Capitulo Único
descobriu duas coisas importantes nas primeiras três horas daquela viagem.
A primeira: o ar-condicionado da van estava absurdamente gelado. Não importava quantas vezes ela reclamasse, nem o fato de já estar encolhida no banco, braços cruzados, tentando se aquecer com a própria jaqueta. O motorista assentia, prometia “dar uma ajustada”, e cinco minutos depois o vento gelado voltava a soprar direto na sua nuca, impiedoso.
A segunda: continuava sendo exatamente o mesmo problema de sempre — talvez até pior quando confinado num espaço pequeno, cercado por família, malas demais e um espírito natalino sufocante.
Ela o observou pelo canto do olho enquanto ele se inclinava novamente sobre o cadeirão improvisado entre os bancos. Pela terceira vez em menos de dez minutos, ajustava o cinto do bebê, puxando, conferindo o encaixe, pressionando com os dedos como se estivesse testando a resistência de um equipamento de segurança industrial. Cada movimento era calculado demais, preciso demais. Quase solene.
Como se qualquer erro mínimo pudesse provocar o fim do mundo.
— Ele tá bem, — comentou, sem sequer levantar a voz, mas com aquela calma afiada que sempre antecedia uma provocação. — Não vai desmontar no meio da estrada.
não respondeu de imediato. Inspirou fundo, devagar, os ombros subindo e descendo como se estivesse se obrigando a manter a sanidade. Só então virou o rosto na direção dela.
— Não é sobre desmontar — disse, num tom controlado demais para alguém que claramente se sentia atacado. — É sobre segurança.
arqueou a sobrancelha, inclinando levemente a cabeça.
— Ah, claro. — Um meio sorriso surgiu no canto da boca. — Porque você é o ministro oficial da segurança infantil agora.
Do banco da frente, o irmão dele soltou uma risada baixa, incapaz de se conter. A irmã de , por outro lado, fingiu um interesse repentino pela paisagem do lado de fora, como se nada tivesse ouvido. apertou os lábios, formando aquele sorriso tenso que conhecia bem demais.
O sorriso de quem estava a exatamente dois comentários de perder a paciência.
— Se você se importasse um pouco mais… — ele começou, ainda olhando para o cadeirão.
— Lá vem — ela murmurou, quase para si mesma.
— …entenderia que esse é o primeiro Natal dele. — finalmente a encarou. — Não é só uma viagem qualquer.
Aquilo fez se virar de vez no banco. Cruzou os braços, o corpo todo assumindo uma postura defensiva sem que ela percebesse.
— Você fala como se eu não soubesse disso. Como se eu fosse irresponsável só porque não fico checando cada detalhe cinco vezes.
— Eu não disse isso.
— Disse com esse tom.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado. desviou o olhar, vencido, e ajeitou a manta do bebê mais uma vez, num gesto automático. suspirou e virou o rosto para a janela, apoiando a testa no vidro frio.
O reflexo que viu ali era exatamente como se sentia: cansada.
Eles nunca brigavam de verdade. Nunca levantavam a voz, nunca faziam escândalo. Era pior do que isso. Era esse atrito constante, esse incômodo silencioso, como se a simples existência de um fosse, por vocação, capaz de irritar o outro.
Ela não suportava a forma como parecia sempre no controle, sempre certo, sempre preparado.
Ele não suportava a maneira como parecia não ligar para nada — mesmo quando ligava.
E ainda assim, ali estavam.
Uma viagem de Natal em família.
Uma casa cheia à espera.
Um bebê que não merecia nenhum clima estranho no primeiro Natal da vida.
Quando a van entrou na estrada de terra que levava à casa de praia, fechou os olhos por um instante. O céu começava a escurecer, pintado de laranja e rosa, e o balanço suave do veículo quase dava a ilusão de tranquilidade.
Quase.
Era o tipo de calma enganosa.
Aquela que sempre vinha antes do caos.
Mais tarde, já instalados, a casa parecia viva demais.
Havia vozes se cruzando pelos corredores, risadas vindo da sala, passos apressados indo e vindo entre a cozinha e a área externa. O cheiro de comida começava a se espalhar, misturado ao perfume de pinheiro artificial e açúcar queimado. Enfeites de Natal ocupavam praticamente todas as superfícies possíveis: guirlandas nas portas, luzes piscando em intensidade duvidosa, bonecos vermelhos e dourados disputando espaço com porta-retratos antigos.
Era… muito.
largou a mala no quarto que dividiria com a irmã mais nova sem nem se dar ao trabalho de abrir o zíper. Seguiu direto para a cozinha, guiada por um único objetivo: encontrar algo forte o suficiente para anestesiar o dia antes que ele realmente começasse.
— Não abre isso agora. — Já tinha os dedos em volta do gargalo da garrafa quando uma voz conhecida demais soou atrás dela.
— Me impede. — se virou devagar, erguendo a garrafa de vinho como se fosse um troféu.
— Ainda não é hora. Mamãe quer abrir tudo junto na ceia. — estava parado perto da porta, braços cruzados, expressão séria demais para alguém discutindo álcool às quatro da tarde.
— É vinho, não um presente.
— É tradição.
— Vocês e essa obsessão por tradição… — Ela soltou uma risada curta, sem humor algum.
— E você e essa obsessão por desafiar tudo — ele retrucou, deixando a camada de educação cair por um segundo.
Foi o suficiente.
O silêncio que se formou entre os dois ficou pesado rápido demais, como se a cozinha tivesse encolhido de repente.
— Você age como se estivesse sempre deslocada — disse, agora mais baixo. — Mas talvez seja porque você nunca tenta se encaixar.
Aquilo doeu mais do que esperava. Mais do que ela gostaria de admitir.
— E você age como se fosse melhor do que todo mundo — respondeu, engolindo em seco enquanto apertava a garrafa com força demais — só porque sabe fingir que é perfeito.
— Eu não finjo. — Ele franziu o cenho.
— Finge sim. Finge que não se incomoda. Finge que não julga. Finge que é tudo fácil.
Uma gargalhada distante, vinda da sala, quebrou a tensão por um segundo — mas não apagou nada do que havia sido dito. passou a mão pelos cabelos, claramente irritado, o maxilar travado.
— Quer saber? Esquece. Não vale a pena discutir com você.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Ele saiu da cozinha sem olhar para trás.
apoiou as mãos na bancada, respirando fundo, tentando desacelerar o próprio coração. Odiava o quanto aquelas palavras tinham entrado fundo. Odiava ainda mais saber que teria que conviver com ele por mais dois dias inteiros.
Naquela noite, já deitada, o som constante do mar se misturava ao burburinho distante da casa. encarava o teto escuro, revisitando mentalmente cada frase que não tinha dito — e algumas que não deveria ter dito.
Do outro lado da casa, também estava acordado, sentado na beira da cama, encarando o próprio reflexo no espelho do quarto, como se esperasse que ele dissesse algo que fizesse sentido.
Ambos pensaram a mesma coisa, quase ao mesmo tempo:
Esse Natal vai ser um desastre.
E nenhum deles fazia ideia de quão literal aquilo estava prestes a se tornar.
A manhã seguinte começou cedo demais para alguém que tinha dormido mal.
acordou com vozes na cozinha, o choro baixo do bebê e o cheiro insistente de café fresco invadindo o quarto. Ficou alguns segundos encarando o teto, reunindo forças para sair da cama, quando ouviu passos no corredor e uma voz conhecida demais.
— Eu cuido dele, pode ir tomar banho. — Ela reconheceria aquele tom em qualquer lugar. Calmo. Seguro. Controlado.
Revirou os olhos antes mesmo de se levantar.
Na cozinha, a cena parecia saída de um comercial de margarina. O bebê no colo de , quieto demais para aquele horário, a irmã mais velha de sorrindo satisfeita, e a mãe dele observando tudo com um olhar de aprovação quase exagerado.
— Ele leva jeito, né? — a mãe comentou. — É tão cuidadoso.
pegou uma caneca e se serviu de café sem responder.
— Algumas pessoas simplesmente nascem pra isso — disse, balançando o bebê devagar.
— Nossa, que humildade. — Ela virou o rosto lentamente na direção dele.
Ele a ignorou.
O que, de alguma forma, conseguiu irritá-la ainda mais.
Durante a manhã, eles foram colocados lado a lado em praticamente tudo. Arrumar a mesa. Organizar os presentes. Separar as comidas que iriam ao forno mais tarde. Como se o universo tivesse decidido testá-los deliberadamente.
— Esses enfeites vão cair — comentou, observando subir na escada pequena para ajeitar as luzes.
— Não vão.
