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Última atualização: 12/03/2021

Capítulo 1 - Da Confecção da Lista

Sabe, assim, durante toda a nossa vida, existem certos momentos, onde a gente pensa besteira demais e acaba fazendo besteira demais. Bom, eu queria estar fazendo, essa que era a verdade. Mas eu era “careta” demais pra isso. Eu me considerava assim, pelo menos.
É claro que, no auge dos meus 17 anos, isso não me afetava muito. Eu estava mais preocupado em conseguir passar de ano e passar numa universidade pública, talvez fosse sentir falta do que eu não aprontei no ensino médio, mas eu sabia que entrar pra UF era mais importante do que qualquer baderna. Enquanto eu repassava mais uma vez aquelas equações, não esperando que meus pais fossem voltar pra casa cedo, pensando que talvez uma saída pra ir na esquina beber uma coca não fosse me fazer mal, ouvi meu celular dar sinal de vida. Não precisava de muita intuição pra saber quem era.

LivC.8
E aí cabeça? Ainda estudando muito?

d+
Sim
Sempre



LivC.8
Posso passar aí?

Olhei de relance pra meus cadernos espalhados na cama, meu cabelo que parecia um ninho de passarinho e meu pijama sujo de molho de tomate...

d+
Claro, vem. Te espero!



LivC.8
Tô chegando, guarda toda a tralha que essa cama é minha hoje...

d+
Folgada do caramba...
Trás o leite.



LivC.8
Depois eu que sou a folgada...

Tínhamos essa mania de comer cereal com leite durante as nossas “noitadas” conversando. Nada de útil, nada de muito responsável, mas pelo menos não enchíamos a cara. Joguei todas as coisas pra dentro da minha mochila e passei a mão no cabelo, tentando me fazer um pouco mais apresentável. O short não troquei, sabia que se pegasse roupa limpa depois de já ter tomado banho, faria minha mãe ficar uma fera – sim, ela regula toda a lavação de roupa da casa – era um porre às vezes.
Minutos depois, ouço batidinhas na janela, Liv entrou depressa, tão descabelada quanto eu, vestida em um roupão super aveludado e descalça... sério, não entendia como ela não vivia doente, do lado de fora estava frio.

- Tá aqui, cadê o cereal?

Jogou a caixinha de leite pra cima de mim e se jogou na cama. Ainda me encarando como se estivesse extremamente irritada por eu já não ter servido o cereal. Continuei em silêncio, pelo humor e pela urgência em que ela chegou, eu sabia que ela tinha brigado com o namorado. Coisa que eu odiava, porque eu já tinha dito pra ela um trilhão de vezes que ele não prestava – sim, eu ouvia tudo no vestiário depois da aula de educação física – mas ela continuava teimando que quem não prestava era ela, que o chifre que ele colocava, levava em dobro...
Particularmente, eu só queria que ela entendesse o quanto aquela relação não fazia nada bem pra ela, por mais que eles “aceitassem” o chifre um do outro. Joguei o leite de volta e corri até a cozinha.

- Eu terminei com ele – murmurou assim que voltei com as tigelas e a caixa de cereal. Nada novo sob o sol... – E eu não vim aqui pra ouvir você dizer que avisou e que é pra eu ficar bem. Quero conversas banais, coisa de amigos.

Respirei fundo me virando de costas, depois de pegar o leite e tentar não dar uma resposta malcriada. Não é como se eu tivesse que achar aquilo bonito, era? Sério, eu queria saber o que as pessoas esperam da gente quando jogam essas bombas assim de uma vez. Será que elas esperam que a gente bata palmas? Que a gente finja que tá tudo bem? Que a gente dê um sorriso sem graça e comece a conversar sobre o tempo?

- , sério cara, sei o que tu tá pensando e sim, eu só quero falar sobre como foi o teu dia em casa – é, respirei fundo. Abstrair e fingir demência. – Nada do que tu diga vai mudar o que aconteceu e não, não vou voltar com ele dessa vez. Isso encerra todo e qualquer papo sobre o assunto.
- Certo, hoje eu acordei cedo, estudei o dia inteiro, mas, como nada é perfeito, derrubei meio pote de katchup na minha samba-canção.
- Porra, ! Que insensibilidade do caralho – ela pulou da cama e foi até a janela. – Podia dizer alguma coisa pra me acalmar. Pelo menos xingar aquele cretino.

