Última atualização: 15/04/2026

Capítulo 21


Deslizei as mãos pelo tecido da camiseta preta, retirando os minúsculos pelos brancos que insistiam em decorá-la. Levei os dedos até o colarinho e abotoei os últimos dois botões, optando por deixar o primeiro aberto. Desci os olhos pelo antebraço em busca de qualquer coisa que pudesse prender a minha atenção, antes que minha mente desviasse o rumo e me levasse de volta para reviver tudo o que aconteceu naquela cozinha.
Com o indicador e o polegar, girei ao redor do pulso esquerdo. Soltei o ar pesado pela boca, buscando o acessório pelo quarto. Abri a gaveta da cômoda e encontrei o relógio que serviria de distração por alguns segundos. E enquanto lutava para prender a pulseira com apenas uma mão, sentia que algo profundo se remexia em meu íntimo. Algo que não conseguiria ignorar por muito tempo.
Eu sabia que a qualquer momento teria de me render e parar de lutar contra as vozes irritantes que insistiam em lembrar que há muito tempo perdi aquela batalha. E por mais que tentasse me convencer de que os problemas da não eram da minha conta, já estava envolvido demais para simples ignorar.
Porra!
Por que a cada segundo que passava era como se o ar me faltasse e fosse levado de volta àquela cozinha? Por que doía tanto relembrar a forma como ela se debateu e tentou me empurrar? E por que me sentia culpado por despertar aquele pesadelo tão sombrio?
Eu só queria beijá-la, sentir o calor dos seus lábios contra os meus. Acalmar a selvageria e toda a posessividade que clamava dentro de mim, implorando que a marcasse como minha. Mas bastou minha mão deslizar pelo pescoço fino, pronto para puxá-la de uma vez pela nuca que todo o meu mundo desmoronou. Ainda conseguia sentir o impacto dos socos e das mãos me empurrando com urgência. Os olhos castanhos tão lindos se transformaram em duas esferas escuras e assustadas.
Sentei-me na cama, sabendo que a qualquer momento poderia perder o equilíbrio. Esfreguei o rosto e afundei os dedos nos fios perfeitamente arrumados, bagunçando-os, talvez pela décima vez naquele dia. Desde que subi as escadas e decidi me arrumar para o jantar, o cronômetro começou a rodar, marcando as piores horas da minha vida. Durante o banho tive de lutar contra a vontade absurda de vê-la a cada cinco minutos. Não conseguia parar de pensar nela.
Era como ser consumido por uma angústia maior que o universo. Queria saber como ela estava; se precisava de alguma coisa. Porque mesmo que estivéssemos há apenas alguns segundos de distância, queria estar por perto para ajudá-la, por menor que seja o problema.
E tudo isso estava começando a me assustar.
Suspirei pesado e deixei que o corpo afundasse na cama macia do quarto principal. Cobri a cabeça com o travesseiro, pressionando o tecido com força, como se isso pudesse ajudar a esquecer a conversa que tivemos quando finalmente consegui levá-la para a sala e aconchegá-la em meus braços. No entanto, a escuridão e o silêncio apenas serviram para me afogar na vasta lembrança, remoendo cada palavra.
Confesso que nunca fiquei tão apreensivo. Perdi as contas de quantas vezes prendi a respiração enquanto esperava que ela contasse sobre o seu passado traumático e cruel.
Lembro-me das costas se acomodarem perfeitamente contra o encosto do sofá de modo que as pernas ficassem esticadas e minha coelhinha se enroscasse ali. Meus dedos se perderam no meio dos fios escuros, afagando em um carinho lento e acolhedor. Ouvi sua respiração se acalmando devagar. A cabeça levemente tombada contra meu peito depositava toda a sua confiança. A mão agarrada ao tecido da camiseta dava a ela o ar de um filhotinho assustado.
Os ombros subiam e desciam sendo ali que me concentrei pelos próximos minutos, porque qualquer mudança que seu corpo demonstrasse, um mísero desconforto, precisava estar pronto para agir.
Deslizei o polegar pela bochecha rosada, colocando a mecha teimosa atrás da sua orelha. Inclinei-me e depositei um beijo casto sobre sua cabeça, fazendo-a se encolher mais contra mim, como se quisesse garantir que tudo realmente era real. Desci a mão e delicadamente soltei seu agarre do tecido. Entrelacei nossos dedos, apertando firmemente. Queria que ela se sentisse segura, que visse que eu não sairia do seu lado nem mesmo se alguém entrasse armado naquela casa.
Ela fixou os olhos naquele gesto simples, seu semblante apreensivo.
— Está tudo bem, coelhinha. Eu não vou a lugar algum. — sondei cada uma das suas reações e em resposta senti quando devolveu o aperto. — Podemos ficar aqui o tempo que precisar. — devagar inclinei a cabeça e repousei sobre os cabelos macios, esfregando a bochecha delicadamente em círculos. — Não precisamos falar nada, se não quiser.
Um certo desconforto me atingiu. No fundo, eu não queria escutar a verdadeira história por trás dos seus traumas. A mera possibilidade de terem feito algo de ruim contra ela já era o suficiente para a raiva borbulhar dentro do meu peito.
— Eu sinto muito... — disse em um fio de voz e soltou o ar, igual a um fardo pesado.
— Não sinta. Está tudo bem, anjo. — fechei os olhos e repeti o carinho com a cabeça, não deixando de acariciar sua bochecha com o polegar. — Não precisa se desculpar por algo que não foi sua culpa. Muitas vezes, nossos corpos reagem por impulso quando nos sentimos ameaçados.
se remexeu e deixei que se acomodasse da maneira mais confortável. Deitou-se de lado no sofá, sua cabeça agora repousava em cima da minha coxa, tomando cuidado para não soltar nossas mãos.
— Diariamente, sou mordido por animais que sentiram medo de mim. Principalmente os que foram resgatados de maus-tratos. E está tudo bem. — com a mão livre continuei o carinho em seus cabelos. — Não é culpa deles, só estavam se defendendo daquilo que os machucou.
Ela delicadamente girou meu pulso, possivelmente em busca de alguma marca. Percebi quando seus olhos se fixaram sobre a pequena cicatriz fina, levemente robusta, que se estendia pelo dorso até o meio do antebraço. A coloração pálida e a textura flácida da pele sempre a denunciaria. Uma marca antiga, cheia de lembranças dolorosas, mas que terminaram com final feliz.
— O Sky foi o responsável por essa obra de arte. — revelei, assistindo-a contornar com o polegar. — Quando o resgatei, não poupou esforços para se defender. Ele foi abandonado ainda filhote e os traumas estavam lá.
— Ele só estava assustado. — comentou baixo, quase um sussurro.
— É normal sentir medo, ainda mais quando se foi descartado como lixo em uma noite chuvosa e fria.
Acariciei a lateral do braço dela, sentindo aquela pontada característica sempre que lembrava do pequeno gatinho buscando abrigo entre as caixas de papelão encharcadas.
Pobre Sky. Era só um filhote indefeso e desnutrido que me fez correr por dois quarteirões para pegá-lo. Ele não tinha ideia de que o levaria para o calor do meu apartamento, cheio de petisco de salmão e uma cama quentinha onde passaria a dormir pelo resto da vida, longe dos perigos da rua.
— Aconteceu algo com você, não foi? — a pergunta saiu antes que pudesse evitar.
Ela assentiu e se encolheu.
— Notei que quando desci a mão para o seu pescoço e me aproximei para beijá-la, você entrou em pânico. Vi o medo estampado dentro dos seus olhos e não foi preciso muito para perceber que entrou em pânico.
— Não foi você, ... E-eu... — balbuciou, apertando com força a minha mão.
— Eu sei que não... — mordi os lábios, não sabendo se deveria continuar com aquela pergunta. — , foi o Dante? — meu coração deu um solavanco e pensei que fosse infartar antes de receber a resposta.
Ela fungou e pareceu ponderar antes das palavras saírem pela sua boca.
— Não. O Dante me ajudou quando tudo aconteceu... — ela desenhou círculos imaginários pela minha panturrilha. — Foi ele que comprou minha passagem para Boston e garantiu que... — sua voz hesitou e senti algumas gotas quentes molharem o tecido da calça.
— Não precisa falar sobre isso, anjo. — inclinei-me e capturei as lágrimas com o polegar. — O que acha de assistirmos um daqueles filmes românticos que você tanto gosta? — a onda de culpa me atingiu em cheio de modo que nem mesmo conseguia respirar.
Ela negou com a cabeça e puxou o ar com força, como se buscasse coragem para continuar a falar.
— O Dante garantiu que cuidaria de tudo. Prometeu que ele nunca mais ia me machucar. — continuou entre soluços.
— Ele tocou em você? A forçou...? — engoli em seco, quase não tendo forças para continuar respirando. Não conseguia nem pensar na hipótese de alguém tê-la ferido dessa maneira.
— Ele tentava... — confessou, a voz trêmula somente de pensar naquele demônio. — Mas não do jeito que você me toca. E-eu gosto do seu toque.
Ouvir aquelas palavras foi como cair no abismo e ser puxado de volta, antes de atingir o chão. As garras afiadas rasgavam meu peito, enlouquecidas para saírem e acabar com a raça daquele infeliz. Tencionei a mandíbula e mordi a ponta da língua, contendo a raiva que queria se apossar dos meus sentidos.
soluçou mais alto. Os ombros subiam e desciam com desespero. Sua mão se soltou da minha, se encolhendo como um filhotinho amedrontado. Em um movimento cauteloso, afastei nossos corpos o suficiente para que pudesse me deitar no sofá e puxá-la para perto. Ela afundou o rosto na curva do meu pescoço, as lágrimas saíram pesadas. Cada gota salgada carregava a carga pesada da sua dor.
— Nunca contei isso para ninguém... — sussurrou contra minha pele. — Tive tanto medo, que nem mesmo o meu irmão sabia disso.
— Me conte o que quiser, coelhinha. — beijei sua têmpora e a abracei com força. — Se não se sentir pronta, tudo bem. Podemos ir devagar.
— Tentei procurar ajuda, , mas... Eu não consigo falar sobre isso com ninguém.
— Está segura comigo, pequena. Nunca deixarei nenhum homem chegar perto de você. E aqueles que ousarem tocá-la terão as mãos arrancadas antes que consigam. — até o submundo teria medo do que eu seria capaz de fazer para protegê-la. — Pode confiar em mim. — peguei em seu rosto, olhando dentro daqueles olhos perfeitos. — Me conte tudo o que quiser.
soltou o ar pela boca e fechou as pálpebras pesadas. Aproximei-me lentamente, depositando um beijo quente e acolhedor em sua testa. Eu queimaria o mundo por ela, e todos seriam testemunhas da minha devoção.