— Vão sim.
— Eu prendi direito.
Cinco segundos depois, um dos fios escorregou, apagando metade das luzes.
O silêncio que se seguiu foi quase ofensivo.
— Quer que eu finja surpresa? — sorriu de canto.
— Quer ajudar ou só comentar? — desceu da escada, a expressão fechada.
— Tô ajudando. Comentando.
Mais tarde, já perto do almoço, o bebê começou a chorar sem parar. A casa inteira parecia girar em torno daquele som. se viu andando de um lado para o outro, tentando acalmá-lo, enquanto observava com o cenho franzido.
— Você tá balançando demais — ele disse.
— Ele gosta.
— Pode dar refluxo.
— Ele não é de porcelana, .
— Não é, mas.
— Mas você acha que só você sabe cuidar dele — ela cortou, a voz subindo mais do que pretendia.
Algumas cabeças se viraram na sala. sentiu o peso imediato do olhar da irmã.
— Não aqui — respirou fundo.
— Então para de me corrigir como se eu fosse incompetente. — O clima ficou estranho rápido demais.
Eles se afastaram, mas a tensão continuou ali, pesada, grudenta. foi para o quintal e se sentou na beira da piscina vazia, tentando esfriar a cabeça. O som do mar parecia distante, quase irreal.
Minutos depois, ouviu passos atrás de si.
— Eu não acho que você é incompetente — disse, parando a uma distância segura.
— Mas age como se achasse. — Ela não olhou.
— Eu só… gosto de ter controle.
— Isso fica claro.
— Nem todo mundo teve escolha sobre isso. — Ele suspirou, passando a mão pela nuca.
— O que isso quer dizer? — Aquilo a fez virar o rosto.
— Nada. — Ele se arrependeu imediatamente. — Esquece.
O silêncio que se instalou entre eles foi diferente dos outros.
Menos agressivo.
Mais desconfortável.
À noite, depois do jantar, a família se reuniu na sala para planejar a ceia do dia seguinte. Papéis espalhados pela mesa de centro, listas rabiscadas às pressas, horários sendo repetidos em voz alta. Cada pessoa ficava responsável por alguma coisa: forno, sobremesas, bebidas, decoração de última hora.
E, como se fosse inevitável, e acabaram empurrados para a mesma tarefa.
Organizar os presentes.
E ajudar com o bebê durante a noite.
— A gente se reveza — a irmã de sugeriu, com naturalidade demais. — Assim ninguém fica sobrecarregado.
abriu a boca para protestar. Já tinha até o argumento pronto, ensaiado na cabeça. Mas falou antes.
— Tudo bem.
Ela virou o rosto devagar.
— Tudo bem? — repetiu, incrédula.
— É só uma noite — ele deu de ombros, como se não fosse nada demais.
Só uma noite.
Aquelas palavras ficaram ecoando mais do que deveriam.
Mais tarde, já na véspera de Natal, a casa parecia grande demais. Silenciosa demais. As luzes piscavam na sala em um ritmo quase hipnótico, e a árvore projetava sombras suaves nas paredes, como se tudo estivesse em suspensão.
caminhava pelo corredor quando encontrou vindo na direção oposta. Nenhum dos dois disse nada de imediato. Ambos cansados. Ambos carregando coisas demais na cabeça.
— A gente precisa alinhar algumas coisas — ele disse, por fim.
— Sobre o bebê?
— Sobre nós dois. — hesitou por um segundo. — Não dá pra continuar assim amanhã.
— Então fala. — Ela cruzou os braços, defensiva por reflexo.
— Você acha que eu te julgo. — Ele respirou fundo. — E talvez eu julgue mesmo. Mas você também me reduz a um estereótipo o tempo todo. Como se eu fosse só isso.
a encarava com uma seriedade que não estava acostumada a ver. Não era irritação. Não era controle. Era algo mais cru.
O coração dela bateu mais forte.
— E você acha que é fácil ser sempre a “difícil”? — ela rebateu, a voz mais baixa. — A que nunca agrada? Pelo menos gostam de você.
O silêncio que se seguiu caiu pesado, quase palpável.
— Eu não quero estragar o Natal dele — disse, mais baixo ainda.
— Nem eu. — engoliu em seco.
Eles se olharam por segundos longos demais para serem confortáveis.
— Então tenta — ele concluiu.
— Você também.
Cada um seguiu para um lado do corredor, levando consigo um incômodo novo. Mais profundo. Menos barulhento. E, por isso mesmo, mais difícil de ignorar.
Naquela madrugada, enquanto a casa dormia, acordou com sede. Caminhou até a cozinha quase no escuro, guiada pela luz fraca do corredor, e encontrou sentado à mesa. Havia uma xícara à sua frente, intocada.
— Insônia? — ela perguntou, quebrando o silêncio.
— Parece que sim.
Nenhum dos dois disse mais nada. Ficaram ali, dividindo o mesmo espaço pela primeira vez sem brigar, sem se provocar, sem tentar vencer.
Do lado de fora, o vento balançou as luzes de Natal, fazendo-as piscar de um jeito irregular.
Algo estava prestes a sair do controle.
E o caos já tinha escolhido a hora certa para chegar.
ainda estava na cozinha quando ouviu o barulho.
Um estalo seco, seguido por um apagão repentino que mergulhou a casa inteira na escuridão. As luzes de Natal se apagaram ao mesmo tempo, e o silêncio que veio depois foi tão estranho quanto o som anterior.
— Ótimo — ela murmurou.
— Deve ter sido o disjuntor — disse, levantando da cadeira. — A fiação dessa casa é antiga.
Eles caminharam juntos pelo corredor estreito até o quartinho onde ficava o quadro de energia. abriu a porta com cuidado, usando a lanterna do celular para iluminar o interior.
— Não encosta aí — ele avisou. — Tá tudo molhado.
— Molhado? — apontou para o chão. Um filete de água escorria lentamente de algum lugar do teto, provavelmente do banheiro do andar de cima. — Quem foi o gênio que resolveu tomar banho a essa hora? — ela resmungou.
— Se eu desligar e ligar de novo, talvez volte. — se abaixou, tentando alcançar o disjuntor principal.
— Talvez você tome um choque.
— Eu sei o que tô fazendo.
— Claro que sabe. — Ela revirou os olhos.
No instante em que puxou a alavanca, um trovão soou alto demais, fazendo a casa inteira estremecer. Ao mesmo tempo, escorregou no piso molhado e se chocou contra ele.
O clarão veio rápido, quase branco, seguido por um choque que percorreu o corpo dela inteiro. O mundo pareceu girar, o som sumiu, e tudo ficou… vazio.
Depois, silêncio.
Quando abriu os olhos, a primeira coisa que percebeu foi o frio.
Um frio estranho, diferente. Mais intenso.
Piscou algumas vezes, tentando focar a visão, e o mundo parecia ligeiramente fora de lugar. O chão estava mais próximo do que deveria, e seu corpo parecia… pesado.
— Que inferno… — murmurou.
A própria voz a fez congelar.
Era grave demais.
Ela levou a mão à garganta devagar, sentindo o pomo de adão sob os dedos. O coração começou a disparar.
— Não. Não, não, não…
— ? — Ela ergueu as mãos à frente do rosto. Mãos grandes. Diferentes. Masculinas.
— ? — A resposta veio de trás dela. Aguda. Assustada.
Ela se virou de supetão e encontrou… a si mesma.
Ou melhor, o próprio corpo — com os olhos arregalados demais, o cabelo desgrenhado e uma expressão de pânico que ela conhecia bem.
— Isso não tá acontecendo — disse, com a voz dela. — Isso não tá acontecendo!
— no corpo dele — sentiu as pernas fraquejarem.
— Cala a boca — ela sussurrou. — Fala baixo. A casa inteira tá dormindo.
— Você tá… — olhou para as próprias mãos, tocou o rosto, o cabelo. — Eu tô em você.
— E eu tô em você — ela respondeu, passando as mãos pelo próprio corpo, confirmando o óbvio. — Meu Deus.
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um choro distante. O bebê.
Os dois se entreolharam, o pânico ganhando uma camada nova.
— Se alguém nos ver assim… — começou.
— A gente tá ferrado — completou.
O choro ficou mais alto.
— Ele acordou — disse, já caminhando na direção do quarto do bebê… no corpo dela.
— Espera! — segurou o braço dele. — Você não sabe nem segurar direito com o meu corpo.
— Eu sei segurar bebê!
— Com o seu corpo! — ela rebateu.
O choro se intensificou.
— Não temos tempo — disse, respirando fundo. — Depois a gente surta. Agora a gente age normal.
