McFly 1/2 - LP Lado A
Última atualização: 04/07/2021

Prólogo


Eles perderam tudo, absolutamente tudo. Perderam a banda, o sucesso, a fama, a primeira turnê mundial, os amigos, a família, os possíveis amores e um grande amigo de longa data: James Bourne.

Os rapazes declararam o fim do McFly alguns dias depois de voltarem da China, em uma simples nota à imprensa. Milhares de fãs ficaram chocados, mas não houve nem mesmo a oportunidade de ouvirem de seus ídolos a razão do fim, pois Danny, Dougie, Harry e Tom não saíram mais em público.
Ao retornarem para a Inglaterra, instalaram-se novamente na casa que dividiam desde o início de carreira: ninguém saía, ninguém entrava. Compras eram feitas via internet e os entregadores eram obrigados a deixarem tudo no hall da casa, não vendo nenhum dos moradores. Eles haviam tornado-se verdadeiros reclusos. Por meses repórteres estiveram em frente da famosa casa dos ex-mcguys, entretanto até eles acabaram desistindo conforme o tempo passou — e depois, outras notícias tornaram-se a prioridade de tais repórteres, uma vez que eles nunca conseguiam nada para estampar a primeira página dos tabloides.

O tempo foi passando.
O mundo deixou de voltar tanto a sua atenção para o fim inexplicável da banda e seus integrantes.

Nenhum dos quatro sabia de Bourne. Tom não deixava nem que o nome daquele que ele considerava um ex-amigo fosse mencionado dentro da casa — coisa que os demais acabaram por aceitar para garantir uma boa convivência sob o mesmo teto. Fletch também era outro cuja localização era misteriosa. O empresário chegou a morar com os rapazes no mesmo teto por alguns dias, para então partir com a ideia fixa de encontrar uma solução para aquele mal que todos eles sofriam. Ele mandava mensagens via SMS de tempos em tempos, sempre de um lugar novo, sempre sem sucesso.

Depois que voltaram da viagem, e de muitas semanas trancafiados cada um em seu próprio quarto, podia-se dizer que os quatro estabeleceram uma nova rotina em casa — que não chegava nem perto daquela que viviam antes. Era comum haver momentos em que não faziam nada além de ter pena de si mesmos. O sonho de se curarem da maldição e retomarem a banda ainda seguia bem forte em todos.

Nenhum dos rapazes era mais o mesmo após tanto tempo confinados, e disso surgiram coisas boas e más:
Danny Jones, que nunca fora grande fã de muita desordem e muito menos seu maior inimigo, dedicava a maior parte do seu tempo livre a limpar a casa. Serviu como terapia no início, mas depois encontrou sérias dificuldades em ter o que limpar, uma vez que tinha livre acesso a todos os cômodos, menos aos quartos dos outros ex-integrantes da banda. A limpeza estava virando uma obsessão sua. Por outro lado, com a necessidade de sujar algo para ter o que limpar depois, Danny foi levado, acidentalmente, a desenvolver seu interesse por comida sob uma nova perspectiva: ele era o mais novo cozinheiro da casa. E, apesar de ser atrapalhado até mesmo para seguir as receitas mais simples, o sardento sempre conseguia atingir uma refeição satisfatória, e em muitos casos obtinha verdadeiros sucessos. O não mais guitarrista do McFly também voltou a praticar uma antiga paixão: boxe. Ele não tinha mais de se preocupar com o fato de suas mãos ficarem inchadas, impossibilitando-o de tocar sua guitarra e prejudicar o show ou gravações de videoclipes ou novas músicas.
Dougie Poynter pôde, finalmente, dedicar-se com calma a aprender a tocar guitarra. Dedilhar melodias era o que mais corriqueiramente fazia em seu tempo livre, sempre trancafiado em seu quarto. Tocava tanto melodias famosas como inexistentes, só que sempre evitava tocar qualquer coisa do extinto McFly.
Harry Judd foi outro que aprendeu a capacidade de tocar guitarra. Tinha aulas com Danny e depois passava tudo o que aprendia para Poynter — já que este tinha medo de deixar o sardento entrar em seu quarto e o outro iniciar toda uma minuciosa limpeza. Atendendo ao pedido de Jones, Harry treinava boxe com o amigo sardento. Era algo importante para ambos, pois acabavam distraindo-se por horas.
Tom Fletcher fazia tempo que não era mais o mandão da casa que costumava ser. Distribuía seu tempo entre desenhos — nos quais estava cada vez melhor e mais profissional —, em programas especiais para finalizar seus desenhos e postá-los na internet através de um nome de usuário que em nada o associava ao McFly, e composições de músicas. As letras costumavam fluir com facilidade e a melodia juntava-se com grande harmonia, era como se estivesse de volta ao room on the third floor. Ainda assim, proibia-se terminantemente de tocar qualquer uma das antigas músicas em sua guitarra.

Assim eram seus dias.
Assim eram suas rotinas. Suas novas rotinas.



Capítulo 01 - Going through the motions


Harry dormia.
E por sorte seu despertador na cômoda ao lado resolveu tocar para que ele pudesse sair de seus pesadelos. O relógio marcava sete horas da manhã. Era terça-feira, ou seja, era o dia de Tom recolher qualquer encomenda que estivesse na soleira da entrada da casa. Se era o dia de Tom, isso significava que era o dia de Harry — porque o guitarrista da ex-banda, quase não saía de seu quarto para outra coisa que não fosse usar o banheiro. O loiro estava bastante recluso em seu quarto e interagindo pouco com os amigos.
O baterista levantou-se de uma vez. Como não havia mais repórteres na porta de casa havia algumas semanas, ele podia se dar ao luxo de ir até a entrada como um pacato morador: enrolado pelo cobertor da cabeça aos pés. Saiu do quarto bagunçado, desceu as escadas, passou pela sala impecavelmente arrumada por Danny na noite passada e chegou até a porta da entrada.

Mesmo com o fim da banda, os rapazes continuavam a receber um alto número de cartas de fãs — algumas revoltadas com o fim, outras se conformando e elogiando-os por chegarem até onde chegaram e algumas enviando apoio, pois desconfiavam que eles estivessem sequelados pela Doença do Pato. Por conta disso, o que Harry encarou quando abriu a porta não se encaixava bem na categoria “cartas” e o deixou impressionado.
Era uma caixa.

Uma de papelão, bem grande e espaçosa — ele temeu que ela não passasse pela porta. Era praticamente impossível ver quem era o remetente, a parte estava desgastada. A caixa inteira tinha sofrido com água, terra e, segundo Harry, até fogo. A caixa tinha uma altura considerável, que chegava a ultrapassar um pouco os joelhos do baterista e a largura exata da porta. Harry teve de deixar o cobertor largado de qualquer jeito sobre o sofá e estendeu seus braços o máximo que pôde para agarrá-la, mas, estranhamente, não era tão pesada quanto ele temia. A colocou no meio da sala e não esperou os demais para poder abri-la, afinal, seu nome borrado era um dos destinatários, junto com os dos demais guys. A caixa foi aberta e o baterista encontrou milhares de flocos de isopor nas cores amarelo, azul e rosa bastante desbotados. Ele olhou sem entender bem o que deveria ter recebido dentro daquela caixa. Ignorando a função dos isopores — carga frágil —, Harry passou a jogá-los para fora da caixa. Os isopores saíam voando da caixa para cada canto da sala, até que ele se deparou com uma maleta preta estilo pelican — aquelas confeccionadas em plástico duro e muito resistente — e, sobre ela, afixada sobre seus cantos com um pedaço de fita adesiva: uma carta dentro de um saco plástico transparente. Aquela deveria ser a carta de uma fã muito apaixonada por eles e a maleta devia estar guardando algum presente mais do que especial — pois que tipo de presente precisava ser guardado com tanto cuidado? O moreno deixou a carta junto com o cobertor, ela também não tinha o nome do remetente no envelope, e ele preferia descobrir qual presente havia ganhado! Abriu os fechos da maleta e encontrou seis frascos de tamanho médio guardados em segurança em forros estofados. Cada frasco continha, até o gargalo, uma substância de um azul bem claro e metálico.
Era lindo. Fascinante.
Harry correu seus dedos sobre um dos frascos e de imediato ele se lembrou da carta — tinha de ler o conteúdo da carta para descobrir o que era aquilo.


Queridos Danny, Dougie, Harry e Tom

Nós tentamos de tudo. Tentamos toda forma de comunicação que estava ao nosso alcance, mas não deu certo.
Demoramos pra entender que vocês não queriam mais saber de nós ou do mundo.
Nós sentimos muito que as coisas não tenham saído como planejado na China.


Aquelas palavras bastaram para Harry identificar o remetente, mesmo sem ter visto um nome. Eram elas.

Acho que todos ficamos tão seguros de que daria tudo certo no final, que nem consideramos o que vocês fariam caso algo desse errado, caso não tivesse uma cura para a maldição.

A gente espera que isto chegue logo até vocês.

E que vocês entrem em contato conosco. Sabemos que não somos amigos de longa data, mas nós estivemos com vocês em uma fase difícil e, se não viramos as costas para vocês naquele momento, não é agora que vamos fazer tal coisa.

Esperamos que o fim desse pesadelo esteja nesses seis frascos.

Com carinho,
, , e



Harry estava petrificado.
Seus olhos se concentravam em apenas uma frase: “Esperamos que o fim desse pesadelo esteja nesses seis frascos.” Aquilo queria dizer que elas tinham encontrado uma cura alternativa para a maldição? Ele buscou por mais informações, até no verso do envelope, mas elas não escreveram mais nada.
Apenas uma coisa estava clara: tinha de reunir os outros.
— DANNY! DOUGIEE!! TOOMMM!!!



Alguns minutos antes do relógio de Harry marcar sete horas e acordá-lo, Danny estava parado bem em frente à porta do quarto de Tom, segurando um prato de mingau. O sardendo respirou fundo e entrou no quarto depois de três leves e rápidas batidas na porta:
— Tom?
— Oi, Danny. — a voz do rapaz soou desanimada como sempre. Com um gesto ele sinalizou para que o amigo entrasse mais no cômodo.
Na noite anterior, quando Danny fora entregar ao amigo o prato de janta no quarto como de costume, Tom pediu para terem uma conversa séria a respeito de algo que ele vinha pensando. O rapaz esperou até a hora do café da manhã, quando teria de levar o prato até o quarto do loiro, para então terem a conversa séria.
— Olha, aqui está seu mingau. Tente comer, pelo menos até mais da metade, ok? — estendeu o prato para o outro. Tom poderia ir parar num hospital se não se alimentasse melhor. — E... sobre o que queria falar?
Tom assoprou uma colherada do seu mingau, ele precisava elogiar com mais frequência a Danny, que a cada refeição melhorava ainda mais. Deixou o prato fundo ao seu lado, garantindo que nada seria derramado na cama, e ficou de frente para o amigo.
— Danny, eu tentei… — ele começou incerto. Porém era Danny o rei das frases inacabadas sobre tópicos desconfortáveis. — Tentei fazer outras coisas, tentei me ocupar. — o sardento percebia a frustração na voz do loiro, e ele podia jurar que já imaginava o que seria dito logo em seguida. — Eu não consigo. Eu não dá, Danny! Não consigo viver sem a música! Não dá, não dá, não dá...
— Ok, eu entendi. Calma, dude. — Danny colocou uma de suas mãos no ombro do outro. — Ninguém disse que não podemos mais fazer música, oras! Olhe só o tanto de composições que você tem espalhadas por aqui… — o tique-nervoso da limpeza lhe atacava mais quando entrava no quarto de Tom, que antes, costumava ser alguém muito organizado e limpo. — Olha só… — Danny recolheu ao acaso um dos papéis cheio de rabiscos. — “...Can’t help thinking that there’s/ Somebody missing who should/ Hold me and please/ me ‘till I’m/ Tired of her kissing…” — o sardento arriscou cantar e obteve o acompanhamento de Tom.
— Não consigo terminar essa. Sei como começar muitas delas, mas chego em algumas partes onde não sei mais o que fazer. — Tom desabafou, sem seu característico brilho de compositor no olhar.
— Talvez algo como: “But when it gets to midnight/ I’m in my bed alone/ You’re all I want/ You’re all I need/ It’s cold in the night/ But I’m looking for the heat…”. — Danny estalava os dedos na batida da música, gingando sua cabeça. — Que tal?
— Calma, calma! Preciso anotar isso antes que nós dois nos esqueçamos! — era uma raridade ver um lampejo de animação em Tom.
— Bom, inspiração para letra romântica é o que não falta! — Danny tentou fazer piada, dando uma risada vazia. Era a única saída que tinha, na visão dele, para não sofrer pensando numa certa garota brasileira. — E aí, — o sardento recolheu mais algumas composições do chão. — em quem estava pensando enquanto escrevia tudo isto? “Tell me are you feeling strong/ Strong enough to love someone/ And make it through the hardest storm” — ele arriscou a melodia de uma das músicas e seguiu para outra. — “Been all around the world/ I never met a girl/ That does the things you do/ And puts me in the mood/ To love you and treat you right”. Bem apaixonado, huh?
— Cale a boca, Danny!
— Vamos, Tominus... Estava pensando em quem?? Seria sobre quem eu estou pensando??? — o moreno cutucava o outro nas costelas, causando-lhe cócegas a contragosto. Até que Danny ficou sério por um segundo. — Espera! Em quem você esteve pensando?? Você pensou na , certo? Não estava pensando na , né?
— Quê?? — perguntou Tom com meio fôlego por conta dos risos. Só Danny para se embaralhar com os próprios pensamentos. — É meio óbvio que não foi na !!
— A-há!! Sabia. — Danny deixou as costelas do amigo em paz, cruzando os braços orgulhoso de si. Tom recobrou o fôlego ligeiramente desconfiado de que Jones tinha fingido aquela confusão para levá-lo a dizer a verdade.
O ego inflado de Danny foi murchando quando se lembrou que havia algum tempo que as meninas haviam desistido por completo de entrarem em contato com eles.
As tentativas de visita sem sucesso foram as primeiras a cessarem, depois os telefonemas — coisa que deu alívio aos ouvidos dos rapazes —, em seguida os SMS’s e, por último, os e-mails e cartas.
Era duro pensar que elas finalmente tinham seguido em frente. Lógico, a maior culpa daquilo era deles, que se isolaram completamente do mundo: família, amigos, e aquelas quatro meninas que tanto os ajudaram. Por mais que elas houvessem insistido incansavelmente, eles nunca atenderam a porta de casa, nem o telefone, não responderam aos torpedos, e nem mesmo abriram os e-mails ou as cartas.
Danny recordava-se amargamente das palavras que Harry lhe dissera alguns dias antes de chegarem às fontes termais amaldiçoadas: — Sim, monstro. Afinal, do que você chama um homem que se transforma em um animal? Se não fosse pelo mero, ou melhor, grande detalhe deles transformarem-se em animais quando água fria encosta em seus corpos, ele poderia ter se dado ao luxo de continuar a ser o ficante exclusivo de . Só que sendo eles amaldiçoados e sem uma cura, eles eram monstros. Danny não teria coragem de pedir a que ficasse ao lado dele mesmo assim. O sardento tinha essa visão bem clara e definida, mas seu peito lhe doía inúmeras vezes ao dia, toda vez que pensava em sua família, seus amigos e, principalmente, em .
— É um pena que ninguém vai ouvir essas músicas… — Danny comentou melancólico.
— Não necessariamente. — Tom disse, voltando a deixar o prato de mingau de lado. — Era sobre isso que queria te falar. Eu estive pensando... E se nós vendêssemos nossas composições para algumas bandas, sejam elas famosas ou iniciantes? Que acha??
Danny viu os olhos de Tom brilharem, como uma criança pedindo por um brinquedo novo, mas não conseguiu retribuir à altura.
— Não sei, amigo. Você não vive sem música, eu também não. Mas pode ter coisa pior do que outros ficarem cantando o que era pra gente cantar?
— Já fizemos isso algumas vezes.— Tom deu de ombros.
— Sim, mas era um projeto ou outro. E não… toodas as composições. Entende? Além do mais, precisaríamos de contatos E de entrar em contato. Se conseguíssemos vender algumas composições para que outras bandas tocassem na mídia e as demais pessoas descobrissem, a própria mídia voltaria suas atenções para nós. Eles finalmente nos deixaram em paz...
Fletcher ficou primeiro abalado ao ouvir aquelas palavras, depois murchou. Ele poderia insistir, reclamar para que o amigo reconsiderasse, só que Danny tinha razão. Nenhum deles queria trazer para si ou para os demais a atenção da mídia novamente enquanto fossem amaldiçoados, então, se vendessem mesmo alguma composição, não poderiam deixar seus nomes como autores.
— É… acho que você tem toda a razão. — Tom disse por fim e decidiu que não tinha mais fome alguma. O prato fundo ainda quase todo cheio de mingau.
Tom estava prestes a pedir que Danny levasse o prato de volta para a cozinha quando ambos foram surpreendidos com um afobado Harry arrombando de supetão a porta do quarto, seguido por um Dougie tão afobado quanto.
— DANNY!! TOM!!!
— Aconteceu alguma coisa?? — perguntou Tom sem entender o rosto pálido dos dois amigos.
— É sobre o Fletch?? Ou o James??? — Danny estava subitamente preocupado, ignorando por completo a regra de Thomas sobre não mencionar o nome de James Bourne naquela casa ou em sua presença.
—Não, é sobre as meninas!! Acabou de chegar algo que elas nos enviaram, vocês precisam descer e ver com seus próprios olhos! — o baterista respondeu eufórico e autoritário.
— Mas a gente sempre ignora qualquer contato delas. — Tom sentiu ranço de si mesmo por dizer aquilo.
— Só desçam! Vamos! — Dougie pediu dando alguns pulos no mesmo lugar.
Uma veia ficou aparente na testa de Judd vendo os dois ainda permanecerem imóveis.
—Arhg! Parece que elas encontraram uma cura!!!!