Coloquei as mãos na cintura e olhei pra cima, pedindo a Deus que me desse uma luz, que, por uma vezinha só na vida, eu pudesse entender o que as mulheres queriam. Respirei fundo e abracei ela por trás, vendo ela enxugar algumas lágrimas. Verdade é que ela gostava daquele idiota e, com uma dor no coração, eu realmente não podia fazer nada além de confortá-la.

- Eu sinto muito, Liv! Você pode contar comigo, chorar no meu ombro a noite toda – virei o corpo dela pra mim e sequei as poucas lágrimas restantes. O olhar dela subiu até o meu e eu sorri. – Vai ficar tudo bem, Liv. Ele é um nada e você merece infinitamente mais do que isso.

Ela abriu um pequeno sorriso e fungou, depois de passar as mãos pelo ranho que escorria pelo nariz dela, murmurei um “sua nojenta” e ela riu, me empurrando pra longe logo em seguida.

- Vamos comer o cereal antes que ele perca toda a crocância – falou pegando a tigela e voltando pra cama. Fiz o mesmo, sentando ao lado dela, enquanto ela comia o cereal como se fosse a última coisa que ia fazer na vida. – Sabe, às vezes eu fico pensando que a vida tinha que ser bem mais que isso. Bem mais do que simplesmente passar pelo ensino médio, faculdade, ter um bom emprego, casamento, filhos e toda aquela baboseira que a minha mãe tenta me convencer de que é melhor pra mim.

Ela falou tudo de uma vez, sem me dar muito tempo pra realmente pensar como alguém poderia não querer aquilo. Não sei, talvez eu realmente fosse careta demais. Ou talvez eu só quisesse aquele tipo de vida pra mim, tive bons exemplos em casa de que, talvez, possa dar certo.

- Eu queria ver como é o futuro, só um vislumbrezinho, pra saber se o que eu quero vai dar certo lá frente, ou se, caso eu me case, eu não vou surtar e querer quebrar um vaso de porcelana na cabeça do meu marido – ela riu logo em seguida, assim que eu rolei os olhos. Ela não era pra esse tipo de coisa mesmo. – A gente podia ser um casal legal.

Parei a colher a meio centímetro da minha boca. Não é como se eu já não tivesse pensado nisso, de fato, eu pensei. Ela era minha melhor amiga desde sempre e me entendia como ninguém, tanto como eu entendia ela e sabia que não era uma boa ideia.

- Eu jamais te traria pro meu mundo sem graça – ela me olhou curiosa, deixando o cereal de lado. – Você é incrível e merece o mundo como você sonha, eu jamais te pediria pra fazer o contrário e ficar em casa com um marido chato, e uma rotina chata.
- Mas porque você não pode conhecer o mundo comigo?

Se isso já tinha se passado pela minha cabeça? Nunca.
Se a ideia parecia promissora? Não muito.
Tal qual Liv, eu também já sabia o que eu queria pra minha vida.

- Não é como se eu não pudesse ir pra algum lugar nas minhas férias, ou quando as crianças, que eu quero ter, estivessem de férias. É só que isso não faz parte dos meus planos como eu sei que faz dos seus – ela me olhou confusa. – Entenda, você quer sair por aí sem destino, sem saber do dia de amanhã e eu não te julgo, isso parece maravilhoso, mas não é algo que eu quero fazer. Eu preciso acordar amanhã com a certeza do que eu estou fazendo.
- E você acha que eu não tenho?
- Sim, você tem sim. Eu tenho certeza de que você sabe o que quer fazer da sua vida e que isso é certo – falei antes que ela se sentisse ofendida. – Mas é o certo pra você, não pra mim. Nós somos diferentes e é só isso. E só por isso que a gente se dá bem.
- É, desse jeito parece que a gente vai viver separados, pra sempre – ela respirou fundo e colocou uma colherada enorme de cereal na boca, fazendo com que parte do leite escorresse pelo queixo dela. Eu só podia rir. – Então vamos fazer um acordo – ela colocou a colher pra cima e eu sabia que daí vinha merda. – Vamos fazer uma lista de coisas malucas que a gente tem que fazer junto antes de toda essa coisa de separação.
- Você diz uma lista antes de morrer, porque a gente não vai ficar separado nem com o caralho. A tecnologia está avançada demais, a não ser que você se meta em cavernas, acho que daí não tem sinal.

Ela riu, por alguns minutos antes de dar de ombros.

