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Última atualização: 05/03/2022

Prólogo

respirou fundo e olhou novamente para a tela do celular. Sua respiração estava descompassada e suas mãos tremiam levemente, a jovem não conseguia negar que estava extremamente nervosa desde que recebeu a mensagem de Rudy.
Ela sabia que não possuía exatamente nada que deveria a assustar na simples mensagem de seu chefe, que não dizia nada além de “venha para o estúdio o mais rápido possível”. Compreendia que poderia ser uma simples mensagem pedindo que ela o ajudasse a criar os passos finais para um espetáculo que iriam participar em poucos meses, mas não conseguia se sentir calma de jeito nenhum.
Entrou no estúdio, cumprimentando Angel no balcão de atendimento, e seguindo em direção à sala que Rudy ficava após terminar as suas aulas. Respirou fundo uma última vez — em uma falha tentativa de se acalmar —, conforme dava três toques na porta, esperando pela liberação de Rudy, que não tardou a chegar.
— Boa tarde, meu bem. Tudo bem com você? — A voz de Rudy soou atenciosa, conforme entrava na sala. — Sei que hoje não é um dos seus dias de trabalho, mas você precisa ser a primeira a ser comunicada sobre isso.
— Estou tentando não ficar extremamente nervosa, Rudy, e você não está me ajudando. — Resmungou em resposta, sentando-se na cadeira de frente para o chefe.
Conhecia Rudy desde que se mudou para Nova Iorque, cinco anos atrás. Foi convidada para fazer parte do estúdio de dança, trabalhando por meio período, enquanto corria atrás de um papel de destaque nas grandes produções. Poderia dizer que conhecia Rudy bem até demais e, por esse motivo, quando o chefe abriu um sorriso frouxo, soube que precisava ficar nervosa.
— Você, melhor do que ninguém, sabe dos problemas que estamos enfrentando nos últimos meses...
contentou-se em concordar com um leve balançar de cabeça em sinal afirmativo, temendo que a voz falhasse.
— Eu não consigo mais lidar como se estivesse tudo certo, . Tentei agir como se eu fosse capaz de dar conta disto, porém, não tenho mais para onde fugir. Irei fechar o estúdio.
— Mas e o espetáculo? — Questionou com a voz fraca, sentindo meus olhos marejados. — Você e as meninas estavam se empenhando tanto.
Trabalhar em um estúdio iniciante não era o sonho de quando ela veio para Nova Iorque, porém, a proposta de Rudy era extremamente tentadora. Um horário de trabalho flexível e uma grana extra era tudo o que precisava naquele momento, além do fato de que estaria pondo em prática tudo o que já tinha aprendido, enquanto buscava seu verdadeiro sonho.
Porém, com o passar dos anos, a R.J. Studio tinha se tornado uma parte essencial da dançarina.
— Vou fazer o máximo para conseguir segurar as pontas até a apresentação, mas só vou poder continuar com elas. — A tristeza no tom de voz do homem era palpável. — Queria poder continuar com você, , mas não vai dar.
— Tudo bem, Rudy, eu entendo. — A mais nova sorriu de modo compreensivo.
— Você vai conseguir se ajustar? — Questionou, conforme se levantava da cadeira, disposto a romper a distância até . — E aquele papel que você estava esperando a resposta? — Não se preocupe, está tudo certo. — murmurou, abraçando Rudy, esforçando-se ainda mais para não chorar.
— Você vai brilhar, meu bem.
apoiou a testa contra o peitoral de Rudy, mordendo o lábio inferior. Estava em um surto interno, porém, não poderia dizer a verdade para o antigo chefe e eterno amigo, não queria o preocupar ainda mais.
Porém, nada estava certo.
Muito menos bem.

Capítulo Um

tinha se mantido esperançosa até o último momento. Queria realmente crer que conseguiria um emprego em Nova Iorque, porém, nenhum estúdio estava precisando de uma professora e como vinha se dedicando a vida inteira para estrelar nos palcos, a única experiência que tinha, era no mundo da dança.
Permaneceu até o último segundo na cidade de Nova Iorque, mas nada tinha dado certo e esta era a razão pela qual se encontrava completamente cansada. Seus olhos estavam vermelhos e inchados pelas poucas horas de sono e seu corpo doía pela péssima noite de sono que teve no carro. Sua aparência física não estava das melhores, porém, nada se comparava a bagunça interior que a dançarina se encontrava.