— Decidi que queria cursar direito em Nova York, todas aquelas leis me fascinavam. E sempre desejei conhecer a cidade. — disse, após um tempo, a voz baixa e cheia de ressentimento. — Tinha acabado de publicar o meu primeiro livro. Juntei todas as economias e aluguei um apartamento em Manhattan. Vivi um sonho por alguns meses. — abriu os olhos e segurou em minhas mãos, as lágrimas já se formavam no canto dos olhos.
Engoli em seco. Porra, ela era só uma garota inocente atrás dos seus sonhos, nenhum demônio tinha o direto de transformar isso em uma memória traumática.
— Conheci o Kaleb quando comecei a trabalhar em uma livraria para pagar as contas. — então esse era o nome do desgraçado. — Ele passou a ir na loja todos os finais de semana e sempre me presenteava com buquê de rosas.
Incrível como grande parte dos babacas se escondiam por trás da imagem de príncipe encantado.
— No começo ele era gentil, romântico, mas depois de um tempo passou a querer me controlar. Sempre julgava as roupas que usava, dizia que pareciam de prostitutas. Escolhia até os meus amigos, que segundo ele não eram boas companhia. — ela ofegou e voltou a esconder o rosto no meu pescoço. — Conheci o Dante na academia do bairro. Ele foi o único que o Kaleb não conseguiu afastar, porque fazia parte do seu círculo de amizades. Por isso não disse nada quando fomos morar juntos, mas o seu silêncio não durou por muito tempo.
O nó se formou na minha garganta e tive de morder a língua para não enlouquecer com aquela revelação.
— O Dante não sabia que ele era assim, e eu também nunca contei. — encolheu-se mais em meus braços. — Até o dia, que Kaleb tentou me forçar pela primeira vez... — sua voz ficou trêmula e a abracei. — Acabei dormindo no sofá e quando acordei... E-ele estava em cima de mim e falava que se eu não me entregasse era porque não o amava... — a cada soluço que escapava da sua boca, meu coração se quebrava mais e mais. — O Dante chegou a tempo de impedi-lo, e todo o inferno começou...
— Maldito, desgraçado. — ah, como eu queria poder acabar com aquele infeliz. — Por favor, me diga que depois disso, ele nunca mais chegou perto de você.
— Não quando o Dante estava por perto para me proteger.
Por um momento, me senti imensamente culpado por ter olhado para aquele homem com outros olhos.
— Mas ter o Dante por perto nunca foi o suficiente. O Kaleb me perseguia, parecia querer me devorar a qualquer momento. — soltou o ar e senti o quanto era difícil para ela mergulhar no passado. — Todos os dias tinha medo de sair de casa. Na livraria, meu corpo gelava só de ouvir a porta sendo aberta. E na hora de ir embora, pedia para o taxista me deixar na academia que Dante estagiava e esperava até que pudéssemos ir embora juntos. Ao lado dele, sentia que nada poderia acontecer.
— Coelhinha, se eu pudesse voltar no passado acabaria com a raça desse filho da puta. O faria se arrepender de ter encostado os dedos em você. — acariciei o seu braço, deixando outro beijo em sua testa.
— Deve estar me achando uma idiota por ter tido aquele ataque. — cobriu o rosto com as mãos. — Estou com tanta vergonha. Você é o primeiro homem que aceito que me toque. O primeiro com quem me sinto segura para querer algo a mais... É irônico, pensar que depois de tudo o que passamos, você é o único que não me assusta.
— Ei... — puxei suas mãos delicadamente e beijei o dorso. — Estou aqui para o que você precisar. E não me importo de esperar até que esteja pronta para seguir em frente. Já esperei por você todos esses anos, não pretendo desistir agora.
Soldei o seu rosto e vi quando os belíssimos olhos castanhos ganharem luminosidade. Isso bastou para reacender o desejo de tomar seus lábios com os meus. Sentir o gosto da sua boca e deixar que possuísse cada pedacinho da minha sanidade.
Ansiava que ela fosse minha, que me deixasse curar suas feridas, a libertasse desses pesadelos. Mas a linha entre nós estava ali para me lembrar de que não deveria cruzar o limite. A confiança dela era tudo o que eu tinha. E se fosse preciso passar anos reprimindo o desejo, ficaria preso até o dia em que me permitisse mostrar o mundo de outra vista.
— Você disse que procurou ajuda, mas não consegue falar sobre isso. — comentei.
suspirou profundamente entre soluços, antes de acomodar a cabeça sobre meu peito.
— Faço acompanhamento com a psicóloga desde que fui embora de Nova York. Achei que com a ajuda de um profissional conseguiria superar esse trauma, mas eu...
— Não consegue se abrir com ela. — concordou em um aceno de cabeça. — Já pensou em experimentar outra profissional? Talvez, uma nova abordagem possa ajudá-la.
— Nunca vou superar, . — revelou, a voz por um fio. — Estou destinada a viver com a dor. Primeiro os meus pais, depois o Kaleb, agora o Noah...
— Ninguém é destinado a viver com dor, pequena. — sussurrei contra seus cabelos, o aroma delicioso de argan invadiu meus pulmões como calmante. — Nós aprendemos a conviver com ela. Mas no seu caso a está impedindo de viver.
Encolheu-se mais um pouco.
— A Yelena pode ajudar. — lembrei da secretária que sempre dava um jeito de fazer terapia gratuita na clínica veterinária. — Ela estuda psicologia, tenho certeza de que conhece um profissional capacitado que vai ajudá-la a superar esse pesadelo.
— Como tem tanta certeza de que mudar de profissional irá me ajudar?
— Porque dessa vez não enfrentará isso sozinha. Estarei do seu lado, mesmo que meus neurônio queimem por ouvir suas histórias de romance. — brinquei, tentando descontrair o clima tenso.
— Desde que não me mate de colesterol, acho que será uma troca bastante justa. — ela sorriu e a pequena risada aqueceu meu peito de maneira inexplicável.
Voltei a afundar os dedos em seus cabelos e em movimentos sinuosos, enchê-la com carinho e cuidado. remexeu a cabeça, aconchegando-se em meus braços, apreciando cada minuto do silêncio que compartilhamos juntos naquela sala.
Não demorou muito para escutarmos um choro baixo e quase doloroso vindo do andar de cima. Olhei para a mulher, encontrando os olhos fechados e o semblante tão relaxado que nem parecia a mesma que teve um pequeno surto de pânico. Depositei um beijo casto em sua testa e tentei sair do sofá, sendo impedido pelo seu braço fino que agarrou firme em minha cintura.
Por sorte, Greta apontou na sala vindo da lavandeira da casa e se ofereceu para socorrer a Mia da fome. Enquanto eu fiquei ali, apreciando cada detalhe da coelhinha adormecida, completamente enfeitiçado por ela, sendo naquele momento que percebi ter tomado uma decisão.
E por isso, agora, estava deitado nessa cama de casal, relembrando nossa conversa, enquanto lutava em uma guerra que já havia perdido dentro de mim. Eu queria por inteira. Queria todas as suas dores, os seus medos, traumas, até mesmo as histórias românticas açucaradas... Desejava ter o pacote completo daquele furacão que prometeu virar minha vida do avesso.
Aquela coelhinha remexeu com todos os meus sentidos, me fez cair de joelhos e por mais assustador que fosse, aceitaria o meu destino.
— Por favor, me diga que não desistiu de ir ao jantar? — a voz dela invadiu o quarto e cada pelo do meu corpo enrijeceu. — Se desistiu, prometo que o levarei amarrado.
Retirei o travesseiro do rosto e girei a cabeça para encontrá-la parada na porta. Tive de engolir seco, diante da verdadeira imagem da perdição.
Os braços cruzados em frente ao peito empinavam os seios tão apertados, tornando impossível desviar o olhar. A leve camada de maquiagem destacava as maçãs do rosto, mas não escondiam o semblante fechado. O bico adornando a boca carnuda apenas aumentou o desejo primitivo de jogá-la contra a parede. Desci os olhos pelo simples vestido preto que destacava cada curva do corpo pequeno que tanto assombrava meus pensamentos – e fazendo com que uma certa rigidez se formasse naquele lugar em específico.
Porra, maravilhosa demais.
— Você está linda. — levantei-me em um salto. — Para a segurança do Dante, é melhor que nem coloque os olhos em você. Caso contrário, seria obrigado a deixá-lo cego.
Ela sorriu com o canto dos lábios e colocou uma mecha atrás da orelha.
— Não seja ciumento, não há motivos para isso. — empinou o nariz, e não me contive, segurando sua cintura.
Meus dedos apertaram levemente por cima do tecido e senti quando ela subiu as mãos pelo meu tronco, delineando cada músculo pelo caminho. O seu toque era como a brisa suave do mar, quente e sutil. Trinquei o maxilar e segurei o grunhido gutural que ameaçou escapar quando ela subiu para meu pescoço, deixando o rastro ardente pelo caminho.
Oh, senhor... Isso era muito gostoso.
— Se continuar, vai acabar me enlouquecendo... — sussurrei em um aviso.
— Desculpe, achei que gostasse disso. — a desgraçada mordeu o lábio inferior e continuou com o carinho, de fato decidida a me enlouquecer.
Puxei seu corpo contra o meu, fazendo-a soltar um gritinho assustado. Ela riu e jogou os braços ao redor do meu pescoço. Sua pele macia me envolveu em um abraço, e tive de controlar o anseio, apenas me contentando em inspirar o perfume adocicado próximo da sua orelha. Os pelinhos da nuca se arrepiaram, causando-me uma excitação quase dolorosa só de imaginar ser o primeiro a fazê-la sentir todas essas reações.
Depositei um beijo casto na lateral do pescoço, incapaz de controlar o instinto que insistia em querer reivindicá-la.
— Gosto quando me beija assim. — sussurrou para que apenas eu pudesse ouvir.
Suas palavras baixas e íntimas, junto dos dedos que se enroscaram em meus cabelos, soaram como sinos badalando. Uma validação que vibrou em cada célula do meu ser. E incapaz de resistir, meus lábios se fecharam em torno da pele com certa urgência. Suguei suavemente, aprofundando o beijo molhado e arrancando de o incentivo que precisava para continuar.
Ela gemeu rouco e tão delicioso, me intimando a repetir o movimento, junto da língua que lambeu da base até alcançar o lóbulo da orelha, o rastro quente e úmido em completa veneração. Deixei uma pequena mordida ali e ofeguei, a respiração quente causou mais uma onda de arrepios. Em resposta, puxou os fios do meu cabelo, um suspiro deleitoso escapou por entre seus lábios.
Não contive o sorriso de satisfação. Saber que todos os seus gemidos eram só meus, fazia uma onda de possessividade me afligir com êxito.
... Vamos perder o jantar. — com o polegar acariciei em círculos a cintura fina. — E não vou conseguir me controlar por muito tempo. — mordisquei o seu maxilar.
As mãos pequenas e macias envolveram meu rosto. Por um breve momento ela encarou minha boca com tanta luxúria dançando em suas íris, que quase a puxei contra minha ereção endurecida, dolorosa... Eu estava louco para sentir o calor dela se misturando ao meu; o cheiro de romã e verbena me levando a perdição.
