Última atualização: 02/05/2021

Capítulo 1

O café descia fervendo pela minha garganta e as lágrimas começavam a inundar meus olhos - deixo bem claro que as lágrimas eram causadas pelo café quente, não por que meu coração estava despedaçado -, enquanto eu encarava aquele casal ridiculamente feliz na minha frente. Quatro semanas. Quatro fucking semanas que havíamos terminado e ele aparecia, assim, agarrado naquela morena pateticamente maravilhosa na minha cafeteria favorita. E é óbvio que ele iria parar para me cumprimentar. E é óbvio que ele me apresentaria a Samantha, ‘mas ela prefere Sam, não é, babe?’, e, não tem como duvidar de que Luca ficaria dando leves beijos na bochecha ou na testa da morena a cada frase que ela dizia. Mas, eu sorri. Sorri muito. Coloquei um enorme sorriso na cara, como se meu coração não estivesse em pedaços e cumprimentei Samantha, ou Sam. Consegui até dar um abraço nele, como se eu estivesse dando zero fucks para tudo. Vocês podem não acreditar, mas eu até fingi entusiasmo enquanto Luca me contava sobre a viagem que fariam para a Itália no começo do próximo mês. Eu engoli em seco quando ele disse isso. Itália! Nós mal saíamos para qualquer cidade vizinha quando estávamos juntos, porque ele sempre estava ocupado com o trabalho ou cansado de mais para esquentar a cabeça com uma viagem... e comigo.
- Ouvi falar que a Itália é linda nessa época do ano, e espero que seja mesmo. - Mentira. Eu esperava que aquele país virasse o inferno enquanto estivessem lá.
- Esperamos também, não é, amor? - a morena falou e eu me controlei para não cuspir café neles.
- Mas e você, ? Namorando?
E eu congelei. Travei com o copo de café a caminho da boca. Travei olhando para os olhos de Luca que me encaravam esperando uma resposta. E travei mais ainda quando um som afirmativo saiu da minha boca.
- Sério? - o moreno arregalou os olhos e continuou me encarando e eu balancei a cabeça para cima e para baixo em confirmação. Caralho, qual a porra do meu problema? - Uau, ele está aqui?
- Sim. - o quê? É óbvio que meu namorado que não existe está aqui comigo, é óbvio. - Está esperando o capuccino dele. Mas bem, não quero prendê-los aqui, foi bom conhecê-la, Sam. Tchau!
- Não, . Eu adoraria esperar seu namorado voltar para conhecê-lo. Talvez marcar um jantar para nós, o que acha? - Luca sorriu como soubesse cada mentira que eu havia contado até aquele momento.
- Claro, um jantar deve ser ótimo. - afirmei, procurando ao redor algum objeto capaz de causar minha morte.
- Cadê ele, então? - a barbie morena perguntou.
- Já deve estar vindo. - olhei por sobre os ombros como se Deus fosse aparecer ali, me pegar pela mão e fingir que era meu novo namorado.
Quando eu estava desistindo e virando para dizer que tudo bem, a existência de meu novo namorado era uma pequena mentirinha, um rapaz caminhou em minha direção, segurando dois cafés em uma mão e com a outra procurando algo em seu bolso, rumo à saída da cafeteria. Como uma louca, desesperada, dei três passos largos para encontrar com ele no meio do caminho, agarrei seu braço livre, ergui o pé e beijei sua bochecha, sussurrando em seu ouvido ‘por favor’ diversas vezes. Enquanto ele me encarava com a pior cara de espanto possível, o puxei até perto do casal, tentando fazer com que o sorriso de total desespero no meu rosto, parecesse mais normal.
- Amor, você demorou. Estava aqui com Luca, já te falei sobre ele, né? Meu ex. E essa é Sam, a nova namorada dele. Nova namorada! - despejei em cima do cara de olhos verdes que me encarava estupidamente assustado. Desci minha mão que ainda agarrava seu braço, até suas mãos, as apertando ainda mais, em um pedido silencioso que me ajudasse.
- Olá. - ele sussurrou ainda me encarando, e então, tornou seus olhos para o casal que nos encarava com a sobrancelha arqueada. - Sou Harry, o novo namorado.
Finalmente, consegui liberar o ar que estava preso nos meus pulmões. Fechei os olhos em um breve agradecimento ao ser celestial que deve ter me ajudado naquele momento, ainda segurando as mãos do desconhecido.
- Hm. Prazer em te conhecer. Perry, né?
- É Harry.
- O quê você acha de um jantar? - Luca ignorou completamente o rapaz ao meu lado, limpando a garganta antes de continuar. - Podemos marcar para semana que vem?
- Temos que ver, Harry é bem ocupa...
- Sexta está ótimo. - o garoto interrompeu minha fala, me assustando.
- Mas...
- Sexta está ótimo, amor. - me interrompeu novamente e apertei sua mão exageradamente como repreensão, o que fez com que ele me olhasse com a sobrancelha arqueada e um leve sorriso no rosto.
- Sexta. -Luca confirmou. - Já vamos indo, então... tchau , tchau Perry.
Assim que a porta se fechou atrás das costas de Luca e Sam, eu respirei fundo olhando para aqueles tentadores olhos verdes, cujo dono havia salvado minha dignidade perante o pior casal do mundo, soltando, enfim, toda a angústia dentro de mim.
- Uau. Meu Deus, eu não consigo acreditar. Meu Deus! Eu te devo a minha vida. Você não conseguiria acreditar no que aconteceu. Ele simplesmente apareceu aqui! - olhei diretamente em seus olhos, para que ele pudesse ver nos meus o desespero em que me encontrava. Eu precisava ir para meu Studio digerir toda aquela história maluca e assim fiz, soltando a mão do garoto e seguindo rumo à porta da cafeteria, continuando a falar, o que fez o menino arquear a sobrancelha e me seguir. - Apareceu com aquela morena maravilhosa na minha frente, como se fosse a coisa mais normal do mundo. – coloquei as duas mãos nas têmporas, encarando o garoto, enquanto esperava o sinal abrir para poder atravessar a rua. - E eu surtei. Bom, você deve ter percebido né?! Quando ele perguntou se eu tinha um novo namorado, eu não sei o que me deu. Sério. Quando vi já havia confirmado. Meu Deus, da onde eu tirei isso? E ai, foi como se os anjos te mandassem para me ajudar, eu juro que quase ouvi aqueles coros angelicais quando você disse que era meu namorado. Ah! E a cara do Luca! Quando você disse ‘É, sou sim o novo namorado dela, o quê vai fazer sobre isso?’
- Eu não disse nada disso. - falou, rindo baixo.
- E o jantar! Como você simplesmente confirma o jantar? - o ignorei, atravessando a rua olhando para ele que me seguia com um sorriso preso no rosto. - Mas tudo bem, isso é o de menos, um passo de cada vez, talvez eu consiga desmarcar com ele. Enfim, muito obrigada, muito, muito obrigada. - sorri, parando do outro lado da rua e encarando ele.
- Não foi nada. - ele sorriu dando de ombros – Mas agora você vem comigo.
- O que? Tu 'tá maluco?
- Eu quebrei essa pra ti e agora preciso da sua ajuda, e vou cobrar esse favor já. Vamos que eu te dou carona e explico no caminho. – sorriu, como se não fosse nada, erguendo os braços, e consequentemente os dois copos de café em sua mão.
- ME PERDOA! Sua namorada está te esperando no seu carro? – ele riu alto e concordou, apontando para um carro preto estacionado do outro lado da rua. - Eu juro que vou até lá me explicar para sua namorada.
- Isso vai ser necessário, acho que ficará uma fera com meu atraso, e olha que estamos mesmo muito atrasados. - afirmou enquanto seu sorriso alargava mais ainda, se é que era possível, olhando para o relógio.
- Tudo bem, não vou atrasar vocês mais. - entrei no carro assim que o barulho do alarme se fez presente e, sem nem olhar para frente, me sentei logo atrás do motorista, colocando o cinto de segurança. - Desculpa. Eu juro que foi culpa minha você ficar todo esse tempo aqui esperando, seu namorado só estava me ajudando. Você é uma garota de sorte por ter ele. - afirmei, levantando os olhos para a pessoa sentada no banco da frente. Era um homem. Harry namorava um homem e eu o chamei pelo substantivo no feminino. Mico, mico.
- Me desculpa, eu não... - limpei a garganta. O rapaz me olhava mais assustado do que Harry olhou quando eu o agarrei na cafeteria. - Desculpa, eu roubei seu namorado por alguns segundos, meu ex apareceu com a nova namorada, eu não sabia o que fazer e Harry me ajudou.
Harry já dirigia pelas ruas de Londres não conseguindo mais segurar a risada. Os olhos do loiro que estava no banco do carona foram ganhando certo brilho, assim que eu terminei de falar e o motorista, ao seu lado, gargalhou.
- Larga mão de ser babaca, Harry. - o loiro socou-o no braço e virou para mim rindo. - Ele 'ta zoando contigo.
- O quê?
- Ele 'ta zoando contigo. - repetiu.
- Você é um babaca! - vociferei, avançando no motorista que continuava gargalhando.
- Ei, eu estou dirigindo. - reclamou, desviando dos tapas ardidos que eu direcionada a ele.
- Você é um filho de uma...
- EI! - reclamou, rindo da minha cara.
- Meu Deus, onde que eu estava com a cabeça em me deixar ser sequestrada assim? – sussurrei, finalmente me tocando da merda em que eu estava me enfiando, sem nem ter consciência disso.
- Já chegamos. - estacionou o carro, virando para me olhar. - Eu te ajudei, agora preciso da sua ajuda.
- O quê?
- Preciso acertar umas coisas do CD agora e prometo te levar para casa depois. Só me espere um pouco, vou cobrar o favor que acabei de te fazer.
- Não vou te pagar favor nenhum. Você é um imbecil e praticamente me sequestrou. - enquanto descia do carro, apontava o dedo na cara de Harry que me encarava rolando os olhos verdes.
-Eu vou no jantar com você. Te ajudo com isso e você me ajuda.
- Não preciso de você.
- Precisa sim, agora vem. - me puxou pelo braço em direção ao prédio a nossa frente. O loiro, que eu não sabia o nome ainda, nos seguia fielmente, sem vergonha alguma ao soltar as risadas causadas pela nossa briga patética. Harry cumprimentou cada um que cruzou seu caminho da entrada até o elevador, como se fosse o dono do lugar e, assim que descemos no terceiro andar, avançou para primeira porta a esquerda, sem soltar o meu pulso que puxava desde o carro.
- Desculpem a demora, Niall e eu acabamos presos com uma fã louca. - disse sorrindo para as sete ou oito pessoas que estavam na sala, erguendo meu braço como sinalização quando disse o ‘louca’.
- Louca é sua mãe, seu pirado. - retruquei, cheia da petulância daquele garoto.
- Brincadeira, amor. - me beijou na testa como se fosse algo normal e me puxou, novamente, ate o sofá. - Fica aqui, não surta. - sussurrou.
- Escuta aqui, eu faço o que eu quiser.
Harry ignorou minha resposta mal educada se sentando à mesa redonda, explicando que não havia problema em debater sobre o que quer que fosse perto de mim, iniciando a reunião. Nos primeiros minutos, me limitei a bufar e cruzar e descruzar as pernas, o que causou irritamento nos homens sentados na mesa mais próximos a mim, cansada disto, passei a prestar atenção no lugar a minha volta. Era uma sala retangular, a parede a minha frente era repleta de vidro, que nos mostrava o melhor de Londres, na parede oposta, onde me encontrava, e na minha esquerda ocupando cada espaço havia pequenos quadros com capas de álbuns conhecidas e desconhecidas por mim. No centro da sala havia a mesa redonda ocupada por Harry, mais quatro garotos e três homens engravatados que conversavam seriamente entre si. No canto direito havia uma mesa com diversos pratos com aperitivos variados, e, aproveitando que todos estavam compenetrados na conversa, me levantei indo até a mesa. Em uma só mão peguei dois salgados e uns doces, mas então, meus olhos bateram até a última bandeja no canto: mini cachorro-quente, estiquei um pouco para alcançar sem precisar dar a volta na mesa e os peguei, segundos após ouvir um estardalhaço. Virei lentamente para o centro da sala, dando de cara com todos, repito todos, olhando diretamente para mim e para a bandeja de doces aos meus pés. Os garotos me olhavam segurando a risada, ao contrário do único loiro que já gargalhava abertamente e os homens que carregavam a descrença no olhar. Com uma coragem que eu não sabia ter, abri um sorriso, limpei a garganta esticando as mãos cheias de cachorro quente em direção a eles.
- Vocês querem? - perguntei.



Capítulo 2

- Nos vemos no casamento, tchau. - Harry acenou para o restante do pessoal que estava na sala, vindo em minha direção. - Vamos, temos muito que fazer hoje.
- Puta merda, você ainda ‘tá nessa de me sequestrar. - comentei, rolando os olhos. - Cara chato, viu.
- É por esse humor ridículo que eu acho que você é perfeita para me ajudar.
- Humor ridículo? – questionei, brava, já sabendo que ele rolaria os olhos ao fim da minha frase e me ignoraria.
- Styles! - alguém gritou assim que o Harry ligou o carro para sairmos dali. Vi pela janela que um dos garotos que estava na reunião corria até onde estávamos abrindo a porta sem permissão. - Preciso de uma carona até a loja que estão nossos ternos, Margot esta me esperando lá.
- Ok, estava indo para lá mesmo. - Harry respondeu, dando de ombros.
- Hey, eu sou Liam. - o garoto sorridente virou para mim, estendendo a mão para que eu o cumprimentasse.
- . - ignorei a mão oferecida.
- Uh, gelada.
- Foi difícil domar essa minha tigresa. - Harry falou, soltando pequenas risadas ao fim da frase.
- O que foi... O que... Repete!  - virei rapidamente para o motorista, olhando dentro dos divertidos olhos verdes que me encaravam.
- Foi isso mesmo que você ouviu, namorada.
- Eu não sou sua namorada!
- Ouch. - Liam resmungou.
- Cala a boca. - Harry e eu falamos juntos para o garoto que estava no banco de trás, nos olhando ao fim da frase e nos ignorando após o contato visual.
Após alguns minutos andando pela cidade, Harry estacionou em frente a uma loja, indicando com a cabeça que seria ali que iríamos descer. Observei o rapaz descer do carro, dando a volta para abrir a porta para mim.
- Quem vê pensa que é bem educado assim mesmo. - resmunguei quando ofereceu a mão para que eu saísse.
- Eu sou bem educado.
- Deixa ela em paz, Hazz. - Liam falou e me abraçou pelos ombros puxando até a entrada da loja.
- Qual o problema de vocês com contato físico? Ugh. - rolei os olhos, tirando os braços do garoto de mim.
Passei os olhos rapidamente pela loja, tendo certeza, sem nem precisar analisar muito, que cada peça ali valia mais do que eu, ou até mesmo a minha casa. Os dois garotos, ainda rindo de mim, seguiram até uma garota ruiva que saia do provador com um vestido azul maravilhoso que deveria ser nada barato.
- Hey, Maggie. - os dois a cumprimentaram, Liam com vários selinhos na boca e o outro com um beijo na bochecha.
- Essa é minha garota, . - Harry virou para mim, me chamando com a mão, enquanto eu o encarava com os olhos arregalados.
- O quê? Você está namorando? Eu não acredito. - a ruiva nos olhou espantada.
- Não! Ele não é meu...
- Sou Margot, namorada do Liam, é um prazer enorme conhecê-la. - Margot me interrompeu, me puxando para um abraço assim que cheguei perto o suficiente.
- Sou , e não sou namorada dele. - falei olhando para a ruiva, virando em seguida para Harry que já sorria. - Você precisa parar com isso.
- Maggie, encontre um vestido para , Liam e eu vamos buscar nossos ternos. - me ignorou, saindo assim que terminou de falar.
- Eu não preciso de um vestido! - falei assustada.
Toda e qualquer objeção que fiz para a ruiva a minha frente foi completamente ignorada. Margot me segurou pelo pulso - aquilo era uma mania deles, por acaso? - e fez rodarmos a loja atrás de um vestido perfeito para o casamento, que depois de um tempo descobri ser de uma prima do Harry com algum cantor famoso que eu não conhecia. Os garotos voltaram com os ternos embrulhados em mão e sentaram na frente do provador, enquanto Maggie enfiava mais vestidos para que eu provasse.
- Sério? - sai do provador com um vestido rodado xadrez vermelho e branco, o que provocou risada nos meninos e uma bronca para eles vinda de Maggie.
- Você está linda. - a menina afirmou.
- Eu pareço uma capa de bujão de gás. - os garotos gargalharam abertamente, me fazendo rolar os olhos. - Eu odeio vocês, todos. - enfatizei. - Nunca vou confiar em uma palavra que você disser, ruiva, sinceramente, dizer que eu estou linda com esse vestido é a maior mentira do mundo.
- Está horrível, . Vá tirar isso, pelo amor de Deus. - Harry disse. Rolei os olhos, com a intenção de voltar para o provador tirar aquele vestido e ir embora, quando a atenção de todos voltou para a vendedora que pigarreava logo ao nosso lado.
- Com licença, eu encontrei esse vestido para a senhorita, vai ficar ótimo. - a garota, que não deveria ter mais de 18 anos sorriu ao fim da frase, entregando o vestido em minhas mãos, mesmo estando com as próprias tremendo. Ergui a sobrancelha em confusão, que foi logo sanada quando a vendedora virou para Harry e Liam. - Vocês podem tirar uma foto comigo? Eu amo o trabalho de vocês.
- Você tem tanto a me explicar. - resmunguei, voltando ao provador.
E ficou mesmo. O vestido ficou ótimo. Era preto de um tecido leve, eu não fazia a menor ideia de qual seria, contornando as curvas do meu corpo, que eu nem sabia ter, ele deixava muita pele a mostra na altura do peito e, por Deus, aquilo me deixava muito sexy, o tecido terminava caindo suavemente nos meus pés. Saí do provador, esperando a risada contagiante dos meninos.
- Podem rir. - e a risada não veio.
- Uau. - Margot me encarava com um sorriso gigante no rosto, batendo palmas para enfatizar sua felicidade.
- Ficou bom? - eu sabia que havia ficado, mas aparentemente, minha opinião sobre moda ali não valia nada.
- Você está... Uau. - a ruiva repetiu. - Não é, meninos? - virei para os dois que me encaravam com os olhos arregalados, esperando a resposta.
Harry balançou a cabeça como se estivesse tentando voltar a Terra e sorriu para mim, um sorriso aberto e sincero, e eu fiquei em dúvida se já tinha visto um sorriso tão lindo na minha frente, e aí, foi minha vez de balançar a cabeça para concentrar em qualquer coisa que não fosse naquele garoto a minha frente.
- É esse mesmo. - Harry afirmou, levantando do sofá que estava sentado há mais de meia hora.
- Eu gostei, mas não acho que eu possa pagar esse... - puxei a etiqueta do vestido, ficando meio tonta e esquecendo completamente a minha linha de raciocínio. Havia tantos números naquele pedaço de papel que eu não sabia nem lê-los. - Não. Nope. Não mesmo - ri nervosa. - Isso daqui dá um três salários meus, não posso pagar por isso.
Os três me ignoraram, seguindo até o caixa e eu tomei aquilo como concordância sobre eu não poder pagar pelo vestido, então não o levaríamos. Voltei ao provador, colocando minha roupa básica novamente, entregando o vestido a vendedora que me esperava ao lado da cabine e seguindo até eles que conversavam e riam no caixa da loja. Foi quando veio um flash em direção ao grupo de amigos. E depois outro e outro. Olhei para a calçada e assustei ao ver três fotógrafos mirando suas câmeras para Harry e Liam. Virei em direção ao provador, com intenção de fugir da bagunça que viria em seguida, mas fui impedida por Margot que gritou meu nome.
- ! Vamos logo antes que mais deles saibam que estamos aqui. - concordei ao fim da fala da ruiva, andando até eles.
- Nós vamos à frente, você e Maggie venham atrás, ok? - Harry falou para mim. - Abaixe a cabeça e não os responda. - balancei a cabeça em concordância.
Harry e Liam, cada um com um terno e uma caixa em mãos, abriram a porta da loja, sorrindo para os, agora cinco, fotógrafos que estavam os esperando. Margot sorriu para mim, me puxando pela mão até o carro que já nos esperava com as portas abertas. Após os garotos entrarem no carro, todas as câmeras viraram em direção a Maggie e as perguntas dos homens também.
- Margot! Margot! E o casamento seu e do Liam para quando fica? - um deles perguntou enfiando a câmera na nossa frente, o que fez eu dar um passo para atrás assustada, fazendo os homens, finalmente, perceberem eu praticamente enfiada atrás da ruiva e mirarem sua câmera bem em frente ao meu rosto. - E você? Quem é você?
Ignorei a pergunta, assim como Harry havia dito para fazer, entrando no carro e me sentando ao lado do motorista, fazendo com que o garoto manobrasse para fora do lugar que estava estacionado e saísse cantando pneu pelas ruas. Harry perguntou meu endereço e eu dei, sem nem hesitar, afinal finalmente estava indo para casa. Soltei o ar que estava preso em meus pulmões lentamente. Sinceramente, onde eu havia me metido? Eu sempre estava presa em confusões, já era algo comum e parte do meu dia a dia. Acredito que seja difícil eu narrar um dia da minha vida que eu não tenha feito alguma merda, mas me meter com famosos e ser questionada por fotógrafos... nunca. Bufei pela segunda vez, descruzando as pernas que haviam acabado de serem cruzadas e enrolando uma mecha de cabelo, os três sinais que indicavam que eu estava nervosa. Harry pareceu perceber o quão incomodada eu estava e, para atrapalhar, ficou revezando seu olhar entre a rua e o meu rosto.
- Será que dá para parar? - falei irritada sem olhar para ele.
- Não estou fazendo nada dessa vez. - Liam murmurou do banco de trás.
- Estou falando com seu amigo psycho aqui. - resmunguei. - Será que dá para parar de me encarar?
- O namoro de vocês é tão interessante. - Maggie falou, encostando o queixo no banco em que eu estava. - Como se conheceram?
- Nós. Não. Somos. Namorados. - falei irritada, ouvindo a risada de Harry tomar conta do carro fazendo com que eu virasse para ele. – Qual é o seu problema?
- Vou te explicar agora. Tudo. - o garoto de olhos verdes ignorou minha pergunta, olhando em meus olhos, esperando eu concordar com isso, quando, enfim, acenei com a cabeça, ele retornou o olhar para frente, respirando fundo e continuando a falar. - Acho que você não sabe, mas eu tenho uma irmã, o nome dela é Gemma e ela é a melhor pessoa do mundo. Ano passado ela teve um namorado, desse tipo de cara que não liga para nada a não ser o próprio umbigo, terminava com minha irmã para sair com outra e depois voltava para ela, o filho da puta a fez sofrer para caralho antes de Gemma tomar coragem e dar um pé na bunda dele, mas isso não vem muito ao caso. O problema é que minha mãe conseguiu ver esse cara em mim. - Harry soltou um suspiro longo, negando com a cabeça. - Eu não sei como isso aconteceu, mas ela viu aquele filho da puta em mim. E foi aí, que minha mãe me fez prometer que eu nunca brincaria com uma garota, do jeito que ele fez com minha irmã. Agora, a merda é que eu estava namorando. - o garoto parou de contar quando um som assustado veio do casal atrás que escutava a história prestando tanta atenção quanto eu. - E tem o casamento da minha prima hoje, e quando mamãe perguntou semana passada se eu levaria uma acompanhante, eu disse que sim, por que eu tinha uma namorada, eu tinha quem levar, mas terminei com a garota ontem.
- Harry! - Liam exclamou, batendo na cabeça do motorista.
- Ei! - reclamou. - Eu sei que eu já namorei muitas e terminei com muitas, e minha mãe também sabe, mas dessa vez ela pareceu tão feliz... Eu tinha certeza que aquela era a garota certa e mamãe ficou tão feliz em ouvir isso, disse que estava orgulhosa de mim e saiu contando para todo mundo. Mas, ugh, Alice mudou da água para o vinho essa semana, eu não ia conseguir passar mais um dia ao lado dela. - deu uma pausa respirando fundo - A questão é, eu não posso desapontar minha mãe de novo. Eu não posso aparecer lá sozinho.
O silêncio reinou no carro enquanto eu, e acredito que os outros dois também, tentavam digerir a história. Harry estacionou em frente ao meu studio, esperando qualquer reação de um de nós, o que demorou a vir.
- Ajuda ele! - Margot berrou do nada, fazendo com que eu pulasse assustada no banco. - Ajuda!
- Por favor, , - Liam berrou também, acompanhando a namorada em gritos aleatórios me motivando ir com Harry ao maldito casamento. Harry me encarava com os olhos gigantes com certo brilho e um bico no rosto, e eu não poderia negar algo a aquela cara tão... Fofa.
- Tudo bem. - resmunguei, ouvindo os três comemorarem com highfives, assim que aceitei aquela atrocidade.
- A gente pode se arrumar no teu apartamento, né?! - Harry perguntou, sorrindo.
- O que é que eu consigo negar para vocês, hein?! - ri, saindo do carro e chamando os três com a mão.



