nothing revealed, everything denied: Matty's POV

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Última atualização: 29/04/2021

#1 Conhecendo

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 2º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


Ao mesmo tempo em que apaguei o cigarro no cinzeiro, ouvi a campainha soar no quarto. De pé, encaminhei-me para a porta a fim de atendê-la. Do outro lado, a figura de uma mulher sobressaltou, como se tivesse queimado a boca com o café que bebia devido ao susto.
― Parece que alguém é bem pontual. ― sorri, tentando parecer simpático com ela. ― Você deve ser , a jornalista. ― assentiu, olhando-me séria.
Na verdade, esta tinha sido a primeira surpresa boa em dias. Jurava que Sullivan, aquela velha raposa ardilosa, mandaria mais um de seus repórteres bem treinados para realizar entrevistas pretensiosas. No entanto, havia me enganado. Ao que parecia, desta vez, Josh resolveu mandar… carne fresca.
Olhando em seus olhos, poderia jurar que a mulher parecia levemente assustada ou, até mesmo, intimidada. Queria rir, porém achei que não fosse uma boa ideia, visto que não estávamos nem há cinco minutos na presença um do outro.
― Sou Matthew Healy e você já deve saber disso. Entre. ― dei espaço para que ela passasse, entretanto, continuou parada à minha frente. Pelo seu olhar, dava para saber que apenas seu corpo estava ali, sua mente não.
tinha mais ou menos minha altura, cabelos crespos escuros que lhe caíam sobre os ombros e, apesar do olhar arredio, tinha algo nela que inspirava confiança. A pele escura parecia muito macia e, mesmo que talvez esse não fosse um detalhe que eu deveria notar em nosso primeiro encontro, tinha coxas fantásticas.
― Você vai continuar parada aí? ― dei um sorriso irônico, tentando trazê-la de volta à órbita.
― Ah, com licença. ― à medida que caminhava para dentro do quarto, via que seus passos eram hesitantes. O olhar correu por todo o ambiente, o que me dizia muito sobre o tipo de profissional que era: boa, mas inexperiente.
A maioria dos jornalistas com anos de carreira sabia disfarçar melhor. Não olhavam ao redor quando recém chegavam, somente capturavam os pequenos detalhes em rápidos desvios de olhos enquanto me entrevistavam, fazendo singelas anotações em suas cadernetas de bolso. Observando-a, não contive um sorriso. Era como ver uma criança começando a se entender como indivíduo no mundo pela primeira vez.
― Eu trouxe pra você. ― virou-se em minha direção, estendendo um dos copos de café para mim, bebendo um gole do seu.
― Muita gentileza sua. ― sorri, pegando e tomando um gole pequeno. ― E não é que você acertou? ― na maioria das vezes, essa seria uma mentira que eu diria para que uma garota como não ficasse chateada comigo. Todavia, desta vez, era verdade.
― Que bom. ― deu um meio sorriso. Por um segundo, tive a impressão que minhas palavras haviam tirado um peso de seus ombros.
― Você trabalha pro Josh Sullivan? ― tentei puxar assunto. Concordou com um aceno de cabeça. ― Responsabilidade, hein?
― Pois é.
― Quanto tempo faz que você nos conhece?
― Bem, eu… não colocaria… ― seus ombros se retesaram de novo.
― Espera, você não nos conhece? ― surpreso, acabei debochando sem querer. ― Então, você também não me conhece… ― conclui, sorrindo. ― Interessante.
Algo em mim ou em minha presença a estava fazendo ficar muito receosa e eu não conseguia parar de sorrir. não parecia fazer o tipo mulher tímida, muito menos introvertida, mas algo a fazia ficar desconfortável de um jeito fofo. Talvez fosse por não me conhecer. De qualquer forma, ela ficava uma gracinha tentando fingir naturalidade.
― Você se hospedou no hotel? ― questionei.
Algo dentro de mim fazia com que eu quisesse cutucá-la, instigá-la.
― Eu moro a cerca de uma hora daqui.
― Hmmmm. ― bebendo um gole do meu café, digitei com a mão livre uma mensagem para Jamie, perguntando-o sobre a possibilidade de hospedá-la no hotel. ― Só um minuto. ― meu telefone começou a vibrar e a avisei antes de atender a ligação do empresário. ― A jornalista do Sullivan chegou. Queria te pedir um favor, você já tá a caminho?
― Se for sobre hospedá-la no hotel, chego no seu quarto em alguns minutos. ― o homem respondeu rapidamente.
― Ok, eu espero. ― desliguei e voltei minha atenção à ela, iniciando um assunto qualquer até que Jamie chegasse para resolvermos sobre sua estadia: ― O que você costuma fazer no seu tempo livre?
― Ultimamente, não tenho muito tempo livre. ― indiferente, seus ombros se relaxaram de novo.
― Não é possível que não tenha tempo pra sair com uma amiga, ficar com seu namorado ou visitar seus pais. ― a verdade é que só havia um desses itens que me interessava.
Não sabia se era ou não uma boa jornalista, contudo, era inegável que era muito bonita. Se concordasse em sair comigo, não me importaria em contar várias coisas ruins sobre mim para que ela pudesse acabar com a minha carreira em uma única reportagem.
― Impressão minha ou você está tentando descobrir algo sobre mim? ― arqueou uma das sobrancelhas. Segurei uma risada de contentamento.
Provavelmente não era sua intenção, mas seu tom de voz soou extremamente sugestivo. Se não estivesse ali a trabalho, diria até que estava flertando comigo.
― A confiança é a base de uma relação fonte-jornalista, não? ― um sorriso surgiu no canto dos meus lábios. ― Espero que goste de festas, temos quatro marcadas só pra essa semana. ― bebi mais um pouco de café. ― Eu já te agradeci por isso? ― apontei para o copo enquanto sentia o café descendo pelo meu esôfago, espalhando um pouco de vivacidade no meu corpo. ― Eu realmente precisava.
― Dormiu pouco?
― Não dormi. Eu não durmo.
― Tipo, nunca? ― a maneira como ligeiramente arregalou os olhos foi engraçada e quase me fez rir.
― Às vezes. Zolpidem tá aí pra isso, né? ― propus um brinde distante antes de beber meu último gole de café, em seguida, joguei o copo na lixeira próxima à porta. Procurei meus cigarros nos bolsos da calça, estendendo o maço em sua direção para lhe oferecer um, quando os achei. Ao vê-la recusar, franzi as sobrancelhas. ― Uma jornalista que não fuma?
― Muito estranho?
― Incomum. ― acendi o cigarro, sentando-me na cama. ― Você devia se sentar, vai ter uma semana inteira pra ficar de pé, andando por aí atrás de mim. ― sugeri.
Ouvi alguém bater na porta.
Antes que a mulher fizesse menção de ir atendê-la, soltei um “entra” mais alto. Jamie adentrou no cômodo com aquele sorriso ensaiado que costumava guardar para jornalistas, patrocinadores e outros empresários com os quais era obrigado a se encontrar periodicamente.
― Matty, meu garoto. ― apontou para mim, sorrindo. ― E você deve ser , né? ― ambos trocaram apertos de mão em cumprimento.
― Muito prazer. ― a mulher respondeu. Um sorriso pouco confortável estampava seus lábios.
― O prazer é todo meu. Você está hospedada aqui?
― Ah, não. Minha casa é relativamente perto.
― Bom, considerando que você vai passar uma semana inteira atrás deste homem ― considerei dar um tchauzinho quando Oborne apontou para mim, entretanto, me controlei e apenas segui fumando meu cigarro quieto. ―, talvez ter que fazer duas horas de viagem de trem todos os dias não seja a sua melhor opção. Não se preocupe, vou até a recepção cuidar disso.
― O quarto aqui na frente tá vago. ― deixei no ar. Imediatamente, Jamie compreendeu que aquela era uma sugestão.
― Ótimo. Temos uma sessão de fotos marcada para às 13h, então, hoje vocês vão almoçar às 11h. Depois uma pequena entrevista pra uma rádio local e aí vocês vão estar livres para se arrumarem pra festa hoje. ― Jamie voltou a olhar para e eu nunca vi ninguém tão incomodado com a palavra “festa” quanto ela. ― Pra você não ter que voltar para a sua casa para se arrumar, preciso que me dê seu endereço. Mando um dos garotos ir buscar suas coisas antes que você se hospede no quarto. Aliás, espero que goste de festas. Temos algumas essa semana.
Alguns segundos do mais puro e embaraçoso silêncio se passaram até que a mulher finalmente respondeu:
― Vai ser divertido. ― deu um sorriso sem humor.
― Vejo vocês dois lá daqui a pouco. E, Matthew, por favor, se controle, ok? O dia tá um pouco cheio demais pra você sabe o que. ― lançou-me um daqueles olhares repreensivos, como se eu realmente sentisse medo ou ainda tivesse idade para me acanhar com um simples olhar paternal.
― Não tenho a menor ideia do que você está falando, Jamie. ― debochei descaradamente, sabendo que qualquer pessoa que entrasse no meu quarto conseguiria sentir o forte cheiro de maconha impregnado por toda parte.
Sem me dar sua costumeira última olhadela, Jamie nos deixou a sós. Sabia que em algum momento nós iríamos ter a conversa sobre como eu estava voltando a abusar de novo e talvez eu devesse “pegar mais leve nas drogas”.
Assistindo-a se sentar em uma das poltronas mais afastadas da minha cama, iniciei:
― E então, senhora jornalista, quer conversar sobre algo? ― sua postura inteira estava enrijecida e quase podia visualizar a grande redoma que ainda nos separava.
― Por que se hospedar em um hotel se vocês moram aqui perto?
― Não moramos no centro da cidade e a maioria dos nossos compromissos são aqui. Ross e George têm um problema sério com chegar no horário marcado, por isso, Jamie prefere que fiquemos sempre juntos e próximos dos nossos compromissos. Além do mais, depois dessa semana, vou passar cinco dias com a minha mãe e meu irmão, em Manchester, e saio em turnê pelos próximos seis meses.
― Como é a relação com a sua mãe?
― Não acha que tá um pouco cedo pra perguntas tão pessoais? ― dando uma tragada profunda, desviei os olhos dela.
Talvez não fosse uma profissional tão boa quanto era bonita.
― Temos que começar de algum lugar, né? Sem contar que você escreveu uma música falando sobre sua mãe, achei que não fosse um problema. ― a lógica dela não estava errada, mas esse também não era um assunto no qual gostaria de tocar tão cedo em uma segunda-feira.
― Lembra da construção de confiança com a fonte? ― tentei despistá-la.
― Você vai mesmo continuar tentando me ensinar a fazer meu trabalho? ― indagou. Seu tom era educado, porém a cara de tédio entregava que, naquele momento, eu havia perdido toda e qualquer mínima possibilidade de ser sua fonte preferida.
Assumindo uma pose emocionalmente defensiva, cruzou os braços em frente ao peito, todavia, não cruzou as pernas como imaginei que faria logo após o primeiro gesto. Muito pelo contrário. Seguiu com as pernas relativamente abertas. Aquilo era, no mínimo, muito interessante.
Entretanto, aquela constatação não foi suficiente para me fazer ignorar seu questionamento ou o tom brevemente irritadiço que estava atribuindo a sua voz pouco a pouco.
― Considerando que nunca vi sua cara antes, tenho certeza de que você começou a trabalhar com Sullivan há um ou dois meses, no máximo. Mesmo não tendo me dito sua idade, você tem muito cara de quem acabou de sair da faculdade, ou seja, se está aqui, é porque deve ter transformado os dias do Josh em um inferno pra provar o seu valor. ― apaguei o cigarro no cinzeiro, deixando a bituca lá e redirecionando minha atenção de volta para seu rosto, que exibia uma feição desconcertada. ― Então, é, estou tentando te ensinar como se faz seu trabalho porque aparentemente você não sabe muito bem o que está fazendo. ― bufou baixinho.
Ela estava irritada e eu queria poder dar um sorrisinho vitorioso. Não o fiz, contudo, não deixei de notar que , agora, parecia ainda mais atraente com aquele olhar agressivo que, inconscientemente, lançava para mim.
― Mais uma coisa: se você começar a perder a paciência agora, não quero nem ver como você vai estar ao final desta semana. ― ironizei. ― Não é nada pessoal, , só não quero cometer os mesmos erros do passado. ― completei.
Esperei que a mulher fizesse assim como seus colegas de profissão e anotasse minha frase de efeito, porém não o fez. Continuou me encarando tão séria e enfurecida quanto antes.
Por mais que não devesse imaginar isso de quem quer que fosse, na minha mente, só conseguia me perguntar se fazia o tipo que fode com raiva.