— Temos de ir. — ela murmurou.
Anuí e retirei as mãos do meu rosto com dificuldade, recuando os passos. Estava ciente de que se não me afastasse agora, não conseguiria mais responder por mim. Inspirei profundamente, arrumando a camiseta amarrotada e a ereção dolorida que marcava a calça jeans. De relance, engoliu em seco, enquanto admirava o volume.
Um sorriso lento e vulpino se curvou nos meus lábios, cheio de promessas. Ela desviou o olhar rapidamente.
Ah, coelhinha... Na próxima vez que eu te tocar, não vai ter nada nesse mundo que vai me impedir de parar.

Capítulo 22


tocou a campainha da casa e se virou com as mãos unidas em frente ao corpo, o sorriso genuíno decorava sua boca perfeita, enquanto nos olhava. Eu esperava pacientemente Mia arrancar as minúsculas flores brancas no vasto gramado que decorava a entrada da residência, tornando o ar ameno, com um leve cheiro de terra molhada.
A pequena apoiou as duas mãozinhas no chão e se levantou. Caminhou em minha direção, estendendo a flor. Agachei-me e ela gargalhou em êxtase, esfregando o micro buquê contra meu nariz. Não contive o sorriso, puxando-a para mim e depositando um beijo em sua bochecha. Ela tentou se desvencilhar do meu agarre, sem sucesso.
Peguei a florzinha que caiu no chão, ajeitando entre os fios loiros escuros dela, presos em tranças delicadas. Mia soltou um gritinho de felicidade e correu desajeitada até , tratando de estender o ramo em um presente. A mulher o aceitou e colocou no próprio cabelo, antes da porta se abrir, anunciando a ilustre presença da loira.
Endireitei o corpo, a tempo de ver Mia presenteando Bethany. Ela abriu um daqueles sorriso cheios de luminosidade que parecia acompanhá-la a todo o momento.
— Obrigada, princesa. Agora vou ficar igual a vocês! — exclamou, também usando a planta como um acessório. — Estamos lindas! — bateu palmas empolgada.
Aproximei-me e o cheiro adocicado que tanto me desconcertava invadiu minhas narinas. No automático, minha mão escorregou para a cintura de . A senti estremecer sob meu toque, antes de descer os olhos para a palma. Dei-me conta do que havia feito e estava prestes a me afastar, temendo assustá-la, quando fui interrompido. Ela segurou minha mão, mantendo-a firme no lugar.
Um pequeno sorriso discreto surgiu em seus lábios ao me encarar, as bochechas ficaram tingidas por um leve tom rosado.
Encantadora.
— O jantar está quase pronto. Vou apenas finalizar o risoto. — Bethany disse, abrindo caminho para que pudéssemos entrar. — Vou pedir que só tomem cuidado com o Woody. Aquele pestinha deve estar escondido pronto para atacar. — brincou e olhou em embaixo da mesa de centro da sala.
Peguei Mia no colo e juntos olhamos ao redor, aproveitando que Bethany e iniciavam uma conversa animada sobre o risoto. A pequena apontou para a estante modular acoplada ao móvel de TV branco, com nichos abertos que exibiam pequenos objetos decorativos, mas os que chamaram sua atenção foram os vasos minimalistas que habitavam cactos.
Aproximei-me para olhar mais de perto, tomando cuidado para que ela não tocasse nos espinhos. Observei que em frente ao televisor ficava um sofá retrátil de três lugares de cor cinza clara com almofadas bege acinzentadas, que se encontravam bagunçadas. Uma delas rasgada, espalhando espuma por todo estofado.
Com certeza, obra do husky siberiano.
Havia também uma mesa de centro retangular feita de madeira, decorada por minúsculos vasos com mais cactos. Percebi que os cantos estavam mastigados e arranhados, e como se não fosse o suficiente, notei a semelhança das mordidas com as marcas no pé do móvel de TV e na porta. Arqueei a sobrancelha, que tipo de fera a Bethany criava nessa casa?
— Quantas vezes, vou ter de dizer que você não pode comer os meus tênis? — a voz cheia de repreensão surgiu no topo da escada.
A cena era hilária.
Dante descia degrau por degrau com uma calma controlada. Os braços fortes seguravam o gigantesco cachorro que se debatia e uivava – a palavra certo seria: gritava – para que todo o quarteirão ouvisse. Fiz uma careta, o grito agudo e alto ecoando pela sala quase nos deixando surdos. Típico da raça serem escandalosos, dramáticos e muito bagunceiros.
Bethany cobriu a boca, evitando que a gargalhada saísse, enquanto eu e não conseguimos conter o riso.
— Quem teve a ideia de ter esse cachorro? — Dante gritou por cima da melodia.
— Você teve. Disse que precisávamos de um animal de estimação. — sua irmã respondeu, deixando que a gargalhada saísse.
— Isso não é um animal de estimação, é uma máquina de destruição.
, diga ao meu irmão que o Woody é só um filhote de quatro meses e por isso ele destrói tudo o que vê. — a loira pediu, apontando para o cachorro que se balançava feito um maluco.
Dante finalmente soltou a criatura que fez questão de sentar-se no meio de todos e uivar até que nossos tímpanos implorassem por socorro. Mia ficou eufórica, remexeu no meu colo, praticamente se jogando em direção do animal e se não fosse pelo meu reflexo, tinha encontrado o chão em poucos segundos.
— É só uma fase. — comentei, entregando a bebê para . — Husky siberianos possuem muita energia, principalmente nessa idade. — avistei uma bolinha verde perto do sofá e tive a péssima ideia de pegá-la.
Os próximos segundos foram resumidos em verdadeiro caos. Nem tive tempo de pensar quando fui atacado.
As patas grandes e pesadas se lançaram contra mim, o golpe certeiro logo no tórax causou um formigamento no estômago. Minhas costas atingiram o estofado macio com violência, enquanto Woody atacava, escalava e pulava sobre mim, determinado a pegar a bolinha a todo custo feito um furacão de pelos e garras. Os olhos cristalinos vidrados no brinquedo, possuíam um brilho intenso completamente possuídos.
Pelos deuses, essa coisa era tudo, menos um cachorro.
— Se até um veterinário sofre com o Woody, que somos nós para falar alguma coisa? — Bethany disparou zombeteira.
Joguei a bolinha para cima. A ferinha se equilibrou nas duas patas traseiras, caminhou para trás com agilidade e sem tirar os olhos do brinquedo, o abocanhou. Rapidamente fugiu para a cozinha, esbarrando em alguma coisa pelo caminho que estourou no chão. Pelo barulho, os estilhaços voaram para todos os lados.
Dante apertou o canto dos olhos e soltou um suspiro exasperado.
— Às vezes, eu acho que além de atrapalhado, ele ainda é cego. — comentou e correu para a cozinha.
— Coloque-o no quintal, antes que faça mais alguma besteira. — Bethany gritou, ainda com o sorriso brincando em seus lábios.
Em seguida, mais um estrondo estourou e com toda certeza, mais cacos de vidro se espalharam. Ela fez uma careta, apontando para o cômodo após Dante gritar o nome do cachorro, de modo que os vizinhos logo bateriam à porta perguntando sobre o que estava acontecendo ali.
— Eu vou ajudá-lo com a bagunça. O Woody deve ter esbarrado na cristaleira de novo. — e em seguida moveu-se como um raio, mas antes parando no batente. — , pode dar uma olhadinha no risoto, enquanto isso?
— Claro.
— Pode deixar a Mia junto com a Jessy no cercadinho, ela está lá no jardim. — disse e desapareceu.
e eu nos entreolhamos. Os risos saíram de forma tão espontânea que parecíamos conectados de outros mundos. Levantei-me em um salto e fui em sua direção, a tempo de salvá-la do ataque de Mia que enroscava os dedos entre os fios negros, os puxando como se fosse a melhor diversão do mundo.
— Deixa ela comigo. Você tem que salvar o jantar. — brinquei, envolvendo o corpo da pequena.
— Se o Woody deixar, vamos ter o melhor risoto. Aprendi essa receita com o Noah. Ele adorava. — o sorriso dela se iluminou em completa afeição.
Foi a primeira vez que a via falando do irmão sem a tristeza e a dor dominando aqueles olhos tão magníficos.
— Tenho certeza de que será o melhor risoto da minha vida. — sorri abobalhado, hipnotizados pelas bochechas ruborizadas a minha frente.
— E você faça amizade com a pequena Jessy. — aproximou-se e esfregou o nariz no da princesa.
Depositou o beijo na testa de Mia. Depois saiu com a missão de salvar o risoto, antes que queimasse e nosso jantar acabasse em pizza. Ao fundo, as vozes de Bethany e Dante ganhavam a cena, tentando controlar o lobo indomável. Não hesitei em seguir pelo mesmo caminho e atravessar a cozinha, indo até a porta aberta que dava vista para um extenso jardim verde e bem cuidado.
Woody latiu quando um frisbee – ou pelo menos o que restou dele – voou e o fez correr feito um trem desgovernado, as patas arrancando grama conforme se moviam. O objeto bateu contra a cerca branca e o cachorro desengonçado não conseguiu evitar que o corpo fosse de encontro com a madeira. Ele logo se recuperou e pegou o brinquedo, como se nada tivesse acontecido.
Balancei a cabeça em negação, concluindo que aquele cachorro precisava passar alguns dias com um adestrador. Porque se continuasse daquele jeito ia acabar se matando sozinho. Ele possuía uma energia que aquele corpo peludo não suportava. E apesar dos husky serem uma raça que adorava brincar, Woody ultrapassava o limite.
Ao fundo, ouvi Bethany brigar com Dante. Ela falava sobre o fato do irmão insistir em jogar um frisbee para um cachorro que não possuía coordenação motora e que por isso, era melhor usar outro brinquedo antes que acontecesse um acidente. A loira batucou o dedo indicador contra o peito do homem, ameaçando arrancar as bolas dele, caso Woody se machucasse.
Em seguida, marchou de volta para a cozinha com a vassoura e uma caixa de papelão, provavelmente para limpar os cacos de vidros. Assisti quando Dante se sentou no banco de madeira que fazia conjunto com a mesa, próximo a casa. O husky foi em sua direção e largou o brinquedo aos seus pés, vi quando ele sorriu e conversou com o cachorro, distribuindo carinho na cabeça cheia de pelos pretos e brancos.
Woody apoiou a cabeça sobre os joelhos do dono e as mãos do homem afagaram as orelhas pontudas, enquanto balbuciava palavras que não fiz questão de entender. De uma coisa tinha certeza, poderia ser o cachorro mais atrapalhado e bagunceiro do universo, mas se havia algo que reconheci naquela cena foi todo o amor e carinho que Dante compartilhava com ele. Assim como eu fazia com Sky.
Aproximei-me e ao lado da mesa, encontrei o cercadinho onde Jessy brincava com bonecas e bichinhos de pelúcias, por um momento me arrependi de não ter deixado Mia levar o ursinho favorito.