- Primeiro de tudo - catou um caderno e uma caneta e se pôs a colocar todos os números antes de levantar o olha pra mim e sorrir. – Colocar roupa curta e dispensar programas na esquina.

Eu cuspi metade do meu cereal na cabeça dela, o que fez ela reclamar, mas mesmo assim rir. Logo em seguida ela tentou tirar os bagaços do cabelo, sem muito sucesso.

- Você tá doida, Liv? É o trabalho de alguém. Não é pra brincadeira.
- E é por isso que é uma lista de coisas doidas – ela escreveu no caderno por um tempo e começou a explicar. – Veja bem, a gente para num ponto e explica as pessoas que estão lá o que aconteceu, podemos pedir permissão e depois, se elas não deixarem, a gente pode fazer aqui na frente de casa. Sua mãe ia amar. Segunda coisa – ela falou antes que eu pudesse retrucar, e eu ia. – Pixar o muro do colégio.
- É eu não devia ter deixado você fazer essa lista - falei, mas parecia que estava falando pra mim mesmo
- Aquele muro repele a alegria de viver de um jeito inacreditável, assim que eu passo por ele, colocar uma corzinha só vai fazer bem, acredite – e ela escreveu na lista. – Terceira coisa, nadar pelados na piscina aqui do condomínio, de manhã bem cedo, faça chuva ou faça sol.
- Aí tu já extrapolou todos os limites, sabe o que a minha mãe vai fazer comigo? – arregalei os olhos e ela apenas gargalhou na minha cara, parecia não se importar nada que eu fosse ser escalpelado vivo.
- Quarta coisa, dormir num colchão de ar dentro de um lago – e lá fui eu cuspir mais uma vez todo o cereal no cabelo dela. Quando eu digo que ela tem um parafuso solto... – Vai ser divertido e engraçado, não faça essa cara pra mim, nós vamos estar juntos. Quinta coisa, uma tatuagem de borboleta.
- Ah, não, ah, não, ah, não, ah, não, - ela começou a gargalhar. – Aí já é demais, Liv. Eu não tenho estrutura nenhuma pra sentir dor.
- Relaxa vai – ela puxou meu braço à medida que parecia que eu não ia me acalmar. Parecia que ela fazia esse tipo de coisa de propósito. – Sexta coisa, saltar de bugee jump. Sei que você tem medo de altura – ela me cortou antes de eu me recusar. – Mas, lembre-se, eu vou estar lá com você não precisa se preocupar. Sétima coisa, vou te dar uma folguinha, comer quatro pizzas gigantes de quatro queijos. Ah, aí você fica feliz, né? Oitava coisa, experimentar maconha – ela fechou os olhos bem apertados enquanto eu fazia o mesmo. – Eu nunca experimentei, tá, não faça essa cara de idiota pra mim que você sabe que eu não minto pra você – e era verdade, então apenas dei de ombros, sem me preocupar, porque, depois de saltar de bungee jump, eu estaria morto de ter um colapso de medo, daí não teria meios de fumar maconha. – Nona coisa, sair num encontro piegas, nós dois. Com direito a tudo, velas, música romântica, cozinha e, talvez, aquelas dancinhas onde os dois acabam se enroscando e rindo - e eu acabei rindo, porque era o meu ideal de um encontro legal. Ela sorriu de volta, aposto que pensando a mesma coisa. – Sabe antes de finalizar a lista, eu queria dizer que a gente pode fazer isso aos poucos, sabe. Uma vez por ano, depois que você passar na UF – eu assenti, talvez fosse uma boa ideia. – E, por último, mas não menos importante, se um de nós morrer, deixar o outro partir em paz, sem culpas, sem se sentir mal.
- Por que isso agora? Sombrio demais pra Liv, não acha?
- Não, é algo natural, é algo que acontece, é a única certeza que temos e eu não gostaria que nem um de nós dois ficasse triste e preso ao passado – ela parecia distante e eu confesso que fiquei meio assustado. Ela não era do tipo que se levava desse jeito, pelo menos não nesses assuntos. Em fim. O que você acha?

Estendeu a mão pra mim e sorriu, parecendo que o assunto anterior nunca existiu. Tratei logo de aperta a mão dela e sorrir de volta. No fundo, no fundo, eu esperava que ela esquecesse daquilo com o tempo.