Estava arrasada, possuía pouco mais de cinquenta dólares em sua carteira e milhares de sonhos destruídos em suas costas.
Não conteve o sorriso irônico ao passar pela placa de Green Bay, estava de volta a sua cidade natal, após longos cincos anos.
Esperava voltar para a cidade apenas quando conseguisse sair do anonimato e estrelar nos palcos da Broadway, entretanto, ali estava ela, de volta às suas origens e em um anonimato ainda maior do que o de antes. Tinha estrelado em apenas dois musicais no palco, mas nenhum deles foi grande o suficiente para que trabalhasse em outras produções. Sabia que o ramo não era fácil, mas não imaginou que cinco anos após o início de sua jornada, ainda se encontraria no mesmo lugar.
Focou nas ruas conhecidas e sentiu seu estômago embrulhar. Como contaria para seus pais, que sempre lhe deram todo o suporte, que ela tinha fracassado na única coisa que sabia fazer?
Suspirou fundo, disposta a tentar não sofrer antecipadamente, e seguiu pelo caminho que lhe era extremamente familiar, mesmo após anos fora.
Green Bay era uma cidade pacata no subúrbio, sentia como se tivesse voltado no tempo. Era como se nada ali tivesse mudado, a não ser por ela.
Estacionou o carro de frente para a casa azulada onde cresceu, contentando-se em pegar apenas a mochila e a grande bolsa transversal no banco do carona. Desceu rapidamente do veículo — antes que perdesse a coragem — e seguiu até a porta de entrada, dando três toques contra a madeira. Não conteve o ímpeto de morder os lábios, conforme esperava que atendessem a porta, sentindo a bolsa deslizar levemente por sua mão devido ao suor causado pela ansiedade.
? — O tom de voz surpreso da matriarca rompeu o silêncio no instante em que a porta abriu. — Marcus, está aqui.
Lilian apressou-se em cruzar a porta e puxou a filha para um abraço apertado. Seus olhos estavam marejados e um sorriso frouxo estampava seus lábios. Fazia pouco mais de seis meses desde que a família tinha se encontrado em West Bronx, no pequeno edifício que sustentava com o salário que ganhava no R.J. Studio.
— Não faça essas surpresas, meu coração não aguenta. — Lilian murmurou, fingindo um tom zangado conforme se afastava da filha. — Você ficou ainda mais bonita nesses últimos meses.
tombou a cabeça para o lado e arqueou uma de suas sobrancelhas.
— Fala sério, mãe. — Retrucou descrente. — Eu nunca estive tão destruída em toda a minha vida, nem sei mais o que é dormir decentemente.
— Você pode me contar tudo no sofá. — A matriarca contentou-se em resmungar, ao dar as costas para a filha e entrar em casa.
riu baixo, sabia que a mãe não mudaria de opinião sobre a sua — deplorável — aparência e seguiu o caminho para dentro de casa, fechando a porta. Acomodou-se no sofá, não contendo o olhar analisador que percorreu o cômodo inteiro, notando todas as mudanças que ocorreram em sua ausência.
— Esse sofá é mais confortável. — Pontuou aleatoriamente, ignorando o olhar curioso de sua mãe em suas bolsas. — Gostei da nova televisão, é maior.
— Você sabe, querida, estamos em constante mudança e o ambiente ao nosso redor deve mudar junto com a gente. — Lilian comentou casualmente. — Mas e as bolsas, você vai passar uma temporada com a gente?
observou os olhos brilhantes de sua mãe e suspirou fundo. Sabia que não seria julgada, que seus pais estariam ali para lhe dar o suporte necessário e que seria tratada com todo amor e carinho.
O problema não eram seus pais, era ela mesma.
No momento em que deixasse as palavras saírem de seus lábios, tudo se tornaria completamente real, e não era aquilo que ela tinha planejado.
— Passarinho? — O apelido carinhoso de infância chamou sua atenção, fazendo-a girar na direção da cozinha e ver o pai caminhando em sua direção.
só teve o tempo de abandonar a mochila no sofá e levantar, antes de ser engolida pelo abraço de seu pai. Retribuiu o aperto na mesma intensidade, aproveitando o clima ameno que era estar de volta ao lar.
