruel e você deve se proteger do jeito certo, não pode dar motivos pra que eles abusem de você e do seu talento.” O tempo havia passado tão rápido, porém, e todos os sonhos da menina haviam se desmoronado tão fácil e tão rapidamente, que ela sequer pensava ter que se preocupar com isso na altura em que estava. Não aspirava mais uma carreira nem nada parecido, estava desiludida a ponto de contentar-se em atender telefonemas em uma escola de música e produzir suas letras e canções apenas para externar suas emoções.
Sabia que o erro tinha sido todo e somente seu, mas ver um dos músicos que tanto admirava jogar isso na sua cara de forma tão abrupta e sequer se mostrar minimamente arrependido por ter feito o que fez, fez com que o peito de doesse de forma aguda e contínua de uma hora para outra.
A dor da garota pareceu passar diretamente para , que sentiu o peito arder quando os cabelos volumosos e as costas de tomaram o seu campo de visão, quando ela virou-se para sair da sala.
, espera. — ele pediu, de olhos fechados, sentindo-se a pessoa mais babaca do mundo inteiro.
— Você tá certo. — ela falou simplesmente, sem esforçar-se para virar para encará-lo e andando em direção à porta. — Faça bom proveito dessa letra idiota e, por favor, vá se foder.
balançou a cabeça, caminhando em direção à menina.
— Me desculpe, é claro que a música é sua, independente de qualquer registro. — corrigiu-se, passando a mão sobre os cabelos. Ele alcançou-a, mas não teve coragem de tocar nela ou segurá-la pelos ombros para impedi-la de sair do cômodo. — Eu sei que tô certo, mas essa não é a questão. — continuou, fazendo com que as coisas ficassem algumas vezes pior. — É só que eu… Por favor, , eu te dou todos os créditos e os direitos autorais. Seu nome estaria no encarte e você receberia pela música o resto da vida.
espreitou os olhos, incrédula com a forma que ele parecia se achar uma pessoa muito boa por estar oferecendo-lhe o mínimo.
— Isso seria literalmente o mínimo que você teria que fazer, se tivesse bom senso. — ela juntou as sobrancelhas, respondendo-o ainda de costas. — Era o que deveria ter feito no começo.
concordava com ela em todos os graus. Se sentia cada vez mais idiota por ter verdades tão óbvias jogadas em sua cara de forma tão crua. Talvez por isso se sentisse ainda mais ofendido e cada vez mais irritado — com ela e consigo mesmo.
— Olha, eu tô tentando te ajudar e você só está complicando as coisas. — ele semicerrou os olhos azuis.
soltou uma risada fraca e sem humor.
— Dá um tempo, você estava tentando se ajudar. — retrucou, sentindo o sangue ferver e não acreditando que realmente fora fã do rapaz algum dia.
Ela virou-se para ele, angustiada, antes de continuar a falar:
— Sério, foi você mesmo quem escreveu sobre perder algo que você nunca teve e nunca terá?* — ela sentia-se surpresa e extremamente dolorida por dentro. Ele claramente não parecia saber o que era nunca ter a chance de ter alguma coisa. — Você por acaso imagina o que é ir atrás de um sonho e nunca conseguir literalmente nada? — seus olhos ardiam e suas mãos tremiam à medida que ela sentia o peito doer. — Por acaso sabe o que é viver achando que nunca é e nunca será o suficiente e de repente ouvir sua música ser aplaudida através do som de outra pessoa?
abaixou a cabeça, sentindo-se verdadeiramente humilhado por suas próprias atitudes.
— Detalhe: — continuou, tentando enxergar os olhos azuis que se escondiam a todo custo. — a pessoa era realmente alguém que você admirava. Você confiou a ela uma música sua, música que você nunca tinha mostrado a ninguém, a não ser para o seu namora… — e então rolou os olhos imperceptivelmente. — ex-namorado.
O silêncio da parte de era quase sepulcral. Já não era mais prudente ficar insistindo por algo que não era seu e sequer se mostrar arrependido por tudo o que tinha feito de ruim. As palavras de cortavam como faca e ele sentia-se extremamente dolorido depois de escutá-la.
— Eu realmente te admirava, . — ela suspirou e mordeu os lábios, lembrando-se dos bons tempos em que o escutava todos os dias com . — Agora sei que é uma coisa bastante perigosa admirar o que não se conhece.
Com os últimos golpes dados, virou-se novamente para a porta. Estava decidida a ir embora, pelo menos com a sua dignidade intacta, mas vacilou quando escutou a voz do músico a chamar num tom realmente baixo — arriscaria dizer quase indefeso —, nada parecido com o utilizado em todo o restante da conversa.
— Por favor, espera.
Num último apelo, conseguiu que a menina parasse, imóvel, à frente da porta, esperando qualquer coisa melhor do que o nada que recebera, antes de sair definitivamente daquele local.
— Eu não quero a sua música, . — ele suspirou, com a voz cansada e abatida, como se fosse realmente difícil ou doloroso para ele dizer o que estava prestes a dizer. A menina juntou as sobrancelhas, tentando adivinhar a expressão dele, mesmo de costas, e sentindo uma pitada quase inexpressiva de empatia no peito. — Eu preciso dela.
A surpresa da declaração inesperada fez com que ficasse mais alguns segundos parada, tentando absorver a informação. Sem saber o que dizer, e sentindo que nada tinha sido efetivamente resolvido, girou a maçaneta da porta e finalmente deixou o local, sem dizer uma palavra.
Não tinha como decidir nada no momento. Esperava que tivesse entendido, porém, de forma implícita, que ela pensaria na situação.

