Finalizada em: 12/06/2021

#1 drivers license - jxden



Assim que o táxi estacionou em frente à chácara, conferi o endereço em meu celular para ter certeza de que estava no local certo. E de fato estava. Só não conseguia acreditar que George Daniel havia se mudado para um local tão longe da cidade e tão… no meio da natureza? Quem o conhecia de longa data, sabia o quanto aquele homem apreciava morar perto de bares ou perto de qualquer pessoa que vendesse maconha de qualidade.
A última... qualquer coisa pela qual tínhamos passado pela frente havia ficado para trás há quase dois quilômetros.
Tirando a carteira de dentro da bolsa, paguei a corrida e desci do carro. Fred, o taxista solícito, também saíra do carro para tirar minha bagagem de seu porta-malas.
Quando o carro partiu, fiquei por mais alguns longos segundos de pé em frente à entrada sem entender muito bem.
Tinha me mudado há três anos para os Estados Unidos e parecia ter se passado uma década desde a última vez que vira qualquer um dos quatro homens pessoalmente. Tanto que ainda estava completamente chocada que os veria não só em um casamento, mas no casamento de George. De todos eles, na minha cabeça, o que nunca se casaria ou que levaria anos para fazê-lo sempre fora George.
E, quase como se o universo quisesse me provar o contrário, ele estava sendo o primeiro a fazê-lo.
A porta da frente se abriu e, por ela, saiu o homem tão alto quanto me lembrava. Sorridente, Daniel caminhou até mim, abraçando-me pelos ombros, fazendo meu pescoço doer depois dos primeiros cinco segundos.
― Você foi a primeira a chegar ― disse ao desvencilhar-se de mim.
― Sério? Ninguém mais?
― Adam, Ross e vão ficar hospedados em um hotel nas redondezas. foi buscar os pais na cidade vizinha, deve chegar mais à noite. Minha família está a caminho também. Como é algo só para os mais chegados, não tinha necessidade de todos virem cedo, com exceção de você, que vinha de outro país. Aliás, muito obrigada por ter feito esse esforço.
― Eu não perderia isso por nada. ― Acariciei seu braço.
― Vamos. Vou mostrar seu quarto. ― Pegou minha mala em mãos, guiando-me para dentro de casa. ― Está com fome?
― Não vou recusar se você me oferecer algo. Se não tiver nada, eu faço a espiral do silêncio. ― Rimos.
― Vou fazer umas panquecas e café. Pode ser?
― Nossa, com certeza. Mataria por panquecas.
― Não me matando, tá ótimo ― brincou. ― Esse é o seu quarto. ― Pôs a mala no chão para o lado de dentro da porta. ― É uma suíte, então, não se preocupe em ter que dividir banheiro ou coisa do tipo, ok?
― Uau, eu sou esse tipo de visita especial? ― Brinquei.
― Ah, com certeza é ― brincou de volta. ― Eu vou preparar as coisas.
― Vou junto.
― Não quer descansar primeiro?
― Ah, não. Tô bem. Vamos. ― Pus minha bolsa sobre a cama e o segui para fora do cômodo.
Na cozinha, George tirou todos os ingredientes para as panquecas de dentro dos armários e geladeira, encarregando-me de lavar os morangos.
― Como ela é?
― Quem? ?
― É. ― Parei o que estava fazendo para olhá-lo a tempo de capturar o sorriso que deu.
― Ela é engraçada, elétrica, às vezes usa um pouco mais de ironia do que o socialmente aceitável e eu a amo por isso. ― Sorri.
― Nunca te vi falar de ninguém assim. Ela deve ser muito, muito, muito especial. ― Voltei a limpar as frutas.
― Você vai entender quando a conhecer.
― Tenho certeza que sim.
― Como tem sido morar fora?
― Ótimo e um horror ao mesmo tempo. ― Ri.
― Por quê?
― Ótimo porque lá é melhor pra respirar que aqui e é menos frio também, em compensação, por algum motivo, lá as pessoas são muito metidas a engraçadinhas mesmo quando não tem nada de engraçado. No começo, eram risadas do meu sotaque, de algumas palavras que eu uso, sem contar que já disseram que sou muito “burocrática”. ― Fiz aspas com os dedos. ― O que isso deveria significar? ― Franzi a testa.
?
― Quê?
― Você é burocrática. ― Riu.
― Baseado em que você diz isso?
― Você é toda certinha, toda metódica. Nunca te vi atrasada, descabelada nem nada do tipo.
― Isso só mostra que eu sou uma adulta responsável com meus compromissos e bem asseada.
― Não. Você é burocrática. ― Revirei os olhos. ― Inclusive, tenho certeza de, mesmo que não fosse pelo vício, você e não durariam tanto assim. ― Arqueei as sobrancelhas, piscando mais devagar para assimilar.
― Como é?
, convenhamos, vocês não tem muito a ver. é teimoso como uma mula, egocêntrico e narcisista a ponto de demorar mais do que o normal para reconhecer os próprios erros. Você é toda séria, profissional, diria até um pouco tensa. ― Parou de mexer nos ingredientes para me olhar. ― Na verdade, você foi uma das únicas pessoas que sempre pensei que era boa demais pra ele. Não digo isso porque sou seu amigo nem nada, eu só… sei disso. ― Deu um meio sorriso.
Passando um braço por sua cintura, o abracei de lado.
― Fico muito grata por isso, George, mas eu sei me cuidar.
― Tanto sabe que se retirou no momento certo. ― Voltou a misturar a massa. ― No fim, acho que foi isso que o fez acordar.
― Acho que serviu pra algo, né?

― Sim?
― Se vocês tivessem mais uma chance, você aceitaria? ― Suspirei.
― Às vezes, eu penso sobre isso antes de dormir. ― Desviei o olhar para a paisagem que transparecia pela janela à nossa frente. ― E eu realmente não sei a resposta. Depois que nós terminamos, eu prometi pra mim mesma que não iria mais entrar em nenhum relacionamento de cabeça e aqui estamos nós ― debochei.
― E por quanto tempo mais acha que consegue fazer isso? Digo, fingir que não se importa e que tudo bem remoer sentimentos tão antigos assim?
― Uau. Hoje você tá afiado, né? ― Ironizei.
― Aprendi com a minha noiva. ― Deu uma piscadinha.
― Definitivamente, eu preciso conhecer essa mulher. ― Riu.
Terminando de misturar os ingredientes da massa, começamos a assá-la em porções em uma frigideira anti-aderente. George me atualizou de tudo o que havia acontecido nos últimos anos e que eu não estava por dentro, inclusive o fato de que havia sido rude com um dos jornalistas que Josh havia mandado para entrevistá-lo em casa.
Quando nos sentamos para comer, Daniel parecia preocupado olhando para a tela do celular. Esperei até que o homem pusesse o aparelho de lado para perguntar sobre.
― Tá tudo bem?
― Um dos pneus do carro furou. está esperando o mecânico junto com os pais, ou seja, eles vão se atrasar. Sabia que deveria ter ido junto.
― E por que não foi? ― Coloquei um pedaço de panqueca embebido em mel na boca.
― Ela achou melhor que eu ficasse, pois meus pais e você estavam para chegar hoje. ― com um “ah” mudo o respondi. ― Mas todos devem chegar para a hora do jantar.
― Falando em jantar, quem vai cozinhar? ― Semicerrei os olhos.
― Este homem que vos fala. ― Ri. ― Prepare-se pra comer macarrão ao molho branco até não conseguir mais andar com as calças fechadas.
― Essa é uma benção que estou completamente pronta para receber.
Durante a longa conversa que se estendeu a respeito do meu trabalho, minha relação com Josh e coisas do gênero, acabamos com as panquecas, com os morangos e com metade do pote de mel.