#2 Aprendendo a pintar as unhas

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 5º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


Meio aéreo devido ao efeito do Xanax que tomara mais cedo, já não conseguia mais prestar atenção no que os velhos à minha frente diziam. Bebericando uma garrafa de cerveja e dando meios sorrisos, fingindo estar participando daquilo, tinha vontade de dar um tiro na minha cabeça se mais alguém entrasse no assunto “aquela música que você escreveu pra sua mãe”.
Tão logo Jamie levou os investidores para conhecer sei lá quem do outro lado do salão, dei as costas indo em direção ao meus amigos, que permaneciam sentados no sofá de couro. estava sentada entre eles rindo de algo que Ross e Adam lhe contavam.
, você vem comigo? ― devido ao barulho do local, ouvia tudo muito longe.
― Onde?
― Embora.
― Mas já? ― arqueou as sobrancelhas, surpresa.
― Estourei o tempo que consigo ficar aqui sem ter um colapso nervoso e gritar com a próxima pessoa que vier falar comigo sobre minha mãe ou a morte da minha avó. ― levantando-se e ajeitando sua pequena mochila nas costas, despedimo-nos da banda e fomos embora.
― O remédio bateu um pouco demais? ― indagou, esbarrando sem querer em meu ombro.
― Tô com cara de cansado?
― Um pouco. ― dei um meio sorriso.
― Você tem esmalte nas suas malas?
― Não. Por quê?
― Pensei em pedir serviço de quarto, ouvirmos música enquanto você me ensina a pintar as unhas. Se você quiser, claro. ― pus as mãos nos bolsos frontais da calça, desejando mentalmente que aceitasse meu convite. Queria muito passar esse tempo com ela.
― Pra isso, precisamos comprar o esmalte. ― respondeu e eu contive um sorriso.
― Não seja por isso. ― checando que não haviam carros vindo de nenhum sentido, atravessei a rua e entrei na loja de conveniência.
Olhando por sobre as prateleiras, avistei onde ficavam os itens de higiene, saúde e cosméticos.
Ironicamente, os esmaltes ficavam pendurados ao lado das camisinhas, o que me levou ao diálogo de mais cedo, quando, nervosa, falou sobre a coordenação motora das minhas mãos e achou que eu pudesse interpretá-la errado. Rindo, peguei uma embalagem de esmalte preto e encaminhei-me para o caixa, onde também comprei um maço de cigarros e um isqueiro.
Quando saí do estabelecimento, estava ao lado da porta, terminando de digitar um texto e guardando seu celular no bolso. Retomamos nossa caminhada para a estação de trem mais próxima.
Como já era de se esperar, a linha que ia até o hotel estava vazia, não fosse pelo casal de adolescentes que sentou-se muito longe de nós, cujo garoto ficava olhando para trás a todo momento. Só haviam duas explicações para tal comportamento: tinha algo em nós que chamava sua atenção ou eles estavam “brincando” com algo que não deveríamos ver.
Ainda no início da viagem, revirou o bolso frontal de sua mochila, tirando de lá um fone de ouvido. Plugou-o ao celular e ofereceu um dos lados para mim.
― Vai dividir comigo? ― sorri, confuso.
― Não vou te deixar sozinho aí, né? Pega logo. ― aceitei contente, pois estava preocupado que ela fosse começar a me ignorar.
Encaixando-o na minha orelha, All of my friends, do LCD Soundsystem, soava em alto e bom tom. Deixando que a música fizesse seu trabalho, seguimos em silêncio até a plataforma em que desceríamos, vez ou outra, conferindo o olhar do outro e trocando meios sorrisos.
Chegando ao meu quarto, discutimos qual seria nosso jantar, entrando em comum acordo que nosso pedido da noite seria espaguete com almôndegas. Confiante de que faria uma boa escolha, apenas a observei escolher uma playlist em seu celular. Para minha surpresa, a música que saía do alto-falante era Letter by the water, de The Japanese House.
― Espera. Você conhece a Amber?
― Quê? Eu ouço. ― dei de ombros.
― E você não nos conhecia? ― franziu as sobrancelhas com o rosto contorcido em uma expressão brincalhona.
― Bom, não faz muito tempo que eu trabalho como jornalista cultural e, apesar de gostar muito de The Japanese House, não sou fã. Mas por que exatamente eu deveria conhecê-los?
― Porque George e eu produzimos esse EP. ― respondi, sentindo meu ego ser levemente apunhalado.
Em uma demonstração genuína de surpresa, tapou a boca com as mãos.
― Ok, agora você me pegou. ― rimos.
― Posso te perguntar uma coisa? ― após sentar, cruzei as pernas sobre a cama. ― Por que você sempre senta nessa mesma poltrona? Até porque ela fica bem longe de onde tô sentado.
― É que você tá sentado na sua cama.
― E daí? ― por alguma razão, tinha a sensação de que sabia qual seria sua justificativa, mas resolvi perguntar só pra ter certeza.
― Eu não sento na cama de pessoas com quem eu não tenho tanta intimidade.
― Você ainda acha que não temos intimidade? ― sabia! Olhei-a com curiosidade. ― Porque eu tenho uma visão completamente diferente dos fatos.
― Você me contou coisas sobre você que não contou a outras pessoas. Eu entendo. Mas você tem que levar em consideração que a minha curiosidade sobre determinados assuntos é estritamente profissional. Então, se você analisar por esse lado, eu ainda não posso me sentar na sua cama. ― explicou de um jeito que fez parecer que estávamos em uma sessão de terapia.
― Eu não sei se você se lembra, mas ontem à noite nós dormimos juntos no terraço. E, pelo que me lembro, nós acordamos abraçados. ― ri.
Touché. ― admitiu em um tom derrotado.
Devagar, saiu da poltrona e sentou-se na beirada da cama.
― Seu colchão é macio. ― sorri.
Quando a campainha tocou, soube que era nosso jantar. Atendi a porta com um sorriso, cumprimentando o funcionário e dando-lhe uma gorjeta. Puxei o carrinho para dentro do quarto e peguei meu prato antes de me sentar de novo sobre a cama. Sem parar, a playlist de começou a tocar algo que nenhum de nós dois conhecia, servindo de pano de fundo para o nosso jantar.
― É engraçado como, no imaginário comum, pessoas famosas não comem, não dormem, não escovam os dentes ou fazem qualquer uma dessas coisas que pessoas comuns fazem. ― morrendo de fome, pus uma quantidade grande de comida na boca, mastigando-a como se minha vida inteira dependesse disso. ― Se eu não tivesse aqui, vendo você se sujar, com molho de macarrão, nunca conseguiria conceber essa imagem.
― Uma das coisas que um artista conhecido tem que se lembrar sempre é: independente de onde ele esteja, de quanta grana ele faça, de quanta visibilidade ele ganhe, ele ainda é humano. Mesmo que os outros não se lembrem disso, eu sou humano. ― limpei os cantos da boca com um guardanapo e continuei: ― Às vezes, eu te respondo as coisas e não sei se isso faz parte da entrevista ou se estamos apenas conversando. ― a verdade era que, às vezes, ficava apreensivo de dizer algo e incluir em sua matéria sem que eu soubesse.
― Digamos que eu meio que fui avisada que eventos assim te deixam ansioso, então… te dei uma folga de mim. ― trocamos um sorriso. ― Não se preocupe, estamos só conversando mesmo. Se fosse uma entrevista, eu estaria gravando tudo. ― ri da maneira como arqueou as sobrancelhas. ― Se o meu eu de hoje dissesse pro meu eu de segunda-feira que era possível manter uma conversa civilizada com você sem nos alfinetarmos, eu não acreditaria.
― Eu também não acreditaria que saí da festa de lançamento do meu próprio álbum pra comer espaguete com você e ouvir The xx. ― riu.
Assim que terminamos de comer, empilhei nossos pratos sobre o carrinho, empurrando-o para fora do quarto, deixando-o posicionado do lado de fora da porta, a fim de que um funcionário que passasse o levasse embora. Ao fechar a porta atrás de mim, tirei do bolso o esmalte que havia comprado, empolgado com o momento.
Sentei-me à sua frente na cama.
― Não precisa fazer todo aquele processo de manicure, só pinta mesmo. ― assentiu, ajeitando-se para que ficássemos de frente um para o outro e depositando uma das minhas mãos sobre seu joelho. ― Teve algum momento que você teve ou se sentiu insegura sobre sua profissão enquanto era estudante? ― odiava quando ficávamos em silêncio. Ainda mais quando estávamos nos dando bem.
― O início da minha vida acadêmica inteiro foi extremamente conturbado. Eu tinha tantos ataques de ansiedade que perdi as contas de quantas vezes fui para o hospital com suspeita de virose e não tinha absolutamente nada. ― contou deslizando o pincel sobre a unha do meu mindinho, aplicando a primeira camada de esmalte. ― Eu não tinha medo do que produzi ficar ruim. Tinha medo das pessoas não gostarem.
― E o que você fez? ― observei-a pintando unha por unha calmamente.
― Comecei a perceber que a opinião dos outros sobre o que produzo não é mais importante que a minha. Primeiramente, sou eu quem tenho que ficar satisfeita com o resultado final, entende? ― olhei em seus olhos quando levantou a cabeça. Acenei, concordando com ela.
― Eu queria ter essa autoconfiança. ― sem abaixar a cabeça, seus lábios se franziram para segurar uma risada e uma das suas sobrancelhas tremeu pela careta que estava contendo.. ― É sério. Eu sei que você e mais um monte de gente me acha egocêntrico, mas não consigo afirmar com 100% de certeza que algo que eu fiz ficou bom enquanto outras pessoas de fora não validarem aquilo como algo bom.
― É algo a ser trabalhado mentalmente. Isso é sobre o quanto você se importa com opiniões externas. ― meu pedido para era que me ensinasse a pintar as unhas, porém a própria estava estragando o tutorial, uma vez que não conseguia prestar atenção em mais nada além de suas feições que combinavam perfeitamente uma dose de confiança e tranquilidade.
― Talvez eu não seja tão foda-se quanto eu acho que sou. ― sorri.
Cantarolando a música que tocava, limpou os excessos de esmalte e começou a aplicar a segunda camada em cada uma das unhas. Não falei mais nada, me contentei apenas em assisti-la. Suas mãos eram muito macias e muito delicadas em tudo o que faziam. Diferente de quando nos conhecemos, seu rosto e nem seus ombros carregavam aqueles ares tensos e desconfortáveis.
Ao finalizar, elogiei seu trabalho, que realmente tinha ficado muito bom, e disse que, na próxima tentaria fazer sozinho, o que era uma mentira, visto que eu não tinha prestado atenção em quase nada.
― Obrigada por hoje, . ― sorri.
― Boa noite, Healy. ― me respondeu com um sorriso doce.
― Boa noite, . ― fechei a porta assim que a vi me dar as costas e ir até sua porta.
Joguei-me na cama e fiquei muito mais tempo do que deveria olhando para minhas unhas pintadas, com um sorriso bobo estampado nos lábios.


#3 A festa da Amber

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 6º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


AVISO DE GATILHO: O capítulo a seguir aborda temáticas sensíveis referente a consumo e dependência de substâncias químicas.