Romperam o abraço, mas continuou abraçando o pai pela cintura. Durante toda a sua infância e adolescência o abraçava daquela forma quando precisava tomar coragem para contar algo. Era como se Marcus fosse a sua bateria, dando-lhe forças sempre que ela se sentia esgotada.
— As coisas não aconteceram como o planejado, não consegui mais papéis nas peças e mês passado o Rudy precisou me demitir. — As palavras não passavam de um sussurro. — Tentei me manter lá o máximo que pude, procurei trabalho em outros estúdios de dança e fiz audição para todas as peças disponíveis, mas não consegui nada.
Marcus apertou os ombros da filha em um uma tentativa de reconforto, trazendo-a mais para próxima de si.
— Cheguei a tentar trabalhar como garçonete, mas se nem no que eu sou boa eu consegui um trabalho, imagina no que eu não tenho experiência. — Riu fraco, sem realmente achar graça da situação. — Eu queria saber se posso ficar um tempo aqui, até conseguir pensar no que fazer.
— Querida, aqui é sua casa, você sempre pode ficar. — Marcus tornou a abraçar a filha.
— O tempo que quiser. — Lilian completou ao juntar-se ao abraço. — Só preciso dizer que mudei algumas coisas no seu quarto.
arqueou as sobrancelhas para a matriarca, que se contentou em dar de ombros e riu fraco. A jovem negou com um balançar de cabeça e acompanhou a mãe no riso, ela sabia que Lilian mudaria algumas coisas ao longo dos cinco anos.
— Só me diga que não transformou meu quarto em um escritório. — Suplicou em tom choroso, arrancando uma risada dos pais. — Pai, pode buscar o resto da minha bagagem no carro? Marcus concordou com um balançar de cabeça e pegou as chaves que estendia em sua direção, dando um beijo na testa da filha antes de se afastarem. pegou a bolsa e sua mochila, seguindo o caminho de Lilian até seu antigo — e agora atual — quarto. Parou ao lado da mãe, ficando de frente para o quarto.
— Você não sabe a quanto tempo eu queria que você viesse para casa. — Lilian confessou ao abrir a porta do quarto.
O papel de parede lilás com sapatilhas de balé foi substituído pela tinta cor de lavanda, as cortinas escuras deram lugar para as brancas — deixando o quarto mais claro e iluminado —, a cama de solteiro colada a parede não estava ali, agora uma cama de casal ocupava a parede no meio do quarto.
— Conforme os anos foram passando, eu fui tentando reformar de acordo com a sua personalidade e sua idade. — Lilian falou com seu usual tom doce. — Assim, se algum dia você voltasse, você se sentiria mais confortável.
— Eu te amo tanto. — confessou com lágrimas nos olhos, sorrindo na direção da mãe a abraçando.
— Eu te amo mais. — Lilian retrucou e acariciou a bochecha da filha, rompendo o abraço em seguida.
— E eu amo vocês duas mais ainda. — Marcus falou ao parar próximo às duas mulheres de sua vida. — Só trouxe isto, passarinho?
encarou as duas malas de viagem próximas a seu pai e concordou com um aceno de cabeça. Tinha trago apenas suas roupas — dispensando a maior parte dos figurinos de apresentação, que tinha doado para Rudy — e os objetos de decoração que enfeitavam seu singelo apartamento.
— Abandonou suas roupas de dança? — O tom de voz de Lilian saiu apreensivo ao notar que olhava para as malas com um olhar triste.
A jovem piscou algumas vezes — surpresa pela pergunta direta da mãe —, mas tinha se esquecido de como a mais velha conseguia lê-la perfeitamente bem.
— Sim, boa parte delas dei para que Rudy pudesse aproveitar, já que para mim seriam apenas peças de roupas me lembrando o quanto eu falhei, enquanto ocupam um espaço desnecessário em meu guarda-roupa.
Lilian piscou assustada com a reação da filha, fazendo suspirar fundo.
— Desculpa a sinceridade e o leve rancor, mas a ficha está começando a cair completamente de que eu fracassei.