#2 Remember Me - UMI



Passava das 20h quando, acompanhado de Ross e Adam, estacionei o carro no gramado em frente à chácara de George e . Apesar de odiar casamentos, pois eram os eventos formais mais chatos de todos, esse eu não perderia por nada no mundo. Um dos meus melhores amigos estava se casando, tinha outro significado, certo?
Com a melhor garrafa de vinho em mãos, bati à porta e esperei a terceira árvore do grupo viesse nos atender. No entanto, para minha surpresa, quem nos atendeu tinha 20 centímetros a menos, olhos grandes e amendoados, pele escura e cabelos em um comprimento bem mais longo do que me lembrava.
! ― Adam foi o primeiro a falar em um tom empolgado, abraçando a mulher à minha frente.
― E aí, garotão? Sentiu minha falta, hã? ― Sem desvencilhar-se dela, encheu-a de beijos na bochecha.
― George falou que você talvez você só viesse para a cerimônia. ― Foi a vez de Ross abraçá-la.
― Foi o que eu disse a ele. Não sabia se conseguiria me liberar de tudo que precisa finalizar antes do casamento em si. Mas entrem, George tá quase terminando o jantar. ― Pelo espaço que deu entre seu corpo e a porta, ambos os meus amigos passaram. Já eu… só consegui ficar parado, encarando-a. ― Eu não mereço nem um ‘oi’? ― Brincou, franzindo a testa.
― Desculpa. ― Ri, um pouco nervoso, as mãos suando como nunca. ― Oi. ― Hesitante, a abracei, sentindo o cheiro do mesmo shampoo que usava há anos invadir minha narinas.
E, como se tentasse fugir de uma avalanche, fui soterrado até a cabeça pelos sentimentos que há muito tempo estavam adormecidos. Era incrível como, mesmo depois de anos, revê-la sempre tinha o mesmo efeito, quase como quando tínhamos acabado de nos conhecer e estava voltando de viagem pela primeira vez.
Percebendo que talvez aquele abraço tivesse durado mais que o necessário, soltei-a.
― Desculpa. ― Franzi os cantos dos lábios em uma tentativa de sorriso.
― Você tá cheio de desculpas hoje, né? ― Ironizou.
― E hoje é um dos dias que você tá engraçadinha, hein? ― Observei-a fechar a porta atrás de nós.
, seu presente de casamento é uma garrafa de vinho? ― Arqueou as sobrancelhas.
― Na verdade, a banda pagou pela lua de mel deles. ― Fez um “ah” silencioso.
― Pra onde eles vão?
― Maldivas.
― Uau. ― pôs as mãos nos bolsos traseiros do jeans. ― Conto com vocês para financiarem minha lua de mel… ou minha próxima reabilitação também. ― Rimos.
― Vamos pensar no seu caso. ― Seguimos caminhando até a cozinha.
se juntou aos 50% da banda que estavam sentados à mesa enquanto eu fui cumprimentar o noivo e sua mãe, que mexia uma panela enorme de molho branco.
― Parece que hoje é um bom dia para se visitar a chácara Daniel, hã? ― George riu, vindo me cumprimentar.
Ao desvencilhar-se de mim, entreguei-lhe a garrafa de vinho.
― Eu amo esse. Como adivinhou? ― Debochou.
― Minha mãe diz que é polido levar a bebida onde quer que você vá.
― É, eu sei o que Denise diz. ― Riu.
― Oi, senhora Bedford. ― Acenei para a mulher que não havia parado de mexer o molho em nenhum segundo.
― Olá, querido. Achei que só os veria amanhã.
― E perder o jantar? Nunca! ― Trocamos um sorriso.
― Fazem muito bem.
― Você demorou mais que os outros na entrada. Achei que já estivessem se atracando ― falou mais baixo para que a mais velha não ouvisse.
― Eu quase nem consegui cumprimentá-la. Qualquer coisa além disso, certamente faria minha pressão cair. ― Daniel riu alto, fazendo todos nos olharem. ― Ótimo, agora somos o centro das atenções.
― Quando foi que você virou esse frouxo?
― Me desculpe se não tenho a mesma velocidade de ação que você, senhor vou-me-casar-com-a-mulher-que-namoro-há-dois-anos ― debochei.
― Vá se sentar com eles. Estamos acabando aqui. e os pais estão chegando também. ― Assenti, sentando-me à mesa ao lado de Ross, de frente para e Adam.
― Cala a boca todo mundo que o assunto chegou ― cochichou com um sorriso zombeteiro no rosto.
― Continua a mesma filha da puta de sempre, né?
― Depende do ponto de vista. ― Deu de ombros.
― Mas, de verdade, antes que o assunto chegue, me falem mais sobre a tal , pois, aparentemente, eu sou a única que ainda não a conhece. ― Apoiou o rosto sobre a mão, naquela pose de quem estava pronta para saber qualquer fofoca. Era a mesma pose que fazia quando estava prestes a nos contar algo sobre alguém.
― Ela tem uma personalidade horrível, é sarcástica, mandona e teimosa.
― Ah, então, você tá me dizendo que George vai casar com uma versão sua que tem boceta? ― Debochou e todo mundo riu. ― Meu Deus, que horror. George não quis te assumir e procurou outra pessoa que parece com você. ― Pôs a mão em frente a boca, fingindo estar horrorizada.
― Nossa, , como você é engraçada. ― Balancei a cabeça negativamente, sorrindo.
― Eu sei, querido. ― Pôs a mão no peito, com uma feição lisonjeada no rosto.
― Oi, oi, oi. ― A mulher alta de cabelos castanhos claros encaracolados, sobrancelhas bem alinhadas e olhos claros, adentrou no recinto com um casal de idosos em seu encalço.
― Chegou o assunto ― sussurrei para , que a olhou.
― Chegou no momento certo. ― George passou por nós, indo cumprimentar a noiva com um beijo.
Quando falara de para , estava apenas brincando. Ficava muito feliz que meu amigo tivesse achado alguém como ela para compartilhar a vida. Apesar de ser bastante ácida nas palavras e quase sempre assumir uma postura de liderança em tudo que necessitasse ser organizado, era uma pessoa extremamente agradável e muito perspicaz.
― Amor, acredito que a única pessoa que você não conheça aqui seja . ― Apontou para a amiga.
― Uh, a repórter? ― Apontou para com um sorriso curioso, intercalando o olhar entre nós dois. Sim, ela sabia de tudo também e, por isso, não hesitou em formular um olhar sugestivo ao me olhar.
― Em carne e osso, , diretora executiva do Repeat Daily US. ― Sorriu, estendendo a mão com aquela postura de escoteira cheia de medalhas que assumia sempre que falava do próprio trabalho. Realmente, algumas coisas nunca mudam.
― Você sempre precisa se apresentar assim pras pessoas? ― Zombei, tentando irritá-la.
Pigarreou e, engrossando a voz, falou:
― Sou , mas você já deve saber disso ― imitou o dia em que nos conhecemos. ― Pelo menos, eu não me apresento assim.
― Ah, não. Ele fez isso? ― O rosto de se contorceu em uma expressão de vergonha.
― Ah, pode apostar que sim. ― assentiu, rindo.
― Nada legal, .
― Já entendi porque você não gosta dela. ― Virou-se para a mulher. ― Garota, eu amei você.
― O que ele falou de mim?
― Colocou suas qualidades como se fossem defeitos. Dá pra acreditar?
― É ciúme porque o namoradinho dele vai casar comigo ― brincou.
― Ok, crianças. Vamos arrumar a mesa. ― George nos interrompeu. e eu mostramos a língua um para o outro de brincadeira.
Levantando-nos de nossos assentos, fomos até os armários pegar, pratos, talheres, taças e guardanapos para pormos à mesa. Daniel e sua mãe, colocaram as travessas com o jantar à nossa frente quando todos já estavam sentados ao redor da mesa.
― Pra mim, é um enorme prazer conhecer a famosíssima. ― quebrou o silêncio que havia se instalado entre os presentes.
― Ah, eu sou famosa? ― fez cara de quem estava interessada no assunto.
― Esses três estavam totalmente empolgados com a sua vinda. ― Apontou com o garfo para George, Adam e Ross. ― Aquele ali… bom, não falo com a outra. ― Sorri, erguendo a taça como se propusesse um brinde a ela.
Todos à mesa riram.
― Por que você não escreve mais?
― Porque agora eu sou a diretora executiva da sucursal. Então, literalmente sou paga pra mandar em todo mundo. É como ser uma abelha-rainha.
― Deve ser muita responsabilidade.
― E é. Às vezes, eu juro por Deus, quero socar um repórter, mas respiro fundo, compro ingresso pra um show qualquer e passa. ― Bebeu um gole de vinho. ― Às vezes, eu preciso fazer 40 minutos de meditação também, mas é de vez em quando. ― riu. ― E você? Faz o quê?
― Sou florista.
― Você tá brincando? ― Franzi as sobrancelhas. meneou a cabeça, negando. ― Por favor, me diga que você vai me ensinar como se cuida de margaridas. Minha mãe acabou de fazer um canteiro na casa dela e seria ótimo poder dar umas dicas de como não matar suas plantas em sete dias. ― Rimos.
― Tudo pelo bem-estar das margaridas.
Quando começou a falar sobre os cuidados com plantas, não consegui mais prestar atenção. Os olhos de tinham assumido aquele brilho de quem aprendia algo muito interessante e seu rosto ― como sempre ― parecia iluminado. As duas tinham engatado uma conversa que arrebatou os pais de Daniel e o pai de . Aparentemente, todos eram entusiastas de plantas ou coisa do gênero.