— Deveria levá-lo a um adestrador. — comentei, colocando a princesa no cercadinho.
Endireitei o corpo e cruzei os braços, enquanto Dante continuava a acariciar o canino.
— Todos acham que ele é um cachorro problemático. — soltou o ar em um desabafo.
— O Woody nesse momento é só uma bomba de energia que precisa ser canalizada, por isso está agindo desse jeito. — expliquei, observando alguns buracos cavados pelo jardim. — O tédio o faz querer destruir tudo. Essa raça foi feita para trabalho e por isso exigem muito exercício físico e mental.
— O levo para correr todos os dias, achei que fosse o suficiente.
— Eles foram criados para percorrer longas distâncias. Nossos treinos de aeróbicos não chegam nem perto do que foram feitos para fazerem.
Inclinei-me para pegar a bolinha verde. O simples ato bastou para o cachorro entrar em estado de pânico. Ele abandonou o carinho e veio na minha direção, disparando pulos e mais pulos a fim de pegar o brinquedo, completamente descontrolado. Os gritos ensurdecedores começaram com desespero, e tive de buscar apoio na mesa quando saltou com mais força e determinação quase me derrubando.
— Um adestrador vai ajudá-lo a controlar os impulsos e ensiná-lo a ter consciência do seu tamanho. — berrei e joguei a bolinha, antes que acontecesse um acidente.
Woody correu como se sua vida dependesse disso, enquanto precisei massagear a barriga assim que a dor atingiu meus músculos. Aquela coisa possuía uma força fora do comum. Segurei o grunhido que ameaçou escapar.
— Posso indicar alguns adestrados acessíveis e que terão paciência com ele. — arfei, tentando recuperar a postura.
— Tem certeza de que isso vai ajudar? — a dúvida pairou em seu rosto.
— Absoluta. — afastei-me e iniciei a luta para tirar a bolinha da boca de Woody. — Ele deveria soltar, e não agir desse jeito. — meu braço foi chacoalhado como se não fosse nada. — Senhor, o que você come, amigo? Não é normal ter tanta força. — franzi o cenho para o animal e finalmente peguei o brinquedo.
Arremessei antes que fosse atacado.
Em seguida, Bethany gritou para que o irmão a ajudasse a levar os utensílios para arrumar a mesa do lado de fora, assim poderíamos jantar em paz, sem o risco de Woody atrapalhar. Dante antes de obedecer, disse que falaria mais sobre o adestrador comigo, já que possuía algumas dúvidas. Apenas concordei com a cabeça e enfim, fiquei sozinho com o furacão peludo, destruidor de móveis.
Agarrei a bolinha e repeti o lançamento por mais algumas vezes, me concentrando em gastar um pouco da energia do canino. E enquanto o observava procurar pelo brinquedo, que sem querer caiu entre os gigantescos vasos de girassóis e rosas vermelhas, aproveitei para olhar ao redor. O quintal possuía uma árvore grande perto da mesa, preso ao galho havia um balanço infantil. A grama tinha a coloração tão verde que se assemelhava as sintéticas, e claro, se abria em alguns buracos cavados por Woody.
Lancei o olhar rapidamente para as bebês e perto do cercadinho vi o frisbee que Dante havia jogado para o cachorro mais cedo. Arqueei a sobrancelha, indo até o disco e o peguei. Um pedaço havia sido quebrado ou, talvez, mastigado. Encarei o brinquedo e levantei a cabeça, encontrando o husky ainda vasculhando entre as flores, seria uma ótima ideia tentar ensiná-lo a como se brincar com aquilo.
Pressionei os lábios, soltando um assobio alto que o atraiu. Balancei o objeto e feito um raio, o peludo correu na minha direção. Consegui fazer com que sentasse e não me atacasse depois de várias tentativas. Passei a tentar explicar as regras da brincadeira, mesmo sabendo que sequer seria compreendido. Woody tinha os olhos vidrados no disco, acompanhando qualquer mero movimento que eu fazia com as mãos.
— Vamos tentar não acertar a cerca. — disse e lancei o frisbee sem usar muita força em um voo rasante.
Woody rapidamente abocanhou o plástico, fácil demais.
— Bom garoto. Agora, traz até aqui. — chamei com as mãos e para a minha surpresa, ele obedeceu. — Isso, garoto! — puxei o disco, distribuindo carinho em sua cabeça. — Vamos de novo.
Ficamos ali pelos próximos minutos, repetindo a brincadeira e tomava cuidado para que não chegasse perto da cerca ou de qualquer outro objeto que pudesse causar um acidente. Nossos movimentos se assemelhavam a um treinamento militar. O cheiro de terra molhada se misturava ao cheiro do meu suor e do aroma canino que exalava de Woody, tornando o momento leve e descontraído.
Algumas vezes, corri junto com o cão, a fim de incentivá-lo se concentrar no disco voador. Meus músculos queimaram com o exercício, mas o sorriso sempre que o via pegar o brinquedo do ar, não abandonava a minha boca. Sempre tirava um tempo para brincar com os cachorros que se hospedavam na clínica, mas nenhum chegava perto do pico de energia de um husky siberiano.
Parei e apoiei as mãos sobre os joelhos, puxando o ar com urgência. Woody saltitava, as patas dianteiras batendo no chão em desespero. O uivo saiu do fundo da sua garganta e lancei o frisbee mais uma vez, assistindo-o disparar de um canhão.
Endireitei o corpo quando dois vultos surgiram na solteira da porta. Minha visão ofuscada localizou um borrão preto e outro branco. Pisquei algumas vezes, a tempo de ver Dante se aproximando da mesa e estender a toalha. Foi então que surgiu. Ela carregava pratos e talheres, enquanto conversavam sobre algo animadamente. Estreitei os olhos assim que ouvi a risada tão familiar, e novamente, ver aquele sorriso estampado nos lábios dela me causou o sentimento de repulsa.
A lâmina afiada remexeu cada fibra do meu ser, me rasgando por inteiro.
Cerrei os punhos, os nós dos dedos ficando brancos de tanta força. Até tentei me concentrar na brincadeira com Woody, jogando o frisbee de qualquer jeito, mas bastou assistir e Dante se abraçando para que todo o meu mundo parasse. Foi como ser atingido por uma descarga elétrica. Meu corpo enrijeceu e o ar esvaziou dos pulmões. Tencionei a mandíbula, podendo jurar que meus olhos foram inundados por uma possessividade que facilmente me deixava cego.
O monstro dentro de mim gritou para que os separasse; para que mostrasse a Dante onde era o seu lugar. O sangue subia pelas minhas veias feito brasa, espalhando a euforia primitiva por cada célula do meu ser. Apertei mais as mãos em punho até os ossos estalarem. Porra, eu precisava acalmar a fera que insistia em querer marcá-la como minha.
era uma mulher livre e eu nunca deveria tomar essa decisão por ela.
E ciente da tremenda asneira que poderia fazer, o universo escolheu justo aquele momento para que Woody pulasse contra minhas costas e me arremessasse de encontro com o chão, acabando de vez com o pequeno surto. Balancei a cabeça e meu maxilar tremeu de dor, se concentrando no queixo onde com certeza tinha um belíssimo ralado.
Fechei os olhos, apoiando as mãos no chão em uma tentativa falha de me levantar. Grunhi com o movimento, meu corpo inteiro reclamando. E como se não bastasse tamanha humilhação, tive de conter as lambidas invasivas de Woody. Ele parecia querer se certificar de que estava tudo bem e ao mesmo tempo pedir desculpas pelo acidente.
Céus, isso era para mim aprender a parar de agir como um maníaco.
Escutei a risada zombeteira ao fundo. Levantei a cabeça, ainda lutando com o husky.
— Você está bem? — Dante apareceu no meu campo de visão, um misto de curiosidade e preocupação dominava o seu olhar.
Ignorei a raiva que borbulhou no meu peito. A minha vontade era enxotá-lo dali com a mesma violência que o seu cachorro usou para me derrubar. Mas a lembranças da promessa que fiz a piscou dentro do meu cérebro, fazendo com que o ciúme fosse deixado de lado.
Dante estendeu a mão e aceitei a ajuda, mesmo a contragosto. Passei as mãos pelo queixo ferido, os dedos ficaram levemente manchados de sangue. Em seguida, bati as mãos nas roupas, limpando a poeira e os vestígios de terra e grama. Aproveitei para engolir o desejo de agarrar aquele homem pelo colarinho e mostrar a quem pertencia.
O silêncio se instalou, quebrado apenas pela respiração ofegante de Woody que estava sentado entre nós. O clima ficou tenso e me concentrei em ganhar tempo, fingindo interesse na grande mancha marrom na minha calça, resultado do gramado levemente úmido.
Dante pigarreou.
— Então... — colocou as mãos na cintura. — Você e a ...?
Paralisei por um instante diante da pergunta, não sabendo como respondê-lo. O que ele queria saber? A verdade ou toda a raiva que queimava meu âmago, sempre que os via juntos? Eu poderia mentir e dizer que estava em um relacionamento com , mas o senso me fez morder a língua. Afinal, eu realmente não sabia definir o que éramos um do outro.
— É complicado. — respondi e evitei contato visual, continuando a limpar a poeira das roupas. — Ela me disse que vocês se conheceram na academia de bairro em Nova York. — desconversei, a cólera subindo pela garganta.
— Isso foi há muito tempo. — ele olhou para a grama, o olhar parecendo perdido. — Ela é uma daquelas mulher que você não entende o porquê quer protegê-la de tudo. — suas palavras soaram como uma confissão.
Sua mão alcançou o meu ombro e deixou alguns tapinhas ali.
— A propósito, ela talvez tenha me conhecido na academia de bairro, mas não foi lá que eu a conheci. — ele finalmente me encarou, os olhos azuis se estreitando levemente.
— Ei, você dois! — Bethany gritou, atraindo nossa atenção. — O jantar está pronto! — anunciou com entusiasmo. — , soube que o Woody te derrubou, se precisar de curativos pode pegar no armário do banheiro.
Assenti em agradecimento. Soltei o ar em alívio pela interrupção, enquanto lançava um último olhar para Dante que apenas me devolveu um sorriso enigmático, sem os dentes, antes de seguir para a casa. Arqueei a sobrancelha. Por que eu sentia que havia alguma coisa estranha acontecendo ali? Como foi que ele a conheceu? A seria capaz de mentir para mim?

*****

Grunhi, limpando o ferimento com o auxílio do espelho. A dor não era nada comparada ao sentimento de euforia que contaminava cada fibra do meu corpo. Desinfectei a região e depois li o rótulo da pomada que Bethany havia oferecido. Por sorte, havia sido apenas um machucado superficial, então não precisaria de mais do que alguns dias para estar completamente curado.
Encarei o meu reflexo, espalhando o produto até que não restasse mais nada. Enquanto isso, impedi que os pensamentos saíssem do controle e começasse a refletir sobre as palavras de Dante. Guardei o kit de primeiros socorros no armário embaixo da pia do banheiro, tomando a decisão de não pensar na possibilidade de ter mentido sobre o seu passado.