— Você viveu cinco anos sozinha, em outro estado, enquanto batalhava para que seus sonhos se tornassem realidade. Você não fracassou por seus planos darem errado, pois eu e sua mãe sabemos que você deu o seu melhor. — Marcus sorriu para a filha, tentando deixar explícito que as palavras que saíam de sua boca eram completamente sinceras.
— Às vezes, nossos planos não acontecem como queremos e está tudo bem, pois é neste momento que os planos que merecemos acontecem. — Lilian segurou a mão de , adentrando ao quarto juntas e seguindo até a cama. — Você ainda vai ter um futuro brilhante, eu sei disso.
abriu um sorriso sincero, feliz com todo o apoio que seus estavam lhe dando, e ignorou os olhos marejados.
Agora ela estava em casa e tudo iria ficar bem.
— Descanse um pouco antes do jantar. — Lilian afastou ao falar, seguindo em direção à porta. — Seja bem-vinda de volta.
Um suspiro cansado saiu de seus lábios, assim que a porta se fechou. Agora estava em casa, mas encontrava-se desempregada. Estava de volta ao lar, feliz por poder aproveitar a companhia de seus pais todos os dias sem que precisasse de uma chamada de vídeo a auxiliando para isto. Tinha finalmente retornado e as escolhas do passado agora pesavam em sua mente tão forte quanto no dia que decidira sair de Green Bay e tentar a sorte na cidade que nunca dorme.
Será que ele a odiava pelo o que fez? Ou talvez já tivesse a perdoado, afinal, cinco anos é muito tempo. Ou então, sequer lembrava-se dela…
balançou a cabeça levemente, ele não poderia se esquecer dela, poderia?
Sabendo que aquelas perguntas não a abandonariam tão fácil — era muito mais fácil esquecer dele quando estava longe, mas ali, onde todo canto era uma lembrança de seus passados juntos —, tinha a absoluta certeza de que não conseguiria tirá-lo de seus pensamentos.
Levantou da cama e pegou as roupas mais acessíveis que estavam em sua mochila, seguindo para o banheiro do corredor. Sabia que a água quente acalmaria seu corpo e sua mente, pelo menos um pouco.

Agradeceu a mulher do caixa com um sorriso aberto e terminou de ensacar o que tinha comprado, seguindo para a saída do mercado. Disposta a não ficar em casa sendo consumida por seus pensamentos, ofereceu-se para comprar o que faltava para que seu pai pudesse fazer seu prato preferido. Aproveitou a saudade do lar e foi caminhando até o mercado mais perto, notando a calmaria ao seu redor que esteve ausente ao longo dos últimos anos.
, é você, querida? — A voz familiar soou próxima da jovem, fazendo com o que ela virasse o corpo inteiro na direção do som. — Meu Deus, você está tão linda. — Os braços da mais velha logo a abraçaram, puxando-a para si em um abraço quase tão maternal quanto o de sua mãe.
Sua única reação foi retribuir o abraço, mas não com tanto afinco. Precisava admitir que estava surpresa.
— Karen, parece que os anos não passaram para você. — falou sincera, embora tímida, ao romper o abraço e parar de frente para a mais velha.
a conhecia desde que se entendia por gente. Se atualmente estava no mundo artístico e entregava-se inteiramente à dança, era tudo graças a Karen e seu estúdio de dança. Tinha começado no balé aos quatro e seguia nesta dança até hoje, entretanto, dos quatro aos dezessete, tudo o que aprendeu foi graças à Karen.
— Bondade a sua, meu bem, mas sequer consigo dar aulas como antigamente. — a mais velha resmungou em tom reclamão.
— Ainda possui o estúdio? — não conteve o tom animado ao perguntar.
Aquele estúdio era como a sua segunda casa e nenhum lugar no mundo mudaria aquilo.
— Sim, e adoro usar-te como exemplo. — Karen confessou, fazendo engasgar-se com o próprio ar e tossir algumas vezes. — Tudo bem?
— Sim. — Murmurou com a voz fraca. — Só não esperava ser usada como exemplo, afinal de contas, não consegui estrear em nenhuma grande produção.
— Você é um ótimo exemplo de persistência, uso-a como exemplo para todas as garotas que possuem sonhos ditados como grandes e que são desencorajadas pelas famílias ou por si mesmas. — Karen retrucou. — Você é o melhor exemplo sobre não desistir dos sonhos, independentemente de qualquer coisa.
engoliu em seco, sabia que Karen não falava aquilo com um ar julgador, mas também sabia ao que se referia, no fim das contas.