Estava quase escuro quando saiu no jardim, com uma cara de poucos amigos e com com uma cara muito pior em seu encalço.
Para a sua surpresa, e Jordyn gargalhavam e falavam muito alto, em uma rodinha com ninguém menos do que Bob Hall, Johnny Bond e Benji Blakeway, como se fossem todos grandes e velhos amigos íntimos.
ficou ainda mais chateada por sua falta de sorte. Por que não podia tratá-la como os companheiros de banda simpáticos dele estavam tratando sua amiga e seu ex-namorado? E por que os companheiros de banda simpáticos dele estavam tratando tão bem sua amiga e seu ex-namorado?
A feição irritada de quando se aproximou deles fez com que as risadas cessassem quase que automaticamente.
— Vamos embora. — a garota proferiu, direcionando o olhar para os dois.
Eles se entreolharam e então olharam para os novos amigos, pesarosos — claramente mais do que Jordyn.
— Mas acabamos de chegar. — ele falou, parecendo bastante emocionado de estar entre seus ídolos.
— E já vamos sair. — ela cerrou os dentes, decidida.
Jordyn não se atreveu a contrariá-la, pois conhecia muito bem o temperamento da amiga e logo se despediu dos rapazes com sorrisos muito amigáveis. O processo com foi um pouco mais demorado, já que ele repetiu algumas vezes o quanto era fã da banda e o quanto admirava o trabalho de cada um deles. sentiu até que ele fosse chorar quando chegassem ao carro.
Acontece que, ao observar com olhos arregalados os faróis ligados do veículo extremamente antigo, quem teve vontade de chorar foi ela.
— Me diz que você não fez isso, . — suspirou, querendo internamente fazer uma birra colossal por ter namorado alguém tão burro.
Os três encaravam meio atônitos as luzes já bem fracas que saíam do carro antigo, após tanto tempo ligado, e iluminavam pouco a escuridão que já tinha surgido.
— Calma, pelo menos ainda estão ligados, não ficamos tanto tempo lá dentro. — ele tentou sorrir, pensando na melhor das hipóteses e tentando calcular em sua cabeça o tempo desde que haviam saído do carro, mas, no exato momento em que terminou de falar, os faróis desligaram de forma abrupta, como se tivessem escutado sua súplica e rissem da sua esperança.
segurou um grito enquanto levava as mãos ao rosto.
— Por que não desligou o carro, ? — Jordyn perguntou, as sobrancelhas juntas, tentando não ser tão dura com o amigo mas sentindo uma leve desesperação assolar seu peito.
— Eu não sei! Eu tava muito nervoso, ok?! — ele defendeu-se, sentindo os olhares das duas queimarem sobre si na escuridão vigente.
— Jord, pesquise algum mecânico próximo na internet enquanto eu e tentamos reviver essa pocilga. — pediu e observou a amiga assentir enquanto caminhava para o banco do motorista.
As tentativas foram incontáveis, mas o carro sequer roncava quando a menina girava e girava diversas vezes a chave em seu motor.
parecia não saber para onde olhar primeiro quando levantou o capô. Eram tantos fios e tantas caixas pretas e extremamente empoeiradas que pareciam estar quebradas há muito tempo, que ele realmente não tinha ideia do que fazer para tentar melhorar a situação.
— Más notícias. — Jord se pronunciou, colocando o rosto na janela aberta do banco do passageiro e balançando o celular nas mãos. — O mecânico mais próximo desse fim de mundo está a cinquenta minutos de carro — soltou uma risada abafada ao perceber a ironia da situação. — e só abre amanhã às 9h. Ele nem atende o telefone.
encostou a cabeça no banco, sentindo o corpo formigar de nervoso.
— Ótimo. — ela suspirou. — Ainda bem que eu trouxe um cobertor.
— Não entendi o que está sugerindo. — Jordyn ficou muito séria de repente, encarando a amiga.
— A não ser que ache um albergue muito barato nas redondezas, para o qual possamos ir a pé nessa escuridão — ela respondeu, os olhos já fechados. — teremos que dormir no carro. — deu de ombros, esticando os braços. — E eu não vou dividir a minha coberta com o .
— Eu ouvi isso. — escutaram a voz do rapaz, que ainda encarava o motor sem nenhuma ideia do que fazer.
— É claro que ouviu. — retrucou, abrindo os olhos.
— Ou — Jordyn balançou a cabeça, como se fosse realmente desnecessário o drama que a amiga estava fazendo. — temos uma mansão gigantesca bem à nossa frente e quatro caras super bacanas que adoraram conversar com a gente.
pigarreou, desencostando do banco.
— Não.
— Sim. — a amiga sorriu, saindo da janela.
— Não! — falou mais alto, para que Jord ouvisse.
— Sim. — fechou o capô, batendo as mãos umas nas outras e parecendo muito satisfeito com a resolução.
— Vocês só podem estar brincando. — saiu do carro e bateu a porta, estressada. — Isso é um complô? Alô, esse cara roubou a minha música!
— Ótima oportunidade pra resolverem isso melhor, não acha? — Jord levantou as sobrancelhas e piscou rapidamente os olhos. — Pela cara que vocês dois tinham quando saíram no jardim e pelo seu humor ligeiramente ácido, eu chuto que as coisas não correram da melhor forma.
Claramente. — ela respondeu, lembrando-se da forma como a tratara no início da conversa.
Jordyn suspirou, rolando os olhos e depois os fechando rapidamente.
— Olha, se você quiser dormir nesse carro velho e fedido, nesse escuro, podendo ser atacada por ladrões ou animais nessa… selva, enquanto tem literalmente um castelo com provavelmente vinte quartos vazios na sua frente — ela soltou, encarando a amiga e apontando para a construção atrás de si. — você pode, apesar de ser uma decisão bem burra. — e levantou os ombros antes de terminar: — Mas não pode me obrigar a fazer o mesmo.
balançava a cabeça, concordando com todas as palavras de Jord, e a seguiu quando ela virou-se em direção ao portão do grande estúdio mais uma vez, sem dizer uma palavra.
odiava o fato de a amiga ter razão e pensava repetidamente com que cara encararia novamente após o episódio de mais cedo. Pensava em como tentar evitá-lo, uma vez que literalmente estaria pedindo um favor para ele, e pensava em como não agir de forma que parecesse que ela era a vilã da situação.
Revirou expressivamente os olhos, bateu algumas vezes com os pés na terra em volta do carro — fazendo o máximo para não chutar a lataria antiga — e abriu a porta, pegando sua coberta lilás, antes de, relutantemente, seguir e Jordyn em direção ao Grouse Lodge mais uma vez naquele dia.
* Referência a Pacifier: “you know I tried and failed, but you just don't know how it feels to lose something you never have and never will”.