Capítulo 02 - O fim de todo o tormento


Os rapazes encontravam-se todos na sala.
O tique nervoso de Danny praticamente explodiu quando viu o estado do cômodo: inúmeros isopores estavam espalhados por todo o chão de sua ex-limpa sala. Como o assunto principal não era esse, ele resolveu não trazer o tópico à tona, ao menos não por um tempo.
— Leiam!! — Harry estendeu a carta aos demais. Sua voz era autoritária.
Ele estava completamente atônito com a ideia de que naqueles frascos pudesse estar a solução para o maior problema da vida dele e de seus amigos. Claro, passavam por sua mente as possibilidades de que nada mudaria, que as meninas poderiam ter se enganado, ou também que eles poderiam sofrer algo caso bebessem aquilo. Mas a ideia principal que comandava suas ações era a de que eles não tinham mais nada a perder.
Já haviam perdido tudo.
— E você acredita que pode dar certo isso, Haz? — Dougie perguntou assim que terminou de ler a carta. Se perguntava onde as garotas teriam conseguido tal coisa.
— Eu não sei… — o moreno foi sincero. Ainda que quisesse provar a bebida para ter certeza, não podia forçar nenhum dos outros três a fazer a mesma coisa.
— Teria sido de muita ajuda se elas tivessem explicado sobre onde, como e com quem conseguiram isso. — Tom comentou. Ele não parecia muito tentando a entornar garganta abaixo um líquido misterioso.
— Então, — foi Danny quem fez a verdadeira pergunta que importava. — alguém vai se arriscar a beber?
O sardento aproximou-se da maleta e tocou com cuidado um dos frascos, contando o número de frascos que havia.
— Mas aqui tem seis...
— Danny, Dougie, Harry, eu, Fletch e James. — Tom disse, parecendo-se não se importar em dizer o nome do ex-amigo, ao menos naquele momento. — Elas devem ter contado assim.
— Certo, certo… — Harry foi rápido em retirar um dos frascos do estofamento da maleta e trazer para perto de si. — Bom, eu irei arriscar. Eu já me decidi. O que eu quero saber é simples: alguém mais vai?
Os três ficaram entreolhando-se, inseguros se deveriam ou não seguir o amigo. Tom, enrolado em seu cobertor, estava sentado no sofá ao lado de Danny, que tinha a carta das meninas em mãos e voltava a cada cinco segundos a lê-la. Dougie estava sentado no chão, próximo de Harry, junto da maleta preta sobre a mesinha de café na sala.
— Vai mesmo se arriscar assim?? — Tom olhava para Harry como se este fosse alguém com um parafuso a menos. — Você não sabe se é seguro, se pode te fazer mal...
— Ou se pode me fazer bem: me curar!! — Harry rebateu nervoso. — Eu posso não saber, mas você também não sabe, Fletcher!!
O loiro não gostou do que ouviu, mas preferiu não argumentar mais. Na primeira oportunidade que tivesse, voltaria para o seu quarto.
— Tá, eu vou beber. — Dougie disse simplesmente, fazendo a questão entre beber ou não beber parecer algo banal.
— Certeza, amigo? — perguntou Danny. — Mas e se você e o Harry passarem mal? O que eu faço?? — já levando em conta a ajuda que não receberia de Tom.
Nem Dougie nem Harry sabiam como responder àquela pergunta do amigo, talvez eles só descobrissem depois de finalmente beberem o conteúdo dos frascos.
— No três? — Harry entregou um frasco a Dougie.
As mãos de ambos tremiam um pouco, e ambos faziam questão de relevar tal detalhe. Talvez as meninas pudessem mesmo ter encontrado uma solução. Talvez eles pudessem se curar da maldição. Talvez a vida pudesse voltar a ser como antes.
Talvez, talvez.
— Um... Dois... Três!!
Abriram a tampa do frasco e um odor bastante doce fez-se presente na sala. Beberam em um só gole, sentindo passar por suas bocas algo de sabor bem fraco, mas agradável. Encararam um ao outro, esperando ver por qualquer efeito colateral ou mudança física.
— E aí? Funcionou? — perguntou Danny com uma sobrancelha arqueada quando já tinham se passado cerca de cinco minutos e nem Harry nem Dougie apresentavam qualquer sinal bom ou mau.
— Não sei… — Dougie observava a si próprio. Ele, particularmente, sentia-se o mesmo amaldiçoado pelo porco-da-índia de sempre.
— Eu não sinto nada. — respondeu Harry sem saber se havia iludido-se demais com uma mera possibilidade de cura.
— Bom, vocês estão secos. Precisamos de água para termos certeza. — Tom respondeu, ele ainda mantinha-se cem por cento incrédulo.
Harry respirou fundo e seguiu a passos rápidos até o banheiro, não esperando que os outros o seguissem. Ele não tinha tempo a perder. Se ele estava curado, precisava saber. Uma vida fora de casa o esperava para que ele desse continuidade. Escancarou a porta do banheiro e abriu o registro da água fria sem medo de descobrir a verdade.



Danny, Dougie e Tom mantinham-se imóveis.
Dougie, apesar de ter topado beber o conteúdo do frasco e de não sentir nada, tinha medo de descobrir que o pesadelo continuava e que com a primeira gota de água fria, ele se tornaria de novo um animal. Danny sentia-se em estado de alerta para qualquer problema que ainda pudesse surgir. Tom, secretamente, esperava por uma boa notícia — nunca quisera tanto estar errado.
E talvez estivesse:
— AHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! — ouviu-se o grito de Harry.
Os três na sala trocaram olhares cúmplices e não puderam se conter mais em saber se podiam se curar ou não da maldição. Levantaram-se com pressa e correram até o banheiro. Tropeçaram, quase caíram uns nos outros e encontraram dificuldade para passar os três ao mesmo tempo pela porta do banheiro.
— FUNCIONOU!! — o baterista berrou quando viu os amigos entrarem atrapalhados no recinto. O queixo de cada um caindo, olhos arregalando-se e as vozes sumindo tamanha a surpresa em ver a Harry debaixo do chuveiro em forma ainda humana.
— Eu não acredito… — Dougie foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Tem certe-...
Foi interrompido por Harry, que o puxou pelo braço para que entrasse debaixo do chuveiro e visse com seus próprios olhos que não estavam mais amaldiçoados.
E era verdade.
A água atingiu o corpo de um medroso Dougie, mas isso não alterou a forma do corpo do rapaz, ele continuava a ser humano. E a água estava verdadeiramente gelada, ele poderia até congelar de frio dali alguns minutos, mas aquela água não lhe causava nenhum efeito.
— Funcionou!! — Dougie olhou felicíssimo para Harry, Danny e Tom. — Funcionou mesmo!!!



Estavam os quatro de volta à sala. Dougie e Harry com seus cabelos e corpos molhados e apenas uma toalha na cintura, as roupas foram largadas de qualquer jeito no banheiro. — Então vocês estão bem mesmo? Certeza disso?
— Absoluta, Dan. — respondeu Harry confiante.
— Bom, então… — o sardento levou lentamente o frasco até seus lábios e bebeu seu conteúdo. Harry aproximou-se da maleta preta, retirou com todo o cuidado o quarto frasco e sentou-se no sofá ao lado de Tom para entregar a este a sua “cura”:
— Vamos lá. — ele incentivou. — Esta pode ser a chance que esperávamos! Podemos voltar ao que éramos antes!
— Podemos, não é mesmo? — o loiro olhou esperançoso para o amigo, seu receio o fazendo parecer uma criança. Harry acreditava que aquele presente das meninas não podia ter chegado em melhor hora: nenhum deles era mais o mesmo.
— Não só podemos, nós iremos! A todo o custo… — naquele momento, o antes baterista da extinta McFly fazia um pacto silencioso consigo mesmo, o de que nada os impediria de voltar a tocar novamente. Eles haviam perdido feio uma batalha, mas não iriam se permitir perder a guerra.
Tom bebeu o líquido azul metálico com cheiro doce e, como Danny, esperou por algum efeito colateral.
— E aí? — perguntou Dougie impaciente após certos minutos. Harry e ele eram a prova viva de que naqueles frasquinhos estava a cura, então, não sabia o porquê de tanto suspense por parte dos outros dois.
— Banheiro! — Tom gritou decidido, já saindo em disparada.
— Isso não é hora de ficar apertado, dude… — Danny reclamou enquanto balançava negativamente a cabeça e suprimiu uma risadinha.
Dougie e Harry rolaram os olhos e decidiram mentalmente que seria melhor ignorar o comentário do amigo sardento. Eles o puxaram pelas vestes da camiseta e levaram-no para o banheiro a fim de ter certeza que ele não viraria mais um pato.



Tom gritava e saltitava debaixo do chuveiro por onde milhares de gotas de água fria corriam de encontro ao seu corpo não mais amaldiçoado. A cura milagrosa funcionara.
— AHH!! — gritou surpreso Danny quando o lançaram sob o chuveiro e a água não alterou a forma de seu corpo. Sentia frio, muito frio, mas seguia humano.
— Curados!!!! — gritaram Dougie e Harry felicíssimos antes de largarem as toalhas que antes usavam na cintura em qualquer canto do banheiro e unirem-se aos amigos.
Todos comemoravam. As gargalhadas, a voz num tom de bom humor, os sorrisos, aquilo tudo finalmente havia retornado ao ambiente da casa.
— Espeeeera!! — gritou Danny de repente, entrando num estado pensativo, chamando a atenção de todos, que ficaram estáticos. — Esquecemos de uma coisa: temos que falar com as garotas e agradecer!!
Os três rapazes concordaram com unanimidade, deixando as comemorações de lado temporariamente.
— Então, qual é o plano? — perguntou Dougie enquanto enrolava uma toalha na cintura e com outra enxugava seu cabelo.
— Ligamos para elas, contamos que recebemos a encomenda, que bebemos os frascos e que agora estamos curados, marcamos de nos encontrar para agradecê-las e comemorar o fim da maldição. — Tom disse em voz de comando.
— Aya, Captain! — responderam os rapazes com uma continência e partiram todos para a sala. — Onde temos o número delas guardado? — perguntou Tom.
— Está na mão! — Danny retirou um papel com números marcados de dentro de uma caixinha ao lado do telefone.
— Tá... E quem irá falar com elas? — foi a vez de Harry se pronunciar. — Porque vocês sabem, elas devem estar meio bravas por não termos nunca respondido a nenhuma das tentativas de contato delas.
— Naaaah! — Danny debochou e pegou a carta que estava largada no sofá. — Elas mesmas escreveram aqui: “Tentamos toda forma de comunicação que estava ao nosso alcance, mas não tivemos sucesso. Demoramos um pouco a entender que não era falha nossa, mas, sim, vocês que não queriam mais saber de nós ou do mundo.” Ou seja, elas não estão bravas, elas nos entendem.
— Espere, espere um pouco, Dan… — Dougie correu até o amigo e retirou-lhe da mão o telefone. — Aí só está escrito que elas entenderam a situação, a de que não queríamos mais saber de ninguém. Não diz que elas levaram de boa a nossa atitude.
— Nunca saberemos se não tentarmos. Aliás, qualquer pessoa com quem entremos em contato vai nos xingar por termos nos tornado reclusos.
— Harry tem razão. — Tom disse sério. Era nesse momento que ele ponderava se a atitude dele e dos amigos de se esconderem do mundo havia sido realmente a melhor.
— Eu ligo! — Dougie suspirou conformado e arrancou o papel com números da mão do sardento. — Mas eu ia ligar!!
— Você é burro e ia deixá-las ainda mais bravas conosco. Eu usarei meu charme e tudo acabará bem, você vai ver.
— Baixinho convencido!!! Quem você pensa que é para dizer uma coisa dessas “usarei meu charme”, confia tanto assim no seu taco?! Você não sabe… — Danny parou de falar no momento em que o dedo indicador da mão esquerda do mais novo ergueu-se, era possivelmente o sinal de que o haviam atendido do outro lado da linha.
Seis pares de olhos ficaram ansiosos para que Dougie começasse a falar algo, mas este apenas recolocou o telefone no gancho. Os rapazes temeram pelo pior:
— Danny, isto aqui é um 4 ou um 9?
— Anh, um 9, por quê?
— Devo ter discado errado na hora, pois veio aquela voz de mulher dizendo que o número não existe. Vou tentar de novo.
Novamente os outros três observaram atentamente aos movimentos do loiro mais novo. Eles suavam frio com a expectativa. Estariam elas bravas? Estariam bem? Estariam com tantas saudades como eles estavam delas?
Então os seis pares de olhos observaram o telefone novamente retornar ao gancho sem que Dougie dissesse uma palavra. Ele olhou para os colegas e fez um sinal negativo com a cabeça:
—“O número discado não existe. Certifique-se de que digitou o número corretamente ou tente novamente mais tarde.


Capítulo 03 - Fora de alcance


— Não pode ser, eu marquei certinho quando elas me passaram. — Danny disse alterado. Ele podia ser o culpado de muitas coisas, até mesmo daquilo que nada tinha a ver com ele, mas não era seu desejo ser o culpado disso.
— Calma, calma, Danny. Não é o fim do mundo. — Dougie confortou o amigo. — Sabemos onde moram, só temos de ir falar com elas pessoalmente.
— Bom, então temos de nos arrumar e ficar apresentáveis. — Harry disse. Ele sentia um frio na barriga só de imaginar as possíveis reações das meninas, uma sensação que ele estranhamente apreciava.
— Eu dirijo!! — foi o que gritou Danny antes de todos os rapazes saírem disparados para seus quartos em busca de suas melhores roupas.