Já pronto, decidi que iria esperar por no hall de entrada do hotel, uma vez que não sabia quanto tempo mais ela demoraria, entretanto, pouco segundos após trancar minha porta a vi de costas para mim, trancando a sua. Resolvi, então, esperá-la para descermos juntos.
De costas, a mulher estava incrível. De frente, me deixou sem palavras e tendo que segurar um riso de nervoso. Pelo susto, seus ombros se moveram rapidamente para cima e para baixo. Arqueei as sobrancelhas involuntariamente enquanto guardava o cartão dentro do bolso frontal de sua mochila. E eu achei que ela não pudesse ficar mais gostosa…
― Oi. ― soltou desconfiada.
― Oi. ― me limitei a responder.
Nunca fiz o tipo que fica sem palavras ou que tem medo de dizer algo errado e fora do momento. No entanto, tinha algo em que me fazia ficar apreensivo. Quem sabe, fosse apenas a vontade de impressionar alguém que achei… intrigante.
― Pronto?
― É… acho que sim. ― olhei para mim mesmo, conferindo se estava tudo bem com a minha roupa.
Rumando lado a lado até o elevador, o chamamos e esperamos pela sua chegada quietos. Ao entrarmos no pequeno espaço, apertou o botão de térreo e, quando as portas se fecharam à nossa frente, me senti claustrofóbico. Queria conseguir lhe dizer algo, porém não havia uma única palavra que eu pudesse pronunciar que não fosse voltada para a sua aparência e esse provavelmente não deveria ser assunto a ser puxado com a jornalista que está apurando algo com você, certo?
Ao encontrarmos com os outros no hall, decidimos chamar dois táxis e nos dividirmos em um grupo de três e uma dupla. De todas as coisas que eu mais queria, não ter que me sentar próximo de dentro de um carro durante os próximos minutos estava encabeçando a lista. Mas era óbvio que nós dois iríamos sozinhos no banco traseiro de um carro.
Durante todo o trajeto, permaneci em silêncio, mordiscando os cantos dos lábios. De soslaio, a via me olhar vez ou outra, como se esperasse que eu dissesse algo. O fato de não conseguir conversar com ela me deixava nervoso. Ficar nervoso me deixava fissurado. Logo, a primeira coisa que faria ao chegar na casa de Amber seria descobrir se Kirk havia aparecido, pois, de todos os dias, aquele era o que eu mais precisava usar algo. Qualquer coisa.
Estava tão angustiado com aquele desejo que nem mesmo me dei conta quando o carro estacionou em frente a casa da minha amiga.
Pagamos pela corrida e descemos do veículo, andando pelo caminho acimentado em meio ao gramado em direção à porta.
Segundos após bater à porta da casa, Amber abriu a porta sorridente, segurando uma garrafa de cerveja em mãos. Parece que não era só eu que estava determinado a retormar velhos hábitos naquela noite.
― Oi. ― cumprimentou-nos animada, dando-me um abraço apertado. ― Senti sua falta, garotão. ― falou próximo da minha orelha.
― Também senti sua falta, Amb. ― desvencilhei-me dela. ― Desta vez, eu trouxe uma amiga. , essa é a Amber. ― não sabia ao certo se deveria apresentá-la como amiga ou como jornalista, porém, por via das dúvidas, escolhi a primeira opção, visto que estava muito tarde para que não considerasse se divertir como uma pessoa qualquer sem nenhuma obrigação empregatícia.
― É uma prazer conhecê-la. ― abraçou , que, por um breve instante, pareceu sufocar com o aperto em seu pescoço. Tive que segurar o riso ao ver a cena.
― O prazer é todo meu.
― Amb, é sua fã. ― fingi cochichar dando uma piscadinha sugestiva para minha amiga.
― Suas músicas são ótimas. ― por sua vez, em um gesto tímido, a jornalista cobriu um dos cotovelos com a mão.
― Obrigada. Eu faço meu melhor. ― quem via Amb fora dos palcos, nem imaginava o quão triste eram suas músicas. ― Bom, entrem. Os outros já chegaram. ― deu-nos passagem pela porta, que ela fechou assim que entramos. ― Por favor, se sirvam. Estamos aqui pra comemorar e, até onde eu sei, é um pouco difícil fazer isso sóbrio. ― ainda bem que Amber e eu geralmente falávamos a mesma língua.
― Kirk tá por aí? ― disfarçando, peguei uma garrafa de cerveja da mesa de bebidas.
― Eu o vi há alguns minutos. Deve estar circulando pra ver se alguém precisa de algo. ― deu uma piscada nada discreta para mim e tive que me conter para não revirar os olhos. Às vezes, o jeito espalhafatoso que Bain adquiria após beber me irritava profundamente.
― Vou cumprimentar uns amigos e já volto. ― anunciei assim que meus olhos avistaram ao fundo o homem alto de gorro cinza e moletom em plena primavera, vendendo algo para uma garota que eu nunca tinha visto na vida próximo à pia da cozinha.
Ao chegar mais perto de Kirk, o cumprimentei.
― Faz um tempo que não te vejo. Por onde andava?
― Viajando e resolvendo algumas coisas antes da turnê. ― dei de ombros, antes de dar um gole na cerveja.
― Ficou limpo?
― Por um tempo, mas, aos poucos, voltando a ativa. ― brinquei.
― Vai querer o de sempre?
― Me dá 50 de pó. ― Kirk arqueou levemente as sobrancelhas.
― Olha, cara…
― Não vai me vender?
― Não é isso. ― passou a mão pela nuca. ― Tem certeza?
― Que porra, Kirk? ― dei um sorriso debochado. ― Era só o que me faltava, você querer me dar lição de moral.
― Não é isso. É que… você passou um tempo sem usar. Tem algum motivo especial pra querer?
― Me divertir não é o suficiente? ― ainda hesitante, o homem mordeu a parte interna da bochecha ponderando.
― Eu te vendo 30. É só o que eu tenho aqui.
― Feito. ― procurei as 30 libras no meu bolso, trocando as notas por um saquinho pequeno em um aperto de mão com o traficante.
― Pega leve, ok? ― pôs a mão sobre meu ombro, pressionando-o de um jeito amigável.
― Eu sempre pego. ― ironizei, fazendo-o soltar uma risadinha desacreditada pelo nariz.
Dando as costas, caminhei até as escadas, subindo os degraus de dois em dois até o quarto de Amber. Sabia que não poderia usar o banheiro comum, pois sempre estava ocupado com gente que resolvia transar com a porta destrancada ou com alguém vomitando. Além disso, já havia dormido tantas vezes na casa da minha amiga, que ela, provavelmente não se importaria que eu usasse seu banheiro por alguns minutos.
Na maioria das vezes, ninguém entrava no quarto, por isso, assim como Amb, não me importei em deixar a porta destrancada. Até porque seriam apenas alguns minutos. Em breve, retornaria à festa e ao convívio de todos no andar de baixo.
Largando a garrafa sobre a pia do banheiro, abri o saquinho plástico, despejando uma parte do conteúdo sobre o porcelanato à minha frente. Fechando-o em uma pequena peteca, guardei o saco dentro da minha carteira, aproveitando para pegar um cartão de crédito e uma nota de dez. Com o cartão, ajeitei as duas carreiras de pó e, com a nota enrolada em formato de canudo, encaixei-o em uma das narinas, tampando a outra assim que aspirei o conteúdo da primeira linha.
Erguendo a cabeça, inclinando-a alguns graus para trás, apertei meu nariz entre o indicador e o polegar devido a um comichão e leve ardência. Balancei a cabeça ligeiramente, apertando minhas pálpebras uma contra a outra algumas vezes.
Até que eu notei uma movimentação na porta do quarto e conclui que não estava sozinho.
― Não precisa sair de fininho como se tivesse me visto com o pau na mão. ― debochei vendo-a segurar a maçaneta em uma das mãos. Como se tivesse sido pega em flagrante, virou em minha direção e fechou a porta atrás de si. ― Normalmente, não faço isso na frente dos outros, mas acho que você já sabe muitas coisas sobre mim que outras pessoas não sabem. ― com as costas de uma das mãos, cocei o nariz com um pouco mais de força, pois estava começando a fazer efeito e já sentia o céu da minha boca formigar.
Devagar, se aproximou do banheiro, encostando-se no batente da porta ao mesmo tempo em que eu me sentava sobre a tampa do vaso sanitário.
― É um paradoxo engraçado, né? Eu não costumo usar na frente de outras pessoas, mas, nesses momentos, também não gosto de ficar sozinho. ― confessei.
― Por quê? ― sua voz soou baixa e grave. ― Você tem medo?
― É mais fácil descobrir do que eu não tenho medo. ― por estar com uma das narinas entupidas, minha risada saiu pelo nariz.
Encarando , pouco a pouco, pequenos feixes de luz, como glitters, passaram a brilhar ao redor da mulher, realçando ainda mais a imponência de sua figura. Inquieto, comecei a chacoalhar as pernas para cima e para baixo. Conseguia sentir a inibição se esvaindo pelos meus poros e tinha plena certeza de que era completamente capaz de manter um diálogo com ela que incluía todas as coisas que gostaria de lhe dizer desde mais cedo.
Sua presença me deixava excitado e eufórico. Além disso, poderia jurar que o ambiente havia ficado mais abafado desde sua chegada. As costas da minha camiseta estavam encharcando devido ao suor.
― Amber não deu em cima de você? ― ansioso, queria saber quais haviam sido as interações que ambas tinham feito em minha ausência. Apesar de namorar, Amb não fazia o tipo que perdia tempo e, de todas as mulheres com quem ela poderia flertar, esperava que não fosse uma delas.
― Por que ela faria isso? Ela namora. ― franziu as sobrancelhas, confusa.
― Porque você tá gostosa pra caralho! ― sorri sem nenhum pudor ao concluir.
Furiosa, a mulher revirou os olhos e fez menção de ir embora. Tentei segurar seu pulso, mas a mesma se esquivou antes que conseguisse.
― Não. Por favor, não me toque. ― censurou-me em um tom firme. ― Eu vou descer e ficar com os outros. Enquanto você não tiver voltado a si, não fale comigo.
Saiu do quarto, deixando-me sozinho como não queria ficar.
Sem vontade de cheirar a segunda carreira, abri a torneira, molhei a mão e empurrei o pó rumo a pia, lavando os resquícios da minha palma em seguida.
Resolvendo finalizar minha cerveja, peguei a garrafa e virei-a para mais alguns goles. Por estar com a boca amortecida, acabei pingando algumas gotas da bebida na minha roupa.
Não sei quanto tempo se passou, no entanto, de novo, não estava sozinho no quarto. A figura alta e larga de George despontou na porta do cômodo caminhando até mim.
― Como você tá? ― agachou-se à minha frente, inclinando a cabeça para me olhar nos olhos. Dei de ombros em resposta. ― O que você disse pra deixar ela irritada?
― Apenas a verdade. ― ergui as mãos em sinal de rendição.
― Que foi… ― deixou no ar me incentivando.
― Que ela tá gostosa pra caralho. ― fechou os olhos, passando uma das mãos pelo rosto, em silêncio. ― Que foi? Não é mentira. Aposto que até você pensou o mesmo. ― sorri.
― A questão não é essa. ― suspirou. ― Não se diz isso pra uma pessoa que você não tem a menor intimidade. Muito menos se ela estiver aqui a trabalho. ― explicou, a voz assumindo uma tonalidade cansada. ― O que você fez pode até ser interpretado como assédio, sabia?
― Sério? ― franzi o cenho.
Assentiu.
tá brava com você e com razão. Você não tinha que ter usado. Não quando ela está aqui. ― tirou a garrafa de cerveja da minha mão quando fiz menção de bebê-la novamente. ― Por que fez isso?
― Isso o quê?
― Cheirar.
― Ela me deixa nervoso. ― certamente, um dos efeitos que eu mais odiava na cocaína era como ela me deixava com a língua ainda mais solta. Não conseguia me recusar a responder absolutamente nada.
― Quem? ― franziu as sobrancelhas e semicerrou os olhos.
.
― Por quê? ― dei de ombros.
― Já olhou bem pra ela?
― O que tem?
― Ela é bonita, né? ― dei um sorriso ao meu lembrar de seu rosto.
― É, ela é. ― franziu os lábios para baixo.
― Fiquei nervoso por ter achado que hoje ela tava no auge da beleza dela e não conseguia falar nada. Isso me deixou com fissura porque sabia que, se eu usasse, ia conseguir falar.
― Pois é, mas falou as coisas erradas. Adiantou de alguma coisa? ― rebateu.
― Pelo menos, agora ela sabe que é gostosa.
― Uma mulher como ela não precisa que ninguém diga isso. Ela certamente já sabe.
― E como você sabe disso? ― franzi a testa.
― Eu só… sei. ― deu de ombros.
― Ok, espertinho.
― Faz muito tempo que você usou? ― dei de ombros. ― Como você tá se sentindo?
― Com menos calor.
― Ótimo. Tá passando.
George e eu continuamos sentados nos encarando por mais alguns minutos, até que sentia que estava começando a recobrar meu juízo.
Meu coração diminuiu um pouco o ritmo, porém seguia descompassado, minha boca ainda formigava e eu mal dava conta de engolir a saliva que produzia em excesso. Pelo menos, a sensação de calor intenso estava passando, deixando apenas o suor para trás.
De volta a sala, muito tempo depois, quando Amber deu play nos trechos de suas músicas novas para que os presentes ouvissem, não consegui prestar atenção em nada após meu olhar se encontrar com o de . Ainda parecendo irritada comigo, não tive coragem de ir falar com ela.
Sentia-me plenamente culpado por ter estragado aquela que deveria ser sua noite de diversão.
Acendendo um cigarro, continuei fitando-a pelo resto da noite.


#4 O aniversário de Brian

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 7º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