— Normal? Você tá usando meu corpo e eu tô usando o seu. Nada disso é normal. — riu, um som nervoso demais para a situação.
Mas eles foram.
No quarto do bebê, pegou a criança com cuidado excessivo, quase desajeitado. observava, sentindo uma mistura absurda de medo e incredulidade.
— Você tá balançando demais — ela comentou automaticamente.
— Não começa. — lançou um olhar mortal.
Ela mordeu o lábio para não rir.
O bebê se acalmou aos poucos, e o silêncio voltou a dominar a casa. Só então o peso da situação caiu de verdade sobre eles.
— Amanhã é Natal — murmurou.
— Daqui a algumas horas — corrigiu, a voz dela soando cansada.
Eles se encararam no espelho do corredor. O reflexo errado, os olhos certos.
— Ninguém pode saber — disse.
— Ninguém — ela concordou.
— A gente finge.
— Você não vai aguentar um dia inteiro sendo eu. — inclinou a cabeça, encarando o próprio rosto no corpo dele.
— E você não vai sobreviver sendo eu — ele retrucou.
Um desafio silencioso passou entre eles.
E, pela primeira vez, algo parecido com cumplicidade nasceu no meio do caos.
Do lado de fora, o relógio marcou meia-noite.
Era oficialmente Natal.
E tudo tinha acabado de sair completamente do controle.
Eles se trancaram no quarto mais afastado da casa como dois cúmplices de um crime mal planejado.
— no corpo dele — foi a primeira a se sentar na cama, passando as mãos pelo rosto dele como se aquilo pudesse, de alguma forma, fazer sentido.
— Certo — ela começou. — A gente precisa de regras.
— no corpo dela — cruzou os braços, claramente desconfortável com o próprio corpo.
— Eu já tenho regras.
— Não, você tem manias. Isso é diferente.
— Fala logo. — Ele lançou um olhar fulminante.
— Primeira regra: ninguém exagera. Você não pode ficar educado demais comigo, senão vão estranhar. — respirou fundo.
— Educado demais?
— Você fala “por favor” até pra pedir sal.
— E você xinga até quando agradece.
— Exato. Então vamos encontrar um meio-termo.
suspirou.
— Segunda regra — ele continuou. — Você não fala palavrão.
— Isso vai ser impossível.
— Você tenta.
— Tá. Terceira regra: nada de me criticar na frente da minha família.— Ela fez uma careta.
— Sua família já faz isso sozinha — ele rebateu, antes de se arrepender. — Quer dizer… desculpa.
— Viu? Já tá começando. — Ela o encarou por alguns segundos.
O silêncio ficou estranho por um instante.
— Quarta regra — continuou, pigarreando. — A gente se observa. Se alguém fizer uma pergunta estranha, o outro cobre.
assentiu.
— E a regra mais importante: ninguém toca no próprio corpo de um jeito suspeito.
— Suspeito como? — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Como se estivesse… curioso demais.
— Ah. — Ela deu um meio sorriso. — Tarde demais pra você.
— … — Ele fechou os olhos.
— Relaxa. É brincadeira. Eu sei onde não mexer.
— Certo. Amanhã cedo, a família toda vai estar reunida. Café da manhã, presentes, fotos. — Ele respirou fundo, tentando manter a sanidade.
— E o bebê — ela lembrou. — Muito bebê.— Eu cuido dele.
— Não. — Ele se levantou. — Você cuida com o meu corpo. Eu fico por perto.
— Você não confia em mim?
— Nem um pouco.
Eles se encararam por um segundo longo demais.
— Vamos sobreviver a isso — disse, mais para si mesmo do que para ela.
— A gente não tem escolha.
A manhã de Natal chegou cedo demais.
acordou com alguém batendo na porta.
— ? Já tá acordado? — A voz da mãe dele do outro lado fez o estômago dela revirar.
— Tô! — ela respondeu, tentando engrossar ainda mais a voz. — Já vou sair!
arregalou os olhos do outro lado do quarto.
— Você não deveria falar assim — ele sussurrou.
— É a sua voz — ela retrucou, baixo.
Eles se olharam no espelho mais uma vez antes de sair. O reflexo ainda parecia errado, mas não havia tempo para crises existenciais.
Na cozinha, o clima era exatamente o que temia: risadas, cheiro de rabanada, música natalina baixa ao fundo.
— Bom dia! — a mãe dele disse, sorridente. — , ajuda seu pai com a mesa?
travou por meio segundo.
— Claro — ela respondeu rápido demais.
levou a mão à testa discretamente.
— , vem cá comigo — a irmã dela chamou.
Ele engoliu em seco e foi.
A atuação começou ali.
tentou imitar os gestos de : postura reta, movimentos contidos, sorriso educado. Mas quase deixou escapar um comentário atravessado quando o pai dele reclamou da disposição dos pratos.
— Talvez se a mesa não fosse tão… — ela começou. tossiu alto. — Perfeita — ela corrigiu. — Tá ótima.
O pai sorriu, satisfeito.
, do outro lado da cozinha, tentava sobreviver no corpo dela. Sorria menos do que deveria, falava baixo demais, e recebeu um olhar desconfiado da própria irmã de .
— Tá tudo bem? — ela perguntou. — Você tá estranha.
— Dormi mal — ele respondeu rápido.
— Milagre. — Ele forçou um sorriso.
O bebê começou a resmungar, e foi até ele automaticamente. observou com atenção, pronta para intervir, mas algo a fez hesitar.
Ele era cuidadoso. Gentil. Atento.
No corpo dela, embalava o bebê como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
E, pela primeira vez, sentiu um aperto estranho no peito.
Talvez ele não fosse só controle.
Talvez ele fosse cuidado.
Mais tarde, durante as fotos de Natal, alguém comentou:
— Vocês dois estão… diferentes hoje.
e se olharam ao mesmo tempo.
— Diferentes como? — perguntaram em uníssono.
O silêncio que se seguiu foi quase mortal.
— Mais… tranquilos — a mãe dela concluiu, sorrindo. — Combina com o Natal.
Eles respiraram aliviados.
Quando se afastaram para o quintal, longe dos olhares curiosos, soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
— A gente quase morreu agora.
— Você respondeu junto comigo — retrucou.
— Foi instinto.
— Controla seus instintos.
— Olha só… você tá indo bem sendo eu. — Ela riu baixo.
— Você também. Sendo eu. — Ele a encarou, sério.
O olhar durou mais do que deveria.
E, no meio daquela atuação forçada, algo começou a mudar.
Não era só sobrevivência.
Era curiosidade.
E talvez… o início de alguma coisa que nenhum dos dois estava preparado para sentir.
Se sobreviver à manhã de Natal já tinha sido um milagre, o resto do dia parecia determinado a cobrar a conta.
percebeu isso no momento em que se sentou no sofá da sala, no corpo de , e a avó dele se acomodou ao seu lado com um sorriso conspiratório demais.
— Você anda tão calado, meu filho — a mulher comentou. — Tá tudo bem?
travou por meio segundo.
— Tá sim, vó — respondeu, educada demais para si mesma.
— E essa postura toda séria… — a avó riu. — Parece até outra pessoa.
Do outro lado da sala, — no corpo dela — engasgou com o próprio suco.
— Água no tapete! — falou rápido demais, se levantando num pulo.
Todos olharam para ela.
— Quer dizer… — ela pigarreou. — Eu limpo.
fechou os olhos por um segundo, pedindo paciência a tudo que fosse sagrado.
Mais tarde, no quintal, foi cercado por tias e primas curiosas demais para um feriado que deveria ser tranquilo.
— E os namorados, ? — uma delas perguntou. — Nunca aparece com ninguém.
O estômago de se revirou.
— Eu… — ele começou, sentindo o peso de uma pergunta que nunca tinha sido feita a ele daquele jeito. — Não é prioridade.
— Mas uma mulher bonita assim… — outra comentou. — Deve ser exigente demais.
Aquilo bateu mais forte do que ele esperava.
— Talvez eu só não aceite menos do que mereço.— Ele forçou um sorriso, educado demais.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável.
Mais tarde, quando encontrou encostado no muro do quintal, o olhar dele estava diferente.
— Você tá bem? — ela perguntou.
— Agora eu entendo — ele respondeu, baixo.
— Entende o quê?
— O quanto te pressionam. O quanto acham que têm direito de opinar sobre você.
Ela não soube o que dizer.
Nunca tinha pensado que alguém… fosse perceber.
As gafes continuaram.
quase xingou quando derrubou molho na toalha.
quase pediu desculpa por existir três vezes seguidas.
