Capitulo Único
O e-mail chegou às 9h12, estourando na caixa de entrada de todo mundo como se fosse notícia urgente.
Para alguns, era. Para outros… era só mais combustível para fofoca.
“É com grande satisfação que anunciamos a promoção de ao cargo de coordenador…”
encarou a mensagem com a mesma expressão com que encarava qualquer coisa desde que entrara na empresa: neutra, calma, quase impassível. Ele piscou devagar, soltou um suspiro curto e se recostou na cadeira. Nada de comemoração. Nada de levantar para agradecer. Nada de sorriso.
Ele só clicou em “marcar como lida”.
E era por isso — pelo jeito quieto, reservado, quase misterioso — que o andar inteiro já estava agitado antes mesmo de ele terminar de ler.
— Nossa… não demorou, né? — murmurou uma das meninas da equipe de projetos, com a voz carregada daquele veneno leve que ela tentava disfarçar com risadinha.
— Rápido até demais — concordou outra, tomando um gole de café como se estivesse analisando um crime.
ouviu. Claro que ouviu.
Mas continuou parado, abriu uma planilha e fingiu que não tinha gente analisando sua vida como se fosse tópico de reunião.
Ele era bom em fingir.
A empresa inteira, porém, era ainda melhor em transformar qualquer coisa em história.
E a história do dia estava só começando.
Na copa, cinco minutos depois, a fofoca já tinha mudado de tom.
— Gente, vamos ser sinceros? Ele vive na sala do chefe.
— Sim! Vive mesmo.
— Eu sempre achei uma vibe meio… — a mulher fez um gesto com a mão, imitando “desmunhecando” o pulso e deixando a mão frouxa.
A amiga engasgou de rir.
— Para! Não fala isso…
— Ah, eu hein. Tem coisa aí.
E pronto.
O boato nasceu.
E boato, naquela empresa, nunca nascia pequeno.
Enquanto isso, tentava ignorar a movimentação ao redor da própria mesa. O clima estava estranho demais para uma manhã normal. Ela já tinha escrito a mesma frase três vezes no relatório, porque toda hora alguém cochichava mais alto do que deveria.
— Você viu, o foi promovido. — Uma das mais fofoqueiras do setor dela começou e sabia que não sairia nada de bom daquela conversa.
— Ele e o chefe são tão… próximos. — Outra comentou na conversa.
— Vocês ouviram semana passada? Aqueles barulhos?
— Eu ouvi! Pensei que fosse coisa da minha cabeça, mas agora…
fechou os olhos por um segundo.
Droga.
Ela sabia de quem eram os barulhos. E definitivamente não era o teste do sofá do .
Não queria que a culpa viesse tão rápido, mas ela veio — quente, afiada, latejando no fundo do estômago.
A memória apareceu inteira, sem pedir permissão:
a porta da sala do chefe fechando às pressas, o corpo dele pressionado ao dela, o som baixo que virou alto demais, a respiração quente no pescoço dela.
Aquela noite idiota.
Aquela decisão pior ainda.
Ela não voltara à sala dele desde então.
E já fazia semanas que sequer trocava um “bom dia” que não fosse necessário.
Mas saber que estavam usando aquilo — aquilo — para ferrar outra pessoa…
O incômodo se transformou numa espécie de raiva silenciosa.
ergueu o olhar. estava do outro lado do corredor, mexendo no computador com a postura tranquila de sempre. Se havia alguém na empresa que realmente merecia uma promoção, era ele.
E agora estavam manchando o nome dele por causa de uma história que não tinha nada a ver com ele.
Ele desviou o olhar da tela num momento, como se sentisse ser observado. Os olhos dele passaram pela sala, quase sem expressão, até encontrarem os dela.
congelou por meio segundo.
não sorriu, mas inclinou a cabeça, num aceno mínimo de reconhecimento.
Ela devolveu o gesto, meio rápido demais, e fingiu que estava ocupadíssima com a tela.
Mas o incômodo não passou.
Pelo contrário — parecia aumentar a cada novo cochicho que surgia.
— Você acha que é verdade? — O papo ainda rolava atrás dela.
— Que ele dormiu com o chefe? Total.
— Sempre achei uma química estranha entre os dois.
— Vai ver o chefe promoveu o namorado e é isso.
respirou fundo.
Ela nunca fora santa. Nunca fora ingénua.
Mas também nunca tinha gostado de injustiça.
E aquela tinha tudo para virar uma bola de neve.
Uma bola de neve enorme.
E ela tinha a impressão incômoda de que aquilo, de algum jeito, ainda ia cair sobre ela também.
Os boatos não diminuíram. Na verdade, parecia que tinham ganhado pernas, braços e uma velocidade olímpica. A cada dia, chegava ao escritório e descobria uma nova versão da própria vida amorosa que, aparentemente, todo mundo sabia menos ele.
Naquela manhã, observava de longe enquanto duas assistentes comentavam perto da máquina de café.
— Ouvi dizer que ele só ganhou a promoção porque o chefe dele gosta dele — disse uma, baixando a voz que, ainda assim, ecoou pelo corredor.
— “Gosta” é pouco — a outra riu. — Dizem até que é por isso que ele não sai com ninguém daqui…
revirou os olhos tão forte que quase viu o próprio cérebro. Sabia exatamente por que nunca dava trela para ninguém da empresa, e nada tinha a ver com o chefe — tinha a ver com o fato de que ele era discreto, reservado, e provavelmente preferia mastigar vidro a participar da bagunça emocional que vivia ali dentro.
E, se fosse para falar de envolvimento impróprio com chefes, ela, definitivamente, estava na frente daquele ranking.
Ela respirou fundo e decidiu fingir que aquilo não estava a incomodando. Até ver passar com uma expressão tão fechada que dava até para ouvir o “não fale comigo” silencioso pairando no ar.
Ele parou na mesa dela.
— Posso me sentar? Aparentemente você é a única nessa empresa que não está comentando do meu “caso” com o chefe. — Ele fez aspas com os dedos e ficou olhando para ela.
— Claro! senta. — Ela puxou a cadeira e ele se sentou.— Estão falando de você de novo, né? — Ela disse, sem disfarçar o cansaço.
— Estão, mas… hoje piorou. — cruzou os braços.
— Piorou mesmo.— suspirou e hesitou. Não queria ser a mensageira da desgraça, mas também não suportava vê-lo carregando sozinho um boato que nem era verdade. — Agora acharam que… você foi promovido porque está fazendo sexo com o chefe na sala dele.
— Ótimo. Maravilha. Falta pouco para inventarem que eu estou grávido dele. — soltou um suspiro descrente, tombando a cabeça para trás.
não conseguiu segurar a risada, apesar da situação estar longe de ser engraçada.
— Desculpa. — Ela cobriu a boca, tentando conter um sorriso. — Eu sei que não tem graça.
— Tem um pouquinho — admitiu, voltando a olhar para ela. — Mas… também é irritante.
Silêncio por alguns segundos. Daqueles que não são desconfortáveis, mas também não são exatamente tranquilos. A curiosidade dele finalmente venceu a hesitação.
— Parece que isso está te incomodando também, tem algum motivo específico? — ele perguntou. — Você nunca ligou muito pra fofocas.
respirou fundo, juntando coragem.
Era hora.
— … — ela começou, mexendo no próprio colar, um hábito nervoso. — A verdade é que… as pessoas acham isso porque… eu que transei com o chefe, na sala dele.
. — Você…? — piscou uma vez. Depois outra.
— É. — Ela mordeu o lábio, sem saber onde enfiar o rosto. — Não era nada demais. Só… acontecia às vezes. E ninguém sabe. Ou… não sabia, até agora.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas não parecia chocado — parecia mais… processando.
— Isso explica muita coisa — ele disse, finalmente.
— Tipo o quê?
— Tipo por que você nunca dava bola para ninguém daqui. — Ele deu de ombros. — Ou por que você ficava tensa toda vez que o chefe ou a esposa dele passavam perto da sua mesa.
— Eu não ficava tensa.
— Ficava sim. — sorriu de canto. — Meio que prendia a respiração.
Ela abriu a boca para negar, mas acabou rindo, derrotada.
— Ok, talvez um pouco. — Ela abriu a boca para negar, mas acabou rindo, derrotada.
— E vocês… ainda estão…? — Ele inclinou a cabeça, mais curioso agora.
— Não. — respondeu rápido demais. — Pouco antes dessa história com você, eu parei. Não dava mais. Agora então que as pessoas começaram a inventar mais coisas. E eu odiei que você estivesse levando a culpa por algo que… era meu.
— Obrigado por dizer a verdade. — soltou o ar devagar, como se tivesse tirado um peso do peito.
Ela assentiu, e por um segundo os dois ficaram apenas se olhando, como se tivessem descoberto uma parte nova um do outro.
Até que , lembrando do inferno das fofocas, suspirou:
— O problema é que… agora eles vão continuar criando histórias. Se não pararmos isso, vai piorar. Muito.
— Já pensei nisso também. E… tenho uma ideia. — apoiou as mãos nos bolsos da calça.
— Isso já me assusta um pouco.
— Você disse que não quer que descubram do seu caso. E eu… sinceramente… quero parar de ouvir todo dia que dormi com o chefe. — Ele ignorou a provocação.
— Então…?
— A gente poderia fingir que está namorando. — respirou fundo, como quem não acredita que está prestes a sugerir aquilo.
— O quê?! — arregalou os olhos.
— Não precisa ser algo gigante. Só… uma história convincente. Tipo “estamos saindo há algumas semanas” ou “estamos nos conhecendo”.
— , isso é loucura.
— É. — Ele concordou sem hesitar. — Mas pode funcionar.
Ela o encarou por longos segundos, prestando atenção no rosto sério, no olhar calmo, no jeito extremamente prático que ele tinha de lidar com tudo.
A ideia era absurda. Ridícula. Potencialmente catastrófica.
E, ainda assim… fazia sentido. Mais sentido do que admitir para o RH que tinha ficado com o próprio chefe. Mais sentido do que deixar que achassem que tinha subido de cargo por favores sexuais. Mais sentido do que qualquer outra alternativa.
— E como isso começaria? — apoiou o queixo na mão, pensativa.
— Simples. — sorriu de canto, daquele jeito lento, quase imperceptível. — A gente aparece juntos na festa de Natal.
Ela suspirou, sabendo que já tinha perdido essa batalha no momento em que ele abriu a boca.
— … isso vai dar muito errado.
— Provavelmente. — Ele levantou da mesa. — Mas pelo menos a culpa vai ser dividida.
— Tá. Vamos pensar. — mordeu o lábio, rindo baixo.
— E ?— Ele deu meia-volta, caminhando devagar pelo corredor. Ela ergueu o olhar. — Obrigado por confiar em mim — ele disse, antes de desaparecer na curva do corredor.
ficou olhando para o caminho que ele tinha seguido, com um sorriso que ela mesma não entendeu.
Talvez aquilo fosse uma péssima ideia.
Ou… talvez fosse o começo de algo muito mais problemático — e infinitamente mais interessante.
não sabia muito bem como aquilo tinha acontecido, mas, de alguma forma, no final daquela semana, ela estava entrando no café da esquina com ao lado — como se aquele fosse um hábito antigo, natural, quase rotineiro entre os dois.
O plano era simples: conversar sobre o namoro falso, definir regras, alinhar versões. Isso porque era organizado, metódico, e ela… bom, ela precisava de organização para não cometer o pior erro de todos: falar demais.
Mas assim que eles se sentaram, com duas canecas fumegantes entre eles, o tal planejamento começou a desmoronar rapidinho.
— Ok — disse, endireitando a postura. — Vamos ser objetivos. Precisamos decidir há quanto tempo estamos “juntos”.
— Certo. Alguma sugestão? — concordou com um aceno.
— Umas quatro semanas? É convincente o bastante. Não é muito, mas também não é pouco. E bate uma semana antes do barulho na sala dele. O que acha?
— quatro semanas… é. Parece bom. — Ele analisou a ideia por um instante.
Silêncio. Um daqueles que não incomodava, mas que, por alguma razão, deixava mais consciente do próprio corpo, do jeito que ele a olhava atentamente quando ela falava, como se prestasse atenção demais.
Ela desviou, limpando a garganta.
— Precisamos de sinais. Provas. Sei lá… mensagens, fotos, qualquer coisa que mostre que a gente estava… interagindo.
fez uma expressão pensativa.
— Fotos são fáceis. — Ele puxou o celular. — Tira uma comigo?
— Agora?! — Ela piscou, surpresa.
— Por que não? — Ele deu um meio sorriso. — Tem que parecer espontâneo. “Olha só, somos um casal normal tomando café num sábado”.
revirou os olhos, mas se aproximou.
E aí veio o problema.
Quando inclinou o corpo para perto dela, o ombro dele tocou o dela de leve. Um toque bobo. Inocente. Mas que causou uma pequena explosão interna que ela não estava preparada para explicar.
Ela sorriu — um sorriso real demais, natural demais — e tirou a foto.
— Ficou boa — ele disse, olhando para a tela. — A gente até parece que se gosta.
— Até parece — zombou, pegando a caneca para disfarçar o calor nas bochechas.
Mas não devolveu a provocação. Em vez disso, ficou observando a foto por um segundo a mais do que o normal.
Um segundo longo o suficiente para ela notar.