Havia recém fechado a porta quando vi quase encostada na sua, se remexendo por inteiro. Dei uma espiadela por cima do seu ombro e, ao perceber que a qualquer instante ela ficaria com um dos peitos de fora, parei de olhar. Aquela cena estava, no mínimo, cômica e eu estava me divertindo muito às suas custas.
Terminando de se ajeitar, virou-se e seus ombros se sobressaltaram de susto, como já era de costume toda vez que nos encontrávamos pelos corredores.
― O que você tá fazendo? ― me fiz de sonso, como se quase não tivesse visto seu peito de fora segundos atrás.
― Podia ter avisado que tava aí, né? ― pôs a mão sobre o decote profundo, respirando fundo.
Pus as mãos nos bolsos da calça, sem conseguir evitar olhá-la da cabeça aos pés. Impossível alguém ser tão gostosa assim sem nem tentar. Seu vestido tinha um decote frontal em U até a altura de seu estômago, deixando o vão entre seus seios completamente à mostra as mangas compridas e bufantes eram feitas de tule, assim como a saia, que, além de não ter forro, continha uma fenda da cintura até os pés, deixando uma de suas coxas visíveis. Naquele vestido, tudo de fantástico na aparência de tinha sido ressaltado 20 vezes mais, o que mexeu com a minha imaginação muito mais do que eu gostaria.
Tentando me trazer de volta para o momento atual, a mulher apontou com o dedão sobre os ombros para o elevador.
― Vamos? ― sugeriu.
― Ah, claro. ― passei a mão no rosto, recobrando a consciência porque, de todos os dias em que a vi, certamente, foi naquela noite que fui nocauteado sem chances de recuperação.
Tal qual no dia anterior, não consegui formular frases inteligíveis, porém, desta vez, como iríamos de van junto com os outros, escolhi me sentar no banco frontal ao lado de Jamie. sentou-se em meio a George e Ross, que cuidaram de responder todas as suas perguntas a respeito do aniversariante do dia.
― Tudo bem entre você e a garota? ― Jamie guardou o celular em um bolso dentro de seu paletó.
― Ah, sim. Estamos nos dando bem. ― cocei o queixo levemente, sem olhá-lo.
― E você tá sentado aqui por quê? ― franzi as sobrancelhas e dei um sorriso que misturava nervosismo e deboche.
― Ela pode conversar com outras pessoas, certo? E hoje é seu último dia, acredito que já conseguiu todas as informações que queria a meu respeito.
Remexendo o lábio inferior em um tom de desconfiança, Oborne virou-se brevemente para trás e voltou a me olhar, como se ligasse pontos invisíveis entre mim e .
― Eu sei o que você está pensando e não é uma boa ideia.
― Ok, o que eu estou pensando? ― ironizei.
― Matthew, ela está aqui a trabalho, não para flertar com você. Essa garota não é sua amiga e não está aqui pra foder com você. Ou melhor, dê a munição certa e ela vai realmente foder você e a sua carreira. ― rebateu sério.
Arqueei as sobrancelhas, surpreso.
― Não acho que ela teria coragem de fazer isso. ― desviei o olhar.
― Não queira pagar pra ver. Ela é jornalista. E a única coisa que jornalistas querem é um furo. ― encerrou.
Seguimos em silêncio, entretanto, não consegui mais parar de analisar se era isso mesmo que queria. Olhando por sobre meu ombro em sua direção, a vi se divertindo com George. Ela ficava muito bonita quando sorria. Parecia que algo se iluminava ao seu redor.
Queria muito que Jamie estivesse errado a seu respeito, no entanto, não poderia afirmar que sua colocação estava incorreta ou era injusta, pois, no fim do dia, e eu não nos conhecíamos tão bem assim para além das coisas que havíamos decidido contar um ao outro.
Ao chegarmos no local, a mulher era a única de nós cujos olhos pareciam deslumbrados com tudo ao seu redor. E até nisso era uma criatura preciosa. A forma que seu olhar percorria todo o local com curiosidade fazia com que eu não conseguisse evitar um sorriso se formasse em um dos cantos dos meus lábios.
Minutos após nossa chegada, Brian veio nos cumprimentar e, logo, teve sua atenção capturada pela estranha que nos acompanhava. soava confiante em sua fala e isso fez com que Brian a enchesse de perguntas sobre seu trabalho e como era trabalhar com Sullivan. Aquele velho gostava muito quando encontrava alguém que tinha a mesma postura que aquela mulher estava tendo.
Transparecendo nervosismo e tensão exatamente como se fosse uma bomba de ansiedade prestes a explodir, o corpo inteiro da mulher pareceu se comprimir assim que o aniversariante se retirou. Seus ombros estavam encolhidos, seus punhos cerrados e ainda tive um vislumbre de seus dedos dos pés agarrados à beira da sandália.
― Você tá ótima nesse vestido, mas precisa muito relaxar. ― sendo o cavalheiro que geralmente era, George a elogiou oferecendo uma taça de champanhe.
― Obrigada. Eu só… nunca estive em um lugar assim. ― aquilo soou como uma confissão.
― Onde todo mundo tem essa pose almofadinha ou onde tudo parece feito para quebrar se você minimamente encostar um dedo? ― sugeri, bebendo um gole da minha bebida logo em seguida.
― Acho que é mais a segunda opção.
― George tá certo. Você tá ótima, não se preocupe. Além do mais, Brian parece ter simpatizado com você. Ele não costuma trocar mais de três frases com quem não tenha nenhum interesse. ― aproveitei a deixa para elogiá-la como se aquilo não fosse nada demais, vendo-a beber um gole maior de seu champagne ao mesmo passo que a banda encarregada da trilha sonora da festa começou a tocar John Coltrane. [n/a: e vamos de reviver o momento com essa aqui] ― Eu amo essa música. Nós deveríamos dançar. ― propus. A testa de se contorceu de um jeito que parecia julgar aquela como uma ideia desprezível.
― Eu acho melhor não.
― Por que não? Qual é, ? É só uma música. ― estendi a mão para ela, sabendo que assim ficaria mais difícil de recusar meu pedido. ― Aliás, é seu último dia e você precisa relaxar. ― pisquei em um tom brincalhão e, aparentemente, funcionou.
Bebendo o resto de seu champanhe, deixou a taça sobre o balcão atrás de si e segurou minha mão, permitindo que eu a guiasse até o meio dos casais dançarinos. Desfazendo-me da minha taça vazia na bandeja de um garçom, pus uma mão em sua lombar, sem aproximar nossos corpos mais do que o necessário. Tínhamos que manter uma distância segura para ambos.
― Você gosta de John Coltrane? ― iniciei.
― Meu pai é apaixonado por ele, então, pode-se dizer que foi a trilha sonora da minha infância. ― deu uma risadinha baixa como quem revisita uma doce memória.
Com passos curtos e ritmados da esquerda para a direita, não era uma dançarina exemplar, mas era boa em acompanhar um ritmo fixado. Sob meu toque, seu corpo estava levemente aquecido. A mão que tocava a minha estava começando a suar, o que foi ligeiramente engraçado. Ela tá nervosa?
― Será que se eu não fosse vocalista de uma banda ou se você não fosse jornalista nós iríamos nos conhecer mesmo assim? ― deu de ombros, franzindo os lábios para baixo.
― Quem sabe? Talvez isso estivesse programado para acontecer independente de quem somos. ― semicerrei os olhos ao ouvir sua resposta.
― O que é isso? A Matrix? ― rimos. ― Você acredita em destino?
― Acho a definição de destino uma coisa boba. Uma ilusão que revistas adolescentes vendem pra jovens mulheres se iludirem e evitarem a crueldade do mundo adulto por quanto tempo conseguirem. ― rebateu. Às vezes, ficava impressionado com suas linhas de raciocínio.
― Uh, profundo.
― Mas eu acredito que existam forças superiores que nos levam para onde devemos estar.
― Tá falando de Deus? ― arqueei uma sobrancelha.
― Não. Só acho que tudo tem um propósito.
― E se não houver propósito nenhum?
― Bem… pelo menos conheci alguém legal. ― trocamos um sorriso.
― Achei que você ainda me achasse um cuzão, principalmente depois de ontem. ― insinuei, esperando para saber sua real opinião a meu respeito.
Eu realmente me importava com o que as pessoas achavam de mim. Principalmente, quando havia outros tipos de interesse na outra pessoa.
― Assim como você me provou que não é tão ruim quanto todo mundo acha, quero que saiba que eu não julgo as pessoas pelas suas escolhas ou atitudes individuais. Apesar de tudo, é inegável que você é um cara legal.
― Uau, por essa, eu não esperava. ― ironizei.
Dentro de mim, algo deu uma cambalhota de felicidade. Era bom saber que não me achava um caso perdido.
― O que você esperava, então?
― Que você estivesse doida para ir embora e correr atrás da sua promoção.
― Quero fazer isso também, mas só quando nosso tempo juntos acabar. ― havia algo nela, especialmente naquela noite, que não me deixava desviar os olhos dos seus. Era como se houvesse algum tipo de conexão estabelecida entre nós que se quebraria no menor desvio que meu olhar desse na direção contrária à sua.
O que me deixava mais irritado é que perto dela, não conseguia parar de sorrir. No máximo, conseguia disfarçar com um sorrisinho fechado. Parar? Nunca.
tinha características muito próprias. Era séria, mas só o suficiente para que não achassem que já são íntimos nas primeiras palavras trocadas. Não tinha o riso frouxo, porém, quando ria, era impossível não acompanhá-la. Não eram raras as vezes que parecia se desligar do presente e orbitar em um lugar só seu dentro de sua cabeça. Nesses momentos, seus olhos até perdiam um pouco do brilho.
Quando conversávamos, ela, de fato, estava lá, me ouvindo. Aquela mulher se importava com cada vírgula do que eu falava, como se eu fosse o pastor que congrega uma única pessoa.
Isso tudo sem citar suas características físicas, pois certamente tinha o par de coxas mais inacreditável do Reino Unido e região. Se algum homem algum dia tivera a audácia de dizer “não” àquela mulher, possivelmente não estava em pleno uso de suas faculdades mentais.
― Vou sentir falta de alguém para importunar. ― ao mesmo tempo em que brincava, queria que se sentisse acolhida.
― Você ainda tem seus amigos.
― Eles sabem quando eu faço de propósito. Não tem mais graça. ― rimos baixo.
― Você me odeia mesmo e não faz nem questão de disfarçar, né?
― Na verdade, de todas os jornalistas que conheci, você foi talvez a única que fez eu me sentir humano em todo o processo, o que é estranho. Geralmente, sou só o cara drogado e polêmico, sem filtro nenhum de uma banda britânica que ninguém entende muito bem por que faz sucesso. ― um sorriso apareceu no canto de seus lábios. ― Eu sei que você tá aqui pra conseguir aquela vaga de emprego, mas quero que saiba que, mesmo que você não consiga, não significa que você não é uma profissional incrível e que vai alcançar muitas coisas.
Continuei a sustentar aquele olhar.
Queria poder lhe dizer tudo que havia pensado nos breves segundos em que fiquei em silêncio. Como eu a achava incrivelmente bonita e interessante na mesma proporção. Como eu a achava atenciosa e que deveria sorrir mais, afinal, seu rosto inteiro se iluminava quando o fazia.
Contudo, não conseguia pronunciar absolutamente nada.
Um dos fatos mais engraçados sobre era como facilmente me deixava sem palavras. Logo eu, que gostava tanto de monólogos infinitos.
Por mais que houvesse um espaço considerável entre nossos corpos, conseguia sentir seu calor. Tão logo que me distraí, fantasiei sobre como seria beijar sua boca, se ela gostaria, se ficaria surpresa, se corresponderia, se me bateria e sairia correndo. Imaginei o gosto, a temperatura e textura de seus lábios. Será que a realidade é melhor do que minha imaginação? Ponderando sobre a possibilidade de tentar beijá-la, decidi deixar a ideia ir embora. Não era o momento nem o local para aquilo e possivelmente lhe geraria uma má reação.
Mas não descartei a ideia por inteiro, pois não acreditava que só eu estivesse sentindo aquela tensão tão tangível entre nós.
― Eu nunca faço isso e talvez devesse continuar assim, mas, se você quiser, posso te enviar a versão finalizada do texto para aprovação antes de entregá-lo para o Sullivan na terça.
― Não. ― quase atropelei sua oferta com minha recusa e acabei rindo de nervoso. ― Não precisa e eu não quero. Confio em você.
― Sério? ― arqueou as sobrancelhas em um tom surpreso.
― Tudo que eu te contei foram coisas que não há problema algum se você falar sobre. Tá mais que autorizada a usar tudo. E não existe nenhuma outra pessoa com quem eu gostaria de ter dividido. ― sorri.
― Obrigada. ― sorriu de volta.
Separando-nos e erguendo nossas mãos um pouco acima de nossas cabeças, a rodopiei lentamente, voltando a nossa posição inicial e retomando nossa dança.
― Você não me parece o tipo de cara que gosta de dança de salão.
― Mas minha mãe gosta e ela me ensinou pra eu poder dançar nos bailes da escola. ― rimos.
― Tá aí mais uma imagem que eu não consigo conceber nem no meu momento de imaginação mais fértil. Você foi em quantos bailes? ― ao término da música, um pouco relutante, me desvencilhei dela.
― Em todos? ― respondi em tom de pergunta.
Fato divertido sobre mim: adorava os bailes da escola.
― Você é mesmo incógnita, né? ― riu divertida.
― Um homem tem que ter seus mistérios pra conseguir manter pessoas interessadas, certo? ― rebati, pegando duas taças de um garçom que passava por nós, entregando uma a ela.
― Sei que vou soar repetitiva, mas você realmente não tem medo do que eu possa escrever sobre você? ― neguei com a cabeça.
― Já falei. Eu confio em você. ― dei de ombros como se não houvesse outra opção a não ser confiar.
Assistindo-a dar mais um sorriso e um primeiro gole em sua bebida, já estava começando a sentir saudades de e a noite ainda nem havia acabado.


#5 À sós no camarim

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 9º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