Os dois falaram ao mesmo tempo mais vezes do que o aceitável.
Mas ninguém descobriu.
O problema foi outro.
No meio da tarde, enquanto a casa dormia depois do almoço pesado, ficou sozinho com o bebê no quarto. observava da porta, braços cruzados, pronta para interferir a qualquer segundo.
— Calma… já vai ficar confortável. — Ele trocava a fralda com cuidado, concentrado, falando baixinho.
O bebê segurou o dedo dele com força.
sentiu algo estranho no peito.
— Você leva jeito — ela disse, sem ironia.
ergueu o olhar.
— Eu sempre tive medo de errar.
— Dá pra ver.
— Mas com ele… — ele sorriu pequeno. — Eu só quero acertar.
Ela se apoiou no batente da porta.
— Você não precisa ser perfeito o tempo todo.
— Você diz isso agora. — Ele soltou uma risada curta.
— Eu digo isso porque tô vivendo sua vida por um dia.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi íntimo.
A casa estava diferente naquela noite.
Não mais barulhenta, nem cheia de risadas soltas. O cansaço coletivo tinha se instalado, e os sons agora eram baixos, espaçados, como se todos estivessem tentando preservar o clima frágil do Natal.
percebeu isso quando se sentou na sala, no corpo de , observando as luzes da árvore piscarem devagar. A sensação era estranha demais: estar confortável em um corpo que não era o seu, pensar com clareza demais sobre alguém que ela sempre tentou evitar.
Ela ouviu passos e não precisou olhar para saber quem era.
— Ele dormiu — disse, baixinho, se referindo ao bebê.
— Você fica diferente quando tá com ele.
— Diferente como?
— Menos tenso.
— Talvez porque, pela primeira vez, eu não precise provar nada. — Ele sorriu de canto.
Aquilo ficou ecoando nela.
Eles ficaram lado a lado, sem se tocar. O espaço entre os dois parecia carregado de coisas não ditas.
— Você já pensou… — começou, mas parou.
— No quê?
— Que talvez isso não seja um castigo?
— E sim? — virou o rosto devagar.
— Um empurrão.
— Eu nunca teria te ouvido desse jeito se não estivesse vivendo sua vida. — Ele pensou por alguns segundos antes de responder.
— Eu nunca teria olhado pra você sem achar que você tava me julgando. — Ela riu baixo.
O silêncio se estendeu, confortável e perigoso ao mesmo tempo.
Mais tarde, quando foram para o quarto, se sentou na ponta da cama, claramente inquieta.
— E se isso não acabar amanhã? — ela perguntou, sem olhar para ele.
— A gente dá um jeito. — sentiu o peso da pergunta no estômago.
— Porque eu sempre acredito.
— Mesmo quando não tem controle? — Ela ergueu os olhos.
— Principalmente quando não tem. — Ele hesitou.
A vulnerabilidade na voz dele a atingiu de um jeito inesperado.
Ela se levantou, andando pelo quarto.
— Eu odeio não saber o que vai acontecer — ela confessou. — Eu odeio mais ainda… não odiar você.
— Eu passei a vida inteira tentando ser fácil de amar. — sorriu de leve.
— E eu passei a minha fingindo que não me importava. — Ela parou diante dele.
Os dois estavam perto demais outra vez.
O tipo de perto que não exige toque para ser intenso.
— Se a gente cruzar essa linha… — começou.
— Não vai ter volta — ela completou.
Eles ficaram ali, imóveis, respirando o mesmo ar.
Então alguém bateu na porta.
— Vocês dois? — a voz da irmã dela soou do lado de fora. — Tá tudo bem?
Eles se afastaram rápido demais.
— Tudo! — respondeu, um segundo tarde demais.
O silêncio do corredor se afastou, mas o coração deles não desacelerou.
Na madrugada, acordou com a sensação estranha de não estar sozinha.
estava sentado na cama, encarando as próprias mãos — as mãos dela.
— Eu não quero voltar a ser quem eu era — ele disse, de repente.
— Como assim? — Ela se sentou, confusa.
— Eu gosto de como você enfrenta as coisas. Eu gosto… de como você existe sem pedir desculpa.
Ela engoliu em seco.
— E eu gosto de como você cuida — respondeu. — Mesmo quando ninguém vê.
O olhar que trocaram ali foi diferente de tudo até então.
Mais honesto.
Mais vulnerável.
estendeu a mão, parando a poucos centímetros dela.
— Só me diz uma coisa — ele pediu. — Se isso acabar amanhã… você vai fingir que nada aconteceu?
pensou por um momento.
— Não — ela respondeu. — Mas eu também não sei o que vem depois.
— Acho que isso é o mais assustador. — Ele assentiu.
Eles deitaram novamente, sem se tocar, mas conscientes demais da presença um do outro.
Do lado de fora, o vento balançou as luzes de Natal.
O quarto estava em silêncio outra vez.
Não aquele silêncio confortável do cansaço, mas o tipo que vibra, que pesa, que deixa o ar denso demais para respirar direito. permanecia deitada, de costas para , sentindo o corpo — o corpo dele — estranho e familiar ao mesmo tempo.
Ela se virou devagar.
ainda estava acordado, olhando para o teto, os olhos refletindo a luz fraca do abajur.
— Você tá pensando em quê? — ela perguntou.
Ele demorou a responder.
— Em como tudo isso vai acabar — disse, por fim. — E em como eu não quero que acabe assim.
— A gente não escolheu isso. — se sentou na cama.
— Mas tá escolhendo agora — ele respondeu, virando o rosto na direção dela.
— … — Ela engoliu em seco.
— Se a gente continuar fingindo que não sente, vai ser pior quando isso acabar — ele disse, a voz baixa, sem acusação. — Eu prefiro errar do que voltar fingindo que nada aconteceu.
Ela desceu da cama, os pés descalços tocando o chão frio. Parou diante dele.
— Você tem noção do que tá dizendo?
— Tenho.
— A gente tá no corpo errado.
— Mas o sentimento não tá.
O coração dela bateu forte demais.
— Você sempre fala as coisas certas. — Ela riu, nervosa.
— E você sempre foge quando elas começam a fazer sentido.
O golpe foi certeiro.
— Eu não tô fugindo — ela rebateu.
— Então fica.
O pedido não foi alto.
Não foi dramático.
Foi honesto.
respirou fundo, como se estivesse se preparando para um salto sem saber se havia chão do outro lado.
Ela se aproximou.
— Se isso der errado… — ela murmurou.
— Vai dar — ele respondeu, com um meio sorriso. — Mas não do jeito que a gente imagina.
Ela levou a mão ao rosto dele — ao rosto dela no corpo dele — tocando com cuidado, como se tivesse medo de que aquilo desaparecesse.
— Promete que não vai transformar isso em mais uma coisa que eu preciso consertar depois?
— Prometo sentir. Só isso. — fechou os olhos por um instante.
O espaço entre eles desapareceu devagar.
O beijo começou hesitante, quase tímido, como se ambos estivessem pedindo permissão sem palavras. Os lábios se tocaram com cuidado, testando, reconhecendo algo novo em algo completamente errado.
E então o mundo falhou.
O quarto pareceu girar, o ar ficou pesado, uma pressão estranha tomou conta do corpo de . O toque queimou, intenso demais, e um clarão branco atravessou sua visão.
Ela se afastou num sobressalto.
— ? — A voz que saiu da sua boca era a dela.
O coração disparou.
Ela olhou para as próprias mãos. Pequenas. Suas.
Do outro lado, levou a mão ao rosto, tocando o próprio corpo como se não acreditasse.
— Eu… — a voz dele era dele. — A gente voltou.
Eles se encararam, imóveis.
O silêncio que se seguiu foi brutal.
— Claro que tinha que ser agora — murmurou.
— No pior momento possível. — riu, um som incrédulo.
— Ou no único momento que fazia sentido.
Eles riram juntos, nervosos, sem saber o que fazer com o próprio corpo de volta e o coração completamente fora do lugar.
O beijo ainda parecia presente.
Não no corpo errado.
Mas na memória.
— E agora? — perguntou.
deu um passo na direção dela, sem tocá-la.
— Agora a gente descobre se isso era só o caos… — ele disse, a voz firme. — Ou se era a gente o tempo todo.
Ela o encarou, o coração acelerado, e pela primeira vez não sentiu vontade de fugir.
— Então descobre comigo.
Do lado de fora, o vento cessou.
E, pela primeira vez desde o início daquela viagem, o mundo parecia finalmente em ordem — mesmo que eles ainda não soubessem o que fazer com o que tinham acabado de sentir.