E, claro, ela fingiu que não notou.
— Tá — ela retomou o foco, ou tentou. — Precisamos também combinar como… hum… como a gente age um com o outro.
— Como assim? — ele franziu a testa.
— , ninguém vai acreditar se você continuar agindo como se eu fosse uma colega de setor, quase uma estranha. Casais… eles… sei lá. Conversam. Mandam mensagem. Trocam provocações. Às vezes encostam um no outro.
— Eu encosto em você se quiser. — ergueu uma sobrancelha.
A fala foi normal. O tom, absolutamente casual.
Mas engasgou com o café.
— Não precisa fazer essa cara. É só parte do plano. — riu baixo, sem maldade..
— Uhum. O plano. — Ela limpou a garganta. — Certo. Toques… moderados..
— Moderados — ele repetiu, concordando..
Só que, enquanto mexia o açúcar no café, ele esticou a mão sem pensar e tirou um fiapo do pulôver dela, bem perto da gola..
Um toque rápido. Minúsculo..
Mas congelou por meio segundo..
E também..
— Fiapo — ele justificou, voltando a mexer o café..
— Ah. Sim — ela concordou, tentando parecer indiferente..
Silêncio de novo..
Dessa vez… carregado..
Eles tentaram retomar o foco..
— Tá. Regras — disse, abrindo a tela de anotações no celular. — Número um: nada de inventar demais. Quanto mais simples a história, mais difícil de descobrirem..
— Número dois: a gente precisa ensaiar nossa versão — acrescentou. — Como nos conhecemos, quando começou, o que gostamos um no outro….
— Gostamos? — Ela travou.
— Eles vão perguntar. — Ele sustentou o olhar, completamente calmo.
— Tá. Então… vamos inventar. — mexeu no cabelo, desconfortável demais com aquela pergunta hipotética.
— Você começa — sugeriu, apoiando o queixo na mão, atento.
— Eu?
— Uhum. O que você diria que… gosta em mim?
Aquilo era absurdo, pensou. Era para ser só um plano. Apenas logística para despistar fofocas. Nada pessoal. Nada íntimo.
Mas as palavras escaparam antes que ela conseguisse filtrar.
— Gosto que você é… quieto — ela disse, surpresa consigo mesma. — Não no sentido ruim. Mais no sentido de… observar tudo. Você presta atenção. Nas coisas. Nas pessoas.
— Eu… não sabia que você tinha reparado nisso. — piscou, lento.
— Eu reparo em tudo — deu de ombros. — Inclusive quando você está irritado ou muito concentrado e tenta esconder mexendo e estalando os dedos.
Ele olhou para as próprias mãos, e estava fazendo o que a mulher disse.
— Isso… não é justo — ele murmurou, sem olhar para ela, mas sorrindo.
— Agora é sua vez — ela provocou.
ergueu o olhar, prendendo os olhos dela.
— Eu gosto que você… fala muito — ele disse.
— Isso não é elogio. — bufou.
— No seu caso é. — Ele riu. — Você fala, mas sempre diz alguma coisa que importa. Mesmo quando parece bobagem.
Ela abriu a boca para retrucar… e não conseguiu.
Porque ele estava olhando para ela daquele jeito de novo.
Como se a enxergasse com nitidez demais.
Então desviou, batendo com a ponta da caneta na mesa.
— Certo! — ela disse, alto demais. — Isso não é sobre a gente de verdade. É sobre o plano. O grande plano.
— Claro — concordou, mas o sorriso de canto entregava que ele estava se divertindo.
— E… — ela limpou a garganta — precisamos ensaiar como vamos aparecer juntos na festa.
— De mãos dadas? — ele perguntou, casual.
— Talvez. — Ela respirou fundo, tentando ignorar o frio na barriga. — Mas nada exagerado. Só o suficiente para as pessoas acreditarem.
— Certo. — Ele se levantou. — Então vamos ensaiar.
— O quê?
estendeu a mão, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
ficou olhando. Depois para a mão dele. Depois para o rosto dele.
— … estamos num café.
— Eles têm CCTV. — Ele deu de ombros. — Se virem a gente… pronto. Mais uma prova.
— Você usa qualquer desculpa, né? — Ela riu, sem acreditar que estava prestes a fazer aquilo.
— Para o plano, sim. — Ele insistiu com a mão estendida. — Vem.
Ela colocou a mão na dele.
Toque quente. Firme. Natural demais.
E foi nesse toque — leve, inocente, “de ensaio” — que percebeu que tinham cruzado alguma linha invisível.
Talvez ainda pudessem voltar.
Talvez.
Mas, pela maneira como entrelaçou os dedos nos dela, devagarzinho, como quem estava se acostumando…
Ela soube que provavelmente não voltariam mais.
Os primeiros dias depois do “ensaio” no café foram… estranhos.
Estranhos de um jeito bom.
Estranhos de um jeito perigoso.
No escritório, e pareciam orbitas que, finalmente, começavam a se cruzar. Não estavam grudados — longe disso. Mas havia algo novo no ar. Algo que não passava despercebido nem pelos mais distraídos.
Na segunda-feira, por exemplo, eles chegaram quase juntos no elevador.
Quase.
entrou primeiro, e quando a porta estava quase fechando, apareceu correndo, segurando o vão.
— Valeu — ele disse, entrando.
— De nada. — Ela sorriu.
Ele sorriu de volta. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
E, por alguma razão, aquele sorriso pareceu iluminar o elevador inteiro.
A porta abriu no andar deles, e os dois saíram lado a lado. Por meio segundo, os ombros se tocaram — rápido, suave — mas suficiente para sentir o impacto pulsar até o estômago.
Eles se afastaram ao perceberem o corredor cheio.
Mas alguém percebeu.
— Hmmm… — murmurou, a recepcionista e especialista em fofocas corporativas. — A que horas vocês combinam esses horários sincronizados mesmo? Já é a segunda ou terceira vez que chegam juntos, desde semana passada, não?
— Não dá pra você cuidar da sua vida não? A gente não combinou nada. — respondeu, sem graça.
— Aham — Thais riu, mostrando que não acreditava nem um pouco.
apenas levantou a mão em um aceno silencioso e seguiu para a própria mesa. Mas, quando passou por , sua mão esbarrou na dela — um toque tão leve que poderia ter sido acidental.
Exceto pelo olhar rápido que ele lançou.
Nada acidental ali.
Durante a semana, as aproximações ficaram mais evidentes.
Na terça, ele apareceu com dois cafés.
— Trouxe porque você quase morreu ontem tentando fazer o da máquina — ele explicou, depositando o copo na mesa dela.
— Eu não quase morri — retrucou, mas pegou o copo. — A máquina é que tem um problema comigo.
— Ela só está cansada da sua insistência — murmurou, e ela riu alto demais, chamando atenção do setor.
— Hum, cafézinho agora tem destinatária fixa? — perguntou o rapaz, da contabilidade, com sobrancelhas maliciosamente erguidas.
ia responder, mas foi mais rápido:
— Não enche! — Simples, seco.
Mas o suficiente para o setor inteiro virar a cabeça, surpreso com a defesa espontânea.
Na quinta, o toque veio de forma ainda mais sutil.
estava reclamando da impressora — novamente — e apareceu atrás dela para ajudar.
Ela estava inclinada, mexendo no botão travado, quando sentiu a mão dele pousar leve na parte de trás do braço, só para afastá-la um pouco.
— Deixa — ele disse, baixo. — Você vai quebrar essa máquina.
Ela se endireitou devagar, sentindo a pele quente onde ele encostara.
— Eu não ia quebrar nada — ela resmungou, tentando disfarçar a aceleração do coração.
— Claro que não — ele respondeu, irônico. — Você só ameaça a integridade das máquinas.
Ele olhou por cima do ombro e sorriu.
Um daqueles sorrisos que não tinha direito de ser tão bonito.
E ela desviou antes que ficasse óbvio demais que estava derretendo.
Os colegas?
Ah, esses já estavam construindo teorias.
— Vocês perceberam que eles estão… diferentes? — sussurrou uma funcionária perto da copa.
— Ele trouxe café pra ela duas vezes essa semana — apontou outra.
— E ela riu das piadas dele. Ela nunca ri das piadas de ninguém.
— Eu ouvi que eles saíram juntos no sábado.
ouviu essa última de passagem e quase engasgou com sua própria água.
— A fofoca foi rápido, hein — ela murmurou para assim que se aproximou da mesa dele.
— Eu avisei — respondeu, mexendo nos anéis. — Seu nome já apareceu na lista de apostas.
— Apostas?!
— Uhum. Se estamos juntos ou não.
— Quem criou isso?
— Quem você acha? O pessoal do jurídico. — levantou duas sobrancelhas.
— Isso tá saindo do controle. — riu, sem acreditar.
— Era o plano, não era? — perguntou.
— É. Mas… — ela hesitou — eu não achei que fosse tão fácil.
— Pra mim também não. — não disse nada por um momento. Depois inclinou a cabeça.
Silêncio de novo.
Um daqueles carregados.
Até que alguém interrompeu a cena:
— Bom dia. — A voz — grave, controlada demais — veio de trás.
O chefe.
Ele passou pelos dois com um olhar rápido, analisando, como se medisse distâncias. Como se buscasse sinais. E quando desviou o olhar, sentiu cada músculo do corpo travar.
percebeu.
— Ele tá estranho — murmurou, baixo.
— Ele tá com ciúme — corrigiu mentalmente, mas não disse em voz alta.
Em vez disso, respirou fundo.
— A festa da firma é daqui a duas semanas — disse ela, mudando de assunto, ou tentando. — Precisamos começar a alinhar o “resto”.
— Sim — concordou. — Quanto mais acreditarem agora, mais fácil vai ser quando chegarmos juntos lá.
Juntos.
Aquela palavra correu pela espinha de com um efeito que ela preferiu não analisar.
— Então… — ela voltou a perguntar — qual é o plano para essa semana?
ficou em silêncio por alguns segundos, analisando, pensando, decidindo.
Até que disse, com a calma típica dele:
— Continuamos assim.
— Assim como?
— Assim… naturalmente. — Ele deu um meio sorriso.
E foi exatamente isso que complicou tudo.
Porque, nas horas seguintes, percebeu que “naturalmente” significava:
aparecer do lado dela sempre que o chefe chegava perto.
usar o mesmo tom baixo quando ia falar com ela.
descobrir que ela gosta de biscoitos de limão e passar na mesa dela com um pacotinho sempre que passava na confeitaria no caminho do escritório.
deixar a mão encostar na dela quando entregava algum documento.
olhar para ela como se estivesse realmente… gostando.
E não sabia se o problema era o plano…
…ou o fato de que, pela primeira vez, ela estava começando a gostar de “naturalmente”.
Alguns dias depois, decidiram que precisavam de um teste em campo aberto: sairiam juntos para almoçar perto do escritório, onde sabiam que vários colegas também iam.
— Casais, que estão tendo um lance, saem para almoçar juntos, né? — disse .
— Casais que estão tendo um lance não deveriam ter que provar nada para ninguém. — ela rebateu, pegando a bolsa.
— Ah, mas a gente precisa, pelo menos, instigar.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
Andaram até o restaurante da esquina, onde quase sempre encontravam alguma alma do escritório. E, claro, não levou nem três minutos para acontecer.
— Meu Deus… eles vieram juntos. — murmurou uma funcionária do financeiro.
— Aposto que vão se assumir a qualquer momento. — respondeu outra, animada demais.
segurou o riso.
nem tentou esconder.
— Você percebeu que isso tá fácil demais? — ele comentou, enquanto olhava o cardápio.
— Eu sei. É até assustador.
— Talvez a gente tenha talento nato pra fingir que namora.
— Ou talvez as pessoas aqui sejam muito curiosas e muito desocupadas. — Ela ergueu a cabeça.
— Também funciona.
Os dois riram.
E foi justamente nesse riso que tudo aconteceu.
congelou.
seguiu seu olhar.
O chefe.
E a esposa.
Bem na fila do buffet.
Era a pior coincidência possível — e exatamente o tipo de coisa que poderia virar fofoca em poucos minutos.
ajeitou os cabelos, tentando parecer natural.
— Ótimo. Era só o que faltava… — sussurrou.
inclinou o corpo na direção dela, como se estivesse fazendo carinho ou dando atenção — parte do papel de namorado, claro.
— Relaxa. Ele não faz ideia de que a gente tá fazendo isso por causa dele.
— Ainda bem. — ela respondeu, mexendo no garfo — Mas pela cara, não está gostando nada, nada.
Na mesa ao lado, duas pessoas do RH arregalaram os olhos ao verem o chefe, esposa, e no mesmo ambiente.
— Pronto. — comentou, baixinho — Vai render tese de doutorado esse almoço.
— Ótimo. — sorriu — Quanto mais teoria criarem, mais fácil a gente confirma só na festa.
Ela olhou para ele longamente.
Havia algo diferente ali — não era mais só cumplicidade de plano.
piscou devagar, como se dissesse: confia.
E ela confiou.
O chefe passou perto da mesa deles para pegar talheres.
Olhou rápido demais, desviou rápido demais.
Parecia incomodado.
A esposa, por outro lado, sorriu educada para os dois.
devolveu o sorriso. também.
Perfeito. Natural. Inquestionável.