- x x x -


Mais tarde, os pais de George e de conversavam na sala. Os noivos haviam ido arrumar as acomodações dos convidados enquanto Ross e Adam haviam se oferecido para lavarem a louça do jantar. Fugindo para não ter que ser a pessoa que seca a louça de novo, fui fumar um cigarro na parte traseira da casa, sentado na grama.
― Algumas coisas nunca mudam mesmo, hein? ― sentou-se ao meu lado.
― Tá falando da minha fuga ou do cigarro?
― Os dois. Desde que te conheço você é sempre a pessoa que foge para fumar. ― Estendeu a mão em minha direção. ― Passa pra cá.
― O quê? ― Franzi as sobrancelhas.
― O pau. ― Arregalei os olhos. ― É claro que é o cigarro, né, idiota? ― Passei para ela.
― Desde quando você fuma? ― Assisti-a dar a primeira tragada na expectativa pela crise de tosse que não aconteceu.
― Se me dissessem que cigarro ajudava com a ansiedade, teria economizado muito em remédio. ― Devolveu o tabaco, soprando a fumaça para cima. ― Que fique claro que não sou viciada. É apenas fumo recreativo. ― Ri, dando uma tragada longa.
― E como isso funciona?
― Fumo uma vez na vida e outra na morte. Em situações de muito estresse, se beber além da conta ou depois de transar.
― Ou seja, sempre? ― Semicerrei os olhos.
― Errado. Faz muito tempo que não fico bêbada, para estresses do dia a dia, eu faço ioga e transar… uh, digamos que não tenho tanto tempo pra isso quanto gostaria. ― Rimos.
― Coitada da pessoa que tá te comendo. Quando você chega decidida, não deve dar paz ― brinquei.
― Se essa pessoa existisse, seria exatamente assim. ― Ri.
― O mar não tá pra peixe?
― Só pode estar pra peixe se você estiver pescando, né? ― Deu de ombros. ― E você?
― Só pode estar pra peixe se você estiver pescando, certo? ― Parafraseei, fazendo-a sorrir. ― Aliás, eu achei que você não viria para o casamento.
― Por quê?
― Bom, você não apareceu em nenhum dos aniversários ou festas pras quais te convidamos. Pensamos que você pudesse, sei lá, estar inventando uma desculpa pra… ― Parei de falar.
― Pra não te ver? ― Dei outra tragada no cigarro, sem tirar os olhos dela. ― Eu não perderia isso por nada. Sempre achei que o primeiro a casar seria Ross.
― Por quê? ― Fiz uma careta.
― De todos vocês, ele é o mais sério e você não pode negar isso. Na minha cabeça, George era o que se casaria por último ou que nunca casaria.
― Onde isso tem algum sentido? ― Deu de ombros, rindo. ― Em que posição eu estava?
― Segundo ou terceiro.
― Cacete, acho que vou providenciar aquela reabilitação pra agora. ― Gargalhou.
― Convenhamos, , você é o emocionado. ― Empurrou meu ombro suavemente.
A verdade era que, se ela fosse a noiva, talvez eu sou fosse o primeiro a me casar e não tinha a menor vergonha disso. No entanto, as coisas haviam saído muito diferentes do que havia imaginado quando tínhamos começado a sair.
Desviando o olhar brevemente para a porta, vi Adam e Ross sinalizando para irmos embora. virou-se para trás e viu os dois homens, que lhe acenaram.
― Por que vocês não ficaram por aqui também? ― Levantamo-nos do gramado, batendo a poeira das calças.
― Apesar do tamanho da casa, não tem tantos quartos assim. Então, achamos que seria melhor que os noivos ficassem com a família e com a hóspede que não mora na cidade. ― Arqueou as sobrancelhas.
― Vocês cederam o quarto que sobrou… pra mim? ― Dei de ombros com um meio sorriso. ― Caraca, vocês me amam mesmo, né?
― Definitivamente você é alguém especialmente inesquecível. ― Sorriu.
envolveu seus braços em meu pescoço, abraçando-me apertado. Correspondi apertando-a pela cintura com um braço, evitando encostar o cigarro aceso que estava na outra mão.
― Foi tão bom te rever de novo ― sussurrou.
― Foi bom mesmo. ― Dei um beijo em sua testa ao desvencilhar-me dela. ― Nos vemos amanhã? ― Assentiu.
― Boa noite, .
― Boa noite, . ― Trocamos um último sorriso antes que eu seguisse até o carro na parte da frente da casa, onde me despedi dos noivos.
Ao chegar em meu quarto de hotel, meu peito parecia aquecido de um jeito que não sentia há muitos anos. Se imaginasse o quanto ainda mexia comigo…