A primeira: o ar-condicionado da van estava absurdamente gelado. Não importava quantas vezes ela reclamasse, nem o fato de já estar encolhida no banco, braços cruzados, tentando se aquecer com a própria jaqueta. O motorista assentia, prometia “dar uma ajustada”, e cinco minutos depois o vento gelado voltava a soprar direto na sua nuca, impiedoso.
A segunda: continuava sendo exatamente o mesmo problema de sempre — talvez até pior quando confinado num espaço pequeno, cercado por família, malas demais e um espírito natalino sufocante.
Ela o observou pelo canto do olho enquanto ele se inclinava novamente sobre o cadeirão improvisado entre os bancos. Pela terceira vez em menos de dez minutos, ajustava o cinto do bebê, puxando, conferindo o encaixe, pressionando com os dedos como se estivesse testando a resistência de um equipamento de segurança industrial. Cada movimento era calculado demais, preciso demais. Quase solene.
Como se qualquer erro mínimo pudesse provocar o fim do mundo.
— Ele tá bem, — comentou, sem sequer levantar a voz, mas com aquela calma afiada que sempre antecedia uma provocação. — Não vai desmontar no meio da estrada.
não respondeu de imediato. Inspirou fundo, devagar, os ombros subindo e descendo como se estivesse se obrigando a manter a sanidade. Só então virou o rosto na direção dela.
— Não é sobre desmontar — disse, num tom controlado demais para alguém que claramente se sentia atacado. — É sobre segurança.
arqueou a sobrancelha, inclinando levemente a cabeça.
— Ah, claro. — Um meio sorriso surgiu no canto da boca. — Porque você é o ministro oficial da segurança infantil agora.
Do banco da frente, o irmão dele soltou uma risada baixa, incapaz de se conter. A irmã de , por outro lado, fingiu um interesse repentino pela paisagem do lado de fora, como se nada tivesse ouvido. apertou os lábios, formando aquele sorriso tenso que conhecia bem demais.
O sorriso de quem estava a exatamente dois comentários de perder a paciência.
— Se você se importasse um pouco mais… — ele começou, ainda olhando para o cadeirão.
— Lá vem — ela murmurou, quase para si mesma.
— …entenderia que esse é o primeiro Natal dele. — finalmente a encarou. — Não é só uma viagem qualquer.
Aquilo fez se virar de vez no banco. Cruzou os braços, o corpo todo assumindo uma postura defensiva sem que ela percebesse.
— Você fala como se eu não soubesse disso. Como se eu fosse irresponsável só porque não fico checando cada detalhe cinco vezes.
— Eu não disse isso.
— Disse com esse tom.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado. desviou o olhar, vencido, e ajeitou a manta do bebê mais uma vez, num gesto automático. suspirou e virou o rosto para a janela, apoiando a testa no vidro frio.
O reflexo que viu ali era exatamente como se sentia: cansada.
Eles nunca brigavam de verdade. Nunca levantavam a voz, nunca faziam escândalo. Era pior do que isso. Era esse atrito constante, esse incômodo silencioso, como se a simples existência de um fosse, por vocação, capaz de irritar o outro.
Ela não suportava a forma como parecia sempre no controle, sempre certo, sempre preparado.
Ele não suportava a maneira como parecia não ligar para nada — mesmo quando ligava.
E ainda assim, ali estavam.
Uma viagem de Natal em família.
Uma casa cheia à espera.
Um bebê que não merecia nenhum clima estranho no primeiro Natal da vida.
Quando a van entrou na estrada de terra que levava à casa de praia, fechou os olhos por um instante. O céu começava a escurecer, pintado de laranja e rosa, e o balanço suave do veículo quase dava a ilusão de tranquilidade.
Quase.
Era o tipo de calma enganosa.
Aquela que sempre vinha antes do caos.
Mais tarde, já instalados, a casa parecia viva demais.
Havia vozes se cruzando pelos corredores, risadas vindo da sala, passos apressados indo e vindo entre a cozinha e a área externa. O cheiro de comida começava a se espalhar, misturado ao perfume de pinheiro artificial e açúcar queimado. Enfeites de Natal ocupavam praticamente todas as superfícies possíveis: guirlandas nas portas, luzes piscando em intensidade duvidosa, bonecos vermelhos e dourados disputando espaço com porta-retratos antigos.
Era… muito.
largou a mala no quarto que dividiria com a irmã mais nova sem nem se dar ao trabalho de abrir o zíper. Seguiu direto para a cozinha, guiada por um único objetivo: encontrar algo forte o suficiente para anestesiar o dia antes que ele realmente começasse.
— Não abre isso agora. — Já tinha os dedos em volta do gargalo da garrafa quando uma voz conhecida demais soou atrás dela.
— Me impede. — se virou devagar, erguendo a garrafa de vinho como se fosse um troféu.
— Ainda não é hora. Mamãe quer abrir tudo junto na ceia. — estava parado perto da porta, braços cruzados, expressão séria demais para alguém discutindo álcool às quatro da tarde.
— É vinho, não um presente.
— É tradição.
— Vocês e essa obsessão por tradição… — Ela soltou uma risada curta, sem humor algum.
— E você e essa obsessão por desafiar tudo — ele retrucou, deixando a camada de educação cair por um segundo.
Foi o suficiente.
O silêncio que se formou entre os dois ficou pesado rápido demais, como se a cozinha tivesse encolhido de repente.
— Você age como se estivesse sempre deslocada — disse, agora mais baixo. — Mas talvez seja porque você nunca tenta se encaixar.
Aquilo doeu mais do que esperava. Mais do que ela gostaria de admitir.
— E você age como se fosse melhor do que todo mundo — respondeu, engolindo em seco enquanto apertava a garrafa com força demais — só porque sabe fingir que é perfeito.
— Eu não finjo. — Ele franziu o cenho.
— Finge sim. Finge que não se incomoda. Finge que não julga. Finge que é tudo fácil.
Uma gargalhada distante, vinda da sala, quebrou a tensão por um segundo — mas não apagou nada do que havia sido dito. passou a mão pelos cabelos, claramente irritado, o maxilar travado.
— Quer saber? Esquece. Não vale a pena discutir com você.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Ele saiu da cozinha sem olhar para trás.
apoiou as mãos na bancada, respirando fundo, tentando desacelerar o próprio coração. Odiava o quanto aquelas palavras tinham entrado fundo. Odiava ainda mais saber que teria que conviver com ele por mais dois dias inteiros.
Naquela noite, já deitada, o som constante do mar se misturava ao burburinho distante da casa. encarava o teto escuro, revisitando mentalmente cada frase que não tinha dito — e algumas que não deveria ter dito.
Do outro lado da casa, também estava acordado, sentado na beira da cama, encarando o próprio reflexo no espelho do quarto, como se esperasse que ele dissesse algo que fizesse sentido.
Ambos pensaram a mesma coisa, quase ao mesmo tempo:
Esse Natal vai ser um desastre.
E nenhum deles fazia ideia de quão literal aquilo estava prestes a se tornar.
A manhã seguinte começou cedo demais para alguém que tinha dormido mal.
acordou com vozes na cozinha, o choro baixo do bebê e o cheiro insistente de café fresco invadindo o quarto. Ficou alguns segundos encarando o teto, reunindo forças para sair da cama, quando ouviu passos no corredor e uma voz conhecida demais.
— Eu cuido dele, pode ir tomar banho. — Ela reconheceria aquele tom em qualquer lugar. Calmo. Seguro. Controlado.
Revirou os olhos antes mesmo de se levantar.
Na cozinha, a cena parecia saída de um comercial de margarina. O bebê no colo de , quieto demais para aquele horário, a irmã mais velha de sorrindo satisfeita, e a mãe dele observando tudo com um olhar de aprovação quase exagerado.
— Ele leva jeito, né? — a mãe comentou. — É tão cuidadoso.
pegou uma caneca e se serviu de café sem responder.
— Algumas pessoas simplesmente nascem pra isso — disse, balançando o bebê devagar.
— Nossa, que humildade. — Ela virou o rosto lentamente na direção dele.
Ele a ignorou.
O que, de alguma forma, conseguiu irritá-la ainda mais.
Durante a manhã, eles foram colocados lado a lado em praticamente tudo. Arrumar a mesa. Organizar os presentes. Separar as comidas que iriam ao forno mais tarde. Como se o universo tivesse decidido testá-los deliberadamente.
— Esses enfeites vão cair — comentou, observando subir na escada pequena para ajeitar as luzes.
— Não vão.
— Vão sim.
— Eu prendi direito.
Cinco segundos depois, um dos fios escorregou, apagando metade das luzes.