Era assim que um casal parecia.
E os dois estavam ficando bons demais nisso.
Quando voltaram ao escritório, o clima era quase… festivo.
Todo mundo olhando, cochichando, disfarçando mal.
E eles?
Nadavam nesse caos com a tranquilidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Acho que o nosso plano está funcionando melhor do que o esperado. — se aproximou da mesa dele, se inclinando um pouco.
— Eu diria que está funcionando bem demais. — girou a cadeira para olhá-la.
E houve aquele momento — aquele pequeno segundo — em que o olhar dele segurou o dela por tempo demais para ser só atuação. A festa da firma seria dali a poucos dias.
. E, pela primeira vez, teve a sensação de que o ensaio geral estava indo longe demais.
Porque, em algum ponto entre um toque e outro, entre risadas baixas e conversas que não eram mais só parte do plano…
eles tinham parado de apenas fingir.
E começado a querer.
A aproximação começou como parte do acordo.
Só que, de repente, não parecia mais algo que eles precisavam forçar. Era natural.
Leve.
Perigoso.
Naquela quinta-feira, O prédio já estava quase vazio quando ela juntou as coisas para ir embora. A semana tinha sido puxada, mas, de algum jeito, trabalhar ao lado de tinha deixado tudo mais… leve. Eles tinham caído em um ritmo estranho, íntimo, confortável demais para dois “colegas” fingindo um relacionamento futuro apenas para uma festa.
Ele apareceu ao lado dela no elevador com aquele sorriso torto, as mãos no bolso e o cabelo caindo na testa como se tivesse acabado de sair de um ensaio fotográfico.
— Indo pra casa? — ele perguntou, apoiando o ombro na parede de aço.
— Aham. Vou só passar no mercado antes. — Ela tentou soar casual, mas ultimamente até o jeito que ele a olhava a deixava descompensada.
O elevador abriu no térreo, e ela mal deu dois passos quando ouviu um crack. O salto direito cedeu — não só quebrou: praticamente se suicidou.
— Ah, maravilhoso. — ela murmurou, olhando para o salto quebrado — Claro que isso ia acontecer agora…
Tentou caminhar, mas o pé virou, quase levando ela junto.
— O que houve? — estava saindo logo atrás, quando a viu mancando.
— Meu salto decidiu se suicidar. — ela respondeu, mostrando o estrago — Vou ter que ir embora desfilando torta.
segurou o riso, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Vem cá. — ele se aproximou — Me dá a sua bolsa.
— Pra quê?
— Pra você não cair na calçada e quebrar o pescoço — ele disse, como se fosse óbvio.
Ela entregou, desconfiada.
E então ele simplesmente… colocou o braço dela em volta do seu.
— Apoia aqui. Vai mais devagar.
— … eu consigo andar.
— Não desse jeito. E, além disso, casais ajudam um ao outro, lembra?
revirou os olhos, mas a bochecha queimou.
Saíram juntos, ele ajustando o passo ao dela, segurando firme quando o salto quebrado ameaçou virar o pé outra vez.
— Se eu cair… — ela disse, num tom falso de ameaça.
— Eu te seguro. — ele respondeu, sem hesitar.
Ela olhou para ele — e viu que não era brincadeira.
Quando chegaram na calçada, tirou o sapato e ficou descalça mesmo, bufando. viu a cena e sorriu, aquele sorriso.
— Espera aí, não vai embora hein! — Ele encostou ela na muretinha que tinha na entrada do prédio, largou a mochila aos pés dela e saiu correndo até uma lojinha de departamento que tinha do outro lado da rua, na esquina da empresa.
Ele não demorou 15 minutos, voltou ofegante com uma sacola plástica na mão e dentro um par de chinelos cor de rosa neon, que ardiam os olhos só de olhar para eles.
— Agora sim, ó… totalmente elegante. — calçou os chinelos, eram horríveis, mas era melhor que sair andando descalça e estragar a meia calça que usava.
— Foi mal pela cor, ou era essa ou um amarelo marca texto que até os ETS veriam lá no espaço. — Ele riu da cara torcida que ela fez. — E eu acho que você fica linda até descalça. — ele soltou, sem pensar.
Os dois congelaram.
piscou. pigarreou, enfiando as mãos nos bolsos.
— Digo… como parte do nosso… plano. Claro. Tem que elogiar o par.
— Claro. — ela concordou rápido demais — Plano. Sempre o plano.
Eles riram.
Mas o estômago dos dois deu um nó.
No dia seguinte, foi ele quem precisou dela.
passou a manhã inteira estranho. Mais quieto do que era normal — e olha que ele já era discreto.
À tarde, encontrou-o sentado na copa, pálido, suando frio.
— ? — ela se aproximou rápido — O que aconteceu?
— Acho que só… comida que fez mal. Vai passar.
Não parecia que ia passar.
Ele respirava fundo, tentando disfarçar.
Tentando fingir que estava tudo bem.
Sempre ele tentando não incomodar ninguém.
não teve paciência para isso.
— Levanta. — ela disse, firme.
— Não precisa…
— . — ela cruzou os braços — Ou você levanta por bem, ou eu arrasto você, pelos cabelos.
Ele tentou rir, mas ficou tonto e apoiou a mão na mesa.
— Ok. Tá bom. Levanto.
Ela pegou a mochila dele sem pedir, passou o braço por trás das costas dele e o guiou até o elevador.
— , sério, não precisa… eu não quero dar trabalho…
— Cala a boquinha. — ela disse, quase rindo — Se eu pude te ver bebendo café duvidoso por três semanas, eu posso te ver passando mal também.
— Você é mandona. — Ele bufou, derrotado.
— E você é teimoso. A gente combina.
O elevador abriu.
Ela o apoiou contra o carro dele e assumiu o volante sem cerimônia.
— Eu vou dirigindo.
— Você sabe dirigir?
— …
— Ok, desculpa. Eu tô fraco demais pra lutar com você.
No hospital, deram soro, remédio, descanso.
Ela ficou sentada ao lado dele por quase duas horas.
Não porque precisava.
Não porque era parte do plano.
Simplesmente… porque quis.
Quando ele finalmente abriu os olhos, encontrou mexendo no celular, olhando de vez em quando para ver se ele estava respirando direito.
— Você ficou aqui? — ele perguntou, rouco.
— Claro. Você achou que eu ia te deixar sozinho? — Ela ergueu a cabeça e sorriu de leve.
a encarou por alguns segundos.
O tipo de olhar que segurava coisas não ditas.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer.
— Preciso sim.
— Então… de nada.
Ele sorriu fraco.
Ela sorriu de volta.
Quando ele teve alta, o deixou em casa.
— Posso te pedir uma coisa? — segurou a porta de casa um segundo a mais.
— Pode. — Ela ergueu a sobrancelha.
— Fica comigo na festa… o tempo todo. Não só pra manter o plano. Só… fica.
— Eu vou ficar. — engoliu em seco.
— Promessa?
— Promessa.
Os dois ficaram se olhando por tempo demais para ser casual.
Os dias passaram rápido.
No trabalho, eles estavam… diferentes.
Mais próximos.
Mais íntimos.
Mais à vontade.
já conhecia as caretas dele quando estava concentrado.
já sabia o tipo de coisa que fazia ela rir de verdade.
E ninguém mais no escritório tinha dúvidas de que eles eram um casal.
— Estão prontos pra festa de Natal? — alguém comentou perto da mesa em que eles estavam tomando café juntos na área de descanso — Acho que vão anunciar o namoro oficialmente, hein?
e trocaram olhares cúmplices.
A festa seria dali a poucos dias.
E, pela primeira vez, nenhum dos dois sabia se estavam indo para cumprir um plano…
ou assumir algo que já tinha passado da atuação havia muito tempo.
A semana passou tão rápido que, quando ela se deu conta, a festa da empresa já era naquela noite. O grupo inteiro comentava, especulava, inventava histórias. A recepcionista já tinha rodado três versões diferentes de “como eles começaram a sair”, enquanto o setor financeiro apostava dinheiro para ver quem teria coragem de perguntar diretamente.
Ela terminou de se arrumar devagar, como quem tentava acalmar os próprios nervos. Não era o fato de ir com — isso eles tinham planejado juntos. Era outra coisa, algo que ela não queria nomear. Algo que a deixava inquieta fazia uns dias.
O interfone tocou.
— Tô descendo — ela disse, antes que ele falasse qualquer coisa.
Quando saiu do prédio, encontrou encostado no carro, as mãos no bolso, o terno escuro impecável. O cabelo estava arrumado de um jeito que deixava ele absurdamente bonito
a olhou de cima a baixo devagar, sem pressa nenhuma.
— Você tá… — Ele parou, como se estivesse reorganizando palavras dentro da cabeça. — Impressionante.
Ela riu, mas não respondeu. Aquilo não era parte do plano. Era só ele sendo… ele.
— Vamos? — perguntou, tentando ignorar o calor que subiu pelo pescoço.
— Se você quiser desistir… — Ele abriu a porta para ela, mas antes que ela entrasse, inclinou-se um pouco.
— Nem pense nisso — ela interrompeu. — A gente vai juntos. Eles precisam parar de falar coisas absurdas sobre você.
sorriu como quem estava exatamente onde queria estar.
O estacionamento do salão estava cheio quando eles chegaram. Assim que saíram do carro, os olhares começaram. Pessoas da empresa cochichavam perto da entrada, algumas com copos de vinho, outras tentando disfarçar que estavam encarando.
O salão estava igualmente lotado quando e chegaram — de mãos dadas, rindo baixinho de algo que só eles sabiam. Não era tímido. Não era hesitante. Era assumido. Era namoro oficial, pelo menos para quem estivesse olhando.
Eles atravessaram a entrada como se realmente fossem um casal que vinha escondendo aquilo há meses.
E funcionou.
Na mesma hora, as cabeças começaram a virar.
— Eu sabia! — alguém sussurrou perto da mesa de frios.
— Eles estavam muito próximos esses dias… — comentou outro.
— Não, pera. O , não é o namorado do chefe?
— Meu Deus, a vai ser demitida. Ela tá saindo com o namorado do chefe!
— Gente, com quantas pessoas o namora?
— Isso é fachada, certeza.
— Ou será que eles fazem… trisal?
— Cala a boca! Eles estão juntos, esse negócio de namoro com o chefe é fanfic de vocês.
! Em menos de trinta segundos, os boatos estavam fervendo como água prestes a transbordar.
apertou a mão de , como parte do teatro — mas o calor dele contra a pele dela deixou tudo terrivelmente real.
Ele inclinou um pouco a cabeça na direção dela, com aquele sorriso pequeno e malicioso que só ela tinha visto de perto esses dias.
— Acho que funcionou — ele murmurou, baixo, quase encostando os lábios na orelha dela.
— Funcionou até demais — ela respondeu, sorrindo sem conseguir evitar.
Eles foram parados antes mesmo de chegarem ao bar.
— Quando isso começou? — Uma colega perguntou, as sobrancelhas arqueadas até o limite.
— Faz um tempinho — respondeu com a maior naturalidade do mundo, apoiando a mão no braço do “namorado”.
— Faz tempinho, né? — repetiu um analista do financeiro, quase anotando mentalmente. — Mas vocês não eram… só amigos?
— A gente era muito discreto. — riu
Discreto não era exatamente a palavra que o salão inteiro usaria naquele momento — não com eles de mãos dadas, se olhando daquele jeito.
Mais cochichos surgiam pelos cantos.
— O tinha um caso com o Chefe, não tinha?
— Não sei,mas talvez isso seja ela cobrindo o caso dele com o .
— Ou então agora ele largou o chefe, depois que conseguiu a promoção para ficar com a ?
— Gente, alguém avisa que isso aqui não é novela?
Era uma avalanche de interpretações completamente insanas — e eles estavam exatamente no olho do furacão.
Até o bendito chefe chegar.
Ele surgiu perto do bar, segurando um copo com força demais. Os olhos dele passaram rapidamente por … depois por … depois pelas mãos dadas.
Uma marca visível de tensão apareceu na mandíbula dele.
sentiu a espinha gelar — não por culpa, mas porque ele estava prestes a abrir a boca e estragar tudo.
percebeu na mesma hora.
E fez o que tinha que fazer.
Completamente natural, ainda segurando a mão dela, ele passou o braço pela cintura de e a puxou um pouco para mais perto.
— Respira — ele murmurou.
Ela tentou. Não conseguiu muito.
— Vocês dois juntos? — O homem que antes observava do bar, perguntou, forçando um sorriso torto.
— Sim, senhor! — respondeu sem hesitar. — Algum problema, chefe?
O salão inteiro ficou em silêncio por meio segundo.
Parecia que até a banda tinha parado para ver.
O chefe olhou para de um jeito que misturava surpresa, irritação e… talvez ciúmes. Mas não tinha o que dizer. Não naquela situação.
— Meus parabens ao casal. — Ele só levantou o copo, deu um meio-brinde e se afastou.
E assim que ele saiu…
As conversas recomeçaram como tiros.
— Eles só estão fazendo isso pra disfarçar!
— Isso é fachada, certeza absoluta. Você viu a cara de desgosto do Chefe?
— O nunca ia namorar a , além dele ser gay, nunca nem tinha olhado para uma mulher do escritório com outros olhos.