Capítulo 3

Abri a porta do Studio sendo acompanhada de perto por Maggie, sem ter tempo de arrumar qualquer coisa. Meu Studio era uma bagunça, composto por apenas uma grande sala onde no canto eu criei uma cozinha e no lado oposto um quarto e a única peça separada era o banheiro. A sala era ampla, tinha um sofá gigante no meio, mas que havia sumido de tanta roupa - sim, íntima também - jogada em cima dele, com uma mesinha e a TV logo à frente, no canto eu empilhava todos os hobbies que já tive na vida: a prancha de surf que eu comprei depois de assistir um filme qualquer sobre praia e decidir que aquilo era minha vida, mas que não durou um mês; um cavalete de quando eu resolvi que seria o próximo Picasso; a guitarra elétrica, comprada em milhões de parcelas depois de ir ao show do Slash; um aparelho de musculação de quando decidir ser fitness, e muitas outras coisas. Meu mais novo hobbie estava logo ao pé da minha cama, um telescópio que eu havia emprestado de Jeremy, meu melhor amigo. Nesse último mês eu havia criado uma fissura enorme por estrelas, planetas, universo e nada melhor do que passar boa parte do tempo encarando o céu. Minha sala era ampla e não havia repartição alguma para separá-la do meu quarto, já que eu não conseguia encontrar um biombo legal –e barato- para comprar. Meu quarto era suficiente com uma cama grande e meu guarda roupa bagunçado, a cozinha era composta por nada mais que um fogão, uma geladeira e um armário. Minha parte favorita da casa, no entanto, era o banheiro pequenininho daquele lugar. O tamanho do banheiro não foi o suficiente para me impedir de colocar uma banheira que eu passava a maior parte do tempo bebendo um vinho baratíssimo em uma taça trincada, fingindo ser a dondoca que eu, com certeza absoluta, não era.
- Sua casa é o máximo! - Margot exclamou animada. - Onde tem toalha e onde fica o banheiro? Vou começar a me arrumar já.
- Toalha no guarda-roupa, banheiro na única porta. - falei, indo em direção a geladeira atrás de algo para comer, já que passava das quatro da tarde e as únicas coisas no meu estômago eram um café e os mini cachorros-quentes que eu não gostava nem de lembrar.
- O que significa isso? - Harry perguntou curioso, apontando para a minha pilha de antigos hobbies.
- Sou indecisa. - dei de ombros, ouvindo o garoto concordar, como se entendesse sobre que eu estava falando. Enfiei o pedaço gelado da pizza de ontem na boca, virando para meu guarda-roupa atrás de alguma roupa. - Preciso encontrar um vestido para o casamento.
- Ih... - Liam riu baixo, empurrando as roupas que estavam sobre o sofá, se jogando nele e ligando a TV, como se já fosse de casa.
- Eu tenho um aqui. - Harry me respondeu, indo até uma das caixas que ele havia trago da loja e a abrindo em minha cama. Era o vestido. O maldito vestido maravilhoso, mas caro para caralho.
- Você comprou ele? - perguntei assustada.
- Sim, é um presente.
- O que? Não. - ri. - Não posso. Não. Não mesmo.
- É só um vestido, . - rolou os olhos, me largando sozinha no quarto e indo até o sofá com Liam. - Eu sei que você gostou então só aceite, ok? Por favor.
- Mas...
- Por favor.
Eu não me deixo vencer tão fácil assim, mas eu merecia mesmo um presente pelo tanto que sofrerei de noite e, realmente, eu amei aquele vestido. Busquei jogado pelo chão os dois pés do meu único salto preto, deixando-o logo ao lado da caixa, pronto para vesti-los após o banho. Sentei no meio dos dois garotos, ignorando os comentários de Liam sobre os poucos canais que eu tinha na minha televisão. Quando a voz de Ross inundou o apartamento em um episódio qualquer de F.R.I.E.N.D.S., nos aconchegamos mais no sofá, jogando os pés em cima da mesa de centro e nos concentrando no episódio, ignorando o barulho do chuveiro e o vapor que saia pela porta do banheiro. Fomos todos assustados pelo som de Uptown Funk que saia de dentro da minha bolsa de corações coloridos que eu carregava naquele dia. Levantei correndo, vendo Liam se preparar para cantar o refrão da música, enquanto eu corria até a bolsa que estava jogada no chão ao lado da porta.
- Alô! - estiquei o dedo do meio para Liam que reclamava por eu ter acabado com o momento dele. - Alô, quem fala?
- , presta atenção, caralho. - Jeremy gritou do outro lado da linha.
- Olha a boca. - resmunguei, voltando ao sofá com a atenção dos garotos presa em mim.
- Você conseguiu!
- O QUÊ? - berrei, me levantando do sofá de novo, com os olhos arregalados.
- VOCÊ CONSEGUIU O PAPEL!
- NÃO! - ri alto, começando a pular sem sair do lugar.
- SIM! - Jerm afirmou, rindo junto.
- AI MEU DEUS!
- O quê está acontecendo aqui? - Margot saiu do banheiro assustada com o mesmo vestido azul que estava na loja e com uma meia calça até metade das pernas.
- Ela surtou. - Harry deu de ombros.
- Eu preciso desligar, Jerm. - falei rindo, pulando até os garotos e me jogando no sofá. - Obrigada, eu te amo muito.
- Eu sei. - resmungou do outro lado, e quando abri a boca para reclamar, emendou vários "amo você" com diversos tons, fazendo com que eu risse e desligasse na cara dele. Continuei com o sorriso enorme na cara encarando os três que me encaravam com o olhar assustado.
- Você está linda, Maggie. - afirmei olhando para a ruiva.
- Maluca. - sussurrou, voltando para o banheiro.
- O quê aconteceu? - Liam perguntou.
- Consegui o papel que eu queria! - respondi, abraçando o garoto de olhos castanhos de lado.
- Você é atriz? - o outro ao meu lado indagou. E ao me ver afirmar sorriu. - Parabéns, então.
- Obrigada! - soltei Liam para abraçá-lo, fazendo ele rir alto.
- Qual seu problema com contato físico? Ugh. - falou, afinando a voz, o que me fez gargalhar alto, e mais alto ainda quando ele me empurrou.
- Meu Deus, vocês estão impossíveis! - Margot reclamou, saindo do banheiro já pronta. - Vou fazer minha maquiagem, o próximo já pode ir.
Harry tomou a dianteira, assim que a ruiva falou, levantando do sofá, indo até o terno branco que estava pendurado ao lado da minha porta e, então, em direção ao banheiro. O garoto que continuava ao meu lado passou os braços ao redor dos meus ombros, comentando alto quão sortudo era por ter uma namorada linda daquele jeito, o que fazia Margot rir e se atrapalhar na maquiagem. Meu celular tremeu em minhas mãos, indicando uma nova mensagem, o que não passou despercebido por Liam, que o agarrou no mesmo instante.
- "Vagabunda"? - Liam leu alto a mensagem em tom de surpresa. - Ouch, quem é esse?
- É meu melhor amigo. - dei de ombros. - Responde "babaca".
- Quanto amor. - o garoto resmungou, digitando a mensagem e continuou mexendo no meu celular. Fingi não perceber quando ele entrou no rolo de câmera, e nem quando passou a analisar foto por foto. - O que significa isso? - perguntou com os olhos arregalados.
- O que? - perguntei olhando para ele e o vi dar um toque no aparelho, fazendo com que um barulho alto saísse do mesmo. Uma música eletrônica qualquer soou e depois gritos altos, me lembrando rapidamente do vídeo que estava salvo em meu celular.
- NÃO! - tentei pegar o aparelho da mão dele, mas o garoto já estava de pé longe das minhas mãos. - Me dá isso, Liam!
- Não sabia que você era desse tipo, . - Liam negou com a cabeça, sorrindo, ainda assistindo o vídeo.
- Que tipo? - Margot perguntou do outro lado da sala, com um tom curioso.
- Que fica bêbada e sobe em balcão de bar para dançar.
- LIAM! - berrei, saindo correndo atrás dele. - ME DÁ ISSO. AGORA.
- 'Tá bom, tá bom. - resmungou, entregando o celular em minhas mãos. - Relaxa.
- Imbecil.
- Eu? - Harry saiu do banheiro, me encarando com as sobrancelhas arqueadas.
- Também. - peguei meu vestido em cima da cama e o par de lingeries que havia separado, seguindo até o banheiro, empurrando Harry do meu caminho, já que ele ainda estava parado na porta.
- O que vocês fizeram? - ouvi Harry perguntar confuso com minha mudança de humor, a resposta foi abafada pelo barulho da porta do banheiro se fechando.
Retirei toda a roupa sem cuidado algum, as jogando no canto do banheiro. Liguei o chuveiro, sentindo o vapor subir vindo do chão e calmaria me acertar. Quando a água quente enfim atingiu minha pele, respirei fundo já sentindo todos os pensamentos do dia começarem a rodar por minha cabeça. Ri, ao pensar na situação em que me encontrava, indo me arrumar para um casamento que eu nem sabia de quem era, fingindo ser namorada do cantor da maior boyband do momento. Foi complicado para meu cérebro relacionar o nome Harry, ao garoto da One Direction, mas, em um momento entre entrar naquele prédio e ver aqueles fotógrafos, eu percebi que algo não estava certo - aliás, na minha vida, eu percebo isso o tempo todo -, e ao estar naquela maldita sala e ver as pessoas que lá se encontravam, tudo veio com um estalo em minha mente e só agora eu tive tempo para rir da minha sorte - ou azar -. Era loucura imaginar como eu havia aceitado entrar no carro de um, até então, desconhecido, me deixando levar pela doideira que o universo havia planejado para mim, mas quem sou eu para lutar contra os desejos dos cosmos, não é mesmo?
Sai do chuveiro calmamente, passando a toalha por meu corpo, mais calma ainda. Demorei a vestir a lingerie preta e depois o vestido, calçando os saltos em seguida. Quando abri a porta do banheiro, esperei ouvir conversas ou gritos, mas fui atingida diretamente pelo silencio. Os três estavam sentados no sofá, debruçados sob um objeto, que eu não demorei muito a descobrir que era meu notebook, caminhei ate eles e, nem mesmo o barulho dos meus saltos conseguiu despertar a atenção dos mesmos. Parei logo atrás de Liam, que estava no meio segurando firmemente o aparelho em seu colo, inclinei o pescoço o suficiente para que pudesse enxergar a tela e não me surpreendi ao ver um dos meus roteiros aberto.
- Isso é muito bom! - Margot exclamou ao chegar ao fim do primeiro capítulo e deu risada com a piada infame que um dos personagens contava.
- O quê? - perguntei alto, me fazendo de inocente e assustando os três. Liam fechou a tampa do notebook em um estralo, virando para mim com os olhos arregalados, e, assim como sua namorada e seu amigo, tentando disfarçar na resposta.
- Fotos.
- Nada.
- PORNO!
- Margot! - Liam virou para a namorada mais assustado ainda ao ouvir a resposta dela.
- Ou será... - comecei, assim que ri da cara do garoto e de sua namorada. - que estavam mexendo em uma pasta do meu notebook nomeada "não abra ou você morre"?
- Não. - os dois garotos responderam ao mesmo tempo em que a ruiva gritava uma resposta afirmativa. - Margot! - gritaram.
- Que vergonha, galera... Isso é invasão de privacidade. - falei, dessa vez conseguindo segurar o riso.
- Foi tudo culpa do Liam. - Margot dedou, recebendo um xingamento baixo do namorado.
- Desculpa, . - o mesmo virou para mim, com uma careta digna de gato de botas.
- Vou pensar no teu caso. - falei, pegando o notebook de seu colo, indo colocá-lo em cima da cama. - E não me chama assim.
- Tão fria. - Liam comentou alto, seguindo até seu terno e depois ao banheiro. - E louca. - gritou antes de fechar a porta.
- Você vai ver o “louca” no meio da sua cara, babaca! - gritei para o nada.
- Esquece ele. - Margot riu, se levantando e vindo em minha direção. - Senta que eu vou te maquiar.
- Não precisa, eu não... - fui interrompida antes de terminar a frase
- Há! Quero ver você conseguir dizer não para a Margot. - Harry riu baixo.
- Realmente, ninguém diz não para mim. Agora senta e fica quieta.
- Uh! Já sabemos quem manda na relação. - ri, piscando para Harry, que retribuiu.
A garota ruiva me calou em seguida com um olhar severo, enquanto passava um liquido com força na minha bochecha. Por meia hora Maggie brincou de maquiagem como se eu fosse uma boneca, reclamando por eu estar gritando com Liam, que não saía do banheiro, e xingando Harry, que ria sem parar enquanto tentava entender o que estava acontecendo na série Fleabag. Quando decidiu que, enfim, não havia mais nada a fazer no meu rosto, a ruiva seguiu até a porta do banheiro, abrindo-a de supetão, assustando Liam que terminava seu banho.
- Margot!
- Cinco minutos para você sair desse banheiro vestido, ou o deixamos aqui. - ordenou, fechando a porta e seguiu até nos, que já estávamos prontos no sofá. - Alguém precisa controlar o Liam, porque meu Deus...
- Alguém vai ter é que pagar minha conta de água - berrei virada para a porta.
O garoto ao meu lado estava pronto para comentar algo, quando seu celular nos assustou tocando uma música qualquer. Harry olhou no visor, fazendo uma careta em seguida, mas que não o impediu de atender mesmo assim.
- Fala. - sussurrou ao encostar o celular em seu ouvido. Um grito agudo masculino foi ouvido, fazendo com que nos duas olhássemos atentas para Harry.
- Tenho certeza que é o Louis. - a ruiva sussurrou rindo.
- Será que dá para você se acalmar? Puta que pariu, a gente já está saindo daqui. - Harry resmungou, rolando os olhos ao ouvir mais gritos. - Vinte minutos e eu passo na sua casa te pegar. - desligou o celular sem ouvir a resposta.
- Louis? - Liam perguntou saindo do banheiro pronto e, cá entre nós, muito gato.
- Esqueci que ia dar carona para ele. Ele está nos esperando tem uma hora. – o garoto de olhos verdes falou, sem segurar o riso.
- Partiu! - Margot falou alto, puxando minha mão em direção a porta deixando para trás seu namorado reclamando que havia perdido sua garota.
Trinta minutos, muitos resmungos, gritos e rolar de olhos depois, estávamos parados em frente ao portão do prédio de Louis, apertando a campainha sem parar porque o garoto não aparecia. Mais algum tempo se passou até que um garoto de cabelos rebeldes e olhos azuis saísse do hall do prédio vindo até o carro de Harry, com um sorriso zombeteiro preso no rosto.
- Estou pronto te esperando tem uma hora, blá, blá, blá. - Harry resmungou, quando o garoto sentou no banco atrás dele.
- Eu não tinha nem terminado meu banho ainda. - sua voz irônica preencheu o carro, fazendo um arrepio subir pela minha coluna. Que voz era aquela, porra?  - Ei! A garota do cachorro quente. – riu, ao me ver sentada no banco ao lado de Harry.
- Esquece isso, eu te imploro. - virei o encarando por sob o banco.
- Nunca. - gargalhou. Mais um arrepio. - Louis. Louis Tomlinson. - esticou a mão em minha direção.
- . . - segurei sua mão fina e quente. Arrepios.
- Ah, na mão dele você pega, né?! - Liam resmungou me encarando.
- Cala boca. - rodei os olhos, tentando ignorar o sorriso de lado que abriu no rosto de Louis. Arrepios.
Observei pelo canto dos olhos o motorista também abrir um sorriso de canto e chacoalhar um pouco a cabeça ao ouvir a conversa que acontecia entre nós. No entanto, seu rosto logo mudou, enquanto reduzia a velocidade ao dar de cara com um engarrafamento na saída da cidade. O garoto bufou, batendo as mãos no volante, o que fez todo mundo tornar a atenção a estrada, e bufar junto.
- Tudo que a gente precisava. - Maggie disse, sorrindo sem graça, pois sabia que já estávamos atrasados.
- Abre essa janela, Hazz, está calooooor. - Liam reclamou. Virei-me para a porta a procura do lugar onde eu abaixaria o vidro, não encontrando nenhum botão ou coisa parecida. Quando ia virar para o motorista para perguntar onde estava, Louis apareceu quase em cima de mim, com seu perfume maldito entrando pelo meu nariz. Arrepios. Muitos.
- É ali. - apontou para um pequeno botão que havia passado despercebido por mim.
- Ah! Hmm, ta. - mexi apenas meu braço em direção ao botão, com medo de movimentar o corpo e acabar tocando no rapaz.
- Valeu. - ele riu, voltando para seu lugar. Respirei fundo, trazendo ar puro para meus pulmões, o que, também, não passou despercebido para Harry que me encarava  com as sobrancelhas arqueadas, tentando controlar o sorrisinho que surgia no seu rosto. Assim que ele abriu a boca para dizer alguma bobeira, alguém gritou fora do carro.
- Ai. Meu. Deus! É o Harry, mãe. AI MEU DEUS! LIAM! LOUIS! EU AMO VOCÊS. - uma garota com o carro parado logo ao lado da minha janela, apontava seu celular em nossa direção, quase saindo da janela. - DIGAM OI! DIZ OI PARA A SOPH, LIAM, ELA TE AMA.
- Oi, Soph! - Liam passou por cima de Margot para chegar até a janela, acenando e achando graça na histeria da garota.
- AI MEU DEUS. - gritou mais alto, apesar de sua mãe a cutucar para que se acalmasse. A nossa fila andou, fazendo com que a garota se desesperasse. - QUEM É VOCÊ? - apontou a câmera direto para a minha cara. - ME SEGUE NO TWITTER.
- Nós precisamos ir, tchau! - Harry estava inclinado sobre meu corpo, dando tchau para a garota, que ainda berrava. O carro deslizou nos tirando de perto da fã, e logo, do engarrafamento.
- Uau, que... Euforia? - murmurei, terminando a frase com uma expressão confusa, tentando definir o que aconteceu há pouco.
- Você não viu nada.
- Essa não chega nem perto do top 10. - Louis comentou ao concordar com Liam.
- Top 10?
- Sim. - Harry me respondeu. - De coisas malucas que nossas fãs já fizeram por nós.
- Não consigo nem imaginá-las. - disse assustada.
- A fã na lixeira está nela? - Maggie perguntou, já esboçando um sorriso.
- Em 9. - o garoto de olhos azuis a respondeu, gargalhando abertamente. - Quase a tiramos mês passado, por causa da... Bem... Da história da camisinha.
- O quê? Me contem! - exclamei, sem conseguir segurar a gargalhada.
- Uma garota invadiu... - Louis iniciou a narração da historia, mas logo foi interrompido por Liam.
- Não era um garoto?
- Não. Era uma garota. - o garoto de olhos azuis afirmou, rodando os mesmos, sem paciência.
- Garoto. Se não porque ele colocaria o...
- ENTÃO... - tentou retornar à história, ignorando Liam. - Ela invadiu o carro do Styles, de madrugada e... - gargalhou, sem conseguir continuar a frase. - Colocou uma...
- Chega. - Harry se intrometeu no assunto. - Deixa para a próxima.
- Por quê? - Maggie perguntou com um bico no rosto.
- Isso não é historia para primeiro encontro. - Harry explicou com um sorriso no rosto e uma piscada para mim.
Ok. Eu precisava controlar aqueles arrepios.



Capítulo 4

Eu não aguentava mais ficar presa naquele carro. Margot e Liam tiveram uma discussão boba nos 15 primeiros minutos de viagem por causa de uma foto que ele queria postar e ela não, deixando um clima pesado no ar, Louis tentava contorná-lo com piadas mais bobas ainda, o que estava irritando Harry. Quando, enfim, percebi o carro diminuir de velocidade se aproximando de um pequeno chalé, suspirei aliviada me animando consideravelmente. Dois manobristas estavam logo ao nosso lado assim que o automóvel foi estacionado, um deles abrindo gentilmente a porta para mim. Agradeci a ele em um sussurro baixo, lutando contra as pedras no chão para me manter em pé.
- Eu odeio saltos. - a ruiva murmurou, recebendo uma gargalhada  de seu namorado em troca. O mesmo passou os braços pela cintura da garota, dando um beijo silencioso em seus cabelos, sussurrando um pedido de desculpas baixo.
- Vem. - ouvi a fala baixa de Harry ao meu lado, que não demorou a contornar minha cintura com seu braço em uma ajuda na briga de meus saltos finos contra as pequenas pedras.
Andamos lentamente em direção a entrada decorada de flores, passando pelo chalé e seguindo até um pequeno altar branco montado no jardim. Alguns fotógrafos tentaram entrar na frente dos garotos, implorando por fotos, mas foram logo espantados por dois seguranças que se colocavam na entrada do local. Harry cumprimentava todos que encontrava no caminho, sem tirar o sorriso de canto do rosto, a maioria dessas pessoas me encarava com a sobrancelha arqueada e um sorriso estranho no rosto. Senti a mão do garoto apertar firme na minha cintura, e o encarei, mas ele não olhava diretamente para mim e sim para uma pequena roda de mulheres. O garoto mudou de direção, seguindo para uma mesa praticamente vazia com apenas dois garotos.
- Hey. - cumprimentou todos sem o sorriso no rosto.
- E aí. - o loiro foi o único a responder, já que o outro estava concentrado no celular. - E aí, garota do cachorro quente. - tornou sua atenção para mim, abrindo mais o sorriso grande de seu rosto.
- Ugh, vocês precisam superar isso. - murmurei irritada, rodando os olhos.
- Gostei dela. - o único garoto que eu não havia conversado ainda, murmurou baixo sem olhar para mim.
- Harry, sua mãe está encarando. - Liam apontou descaradamente para o grupo que nos encaminhávamosantes, me fazendo gelar ao falar da mãe do garoto.
- A Karen esta lá, é melhor apresentar para minha mãe quando ela sumir. - Harry murmurou, abrindo um sorriso quando uma mulher passou ao seu lado o cumprimentando.
- Apresentar? Pra sua mãe? Eu não estou preparada ainda, você não me avisou que seria já, o que eu faço? Ela vai perceber tudo, meu Deus, Harry, você é doido, eu vou embora daqui, eu não sei o que... - o garoto beijou minha testa, me assustando e, consequentemente, fazendo com que eu parasse de falar.
- E você achou que seria quando? - Liam disse, estendendo uma taça de champagne em minha direção que eu aceitei de prontidão. - Você é uma atriz, seu papel no teatro de hoje é ser namorada do cabeludo aí.
- Isso! - exclamei, respirando fundo. - Estou no teatro executando um papel. De namorada. Ok. - respirei fundo novamente, abrindo um sorriso e passando meu braço pela cintura de Styles.
- Que lindo casal. Tão verdadeiro. - Louis comentou irônico.
- Vocês vão sentar ou...? - o rapaz que eu ainda não conhecia perguntou, finalmente desligando o celular e olhando para nós dois que continuávamos em pé.
- Vamos falar com minha mãe, já voltamos. - Harry o respondeu.
- NÃO! - gritei, chamando a atenção de algumas pessoas que estavam próximas a nós, o que fez Niall e Louis gargalharem abertamente.
- Você consegue, . - Maggie me encorajou. - A Karen saiu de lá, vai dar tudo certo.
- O que essa Karen tem? - Niall fez a pergunta que estava presa em minha garganta.
- Ela tem um faro para mentiras. - Liam respondeu, dando de ombros. - Ela consegue descobrir até quando eu não lavo a mão no banheiro e digo que lavei.
- Nojentooo. - a ruiva e seu amigo loiro cantarolaram.
- Pronta? - Styles os ignorou, virando de frente para mim com um sorriso. Encarei a roda em que sua mãe se encontrava, como se estivesse apenas observando o local, e pude ver que ela nos encarava com um sorriso. Arrumei a gravata de Harry, com pretexto de chegar mais perto dele, e o beijei na bochecha. Ouvi risadas baixas e alguns gritos altos dos amigos do cantor, e mesmo com pouco tempo de convivência eu já sabia que os gritos vinham de Louis e Niall.
- Não, mas vamos. - o beijei na bochecha novamente, pegando em sua mão, esperando que me guiasse até minha nova sogra. O garoto abriu um sorriso gigante, me puxando.
- Mãe! - exclamou ao chegar à roda, soltando minha mão por alguns segundos para abraçar a mulher, mas voltando a apertá-la logo. - Olá para todas. - disse, sorrindo para as outras mulheres.
- Olá, querido. Vejo que trouxe uma surpresa hoje. - uma das mulheres me encarou simpaticamente, mas mesmo assim cheguei a tremer um pouco, não passando despercebido por Harry, que passou o braço carinhosamente pela minha cintura.
- Sim. - sorriu para mim. - Essa é minha namorada .
Eu travei, - aliás, sempre faço isso- e sabia que faria alguma merda em seguida, uma delas seria sair correndo dali. Passou alguns segundos até que meu cérebro finalmente perceber que eu não havia falado nada ainda. As três mulheres me encaravam com um sorriso de compaixão, entendendo o que se passava comigo, e a mãe do garoto me olhava como se eu fosse a coisa mais fofa que seus olhos já viram. O aperto de Harry se intensificou na minha cintura e eu juro que pude ouvir a risada presa em sua garganta.
- Ah... - tentei fazer minha voz funcionar. Não havia dúvidas que eu estava tão vermelha quanto as flores dispostas pelo lugar. - Hm... - tossi. - Oi.
- Oi, querida. - a mãe de Harry deu um passo para frente, me tirando dos braços de seu filho e me levando até os seus em um abraço apertado. - É tão bom conhecê-la, meu nome é Anne, nada de Sra. Styles - foi impossível não sorrir com a simpatia daquela mulher.
- Prazer em te conhecer também. - minha voz saiu alta e firme, o que me fez sorrir ainda mais orgulhosa por dentro. - Harry fala muito de você.
- Mas é claro, esse garoto me ama de mais. - riu alto, levando suas amigas à acompanharem.
- Mãe... - Harry resmungou baixo, levei a mão ate suas bochechas a apertando, fazendo com que um peixinho se formasse ali, ele me encarou com a sobrancelha arqueada e as mulheres riram-se ainda mais.
- Ela é linda, Hazz, parabéns. - a mulher número 3, era assim que eu as identificava agora, disse.
- Obrigada. - murmurei ao mesmo tempo em que ouvia Harry afirmar que sabia daquilo. Encarei o nada sentindo a vermelhidão tomar meu rosto.
- Tão fofa. - a mulher 2 afirmou.
- Ok, vamos deixar os dois em paz. Foi ótimo te conhecer. - Anne disse, pegando em minhas mãos que estavam se esfregando uma na outra nervosamente. - Agora saíam daqui, vão namorar. - balançou suas mãos, nos enxotando.
- Meu Deus. - Harry falou, me puxando para longe, assim que as mulheres começaram a gargalhar novamente.
- Foi ótimo, não foi? - perguntei parando no meio do caminho, o fazendo parar também se virando para mim. - Não foi. Você está nervoso. Não foi ótimo. Eu te envergonhei, não? Me perdoa, por favor, eu não sabia o que... - Harry me calou novamente, dessa vez quando seu rosto se aproximou do meu rapidamente, seus olhos na direção dos meus, assim como seus lábios, que caçaram os meus em um beijo rápido.

xx

Eu estava no automático tinha mais de quinze minutos. Eu podia ouvir Louis me zoando sem parar e Niall gargalhando de suas piadinhas, mas nenhuma resposta saia da minha boca. O braço de Harry estava apoiado na minha cadeira, o deixando muito perto de mim, o que era péssimo para minha sanidade e meu autocontrole. Quando seus lábios colaram nos meus em um gesto simples poucos minutos atrás, eu me desesperei, e, sem controlar meu corpo e minhas vontades, a única coisa que eu fui capaz de fazer foi jogar meus braços em volta do seu pescoço desesperadamente e colar nossos corpos. Eu estava há um mês sem beijar alguém, alias cinco anos sem beijar qualquer boca que não fosse de Luca, e, quando aquele moreno ridículo se aproximou de mim perigosamente, meus hormônios saíram pulando por meus poros, fazendo uma festa pelo meu corpo. Eu beijei Styles com uma euforia tão grande que somente quando ele finalizou o beijo com alguns selinhos e me olhou pronto para gargalhar, fui capaz de cair em mim e perceber o mico que estava passando, eu o havia agarrado como se minha vida dependesse daquilo e eu estava me odiando cada segundo desde aquele momento. Não foi nem preciso chegarmos até nossa mesa para que Louis começasse a aplaudir e assoviar, fazendo com que eu ficasse vermelha.
- Uau, que performance, , estou impressionado. - disse ironicamente, ainda batendo palmas.
- Vai se foder. - falei, roubando a taça que estava na mão de Liam a virando em um gole só, me jogando em seguida na cadeira e ali permanecendo sem me mexer até agora.
Uma mulher apareceu chamando todos que estavam nas mesas para nos locomovermos até onde seria realizado o casamento. Assim que chegamos perto dos bancos brancos, Harry foi chamado por sua mãe e uma moça para que nos sentássemos com elas na primeira fila, ele me puxou pela mão na direção das duas, mas antes de chegarmos até elas percebi que o banco já estava ocupado por algumas mulheres e só caberia Harry ali sentado.
- Ei, - sussurrei, fazendo ele se virar para mim. - vou ficar aqui atrás com os meninos e a ruiva, ok? - ele abriu a boca para negar, mas fui mais rápida, soltando sua mão, pronta para voltar. - Vai lá. - sorri, virando de costas para ele.
Caminhei até os garotos na última fila, que ao perceberem minha presença se apertaram no banco. Sentei ao lado do garoto quito e mesmo com a movimentação ele não tirou os olhos do celular. Suspirei alto, na esperança que ele me notasse minha presença. Tossi uma, duas, três vezes até que ele se cansasse, desligasse o celular e olhasse para mim com as sobrancelhas levantadas.
- Oi. - murmurou descontente.
- Oi! - sorri. - Tudo bem?
Sua resposta foi um estralar de língua e um pequeno dar de ombros. Rolei os olhos, olhando para frente e o ignorei como uma criança emburrada, ok... Se não queria conversar, não conversaríamos. Percebi quando Louis, que estava ao seu lado, lhe deu uma leve cotovelada - não tão leve assim-, com uma provável careta no rosto apontando para mim. Ouvi ele se dar por vencido pigarreando levemente e eu olhei para o outro lado como se aquela criança correndo em volta de sua mãe fosse a coisa mais interessante do mundo. Ele pigarreou novamente, tentando conseguir minha atenção, e mirei o céu, tentando enxergar o sol detrás de tantas nuvens. Quando pigarreou pela terceira vez, olhei para ele irritada, o que o fez colocar um bico pequeno na boca.
- Sou Zayn. - murmurou.
- .
- Ah, então, hm... Tudo bem? - murmurou novamente, tentando abrir um sorriso no fim da frase, tendo pouco sucesso.
Estralei a língua no céu da boca e dei de ombros, fazendo com que o rapaz risse baixo, mas dessa vez verdadeiramente. Quando se preparou para dizer algo mais para mim, a marcha nupcial começou a ser tocada pela banda, todos se levantaram para encarar a noiva com seu vestido branco passando pelo tapete vermelho até o altar onde seu futuro marido a esperava com lágrimas nos olhos.
A cerimônia acabou e não havia uma pessoa naquela pequena capela improvisada que não estivesse chorando, e Niall era um dos principais. Os convidados da festa estavam a levantar para voltar as suas mesas, e eu, como enxergava Harry conversando com os noivos, encostei perto de um vaso de flores o esperando.
- Oi. - uma vez feminina falou atrás de mim, me assustando. - Desculpa não queria assustar
- Ah, Anne, oi. - virei para ela, vermelha de vergonha pelo pulo desastroso que tinha dado.
- Harry te deixou aqui sozinha? Não foi assim que o eduquei. - disse, me fazendo rir baixo.
- Eu que me distanciei um pouco.
- Venha, irei te apresentar para meu marido. - me puxou para o lugar da festa até uma roda com várias pessoas. E Karen. Meu Deus. Tentei travar meus saltos na grama e dizer alguma coisa, mas Anne me puxava com um sorriso dizendo que Hazza não se importaria em ser deixado lá. - Oi, gente. - a mulher disse alto chamando toda a atenção da roda para si, quando, enfim, todos a responderam, ela me colocou ao seu lado, passando as mãos por meu braço. - Essa é . Namorada do Harry!
- Oi. - murmurei envergonhada, tentando sorrir para todos que ali estavam e que me encaravam com os olhos arregalados.
- Minha nora! - um homem se destacou vindo até mim e me puxando para um abraço, me assustando, minha única reação foi dar dois tapinhas em sua costa, o que fez Anne gargalhar e eu querer me estapear por minha idiotice. - Prazer em conhecê-la.
- Prazer é meu. - respondi.
- Engraçado... - a tal Karen começou a falar e eu gelei. - Harry havia me dito semana passada que estava namorando uma garota chamada Alice e que era loira. - comentou alto propositalmente, fazendo com que o resto da roda que não estava mais me analisando minuciosamente voltasse seus olhos para mim.
- ! - Harry surgiu do além me chamando, passando o braço por meus ombros, me puxando para seu peito. - Você sumiu, amor.
- Eu a trouxe para cá. - Anne respondeu o garoto, com os olhos ainda presos em mim, por causa do comentário de Karen.
- Desculpa. - murmurei, tirando coragem se não sei de que lugar, para selar meus lábios nos de Harry, agindo como um belo casal e, finalmente, criando coragem para virar para Karen. - Harry tem o costume de me chamar de Alice, por causa da história, sabe? Talvez seja por isso que tenha te dito tal coisa, não é, amor? - ergui o rosto encarando Harry, que desde que eu havia começado a falar, tinha trancado a respiração e apertado meu ombro fortemente.
- Ah, sim! - balançou a cabeça, abrindo um sorriso falso para mim e beijando minha testa. - Acreditem... Ela é tão perdida e louca quanto a Alice.
Pude ver a maioria desviar os olhos de nós dois, como se o show tivesse acabado e Anne reabrir o sorriso doce em seu rosto, olhando para nós com o brilho que eu havia acostumado a ver em seu olhar.
- Bom, vamos voltar para nossa mesa. - Harry balbuciou, dando um pequeno aceno com a mão me puxando dali. - Porque você foi até lá?
- Ei! Tua mãe me puxou, eu não poderia negar. - retruquei com o mesmo tom bravo que ele usara.
- Você poderia ter falado que ia me esperar, Karen quase descobriu tudo, você quase estragou tudo. - soltou meus ombros em um gesto bruto quando estávamos longe o bastante da sua família.
- Sério? – perguntei, o encarando brava. – Sério mesmo que você vai colocar a culpa em mim?
- Se não fosse por você ter ido lá, Karen não teria falado aquilo na frente de todo mundo. - esbravejou, puxando meu braço para que eu virasse de frente para ele.
- Quer saber de uma coisa? - perguntei, livrando meu braço de sua mão, olhando em seus olhos e soltando uma risada. - Vai se foder. - o observei quase desmanchar a cara irritada e caminhei de volta para a festa, já que ele havia nos puxado para longe de lá.
- Bem matura! - gritou para as minhas costas, virei para ele andando de costas e estendi meus dois dedos do meio em sua direção. Foi impossível não rir, quando o garoto aumentou o sorriso e negou com a cabeça, a abaixando.
Cheguei ao salão improvisado observando que os noivos ainda não haviam chego, e a no pequeno palco no fim da tenda, uma banda terminava de finalizar a montagem de seus equipamentos. Sentei-me com a boyband desfalcada e a ruiva, aceitando o copo de vinho que um garçom passou oferecendo. Não demorou muito para que Styles se juntasse a nós, rindo baixo assim que me encarou. O garoto se sentou ao meu lado, puxando minha cadeira para mais perto de si e passando seu braço pelos meus ombros.
- Desculpa. - murmurou baixo perto da minha orelha, e foi impossível não arrepiar.
Logo os noivos chegaram no salão, sendo ovacionados e amados por todos que estavam ali, dando inícios aos discursos. Assim que a madrinha terminou seu longo e entediante discurso, Harry se mexeu ao meu lado, se levantando da cadeira e seguindo até o pequeno palco em que todos estavam se dirigindo para desejar felicidades ao casal. Tentei pegar sua mão, e o puxar de volta para a mesa, quando ainda estava ao meu alcanço, mas ele foi mais rápido, apesar de seus passos trôpegos e bêbados. Ele havia entornado mais de três taças de vinho e, depois, quando os padrinhos começaram a discursar e o clima ficou bem mais animado e os garçons passaram a trazer chopp eu perdi a conta de quantas canecas Harry havia pego para si. Sua voz soou rouca no microfone, quando começou a fazer aqueles sons bobos para testá-lo.
- Clássico do Harry, se acostume. - Zayn murmurou para mim, logo depois gritando o nome de Harry e assoviando em incentivo.
- Hey, hey, hey! - exclamou contente, acenando para todos os presentes balançando bastante a outra mão que segurava não tão firme a caneca de chopp. - Estamos todos juntos hoje para celebrar o amor, eu ainda não sei se estou feliz ou triste em ver minha Joane se casando com esse cara aqui, mas eu sei que não existe ninguém no mundo que possa fazer Jo mais feliz, e só por isso, apenas por isso, que eu concordei em deixar você casar com ela, se você fizer alguma merda eu acabo com você. - assim que finalizou a ameaça, metades dos convidados caíram na gargalhada, pois sabiam que Harry era incapaz de machucar uma mosca. - Eu cresci vendo vocês dois apaixonados, superando todas as merdas que tentaram lhes atrapalhar, que nem o cachorro da vizinha que não te deixava escalar a janela da Jo de madrugada, Greg. - o noivo gargalhou e a noiva tentou tampar o rosto vermelho em seu pescoço. - Ou a espingarda que tio James jurava que usaria, quando você escalasse a janela de Jo de madrugada. Ou ainda, quando eu com uns 9 anos tentei trancar Jo no banheiro para sempre, para que ela não pudesse sair contigo e você teve que me explicar por horas que você amava ela e que eu deveria tirar a chave da porta da boca e te entregar logo. - riu brevemente, sendo acompanhado por todos. - Jo, eu te amo, e Greg, te amo também, cara... Infelizmente. Enfim... eu não poderia ser mais grato a vocês por me mostrarem que o amor existe, porqueee... -interrompeu a fala para dar dois passos para trás em uma cambaleada, mas logo voltando ainda esticando o "e" da palavra. - Eu apenas passei a acreditar nele ao ver vocês dois juntos, e eu sempre, sempre, pude ver a paixão que sentiam um pelo outro e foi graças a essa paixão transparente que... - eu vi quando seus olhos encontraram os meus e ele balançou a cabeça para mim, como se para confirmar o que iria dizer em seguida. - Que eu fui capaz de reconhecer quando ela apareceu na minha porta, ao lado daquela garota ali. - apontou em minha direção e, consequentemente, afundei na cadeira. Virei assustada e brava para trás quando Liam puxou minha mão e a ergueu para que todos pudessem ver que a garota era eu. - Obrigado, Liam. É aquela garota vermelha ali mesmo, minha garota. Enfim, obrigada, Jo e Greg, por isso, obrigado pelo amor imenso que sentem um pelo outro. Essa música vai para vocês. E para a minha garota. - virou para os músicos que estavam atrás dele, sussurrando alto. - Ei, vocês conhecem How Deep Is Your Love do Bee Gees?
Sua voz saiu suavemente pelas caixas de sons, hipnotizando e arrepiando todos ali presentes. A banda tocava uma versão mais atual da música, e Harry não demorou a conseguir seguir seu ritmo. Eu podia ver sua mãe logo a minha esquerda com lágrimas nos olhos, direcionando um olhar emocionado para seu filho, provavelmente orgulhosa de suas palavras - não de seu estado-. Harry desceu calmamente do pequeno palco, deixando sua caneca para trás andando até os noivos, que também já choravam. Abraçou os dois sem interromper o refrão que declamava, e virando para mim em seguida. Eu gelei. Seus passos começaram certeiros, mas não demorou muito para que cambaleasse para um lado, o que fez nós rirmos juntos, contagiando todos que o assistiam, logo ele estava em minha frente, me içando para cima e passando os braços pela minha cintura. Terminou o último trecho da musica, olhando dentro dos meus olhos, e quando a última nota soou, o único barulho que se podia ouvir era o choro baixo de alguns convidados.
- Ah, se beijem logo, pelo amor de Deus. - a voz de Louis soou alta pelo lugar, fazendo todos rirem alto, e nós colarmos nossos lábios em um beijo rápido. Os gritos e as palmas vieram em seguida.
Quando nos separamos, Harry se inclinou até meu ouvido sussurrando baixo. - Acho que Karen gostou do espetáculo. - e eu murchei.