Capítulo 2 - Da má notícia à decisão de cumprir a lista

Eu estava preso no trabalho pela milésima vez. Sabia que ia chegar tarde em casa e que, provavelmente Chips estaria morrendo de fome. Olhei ao meu redor e percebi que só tinha mais um dos meus colegas de trabalho ainda ali. Eu admirava a garra dele. A mulher estava gravida do terceiro filho e ele fazia hora extra até a hora em que podia pra poder economizar um pouco e ter um pouco de tempo livre quando o bebê nascesse.
Além disso, eu meio que invejava ele também. Ele era casado, tinha filhos, uma casa linda e um carro pra sair a passeio com eles. Era tudo que eu já queria ter no auge dos meus trinta anos, mas parecia que eu estava muito longe disso. Mas pelo menos eu já tinha meu apartamento, era perto do trabalho então já era um imenso bônus pra mim. Minha dificuldade mesmo era em arranjar uma esposa. Talvez eu fosse chato demais, exigente demais. Tive namoradas maravilhosas, mas não cheguei ao ponto de paixão que precisava pra pedir alguma delas em casamento.
Imagino que elas me odeiem até hoje, eu não fui exatamente o homem perfeito, quem namora por mais de três anos com alguém e nem sequer cogita a ideia de um casamento? Resolvi, depois do último arquivo enviado, que iria pra casa. Chips ainda precisava de mim e não é como se eu realmente precisasse fazer hora extra.
A caminhada foi tranquila, estava fresco do lado de fora e alguns casais e adolescentes passeavam pela rua. Depois de subir três lances de escada, por sentir trauma da última vez que tinha ficado preso naquele elevador velho, eu abri a porta e Chips veio até mim, miando de toda altura, roçando na minha perna como se sentisse mesmo saudade de mim, quando eu sabia que aquele ingrato sentia mais saudade era da comida. Me agachei e peguei o meu gato no colo.

- Você está bem gordo, Chips – coloquei ele no chão da cozinha depois de fazer um carinho entre suas orelhas, ele continuou a se esfregar em mim. – Você sabe que nós devíamos fazer uma dieta, né?

Ele miou como quem entendesse, antes de eu tirar o saco de ração do armário e colocar uma porção generosa no pote de comida dele. Ele merecia depois de ter ficado mais tempo do que devia sem ter comido. Depois disso me apressei em tomar um banho e colocar minha samba canção de dormir. Claro que eu guardava aquela mania desde a adolescência, uma pena que eu demorava muito pra colocar as roupas pra lavar. Minha mãe sentiria muita vergonha de mim se me visitasse mais vezes.
Coloquei um miojo no fogo e me preparei pro meu programa favorito do dia; ver as pessoas na rua. Da minha varanda eu tinha visão pra um barzinho charmoso na frente do prédio. Eu gostava de observar, já tinha visto pedidos de casamento, revelações de gravidez, comemoração de aniversário, términos problemáticos, brigas de bêbados, até um incidente onde a garçonete tomou um banho de chope quando dois amigos resolveram se levantar pra cantar quando alguém fez um gol...
Parecia solitário chegar em casa e fazer esse tipo de coisa, mas eu meio que gostava. Isso e, claro, a ligação da Liv. Às vezes eu sentia que aquilo era apego demais, mas eu nunca tinha deixado de ficar ansioso com aquela hora do dia. Ela me ligava dos lugares mais distantes possíveis; Nova Zelândia, Japão, angola... eu ficava me perguntando como ela ainda tinha tempo pra mim e porque aquela era a melhor hora do meu dia. Acho que também era um dos motivos pras minhas namoradas me odiarem.
A verdade era que não tinha nada a ver. Liv era minha melhor amiga e sempre seria. Jamais rolaria algo a mais ali.

+++++


Assistia animadamente um bêbado tentar cantar uma garota e ela pisar maravilhosamente bem no machismo dele, era uma coisa que eu gostava de ver, quando eu percebi que já tinha se passado muito tempo do horário que a Liv costumava ligar. Na hora em que eu pensei que poderia eu mesmo ligar pra ela, o telefone tocou e meu coração deu um leve salto, como sempre fazia.

- Achei que você ia pular a ligação de hoje, como você está?
- Boa noite, falo com o ? – senti um arrepio quando ouvi a voz de alguém diferente. Confirmei com um sussurro e esperei pra saber do que se tratava. – Aqui é do hospital regional, você era o segundo contato de emergência no celular da Liv Andrea. Você a conhece? É da família?
- Sim conheço. Sou amigo dela – senti o sangue elar e a minha cabeça começar a doer, isso não parecia boa coisa. – Ela tá bem? O que aconteceu?
- Ela sofreu um acidente e não conseguimos contatar os familiares da Liv. Você tem como contatar algum familiar...