— Isso é tudo encenação pra acalmar o boato com o chefe, que deve ser real mesmo, pela pequena cena que acabou de acontecer.
. — Olha, eu não compro.
— Eles tão tentando convencer a gente, mas até com a minha mãe eu fico de mãos dadas.
— Eles não vão acreditar em nada que a gente disser. — suspirou, passando a mão no cabelo.
— Então o que a gente faz? — perguntou, já cansada daquilo.
Ele a encarou.
Longo demais.
Profundo demais.
Perigoso demais para algo que deveria ser apenas um plano.
— A gente para de falar — ele disse, com a voz baixa, firme — ou mostrar.
E antes que ela pudesse pensar, responder ou processar…
segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou.
Um beijo de tirar o fôlego.
Cheio.
Quente.
Firme.
Sem espaço para dúvidas ou rumores.
Um beijo que fez alguém perto deles deixar o copo cair no chão.
As mãos dela subiram instintivamente para o peito dele, puxando-o ainda mais para perto.
O salão inteiro ficou em silêncio.
O tipo de silêncio que só acontece quando cem pessoas testemunham algo que não deveriam.
Quando eles se separaram, ofegantes, atordoados, com as testas quase encostadas…
Alguém finalmente sussurrou:
— Ok. não tem como isso ser fachada.
E foi só aí, só naquele exato segundo, que e perceberam…
…que tinha ficado difícil lembrar que era mentira.
Os comentários que vieram depois do beijo pareciam explodir naquela festa de fim de ano. Era como se o salão inteiro estivesse esperando uma explicação… ou uma segunda rodada.
Mas e só conseguiram olhar um para o outro.
Sem falar.
Sem se mexer.
Sem nem lembrar exatamente onde estavam exatamente.
. O burburinho passou aos poucos, como se alguém estivesse tirando o mundo do mudo.
— Eu… — ela começou, ainda respirando rápido.
— Eu sei — ele respondeu antes mesmo que ela formulasse uma frase.
Ele estava com a respiração acelerada, o peito subindo e descendo num ritmo que ela nunca tinha visto. As mãos ainda estavam no rosto dela, quentes, firmes, como se ele tivesse esquecido de tirá-las.
tocou o pulso dele, só para afastá-lo devagar — mas o toque foi suave demais para parecer recusa.
E não viu aquilo como recusa.
— Era só pra calar os boatos? — ela murmurou, sabendo que não era só isso.
— Era! — ele concordou, mas a voz saiu baixa, rouca. — Mas… deu um pouco errado.
— Errado? — Ela riu, nervosa.
Ele passou a mão pelos cabelos, tentando se recompor, mas só ficou ainda mais bonito — uma injustiça biológica.
— Se aquilo foi só fachada, … a gente atua muito bem — ele disse, olhando para a boca dela por um segundo a mais do que deveria.
Ela sentiu as pernas bambas.
Era ridículo.
Era só .
O colega quieto, reservado, sarcástico, que tinha aceitado ajudá-la a limpar um rumor idiota, que ela tinha metido ele também.
Mas quando ele olhou para ela daquele jeito, parecia qualquer coisa, menos colega.
Os comentários começaram novamente ao redor.
— Não tem como ser falso!
— Gente, vocês viram o beijo?
— Aquilo foi beijo de casal que transa.
— Eu sempre soube!
— Se o boato sobre o chefe não for mentira, ele deve estar espumando.
— Quer sair daqui um pouco? — soltou um suspiro pesado, e então, baixinho, perguntou.
Ela hesitou.
A cabeça dizia não dá, vocês isso é só um plano, vocês são uma dupla fingida, vocês são uma invenção temporária.
O corpo dizia vai.
— Vamos — ela respondeu antes de conseguir pensar melhor.
Ele segurou a mão dela novamente, dessa vez sem fingimento algum.
Eles se afastaram para uma varanda lateral, onde o ar estava frio e silencioso. Era como se o mundo tivesse sido reduzido a duas respirações aceleradas e à lembrança recente de um beijo que... tinha mexido demais com eles.
se apoiou no corrimão e cruzou os braços, tentando demonstrar algum controle.
parou perto, mas não tão perto — como se estivesse lutando com o próprio corpo para manter distância.
— A gente exagerou? — ela disse, finalmente, tentando rir, mas só saiu um sopro irregular.
— Só um pouco — ele respondeu, encostando no batente da porta. — Mas não dava. Eles não iam acreditar de outro jeito.
— Não foi por isso e você sabe. — Ela balançou a cabeça.
levantou o olhar, surpreendido.
— Foi porque eu quis te beijar. — Disse, devagar, como se tirasse algo de dentro do peito.
A frase caiu entre eles como um peso, movendo o ar, o silêncio, a lógica de tudo.
desviou o olhar por um instante, o coração batendo contra as costelas.
— E eu… — ela começou, mas a voz falhou. — Eu não deveria ter gostado tanto.
Era a primeira vez que qualquer um dos dois admitia algo.
— Então você gostou? — ele disse, quase sorrindo, mas era um sorriso contido, tenso.
— …
— Não precisa fugir — ele a interrompeu com gentileza, dando um passo a mais. Não muito, só o suficiente para que ela sentisse o calor dele. — É só a gente admitir que… alguma coisa mudou.
Ela o olhou.
Realmente olhou.
E viu o que estava tentando evitar desde o almoço, desde o salto quebrado, desde o hospital, desde cada sorriso baixinho nos últimos dias:
Eles estavam sentindo algo. Um pelo outro.
E não era pequeno.
Não era passageiro.
E definitivamente não tinha nada a ver com o plano.
— Se isso estiver confundindo você… eu entendo. Mas não mente pra mim. Nem pra você. — parou na frente dela, com uma expressão séria, verdadeira, que ele nunca tinha mostrado para ninguém na empresa.
respirou fundo, o peito subindo de um jeito que denunciava tudo.
— Eu não estou confusa — ela admitiu enfim. — Eu só não sei o que fazer com isso.
Ele sorriu — pequeno, genuíno, como se estivesse ouvindo a coisa mais importante da noite.
— A gente não precisa decidir agora — ele disse, chegando mais perto. — Mas…
Ele quase terminou de falar, quando a porta abriu com força demais, fazendo se sobressaltar.
O Chefe apareceu no vão, o rosto rígido, os olhos faiscando. A expressão de quem tinha bebido um pouco… mas não o suficiente para culpar o álcool.
— . — O tom dele cortou o ar. Nada de educado. Nada de neutro.
Ela endireitou os ombros. , sem precisar de convite, deu um passo para o lado dela, como se fosse natural — e talvez, naquele momento, fosse.
— Chefe — ela respondeu, firme.
— Podemos conversar? — ele perguntou, mas o olhar não saiu dela. Não era pedido. Era ordem.
levantou uma sobrancelha.
— Ela já está conversando — disse, simples.
A mandíbula do outro travou.
— Não estou falando com você, . — Ele cuspiu o nome como se tivesse gosto ruim. — Isso é entre mim e a .
— Não é não — rebateu, a voz baixa, gelada. — Não mais.
O outro homem ignorou, virando-se novamente para ela.
— É isso, então? — Ele não era sutil. Nunca tinha sido. — Você termina comigo do nada, aparece com ele no meio da festa, dá aquele beijo de novela e espera que eu fique calado? Você perdeu a noção, ?
Ela abriu a boca para responder, mas foi mais rápido.
— Vai fazer uma cena mesmo com a minha namorada? — ele perguntou, alto o bastante para a frase ecoar até a porta.
O sangue pareceu sumir do rosto do chefe.
— Sua… quê? — ele repetiu.
entrelaçou os dedos aos de — devagar, firme, nada teatral. Um toque que dizia muita coisa.
— Namorada — ele reforçou, com uma calma perigosa. — Quer repetir mais alto pra todo mundo ouvir? Ou prefere continuar aqui, fingindo que ainda tem algum direito sobre ela?
O homem respirou fundo, parecendo preparar uma resposta, mas não permitiu.
— Você quer mesmo falar sobre moral? — perguntou, inclinando a cabeça. — Porque, se quiser, eu posso subir naquele palco agora e perguntar pra empresa inteira o que achariam se soubessem que o “pai de família”, dono dos bons costumes, não só teve um caso com uma funcionária… — Ele fez uma pausa, deixando a frase pesar. — …como vem perseguindo ela desde então.
O silêncio bateu forte.
sentiu o coração sair pela boca.
o Chefe engoliu seco.
Ele olhou para um lado, para o outro, como se procurasse testemunhas.
A respiração saiu tremida.
— Você não sabe do que está falando — ele disse, mas sem a força de antes. Era quase defensivo.
— Sei o suficiente — respondeu. — Sei que se você levantar a voz pra ela de novo, eu vou fazer questão de repetir tudo isso na frente dos seus colegas. E da sua esposa, se você quiser chamá-la aqui também.
O golpe acertou em cheio.
O homem pareceu murchar.
O rosto ficou vermelho — de raiva, de vergonha, dos dois.
Ele deu mais um passo para trás, como se o ar tivesse ficado pesado demais ali.
— Isso não vai acabar bem pra vocês — ele soltou, a ameaça mal disfarçada.
— Já tá acabando mal pra você. — deu um sorriso frio.
O outro prendeu a respiração, virou de costas e voltou para dentro da festa sem olhar para trás.
A porta fechou devagar.
O silêncio voltou.
soltou o ar que estava prendendo.
manteve a mão na dela por mais um instante — até que ela apertou seus dedos em retribuição.
— Você… não precisava ter feito isso — ela disse, baixinho, num misto de gratidão e adrenalina.
— Precisava, sim — ele respondeu, olhando para ela como se o mundo tivesse encolhido de novo. — Ele não fala com você daquele jeito. Nunca mais.
sentiu o estômago revirar — mas agora por motivos muito diferentes.
Ele não estava atuando.
Nem um pouco.
E ela também não.
— … — ela começou, mas a frase morreu entre eles.
Ele inclinou a cabeça, devagar, se aproximando apenas um pouco.
— Eu vou te proteger quantas vezes forem necessárias — ele disse, firme. — Plano ou não.
Ela sentiu o chão sumir. E o coração bater tão forte como nunca. E eles também voltaram para a festa
A segunda-feira amanheceu com outro tipo de energia.
desceu do carro ao lado de , ambos chegando juntos pela primeira vez como… algo. Não tinham colocado nome, não tinham conversado direito sobre o beijo — ou os beijos, no plural — mas também não estavam fugindo daquilo.
E, pelo visto, o prédio inteiro estava atento.
No corredor, três funcionárias pararam de andar ao vê-los lado a lado.
— Meu Deus, como ninguém percebeu isso antes? — sussurrou uma.
— Eu sempre disse que ele não era gay! — falou outra, indignada, como se tivesse apostado dinheiro nisso.
— E eu juavai por Deus que ele tivesse caso com o chefe… — a terceira murmurou. — Acho que fui burra mesmo.
se engasgou de leve com uma risadinha nervosa, e apenas pousou a mão nas costas dela, discreto, mas protetor.
— Tá tudo bem? — ele perguntou baixinho.
— Eu deveria estar acostumada — ela disse, fungando de riso. — Mas dessa vez… eu não esperava isso tudo.
— Vai passar. — Ele deu um micro sorriso. — E, pra ser sincero… não é tão ruim assim ter você ao meu lado.
Ela não respondeu. Não tinha como responder sem entregar que o estômago dela tinha acabado de virar duas vezes.
Eles ficaram a manhã inteira fingindo normalidade no trabalho, mesmo que ambos recebessem olhares curiosos e umas três perguntas sutis no elevador.
Quando finalmente sentaram para almoçar, no canto mais discreto do refeitório, respirou fundo, apoiando os cotovelos na mesa.
— … eu estive pensando.
— Já começou errado — ela disse de boca cheia, brincando. — Você pensando nunca me traz paz.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Acho que a gente deveria estipular um prazo… pro nosso término de mentirinha.
Ela parou. A comida desceu quadrada.
— Tá. — Ela limpou a boca com um guardanapo, séria demais para um assunto que era pra ser leve. — Vamos terminar isso agora.
piscou, confuso.
— Agora? Mas… a gente acabou de se “assumir” ontem. — Ele inclinou a cabeça. — As pessoas vão achar estranho se a gente terminar depois daqueles beijos que demos durante a festa daqueles.
— Eu quero terminar nosso namoro de mentirinha. — Ela cruzou os braços e o encarou com firmeza
Ele abriu a boca… fechou… abriu de novo.
— Certo… — ele falou devagar, tentando entender. — Então… você quer… desistir?
— Não. — Ela deu um pequeno sorriso, o tipo que quebrava qualquer lógica dele. — Eu quero começar a sair com você de verdade. Se você quiser, é claro.
O silêncio durou menos de um segundo.
Porque se inclinou sobre a mesa, segurou o rosto dela com uma mão firme e beijou de novo — sem dar chance pra dúvida, pra hesitação ou pra qualquer pensamento que não fosse ela.
Um beijo quente, decidido, cheio da resposta que ele nem precisou dizer em palavras.
Quando se afastou, ainda perto demais, ele sorriu torto:
— Isso serve como “sim”?
— Serve — ela sussurrou, rindo contra a boca dele.
— Ótimo. — Ele encostou a testa na dela. — Porque eu não queria que fosse de mentira mesmo.