xx

- Leve-a para passar o natal em casa, Harry. - a tia do garoto disse, após me soltar do terceiro abraço.
- Ela não vai poder, por que...
- Vou para o Brasil, visitar a família. - completei a frase, assim que Harry não conseguiu terminá-la, assustando o garoto, que me encarou com a sobrancelha arqueada.
- Você é brasileira? - Anne perguntou contente e quando me viu afirmar se animou mais ainda. - Isso é maravilhoso!
- Bom, outro dia vocês mimam mais a namorado do Styles, a gente precisa ir, já está tarde. - Louis entrou na conversa.
Dei mais um abraço em Anne e alguns acenos para enfim podermos sair daquela festa. Louis tomou a chave do carro da mão de Harry assim que nos aproximamos do veiculo e o garoto deu mais uma cambaleada bêbada. A viagem de volta foi mais tranquila e rápida, acompanhada do barulho de beijos do casal apaixonado, o que fazia com que Louis e eu trocássemos olhares enojados o tempo todo, e pelos roncos baixos de Styles. A primeira parada do carro foi na casa de Margot, onde o casal desceu aos tropeços e não precisaram chegar até a porta para começarem a se beijar com urgência.
- Meu Deus, toca esse carro logo. - implorei para Louis, que gargalhou alto, ligando o carro novamente.
- Próxima parada sua casa? Ou você prefere a minha? - virou para mim com um sorriso torto preso no rosto. Eu esperava que ele estivesse brincando por que, por Deus, eu não conseguiria me controlar.
- Eu agradeço a proposta... - ri baixo, tentando disfarçar a tremedeira que estava. - Mas preciso mesmo ir para casa. Fica para a próxima. - pisquei, brincando e rindo.
- Não vou esquecer essas palavras.
- Parem de flertar, eu to aqui, pelo amor de Deus. - a voz de Harry veio fraca e abafada do banco traseiro, fazendo nos dois gargalharmos.
Cortando alguns caminhos, logo Louis deslizava suavemente o carro pela minha rua, parando em frente ao studio. O tempo que levei para decidir se me despediria com um beijo, um abraço ou só palavras, foi também o tempo que Louis levou para checar seu amigo adormecido no banco de trás e se inclinar para me dar um beijo na trave.
- A gente se vê por aí, vou garantir isso. – voltou ao seu banco se ajeitando, me deixando entorpecida no meu.
- Hm... – murmurei, chacoalhando a cabeça para colocá-la em ordem. Por Deus, não era nem um beijo, porque eu estava naquela situação? Decidi qual papel faria no mesmo instante em que seus olhos voltaram para mim, abri o sorriso mais malicioso da minha coleção, mirando meus olhos nos azuis que me encaravam. – Não vou esquecer dessas palavras. – seu sorriso se abriu instantaneamente, o que fez eu, em uma fração de segundos, ficar vermelha. – Boa noite, Harry. – Murmurei, saindo do carro e me dirigindo para casa.



Capítulo 5

Era sexta-feira. Cinco da tarde. Eu tentava tomar o chá forte calmamente, apesar de estar tremendo por inteiro. A única coisa que havia feito naquele dia era tremer descontroladamente de nervosismo e virar na cama, tentando arranjar uma desculpa para cancelar o jantar de hoje que teria com Luca e sua namorada. Styles não havia dado notícia desde o dia do casamento, ao contrário do que eu imaginara que ele faria. Até mesmo quando alguns sites soltaram fotos do casamento, em que eu aparecia agarrada a ele e diversas garotas encontraram minhas redes sociais, eu passei o dia pensando em como deixá-lo tranquilo, dizendo que eu não ligava para aquilo, mas Harry não apareceu. Então, naquela sexta maldita, eu só me permiti pensar em Luca e ignorar completamente minha vontade de matar aquele garoto por ter quebrado a pequena promessa que havia me feito. Finalizei o quinto chá de camomila ainda tremendo, decidida a levantar daquela cama que eu não arrumava há dias e ligar para Luca. Disquei os números que eu havia deletado do celular quatro semanas atrás em um acesso de choro, mas que eu acabei decorando, porque o universo é horrível assim mesmo. Ouvi o primeiro toque, o segundo, o terceiro e desliguei o celular em um pulo, jogando-o no sofá e correndo para minha cama novamente. Gritei contra o travesseiro, batendo os pés, como numa clássica birra.
- Você precisa reagir, . – berrei para mim mesma. – Você vai ligar agora.
Joguei os cobertores longe, rumando até o sofá, pegando aquele celular e discando os números. Consegui chegar até o quinto toque antes de desligar. Grunhi irritada por conseguir ser tão babaca daquele jeito. Respirei fundo antes de apertar para refazer a última ligação, mantendo um mantra em minha mente que não durou até ouvir o barulho de que Luca havia atendido o celular e, então, deslizei meu dedo até o botão de desligar assustada. Enquanto eu gritava, mais uma vez, irritada por eu não conseguir fazer aquela ligação, o celular tremeu em minhas mãos, conseguindo me assustar o dobro do que já estava. Quando parou de tocar Uptown Funk e meu studio voltou ao silêncio eu suspirei em alívio, mas não demorou muito para que ele voltasse a tremer. Grunhi novamente, irritada, tentando tomar a coragem que eu sabia que não tinha. Fiz um nome do pai e deslizei a bolinha verde.
- ? – Luca perguntou, com uma voz cansada de quem segurava a risada, pude ouvir berros femininos na linha. – , é você?
- Eu.
- Oi, . – respondeu depois de alguns segundos em que eu só ouvia sua respiração cansada e os risos. – Você me ligou um monte de vez... SAMANTHA, PARA DE CORRER. – mais gritos tão altos e felizes que eu estava com vontade de vomitar. - Oi, pronto. Desculpa, estava tentando pegar minha camisa com a Sam, ela não quer deixar eu me vestir.
- Hm. – prendi o grito de ódio.
- Ahn, então, você me ligou, mas quando ia atender desligava.
- Ah... meu celular está com problema.
- Ah, sim. Ligou para confirmar o jantar? – perguntou, e quando não respondi, continuou a falar. – Sam e eu vamos nos atrasar um pouco, ela vai se arrumar agora e eu preciso me arrumar em casa. – distanciou a voz do celular.  - Não esse vestido não, ele me deixa com vontade de tirá-lo agora. – eu engasguei. – ?
- Oi.
- Tudo bem?
- Sim, só liguei para dizer que Harry e eu também vamos atrasar, só levantamos da cama agora. – era, em partes, verdade. Coloquei o celular um pouco longe do rosto, fingindo que tentava ouvir algo. – O quê? Ah, Luca, desculpe, Harry está me chamando no chuveiro, vou ter que desligar. Tchau
Joguei o celular longe sem antes ouvir sua resposta, berrando todo o ódio que estava sentindo. Cacei o notebook embaixo da cama, pesquisando rapidamente o que precisava saber, o que a internet, como sempre, me respondeu de bom grado. Vesti a primeira calça que encontrei, socando os pés dentro das botas, pegando meu celular no chão e o casaco jogado em cima do sofá, me dirigindo para a porta do studio e  depois para o metrô de Londres. Quarenta minutos e alguns ônibus errados depois eu estava parada em frente a uma casa grande, com um portão maior ainda na esquina de uma quadra gigantesca. Algumas garotas estavam paradas em roda no meio da calçada e não demoraram muito a encarar eu em frente ao portão sem saber o que fazer. O plano havia sido montado em dois segundos na minha cabeça. Eu iria encontrar a casa de Styles no Google, iria para lá de metrô e ônibus, o encontraria e usaria de todos os bons argumentos que eu pudesse inventar para que fosse ao jantar comigo, a parte principal de como eu iria conseguir falar com ele foi completamente ignorada no meu plano. Dei dois passos para o lado, tentando ver a casa por um buraco no portão. Nada. Estava tudo vazio lá dentro, a única coisa que me ajudava a ter certeza de que aquela era a casa dele, eram as garotas sussurrando sobre a banda.
Garotas estas, que agora me olhavam atentamente, sem disfarçar, talvez pelo fato de eu estar parada na frente da casa há mais de cinco minutos sem nem me mexer  Abri um sorriso sem graça para elas, me mexendo para seguir a esquina e virá-la. Aquela rua estava praticamente vazia, com alguns carros estacionados, poucos passando e menos pessoas ainda, isso me motivou a ir até a frente da casa da vizinha de Styles e roubar a lixeira quase cheia, apoiando-a no muro. Foram necessários dois impulsos e alguns olhares da velha que passeava com um cachorro na rua, para eu conseguir subir na lixeira e apoiar as duas mãos abertas na beira do muro, e mais diversas tentativas para que conseguisse sentar nele. Encarei a velha abrindo um sorriso vitorioso, que a assustou e a fez andar mais rápido. Passei as pernas pelo muro, encarando agora um jardim com muitas flores coloridas e uma pequena cachoeira. Quando dei o impulso que precisava para descer daquele muro alto e senti meu corpo se lançar para o chão, um pequeno miado me assustou, e em fração de segundos eu vi a vida daquele gato branco que estava bem onde meu corpo aterrissaria, passar por seus olhos. Soltei um grito alto, tentando jogar o peso do meu corpo todo para o lado, enquanto o gato assustado já corria em direção a portinhola na porta.
Meu pé latejou no mesmo instante que tocou o chão. Ao fundo do barulho do meu choro, ouvi a porta da casa se abrindo, acompanhado da gargalhada que eu havia enjoado de ouvir no fim de semana passado.
- Me diz que eu não vi o que acabei de ver. – o garoto disse por entre as risadas altas que soltava, andando até mim, que continuava sentada no chão segurando o pé dolorido. – Você está bem?
- To. – resmunguei, apoiando meu peso no braço que ele oferecia, colocando um bico de pirraça na boca.
- Você pulou mesmo o muro para me ver ou eu delirei quando estava olhando pela janela?
- Eu não pulei o muro para te ver. –o respondi brava, entrando na casa.
- Bom, foi o que pareceu.
- Não é só porque a coisa aparece que ela é. Um dia eu encontrei com o Ryan Gosling na rua e pareceu que ele estava flertando comigo, mas era só ele rindo do pinto que Luca tinha desenhado na minha testa sem eu ver antes de sair de casa.
- O que? – perguntou, gargalhando novamente, tentando se concentrar em me ajudar a sentar no sofá branco de sua sala.
- Olha, não vim até aqui para falar disso.
- Mas foi você que...
- Shh. – o interrompi, levando meu dedo indicador até seus lábios pedindo silêncio.
- Então, vamos falar sobre você ter pulado o muro para, claro, fazer outra coisa que não seja me ver. – finalizou a frase rindo ao ver minha cara descontente.
Encarei seu rosto, tentando montar no meu a melhor expressão de tristeza da minha coleção.
- O jantar. – falei baixo, após respirar algumas vezes e tomar fôlego o suficiente. – Com meu ex. Fiquei esperando você dar notícias e não deu. Ai eu ia desmarcar, eu juro que ia, mas ai eu liguei para o Luca um milhão de vezes e desligava antes, porque eu não tenho coragem nenhuma. Sabe quando perguntam “você é mulher ou um saco de batatas?” Então, eu sou o saco de batatas. Meu Deus, eu sou o saco de batata, Harry!  - falei desesperada, abaixando a cabeça até meus joelhos quase soltando o choro que ainda estava entalado. - Eu não tive coragem de ligar para ele e sair por de baixo na situação, sabe? A gente namorou por tanto tempo e ele já tá em outra e eu aqui sofrendo que nem uma babaca. Aí quando ele me ligou de volta, ele tava com Samantha, dá para acreditar? – Harry abriu a boca para me responder, mas fui mais rápida continuando o monólogo. – Aí eles ficaram rindo no telefone, “Ai Sam me deixa por roupa”, “vai sem roupa, por favor”, ”por favor, fique eternamente nua na minha frente” – afinei a voz em uma ridícula imitação, vendo Harry prender a risada. – E eu fui obrigada, obrigada mesmo a dizer que a gente ia, mas daí como a gente ia sendo que você tinha sumido? Poxa, Harry, eu tinha mesmo confiado em você, sabe? E você não apareceu, e eu me desesperei e...
- Eu vou.
- E aí, eu tive que vir aqui e pular seu muro... – parei de falar, tentando entender o que o garoto tinha dito. - O que você disse?
- Que eu vou. – me respondeu. – Eu estava preso com coisas do álbum novo essa semana, não tive como ir atrás de você. Estava esperando dar sete horas para ir te buscar, eu sabia que você estaria me esperando pronta.
- Como? Por quê? – perguntei igual uma boba, com a boca aberta encarando seu rosto.
- Porque você mostrou que tinha confiado em mim, e me ajudou tanto no casamento, eu não tinha como te abandonar nessa, , e nem iria.
- Mas você está falando sério?
- É claro. – respondeu, abrindo um sorriso. – Mas agora, precisamos ir mais cedo, né? Ou você prefere ir de jeans no jantar?
- Meu Deus, eu preciso me arrumar! – exclamei, pulando do sofá, esquecendo completamente do pé supostamente machucado. – Vamos, Harry, você está me atrasando, vamos, vamos!
Sai correndo em direção à porta, pulando sem parar como se aquilo fosse apressá-lo, enquanto Styles, calmamente, procurava alguma coisa por sua sala. Depois de alguns gritos meus, e gritos das garotas na calçada que pareciam ter percebido a barulheira na casa do garoto, Harry surgiu na porta, e agora fui capaz de perceber como ele estava arrumado. O garoto usava uma calça preta larga, suas famosas botas pretas e uma camisa branca com alguns botões abertos, estava com um terno jogado nos braços e na outra carregando um buquê de flores. Toda ansiedade me atropelou de uma vez só, mas calmamente, da mesma forma que ele, fingi não notar as flores em sua mão, e o observei desligar o alarme do carro para entrarmos. Quando o portão automático começou a abrir, as garotas, que ainda estavam lá fora, aumentaram o volume de seus gritos – como se fosse possível-, correndo até o carro, e, apesar do vidro praticamente escuro, perceberam que Harry não estava sozinho e se dividiram entre bater na minha janela e na dele. Foram preciso algumas manobras e buzinas para conseguirmos sair pelas ruas de Londres cantando pneus.
Estávamos no trânsito há pouco menos de 15 minutos e eu já me sentia extremamente entediada. Já havia mexido no porta luvas três vezes, puxado a carteira de Harry que estava jogada perto da marcha e a revirado, encontrando coisas que eu preferia não ter encontrado, que me deixou vermelha e fez o garoto soltar mais algumas gargalhadas. Agora, com o silêncio reinando dentro do carro, eu tomei coragem, enquanto Harry permanecia distraído olhando o trânsito, para levar a mão até o rádio e ligá-lo. O refrão de Toxic berrou alto inundando o ambiente, o que fez o garoto dar um pulo de susto e bater o braço na buzina, ficando vermelho ao me ver rir de sua trapalhada.
- O que foi isso? – perguntou ainda assustado, diminuindo o volume do rádio.
- Eu só liguei o rádio. – dei de ombros.
- Toxic?
- Não tenho nada a ver com isso.
Murmurou algo em concordância com minha resposta, aumentando o volume do rádio novamente. Tentei ignorar quando seu corpo mexeu para os dois lados em uma dancinha contida, quando balançou os ombros ou, ainda, quando murmurou no ritmo da música, mas, quando o terceiro refrão ia começar, Styles me olhou como se pedisse permissão para cantar a música, e, como resposta, deixei minha voz desafinada e alta acompanhar a de Britney, o que fez o garoto gargalhar e se juntar a nós duas.
- With the taste of your lips, I’m on a ride, you’re toxic, I’m slipping under with the taste of a poison, I’m in paradise. – cantamos juntos, ele afinadamente e eu sem ritmo algum. Dei um espaço para rir, enquanto ele continuava cantando.
- I’M ADDICTED TO YOU. – berrou sozinho com sua voz rouca, o que me fez arrepiar e continuar olhando para ele que estava se entregando a música ali. – DON’T YOU KNOW THAT YOU’RE TOXIC? Vamos, !
Tomei fôlego, gritando com ele o resto da música, revezando as partes, sem nos importar com os carros que buzinavam e as pessoas aos lados que encaravam o vidro quase abaixado. A música finalizou, e não demorou nada para começarmos a rir sem parar. Harry, largando o volante por apenas alguns segundos, puxou minha cabeça para perto de si para deixar um beijo na minha têmpora, o que, eu sei que parece impossível, mas fez meu sorriso aumentar ainda mais.

xx

Estávamos atrasados vários minutos e eu não estava nem perto de estar pronta. Eu tentava, sem sucesso algum, fazer com que Styles me ajudasse em algo, enquanto corria desesperada pela casa só de roupão, começava a maquiagem, procurava meu celular que gritava recebendo mensagens e revirava meu guarda roupa atrás de qualquer roupa usável. O garoto estava jogado em cima do meu sofá junto com inúmeras roupas que eu havia descartado, revirando os olhos com impaciência.
- Será que dá para você parar de fazer essa cara? – resmunguei irritada, deixando de tentar fazer o delineado para encarar Styles.
- Eu não estou fazendo nada. – respondeu, logo completando ao ver minha cara irritada. – Desculpe, mas você está se arrumando há mais de uma hora e não fez nada ainda.
- Não fiz nada? – perguntei, arregalando os olhos. - Eu tomei banho e tenho metade de um delineado feito!
Harry levantou do sofá, derrubando alguns vestidos que estavam no seu colo e nem ligando quando abri a boca para reclamar. Resgatou uma calça pantalona bege que estava perdida em cima da televisão, deixando-a ao lado de uma blusa preta decotada de manga longa que estava na cama. Enquanto eu ainda tentava entender o que estava acontecendo, ele caminhou até meus sapatos e depois até mim, soltando um salto preto fino ao meu lado e estendendo sua mão direita em minha direção. Encarei sua mão por vários segundos procurando entender o que ele queria. O silêncio entre nós começava a ficar incômodo e a situação embaraçosa, foi então, que eu estendi a mão vazia até a sua, balançando-a para cima e para baixo lentamente, em um cumprimento constrangedor. Styles abaixou a cabeça, passando a mão livre pela testa, tremendo seu corpo inteiro enquanto ria de mim. E eu ainda segurava sua outra mão, balançando lentamente.
- Eu queria o delineador. – disse, ao conseguir parar de rir.
- Você queria o... ah! – senti meu rosto esquentar, assim que entendi o que o garoto queria.
Soltei sua mão devagar, abrindo um sorriso e montando uma expressão de quem sabia o que estava fazendo. Joguei o cabelo para o lado, encarando qualquer coisa que não fosse o rosto do garoto que ainda ria baixinho e estendi o delineador para ele.
- Você é uma piada, . – murmurou. – Agora senta aqui. – apontou para minha cama.
- O quê? – perguntei sem entender.
- Senta.
- Não.
- Senta logo. – rolou os olhos, tentando manter a calma.
- Por quê?
- Vou terminar sua maquiagem. – respondeu, fechando a cara ao me ver tentando esconder a risada.
- Você vai terminar minha maquiagem? – a frase saiu cortada, por eu tentar segurar a risada e falar ao mesmo tempo.
- !
Com seu grito rouco e alto, me assustei, arregalando os olhos e dando as duas passadas largas até chegar à cama e sentar nela. Harry, calmamente, parou na minha frente, erguendo meu rosto em direção ao seu, fixando seu olhar em mim e, não precisou mais de um segundo, para que eu ficasse vidrada em seus olhos e sua boca. Depois que tomou um tempo se concentrando, e eu, sem fazer nada além de viajar meus olhos pelo seu rosto, ele começou a se inclinar, fazendo com que eu, mecanicamente, prendesse a respiração, anestesiada, fechando meus olhos e pondo um pequeno bico na boca esperando pelo beijo. A lembrança de que ele iria fazer minha maquiagem veio, quando depois de poucos segundos, seus lábios não pousaram nos meus. Meu rosto começou a ferver e piorou quando abri os olhos e encontrei Harry me encarando sem entender nada. Embaraçosamente, tentando esconder o que eu havia esperado, comecei a abrir e fechar a boca como em um exercício facial, o que, incrivelmente, fez a expressão de confusão do garoto piorar.
- A maquiagem, Styles. – murmurei, após pigarrear.
- Ah, sim, eu só tava... hm... – resmungou, ainda com a confusão presente, mas dando de ombros e se inclinando novamente em minha direção.
Quando suas mãos suaves abandonaram meu rosto, pude finalmente respirar livremente. Esperei alguns segundos para me levantar, enquanto Harry encarava meu rosto para ver se estava tudo certo, e, ao vê-lo levantando os dois ombros, corri em direção ao espelho para checar o que ele havia feito ali e estava... perfeito. Além do delineado de gatinho, o garoto havia aplicado uma sombra clara, bem natural. Abri a boca, agora pintada de vermelho, o olhando assustada.
- Onde aprendeu isso?
- Tenho uma irmã sem dom algum e muito tempo livre com a Lou. – deu de ombros, se jogando no sofá novamente.
- Ficou, hm... – pigarreei. – Muito bom, obrigada.
- Nada. – deu de ombros outra vez, apontando para o banheiro. – Vai se trocar agora.
Dei um pulinho embaraçoso, correndo até o banheiro com a roupa e os saltos em mãos. Tentei colocar toda a roupa sem estragar o trabalho que Harry havia feito, o que demorou mais que o comum e fez o garoto começar a gritar por mim. Eu estava calçando o sapato ainda, quando os gritos na sala passaram de calmos para assustados, o que fez eu sair apressada do banheiro, tentando entender o que estava acontecendo. A cena que me deparei na sala, fez uma gargalhada alta escapar da minha garganta mesmo eu não querendo, ou entendendo. Harry Styles estava de pé no meu sofá, com o sapato com as solas sujas pressionando minha almofada rosa, o que renderia uma discussão se a cena não fosse tão engraçada, apontando para um pequeno rato no chão que o encarava como se desafiasse o garoto a gritar mais alto.
- Essa cena é real ou eu estou sonhando?
- Sonhando! TIRA! – gritou as duas palavras, apontando para o bichinho.
- É só um rato. – revirei os olhos, caminhando calmamente até eles, abaixando e tentando me aproximar do rato.
- Não toca nele!  Você tá doida?
- Como que eu vou tirar ele daqui sem tocar? – ignorei o grito agudo do garoto quando o rato se aproximou da minha mão e eu a fechei em volta dele. Aproximei a mão com o animal próximo a Harry, rindo alto ao vê-lo gritar novamente, saltando do sofá para se distanciar de mim. Abri a janela do Studio, soltando o pequenino na escada que havia ali, fechando janela e cortina, conforme o garoto assustado gritava para que eu fizesse.
- Santa Quitéria, que escândalo!  - reclamei, caminhando até a pia para lavar as mãos com todos os produtos que eu tinha.
- Santa o quê?  - perguntou, mas não deixou nem eu responder para continuar a falar. – Você sabe quantas doenças um rato pode trazer?
- Eu sei, eu sei, mas o bichinho não tem culpa, e não merece ouvir esses teus gritos por causa disso. Cagão.
Styles nem esperou eu secar minhas mãos para sair pela porta do studio resmungando. Calcei o outro salto que estava jogado no chão, correndo atrás do garoto, que não virou para me encarar nem quando eu comecei a imitar seus gritos por causa do roedor.