Eu confiava nela e isso era tudo o que importava.
Balancei a cabeça, afastando qualquer asneira e decidi sair do banheiro. Bethany já havia batido na porta duas vezes, preocupada com meu estado e pedindo mil desculpas pelo comportamento de Woody, então para ela aparecer de novo não custava muito. Atravessei o corredor e entrei na cozinha, já ouvindo o som de risadas e a voz de ao longe. O timbre risonho e cheio de harmonia fez meus lábios se curvarem em um sorriso.
Adorava vê-la rir e sorrir, mesmo que no fundo sinta o incômodo doloroso por saber que todas as suas expressões eram direcionadas a outro homem.
— Aquele dia vai ficar para a história. O seu irmão me convenceu a pular o muro da faculdade para podermos assistir a um show de pop. — contou animadamente, o clima íntimo rodeando a mesa.
— Era o show do Imagine Dragons e ela passou o semestre inteiro falando sobre isso. — Dante complementou com um sorriso, tomando um gole do suco.
— Eu só não sabia que ele seria capaz de me convencer a matar aula. — ela riu, levando a colher cheia do risoto até a boca.
— Meu irmão sabe ser muito persistente quando quer. — Bethany comentou, concentrada em alimentar a filha sentada em seu colo.
Observei o sorriso cúmplice que Dante lançava na direção de , enquanto contava sobre mais uma das suas aventuras de faculdade ao lado dela. Cerrei os punhos, sentindo aquele formigamento na boca do estômago. O gosto desagradável da bile subia pela garganta em uma gigantesca carga de ciúmes. Engoli em seco e sem querer ser invasivo, silenciosamente, caminhei para o lugar vago na ponta da mesa. Por ironia do destino ficava entre os dois, sentados um de frente para o outro. Notei a troca de olhares por cima da mesa, percebendo que ficaria enjoado antes do final da noite.
Girei a cabeça e encontrei Mia ainda dentro do cercadinho, brincando com as bonecas. Estufei o peito e assumi meu papel de pai. Fui até ela e a peguei nos braços, recebendo certa relutância em troca. Ela se remexeu, soltando sons desconexos de insatisfação, a testa franzida lhe deixou com uma fofura que me fez querer apertar as bochechas gordinhas.
Por um breve momento, pensei em deixá-la ali, mas seria considerado um pai desnaturado se o fizesse, além disso, seriam apenas por alguns minutos, o suficiente para que fosse alimentada.
— Como você está? — perguntou baixo.
Acomodei-me na cadeira, ajeitando a pequena no colo.
— Foi só um arranhão. — a tranquilizei, sem lhe dirigir o olhar.
Sentada ao lado do irmão, Bethany se levantou, segurando a filha em um dos braços, enquanto com a mão livre, pegou o prato infantil e o estendeu para mim.
, para as meninas preparei arroz com legumes e carne. — peguei o objeto das suas mãos e encarei a gororoba nada convidativa. Tive de segurar a careta de nojo que quis torcer em meu rosto. — Eu sei... A cara está horrível, mas prometo que o gosto está melhor.
— Isso está parecendo um purê alienígena. — Dante zombou.
Ofendida, a loira disparou diversos tapas no ombro dele, o que fez Jessy se agitar, rindo animadamente. Batia as mãos como se estivesse assistindo a uma peça de teatro. Percebi o quanto adorou ver a sessão de violência gratuita, o que me fez refletir que pelo temperamento da sua mãe isso deveria ser uma prática bastante comum naquela família.
Meu peito se estufou e não pude deixar de me sentir satisfeito por vê-la fazendo o que eu não poderia, sem correr o risco de perder a compostura.
— Não seja tão cruel, pelo menos ela tentou. — repreendeu, oferecendo uma colherada cheia para Mia.
Minha princesa fez uma careta a princípio, mas logo aceitou a oferenda. Mastigou e pude ver o exato momento em que seus olhos ganharam um brilho cheio de satisfação. E pela súbita reação de agarrar o prato com as mãozinhas, tive a certeza de que a loira tinha razão. O gosto deveria estar maravilhoso. Mia nunca ficou tão entusiasmada com uma comida antes, como a via agora.
— Os legumes passaram um pouco do ponto. Mas isso não teria acontecido, se eu não tivesse de limpar a bagunça que o seu cachorro causou. — Bethany alfinetou, cutucando o ombro do irmão com o indicador.
— Coitado do Woody. — Dante bebericou o suco, dando de ombros. — Ele não tem culpa de ser desastrado como você. — provocou entre risos.
O rosto da loira se contorceu em fúria, a testa enrugou, as sobrancelhas arqueadas e os olhos pareciam labaredas crispando faíscas para todos os lados. Pude jurar que se não fosse pela minha presença e a da , ela o agarraria pelo pescoço ali mesmo.
— Pelo menos ele não come os meus tênis de corrida. — depositou um beijo contra a bochecha da filha.
— Não, mas... Come seus girassóis e as roseiras. — ele apontou para os vasos onde o husky cavava a terra e puxava as folhas das plantas, esfregando a cabeça em diversão.
— Woody! Eu vou matar você! — Bethany entregou a bebê para o irmão e saiu em disparada até o cachorro, gritando histericamente, enquanto tentava salvar os girassóis das garras do lobo siberiano.
Revirei os olhos com a bagunça, completamente entediado. E enquanto gargalhava, Dante deixou a sobrinha no cercado para socorrer os dois monstrinhos que se sujavam de terra e foram capazes de quebrar um dos vasos. Os gritos escandalosos de Bethany brigando com o cachorro e o irmão ao mesmo tempo, iriam acordar o bairro inteiro e logo seríamos considerados como a família do barulho.
Concentrei-me em terminar de alimentar minha princesa, antes de ouvir suspirar e murmurar algo muito baixinho. Os cotovelos contra a mesa deixavam com que as mãos apoiassem o seu queixo. Ela inclinou levemente a cabeça e o sorriso mais deslumbrante curvou em seus lábios lentamente. Seus olhos estavam cheios de um brilho característico, mesmo que a cena a sua frente fosse caótica.
Minha mandíbula tiqueou, hipnotizado pela sua beleza.
Um anjo belíssimo que caiu nessa terra. Cada traço desenhado a mão com delicadeza e perfeição.
Meu deus, ela era linda demais.
Prestei atenção em cada detalhe do seu rosto, passando a ignorar todos os ruídos ao redor. Aplumei os ouvidos para ser capaz de entender o que dizia, sem deixar de admirar o sorriso radiante e o riso genuíno que acompanhava as palavras baixas, mas que pareciam carregadas de sentimentos.
(…) Eu adoraria ganhar girassóis um dia. São tão lindos.
O meu corpo enrijeceu. Girei a cabeça para olhar a planta de caule grosso, robusto e ereto que ainda ocupava um dos vasos intactos. As folhas grandes e ovais pareciam ásperas ao toque, eram como os defeitos de um ser. As pétalas amarelas roubavam a cena, revelando toda a beleza assim como eu via naquela mulher. O miolo delicado, composto por milhares de minúsculas flores eram os responsáveis por dar origem aos frutos, ressoando como o perfume dela que tanto me enlouquecia.
Um mero sorriso surgiu no canto dos meus lábios. Por um instante, tive de conter o impulso de me levantar e pegar o girassol para ela, porque se caso o fizesse, acabaria me juntando a Dante e Woody que apanhavam da pequena criatura loira totalmente descabelada. Por isso, adicionei uma nota mental, para me lembrar de ir à floricultura perto da clínica escolher o buquê de girassóis mais bonito e cheio que encontrasse.
Se a coelhinha nunca tinha ganhado flores, eu seria capaz de fazer um jardim só para ela.
— Você nem tocou no risoto. — senti o seu olhar antes mesmo de virar a cabeça para encará-la.
Meus lábios se repuxaram em um sorriso sarcástico com o canto dos lábios, enquanto voltava o olhar para ela.
— Estou curioso para saber qual foi o veneno que escolheu para a ocasião. Ninguém ainda caiu duro. — zombei e fui estapeado.
Ela abriu e fechou a boca, prestes a soltar um palavrão, mas se repreendeu. Negou com a cabeça, o rosto retorcido em uma careta que deveria ter feito parecê-la brava, mas foi a mais encantadora que já tinha visto. E os lábios em formato de bico só atraíram ainda mais a minha atenção.
era linda até mesmo quando tentava ficar furiosa.
— Acredito que o único veneno é a enorme variedade de temperos que a Bethany colocou. Alguns muitos duvidosos. — brincou, enchendo meu copo com o refrigerante. — Sei que não gosta muito de suco e não sabia se gostava de vinho, então pedi para ela comprar Coca-Cola.
Meu peito se aqueceu. Ela havia pensado em mim e isso só aumentava aquela vontade de beijá-la. Maravilhosa demais.
O riso tímido dominou seu semblante e olhou para baixo, tentando esconder o rubor que surgiu nas bochechas. Uma mecha teimosa do cabelo se dependeu do coque frouxo e quis esconder a beleza do seu rosto. Rapidamente estendi o braço, colocando-o atrás da sua orelha e depois descendo o indicador pela linha do seu maxilar, pairando na ponta do queixo. Os olhos castanhos acompanharam cada movimento, os lábios entreabertos como se tentasse respirar.
— Não sabe o quanto fico grato por ter pensado em mim, coelhinha. — sussurrei e assisti o sorriso tímido dançar na sua boca carnuda.
Esfreguei o polegar pela linha do seu queixo, fazendo-a fechar os olhos em apreciamento. A corrente elétrica transpassou entre nós, enrijecendo os pelos de nossos corpos, e no meu caso balançando algo dentro do peito. Quente, delicioso e vibrante. Ela roubava minha sanidade apenas com um simples gesto, vê-la entregue ao meu toque – depois de tudo o que me contou – era uma das sensações mais gratificantes do universo.
Ela era minha e eu estava pronto para ser totalmente seu.
Fomos interrompidos quando Mia emitiu um som desconexo e agarrou meu braço estendido, puxando-o para ela em um abraço apertado. Não contive o riso ao vê-la e depositei um beijo sobre o topo da sua cabeça. Quando ergui o olhar, se recuperava do nosso pequeno transe e ao cruzar com meus olhos, não hesitou em se levantar, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante.
— Está tudo bem? — quis saber, a preocupação se acumulando em meu âmago.
— Sim... — respondeu rápido demais, tirando a poeira invisível das roupas. — Vou colocar a Mia junto com a Jessy... Elas se deram muito bem.