Para alguns, era. Para outros… era só mais combustível para fofoca.
“É com grande satisfação que anunciamos a promoção de ao cargo de coordenador…”
encarou a mensagem com a mesma expressão com que encarava qualquer coisa desde que entrara na empresa: neutra, calma, quase impassível. Ele piscou devagar, soltou um suspiro curto e se recostou na cadeira. Nada de comemoração. Nada de levantar para agradecer. Nada de sorriso.
Ele só clicou em “marcar como lida”.
E era por isso — pelo jeito quieto, reservado, quase misterioso — que o andar inteiro já estava agitado antes mesmo de ele terminar de ler.
— Nossa… não demorou, né? — murmurou uma das meninas da equipe de projetos, com a voz carregada daquele veneno leve que ela tentava disfarçar com risadinha.
— Rápido até demais — concordou outra, tomando um gole de café como se estivesse analisando um crime.
ouviu. Claro que ouviu.
Mas continuou parado, abriu uma planilha e fingiu que não tinha gente analisando sua vida como se fosse tópico de reunião.
Ele era bom em fingir.
A empresa inteira, porém, era ainda melhor em transformar qualquer coisa em história.
E a história do dia estava só começando.
Na copa, cinco minutos depois, a fofoca já tinha mudado de tom.
— Gente, vamos ser sinceros? Ele vive na sala do chefe.
— Sim! Vive mesmo.
— Eu sempre achei uma vibe meio… — a mulher fez um gesto com a mão, imitando “desmunhecando” o pulso e deixando a mão frouxa.
A amiga engasgou de rir.
— Para! Não fala isso…
— Ah, eu hein. Tem coisa aí.
E pronto.
O boato nasceu.
E boato, naquela empresa, nunca nascia pequeno.
Enquanto isso, tentava ignorar a movimentação ao redor da própria mesa. O clima estava estranho demais para uma manhã normal. Ela já tinha escrito a mesma frase três vezes no relatório, porque toda hora alguém cochichava mais alto do que deveria.
— Você viu, o foi promovido. — Uma das mais fofoqueiras do setor dela começou e sabia que não sairia nada de bom daquela conversa.
— Ele e o chefe são tão… próximos. — Outra comentou na conversa.
— Vocês ouviram semana passada? Aqueles barulhos?
— Eu ouvi! Pensei que fosse coisa da minha cabeça, mas agora…
fechou os olhos por um segundo.
Droga.
Ela sabia de quem eram os barulhos. E definitivamente não era o teste do sofá do .
Não queria que a culpa viesse tão rápido, mas ela veio — quente, afiada, latejando no fundo do estômago.
A memória apareceu inteira, sem pedir permissão:
a porta da sala do chefe fechando às pressas, o corpo dele pressionado ao dela, o som baixo que virou alto demais, a respiração quente no pescoço dela.
Aquela noite idiota.
Aquela decisão pior ainda.
Ela não voltara à sala dele desde então.
E já fazia semanas que sequer trocava um “bom dia” que não fosse necessário.
Mas saber que estavam usando aquilo — aquilo — para ferrar outra pessoa…
O incômodo se transformou numa espécie de raiva silenciosa.
ergueu o olhar. estava do outro lado do corredor, mexendo no computador com a postura tranquila de sempre. Se havia alguém na empresa que realmente merecia uma promoção, era ele.
E agora estavam manchando o nome dele por causa de uma história que não tinha nada a ver com ele.
Ele desviou o olhar da tela num momento, como se sentisse ser observado. Os olhos dele passaram pela sala, quase sem expressão, até encontrarem os dela.
congelou por meio segundo.
não sorriu, mas inclinou a cabeça, num aceno mínimo de reconhecimento.
Ela devolveu o gesto, meio rápido demais, e fingiu que estava ocupadíssima com a tela.
Mas o incômodo não passou.
Pelo contrário — parecia aumentar a cada novo cochicho que surgia.
— Você acha que é verdade? — O papo ainda rolava atrás dela.
— Que ele dormiu com o chefe? Total.
— Sempre achei uma química estranha entre os dois.
— Vai ver o chefe promoveu o namorado e é isso.
respirou fundo.
Ela nunca fora santa. Nunca fora ingénua.
Mas também nunca tinha gostado de injustiça.
E aquela tinha tudo para virar uma bola de neve.
Uma bola de neve enorme.
E ela tinha a impressão incômoda de que aquilo, de algum jeito, ainda ia cair sobre ela também.
Os boatos não diminuíram. Na verdade, parecia que tinham ganhado pernas, braços e uma velocidade olímpica. A cada dia, chegava ao escritório e descobria uma nova versão da própria vida amorosa que, aparentemente, todo mundo sabia menos ele.
Naquela manhã, observava de longe enquanto duas assistentes comentavam perto da máquina de café.
— Ouvi dizer que ele só ganhou a promoção porque o chefe dele gosta dele — disse uma, baixando a voz que, ainda assim, ecoou pelo corredor.
— “Gosta” é pouco — a outra riu. — Dizem até que é por isso que ele não sai com ninguém daqui…
revirou os olhos tão forte que quase viu o próprio cérebro. Sabia exatamente por que nunca dava trela para ninguém da empresa, e nada tinha a ver com o chefe — tinha a ver com o fato de que ele era discreto, reservado, e provavelmente preferia mastigar vidro a participar da bagunça emocional que vivia ali dentro.
E, se fosse para falar de envolvimento impróprio com chefes, ela, definitivamente, estava na frente daquele ranking.
Ela respirou fundo e decidiu fingir que aquilo não estava a incomodando. Até ver passar com uma expressão tão fechada que dava até para ouvir o “não fale comigo” silencioso pairando no ar.
Ele parou na mesa dela.
— Posso me sentar? Aparentemente você é a única nessa empresa que não está comentando do meu “caso” com o chefe. — Ele fez aspas com os dedos e ficou olhando para ela.
— Claro! senta. — Ela puxou a cadeira e ele se sentou.— Estão falando de você de novo, né? — Ela disse, sem disfarçar o cansaço.
— Estão, mas… hoje piorou. — cruzou os braços.
— Piorou mesmo.— suspirou e hesitou. Não queria ser a mensageira da desgraça, mas também não suportava vê-lo carregando sozinho um boato que nem era verdade. — Agora acharam que… você foi promovido porque está fazendo sexo com o chefe na sala dele.
— Ótimo. Maravilha. Falta pouco para inventarem que eu estou grávido dele. — soltou um suspiro descrente, tombando a cabeça para trás.
não conseguiu segurar a risada, apesar da situação estar longe de ser engraçada.
— Desculpa. — Ela cobriu a boca, tentando conter um sorriso. — Eu sei que não tem graça.
— Tem um pouquinho — admitiu, voltando a olhar para ela. — Mas… também é irritante.
Silêncio por alguns segundos. Daqueles que não são desconfortáveis, mas também não são exatamente tranquilos. A curiosidade dele finalmente venceu a hesitação.
— Parece que isso está te incomodando também, tem algum motivo específico? — ele perguntou. — Você nunca ligou muito pra fofocas.
respirou fundo, juntando coragem.
Era hora.
— … — ela começou, mexendo no próprio colar, um hábito nervoso. — A verdade é que… as pessoas acham isso porque… eu que transei com o chefe, na sala dele.
. — Você…? — piscou uma vez. Depois outra.
— É. — Ela mordeu o lábio, sem saber onde enfiar o rosto. — Não era nada demais. Só… acontecia às vezes. E ninguém sabe. Ou… não sabia, até agora.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas não parecia chocado — parecia mais… processando.
— Isso explica muita coisa — ele disse, finalmente.
— Tipo o quê?
— Tipo por que você nunca dava bola para ninguém daqui. — Ele deu de ombros. — Ou por que você ficava tensa toda vez que o chefe ou a esposa dele passavam perto da sua mesa.
— Eu não ficava tensa.
— Ficava sim. — sorriu de canto. — Meio que prendia a respiração.
Ela abriu a boca para negar, mas acabou rindo, derrotada.
— Ok, talvez um pouco. — Ela abriu a boca para negar, mas acabou rindo, derrotada.
— E vocês… ainda estão…? — Ele inclinou a cabeça, mais curioso agora.
— Não. — respondeu rápido demais. — Pouco antes dessa história com você, eu parei. Não dava mais. Agora então que as pessoas começaram a inventar mais coisas. E eu odiei que você estivesse levando a culpa por algo que… era meu.
— Obrigado por dizer a verdade. — soltou o ar devagar, como se tivesse tirado um peso do peito.
Ela assentiu, e por um segundo os dois ficaram apenas se olhando, como se tivessem descoberto uma parte nova um do outro.
Até que , lembrando do inferno das fofocas, suspirou:
— O problema é que… agora eles vão continuar criando histórias. Se não pararmos isso, vai piorar. Muito.
— Já pensei nisso também. E… tenho uma ideia. — apoiou as mãos nos bolsos da calça.
— Isso já me assusta um pouco.
— Você disse que não quer que descubram do seu caso. E eu… sinceramente… quero parar de ouvir todo dia que dormi com o chefe. — Ele ignorou a provocação.
— Então…?
— A gente poderia fingir que está namorando. — respirou fundo, como quem não acredita que está prestes a sugerir aquilo.
— O quê?! — arregalou os olhos.
— Não precisa ser algo gigante. Só… uma história convincente. Tipo “estamos saindo há algumas semanas” ou “estamos nos conhecendo”.
— , isso é loucura.
— É. — Ele concordou sem hesitar. — Mas pode funcionar.
Ela o encarou por longos segundos, prestando atenção no rosto sério, no olhar calmo, no jeito extremamente prático que ele tinha de lidar com tudo.
A ideia era absurda. Ridícula. Potencialmente catastrófica.
E, ainda assim… fazia sentido. Mais sentido do que admitir para o RH que tinha ficado com o próprio chefe. Mais sentido do que deixar que achassem que tinha subido de cargo por favores sexuais. Mais sentido do que qualquer outra alternativa.
— E como isso começaria? — apoiou o queixo na mão, pensativa.
— Simples. — sorriu de canto, daquele jeito lento, quase imperceptível. — A gente aparece juntos na festa de Natal.
Ela suspirou, sabendo que já tinha perdido essa batalha no momento em que ele abriu a boca.
— … isso vai dar muito errado.
— Provavelmente. — Ele levantou da mesa. — Mas pelo menos a culpa vai ser dividida.
— Tá. Vamos pensar. — mordeu o lábio, rindo baixo.
— E ?— Ele deu meia-volta, caminhando devagar pelo corredor. Ela ergueu o olhar. — Obrigado por confiar em mim — ele disse, antes de desaparecer na curva do corredor.
ficou olhando para o caminho que ele tinha seguido, com um sorriso que ela mesma não entendeu.
Talvez aquilo fosse uma péssima ideia.
Ou… talvez fosse o começo de algo muito mais problemático — e infinitamente mais interessante.
não sabia muito bem como aquilo tinha acontecido, mas, de alguma forma, no final daquela semana, ela estava entrando no café da esquina com ao lado — como se aquele fosse um hábito antigo, natural, quase rotineiro entre os dois.
O plano era simples: conversar sobre o namoro falso, definir regras, alinhar versões. Isso porque era organizado, metódico, e ela… bom, ela precisava de organização para não cometer o pior erro de todos: falar demais.
Mas assim que eles se sentaram, com duas canecas fumegantes entre eles, o tal planejamento começou a desmoronar rapidinho.
— Ok — disse, endireitando a postura. — Vamos ser objetivos. Precisamos decidir há quanto tempo estamos “juntos”.
— Certo. Alguma sugestão? — concordou com um aceno.
— Umas quatro semanas? É convincente o bastante. Não é muito, mas também não é pouco. E bate uma semana antes do barulho na sala dele. O que acha?
— quatro semanas… é. Parece bom. — Ele analisou a ideia por um instante.
Silêncio. Um daqueles que não incomodava, mas que, por alguma razão, deixava mais consciente do próprio corpo, do jeito que ele a olhava atentamente quando ela falava, como se prestasse atenção demais.
Ela desviou, limpando a garganta.
— Precisamos de sinais. Provas. Sei lá… mensagens, fotos, qualquer coisa que mostre que a gente estava… interagindo.
fez uma expressão pensativa.
— Fotos são fáceis. — Ele puxou o celular. — Tira uma comigo?
— Agora?! — Ela piscou, surpresa.
— Por que não? — Ele deu um meio sorriso. — Tem que parecer espontâneo. “Olha só, somos um casal normal tomando café num sábado”.
revirou os olhos, mas se aproximou.
E aí veio o problema.
Quando inclinou o corpo para perto dela, o ombro dele tocou o dela de leve. Um toque bobo. Inocente. Mas que causou uma pequena explosão interna que ela não estava preparada para explicar.
Ela sorriu — um sorriso real demais, natural demais — e tirou a foto.
— Ficou boa — ele disse, olhando para a tela. — A gente até parece que se gosta.
— Até parece — zombou, pegando a caneca para disfarçar o calor nas bochechas.
Mas não devolveu a provocação. Em vez disso, ficou observando a foto por um segundo a mais do que o normal.
Um segundo longo o suficiente para ela notar.
E, claro, ela fingiu que não notou.
— Tá — ela retomou o foco, ou tentou. — Precisamos também combinar como… hum… como a gente age um com o outro.