Feitas as honras pela chegada de ambas as nossas convidadas, a banda foi passar som, acompanhados por nossa recém-descoberta fã número um. e eu ficamos a sós no camarim principal. Seus olhos já não percorriam mais o local, estavam fixos em mim, como se fosse soltar uma perguntar a qualquer instante.
― Você vai passar som depois?
― Já passei. Sempre passo antes deles. ― caminhei até os cabides com minhas roupas, escolhendo o figurino da noite. ― Fique à vontade. Se estiver com fome, a comida tá ali. ― apontei para a mesa lotada de comidas e bebidas do outro lado do cômodo. ― Eu preciso tomar um banho. ― concordando com um aceno de cabeça, sentou-se em uma das poltronas.
― Eu vou descansar. ― estapeou os braços do estofado de leve e eu ri. era uma daquelas almas idosas que se cansava até de respirar.
Adentrando no banheiro, tranquei a porta, tirei as roupas, entrei no espaço reservado para banhos, fechando a cortina plástica ao meu lado. Abri o registro, deixando a água quente cair sobre meu corpo, automaticamente relaxando meus músculos. Normalmente, o banho não aconteceria antes de um show, entretanto, tinha realmente aparecido para nos ver e eu já tinha suado mais do que a minha cota diária permitida antes de precisar encarar o chuveiro.
Depois de molhar o cabelos e enxaguar todo o sabonete que havia passado no corpo, fechei o chuveiro e me sequei. Vestindo-me, não afivelei meu cinto nem fechei a camisa por inteiro, dei uma última secada de leve nos cabelos antes de sair do banheiro.
estava distraída, como usual, de costas para a porta, próxima a mesa de comida. Sabendo que não importava se fizesse barulho ou não a mulher provavelmente seguiria em sua órbita particular de pensamentos, caminhei até a mesa a fim de pegar uma fruta ou o que quer que fosse antes de ir fumar um cigarro.
Bem perto de suas costas, sentia um cheiro de lavanda que emanava dela. Não sabia dizer se era de seus cabelos ou de seu corpo, o que me fez querer me aproximar um pouco mais a fim de descobrir.
Usando o maço de cigarros que estavam sobre a mesa a sua frente como desculpa caso ela se virasse, dei mais um passo em sua direção para aspirar aquele aroma floral tão agradável e reconfortante.
Alarmada, os ombros de se mexeram ligeiramente, virando-se para mim.
― Porra! ― um fio de voz esganiçado e ofegante saiu de sua garganta.
Apavorada com o estrago que tinha feito em sua blusa devido ao café que ela havia derramado em si mesma, ofereci-lhe minha toalha úmida, pois, muito em breve, ela começaria sentir a quentura em seus seios e colo.
― Meu Deus, você precisa parar de fazer isso! ― tomando a toalha da minha mão, colocou-a sobre a grande poça que havia se formado no tecido.
― Sinto muito, , eu não… ― levemente desesperado, peguei alguns guardanapos e passei a limpar os respingos em seu pescoço enquanto me desculpava incessantemente: ― Desculpa mesmo. Eu só queria pegar meus cigarros.
― Podia começar a fazer barulho quando abre portas ou se aproxima. O que acha? Eu acho uma ótima ideia. ― rebateu afiada.
Inclinando-me ligeiramente em sua direção, com as sobrancelhas franzidas, se afastou de mim
― Fica tranquila, . ― balancei o maço de guardanapos no ar a fim de provar meu ponto a ela. ― Só quero ajudar a consertar a cagada que eu fiz. ― ofereci-os.
Notando seus olhos rapidamente descendo pelo meu peito e, ao que aparentava, para as minhas calças, conferi se havia algo de errado comigo e acabei apenas tendo certeza de que alguma outra coisa tinha prendido sua atenção. Segurei um sorrisinho safado, me questionando o que estava se passando em sua cabeça.
― Você precisa trocar de blusa. ― disse, interrompendo quaisquer que fossem os seus pensamentos. Fazendo-a me olhar com os olhos brevemente arregalados.
― Quê? Aqui?! Eu não tenho…
― Não se preocupe. Eu tenho um monte de camisas aqui, posso te emprestar uma. ― indo até a arara, peguei uma camisa preta e a entreguei: ― Toma. Se quiser tomar banho, você pode.
― Acho que não precisa. Só vou… ― apontou para o banheiro, soando um pouco sem jeito.
― Como quiser. ― assentiu. ― Preciso fumar um cigarro. Volto em alguns minutos. Tranque a porta do banheiro se não quiser que alguém veja… você sabe, enquanto você se troca. ― brinquei, gesticulando em frente ao meu peito para falar dos seus.
Assim que a ouvi girar a chave na maçaneta, peguei a caixa de cigarros de cima da mesa e encaminhei-me para fora. Já estava quase na hora de começarmos o show, então essa seria minha última oportunidade de fumar em paz, escondido atrás do palco.
O sorriso que se fixou em meu rosto não se desfazia por nada. Nem mesmo quando, ao abrir o maço de cigarros, percebi que não havia trazido o isqueiro e teria que voltar ao camarim somente para buscá-lo.
― Já voltou? ― foi a primeira coisa que ouvi ao abrir a porta outra vez.
― Esqueci meu isqueiro. Aliás, fica muito melhor em você do que em mim. ― Provavelmente, ficaria muito melhor sem, mas já é pedir um pouco demais. ― Sendo assim, acho melhor você nem me devolver.
não era do tipo que ficava vermelha de vergonha ou que se encolhia ao mínimo sinal de elogios à sua aparência. Na verdade, a mulher geralmente escolhia o silêncio, como se aquela fosse sua única opção disponível.
Dirigindo-me para a mesa de comidas, onde deveria estar meu isqueiro, a vi pronta para pegar uma maçã. Ansiando por um pouquinho a mais de contato, mesmo que supostamente por engano, um esbarrão que fosse, fingi que iria pegar a mesma fruta que ela, fazendo nossos dedos se tocarem rapidamente.
― Pode pegar. ― encolheu o braço como uma lagarta faz com o próprio corpo enquanto anda.
― Não, pega pra você. Quem não conseguiu tomar o café inteiro foi você, lembra? ― deu um meio sorriso, porém escolheu preparar um novo copo de café para si. ― Sinto muito mesmo, tá? Não queria que… ― comecei a me desculpar outra vez, sendo interrompido por ela.
― Tá tudo bem, Healy. ― agora, seu sorriso parecia um pouco mais descontraído, mostrando seus dentes. ― Foi um acidente e eu estou bem. ― deu um gole pequeno no café.
Encostados na beira da mesa, nossos quadris estava quase tocando um no outro. Dali, conseguia sentir seu calor e também aquele cheiro de flores que me fizera assustá-la mais cedo. Tive a impressão de ver suas bochechas ruborizarem de maneira muito discreta.
Queria que me olhasse, todavia, parecia tão perdida em seus pensamentos que nem mesmo notava que eu a fitava.
― Que foi? ― parecendo culpada de algo, evitou estabelecer contato visual comigo.
― Acho muito engraçado quando você viaja assim. Quando você volta, é sempre como se tivesse pensado algo que não deveria. ― ri. ― Tava pensando em putaria, né? ― zombei, porém queria que ali houvesse um fundo de verdade.
― Quê? ― franziu as sobrancelhas, confusa. ― Não! Tá ficando maluco? ― deu uma risadinha nervosa que dizia muito mais do que as palavras que saíam de sua boca.
― Pois parece que tava. ― não consegui segurar uma risada. Desencostei-me da mesa ― E tá tudo bem se estiver, ok? ― conclui para que ela soubesse que não me importava se fantasiasse sobre nós, pois andava fazendo o mesmo dentro da minha cabeça. Inclinei-me para frente a fim de que nossos olhos ficassem na mesma altura e que meu rosto ficasse perto do seu.
― Não seja infantil. Tava aqui me perguntando se desliguei o ferro da tomada. ― semicerrei os olhos, captando a mentira no ar.
― Ah, claro, porque qualquer pessoa normal fica vidrada assim só pela possibilidade de não ter desligado algo da tomada. ― debochei.
― Bom, se você não é milionário e o apartamento em que mora não é seu, é um motivo de preocupação constante. ― senti um leve tom de irritação em sua voz.
― Ok, . ― aproximei ainda mais meu rosto do seu.
Só havia um pensamento sendo produzido e reproduzido pela minha mente a todo instante: o de beijá-la. Diferente da vontade que senti e reprimi no aniversário de Brian, desta vez, a única coisa que me impediria seria se recusasse, afinal, tudo ali era propício para que acontecesse. Estávamos perto o suficiente um do outro para que eu sentisse sua respiração em meu rosto, estávamos à sós e, provavelmente, ninguém entraria ali tão cedo.
Seus olhos carregavam um brilho convidativo e desafiador, como se me provocasse a tentar algo. Já meus olhos, antes que me desse conta, correram para seus lábios e ali permaneceram, assistindo-os se comprimir e voltarem ao normal milésimos de segundos depois.
não se afastou de mim tampouco tentou me impedir de me aproximar ainda mais dela. Entendendo aquilo como um “sim”, segui em frente até sentir seus lábios nos meus. Sua boca era quente e a real sensação não se parecia em nada com o que eu havia imaginado. Era infinitamente melhor.
Envolvendo meu pescoço em meio aos seus braços, pus as mãos em sua cintura a fim de colar nossos corpos. Como já esperava, estava ficando com muito calor. Muito, muito, muito calor.
Os dedos de uma de suas mãos roçaram levemente no meu couro cabeludo, logo, precisei fazer uma força descomunal para não suspirar em meio ao beijo. Sem a menor vontade de me afastar dela, tirei uma das mãos de sua cintura, pondo-a em sua nuca, pressionando ainda mais seu corpo contra o meu. Ao passar a língua de raspão pelo céu de sua boca, senti a pele de sua nuca se arrepiar sob meu toque.
Com um pouco de dormência nos lábios, desvencilhei-me de vagarosamente, relutante em fazê-lo. Segurando sua cabeça entre minhas mãos, olhei-a nos olhos e sorri silenciosamente tal qual um garoto de 14 anos que acaba de beijar alguém pela primeira vez.
Da sua parte, não houveram sorrisos nem falas. Apenas tirou os braços do meu pescoço e parecia tentar fingir que nada daquilo estava acontecendo. Achando aquela situação cômica, dei uma risadinha baixa.
― Você vem? ― franziu as sobrancelhas, como se houvesse um delay em sua cabeça que a impedia de entender o que eu dizia. ― O show ainda vai rolar. ― ri.
― Ah, tá. Já está na hora? ― questionou perdida.
― Quase. ― deixando a porta do camarim aberta para que passasse, me seguiu por todo o caminho. ― Mas você pode procurar um bom lugar pra ficar com sua amiga. ― dei as instruções para ela, antes de termos que nos separar para que eu me arrumasse para subir ao palco.
Não me lembrava quando havia sido a última vez que tinha ficado tão feliz fazendo um show.

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Antes de deixarmos o palco, agradecemos ao público e nos despedimos, como de costume. Saindo a frente de todos, não enxerguei nem arina, por isso, segui até o camarim.
Escutando todo o diálogo, mas sem prestar atenção em nada, sabia que estavam marcando algo. Se bem conhecia meus amigos, deveria ser bebida ou festa. Ou as duas coisas.
Senti olhares recaindo sobre mim, olhei na direção de onde eles vinham e percebi que, aparentemente, todos esperavam que eu dissesse algo.
― É, pode ser. ― dei de ombros, fingindo que tinha ouvido tudo.
Depois disso, apenas os ouvi entrando em comum acordo de que tacos seriam a escolha da noite.
Não conseguia tirar e seus lábios quentes da minha cabeça. Não conseguia me desconectar do momento em que seus braços se prenderam ao redor do meu pescoço ou de como meu corpo se aqueceu ao sentir o seu tão próximo. Contudo, mesmo que quisesse repetir a dose, ainda não sabia o que estava passando na cabeça de . Queria que uma vez na vida ela parasse de fingir que tem coração de gelo e me deixasse saber o que estava pensando.
E, aos poucos, percebi que havia algo a incomodando. Durante todo o trajeto até o restaurante e jantar, se manteve em silêncio. Interagia somente quando falavam com ela, deixando que assumisse o centro das atenções. Sabendo que não estava confortável em fazer intervenções além do necessário, passei a monopolizar os assuntos junto de sua amiga, dando algumas olhadelas em sua direção para conferir se estava tudo bem. De relance, tive a impressão de capturar um meio sorriso.
Em determinada altura do nosso jantar, entreguei em nome de todos uma camiseta autografada a , agradecendo por seu carinho conosco e com nosso trabalho, mesmo que ainda não nos conhecêssemos pessoalmente. Sorrindo, pareceu ter gostado tanto do presente que tive a impressão que iria chorar a qualquer instante.
Assim que todos anunciaram que haviam terminado de comer definitivamente, fomos pagar a conta e todos os planos de encerrar a noite “cedo” mudaram quando Adam anunciou que John, o saxofonista, havia nos convidado para ir em uma festa. Animados e prontos para comemorar, meus amigos sacaram as carteiras dos bolsos o mais rápido possível a fim de irem para seu novo destino.
Quem não pareceu gostar muito da ideia foi . Quase conseguia ver a dor de ter que estender a noite com a amiga em seus olhos. Considerando que eu também estava cansado e, se fosse para alguma festa, provavelmente usaria algo e amanhã estaria um lixo, além de que passaria o resto da semana sem produzir um pingo de serotonina, mentalmente, estava pronto para declinar o convite.
― Você pode ir, se quiser. Eu realmente tô esgotada. ― ouvi dizer a amiga enquanto passava as mãos pelo rosto.
― Mas você vai voltar pra casa sozinha? Nada disso! ― quase protestou. ― Se você vai pra casa, eu também vou.
― Mas você quer ir na festa. Não estrague sua noite pela idosa aqui. Eu vou ficar bem. ― rebateu.
― Bem, eu não planejo ir pra festa nenhuma. Se o problema é ela não ter companhia para casa, eu posso levá-la. ― me intrometi, dando de ombros, como se não fosse nada demais.
Sem notarem, ambas me lançaram o mesmo olhar acompanhado de pares de sobrancelhas franzidas.
― Que foi? Eu concordo com a . Você não deve voltar pra casa sozinha, tá muito tarde. ― argumentei.
― Ele tá certo. ― concordou.
― Ótimo. Um complô. ― ironizou, parecendo ficar irritada. ― Se esse é o preço que eu pago para conseguir ter um encontro com a minha cama antes das 04h da madrugada, eu aceito. ― a abraçou em despedida, cochichando algo em seu ouvido. concordou com um aceno de cabeça discreto.
Despedi-me de meus amigos e de , tomando a direção contrária à do grupo ao lado de . Calados, apenas caminhamos lado a lado evitando até mesmo olhar um para o outro. Não era algo que havia citado explicitamente em nossas conversas, mas sabia o quanto, em determinados momentos, apreciava o silêncio, por isso, respeitei seu espaço a fim de manter a boa vizinhança.
Ao entrarmos no trem, a mulher fez o que já estava virando um ritual: plugou o fone de ouvido no celular, entregando-me um dos lados, dando play em Dendron, do The Hotelier.
Ao chegarmos à estação, descemos do vagão e voltamos a andar lado a lado quietos pelas ruas da cidade, o que não durou muito.
― Você tá bem? ― pus as mãos nos bolsos frontais da minha calça.
― Eu ouvi essa bastante hoje. ― deu um sorriso sem humor.
― É que você tá quieta, então… ― soltei, porém não conclui a frase.
― Às vezes, minha cabeça me leva pra lugares que eu não queria ir.
― E por acaso isso tem algo a ver com o que aconteceu mais cedo? ― insinuei.
― Não quero que me entenda mal, mas eu não acho que deveríamos… o que eu quero dizer é que talvez ninguém deva saber sobre isso. ― sorri, finalmente entendendo o que era o elefante branco em nossa sala de estar.
― Não se preocupe, , seus segredos estão a salvo comigo. ― brinquei. ― Fora isso, tá tudo bem mesmo? Sua cabeça não foi pra nenhum lugar ruim, né?
Paramos em frente à uma escadaria que levava a portaria de um prédio não tão alto. O local tinha a cara dela: pintura amarela, bordas das paredes ornadas por tijolos à vista. Na maioria das sacadas individuais, plantas das mais variadas espécies.
― Chegamos. E, não, minha cabeça não foi pra nenhum limbo maligno. ― rimos.
estendeu a mão e meus olhos saíram de seu rosto apenas para conferir o gesto. Ri baixinho e a segurei.
― Obrigada por ter me acompanhado.
Usei a mão que a segurava para lhe puxar para mais perto, desestabilizando-a de um jeito engraçado. Envolvi sua cintura com meu braço livre.
― Você sabia que, se vamos fingir que um beijo não existiu, podemos fingir que dois não existiram, né? ― arqueou as sobrancelhas, surpreendida. ― A não ser que você que não queira que um segundo exista… ― deixei no ar.
Em absoluto silêncio, estava com aquele olhar de quem ponderava sobre algo. Seus olhos intercalaram entre os meus e minha boca alguma vezes, como se decidisse se iria ouvir a razão ou a emoção.
― Foda-se. ― ouvi-a murmurar baixinho pouco antes de envolver meu pescoço outra vez em seus braços.
Satisfeito, pressionei seu corpo contra o meu o máximo que consegui.
Aquele, sim, era o tipo de estímulo que eu necessitava para produzir serotonina pelo resto da semana.