Capítulo 5: It's a shame she don't work with me


O silêncio que preenchia a enorme sala de estar amadeirada era absolutamente constrangedor, principalmente para as seis pessoas que não estavam envolvidas na situação conturbada de e . e Jordyn trocavam olhares constantes como se perguntassem um ao outro de forma silenciosa como deveriam agir naquele clima desconfortável. Bob, Benji e Bondy se limitavam a encarar os próprios sapatos ou qualquer coisa facilmente mais atrativa no grande salão do que a tensão quase palpável que parecia pesar o ar.
encarava fixamente há alguns minutos, como se acreditasse que, se fizesse isso por algum tempo, conseguiria ler tudo o que se passava na cabeça dela e entender exatamente o que ela queria que ele fizesse. evitava olhá-lo de volta, mas o olhar constante do músico sobre ela a deixava irritada, então direcionou a ele uma feição fechada que o fez levantar os olhos azuis para encarar o teto alto.
Bob pigarreou, desejando ter ficado quieto no quarto onde estava antes, tranquilamente escutando ao som de suas baquetas, do que ter descido para receber aquelas visitas inusitadas.
— De onde vocês se conhecem mesmo? — ele perguntou, tímido, tentando quebrar o gelo que começava a congelá-los e observando o jogo estranho de olhares emburrados entre e .
abriu um sorriso irônico antes de encarar novamente, levantando as sobrancelhas.
— Então não contou? — ela estalou a língua no céu da boca, vendo o músico empalidecer aos seus olhos. — A música que vocês tocaram em Newcastle é mi…
Muito boa! a cortou, soltando uma risada fraca e sem graça. — A é uma grande fã nossa e veio elogiar a música logo após o show.
A menina arregalou os olhos e abriu a boca expressivamente enquanto e Jordyn trocavam mais uma vez olhares desentendidos, e os músicos se sentiam totalmente perdidos.
— Podemos conversar, ? — chamou, um sorriso amarelo e desconcertado ainda presente em seus lábios tortos. — A sós.
levantou-se rapidamente, furiosa, afundando o sapato de forma pesada no piso delicado do local e seguindo pelo corredor que se abria a partir da sala. A pouca iluminação fazia com que o lugar parecesse algumas vezes menor do que de fato era.
— Você tem algum problema? — ela cerrou os dentes, tentando enxergar os olhos claros do cantor.
— Sim, tenho muitos — ele rolou os olhos, impaciente com ela e consigo mesmo. — Um deles é o fato de que aqueles ali no sofá são meus melhores amigos e meus companheiros de banda há tipo dez anos.
balançou a cabeça e levantou as sobrancelhas, como se soltasse um sonoro “e daí?”. juntou as sobrancelhas e abaixou as pálpebras para a expressão da menina.
— Bom, eles ainda não sabem que a música é sua… — ele começou, passando a mão pelos cabelos. — Claro que eventualmente saberão… Eu só queria que… — e levantou os olhos, como se estivesse envergonhado de falar o que queria falar (com razão, pensou ). — Que eles soubessem isso de mim, afinal fui eu que comecei com toda essa bola de neve.
— Meu Deus, isso é sério? — ela fechou os olhos e juntou o polegar e o indicador ao redor da ponte do nariz, não querendo acreditar no que estava ouvindo. O início de uma sinusite parecia atacar o meio de sua testa.
— Sim, eu só não queria piorar ainda mais a situação, sabe. — e procurou as palavras que lhe faltavam. — Eles não têm nada a ver com isso.
Infelizmente (ou felizmente, para ), a menina tinha uma grande capacidade para a empatia.
— Pelo menos concordamos em alguma coisa. — ela falou simplesmente, abaixando os ombros.