Depois disso tudo que eu fiz foi no automático. Ir até a casa da mãe dela – porque ela não estava atendendo ao telefone – e ir pro hospital. Dali em diante eu entendi pouca coisa, os médicos vieram falar algumas vezes, que ela estava estável, mas que estava em coma. E ali eu apaguei, não ouvi mais nada, o que eu sabia era que eu só sairia dali quando eu visse ela.

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- Senhora Andrea, pode ver ela agora.

Foi o que eu ouvi depois de oito horas sentado na sala de espera. A mãe dela deveria entrar sozinha, mas insistiu pra que eu fosse junto. Ela estava deitada, entubada, com fios e mais fios plugados nela. Aquilo me deu uma agonia imensa. Pelo menos o rosto estava sereno, apesar de todos os machucados aparentes. A mãe dela segurou um soluço, tirando de dentro do saquinho que a enfermeira entregou, um pedaço de papel.

- Ela ia te fazer uma surpresa – começou depois de passar a mão pelo rosto da Liv. Eu cheguei um pouco mais perto. – Ela me pediu pra não te contar porque ela ia chegar de surpresa na sua casa na hora da ligação diária de vocês.
- Eu... eu não sabia.
- Claro que não, meu filho – ela deu uma pequena risadinha. – Era uma surpresa. Ela ficou noiva...

Ela me olhou com um sorriso meio pesaroso no rosto. Quase como quem sente pena. Ela e a minha tinham que parar com essa ideia de que eu e a Liv eramos o ideal romântico um do outro.

- A senhora não sabe como eu fico feliz de ouvir isso – eu sorri sincero me aproximando dela e colocando a mão em suas costas. – Eu achei que essa doida nunca ia achar alguém doido o suficiente pra viver com ela.

Eu sorri e ela sorriu também. Colocando o papel na minha mão. Depois de abrir, eu me lembrei bem do dia que foi feito.

- Ela ia vir pra completar a lista com você, alguma coisa do tipo: “O precisa deixar de ser careta, porque eu não quero ele caretão no meu casamento” - eu ri mais uma vez. Isso era bem típico dela. – O médicos falaram que está estável, mas que não sabem como ela vai evoluir – a senhora Andrea deixou um soluço escapar. – Então, meu filho, eu acho que você pode ir pra casa. Eu só precisava te entregar essa lista. Ela tem falado disso por semanas.
- Eu não vou embora tão cedo.

Afirmei sabendo que era a mais pura verdade. Abracei a senhor a de lado e ficamos assim por alguma tempo.

+++++


Já faziam oito dias desde o acidente, eu alternava me trabalho, os cuidados com o Chips e a visita ao hospital todos os dias, mesmo que nada mudasse. A mãe dela parecia cada vez mais abatida. Minha mãe veio algumas vezes trazer alguma coisa pra senhora Andrea comer, mas não adiantava muito. Enquanto o quadro da Liv não mudasse, ela não sairia daquela situação.
Depois de ter passado pra dar um beijo na minha melhor amiga, eu cheguei em casa exausto. Chips levantou a cabeça de seu cochilo único e exclusivamente pra me encarar uma vez e voltar a dormir. Gato ingrato. Assim que tirei meu casaco, vi que alguma coisa caiu dele.
A lista.
A nossa lista do que fazer antes de morrer. Daquela época em que as coisas não estavam bem. Uma ironia da vida aquela coisa voltar à minha vida justamente quando as coisas não estavam bem. Abri a lista e pensei mais uma vez naquela noite e em como tudo naquela lista pareceu idiota. Deixei ela de lado enquanto ia tomar um banho e preparar alguma coisa pra jantar. Sentei de volta no meu sofá, ignorando o meu programa de todos os dias. Só queria ficar sozinho e pensar no que eu ia fazer amanhã, sem receber as minhas ligações diárias. Peguei a lista pra ler mais uma vez, acabei percebendo que tinha adiado isso desde o dia que tinha recebido ela.

- Não deixou de parecer idiota nem treze anos depois...