— Precisamos correr atrás de nossos sonhos, mesmo que eles não se realizem. — Deu de ombros, tentando fazer a si mesma acreditar que aquilo era pouco caso.
— Está de passeio pela cidade? Eu adoraria que você fosse ao estúdio, se puder, é claro, para incentivar as meninas. — O sorriso nos lábios de Karen era tão sincero, que concordou com um aceno de cabeça no mesmo instante. — Bom, então pode ser amanhã pela manhã? Acho que você ainda lembra o endereço.
Mas a quem queria enganar, aceitaria no mesmo instante, mesmo se o sorriso feliz e aberto não estivesse nos lábios de Karen. Ela não sabia negar nada para os , nunca soube.

Capítulo Dois

não era uma pessoa rabugenta – ao menos não se considerava uma –, conseguia contar nos dedos das mão quantas coisas não lhe agradavam, mas se tinha uma coisa que ela odiava com todo o seu ser, eram as ironias da vida. Tinham se passado poucas horas desde seu encontro com Karen, pouco mais de vinte quatro horas desde que sua vida deu um giro de trezentos e sessenta, e ali estava ela, de volta a Green Bay, sentada em sua antiga cama, com o celular em mãos e o alerta de nova mensagem que parecia piscar em vermelho sempre que encarava a tela de seu celular.
— Você não vai encontrar uma solução mágica se ficar apenas encarando o celular dessa maneira, passarinho. — a voz de Marcus chamou a atenção de , já que até então o quarto se encontrava em grande silêncio. — Você tem a opção de não ir, por mais que eu não concorde.
abaixou os ombros e levantou apenas o olhar para o pai.
— Muito obrigada, me ajudou muito. — o tom irônico fez com o que Marcus risse baixo.
— Você voltou para Green Bay, , uma hora ou outra você vai ter que enfrentar tudo o que você deixou para trás. — a consolação era tão forte, que Marcus aproveitou para sentar–se na cama da filha e abraçar a mulher que ao seus olhos ainda era sua menininha. — Você pode escolher não ir se for o que você quer, mas vai ter uma hora que você precisará lidar com essas coisas.
respirou fundo. Sabia que seu pai estava certo, pois no final das contas, uma vozinha em sua mente lhe dizia exatamente a mesma coisa. Precisaria lidar com as consequências de seus atos e precisaria enfrentar o que lhe aguardava no futuro, por mais que não fosse o que desejava.
Sabia que cedo ou tarde, encontraria com um , e no momento ela pelo menos agradeceria por ser apenas Karen.
— Você está certo, pai. Preciso lidar com as coisas que eu apenas ignorei quando fui embora. — falou em tom confiante ao levantar–se de supetão, embora não sentisse de fato confiante.
Embora se achasse uma fraude — incapaz de realizar seus sonhos, retornando para a casa de seus pais —, esse não era o fator principal que povoava os pensamentos de . Iria se sentir mal com tudo o que Karen falasse, usando–a como modelo inspirador quando na verdade nem acreditava em si própria. Mas o seu maior receio era o de encontrar com outro , um mais novo — e mais bonito, diga–se de passagem — que Karen, com o qual ela de fato tinha assuntos pendentes de um passado não tão feliz e amigável.
Com isto em mente, desbloqueou o celular, mandando rapidamente uma mensagem para a ex professora, torcendo para que aquilo fosse o suficiente para não precisar encontrar–se com .

Não demorou muito para chegar na Coreodance — chegando até mesmo a estranhar a rapidez, Nova Iorque tinha lhe feito perder esse hábito —, e a essência do estúdio continuava a mesma, algumas pequenas mudanças eram perceptíveis, mas nada que fizesse com o que perdesse a mesma sensação de acolhimento que sentia anos atrás.
Seguiu em direção a sala que Karen costumava ensiná–la, rezando para que a mulher continuasse na mesma, se não estaria perdida — e ainda seguindo os velhos hábitos, já tinha checado que ainda não possuíam uma atendente. Antes mesmo de chegar até a sala, já pode ouvir a voz de Karen em seu tom usual que sempre usava quando alguém errava um passo.