Assenti, sem dizer nenhuma palavra em protesto por sua tão repentina reação. Eu sabia que cada mero avanço meu poderia soar como um gatilho para o seu trauma. E mesmo sabendo dos riscos, era incapaz de me controlar perto dela. Era como se uma corda invisível me puxasse em sua direção e eu não pudesse respirar se não a tocasse.
envolveu Mia nos braços e se afastou da mesa a passos largos, conversando sobre alguma coisa que não fiz questão de ouvir. Suspirei, ajeitando o corpo na cadeira e finalmente me rendendo ao estômago que roncava em busca de comida. O prato a minha frente parecia estar delicioso.
Cutuquei o risoto com a colher, notando a cremosidade brilhante e suculenta. O tom dourado do açafrão que Bethany deve ter usado, realçava o rosado do camarão. E os minúsculos pedaços de salsinha davam o toque final, mas foi o cheiro amanteigado e doce do queijo que tornava visão instigante e muito deliciosa.
Sem enrolação, levei a primeira colherada à boca e foi como sentir a explosão na boca. Apoiei o punho fechado contra a testa, soltando um suspiro de desleite. Céus, isso era bom demais. A textura dos grãos de arroz era macia, possuindo a firmeza no ponto certo. No meio da cremosidade, o sabor do queijo e da manteiga dançava perfeitamente com o leve adocicado do camarão. Fechei os olhos, saboreando a combinação tão refinada e divina.
Se um dia e Bethany resolvesse abrir um restaurante, ganhariam uma Estrela Michelin com muita facilidade. Juntas poderiam cozinhar qualquer coisa que ficará incrível.
Terminei a degustação e não esperei para encher o prato com mais risoto, querendo apreciar cada colherada daquele prato saboroso. E enquanto me entregava a explosão de sabores, sendo levado para dentro do mundo gastronômico, permiti-me observar ao redor. estava agachada ao lado do cercadinho, envolvida em uma brincadeira junto com as meninas. Bethany e Dante continuavam a lutar contra o husky siberiano, tentando evitar que destruísse mais plantas.
Nem sequer percebi que sorria, uma onda de calor me aquecendo como o sol de verão.
Finalizei o segundo prato e notei quando Dante e Bethany finalmente conseguiriam distrair a fera siberiana, deixando-o brincar com um dos aspersores de irrigação que começou a jogar água por toda a grama. O canino tentava abocanhar os jatos, pulando e se molhando inteiro pelo caminho. Fiz uma careta, repreendendo a atitude deles, pois já era tarde para Woody ficar ensopado. Os pelos úmidos poderiam desencadear fungos, prejudicando a saúde dele, além de correr o risco de ficar resfriado.
— Não se preocupe, . Depois vamos secá-lo com o secador. — Bethany se adiantou, parecendo ler meus pensamentos. — É o único jeito de fazê-lo esquecer das plantas. — soltou o ar, esfregando o dorso da mão na bochecha e retirou um pouco de lama. — Urgh! Vou ter de me lavar se quero tirar toda essa terra.
Em passos rápidos se dirigiu para dentro da casa, mas antes segurou o batente da porta, pendendo a cabeça para fora.
— Eu e a já cozinhamos, agora é a hora dos dois lavarem a louça. — com o indicador apontou de mim para o irmão.
Antes de desaparecer, indicou os próprios olhos com dois dedos e os lançou na nossa direção, em um claro sinal de que estava nos vigiando caso fugíssemos da tarefa.
— Você ouviu ela, . — Dante bateu contra meu ombro e sua mão pareceu pegar fogo. — Vou levar o cercadinho para a sala. — afastou-se e agradeci por isso.
Mordi o interior da bochecha em descontentamento e levantei-me, começando a juntar os pratos e talheres sujos. Ajeitei as cadeiras, organizando a bagunça em silêncio, enquanto ouvia e Dante conversando ao fundo. A cada risada tive de engolir a onda de ciúmes que se apossava dos meus sentidos.
Dante se adiantou e moveu o cercado. Os sons das rodinhas se arrastando e da voz brincalhona dele, se misturava aos murmúrios satisfeitos das meninas que se divertiam batendo palmas. E só quando passaram pela porta que soltei o ar – que até entanto não percebi ter prendido. Toda vez que ele se aproximava da minha coelhinha, era quase impossível controlar a vontade de arrancar a sua cabeça.
Concentrei-me na tarefa de empilhar os pratos sujos, tomando cuidado para não derrubá-los e causar um estrago. Juntei os talheres espalhados, colocando dentro da panela vazia do risoto. E quando estava prestes a começar a carregar as louças para a cozinha, o aroma adocicado da romã e da verbena me envolveram. O coração deu um solavanco ao sentir a mão delicada deslizar pelo meu ombro.
Ela se inclinou, finalmente entrando no meu campo de visão.
— Deixa que eu levo os copos e os talheres. — colocou a mecha do cabelo atrás da orelha, sendo rápida em separar os objetos. — Você fica com os pratos, são mais pesados. — curvou um sorriso refreado.
caminhou em silêncio e fui logo atrás, equilibrando os pratos pesados. Cuidadosamente levei para a pia, o som da louça contra o inox preencheu o silêncio entre nós. Ela retornou para a mesa, terminando de juntar o restante da bagunça. Enquanto isso, fui abrindo a torneira, iniciando os trabalhos.
Não demorou muito para ela voltar com mais alguns copos e se retirar, dizendo que estaria na sala com as meninas. Dante apareceu logo depois, e pegou o guardanapo limpo dentro da gaveta, começando a secar os pratos que já havia empilhado no escorredor. Por um momento, trabalhamos em um silêncio sincronizado, o único som sendo da água e das porcelanas se chocando dentro da pia.
Ouvimos Bethany retornar do banho, trazendo uma caixa cheia de álbuns de fotos para a sala. Ela fez questão de mostrar as fotos de Jessy recém-nascida, assim como fotos de quando o irmão era criança, arrancando gargalhada de ao mostrar o momento em que ele caiu da bicicleta. A loira contou que cansou de ensiná-lo a se equilibrar em cima do brinquedo, mas ele sempre arrumava um jeito de cair.
De repente, Woody entrou correndo pela cozinha, as patas ensopadas, cheias de lamas, sujando todo o piso branco. Bethany e passaram correndo em direção aos fundos, correndo atrás do canino que sem querer abocanhou um dos álbuns de fotos e fugiu para o jardim. O silêncio foi interrompido pelos gritos das duas, enquanto eu e Dante assistimos a cena icônica pela janela em cima da pia.
Rimos juntos, descontraindo brevemente o clima tenso que nos rodeava.
— A me contou o que aconteceu em Nova York. — comentei, a fim de retornar na conversa que tivemos mais cedo. — Foi muito altruísta da sua parte protegê-la. — tinha de reconhecer a sua coragem.
Dante deu de ombros, jogando o guardanapo sobre o ombro e guardando os pratos dentro do armário.
— Faria o mesmo no meu lugar. — soltou o ar pela boca, cruzando os braços em frente ao peito. — Então... Ela te contou. — sua boca se curvou em um sorriso no canto dos lábios. — Ela realmente confia em você. Nunca falou sobre isso com ninguém.
— Não foi fácil. — parei de lavar os talhares e coloquei no escorredor.
— Quero que saiba que não tenho nenhuma intenção de fazê-la reviver esse passado. — deixou claro, suas palavras soando com sinceridade.
— Isso nem passou pela minha cabeça. — Dante poderia ter todos os defeitos do mundo, mas ser sádico não era um deles.
Ele soltou um suspiro resignado, como se carregasse o mundo nas costas.
— Eu era apaixonado por ela antes do Kaleb colocar os olhos imundos em cima dela. — jogou as palavras e fui completamente pego de surpresa, apesar de já desconfiar disso. — E depois que ele passou a persegui-la, eu sabia que precisava fazer alguma coisa. — seus olhos encaravam o chão, parecendo remoer o passado conforme contava.
E então a ficha caiu... Dante conhecia antes mesmo dela saber da sua existência.
Arqueei a sobrancelha. Desliguei a torneira, decidindo que não era hora para distrações. Eu queria saber mais sobre a coelhinha.
— Ela me contou que você não sabia sobre as intenções do Kaleb.
Um riso anasalado escapou dele.
, acha mesmo que eu não sabia da índole do meu melhor amigo? Foi justamente por isso que arrisquei tudo para morar com ela. Eu queria ficar perto dela, protegê-la dele. E por mais que tenha tentado, não fui o bastante para separá-los.
— Ela só acreditou quando ele a forçou pela primeira vez. — não precisava de muito para entender.
Dante mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça em negação. Os cantos dos seus olhos foram inundados por pequenas lágrimas que ameaçaram sair.
— Eu tentei de tudo para impedi-lo, até morei com ela... — murmurou baixo, o tom de culpa. — Quando vi aquele filho da puta em cima dela, eu sabia que precisava tomar uma atitude ainda maior. Passei a ser a sombra dela, e mesmo assim não adiantou. Ele continuava ali, a espreita, esperando o momento para atacar. — esfregou o rosto com as mãos. — Ela contou sobre o medo da chuva?
Neguei com a cabeça, tinha sido um momento tão cheio de revelações e sentimentos que havia me esquecido de perguntar.
— Não cabe a mim contar a você, mas quando ela contar, vai entender o porquê foi embora de Nova York. O porquê ela apagou todas as redes sociais e se esconde atrás de um pseudônimo em seus livros.
Merda, o trauma era muito mais profundo do que imaginava.
Dante passou a língua pelos lábios, antes de curvar um sorriso irônico.
— Ela sabe?
— Desculpe. Sabe sobre o quê? — franzi o cenho.
— Sobre o que você sente por ela.
Engoli em seco, não esperando ser confrontando dessa forma.
— N-não... — abaixei a cabeça, buscando as palavras que pareceram desaparecer da minha cabeça. — Quer dizer, eu não sei. Ela é maravilhosa, incrível. — curvei um sorriso de devoção. — Eu só não quero assustá-la.
— A é uma mulher extraordinária, . — elogiou, seus olhos azuis possuídos pela mesma admiração de quando eu olhava para ela. — Ela é muito especial para mim, mas não irei virar para você e dizer: “que vença o melhor”. Ela não é um prêmio a ser disputado, então se me disser que a fará feliz, deixarei o caminho livre para você. — revelou e no fundo minhas teorias foram confirmadas, ele ainda sentia algo por ela.
— Agradeço a oferta, Dante. Mas não cabe a mim dizer se a farei feliz. — girei a cabeça para olhar através da janela, sorrindo ao ver e Bethany ainda tentando recuperar o álbum. — Ela já passou por muitas coisas, deixe-a decidir sozinha.
— Ela é uma mulher forte, vai saber qual de nós é o melhor. — de relance pude ver a sinceridade em seu olhar.
Meu coração se apertou dentro do peito, uma onda de insegurança o sufocando. Dante era um oponente muito mais forte, e além de tudo, sabia mais sobre do que eu. As chances dela o escolher eram quase irrefutáveis.
— Sou grato por tê-la ajudado em Nova York. Eu não tinha ideia do que aconteceu.
— Eu faria qualquer coisa para protegê-la, .