Sem a mídia para atormentá-los, a viagem pôde ser tranquila em todo o seu percurso. Danny dirigia o mini cooper azul de Tom, com este no carona, e Dougie e Harry nos bancos de trás. Havia algumas conversas sobre como seria reencontrá-las e o que iriam dizer, mas na maior parte do tempo ficaram em silêncio por conta da ansiedade.
— Pronto. — anunciou Danny. Seu coração batia mais rápido do que ele podia aguentar: finalmente veria a . Esperar que ela o recebesse de braços abertos parecia muito exagerado, mas talvez ele conquistasse esse abraço com o tempo.
Ele não estava mais amaldiçoado. Ele não era mais um monstro.
Desceram do carro e observaram a casa por algum tempo, formulavam em suas cabeças algum discurso pequeno para ter na ponta da língua. Entreolharam-se, esperando ver quem seria o corajoso a dar o primeiro passo e tocar a campainha. Harry suspirou profundamente e seguiu pelo caminho de pedra que levava até as escadas em frente à porta da entrada, esfregou uma mão na outra para secá-las do suor frio que se formava e tocou a campainha.
Não houve resposta.
Tocou novamente e, outra vez, não houve resposta.
— Pode ser que elas tenham… saído? — Danny arriscou dizer sem muita convicção.
— Talvez… — o moreno alto respondeu. Sua ansiedade sendo substituída por decepção.
— Boa dia!! — gritou fracamente uma doce velhinha em frente à casa ao lado. — Estão procurando pela senhora ou pela neta dela?
— Bom dia. — respondeu Tom educadamente, desconfiado de quem seria aquela velha senhora. — Estamos procurando pela neta e as outras meninas que moram aqui...
— Ahhh, sei. — o tom de voz da senhora pareceu um tanto estranho para Tom. — Entrem, entrem. É melhor conversarmos com um bom chá e biscoitos.
A velhinha de corpo frágil deixou a porta bem aberta e entrou devagar em seu imóvel. Tom deu sinal para que se reunissem:
— Quem é? — perguntou baixinho Dougie.
— Não sei, mas ela deve saber das meninas, afinal, são vizinhas. — Tom respondeu e colocou-se atrás dos três para ir empurrando-os casa adentro.
— Meu nome é Wilkinson, Isobel Ann Wilkinson. Sou uma antiga amiga da senhora e, praticamente, uma avó para e suas amiguinhas. — ela riu muito orgulhosa de si. — E vocês, quem são?
Ela sentou-se numa grande poltrona e indicou com a mão para que os rapazes tomassem assento no sofá de frente para ela.
— Anh, eu sou o Tom, estes são Danny, Dougie e Harry. Nós somos… amigos da faculdade.
— Entendo, entendo. — ela sorriu gentilmente. — Vejamos, os rapazes gostariam de beber chá ou café?
— A senhora não precisa se incomodar, senhora Wilkinson. — Danny foi simpático. — Estamos apenas tentando falar com as garotas, a senhora sabe se elas saíram faz muito tempo, se elas vão demorar?
— Ah, sim, elas saíram já faz um tempinho. Não sei que tão breve retornarão, isto é, se retornarem.
— Como assim? — perguntaram em coro.
— Vou preparar o lanchinho, assim poderemos conversar melhor. — ela sentenciou e retirou-se da sala.
— Gente, do que ela está falando? Como assim “se retornarem”? — Danny falou baixo, mas era perceptível a preocupação em sua voz.
— Se você não sabe, a gente menos. — Dougie respondeu. — Vamos esperar, acho que ela vai nos contar melhor assim que voltar.
— Dudes, algo aconteceu… — Harry disse, balançando negativamente a cabeça para todas as possibilidades ruins que aquilo implicava.
A senhora voltou após alguns minutos, trazendo uma bandeja de prata com dois bules — que Tom logo pulou para ajudá-la a carregar — e um prato cheio de biscoitinhos caseiros. Em um dos bules havia café e no outro chá, para garantir de atender às expectativas de todos. Todos se serviram. A senhora sorria feliz por ter companhia, já os rapazes se encontravam desesperados por receber notícias.
— E as meninas, senhora Wilkinson? — perguntou Danny sem muitos rodeios.
— Eu pensei que vocês saberiam, já que são colegas de faculdade. — os rapazes engoliram em seco. Aquilo tinha sido uma alfinetada?
— … É… que estávamos fazendo intercâmbio! — Dougie disse a primeira desculpa plausível que lhe veio à mente, e lhe pareceu uma ótima ideia.
— Jura? Onde estavam?
— Bósnia! — foi a vez de Danny dizer a primeira coisa que pensou. E nesses casos nunca era uma boa ideia.
— Não sabia que faziam intercâmbio para a Bósnia! — nem os rapazes sabiam.
— Pois é, chegamos há poucos dias e pensamos em visitar nossas amigas. — Harry emendou rápido, para voltar o foco para o que importava.
— E, então, a senhora sabe o que aconteceu com elas? — Dougie deu a cartada final.
— Entendo. Pobrezinhos, nem estão sabendo. — ela bebericou do seu chá, levando a impaciência dos rapazes ao limite. — Elas não estão mais na Inglaterra.
— P-perdão, o que disse? — Danny sentia um pequeno músculo incomodar-lhe na região do olho direito.
— Bom, ao que parece, elas tiveram um sério problema que as forçou a voltarem para seu verdadeiro lar: Brasil.



— Meniiinasss!! — entrou esbaforida em casa, seguida por . — Meninas!
— Oi...nossa, gente, o que aconteceu com vocês? — disse quando chegou na sala vinda da cozinha e viu o estado de cansaço das amigas.
— Cadê a ?! Vocês precisam ver o que nós descobrimos!! — gritava descontrolada, assustando .
— No quarto dela, onde mais estaria? Ela não sai de lá desde que voltamos da China.
correu para o segundo andar, sendo seguida tanto por uma exaurida quanto por uma confusa . A dona da casa escancarou a porta do quarto que dividia com a amiga:
!!!
Ela não obteve nenhuma resposta, a garota estava debaixo de uma pilha de cobertores e almofadas. Havia dias que ela estava naquele estava vegetativo em decorrência de como as coisas terminaram na China.
— Mova-se, !!! — pulava na cama da outra. — Você não vai acreditar!! Você não imagina o que a e eu encontramos hoje no centro.
— Não sei, não quero saber e tenho ódio de quem sabe. — respondeu amargamente a menina.
! Só escuta, por favor, vai. — arriscou fazer chamego com sua voz manhosa de criança.
A menina deu um suspiro pesado debaixo dos cobertores e almofadas, fazendo-os voar quando se sentou na cama para ouvir o que quer que fosse. Ela só tinha de ouvir, ou fingir ouvir e depois fingir interesse com o que havia sido dito.
— Então! Tem uma velha meio estranha numa loja bem estranha lá no centro comercial vendendo algo ainda mais estranho. — e entreolharam-se para aquela sinopse mequetrefe de filme ruim em plataforma de streaming.
— Uma poção que transforma humanos em animais!! — os olhos de estavam esbugalhados por detrás de seus óculos.
E uma poção que transforma os animais em humanos de volta e deixa-os imunes à água fria. — completou .
— Como é?? — perguntaram as meninas em coro.
— Sem tempo para mais explicações! Precisamos correr para essa loja bem estranha de novo!




— Aquele foi um dia raro: duas delas chegaram gritando em casa e depois as quatro saíram gritando feito loucas. Pensei até que bateriam com o carro. — comentou a senhora Wilkinson.



— É aqui!! — apontou , quase furando o olho de alguém que passava ao seu lado.
Elas entraram juntas na loja chamada
‘Móshù’, o ambiente era todo iluminado por uma luz roxa e com vários elementos de gosto duvidoso e objetos estranhos e medonhos. Elas podiam sentir os pelos de seus pescoços eriçando-se conforme avançavam.
— Ni hao! — disse uma jovem com traços chineses alegremente, não combinando nem um pouco com o lugar.
Ela tinha um rosto oval com as bochechas bem rosadas, com olhinhos que pareciam ainda menores por serem marcados numa das extremidades com rímel, as sobrancelhas bem finas e definidas, o cabelo castanho meio acobreado e liso — parte dele amarrado em um coque e a franja caindo-lhe até a altura dos olhos. Trajava um delicado vestido chinês curto de seda, com os detalhes em rosa escuro, com fundo branco e estampa de flores.
— Oiii… — saudou pois era a que vinha na frente. — Estamos querendo ver aquele produto que estavam exibindo ali fora hoje mais cedo.
— Ah! Diànlì zuzhòu yàoshui! — a menina disse sorridente e entrou em uma parte restrita a funcionários da loja.
— Di-o-quê-shei? — perguntaram as meninas juntas.
— Mano, o que é isso? — perguntou perplexa. — Vai que pedimos por uma coisa e ela entendeu outra e depois a gente acaba levando veneno?
— Calma. e eu assistimos a apresentação, saberemos reconhecer.
— Mas, , funciona mesmo esse treco? — ainda estava desconfiada. Não seria prudente deixar crescer a esperança de ver Danny outra vez.
— Vai por mim, funcionou! Eu vi com meus próprios olhos!!
— O que vocês viram exatamente? — perguntou .
— Tinha esse garoto, certo? Uma velhinha que trabalha aqui na loja o fez beber o conteúdo do frasco e depois jogou um balde de água fria nele, surgiu uma névoa e o garoto tinha virado um cachorro. Depois, a velha colocou o conteúdo de outro frasco numa tigelinha, o cachorro bebeu um pouco, então a senhora o pegou e o jogou em uma tina com água quente e ele voltou a ser humano. — narrou os eventos que tinha assistido aquela tarde quando e ela saíram para fazer as compras do mês.
— Depois que o cara voltou ao normal, ela ainda pegou um segundo balde com água fria e jogou nele... e nada! Ele continuou a ser humano! — completou. — Elas têm a cura!!
— Como elas podem ter a cura se não existem mais as Fontes Amaldiçoadas? — perguntou confusa.
— Talvez elas tenham coletado de várias antes daquelas reformas acontecerem. — arriscou dizer, dando de ombros.
— Wo huíláile! — disse a jovem, chegando com um frasco em cada mão. Um com líquido rosa e o outro azul, ambos metálicos.
— É esse! — e apontaram juntas para o azul. — É esse que cura a maldição!!
— Estão certas disso, gente?
— Quanto dá se eu comprar seis?!?! — perguntou jogando-se sobre o balcão de vidro e ignorando a amiga.
— Seis?! — exclamou incrédula, sempre fora ruim de matemática.
— Sim, seis: Dougie, Danny, Harry, Tom, James e o Fletch. — a lembrou.
A moça sorriu e fez um sinal positivo com a cabeça, movia os dedos como se estivesse fazendo alguma conta. Em seguida, escreveu em um papel um número e o entregou a :
— O QUÊÊÊ?!?!?!
— Quanto ficoui, ? — perguntou .
— Eita preula! — exclamou . — Gente! Isso é muito dinheiro!!!!




— Pelo que soube depois, elas precisavam de dinheiro. Muito dinheiro, segundo a vovó . — a senhora bebeu um gole de chá. Os rapazes lhe pareciam estarrecidos com o que ela contava.
— Os frascos… — a voz de Danny saiu fraca, como um sussurro.
— E seis frascos. — completou Tom.
Eles tentaram calcular qual seria o preço de um só frasco e qual poderia ser o preço de meia dúzia deles.



— Gente, não dá. Na boa, não temos tudo isso. Nunca fomos ricas e o estágio pagava uma merreca! — disse alterada, largando-se de qualquer maneira no sofá de casa.
— Sem contar que largamos os estágios para ir com os meninos pra China. — tocou na ferida.
— Saco! — gritou .
— Tá, tá, vamos ver: ainda temos certo dinheiro que o Fletch depositou em nossas contas, certo? — Temos, , mas ele só depositou uma vez, logo depois que chegamos da China. — disse . — Já faz mais de um mês que voltamos e nada. Daqui a pouco estaremos zeradas se não arranjarmos nossos estágios remunerados de volta.
— Se pelo menos aqueles idiotas nos respondessem. — encarava o telefone sem fio em sua mão. — Aí poderíamos contar a novidade, que encontramos a cura e que precisamos de muito dinheiro para comprar.
— Então esquece, porque ninguém neste mundo está conseguindo entrar em contato com eles. Nem pais, irmãos, namoradas, ex-namoradas, amigos, produtores, repórteres...ninguém! — disse desanimada e um pouco revoltada. Não era justo o que eles estavam fazendo, nem com o mundo nem com elas.
— Esquece isso, caramba! — disse . — Nós vamos dar um jeito de comprar aquela joça, eles vão se curar, vão voltar à ativa e vão nos agradecer de joelhos!! Entendido? Quem está comigo??
—Vamos nessa!!! — a menina obteve como resposta das outras três.




— E o que aconteceu depois? — perguntou Harry, tão nervoso que quase derrubou sua bebida. Tom teve de contê-lo para que não assustasse a pobre velha.
— Pelo que notei, — leia-se, espionou. — elas ficaram sem dinheiro algum. E como nenhuma estava trabalhando, logo elas ficaram sem água, gás, luz... Mas acho que o pior foi o que veio depois.
— E o que veio depois?? — perguntou Dougie com medo da resposta.



— Minha neta, o que você fez? — perguntou vovó .
— Ai, vovozinha, fizemos de tudo para ajudar uns amigos nossos e acabamos dando com os burros n’àgua. — tentava conter o choro, embora o lábio tremesse.
— Você não pode ajudar alguém se isso irá te prejudicar. Veja só a sua situação agora, veja a situação de todas vocês. — a velha dirigia-se às amigas da neta, reunidas no asilo para uma visita de despedida da vovó.
— Nós íamos dar um jeito, vovó! Nós íamos arranjar dinheiro...
— Mas não era para tê-lo gastado todo em primeiro lugar. Ô, minha neta...
, temos de ir. — avisou , sua voz soando triste. — Temos que estar no aeroporto com pelo menos três horas de antecedência.
— Adeus, vovó! — a abraçou possessivamente. — Sentirei muitas, muitas saudades.
— Eu também, querida. Mande lembranças aos teus pais!
— Se eles não me matarem primeiro, eu falo…




— Os pais das meninas ficaram furiosos com elas por administrarem tão mal o dinheiro que tinham. Recusaram-se a enviar qualquer quantia, ao invés disso, ordenaram que elas retornassem. Foi um golpe cruel para as moças, mas não havia muito o que fazer.

Capítulo 04 - Tempos de desespero pedem medidas desesperadas


— Até mais, rapazes!! — disse a senhora Wilkinson ao fechar a porta de sua casa.
Na soleira de sua porta, os quatro ex-integrantes do McFly permaneceram sem acreditar em toda a história que haviam acabado de ouvir. Eles não paravam de pensar que tinham deixado de ajudar as garotas quando elas mais precisaram — e sentiam-se envergonhados por isso.