O silêncio que se seguiu foi quase ofensivo.
— Quer que eu finja surpresa? — sorriu de canto.
— Quer ajudar ou só comentar? — desceu da escada, a expressão fechada.
— Tô ajudando. Comentando.
Mais tarde, já perto do almoço, o bebê começou a chorar sem parar. A casa inteira parecia girar em torno daquele som. se viu andando de um lado para o outro, tentando acalmá-lo, enquanto observava com o cenho franzido.
— Você tá balançando demais — ele disse.
— Ele gosta.
— Pode dar refluxo.
— Ele não é de porcelana, .
— Não é, mas.
— Mas você acha que só você sabe cuidar dele — ela cortou, a voz subindo mais do que pretendia.
Algumas cabeças se viraram na sala. sentiu o peso imediato do olhar da irmã.
— Não aqui — respirou fundo.
— Então para de me corrigir como se eu fosse incompetente. — O clima ficou estranho rápido demais.
Eles se afastaram, mas a tensão continuou ali, pesada, grudenta. foi para o quintal e se sentou na beira da piscina vazia, tentando esfriar a cabeça. O som do mar parecia distante, quase irreal.
Minutos depois, ouviu passos atrás de si.
— Eu não acho que você é incompetente — disse, parando a uma distância segura.
— Mas age como se achasse. — Ela não olhou.
— Eu só… gosto de ter controle.
— Isso fica claro.
— Nem todo mundo teve escolha sobre isso. — Ele suspirou, passando a mão pela nuca.
— O que isso quer dizer? — Aquilo a fez virar o rosto.
— Nada. — Ele se arrependeu imediatamente. — Esquece.
O silêncio que se instalou entre eles foi diferente dos outros.
Menos agressivo.
Mais desconfortável.
À noite, depois do jantar, a família se reuniu na sala para planejar a ceia do dia seguinte. Papéis espalhados pela mesa de centro, listas rabiscadas às pressas, horários sendo repetidos em voz alta. Cada pessoa ficava responsável por alguma coisa: forno, sobremesas, bebidas, decoração de última hora.
E, como se fosse inevitável, e acabaram empurrados para a mesma tarefa.
Organizar os presentes.
E ajudar com o bebê durante a noite.
— A gente se reveza — a irmã de sugeriu, com naturalidade demais. — Assim ninguém fica sobrecarregado.
abriu a boca para protestar. Já tinha até o argumento pronto, ensaiado na cabeça. Mas falou antes.
— Tudo bem.
Ela virou o rosto devagar.
— Tudo bem? — repetiu, incrédula.
— É só uma noite — ele deu de ombros, como se não fosse nada demais.
Só uma noite.
Aquelas palavras ficaram ecoando mais do que deveriam.
Mais tarde, já na véspera de Natal, a casa parecia grande demais. Silenciosa demais. As luzes piscavam na sala em um ritmo quase hipnótico, e a árvore projetava sombras suaves nas paredes, como se tudo estivesse em suspensão.
caminhava pelo corredor quando encontrou vindo na direção oposta. Nenhum dos dois disse nada de imediato. Ambos cansados. Ambos carregando coisas demais na cabeça.
— A gente precisa alinhar algumas coisas — ele disse, por fim.
— Sobre o bebê?
— Sobre nós dois. — hesitou por um segundo. — Não dá pra continuar assim amanhã.
— Então fala. — Ela cruzou os braços, defensiva por reflexo.
— Você acha que eu te julgo. — Ele respirou fundo. — E talvez eu julgue mesmo. Mas você também me reduz a um estereótipo o tempo todo. Como se eu fosse só isso.
a encarava com uma seriedade que não estava acostumada a ver. Não era irritação. Não era controle. Era algo mais cru.
O coração dela bateu mais forte.
— E você acha que é fácil ser sempre a “difícil”? — ela rebateu, a voz mais baixa. — A que nunca agrada? Pelo menos gostam de você.
O silêncio que se seguiu caiu pesado, quase palpável.
— Eu não quero estragar o Natal dele — disse, mais baixo ainda.
— Nem eu. — engoliu em seco.
Eles se olharam por segundos longos demais para serem confortáveis.
— Então tenta — ele concluiu.
— Você também.
Cada um seguiu para um lado do corredor, levando consigo um incômodo novo. Mais profundo. Menos barulhento. E, por isso mesmo, mais difícil de ignorar.
Naquela madrugada, enquanto a casa dormia, acordou com sede. Caminhou até a cozinha quase no escuro, guiada pela luz fraca do corredor, e encontrou sentado à mesa. Havia uma xícara à sua frente, intocada.
— Insônia? — ela perguntou, quebrando o silêncio.
— Parece que sim.
Nenhum dos dois disse mais nada. Ficaram ali, dividindo o mesmo espaço pela primeira vez sem brigar, sem se provocar, sem tentar vencer.
Do lado de fora, o vento balançou as luzes de Natal, fazendo-as piscar de um jeito irregular.
Algo estava prestes a sair do controle.
E o caos já tinha escolhido a hora certa para chegar.
ainda estava na cozinha quando ouviu o barulho.
Um estalo seco, seguido por um apagão repentino que mergulhou a casa inteira na escuridão. As luzes de Natal se apagaram ao mesmo tempo, e o silêncio que veio depois foi tão estranho quanto o som anterior.
— Ótimo — ela murmurou.
— Deve ter sido o disjuntor — disse, levantando da cadeira. — A fiação dessa casa é antiga.
Eles caminharam juntos pelo corredor estreito até o quartinho onde ficava o quadro de energia. abriu a porta com cuidado, usando a lanterna do celular para iluminar o interior.
— Não encosta aí — ele avisou. — Tá tudo molhado.
— Molhado? — apontou para o chão. Um filete de água escorria lentamente de algum lugar do teto, provavelmente do banheiro do andar de cima. — Quem foi o gênio que resolveu tomar banho a essa hora? — ela resmungou.
— Se eu desligar e ligar de novo, talvez volte. — se abaixou, tentando alcançar o disjuntor principal.
— Talvez você tome um choque.
— Eu sei o que tô fazendo.
— Claro que sabe. — Ela revirou os olhos.
No instante em que puxou a alavanca, um trovão soou alto demais, fazendo a casa inteira estremecer. Ao mesmo tempo, escorregou no piso molhado e se chocou contra ele.
O clarão veio rápido, quase branco, seguido por um choque que percorreu o corpo dela inteiro. O mundo pareceu girar, o som sumiu, e tudo ficou… vazio.
Depois, silêncio.
Quando abriu os olhos, a primeira coisa que percebeu foi o frio.
Um frio estranho, diferente. Mais intenso.
Piscou algumas vezes, tentando focar a visão, e o mundo parecia ligeiramente fora de lugar. O chão estava mais próximo do que deveria, e seu corpo parecia… pesado.
— Que inferno… — murmurou.
A própria voz a fez congelar.
Era grave demais.
Ela levou a mão à garganta devagar, sentindo o pomo de adão sob os dedos. O coração começou a disparar.
— Não. Não, não, não…
— ? — Ela ergueu as mãos à frente do rosto. Mãos grandes. Diferentes. Masculinas.
— ? — A resposta veio de trás dela. Aguda. Assustada.
Ela se virou de supetão e encontrou… a si mesma.
Ou melhor, o próprio corpo — com os olhos arregalados demais, o cabelo desgrenhado e uma expressão de pânico que ela conhecia bem.
— Isso não tá acontecendo — disse, com a voz dela. — Isso não tá acontecendo!
— no corpo dele — sentiu as pernas fraquejarem.
— Cala a boca — ela sussurrou. — Fala baixo. A casa inteira tá dormindo.
— Você tá… — olhou para as próprias mãos, tocou o rosto, o cabelo. — Eu tô em você.
— E eu tô em você — ela respondeu, passando as mãos pelo próprio corpo, confirmando o óbvio. — Meu Deus.
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um choro distante. O bebê.
Os dois se entreolharam, o pânico ganhando uma camada nova.
— Se alguém nos ver assim… — começou.
— A gente tá ferrado — completou.
O choro ficou mais alto.
— Ele acordou — disse, já caminhando na direção do quarto do bebê… no corpo dela.
— Espera! — segurou o braço dele. — Você não sabe nem segurar direito com o meu corpo.
— Eu sei segurar bebê!
— Com o seu corpo! — ela rebateu.
O choro se intensificou.
— Não temos tempo — disse, respirando fundo. — Depois a gente surta. Agora a gente age normal.
— Normal? Você tá usando meu corpo e eu tô usando o seu. Nada disso é normal. — riu, um som nervoso demais para a situação.