— Eu também. — na verdade, quis dizer que seria capaz de queimar o mundo e o reconstruir só para ela.
Ei, vocês, dois! Venham agora nos ajudar! — Bethany nos tirou daquele pequeno momento de acessão.
Em instantes estávamos todos correndo atrás do husky, escorregando na lama feita pelos aspersores de irrigação e rindo disso, enquanto o cachorro via tudo como a mais pura diversão. Uma verdadeira luta, para no final conseguirmos recuperar o álbum ensopado e sujo de terra.
Ainda caído no chão, ergui a cabeça e passei a olhar para o céu escuro, vasto e cheio de estrelas minúsculas, cintilantes, que pareciam me observar. A imagem de Lily inundou meus pensamentos quando encarei o astro mais brilhante. E apesar da dor ainda me atingir ao pensar nela, naquele momento foi diferente. Uma profunda gratidão se instalou por ter me concedido a oportunidade de contemplar a vida com outros olhos. Porque ali, mesmo rodeado com o mais glorioso caos era como se todas as peças se encaixassem, e eu finalmente estivesse completo.

Capítulo 23


A mudança nem sempre espera o momento certo para acontecer, ela só se faz necessária. É dolorosa, profunda, algo que mexe com toda a nossa alma. A mente se recusa a aceitar o que o coração já sabe há muito tempo. E não tem um jeito fácil de passar por esse processo, apenas enfrentá-lo de cabeça para conseguir alcançar os caminhos que nos levará para novos lugares.
A casa ganhou um novo visual. Aconchegante, arrumado, com aspectos de modernismo. Eu e passamos os últimos dias mudando a mobília, organizando para que as cores brancas criassem o contraste com o preto – nossas favoritas. Vendemos os móveis velhos para uma senhora simpática que os venderiam numa feira no bairro do Brooklyn e alguns doamos para a caridade.
Em um acordo mútuo, decidimos que o único cômodo que deixaríamos intacto seria o quarto da Mia. Lembrava-nos de como eles o decoraram com todo o carinho, cada detalhe escolhido a dedo com amor. Noah me enviou as fotos de todos os móveis que compravam, da tinta, das cortinas, então era quase um crime mexer em algo que dedicaram tanta devoção.
Os quadros artísticos foram removidos das paredes e substituídos por algumas prateleiras de livros românticos e de medicina veterinária. se encarregou dessa parte com a ajuda do amigo Aidan, o que ocasionou em quase uma briga porque furaram o lugar errado. Madisson também nos acompanhou, encarregada junto comigo e Greta de selecionar as melhores fotos para espalhar pela sala. Foi quase uma luta encontrar molduras que combinasse com a decoração, mas fiquei aliviada quando entramos em uma loja de produtos importados onde achamos tudo o que precisávamos.
E com a mesa da cozinha recheada de quadros e fotos, optamos por guardar as antigas para caso Mia quisesse conhecer mais sobre seus pais biológicos quando fosse mais velha. Com cautela escolhemos as novas, cada uma selecionada a dedo com carinho: uma de e Lily em sua formatura; uma minha e do Noah na cafeteria; outra dos quatros juntos com a pequena, tirada no aniversário de 1 ano dela; e por último Madisson sugeriu que fizéssemos um quadro grande que ficaria na parede em cima da televisão, ao lado das outras, nesta eu e segurávamos Mia na mesma festa e sorrimos em sua direção, encantados por sua delicadeza.
Tudo ficou perfeito, dando início a nova fase de nossas vidas.
Aos poucos as lembranças de Noah e Lily foram desaparecendo. A cada mudança minha garganta embargava, o peito se contorcia. E nem mesmo a presença divertida de Aidan e Madisson foram capazes de impedir as lágrimas de serem derramadas. Era doloroso olhar os detalhes e finalmente entender o peso que isso significava... Eles seriam apenas lembranças, eternizados em nossos corações.
Os próximos dias nunca mais seriam os mesmos e apesar da saudade insistir em permanecer conosco, dessa vez tive a certeza de que tudo seria diferente. Aquela casa se tornou o nosso lar e, agora, somos uma família.
Eu e também aproveitamos para conversar sobre como seria as divisões de tarefas. Depois do que ouvimos da assistente social, não queríamos mais falhar com a Mia e nem mesmo sermos repreendidos na próxima visita. Então decidimos comprar um quadro branco para colocar na cozinha, onde anotamos todas as responsabilidades e passamos a organizar nossa agenda.
Durante a manhã, Mia estaria na creche, deixando nossos horários livres. Eu resolveria meus compromissos e trabalharia na clínica. Ele buscaria a pequena, revezando comigo quando surgisse alguma emergência. À tarde, eu aproveitaria para ajudar Greta na organização e ficar com a bebê, até o veterinário chegar do seu turno – plantões noturnos estavam proibidos até segunda ordem. Além disso, iremos priorizar o horário do almoço e jantar com toda a família reunida.
Na primeira semana, foi difícil seguir o cronograma, mas aos poucos fomos nos acostumando com a nova rotina.
Verifiquei o horário no celular e passei a dobrar as roupas com mais rapidez, colocando-as dentro das caixas de papelão que trouxemos da garagem. Eram exatamente 19h15min do domingo e tínhamos a missão de organizar o guarda-roupas do antigo quarto de Noah e Lily. Greta já havia sugerido que colocasse suas roupas ali, mas esqueceu de mencionar que a outra parte do armário ainda estava cheia dos pertences de nossos irmãos.
A ideia era que dividíssemos o espaço já que era grande o suficiente para os dois, nos poupando de gastar com um novo para o quarto de hóspedes. Mas esse nem era o problema. Naquele momento, tudo que mais queria era enforcar a criatura ao meu lado até que implorasse para soltá-lo. O cretino havia convidado Aidan e Madisson para uma noite de jogos às 20h00min, sabendo que tínhamos de lutar com o guarda-roupas. Uma grande irresponsabilidade.
— Ao invés de jogarmos, vou colocar aqueles dois para nos ajudar. — comentei, fechando mais uma caixa com o rolo de fita.
— O Aidan está esperando por essa noite há meses. Ele vai enfiar a cabeça dentro do forno e abrir o gás, se não conseguir a sua revanche. — zombou, organizando a gaveta que usaria para guardar as meias.
— Eu não sei o que vocês veem nesse jogo de cartas, é tão... Confuso. — fiz uma careta.
— Aconselho que não fale isso perto dele. O Aidan irá falar até convencê-la que blackjack não é só um jogo de cartas.
Rolei os olhos, cruzando os braços em frente ao peito. Girei a cabeça para o lado e um sorriso curvou-se em meus lábios ao encontrar Mia deitada no tapete felpudo, brincando com os blocos de construção coloridos. Sky estava ao seu lado, a pata curiosa empurrava as peças e, às vezes, dava um pequeno pulo por se assustar quando ela empurrava o brinquedo na sua direção.
— Acha que vai demorar muito para ela começar a falar? — mordisquei a indicador, preocupada. — Tenho medo de nunca conseguir... — meu coração se apertava só de pensar.
retirou o cabide com a peça de roupa ainda embalada no plástico, e pela etiqueta pendurada nunca foi usada.
— A Mia passou por muitas coisas, a pediatra disse que é normal esse atraso na fala. — relembrou.
Puxei a pele no canto do dedo, tentando acalmar a ansiedade que sempre me consumia quando o assunto era a nossa pequena.
Na semana passada, a levamos para uma consulta com a pediatra, já que estávamos preocupados com o seu desenvolvimento, e segundo a médica o atraso na fala pode ser resultado da mudança repentina do seu ambiente. A perda dos pais; a adaptação com os novos tutores; a rotina diferente. Tudo poderia ter a influenciado, e mesmo que tivéssemos sido tranquilizados de que logo Mia estaria formulando frases, eu não conseguia parar de me preocupar.
Não conseguia parar de pensar que nossa carga emocional pudesse tê-la prejudicado. Nunca me perdoaria por isso.
, acho que encontrei um vestido novo para você. — sua voz rouca me atraiu, tirando-me todas as aflições.
Girei o corpo e arregalei os olhos ao ver o que ele segurava. O plástico havia sido retirado, revelando o vestido vinho bordô profundo cheio de sofisticação e sensualidade.
— Também tem um smoking ali dentro. Acho que nunca foram usados. — apontou com a cabeça e me adiantei em pegar a peça pesada, também envolto no plástico.
— Por que eles compraram essas roupas? — analisei a etiqueta pendurada no cabide. — Isso é caro. Muito caro. — fiz uma careta, os quatro dígitos e a logo do ateliê não deixavam dúvidas.
As duas peças eram sinônimo de luxo. A alta costura, o brilho, os bordados, a renda fina, as lapelas de cetim. Cada detalhe escolhido a dedo para esbanjar elegância.
— Pensei que pudéssemos vesti-los. — sugeriu de repente.
Ergui a cabeça e franzi o cenho.
— Não podemos.
— É só por um momento, sabe... Fingir que somos eles. — sugeriu, dando de ombros.
Encarei as roupas em nossas mãos. Entreguei o smoking a ele e peguei a peça belíssima. Não resisti em passar a mão pelo tecido, sentindo a textura macia do cetim sobre os dedos. Soltei um longo suspiro, conseguindo perfeitamente enxergar minha cunhada escolhendo aquele vestido. Ela sempre gostou se vestir feito uma princesa.
Analisei os detalhes minuciosos, intrigada com a ideia de vestir algo tão luxuoso. No entanto, a vozinha irritante insistia em lembrar que há poucos dias, tentávamos agir como eles, ser como eles. O arrepio gélido subiu pela espinha e voltei a encarar o homem, ainda aguardando por uma resposta que estava entalada na minha garganta. Quando nossos olhos se encontraram, senti o choque elétrico com o verdadeiro desejo explícito em suas íris. Eu soube que não se tratava de substituir nossos irmãos, mas de fingir sermos o casal perfeito – algo que, talvez, nunca seríamos.
Então que mal faria fugir da realidade por um momento?
Anuí, não conseguindo conter o sorriso de ansiedade. Entrei no banheiro da suíte e retirei as roupas com certa urgência. Subi o vestido lentamente, notando se ajustar perfeitamente ao meu corpo. Sempre achei que Lily fosse mais magra do que eu, mas agora, descobri que vestíamos a mesma numeração. Puxei os cabelos para o lado, ajeitando as alças finas nos ombros e desci as mãos pelo comprimento terminando de ajustar o caimento.
Sai do banheiro e a cada passo que dava, tive de tomar cuidado para não tropeçar na barra. Com certeza, aquele vestido foi feito para usar com um salto alto que realçasse os calcanhares e tornasse o visual mais elegante. Parei em frente ao guarda-roupas e soltei o ar pela boca, tomando coragem para puxar a porta que revelaria o gigantesco espelho. Mordi os lábios, finalmente encarando o meu reflexo, antes que o nervosismo me desencorajasse.