Capítulo 6

- ! Vai ficar tudo bem.
- Não vai. Não vai. Santa Quitéria me ajuda. Eu vou desmaiar! Me segura, eu vou cair.
- Você está sentada. – Harry murmurou, abanando uma folha no meu rosto.
- É o fim. Eu não vou conseguir. – sussurrei, virando de frente para o garoto que ainda estava sentado no banco do motorista, segurando seus ombros. – Vamos embora daqui.
- Ok! Chega disso. – disse, tirando minhas mãos que ainda o segurava. – Chega agora. É só o seu ex, você não precisa surtar por causa disso, vai sair tudo bem. Agora se acalma.
- Só o meu ex? Só o meu... – Engasguei. – Só? É meu ex com uma namorada melhor que eu jamais fui e que jamais vou conseguir ser. Eu vou morrer sozinha com 50 gatos e o Luca vai morrer feliz com a Miss Universo. Miss todos universos. Porque ela tem que ser tão linda? – Gritei a última frase, segurando seus ombros novamente.
- Chega! – gritou irritado, apontando o dedo direto para minha cara, o que me fez quase rir da sua feição brava. – Agora é sério. Chega!  A garota pode ser quão linda ela quiser, mas ela nunca vai ser você. Você é única e vai continuar sendo, não tem mais nenhuma perdida pelo mundo. É só você. E não sou o único que vê isso. Você vai achar alguém, um milhão de vezes melhor que Luca, ou a Samantha, ou eu. Agora para de surtar, vamos entrar nesse restaurante e mostrar para eles quem é o melhor casal dessa porra desse universo.
- Ahn... – murmurei, assustada depois de receber tanta informação. -Hm... pode ser?!
O garoto negou com a cabeça, saindo do carro e o contornando para abrir a porta. Eu respirei fundo uma, duas, três vezes, até conseguir criar coragem para segurar a mão que ele me estendia e sair daquele veículo.
Obviamente Luca havia escolhido um dos melhores restaurantes da cidade, pois sabia que eu era uma pé-rapada e não teria dinheiro para pagar um pratinho que fosse daquele lugar. Mas ele não contava com meu namorado dono e proprietário de boyband, e o plano que eu havia montado em minha cabeça de que eu faria Harry pagar por tudo e depois eu o pagaria de volta em umas 50 parcelas de 50 libras.
Assim que entramos no restaurante, Harry cumprimentou o anfitrião do The Ledbury como se fossem velhos amigos, logo me puxando ao seu lado para que eu conhecesse George.
- George, nós viemos encontrar uns amigos, provavelmente a reserva está no nome de Luca…?
- Danvers. - respondi de prontidão.
- Só um segundo, Sr. Styles. – o homem uniformizado consultou a tela do computador por alguns segundos, logo voltando sua atenção para nós. – O Sr. Danvers e sua acompanhante já chegaram, mas não sabíamos que o senhor estaria junto, então foi reservada uma mesa no meio do salão. Se for da vontade do senhor, podemos mudá-la para sua mesa de costume.
- Por favor, George, se não for muito incômodo. – Harry me encarou, com um leve sorriso que eu logo retribuí, mesmo sem entender o por que do garoto aparentar estar tão contente.
Não que eu quisesse esfregar na cara do casal Itália que meu “namorado” era famoso e necessitaria de uma mesa afastada para podermos não ficar aos olhos dos fãs e paparazzis, mas era exatamente isso que eu esfregaria na cara deles.
Seguimos George por entre algumas mesas até alcançar um lugar reservado, com uma mesa sendo posta por alguns garçons, que logo terminaram e puxaram as cadeiras para sentarmos. Agradeci com um sorriso no rosto, tentando não demonstrar todo meu nervosismo. Eu sabia que seria difícil Luca comprar toda aquela história de namoro, ainda mais com o pequeno detalhe de que Styles e eu não possuíamos química nenhuma, mas todos os deuses sabem que eu estava ali pronta para fazer todo o possível para aquele jantar sair perfeito, principalmente com aquele casal saindo chorando desolados daquele restaurante.
- Se acalma!
- Eu estou calma, Harry! Eu estou o mais calma possível. – respondi entre dentes, enquanto um garçom servia mais vinho na minha taça.
- É claro que não está, você não para de tremer.
- É por isso que eu vou virar esse litro de vinho garganta abaixo, para estar bêbada o suficiente para não prestar atenção no... LUCA! Oi! – engasguei enquanto falava, vendo outro garçom acompanhar Luca e Samantha até o espaço em que estávamos.
- Oi! – respondeu passando na frente do garçom para puxar uma cadeira para Samantha, enquanto ela cumprimentava Harry com dois beijinhos no rosto. – Porque vieram para cá? Estávamos aguardando vocês em outra mesa.
- Boa noite! Achei que seria melhor se tivéssemos um pouco de privacidade. – Harry comentou, voltando a sentar em sua cadeira, sem nem cumprimentar Luca.
- Ah, é! Sam comentou comigo esses dias. Você é cantor, né? Daquela boyband. – Luca comentou, forçando um riso de escárnio, que sabíamos não ser verdadeiro, no fim da frase, enquanto sentava. – Suas fãs de 12 anos não conseguem entrar nesse restaurante, pode ficar tranquilo.
- Elas têm mais que 12 anos! – falei rápido, expressando como estava ofendida em meu tom de voz.
E, no mesmo segundo, me arrependi ao perceber a resposta boba que tinha saído da minha boca. O arrependimento bateu mais ainda, assim que vi os olhos arregalados de Harry virarem para mim, claramente me repreendendo. Quase sussurrei um pedido de desculpas ao cantor, mas seus olhos rapidamente retornaram a Luca, com uma feição calma, mas claramente superior.
- Não estou conseguindo entender que ponto você está tentando fazer com esse comentário, mas saiba que não é assim que vai conseguir me atingir, ou atingir a . – sorriu, com uma calma que eu invejei. - Vamos, Luca, você é melhor que uma piadinha ridícula sobre idade de fãs. – Harry terminou a frase, erguendo a mão para solicitar um garçom, não podendo ver o queixo de Luca caindo, e o olhar de pânico que o mesmo trocou com sua namorada. – Você bebe vinho, Sam?
- Hm... Sim, Harry, obrigada. – a garota gaguejou, dividindo seu olhar entre os dois garotos. – Nos perdoe, não foi assim que Luca quis soar, não é, babe?
- Está tudo bem, Samantha. Eu sei que foi exatamente assim que ele quis soar, mas já resolvemos isso, certo? – Harry encarou Luca, confirmando com a cabeça, o que fez o garoto também confirmar, contra sua vontade.  – Por favor, seu melhor vinho para essa mesa.
- Estamos hoje com um Richebourg Grand Cru, Domaine de la Romanée-Conti. Seria de seu interesse, senhor Styles?
- Nossa, incrível esse vinho. – comentei como se eu entendesse do assunto, tentando quebrar o clima pesado que sobrepôs sobre a mesa, fazendo Harry soltar uma gargalhada, enquanto confirmava com o garçom.
- Então... – Sam limpou a garganta, tentando chamar minha atenção, que tentava ao máximo não ficar encarando o rosto de Barbie que aquela mulher tinha. – Vou ao banheiro. Me acompanha, ?
- Eu não preciso ir ao banheiro. - respondi rápido, mas ao encarar o rosto da morena, pude perceber que ela fazia questão mesmo que eu fosse com ela, então, contra minha vontade, a segui até o banheiro.
Andei atrás da morena por entre mesas cheias, na esperança que aquele momento constrangedor entre a namorada do meu ex e eu passasse logo. Chegamos a uma porta que foi aberta por um rapaz uniformizado, o que eu logo agradeci calmamente, adentrando o banheiro feminino. Samantha seguiu até o espelho, retocando o batom perfeito que contornava seus lábios.
- Então, , na verdade eu só queria conversar com você.
- Ah, é? - retribui o sorriso que ela me abriu, tentando disfarçadamente me afastar dela e chegar mais perto da porta. Se ela me atacasse, eu correria. Meu plano já estava pronto. - Sobre o que?
- Eu sei que é uma situação constrangedora, eu estou com seu ex e tal, mas não acho que deveríamos agir como rivais ou algo do tipo. - alargou seu sorriso, me fazendo respirar calmamente e retirar a pose em alerta que eu me mantinha.
- Eu penso o mesmo, Sam. Estou com o Harry agora, eu terminei há semanas com o Luca, não temos nem porque ficar falando sobre isso.
- Pois é, Luca ainda está bem chateado com você sobre essa história de traição, né? - comentou, me encarando com pena. - Mas devemos tratar como águas passadas.
- Eu que deveria estar chateada nessa situação. - ri fraco. - Mas, sim. Águas passadas.
- Você trai o Luca e você fica chateada?
- Eu? - dei um passo em direção a Sam, gritando a pequena palavra com uma voz esganiçada, o que a fez recuar meio assustada. - Eu traí ele?
- Oras! Sim! Ele me contou tudo. - a morena virou para o espelho, encarando sua imagem e abrindo um sorriso, e depois virando pra mim. - Mas são águas passadas. - veio em minha direção, dando dois toquinhos no meu ombro, meio que me empurrando do caminho da porta. - Que o Harry não tenha o mesmo azar. - sorriu novamente, abrindo e fechando a porta e me deixando sozinha naquele banheiro gigantesco.
Eu respirei fundo. Rezei mentalmente para todos aqueles litros de chá de camomila ainda estarem passeando pelo meu corpo e fui em direção ao espelho. A audácia! A audácia que Luca teve de mentir que eu havia o traído, sendo que ele esteve por meses e meses enfiando quilômetros e quilômetros de chifre na minha testa. Respirei fundo novamente. Como eu havia sido capaz de me manter cinco anos em um relacionamento com este cara?
Quando estava calma o suficiente, me mexi para sair daquele lugar, mas ouvi a porta atrás de mim abrir, e travei, vendo uma moça alta e esguia sair do banheiro e me encarar.
- Ah, achei que você já tinha ido. - sorriu com pena, o que me fez tentar sorrir calmamente em um cumprimento, mas pelo canto de olho pude ver pelo espelho meu rosto virar uma careta.
Dei um passo para trás, ainda encarando a mulher que terminou de enxugar as mãos e virou pra mim, me encarando. Comecei a me assustar com a situação, até a moça dar mais um passo em minha direção e sussurrar um pedido de licença, foi quando percebi que estava parada em frente a porta. Me movi para o lado, sem encarar a mulher, e enfiei as mãos no rosto em descrença. Ri baixo da minha desgraça. Que tipo de piada os anjos estavam contando para Deus enquanto ele escrevia a minha história, para sair desse jeito? Me virei, saindo, enfim, do banheiro, dando de topa com Harry que conversava com o rapaz que estava na porta.
- Ei! Achei que tivesse fugido. - ignorou o rapaz que respondia alguma coisa à sua pergunta anterior, me puxando pelo braço até um canto.
- Me pegou segundos antes de fazer isto. - sorri fraco.
- O que aconteceu? Samantha apareceu há minutos e nada de ti.
- Não aconteceu nada, eu só demorei mais.
- Tem certeza? - perguntou de novo, fazendo um leve carinho no meu braço que ainda segurava. Quando confirmei, soltou a respiração, como se desistisse de algo, e entrelaçou nossos dedos me puxando de volta à mesa.
Antes mesmo de chegar na mesa, dava para ver que Sam e Luca conversavam e bebericavam do vinho caro, mantendo uma conversa baixa, que, pelos risinhos e mãos que passeavam por debaixo da mesa, não era para menores de 18 anos.
Senti Harry apertar minha mão, talvez ao perceber que chegando perto da mesa, eu ainda não havia o soltado. Tentei respirar fundo ao ver aquela cena, e manter a pose que eu havia demorado todas essas semanas para construir de que não me importava e que havia superado tudo, mas ainda doía.
E doía tanto.
Eu queria que Luca se fodesse, queria que ele explodisse em milhões de pedacinhos e sumisse no espaço, mas também queria que em um universo que existisse Thanos, Luca sobrevivesse. Ele não merecia somente desaparecer sem sentir um pouquinho seu coração ser quebrado, que nem ele estraçalhou o meu.
Cinco fucking anos de relacionamento.
Ao chegar na mesa, Harry soltou minha mão, puxando minha cadeira mais próxima da sua.
Cinco fucking anos.
E eu tremia por dentro.
Falar para a garota que eu havia traído ele? Eu dediquei cinco fucking anos da minha vida à ele.
Eu sentia que não havia mais chá de camomila algum nas minhas veias, mas as boas três taças de vinho que eu havia entornado antes do casal perfeito chegar, faziam uma grande festa pelo meu corpo.
Senti o cantor me puxar para baixo, me obrigando a sentar, já que eu ainda estava de pé, respirando forte com as narinas infladas. Senti ele sussurrar meu nome e apertar minhas mãos nas suas. Mas eu só encarava Luca. O rapaz parecia perceber que eu o encarava e tentou sorrir torto, mas Sam sussurrando algo em seu ouvido fez ele pouco prestar atenção em mim.
- Eu não acredito que vou ter que pedir para você não surtar. De novo. - Harry sussurrou baixo em meu ouvido, enquanto apertava levemente a minha mão que pousava sobre minha perna.
Virei para o garoto, para que ele conseguisse ver em meus olhos quanta raiva e mágoa havia neles. Ele me encarou por segundos, e então se aproximou lentamente me dando um selinho.
Eu me sentia incomodada com aquele tipo de relação, sendo que mal nos conhecíamos, mas ter Harry perto de mim me trazia uma calmaria que eu não sentia há tempos, então só continuei encarando seus olhos enquanto seu rosto se afastava de mim. Continuei encarando seu rosto por segundos, e só parei de prestar atenção nos seus traços quando Sam perguntou como havíamos nos conhecido, e Harry deu uma risada, pronto para inventar alguma coisa.
- Ah, nos conhecemos na cafeteria mesmo. – Harry abriu um sorriso, enquanto contava. Ia repreendê-lo, mas o garoto apertou minha mão, me obrigando a ficar em silêncio e esperar a história mirabolante que sairia daquele cérebro. – Amanhã fará quatro semanas que trombei com naquela cafeteria, com ela sendo meio doida, apurada, procurando encrenca. Não tem como ter dúvidas de que foi o destino que colocou ela no meu caminho.
- Eu ainda me questiono como estou namorando contigo, sendo que tu não faz nada além de me chamar de doida.
- Eu também queria saber, Alice. - Harry soltou o nome como uma piadinha entre nós, que me fez sorrir novamente. - E vocês, como se conheceram?
- Eu estava viajando pela Irlanda e encontrei… - Luca começou a contar e eu soltei um grito de surpresa.
- Você foi para a Irlanda? - Perguntei em um grito contido, que quis se intensificar quando Luca concordou com a cabeça. - Como você se… Luca! Eu paguei por essa viagem! Ela deveria estar me esperando na agência de viagem quando EU quisesse ir! - tentei manter a voz baixa, para não chamar tanta atenção, mas sentia minha voz sair esganiçada.
- Você falou que não queria mais ir!
- MEU DEUS! Eu falei que eu não queria ir porque você tinha me traído! Porque eu estava terminando com você!
- Mas eu perguntei se você queria, para ficar tudo bem, e você disse que não.
- Você me traiu, Luca! E aí achou que indo viajar, em uma viagem paga por mim, eu iria te perdoar! - falei entredentes, pronta para pular aquela mesa e agarrar o pescoço fino de Luca.
- … - Harry buscou minha mão em cima da mesa que a pouco havia largado, me fazendo olhar para seus olhos verdes.
- Harry... - falei, em pânico, com um bolo na garganta pronta para voltar a chorar todas as lágrimas que eu já havia chorado naquelas quatro semanas.
Vi Harry desviar os olhos de mim, pegando minha bolsa que estava pendurada na cadeira e a jogando em seu ombro. O cantor jogou várias notas na mesa, ignorando o casal que ainda estava sentado com uma cara terrivelmente assustada, se levantando em um pulo, e logo me puxando para fora daquele lugar.
Eu respirei fundo quando o ar da noite tocou meu rosto. Me irritava ter que lidar com toda a enxurrada de sentimentos que eu havia passado naquela noite. Eu gostava de não ter que lidar com nada disso, de como eu normalmente enfiava minhas emoções em um pacotinho muito bem fechado dentro de mim e fingia que elas não existiam, de não deixar transparecer que tudo me afetava, mas era difícil ignorar o fato de que meu ex havia estraçalhado meu coração em pedacinhos tão pequenos que eu não sabia nem como coletá-los.
Vi o manobrista estacionar o carro logo a nossa frente, e dei dois passos largos até a porta do passageiro, entrando logo no carro, e ignorando que Harry se encaminhava até a porta para abri-la para mim. O garoto logo entrou no carro em silêncio e assim permaneceu por alguns minutos. Percebi pelo canto de olho que ele prendia seus olhos no meu rosto, e logo senti sua mão pousar sobre minha perna em um carinho. Eu entendi que era a forma que ele havia achado para me dar apoio, e, então, pousei minha mão sobre a sua e não demorou muito para eu sentir seus dedos longos se fecharem ao redor dos meus.
Permanecemos nesse silêncio mútuo por minutos, com nossas mãos enlaçadas, presos nas entrelinhas que já diziam por nós. Percebi que estávamos percorrendo as mesmas ruas que eu havia percorrido naquela manhã, em direção à casa do cantor, e não me opus. Tudo que eu queria e precisava era ir para o mais longe daquele restaurante e uma companhia para eu não ficar sozinha no meu studio revivendo aquela noite 200 vezes, e chorando em todas elas.
Ao contrário de como estava de tarde, a casa do cantor se encontrava agora em completo silêncio. Desci do carro achando engraçado como minha bolsa de flores ainda estava presa nos ombros de Harry desde o momento que saímos do restaurante, e agora balançava ao lado de suas pernas enquanto o garoto estava parado em frente a sua porta, em uma pequena briga com suas chaves. Abri um sorriso leve quando o mesmo soltou um gritinho de felicidade ao ver a porta abrir, e fui ao seu encontro assim que ele me chamou com a mão.
- Seja bem vinda ao palácio Styles. - sorriu, pegando a mão que eu estendi em sua direção e me guiando para dentro da casa.
- Você está tão longe de ser um príncipe, que eu não sei como você tem a coragem de chamar isso de palácio.
- É completamente satisfatório sentir você pisando com esse salto fino no meu ego. - colocou a mão teatralmente em seu coração, o que me fez rir baixo.
- É difícil, senhor boyband, mas você vai conseguir superar.
- Senhor boyband. - riu fraco. - É assim que vai me chamar agora?
- Não negue que é um ótimo apelido.
Styles abriu a boca para me responder, mas um miado baixinho fez ele se desconcentrar e rodar em seu próprio corpo a procura do bichano. O gato branco veio desfilando de um corredor, aumentando o miado conforme se aproximava de nós, se entrelaçando nas pernas de seu dono e ali ficou implorando por carinho.
- Essa é a gata que você tentou matar mais cedo, o nome dela é Olivia. - Harry abaixou pegando a gata no colo e a trouxe mais perto de mim.
- Oi, Olivia. Eu quase te matei, mas juro que foi por uma boa causa. - falei baixinho, passando meus dedos pelos longos pelos brancos.
- Não se deixe ganhar por um pedido de desculpas tão fajuto, Oli. - comentou baixinho próximo a orelha da gata, o que me fez rir novamente. Formou um sorriso em seu rosto assim que a peluda o respondeu com um pequeno miado, e tornou seus olhos para mim, abrindo o braço que não apoiava Olivia. - Pode ficar a vontade, .
- Você tomou banho no meu studio no dia que a gente se conheceu, eu posso fazer o que eu quiser aqui.
O garoto riu baixo, soltando a gata aos meus pés e indo até o próximo cômodo da casa, que era a cozinha. O segui, observando-o pegar um vinho qualquer na pequena adega, e apontar para um armário repleto de taças em um pedido silencioso para mim. De prontidão peguei as duas primeiras taças que vi, e avancei em direção a porta de vidro que ele havia acabado de passar. Estávamos agora no quintal na parte de trás de sua casa, que contava com um espaço cheio de grama e flores, e uma piscina que agora tinha sua água dançando em pequenas ondas ao redor do corpo ainda vestido de Harry. Soltei as duas taças ao lado do cantor, tirando meus saltos e os deixando ao lado do terno preto que estava na beira do piso, enquanto criava coragem para entrar, com toda minha roupa, dentro da piscina.
As ondas aumentaram assim que coloquei o primeiro pé dentro da água, sentindo todo  meu corpo se arrepiar com o choque do líquido frio em contato com minha pele. Harry, que já estava sentado na escadinha de um degrau da piscina, abriu um longo sorriso em minha direção, o que me fez sorrir também e terminar de entrar na água gelada. A água chegava até meus seios, deixando praticamente toda minha roupa ensopada, mas eu não ligava. Balancei meus pés dentro da água, vendo meu esmalte vermelho dançar no nada sem encontrar o fundo da piscina. Eu me arrepiei inteira pelo frio que tomava conta do meu corpo, mas eu não ligava. O garoto, em um gesto simples, esticou o braço até o terno, passando o braço por trás de mim, enquanto encaixava a peça nos meus ombros.
- Você sempre enfia garotas de roupa na sua piscina ou eu já posso começar a me sentir especial?
- Você é uma das pessoas mais especiais que eu já conheci, não deveria começar a se sentir assim só agora. - falou sério, virando seus olhos para mim, esquecendo-se por um segundo da rolha que tentava tirar da boca vinho.
- Meu Deus, eu estava esperando uma piada, não uma resposta dessas. - comentei baixo, vendo o garoto abrir um sorriso com meu comentário.
O pequeno barulho de estouro da rolha me fez desviar meus olhos que estavam presos em sua boca. Harry alcançou a taça que estava ao meu lado, entregando-as em minhas mãos e logo as encheu quase até a boca, o que me fez rir pelo exagero e fez o garoto dar de ombros, também rindo.
- Ao melhor casal que existe em Londres! - o garoto ergueu a taça em um brinde.
- Falso! - corrigi, brincando. - Ao melhor casal falso que existe em Londres! - ergui a minha taça também, levando-a de encontro a de Harry.
Assim que levei a taça a boca, vi que o cantor também levava a sua e me encarava com a sobrancelha erguida. Levantei também minha sobrancelha, em um claro desafio, dando duas goladas longas no vinho. Vi seu pomo de adão subir e descer, demonstrando que aquilo era -realmente- um desafio, e tornei o resto da taça, sentindo um pouco do líquido vazar pelo canto da minha boca, descendo pelo meu pescoço até se encontrar com a água da piscina. Harry tirou a taça da boca, gargalhando alto do meu desastre.
- Para de rir, eu ganhei!
- Mas se babou toda! Esse vinho é caro, não se pode desperdiçar assim. - comentou, ainda risonho, levando a taça até sua boca novamente, tentando terminar o vinho bordô que estava nela.
Levei rápido minha mão até o fundo de sua taça, dando um peteleco, e vendo o líquido escorregar pelo rosto do garoto, que arregalou os olhos em um susto. Foi minha vez de gargalhar alto, mas fui interrompida quando senti a água fria bater em meu rosto e o olhei espantada, abrindo minha boca em um perfeito “o”. O cantor já havia deixado sua taça de lado e agora me encarava pronto para jogar mais água em mim. Formei uma concha com minhas mãos pequenas e as empurrei em direção ao garoto. Ouvi uma gargalhada alta sair da sua garganta, mas não enxergava muito, pois agora era vez do garoto revidar. Esperei alguns segundos, com as mãos escondendo o rosto, me forçando contra a parede gelada do piso às minhas costas. Quando senti que Styles havia parado de jogar água em minha direção, comecei tirar as mãos do rosto e senti o as suas mãos se fecharem delicadamente em volta do meu punho. Eu não havia percebido, mas ele estava na minha frente agora.
Harry Styles estava muito perto de mim.
A primeira coisa que vi foram os dois passarinhos pousados no seu peitoral, que a camisa branca falhava miseravelmente em tentar esconder, por estar totalmente transparente pela água da piscina. Meus olhos passaram pelo colar que ele mantinha pendurado em seu pescoço, pelo vislumbre de suas mãos que subiam delicadamente para segurar as minhas, até chegar na sua boca, que deixava passar o ar lentamente, estando entreaberta. Um arrepio subiu pela minha coluna quando meus olhos encararam os seus, e Harry abriu um sorriso de canto ao perceber o que acontecia comigo.
Harry Styles estava muito perto de mim, e eu não tinha controle algum sobre meu corpo.
Senti sua mão esquerda soltar meu braço e descer lentamente até a minha perna, forçando meu joelho para o lado, enquanto se estabelecia ali, fazendo meu corpo inteiro arrepiar em resposta. O garoto se inclinou mais na minha direção, sussurrando baixinho.
- Você não vai escapar.
E aí eu senti novamente, sua mão direita, em um movimento rápido jogar um monte de água no meu rosto. Eu abri a boca em espanto, sentindo as gotículas da água gelada pingando pelos meus olhos, boca, queixo, e soltei um grunhido irritado. Era uma das únicas vezes na vida que eu havia sentido raiva e tesão ao mesmo tempo. O garoto já não estava mais perto de mim, havia dado alguns passos para trás, rindo alto, enquanto encarava eu, parada ali, sem reação alguma. Respirei fundo.
- Você não pode fazer esse tipo de coisa, Harry. - falei, soltando o ar que estava preso nos meus pulmões.
- Eu faço isso, porque não posso fazer o que realmente quero.
- Você não deveria se privar das coisas que realmente quer. - falei e estendi a mão em sua direção, a qual ele logo pegou.
- Eu também acho que eu não deveria, mas não sei o que você tem a dizer sobre isso. - respondeu.
- Por que você não chega mais perto e descobre?
O cantor não se opôs quando eu comecei a puxá-lo para mais perto de mim, dando pequenos passos em minha direção. A água batia na sua cintura e levava a barra da sua camisa, que antes se prendia firmemente pelo cós da calça, junto com as ondas. A cena se repetia da mesma forma que antes. Harry tinha sua mão segurando a minha, meus olhos viram as tatuagens, subiram pelo vislumbre de suas mãos, sua corrente e depois até sua boca. Sua mão desceu até meu joelho, empurrando-o para o lado, para poder se encaixar no vão da minha perna, fazendo meu corpo inteiro arrepiar. O garoto se inclinou mais na minha direção, sussurrando baixinho.
- Você não ia me escapar de qualquer jeito mesmo.
A primeira coisa que senti foram seus lábios nos meus, mas dessa vez era diferente das tantas outras vezes eu havia sentido. Eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo mesmo com a água fria ao nosso redor. Eu sentia meu coração acelerado, e tinha certeza que ele podia sentir cada batida que meu peito dava. Sua mão, que segurava meu pulso, agora ia em direção ao meu rosto, me puxando para mais perto, e, minha mão, agora livre, descia até o cós de sua calça para puxá-lo para mais perto. Sinto sua respiração quente e forte no meu rosto, enquanto ele mantém sua boca firme massageando a minha, sua língua quente passeando calmamente de encontro a minha língua.
Diminuímos o ritmo assim que não há mais ar para respirarmos e nossas bocas se separam mesmo não que queiramos. Sinto o garoto dar leves mordidas nos meus lábios já inchados e sorrio.
Meu Deus, o que havia sido aquilo?
Meu cérebro não consegue nem assimilar a pergunta feita, quando já avanço em direção a Harry de novo, com um dos meus braços em volta de seu pescoço, puxei-o um pouco para baixo, beijando seu maxilar, sua bochecha, respiro forte em seu ouvido, até encarar seus olhos fechados.
Harry respira forte quando o beijo de novo. E de novo. E de novo. Dessa vez sou eu que sinto seu coração martelando em seu peito.



Capítulo 7

harry’s point of view
Eu conseguia escutar lá longe, um barulho bem irritante soando incansavelmente. Lutei por uns minutos, tentando me manter sonhando, esperando que o barulho parasse sozinho, mas não parou. Bufei irritado, sentindo meu sono ir embora e a dor de cabeça de ressaca aparecer e, relutantemente, abri os olhos para encontrar meu quarto com a luz do sol já adentrando pelas cortinas. 
Tateei a cabeceira da cama a procura do celular, desligando-o assim que encontrei. Era sábado, eu não tinha reunião, não tinha compromissos, e nem assim podia ter paz. Tentei me lembrar de como havia ido parar na cama e com um estalo as cenas de ontem vieram na minha cabeça. 
.
Virei para o lado e encontrei primeiro seus cabelos, com o cheiro forte do meu shampoo, contrastando firmemente com o branco da minha fronha. Vi os olhos de Stevie Nicks me fitando nas costas da camiseta surrada do Fleetwood Mac que eu havia emprestado à garota noite passada. 
Meu Deus, o que havia sido aquilo? 
Passei fortemente as mãos pelos olhos, tentando tirar as cenas da noite de ontem da minha cabeça, porque só a lembrança delas fazia meu sangue correr mais rápido. Me levantei sem fazer muito barulho e segui até o banheiro com a ponta dos pés. Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, retornei ao quarto, onde a garota ainda permanecia adormecida enfiada entre o edredom branco, e decidido em não acordá-la, apenas peguei meu celular e desci preparar o café.
Na cozinha, encontrei os rastros por onde havíamos passado na noite de ontem.
Nossos sapatos jaziam abandonados em um canto do cômodo, minha camisa, ainda molhada, pousava em cima da mesa sem cuidado algum, as roupas da haviam sido abandonadas na porta da lavanderia e eu ri baixo ao me lembrar que havia prometido a ela que as roupas estariam secas e prontas para ela logo pela manhã, e bom, pela água acumulada que eu via logo embaixo dos tecidos, eu já poderia adiantar que não estavam. A porta que levava ao quintal ainda estava aberta (que Deus nos abençoe pelo bairro seguro em que eu vivia), e dali mesmo eu conseguia ver a marca certinha do lugar onde havia batido a cabeça. Ri sozinho lembrando da cara de dor e pânico da garota, quando ela seguiu para a cozinha para buscar nossa terceira garrafa de vinho e errou a entrada. O pano com gelo que eu havia pressionado em sua testa por minutos estava logo em cima do balcão da pia, junto com as três garrafas de vinho vazias, que só o vislumbre delas fazia minha cabeça latejar mais forte.
Eu odeio vinho.
Não sei dizer quantas horas havíamos passado dentro daquela piscina, mesmo com o frio insuportável nos congelando. Bebemos todo o vinho que conseguimos e conversamos sobre todas as bobeiras que podíamos. Para mim, era totalmente novo estar com uma pessoa que não se importava com nomes e sobrenomes famosos, que não se interessava por posts na internet, que não ligava em estar numa piscina com os dedos enrugados e um pano com gelo, tentando -inutilmente-, desaparecer com o galo que começava a aparecer em sua testa, enquanto brincava de trocar palavras em frases aleatórias. 
Peguei minha camisa branca, a levando até a lavanderia e colocando-a para lavar junto com as roupas molhadas de . Coloquei a água para ferver, enquanto ligava meu celular para ver quem me incomodava logo pela manhã no meu dia de folga. Havia algumas ligações perdidas do nosso empresário, mas o que me fez largar o celular na bancada, irritado, eram as mensagens insistentes de Louis que piscavam na tela.