#6 A confissão

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 23º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


Depois de esfolar um dos joelhos no carpete devido ao atrito, saí de dentro dela para conferir a situação, dando uma risada dolorida pela ardência na pele. Vendo que não havia sangue nem nada com que me preocupar, posicionei-me outra vez para penetrar Isis. No entanto, saindo de baixo de mim, empurrou-me delicadamente pelos ombros, indicando que eu me sentasse.
Assim que o fiz, encostando as costas na parede fria, a mulher pôs cada uma das pernas de um lado do quadril, lentamente, deslizando meu pau para dentro de si, como se me engolisse.
Começando devagar e aumentando a velocidade muito antes do que eu esperava, não desgrudava a boca da minha no intuito de abafar nossos gemidos. As paredes eram finas demais e, apesar do barulho externo, nenhum de nós dois era um exemplo de silêncio, logo, qualquer um dos passantes nos ouviria.
Abraçando seu tórax, aproximei-a do meu corpo. Sem imprimir a mesma força de quando mordi seu abdômen, mordi seu pescoço, sua clavícula e ainda mordisquei a ponta de seu ombro, fazendo-a soltar um suspiro e um sorriso.
Estava tão calor que nossos corpos pareciam colados e que teríamos que nos destacar um do outro como velcro. Todavia, eu gostava da sensação do corpo de no meu. Era como se ela fosse meu encaixe perfeito.
resfolegava devido à temperatura e a falta de ar, porém nem isso foi capaz de pará-la. E isso era válido para mim também. Nunca tinha sentido tanta sede na minha vida, entretanto, sabia que, se necessário fosse e tendo-a ao meu lado, poderia passar um mês inteiro com apenas alguns litros de água.
estava prestes a gozar e o que me dizia isso não eram suas pernas trêmulas nem seus gemidos mudos, mas sim suas pálpebras fortemente pressionadas uma contra a outra e as pequenas contrações que as paredes de sua vagina faziam enquanto ela tentava retardar ao máximo o orgasmo que estava por vir.
Perdendo o pouco de controle que tinha sobre seus músculos, se desfez em um dos orgasmos mais lindos que já tive a honra de lhe proporcionar e assistir. Se eu acreditasse em toda essa besteira de Deus, paraíso e inferno, diria que aquela mulher era um ser angelical.
Por mais que do lado de fora houvesse um barulho ensurdecedor, ali, tudo que eu conseguia prestar atenção era em sua respiração ofegante, em seus olhos sorridentes e no som do meu próprio coração batendo. Não conseguia parar de sorrir olhando seu rosto cansado e suas bochechas avermelhadas pelo calor.
Haviam tantas coisas que gostaria de dizer a ela, mas sabia que nenhuma palavra contemplava por inteiro a intensidade muito menos mensurava o tamanho dos meus sentimentos por aquela mulher que se esforçava tanto para esconder o que sentia.
― Isso foi uma vingança? ― perguntou vendo o vergão avermelhado emoldurado por parte da minha arcada dentária próximo ao seu umbigo.
Sentada no meu colo, mantinha certa distância entre nós que conseguíssemos nos olhar. Já eu, mantinha as mãos em seu quadril, pois gostava da sensação da sua pele em contato constante com a minha.
― Tá doendo? ― cutuquei, fazendo-a rir.
― Não. Espero que não fique roxa.
― Tomara que fique pra, se alguém chegar a ver, saber que você não esteve sozinha nos últimos dias. ― segurando seu rosto entre minhas mãos, puxei-a para perto e selei nossos lábios.
― Querendo marcar território? ― brincou.
― Prefiro dizer que estamos construindo memórias juntos. ― rimos. ― Isis, na realidade, tem algo que eu quero te dizer. ― pigarreei assim que parei de rir. Sabia que aquela era minha última oportunidade de dizer a ela o que precisava antes de partir e passar meses distante.
Mesmo se empenhando para permanecer com a mesma expressão tranquila de antes, a forma como seus ombros enrijeceram e seus olhos pareceram ficar absortos não passou despercebida por mim.
Escolhendo as melhores palavras que poderia usar, pus pequenas mechas de seu cabelo atrás das suas orelhas, fitando-a nos olhos.
― Eu acho que eu amo você. ― segurei suas mãos entre as minhas. Na verdade, eu tinha certeza que a amava, mas também sabia que talvez a certeza tivesse um peso que não estava disposta a aceitar.
Vendo a vinca que se formou entre suas sobrancelhas, completei:
― Não quero que você se sinta pressionada a me dizer algo ou a me corresponder, só achei que você deveria saber. ― virando sua mão, beijei suavemente a palma.
O silêncio que se seguiu foi ainda mais constrangedor do que imaginei que seria. Ótimo, ela não sente o mesmo e vai se sentir obrigada a me dizer algo.
parecia congelada. Não disse nada, não se moveu e, aparentemente, mal respirava. Essa reação se estendeu por quase um minuto, o que me deixou verdadeiramente aflito. Ao que dava a entender, eu realmente era só uma foda boa que ela continuava repetindo até que uma melhor surgisse em sua vida.
Já arrependido de ter dito o que deveria ter continuado guardado, fui surpreendido quando, inesperadamente, me abraçou forte. De início, não entendi o que aquele abraço significava. Todavia, após alguns segundos compreendi que aquela era a demonstração de todas as coisas que ainda não conseguia pôr em palavras.
Beijei seu ombro durante longos segundos, explodindo internamente de felicidade por estarmos na mesma página.
Ao desvencilhar-se de mim, a mulher segurou meu rosto entre suas mãos, sorrindo e me olhando nos olhos e, assim, gastamos nossos últimos minutos na companhia um do outro.


#Especial - A despedida e o recomeço

[n/a: essa é uma releitura de uma cena do 30º capítulo de "nothing revealed, everything denied"]


Tahliah tinha demorado mais que o usual para se arrumar e, por isso, mesmo tendo chegado cedo em sua casa, nos atrasamos para o início da festa. Não que eu estivesse o poço de animação para ir. Ter de ir a um baile como aquele me lembrava de última vez em que tinha pisado em um baile como aquele e algo dentro de mim se remexia com força, se chocando contra o meu estômago, dando-me a sensação de que vomitaria a qualquer momento.
Notando que estava distante, Tahliah me questionou algumas vezes se estava tudo bem mesmo e se não gostaria de ficar em casa só desta vez ou, quem sabe, fazer qualquer outra coisa que não envolvesse um monte de gente de roupa social, bebendo champanhe e comemorando as gordas contas bancárias que só aumentavam a cada mês. Respondendo que estava tudo bem, tentei tranquilizá-la, dizendo que poderíamos voltar mais cedo e assistir um filme ou algo do gênero. Sorrindo, depositou a mão sobre a minha coxa e disse que eu não precisava fingir que estava tudo bem.
A verdade era que havia outros motivos por trás do meu desconforto.
Tahliah e eu estávamos saindo há alguns meses. Tudo havia começado com um flerte por mensagens diretas no twitter e, no fundo, eu achava que não passariam disso. Tamanha foi a minha surpresa ao ler e reler que ela aceitava, sim, sair comigo. Ainda não namorávamos oficialmente, porém já não era mais algo informal.
Uma das primeiras coisas que a mulher me perguntara quando estávamos nos conhecendo era se realmente eu havia saído com a jornalista cuja foto circulara pela internet alguns anos antes. Não querendo iniciar o que quer que fosse baseado em uma mentira, contei tudo a Tahliah em uma tarde de temperatura amena enquanto caminhávamos por um parque em sua vizinhança.
Sem esquecer nenhum detalhe, contei a ela desde como havia conhecido , como ela não me suportava no início e como eu gostava de inferniza-la, pois achava que ela ficava muito bonita irritada. Ouvindo tudo atentamente, a mulher fazia perguntas sobre pontos que lhe pareciam interessantes: se pensamos em assumir publicamente, quanto tempo havíamos ficado juntos, por que tínhamos terminado… tudo.
Tahliah não parecia ter uma curiosidade maldosa em relação a história, parecia apenas tentar entender o que havia acontecido entre nós. Por isso, não hesitei em dizer a ela que, sim, a tinha chamado para sair porque estava interessado nela, a achava uma mulher atraente, com uma voz incrível e por ter interesse de que fizéssemos uma parceria musical, mas, para mim, ainda era muito cedo para afirmar com toda a certeza de que havia esquecido .
Na realidade, talvez isso nunca fosse acontecer. Afinal, salvara minha vida incontáveis vezes, fosse através do amor que dedicara a mim dia após dia, fosse me resgatando da morte física que a overdose quase me causara.
Diferente de qualquer uma das reações que imaginei que teria, Tahliah sorriu e me envolveu em meio aos seus braços, sussurrando próxima de mim:
― Jamais te pediria isso. ― desvencilhou-se de mim, segurando minhas mãos. ― Na verdade, acho que terei que agradecer a ela quando nos encontrarmos pessoalmente. ― ri, desviando o olhar.
Apesar de ter se mostrado compreensiva desde o início e conseguir entender meus sentimentos em relação a Tahliah com muita clareza, não sabia como seria rever depois de tanto tempo e isso me frustrava, pois não queria que Tahliah se sentisse traída ou coisa do tipo.
Quando chegamos ao local, estacionei o carro e, após descer do veículos, ajudei minha companheira a fazer o mesmo.
Passando pelas portas do salão, cumprimentei Steve, o segurança, desejando-o uma boa noite de trabalho, além de lhe dizer que, assim que possível, lhe levaria alguns canapés, já que o buffet daquele dia valia muito a pena.
Todavia, mais cedo que esperei, a vi. Nossos olhares se cruzaram como se tivessem sido magnetizados um pelo outro, como costumava acontecer desde que havíamos nos conhecido. As feições eram sérias, quase profissionais. Ela jamais esquecia a que tinha vindo.
Sentindo uma crescente ansiedade em meu peito por aquele mísero contato, dei um meio sorriso, sendo correspondido da mesma forma e aquilo me acalmou. Estamos bem, afinal. Segundos depois, voltou a encarar Bea, que tagarelava sobre algo à sua frente.
Após ter corrido os olhos por todo o salão, Tahliah avistou um grupo de amigos. Tendo que ir pelo menos dizer “oi” para Jamie e os outros velhos com quem conversar, disse a ela que fosse ver seus amigos, pois teríamos tempo suficiente ao final da noite para ficarmos grudados um no outro. Beijando o canto dos meus lábios, a mulher desvencilhou o braço do meu e caminhou daquele seu jeito flutuante para o outro lado do salão.
Agarrando uma taça de champanhe de uma das bandejas que passavam à minha frente sendo carregadas por garçons, dei mais alguns passos rumo a George e Jamie.
― Boa noite. ― ergui a taça em como em um brinde, recebendo sorrisos amistosos em troca.
― Chegou o homem da noite. ― Jamie saudou, copiando meu gesto.
― Achei que vocês tinham desistido de vir. ― George pôs uma das mãos dentro do bolso frontal da calça.
― Tahliah demorou um pouco mais que o normal para se vestir, nada de mais.
― Ela ou você? ― brincou o mais alto, fazendo-me rir.
― Talvez nós dois. ― riu.
― Matty, venha aqui, quero te apresentar umas pessoas. ― Oborne, a raposa astuta, atacara mais cedo que o normal naquela noite.
Dando mais alguns passos na direção dos homens mais velhos que se amontoavam próximos ao empresário, apertei algumas mãos e distribui sorrisos, posicionando-me em meio a alguns deles, com um dos ombros encostando na parede. Na posição que havia escolhido, conseguia ver todo o salão, inclusive, cuidar de , que ainda entrevistava Bea.
Ao terminar de falar com a garota, seu rosto estampava aquele sorriso agradecido que ela lançava aos entrevistados para lhes informar que já tinha tudo o que precisava. Quantas e quantas vezes a vi dar aquele sorriso. Algumas coisas nunca mudam mesmo.
― Cavalheiros, se me dão licença, preciso falar com uma pessoa. ― pude perceber de relance o olhar irritado que Jamie me lançara, porém fingi não notar. Minha noite já estava uma bagunça, não o deixaria piorar as coisas.
Caminhando a passos ligeiros, desviando das pessoas que tomavam o salão, parei às costas da mulher, que apreciava um gole de sua bebida.
― Você continua com um sexto sentido ótimo. ― sorri, pondo as mãos postas dentro dos bolsos da calça assim que se virou para mim.
― E você continua aparecendo atrás das pessoas, esperando que elas adivinhem que você tá por perto, hã? ― bebeu o último gole da taça, pondo-a sobre a bandeja do primeiro garçom que passou por nós. ― Se rendeu às pressões estéticas? ― apontou para o meu cabelo.
― Primeiro: velhos hábitos nunca morrem. Segundo: parece que não fui o único. ― acenei com o queixo para indicar seus cabelos trançados. ― Aliás ― olhei-a dos pés à cabeça, conferindo cada detalhe. ―, belo vestido e o cabelo ficou muito bem em você.
Como sempre, continuava esplêndida. Seu bom gosto para roupas a impedia de se vestir mal e o novo penteado deixava a mostra uma das coisas das quais ela mais podia se orgulhar: o rosto. Apesar das feições quase sempre sérias, tinha traços muito suaves, que nem mesmo lhe deixavam a idade transparecer e seus olhos continuavam tão grandes e brilhantes quanto conseguia me lembrar.
― Sua acompanhante não se importa que você esteja por aí dando confiança pra jornalista? ― sua voz era carregada de um tom zombeteiro.
― Ela encontrou uns amigos e está conversando. Disse a ela que iria falar com uma amiga que não via há muito tempo. ― era uma meia verdade, mas não havia como falar com Twigs sendo que fazia alguns bons minutos que não nos cruzávamos.
― Ela sabe que era comigo que você vinha falar? Ou melhor, quem sou eu?
― Ela sabe. ― intuitivamente, olhei na direção em que tinha visto Twigs quando a vi pela última vez, voltando a encarar . ― Depois que nos conhecemos, ela me fez algumas perguntas e uma delas incluía meu possível romance com a jornalista que me entrevistou.
― O que disse a ela?
― A verdade. Assim como você, ela parece que veio com um detector de mentiras de fábrica. ― riu. ― É sério. Contei a ela tudo sobre você. Como ficamos amigos, como você é uma ótima profissional e que, mesmo quando eu fui um babaca, você não me abandonou no meu momento mais difícil. ― trocamos um meio sorriso.
― Como estão todos? Ross, George, Adam? ― mudou de assunto repentinamente.
― Bem, bem. Estamos finalizando nosso quarto álbum e você já deve saber disso, né? ― assentiu.
― Sobre isso, me conte apenas coisas exclusivas que outros repórteres ainda não saibam. ― brincou.
― Sabe que não posso fazer isso, mas se pudesse faria, né? ― assentiu daquele jeito desconfiado.
― Eu conheço seu tipinho, Healy.
Encaramo-nos por alguns segundos em silêncio.
Uma figura parou ao nosso lado, fazendo-nos olhá-la.
― Desculpe a interrupção. ― Tahliah sorriu daquele jeito polido de quem teme estar se intrometendo onde não devia.
― Não interrompe. ― sorriu. ― Sou , repórter do Repeat Daily. ― apresentou-se oferecendo a mão para um cumprimento.
― Olá. É um prazer. ― trocaram um aperto de mão. ― Tahliah.
― É um prazer te conhecer pessoalmente. Sou uma grande admiradora do seu trabalho. ― e era verdade. costumava cantarolar muito em seus longos banhos e, por algum motivo, tinha uma regra onde só cantava músicas lançadas por outras mulheres.
― Você é a jornalista da revista, né? ― semicerrando os olhos, fingiu arriscar. Ela sabia muito bem quem era , então, acho que só estava tentando não parecer uma psicopata que se lembrava de tudo.
― Eu mesma. Inclusive, este aqui foi quem me deu meu passaporte de entrada nessa vida. ― depositou uma mão sobre meu ombro e senti o local se aquecer sob seu toque.
― Você escreve muito bem.
― E consideraria marcar uma entrevista comigo? ― era óbvio que ela não perderia a oportunidade.
― Por que não? Entre em contato com a minha assessoria. Vou deixá-los avisados. ― assentiu animada, como quem acaba de conseguir um item raro para a sua coleção. ― Matty querido, tive alguns problemas com a equipe do próximo show e preciso resolver ainda hoje, então, tenho que ir embora.
― Eu vou com você. ― me ofereci assim que terminou de falar.
A festa, como já imaginava, não estava tudo aquilo e rever havia remexido algumas coisas que talvez devessem ter ficado embaixo do tapete como estavam antes.
― Não é necessário. Hoje é dia de você celebrar com seus amigos, ok? ― deslizou uma das mãos pelo meu braço suavemente com aqueles olhos que diziam muito mais do que sua boca era capaz de vocalizar.
Após me ver concordar com a cabeça, Tahliah selou nossos lábios carinhosamente, despedindo-se.
, mais uma vez, foi um prazer lhe conhecer. Tenho certeza de que também será um prazer conversar com mais tempo. ― sorriu.
― O prazer foi todo meu. ― observou a outra se retirar. ― Meu Deus, ela é perfeita? ― fez uma careta demonstrando seu esgotamento e eu segurei uma risada.
― Não existe isso de pessoa perfeita, .
― Por tudo que é mais sagrado, Healy, ela parece que flutua ao invés de andar! Como foi que ela te deu bola? ― debochou e eu sorri. Às vezes também me pegava questionando isso.
― Tenho as minhas artimanhas. ― pisquei e dei um soquinho de brincadeira em seu ombro.
― Ok, garanhão. Onde estão os outros? Preciso de uma fala de alguém da banda que não seja você.
― Por que não eu? ― minha testa se franziu automaticamente.
― Porque meu chefe sabe que eu dei pra você, então, é um pouco antiético da minha parte te entrevistar, não acha? ― dei de ombros, franzindo os lábios, indiferente. ― Onde está o George?
― Engraçado que você sempre recorre a ele, né? ― resmunguei, dando voz a pontinha de ciúmes dentro de mim.
― Tá com ciuminho, Healy? ― provocou. Acho que sim.
― Não. ― ergui as mãos em sinal de rendição, fingindo inocência. ― Só estou comentando. Ele está lá, conversando com Jamie. ― apontando para o outro lado do salão, indiquei o homem alto como uma árvore.
― Se me dá licença, preciso continuar a trabalhar. ― antes que eu pudesse dizer algo, começou a caminhar rumo à meu amigo.
― Você vai ficar até o final da festa? ― virando-se para mim e dando alguns passos de costas para me olhar, lançou-me um último sorriso. Sim, ela ia ficar.
Assistindo-a pegar uma nova taça em uma bandeja e adentrar o mar de pessoas à nossa frente, só consegui voltar a realidade segundos depois de ter sumido do meu campo de visão.
A festa ainda estava no início e não poderia ir embora tão cedo, portanto, ao enxergar Rome próximo de Bea conversando, resolvi me juntar a ambos.