Algum tempo depois, estavam de volta em casa, cada um refugiado em seu quarto com a porta fechada, repassando todas as informações recebidas.
Para Dougie o melhor a fazer seria dormir, assim seus pensamentos não o perturbariam mais por ele ser diretamente responsável pelas meninas não estarem mais em Londres — aquilo significava também que todas tiveram seus estudos na faculdade interrompidos.
Harry pensou nas meninas o quanto pôde, mas não evitou se concentrar também em medidas que deveriam tomar agora para retornarem ao mundo da música. O McFly estava de volta, baby! Eles estavam curados, finalmente, e precisavam correr atrás de todo o tempo perdido — precisavam de um CD, de músicas novas, de shows marcados, concluir sua primeira turnê mundial. Eles precisavam de suas antigas vidas de volta!
Monstro, Danny repetia com um triste sorriso nos lábios a palavra que tanto lhe atormentou nos últimos meses desde que a maldição se iniciou. Ele era um homem normal de novo. Era até difícil conter a emoção, uma lágrima escorreu pelo seu olho direito e ficou aliviado pelos demais não estarem presentes. Fosse amaldiçoado ou curado, sua mente não deixava de bombardeá-lo com imagens e lembranças de . Agora que sabia o que acontecera com ela e as demais, precisava saber se estavam bem, precisava pedir perdão por tê-las abandonado à própria sorte enquanto elas não desistiram deles e precisava devolvê-las ao seu sonho de vida: cursar uma faculdade no exterior, mais precisamente, em Londres.
Tom andava de um lado para o outro enquanto tentava organizar suas idéias, elas insistiam em se embaralhar, e aquele turbilhão de pensamentos apenas o atrapalhava. Então ele, que há tanto tempo evitava ouvir qualquer música para que não fosse contagiado com o desejo de tocar, ligou seu relógio/despertador na função de rádio.
— ...Porque você está na Rádio Beta 2! Vamos agora ao nosso “Box Nostalgia”!! — o loiro sorriu, adorava aquele quadro da programação, era a única razão para ter favoritado aquela estação de rádio. — E a primeira é de McFly com Falling in Love!!
Tom arqueou uma das sobrancelhas, ele dividia-se entre estar surpreso pela primeira música a ouvir depois de tanto tempo ser justamente uma de sua banda e também porque a música não era tão antiga para ser considerada nostálgica. Aquilo o fez rir um pouco.
Logo, os primeiros acordes da música começaram e Tom lembrou-se da época em que a compôs com os demais e das tantas vezes que a tocaram nos palcos. Seu pé balançava no ritmo das batidas da bateria de Harry. Sentia na pele aquilo que vira e ouvira tantas vezes suas fãs dizerem, sobre como a letra de suas músicas pareciam expressar exatamente o que sentiam. Danny começou a cantar.
Every day feels like a Monday, there is no escaping from the heartache, now I wanna put it back together cause is always better late than never…
E sua mente desviou para, igual à letra, desejar estar com outra pessoa. Ele vinha negando aquele sentimento havia um bom tempo. O lugar em seu coração que Giovanna preencheu por tanto tempo agora era dominado exclusivamente por .
Out of our lives, and our time/ wishing I could be with you/ to share the view/ We could’ve falling in love!
Ouvir-se cantando outra vez a plenos pulmões o deixou espantado:
Oh! We could’ve falling in love!
Tom encarou a sua própria parte cantada como um aviso: agora que ele estava curado, ele tinha de encontrá-la.
Sick of waiting/ I can’t take it/ I gotta tell ya… — Tom começou a cantar junto com si próprio. A cada vez que repetia aquele trecho e o volume da música aumentava, sua vontade aumentava.
I wish we’ve falling in love. — soou a voz de Danny na rádio encerrando a música.
Tom estava elétrico, animado com a ideia que tivera e precisava contar o mais rápido possível para os outros rapazes. Correu para a porta de seu quarto e ao tentar sair por ela, trombou com alguém.
— Ai! Danny? — o loiro reclamava, encontrando-se sentado no chão.
— Foi mal, foi mal... — Danny também estava caído. — Desculpe, estava indo falar contigo e você apareceu do nada.
Tom riu pela forma como o amigo se expressou:
— O “do nada” aqui foi você!
— ÊÊ, tudo eu, hein? — Danny e sua síndrome de perseguição. — Bom, eu estava indo...
— Preciso falar com você e os outros, é importante e tem que ser agora. — Tom cortou o amigo, falando sério e com voz de comando.
O sardento o olhou confuso, mantendo-se imóvel, por isso foi preciso que o outro o saísse arrastando para o quarto mais próximo.



Depois de alguns minutos, estavam todos reunidos na sala: curiosos pelo que Fletcher poderia querer dizer e surpresos por vê-lo com um sorriso estampado no rosto quase o tempo inteiro. Após ser ameaçado caso não revelasse logo a razão da reunião de caráter extraordinário, o loiro finalmente disse:
— Eu vou para o Brasil!
Os três pares de olhos lançavam-lhe expressões que variavam entre a surpresa, o assombro e o estranhamento.
— Mais uma vez, por favor? — Harry manifestou-se primeiro. Cruzou os braços, incrédulo naquilo que acabara de ouvir.
— Disse que vou para o Brasil. — repetiu. Talvez os outros não chegassem a aprovar sua ideia ou apoiá-lo, mas ele já havia se decidido.
— O que você tem em mente, Tom? — o sardento perguntou, ainda confuso.
O rapaz demorou a responder. Não podia simplesmente dizer que ia para outro país incentivado por uma música, e muito menos por “motivos do coração” — ainda que essa fosse a melhor definição.
— Vou atrás das meninas. — disse.
— Isso é óbvio, né, mas…! — depois de descobrir o que tinha acontecido com as meninas para curá-los, ele não podia ser egoísta de focar apenas na banda. Se havia reais chances do McFly voltar, era graças a elas.
— Acho que o mínimo que elas merecem é um “obrigado” pelos frascos e “desculpas” pelo sumiço. Cara a cara. — Danny fazia a mesmíssima cara de medo de antes de tomar injeções.
— Mas como as encontraríamos? — Dougie perguntou confuso. — Não sabemos onde elas moram por lá e também não temos um número de celular.
— Mesmo se conseguirmos, nada garante que vão falar com a gente. — Harry já estava se xingando pelas consequências de ter evitado contato com as meninas. — Nós nos fechamos para o mundo e também para elas. Se eu estivesse no lugar delas, não iria querer me ver nem pintado de ouro. E sei bem que a terá essa atitude, conheço aquela mulher...
O tom debochado no fim da frase levou os demais a rirem do suposto problema do baterista, que riu também. Todos chegaram a um acordo de que precisavam encontrar uma forma mais elaborada de chegar até as meninas para fazerem o que Danny havia dito.



— E como devo anunciá-los? — perguntou a simpática recepcionista enquanto posicionava o interfone em seu ouvido.
— Daniel Jones. — respondeu o guitarrista.
O sardento e os demais esperavam ansiosos pela chance de encontrarem-se com a vovó . Ela era a única chance deles.
— Sinto muito, senhor Jones. A senhora diz que não recebe visita de homem algum, sem contar que ela afirma não conhecê-lo.
Muito espertos, eles contavam com uma carta na manga. Sem perder a postura, Jones, que se encontrava encostado no balcão e em frente aos demais colegas, discretamente, simbolizou o número dois com a mão — aquela era a deixa para Harry.
— Sério? Poxaa... Que penaaa...— Danny fazia cara de triste e foi falsamente empurrado para o lado pelo baterista.
— Minha nossa... Seus olhos!! Eles são tão, tão, tão verdes… — Judd disse com sua melhor voz galanteadora.
— Ah...! Obrigada. — a recepcionista ruborizou com tanta atenção de repente.
Enquanto Harry e Danny esbanjavam todo o charme que possuíam sobre a única funcionária na recepção, Tom ficou discretamente inclinado sobre o balcão como barreira visual, dando a deixa para Dougie. Com a mulher completamente distraída, o baixista alcançou um dos quatro interfones ali presentes e discou para o número de quarto que vira ser digitado antes pela mulher.
— Pronto?
— Vovó?? — Dougie fez baixinho uma voz feminina, com uma mão cobria sua boca para não ser ouvido pela funcionária. — Sou eu, Doralina!!



— Oh, queridas!! — a velha senhora abraçava fortemente a quem ela pensava ser Doralina e Tominaga, as amigas de faculdade de sua neta. — Que gosto me dá vê-las por aqui!
Tom teve de dar uma cotovelada no amigo para que este segurasse melhor sua risada sobre a fala da vovó e o fato dela ser cega.
— A moça da recepção deve ter anunciado errado, juro ter entendido que um homem buscava falar comigo.
— Ah, sim, Daniel Jones. Ele quem nos trouxe, ele é o irmão da… Jonilândia...? — sem querer, Dougie se esquecera qual nome de mulher as meninas haviam posto no sardento, e só lhe restou inventar.
— Quem??
— Hihihi, a senhora não a conhece, vovó.— Tominaga esclareceu enquanto enforcava Doralina. — Jonilândia é irmã mais nova da Dane.
— Ah, certo, certo. Sim, me recordo, havia uma Dane entre vocês.
Os meninos precisavam ser rápidos, podiam ser descobertos a qualquer momento. Embora a velha tivesse aceitado a visita inesperada de Doralina e Tominaga, os funcionários do asilo não sabiam que ambos entraram escondidos da vista da recepcionista, burlando os protocolos que o lugar tinha para visitas. Assim que buscaram evadir-se da insistência da vovó para tomar chá com biscoitos e descobrir logo o que queriam.
— Vovózinha, desculpe, mas a verdade é que estamos querendo muito ver as meninas.
— Ahhh, pobrezinhas. Mas não dá, elas estão no Brasil agora. — disse a velha com um semblante um tanto entristecido.
— Sim, sim. Sabemos disso, por isso viemos até a senhora. Precisamos do endereço delas no Brasil. — Doralina disse, tentando conter seu desespero na voz.
— Elas saíram daqui tão tristes e magoadas… — vovó parecia conversar sozinha.
— Nós imaginamos, senhora .
— Se meteram em problemas para ajudar alguém… pelo que me deixaram entender.
— Sim, vovó. Elas tentaram ajudar nossos irmãos e eles foram uns babacas. Mas nós estamos dando um jeito para consertar tudo! — disse Tominaga um pouco exaltada.
— Por favor, vovózinha, qual é o endereço das meninas lá no Brasil? — Doralina olhava nos olhos da velha senhora, mesmo ela não podendo retribuir, pousou suas mãos em seus ombros, numa tentativa de conferir mais seriedade à pergunta.



— Acha que eles vão demorar mais quanto tempo? — Danny andava de um lado para o outro, ansioso, dando voltas ao redor do mini Cooper S azul de Fletcher estacionado nos fundos da casa de repouso.
— Não faço ideia. Parece até que ficaram para tomar chá com a velha… — Judd desdenhou. Fazia um tempo considerável que esperavam pelos amigos.
— ...Danny… — o mais alto segurou o amigo pelo braço quando este passava perto dele outra vez. — Entra no carro. Dê a partida.
— Quê? Mas e...
Antes que o moreno concluísse a pergunta, Harry o interrompeu com o braço apontando para algum lugar além do campo de visão de Danny. Ao voltar-se para ver o que lhe era indicado, Jones encontrou-se com as figuras de Dougie e Tom correndo em sua direção e com alguns funcionários perseguindo-os.
Eles haviam sido descobertos afinal.
Danny soltou uma leve gargalhada antes de entrar no lado do motorista e fazer como o amigo havia lhe ordenado, aquilo estava mais para uma cena de filme. Com os dois companheiros dentro do carro, e antes das portas fecharem, o moreno já pisava com tudo no acelerador.
— Desse jeito, os tabloides vão sair anunciando que estamos assediando velhotas. — Danny riu.
— Nem pense nisso!! — Harry disse sério e preocupado. — A última coisa que precisamos são tabloides para arruinar a nossa volta ao mundo da música.
— Verdade verdadeira! — concordou Danny. — E como foram nossas garotas? Pelo visto não muito bem...
Dougie e Tom sentiram-se incomodados por serem subestimados.
— Ta-dãã!! — Dougie exibiu com orgulho um caderninho rosa.
— Teu diário pessoal não é nenhum segredo, tá?— era a vez de Harry debochar do amigo, mas recebeu um belo pedala na cabeça por isso.
— Tem o endereço aqui, panacas! — Tom tentou cortar logo com as piadinhas. — Mas ela não sabia de todas, apenas da .
Harry estremeceu. Dentre todas as meninas, era ela quem mais tinha medo de encarar pessoalmente.
— Já que são amigas desde o colegial, ela deve saber o endereço das outras. — Tom completou.



— Vamos ver... Roupas?
— Confere.
— Tênis?
— Confere.
— Escovas de dente?
— Saco! Esqueci a minha.
— Tinha que ser o Danny!
— Cuecas?
— Meleca!
— Tinha que ser o Dougie!
Tom anunciava sua lista para certificar-se de que estariam levando estritamente o necessário para a viagem de última hora que decidiram fazer.
— Voltei! Confere, confere.
— Certo. Hum... Presentes de desculpas?
— Confere.
Todos tinham uma pequena mala de mão de rodinhas e uma mala maior onde jogaram todo o tipo de presente que acreditavam que lhes ajudariam a acertar-se com as meninas. Nela encontravam-se ursinhos de pelúcia, cartões temáticos, perfumes e caixas de chocolates sortidos. Alguma coisa se encaixaria melhor com cada uma na hora H.
— Será que isso vai mesmo ajudar? — perguntou Dougie inseguro.
— Eu não quero nem saber o que você pensa, Dougiesta. Não verei a de mãos abanando.— Harry cruzou os braços.
Os demais apenas se limitaram a disfarçar as risadinhas. Todos estavam com medo da reação das meninas, mas Judd era o mais atordoado e por isso mesmo mais engraçado. Ele não parecia se dar conta de que era mais alto e mais forte que a temida figura de .
— Aliás, o que faremos com os frascos do Bourne e do Fletch?? — perguntou Danny.
— Eu enviei uma mensagem para o Fletch pedindo para entrar em contato conosco o mais rápido possível e que era hiper urgente, mas até agora ele não respondeu. — Tom comentou ao mesmo tempo em que verificava em seu Iphone se o empresário havia dado algum sinal de vida, mas fazia quase duas semanas que não recebiam nada dele.
— E o... Bourne? — perguntou Danny com certa hesitação por repetir o nome ‘daquele-que-não-devia-ser-mencionado’.
— Não olhe para mim, dele não sei nada. — Tom respondeu cortante.
— Eu até tentei ligar para o celular dele, mas deu fora de área todas as vezes. — Harry avisou. — Bom, o importante é que a cura deles está assegurada aqui conosco. Talvez fosse melhor escondê-las em algum ponto da casa e pronto. Não vai ser seguro viajar com isso. Frágil demais.
— Humm, que lugar da casa será que é seguro e escondido o suficiente? — o sardento fazia cara de pensativo.
Enquanto pensavam, Tom lembrou-se de um lugar. Pegou a maleta preta onde se encontravam os frascos e seguiu para seu quarto. Curiosos, os três demais o seguiram logo atrás. Fletcher ficou pé sobre a cama e escondeu a maleta em um compartimento secreto localizado no teto.
— Parece bom o bastante. — Dougie aprovou o esconderijo.
Jones deu um largo sorriso ao notar que estavam prontos para partir:
— Então, senhores, quem está pronto para ir ao Brasil?!