— Como assim? — ele franziu a testa.
— , ninguém vai acreditar se você continuar agindo como se eu fosse uma colega de setor, quase uma estranha. Casais… eles… sei lá. Conversam. Mandam mensagem. Trocam provocações. Às vezes encostam um no outro.
— Eu encosto em você se quiser. — ergueu uma sobrancelha.
A fala foi normal. O tom, absolutamente casual.
Mas engasgou com o café.
— Não precisa fazer essa cara. É só parte do plano. — riu baixo, sem maldade..
— Uhum. O plano. — Ela limpou a garganta. — Certo. Toques… moderados..
— Moderados — ele repetiu, concordando..
Só que, enquanto mexia o açúcar no café, ele esticou a mão sem pensar e tirou um fiapo do pulôver dela, bem perto da gola..
Um toque rápido. Minúsculo..
Mas congelou por meio segundo..
E também..
— Fiapo — ele justificou, voltando a mexer o café..
— Ah. Sim — ela concordou, tentando parecer indiferente..
Silêncio de novo..
Dessa vez… carregado..
Eles tentaram retomar o foco..
— Tá. Regras — disse, abrindo a tela de anotações no celular. — Número um: nada de inventar demais. Quanto mais simples a história, mais difícil de descobrirem..
— Número dois: a gente precisa ensaiar nossa versão — acrescentou. — Como nos conhecemos, quando começou, o que gostamos um no outro….
— Gostamos? — Ela travou.
— Eles vão perguntar. — Ele sustentou o olhar, completamente calmo.
— Tá. Então… vamos inventar. — mexeu no cabelo, desconfortável demais com aquela pergunta hipotética.
— Você começa — sugeriu, apoiando o queixo na mão, atento.
— Eu?
— Uhum. O que você diria que… gosta em mim?
Aquilo era absurdo, pensou. Era para ser só um plano. Apenas logística para despistar fofocas. Nada pessoal. Nada íntimo.
Mas as palavras escaparam antes que ela conseguisse filtrar.
— Gosto que você é… quieto — ela disse, surpresa consigo mesma. — Não no sentido ruim. Mais no sentido de… observar tudo. Você presta atenção. Nas coisas. Nas pessoas.
— Eu… não sabia que você tinha reparado nisso. — piscou, lento.
— Eu reparo em tudo — deu de ombros. — Inclusive quando você está irritado ou muito concentrado e tenta esconder mexendo e estalando os dedos.
Ele olhou para as próprias mãos, e estava fazendo o que a mulher disse.
— Isso… não é justo — ele murmurou, sem olhar para ela, mas sorrindo.
— Agora é sua vez — ela provocou.
ergueu o olhar, prendendo os olhos dela.
— Eu gosto que você… fala muito — ele disse.
— Isso não é elogio. — bufou.
— No seu caso é. — Ele riu. — Você fala, mas sempre diz alguma coisa que importa. Mesmo quando parece bobagem.
Ela abriu a boca para retrucar… e não conseguiu.
Porque ele estava olhando para ela daquele jeito de novo.
Como se a enxergasse com nitidez demais.
Então desviou, batendo com a ponta da caneta na mesa.
— Certo! — ela disse, alto demais. — Isso não é sobre a gente de verdade. É sobre o plano. O grande plano.
— Claro — concordou, mas o sorriso de canto entregava que ele estava se divertindo.
— E… — ela limpou a garganta — precisamos ensaiar como vamos aparecer juntos na festa.
— De mãos dadas? — ele perguntou, casual.
— Talvez. — Ela respirou fundo, tentando ignorar o frio na barriga. — Mas nada exagerado. Só o suficiente para as pessoas acreditarem.
— Certo. — Ele se levantou. — Então vamos ensaiar.
— O quê?
estendeu a mão, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
ficou olhando. Depois para a mão dele. Depois para o rosto dele.
— … estamos num café.
— Eles têm CCTV. — Ele deu de ombros. — Se virem a gente… pronto. Mais uma prova.
— Você usa qualquer desculpa, né? — Ela riu, sem acreditar que estava prestes a fazer aquilo.
— Para o plano, sim. — Ele insistiu com a mão estendida. — Vem.
Ela colocou a mão na dele.
Toque quente. Firme. Natural demais.
E foi nesse toque — leve, inocente, “de ensaio” — que percebeu que tinham cruzado alguma linha invisível.
Talvez ainda pudessem voltar.
Talvez.
Mas, pela maneira como entrelaçou os dedos nos dela, devagarzinho, como quem estava se acostumando…
Ela soube que provavelmente não voltariam mais.
Os primeiros dias depois do “ensaio” no café foram… estranhos.
Estranhos de um jeito bom.
Estranhos de um jeito perigoso.
No escritório, e pareciam orbitas que, finalmente, começavam a se cruzar. Não estavam grudados — longe disso. Mas havia algo novo no ar. Algo que não passava despercebido nem pelos mais distraídos.
Na segunda-feira, por exemplo, eles chegaram quase juntos no elevador.
Quase.
entrou primeiro, e quando a porta estava quase fechando, apareceu correndo, segurando o vão.
— Valeu — ele disse, entrando.
— De nada. — Ela sorriu.
Ele sorriu de volta. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
E, por alguma razão, aquele sorriso pareceu iluminar o elevador inteiro.
A porta abriu no andar deles, e os dois saíram lado a lado. Por meio segundo, os ombros se tocaram — rápido, suave — mas suficiente para sentir o impacto pulsar até o estômago.
Eles se afastaram ao perceberem o corredor cheio.
Mas alguém percebeu.
— Hmmm… — murmurou, a recepcionista e especialista em fofocas corporativas. — A que horas vocês combinam esses horários sincronizados mesmo? Já é a segunda ou terceira vez que chegam juntos, desde semana passada, não?
— Não dá pra você cuidar da sua vida não? A gente não combinou nada. — respondeu, sem graça.
— Aham — Thais riu, mostrando que não acreditava nem um pouco.
apenas levantou a mão em um aceno silencioso e seguiu para a própria mesa. Mas, quando passou por , sua mão esbarrou na dela — um toque tão leve que poderia ter sido acidental.
Exceto pelo olhar rápido que ele lançou.
Nada acidental ali.
Durante a semana, as aproximações ficaram mais evidentes.
Na terça, ele apareceu com dois cafés.
— Trouxe porque você quase morreu ontem tentando fazer o da máquina — ele explicou, depositando o copo na mesa dela.
— Eu não quase morri — retrucou, mas pegou o copo. — A máquina é que tem um problema comigo.
— Ela só está cansada da sua insistência — murmurou, e ela riu alto demais, chamando atenção do setor.
— Hum, cafézinho agora tem destinatária fixa? — perguntou o rapaz, da contabilidade, com sobrancelhas maliciosamente erguidas.
ia responder, mas foi mais rápido:
— Não enche! — Simples, seco.
Mas o suficiente para o setor inteiro virar a cabeça, surpreso com a defesa espontânea.
Na quinta, o toque veio de forma ainda mais sutil.
estava reclamando da impressora — novamente — e apareceu atrás dela para ajudar.
Ela estava inclinada, mexendo no botão travado, quando sentiu a mão dele pousar leve na parte de trás do braço, só para afastá-la um pouco.
— Deixa — ele disse, baixo. — Você vai quebrar essa máquina.
Ela se endireitou devagar, sentindo a pele quente onde ele encostara.
— Eu não ia quebrar nada — ela resmungou, tentando disfarçar a aceleração do coração.
— Claro que não — ele respondeu, irônico. — Você só ameaça a integridade das máquinas.
Ele olhou por cima do ombro e sorriu.
Um daqueles sorrisos que não tinha direito de ser tão bonito.
E ela desviou antes que ficasse óbvio demais que estava derretendo.
Os colegas?
Ah, esses já estavam construindo teorias.
— Vocês perceberam que eles estão… diferentes? — sussurrou uma funcionária perto da copa.
— Ele trouxe café pra ela duas vezes essa semana — apontou outra.
— E ela riu das piadas dele. Ela nunca ri das piadas de ninguém.
— Eu ouvi que eles saíram juntos no sábado.
ouviu essa última de passagem e quase engasgou com sua própria água.
— A fofoca foi rápido, hein — ela murmurou para assim que se aproximou da mesa dele.
— Eu avisei — respondeu, mexendo nos anéis. — Seu nome já apareceu na lista de apostas.
— Apostas?!
— Uhum. Se estamos juntos ou não.
— Quem criou isso?
— Quem você acha? O pessoal do jurídico. — levantou duas sobrancelhas.
— Isso tá saindo do controle. — riu, sem acreditar.
— Era o plano, não era? — perguntou.
— É. Mas… — ela hesitou — eu não achei que fosse tão fácil.
— Pra mim também não. — não disse nada por um momento. Depois inclinou a cabeça.
Silêncio de novo.
Um daqueles carregados.
Até que alguém interrompeu a cena:
— Bom dia. — A voz — grave, controlada demais — veio de trás.
O chefe.
Ele passou pelos dois com um olhar rápido, analisando, como se medisse distâncias. Como se buscasse sinais. E quando desviou o olhar, sentiu cada músculo do corpo travar.
percebeu.
— Ele tá estranho — murmurou, baixo.
— Ele tá com ciúme — corrigiu mentalmente, mas não disse em voz alta.
Em vez disso, respirou fundo.
— A festa da firma é daqui a duas semanas — disse ela, mudando de assunto, ou tentando. — Precisamos começar a alinhar o “resto”.
— Sim — concordou. — Quanto mais acreditarem agora, mais fácil vai ser quando chegarmos juntos lá.
Juntos.
Aquela palavra correu pela espinha de com um efeito que ela preferiu não analisar.
— Então… — ela voltou a perguntar — qual é o plano para essa semana?
ficou em silêncio por alguns segundos, analisando, pensando, decidindo.
Até que disse, com a calma típica dele:
— Continuamos assim.
— Assim como?
— Assim… naturalmente. — Ele deu um meio sorriso.
E foi exatamente isso que complicou tudo.
Porque, nas horas seguintes, percebeu que “naturalmente” significava:
aparecer do lado dela sempre que o chefe chegava perto.
usar o mesmo tom baixo quando ia falar com ela.
descobrir que ela gosta de biscoitos de limão e passar na mesa dela com um pacotinho sempre que passava na confeitaria no caminho do escritório.
deixar a mão encostar na dela quando entregava algum documento.
olhar para ela como se estivesse realmente… gostando.
E não sabia se o problema era o plano…
…ou o fato de que, pela primeira vez, ela estava começando a gostar de “naturalmente”.
Alguns dias depois, decidiram que precisavam de um teste em campo aberto: sairiam juntos para almoçar perto do escritório, onde sabiam que vários colegas também iam.
— Casais, que estão tendo um lance, saem para almoçar juntos, né? — disse .
— Casais que estão tendo um lance não deveriam ter que provar nada para ninguém. — ela rebateu, pegando a bolsa.
— Ah, mas a gente precisa, pelo menos, instigar.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
Andaram até o restaurante da esquina, onde quase sempre encontravam alguma alma do escritório. E, claro, não levou nem três minutos para acontecer.
— Meu Deus… eles vieram juntos. — murmurou uma funcionária do financeiro.
— Aposto que vão se assumir a qualquer momento. — respondeu outra, animada demais.
segurou o riso.
nem tentou esconder.
— Você percebeu que isso tá fácil demais? — ele comentou, enquanto olhava o cardápio.
— Eu sei. É até assustador.
— Talvez a gente tenha talento nato pra fingir que namora.
— Ou talvez as pessoas aqui sejam muito curiosas e muito desocupadas. — Ela ergueu a cabeça.
— Também funciona.
Os dois riram.
E foi justamente nesse riso que tudo aconteceu.
congelou.
seguiu seu olhar.
O chefe.
E a esposa.
Bem na fila do buffet.
Era a pior coincidência possível — e exatamente o tipo de coisa que poderia virar fofoca em poucos minutos.
ajeitou os cabelos, tentando parecer natural.
— Ótimo. Era só o que faltava… — sussurrou.
inclinou o corpo na direção dela, como se estivesse fazendo carinho ou dando atenção — parte do papel de namorado, claro.
— Relaxa. Ele não faz ideia de que a gente tá fazendo isso por causa dele.
— Ainda bem. — ela respondeu, mexendo no garfo — Mas pela cara, não está gostando nada, nada.
Na mesa ao lado, duas pessoas do RH arregalaram os olhos ao verem o chefe, esposa, e no mesmo ambiente.
— Pronto. — comentou, baixinho — Vai render tese de doutorado esse almoço.
— Ótimo. — sorriu — Quanto mais teoria criarem, mais fácil a gente confirma só na festa.
Ela olhou para ele longamente.
Havia algo diferente ali — não era mais só cumplicidade de plano.
piscou devagar, como se dissesse: confia.
E ela confiou.
O chefe passou perto da mesa deles para pegar talheres.
Olhou rápido demais, desviou rápido demais.
Parecia incomodado.
A esposa, por outro lado, sorriu educada para os dois.
devolveu o sorriso. também.
Perfeito. Natural. Inquestionável.
Era assim que um casal parecia.
E os dois estavam ficando bons demais nisso.
Quando voltaram ao escritório, o clima era quase… festivo.