Mas eles foram.
No quarto do bebê, pegou a criança com cuidado excessivo, quase desajeitado. observava, sentindo uma mistura absurda de medo e incredulidade.
— Você tá balançando demais — ela comentou automaticamente.
— Não começa. — lançou um olhar mortal.
Ela mordeu o lábio para não rir.
O bebê se acalmou aos poucos, e o silêncio voltou a dominar a casa. Só então o peso da situação caiu de verdade sobre eles.
— Amanhã é Natal — murmurou.
— Daqui a algumas horas — corrigiu, a voz dela soando cansada.
Eles se encararam no espelho do corredor. O reflexo errado, os olhos certos.
— Ninguém pode saber — disse.
— Ninguém — ela concordou.
— A gente finge.
— Você não vai aguentar um dia inteiro sendo eu. — inclinou a cabeça, encarando o próprio rosto no corpo dele.
— E você não vai sobreviver sendo eu — ele retrucou.
Um desafio silencioso passou entre eles.
E, pela primeira vez, algo parecido com cumplicidade nasceu no meio do caos.
Do lado de fora, o relógio marcou meia-noite.
Era oficialmente Natal.
E tudo tinha acabado de sair completamente do controle.
Eles se trancaram no quarto mais afastado da casa como dois cúmplices de um crime mal planejado.
— no corpo dele — foi a primeira a se sentar na cama, passando as mãos pelo rosto dele como se aquilo pudesse, de alguma forma, fazer sentido.
— Certo — ela começou. — A gente precisa de regras.
— no corpo dela — cruzou os braços, claramente desconfortável com o próprio corpo.
— Eu já tenho regras.
— Não, você tem manias. Isso é diferente.
— Fala logo. — Ele lançou um olhar fulminante.
— Primeira regra: ninguém exagera. Você não pode ficar educado demais comigo, senão vão estranhar. — respirou fundo.
— Educado demais?
— Você fala “por favor” até pra pedir sal.
— E você xinga até quando agradece.
— Exato. Então vamos encontrar um meio-termo.
suspirou.
— Segunda regra — ele continuou. — Você não fala palavrão.
— Isso vai ser impossível.
— Você tenta.
— Tá. Terceira regra: nada de me criticar na frente da minha família.— Ela fez uma careta.
— Sua família já faz isso sozinha — ele rebateu, antes de se arrepender. — Quer dizer… desculpa.
— Viu? Já tá começando. — Ela o encarou por alguns segundos.
O silêncio ficou estranho por um instante.
— Quarta regra — continuou, pigarreando. — A gente se observa. Se alguém fizer uma pergunta estranha, o outro cobre.
assentiu.
— E a regra mais importante: ninguém toca no próprio corpo de um jeito suspeito.
— Suspeito como? — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Como se estivesse… curioso demais.
— Ah. — Ela deu um meio sorriso. — Tarde demais pra você.
— … — Ele fechou os olhos.
— Relaxa. É brincadeira. Eu sei onde não mexer.
— Certo. Amanhã cedo, a família toda vai estar reunida. Café da manhã, presentes, fotos. — Ele respirou fundo, tentando manter a sanidade.
— E o bebê — ela lembrou. — Muito bebê.— Eu cuido dele.
— Não. — Ele se levantou. — Você cuida com o meu corpo. Eu fico por perto.
— Você não confia em mim?
— Nem um pouco.
Eles se encararam por um segundo longo demais.
— Vamos sobreviver a isso — disse, mais para si mesmo do que para ela.
— A gente não tem escolha.
A manhã de Natal chegou cedo demais.
acordou com alguém batendo na porta.
— ? Já tá acordado? — A voz da mãe dele do outro lado fez o estômago dela revirar.
— Tô! — ela respondeu, tentando engrossar ainda mais a voz. — Já vou sair!
arregalou os olhos do outro lado do quarto.
— Você não deveria falar assim — ele sussurrou.
— É a sua voz — ela retrucou, baixo.
Eles se olharam no espelho mais uma vez antes de sair. O reflexo ainda parecia errado, mas não havia tempo para crises existenciais.
Na cozinha, o clima era exatamente o que temia: risadas, cheiro de rabanada, música natalina baixa ao fundo.
— Bom dia! — a mãe dele disse, sorridente. — , ajuda seu pai com a mesa?
travou por meio segundo.
— Claro — ela respondeu rápido demais.
levou a mão à testa discretamente.
— , vem cá comigo — a irmã dela chamou.
Ele engoliu em seco e foi.
A atuação começou ali.
tentou imitar os gestos de : postura reta, movimentos contidos, sorriso educado. Mas quase deixou escapar um comentário atravessado quando o pai dele reclamou da disposição dos pratos.
— Talvez se a mesa não fosse tão… — ela começou. tossiu alto. — Perfeita — ela corrigiu. — Tá ótima.
O pai sorriu, satisfeito.
, do outro lado da cozinha, tentava sobreviver no corpo dela. Sorria menos do que deveria, falava baixo demais, e recebeu um olhar desconfiado da própria irmã de .
— Tá tudo bem? — ela perguntou. — Você tá estranha.
— Dormi mal — ele respondeu rápido.
— Milagre. — Ele forçou um sorriso.
O bebê começou a resmungar, e foi até ele automaticamente. observou com atenção, pronta para intervir, mas algo a fez hesitar.
Ele era cuidadoso. Gentil. Atento.
No corpo dela, embalava o bebê como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
E, pela primeira vez, sentiu um aperto estranho no peito.
Talvez ele não fosse só controle.
Talvez ele fosse cuidado.
Mais tarde, durante as fotos de Natal, alguém comentou:
— Vocês dois estão… diferentes hoje.
e se olharam ao mesmo tempo.
— Diferentes como? — perguntaram em uníssono.
O silêncio que se seguiu foi quase mortal.
— Mais… tranquilos — a mãe dela concluiu, sorrindo. — Combina com o Natal.
Eles respiraram aliviados.
Quando se afastaram para o quintal, longe dos olhares curiosos, soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
— A gente quase morreu agora.
— Você respondeu junto comigo — retrucou.
— Foi instinto.
— Controla seus instintos.
— Olha só… você tá indo bem sendo eu. — Ela riu baixo.
— Você também. Sendo eu. — Ele a encarou, sério.
O olhar durou mais do que deveria.
E, no meio daquela atuação forçada, algo começou a mudar.
Não era só sobrevivência.
Era curiosidade.
E talvez… o início de alguma coisa que nenhum dos dois estava preparado para sentir.
Se sobreviver à manhã de Natal já tinha sido um milagre, o resto do dia parecia determinado a cobrar a conta.
percebeu isso no momento em que se sentou no sofá da sala, no corpo de , e a avó dele se acomodou ao seu lado com um sorriso conspiratório demais.
— Você anda tão calado, meu filho — a mulher comentou. — Tá tudo bem?
travou por meio segundo.
— Tá sim, vó — respondeu, educada demais para si mesma.
— E essa postura toda séria… — a avó riu. — Parece até outra pessoa.
Do outro lado da sala, — no corpo dela — engasgou com o próprio suco.
— Água no tapete! — falou rápido demais, se levantando num pulo.
Todos olharam para ela.
— Quer dizer… — ela pigarreou. — Eu limpo.
fechou os olhos por um segundo, pedindo paciência a tudo que fosse sagrado.
Mais tarde, no quintal, foi cercado por tias e primas curiosas demais para um feriado que deveria ser tranquilo.
— E os namorados, ? — uma delas perguntou. — Nunca aparece com ninguém.
O estômago de se revirou.
— Eu… — ele começou, sentindo o peso de uma pergunta que nunca tinha sido feita a ele daquele jeito. — Não é prioridade.
— Mas uma mulher bonita assim… — outra comentou. — Deve ser exigente demais.
Aquilo bateu mais forte do que ele esperava.
— Talvez eu só não aceite menos do que mereço.— Ele forçou um sorriso, educado demais.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável.
Mais tarde, quando encontrou encostado no muro do quintal, o olhar dele estava diferente.
— Você tá bem? — ela perguntou.
— Agora eu entendo — ele respondeu, baixo.
— Entende o quê?
— O quanto te pressionam. O quanto acham que têm direito de opinar sobre você.
Ela não soube o que dizer.
Nunca tinha pensado que alguém… fosse perceber.
As gafes continuaram.
quase xingou quando derrubou molho na toalha.
quase pediu desculpa por existir três vezes seguidas.
Os dois falaram ao mesmo tempo mais vezes do que o aceitável.
Mas ninguém descobriu.
O problema foi outro.