Louis T.:
Ei, mate! 
Achei que havia parado de sair com a doidinha, mas vi umas fotos de vocês ontem
Espero que ainda estejam naquela ideia de trocar favores
Por que estou te mandando mensagem só para pedir o número dela

Passei a mão forte sobre os olhos. O Louis era muito cara de pau. Muito. Eu não o culpo, pois desde o momento que vi seus olhos pararem sobre a , sabia que ele iria tentar… e conseguir, por que não há nenhuma garota neste mundo que possa dizer que conseguiu fugir do charme de Louis Tomlinson. O que para mim é uma pena, já que a tal garota se encontra agora deitada na minha cama.
Assustei com o apito estridente da chaleira que anunciava que a água havia fervido, me fazendo desligar o fogo e passar rapidamente o café. Após dispor na mesa alguns alimentos estranhos que meu cozinheiro havia deixado para eu sobreviver esta semana, subi as escadarias até o segundo andar pulando de degrau em degrau, pronto para acordar a garota. Ao chegar de frente para meu quarto, encontrei de pé em frente a uma das portas do guarda-roupa, usando apenas a camiseta surrada, enquanto examinava próximo a seus olhos minha algema de pelúcia. Engasguei.
- ?
- Harry. - disse, virando de frente para mim com um sorriso sacana no rosto, tendo a algema pendurada na ponta do seu dedo indicador. - Bom dia.
- Bom dia. - respondi, rindo baixo. - Procurando alguma coisa?
- Queria uma calça emprestada, não sou de andar sem roupa pela casa das pessoas, mas acabei achando umas coisinhas a mais. - riu, enquanto olhava sobre seus ombros para a pequena caixa que eu mantinha minhas… coisas guardadas.
- Eu acho que você deveria sim andar sem roupa pela casa das pessoas. Digo, se quiser andar assim por aqui, eu é que não vou reclamar - comentei com um sorriso preso no canto da boca e vejo a garota rir baixo.
- Só seria justo se nós dois estivéssemos assim.
- Se eu não tivesse um café quentinho e comidas que eu nem sei pronunciar postas na mesa lá em baixo, eu não diria não para esta oferta. Mas, meu café é realmente bom. - vejo a garota jogar a algema em cima da cama e vir em minha direção, pegando a mão que eu estendia para ela.
No andar de baixo, percebo que a mesa toda organizada parece não combinar com nosso estado de espírito, então, enfio a garrafa de café embaixo do braço, pego duas xícaras, bem como uma toalha da primeira gaveta do meu armário, e vejo a garota me entender ao pegar a boleira, uns biscoitos e o prato com as torradas com geleia. Caminhamos até o quintal, onde sentamos no chão sobre a toalha estendida.
- Esse não parece muito um café britânico. Já cheguei em lugares na região que me ofereceram feijão e linguiça de café da manhã. Horrível.
- Você vem na casa de um britânico e fica criticando a culinária dele? Que audácia, .
- Vai me dizer que não é horrível? - perguntou, com tom de riso. - No Brasil costumamos comer um pãozinho com manteiga, café e só. Agora aqui, feijão! - falou, arregalando os olhos. - Com linguiça e ovos! Às 08 horas da manhã!
Soltei uma gargalhada com a indignação da garota.
- Está bem, , eu aceito que nosso café da manhã é um pouco fora do comum, mas te garanto que é ótimo. Agora sobre esta sua culinária brasileira, ‘ta parecendo bem fraquinha para mim. - comentei, vendo a garota encher o copo de café e levar até a boca tomando um pequeno gole.
- Que audácia, Harry! - copiou meu tom de poucas frases atrás, o que fez nós dois rirmos. - Nós começamos leve, por que depois nosso almoço é bomba. Uma feijoada, um arroz carreteiro, uma galinhada, moqueca. Aquele churrascão com maionese - a garota olhava para o além enquanto falava, como se imaginasse cada prato daquele na sua frente. - Meu Deus, que vontade de um churrascão com maionese, vinagrete e aquele pão de alho.
- Fejioada? - perguntei, tentando repetir o sotaque forte da garota, o que a fez rir.
- Quase. Feijoada. - falou novamente, e riu de novo ao me ver repetir a palavra baixinho.
- Mouque... - tentei lembrar outra palavra. - Como?
- Moqueca. É um prato maravilhoso de peixe. - montou uma feição de prazer no rosto. - Que saudade.
- Faz tempo que não vai ao Brasil?
- Mais de seis anos. - comentou, pegando uma das torradas. - Muito tempo.
- O que te trouxe à Londres? - perguntei, me tocando que pouco sabia sobre a vida da garota, sem ser as poucas informações que ela havia me dado noite passada.
- Não existe uma história bonita de que meu coração pertencia a este lugar e que eu viria perseguir meus sonhos aqui. Meu pai era britânico, mas saiu daqui ainda jovem e conheceu minha mãe no Brasil. Quando fiz 17 anos, não tinha a menor ideia do que eu iria fazer da vida assim que terminasse o Ensino Médio, minha tia estava se mudando para Londres, eu pensei “por que não?” e vim. Ela desistiu depois de dois anos, eu tive mais medo de largar meu trabalho de garçonete, me mudar e ter que me adaptar de novo do que morar sozinha, aí decidi ficar. Seis anos longe do Brasil, e quatro anos sozinha por aqui.
- Parece difícil, ter que morar sozinha aos 19 anos num país novo.
- Você fala como se não tivesse desbravado sozinho o mundo aos 16 anos - riu.
- Eu tinha os meninos, os empresários, os assistentes… nunca estive totalmente sozinho.
- Você acha que fez muita diferença? - virou séria para mim. - Ter os meninos junto contigo?
Me mantive em silêncio por poucos segundos, refletindo sobre a pergunta feita pela garota. Servi mais café na minha caneca, tentando prolongar minha resposta, não por que eu não confiava em , pois eu confiava e muito, mas era difícil falar sobre isso sem parecer mal agradecido. 
- Quando entrei no X-Factor, eu achava que estava pronto para minha carreira solo. Nunca passou pela minha cabeça a opção de estar em uma boyband. Eu tinha uma banda antes do programa, sabia? White eskimo. - ri sozinho e vi abrir um leve sorriso. - Mas quando entrei, sabia que eu seria solo, era como eu queria seguir dali para frente, mas só hoje consigo ver que eu não estava nada pronto para o que o mundo da música havia preparado para mim, e eu tenho certeza que eu não teria chegado tão longe, se não fosse o apoio dos meninos.
- É bonito ouvir você falar sobre isso. - sorriu, olhando fixo em meus olhos. - Sobre sua carreira, seus amigos.
- É o que eu amo. A música. Eles. - respirei fundo. - Você não sente o mesmo a respeito do teatro?
A garota bufou, deixando a caneca de café ao seu lado esquerdo e deitando-se na toalha branca. Subiu com seu braço até a altura dos olhos, tentando inutilmente tapar o sol que brilhava em seus olhos. Com o movimento, a minha camisa subiu um pouco em seu corpo, deixando a calcinha bordô que usava a mostra, mas aquele momento soava tão único para nós, que só me deixei vislumbrar a garota deitada ali, sem consciência de como seus pequenos movimentos faziam meu corpo pesar.
- Eu não sei o que o teatro é para mim. - suspirou fundo mais uma vez. - Eu tenho dom da fala, do andar por sobre aquele palco ocupando cada espaço, da expressão, do carisma, mas falta algo. - pousou o braço por cima dos seus olhos e não pude mais ver os olhos castanhos que já não brilhavam mais. - Falta eu sentir algo a mais, falta amor, falta a paixão transbordar pelos poros e atingir meu ápice no palco. - tirou o braço dos olhos, levantando o tronco em minha direção. - Falta aquilo, que eu sei só de olhar para ti, que você sente quando pisa no palco durante um show e vê todo aquele público gritando por você e cantando com você.
- Eu não sei nem descrever o que sinto. É como se eu nem existisse mais, e só existisse aquele momento. - dei uma pausa, pensando nas palavras da garota. - O meu ápice.
- É isso que eu achei que sentiria no teatro. - deitou de novo na toalha, cobrindo os olhos. - Mas eu só sinto a obrigação de estar lá, porque é o que eu achei, há muito tempo atrás, que era o que eu queria.
- Eu entendo um pouco disso, sobre a obrigação de se manter fazendo algo, porque é o que deve ser feito.
Empurrei os poucos pratos e a boleira ainda cheia fora da toalha e deitei ao lado da garota. O sol batia diretamente nos meus olhos e fiz que nem ela, levantando o braço para tapar, inutilmente, os raios que vinham em minha direção. Senti a garota virar para me olhar, e fiz o mesmo, encarando seus olhos.
- Você diz em respeito a banda?
- Eu sinto que todas as decisões que me afetaram diretamente nesses últimos cinco anos, foram feitas em grupo, e parece que eu sinto que eu quero tomar decisões por mim, entende? - vi a garota concordar levemente com a cabeça. - Eu quero tomar as decisões que me afetam. Mas não é como se eu quisesse por um ponto final nisso agora, são pequenas coisas que eu preciso tomar rédea, no entanto sei que elas podem ficar para depois. Eu sinto como se estivéssemos no nosso melhor momento na banda e que temos muito a fazer ainda, não é o momento para acabar.
- E todos os meninos se sentem assim?
Respirei fundo lembrando da última conversa que tive com Zayn, em que ele tentou expressar como estava se sentindo, mas não conseguiu colocar em palavras e desistiu.
- Nem todos. - respondi rapidamente.
A brasileira me encarou por poucos segundos, parecia tentar decifrar o porque eu tentava escapar daquele assunto, deu um leve acenar de cabeça, como se enfim entendesse, e copiou o sorriso que se abriu no meu rosto. Logo sua expressão passou de calma para sacana, e em seguida seus movimentos me explicaram o porquê. Com um pequeno impulso a garota esticou sua perna esquerda por sobre meu quadril, encaixando-se sentada no meu colo.
O sol agora contornava seu corpo, deixando meus olhos livres para enxergá-la por completo. Subi minha mão esquerda em um carinho calmo na sua perna, enquanto direita subia até sua testa, onde o calombo de ontem ainda se fazia visível, e rimos juntos. Desci minha mão pelo lado de seu rosto, sua bochecha, até sua boca, puxando seu lábio para baixo com meu indicador. Os olhos de brilharam com um ar malicioso, no mesmo instante que seus dentes abocanharam meu dedo em uma mordida leve… puta merda, era extremamente sexy. Senti seu quadril se ajeitar no meu colo e a vi encarar fixamente meus olhos, antes de se apoiar com o braço estendido logo ao lado da minha cabeça e começar a abaixar lentamente o tronco naquele tenso momento pré-beijo que o fundo se desfoca e você consegue apenas prestar atenção nas respirações descompassadas.
Minhas mãos passearam urgentemente pelas pernas expostas de e eu senti todo meu sangue começar a circular mais rápido. Ela distribuía beijos quentes pelo meu maxilar, bochecha, orelha, e depois mordeu lentamente seu lábio inferior, me deixando desesperado por mais contato. Eu não aguentaria muito daquilo.
- Sabe, Harry… - começou a sussurrar.
- Quieta, pelo amor de Deus. - a interrompi, enquanto subia minhas mãos até a parte de trás de sua cabeça  e a forcei em direção a minha boca.
Nos beijamos por longos segundos, praguejando o ar que faltava em nossos pulmões e nos fazia ter que separar para respirar. Eu não sabia o que havia naquela garota que me deixava estupidamente desesperado por mais, mas eu gostava. Em um gesto urgente, apertei com as mãos as pernas da garota em volta da minha cintura e a virei, para que eu pudesse dominar a situação. Seu grito de surpresa saiu no mesmo instante que sua costa tocou o chão, ou melhor, no mesmo instante que a joguei para o lado direito, fora da toalha e em cima da boleira aberta.
Não tive tempo para pedir desculpas, pois a garota já havia enchido sua mão de bolo de baunilha despedaçado que havia sobre a grama e passado no meu rosto. E aí o grito de surpresa veio de mim. Ouvi-a gargalhar, enquanto lambia calmamente o resto de bolo em seus dedos 
A campainha soou em um longo e estridente som, fazendo com que nos levantássemos da grama ainda rindo e fossemos até a cozinha.
- Você está toda melecada de bolo nas costas. Eu havia dito que suas roupas estariam usáveis hoje… bem, é mentira, ainda não estão.Você pode ficar sem roupa mesmo,  - seu rosto logo apresentou uma feição sarcástica. - ou, pode subir lá, que eu já vejo algo pra você vestir.
Sua resposta foi abafada pelo som da campainha que tocava novamente, mas, mesmo assim, a garota deu as costas para mim, se virando em direção à escada.
Peguei o pano de prato que estava disposto sobre a pia, passando pelo meu rosto, tentando inutilmente limpar a meleca que havia feito. No hall de entrada, pude ver pela câmera instalada em meu muro que Zayn tinha seu carro estacionado bem na entrada do portão, cacei o controle em cima da mesa, abrindo para que o garoto entrasse logo com o carro. Abri a porta, encostando-me no batente, esperando ele estacionar e sair do carro resmungando.
- Você poderia ser mais rápido para atender a porta. - a voz conhecida sussurrou, irritada. - Porra, cara, 10 minutos para me atender. Caralho.
- Está tudo bem? - perguntei, estranhando o mau humor.
- Não. - respondeu rápido, passando pela porta e me ignorando ali parado.
- Quer conversar sobre isso?
Zayn virou para mim, me encarando por longos e constrangedores segundos. O rapaz deu duas suspiradas fortes, como se estivesse se preparando para o discurso mais longo e exaustivo de sua vida, eu podia sentir dali que algo o estava massacrando por dentro. Não era um bom momento para ter meu companheiro de boyband desabafando no meu hall de entrada - eu tinha uma garota quase sem roupa me esperando no quarto -, mas aquilo parecia realmente importante. Quando deu a terceira suspirada, desceu os ombros como se desistisse e rumou em direção a sala.
- Cadê seu XBOX, cara? Vamos jogar. - perguntou, quando parou na porta do cômodo e não o encontrou disposto sobre a mesa.
- Quarto. - respondi, me arrependendo no mesmo segundo que vi o garoto concordar com a cabeça e virar em direção a escada, subindo-a rapidamente, pulando uns degraus. - NÃO! - gritei, subindo as escadas atrás dele, mas quando alcancei o topo, ele já estava parado em frente a porta do meu quarto, encarando o que havia lá dentro, e depois virou para mim com uma cara de confusão, praticamente segurando o riso.
- Ei, tem uma gostosa suja de bolo só de lingerie no meio do seu quarto. Você sabia disso?

's point of view
Subi as escadas calmamente, esperando que quem quer que fosse no portão, fosse embora logo. Entrei no quarto do cantor, rindo ao ver a pequena algema rosa ainda jogada sobre a cama. Quem diria, hein Harry Styles? Safadinho.
Resolvi tomar um banho correndo, pois sentia meu cabelo e minhas costas ainda melecadas de bolo de baunilha. Tirei a camiseta suja, deixando-a do lado do cesto de roupas, mas antes de tirar minha lingerie, percebi que não havia nenhuma toalha disposta pelo banheiro. Abri a porta do único armário que havia naquele lugar. Nada. Lembrei do vislumbre de uma toalha que eu havia visto no guarda-roupa gigantesco do garoto, e abri a porta do banheiro indo em passos rápidos até lá. Abri a porta do guarda-roupa, encontrando facilmente algumas toalhas dobradas, mas, quando coloquei as mãos em uma delas, ouvi barulhos na porta, o que me fez virar rapidamente e encontrar Zayn na porta, parado, me encarando.
- Ei, tem uma gostosa suja de bolo só de lingerie no meio do seu quarto. Você sabia disso? 
Meu cérebro demorou minutos para processar o que havia sido dito. Olhei lentamente para baixo e me deparei com meu corpo só de calcinha e sutiã. Soltei um grito esganiçado, estendendo a toalha na frente do meu corpo, enquanto da minha boca saia vários xingamentos baixos. Sem nem assimilar direito, corri para o banheiro, trancando a porta atrás de mim. Puta que me pariu. 
Pelo espelho, eu podia ver meu rosto mudar de cor em instantes, indo para um vermelho estrondoso, enquanto todo meu sangue se concentrava por ali. Puta que me pariu.
Pelo menos era uma lingerie bonita.
Tirei as peças misericordiosas que ainda me cobriam, entrando para tomar um banho rápido. Assim que senti que não havia mais nenhum doce perdido pela minha pele, me sequei e me embrulhei na toalha, saindo -após prestar mais atenção se havia alguém por ali- do banheiro. Em cima da cama havia uma calça de moletom e uma camiseta do Pink Floyd dispostas, o que me fez rir pensando no garoto boyband fã de rock clássico. Cacei minha calcinha emergência dentro da minha bolsa que estava jogada no sofá e me vesti rapidamente
Logo nos primeiros degraus da escada eu já pude ouvir os dois garotos e a voz do narrador do FIFA 14 estourando na sala. Adentrei o cômodo e ri baixo vendo na tela que o jogo se aproximava do fim, com placar de 2x2, o que parecia deixar os garotos tensos. Barcelona versus Real Madrid, um clássico. Antes de poder anunciar minha chegada, vi na tela Iniesta fazer um passe do meio de campo para Neymar, que chutou de fora da área no lado direito do gol, enquanto Casillas, controlado por Zayn, pulava para a esquerda. O grito de gol de Harry me fez dar um pulinho de susto, mas logo ri novamente ao ver o garoto levantar do sofá e começar a apontar para Zayn que havia largado o controle sobre a mesinha de centro. Com o barulho da minha risada, o cantor se virou para mim, comemorando, o que me fez comemorar também. Vi ele vir em minha direção correndo, abraçar minha cintura e me tirar do chão. Entrando na brincadeira, vendo a felicidade que o garoto estava por ter ganho a partida, ergui os dois dedos indicadores para o céu, fechando os olhos, enquanto falava.
- OBRIGADA DEUS, OBRIGADA NEYMAR. 
Harry soltou uma gargalhada alta, me soltando no chão e buscando meu rosto com suas duas mãos para me dar um selinho molhado. 
- CHUPA! - gritou, olhando para mim o que me fez assustar, mas logo se virou para Zayn, que ainda estava no sofá com a mão na testa. - Você paga o almoço!
- No último segundo, Harry. No último segundo. - Zayn murmurou inconformado.
- Trato é trato.
- Pelo menos é a garota que vai cozinhar. Aliás, oi! Muito bom te ver vestida.
- Meu Deus, Zayn, nós vamos, a partir deste momento, fingir que aquilo nunca aconteceu. E, cozinhar? - questionei, percebendo que Zayn estava se referindo a mim quando disse “garota”.
- Não prometo. - respondeu simplesmente, abrindo um sorriso malicioso. 
- Pedi para meu assistente ir no mercado comprar as coisas. - Harry respondeu depois de parar de rir do amigo, enquanto me puxava para sentar no sofá com eles. - Hoje teremos almoço brasileiro, feito por brasileira. Mouque… - começou, mas seu sotaque pesado atrapalhou toda a palavra. - Mouquêca?
- Moqueca. - corrigi. Chacoalhei a cabeça, colocando-a em ordem. Eu teria que cozinhar para eles? - Vocês estão doidos?
- Eu estou é com fome. - Zayn comentou. - E com raiva. Vamos mais uma partida Harry.
Harry tentou oferecer o controle para que eu jogasse uma partida contra o outro garoto, mas minha mente estava muito ocupada tentando lembrar passo a passo a receita de moqueca. Não que eu fosse uma péssima cozinheira, eu sabia me virar, mas eu não costumava cozinhar para outras pessoas. Se eu fizesse meu almoço e ele ficasse ruim, ok, se eu morrer a culpa é minha mesmo, agora cozinhar para outras pessoas não, levar crítica porque está faltando sal ou porque eu acidentalmente coloquei um item tóxico na comida, isso eu não poderia suportar. Já vejo as notícias: jovem brasileira mata integrantes da maior boyband do mundo com comida extremamente tóxica com altos níveis de radiação. 
Seria uma tragédia. 
O mundo pararia. 
Eu seria presa. Não haveria mais um futuro esplêndido guardado para mim, não que existisse agora um futuro esplêndido destinado á  . O maior esplendor que eu podia ver na minha vida, eram os lábios de Harry Styles, que estava sentado ao meu lado, com uma perna jogada no meu colo, enquanto corria, agora com o Cavani do Paris Saint-Germain, pelo campo.
Foco, .
A porta da entrada da casa se abriu e fechou em um baque, me tirando dos meus pensamentos. Os dois garotos não pareceram perceber o barulho e não despregaram os olhos da TV, o que me deixou mais nervosa ainda. Meu Deus, e se for um ladrão? Cutuquei a perna de Harry, que me encarou com a sobrancelha arqueada, apontei para o hall de entrada em um questionamento, mas a única resposta que foi capaz de me dar foi um dar de ombros, logo voltando a atenção para o jogo.
Joguei a perna do garoto no chão, me levantando em um pulo e decidindo ir ver o que estava acontecendo. Olhei ao redor da sala, procurando algum objeto para me defender, mas Zayn logo reclamou que eu estava na sua frente, então segui pé ante pé rumo ao hall de entrada, onde finalmente encontrei um pequeno vaso de cerâmica comprido que me ajudaria. Passei o hall, virei a esquerda, vi a cozinha. Vazia. Um leve farfalhar de sacolas me fez focar na despensa, sendo assim, era para lá que eu estava seguindo, segurando fortemente o vaso, quando percebi que na mesa estavam diversas sacolas de mercado, foquei nelas vendo de dentro de uma delas uma lata de leite de côco pulando para fora.
- Moça? - uma voz alta de homem surgiu da porta da despensa, o que me fez dar um gritinho de susto e mirar o vaso em sua direção. - Calma. Como você entrou aqui?
- Me diz você! - murmurei, logo percebendo que eu não deveria agir assim, sendo que eu sabia que era o assistente de Harry. - Pela porta, eu sei! Desculpa, está tudo bem.
- Está tudo bem sim. Você não quer sentar, tomar um copo de água? - o rapaz falava calmamente comigo e eu pude perceber seu olhar descendo até o celular que ele havia acabado de tirar do bolso, onde digitava calmamente uma mensagem com apenas uma mão. Quando percebeu que eu via seus movimentos, enfiou o celular no bolso, abrindo um sorriso que tentava esconder o pânico em seu rosto, mas falhava miseravelmente.
- Eu sou amiga do Harry. - comentei, tentando soar normal, mas vi o rapaz apenas concordar com a cabeça, como se não acreditasse em minhas palavras. - É sério, ele está lá na sala. - usei a mão que ainda segurava o vaso para apontar para a sala, mas meu movimento rápido com a peça de cerâmica fez o rapaz dar um passo para trás assustado. Meu Deus, ele achou que eu iria agredi-lo.
Soltei a peça na mesa, abrindo um sorriso no rosto e logo o fechando, pois a cara de susto do garoto piorou. Seu celular começou a tocar em um volume alto, mas o garoto continuava me encarando, com medo que eu fizesse alguma coisa.
- EI! Não vi você chegar, Phellipe. - a voz de Harry soou na entrada da cozinha.
- CUIDADO, HARRY! - a voz do rapaz, que agora eu sabia se chamar Phellipe, soou alta e assustada, enquanto seu braço erguia, com o dedo apontado para mim, enquanto me chamava de fã maluca.
Harry passou os olhos por Phellipe, depois me encarou por segundos, até que o vislumbre do vaso, que ficava no seu hall de entrada e que agora estava ao meu lado na mesa, chamou sua atenção. Os tico e teco do cantor começaram a juntar as peças e quando, enfim, entendeu o que acontecia, levantou seu braço em minha direção, gritando:
- UMA FÃ MALUCA! PRENDAM-NA! 
Eu nem tive tempo para entender a palhaçada que Harry tentava armar, mas vi pelo canto de olho que Phellipe parecia tomar impulso para correr em minha direção. O cantor também pareceu perceber que o assistente -realmente- me atacaria, então gritou um sonoro NÃO, enquanto se dobrava, caindo na gargalhada. O assistente parou, agora a poucos passos de mim, observando Harry vir em minha direção e me dar um abraço apertado.
- Meu Deus, , você faz a minha vida tão melhor em tão pouco tempo. - escondeu seu rosto no meu cabelo, enquanto me abraçava apertado, ainda tendo seu corpo tremendo com o riso que dava.
- Eu. vou. matar. você.. - respondi entre dentes, e pude perceber o assistente arregalar os olhos ouvindo minhas palavras, o que fez eu falar rápido que estava brincando.
Levou uns minutos para Harry explicar para Phellipe o que estava acontecendo, e depois para repetir toda a história para Zayn que havia chego no últimos segundos dos acontecimentos e não estava entendendo nada. Enquanto isso, eu estava focada na tábua cortando o último pimentão para dar início a moqueca baiana que eu faria.
Logo Harry se juntou a mim ao redor do fogão e me ajudou com algumas coisas e atrapalhou com todo o resto delas, principalmente quando decidiu que só iria ler a receita que eu havia aberto no meu celular, em português. 
- Já estamos munidos de palavras para nosso próximo show no Brasil, Zayn. - comentou, levando a panela quente até o centro da mesa que havia sido arrumada por seu amigo. - Dendê, pimentão, leite de coco. - deu a entonação errada na última palavra, o que me fez rir, mas não o corrigir, apenas para ter o prazer de ver vídeos deste momento rolando pela internet um dia.
Malik apenas deu uma respirada funda em resposta a brincadeira do amigo, achei estranho, mas não acreditei ser o momento certo para questionar sobre aquilo, aliás, não tínhamos nem intimidade para qualquer tipo de conversa séria. Apesar de  que ele já me viu de calcinha... mas enfim.
Tornei-me apreensiva, assim que vi os três garotos -já que Phellipe havia sido convidado para o almoço após ter demonstrado ser totalmente fiel ao patrão, ao ameaçar atacar uma maluca que invadiu a casa dele- darem a primeira garfada na minha moqueca. Harry, que estava ao meu lado, foi o primeiro a abrir um sorriso, Zayn balançou a cabeça para cima e para baixo com uma feição de prazer, e Phellipe ergueu as duas mãos aos céus em agradecimento. Feliz da vida, enfiei o garfo cheio de peixe na boca, vendo que realmente estava muito bom.
- Solta os cachooooorro. - disse em português, rindo.
- Dendêeeee. - Harry gritou em resposta, o que me fez rir mais ainda.
Comer uma comidinha brasileira havia matado um pouco da saudade que eu estava do meu país, ainda mais com o fato de Phellipe ter achado a maioria dos ingredientes brasileiros, possibilitando que eu fizesse a receita perfeita. 
Eu estava feliz demais. 
Ri leve de um comentário que Styles havia feito, enquanto ele e o assistente davam conta da louça na pia, e eu e Zayn fazíamos comentários idiotas, ainda sentados na mesa bebendo um vinho. A tela do celular de Harry que estava logo ao lado do meu braço se acendeu, e as mensagens apareceram, me fazendo perder toda aquela alegria que eu havia acumulado na última hora.

Nadine L.:
oi! sei que nos vimos antes de ontem, mas já tenho saudades
vamos marcar algo para hoje se você não estiver ocupado que nem ontem
você sabe onde me encontrar

Eu odeio ser uma mulher emocionada.