#3 Do I Wanna Know? - Arctic Monkeys



Na manhã seguinte, a correria estava armada desde cedo. Acordei por volta de 09h de meu cochilo de duas horas. Sim, encontrar com na noite passada não estava nem um pouco dentro dos meus planos e isso havia mexido comigo de tal forma, que meu corpo inteiro parecia eletrizado. Ao deitar na cama, não consegui pregar os olhos a noite inteira. Por sorte ― ou azar ―, ainda havia um último cigarro dentro do maço que havia trazido dentro da minha mala. Por isso, levantei-me no meio da madrugada e, sentada próxima à janela, acendi-o na intenção de me acalmar, porém aquilo me deixou em um misto ainda maior de ansiedade e excitação, visto que cigarros literalmente eram a coisa que mais me lembravam dele naquele momento.
Assim que saí do quarto, encontrei tomando café da manhã calmamente na cozinha. Diferente de como imaginei que uma noiva seria no dia de seu casamento ― do que eu seria ―, estava com uma feição descansada e tranquila, bebendo uma xícara de chá enquanto li as notícias em um jornal.
― Parece que alguém não descansou o suficiente. ― Fez uma careta, largando o jornal de lado. ― Tá tudo bem?
― Eu tô ótima. Não consigo dormir quando estou longe de casa. ― Sentei-me à sua frente, servindo-me de uma xícara generosa de café. ― Parece que vou gastar metade da embalagem de corretivo hoje. ― Rimos.
― Tudo bem. Tenho noites insones horríveis também.
― Essa não foi uma delas, né? ― Arqueei as sobrancelhas sugestivamente, fazendo-a rir.
― Pela primeira vez na minha vida, eu sinto que tenho tudo o que sempre quis. Minha loja, minha casa no campo, minhas flores, uma pessoa que me ama o suficiente para querer construir algo comigo… a vida tem sido muito boa, . ― Apoiou a mão no rosto. ― Você já teve essa sensação?
― Bom, eu não tenho flores nem uma casa no campo ou uma pessoa que me ama o suficiente para querer compartilhar a vida comigo, mas tenho a minha carreira. Dei muito duro por ela, alcancei tudo o que eu queria, dentro de dois meses vou conseguir meu título de mestra em comunicação, então… é, a vida é boa mesmo.
― Há controvérsias em sua fala.
― Como assim?
― Não ter um amor… ― Deixou no ar e fiz cara de quem não estava entendendo do que estava falando. ― Por favor, não precisa se fazer. Eu sei de tudo.
― Sabe, é? ― Semicerrei os olhos. ― Tudo o que e quem te contou?
― Você e . Ele mesmo me contou em um dia que cheguei antes de George para o jantar. Perguntei quem era a moça que aparecia em algumas fotos que eles tinham espalhadas no estúdio e na casa que ele dividia com o Samuel.
― O que ele te disse?
― Que era uma ex-namorada muito amiga da banda. Era você. ― Bebeu um gole de seu chá. ― Mas os olhares que vocês trocaram ontem durante o jantar… bem, não é olhar de ex nem de amigo. Sabe aquele olhar de tensão sexual, que você só vê em pessoas que querem muito, muito transar? ― Rimos.
― Meu Deus, acho que tenho que começar a me policiar. ― Passei as mãos pelo rosto, bebendo um gole grande do meu café em seguida.
― Mas é verdade?
― O quê?
― Que você quer transar com ele? ― Dei de ombros. ― Ah, meu Deus, você quer! ― Tapou a boca com as mãos.
― Quem quer o quê? ― Ouvi a tão conhecida voz soar atrás de mim.
Levantei da cadeira correndo, pendurando-me no pescoço da .
― Por que não avisou que estava chegando? ― Minha voz saiu esganiçada pela força que usava para apertá-la em meus braços.
― Porque eu estava chegando, não tinha porque avisar ― respondeu como se fosse óbvio.
Desvencilhei-me dela para que pudesse cumprimentá-la. Assim que se soltaram uma da outra, intercalou o olhar entre nós e disse:
― Tá, agora continuem.
― O quê?
― Não sei. Quando cheguei vocês estavam falando sobre alguém querer algo. Quero saber. ― Deu de ombros.
― Ah, e eu estávamos falando sobre .
― Vamos sentar, então. Tenho certeza que o assunto ainda não acabou porque eu acabei de chegar. ― Ri enquanto sentávamos ao redor da mesa outra vez.
estava me perguntando se quero dar de novo pro porque, em suas palavras, exalamos tensão sexual no jantar de ontem.
― Você não viu nada ainda, . Não sei nem como os cigarros que ele fumava perto dela nunca começaram um incêndio. Esses dois se olhando dá até calor. ― Rimos.
― Para. Não é pra tanto.
― Não é? ― Arregalou os olhos. ― Puta merda, hein? Que cara de pau!
― Cara de pau mesmo porque até agora não me respondeu se daria mesmo ou não. ― cruzou os braços em frente ao peito, com uma expressão desafiadora nas faces.
― Sinceramente, não foi o melhor sexo da minha vida. Já dei pra alguns que só faltaram me virar do lado do avesso e, Deus, que momentos de glória. ― Ergui as mãos aos céus, como se agradecesse, fazendo-as rir. ― Mas sabe aquela sensação de que nada mais importa, só vocês dois? Aquele sentimento de que todo tempo do mundo junto com aquela pessoa ainda é muito pouco? ― Ambas assentiram. ― Ele é a única pessoa que consegue me provocar isso.
― Sabe o que é isso? ― deslizou a mão sobre a mesa, até alcançar meu braço. ― Amor.
― Eu devo ser muito trouxa de ainda prosseguir com isso depois de tantos anos, né? ― Dei um sorriso sem graça.
― Amiga, você sabe muito bem o que eu penso sobre isso e tem todo o meu apoio pra qualquer decisão que tomar. ― Pôs a mão sobre meu ombro, pressionando-o levemente.
― Não sei se minha opinião vale muita coisa, mas estou de acordo com a . ― Sorri para ambas.
― Obrigada, gente.
― Agora, vamos. As madrinhas precisam fazer a prova do vestido o quanto antes pros ajustes.
― Madrinhas? ― Franzi as sobrancelhas.
― Vai dizer que o George não comentou que você era a madrinha de casamento dele?
― Hã… não?
― Cabeça oca do caralho. ― Revirou os olhos.
― E quem são os padrinhos? ― perguntou.
― Surpresa.
― Sério? ― Lançamos a mulher um olhar de tédio.
― Mentira. Na verdade, eu também não sei quem são. Me isentei de escolher e deixei a bomba pro noivo porque não queria nenhum dos meninos chateados comigo. ― Rimos.
― Você é muito esperta.
― Eu tento. ― Deu de ombros. ― Vamos. ― Saindo da cozinha, fomos até um dos quartos, onde a mãe de tirava ambos os vestidos dos manequins para que provássemos.

- x x x -


O sol estava quase se pondo quando me perguntou se eu estava pronta para irmos ao pátio e ficarmos plantadas durante os minutos que levariam para a cerimônia ser realizada. Todos os outros convidados já estavam presentes e sentados em seus devidos lugares. De fato, não haviam tantas pessoas assim, apenas do convívio muito próximo da banda e pouquíssimas pessoas que eu nunca tinha visto, que deveriam ser a família e amigos de .
De braços dados com , saímos do quarto, descemos as escadas e seguimos para a cerimônia.
Ao chegarmos sobre o caminho feito com um extenso tapete de veludo vermelho, tive de controlar meu rosto para não arregalar os olhos ao ver que o padrinho por parte de George era nada mais, nada menos que . Filho da puta, caralho, inferno, cacete, bosta, porra.
Dando meu melhor sorriso, segui caminhando de braços dados com até o altar, separando-me dela para irmos para nossos devidos lados.
― Esse filho da puta tinha te falado alguma coisa sobre nos colocar juntos? ― Questionei baixinho entre dentes, segurando o sorriso no rosto.
― Ele também não te disse nada? ― Respondeu da mesma forma.
― Aparentemente, sofremos um golpe de estado.
― Você me odeia tanto assim? ― Olhei-o curiosa.
― Isso é uma pergunta séria? ― Antes que pudesse me responder, George se posicionou à nossa frente e a música anunciando a entrada de já estava começando a tocar. Obrigada por isso, meu Deus.
Durante toda a celebração, só conseguia pensar no quanto havia me enganado sobre Daniel. Achava que fazia o tipo que não se comprometia e ali estava ele, se casando. Achava que era o tipo que não gostava de celebrações religiosas e ali estava ele, em frente à um padre, lendo seus votos para a mulher que amava. Achava que era o tipo urbano e ali estava ele, morando em uma chácara, afastado de tudo e de todos, cuidando de plantas, cozinhando e fumando cigarros na varanda em silêncio com sua, agora, esposa.
Refletir sobre isso não me deixava apenas feliz a respeito do amadurecimento de um amigo e por ter conseguido encontrar o que queria. Também me fazia nostálgica, afinal, ao meu lado, estava a pessoa que eu nunca tinha conseguido esquecer.
Ser diretora executiva era algo que eu almejava, porém não esperava alcançar tão cedo. Não era uma oportunidade que recusaria nem em um milhão de anos, entretanto, quando Sullivan anunciou que teria de me mudar para outro país, por algum motivo, recusar me parecia uma opção viável. A possibilidade de não vê-lo mais me deixou em lágrimas durante horas enquanto tentava decidir o que fazer.
Por fim, na dúvida, remarquei a sessão com Maureen e coloquei a ela todos os meus questionamentos e as coisas que pareciam me sufocar. Como a psicóloga responsável que era, fez todos os questionamentos que vinha fazendo para mim mesma. “Vale a pena mesmo?”; “se terminássemos mais uma vez, eu saberia lidar?”; “e se estivéssemos fadados ao fracasso?”; “o que era prioridade na minha vida: amor ou carreira?” No fundo, eu já sabia a resposta para cada uma dessas perguntas.
Tão covarde quanto era, não tive coragem de me despedir dele cara a cara. Mandei uma mensagem avisando que havia sido promovida e que iria me mudar em breve. Sem duvidar do meu potencial, me desejou boa sorte e disse que me sairia muito bem. Na manhã seguinte, fui acordada com um buquê de margaridas, desejando-me um bom recomeço em meu novo lar.
Pensando em tudo aquilo, olhando para George e , imaginei como seria se estivéssemos no lugar deles. Nós estaríamos tão radiantes assim? Quanto tempo duraríamos? Estávamos mesmo fadados ao fracasso? Ou estávamos em outra época de nossas vidas e tudo seria diferente? Não saber nenhuma daquelas respostas me deixava ansiosa, logo, tudo que eu mais desejava era que tudo acabasse o mais rápido possível.
Algumas lágrimas tímidas desciam pelo meu rosto. A mão de automaticamente envolveu a minha.
― Tá tudo bem? ― Sussurrou.
― Tá. Não é nada. Casamentos me deixam emocionada. ― Cuidadosamente, sequei o rosto com as costas das mãos.
Depois de trocarem alianças e se beijarem, todos se levantaram de seus assentos e aplaudiram. De mãos dadas, o casal desceu do altar improvisado e seguiu para área atrás do mesmo para dançar a primeira valsa ― que não era uma valsa ― de casal. Já eu, desci acompanhada de e, tão logo que o homem se distraiu, fui para onde estavam as mesas me sentar.
Estava feliz por George, por … todavia, tudo aquilo estava me fazendo pensar demais sobre o passado e talvez eu realmente não devesse ter ido vê-los se casarem.
Bebendo a terceira taça de champanhe assistindo todos dançarem animadamente a playlist que sem sombra de dúvidas tinha sido zelosamente elaborada por Daniel, ao início de uma música lenta, uma mão se estendeu à minha frente. [n/a: coloca essa playlist no yt ou da música 5 a 8 no spotify]
― Dança comigo.
― Toda vez que a gente se encontrar a gente tem que dançar? ― Brinquei.
― Não era uma pergunta. ― Sorriu.
Segurando a mão de , levantei-me da cadeira, deixando-o me guiar para o meio dos outros convidados que se juntavam em pares.
― A próxima vez que a gente se encontrar pode ser em algum lugar que não haja a mínima possibilidade de rolar uma música lenta? ― Questionei quando o homem pôs a mão em minha lombar e eu depositei a minha em seu ombro, começando a ritmadamente nos movermos.
― O que você tem contra danças lentas?
― Absolutamente nada, mas parece que toda vez que eu te encontro automaticamente começa aquela cena de final de filme adolescente no baile da escola, pra que todos os casais do filme finalmente se formem. ― Riu. ― Começo a desconfiar que isso tem um dedo seu.
― Se tivesse, você saberia.
― Saberia mesmo? Não sei. Meu sexto sentido anda meio ruim ultimamente.