- x x x -


Já cansado da quantidade de merdas sobre aumentar os lucros etc etc etc que havia ouvido durante a festa toda, por volta de 1h30 decidi que era hora de sair para fumar meu sexto cigarro daquela noite que parecia não ter mais fim. Eu estava por um fio de ir embora, só precisava do gatilho certo…
E ele aconteceu justamente quando estacionei em frente ao elevador.
― Me seguindo? ― virou-se para mim com aquela feição brincalhona, porém que denunciava sua exaustão.
― Indo fumar um cigarro. Faz mais de uma hora que estou aqui dentro conversando com um monte de homens velhos a respeito do próximo álbum, que está atrasado etc. ― dei de ombros e, por um segundo, tive a sensação de sentir o peso sobre eles aliviar. ― E você?
― Indo pra casa.
― Sozinha? ― franzi a testa. sempre fora muito independente, mas, ainda assim, me preocupava com o fato de vê-la andando de madrugada só.
foi escravizada pelo velho Oborne e ela era minha carona. Não sou mais tão jovem a ponto de aguentar virar uma noite inteira acordada. ― rimos.
― Posso te acompanhar até em casa? ― franziu as sobrancelhas, deixando os lábios formarem um sorriso debochado e sugestivo na mesma medida. ― Juro que é apenas isso, te deixar em casa em segurança. ― mais uma vez, ergui as mãos em sinal de rendição.
― Ok, fico te devendo uma. ― sorriu e entrou no elevador. Segui-a como uma abelha atrás do pólen.
Ao sairmos do prédio de encontro a brisa gélida da rua, acendi um cigarro enquanto dávamos nossos primeiros passos rumo à estação de trem.
― Você ainda faz muito isso de pegar trens? ― quebrou o silêncio.
― Não com a mesma frequência que fazia quando estávamos juntos, claro. ― respondi em um tom mais baixo que o normal. Não esperava que entrássemos nesse assunto tão cedo.
― Por quê?
― Primeiro porque as pessoas agora querem conversar e tirar fotos comigo quando descobrem que sou eu. Antes elas só me deixavam lá e tiravam fotos de mim emburrado. ― rimos. ― Segundo porque me lembra de coisas que nem sempre estou pronto para reviver. ― dei uma tragada longa no cigarro.
Sim, estava falando dela e de tudo que tínhamos vivido juntos.
Andar de trem era algo tão nosso que, às vezes, eu até esquecia que tinha uma carta de habilitação e carro. Gostava de sentar ao seu lado, sentindo seu corpo levemente tocando o meu, compartilhar fones de ouvido e quase perder a estação certa de descer, pois estávamos trocando olhares daquele jeito que costumávamos fazer. Por isso, conseguia contar nos dedos de uma mãos as vezes que andei de trem depois que terminamos.
Por mais que não tivesse falado abertamente o que significava o que tinha dito, no fundo, acho que havia entendido, pois não falou mais nada. Dentro da plataforma, em silêncio, esperamos até que o trem estacionasse a nossa frente e abrisse as portas.
Sentados em um dos assentos traseiros, vi a mulher se remexer. Aparentemente, procurava algo nos bolsos laterais do vestido. Vestido tem bolso?! Retirou de lá os velhos fones de ouvido, mostrando-os para mim. Franzi a testa, sabendo o que aquilo significava.
― Faz muito tempo desde a última vez, né? ― deu um sorriso tímido e eu concordei com a cabeça, aceitando sua oferta emocionado.
Pondo para tocar As the World Caves In, de Matt Maltese, senti como se estivéssemos dentro do nosso próprio filme, onde o final não havia sido como imaginávamos. Ne verdade, nenhuma das cenas haviam sido como imaginávamos, afinal, quando a beijei pela primeira vez, o fiz porque a achei interessante, não por querer que, meses depois, começássemos a namorar.
Quando chegamos à sua estação, tirei meu lado do fone, entregando à ela e saímos um atrás do outro de dentro do vagão, rumando outra vez para a rua fria.
Tendo percorrido o pequeno trajeto entre a estação e sua casa, paramos em frente ao portão de entrada do prédio. começou a brincar com as chaves entre os dedos, como se estivesse pensando sobre algo. Até verbalizar:
― Você quer subir um pouco? ― de novo, franzi as sobrancelhas sem entender onde a mulher queria chegar com aquilo. Por favor, Healy, não banque o inocente, você sabe o que ela quer. ― Sem segundas intenções. ― completou. Porra, eu sou muito idiota mesmo. Só falta latir.
― Ok. ― dei um meio sorriso sem ter certeza se estava tomando a decisão certa.
Novamente quietos, adentramos no edifício e seguimos pelo corredor até seu apartamento um atrás do outro. Ao abrir a porta, foi, muito provavelmente, para seu quarto, retornando alguns minutos após sem os sapatos.
― Que tal uma cerveja?
― Você ainda sabe recepcionar muito bem suas visitas. ― a mulher sorriu e eu só conseguia me questionar o que realmente estava fazendo ali. Eu sabia o que poderia acontecer se ficássemos sozinhos.
Na última vez em tínhamos nos visto no aniversário de Ross, há quase sete meses, quase tínhamos transado na dispensa, não fosse pelo aparecimento repentino de George, que havia esquecido o celular sobre o armário de copos.
Ouvindo o barulho da garrafa sendo aberta, recobrei a consciência do momento presente, aceitando a cerveja que me estendia.
― Ano passado você entrevistou a Phoebe de novo, né? ― tentei quebrar o iceberg que, pouco a pouco, parecia ainda maior entre nós.
― Ah, sim. Ela é adorável, né? ― deu o primeiro gole em sua bebida assim que a abriu.
― Ela é ótima mesmo. ― concordei e bebi. ― Você sabe que ela vai lançar um álbum novo ano que vem?
― Ela comentou algo comigo. ― balançava a cabeça para cima e para baixo devagar enquanto falava.
― Eu já ouvi e é incrível. Como quase tudo que aquela garota faz. ― comprimi os cantos dos lábios para formar um sorriso.
― Vocês se conhecem há muito tempo? ― Pronto, vai começar a entrevistar.
― Não, mas sabe aquele tipo de conexão que não temos sempre na vida? ― Sim, Matty, dê entrevista pra sua ex às 03h da manhã. ― Foi isso. ― bebi mais um gole, subitamente me lembrando dos dias que havia ficado em estúdio com Phoebe. ― Ah, meu Deus!
― O quê? ― seu rosto se franziu em incompreensão.
― Tem algo que quero te mostrar. ― tirei o celular do bolso, procurando o arquivo que precisava na devida pasta. ― Pronta? ― parecendo hesitante, assentiu.
[n/a: coloca essa aqui pra tocar]
Ainda sustentando uma feição confusa, ouvia os primeiros acordes da música.
― Me daria a honra dessa dança? ― estendi a mão em convite, vendo-a dar um meio sorriso.
― Você e suas danças, né?
― Aceita logo, mulher. ― rindo, chacoalhei a mão para que aceitasse de uma vez por todas.
Tão logo que a mulher segurou-a, aproximei nossos corpos, depositando a mão livre em sua lombra. Como já havíamos dançado antes, a guiei em passos vagarosos e ritmados pela sala.
― Phoebe? É música nova? ― suas sobrancelhas ainda estavam contraídas.
― Perguntei pra ela se podia mostrar pra pessoa que essa música me lembrava. ― deu um pequeno sorriso. ― Não tivemos tempo pra eu te perguntar antes, mas como estão as coisas nessa cabecinha? Tudo sob controle? ― mudei de assunto, pois achei que a música já estava fazendo o suficiente criando aquele clima de casal prestes a se beijar pela primeira vez.
― Saí dos remédios há uns meses e estou pensando em voltar a estudar.
― Sério? ― assentiu com um lindo sorriso orgulhoso estampado no rosto. ― O que você vai fazer?
― Mestrado na minha área. Ainda não é nada certo, estou apenas considerando a ideia e tentando me planejar pra, caso realmente decida fazer e não consiga uma bolsa, eu tenha como pagar.
― Se for por falta de grana… ― assimilando o que aquilo significava, não pude deixar de me sentir na obrigação de oferecer.
― Não termine essa frase, por favor. ― interrompeu-me.
― Por quê? Se você quer e não puder pagar…
― Matty… ― não me deixou completar a oferta pela segunda vez.
― Eu insisto. ― foi minha vez de impedi-la de prosseguir com a teimosia. ― Me deixe fazer pelo menos isso por você. ― deu um sorriso fraco, silenciando-se.
Segundos depois, questionou:
― Posso te fazer uma pergunta que nunca fiz antes?
― Quantas quiser.
― O que exatamente você viu em mim? ― estranhando a pergunta, franzi a testa.
― Por que isso agora?
― Bom, você conseguiu sair com a FKA Twigs, que, no meu conceito, é uma das mulheres mais deslumbrantes e elegantes que já vi na vida. Então, fiquei me perguntando isso.
― A lista na realidade é imensa. ― sorri, pensando em como fazer um breve resumo de tudo que achava sobre ela. ― Você é perspicaz, observadora, uma ótima ouvinte, tem uma habilidade excepcional com as palavras e, apesar de você achar que não, toca guitarra muito bem. ― riu, provavelmente, se lembrando do dia que passamos juntos no estúdio que tinha em casa quando morava com George. ― Mas nem precisaria de tudo isso porque você é linda, gostosa pra caralho e tem o cabelo mais hidratado do mundo. ― não sabia se aquelas palavras deveriam ter sido ditas em um tom de voz tão alto ou se deveriam ter sido vocalizadas, visto que não éramos mais tão próximos assim. Entretanto, quando vi a força que fazia para segurar a risada, entendi que sim, ainda podia lhe dizer aquelas coisas. ― Aliás, sempre quis saber como você faz isso. ― pigarreei. ― E, na verdade, quem deveria fazer essa pergunta sou eu, né? Meu cabelo é seco e geralmente eu não penteio ele. Você odeia cigarro e eu sou uma tabacaria ambulante. E nem vamos entrar na parte da dependência química.
― Ainda assim, você tem um ótimo senso de humor, é charmoso, é criativo e muito bom quando faz música. E tem outras coisas nas quais você é ótimo, mas acho que é um pouco tarde pra falarmos sobre isso. ― ri, entendendo exatamente do que ela estava falando.
Se havia algum lugar em que funcionávamos em perfeita sincronia, esse lugar certamente era a cama. Quando ainda estávamos juntos, adorava passar períodos de tempo longos longe de porque significava uma única coisa: sexo. Intensas e incansáveis sessões terapêuticas de sexo. Em um único dia, era capaz de me fazer produzir serotonina em quantidade suficiente para sobreviver a uma semana estressante.
― Você se lembra daquele dia que você achou meu estoque pessoal no meu quarto e eu te disse no telefone que você é esse tipo de pessoa apaixonante? ― assentiu vagarosamente. ― Olhando pra você agora, eu me lembro de tudo. De todas as sensações. De quando pus meus olhos em você pela primeira vez. Da nossa primeira conversa franca naquele quarto de hotel. Do nosso primeiro beijo. Da primeira vez que nós fodemos no sofá da minha casa e de como achei, na primeira sentada que você deu, que você fosse me quebrar ao meio. ― riu, mas eu falava muito sério.
Na cama, não fazia muito o tipo que gostava de ser dominada, muito menos o tipo que faz de tudo para agradar. fazia apenas o que gostava e o fazia muito bem por acreditar que prazer era uma busca individual. Talvez por isso ela sempre desse o seu melhor.
― Pelo amor de Deus, Healy! ― quase gritou com as bochechas ganhando uma tonalidade rosada.
― Enfim, eu me lembro da sensação de amar e ser amado por você e era… tão bom. ― sorri ao efetivamente visualizar em minha mente os bons momentos que tínhamos compartilhado. Tomando fôlego, prossegui: ― Você me amou e acreditou em mim quando eu achei que ninguém mais era capaz de fazê-lo. E eu sinto que, não importa quando ou onde nos conhecêssemos, eu continuaria me apaixonando por você. Nem que fosse por um breve momento. Alguns minutos que fosse. ― mesmo sem muita consciência de que iria falar tudo aquilo, despejei sobre ela, pois sentia que só conseguiria seguir em frente se a deixasse saber de tudo.
― Você fica muito bonito com essa carinha saudável, sabia? ― mudou de assunto rapidamente, bem como mudou de expressão facial, abandonando a feição envergonhada que seu rosto tinha assumido anteriormente. ― Como tem sido depois de algum tempo recuperado?
― Alguns dias são horríveis e eu mataria por uma dose de qualquer coisa que me derrubasse por cinco minutos que fosse. Outros, são mais fáceis e suportáveis, mas tenho gostado muito de estar limpo, de me sentir limpo. Consigo fazer quase tudo que não conseguia enquanto usava, tipo dormir. ― de todas as pessoas no mundo, era uma das únicas com quem eu conseguia ser 100% honesto e compartilhar todos os detalhes, pois sentia que compreendia cada uma daquelas palavras e o que significavam. ― E eu devo tudo isso à você, .
― Você não me deve nada.
― Devo, sim. Você não tinha obrigação nenhuma de ficar comigo e cuidar de mim. Não depois do que eu fiz no seu aniversário. E você poderia ter perdido seu emprego por mim. Obrigado é o mínimo que eu te devo.
― Depois de ter terminado com você, me questionei durante muito tempo o que me fez ficar, mesmo depois do que aconteceu. ― seus olhos estavam ligeiramente avermelhados e a mulher piscava em intervalos menores. ― Mas eu não fiquei porque te amava. Eu fiquei por ter sido a primeira vez que me senti vista. Você olhou pra mim e viu o que nenhum outro viu. Não uma mulher frágil ou dramática. Me viu como uma pessoa que estava e ainda está tentando juntar os pedaços, trilhar o próprio caminho. Me viu como alguém digno de afeto e me proporcionou momentos que jamais vou ser capaz de esquecer, mesmo que eu queira. ― ao encostar a cabeça em meu peito, envolvia-a em um abraço, depositando um beijo no alto de sua cabeça.
Apesar de trançados com fios sintéticos, seus cabelos ainda tinham o mesmo cheiro que costumavam ter anos atrás, enchendo meu peito de nostalgia.
― Se eu pudesse, faria tudo diferente. ― sussurrei próximo ao meu ouvido, sentindo um nó tomar conta da minha garganta. ― Faria tudo que estivesse ao meu alcance pra não te ver chorar e nem te machucar como eu fiz.
― Você e Twigs formam um belo casal. ― novamente, mudou de assunto. Quem sabe ela só não quisesse dar espaço para as lembranças que a fariam chorar. ― É sério?
― Está ficando.
― Ela deve ser incrível.
― Ela é. ― suspirei ao relembrar da mulher que provavelmente me esperava em casa. ― Quando tivemos a conversa sobre você, não foi só porque ela queria saber se era verdade. Foi porque ela também quis saber como tinha sido o processo de ficar limpo e precisei falar sobre a pessoa que mais acreditou que eu conseguiria. ― trocamos um sorriso.
― Tudo isso é mérito seu, eu só te incentivei.
A música estava encerrando e sentia que o momento de partir estava chegando. Entretanto, era ótimo saber que e eu ainda conseguíamos compartilhar algo assim.
― Você esteve ao meu lado e eu jamais vou ter te agradecido o suficiente. ― desvencilhando-me brevemente de seu corpo, segurei seu rosto entre minhas mãos, encostando nossas testas. Ao vê-la fechar os olhos, copiei seu gesto. ― Às vezes, sinto como nunca mais fosse ser capaz de amar outra pessoa como eu amei você. ― depositou as mãos sobre as minhas. Milésimos de segundos depois, senti meus dedos úmidos.
Abri os olhos e, com os dedões, sequei as lágrimas que rolavam livremente por seu rosto.
― Eu preciso te dar uma coisa. ― abriu os olhos, encarando-me.
Peguei o celular que havia deixado sobre a estante e comecei a procurar pelo segundo arquivo que havia mantido guardado ao meu alcance para o caso de encontrá-la por aí.
― Escrevi algo pra você há algum tempo. É uma música. Só, por favor, não ouve agora. Achei que teria coragem de te mostrar pessoalmente, mas, de repente, sinto que não tenho pra mais nada. ― ri nervoso como nunca havia me sentido antes. Nunca tinha assumido para nenhuma das pessoas com quem havia me relacionado que havia escrito uma música para ela, com exceção de membros da minha família, claro. ― Só vou inclui-la no álbum se você aceitar, ok? Então, se não estiver tudo bem ou não gostar, me avise. ― assentiu.
― Nunca imaginei que meu dia de glória de ter uma música abertamente minha chegaria.
― O único jeito de não ganhar uma música sua é só se você não se envolver com músico. ― rimos.
Alcançando minha garrafa de cerveja, bebi o resto do conteúdo silenciosamente, sem tirar os olhos dela.
Como era comum quando estava próximo de , não conseguia parar de sorrir. Tudo nela me deixava alegre, além de que ter tido a oportunidade de lhe falar tudo o que sentia francamente havia me deixado mais leve, como se finalmente conseguisse seguir adiante com o que quer que estivesse estacionado em minha vida.
― Acho que eu deveria ir. ― como quem volta de seu mundinho pessoal, assentiu, dando algumas piscadas um pouco mais fortes.
― Ah, claro. ― pegando a garrafa de minha mão, seguiu até a cozinha, voltando para me acompanhar até a saída.
Já em frente a porta aberta, dei um beijo em sua testa e a abracei afetuosamente, como costumava fazer.
― Por favor, volte a fazer parte do nosso círculo social. Não tem tanta graça sem você. ― trocamos um sorriso cúmplice. ― Se não for demais pra você, claro.
― Twigs não vai se importar? ― hesitou.
― Tenho certeza de que Tahliah vai adorar você. ― respondi sinceramente.
― Eu vou tentar. ― assenti.
― Boa noite, .
― Boa noite, Matty. ― com metade do corpo porta a fora, ficou me observando até o instante que entrei no elevador e sumi de seu campo de visão.
Sozinho pelas ruas de Londres, não tive coragem de ir até a estação de trem para voltar ao prédio onde acontecia a festa e buscar meu carro. Portanto, caminhando até um ponto de táxi, entrei no primeiro cujo motorista estava disponível.
Entrando em uma conversa animada sobre a música que tocava no rádio, que eu desconhecia, contei a Fred sobre como era ser músico e tudo o mais. Ao dizer o nome da banda da qual fazia parte, Fred contou que sua filha de 20 anos era nossa fã e perguntou se, antes de ir embora, não poderia lhe dar um autógrafo e gravar um pequeno vídeo lhe mandando um beijo.
Antes de concordar, uma notificação fez meu celular apitar alto dentro de meu bolso. Pegando-o em mãos, vi a mensagem de :