Capítulo 05 - Contatos de primeiro grau


Com malas prontas, passagens compradas em cima da hora — e por isso um pouco mais caras que o normal —, os rapazes embarcaram o mais rápido que conseguiram. Entretanto, havia ainda um mistério extra nas mentes de Danny, Dougie e Tom: por que Harry os havia feito levar, cada um, um terno elegante entre suas roupas? O moreno limitou-se a dizer que se tratava de um ás na manga.
Senhores passageiros, informamos que pousaremos dentro de alguns minutos em São Paulo. Queiram apertar os cintos até a parada completa do avião. Obrigado pela preferência. — soou a voz do piloto.
— Certo, chegamos. — Harry anunciou apreensivo.— Brasil, São Paulo.
— Muito bem, — Tom terminava de desafivelar seu cinto. — lembrem-se de que não podemos, sob hipótese alguma, nos perder por aqui. Não conhecemos muito bem e, mais importante, não sabemos falar português.
— Sei falar “Oi”, ah, e “gatinhas”. — riu Danny orgulhoso de seus conhecimentos. Os demais resolveram ignorar seu comentário.
— Bom, acho que já é hora de revelar o plano que eu imaginei.— Harry começou a falar e com isso chamou a atenção dos demais, que fizeram o possível para acercar os ouvidos do amigo.— Já que, bem provavelmente, as meninas não vão querer falar com a gente, vamos ver se conseguimos garantir de não ser expulsos da casa da .
— Annnh, e como faremos tal coisa? — Dougie perguntou incerto.
— Um terno e uma maleta. É perfeito! Vamos fingir ser funcionários da Universidade de Londres.
— Por que fingiríamos isso? — Danny perguntou, com seu processamento de ideias mais lento característico.



Cansada.
Essa era a palavra que definia naquele momento. Após quase duas horas esmagada como sardinha em um ônibus, ela finalmente estava perto de casa. Infelizmente, ainda faltava a ladeira até chegar a quinta casa da rua Gusmões, uma amarela e com janelinhas azuis.
Quase ao chegar, notou sua irmã menor sentada na calçada em frente à casa.
!!— exclamou a pequena. — Até que enfim!
— Estava esperando por mim, é? — as duas estavam sempre de picuinhas, então o tom sarcástico na voz de ambas era perceptível.
— A mãe está louca esperando por você. — cruzou os braços. — E a senhorita não atende o maldito celular...
— Acabou a bateria, meu bem.
— Bom, você tem visitas. E das importantes.
— Oi? — estranhou.
A pequena entrou na casa, esperando ser seguida pela irmã mais velha.
— Mas espera, você sabe quem é? — perguntou à irmãzinha em um cochicho.
— Universidade de Londres. — respondeu com afetação na voz, imitando porcamente o sotaque dos visitantes. — Pelo que deu pra entender, e eu quem traduzi tudo, querem que você volte a estudar lá.
Os olhos de brilharam com a notícia. Seria possível? Seria ela uma estudante tão notória assim para a universidade se dar ao trabalho de enviar alguém para trazê-la de volta? Embora as aulas já tivessem iniciado, ou seja, ela já tinha perdido aquele semestre… mas quem ligava? Ela poderia voltar!!
congelou no mesmo lugar, alisando a roupa do corpo — talvez um banho para retirar a inhaca do ônibus — , mas sua irmã a apressava para que entrasse no cômodo onde se encontravam as visitas.
— Eles estão na sala de jantar. Atacaram todas as nossas paçocas. E acho que um deles queria que o pai preparasse caipirinha. — esboçou um sorriso tristonho. Costumava ser fã de uma banda inglesa cujos integrantes apreciavam aqueles dois itens tipicamente brasileiros. — ...daí a mãe fez todo um banquete agradá-los.— a irmã mais nova fez sinal de joia com ambas as mãos antes de ir para seu quarto.
Incentivo falso, a pestinha queria apenas viver como se fosse filha única novamente.
Sacudiu a cabeça, aquilo não importava, o que realmente importava eram as figuras que estavam ali em sua casa, sua chance de voltar a estudar. Deu uma leve arrumadinha em seu cabelo e roupas com as mãos, em frente a um espelho num canto da sala e seguiu confiante para a sala de jantar.
Mas o abrir da porta sanfonada revelou uma visita que ela jamais esperaria.
— Filha! — disse sorridente a senhora . — Você não imagina.
— ...Mas... o quê? ...Espera… — estava em choque.
Aquilo poderia ser mais uma das várias pegadinhas da irmã, a história dos representantes da Universidade de Londres em sua casa, porque ela via diante de si, sentados numa mesa repleta de quitutes, os quatro integrantes da extinta banda McFly.
— Eles são da Universidade de Londres, querida!! — a senhora disse emocionada. Finalmente sua filha poderia completar os estudos.
— Danny, Dougie,... — a menina pousava seus olhos em cada um, recebendo um pequeno sorrisinho amarelo.
— F-filha, — a senhora a interrompeu com cautela maternal. — são os senhores Jones, Poynter, Judd e Fletcher.
— Senhores Jones, Poynter, Judd e Fletcher. — concordou amargamente. Sua irmã realmente não prestava atenção em nada do que ela gostava. Os quatro idiotas nem inventaram nomes falsos!
— Eles precisam fazer uma entrevista contigo, então vou dar licença. Se precisarem de algo, é só me chamar. — toda empolgada, a senhora deu um beijo na bochecha da filha antes de fechar atrás de si a porta sanfonada.
Calada, cruzou os braços, suspirando pesadamente.
Não queria estar com eles na sua frente, em sua casa, no seu país. Queria eles bem longe.
— Muito bem, o que diabos vocês fazem aqui?? — sua voz saiu ríspida, falava entre dentes.
… — Danny foi o único louco o suficiente para se manifestar. — Por favor, nós fomos uns tremendos idiotas. Com o mundo todo e, principalmente, com vocês. Nos desculpe.
— Hunf! Vieram de tão longe para dizer isso?— ela desdenhou. — Um pedido de desculpas ensaiado e superficial? Podiam ter poupado o tempo de vocês e ficado na caverna onde resolveram se esconder.
Danny buscou ajuda nos outros, mas pareciam todos congelados, com medo demais para falar algo. A difícil batalha para pedir desculpas por seus erros estava iniciada. Não podiam dar tão pouco de si para conseguir o perdão delas. Harry levantou-se, abriu a boca algumas vezes, embora as palavras não viessem ao seu socorro.
— começou inseguro. Como convencê-la de que estavam arrependidos? —, é fácil pedir desculpas depois que se comete um erro. Mas o que foi realmente difícil para cada um de nós foi perceber o nosso erro. Quando tudo deu errado na China, quando nós pensamos que não haveria cura para a maldição, não fizemos outra coisa senão pensar em nós mesmos. Na verdade, acho que desde que aquele pesadelo começou, nós não fizemos outra coisa além disso, mas como vocês estavam ao nosso lado praticamente todo o tempo, nossas esperanças eram altas. Quando tudo deu errado, ficamos assustados, devastados… E resolvemos sumir. Só que vocês mantiveram a palavra e encontraram uma cura pra gente. — o moreno aproximou-se de com cuidado para que ela não fugisse, estava hipnotizada pelo discurso dele. Segurou a mão delicada dela e trouxe até perto de si. — Pedir desculpas é pouco e agradecer vocês nunca será suficiente. Mas vamos fazer mesmo assim.
Ele deu um rápido beijo no dorso da mãe dela, por precaução, aguardando uma reação.
Piscou seus olhos sem conseguir conter a emoção.
— A cura funcionou mesmo??
Harry deu um sorrisinho malandro, da mesa agarrou um dos copos que continha água até a metade e despejou uma parte do conteúdo sobre si próprio. A água molhou seus cabelos e ele balançou a cabeça com violência quando ela começou a deslizar por seu rosto.
ficou estupidamente feliz, pulando no mesmo lugar, vibrando junto com os rapazes. Era o pedido de desculpas e de agradecimento com os quais ela tanto sonhou, da boca de quem mais lhe dava saudades. Só que ainda tinha algo preso dentro de si que a impedia de sequer pensar em desculpá-los.
Ela sorria bobamente, levando Harry a sorrir igual, até que o sorriso até sentir algo violento e rápido contra seu rosto.
— Harry?! — gritaram os demais rapazes ao ver o amigo cair de repente sem motivo.
Olharam confusos para , que massageava os nós dos dedos da mão usada para socar o moreno.
— Ah, pronto! — disse ela mais aliviada. — Era disso que eu precisava!
Os rapazes, mesmo o caído no chão e com a mão no queixo, olhavam-na assustados.
— Só pra saber: você vai dar um desses em cada um de nós, ou só no Harry mesmo? — Poynter perguntou, já protegendo seu nariz.
— Vou deixar esse gostinho para as outras meninas. — ela deu uma piscadela com um sorriso sapeca, entretanto, sua expressão mudou logo em seguida.
— O que foi? Aconteceu algo com elas? — Danny perguntou preocupado.
— Hummm, não sei se elas vão querer ver vocês. Quer dizer, nem eu queria, mas como vocês enganaram minha pobre e santa mãe...
— Nós já imaginávamos isso. — Danny comentou, depois ele e os rapazes deveriam agradecer a Harry por sua grande ideia. — Mas talvez agora você possa nos ajudar.
suspirou. Mesmo que o discurso do baterista e o fato dele estar curado a tivessem comovido, não mudava o fato de que as meninas e ela só estavam vivendo no Brasil por culpa exclusiva deles.



— Tsc, tsc… As meninas vão me matar por isso. — murmurava enquanto dirigia o carro alugado pelos rapazes para se locomoverem por São Paulo.
— Pra onde estamos indo mesmo? — Dougie perguntou no banco de trás.
— Bom, como saímos de casa umas seis horas, mandei SMS para a e a se encontrarem comigo no trabalho da . Ela trabalha a noite também num restaurante, então, tem que ser por lá.
— “Trabalha a noite também”? — perguntou Tom.
— É... nossas vidas não têm sido tão fáceis desde que voltamos com uma mão na frente e a outra atrás por ordem de nossos pais. A e eu até demos um pouco mais de sorte porque já tínhamos trabalhado aqui e ali antes de ir pra faculdade.
Os rapazes nada comentaram, era bem ruim descobrir que a vida delas estava do jeito que estava unicamente porque tentaram ajudá-los.
— Annnh, e você tem algum plano em especial, ? — perguntou Dougie, numa tentativa discreta de iniciar um novo tema. — Digo, para as meninas não fugirem da gente?
— Eu falei pra que elas já fossem pedindo a comida. Elas não vão pedir comida para depois não comer.
Deu uma risadinha pelo fato das duas amigas serem comilonas e entrou na rua onde estava o restaurante.
Estacionou e suspirou, precisava de coragem, assim como os demais rapazes. Todos desceram do carro e encararam o estabelecimento de dois andares. Uma placa bem grande com o nome “Wong” encabeçava o local e parecia ser frequentado por uma clientela de classe baixa e média.

Assim que entraram, logo avistaram e sentadas numa mesa no meio do salão e de costas para a porta.
— Oooiii, meninas...! — disse com a expressão dura, por isso o sorriso que dava parecia estranho e até assustador.
As duas voltaram sua atenção para a amiga e o sorriso que compartilhavam desapareceu quando quatro figuras trajando ternos aproximaram-se por detrás da recém-chegada.
— Eu posso explicar! — disse ela rápido, mas as outras duas não pareciam muito animadas em ouvir.
— Eu vou embora daqui. — desvencilhou-se do agarre da amiga e seguiu em direção à saída.
Após um rápido grunhido, Danny correu atrás dela.
Com medo de que fizesse o mesmo que a amiga, Dougie apressou-se em dizer:
, por favor, não vá embora!
— Não irei. — ela respondeu sem olhá-lo, chateada consigo mesma. — Já fiz o pedido.
O loiro conteve um riso involuntário. Olhou para os demais, que observavam através da porta de vidro as figuras de Danny e .
— Então, vamos sentar? — foi empurrando um a um para o banco vazio em frente a onde a amiga estava sentada.
... — a voz de soou estranhamente seca. — posso ter uma palavrinha contigo?
teve medo de aceitar, mas que escolha ela tinha? Sentou-se colada com a amiga, erguendo as mãos para que os rapazes não ficassem encarando.
— O que está acontecendo? Por que eles estão bem aqui na nossa frente e não em Londres? — perguntou um tanto perdida e em português, para garantir que os rapazes não entenderiam.
— Eu sou inocente! — a menina jogou as mãos para o alto. — Eles apareceram hoje na minha casa, enrolaram minha mãe com um papo de serem funcionários da Universidade de Londres e ficaram me esperando chegar do trabalho.
— Ok… — processou aquilo como realmente um bom plano para se infiltrar na casa de qualquer uma delas. Exceto na de , que morava sozinha. — Tá, mas e o tal trato de odiá-los para o resto da vida?
— Eu sei, eu sei… — para quem havia inventado o trato, não parecia estar cumprindo muito com ele. — Olha, falando friamente, eu não tenho uma explicação pra te dar. Acho que... me deixei levar pela emoção.
notou o olhar triste da amiga e chegou mais perto para abraçá-la. Não queria deixá-la sentindo-se mal, apenas queria entender a situação do ponto de vista dela. Naquele momento, percebeu alguém se aproximar da mesa pelo canto do olho.
— Dude, as coisas não parecem estar boas pro nosso lado. — comentou Dougie baixinho para os amigos.



, espera! — gritou o sardento atrás dela. — Por favor, não faz isso com a gente!
— Fazer o quê, Jones? Dar meia volta, te ignorar e fingir que você não existe mais? — rebateu sarcástica.
Danny moveu a cabeça em concordância, passando a mão na nuca, nervoso.
— Por favor, . Apenas escuta nosso lado da história. Se há um motivo para termos vindo aqui ou, saído de nossa ‘caverna’ como disse a , é por vocês. Graças a vocês.
A vontade desesperada de ir embora, ir para longe dele, cessou momentaneamente. Uma parte dela estava curiosa para saber como alguém que tanto a ignorou, estava em seu país justamente por ela e suas amigas.
— Vamos?
Danny ofereceu sua mão gentilmente e a cereja do bolo era seu sorriso sincero, que deixava qualquer fã com as pernas bambas. Com muito esforço, a jovem ignorou o gesto do rapaz e seguiu para dentro do restaurante.





Capítulo 06 - Lavando roupa suja

— Hey, meninas!! Já foram atendidas?? — perguntou uma sorridente ao chegar à mesa, só quando se voltou para os rapazes notou quem eram. — Não sabia que iam trazer amig-...
Ela piscou várias vezes, surpresa, e até os rapazes mostravam surpresa por vê-la como garçonete, afinal, não havia mencionado seu cargo no restaurante.
— Acho que estou vendo mal...— ela abanou-se com o cardápio com urgência e ouviu alguém chamá-la atrás de si.
— Oi, !! — a cumprimentou o recém-chegado Jones, ao lado de uma séria .
Ela observou o rapaz tomar assento ao lado dos demais guys e a amiga sentar-se perto das outras, um cenário impossível, pois: os mcguys ignoravam a existência delas.
— Polenta! Together! Solta um copo d’água com bastante açúcar pra mim, agora!! — gritou com os olhos espantados.
Alguns metros atrás dela, através da janela que permitia visualizar a cozinha, duas figuras do sexo masculino confirmaram o seu pedido.
— Mulher, tem como pedir um intervalinho para podermos esclarecer a situação aqui? — pediu com delicadeza.
— Teria que ver com o chefe, porque estamos em horário de pico. Mas vem cá... são eles, né? Ou eu estou vendo muito errado? — ela até retirou os óculos e os encarava desconfiada como se estivessem avariados.
— São eles. E dizem que querem conversar. — explicou , com seu jeito sisudo de sempre quando algo não acontecia do jeito que ela queria.
fez sinal positivo com a cabeça, fingindo entender o que se passava por ali. deu um suspiro resignado, cruzando os braços. Ainda que odiasse o hábito, balançava uma das pernas, ansiosa/curiosa por ouvir a versão dos rapazes. apostava internamente qual das amigas meteria a porrada nos rapazes sem perdão, qual perdoaria após um pedido de desculpas, e qual já até teria perdoado só por vê-los ali.
— Mesa 10 e 14!! — ouviu-se um grito vindo da cozinha.
— Mesa 17!! E um copo d’água com açúcar!!
— É a minha deixa. Vou ir lá servir os pratos e depois tento voltar aqui para ficar um pouco. — deu uma piscadela.