― Quê?
― Como é possível que você não tenha envelhecido um único dia?
― Amorzinho, ser negra tem suas vantagens, sabe? Não é só racismo e sexualização ― ironizei, fazendo-o rir. ― Mas comecei a beber menos, continuo a me exercitar todos os dias, sempre que posso faço ioga, bebo muita água, fumo pouco e me mantém abastecida de hidratantes corporais.
― Não bastava ter o cabelo mais hidratado de Londres e região, agora você também tem a pele mais hidratada? ― Dei de ombros, sorrindo.
― Ainda tá em tempo de você investir em uma amizade sincera com a pra ela te abastecer também.
― Acho que vou passar.
Apesar de estar me esforçando para me desligar dos pensamentos que estava tendo antes, não houve nada que pudesse fazer para impedir minha própria boca quando o que eu tinha a perguntar já estava na ponta da língua:
?
― Sim?
― Por que você e a Twigs terminaram? Vocês sempre pareceram tão… felizes juntos. ― Deu um sorriso sem humor.
― Nós fomos felizes por um tempo, mas… não era pra ser. ― Suspirou. ― Tahliah é uma mulher incrível, mas nós não estávamos na mesma página. Acho que, no fundo, ela pensava que os meus sentimentos seriam superáveis algum dia. Os anos se passaram e eles seguiam os mesmos, então, foi quando ela decidiu que era hora de ir embora.
Mais uma vez, não tinha certeza se o que eu achava que ele tinha dito era o que realmente queria dizer e preferia não assumir nada como uma verdade quando não sabia se o era mesmo. quase sempre me deixava confusa. Será que ele também se confunde dentro da própria cabeça com as coisas que quer dizer?
― Escuta, sei que talvez não devesse tocar nesse assunto de novo, que isso é algo que deveria estar no passado e tudo o mais, só que eu não consigo. Parece que não importa quanto tempo se passe, continuo no mesmo lugar, estacionado, esperando… por você. ― Respirou fundo. ― Foi por isso que ela terminou comigo. E ela não estava errada. É impossível construir uma vida ao lado de alguém que não consegue se desconectar do próprio passado. ― Meu estômago estava apertado, como se uma mão invisível o envolvesse e o torcesse por inteiro. ― Antes que me pergunte como pude namorar com ela se ainda não tinha te esquecido, eu gostava da Tahliah. Me apaixonei pelo seu jeito suave de levar a vida. Mas eu nunca quis isso. Nunca quis alguém que compreendesse tudo, que me apoiasse sem hesitar mesmo nas ideias mais idiotas ou se mostrasse sempre disponível. Quero alguém que brigue comigo quando necessário, que me ignore se necessário, que corra atrás dos próprios sonhos independente do que acho e que não se anule. ― Pausou por alguns segundos, parecendo tomar fôlego antes de prosseguir: ― Tahliah tinha as próprias questões para lidar, porém preferiu pô-las embaixo do tapete para auxiliar nas minhas. Apesar de agradecido por ter feito isso, não era justo com ela. Meu Deus, eu não paro de falar e não falei nada até agora. ― Ri. ― O que quero dizer, , é que podem se passar décadas e eu vou continuar te amando. E pra mim está mais do que provado que sou incapaz de entrar e permanecer em um relacionamento que não seja com você. Não sei o que você ainda sente por mim, se ainda sente algo por mim e eu não ligo pro você queira fazer comigo. Se quiser só me usar e voltar pra sua vida de solteira, curtindo o melhor que Nova Iorque pode oferecer para uma mulher inteligente, ambiciosa e forte como você, tudo bem. Sou capaz de aceitar isso como um prêmio.
Assimilando o que tudo aquilo significava, abri a boca algumas vezes, tentando formular algo que fizesse sentido. A verdade era que, em qualquer outro momento, todas aquelas informações saindo de sua boca tão rápido e de maneira tão vomitada, certamente me fariam dissociar da realidade. Entretanto, esperei tanto tempo por aquilo que mal conseguia organizar meus pensamentos.
― Eu não sei o que te dizer. ― Foi o que consegui responder. ― Isso é ridículo. Sou uma mulher de 34 anos e me sinto uma adolescente, confusa com meus próprios sentimentos. ― Ri de nervoso.
Uma música emendou na outra e nós nos desvencilhamos, pois, aparentemente, as coisas iriam ficar animadas de novo. segurou meu rosto entre suas mãos, fitando-me nos olhos, como se estivesse fazendo uma leitura detalhada da minha alma.
― Você não precisa me dar uma resposta. Não agora. Mas quero que saiba que, há anos, não insisti em você porque sabia que você estava muito melhor sem mim e eu estava me recuperando, seria um fardo para você. Jamais quis colocar mais uma responsabilidade sobre seus ombros, não quando eu facilmente poderia achar que substituir meu antigos vícios por você fosse viável. Mas agora… ― Umedeceu os lábios. ― Até quando você fica na cidade?
― Amanhã à noite.
― Achei que você ia ficar mais tempo, mas, ainda assim, podemos… sei lá, marcar algo? ― Tirou as mãos do meu rosto, tentando assumir uma postura relaxada.
― Você tá tentando me convidar pra trepar? ― Automaticamente, seu rosto assumiu uma tonalidade avermelhada.
― Você sabe que nós não precisamos… ― Deixou a frase morrer.
Aproximei-me dele, segurando seu rosto pelo queixo com uma das mãos.
― Eu já te disse uma vez e digo de novo: você me tem fácil demais. Só precisa me dizer o que você quer de mim. ― Nossos rostos estavam a centímetros de distância, os olhos grudados um na boca do outro.
― Eu sei o que eu quero, mas e o que você quer?
― Quero que você vá pro quarto comigo… agora.
― Agora? No início da festa? Quando todos ainda estão sóbrios pra sentirem nossa falta? ― Perguntou como quem está desconfiado das informações que recebe e tenta confirmá-las na tentativa de reconhecer possíveis falhas de comunicação.
― Eu não ligo se eles sentirem nossa falta. As únicas pessoas aqui que não sabem da gente são os pais deles e eles que me perdoem, mas tô pouco me fodendo se descobrirem também. ― sorriu abertamente e, antes que eu tivesse a oportunidade de dizer mais o que quer que fosse, segurou minha mão e me levou para dentro da casa.
[n/a: diminui um pouco o volume da música pra ficar só de fundo]
Um no encalço do outro, subimos as escadas. Passando a sua frente, abri a porta do quarto onde estava acomodada e tranquei-a atrás de nós.
Tão rápido quanto pôde, a boca de cobriu a minha desesperadamente, como se sua vida dependesse daquilo, como se fosse ali que nossos destinos se decidiriam para sempre. Com as mãos em seus ombros, escorreguei o terno pelos seus ombros, tirando-o de seu corpo. As mãos do homem se encaminharam para a gravata borboleta, desfazendo o nó enquanto que eu desabotoava sua camisa o mais rápido que conseguia, arrancando-a de dentro de suas calças.
Desgrudando nossas bocas por segundos, livrei-o da camisa e da regata que usava por baixo, deixando o peito e os braços tatuados à mostra. Aproveitamos o breve afastamento para tirarmos os sapatos.
Em pé outra vez, abrindo zíper lateral do vestido e o deixei ir direto para o chão, permanecendo apenas de calcinha. Voltando a beijá-lo do mesmo jeito faminto de anteriormente, desafivelei seu cinto e abri suas calças. Suas mãos apertavam minhas nádegas e me puxavam para mais perto de seu corpo, fazendo nossas intimidades se roçarem algumas vezes. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro, eriçando todos os meus pelos e fazendo-me suspirar alto.
Empurrando-me contra a cama, caí de costas e não demorou até que o homem se inclinasse sobre mim para tirar minha última peça de roupa. Ao fazê-lo, deu um último beijo rápido em minha boca antes de começar a distribuir mordidas por entre meus seios, barriga e coxas. Em um misto de dores leves e de excitação, gemi, sentindo que estava prestes a colapsar a qualquer instante.
Olhando-me nos olhos, selou nossos lábios e falou baixinho contra eles:
― Lembra quando você me disse que gostava de tapa? ― Assenti, reprimindo um sorriso nos lábios. Sabia exatamente onde ele queria chegar. ― Esse vai ser nosso código pro caso de você gemer alto demais, ok? ― Assenti de novo, selando nossos lábios algumas poucas vezes antes de sua boca descer para um dos meus seios.
Chupando um dos meus mamilos, envolvia o outro com os dedos, brincando, apertando-o. Pouco tempo depois, sua boca alternou para o outro e começou a descer, alternando entre beijos e chupões até alcançar a minha virilha.