Capítulo 8

Eu estava cansada de estar naquele lugar. Olhei para o relógio e não era nem 17h ainda. Droga. O diretor reforçava mais uma vez o nosso schedule mensal, enquanto eu encarava o nada fingindo que estava entendendo tudo. Ensaio, ensaio, experimentar figurino, entender os elementos visuais, mais ensaio, iluminação, sonografia, ensaio. Bocejei.
Eu deveria estar mais empolgada.
Em três meses eu estaria em cima daquele mesmo palco em meu vestido de época declamando todas as frases decoradas, sendo assassinada por Otelo, enquanto chorava e dizia que eu não havia o traído.
Eu deveria estar empolgada. Nem que fosse um pouquinho.
Quando ouvi o início de uma salva de palmas me juntei a todos, tentando entender o que estava acontecendo, e logo Jeremy apareceu na minha frente, estendendo a mão para me ajudar a levantar e assim o fiz, percebendo que o ensaio daquele dia já havia chego ao fim. Olhei para o relógio, quase 18h. Como assim?
- Estou animado para a parte do figurino. - Jerm comentou, me acompanhando para fora do palco e depois até as cadeiras onde eu havia deixado minha bolsa. - Você não perde por esperar os vestidos que estamos montando... magníficos!
- Absolutamente tudo que vem de ti é magnífico, meu amor.
- Será a Desdêmona mais linda que Otelo já viu. - o garoto riu, me acompanhando rumo a saída do espaço que havia sido locado para os ensaios.
- Mas isso eu já sou naturalmente. - brinquei, rindo.
Assim que ia virar para fazer mais um comentário, meus olhos bateram no porsche preto, que não combinava nada com aquele lugar, estacionado logo na frente da saída do teatro. Encostado nele, para minha grande surpresa, havia um Louis Tomlinson de óculos de sol e pose de malandro bem entretido assinando uma pequena folha para uma das garotas que haviam acabado de sair do ensaio. Virei para Jeremy que também encarava o garoto e ri baixo ao vê-lo dar de ombros, enlacei meu braço no seu, caminhando em direção à rua.
- Será que o cantor decidiu virar ator? - disse com desdém.
- Se ele atuar do mesmo jeito que canta, a nossa carreira está acabada. - me abanei com a mão livre. - Que voz, meu Deus.
- Não vem me dizer que você anda ouvindo One Direction,. - o garoto gargalhou alto.
- Ei! Preconceituoso! - empurrei-o com meu ombro. - Eu tenho que conhecer o terreno que estou pisando… e eles são bons. Esse Louis aí mesmo… nossa...
-! - a voz do cantor soou perto demais, o que me fez assustar e virar em um pulo só em direção à ela, observando o garoto desacelerar os passos enquanto chegava próximo a nós. - Eu estou te esperando há um tempão, pelo amor de Deus.
- Eu? - questionei, sem entender, o que fez o garoto expressar uma feição de confusão.
- Claro, oras.
- Eu? - perguntei novamente, chacoalhando a cabeça para colocá-la em ordem. - O que você quer?
- Não está feliz em me ver? - o garoto questionou, erguendo as sobrancelhas.
- Não. - respondi rápido, mas logo gaguejei vendo o garoto piorar seu rosto confuso. - Digo, estou, mas o que você está fazendo aqui?
- Vim atrás de ti.
- De mim? - questionei novamente e Jeremy soltou uma risada alta.
- Eu não tenho tempo para essa conversa extremamente produtiva, já vou indo. Tchau,, tchau cantor. - o rapaz comentou, e, enquanto se distanciava, deu uma piscadinha para Louis que sorriu em resposta. - Não façam nada que eu não faria.
- Jeremy! - repreendi, vendo-o sorrir. Virei novamente de frente para Louis, ainda a espera das explicações do garoto, mas pude ouvir a voz de Jeremy soar distante.
- Usem camisinha! - gritou.
- JEREMY! - virei rapidamente em direção ao meu melhor amigo, que agora já estava há uma boa distância de nós, mas perto o suficiente para ouvirmos a risada alta que dava. Limpei a garganta, retornando de frente ao cantor, que me encarava com um sorrisinho ridículo no rosto. - Não precisamos usar camisinha, ele estava brincando. - soltei rápido, logo percebendo as palavras idiotas que estavam saindo da minha boca. - Digo, ignora a camisinha, eu nem tenho camisinha aqui e…
- Eu entendi,. - me cortou, rindo. - Você é mesmo bem palhaça, né?
- Veio aqui para me ofender? - coloquei a mão na cintura, demonstrando toda minha incredulidade na feição.
- Vim te buscar para jantarmos.
- Você ao menos me perguntou se eu gostaria de jantar contigo? - tentei montar uma pose superior, mas falhei vergonhosamente, vendo o garoto abrir mais um dos sorrisos sarcásticos de sua coleção.
- Você quer jantar comigo?
Esperei uns segundos encarando os olhos azuis do garoto, enquanto trocava o peso da minha perna, balançando para frente e para trás, pensando na melhor maneira de resolver aquilo. Um jantar não faria mal a ninguém, não é? Mesmo que aquele garoto ali conseguisse acordar todo meu corpo apenas com a voz…
Soltei o ar que estava preso em meus pulmões, dando de ombros.
- Só porque estou morrendo de fome. - o pedaço de pão que eu havia comido há minutos resmungou no meu estômago, quase me denunciando.
- Só. - confirmou, rindo baixinho enquanto caminhava em direção ao seu carro.
Entrei no porsche, deixando meu queixo cair. Eu nunca havia andado em um carro como aquele, eu estava a cara da riqueza mesmo! Minha vontade era sacar o celular de dentro da mochila, tirar foto e fingir que eu era dono de tudo aquilo. Bom dia, meninas, estou aqui dentro do meu porsche dando uma pequena passeadinha pelas ruas de Londres. Ri sozinha dos meus pensamentos e vi Louis me encarar pelo canto dos olhos, abrindo um sorriso.
- Agora me conta, como descobriu onde eu estava? - questionei, sentindo aquela pergunta martelar no fundinho da minha mente.
- Tentei informações com o Harry e não obtive sucesso algum, aí tive que apelar para os meus contatos.
Assim que o nome do companheiro de banda soou pelos lábios de Louis, meu coração afundou um pouquinho. Aquilo não era errado, era? Estávamos apenas indo para um jantar, entre pessoas que não eram amigas, pois eu mal conhecia aquele garoto, mas que poderiam um dia se tornar conhecidas.
Eu havia tramado violentamente no beijo com Harry, mas aquela mensagenzinha que eu vi piscar na tela do cantor, havia deixado algumas coisas claras para mim. Coisas que Harry não tentou esclarecer nessa última semana que não havia tentado contato algum comigo. Aliás, parecia algo normal de Styles. Sumir por uma semana, sem deixar vestígios nenhum. Não que eu estivesse morrendo para saber onde e como o garoto estava... Ok, eu estava morrendo para saber, mas ninguém precisava saber disso.
Não haveria mal nenhum estar com o rapaz de olhos estupidamente azuis dentro de seu carro indo jantar não sei onde. Certo?
- Seus contatos? Se você estava soando como se tivesse buscado minha localização nas mais profundas camadas da deep web, conseguiu. - comentei, fazendo o garoto gargalhar.
- Só digo que foi bem difícil, mas valeu a pena.
- Você é cheio das cantadas, né?
- Eu ainda não descobri como te conquistar, então vou tentando com elas. - tirou os olhos da rua para poder piscar para mim, enquanto eu chacoalhava a cabeça em negação, rindo. Esse garoto era impossível.
O carro do garoto deslizava lentamente pelas ruas de Londres, e quando estava pronta para questionar a Louis se eu deveria estar mais arrumada para onde iríamos jantar, o garoto deu seta para a esquerda, estacionando logo ao lado de um trailer de comida mexicana, respondendo a pergunta que eu não havia feito.
- Gosta? - questionou, assim que desligou o carro.
- Eu amo comida no geral. Então, sim.
O garoto de olhos azuis desceu do carro, rindo da minha resposta, me esperando para nos juntarmos as pessoas que esperavam na fila. Logo fizemos nosso pedido e nos sentamos nas mesas dispostas pela calçada para aproveitarmos o burrito que havíamos pedido.
- Isso é muito bom, meu pai amado. - comentei, dando a última mordida na quesadilla que estávamos dividindo.
- Muito bom, indeed.
- Agora seu pedido venceu, já jantamos… acabou para você, Tomlinson.
- Meu plano está formado em etapas. - respondeu, rindo e limpando o resto de molho do canto de sua boca. - Agora irei te convidar para tomar uma bebida em algum bar.
- Isso soa extremamente interessante. Sou uma grande fã de bebidas.
- Por enquanto não errei em nenhuma etapa, espero que continuemos assim. - piscou para mim.
O sorriso não saiu do meu rosto enquanto respondia casualmente as questões divertidas que o garoto me fazia, e perguntava coisas bobas à ele. Descobri sobre seus seis irmãos, e comentei sobre como era chata a vida de filha única. Ouvi mais histórias sobre o início da One Direction, me divertindo com os comentários que o garoto fazia, dizendo que era a pessoa mais caótica possível quando adolescente. Eu realmente conseguia imaginar um Louis Tomlinson adolescente completamente transtornado e maluco.
Quando não havia mais histórias bobas para contarmos, decidimos encontrar algum bar para “enchermos a cara”, palavras de Louis, não minhas. Logo estávamos estacionando o carro na entrada de um barzinho temático qualquer de Londres. Encaminhei-me em direção a fila de entrada com poucas pessoas, mas Louis segurou minha mão me puxando para perto dos seguranças, que cumprimentou apenas com um acenar de cabeça, e depois para dentro do lugar. Nos encontrávamos em um bar rústico, todo de madeira, praticamente vazio, o que não explicava a fila que se formava lá fora. O garoto, ainda me puxando pela mão, escolheu uma mesa pequena em um canto quase escuro, e nos sentamos ali.
- Parece que você é conhecido por aqui. - comentei, apontando com o olhar para a porta.
- É um bom barzinho, Liam que me apresentou em um dia que eu comentei que tudo que eu precisava era uma bebida e paz, eu me apaixonei pelo lugar e é isso. Falando em bebida… - ergueu a mão direita, chamando o garçom que logo apareceu na nossa frente. - Eu quero uma cerveja, e você…
- Cerveja! Sempre.
Prestei atenção na primeira vez que o garçom repôs nossa bebida, na segunda também, na terceira talvez. Na quarta, havíamos trocado cerveja por doses de tequila, e eu já ria alto, dando um highfive com Louis, mesmo ele não tendo entendido minha piada. Na quinta, nos foi oferecido doses de whiskey, e nossas cadeiras já estavam mais próximas, enquanto o garoto sussurrava no meu ouvido sobre como deveríamos pensar nos aliens com mais carinho.
- Eu também acho, Louis! - falei alto, virando de frente para o cantor de olhos azuis. - Sabe! Quem nós pensamos que somos para menosprezarmos eles?
- Exatamente,! - concordou fervorosamente com a cabeça. - Eu acho que assim, nós somos os aliens dos aliens, e...
- OS ALIENS DOS ALIENS. - olhei dentro dos olhos do garoto, rindo alto da frase. - Mas você pensa, às vezes, não é que eles não conseguem chegar até nós…
- Eles não querem. - complementou, chacoalhando a cabeça.
- EXATO! Nós podemos estar na periferia da Via Láctea, ou que nem George Adams diz nós estamos na borda mais brega da galáxia! Ninguém se dá ao trabalho de nos visitar!
-… - Louis pegou minha mão que estava solta em cima da mesa. - Obrigada por essa conversa. - tentou ficar sério, mas soltou outra gargalhada alta, me fazendo acompanhá-lo.
O garçom apareceu novamente com duas garrafas de heineken na mão, soltando-as na mesa, mesmo eu não tendo lembranças de termos pedido mais. Assim que dei a primeira golada na bebida, senti minha bexiga dar os primeiros sinais de vida e, mesmo sabendo que ela me atormentaria pelo resto da noite depois disso, sussurrei no ouvido de Louis que iria ao banheiro, e fui dar uma volta no salão atrás do cômodo. Percebi meu nível de álcool no sangue quando entrei na cabine e comecei a conversar comigo mesma. Era assim que eu costumava identificar quando estava ficando bêbada… andar tropeçando? Não. Não conseguir parar em pé? Não. Começar a falar sozinha no banheiro? Sim.
Assim que saí do banheiro, pude enxergar Louis do outro lado do salão, parcialmente iluminado pela luz do celular. O garoto mantinha a tela bem próxima aos olhos, como se tivesse dificuldade para ver o que havia nela. Ri baixo, percebendo que o cantor também estava bêbado. Caminhei em passos contidos de volta a mesa ainda rindo da minha constatação, animada para contar para Louis o que eu havia descoberto. Sentei na cadeira, soltando risinhos felizes, esperando que ele desligasse o celular e prestasse atenção em mim, e quando assim fez, o segurei firmemente pelo braço.
- Louis, tive uma revelação no banheiro!
- Algo a ver com religiosidade? - questionou, virando de frente para mim. - Alguma santidade apareceu no seu xixi?
Soltei uma gargalhada alta com a pergunta do garoto, vendo-o rir também.
- Eu seria extremamente famosa com isso. - comentei e vi o garoto acenar com cabeça, concordando com minhas palavras. - Mas agora minha revelação vai soar totalmente ridícula perto do nível alto da sua expectativa.
- Tente.
- Constatei que estamos bêbados. - coloquei um bico no rosto, vendo o garoto chacoalhar a cabeça em negação.
- Ridícula. - falou sério, o que não durou muito, pois em segundos já estávamos gargalhando de novo. Virei mais uns goles de heineken goela a baixo e vejo o garoto me encarar. - Você não acha que já bebeu o suficiente?
- Nunca há o suficiente para bebida. - falei, segurando a risada.
- Quantas bebemos? - me perguntou com a feição confusa. Ergui três dedos em sua direção, e encarei minha mão, tentando lembrar quantas foram. Subi mais um dedo e mais um, e aí encarei a outra mão, vendo que eu teria que mudar para ela para conseguir contar. Antes que eu continuasse, Louis riu mais uma vez, me pegando pela mão levantada e puxando para longe da mesa. - Deu para nós.
Não sei exatamente como pagamos a conta do bar, nem como conseguimos rapidamente encontrar e entrar no carro do garoto, mas logo Louis dirigia pelas ruas de Londres a 20 quilômetros por hora, enquanto eu reclamava da sua irresponsabilidade por beber e dirigir, e procurava, a pedidos do garoto, alguma estação de rádio gospel que iria nos abençoar para conseguirmos chegar em casa são e salvos.
Eu fui a primeira a perceber a luz do giroflex do veículo atrás de nós brilhar no teto do carro. Olhei para Louis, que dirigia balançando os ombrinhos no ritmo da música que ressoava no rádio, e foi preciso cutucá-lo duas vezes para que ele prestasse atenção em mim.
- Puta merda, Louis. - apontei para o retrovisor, onde era possível ver o veículo praticamente colado na bunda do porsche, piscando loucamente com a luz vermelha.
- Puta que me pariu. - o garoto xingou baixo, olhando desesperadamente para os lados, enquanto dava seta para estacionar o carro. - Merda, merda, merda.
- Usa sua sedução. - sussurrei baixo. - Joga o cabelo!
- O quê?
Apesar da situação séria, vi o rosto bêbado do garoto se iluminar, dando risada da minha ideia. Travei dura no banco, com os olhos absurdamente arregalados, vendo que a viatura havia estacionado atrás de nós e o policial que a dirigia caminhava calmamente em direção a porta de Louis. Não foi preciso nem o policial pedir para que o menino entregasse os documentos do carro e sua habilitação, tentando colocar a feição mais sóbria possível em seu rosto.
- Sua lanterna traseira está queimada. - o policial comentou depois de alguns segundos, entregando os documentos para Tomlinson, assim como uma notificação por ter a lâmpada sem funcionar. - Dê um jeito de consertar isso logo.
- Sim, senhor. - Louis respondeu de imediato, entregando os papéis em minhas mãos.
Assim que vimos a viatura passar do nosso lado, encaramos um ao outro, respirando em alívio, segurando fortemente a risada.
- Meu cu não passava uma agulha. - comentei baixinho, ouvindo a gargalhada alta do garoto preencher o carro.
- Puta merda,. - disse, virando de frente para mim, esticando os dois braços em minha direção para segurar minhas bochechas e puxar meu rosto em direção ao seu, enquanto me beijava.
Não sei por quantos deuses eu posso jurar que eu tentei me controlar para não retribuir o beijo que Louis me dava. No entanto, assim que senti seus lábios se moverem sobre os meus, não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Aquilo era errado.
Muito errado.
Mas muito bom.
Mesmo com nossos corpos afastados, o garoto mantinha a mão na minha nuca agarrada entre os meus fios de cabelo, enquanto eu acariciava lentamente sua bochecha, tentando puxá-lo para mais perto de mim. Os lábios de Louis eram macios demais, sua barba por fazer arranhava um pouco meu rosto, mas meu Deus, como eu gostava de uma barba.
Foi quando minha mente deu um estalo.
Eu não deveria estar fazendo aquilo.
Desci a mão até os ombros do cantor, empurrando-o delicadamente, ao mesmo tempo que o garoto abria uma feição confusa no rosto.
- Louis… - comecei, mas minha voz falha, enquanto ainda estava sem fôlego pelo beijo.
-? Algum problema? - sua voz soou mais rouca que o normal, me arrepiando da cabeça aos pés.
- Eu… - respirei fundo. - Não deveríamos estar fazendo isso.
- Não sei como não deveríamos estar fazendo uma coisa tão boa assim. Eu quero, você quer, qual o problema?. - sinto sua mão descer até o meu joelho em um leve carinho.
- Eu beijei Harry. - falei simplesmente. - Digo, nós nos beijamos. Várias vezes.
- Bom, aí já complica as coisas. - o garoto ri baixo, chacoalhando a cabeça como se entendesse o problema, mas mantém sua mão mexendo carinhosamente na minha perna.
- Eu não sei o que é que ele e eu temos, mas sinto que é muito errado eu estar fazendo isso contigo agora.
- “Isso” você diz me beijando deliciosamente no carro? - ele comenta, enquanto eu encosto a cabeça no apoio do banco, sentindo meu corpo tremer enquanto rio do garoto.
- Isso. - concordo. - Não parece certo, entende? Não é como se eu e ele tivéssemos algo, mas ainda sinto que devo agir com…
- Respeito. - Louis complementa minha frase, olhando fixamente nos meus olhos. - Eu entendo,. Espero que resolvam as coisas entre vocês. E se caso for de alguma maneira ruim, eu também terei algumas coisas para resolver com você, mas entre os lençóis. - piscou para mim no fim da frase, me fazendo rir mais uma vez.
Abro um sorriso sincero para Louis, vendo o garoto tirar a mão da minha perna, ligando o carro para sairmos dali. Eu não havia percebido, mas agora uma chuva caia lentamente por Londres, deixando o cheirinho de terra adentrar pelo pequeno espaço da janela aberta. Enquanto dirigia, o garoto aumenta o rádio que havíamos baixado quando o policial apareceu e algum gospel britânico soa alto no carro, fazendo nós dois rirmos novamente. Todo o álcool que havíamos ingerido parecia ter sumido de nossos corpos, mas ainda nos sentíamos incrivelmente leves.
- Queria estar perguntando para ti se vamos para minha casa ou para sua. - Louis chacoalha a cabeça em negação, apresentando um bico em seu rosto.
- E eu queria estar respondendo que a sua casa. - respondi rapidamente, vendo o garoto virar para mim com um sorriso sacana no rosto. - Eu estou brincando! Já estamos resolvidos por aqui, Tomlinson.
- Ah, minha querida, eu tenho tantas coisas para resolver contigo ainda. - responde rapidamente, dando seta enquanto virava na minha rua.
Ele pára o carro do outro lado da rua do meu prédio, desligando o carro e me encarando. Tento me manter séria, mas rio quando ele abre o sorriso malicioso novamente.
- Obrigada pelo jantar, Louis. E pelas bebidas.
- E pelo beijo. - complementa.
- E pelo beijo. - concordo, me debruçando sobre a marcha do carro, deixando um beijo na bochecha do garoto. - Tchau!
Ouço ele me responde enquanto fecho a porta do carro em uma batida só. Mesmo com a chuva caindo, espero pacientemente os carros que trafegam pela minha rua passarem, correndo pela rua quando uma brecha se abre. Seguro a barra da minha saia longa, dando graças a Deus por estar usando botas naquele dia. Levanto os olhos quando pulo a enxurrada, encarando a porta do meu prédio e encontro um Harry Styles parado ali me encarando. Jogo meu corpo embaixo da pequena marquise, me apertando com o garoto naquele espaço.
- Ei. - sussurra baixo.
- Ei. - sussurro de volta, encarando seus olhos.
- Tentei te ligar.
- Fiquei sem bateria há horas atrás. - respondo simplesmente, sentindo um arrepio de frio subir pelo meu corpo.
- Era o carro do Louis. - fiquei em dúvida se era uma pergunta ou uma afirmação, então não o respondo, vendo-o apenas concordar com a cabeça depois de alguns segundos. - Entraremos em turnê em 1 semana.
- Por quanto tempo? - o garoto parece não entender minha pergunta, visto que a chuva aumentou torrencialmente, então a repito.
- Oito meses. - respondeu. - Mas voltarei para Londres em abril e maio.
- Tudo bem. - concordo com a cabeça, tentando controlar a tensão que prevalecia na conversa de poucas palavras.
Harry me encara por alguns segundos, e então contorna meus ombros com seus dois braços, me puxando para um abraço apertado. Tento reclamar que eu estava o molhando, mas sinto o garoto apenas pousar seu queixo sobre minha cabeça, suspirando profundamente. Aperto meus braços em sua cintura, respirando fundo seu perfume forte e amadeirado.
Eu poderia morrer ali, que eu morreria completamente feliz.
Não sei por quantos minutos permanecemos abraçados, mas quando percebemos que nem nosso calor corporal faria o frio da chuva ir embora, nos separamos. Procuro dentro da minha mochila a chave da porta, e depois de abri-la encarei Harry, que estende a mão para mim.
Seguro forte sua mão, puxando-o para dentro do prédio e depois em direção as escadas e até ao meu studio. Lá, jogo minha mochila no chão indo em direção ao guarda roupa, encontrando um moletom que Jeremy sempre deixava em casa por segurança, vejo o garoto soltar o casaco pesado e molhado no batente da porta, caminhando em minha direção e, quando o entrego o moletom e a toalha, o garoto segue em direção ao banheiro sem soltar uma palavra.
Eu sentia como se não houvesse nada a dizer também.
Vou até a janela e fico lá encarando a chuva por alguns minutos, até ouvir a porta do banheiro se abrir novamente, vendo sair de lá o cantor que me encara e depois torna seus olhos para suas as canelas à mostra pelo moletom curto, o que nos faz rir juntos.
Quando saio do meu banho, finalmente me sentindo quentinha no meu moletom largo, procuro rapidamente Harry pelo studio, encontrando-o deitado na minha cama, praticamente escondido embaixo de três cobertas pesadas. Corro até lá, me enfiando entre as cobertas, deitando de frente para o garoto.
- Estou com sono. - me diz baixinho, enquanto pisca lentamente.
- Pode dormir, lindo. - digo em resposta, praticamente sussurrando a última palavra em português.
Sinto o braço do garoto procurar minha cintura por baixo da coberta, encaixando-o ao redor do meu corpo enquanto me puxa para mais perto. Enrosco minha perna na sua, deixo um beijo em seu rosto e acomodo meu rosto no seu pescoço, sentindo o cheiro do meu sabonete impregnado na pele dele.

Logo sua respiração se torna mais calma e compassada e seu braço não aperta mais minha cintura, indicando que o garoto entrou em um sono profundo. Meu cérebro que trabalhava tentando entender o que estava acontecendo naquele momento começa a se tornar mais lento e lento, até que apago nos braços de Harry.


Capítulo 9

Acordei sentindo o cheiro de café perambulando por todo o espaço do meu studio, levantei o tronco procurando o porquê daquele cheiro e a cena que vi fez um sorriso instantâneo abrir no meu rosto. Na cozinha, eu avistava um Harry Styles só de calça de moletom, deixando todas suas tatuagens a mostra, encarando com uma feição muito engraçada de concentração o coador de pano, enquanto colocava mais água nele. Harry Styles fazendo cafézinho do jeito brasileiro era tudo que eu nunca imaginei que veria. Quando acabou a água do bule, virou para seu celular e encostou na tela, fazendo uma voz em português sair alta e clara do aparelho.
- Agora seu café está pronto, é só retirar o coador e passar todo o café para sua garrafa térmica. - a voz feminina soou alta, mas o rosto do garoto piorou em confusão, não entendendo o que acontecia. 
- Em que parte vai o açúcar? - o garoto se perguntou baixinho retornando o vídeo alguns segundos antes, me fazendo abrir mais o sorriso que ainda não havia saído do meu rosto.
Mais uma vez a voz da mulher saiu alta, explicando a necessidade de escaldar o coador de pano antes de utilizá-lo, e Harry abaixou na direção do celular, tentando prestar mais atenção no que ela fazia, tentando copiar suas ações, já que pelas palavras ele não conseguia compreender nenhum pouquinho. Eu chacoalhei a cabeça em negação… não se deve pôr açúcar no café, Harry!
Enquanto o garoto se mantinha entretido no vídeo, joguei a coberta longe, sentindo o calor do dia já se manifestar no meu corpo. Apesar da chuva torrencial que havia caído na noite passada, eu podia ver pela grande janela que o sol brilhava lá fora, há quanto tempo eu não via sol! Caminhei lentamente até a cozinha, e mesmo com o barulho do meu pé descalço batendo no piso frio, Harry continuou atento ao vídeo que tocava, sem prestar atenção em mais nada. Meu cérebro se bagunçou em diversas coisas que eu poderia fazer com aquele garoto ali, mas quando meus olhos bateram no pequeno pano de preço escuro que estava em cima do fogão foi instantâneo saber o que fazer.
- RATO! - gritei no mesmo instante que joguei o pano de prato no ombro do garoto, vendo ele gritar, se levantar em um pulo e sapatear no chão tentando tirar o pano de cima de seu ombro.
Quando percebeu que não havia rato nenhum, virou para mim, com a melhor cara de decepção em seu rosto, jogando o pano em minha direção. Minha risada se intensificou assim que um arrepio pareceu subir por seu corpo, como se ele ainda pudesse sentir o gelo do pano/rato em seu ombro. Com um negar de cabeça, o garoto avançou em minha direção, e não teve gritos meus que o contivesse de me jogar nos seus ombros como se eu não pesasse nada, e depois rumar até a minha cama me jogando lá. Seus dedos avançaram rapidamente até as minhas costelas, em uma cócega desastrada. EU ODIAVA COSQUINHAS!
As mãos do garoto subiam e desciam pelas minhas costelas, enquanto eu gritava e esperneava, sem conseguir segurar a risada alta que saia da minha garganta. Quando percebemos, ao mesmo tempo, que não havia mais ar para respirarmos, eu de tanto rir e ele de canseira, Harry encaixou suas mãos ao redor dos meus punhos, erguendo-os acima da minha cabeça.
Pronto, lá vem!
Harry mantinha-se sobre o meu corpo, respirando ofegante, com o tronco ligeiramente abaixado na minha direção e um sorriso malicioso preso nos lábios. Sua mão esquerda sozinha tomou conta de segurar meus dois punhos, enquanto a outra descia até minha boca, onde puxou meu lábio para baixo com o indicador. Copiei seu sorriso malicioso no meu.
- Por que nós sempre acabamos nessas poses estranhas carregados de tensão sexual?
- O por quê eu não sei. - o garoto inclina mais um pouco, cada vez mais próximo a mim, fazendo com que seu cabelo solto quase tocasse meu rosto. - Mas tem uma coisa em você, … uma coisa que não deixa eu me manter longe, e eu não tenho a menor ideia de como controlar isso. 
A última parte saiu quase um sussurro, mas tendo sua boca tão próxima a minha, eu consegui entender cada palavra que disse. Não tive tempo de reagir, pois no mesmo instante os lábios de Harry caçaram meu pescoço, subindo em direção a minha boca em um beijo urgente, deixando minha pele queimando por onde passava. A urgência da boca de Harry sobre a minha, fazia meu corpo ferver ainda mais. Eu queria poder sentir cada pedaço do seu corpo nas minhas mãos, mas elas ainda estavam presas pela mão do garoto, que parecia adorar aquela sensação de estar comandando tudo.
O calor já se tornava insuportável, quando o cantor finalmente liberou minhas mãos, descendo com as suas em direção a barra do meu moletom largo, sem quebrar por um segundo o beijo ardente que dávamos. Suas mãos grandes acompanharam o tecido subindo pela minha cintura, até a base do meu seio, e quando o garoto percebeu que não havia nada os cobrindo, separou nossas bocas, se deixando arfar pesado. Suas mãos subiram mais, deixando o ar do dia tocar meus seios desnudos, e era isso que teria me feito arrepiar, se não fosse o olhar de desejo que Harry deixava recair sobre mim.
Ele se debruçou novamente em cima de mim, jogando longe o moletom que eu usava, e eu tremi sentindo sua pele encostar na minha. Ah, eu não perderia um segundo sem tocar seu corpo, e foi assim que fiz, passando minhas unhas lentamente por seus braços e depois suas costas, sentindo o garoto arfar cada vez mais pesado contra minha boca. Foi em algum desses momentos que o garoto travou, lembrando-se do que fazia antes de estarmos atracados na minha cama, arregalando os olhos, olhando fixamente para mim.
- O café vai esfriar! 
- Que se foda a porra do café, Harry Styles. - falei alto, esticando meus braços até sua cabeça para puxá-lo em direção a minha boca novamente.
Senti seu corpo tremer todo sobre o meu enquanto ria, sussurrando também que o café fosse para puta que pariu.
Subi minhas mãos sem delicadeza nenhuma até seus ombros, o empurrando para trás, e logo Harry percebeu que eu queria tomar as rédeas da situação, então se levantou um pouco, apertando cada uma das suas mãos nas minha coxas, prendendo minha perna ao redor do seu corpo, enquanto se virava na cama, me deixando por cima.
- Dessa vez sem cair em cima de bolo. - comentou baixinho, me fazendo gargalhar alto.
Estando por cima, desci minha mão até o cós da sua calça, a puxando para baixo, enquanto encarava os olhos e o sorriso maliciosos do garoto.
- Ah, Harry, não tem bolo capaz de parar a gente agora. 