Cerca de quinze minutos depois, todos esperavam por seus pratos de comida enquanto assistiam correr de um lado para o outro do restaurante — fosse anotando pedidos, servindo pratos ou limpando mesas.
— Mesa 05!! — gritaram na cozinha e sorrisos abriram-se, já que isso significava que seus pedidos estavam prontos.
Em uma grande bandeja, habilidosamente equilibrou sobre o ombro sete pratos de sopa — especialidade da casa de comida japonesa/chinesa. E com a ajuda de um apoio de madeira dobrável, ela apoiou a bandeja e começou a distribuir os pratos.
Antes que pudesse sequer erguer sua colher para provar sua tão aguardada sopa, o celular de apitou na mesa com o ringtone de Mario Bros. O detalhe nostálgico e geek fez Dougie sorrir.
— Ai, caçamba... — disse ela com o aparelho em mãos. — Eu não estou acreditando na minha sorte hoje.
— O que foi, mulher? — perguntou , perdendo por um momento a postura rígida para uma mais preocupada.
— Primeiro: mcguys surgem do nada aqui no Brasil. Agora: Nabuco!
— Quem?! — e fizeram caretas.
— É como eu chamo em off o… — a menina começou a responder e voltou seu olhar com certo receio para .
— Nicolas! — ela comprimiu a enorme bandeja vazia contra o próprio peito. — Ele está vindo pra cá?
— Ah!! Dã!! — e rolaram os olhos para a existência de mais um entre mil dos pretendentes de . Já conheciam a novela: garoto conhece garota, apenas garoto fica apaixonado, garoto resolve tentar ser amigo das melhores amigas da garota, uma das amigas se compadece e passa a agir como cupido pelos dois, no final garota permanecia solteira. Normalmente a amiga que compadecia era . E em três das reprises da novela ficou apaixonada pelo garoto no final. O que fazia as demais suspeitarem que estavam caminhando para a quarta reprise dessa versão alternativa da novela.
— É… Tá de passagem e me ofereceu uma carona até em casa. — ao final fez um bico, pois não queria aceitar, só que sua natureza simpática não a deixaria recusar.
Os rapazes não entendiam uma palavra sequer sobre o que elas conversavam. A barreira linguística estava sendo um problema gigante para eles.
— Meninas? Algum... problema? — Danny questionou.
— Annnh, não é nada de… — começou a dizer até que fixou seu olhar na entrada do restaurante.
— Oi, ! — um rapaz a cumprimentou com um beijo na face e um abraço amigável. — Como está?
— Tudo ótimo! — ela respondeu vibrante.
— Oi, meninas! Oi, zinha! Tudo bem com vocês?
— Oi, Nicolas. — elas responderam em coro, com rangendo os dentes para aquele apelido odioso.
O recém-chegado rapaz encarou simpaticamente os rapazes, que por sua vez o encaravam confusos, sem entender quem era e o que dizia.
— Amigos seus?
— Anh, sim! — sentiu-se no dever de responder já que o olhar de Nicolas recaía justamente sobre ela. — Vieram da Inglaterra. São Harry, Dougie, Tom e Danny. — ela passou a falar em inglês. — Meninos, este é Nicolas, um amigo de infância meu.
— E aê! — os rapazes se cumprimentaram.
— Eu... estou atrapalhando algo? Pensei que você estava sozinha e que precisaria de carona, zinha. — Nicolas perguntou, alheio a como o tratamento carinhoso dele com ela a deixava constrangida na frente dos demais.
— Desculpe, Nick, mas hoje eu vou voltar com a . Temos coisas a conversar com nossos amigos. Fazia muito tempo que a gente não se via.
— Entendi... Que pena. Então deixa a carona para uma próxima. — ele sorriu para ela. — Muito prazer em conhecê-los. Até mais, meninas. Tchau, zinha! — e antes de virar-se para ir, falou:
— Ah, verdade. , antes de vir pra cá… — interrompeu-se para retirar um fio de macarrão preso no cabelo dela. — eu fiz um pedido por telefone para viagem.
— Eu vou checar se já está pronto. — respondeu ela, saindo em um passo apertado na direção da cozinha com ele a acompanhando.
Sem nem tocar em seu prato de sopa, Tom girou o corpo indicando querer se levantar:
— Licença, Danny. — pediu.
— Aonde você vai? — quis saber o sardento ao mesmo tempo em que dava passagem ao amigo.
— Tomar um pouco de ar. — respondeu a primeira desculpa na qual conseguiu pensar e seguiu para a entrada.
Os dois grupos que permaneciam na mesa entreolharam-se entre si.



Uma vez fora, Tom respirou bem fundo.
Estava confuso sobre como deveria interpretar a interação entre Nicolas e . Ciúmes???, pensou ele enquanto passava a mão pelo cabelo.
Com receio de que alguém viesse atrás dele e o encontrasse tão facilmente, contornou o restaurante. Chegando à lateral do drive-thru, viu baixando a mão com a qual acenara para o carro de Nicolas. E havia uma aura triste nela.
O loiro nem chegou a pensar se era a melhor ideia falar com ela e sua boca já tinha chamado por seu nome.
— Tom… Achei que estava lá dentro.
— Está chorando? — quando se aproximou notou que não havia lágrimas, apesar disso ela parecia melancólica.
— Não tô, não. — balançou a cabeça ao responder, forçando um sorrisinho no final.
— Ele disse ou fez algo ruim? — Tom perguntou sério.
— Não, Tom! Ele tá longe de ser uma pessoa ruim.
— Então por que essa cara triste?
— Ele me adiantou uma novidade: vai voltar pra casa dele... que é em outro estado.
— Annh, tendi. — respondeu vago, aquilo não lhe parecia um motivo válido para ficar triste. Sua irmã e ele se falavam com frequência graças à tecnologia com celular e chamadas de vídeo.
— O Nicolas veio pra São Paulo e virou meu amigo bem quando eu tinha acabado de perder quatro. Então… Eu estou com um pouco de medo de… Perder novamente um amigo. — desabafou ela, atenta a quando Tom se daria conta que se referia a eles.
— Você não vai perdê-lo como amigo. Assim como nunca perdeu a gente, não de verdade.
Ele lhe dedicou um sorriso, com as várias desculpas que tinha decorado já engatilhadas, e ela respondeu com um autêntico sorriso de contentamento.
— Vem! Estão esperando pela gente para conversarmos.



Enquanto esperavam pelo regresso de Tom e , os demais decidiram comer, do contrário suas sopas esfriariam.
— O que foi? — Dougie perguntou. Pela expressão concentrada, Danny estava queimando seus poucos neurônios remanescentes e logo o lugar seria tomado por fumaça.
— Sei lá! É só que… — Danny tomava cuidado em como diria o que queria dizer. — Aquele cara amigo de vocês, — com isso ele já tinha a atenção das garotas. — ele me lembra muito outra pessoa.
— Jura? Quem? — perguntou curiosa.
— Esse é o problema! Ele tem um rosto muito familiar, mas não estou sabendo definir quem...
— Engraçado… — Harry manifestou-se depois de muito tempo em silêncio. — Eu tive essa mesma impressão.
— Eu não reparei em nada. — disse, não parecendo muito interessada na conversa.
— Ele lembra o Tom. — o comentário de resolveu o enigma.
— É ISSO!!!! — gritaram Danny e Harry juntos, assustando a todos os demais. quase se engasgou com o macarrão e o talher de chegou a cair no chão fazendo um som estridente.
— Aiii!! — reclamou.
— Desculpa, mas é isso! — Danny estava feliz, sorrindo com todos os dentes à mostra. — Ele é a cópia do TOM!!
— E voz também. — acrescentou Harry.
— Cara, voz, cheiro, gosto! — Danny afirmou com bastante propriedade.
Gosto??, as meninas pensaram juntas, confusas.
— Vocês acham mesmo? — Dougie girava a cabeça para um amigo e para o outro, em dúvida. Da parte dele, não tinha percebido nada.
— Sim, é ele. — respondeu Harry, impressionado de que a resposta estava tão perto dele. — É o Tom, numa versão de cabelos pretos e pele mais escura.
Sem razão aparente, aos menos aos olhos dos rapazes, deu uma risada:
— Ahhh, tá explicado então a situação. — tentava controlar seus risos com a boca usando o cotovelo para acertar , para que esta risse com ela.
— Sua venenosa… — comentou desdenhosa da atitude da amiga.
— Ahhhhhhhh, então isso também está explicado!! — repetiu enquanto apontava o indicador diretamente na cara de , que a olhava com os olhos semi abertos.
— Gente! — a voz de se fez presente e as risadas cessaram imediatamente. — Desculpem a demora, foi mal.
Ela agarrou uma das cadeiras vazias mais próximas e colocou na ponta livre da mesa. Danny teve de se levantar para que Tom pudesse voltar ao seu lugar.
— Então, sobre o que é a conversa? — perguntou curiosa.



A duras penas, com a vergonha e o arrependimento estampados na face, os rapazes administraram o pedido formal de desculpas e de agradecimento pela cura da maldição. Explicaram como suas rotinas mudaram e o que fizeram durante todo o tempo que se afastaram delas e dos demais. E, por fim, sobre como a caixa com a cura chegou até eles após vários extravios sofridos. As meninas os ouviam muito atentas, com expressões variadas — a única a ficar séria na maior parte do relato foi .
— Meninas? — perguntou Danny. Haviam alguns minutos que todos terminaram seus mini discursos e esperavam alguma resposta, mas todas se mantinham quietas. Ele voltou seu olhar para , na esperança de vê-la dizer algo, mas assim que ela o retribuiu com um olhar de ódio, o sardento teve medo de que as coisas simplesmente não acabassem bem.
— Bom, eu escutei. — levantou-se sem muita pressa. — Esse era o combinado, não? Ficar e ouvir.
O sentimento de raiva cresceu em seu coração conforme ela ouviu o que os rapazes disseram. Suas explicações colocavam pingos nos is que elas não seriam capazes de fazer.
Todas as cartas estavam na mesa — ao menos era isso o que pensavam os rapazes: de alma lavada; as meninas também não pensavam que houvesse mais algum detalhe a ser acertado ou discutido.
via com clareza como os eventos, atitudes deles e ações delas que levaram todos ao ponto onde estavam agora. E para ela não havia sentido em retomar de onde pararam.
Danny optou por excluí-la de sua vida, ela ficou destruída por meses com o rompimento de um dia. As amigas a ajudaram a enxugar as lágrimas e ela se reergueu.
Eles não podiam esperar que depois de tudo o que passaram juntos e do tempo que ignoraram a existência delas, elas esqueceriam e perdoariam tudo.
Não é assim que funciona, martelava na mente de .
— Eu já escutei, então eu já me vou.
— Mas, ! — Danny tinha uma expressão doída.
— Não quero saber, Danny!! Já falou, não falou?! — ela oscilava de temperamento.
Flashes de memória dela ao lado de Danny lhe faziam mais mal do que bem naquele momento e odiosas lágrimas queriam emergir a qualquer custo.
… — disse, com receio de que algo pior ainda estivesse por vir.
, calma. — começou a dizer de forma delicada. — Os meninos deixaram tudo bem claro. Você ouviu, imprevistos aconteceram e eles não estavam se sentindo bem consigo mesmos...
— Ah, pára!!— explodiu em cólera. — Faz tempo, meses, que estou cansada de te ver criando e defendendo explicações pra tudo o que eles fizeram de ruim conosco só porque está caidinha pelo Fletcher!!
O silêncio imperou de súbito. tapou a boca com a própria mão, mas não ficou tempo o suficiente para presenciar o estrago que havia causado, seguiu correndo para o seu carro estacionado. Dessa vez Danny não correu atrás de , pois o tempo e a distância nunca mudaram a consideração dos rapazes pelas meninas, e sua “irmã-perdida-de-consideração” não merecia aquela revelação. Dougie, Harry, e estavam paralisados com a expectativa do que aconteceria a seguir, observando Tom e . A revelação não era assim tão bombástica para Tom, mas acrescentar que ele já sabia não iria ajudar a menina a lidar com a situação. De cabeça baixa, sentia os olhares alheios a fritarem.
— Polenta, Together!!! Solta um copo d’água com bastante sal!! Agora!!
— Sall??? — perguntaram espantadas as duas figuras masculinas, as cabeças disputando espaço pela janela.
— Eu vou falar com ela. — prontificou-se .



Capítulo 07 - Consequências


Que droga a foi fazer agora?!, pensou inquieta. Ela abriu a porta da cozinha — que normalmente só permitia o acesso de funcionários — e deparou-se com a imagem da amiga prestes a entornar o copo com água e sal que havia pedido antes.
— Afinal, o que você pretende tomando isso? — ela perguntou confusa, água com açúcar era para acalmar, mas e água com sal?
— Se a gente bebe água do mar, a gente morre, não é? — deteve-se. — E ela é composta do quê? Sal! Eu bebo isso e não terei mais de viver na humilhação.
— Fala sério... Pára de ser Jones! Me dá essa coisa! — após uma breve luta pela posse do copo, jogou seu conteúdo na pia.
— Aiii, gente! Que horror!! — alisou o rosto com as mãos, deixando-se cair de costas até o chão, o tênis fazendo barulho ao deslizar. — Por que a teve de contar aquilo???
— Bom, — sentou-se ao lado dela. — ela deve ter ficado bem mal revendo o Danny, ela nem queria ficar pra escutar o que eles tinham pra falar. Não sei como o Jones a convenceu...
— Ok, isso eu entendo, mas… Eu nunca mais vou poder olhar na cara do Tom!! — ela escondeu o rosto entre suas próprias mãos.
— É, ela exagerou nesse ponto. — disse a menina se mostrando séria. havia cometido uma grande mancada, uma tão grande que não saberia perdoar facilmente se tivesse sido com ela.
Curiosos, e sem saber muito bem o que se passava, Polenta e Together se limitavam a olhar discretamente através da janela para a mesa onde a companheira de trabalho estivera momentos antes.
— Fala sério, que mico!
— Bom, o Tom é muito gente fina. — ponderou . — Tenho certeza que ele vai agir como se nada tivesse acontecido.
— Hum, tomara...



No estacionamento do restaurante Wong, ao lado de um carro alugado, encontravam-se seis figuras admirando a selva de concreto que tinham ao redor de si.
Eles já haviam visitado o Brasil, só que não com a mesma tranquilidade daquela viagem. Era a recente vantagem de serem praticamente anônimos.
Danny estava murcho por conta da reação tão negativa de . Aquilo tinha sido um choque de realidade nas suas expectativas positivas de que tudo se resolveria bem. O moreno encontrava-se já sentado no banco do carona ouvindo seu Ipod na música mais depressiva que conseguiu encontrar, enquanto segurava uma das lembrancinhas que trouxera justo para ela: um Toblerone gigante, o preferido dela.
— Olha só, trouxe isso de lá pra você. — Dougie estendeu a seu kit “mil desculpas” que ele e os demais haviam elaborado.

"Não podemos chegar lá de mãos abanando!", Danny garantiu.
"Tá bem, mas o que podemos comprar? Precisamos de algo 'tiro e queda' pra elas nos perdoarem."
"Algo 'tiro e queda' pra todas elas?", Tom parecia preocupado.
"Acho que sei o presente perfeito.", declarou Dougie com um sorriso misterioso.