“Obrigada por isso. É uma música linda.”

Após, durante segundos que pareceram durar uma eternidade, meu celular sinalizava que digitava algo. Por fim, a sinalização desapareceu, como quem havia desistido de mandar o que quer que fosse. Decidi, então, respondê-la:

“Obrigado por ter me proporcionado amor quando achei que não seria capaz de amar mais nada nem ninguém”

Em seguida, enviei:

“Mais uma vez, boa noite,

Não contive um sorriso ao ler seu “Boa noite, Matty” com sua voz doce ecoando em meus pensamentos.
― Recebeu mensagem da patroa? ― a voz de Fred me puxou de volta a realidade presente.
― Ah, não, não. É só… uma amiga. ― dei um meio sorriso.
― Vocês jovens tem um jeito engraçado de rotular as coisas hoje em dia. ― ri.
― Quê?
― Pelo jeito que você sorriu, talvez devesse considerá-la além do que apenas uma amiga.
― Nós já… ― tentei responder depois de algum tempo, porém não consegui dizer a palavra. ― Não deu muito certo.
― Você pisou na bola? ― olhou-me pelo retrovisor ao parar em um semáforo vermelho.
― Como sabe que fui eu?
― Você não estaria falando com ela se ela tivesse sido a culpada. ― sorri.
Touché.
Logo que o semáforo abriu de novo, Fred voltou a conduzir pelos poucos metros que faltavam para chegarmos ao nosso destino final.
Estacionando em frente ao prédio, paguei pela corrida, autografei um pedaço de papel e gravei um vídeo ao lado de Fred, agradecendo a Carly, sua filha, pelo apoio a banda, mandando-lhe um beijo e dizendo que a amava. Despedi-me do taxista com um aperto de mão e fui buscar meu carro no estacionamento.
Minutos mais tarde, ao chegar em casa, entrei tentando fazer o máximo de silêncio possível para, caso Twigs estivesse dormindo, não acordá-la. No entanto, como já era de imaginar, a mulher estava acordada, sentada sobre a cama, comendo pipoca e assistindo Os fantasmas se divertem.
― Demorei muito? ― desfiz o nó da gravata, sentando-me na cama.
― Não demorou, mas confesso que fiquei com medo que você não voltasse para casa hoje. ― não desviou os olhos da televisão, colocando algumas pipocas na boca.
― Por quê? ― franzi as sobrancelhas, abrindo os botões da camisa e tirando-a de dentro da calça.
― Por causa dela.
? ― não respondeu.
Ajeitando-me para ficar de frente para ela, peguei o controle remoto e pausei o filme, para fazê-la me olhar.
― Se você não queria que nós falássemos ou que ficássemos sozinhos, era só ter me dito.
― Eu jamais te pediria isso. Sei o quanto ela significa para você. ― umedeceu os lábios. ― Mas… saber disso também me deixa insegura às vezes.
― Você não tem nada com o que se preocupar. Tenho muito carinho pela , mas eu estou com você, não com ela, ok? ― segurei seu rosto entre minhas mãos, dando um beijo em sua testa antes de me levantar para tirar as calças e trocar a regata branca que vestia embaixo da camisa por uma blusa de manga comprida.
Sentei-me ao seu lado na cama, ajeitando as cobertas sobre as pernas e soltando o filme novamente. Colocando algumas pipocas na boca, não contive um sorriso ao ver Tahliah rir de uma situação no filme.
Seria uma mentira deslavada de minha parte dizer que não amava mais . Talvez eu jamais fosse capaz de esquecê-la ou esquecer tudo o que havia feito por mim. No entanto, Tahliah, que havia chegado há tão pouco tempo, já havia trazido alegria de volta a minha vida. Como bem apontado por , tudo nela soava perfeito e harmônico. O jeito suave como falava e se movimentava, os olhos grandes e pouco expressivos, os lábios em formato de coração, o corpo esguio e pequeno em relação ao meu.
Quando as coisas pareciam estranhas e sem sentido, lá estava ela com aquele silêncio confortável e abraços que mais pareciam um lar.
Se amar era como uma chuva inesperada de verão, que chegava e molhava a tudo e a todos sem exceções, amar Tahliah era como boiar em um mar sem ondas, sempre tranquilo. E, depois de ter sido engolido pelo tsunami avassalador que era , queria poder reconstruir cada pequeno pedacinho do meu coração ao lado dos dias ensolarados de Twigs que secavam qualquer enchente.
― Tahliah?
― Sim, querido? ― seus olhos continuavam a assistir o filme.
― Nós estamos namorando? ― olhando-me, sorriu.
― Deveria ser eu a fazer essa pergunta, não? ― comeu mais algumas pipocas. ― A conversa entre vocês rendeu? ― assenti.
― Eu finalmente consegui dizer as coisas que queria ter dito a ela e nunca tive a oportunidade. ― desviei o olhar para o pote de pipoca.
― Isso te fez se sentir melhor?
― Fez eu me sentir… livre.
― E era assim que você queria se sentir?
― Era isso que eu precisava. ― admiti.
― Então, fico feliz que tenha alcançado isso. ― sorri.
― Às vezes me pergunto o que fiz para te merecer.
― Talvez um dia você descubra, amor. ― selou nossos lábios.
Passei um dos meus braços sobre seus ombros assim que relaxou a postura e recostou-se em meu ombro para assistir ao filme.
Espero que você também encontre amor na sua caminhada, .




Fim.



Nota da autora: Bom... chegamos ao fim aqui também. Depois de alguns dias sem nenhum contato com nada que tinha escrito dessa história, o diálogo da Isis e do Matty bateu forte aqui e eu ~quase chorei~ TÃO FELIZES AGORA?
Não é porque acabou aqui que nunca mais veremos o nosso casal. Estejam com os corações prontos que MUITO EM BREVE vamos revisitá-los de novo, afinal, eu sou a autora que remói até o último segundo as histórias que escreve...
De qualquer forma, de novo, quero muito agradecer todes pelo carinho e pelo amor comigo e com meus bebês. Essa história, assim como as outras que criei, é muito importante pra mim e é sempre uma delícia saber que importou pra mais gente também.
Amo vocês e até a próxima <3


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