Todo mundo olhando, cochichando, disfarçando mal.
E eles?
Nadavam nesse caos com a tranquilidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Acho que o nosso plano está funcionando melhor do que o esperado. — se aproximou da mesa dele, se inclinando um pouco.
— Eu diria que está funcionando bem demais. — girou a cadeira para olhá-la.
E houve aquele momento — aquele pequeno segundo — em que o olhar dele segurou o dela por tempo demais para ser só atuação. A festa da firma seria dali a poucos dias.
. E, pela primeira vez, teve a sensação de que o ensaio geral estava indo longe demais.
Porque, em algum ponto entre um toque e outro, entre risadas baixas e conversas que não eram mais só parte do plano…
eles tinham parado de apenas fingir.
E começado a querer.
A aproximação começou como parte do acordo.
Só que, de repente, não parecia mais algo que eles precisavam forçar. Era natural.
Leve.
Perigoso.
Naquela quinta-feira, O prédio já estava quase vazio quando ela juntou as coisas para ir embora. A semana tinha sido puxada, mas, de algum jeito, trabalhar ao lado de tinha deixado tudo mais… leve. Eles tinham caído em um ritmo estranho, íntimo, confortável demais para dois “colegas” fingindo um relacionamento futuro apenas para uma festa.
Ele apareceu ao lado dela no elevador com aquele sorriso torto, as mãos no bolso e o cabelo caindo na testa como se tivesse acabado de sair de um ensaio fotográfico.
— Indo pra casa? — ele perguntou, apoiando o ombro na parede de aço.
— Aham. Vou só passar no mercado antes. — Ela tentou soar casual, mas ultimamente até o jeito que ele a olhava a deixava descompensada.
O elevador abriu no térreo, e ela mal deu dois passos quando ouviu um crack. O salto direito cedeu — não só quebrou: praticamente se suicidou.
— Ah, maravilhoso. — ela murmurou, olhando para o salto quebrado — Claro que isso ia acontecer agora…
Tentou caminhar, mas o pé virou, quase levando ela junto.
— O que houve? — estava saindo logo atrás, quando a viu mancando.
— Meu salto decidiu se suicidar. — ela respondeu, mostrando o estrago — Vou ter que ir embora desfilando torta.
segurou o riso, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Vem cá. — ele se aproximou — Me dá a sua bolsa.
— Pra quê?
— Pra você não cair na calçada e quebrar o pescoço — ele disse, como se fosse óbvio.
Ela entregou, desconfiada.
E então ele simplesmente… colocou o braço dela em volta do seu.
— Apoia aqui. Vai mais devagar.
— … eu consigo andar.
— Não desse jeito. E, além disso, casais ajudam um ao outro, lembra?
revirou os olhos, mas a bochecha queimou.
Saíram juntos, ele ajustando o passo ao dela, segurando firme quando o salto quebrado ameaçou virar o pé outra vez.
— Se eu cair… — ela disse, num tom falso de ameaça.
— Eu te seguro. — ele respondeu, sem hesitar.
Ela olhou para ele — e viu que não era brincadeira.
Quando chegaram na calçada, tirou o sapato e ficou descalça mesmo, bufando. viu a cena e sorriu, aquele sorriso.
— Espera aí, não vai embora hein! — Ele encostou ela na muretinha que tinha na entrada do prédio, largou a mochila aos pés dela e saiu correndo até uma lojinha de departamento que tinha do outro lado da rua, na esquina da empresa.
Ele não demorou 15 minutos, voltou ofegante com uma sacola plástica na mão e dentro um par de chinelos cor de rosa neon, que ardiam os olhos só de olhar para eles.
— Agora sim, ó… totalmente elegante. — calçou os chinelos, eram horríveis, mas era melhor que sair andando descalça e estragar a meia calça que usava.
— Foi mal pela cor, ou era essa ou um amarelo marca texto que até os ETS veriam lá no espaço. — Ele riu da cara torcida que ela fez. — E eu acho que você fica linda até descalça. — ele soltou, sem pensar.
Os dois congelaram.
piscou. pigarreou, enfiando as mãos nos bolsos.
— Digo… como parte do nosso… plano. Claro. Tem que elogiar o par.
— Claro. — ela concordou rápido demais — Plano. Sempre o plano.
Eles riram.
Mas o estômago dos dois deu um nó.
No dia seguinte, foi ele quem precisou dela.
passou a manhã inteira estranho. Mais quieto do que era normal — e olha que ele já era discreto.
À tarde, encontrou-o sentado na copa, pálido, suando frio.
— ? — ela se aproximou rápido — O que aconteceu?
— Acho que só… comida que fez mal. Vai passar.
Não parecia que ia passar.
Ele respirava fundo, tentando disfarçar.
Tentando fingir que estava tudo bem.
Sempre ele tentando não incomodar ninguém.
não teve paciência para isso.
— Levanta. — ela disse, firme.
— Não precisa…
— . — ela cruzou os braços — Ou você levanta por bem, ou eu arrasto você, pelos cabelos.
Ele tentou rir, mas ficou tonto e apoiou a mão na mesa.
— Ok. Tá bom. Levanto.
Ela pegou a mochila dele sem pedir, passou o braço por trás das costas dele e o guiou até o elevador.
— , sério, não precisa… eu não quero dar trabalho…
— Cala a boquinha. — ela disse, quase rindo — Se eu pude te ver bebendo café duvidoso por três semanas, eu posso te ver passando mal também.
— Você é mandona. — Ele bufou, derrotado.
— E você é teimoso. A gente combina.
O elevador abriu.
Ela o apoiou contra o carro dele e assumiu o volante sem cerimônia.
— Eu vou dirigindo.
— Você sabe dirigir?
— …
— Ok, desculpa. Eu tô fraco demais pra lutar com você.
No hospital, deram soro, remédio, descanso.
Ela ficou sentada ao lado dele por quase duas horas.
Não porque precisava.
Não porque era parte do plano.
Simplesmente… porque quis.
Quando ele finalmente abriu os olhos, encontrou mexendo no celular, olhando de vez em quando para ver se ele estava respirando direito.
— Você ficou aqui? — ele perguntou, rouco.
— Claro. Você achou que eu ia te deixar sozinho? — Ela ergueu a cabeça e sorriu de leve.
a encarou por alguns segundos.
O tipo de olhar que segurava coisas não ditas.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer.
— Preciso sim.
— Então… de nada.
Ele sorriu fraco.
Ela sorriu de volta.
Quando ele teve alta, o deixou em casa.
— Posso te pedir uma coisa? — segurou a porta de casa um segundo a mais.
— Pode. — Ela ergueu a sobrancelha.
— Fica comigo na festa… o tempo todo. Não só pra manter o plano. Só… fica.
— Eu vou ficar. — engoliu em seco.
— Promessa?
— Promessa.
Os dois ficaram se olhando por tempo demais para ser casual.
Os dias passaram rápido.
No trabalho, eles estavam… diferentes.
Mais próximos.
Mais íntimos.
Mais à vontade.
já conhecia as caretas dele quando estava concentrado.
já sabia o tipo de coisa que fazia ela rir de verdade.
E ninguém mais no escritório tinha dúvidas de que eles eram um casal.
— Estão prontos pra festa de Natal? — alguém comentou perto da mesa em que eles estavam tomando café juntos na área de descanso — Acho que vão anunciar o namoro oficialmente, hein?
e trocaram olhares cúmplices.
A festa seria dali a poucos dias.
E, pela primeira vez, nenhum dos dois sabia se estavam indo para cumprir um plano…
ou assumir algo que já tinha passado da atuação havia muito tempo.
A semana passou tão rápido que, quando ela se deu conta, a festa da empresa já era naquela noite. O grupo inteiro comentava, especulava, inventava histórias. A recepcionista já tinha rodado três versões diferentes de “como eles começaram a sair”, enquanto o setor financeiro apostava dinheiro para ver quem teria coragem de perguntar diretamente.
Ela terminou de se arrumar devagar, como quem tentava acalmar os próprios nervos. Não era o fato de ir com — isso eles tinham planejado juntos. Era outra coisa, algo que ela não queria nomear. Algo que a deixava inquieta fazia uns dias.
O interfone tocou.
— Tô descendo — ela disse, antes que ele falasse qualquer coisa.
Quando saiu do prédio, encontrou encostado no carro, as mãos no bolso, o terno escuro impecável. O cabelo estava arrumado de um jeito que deixava ele absurdamente bonito
a olhou de cima a baixo devagar, sem pressa nenhuma.
— Você tá… — Ele parou, como se estivesse reorganizando palavras dentro da cabeça. — Impressionante.
Ela riu, mas não respondeu. Aquilo não era parte do plano. Era só ele sendo… ele.
— Vamos? — perguntou, tentando ignorar o calor que subiu pelo pescoço.
— Se você quiser desistir… — Ele abriu a porta para ela, mas antes que ela entrasse, inclinou-se um pouco.
— Nem pense nisso — ela interrompeu. — A gente vai juntos. Eles precisam parar de falar coisas absurdas sobre você.
sorriu como quem estava exatamente onde queria estar.
O estacionamento do salão estava cheio quando eles chegaram. Assim que saíram do carro, os olhares começaram. Pessoas da empresa cochichavam perto da entrada, algumas com copos de vinho, outras tentando disfarçar que estavam encarando.
O salão estava igualmente lotado quando e chegaram — de mãos dadas, rindo baixinho de algo que só eles sabiam. Não era tímido. Não era hesitante. Era assumido. Era namoro oficial, pelo menos para quem estivesse olhando.
Eles atravessaram a entrada como se realmente fossem um casal que vinha escondendo aquilo há meses.
E funcionou.
Na mesma hora, as cabeças começaram a virar.
— Eu sabia! — alguém sussurrou perto da mesa de frios.
— Eles estavam muito próximos esses dias… — comentou outro.
— Não, pera. O , não é o namorado do chefe?
— Meu Deus, a vai ser demitida. Ela tá saindo com o namorado do chefe!
— Gente, com quantas pessoas o namora?
— Isso é fachada, certeza.
— Ou será que eles fazem… trisal?
— Cala a boca! Eles estão juntos, esse negócio de namoro com o chefe é fanfic de vocês.
! Em menos de trinta segundos, os boatos estavam fervendo como água prestes a transbordar.
apertou a mão de , como parte do teatro — mas o calor dele contra a pele dela deixou tudo terrivelmente real.
Ele inclinou um pouco a cabeça na direção dela, com aquele sorriso pequeno e malicioso que só ela tinha visto de perto esses dias.
— Acho que funcionou — ele murmurou, baixo, quase encostando os lábios na orelha dela.
— Funcionou até demais — ela respondeu, sorrindo sem conseguir evitar.
Eles foram parados antes mesmo de chegarem ao bar.
— Quando isso começou? — Uma colega perguntou, as sobrancelhas arqueadas até o limite.
— Faz um tempinho — respondeu com a maior naturalidade do mundo, apoiando a mão no braço do “namorado”.
— Faz tempinho, né? — repetiu um analista do financeiro, quase anotando mentalmente. — Mas vocês não eram… só amigos?
— A gente era muito discreto. — riu
Discreto não era exatamente a palavra que o salão inteiro usaria naquele momento — não com eles de mãos dadas, se olhando daquele jeito.
Mais cochichos surgiam pelos cantos.
— O tinha um caso com o Chefe, não tinha?
— Não sei,mas talvez isso seja ela cobrindo o caso dele com o .
— Ou então agora ele largou o chefe, depois que conseguiu a promoção para ficar com a ?
— Gente, alguém avisa que isso aqui não é novela?
Era uma avalanche de interpretações completamente insanas — e eles estavam exatamente no olho do furacão.
Até o bendito chefe chegar.
Ele surgiu perto do bar, segurando um copo com força demais. Os olhos dele passaram rapidamente por … depois por … depois pelas mãos dadas.
Uma marca visível de tensão apareceu na mandíbula dele.
sentiu a espinha gelar — não por culpa, mas porque ele estava prestes a abrir a boca e estragar tudo.
percebeu na mesma hora.
E fez o que tinha que fazer.
Completamente natural, ainda segurando a mão dela, ele passou o braço pela cintura de e a puxou um pouco para mais perto.
— Respira — ele murmurou.
Ela tentou. Não conseguiu muito.
— Vocês dois juntos? — O homem que antes observava do bar, perguntou, forçando um sorriso torto.
— Sim, senhor! — respondeu sem hesitar. — Algum problema, chefe?
O salão inteiro ficou em silêncio por meio segundo.
Parecia que até a banda tinha parado para ver.
O chefe olhou para de um jeito que misturava surpresa, irritação e… talvez ciúmes. Mas não tinha o que dizer. Não naquela situação.
— Meus parabens ao casal. — Ele só levantou o copo, deu um meio-brinde e se afastou.
E assim que ele saiu…
As conversas recomeçaram como tiros.
— Eles só estão fazendo isso pra disfarçar!
— Isso é fachada, certeza absoluta. Você viu a cara de desgosto do Chefe?
— O nunca ia namorar a , além dele ser gay, nunca nem tinha olhado para uma mulher do escritório com outros olhos.
— Isso é tudo encenação pra acalmar o boato com o chefe, que deve ser real mesmo, pela pequena cena que acabou de acontecer.
. — Olha, eu não compro.