xx

Saí da banheira, não me importando com a água que escorria pelo meu corpo e encontrava o chão do banheiro, porque na minha frente havia Harry, e eu não conseguia decidir se era uma das cenas mais sexys ou mais engraçadas que eu já havia visto na vida. Começava bem, com meus olhos subindo pelas suas pernas torneadas, passando pela tatuagem de um tigre que parecia recém feita, pelo nome “Brasil” que fazia um sorriso abrir no meu rosto, pela sua nudez, sua barriga, suas incontáveis tatuagens sem significado algum, pelos seus braços marcados, pelo sorriso safado que prendia no rosto, e aí até seu cabelo... preso, enrolado, igual eu prenderia o meu em instantes, em uma toalha vermelha extravagante. Ok, era definitivamente muito engraçado.
O garoto estende uma das toalhas que estava pendurada em minha direção, e enquanto enxugo minhas pernas, sinto ele se colocar atrás de mim, espremendo outra toalha em meus cabelos molhados. Quando termino de me enxugar, o garoto deixa um leve selinho nos meus lábios, saindo do banheiro pequenino, indo em direção ao meu guarda roupa atrás de mais um moletom de Jeremy, e eu fico ali mesmo, estagnada, vendo a bunda branca do garoto balançar caminhando pela área aberta do meu studio. Meu Deus, nem nos meus sonhos mais loucos…
Me coloquei em cima do balcão da cozinha, agora vestida com um shortinho e uma camiseta leve, para combinar com o ar que estava lá fora, e explicava calmamente para Harry sobre os preparativos do café no coador de pano, achando extremamente fofo os olhinhos concentrados e interessados do garoto.
- A cafeteira francesa que usamos aqui é tão mais fácil. - sussurrou baixinho.
- Mas não faz um café tão bom quanto esse. - comentei, vendo o garoto encher minha caneca trincada com o café preto recém passado e suspirando ao sentir novamente o cheiro da bebida preencher meu nariz. - Eu amo café.
-  E aí, quais os planos para hoje? - encaixou-se no vão das minhas pernas, pousando a mão sobre a minha coxa.
- Bom, já passou do meio dia e ainda estamos tomando café…
- Eu ia dar ideia para irmos a Botany Bay, aproveitar esse sol, curtir uma praia, te jogar de um penhasco… - o garoto comentou, em tom de brincadeira, o que me fez rir.
- Ah, Harry… você sonha que vai conseguir me jogar de um penhasco antes que eu te atropele com um carro.  
- Se eu fosse você, não me ameaçaria muito, porque se continuar assim eu vou é te jogar naquela cama de novo. - o sorriso malicioso que se abriu no seu rosto, logo estava sendo copiado pelo meu.
Suas mãos que estavam nas minhas coxas, foram lentamente até a minha bunda, me puxando para mais perto dele, joguei os dois braços ao redor do seu pescoço e desci meu tronco para, enfim, alcançar seus lábios de novo.
É, Harry, havia uma coisa que também não estava deixando eu me manter longe de você, e eu não tenho a menor ideia de como controlar ela.
Eu to fodida.
- Se você não parar… - disse, ofegante, assim que separamos nossas bocas. - A parte de te jogar na cama vai se tornar real.
Mordi o lábio inferior, abrindo mais um sorriso safado em resposta. 
- … - me alertou.
- Tá, tá. Não sei o que podemos fazer, não tenho ensaio presencial, mas preciso decorar uns textos com urgência. Mas… - estiquei o "a" da palavra. - ...o dia está bonito demais para ficarmos trancafiados aqui.
- Sabe andar de bicicleta?
Não precisou nem eu afirmar que sim, para Harry levantar um pouco a cabeça me dando um selinho, dar dois tapinhas na minha perna e ir em direção à camisa de moletom de Jeremy que estava jogada no sofá, e depois em direção a porta do studio. Fiquei encarando a porta por minutos, tentando entender o que havia acontecido. Ele havia desistido? Tinha ido embora? Quando havia finalmente descido da bancada para tentar ir ver e entender o que acontecia, a porta abriu num estalo, me assustando, e dela surgiu o garoto com uma mochila nas costas, que passou por mim, deixando outro selinho nos meus lábios, indo em direção ao banheiro.
Eu não estava entendendo nada.
Resolvi limpar a bagunça da pia, enquanto o garoto fazia sabe Deus o que dentro daquele banheiro. Assim que espremi o coador pela última vez para por para secar, a porta do banheiro se abriu novamente, revelando o garoto de shorts preto, camiseta cinza leve, tênis esportivo, boné e óculos de sol na cara.
- Coloque um tênis.
- Eu gosto mesmo de ser mandada. - comentei, colocando um sorriso safado no rosto, vendo o garoto sorrir com minha resposta.
Harry jogou um óculos de sol no meu colo, jogou os dois scripts de Otelo que eu possuía dentro da sua bolsa e depois se jogou no sofá, onde ficou bons minutos procurando algo em seu celular, enquanto eu trocava minha roupa para uma mais arrumadinha. Quando, enfim, me postei em frente a si, o garoto me puxou em direção ao seu colo, deixando o celular na minha frente.
- Conhece? - questionou, apontando para o local que alugava bicicletas bem perto de casa.
- Sim, do lado da Earl's Court Station.
- Então, é isso. - deu um tapinha na minha bunda, me fazendo levantar do seu colo e seguir o garoto, vendo o colocar a mochila nas costas, indo até a porta do studio e depois em direção à rua.
Ao contrário do que eu imaginei que Harry faria - entrar em seu carro e dirigir até lá-, vi-o me esperando na calçada enquanto eu trancava a porta do lugar, e depois estendeu a mão em minha direção para caminharmos até a estação. 
- Podemos parar no primeiro fast food que acharmos para pegar uma comida, e depois seguimos até o Holland Park para não fazermos nada o resto do dia.
- Soa extremamente interessante. Você é ótimo para fazer planos, por mim a gente ainda estava no balcão da pia, pensando em como tomar café. - o garoto riu, usando a mão que não segurava a minha para forçar um pouco mais o boné na sua cabeça.
- Os meninos são péssimos para decidir qualquer coisa, cansei tanto disso que agora tomo as decisões em tudo. - riu baixo, me fazendo rir também. - O bom é que se um deles pensar em sair da banda vai alguns anos até decidir sair mesmo.
- Menino, vira essa boca para lá. - empurrei-o com o ombro, vendo ele soltar minha mão, colocando as duas juntas pedindo perdão aos céus, pois estava brincando. - E, bem, eu já comentei que gosto de ser mandada, né? - ergui as duas mãos, como em rendição.
O garoto riu alto, entrelaçando nossos dedos novamente, me puxando de volta pelo caminho que havíamos acabado de fazer.
- Ok, o plano agora é irmos para sua cama, ou sofá, ou bancada, ou qualquer lugar.
Dessa vez foi minha gargalhada que saiu alta. Virei meu corpo todo puxando o garoto novamente pelo caminho certo, enquanto ele tentava falsamente firmar os pés no chão e dizer que eu não deveria falar aquele tipo de coisa e depois desistir. Caminhamos duas quadras, entre risos e brincadeiras idiotas, até alcançarmos o local que alugava bicicleta. Harry, como um bobo feliz, correu espontaneamente até a bicicleta laranja de cestinha, subindo nela, me deixando negociar o aluguel do dia inteiro com o dono. 
Subi na bicicleta vermelha, vendo o garoto abrir um sorriso assim que deu a primeira pedalada, o que fez meu sorriso aumentar no rosto. Segundo Harry, o destino ia nos guiar, então foi assim que descemos aleatoriamente duas ruas, depois ele gritou esquerda e viramos, eu gritei reto e continuamos, esquerda, reto, direita, avistamos um beco estranho e Harry apontou para ele e por lá seguimos, direita, reto, esquerda, reto.
- O primeiro fast food, agora, . - ele disse, com a voz falhando pela falta de fôlego.
Comecei a prestar atenção pelas lojas que passávamos, até ver um pequeno food truck de comida vegana logo à esquerda.
- Eu acho que vale. - apontei para o pequeno trailer, vendo Harry concordar comigo e diminuir a velocidade até pararmos no lugar. 
Meus olhos brilharam com o cardápio recheado do lugar, e acho que o garoto não ficou muito atrás, porque logo declamávamos para o cozinheiro a lista de coisas que compraríamos: kibe de soja e linhaça, hambúrguer de lentilha, bolinhos de folhas, guioza de legumes, espetinho de tofu, e mais esse, Harry, e só mais esse, , e mais um só. 
Apesar do tamanho do pedido, não demorou muito para estar pronto e Harry, como uma criança completamente feliz, tomou para si todas as sacolas para poder colocá-las na cestinha de sua bicicleta, enquanto eu tentaria manter o equilíbrio e levar os sucos. Abri o maps rapidamente para poder ver quão longe estávamos do Holland Park e logo nos colocamos a pedalar rumo ao lugar. O sorriso não se atrevia a sair do meu rosto, vendo a bicicleta de Harry cruzar na minha frente em zigzag e ouvindo sua voz animada cantar o início de Bicycle Race do Queen. Só me atrevi a juntar minha voz desafinada à dele quando percebi que se aproximava do meu trecho favorito da música e eu não conseguiria mais ficar quieta.
- AND I DON’T LIKE STAR WARS! - gritei sem ritmo algum, soltando as duas mãos do guidão e as abrindo no ar.
O barulho da freada que Harry deu em sua bicicleta me fez desconcentrar e bambear pelo caminho. Levantei os olhos, assim que parei ao seu lado, vendo o garoto me encarar assustado.
- O quê?
- O quê?  - perguntei de volta, confusa.
- … - o garoto disse em tom de alerta. 
- O que foi, Harry? - ameacei rir, mas a feição de seriedade do garoto me fez travar. 
- Você não gosta de Star Wars? - sua voz saiu meio esganiçada, enquanto me perguntava, me fazendo perceber que ele estava realmente muito incrédulo.
Soltei uma gargalhada alta, colocando os pés de volta no pedal, tomando impulso para sair dali, e quando percebi que estava há uma distância boa do garoto, gritei novamente: - Eu odeio Star Wars. - e dali mesmo foi possível ouvir ele gritando que eu havia destruído o que tínhamos.
Descemos da bicicleta assim que passamos pela entrada do Holland Park e vimos alguns cartazes que não permitiam pedalar pelo local. Harry parecia bem saber por onde estava indo, então caminhei lentamente atrás dele, empurrando minha bicicleta pelo caminho cheio de pedras. Adentramos um grande gramado verde, desviando das poucas pessoas que estavam ali, caminhando até uma árvore ao fundo que nos faria uma sombra maravilhosa e também não nos deixaria chamar muita atenção. Não sei em que momento Harry havia encontrado a toalha xadrez no meu armário, mas agora ele a estendia no chão dizendo que estávamos montando um verdadeiro piquenique.
- Já é hora de comer, né? - questionei, meio afirmando, enquanto me sentava após soltar as sacolas em cima da toalha.
- Graças a Deus você comentou, pois estou morrendo de fome. - o garoto riu, abrindo uma das sacolas e estendendo um bolinho de folhas em minha direção a minha boca, que logo mordi.
Harry caçou seu celular no bolso do shorts, o soltando na toalha logo após abrir o player de música e Valentine da Fiona Apple sair dos pequenos alto falantes.
- Eu amo Fiona Apple. - comentei, sussurrando o início da música.
- Olha, não importa mais quantas coisas boas você gostar, você disse que odeia Star Wars! Isso é um ultraje. - gargalhei assim que o garoto terminou a frase.
- Star Wars é chato, Harry, pelo amor de Deus.
- Não teremos essa discussão agora. - disse, enfiando um pedaço de guioza na boca. - Mas, saiba que você está errada. - Harry terminou a guioza e apontou para seu celular assim que o final da música se aproximou. - Sua vez.
Demorei uns segundos para decidir qual música colocar, mas pensei em como meu coração se sentia leve naquele momento, e logo um violão baixo preencheu meu ouvido, sendo seguido pela voz de Alceu Valença. O garoto ainda se mantinha deitado de lado na toalha, apoiado pelo cotovelo, encarando meus rosto e aumentando o sorriso conforme Alceu declamava o início da música.
- La belle de jour? - Harry questionou com o sotaque francês perfeito, formando um biquinho assim que terminou a frase.
- Ôoh ôoh! - respondi sua pergunta cantando a sequência no ritmo da música e vi ele sorrir.
- Que música linda! - sussurrou, fechando os olhos.
- É Brasil. - respondi, concordando e sussurrando os versos em seguida - Mas belle de jour no azul viajava, seus olhos azuis como a tarde, na tarde de um domingo azul. 
- La belle de jour! - o garoto chutou a continuação da música e abriu mais um sorriso quando viu que havia acertado e olhou para mim ainda sorrindo. - Maravilhosa.
- Ah, obrigada, seus são olhos. - respondi brincando, mostrando a língua para o garoto, sabendo que ele falava da música.
- Você estragou tudo. - riu, me encarando. - Eu ia continuar soltando elogios, enquanto encarava seus olhos que olhavam para o além, e aí quando você me olhasse perceberia que eu estava falando de você e não da música.
- Ah, Harry, ninguém soltaria “maravilhosa” numa conversa sem estar falando de mim, né? - comentei irônica, rolando os olhos e dando de ombros. 
O garoto riu mais uma vez, erguendo o braço que não servia de apoio para puxar meu rosto em direção ao dele, enquanto deixava um beijo casto no meus lábios, sussurrando que era ótimo que eu soubesse daquilo.  Harry ergueu o tronco, tentando alcançar a sua mochila, puxando de dentro dela os dois scripts de Otelo, entregando um em minhas mãos e deixando o outro aberto à sua frente, enquanto se deitava na mesma posição de antes. 
- Como funciona isso de ensaiar para teatro? 
- Estamos no início, então é só ensaio mesmo. Muito ensaio e decorar texto, depois passamos para a parte de interpretação.
- Eu acho isso tão interessante, quem sabe no futuro eu não invisto na carreira de ator.
- Você tem cara de galã de cinema mesmo. Por favor, me leve para os seus tapetes vermelhos. - brinquei, vendo o garoto sorrir, como se imaginasse sua vida de ator.
- Eu acho muito mais fácil você me levar para os seus. - comentou.
- Minha carreira está fadada ao fracasso, Harry. - tentei colocar o tom de brincadeira novamente na frase, mas minhas palavras soaram pesada. - Agora você, meu filho, daqui vinte anos estarei velha, abandonada, assistindo o seu vigésimo filme, comentando com algum dos meus gatos que fui eu que te ensinei a ensaiar textos.
- Velha daqui vinte anos?
- Eu não sei fazer conta, Harry. - o garoto gargalhou de mim.
- Ninguém me levaria a sério se eu tentasse seguir carreira de ator. - abriu um sorriso pequeno no fim da frase, mas logo cortou, se ajeitando em direção ao script.  - Enfim, onde começamos?
- Vamos fazer assim. - abri meu texto no ato III, cena III, minha favorita. - É uma das cenas chaves da peça, Iago tenta convencer Otelo que Desdêmona o traía com Cássio. Otelo inicia o texto chamando Desdêmona de adorável criatura e termina desejando a morte da esposa e do amigo. É pesado.
Harry, observando em que página eu estava, folheou seu texto até encontrá-las, aprumando a postura antes de declamar o texto que encontrou.
- Adorável criatura! Que minha alma a apanhe a perdição, se eu não te amar; e se não te amo, que este mundo volte de novo para o caos. - declamou calmamente, e por um breve segundo, eu pude notar como seu corpo e sua atitude mudaram assim que ele se sentiu como Otelo. - Wow. 
Tentei segurar o sorriso que estava para se abrir no meu rosto, mas não consegui muito. Limpei a garganta, dando prosseguimento ao texto, enquanto fingia que eu era Iago, e tentava enganar o homem a minha frente. Não demorou muitas frases para Harry já ter sentado a minha frente, se portando como um ator melhor do que uns que estavam na peça comigo. Eu podia sentir meu coração apertando de orgulho a cada frase dita. Como poderia existir alguém tão talentoso daquela forma? 
- Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. - chacoalhei a cabeça, como se tentasse me livrar do que estava me impedindo de contar a Otelo o que havia acontecido. - Passei com Cássio uma das noites últimas; mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmurava: “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava. - peguei a mão de Harry e a apertei, olhando dentro de seus olhos. - “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!”
Harry parou por segundos, enquanto encarava meus olhos, perdidos nas frases que haviam sido ditas. Sua respiração saia calma, mas eu sentia, pelas suas mãos que ainda segurava, que o garoto se encontrava terrivelmente movido com o que fazíamos ali.
- Oh! Monstruoso! Monstruoso! - sussurrou, puxando sua mão da minha com violência, enquanto se encolhia demonstrando a angústia do personagem.
Seguimos no texto por minutos, ou horas, e quando caímos por nós, não havia mais comida distribuída pela toalha, nem pessoas ao nosso redor, encaramos no mesmo segundo o céu que já ficava rosado e decidimos em silêncio que era hora de irmos. Enfiamos todas as coisas espremidas dentro da mochila de Harry e seguimos pelo mesmo caminho que havíamos feito naquela tarde. Foram precisos muitos minutos para nos encontrarmos no GPS e conseguirmos seguir pelas ruas quase escuras e lotadas em direção ao local que tínhamos alugado as bicicletas, e depois foi fácil caminhar até minha casa, com os dedos de Styles entrelaçados com os meus. Assim que paramos em frente a minha porta, para que eu encontrasse as minhas chaves e abrisse a porta, Harry parou por uns segundos, me encarando.
- Obrigado por hoje.
- Eu que agradeço, me ajudou muito com o script. - respondi, sorrindo.
- Não. - chacoalhou a cabeça em negação, pegando minha mão e me puxando para mais perto. - Obrigado mesmo, adorável criatura.
Abri um sorriso com a referência à Otelo, mesmo sem entender o que ele dizia, encaixando minha mão que estava solta em sua bochecha e depois levando minha boca de encontro a sua. Os braços do garoto rodearam minha cintura, e eu não conseguia descrever o que estava acontecendo comigo. Foi quando um assobio soou do outro lado da rua, vindo de alguns jovens, que nos separamos rindo. Assim que entramos no studio o celular de Harry soou alto, então me afastei um pouco para dar privacidade ao garoto, enquanto do meu telefone eu pedia uma pizza qualquer para jantarmos. Sentei no sofá observando o garoto longe, conversando calmamente no celular com quem quer que fosse, mas seus olhos logo focaram em mim, abrindo uma feição assustada, mordendo os lábios, enquanto caminhava em minha direção, estendendo o celular para que eu pegasse.
- Minha mãe quer conversar contigo.
- O quê? - perguntei baixinho. - Harry, não!
Abaixei o celular longe das nossas bocas, resmungando baixinho para Harry que eu não sabia falar no telefone, enquanto ele sussurrava que a mãe dele não sabia aceitar um “não” como resposta. Depois de alguns segundos de sussurros ininteligíveis em uma discussão boba, bufei irritada, abrindo um sorriso falso no rosto, exclamando animada o nome da mãe de Harry no celular.
- Querida, oi! Não aguentei saber que Harry estava aí e não conversar com você! Oi!
- Oi, Anne. Tudo bem? - empurrei a mão de Harry que fazia sinais para mim, me perguntando o que ela falava.
- Ah, minha querida, tudo ótimo por aqui, e aí? Como vocês estão?
- Está tudo bem também. Fomos ao parque hoje, aproveitar que o dia está lindo. - levantei do sofá, andando pela sala, enquanto o garoto me seguia tentando saber o que falávamos.
- Ah, que ótimo! Espero que o dia também esteja assim amanhã, enquanto vocês estiverem vindo para cá. 
Virei para Harry completamente confusa, vendo o garoto assustar assim que viu minha feição. Sussurrei quase sem voz para o garoto. Como assim? Irmos para onde?
- Querida? - a voz da mulher soou no telefone, não me dando tempo de entender a resposta do filho dela.
- Ah, sim. Também esperamos. - senti minha narina inflar. - Anne, preciso atender a porta, acho que nosso jantar chegou. - menti.
- Claro, querida. Até amanhã. Se puder passar para Harry de novo.
- Sim, sim. Até amanhã. - respondi a mulher, e vi a feição de Harry se transformar rapidamente, vendo que sua mãe havia comentado comigo sobre aquilo, demonstrando o quão nervoso ele estava. Abaixei novamente o celular longe de nossas bocas, sussurrando brava. - Você está maluco?
- Me perdoa, eu ainda ia te avisar.
- Me avisar? Você tem que me perguntar se eu quero, se eu posso ir, Harry. Não é assim que funcionam as coisas. 
- Me perdoa. - murmurou. 
Bufei, erguendo minha mão que ainda segurava o celular em sua direção, vendo o garoto pegar o aparelho e continuar a conversa com sua mãe, enquanto explicava que horário iríamos sair dali.
E foi aí eu senti quando o anjo mau pousou no meu ombro esquerdo, sussurrando baixinho que ele finalmente entendia porque Styles havia aparecido ontem a noite. O anjinho bom demorou um pouco mais a aparecer, mas assim que deixou seu peso cair em meu ombro direito, cochichou em meu ouvido que não era possível que Harry teria feito aquilo, pois ele poderia ter apenas ligado para pedir, mas ele esteve comigo desde ontem a noite. O anjinho mau riu alto, me chamando de palhaça.
Percebi quando ele desligou o telefone e sentou ao meu lado no sofá, fazendo os anjinhos desaparecerem. O garoto colocou uma mão na minha coxa e a outra levantando meu queixo para que eu olhasse seu rosto. Tentei manter a mesma pose de irritada que eu estava antes, mas seu rosto apresentava um bico triste, que eu logo imitei no meu rosto. Sua mão ainda prendia meu queixo, me impedindo de desviar quando sua boca veio em direção a minha, deixando um selinho molhado nos meus lábios.
- Desculpa mesmo, eu ia pedir para você ir comigo à Holmes Chapel. Minha mãe pediu para eu levar você e eu estava mesmo com saudade de estar contigo, então meio que já confirmei com ela que você iria. 
- Você poderia me avisar antes de me colocar no telefone com ela.
- Desculpa, foi bobeira minha. - respondeu, puxando novamente meu rosto para mais um selinho. 
- A sorte sua é que eu não tenho ensaio presencial de novo amanhã. - vi o sorriso abrir no rosto do garoto, quando ele percebeu que eu estava confirmando que iríamos. - Mas preciso estar no outro dia em Londres.
- Obrigado por ir. Por minha mãe também, mas mais por mim, falei sério quando disse que estava com saudade de ti. - sorriu. - Essa última semana foi exaustiva vendo as coisas da tour, não tive tempo nem para pegar o celular para te mandar mensagem,e aí finalmente nos deram essa semana livre para nos despedirmos da família. E de você. - completou.
- Até abril, né? - questionei, e o garoto afirmou com a cabeça. - Vai passar rápido.
- Não estranhe se aparecer uma passagem de avião no seu e-mail, para você ir me visitar em algum lugar da Ásia. 
- Eu adoraria conhecer a Ásia. - respondi. - Mas enquanto isso, vamos ver se você ainda tem alguma saudade de mim. 
Impulsionei meu corpo para sentar no colo do garoto, assim que terminei de falar, debruçando-me sobre ele. Suas mãos foram automaticamente para minha bunda, me forçando para baixo em direção ao seu corpo. Nossas bocas, fazendo o caminho que já parecia tão conhecido, logo se juntaram.
Eu já me encontrava só de lingerie, e o garoto só de shorts, quando o barulho da campainha soou alto, lembrando-nos da pizza que havíamos pedido. Entre beijos e risadas, nos levantamos buscando pela minha mesinha de centro notas e moedas para pagarmos. Meu sorriso só foi deixar meu rosto, quando vi o garoto sair, ainda sem camisa, pela porta do meu studio para descer as escadas até o entregador que o esperava.



Capítulo 10

- Será que você pode parar de me criticar? - bufei irritada, jogando um par do tênis que tinha nas mãos em direção a Harry, vendo o garoto rir e desviar do calçado.
- É só um dia, , você não precisa de mais de um par de roupas.
- Mas e se eu me sujar, ou se formos sair, se eu cair num barranco, pisar no cocô do cachorro, ser cagada por um passarinho, se fizer frio, ou calor demais, se chover descontroladamente enquanto eu estiver fora da casa?
- Isso não vai acontecer.
- Tudo é possível se você acreditar. - apontei o dedo para o garoto, soltando as palavras como se estivesse ditando frases motivacionais, e vi ele rir de novo.
Quando coloquei a última jaqueta dentro da mala e puxei o zíper, vi Harry erguer a mão em direção aos céus como se agradecesse que finalmente poderíamos pegar a estrada à caminho de Holmes Chapel. Harry fez uns barulhos bobos, tentando encontrar Olívia que miou embaixo do sofá, provavelmente reclamando de tê-la acordado de seu sono de beleza, para colocá-la em uma caixa.
Styles havia acordado muito cedo naquele dia, tão cedo que não me atrevi nem a abrir os olhos para ver onde o garoto ia. Algumas horas depois, ele retornava, abrindo a porta com a minha chave, o que o fez levar várias broncas por ter me deixado trancada sem me avisar. E se a casa pegasse fogo, Harry? Se eu precisasse de comida? Se Ryan Gosling viesse bater na minha porta finalmente percebendo que eu era o amor da vida dele? E aí, Harry? E aí?
Não tive muito tempo para reclamar, porque o garoto vinha em direção a minha cama bagunçada, que eu ainda estava deitada, pondo a caixinha de Olívia sobre ela e soltando a gata para que ela viesse me cumprimentar. 
Eu não conseguiria ficar brava com um bebê tão lindo daquele ronronando nos meus braços.
Logo era eu que estava levando as broncas, porque Harry imaginara que o tempo que ele levaria para ir até sua casa, arrumar sua mala e pegar Olivia, seria o tempo que eu levaria para levantar e arrumar minhas coisas. Bom, não foi. Porque eu ainda me encontrava deitada e descabelada, sem ter a menor noção do que faria em seguida.
Mas finalmente descíamos as escadas do meu prédio em direção ao conversível dele que estava estacionado. Eu não acredito que iria andar de conversível! Joguei a mala não-tão-pequena que eu havia feito no porta mala do carro de Harry, vendo o garoto colocar a caixinha de Oliva bem presa no banco de trás. E, assim que ligou o carro, o rádio conectou na playlist que o garoto ouvia anteriormente, e a surpresa maior foi ouvir a voz de Zé Ramalho preencher o carro declamando o refrão de Chão de Giz. Encarei Harry com um sorriso estupidamente aberto no rosto e ele me encarou de volta, copiando meu sorriso em seu rosto, dando de ombros.
- É realmente muito bom!
Meu sorriso se alargou de orelha a orelha, e eu estiquei meus braços em direção ao seu rosto, puxando-o mais perto de mim para deixar um beijo estalado em seus lábios.
Minha maior surpresa não foi a sequência de música que tocou em seguida, indo de Gal Costa, Tim Maia, Seu Jorge, Milton Nascimento à Cássia Eller e Raul Seixas, mas sim os ombros de Harry que se mexiam no ritmo das músicas, seu sorriso e seus olhos que brilhavam em minha direção, toda vez que eu me empolgava demais com as canções, ou quando ele gostava tanto da música que tínhamos que pausar para eu o ensinar o refrão e depois tocar novamente, para que ele pudesse cantar.
Assim que Harry pegou a rotatória para virar a esquerda e pegar A54 para, enfim, chegarmos à Holmes Chapel, senti minha mão começar a soar e meus batimentos aumentarem. A primeira e única vez que eu havia encontrado os pais de Harry, eu estava em um casamento de pessoas que eu nem conhecia, fingindo ser namorada do filho deles e tentando não surtar. Eu nem sabia qual papel eu estaria fazendo dessa vez. Harry e eu não éramos nada, nos pegávamos ridiculamente gostoso uma vez por semana e ele do nada havia me convidado para ir até sua casa, onde toda sua família estaria, enquanto se despedia deles para passar alguns meses longe de todos. E lá estaria eu, louca, perdida, sem saber o que fazer.
Seria trágico.
Harry pareceu perceber meu nervosismo e pousou calmamente a mão na minha perna que tremia loucamente. Eu estava realmente uma pilha de nervos. Tentei sorrir calmamente para o garoto, mas eu sabia que meu rosto havia se transformado em uma careta. Meus olhos se arregalaram e minha mão agarrou forte a de Styles, quando percebi que ele estava estacionando em frente a uma casa de dois andares. 
Quando, enfim, subíamos a pequena escada para ir em direção a porta, apertei forte a mão de Harry entre a minha e abri a boca para avisar que eu não estava preparada, mas a porta abriu num estalo, assustando nós dois e me interrompendo. Anne surgiu sorridente da porta e praticamente voou nos braços do filho, fazendo o garoto soltar a caixa de Olívia no chão e eu soltar a mão do garoto, dando pequenos passos para trás  para que pudessem matar a saudade em paz. Mas o susto veio quando um golden retriever gigantesco surgiu correndo, atravessando a porta em direção a Harry que ainda estava ocupado nos braços da mãe, e então virando para mim, olhando nos meus olhos enquanto avançava com as duas patas cheias de barro no meu peito, me derrubando para trás na grama molhada e subindo no meu colo para lamber meu rosto.
Eu não sabia se dava risada ou se gritava para que alguém tirasse aquele cachorro enorme de cima de mim. Foi quando vi a mão de Harry segurar a coleira do cachorro e o puxar de cima de mim. Eu estava finalmente livre.
Anne me olhava como se não acreditasse no que havia acabado de acontecer, caminhando até mim com o rosto completamente vermelho, enquanto sussurrava milhões de pedidos de desculpa.
- Minha querida, me perdoa. - estendeu a mão em minha direção, para que eu levantasse. - Esse cachorro da Karen não tem escrúpulos.
- Está tudo bem. - respondi, sentindo meu rosto queimar de vergonha, batendo as mãos nas coxas tentando limpar a sujeira que havia se acumulado ali.
Vi Harry surgir na minha frente, dessa vez sem o cachorro, e no mesmo instante, senti uma mão dando tapinhas na minha bunda. Encolhi a bunda, dando um passinho para frente, assustada, ouvindo a risada de Anne surgir atrás de mim.
- Está toda suja, querida. Coitada. - deu mais dois tapinhas na minha bunda. - Vem, vamos entrar para você se limpar.
Segurei a mão que Anne me estendia, seguindo a mulher para dentro da casa, enquanto Harry me encarava segurando o riso. Karen nos esperava na porta da cozinha e sussurrava diversos pedidos de desculpa em nome do seu cão e eu respondia calmamente que não havia problema nenhum. Anne me arrastou para um banheiro no primeiro andar, e quando foi gritar para que Harry buscasse a minha mala, o garoto logo apareceu na porta com a mesma na mão, estendendo em minha direção.
- Obrigada. - sussurrei calmamente, vendo a mulher sorrir para mim, ainda com um olhar de desculpas, me deixando sozinha dentro do banheiro com Harry apoiado na porta me olhando com o riso pronto para escapar de seu rosto, enquanto eu passava a toalha que haviam me dado no rosto. - Cala a boca.
- Minha irmã te adorou, disse que não ria assim há décadas.
- Sua irmã está aqui? - questionei assustada. - Meu Deus, a vergonha.
- Na verdade, está praticamente a família inteira no quintal dos fundos esperando para você reencenar o ocorrido com o Max. - meus olhos se arregalaram mais ainda, conforme o garoto falava.
- Harry!
- Falando nisso, aproveitando que todos estão lá nos fundos… - o garoto deu mais um passo, entrando de vez no banheiro e fechando a porta atrás de si.
- Harry… - alertei.
- Você não sabe como fica sexy caída no chão com as pernas para cima sendo atacada e lambida por um cachorro. - sussurrou baixo, se aproximando de mim, enquanto eu gargalhava alto.
- Ah, é mesmo? - cheguei mais perto ele, jogando meus braços ao redor de seu pescoço. - Assim? -  me aproximei de seu rosto, deixando um beijo casto em seus lábios, respirando forte contra sua boca, até avançar em direção a sua bochecha, passando toda minha língua por ela com violência.
Harry gargalhou alto no mesmo instante que percebeu o que eu fazia, se afastando de mim, para passar a costas de sua mão na sua bochecha, se limpando. Seu olhar sobre mim era de puro divertimento, me observando rir dele. O garoto balançou em negação, ainda deixando seus ombros tremerem enquanto ria.
- Você é uma piada, .
- Espero que uma muito boa. - respondi rápido, tirando a blusa com marcas de patas do corpo, caçando outra dentro da bolsa.
- A melhor que já me contaram. - encarei o garoto, vendo ele abrir de novo o sorriso para mim.
- Típico homem, falando coisas bonitinhas enquanto tem uma mulher só de sutiã na sua frente. - brinquei.
- Que tal, além de falar, eu fazer alguma coisa também?
Seu movimento foi rápido, no mesmo instante a blusa limpa que eu havia pego já voava em direção ao chão, seu braço rodeava minha cintura e sua boca avançava em direção a minha. E quem era eu para reclamar?
Joguei o braço ao redor do seu pescoço, enfiando a mão firme entre os fios de seu cabelo, os prendendo lá. Senti seu quadril se forçar contra mim, e respiramos juntos, me fazendo tomar o impulso que faltava para rodear minhas pernas em volta de sua cintura, sentindo o garoto firmar as duas mãos embaixo da minha bunda para me dar apoio.
Puta que me pariu.
Senti quando ele deu alguns passos, me colocando sentada na pia, enquanto suas mãos iam rápido até a braguilha de sua calça para abri-la. Como o destino era cruel, eu sabia que haveria algo para nos interromper, então avancei eu mesma até o fecho do meu sutiã e depois até meu zíper, para abri-lo rapidamente e adiantar o máximo que pudesse. Quando a boca de Harry retornou de encontro a minha, um barulho de batidas na porta nos interrompeu, fazendo com que nos encarássemos com decepção.
- Eu sei que eu não devia estar fazendo isso, mas mamãe está louca esperando vocês. - a voz arrependida de uma garota soou do outro lado da porta. - Estou falando sério, é difícil explicar para a tia Ethel porque vocês estão demorando no banheiro.
 - Já vamos. - Harry respondeu simples, depois de bufar.
- Beleza. - concordou. - Prazer te conhecer, . - a garota falou mais uma vez e eu pude sentir o tom de risada na sua voz. 
- Hm. Prazer. - respondi baixinho, mas mesmo assim ouvi sua gargalhada, tão parecida com a de Harry, soar do outro lado da porta. 
- Minha irmã é engraçada. - o garoto comentou, rindo, subindo novamente o zíper da sua calça, e depois segurando na minha cintura para me ajudar a descer da pia. - Porque nós achamos que daria certo transar no banheiro com toda minha família lá fora?
- Meu Deus do céu, Harry. - a ficha caiu. - Vão achar que ficamos transando no banheiro.
- Bom, tecnicamente…
- Eu vou ser a namorada do Harry que ficou transando no banheiro.
- É bom ter uma vida sexual ativa. - deu de ombros, me encarando quase rindo.
- A vergonha, Harry, a vergonha! - coloquei as duas mãos no rosto.
- Calma! - riu brevemente, jogando a camiseta limpa em minha direção. - Se tivéssemos feito, pelo menos você estaria relaxada.
- Harry! - ergui o dedo em sua direção, vendo-o fazendo um “x” na boca, como se finalmente fosse se calar. 
Tirei a calça suja, enfiando o mais rápido possível um shorts e a bendita blusa, vendo que Harry me observava sem despregar os olhos de mim. Joguei a mala no meu ombro, virando para o garoto, para que ele saísse de frente da porta para podermos, enfim, sair dali, mas ele continuava parado me encarando.
- Vamos?
- My precious precisa de mais um minutinho. - desceu os olhos, mostrando a ereção evidente em suas calças.
Gargalhei alto, do nome que o garoto chamou e dei de ombro sabendo que eu poderia resolver aquilo rapidamente. Quando soltei a mala novamente no chão, vi Harry abrir um sorriso e meus joelhos começaram a se dobrar, ouvimos novamente o barulho na porta.
- Gente… oi, é a Gemma de novo. - deu uma  uma pequena pausa. - A tia Ethel quer usar o banheiro. 
Harry rapidamente alcançou a mala que estava jogada aos meus pés, passando-a por seus ombros para deixá-la a frente do seu corpo, o que me fez rir e o garoto me encarar como se me repreendesse. Assim que abrimos a porta, a garota do outro lado ergueu as mãos aos céus e depois abriu os braços olhando diretamente para mim. Sem entender muito, dei dois passos até alcançar Gemma e a abracei, sentindo seu corpo todo tremer quando ela começou a rir. Seus braços se fecharam em volta de mim, enquanto balançava de um lado para o outro.
- Ela é mesmo preciosa, Harry. - comentou.
O garoto, em resposta, soltou uma gargalhada estrondosa, e depois me encarou, enquanto eu me desvencilhava dos braços da garota, abrindo um sorriso sacana, provavelmente se lembrando que aquela mesma palavra havia sido usada alguns segundos atrás em outro contexto. 
Uma senhora surgiu no corredor, fazendo com que nos dispersássemos: Harry indo em direção as escadas para provavelmente guardar minha mala, e Gemma e eu para algum lugar, que logo descobri ser o quintal da casa. Quando surgimos na porta, eu travei, vendo aproximadamente 10 pessoas pararem tudo que faziam para nos encarar, ou melhor, me encarar.
- Família, essa é a . , família. - Gemma estendeu o braço como se apontasse para todos os presentes.
Sem saber o que fazer, dei um oi tímido, erguendo a mão que não segurava a de Gemma para cumprimentar todos de uma vez. O senhor, que eu lembrava se tratar do padrasto de Harry, soltou o garfo de churrasco que segurava, vindo em minha direção com os braços abertos.
- Minha nora! - me engoliu em um abraço, me fazendo ficar sem reação alguma. E, como a tola que sou, dei dois tapinhas em suas costas, como se tentasse o confortar de algo.
- Oi! - foi tudo que fui capaz de dizer.
Meu Deus, eu era péssima com interações sociais.
Eu deveria mesmo viver sozinha em um buraco sem ter contato com absolutamente ninguém.
O risinho de Harry se fez presente as minhas costas e logo seu padrasto me soltou para cumprimentar o garoto em mais um abraço forte, enquanto isso Gemma me puxou pela mão para conhecer o restante da família e ser devidamente apresentada a Max, o golden retriever.
Sentei em uma das mesas que estavam dispostas pelo gramado, junto com Gemma e alguns primos, foi quando o celular tremeu a primeira vez nas minhas mãos, apontando a chegada de uma mensagem de um número desconhecido, e depois outra e outra, sendo seguido por várias fotos anexadas. Mesmo sem entender o que acontecia, abri a conversa, deixando soltar o celular nervosa na mesa ao ver o conteúdo delas.

NÚMERO DESCONHECIDO:
Eu sei o que você fez no verão passado.
Ou melhor na semana passada.
Você acha que não descobriríamos? Acabou para você.