A pulseira prateada reluzia sob a luz dos postes, com seus berloques sendo de figuras icônicas de terras inglesas: a bandeira do Reino Unido, o ônibus de dois andares, um mini-soldado da guarda da realeza, o Big Ben e uma típica cabine telefônica. Aquilo realmente fez os olhos da menina saltarem por detrás dos óculos e brilharem.
— 'Brigada, Poynter. — disse ela gentilmente.
Num movimento mecânico, deu um passo para abraçá-lo como parte do agradecimento — gesto que Dougie notou, abrindo também seus braços — , mas a ação não se completou por parte dela. Seria estranho demais. Não só por estar vendo-o tanto tempo depois, ainda tinha o fato de Dougie ter agido como um completo apaixonado por ela nos últimos dias deles na China.
— Desculpe, desculpe. Eu realmente adorei o presente!! — ela completou o abraço que tinha iniciado, desculpando-se por deixá-lo no vácuo por alguns vergonhosos segundos. Era uma surpresa boa que ela não estivesse evitando contato com ele, por isso Poynter retribuiu o abraço. — Mulher! Dá uma olhada nisso aqui!! — a garota foi para o lado de toda alegre e saltitante mostrar seu presente.
— É lindo, não é? — disse toda derretida. Erguendo o braço para mostrar uma pulseira igual em seu pulso direito. Judd havia entregado o presente um pouco antes de eles irem ao restaurante para assim já poder estrear. Na comoção de receber aquele presente mais do que perfeito, lhe agradeceu calorosamente com um abraço e um longo beijo em sua bochecha. Harry chegou à conclusão de que se tivesse entregue o presente assim que ficassem a sós com ela, poderia ter escapado do soco na cara. — Muito lindo, amei mesmo!
— Eu também!
— Só que… como foi que eles acertaram em cheio? — falou mais baixo para despistar. — Eu não lembro de termos contado que éramos doidas para ter esse tipo de pulseira.
ficou pensativa por um momento.
Um dos muitos objetivos delas como melhores amigas era uma pulseira com diferentes berloques que não fosse da 25 de Março mais falso do que nota de três reais.
— Harry contou que a ideia veio do Dougie. — com um discreto movimento de queixo, indicou para o rapaz loiro atrás delas conversando com o baterista. Quando se virou para espiá-lo, era justo um momento em que Poynter sorria carinhosamente em sua direção, fazendo-a dar um salto para o jeito que estava antes. Tinha acabado de sentir-se estupidamente atraída por Dougie e não estava sabendo como lidar.
Tom encarava fixamente a porta por onde sairia assim que seu turno terminasse às 23 horas. Eles esperavam havia uns quinze minutos, e desde a revelação de , a garota não chegou mais perto da mesa deles.
Então a figura de uma cansada e cabisbaixa apareceu.
— Hey, mulher!! — gritou com o braço erguido para chamar a atenção da garota, que os encarou como se visse fantasmas, principalmente ao localizar Tom.
— O que fazem ainda aqui? — perguntou ao chegar mais perto, evitando olhar diretamente para o loiro com monocova.
— Vamos te dar uma carona! — esclareceu, já empurrando para que entrasse no carro.
Tom aproveitou a movimentação dos demais para lhe estender seu presente de desculpas, na esperança de que finalmente ganhasse um pouco de atenção.
— É... p-pra mim? — sua voz falhou. Não tinha como esquecer que agora Fletcher sabia que ela tinha uma queda por ele. — Nossa! Isso é… Perfeito!! — o encarava incrédula pelo presente ser tão certeiro.
chegou a se movimentar para abraçá-lo, detendo-se imediatamente como se tivesse levado um choque. Apesar de magoado, Tom não deixou de sorrir, e, cavalheiro, abriu a porta de trás do carro para que ela entrasse antes dele.
— Vem, vamos te levar para casa.
A questão do carro tornou-se uma complicação quando avaliou que não seria adequado que elas deixassem os rapazes dirigirem de volta para o hotel à noite, pois eles não conheciam bem as ruas e não se podia confiar cegamente no GPS. Assim, primeiro foi deixada em casa, em seguida foi a vez de , depois os levou para o hotel e de lá tomou um táxi para sua própria casa.



Bem cedo pela manhã seguinte, foi até a casa de para juntas irem onde morava .
— Mas ia acontecer de qualquer jeito, mulher… — tinha o caminho todo tentado convencer a amiga a desistir de buscar uma reparação, pois seu maior medo era um desentendimento maior ainda.
— Na-na-ni-na-não. Não é assim que tratamos uma amiga. — a menina era tímida e amigável apenas com desconhecidos, seu temperamento de estressadinha revoltada surgia apenas com quem ela tinha intimidade.
— Ok, isso eu entendo. Só que eu sou azarada nesse campo. Ia dar ruim porque sempre dá ruim. — deu de ombros. Para sua sorte, como previra, Tom tinha sido muito legal na noite passada e não tocou no assunto. E no que dependesse dela, ela também não tocaria.
Na portaria do condomínio, as duas foram anunciadas como visitantes, e percorreram o mesmíssimo caminho que fizeram muitas vezes desde a época do colegial.
— Oi. Podem entrar. — ao abrir a porta, certificou-se apenas de que não havia quatro ex-integrantes de uma certa banda inglesa atrás delas.
Agora que estava mais calma, sentia-se mal pela maneira que agiu — apenas a parte de ter revelado os sentimentos de . E estar presente ali como uma advogada de defesa em busca de retratação fazia se sentir duas vezes pior.
— Desculpe ter falado demais ontem. Eu estava… bastante abalada por ver aqueles caras de novo. Ainda mais... o Danny.
— Tá tudo bem, . O Tom não comentou nada sobre, então não tem problema. — a mandíbula de se fechou mais ainda. não conseguia nem pensar em como seria ficar sozinha ao lado do loiro dali para frente e mesmo assim desculpava facilmente. Se tivesse um pingo de consideração pela amiga, insistiria mais em assumir sua culpa e as consequências. No entanto, essa era a visão de .
Como não fez absolutamente nada, perdeu ali parte do bom conceito que tinha da amiga.
— Bem, os rapazes estão querendo reparar tudo. E isso inclui nos levar de volta para Londres! — comentou, com pressa em mudar o assunto.
— A me contou. Só que eu não sei se vou embarcar nessa. Acho que deu de McFly na minha vida, gente.
— Você não vai?! — disparou incrédula, levantando-se do sofá.
— Sou obrigada, por acaso? — replicou carrancuda.
— Claro que não! — gesticulou com ambas as mãos, deixando-as a postos caso fosse necessário intervir fisicamente entre as duas "amigas" e uma possível luta corpo a corpo. — Mas é uma oportunidade ótima de voltarmos pra vida que tínhamos.
deu um riso falso com desdenho.
— Nós ainda estaríamos naquela vida se certas pessoas não ficassem insistindo em ajudar quem não estava mais nem aí pra nós!!
O tempo parou ali na sala do apartamento, pois ninguém teve uma reação imediata.
Medindo forças pelo olhar estreitado, manteve seu queixo erguido, sem abrir margem para ter sua visão mudada. fungou mais de uma vez seguida para não se permitir chorar de raiva:
— Tá bem, se é nisso que você quer acreditar, que seja. Faça o que quiser. — a mesma cara espantada que dirigia a uma passou a dirigir a outra. Todas já tinham presenciado em algum momento que falava muito sério quando decretava "faça o que quiser".



— Bom-dia, gente boniiitaaa!! — a fala melodiosa de denunciava seu bom humor logo cedo ao entrar no quarto de hotel onde os quatro ex-integrantes da antiga banda McFly estavam hospedados em São Paulo.
— Bom-dia. — responderam Dougie, Harry e Tom, ainda morosos por terem acordado recentemente.
Um som gutural preencheu o ambiente, arrepiando até o último pêlo da nuca de . Nenhum dos outros rapazes deu importância.
— Credo! O que foi isso?? — por reflexo, ela levou a mão ao peito. Era um simples quarto de hotel que agora parecia assombrado. vistoriava o teto atrás de ectoplasma.
— Danny… Ele não está lidando muito bem com a reação da . — Harry explicou em um tom mais baixo de voz, como se não quisesse ser ouvido por aquele de quem falava.
Um pouco adiante, Dougie moveu as malas de viagem deles que estavam empilhadas não por acaso, revelando um Danny prostrado no sofá. Com cuidado para que a pilha de malas não se desequilibrasse, Dougie a empurrou novamente a fim de esconder o guitarrista.
— Pra melhorar o ambiente. — o loiro menor deu um sorrisinho amarelo. não conseguiu se opor, a vibe do moreno podia contagiá-los no sentido negativo.
— Tá, vou ver o que posso fazer por ele, prometo! — ela garantiu, algo enfezada ao pensar na amiga.
No balcão da cozinha em estilo americano, tomou assento na banqueta e os rapazes a imitaram.
— Muito bem, vamos ver como seguiremos daqui. — da bolsa ela retirou uma pasta com papéis, pois apesar de toda tecnologia, precisava escrever em papel para se organizar. — Conversei com a , os pais dela estão alguns dias fora para uma convenção do trabalho, já que os dois trabalham no mesmo lugar… Logo, não vão precisar fazer teatro pra eles. Acho que um e-mail parecendo ser da universidade irá servir pra comprovar veracidade. A mora sozinha, acho que o tal e-mail servirá pra ela também. Então, sobra a .
— Vai conhecer os sogrões! — provocou Harry dando cotoveladas em Dougie sentado ao seu lado. O mais novo riu fraco, sem sinais de ter sido atingido pelo comentário, o que levantou a curiosidade de : ele não tinha mais aquela queda pela ?
— Bom… Os pais da são mineiros… Então… — batia com a lapiseira no centro do lábio inferior, ainda formulando sua linha de raciocínio. — Vamos pedir pra servirem umas comidas típicas!! Vocês amam paçoca, certo?
— Paçoca?? — a sugestão pareceu agradar os rapazes.
— Paçoca?? — até mesmo aquele considerado "fora do ar" se manifestou. A cabeça de Danny parecia flutuar logo atrás da pilha de malas. A jovem sorriu orgulhosa de si mesma por inspirar expectativas positivas nos rapazes.



Capítulo 08 - Teletubbies



— Paçoca?? — vigiava por cima do ombro para garantir que ninguém escutasse sobre a tramóia dos mcguys em sua casa se passando por representantes da faculdade.
— Paçoca!! Os meninos ficaram muito a fim da ideia. Será que rolaria um Romeu e Julieta também? Humm!! Ahhh, e também… — a queda de por sobremesas começava a correr solta.
, essas coisas a gente compra na padaria da esquina. E se for comprar tudo isso de doce pra cinco pessoas, vou à falência!!
— Sua chata!!!
— Vamos fazer assim, ao invés de lanche da tarde, vocês vêm pra jantar. — a grande carta na mão de era o fato de sua mãe ser uma excelente cozinheira, então a proposta era irrecusável, além de mais em conta financeiramente falando.
— ...pode ter angu com queijo??? — a jovem fez muxoxo.
— Pode. O melhor que vocês vão comer na vida. — riu escandalosamente, como se ela fosse trouxa de dividir alguma porção do melhor angu com queijo da vida dela.
— AH! Antes que me esqueça. Mulher, sua irmã, corremos perigo de ela descobrir tudo? — como estava ajudando diretamente os mcguys no esquema tinha de pensar em todo pequeno detalhe que podia colocar tudo a perder.
— Nhaaa, fica tranquila. Tá quase reprovando em inglês, mas é fluente em coreano.
— Ufa! Que bom. Quer dizer, não a parte da reprovação... Mas é uma preocupação a menos!



Assim que terminou a ligação, ainda ficou uns bons minutos encarando a tela do celular esforçando-se para adquirir, em um passe de mágica, o controle absoluto sobre o riso frouxo que lhe escapava toda vez que mentia descaradamente para os pais. Depois, desceu à sala pulando os degraus da escada, onde seu pai e mãe recebiam mais uma sessão “conheça o BTS” da irmã menor.
— Preciso falar com vocês.
— Arranjou namorado? — a mãe se virou esperançosa.
— Arranjou?? — a careta de confusão do pai para os 7 rapazes dançantes na televisão alterou para uma de desgosto.
— Engravidou?? — a irmã deu de ombros para os vários pares de olhos a recriminando.
— Não… para as três perguntas. — garantiu , fuzilando a irmã pelo olhar. — Tem uns representantes da minha faculdade no Brasil… eles estão visitando alguns alunos que trancaram o curso…
— Pra quê? — a mãe até pausou o vídeo clipe, fazendo a filha caçula cruzar os braços indignada.
— Para o aluno voltar a estudar. Desde que o aluno tenha interesse, claro.
O semblante da mãe de se tornou sério e desconfiado.
Parecia bom demais para ser verdade. A mulher não tinha nenhum diploma a qualificando como perita na leitura de microexpressões faciais, mas seu instinto maternal era apuradíssimo para descobrir toda e qualquer arapuca que as filhas pudessem inventar.
— Estão vindo desde a terra da rainha só pra te chamar de volta para estudar?
— Isso. — se a voz dela falhasse ou se desviasse o olhar seria descoberta. Uma vontade de rir começava a contrair alguns músculos no abdômen.
— Nossa, que legal! — a irmã vibrou impressionada. — Queria ser assim tão requisitada! Se eu morresse, meus professores dançariam na minha cova.
— Pipa!!! — a mãe a repreendeu pelo tom mórbido do comentário, perdendo todo seu poder sobre , quem já estava prestes a dobrar. Pela primeira vez na vida, agradecia mentalmente pelos comentários sem noção da irmã.
— Mas é, ué!! Meus professores me odeiam. Mais ainda quando descobrem que não pareço em nada com a santa ex-aluna deles zinha Nhé-nhé-nhé…
— Hum, então precisamos causar uma boa impressão. — comentou a mãe pensativa, já entrando em seu modo anfitriã. Nenhum estômago resistia aos seus encantos culinários, ao seu sorriso caloroso e sua hospitalidade sem reservas.
— Quantos representantes são? — o pai pensava inocentemente em um ou dois. Menos gente, menos comida, menos dinheiro gasto.
— Quatro.
— Quatro?!?!



Assim que estacionou o carro, a atenção de se voltou para Judd no banco do carona, encarando-o descontente. Então encarou os demais pelo retrovisor e o descontentamento cresceu. Sua vontade real era dar ré e embicar o carro na primeira loja de roupas sociais que surgisse no caminho.
Harry bufou:
— Já falei, eram os únicos ternos que tínhamos à mão na hora!
— À mão! Sério? Já vi todos os photoshoots de vocês, sei que têm ternos mais discretos que isso! — ela bufou ainda mais alto. Não devia ter permitido que os rapazes saíssem daquele jeito.
— Nós temos, e até trouxemos, só que estes estavam mais decentes.
— Se bem que, — a cabeça de Dougie surgiu entre eles. — algumas roupas nos photoshoots nem são nossas.
O loiro só não foi fuzilado pela jovem por ele ser o menos chamativo em sua roupa.
— Alguns amassaram nas malas. — inclinou-se Tom, colando sua cabeça com Poynter. — E algum gênio ainda meteu umas meias sujas na mala que deixaram tudo fedendo!
não conseguiu impedir seu olhar escorregar para a figura meio aérea de Danny com a cabeça colada ao vidro, embora o loiro não tivesse dado nomes aos bois, não havia segredo a quem ele se referia.
— Mesmo assim, gente. Os pais da não são tão… modernos! Vão estranhar.
— É só a gente dizer que começaram uma campanha pela diversidade e inclusão na faculdade de vocês. — a jovem piscou pasma para a sacada genial de Tom, tão genial que ela chegou a considerar apresentar a ideia para a reitoria da faculdade se voltasse a pisar lá.
— Agora que estamos decididos sobre isso... Podemos ir? — sorrindo amarelo, Dougie girou seu pulso com um relógio para . Não queria dizer que estavam atrasados, embora estivessem na visão dele, pois brasileiros no geral pareciam ter uma perspectiva muito peculiar do tempo.