— Que eles saibam por mim? Ah, muito obrigado. — soltou uma risada fraca, tentando apoiar uma das mãos na parede, mas não encontrando o apoio no escuro.
A menina crispou os lábios e balançou a cabeça antes de responder, como se fosse óbvio:
— Não. Que você é o único culpado de tudo isso.
E deixou o corredor, voltando à sala onde estavam antes e deixando o cantor novamente sem entender o que se passava em sua cabeça. Era difícil decifrar as incógnitas que ela colocava à sua frente sem parar: afinal, deixaria que ele comunicasse o mal-entendido a seus colegas ou chegaria na sala abrindo a boca e despejando que era o belo de um ladrão? Havia aceitado a proposta que ele havia feito mais cedo ou estaria esperando a oportunidade certa para efetivamente recusá-la? precisava de respostas, não do silêncio agoniante e acusador que vinha lhe dando naquele dia.
chegou novamente à sala e deparou-se com e Jordyn conversando e rindo com os músicos, de forma bastante confortável, como no começo do dia, quando ela saíra no jardim com .
Começava a pensar que o problema era unicamente ela, pois, assim que adentrou silenciosamente o cômodo, os olhos voltaram-se para o seu rosto e todos ficaram mudos novamente.
— Qual é, tem alguma coisa errada comigo? — ela perguntou, sentindo-se mal e completamente deslocada.
— De jeito nenhum… — Bob foi o primeiro a responder, imediatamente, balançando os braços e tentando evitar qualquer desconforto.
— Tem sim, . — Jordyn o cortou, rolando os olhos e rindo. — Essa sua cara emburrada pode não fazer mais efeito em mim ou no , mas assusta muito quem não te conhece.
Ela tentou sorrir, coçando a cabeça e encarando os próprios pés.
— Foi mal, eu só… — começou, sem saber o que realmente falar e escutando os passos de atrás de si, chegando do corredor e trilhando o caminho trilhado por ela há alguns segundos. — Eu só estou um pouco nervosa. — levantou os ombros, sentando-se novamente no sofá. — Sou uma grande fã, afinal. — ela repetiu as palavras de , virando levemente a cabeça para mostrá-lo um sorriso irônico (e quase maldoso, pensou).
Os meninos assentiram e sorriram abertamente, orgulhosos.
— Graças a mim. — fez questão de completar, cutucando a ex-namorada com o cotovelo. — Sempre foram minha banda preferida desde que ouvi o The Balcony pela primeira vez. E aí apresentei pra , que gostava simplesmente de qualquer coisa que eu colocava pra tocar. — gesticulou, parecendo muito empolgado. pensou que deveria ser no mínimo a quarta vez que ele repetia a mesma história para os rapazes. — Quem pode julgá-la, não é? Meu gosto musical é uma das minhas melhores qualidades, diga-se de passagem. Costumávamos ficar noites inteiras apenas escutando vocês e…
— Ok! — o cortou com um sorriso desconfortável, parte porque não queria ter suas intimidades expostas a pessoas (principalmente ) que tinha acabado de conhecer, parte porque as lembranças ainda doíam em seu peito e evitava a maior parte do tempo trazê-las à memória conscientemente.
Foi Bondy quem voltou a falar após alguns segundos de silêncio:
— O que acham de cortarmos essa tensão da forma certa? — ele sorriu, levantando-se.
— O teor alcoólico dos vinhos do Bondy certamente cortam qualquer coisa. — Benji riu, adivinhando o pensamento do amigo e fazendo Jordyn arregalar os olhos e bater palmas freneticamente.
— Eu gostei tanto deles! — ela sussurrou teatralmente para , apontando para os dois rapazes que saíam da sala.
soltou um sorriso fraco e deu uma última olhada para , tentando entender o que ele pensava.