No meio da tarde, enquanto a casa dormia depois do almoço pesado, ficou sozinho com o bebê no quarto. observava da porta, braços cruzados, pronta para interferir a qualquer segundo.
— Calma… já vai ficar confortável. — Ele trocava a fralda com cuidado, concentrado, falando baixinho.
O bebê segurou o dedo dele com força.
sentiu algo estranho no peito.
— Você leva jeito — ela disse, sem ironia.
ergueu o olhar.
— Eu sempre tive medo de errar.
— Dá pra ver.
— Mas com ele… — ele sorriu pequeno. — Eu só quero acertar.
Ela se apoiou no batente da porta.
— Você não precisa ser perfeito o tempo todo.
— Você diz isso agora. — Ele soltou uma risada curta.
— Eu digo isso porque tô vivendo sua vida por um dia.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi íntimo.
A casa estava diferente naquela noite.
Não mais barulhenta, nem cheia de risadas soltas. O cansaço coletivo tinha se instalado, e os sons agora eram baixos, espaçados, como se todos estivessem tentando preservar o clima frágil do Natal.
percebeu isso quando se sentou na sala, no corpo de , observando as luzes da árvore piscarem devagar. A sensação era estranha demais: estar confortável em um corpo que não era o seu, pensar com clareza demais sobre alguém que ela sempre tentou evitar.
Ela ouviu passos e não precisou olhar para saber quem era.
— Ele dormiu — disse, baixinho, se referindo ao bebê.
— Você fica diferente quando tá com ele.
— Diferente como?
— Menos tenso.
— Talvez porque, pela primeira vez, eu não precise provar nada. — Ele sorriu de canto.
Aquilo ficou ecoando nela.
Eles ficaram lado a lado, sem se tocar. O espaço entre os dois parecia carregado de coisas não ditas.
— Você já pensou… — começou, mas parou.
— No quê?
— Que talvez isso não seja um castigo?
— E sim? — virou o rosto devagar.
— Um empurrão.
— Eu nunca teria te ouvido desse jeito se não estivesse vivendo sua vida. — Ele pensou por alguns segundos antes de responder.
— Eu nunca teria olhado pra você sem achar que você tava me julgando. — Ela riu baixo.
O silêncio se estendeu, confortável e perigoso ao mesmo tempo.
Mais tarde, quando foram para o quarto, se sentou na ponta da cama, claramente inquieta.
— E se isso não acabar amanhã? — ela perguntou, sem olhar para ele.
— A gente dá um jeito. — sentiu o peso da pergunta no estômago.
— Porque eu sempre acredito.
— Mesmo quando não tem controle? — Ela ergueu os olhos.
— Principalmente quando não tem. — Ele hesitou.
A vulnerabilidade na voz dele a atingiu de um jeito inesperado.
Ela se levantou, andando pelo quarto.
— Eu odeio não saber o que vai acontecer — ela confessou. — Eu odeio mais ainda… não odiar você.
— Eu passei a vida inteira tentando ser fácil de amar. — sorriu de leve.
— E eu passei a minha fingindo que não me importava. — Ela parou diante dele.
Os dois estavam perto demais outra vez.
O tipo de perto que não exige toque para ser intenso.
— Se a gente cruzar essa linha… — começou.
— Não vai ter volta — ela completou.
Eles ficaram ali, imóveis, respirando o mesmo ar.
Então alguém bateu na porta.
— Vocês dois? — a voz da irmã dela soou do lado de fora. — Tá tudo bem?
Eles se afastaram rápido demais.
— Tudo! — respondeu, um segundo tarde demais.
O silêncio do corredor se afastou, mas o coração deles não desacelerou.
Na madrugada, acordou com a sensação estranha de não estar sozinha.
estava sentado na cama, encarando as próprias mãos — as mãos dela.
— Eu não quero voltar a ser quem eu era — ele disse, de repente.
— Como assim? — Ela se sentou, confusa.
— Eu gosto de como você enfrenta as coisas. Eu gosto… de como você existe sem pedir desculpa.
Ela engoliu em seco.
— E eu gosto de como você cuida — respondeu. — Mesmo quando ninguém vê.
O olhar que trocaram ali foi diferente de tudo até então.
Mais honesto.
Mais vulnerável.
estendeu a mão, parando a poucos centímetros dela.
— Só me diz uma coisa — ele pediu. — Se isso acabar amanhã… você vai fingir que nada aconteceu?
pensou por um momento.
— Não — ela respondeu. — Mas eu também não sei o que vem depois.
— Acho que isso é o mais assustador. — Ele assentiu.
Eles deitaram novamente, sem se tocar, mas conscientes demais da presença um do outro.
Do lado de fora, o vento balançou as luzes de Natal.
O quarto estava em silêncio outra vez.
Não aquele silêncio confortável do cansaço, mas o tipo que vibra, que pesa, que deixa o ar denso demais para respirar direito. permanecia deitada, de costas para , sentindo o corpo — o corpo dele — estranho e familiar ao mesmo tempo.
Ela se virou devagar.
ainda estava acordado, olhando para o teto, os olhos refletindo a luz fraca do abajur.
— Você tá pensando em quê? — ela perguntou.
Ele demorou a responder.
— Em como tudo isso vai acabar — disse, por fim. — E em como eu não quero que acabe assim.
— A gente não escolheu isso. — se sentou na cama.
— Mas tá escolhendo agora — ele respondeu, virando o rosto na direção dela.
— … — Ela engoliu em seco.
— Se a gente continuar fingindo que não sente, vai ser pior quando isso acabar — ele disse, a voz baixa, sem acusação. — Eu prefiro errar do que voltar fingindo que nada aconteceu.
Ela desceu da cama, os pés descalços tocando o chão frio. Parou diante dele.
— Você tem noção do que tá dizendo?
— Tenho.
— A gente tá no corpo errado.
— Mas o sentimento não tá.
O coração dela bateu forte demais.
— Você sempre fala as coisas certas. — Ela riu, nervosa.
— E você sempre foge quando elas começam a fazer sentido.
O golpe foi certeiro.
— Eu não tô fugindo — ela rebateu.
— Então fica.
O pedido não foi alto.
Não foi dramático.
Foi honesto.
respirou fundo, como se estivesse se preparando para um salto sem saber se havia chão do outro lado.
Ela se aproximou.
— Se isso der errado… — ela murmurou.
— Vai dar — ele respondeu, com um meio sorriso. — Mas não do jeito que a gente imagina.
Ela levou a mão ao rosto dele — ao rosto dela no corpo dele — tocando com cuidado, como se tivesse medo de que aquilo desaparecesse.
— Promete que não vai transformar isso em mais uma coisa que eu preciso consertar depois?
— Prometo sentir. Só isso. — fechou os olhos por um instante.
O espaço entre eles desapareceu devagar.
O beijo começou hesitante, quase tímido, como se ambos estivessem pedindo permissão sem palavras. Os lábios se tocaram com cuidado, testando, reconhecendo algo novo em algo completamente errado.
E então o mundo falhou.
O quarto pareceu girar, o ar ficou pesado, uma pressão estranha tomou conta do corpo de . O toque queimou, intenso demais, e um clarão branco atravessou sua visão.
Ela se afastou num sobressalto.
— ? — A voz que saiu da sua boca era a dela.
O coração disparou.
Ela olhou para as próprias mãos. Pequenas. Suas.
Do outro lado, levou a mão ao rosto, tocando o próprio corpo como se não acreditasse.
— Eu… — a voz dele era dele. — A gente voltou.
Eles se encararam, imóveis.
O silêncio que se seguiu foi brutal.
— Claro que tinha que ser agora — murmurou.
— No pior momento possível. — riu, um som incrédulo.
— Ou no único momento que fazia sentido.
Eles riram juntos, nervosos, sem saber o que fazer com o próprio corpo de volta e o coração completamente fora do lugar.
O beijo ainda parecia presente.
Não no corpo errado.
Mas na memória.
— E agora? — perguntou.
deu um passo na direção dela, sem tocá-la.
— Agora a gente descobre se isso era só o caos… — ele disse, a voz firme. — Ou se era a gente o tempo todo.
Ela o encarou, o coração acelerado, e pela primeira vez não sentiu vontade de fugir.
— Então descobre comigo.
Do lado de fora, o vento cessou.
E, pela primeira vez desde o início daquela viagem, o mundo parecia finalmente em ordem — mesmo que eles ainda não soubessem o que fazer com o que tinham acabado de sentir.
FIM
Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? EU QUERIA MUITO ACORDAR NO CORPO DO JIMIN, EU IA COMETER LOUCURAS kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.
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