~DING-DONG~

— Atende a porta, ! — o pai pediu gritando enquanto tentava pela enésima vez acertar sua gravata em frente ao espelho de corpo todo no quarto. O nó perfeito só se alcançava por tentativa e erro.
— Pára quieta, Pipa! Ainda não terminei. — ralhou a mãe. Já tinha feito o cabelo de , terminava o de Pipa e logo teria a brecha para dar uns últimos toques no próprio cabelo. — Eles não estão adiantados, não?
— Eles chegaram na hora, nós que somos atrasildos. — suspirou Pipa, emburrada de ter de ficar parada por tanto tempo na mesma pose. O olhar desinteressado vagava por todos os cantos até notar algo na irmã quando esta descia as escadas em direção à porta de entrada. — !!!!! AIIII, MINHA ORELHA, MÃEEE!!
fingiu não ter ouvido a irmãzinha que a tarde toda lhe infernizou sobre sua aparência, roupas e sapatos — se tivesse de ouvir mais um comentário, acabaria partindo para a ignorância.
Na abertura da porta, tanto os que estavam do lado de fora quanto do lado de dentro deixaram escapar uma risada escandalosa, sufocando-a a todo custo.
— Mas o quê...
Diante de estavam em trajes normais e os quatro ‘representantes’ da faculdade em ternos de gosto duvidoso. Dougie vestia um terno verde claro com o primeiro botão da camisa verde-claro aberto, logo ao lado dele estava Harry com um terno azul claro, de abotoamento duplo, camisa azul-claro. O rosto melancólico de Danny contrastava com seu jovial terno amarelo claro combinando com camisa amarelo-claro. E por último Tom estava com um terno rosa claro, com camisa rosa-claro e o único deles com uma gravata, só que uma gravata também rosa. E todos usavam sapatênis branco.
Na visão de e dos quatro rapazes, devia estar segurando atrás de si uma bola de metal de museu de ciência, já que vários fios de seu cabelo estavam parados de pé.
— Que roupas são essas??
— Mulher, seu cabelo!! — a alertou, travada pela vontade de rir.
— Meleca, eu não finalizei o cabelo depois da chapinha. — a menina virou um pimentão de vergonha ao avistar a si mesma em um porta-retrato espelhado no aparador da entrada, baixando os fios da melhor maneira possível com as mãos.
— Esses aí que são da faculdade? — nos últimos degraus, o pai de parecia considerar seriamente a ideia de voltar para o andar de cima. — Parecem mais os Teletubbies.
— Mas, pai, os teletubbies eram vermelho e roxo, não rosa e azul. — frisou Pipa ao descer as escadas, colocando-se escorada ao lado do pai, avaliando os rapazes de cima a baixo.
— Rosa e vermelho são praticamente a mesma coisa. E o roxo era o mais gigante, igual esse aí. — o pai estava visivelmente não impressionado com a presença daqueles representantes de faculdade da filha.
— Quê? — Harry perguntou de canto para .
— E-xa-ta-men-te o que falei pra vocês: não venham de Teletubbies. — disse em tom de “eu avisei”.
— Eles lembram aquelas bandas coreanas da Pipa. — o pai ainda torcia o nariz para suas visitas.
— Não, ‘pera lá! — a caçula reagiu como se pessoalmente ofendida pelo comentário. — A banda é BTS. São sete integrantes. E em um videoclipe eles usaram roupas mais coloridas.
— Certo, certo! Deixem de julgar. — a mãe de apareceu, parecendo ter fugido de um comercial de margarina dos anos cinquenta com seu vestido rodado de cor sólida. E logo tratou de cessar aquele desvio de conversa, não queria Pipa educando as visitas sobre a arte do KPOP. — Sejamos civilizados.
aproveitou a deixa para fazer as apresentações formais entre todos, servindo como intérprete e adicionando a explicação previamente combinada para os ternos extravagantes.



— Bonita pulseira. — ao dar espaço para que Danny fosse apresentado à mãe, Dougie acabou parando ao lado de e deu alguns toques na joia em seu pulso.
— É! Foi presente de um amigo. Eu só… não sei se ele deu sorte de acertar em cheio ou se ele sabia.
— Ele deve ter prestado atenção nos teus comentários aleatórios. — Dougie respondeu vagamente, dando de ombros.
— Humm, sim deve ser isso. — ela estreitou os olhos em sua direção com um sorriso irônico. — Seu amigo tem muito bom gosto.
— Ele tá mais pra um nanico convencido na verdade. — a brincadeira pegou o loiro de surpresa, vendo a jovem dar um de seus raros sorrisos mostrando os dentes.
— Ca-ham... Com licença... Desculpe… Opa! — como quem não queria nada e com a desculpa da sala ser pequena demais para o tanto de pessoas ali, o pai de se colocou entre os dois inconsciente do que era discrição, desconfiando do entrosamento deles.



Ainda na sala, fingiu casualidade ao apanhar do rack um porta-retrato emoldurado em prata e virou apontando para si mesma na foto. Quatro meninas se abraçavam sorridentes com canudos vermelhos, com beca e capelo pretos.
— Tudo bem com ele? — a mãe ficou preocupada com o jeito que Danny murchou ao encarar a foto e seus olhos fixarem sobre uma mais jovem.
— Ah! É verdade… — usou a mão para cobrir a boca. Harry franziu o cenho para o jeito artificial dela de agir. — Eles… Bom, eles já se reuniram com a . E ela disse que… não vai voltar.
— A não vai voltar?? — mesmo um pouco longe, o pai se mostrou estar atento a todas as conversas no recinto.
— E vocês vão deixar a fazer essa cagada??
— PIPA!! — pai, mãe e repreenderam juntos. Mesmo sob o olhar assassino dos pais pela palavra de baixo calão, a caçula revidou com uma careta rabugenta, convicta de que reagiram daquela maneira apenas por ela ser mais nova.
— Bom, — a mãe contou mentalmente até cinco para não estrangular a filha na frente de todos. — não se preocupem. Vou meter juízo na cabeça daquela menina! Por bem ou por mal... — respirou aliviada com a sensação de plano maquiavélico cumprido, retornando o porta-retrato ao seu devido lugar e dando um sorriso convencido especialmente para o baterista. A amiga não conseguiria dizer não para a mãe de .
Entretanto, se recusasse, ainda tinha uma última carta na manga.


Capítulo 09 - Aeroporto


— Nossa, e o meu pai? Ficou fazendo marcação fechada no Poynter. Se eu não prestasse atenção, o coitado ia morrer de fome porque meu pai ficava pulando ele na hora de passar os pratos! — relembrou indignada, narrando pessoalmente detalhes do jantar para .
— Pobre nanico! — ria ela, meio sentada sobre sua mala de viagem.
As duas tinham acabado de se despedir dos pais de , que deram carona até o aeroporto, com direito a algumas lágrimas por parte da mãe. Os pais de tinham retornado da viagem de trabalho a tempo de se despedirem, mas não puderam acompanhar ao aeroporto.
— Essa é boa, então seu pai não gostou do futuro genro! — sorriu amarelo para a piadinha. As brincadeiras recorrentes colocando Poynter e ela como casal a incomodavam por serem tão oposto da realidade. Entretanto, nos últimos tempos ela vinha ficando sem jeito.
apenas sorriu, guardando para si a possibilidade de aquela ser a forma da amiga estar… apaixonada.
Era uma pequena suspeita.
Quando voltaram ao Brasil, foi a única a retomar a leitura de fanfics — quase todas com Dougie Poynter como fixo.
E por uma mera coincidência, digna de hora certa e lugar certo, flagrou que vinha lendo uma fanfic interativa sem usar sua atriz favorita, Ashley Tisdale, como personagem principal.
— E sua mãe conseguiu convencer a a viajar também? — cresceu os olhos para a amiga, curiosa.
— Não... — respondeu vagamente, mostrando-se desinteressada em falar sobre alguém com quem ainda estava sentida. — A disse que tem um último jeito para convencê-la, mas não me deu nenhum detalhe.
— Vai ver por telefone é mais fácil dizer não pra sua mãe do que cara a cara.
— Pois é... — as meninas caíram em um estranho e desconfortável silêncio, logo as duas que nunca paravam de conversar e às vezes discutiam dois assuntos diferentes ao mesmo tempo.
Elas aproveitaram a deixa do banheiro mais próximo e entraram nele para fazer aquele silêncio parecer justificado.
— Ahh, mulher!! — uniu as mãos em uma súplica, parecendo lembrar-se de algo urgente. — Não me deixa ficar sozinha com o Tom!
— Eu acho que não precisa se preocupar tanto — ela pretendia de forma sutil fazer a amiga desistir da ideia, no entanto, se colou no corpo dela ainda em súplica. —, mas se você quer tanto assim, tudo bem.
— Eu sei que não vou mais saber como agir na frente dele. — ela bufou sobre si mesma antes de, já do lado de fora do banheiro, indicar com o queixo para uma das várias passarelas com esteiras rolantes do aeroporto. Ambas deram um grande sorriso de empolgação, não precisando nem definir em voz alta o que fariam a seguir.



— De que lado temos que ir mesmo? — Harry perguntou em um grande bocejo, sentindo a carência de cafeína. E o lugar não ajudava. A atmosfera no aeroporto era de morosidade e marasmo.
— Hum… por aqui! — indicou Tom, olhando da passagem aérea para as placas ao seu redor.
— Alguma notícia do Dan? — Dougie perguntou checando o próprio celular. Não que estivesse preocupado pelo sardento, afinal tinha consigo a companhia de . Sua curiosidade estava atacada pelo ar de mistério de Kmohan sobre como convenceria a voltar para o Reino Unido com eles.
— Necas… — respondeu Harry, ainda fazendo bico por não ter confidenciado a ele seus planos. Não que ela tivesse qualquer obrigação em contar… mas ele se achava especial o suficiente para saber.
Rompendo com o silêncio absoluto do lugar, algumas risadas animadas foram ouvidas logo à frente.
Duas moças preparadas para um frio muito mais rigoroso do que aquele vivido em São Paulo no momento correram até a esteira rolante e, como se não fosse a primeira vez delas, montaram sobre suas malas de rodinha com giro de 360°.
Dougie estreitou seus olhinhos avaliando como mantinham o equilíbrio enquanto Harry riu pelo nariz, julgando ser fácil fazer o mesmo.
— Nem. Pensem. Nisso. — a voz de Tom atrás deles cortou suas asas.
— Ei… 'Pera. Não são? — Dougie apontou.
— São mesmo! — Harry sorriu mais ainda. A chama do desafio acendeu em seu olhar.
— Eeei!! — Tom ficou atrapalhado com as malas simplesmente largadas para trás quando Judd e Poynter avançaram pelo final da esteira rolante na qual estavam, correram o pequeno trecho de chão, e lançaram-se sobre suas malas na esteira seguinte, igual as moças à frente.



— Meninas. — saudou Harry com dois dedos na altura da cabeça quando sua mala alcançou as de e .
As duas o encararam surpresas.
— Olha a frente!!! — gritou Dougie vindo igual bola de boliche na mala de Judd, empurrando-o com violência.
— Quer me matar, nanico??
— Foi mal!!
— Vocês ainda têm muito o que aprender desta arte. — fingiu arrogância, mostrando tomar impulso apenas com um pouco de força do pé no chão e mantendo seu equilíbrio sobre a mala mesmo com os braços cruzados.
A única a ficar para trás foi , que estava paralisada suando frio. Seguindo a lógica, se via a Dougie e Harry ali, então também veria a Fletcher. Virando-se para trás, avistou o loiro tentando conduzir sua mala, a de Danny e uma mala maior.
Apesar da rejeição quanto aos seus sentimentos ser seu destino mais provável, ela não podia por essa razão fingir que o rapaz não existia.
— Precisa de uma mãozinha? — perguntou gentilmente ao se aproximar de Tom.
— Valeu. — para ele aquilo era inesperado, tinha certeza de que a menina o evitaria ao máximo, ainda mais no primeiro encontro cara a cara após a revelação.



— Ei, se liga naquilo. — Harry indicou erguendo as sobrancelhas. Sendo o total oposto de discretos, e Dougie se viraram, flagrando e Tom juntos.
— Não quer dizer nada. — Dougie deu de ombros.
O sorriso convencido de um e a cara amarrada do outro bastou para entender tudo:
— Por que eu sinto cheiro de aposta no ar?
— Eu só apostei que eles iam acabar juntos no primeiro encontro cara a cara. Conheço nosso Tominus…
— Eu conheço nosso Tominus! Vai ser mais pra frente. — Dougie não seria convencido do contrário.
encarava à distância o possível futuro casal com preocupação, roendo a unha sobre se deveria ou não ir até lá e cumprir o combinado com a amiga de não deixá-la sozinha com o loiro.



— Aahm… Sabe, sobre… Sobre o que a falou naquele dia… — tinha preparado e repetido o discurso em frente ao espelho umas mil vezes. Ela tocava no assunto, explicava que a amiga tinha se equivocado, negava qualquer sentimento além de amizade, incentivava a rirem do engano passado o espanto e ponto final. Se não mantivesse o nervosismo sob controle, pularia para a parte dos risos sem qualquer nexo. — Eu só queria colocar uns pingos nos is.
— Do jeito que você quiser que a gente fique, a gente fica. — se considerar um romântico não tornava esse tipo de situação mais fácil, mesmo assim Tom nem se lembrou de ficar vacilante. Ele alcançou a mão dela, dando um sorriso de mostrar a covinha. — Se quiser ficamos sendo amigos. Ou ficamos como namorados.
Primeiro ela deixou escapar um riso vago, devia ter ouvido errado. O semblante determinado dele e suas mãos ainda entrelaçadas a fez piscar inúmeras vezes quando a ficha caiu. Ela começou um riso abobalhado, do qual não parecia ter controle, censurando a si mesma cobrindo a boca com a mão e acenando com a cabeça.
— Sim!
— Pra qual dos dois?
— Pros dois!! — a empolgação tão genuína dela fez aparecer em Tom o sentimento de arrependimento por no tempo em que ficaram reclusos não darem abertura para serem nem mesmo amigos.
O loiro inclinou-se sobre , os olhos caçando pelas figuras de , Dougie e Harry, que os assistiam à distância da forma mais aparente possível. Por um descuido de Judd e sua boca grande, Tom estava inteirado sobre a aposta dos companheiros a respeito deles dois, e não gostava nada de ser observado.
— Epa!! Ele tá olhando pra cá!!
— Então… Então... Críquete...!!
— Críquete! , você sabia que no críquete…!! — com a deixa de Poynter, os três logo pareciam estar envolvidos em uma conversa e concentrados demais para prestar atenção em qualquer outra coisa a sua volta.
Foi quem pôs fim a distância entre eles. Primeiro com um selinho, que evoluiu para um contato ainda sem muito jeito até chegarem ao fim da esteira rolante. Onde três pseudo-espectadores os aguardavam.
— Então, diferente do beisebol…!
— Temos onze membros no críquete…
— Onze membros.
Guardando para si os comentários negativos sobre aquela péssima encenação, Tom ergueu sua mão entrelaçada a de diante dos amigos, que vibraram com palmas e assobios.





CONTINUA



Nota da autora: Hello, people!!
Desculpem a demorar para este capítulo.
Estive um pouco empacada. POREM, a boa notícia é que ao escrever, rendeu 02 capítulos.
Ou seja, já tenho o capítulo seguinte quase pronto para a att. E com sorte, no embalo já terei o seguinte.
Posso dizer que para os planos dessa short, já passamos da metade do que previ.
Um beijo e um queijo! E se cuidem bastante!!





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