[...]


Se existia alguma coisa capaz de deixar leve e sem preocupações, essa coisa certamente vinha em uma garrafa e tinha teor alcoólico acima da média.
Nunca fora muito fã de bebidas durante a adolescência, em Galway, mas não podia negar que elas haviam se tornado boas companheiras durante a vida adulta, em Dublin. Também eram aliadas quando sua personalidade majoritariamente introvertida e séria assustava demais as pessoas. Nas festas, num bar com os amigos, ou ali, na sala de um estúdio com quatro desconhecidos depois de algumas doses, ela se tornava outra pessoa. Ou finalmente tinha coragem para ser a pessoa que era de verdade.
Para , a bebida provocava um efeito analgésico semelhante à sensação que o palco lhe proporcionava. Claro que em uma escala muito menor e menos duradoura, mas não deixava de ser um alívio momentâneo à dor constante que era não conseguir mais escrever.
— Servindo café? — ele repetiu a pergunta, num tom de voz que ele considerava baixo o suficiente para não acordar ninguém, mas que passava do aceitável para aquela hora da madrugada.
Shhh! — balançou a cabeça, colocando a mão na boca do rapaz e olhando ao redor para verificar se o estado das coisas permanecia calmo, antes de soltar uma gargalhada silenciosa.
, Jordyn, Bob, Benji e Bondy dormiam calmamente, estirados e entrelaçados nos dois grandes sofás de couro. A conversa tinha sido animada, lotada de risadas e sem nenhum constrangimento além daqueles dos minutos iniciais. Afinal, as garrafas de vinho que Bondy e Benji trouxeram de algum outro canto da casa pareciam realmente ter quebrado a tensão palpável e feito com que e , ambos, ficassem mais à vontade e deixassem a pseudoguerra de olhares de lado por algumas horas.
Horas essas que se estenderam pela madrugada entre piadas amenas e conversas sobre o meio musical, até que, um a um, os olhos pesados foram se fechando e os corpos cansados caindo uns sobre os outros.
Talvez pelo efeito do álcool ou talvez pela vontade mútua de entenderem um ao outro enquanto o diálogo amigável ainda fosse possível, os olhos de e ainda estavam bem abertos, às 4h49 da manhã, e não pareciam ter a necessidade de fechar tão cedo.
— Sim, servindo café! — ela reiterou, depois do ataque de riso. — Também atendo telefonemas, respondo e-mails e imprimo partituras.
Ele retirou a mão dela que ainda tampava sua boca e puxou uma lufada de ar exageradamente, como se tivesse passado os últimos segundos sem respirar.
— Sem chance! — ele balançou a cabeça, incrédulo. — Você é talentosa demais pra isso.
— Nem todo mundo pode alugar o melhor estúdio da Europa. — ela deu de ombros, sem muita emoção. Estava anestesiada. — Músicos também precisam de café e eu preciso de dinheiro! — e começou a rir novamente, como se tivesse contado a piada mais engraçada do mundo.
— Para, ! — tentava ao máximo demonstrar em sua expressão que estava chateado, mas seus olhos brilhantes e os lábios levemente levantados por conta da bebida o afastavam de seu objetivo. — Vai dizer que gosta de trabalhar nessa escola? Sem dar aulas nem nada?
Ela fechou os olhos com força e bufou como uma criança, não querendo entrar naquele assunto. Estavam tendo um papo divertido até aquele momento, por que jogar os fracassos da vida real na sua cara enquanto ela tentava ao máximo fingir que estava em um mundo completamente diferente?
— Claro que não, né! — ela olhou bem dentro dos olhos azuis dele e encostou o dedo indicador na sua bochecha avermelhada. — Acontece que o mundo é assim, alguns se dão bem e outros se dão mal. E a vida é controlada pelos que se dão bem, e eles fodem a cabeça dos que se dão mal. — ela espremeu a testa, tentando elaborar o raciocínio. — E então eles se dão mais mal ainda. Já ouviu falar de Karl Marx?
soltou uma gargalhada alta, o que fez tirar o dedo de sua bochecha e colocar a mão novamente na boca dele, repetindo o processo de verificação da sala.
É uma pena que você não trabalhe comigo. — ele falou, a mão de abafando sua voz e o meio sorriso que brincava em seus lábios.
Ela voltou o olhar para ele e abriu a boca em um “O”, tentando não rir. Só então percebeu que estava muito próxima dele, de pé e reclinada à altura da poltrona em que ele estava sentado, de modo que conseguia ver perfeitamente os pontos pretos e verdes boiando nos seus olhos azuis. Tratou de retirar a mão do rosto dele novamente e se afastar, envergonhada.