Respirou fundo, parando de frente para a porta e contou de um até dez algumas vezes, na esperança de que se acalmasse pelo menos um pouco, mas ao notar que o nervosismo só sairia de seu corpo quando voltasse para casa, decidiu entrar na sala de uma vez por todas antes que perdesse a pouca coragem que tinha.
Adentrou a sala e conseguiu passar despercebida por alguns minutos — que mais lhe pareceram meros segundos —, mas no momento em que quase todas as pequenas bailarinas pararam de dançar, focando seus olhares curiosos na figura de , Karen não tardou em virar–se para trás, aumentando ainda mais o sorriso em seu rosto assim que seus olhos focaram em sua antiga aluna.
, minha querida, estou tão feliz que de fato você conseguiu vir. — Karen falou entusiasmada, abraçando a mais nova segundos depois. — Meninas, gostaria que vocês conhecessem a .
Karen quebrou o abraço, mantendo a mão na base da coluna de , virando–se para frente e instruindo a jovem a fazer o mesmo, ficando assim as duas de frente para as pequenas bailarinas.
— Ela estudou comigo desde que ela tinha o tamanho de vocês e saiu da cidade anos atrás e para ir para Nova Iorque. — a simples menção da cidade grande fez com o que todas as crianças começassem a falar ao mesmo momento conforme transbordavam animação. não podia evitar de sentir–se uma completa fraude, os olhares brilhantes de todas as crianças pareciam pesar ainda mais contra si em um julgamento que acontecia apenas dentro de sua cabeça. Não acreditava ser um bom exemplo para aquelas crianças, sequer estava sendo um bom exemplo para si mesma.
— Você já foi na Broadway? — a voz fina e animada se sobressaiu por entre as outras, chamando a atenção de para a figura loira que lhe encarava ansiando por uma resposta.
engoliu em seco, estava frustrada, mas não queria que as crianças terminassem a manhã do mesmo jeito.
— Sim, eu já assisti peças e até mesmo participei de algumas, mas apenas como figurante. — respondeu tentando conter o tom ácido, mas o amargor de sua derrota estava presente em sua garganta.
— Uau, isso é muito legal. — a garotinha respondeu animada, mal contendo–se no seu lugar, começando a tagarelar sobre o teatro logo em seguida.
— Para elas, não importa se você foi o maior destaque da peça ou não, mas só o fato de você sair de Green Bay, se mudar para Nova Iorque e conseguir se apresentar na Broadway, isso já torna você a pessoa mais famosa e legal que elas conhecem. — Karen sussurrou para , sabia que a mais nova precisava ouvir aquelas palavras, por mais que não acreditasse. — Para mim, importa muito mais tudo o que você conquistou do que os planos que não se concretizaram.
não conteve o sorriso frouxo que apareceu em seus lábios, Karen sempre sabia o que lhe dizer, e aquelas palavras de fato eram o que precisava escutar. Não mudaria sua mente de uma hora para a outra, mas saber que era a única que se via daquela maneira, já melhorava seu dia.
— Muito obrigada. — foi a única coisa que conseguiu dizer, mas aquilo já era o suficiente para Karen.
— Sempre que precisar. — a mais velha não conteve o impulso, abraçando a ex aluna novamente. — Senti sua falta.
sentiu os olhos marejados, não esperava a fala repentina da mais velha, sequer sabia o que responder, por isto contentou–se em apertar Karen ainda mais em seus braços, tentando disfarçar a voz abalada ao murmurar:
— Eu também.
Karen afastou–se de , com um sorriso nos lábios e os olhos tão marejados quanto os da mais nova.
— Agora vamos terminar a aula, já dei descanso o suficiente para vocês. — Karen voltou–se para as meninas que se encontravam sentadas pelo chão de madeira, ainda animadas com a presença de .
permaneceu em seu canto, observando os movimentos que as pequenas tentavam reproduzir com maestria. Um sorriso involuntário cresceu em seus lábios, encarando os erros e acertos das crianças que dividiam o mesmo amor que ela pela dança.
Não reparou que a aula tinha acabado até o momento que as pequenas começaram a sair enfileiradas, uma atrás da outra despedindo–se dela. Karen tomou a dianteira, ficando à frente das crianças e saindo com elas da sala, mas não sem antes convidar para lhe seguir com um pedido mudo representado por nada mais que um singelo balançar de cabeça.