Em chamas como não me sentia há muito tempo, queria ter aberto a janela antes de deitar, no entanto, se o tivesse feito, talvez alguém na festa nos visse pelados ou me ouvisse gritar. Em uma escala do que seria mais constrangedor, ambos extrapolariam os limites da vergonha dolorosamente parcelada.
Com as mãos segurando os lados da minha calcinha, a deslizou pelas minhas pernas, aproveitando que já estava de pé para terminar de tirar as calças e, consequentemente, levar junto a cueca para o chão. Voltando para o meio das minhas pernas, beijou lentamente a parte interna de uma das minhas coxas, avançando em direção à minha intimidade. Ao sentir sua língua se arrastar sobre minha virilha, não contive o gemido que saiu por entre meus lábios, propositalmente mais alto do que seria se eu não estivesse tentando fazê-lo usar "nosso código".
Levantou a cabeça somente o suficiente para me olhar de um jeito travesso.
― Só testando aqui uma coisinha pra ver se você vai ter coragem. ― Umedeci os lábios para segurar o sorriso zombeteiro que involuntariamente estava se formando. ― Admita, você é emocionado demais pra isso ― provoquei.
Como se escalasse a cama para me alcançar, ficamos cara a cara, seus olhos me encaravam cheios de desejo. O homem segurava meu queixo com indicador e o dedão, selando nossos lábios, sem desfazer nosso contato visual. Passando a mão pelo meu rosto e, em seguida, na lateral da minha cabeça, acariciando, sussurrou contra a minha boca:
― Eu te amo tanto. ― Dei um meio sorriso.
Iniciando novamente um beijo, ergui meu tronco, inclinando-me para fazê-lo se deitar no colchão. Encerrando o beijo com um selinho rápido, levantei-me para remexer minha bolsa em busca de camisinha. Ao encontrar uma última perdida dentro da necéssaire, voltei para a cama, sentando-me sobre suas coxas e abrindo a embalagem.
Masturbando-o devagar, observei sua boca se entreabrir e soltar uma lufada de ar que quase se transformou em um gemido. Sorrindo, subi e desci a mão em seu membro mais algumas vezes antes de deslizar o preservativo sobre a ereção que pulsava em minhas mãos.
Sem soltar todo meu peso em cima dele, sentei sobre seu pau, deslizando meu clitóris para frente e para trás sobre ele. De olhos fechados, sorri enquanto me autotorturava. Uma voz dentro da minha cabeça implorava para que eu fosse mais rápido, com mais força, mas queria tanto aproveitar aquele momento que fazia tanto tempo que não se repetia...
Curvando-me para frente, beijei-o outra vez, vagarosamente, explorando sua boca, sentindo-o tão próximo, tão quente, tão convidativo.
― Fique sabendo que, se você gozar rápido demais, vai ter que trabalhar dobrado depois, hein? ― Riu.
― Sabe que não vai ser trabalho nenhum, né? ― Pôs alguns dos meus fios de cabelos que se soltavam atrás da orelha. ― Vou pensar em alguém que eu odeio pra tentar segurar o máximo que eu conseguir. ― Ri, dando um tapinha em seu ombro.
Erguendo o quadril brevemente, posicionei seu pênis em minha entrada, deslizando-o para dentro de mim vagarosamente. Ao terminar de introduzi-lo, ouvi-o suspirar.
Rebolando sobre seu pau, em dado momento, precisei de um instante para que o calafrio percorresse meu corpo sem grande impacto. Recuperada da sensação, comecei a subir e descer com um pouco mais força, apoiando as mãos no peito de .
Remexendo-se sob mim para me ajudar, não foram raras as vezes que seu pau saiu por inteiro e tive que recolocá-lo no lugar, pois estava tão molhada que o faria escorregar por qualquer motivo.
Alguns minutos depois, envolvendo meu pescoço em uma das mãos, puxou-me para mais perto para me dar um beijo rápido, aproveitando a oportunidade para me fazer deitar de bruços. Entendendo o que ele queria, fiquei de quatro, gemendo baixinho quando o senti me penetrar novamente, dando início a estocadas fortes e ritmadas.
Pondo uma das mãos sobre meu clitóris, desenhava círculos imaginários ligeiramente, fazendo-me gemer alto o suficiente para que, quem passasse do lado de fora da porta, nos ouvisse. Sua mão livre passou por um dos meus seios, subindo até meu pescoço, onde pressionou os dedos daquele jeito que eu gostava que fizesse, sem me sufocar, apenas o bastante para diminuir a quantidade oxigênio que conseguia colocar dentro do meu corpo. Foi, inclusive, segurando meu pescoço em meio aos seus dedos finos e longos que me fez ficar apenas sobre os joelhos, assim como ele.
Minha pele inteira parecia pegar fogo. Já não conseguia mais manter meus olhos abertos nem pronunciar palavras, só gemer cada vez mais sonoramente. Com nossos corpos grudados um ao outro, grunhia ao pé do meu ouvido, o que só me fazia enlouquecer ainda mais.
Minhas pernas tremiam e não sabia por quanto tempo mais elas aguentariam sustentar meu corpo, que parecia à beira de um colapso.
Segurando sua mão que massageava meu clitóris, guiei-o para que aumentasse ainda mais a velocidade. Eu estava quase lá.
Quando o ar do mundo pareceu faltar e meu ventre parecia cheio, minha vagina se contraiu e relaxou inúmeras vezes em um orgasmo que quase me fez gritar.
Nem por isso parou o que fazia. Continuando seus movimentos de maneira intensa, não parecia próximo de acabar.
Apesar dos músculos enrijecidos, meu tronco continuamente se curvava pelos espasmos. Por não ter parado de me penetrar muito menos de massagear meu clitóris, meu corpo não conseguia relaxar e eu mal conseguia respirar.
Eu sabia o que viria se continuássemos daquele jeito. Na verdade, a sensação de bexiga cheia já era uma realidade.
Somente uma pessoa havia me feito ejacular e era a mesma pessoa que o estava fazendo naquele instante.
Quando não consegui mais me segurar, o líquido molhou sua mão e escorreu em pouca quantidade pelas minhas coxas.
Depositando um beijo em meu ombro, deixou-me livre para me jogar na cama de bruços mesmo, ofegante, com o coração acelerado e a intimidade latejando de leve.
Deitando-se ao meu lado, fitou-me durante longos segundos enquanto nossas respirações se normalizavam.
― Se essa não foi a melhor foda da minha vida, eu não sei qual foi ― resmunguei, esgotada. ― Você tá de parabéns, hein? Acho que não vou levantar daqui tão cedo.
― E nem precisa. Você pode ficar aí deitada o quanto quiser, contanto que eu possa ficar aqui com você.
― Mas agora falando sério, essa inspiração toda veio de onde? ― Ajeitei-me para ficar de barriga para cima.
― Você me disse que sabia o que queria. Eu também sei o que quero, mas ao invés de falar, eu mostrei. ― Pôs meus fios de cabelo rebeldes atrás da orelha. ― Eu quero você. ― Beijou minha testa. ― Aliás, talvez você me ache doido, mas poderíamos aproveitar esse clima de união e casamento pra, enfim, quem sabe fazermos o mesmo… ― Deixou a sugestão no ar.
― Você diz… casar? ― Franzi a festa.
― É. ― Deu de ombros. ― Nós já namoramos, já terminamos, já transamos tantas vezes ao longo dos anos que parece que nunca estivéssemos separado. Só falta agora morarmos juntos. O que acha?
― Não.
― Não? ― Franziu as sobrancelhas, preocupado.
, eu amo você e sei que você me ama tanto quanto eu te amo, por isso, quero que a gente vá devagar. Muito devagar. ― Acariciei seu rosto. ― Eu tenho muita vontade de construir uma vida com você, mas não podemos passar por cima da história que já temos, ignorar que já tivemos nossos percalços. Eu não quero te perder de novo, por isso, prefiro que a gente tome cuidado.
― Parece que eu vou ter que aperfeiçoar minhas técnicas de sedução até conseguir te fazer aceitar meu pedido. ― Ri.
― Uma dica: você tá no caminho certo. ― Selei nossos lábios.
― Vou ter que avisar minha mãe que não foi dessa vez que meu plano de dar a ela a nora que ela queria funcionou. ― Ri.
― Você é péssimo. Às vezes, me perguntava por que odiei você no início, mas acabei de me lembrar.
― As melhores tensões sexuais são entre pessoas que se odeiam, . Por isso, somos esse casalzão.
― Somos mesmo. ― Sorri, aninhando-me ao seu corpo.
Sentindo seu indicador desenhar formas abstratas sobre meu ombro, adormecemos minutos depois, entrelaçados um ao outro.