! — ela tentou parecer ofendida, andando para longe. — Posso até odiar meu trabalho, mas com certeza também odeio flertar*. — e então parou de repente, sentindo o rosto queimar. — Não que eu estivesse flertando com você, minha nossa! Eu realmente não estava! — ela botou a mão na testa, sentindo-se traída pelas próprias palavras.
Ele sorriu, mais contido dessa vez, achando graça na atitude dela e feliz por ela ter entendido a referência.
— Você ficou envergonhada. — ele apontou, fazendo com que ela ficasse ainda mais.
— Não fiquei. — mentiu, balançando a cabeça. — Só me embolei nas palavras.
encarou um ponto fixo, pensativo, parecendo estar sendo transportado para outra dimensão, e o cômodo ficou em total silêncio por alguns segundos, o que deixou aflita. Tinha falado algo de errado? O efeito do álcool já havia passado e sua personalidade detestável começava a aparecer novamente? Esperava que não, pois, apesar de não querer admitir, estava gostando bastante da conversa.
De repente, como se ouvisse os pensamentos dela, ele saiu do transe momentâneo.
— Eu estou me embolando com as palavras há algum tempo. — ele admitiu, encarando as próprias mãos. — Na verdade, as palavras que decidiram me embolar de vez.
o fitou em silêncio, tentando entender o que ele queria dizer com aquilo.
— Eu não consigo mais escrever nada. — explicou. — Absolutamente nada. — reforçou, com vergonha de encará-la e com raiva de si mesmo. — Por isso que eu… Que eu disse que precisava da sua música, mas eu fiz tudo de um jeito tão errado. — ele colocou uma das mãos na ponte do nariz, sentindo o remorso remoer seus pensamentos. — Eu sinto muito. Mesmo.
assentiu rapidamente, sentindo a realidade voltar à sua cabeça. Apesar de todo o álcool e todas as risadas, aquele à sua frente ainda era , e ainda tinha tocado sua música sem autorização e a tratado de forma péssima quando ela reclamou seus direitos.
— Aposto que tem algo pra você se inspirar. — ela disse, rápida, com o tom de voz claramente mais sério do que antes.
sentiu o clima tenso começar a voltar e decidiu amenizá-lo com uma brincadeira. Embora nunca fosse admitir, estava gostando da conversa e se sentia bem por se sentir tão bem assim depois de algum tempo se sentindo mal. Não queria que o clima tenso voltasse, pois isso significaria que todos os seus problemas voltariam junto com ele. Estava bom viver naquela realidade paralela, nem que fosse por alguns minutos.
— Tipo você. — ele mordeu a bochecha, segurando o riso ao observar a feição dela. — é um bom nome pra uma música.
ficou sem reação. Não esperava o comentário do nada, e não sabia o que ele esperava que ela respondesse. Na realidade, diferente de poucos segundos atrás, começava a esperar novamente que estivesse a quilômetros de distância dali e que nunca tivesse tido a ideia de vir atrás do músico no estúdio.
— Não. — ela respondeu simplesmente. — Por que as mulheres não podem contar sua própria história ao invés de ter seu nome estampado em uma letra de música, como um troféu?
arregalou os olhos, sem saber o que falar. Certamente não esperava aquela reação. Na realidade, não esperava nada além de algumas gargalhadas quando pensou em mudar o clima que ele mesmo havia instaurado.
— Qual é, tenho certeza que Kathleen e Emily teriam umas boas respostas pra você. — ela continuou, cruzando os braços, e abriu a boca, fingindo estar ofendido. — Eu com certeza odiaria que uma música com meu nome falasse que eu “dou problemas quando não estou no clima”**. — ela fez aspas com as mãos e ele balançou a cabeça.
— Fique sabendo que todas elas ficaram muito lisonjeadas. — ele riu, defendendo-se, mas logo ficou sério novamente. — Todas menos a Lisa.
juntou as sobrancelhas, tentando se lembrar em qual música do Catfish havia esse nome, sem sucesso.
— Lisa? — ela perguntou, confusa.
pareceu ter percebido algo em seu semblante desalinhado. Algo entre suas sobrancelhas juntas e seus olhos enigmáticos o fez ter uma ideia súbita, que parecia certa para o momento.
. — ele chamou, enquanto a encarava. — Você quer ouvir uma coisa?

[...]