— Eles tão tentando convencer a gente, mas até com a minha mãe eu fico de mãos dadas.
— Eles não vão acreditar em nada que a gente disser. — suspirou, passando a mão no cabelo.
— Então o que a gente faz? — perguntou, já cansada daquilo.
Ele a encarou.
Longo demais.
Profundo demais.
Perigoso demais para algo que deveria ser apenas um plano.
— A gente para de falar — ele disse, com a voz baixa, firme — ou mostrar.
E antes que ela pudesse pensar, responder ou processar…
segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou.
Um beijo de tirar o fôlego.
Cheio.
Quente.
Firme.
Sem espaço para dúvidas ou rumores.
Um beijo que fez alguém perto deles deixar o copo cair no chão.
As mãos dela subiram instintivamente para o peito dele, puxando-o ainda mais para perto.
O salão inteiro ficou em silêncio.
O tipo de silêncio que só acontece quando cem pessoas testemunham algo que não deveriam.
Quando eles se separaram, ofegantes, atordoados, com as testas quase encostadas…
Alguém finalmente sussurrou:
— Ok. não tem como isso ser fachada.
E foi só aí, só naquele exato segundo, que e perceberam…
…que tinha ficado difícil lembrar que era mentira.
Os comentários que vieram depois do beijo pareciam explodir naquela festa de fim de ano. Era como se o salão inteiro estivesse esperando uma explicação… ou uma segunda rodada.
Mas e só conseguiram olhar um para o outro.
Sem falar.
Sem se mexer.
Sem nem lembrar exatamente onde estavam exatamente.
. O burburinho passou aos poucos, como se alguém estivesse tirando o mundo do mudo.
— Eu… — ela começou, ainda respirando rápido.
— Eu sei — ele respondeu antes mesmo que ela formulasse uma frase.
Ele estava com a respiração acelerada, o peito subindo e descendo num ritmo que ela nunca tinha visto. As mãos ainda estavam no rosto dela, quentes, firmes, como se ele tivesse esquecido de tirá-las.
tocou o pulso dele, só para afastá-lo devagar — mas o toque foi suave demais para parecer recusa.
E não viu aquilo como recusa.
— Era só pra calar os boatos? — ela murmurou, sabendo que não era só isso.
— Era! — ele concordou, mas a voz saiu baixa, rouca. — Mas… deu um pouco errado.
— Errado? — Ela riu, nervosa.
Ele passou a mão pelos cabelos, tentando se recompor, mas só ficou ainda mais bonito — uma injustiça biológica.
— Se aquilo foi só fachada, … a gente atua muito bem — ele disse, olhando para a boca dela por um segundo a mais do que deveria.
Ela sentiu as pernas bambas.
Era ridículo.
Era só .
O colega quieto, reservado, sarcástico, que tinha aceitado ajudá-la a limpar um rumor idiota, que ela tinha metido ele também.
Mas quando ele olhou para ela daquele jeito, parecia qualquer coisa, menos colega.
Os comentários começaram novamente ao redor.
— Não tem como ser falso!
— Gente, vocês viram o beijo?
— Aquilo foi beijo de casal que transa.
— Eu sempre soube!
— Se o boato sobre o chefe não for mentira, ele deve estar espumando.
— Quer sair daqui um pouco? — soltou um suspiro pesado, e então, baixinho, perguntou.
Ela hesitou.
A cabeça dizia não dá, vocês isso é só um plano, vocês são uma dupla fingida, vocês são uma invenção temporária.
O corpo dizia vai.
— Vamos — ela respondeu antes de conseguir pensar melhor.
Ele segurou a mão dela novamente, dessa vez sem fingimento algum.
Eles se afastaram para uma varanda lateral, onde o ar estava frio e silencioso. Era como se o mundo tivesse sido reduzido a duas respirações aceleradas e à lembrança recente de um beijo que... tinha mexido demais com eles.
se apoiou no corrimão e cruzou os braços, tentando demonstrar algum controle.
parou perto, mas não tão perto — como se estivesse lutando com o próprio corpo para manter distância.
— A gente exagerou? — ela disse, finalmente, tentando rir, mas só saiu um sopro irregular.
— Só um pouco — ele respondeu, encostando no batente da porta. — Mas não dava. Eles não iam acreditar de outro jeito.
— Não foi por isso e você sabe. — Ela balançou a cabeça.
levantou o olhar, surpreendido.
— Foi porque eu quis te beijar. — Disse, devagar, como se tirasse algo de dentro do peito.
A frase caiu entre eles como um peso, movendo o ar, o silêncio, a lógica de tudo.
desviou o olhar por um instante, o coração batendo contra as costelas.
— E eu… — ela começou, mas a voz falhou. — Eu não deveria ter gostado tanto.
Era a primeira vez que qualquer um dos dois admitia algo.
— Então você gostou? — ele disse, quase sorrindo, mas era um sorriso contido, tenso.
— …
— Não precisa fugir — ele a interrompeu com gentileza, dando um passo a mais. Não muito, só o suficiente para que ela sentisse o calor dele. — É só a gente admitir que… alguma coisa mudou.
Ela o olhou.
Realmente olhou.
E viu o que estava tentando evitar desde o almoço, desde o salto quebrado, desde o hospital, desde cada sorriso baixinho nos últimos dias:
Eles estavam sentindo algo. Um pelo outro.
E não era pequeno.
Não era passageiro.
E definitivamente não tinha nada a ver com o plano.
— Se isso estiver confundindo você… eu entendo. Mas não mente pra mim. Nem pra você. — parou na frente dela, com uma expressão séria, verdadeira, que ele nunca tinha mostrado para ninguém na empresa.
respirou fundo, o peito subindo de um jeito que denunciava tudo.
— Eu não estou confusa — ela admitiu enfim. — Eu só não sei o que fazer com isso.
Ele sorriu — pequeno, genuíno, como se estivesse ouvindo a coisa mais importante da noite.
— A gente não precisa decidir agora — ele disse, chegando mais perto. — Mas…
Ele quase terminou de falar, quando a porta abriu com força demais, fazendo se sobressaltar.
O Chefe apareceu no vão, o rosto rígido, os olhos faiscando. A expressão de quem tinha bebido um pouco… mas não o suficiente para culpar o álcool.
— . — O tom dele cortou o ar. Nada de educado. Nada de neutro.
Ela endireitou os ombros. , sem precisar de convite, deu um passo para o lado dela, como se fosse natural — e talvez, naquele momento, fosse.
— Chefe — ela respondeu, firme.
— Podemos conversar? — ele perguntou, mas o olhar não saiu dela. Não era pedido. Era ordem.
levantou uma sobrancelha.
— Ela já está conversando — disse, simples.
A mandíbula do outro travou.
— Não estou falando com você, . — Ele cuspiu o nome como se tivesse gosto ruim. — Isso é entre mim e a .
— Não é não — rebateu, a voz baixa, gelada. — Não mais.
O outro homem ignorou, virando-se novamente para ela.
— É isso, então? — Ele não era sutil. Nunca tinha sido. — Você termina comigo do nada, aparece com ele no meio da festa, dá aquele beijo de novela e espera que eu fique calado? Você perdeu a noção, ?
Ela abriu a boca para responder, mas foi mais rápido.
— Vai fazer uma cena mesmo com a minha namorada? — ele perguntou, alto o bastante para a frase ecoar até a porta.
O sangue pareceu sumir do rosto do chefe.
— Sua… quê? — ele repetiu.
entrelaçou os dedos aos de — devagar, firme, nada teatral. Um toque que dizia muita coisa.
— Namorada — ele reforçou, com uma calma perigosa. — Quer repetir mais alto pra todo mundo ouvir? Ou prefere continuar aqui, fingindo que ainda tem algum direito sobre ela?
O homem respirou fundo, parecendo preparar uma resposta, mas não permitiu.
— Você quer mesmo falar sobre moral? — perguntou, inclinando a cabeça. — Porque, se quiser, eu posso subir naquele palco agora e perguntar pra empresa inteira o que achariam se soubessem que o “pai de família”, dono dos bons costumes, não só teve um caso com uma funcionária… — Ele fez uma pausa, deixando a frase pesar. — …como vem perseguindo ela desde então.
O silêncio bateu forte.
sentiu o coração sair pela boca.
o Chefe engoliu seco.
Ele olhou para um lado, para o outro, como se procurasse testemunhas.
A respiração saiu tremida.
— Você não sabe do que está falando — ele disse, mas sem a força de antes. Era quase defensivo.
— Sei o suficiente — respondeu. — Sei que se você levantar a voz pra ela de novo, eu vou fazer questão de repetir tudo isso na frente dos seus colegas. E da sua esposa, se você quiser chamá-la aqui também.
O golpe acertou em cheio.
O homem pareceu murchar.
O rosto ficou vermelho — de raiva, de vergonha, dos dois.
Ele deu mais um passo para trás, como se o ar tivesse ficado pesado demais ali.
— Isso não vai acabar bem pra vocês — ele soltou, a ameaça mal disfarçada.
— Já tá acabando mal pra você. — deu um sorriso frio.
O outro prendeu a respiração, virou de costas e voltou para dentro da festa sem olhar para trás.
A porta fechou devagar.
O silêncio voltou.
soltou o ar que estava prendendo.
manteve a mão na dela por mais um instante — até que ela apertou seus dedos em retribuição.
— Você… não precisava ter feito isso — ela disse, baixinho, num misto de gratidão e adrenalina.
— Precisava, sim — ele respondeu, olhando para ela como se o mundo tivesse encolhido de novo. — Ele não fala com você daquele jeito. Nunca mais.
sentiu o estômago revirar — mas agora por motivos muito diferentes.
Ele não estava atuando.
Nem um pouco.
E ela também não.
— … — ela começou, mas a frase morreu entre eles.
Ele inclinou a cabeça, devagar, se aproximando apenas um pouco.
— Eu vou te proteger quantas vezes forem necessárias — ele disse, firme. — Plano ou não.
Ela sentiu o chão sumir. E o coração bater tão forte como nunca. E eles também voltaram para a festa
A segunda-feira amanheceu com outro tipo de energia.
desceu do carro ao lado de , ambos chegando juntos pela primeira vez como… algo. Não tinham colocado nome, não tinham conversado direito sobre o beijo — ou os beijos, no plural — mas também não estavam fugindo daquilo.
E, pelo visto, o prédio inteiro estava atento.
No corredor, três funcionárias pararam de andar ao vê-los lado a lado.
— Meu Deus, como ninguém percebeu isso antes? — sussurrou uma.
— Eu sempre disse que ele não era gay! — falou outra, indignada, como se tivesse apostado dinheiro nisso.
— E eu juavai por Deus que ele tivesse caso com o chefe… — a terceira murmurou. — Acho que fui burra mesmo.
se engasgou de leve com uma risadinha nervosa, e apenas pousou a mão nas costas dela, discreto, mas protetor.
— Tá tudo bem? — ele perguntou baixinho.
— Eu deveria estar acostumada — ela disse, fungando de riso. — Mas dessa vez… eu não esperava isso tudo.
— Vai passar. — Ele deu um micro sorriso. — E, pra ser sincero… não é tão ruim assim ter você ao meu lado.
Ela não respondeu. Não tinha como responder sem entregar que o estômago dela tinha acabado de virar duas vezes.
Eles ficaram a manhã inteira fingindo normalidade no trabalho, mesmo que ambos recebessem olhares curiosos e umas três perguntas sutis no elevador.
Quando finalmente sentaram para almoçar, no canto mais discreto do refeitório, respirou fundo, apoiando os cotovelos na mesa.
— … eu estive pensando.
— Já começou errado — ela disse de boca cheia, brincando. — Você pensando nunca me traz paz.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Acho que a gente deveria estipular um prazo… pro nosso término de mentirinha.
Ela parou. A comida desceu quadrada.
— Tá. — Ela limpou a boca com um guardanapo, séria demais para um assunto que era pra ser leve. — Vamos terminar isso agora.
piscou, confuso.
— Agora? Mas… a gente acabou de se “assumir” ontem. — Ele inclinou a cabeça. — As pessoas vão achar estranho se a gente terminar depois daqueles beijos que demos durante a festa daqueles.
— Eu quero terminar nosso namoro de mentirinha. — Ela cruzou os braços e o encarou com firmeza
Ele abriu a boca… fechou… abriu de novo.
— Certo… — ele falou devagar, tentando entender. — Então… você quer… desistir?
— Não. — Ela deu um pequeno sorriso, o tipo que quebrava qualquer lógica dele. — Eu quero começar a sair com você de verdade. Se você quiser, é claro.
O silêncio durou menos de um segundo.
Porque se inclinou sobre a mesa, segurou o rosto dela com uma mão firme e beijou de novo — sem dar chance pra dúvida, pra hesitação ou pra qualquer pensamento que não fosse ela.
Um beijo quente, decidido, cheio da resposta que ele nem precisou dizer em palavras.
Quando se afastou, ainda perto demais, ele sorriu torto:
— Isso serve como “sim”?
— Serve — ela sussurrou, rindo contra a boca dele.
— Ótimo. — Ele encostou a testa na dela. — Porque eu não queria que fosse de mentira mesmo.
FIM
Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? EU TO GRITANDO QUE ACHAM QUE O MIN É GAAAY, SERIO, EU AMO UMA FIC kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.
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