#4 I Just Needed You - Pale Waves



Ao abrir os olhos no dia seguinte, a primeira coisa que vi foi os cabelos completamente bagunçados de , que dormia de bruços com um dos braços sobre a minha barriga e uma das pernas sobre a minha. Definitivamente, ela era uma pessoa acostumada a dormir em camas grandes e solitárias. Cuidadosamente, saí de baixo do seu corpo para procurar minha cueca e minhas calças.
Achando-as, vesti a roupa íntima e tateei os bolsos da calça em busca do maço de cigarros, tirando um tabaco e o isqueiro de dentro. Pondo-o entre os lábios, acendi e dei uma primeira tragada longa, observando-a adormecida como uma pedra centenária. Sorri ao me lembrar que, mesmo depois de quase uma década, ela ainda parecia a mesma mulher que conheci. Inclusive estava dormindo exatamente na mesma posição que dormira depois da primeira vez que transamos. E ela nunca acordava, não importava quanto barulho fizesse ou o quanto me mexesse na cama.
Minutos mais tarde, a mulher começou a se remexer, provavelmente despertando. Caminhando até lá, inclinei-me e distribuí beijos suaves em suas costas, ouvindo-a gemer baixinho.
Afastei meu rosto alguns centímetros ao vê-la se ajeitando para virar de frente. Seus mamilos quase roçaram em meu rosto e eu ri.
― Meu Deus, não acredito que vou dizer isso, mas senti falta até de acordar com esse cheiro de cigarro ― resmungou.
Beijei seu rosto, sentando-me na beirada da cama.
― Quer um trago? ― Ofereci.
― Pelo amor de Deus, eu nem tomei café ainda! ― Riu, pondo a mão no rosto. ― Quanto tempo a gente dormiu? ― Voltou a me olhar, impulsionando o tronco para se sentar.
― Sei lá, quase umas 12 horas. ― Dei de ombros.
― A essas horas, todo mundo já deve ter percebido, né? ― Questionou enquanto unia as mechas de cabelo para amarrá-lo.
Involuntariamente, meus olhos percorreram seu corpo nu, ainda mais exposto pela forma como seu tronco se esticara.
― Você é incorrigível mesmo, né? ― Inclinou a cabeça para me olhar nos olhos.
Os anos estavam fazendo muito bem a .
sempre fora o tipo de mulher bonita que sabia que era bonita, mas não tirava vantagem disso. Para ela, a beleza era algo tão natural quanto respirar, por isso, não precisava se esforçar para ser notada. Fosse sua forma de caminhar, de sorrir ou de falar, ela sempre dava um jeito de capturar todos ao seu redor. E há muito tempo que eu estava preso em seus anzóis.
― E você até parece uma obra de arte ― respondi quase que em um fio de voz, fazendo-a dar um meio sorriso insinuante.
― Quer me colocar no seu museu? ― Sussurrou, apoiando as mãos às suas costas para inclinar levemente o tronco.
Depositando uma das mãos sobre uma de suas coxas, deslizei um pouco mais para cima, estacionando-a próxima a sua virilha.
― Acordou disposta, hein?
― Eu vou embora hoje à noite, lembra? Preciso aproveitar toda e qualquer brecha. ― Chegou o quadril um pouco mais para frente e afastou as pernas uma da outra.
Avançando com a mão, passei os dedos algumas vezes sobre a extensão de sua vagina, assistindo-a prender a respiração com um sorriso.
― Sem pressão, mas se você gemer agora, provavelmente todo mundo já tá acordado e vai ouvir.
― Obrigada, porra, tô muito relax… ― Encontrando o ponto mais sensível em seu clitóris, passei a desenhar círculos imaginários sobre ele, fazendo-a soltar o ar de maneira pesada, interrompendo sua fala.
― O prazer é todo meu. ― Umedeci os lábios, admirando a forma como cerrou as pálpebras e suas mãos se fecharam em punhos, apertando parte dos lençóis.
Prossegui com os movimentos, alternando a velocidade, ora mais rápido, ora mais devagar, ouvindo em resposta seus muitos suspiros e alguns gemidos baixinhos e arrastados. Sua pele inteira parecia arrepiada e, pouco a pouco, espasmos tomavam seu corpo. Alguns segundos depois, curvou o tórax ainda mais para trás ao se apoiar nos cotovelos, não mais nas mãos. Mordiscando o lábio inferior, reprimiu os gemidos à medida que acelerei o movimento dos dedos.
Uma das coisas que mais sentia falta em era poder vê-la gozar. Quem sabe fossem só olhos de quem a amava e conhecia cada pedacinho daquele corpo, entretanto, não era somente uma paisagem erótica quando chegava ao orgasmo. Seus poros exalavam paixão e entrega. Para ela, o mais importante era a corrida, não a chegada. Muito mais que apenas desejar um orgasmo e todas as sensações que vinham junto, apreciava o sexo em si.
Era uma das poucas pessoas que eu conhecia que verdadeiramente aproveitava os momentos.
Contorcendo-se, gozou trancando a respiração para evitar gemer alto como sempre fazia. Apenas ri, pondo-me em meio às suas pernas, dando um beijo abaixo de seu umbigo, um em meio aos seus seios e o último em seus lábios.
― Você deve ter treinado bastante enquanto eu não tava aqui, né? ― Brincou, acariciando meu rosto.
― Na verdade, não. É tipo andar de bicicleta ou aprender a dirigir. A gente não esquece tão fácil, ainda mais quando você pode assistir o resultado final de perto. ― Trocamos um sorriso.
― Preciso arrumar minha mala. Que preguiça. ― Deixou a cabeça pender para frente e eu ri.
― Posso te levar ao aeroporto? ― Assentiu. ― Vou te deixar se vestir, então. ― Dei um beijo em sua bochecha e me levantei.
Fui até o banheiro para lavar as mãos e o rosto. Ao sair, depositou um beijo em meu rosto e adentrou o cômodo, fechando a porta atrás de si. Juntei minhas roupas espalhadas pelo chão, vestindo-as e saí do quarto.
Chegando a cozinha, George tomava café e fumava um cigarro sozinho.
― Onde estão todos?
― Meus pais e meus sogros saíram para caminhar juntos. foi tomar café com o pessoal no hotel e está arrumando a trigésima mala para viajarmos amanhã. ― Rimos. ― Mas a pergunta que deve ser feita é: o que você tá fazendo aqui? ― Arqueou uma das sobrancelhas.
Passando a língua pelos lábios, reprimi o sorriso que se formava.
― Ok, já entendi. Não vou nem te oferecer café porque acho que você já levou chá a noite inteira. ― Revirei os olhos, rindo.
― Me passa logo uma xícara. ― Estendeu-me uma para que pudesse me servir.
― Então, vocês se acertaram? ― Dei de ombros. ― Vocês fugiram da minha festa de casamento pra fazer cosplay de coelho e você não sabe? ― Semicerrou os olhos.
― Não é a primeira vez que a gente transa depois de ter terminado, então, não ficaria surpreso se ainda assim ela não me quisesse.
― E tudo bem pra você?
― Acho que agora eu só quero o que for melhor pra ela, sabe? ― Franziu os lábios, assentindo.
Minutos após, apareceu com os cabelos úmidos e vestindo roupas comuns. Antes de se sentar a mesa, deu um beijo no alto da cabeça de George e outro na minha, dizendo “bom dia” tanto para mim quanto para meu amigo, como se eu não estivesse com a mão em sua boceta há pouquíssimos instantes.
― O primeiro beijo é no seu membro da banda preferido? ― Impliquei de brincadeira.
― Sim. E o segundo seria no segundo preferido, mas ele não está aqui, então, foi em você mesmo.
― Quem é o segundo? ― George alternou o olhar entre nós, curioso.
― Adam.
― Caralho, tá feio pra você, hein, ? Perdendo pro mago. ― Rimos.
― Acho que eu consigo conviver com mais essa decepção.
Seguimos tomando café juntos com George nos atualizando sobre tudo o que tínhamos perdido na festa, tipo o fato de ter pego o buquê de flores e beijado Adam em seguida.