— Já pensou em trabalhar como professora de balé? — Karen parou atrás do balcão após dispensar todas as crianças.
franziu o cenho ao virar–se para a mais velha, questionava–se se Karen sabia que este era seu ganha pão em Nova Iorque para lhe perguntar aquilo. Sabia que a mulher ainda mantinha uma forte amizade com sua mãe.
— Sim, trabalhei com isso durante meu tempo em Nova Iorque, praticamente desde que eu cheguei lá. — confessou, observando o brilho chegar aos olhos da mais velha.
Karen abriu a boca, mas a frase sequer chegou a sair por seus lábios. Os olhos ponderaram várias vezes o olhar entre e outro ponto do estúdio, mas a mais velha preferiu voltar a colar os lábios um no outro, deixando a curiosidade percorrer todo o corpo de .
— Eu trabalhava com as turmas mais avançadas, normalmente apenas criação de coreografias ou passos mais elaborados. — voltou a falar, dando continuidade a sua frase ao ver que Karen não falaria o que quer que tivesse passado por sua mente.
— Com qual idade? — Karen questionou interessada.
— Geralmente eram meninas a partir dos quinze anos. — respondeu simplesmente.
— Bom saber disso. — Karen murmurou animada, fazendo com o que franzisse o cenho. — Querida, muito obrigada por ter vindo hoje, fiquei muito feliz de você ter aceitado meu convite.
— Acho que eu estava precisando disso mais do que as crianças. — admitiu com um sorriso no rosto, de fato acreditando em suas palavras. — Bom, agora eu preciso ir, prometi para minha mãe que estaria em casa de volta para o almoço.
— Só não lhe ofereço uma carona pois preciso atualizar algumas informações sobre as aulas desta manhã. — Karen soltou um muxoxo desanimado.
— Não precisa, o caminho é rapidinho. — sorriu. — Tchau, Karen, até logo.
— Tchau, querida, vê se não some.
As palavras finais de Karen não possuíam nenhum tom de maldade — sabia disso —, mas mesmo assim foi impossível não sentir o amargor voltar a sua garganta. Para ir em busca de realizar seus sonhos, foi preciso deixar para trás tudo e todos que ela amava, e ali estava ela, de volta ao local que abandonou cinco anos atrás, sem as amizades que perdeu e sem os sonhos realizados.
Era como se tivesse aberto a mão de tudo o que tinha em troca de um grande nada.
Saiu do estúdio, quase esbarrando na criança que preparava–se para entrar no estúdio. parou, analisando a menina — quase beirando a adolescência já —, chegando à conclusão de que conhecia aquela garota, ou ao menos já tinha a visto antes.
? — os olhos da mulher fixos na menina permaneceram lá, por mais que seu nome tivesse sido pronunciado por uma voz masculina que mesmo após tantos anos, ela reconheceria até mesmo no meio de uma multidão.
As palmas de sua mão começaram a suar ao mesmo momento em que seu corpo encontrava–se completamente tensionado, não saberia dizer como estava se sentindo, sequer conseguia entender todos os pensamentos que rondavam sua mente.
respirou fundo, criando coragem para levantar o olhar — parando de encarar Beatrice, compreendendo que a menina lhe era familiar por ser filha de Karen —, e fixando seu olhar em .
— Não sabia que tinha voltado para a cidade. — o tom de voz normal e a falta de demonstração presentes em sua fala fez com o que se sentisse estranha.
Não esperava que seu ex–namorado ficasse extremamente feliz em lhe ver, mas a completa apatia de lhe doía de um modo que ela achou sequer ser possível.
— Voltei recentemente. — murmurou procurando usar o seu tom mais usual possível.
— Seja bem–vinda de volta.
E tão rápido quanto apareceu, sumiu, deixando parada sozinha à frente do estúdio onde costumava matar o tempo junto com o homem quando ainda eram jovens e apaixonados.
E mais uma vez naquele dia, estava sendo uma vítima das ironias da vida.




Continua...



Nota da autora: Quem é vivo sempre aparece e hoje eu apareci com essa belezinha aqui, esse capítulo curtinho, mas cheio de sentimentos. Se gostaram, não deixem de comentar e motivar essa autora!



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