Demorou alguns minutos constrangedoramente silenciosos para que guiasse até um outro cômodo no Grouse Lodge. A cama gigantesca no meio dele denunciava que aquele provavelmente era um quarto, e se sentiu algumas mil vezes mais desconfortável do que estava antes. A consciência dela começava a retornar e já dava sinais de sua presença, gritando fino em sua mente repetidas vezes: “Pelo amor de Deus, mulher, o que você está fazendo aqui?
Ela ficou parada no pé da porta, encostada no batente, enquanto ele pegava algo em uma das gavetas de uma cômoda de madeira.
— Hm, obrigado. — ele soltou do nada, depois de muito tempo de silêncio, fazendo arquear uma das sobrancelhas, sem entender. — Por ter esperado. Digo, por não ter falado nada com os meninos.
— Tanto faz. — ela deu de ombros, observando o quarto ou qualquer coisa que não fossem os olhos do músico. — Obrigada por ter hospedado eu e os meu amigos por aqui.
Ele balançou a cabeça, assentindo, e depois olhou para ela.
— Estamos quites? — perguntou, tirando o objeto que procurava da gaveta.
Ela enrugou a testa e encarou o rapaz, que olhava para ela, esperançoso, antes de balançar a cabeça e responder um sonoro:
— Não!
Ele riu.
— Eu estava brincando. — deu de ombros, secretamente sabendo que não estava. — Não custava tentar.
levantou levemente as sobrancelhas, analisando o objeto que agora tinha entre as mãos.
— Isso é um iPod? — perguntou, curiosa, observando o pequeno aparelho, meio branco, meio prateado.
Ele concordou, balançando a cabeça. Era um iPod clássico, modelo 2005, que tinha uma tela pequena, grandes botões em formato circular e mais lembranças e significados do que a capacidade de 30 GB poderia aguentar.
— Uau, faz anos que não vejo um desse. — ela comentou, realmente surpresa, observando o músico atravessar o quarto para chegar em um aparelho de som moderno que ela teve certeza que custava mais que o apartamento que alugava.
— Minha mãe me deu um pouco antes de começarmos a tocar. — ele intercalou o olhar entre a menina e o cabo que tentava conectar aos aparelhos. — Absolutamente tudo o que fizemos até agora está aqui. — explicou, referindo-se à banda, e arregalou os olhos, surpresa e interessada. — Estão em outros lugares também, mas eu simplesmente não consigo me livrar dele. — e abaixou a cabeça para o player, que, depois de conectado ao aparelho de som, começava a tocar uma melodia desconhecida para ela [se quiser, pode dar play nessa música] através dos alto-falantes. — Ele foi o primeiro a ouvir tudo o que fizemos.

Have you been assuming things again?
Você andou presumindo coisas de novo?
I swear, darling, it's no good for you
Eu juro, querida, isso não é bom pra você
Besides, I'm no good for you
Além disso, eu não sou bom pra você


Ele chamou , que ainda observava tudo da porta, com um aceno de cabeça para que ela se aproximasse, e ela caminhou em passos trêmulos para o seu lado.
— Eu nunca ouvi essa música. — ela comentou, tentando prestar atenção em todos os detalhes sonoros e na letra.
Ele assentiu.
— Era pra ter entrado no nosso segundo álbum, mas acabou não rolando.

I know you're wrong
Eu sei que você está errada
I never get enough enraged, you never listen
Eu nunca fico bravo o suficiente e você nunca escuta


— Você ia gostar dela. — ele comentou, observando o perfil atento de . — Da Lisa.
— Se ela não se dava bem com você, eu tenho certeza que sim. — ela alfinetou, desconfortável com o olhar dele sobre si. — Para de me analisar.
virou o rosto, balançando a cabeça e segurando o riso. Com certeza seriam amigas, ele pensou.
fechou os olhos, sentindo seus pelos arrepiarem involuntariamente. Ficava totalmente vulnerável quando se tratava de música, e era absurdamente uma experiência de outro nível estar escutando algo inédito de uma das suas bandas preferidas, com a pessoa que provavelmente a escreveu bem ali do seu lado. Isso superava qualquer chateação que ela pudesse sentir, pelo menos momentaneamente.
De forma involuntária, ela começou a bater os dedos no móvel amadeirado que sustentava o aparelho de som no ritmo da música, tentando absorver as batidas. Os movimentos sincronizados não escaparam ao olhar atento de , que lutava contra si mesmo para não observar as reações dela.
— Você toca bateria? — ele chegou a perguntar, mas já estava em outro nível e não escutou, ou pelo menos fingiu não escutar.
decidiu fechar os olhos também. Estava pensando em muitas coisas no momento e, talvez por conta do resto de álcool correndo em suas veias, se sentia meio tonto.
Pensava em tudo que havia dito, e como era realmente muito injusto que ela tivesse que trabalhar com algo que ela não gostava, enquanto seu talento — do qual ele teve uma prova com a letra de Dreams — era desperdiçado e poderia nunca ser reconhecido ou aplaudido. Pensava que ela era uma pessoa muito boa, por ser gentil e até legal com ele, apesar de estar muito chateada — e com razão. Pensava em como era empática, por ter esperado para que ele contasse para os companheiros de banda, enquanto ele mesmo não tinha certeza se faria isso, caso acontecesse o mesmo com ele. Pensava em como nunca tinha mostrado algumas músicas do lado B de seus discos para ninguém, mas tinha uma vontade súbita e incontrolável de mostrar todas, até mesmo as que considerava as piores, para ela. Pensava em quão doido era ela ter vindo até o estúdio e ele a ter conhecido, apesar de tudo. O castigo interminável que provinha do bloqueio criativo e do fato de ele ter sido um extremo babaca com ela, afinal, tinha a trazido até ele.
E então arregalou os olhos de repente, o coração palpitando na garganta no ritmo da música e uma ideia mais clara que água brilhando como uma epifania na sua cabeça.