Sussurrei comigo mesmo enquanto me deliciava de mais um miojo. A lista largada em cima da mesinha de centro, o miojo quentinho e saboroso, a tv em volume baixinho, os pensamentos rolando soltos...
E se eu fizesse uma coisinha só da lista? Não, isso seria aceitar que a Liv não ia acordar mais.
Mas e se ela não acordasse e eu não tivesse completado aquela lista antes de ela partir? Eu me sentiria a pior pessoa existente no planta e ela sentiria vergonha de mim de onde quer que ela estivesse me olhando. Respirei fundo enquanto encarava o papel. O miojo já tinha acabado e eu só conseguia pensar em como era idiota o que eu estava pensando em fazer.

+++++


- Você quer o que, meu filho?

Encarei de novo a senhora Andrea, nos olhos dela, a incredulidade estava estampada. Eu sabia que era uma má ideia.

- Eu sei que é estranho, mas eu queria pegar umas roupas da Liv, sei que a senhora guarda algumas em sua casa, pra quando ela visitar.
- E, me diz de novo, pra que você quer essas roupas?
- Pra completar a lista – ela olhou a lista mais uma vez e respirou fundo. Depois olhou a filha deitada na cama. – É bem o tipo de coisa que ela faria você fazer, – ela respirou fundo e veio até, tocando o meu rosto coberto pela barba que eu não fazia há oito dias. – A chave está debaixo do capacho da porta dos fundos. Pode ir até o quarto dela. Obrigada por estar sempre lá pela Liv.
- Eu que tenho que agradecer por ela estar sempre lá por mim.

Dei um beijo na senhora e saí de lá com pressa. Estava tarde e eu não queria me demorar muito pra não acharem que eu estava fazendo coisas erradas nas casas dos outros. Tudo estava dando certo até a hora em que eu abri o guarda-roupas da Liv. Aquela infinidade de modelos de roupa me deixou extremamente confuso. Na lista dizia que tinha que ser uma roupa curta, mas, devido a diferença de tamanho, eu peguei a primeira coisa que coube: um vestido azul claro soltinho. Os sapatos dela não dariam em mim nem que eu cortasse as pontas dos dedos, então eu resolvi que iria as compras amanhã.

+++++


- Então, você é travesti?

A atendente da loja me perguntou – acho que inocentemente sem saber que esse tipo de coisa não se pergunta – assim que eu pedi um par saltos alto que fosse de número 44 e combinasse com um vestido azul claro.

- Não, não sou. E estou morrendo de medo de estar ofendendo eles fazendo isso, mas espero que entendam que é um motivo de causa maior: uma amiga que tinha sérios problemas na adolescência.

A atendente me olhou com uma cara estranha, mas me ajudou da melhor forma possível. Saí de lá com um sapato belíssimo, uma peruca loira que comprei na loja do outro lado e muito satisfeito com minhas compras. Decidi que sairia mais cedo do trabalho pra deixar tudo pronto. Tomei banho, passei o desodorante e, enquanto estava tentando deixar minhas pernas confortáveis naquela cueca junto com o vestido, me arrependi amargamente do que eu estava fazendo.
Coloquei as mãos na cintura depois que estava montado e eu gostei do que eu vi: salto alto, vestido abaixo do joelho, a peruca deixava os cabelos batendo no ombro, a barba feita às pressas... depois de me encarar por vários minutos na frente do espelho, pensei em desistir daquilo tudo. Deitei na cama e fiquei encarando o teto por um tempo que eu não consegui contar. Chips veio até mim e deitou por sobre o meu peito, adormecendo logo em seguida.

- O que você acha, Chips? – o gato abriu os olhos e os fixou em mim, soltou um miado curto logo em seguida. – Eu sei, eu sei é loucura, né? Mas a Liv ia gostar, ela iria dizer que era a aventura da vida dela, mesmo que ela já tenha viajado o mundo inteiro.

Chips miou mais uma vez e eu tenho certeza que dessa vez ele tinha concordado comigo. Levantei depressa e me olhei no espelho outra vez. Abri um sorriso quando uma ideia se passou pela minha cabeça: aquele vestido estava cumprido demais pra os parâmetros da nossa lista, então peguei uma tesoura e o cortei acima do joelho, deixando ele ainda mais esquisito no meu corpo. Eu precisava que alguém tirasse uma foto minha vestido naquele look.




Continua...



Nota da autora: Oi, gente. Tudo bem com vocês? Agora vamos começar a saga de seguir a lista a risca, espero que vocês gostem do que vem por aí.
Até a próxima.



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