- x x x -


No início da noite, após ter ido ao hotel, tomado banho, trocado de roupas e arrumado minhas coisas, fui buscar para levá-la ao aeroporto. Ao chegar na chácara de Daniel, a mulher despedia-se de e dos recém-casados. Pouco antes de partimos, a assessora brincou:
― Aumentem meu salário ou eu espalho sobre o namorinho de vocês.
― Eu imploro, , faça esse favor pra humanidade ― respondi, fazendo todos rirem.
Pus a mala de no porta-malas e também me despedi de todos os presentes, entrando no carro.
Dirigindo pela rodovia, como usual, ligou o som e cantarolou tudo o que saía pelos alto-falantes, esbanjando aquela alegria que chegava a lhe iluminar os olhos. Vez ou outra, desviava rapidamente o olhar da estrada apenas para vê-la dançando desajeitadamente até as músicas que eram impossíveis de encaixar uma coreografia.
Chegando ao estacionamento do aeroporto, não tirei somente sua bagagem, bem como a minha, deixando a mulher com uma expressão confusa no rosto ao ver ambas as malas entre nós.
?
― Oi?
― Essa mala não é minha. Eu só trouxe uma.
― É, eu sei. ― Fechei o porta-malas, acionando o alarme do veículo. ― Tudo bem por você se eu passar uns dias na sua casa? ― Arregalou os olhos.
― Me explica isso do começo porque acho que eu perdi algo. ― Cruzou os braços em frente ao peito, com aquela cara de quem já tinha entendido tudo.
― Lembra da última vez que estivemos em um aeroporto? Você veio me trazer quando eu estava indo para a reabilitação. Aquilo significou o mundo pra mim. ― Segurei seu rosto entre minhas mãos, olhando-a nos olhos. ― Eu odeio voar e estava assustado porque sabia como seria o tratamento. Mesmo que doesse, você veio. Segurou o choro o máximo que pôde pra me encorajar e foi a pessoa que mais acreditou que eu conseguiria ficar limpo. ― Acariciei suas bochechas com os dedões. ― Sei que você quer ir devagar e eu concordo que é o melhor que podemos fazer, mas quero aproveitar isso ao máximo. Quero que a gente comece do zero.
― Há quanto tempo você tá planejando isso? ― Deu aquele sorrisinho desconfiado. Ela tá me testando. ― Quer dizer, você tem uma agenda que precisa ser cumprida e, pra isso, você precisa estar no Reino Unido, certo?
― Digamos que me programei pensando que vamos ter duas semanas livres devido a lua de mel do George ― desconversei.
… ― Pronunciou como quando uma pessoa mais velha pega uma criança aprontando.
― Há mais ou menos uma semana… talvez duas. ― Riu. ― Mas eu posso explicar. Fazia anos que nós dois não nos víamos e pensei que seria uma ótima oportunidade pra tentar consertar as coisas. Porém decidi que, se fosse rejeitado de novo, não insistiria mais. ― Suspirei, tenso. ― E aí? Vai me deixar ser sua visita surpresa por uns dias?
Os segundos seguintes pareceram uma eternidade. Os lábios de se franziram, todavia, eu não sabia dizer se ela iria concordar ou não.
― Eu achei que, apesar de tudo, você me deixaria ir embora. ― Sorriu, abraçando-me forte.
― E, mais uma vez, você escondendo o que sente, né? Não sei nem porque ainda me surpreendo. ― Ri, desvencilhando-me dela.
― Ai, por favor, , você mais do que ninguém já devia saber que eu parei de correr atrás de macho há muitos anos. Correr atrás, eu corro de dinheiro, do meu título de mestre, do meu apartamento próprio…
― E de mim ― completei.
― O que você tem a me oferecer de tão bom assim a ponto de me fazer correr atrás?
― Vamos ver. Apreciação de bons vinhos, a gente pode viajar muito juntos ― selei nossos lábios. ―, orgasmos inesquecíveis… ― selei-os novamente.
― Vai criar coragem de me dar pelo menos um tapinha na próxima vez? ― Mostrou o indicador, fazendo uma cara pidona.
― Vamos ver se você merece, né? ― Rimos.
Envolvendo seus braços ao redor do meu pescoço, colou nossos corpos o máximo que pôde, iniciando um beijo lento e carregado de significados.
enchia meu peito de coisas que eu nem mesmo sabia nomear, porém sentia intensamente. E não havia nada melhor do que tê-la ao meu lado para desfrutar de tudo aquilo comigo.
Não encarava nosso primeiro relacionamento como uma falha ou um erro. Na verdade, havia servido para que víssemos tudo o que precisávamos melhorar, quais eram nossos pontos fracos e onde estávamos errando com nós mesmos. Nós dois não amávamos as pessoas que éramos, por isso, não nos cuidamos, logo, não estávamos prontos para amar um ao outro.
ainda tinha um caminho longo para trilhar em relação à sua carreira e à sua saúde mental. Um caminho que só ela poderia percorrer. Totalmente só. Assim como eu. Percorri um enorme trajeto até me tornar alguém limpo, de quem eu realmente me orgulhasse.
No começo, pus a ideia de reabilitação em prática por querer de volta. No entanto, percebi que, para funcionar de verdade, era algo que primeiramente eu precisava querer. Todos os dias. Mais do queria me drogar.
Mais do que me ensinar a me entregar por inteiro a outra pessoa, a amar outra pessoa, me ensinou como amar a mim mesmo e isso era algo que jamais conseguiria lhe retribuir o suficiente, não importava o que fizesse.




Fim.



Nota da autora: Vocês pediram e aconteceu, meus amores. Vocês queriam, eles queriam e eu também, aí cá estamos nós, com o final alternativo de "nothing revealed, everything denied" que permitiu a gente sonhar de verdade kkkkkkkkkkkkkkk
Se você leu essa short e não leu a long, caso queira, vai tá linkada aqui embaixo. Esses 4 capítulos são como se fossem o epílogo da fic.
Enfim, muito bom reviver os momentos de glória dos meus bebês. É sempre tão gostosinho escrever sobre eles que eu não me aguento, fico toda bobinha <3
E, se você não tá sabendo, entrou hoje também, nesse mesmo especial, um segundo spin-off com eles também. É só clicar aqui pra ler.
Se você leu até aqui, me segue nas redes e nos vemos por aí!!!


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