And, if you’re so tired of people always trying to drag you down,
E, se você está tão cansada das pessoas sempre tentando te derrubar,
Why don’t you just leave it?
Por que você simplesmente não larga tudo?


— É isso. — permitiu-se abrir um sorriso largo enquanto , ao seu lado, permanecia de olhos bem fechados à medida que a música terminava.
Tudo estava tão lucidamente claro em sua mente e todas as peças de um quebra-cabeça que parecia irresolúvel se encaixavam tão bem e tão facilmente, que uma risada involuntária lhe saiu pelos lábios.
— É ISSO! — ele repetiu, o tom de voz mais alto e algumas vezes mais animado.
foi forçada a se retirar do transe e encarou o vocalista com um semblante nada amigável assim que abriu os olhos. A expressão oposta que brilhava no rosto de , porém, a fez ficar alarmada.
. — ele chamou, apesar de ela estar ao seu lado e olhando-o nos olhos. — Se você está cansada do seu trabalho, por que simplesmente não larga tudo?
Ela quase riu, antes de perceber que ele falava sério.
— Deve ser tão bom viver no seu mundo, . — ela balançou a cabeça. — Sem contas pra pagar, sem se preocupar se vai ter um lugar pra morar no fim do mês…
— É exatamente isso! — ele estalou os dedos e apontou para ela. — Meu mundo. Eu não estava brincando quando falei que era uma pena que não trabalhasse comigo. — e parou para refletir. — Quer dizer, na hora eu até podia estar, mas tudo está fazendo sentido agora.
Ela apertou os olhos e juntou as sobrancelhas, tentando compreender aonde ele queria chegar com toda aquela conversa.
— Eu não tô entendendo…
You’ve waited up, Christ, I love you! — ele cantou no ritmo da música dela. — Just sat there sifting through my B-sides, that I’ve never had with someone.
Se a definição de confusão tivesse uma foto no dicionário, seria um frame exato do rosto de naquele momento. Tudo bem, tinha mudado algumas palavras da sua música, mas o que diabos isso tinha a ver com largar tudo ou ser uma pena ela não trabalhar com ele?
E então tudo pareceu começar a se aclarar aos poucos para ela também, como uma mancha que se dissolvia e se tornava cada vez mais translúcida aos seus olhos. Será que estava sugerindo que…
. — ele chamou mais uma vez e, como se pretendesse esclarecer tudo o que ela se recusava a tentar entender, continuou: — That discipline’s led me to you.
* Referência a Homesick: “she hates her work, but loves to flirt; it's a shame she don't work with me”.
** Referência a Kathleen: “you give me problems when you are not in the mood”.


Continua...



Nota da autora: Gente do céu!!!! Preciso contar que eu comecei a escrever esse capítulo logo depois que terminei o 4, estava super no embalo, mas a faculdade simplesmente resolveu tomar todo o meu tempo e levar toda a minha criatividade embora e pra bem longe! Bem, eu sempre acabava pegando ele e complementando algumas coisas, mas nunca saía algo que eu realmente gostasse e eu acabei ficando um pouco desanimada. E daí eu recebo essa enxurrada de comentários maravilhosos (até em áudio, que chique!!!) que totalmente me deram uma injeção de ânimo e me fizeram pegar esse capítulo pra valer.
Tudo isso é pra dizer que essa fanfic simplesmente não estaria aqui se não fossem pelas leitoras e leitores, que me fazem acreditar que ainda vale a pena escrevê-la! Sou imensamente grata a todos vocês!
Espero que tenham gostado desse capítulo lotado de referências!! E aproveito pra dizer que, se quiserem conversar comigo, sobre a fic, sobre Catfish (por favor!!), sobre qualquer coisa, podem me mandar mensagem no meu e-mail ou no tumblr que eu passo meu wpp/twitter/insta pra vocês <3
Beijos, Lara. :)

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