Na primeira foto que abri, reconheci imediatamente o bar rústico que Louis havia me levado semana passada, mas o que me fez ficar realmente nervosa foi ver que no centro da foto era possível ver Tomlinson sentado na mesa, com uma garrafa de heineken a caminho da boca, acompanhado por uma moça que, pela luz baixa do local, não era possível identificar o rosto.
Mas eu sabia muito bem quem era. 
Aquele cabelo desgrenhado, parcialmente iluminado, com aquela postura ridícula, meio arcada, com várias garrafas a frente, enquanto os braços abriam em um movimento exagerado, como se não soubesse agir em um ambiente social. Aquela, sem dúvida alguma, era eu.
Arrastei para o lado, vendo a foto seguinte, em que duas pessoas andavam na rua, mas nessa foto só podíamos ver as costas deles. Um, obviamente Louis, parecia andar calmamente pela calçada, enquanto a outra pessoa era obviamente uma louca agarrada no braço direito do garoto, enquanto o outro braço dela estava estendido em direção ao céu, com a mão aberta, enquanto mantinha a cabeça erguida, mirando as nuvens. Era eu. Fotografada justo no momento que tentava contato pela mente com os ovnis.
Uma sequência absurda de fotos nossas de costas se seguia, e depois fotos do carro parado na rodovia, com o giroflex da polícia brilhando logo a frente. Puta merda. Eu ia passar para imagem seguinte, para ver se a desgraça na minha vida ia começar por causa daquela foto ali, mas meu celular tremeu em minhas mãos de novo, mas dessa vez apontando que o número desconhecido me ligava.
Soltei o celular com força na mesa, esperando que ninguém percebesse o que se passava comigo ali. Respirei fundo quando o celular parou de tocar, mas travei novamente quando reiniciou a tremer descontroladamente aumentando o barulho por estar em contato com a madeira da mesa. Puta que me pariu. O aparelho apagou a tela por um segundo, até aparecer mais uma vez a notificação de mensagem.

NÚMERO DESCONHECIDO:
VOCÊ ESTAVA COM O MEU LOUIS

Caralho, eu estava terrivelmente fodida. Mas, nesse momento, percebi que eu estava terrivelmente puta também. Quem essa pessoa pensava que era para mandar mensagem no meu número me afrontando desse jeito? Que audácia! Se queria me assustar, inicialmente conseguiu, mas agora eu estava era irritada. Porra, uns beijinhos na boca não iam matar fã alguma.
Quando o celular tocou mais uma vez, peguei o celular com força de cima da mesa, caminhando até a porta que levava novamente à cozinha e deslizei o botão verde para cima, erguendo o aparelho até o ouvido.
- Escuta aqui, primeiro vá se foder. - exclamei irritada. - Segundo, se você acha que vai ficar me ameaçando por umas fotinhas idiotas, saiba que…
A risada alta e escandalosa que saiu do outro lado do celular me fez parar de gritar palavras raivosas e perder toda a linha de raciocínio que eu montava. Foram precisos alguns segundos para meu cérebro processar que eu conhecia aquela risada, e que ela pertencia ao mesmo garoto que eu estava há poucos segundos atrás vendo por fotos.
- Que falta de educação atender o celular mandando a pessoa ir se foder, . - sua voz saiu extremamente sarcástica do telefone.
- Louis? - assim que questionei, a risada soou espalhafatosa de novo do outro lado da linha. 
- Você estava com meu Louis! - o garoto exclamou alto, tentando imitar uma voz feminina, se deixando continuar a rir.
- Eu não acredito nisso. - pressionei a mão que estava solta sobre a testa, soltando fortemente o ar que eu prendia. - Que porra é essa, Louis?
- Me desculpe, foi a melhor forma que achei de te contar que um fotógrafo havia nos achado.
- A melhor forma foi essa?  - soei incrédula, sentindo a vontade de acompanhar a risada de Louis que ressoava do outro lado da linha. - Você tem certeza que essa foi a melhor maneira?
- Me desculpe! Eu queria que você soubesse antes, do que já ver essas fotos direto na mídia.
- E aí você achou ser uma ótima ideia me mandar mensagem dizendo que acabou para mim, que sabia que eu estava contigo e me ameaçando? 
- Sim. É que não consegui chegar na parte do plano que eu faria você admitir que o Louis é maravilhoso e tem a melhor boca que você já beijou, você mandando eu me foder logo de cara me desestabilizou todo. - dessa vez eu não consegui segurar e deixei minha risada acompanhar a sua, sentindo meu corpo todo tremer enquanto gargalhava.
- Sinto muito por estragar seu plano, Louis. Ele me parece mesmo sensacional. Poderia incluir uma parte em que você me extorque, porque eu, com certeza, depositaria milhões na conta de um salafrário me ameaçando.
- Era a terceira parte, mas você estragou tudo, . Tenho aqui algumas coisas que você poderia consertar, mas fiquei sabendo que você está em Holmes Chapel… que pena. - o garoto estalou a língua em negação.
- Pois é, estou. Mas não me convidaram para nenhum outro lugar, né Louis? - estalei a língua de volta, imitando o garoto.
- … - alertou.
- Estou brincando! - ri baixo, ouvindo o garoto rir também.
- Que pena. - estalou mais uma vez. - Enfim, só liguei para avisar sobre as fotos. Haviam bem mais delas, inclusive umas que saia muito bem seu rosto, mas por sorte era apenas um fotógrafo, um fotógrafo caro, mas apenas um. O agente da banda e o meu conseguiram que ele sumisse com a maioria delas, deixando apenas as que não apareciam seu rosto, para que ele pudesse pelo menos vender a história de romance do melhor cantor do Reino Unido com uma moça linda e com péssima postura.
- Eu concordo completamente com a parte da péssima postura. Seria eu o Corcunda de Notre Dame? - questionei séria, ouvindo o garoto rir e concordar que possivelmente sim. - Bom, acho que obrigada por isso? Não sei como agradecer.
- Eu sei uns jeitos… - foi começar a falar, mas o cortei. - Ta bom, ta bom, desculpa. Vou deixar você voltar para seu namorado. Tchau, .
- Você não tem limites, Louis. Nenhum limite! - ouvi ele resmungar do outro lado, mas concordar. - Tchau, Louis.
Desliguei o celular, ainda rindo das ideias malucas que se passavam na cabeça de Louis. Me assustei quando, assim que virei para voltar ao quintal, Karen se encontrava parada na porta, me encarando com um sorriso no rosto.
- Tudo certo, querida?
- Sim, sim. - me esforcei para não gaguejar. - Tudo certo. - sorri fechado para a mulher, me deixando passar por ela, rumando em direção a mesa que agora Harry também estava sentado, com a Olívia enrolada como uma bola de pelo em seu colo.  
Sentei ao lado do garoto, entrelaçando meus dedos nos pelos brancos da gata, não prestando muita atenção no que acontecia a minha volta. Foi preciso Harry me empurrar com o cotovelo para que eu visse Anne parada logo ao nosso lado, me olhando enquanto dizia algo diretamente para mim.
- Se você quiser, é claro. - terminou, continuando a me encarar, esperando que eu a respondesse.
Olhei para Harry, na esperança que ele me explicasse o que acontecia, mas o garoto apenas deu de ombros, me deixando com vergonha de perguntar o que era e fazer a mulher repetir tudo, então apenas levantei, balançando a cabeça em concordância.
- O churrasco nós não sabemos fazer sem ser inglês, mas Harry me fez prometer que eu compraria tudo para você poder fazer isso. - Anne disse, caminhando até a cozinha, enquanto eu a seguia, tentando entender.
Quando chegamos no espaço, percebi finalmente sobre a mesa alguns pães baguetes espalhados, assim como queijo, maionese, requeijão e, o principal, alho. Meu sorriso se abriu instantaneamente.
- Gemma tentou fazer antes de vocês chegarem, mas não foi bem sucedida, então decidimos deixar para fazermos com você.
- O meu pão de alho não é muito bom não, mas podemos tentar. - respondi brincando, indo lavar a mão para começar.
Se havia uma coisa que eu amava fazer ali naquele país, era tentar enfiar um pouquinho da cultura, da música, da culinária brasileira em todos os lugares que eu passava.
Em alguns minutos Anne e eu havíamos preparado a mistura e estávamos recheando os pães para levarmos até Robin que já estava terminando o churrasco para almoçarmos. Eu havia me mantido tão entretida durante aquela manhã, que não percebia que já se passava da uma da tarde e meu estômago começava a pesar de fome. 
Ajudei Anne a levar os pães de alho até o padrasto de Harry, que logo os colocou na churrasqueira. Minutos depois, vi a mãe do garoto trazer uma grande travessa e a colocar na mesa, apontando toda feliz para o filho para que ele visse o que havia lá dentro. Assim que fomos nos servir, meus olhos brilharam ao ver a grande travessa de maionese, com uma cara tão brasileira, que havia ali. Encarei Harry, vendo-o o sorrir ainda mais com a minha felicidade.
- Era assim que você havia comentado que tinha saudades, né? - senti o sorriso estúpido se alargar mais ainda no rosto conforme o garoto falava, e meu coração se encher assim que ele me abraçou de lado, deixando um breve beijo na minha testa. - Espero que esteja se sentindo em casa.
Era tão estúpido eu sentir e pensar aquilo, mas desde o primeiro momento que estive com Harry, era exatamente daquele jeito que eu me sentia.



Capítulo 11

- Darling! - Harry exclamou alto, assim que sua mão apertou primeiro o botão vermelho que estava a sua frente.
Acompanhei a gargalhada que todos soltaram ao ver Anne esticar o braço e acertar seu filho por ser mais rápido que ela no jogo, enquanto o garoto se encolhia, também rindo. Observamos Karen, que tentava manter suspense, concordar com a cabeça, confirmando que “darling” estava nas respostas, então ergui os braços aos céus,  vendo Gemma fazer o mesmo, comemorando que a rodada seria nossa. Meu sorriso se abriu quando Harry estendeu a dose de tequila em minha direção, e brindei com a irmã do garoto assim que ela também recebeu seu copinho cheio da bebida.
- Ok, ok, vamos lá! Team Precious, nos conte como vocês chamam seus parceiros. - Karen perguntou, assim que depositamos os copinhos na mesa, fazendo nós três gargalharmos mais uma vez com o nome do nosso time.
Harry apontou para mim, esperando que eu dissesse alguma resposta que nos daria mais uma chance para ganhar aquela rodada. Minha mente já estava lenta demais e meu riso estupidamente solto. Estávamos jogando Family Fortune há algumas horas, já que essa era, aparentemente, alguma tradição de reunião da família Styles. E não seria eu que negaria jogar, ainda mais após descobrir que o time que começasse a rodada ganhava uma dose de tequila como “incentivo” e o que acertasse todas as respostas, sem errar uma, também ganhava doses como prêmio.
Eu não sabia dizer quantas rodadas já havíamos jogados. Nem quantas doses de tequila já havia ingerido. Meus dois parceiros de time não se encontravam muito diferente de mim, pois enquanto pensava em uma resposta para dar, eu podia ver pelo canto de olhos que Gemma e Harry faziam uma dancinha boba de “paquita” atrás de mim. 
Vi os dois primos de Harry, que estavam no time de Anne, cochichando, já debatendo as repostas que iriam utilizar, na esperança que eu errasse o meu chute.
- Vamos lá, ! - gritou Gemma atrás de mim. - Pensa nos nomes carinhosos que você chama o Harry.
- E quem disse que ela me trata com carinho? - Harry respondeu, rindo, e alargando ainda mais seu sorriso assim que abri a boca ofendida.
- Eu sempre te trato com carinho! - o garoto espremeu os olhos, como se me desafiasse. - Ok, não muito, mas eu tento!
- Diz isso para as vezes que você disse que me atropelaria. - apontou o dedo em minha direção, o que me fez rir mais uma vez.
A vergonha de estar embriagada na casa dos pais do garoto já havia fugido pelos mesmos degraus em frente àquela porta que eu havia caído hoje.
- Mas isso foi porque você foi ridículo! - dessa vez, a risada de todos os que estavam na sala que se fez presente, me fazendo perceber que montávamos uma briga boba na frente de todo mundo. - Ok, ok! Vamos lá! - encarei Karen, montando minha melhor feição de dúvida, enquanto respondia a pergunta do jogo. - Babe?
- Correto! - Karen gritou, nos fazendo festejar.
- Sweetie? - Gemma logo deu continuidade ao jogo.
O copinho de dose surgiu na minha frente, logo que terminamos acertando todos os nomes daquela carta e viramos o mesmo, sumindo com o líquido de dentro dele. Gemma foi a próxima, parando em frente ao botão vermelho, vendo que disputaria aquela rodada com seu primo George, que era estupidamente lento para pensar em respostas. Encarei Harry, rindo, vendo que a próxima rodada também seria nossa.
Eu, definitivamente, amava a família Styles, sua tradição de Family Fortune e amava ainda mais aquela segunda garrafa de tequila que Anne corria para buscar na cozinha.

xx

Apesar de tudo, nos encontrávamos vivos.
Harry se espreguiçou mais uma vez, virando o rosto para mim, sem conseguir abrir os olhos, balbuciando baixinho coisas completamente ininteligíveis. Fui me atrever a rir da indisposição do garoto, mas senti a pontada de dor atravessar meu cérebro assim que me mexi um pouco.
Ok. Estávamos parcialmente vivos.
- Eu odeio tequila. - Styles disse baixinho, quase sem emitir som, se encolhendo, enquanto enfiava o travesseiro no rosto.
- E eu odeio você. - comentei baixinho também.
A gargalhada quase surgiu de sua garganta, mas percebi o exato momento que a dor de cabeça também se fez presente no garoto, o fazendo gemer de dor e xingar algumas palavras.
- Vou atrás de remédio para ti. - sussurrei, erguendo lentamente meu tronco, na esperança que mais nada doesse.
- Isso quer dizer que você não me odeia tanto assim.
- Adivinhão. - brinquei em português, vendo o sorriso parcialmente descoberto do garoto surgir em seu rosto, mesmo que ele não tenha entendido o que eu disse.
Calcei o chinelo, tentando ter força o suficiente no meu corpo para ir até qualquer lugar daquela casa pedir salvação para alguém. Respirei fundo pela terceira vez, forçando minha perna para levantar e poder sair daquele lugar e, assim que coloquei meus pés na escada, ouvi vozes baixinhas vindo da cozinha e caminhei até o ambiente, encontrando Anne conversando com uma das tias de Harry, enquanto Gemma se encontrava debruçada na mesa da cozinha, com todo o cabelo jogado pelo rosto.
- Bom dia. - sussurrei, tomando a atenção das duas mulheres para mim.
- Bom dia, querida, acordou cedo! Meu filho está vivo ou teremos o velório de dois hoje? - brincou, apontando com a cabeça pra Gemma.
A garota disse algo, mas sua resposta foi completamente abafada pelos braços que a mesma mantinha como apoio, mas ela não se atreveu a mexer um centímetro para repetir o que quer que havia sido dito.
- Parcialmente vivo. - respondi sua pergunta, rindo assim como as duas mulheres.  - E não posso dizer muito diferente de mim.
- Sorte que eu abandonei vocês após o jogo, não tenho mais idade para isso não. - Anne brincou.
- Olha, Anne, acho que nem eu. - comentei, vendo Gemma concordar levemente com a cabeça, balbuciando alguma resposta afirmativa. - Vim buscar remédio para a criança.
- Já deixamos até separado para quando vocês acordassem. - a outra mulher alcançou uma cartela de remédio, entregando na minha mão.
Agradeci as duas, alcançando também a garrafa de água que Anne me estendia, voltando em passos lentos até o quarto que estávamos hospedados. Meu riso se prendeu na garganta assim que abri a porta, vendo que o garoto havia se revirado todo, estando de barriga para cima, com a cabeça nos pés da cama, com um dos braços pendendo para fora do móvel, enquanto encarava o teto com um dos olhos fechado.
- Está tudo bem?
- Acho que ainda estou parcialmente bêbado. - sussurrou.
- É, parcialmente é a palavra de hoje. - concordei. - Levanta, vem tomar isso.
- A gente precisa mesmo voltar para Londres hoje? - questionou, sem nem se mexer.
- Você havia dito que voltaríamos. Não era essa a condição para eu vir junto?
Harry concordou com a cabeça, fazendo um esforço mínimo para se sentar na cama, me encarando com um bico no rosto, enquanto eu esticava o comprimido e a água para ele pegar. O garoto soltou a garrafa fechada na cama e me encarou, abrindo os braços sem dizer uma palavra. Sem muito entender, dei o passo que faltava para chegar entre as pernas dele, abrindo meu sorriso assim que senti seu braço contornar minha cintura me apertando forte e sua cabeça pousar sobre meu ventre. Levei rapidamente minhas mãos até seu cabelo, desembaraçando os nós que ali se formavam.
- Se você quiser eu posso dirigir seu conversível. - comentei, o que fez o garoto tremer seu corpo rindo. - Assim, só ‘to dizendo…
- Não sei se confio em você dirigindo.
- Se eu fosse você, não confiaria em mim em nenhuma situação. - falei, tentando manter-me séria, mas falhando.
- Você vai mesmo me atropelar, né?! - brincou, erguendo os olhos e apoiando o queixo na minha barriga.
- Veremos isso hoje. - respondi. - Imagina a ironia de eu te atropelar com seu próprio carro! Eu me sentiria aquelas jovens lindas se livrando de seu marido velho milionário, matando-o para pegar toda a fortuna só para mim.
- Bom, azar o seu, porque, no momento, a única fortuna que eu tenho na minha vida é você. - o garoto disse sério, me encarando, mas não demorou muito para um sorrisinho começar a brincar no canto dos seus lábios.
- Meu Deus, as mulheres caem nesse seu papinho ridículo? - respondi rindo e o empurrando, mas o garoto prendeu mais forte seus braços ao meu redor.
- Normalmente eu não preciso dizer muita coisa para elas. - comentou, mas logo emendou, arregalando os olhos com pesar. - Brincadeira, brincadeira. Soei como um babaca agora.
- Ainda bem que consertou logo, já estava indo pegar a chave do carro para colocar meu plano em ação.
O garoto riu, abaixando o olhar para deixar um beijo na altura da minha barriga, sobre a camiseta que usava, para em seguida me soltar.
- Você sabia que acordei uma hora morto de sede, desci até a cozinha buscar água e encontrei a Olívia dormindo dentro da pia?
- A sua gata é louca. - comentei, juntando algumas peças de roupas que estavam jogadas pelo quarto. - Começando pelo fato de ela gostar do cachorro da Karen.
- Só você não gosta do Max.
- Aquele cachorro é insano. - apontei o dedo para o garoto, vendo-o rir baixo. - Completamente insano.
- Não tem muito espaço para sanidade na minha família mesmo. É por isso que você está entrando nela. - comentou, como se não fosse nada, se espreguiçando em seguida.
- Harry... - alertei, vendo-o rir.
O garoto finalmente se levantou da cama, vindo em minha direção para deixar um singelo beijo na minha testa, para me ajudar a terminar de arrumar as coisas. Com muito, mas muito esforço mesmo, conseguimos fechar as malas e descê-las até o andar de baixo, onde sua mãe já nos aguardava com um bico no rosto.
- Vocês deveriam esperar para almoçar! - comentou, cruzando os braços. - Você está sóbrio o bastante para dirigir, meu filho?
- vai dirigir. - o garoto respondeu e eu, que bebia da garrafa de água, engasguei no mesmo instante.
- Você vai me deixar dirigir? - tentei questionar entre as tosses, vendo ele concordar com a cabeça. - Eu não acredito! - dei dois pulinhos embaraçosos de alegria.
- Se a gente chegar em Londres com um risquinho a mais no meu carro… - ameaçou.
- Eu juro que foi a melhor decisão que você tomou em décadas, Harry, juro juradinho. - pulei até o garoto, pendurando-me em seu pescoço para deixar uma sequência de selinhos em seus lábios. - É meu sonho dirigir um conversível. Meu Deus, eu preciso achar um lenço dentro da minha bolsa para prender meu cabelo, e um óculos de sol vintage, e um batom vermelho, e colocar uma sequência muito boa de música, vai ser praticamente um vídeo clipe! - exclamei indo em direção as malas fechadas, buscar tudo que eu precisava.
Harry me auxiliou a prender o lenço de cetim no cabelo, mesmo eu estando o imitando durante todo o processo, dizendo com uma voz irritante que tentava imitar a sua sobre não levar coisas desnecessárias para Holmes Chapel. O garoto, parecendo se animar com a minha felicidade, havia caçado uma boina em algum lugar de seu quarto e agora se despedia de seu padrasto com ela cobrindo seus cabelos, e um óculos branco redondo escondendo seus olhos. Aproveitei quando Harry soltou Robin para ir até o homem me despedir.
- Obrigada por me receberem tão bem! - sorri, vendo o homem copiar meu sorriso em seu rosto.
- Minha querida, foi ótimo ter você aqui, obrigado você por vir. - me puxou em um abraço rápido, me fazendo sorrir mais ainda. - Acompanhe Harry na próxima vez que ele vier!
- Se ele não trouxer você, nós cometeremos um crime de ódio. - Gemma se intrometeu na conversa, assim que seu irmão a largou, me puxando para um abraço. - Foi um prazer te conhecer, , ainda mais jogada no chão sendo lambida pelo Max.
- Meu Deus, Gemma, toda vez que eu vou conhecer alguém relacionado ao Harry, eu acabo encenando um espetáculo ridículo que nem esse. - comentei, e assim que disse a garota segurou meus ombros me afastando um pouquinho.
- A história do cachorro quente é sensacional. - gargalhou alto. - No dia do casamento, o Harry me ligou para contar sobre o que eu tinha perdido, mas só sabia falar de você e de como vocês se conheceram. - a garota comentou, e eu travei.
- Então, você sabe que nós… - me faltaram palavras. - Digo, que não somos…nada.
- Eu sabia que vocês não eram nada. - frisou. - Mas agora...
- Ainda não somos nada, Gemma. - tentei não soar decepcionada, ou algo parecido, e a garota abriu um sorriso sarcástico como se duvidasse da minha palavra.
- Será que vocês podem parar de sussurrar aí? - Harry falou alto, fazendo com que eu e Gemma nos separássemos do abraço que ainda dávamos.
- Estamos falando mal de ti. - Gemma respondeu, continuando com o sorriso sarcástico no rosto.
- Precisamos ir, .
- Tudo bem, tudo bem. - caminhei até Anne que tinha o braço do garoto ao redor de seus ombros. - Muito obrigada por me receber tão bem. - falei, vendo o cantor soltá-la para que eu abraçasse.
- Ah, querida, foi um prazer enorme recebê-la. - me abraçou forte.
- Obrigada mesmo. E desculpa qualquer coisa. - sorri e complementei, como uma boa brasileira.
A mulher me apertou um pouquinho mais forte antes de me soltar, e eu confesso que quase chorei assim que vi seus olhos praticamente marejados me encararem de volta.
Aquela mulher era realmente um anjo.
Harry, me encarou com um sorriso de compaixão no rosto, mas logo toda sua feição mudou quando ergueu a chave de seu carro pendendo da ponta de seu indicador. Dei dois pulinhos até o garoto, roubando a chave de sua mão e saindo em direção a porta. Enquanto Harry dava um jeito de prender a caixinha de Olivia, joguei as malas de qualquer forma no porta malas do conversível, logo pulando para o banco do motorista. O cantor logo sentou no  passageiro, tentando dar uma lição completa de como dirigir o carro, mas, pouco me importando, ajeitei o óculos escuro no rosto, girei a chave na ignição, bati a mão repetidas vezes na buzina, dando tchauzinho com uma das mãos, num estilo princesa na carruagem, para a família do garoto que esperava na porta da casa.
Pelo canto de olho eu vi o garoto segurar no banco assim que virei a primeira esquina sem prestar muita atenção, quando acelerei o carro no sinal amarelo pude ver o garoto quase soltar um palavrão, e, quando apertei a mão na buzina e xinguei alto para o primeiro engraçadinho que tentou me cortar, vi Harry fazer o nome do pai pronto para iniciar uma oração. Ah, se ele passasse meia horinha no trânsito do Rio de Janeiro…
Assim que finalmente saí pela rodovia, o cantor pareceu respirar aliviado, relaxando o corpo que estava tenso no banco, e ligando o rádio que tocava a mesma playlist de antes, que logo foi pausada pelo garoto que parecia procurar alguma coisa.
- O que foi?
- Estou procurando a nossa música. - respondeu simplesmente, me fazendo arquear a sobrancelha.
- Nós temos uma música?
- Sim. - virou sorrindo para mim, dando play logo em seguida.
Não foi surpresa La belle de jour soar pelos alto falantes do carro, mas arregalei os olhos confusa quando o garoto apontou a câmera do celular para mim.
- Seja bem vinda ao primeiro vídeo clipe em que serei o diretor.
- Faremos um vídeo clipe? - questionei, erguendo a sobrancelha.
- Não era assim que você tinha dito que seria?
- Estamos jogando jogo das perguntas? - o sorriso começou a brincar no canto da boca do garoto, me fazendo sorrir também. - Você está cheio de querer realizar coisas aleatórias que eu comento no meio das conversas.
- Eu gosto de te ver feliz. - respondeu simplesmente, tornando sua atenção para o rádio para retornar a música ao seu início.
Na primeira vez, tentamos nos manter sérios, gravando cenas que com certeza se adaptariam a letra da música. Na segunda vez que a música soou pelo alto falante, eu me virava para fazer caretas para câmera, e cantava a música a plenos pulmões, matando Harry de susto toda vez que soltava as mãos do volante para levá-las ao ar.  A terceira e última vez, o garoto se filmava junto comigo, tentando falar algumas palavras em português que me faziam gargalhar cada vez mais por estarem tão erradas. Numa dessas vezes em que minha risada preenchia o ambiente, com a cabeça jogada para trás de tanto rir, o garoto esticou sua mão que não segurava firmemente o celular até o lenço de cetim que para soltá-lo do meu cabelo, deixando-os soltos para lutarem contra o vento, se inclinando completamente para deixar um beijo nos meus lábios.
Eu sabia que havia sido uma cena lindo para nosso vídeo clipe.
A viagem de volta pareceu mais rápida, seja pela velocidade em que dirigi aquele carro ou pelas conversas longas e hilárias que tivemos no caminho, mas logo passávamos por Wembley para entrar em Londres. Harry que mantinha o rosto sorridente, explodindo felicidade, foi fechando o sorriso conforme eu comecei a apertar a mão na buzina para os primeiros carros que ultrapassava. Para sua sorte e pelo bem de seu coração, não encontramos muito trânsito até chegar no meu bairro e o garoto, da mesma forma que quando saímos de Holmes Chapel, suspirou profundamente quando se viu seguro, com o carro deslizando suavemente até estacionar na frente do meu studio.
- Você deveria me deixar dirigir mais vezes. - brinquei, vendo o garoto virar para mim com uma feição sarcástica.
- Apenas em um dia que eu estiver querendo morrer.
- Harry! - respondi rapidamente, tentando me fingir de ofendida, mas Styles logo chacoalhou a cabeça em negação, desafivelando o cinto de segurança para virar para mim.
- Você já é normalmente um risco para minha vida, e agora descobri que é um risco maior ainda atrás de um volante. - gargalhei alto de sua frase.
- Um risco para sua vida? Que exagero, Harry.
Minha risada se intensificou assim que vi o garoto fazer o nome do pai, e fui parando assim que percebi que o garoto não me acompanhava, mas olhava diretamente para mim, com sua feição agora completamente focada e séria. Limpei a garganta, esperando que ele falasse alguma coisa, mas o silêncio já se tornava tão incômodo que me senti na obrigação de quebrá-lo.
- Iremos nos despedir agora? - perguntei baixinho, tentando não fazer minha voz quebrar enquanto dizia.
Harry me encarou por mais uns segundos, mordendo seu lábio inferior, como se tentasse desta forma trancar as palavras que queria dizer. Suspirou fundo mais uma vez, levando a mão cheia de anéis até seu rosto e depois até seus cabelos, tirando dali a boina para que pudesse bagunçá-los.
-  Eu queria muito, muito te pedir uma coisa. Te fazer um pedido. Mas eu… - fechou os olhos com força e depois mirou seus olhos azuis nos meus. - Eu não sei. Eu acho completamente estúpida a forma como eu me sinto tomado por você. - deu mais uma pausa, se deixando rir levemente. - Você me faz sentir coisas que eu... eu realmente não sei.
- E isso tem a ver com o que você quer me pedir? - mais uma vez deixei a pergunta sair por meus lábios, tentando controlar o tremor que eu sentia dentro de mim. Não era sobre o que eu pensava que era. Era?
- Sim. - respondeu simplesmente, me fazendo gelar por inteiro. - E seria completamente egoísta da minha parte fazer este pedido a você aqui e agora. Principalmente agora.
Ele parou por um segundo. E eu também.
Sim, Harry, é completamente egoísta da sua parte estar fazendo isso comigo sendo que você partirá para não sei quantas cidade, países e continentes em alguns dias.
- Eu também acho que seja, Harry.
- É por este motivo que não irei te pedir isso agora. Não vou te pedir isso agora porque não fará bem para mim, e principalmente não fará bem para você, e eu estou cansado de ser um filha da puta egoísta. - soltou os braços em frustração. - Mas, , eu quero tanto que você saiba que eu… - pausou. - Você lembra quando conversamos sobre amor à música e ao teatro? - questionou e continuou a falar assim que me viu concordar com a cabeça. - É isso. É isso que eu sinto quando estou com você, aquilo que não se encontra nem palavras para descrever, o ápice de tudo e a sensação inevitável de que não existe mais nada além disso. E é uma pena eu estar conseguindo dizer isso para ti apenas uns dias antes de viajar e é uma sorte incrível eu conseguir sentir tudo isso apenas semanas após te conhecer.
- Não é louco? A conexão que temos após poucas semanas? - questionei, soltando um riso leve, vendo o garoto concordar suavemente com a cabeça. - Eu não sei falar sobre o que sinto e não sei lidar com sentimentos, então eu espero que eu possa apenas fazer alguma piadinha ridícula sobre você se chamar de um filha da puta egoísta sem ter que falar que eu me sinto da mesma forma que você, que eu também acho estúpida a forma como estou totalmente tomada por você.
- Ao invés disso, você poderia me beijar. - abriu um sorriso ao dizer, dando com os ombros como quem não quer nada.
Fiz uma carinha de nojo assim que o garoto terminou de falar, vendo sua boca se abrir ofendida, ao mesmo tempo que suas duas mãos vinham em direção ao meu rosto para me puxar para mais perto. Minha gargalhada não conseguiu tomar o ambiente, porque a boca de Harry já se forçava contra a minha em um beijo sem calmaria alguma. Nos separamos após alguns segundos, sentindo sua mão fazer um carinho gostoso na minha nuca, enquanto eu deixava uma carícia na sua bochecha.
- Eu realmente queria te pedir. - sussurrou.
- Eu diria sim.
- … - alertou.
- Ok. - sussurrou contrariada. - Eu diria que é melhor você arredar com esse carro ridículo da frente da minha casa, antes que eu decida te atropelar com ele.
Sua gargalhada soou próxima demais do meu rosto, conforme o garoto se aproximava mais uma vez para deixar um beijo nos meus lábios e me abraçar para dizer que era completamente estúpida a forma como ele iria sentir minha falta.



Continua...



Nota da autora: Ei! Espero que estejam gostando! Vejo vocês no próximo capítulo.



comments powered by Disqus