Engoli em seco, meu coração deu um solavanco com a imagem refletida no espelho. Boquiaberta, desci os olhos por todos os detalhes, impressionada com o tecido de cetim que conferia um brilho sutil e um caimento fluido. A barra se dobrava no chão, fazendo-me sentir minúscula. O decote drapeado delineava a linha dos seios, o corpete modelava a silhueta, mas o que chamava a atenção era a fenda lateral alta que se estendia pela coxa, deixando a pele exposta e muito sensual.
Fiquei tão deslumbrada que meu corpo deu um salto quando as mãos grandes e firmes tocaram minha cintura. O toque quente era delicioso, capaz de arrepiar lugares que nem mesmo imaginava. Lentamente, girei os quadris até que estivesse de frente para ele e vê-lo diante de mim foi capaz de me causar um pequeno ataque cardíaco. Minha garganta secou igual aos rios do deserto, arranhou de um jeito que até esqueci como se falava.
Pisquei algumas vezes, completamente hipnotizada.
Apenas uma palavra seria capaz de definir naquele momento.
Lindo.
O smoking apesar de ser um conjunto clássico era um traje de gala impecável. O paletó preto bem ajustado, realçava os ombros e o peito largo. Possuía lapelas de cetim escura que combinavam com a camisa branca de colarinho formal e tecido pregada de estilo tradicional. Os botões eram discretos, assim como o lenço de bolso dobrado de forma simples. E para completar o traje, a calça de corte social caia perfeitamente alinhado no corpo dele.
Minha boca transformou-se em um sorriso divertido e deixei que as mãos pescassem as pontas da faixa de cetim abandonadas ao redor do seu pescoço.
— Faltou a gravata borboleta. — murmurei, movendo os dedos em uma dança lenta, formando o laço que daria o toque mais sofisticado e estiloso.
Ao finalizar, minhas palmas escorregaram pelo peito dele e como uma afronta do destino, pararam ao sentir a pulsação acelerada que batia contra as costelas e atravessavam o tecido do smoking. Senti as bochechas queimarem e pressionei os lábios, evitando que um sorriso tímido surgisse. Meu estômago revirava, cheio de borboletas, apenas por sentir o tum-tum-tum forte contra a minha pele. Por que era tão bom saber o quanto eu o afetava?
O ar no quarto se tornou rarefeito, pesado pela mistura do aroma da romã e do cedro.
delineou meu queixo com os dedos, obrigando-me a erguer a cabeça para encará-lo. Entreabri os lábios ao notar os olhos azuis fixos em minha boca. Labaredas nos rodearam. Ele se inclinou, o hálito quente batendo contra minha pele e em resposta, minhas mãos agarraram as laterais do paletó, com medo que fugisse.
E quando estávamos prestes a nos render ao desejo que tanto reprimíamos, o universo teve a brilhante ideia de intervir, fazendo o inevitável acontecer...
Ma-mau. — o som infantil simplesmente saiu, irrompendo pelo quarto.
Rapidamente fomos arrancados abruptamente do universo paralelo. No mesmo instante, nossas cabeças giraram em sincronia e fixamos os olhos sobre Mia, ainda deitada no tapete ao lado de Sky. A mãozinha minúscula puxou a orelha pontuda do felino, fazendo-o emitir um miado alto do fundo da garganta em protesto.
Ma-mau, ma-mau. — a pequena repetiu e riu em seguida.
Meus olhos se encheram de lágrimas, ao mesmo tempo em que o rosto se enrugou com o tamanho do sorriso largo que curvei nos lábios. A sua voz era a melodia mais doce que já tinha ouvido. Uma onda de euforia explodia dentro do peito, aquecendo cada partícula pelo caminho. Cobri a boca com as mãos, tentando abafar o soluço de alegria, enquanto corria para perto do tapete. Ajoelhei-me e peguei Mia nos braços, apertando-a contra mim com uma força inesperada, enchendo o seu rostinho de beijos molhados. Ela gargalhou alto, sentindo cócegas.
— Ela falou, ! Ela falou! — gritei em êxtase, incapaz de controlar as gotas salgadas que rolavam quentes pelas bochechas.
se aproximou. O seu semblante iluminado, pareceu estar mais surpreso do que eu. Pegou a bebê dos meus braços e a ergueu acima da cabeça, girando-a no ar, enchendo o ambiente com a mais pura felicidade. Limpei o rosto com o dorso das mãos, admirando quando ele a abraçou, distribuindo uma avalanche de beijos no topo da sua cabeça.
Seu olhar emocionado se encontrou com o meu e tudo que consegui fazer foi sorrir extasiada.
Instintivamente, peguei o felino que já esfregava o corpo contra as minhas pernas e beijei a sua cabeça peluda, pouco me importando em encher a boca de pelos. Contive a vontade de apertá-lo, apesar da enorme gratidão transbordar dentro do meu peito, esmurrando as costelas, quase a beira de um infarto. Em toda a minha existência, não imaginei que graças a bola peluda, Mia finalmente nos presentearia com sua primeira palavra.
— Precisamos eternizar esse momento! — minha voz explodiu, empolgada.
Sem hesitar, pegou o celular em cima da cama e deslizou o dedo pela tela, abrindo o aplicativo da câmera. Rapidamente esticou o braço, ajustando o enquadramento para que capturasse a foto perfeita. Ajeitei o felino nos braços e estralei os dedos, apontando o aparelho. Como se entendesse o que estávamos fazendo, Sky olhou para a tela, apesar de permanecer com a famosa cara de desprezo.
O momento foi registrado e nossos sorrisos permaneceram no rosto mesmo depois da fotografia, se recusando a saírem. Juntos, beijamos a cabeça da pequena, completamente arrebentados pelo oceano de emoções.
Ali, naquele quarto, a história da nossa família acabava de ganhar mais um capítulo cheio de amor e doçura.

*****

Soltei o ar preso nos pulmões e olhei pela última vez na direção do berço de madeira branca, conferindo o sono profundo da pequena. Meus lábios se repuxaram em um sorriso satisfeito, doce, aliviada por ter conseguido fazê-la dormir, antes do andar de baixo ficar recheado de adultos bêbados, discutindo por uma partida de blackjack – fez questão que eu memorizasse o nome, enquanto tentava me explicar as regras. Um esforço inútil, já que continuava leiga no assunto.
Girei a maçaneta, fechando a porta cautelosamente. O click suave da tranca foi o único som que ecoou pelo corredor, junto da minha respiração calma. Alcancei as escadas e não demorou para ver os três meliantes entrando pela porta da sala, entretidos em zombarias e muitas caixas de cerveja. Cruzei os braços e franzi o cenho, parada no último degrau. O que iríamos fazer com tanta bebida? Embebedar o bairro inteiro?
! — Madisson gritou.
Seus braços finos me envolveram em um abraço apertado e pelo sutil cheiro de álcool que emanou dela, diria que começou a diversão em alguma conveniência na companhia de Aidan.
— Eu estava muito ansiosa por essa noite de jogos! — soltou-se e fez uma dança estranha em comemoração.
— E dessa vez vou provar que os dois trapacearam da última vez. — Aidan se intrometeu, abrindo o baralho em uma das mãos.
soltou uma risada irônica, batendo sobre o ombro do amigo.
— Nós não trapaceamos. — ressaltou, e pelo seu tom parecia cansado de repetir isso.
— Aidan... — a ruiva se colocou ao lado do homem, erguendo o queixo dele com o indicador. — Não temos culpa que você não tem sorte no amor e nem no jogo. — zombou e gargalhou em seguida.
— Quem disse que não tenho sorte no amor? — retrucou, começando a primeira tropa de farpas da noite.
Não contive a risada ao escutar Madisson relembrar dos diversos romances fracassados do amigo, incluindo o com uma morena com olhos de cigana e corpo de sereia que quase o fez ir preso, após aparecer com um filho de dois anos e garantir com todas as forças ser dele. Aidan até tentou refutar, mas seus argumentos eram completamente inúteis naquele momento.
Estreitei os olhos, passando a prestar atenção em cada detalhe da história. O risinho remexeu os músculos da minha face e instintivamente mordi o canto do indicador. Meu coração batia acelerado, a ansiedade me corroendo por querer saber o desfecho da história. E quando Madisson começou a contar sobre o processo judicial, senti uma parte do meu cérebro batucar, enviando sinais de que estava sendo observada.
Inexplicavelmente, virei a cabeça e engoli em seco ao encontrar os poços azuis penetrantes fixos no dedo preso entre meus lábios. arqueou as sobrancelhas, seu semblante tornou-se sério, quase predatório. Endireitou a postura ao subir a atenção para meus olhos, causando-me aquela reviravolta intensa no peito. As pupilas dilatadas devoravam cada pedacinho do meu corpo, feito um felino à espreita. E o pequeno movimento de erguer o queixo em ar de superioridade foi capaz de aquecer o meu centro.
Esfreguei as coxas sutilmente, as bochechas corando pelo gesto inocente. Tive a ideia ousada de olhá-lo de cima a baixo e mordiscar o canto da boca ao encará-lo fixamente. Ele tencionou a mandíbula e correspondeu a dança ardente dos nossos olhos, me devorando em silêncio. Cada pelo do meu corpo se arrepiou, a corrente elétrica deslizando pela pele como se as mãos dele me tocassem, acendendo o fogo que nos consumia a cada instante.
Oh, céus... Isso tinha que parar.
A risada alta de Madisson quebrou o feitiço que nos prendia. Desviei o olhar para a ruiva que tinha os braços cruzados, contando o desfecho da história.
— E você ainda teve de fazer um exame de DNA porque realmente acreditou que o filho fosse seu. Esse é o problema de não usar proteção. — secou a lágrima solitária que rolou pelo rosto, puxando o ar quase sem fôlego.
Aidan soltou um suspiro exasperado, lançando o olhar fuzilando sobre ela.
— Bruxinha, ao invés, de ficar lembrando do meu passado mórbido, que tal começarmos logo essa partida? — Aidan arregalou e revirou os olhos em desdém irônico.
— Só se estiver pronto para perder.
Ele a ignorou e se aproximou de , o empurrando pelo ombro. Ouvi o veterinário protestar e murmurar algo baixo para apenas Aidan ouvir. Já eu, tive de mordicar os lábios, reprimindo a vontade de encarar o rosto que era capaz de mexer com todos os meus sentidos apenas com o olhar.
— Cara, vamos guardar as cervejas na geladeira, antes que eu enlouqueça. — eles saírem e foi como se uma pedra pesada se alojasse no meio do meu peito.
Droga.
Por que o simples fato dele se afastar desencadeava essa angústia tão repentina? Era como se um pedaço do meu coração tivesse sido arrancado com a ponta da faca.
Balancei a cabeça, não querendo pensar sobre esse sentimento assustador. Curvei um pequeno sorriso na direção da ruiva e juntas caminhamos para o sofá. Ajeitamos as almofadas e a mesa de centro para que pudessem comportar a eufórica noite de jogos. Acomodei-me contra o estofado macio, segurando o gemido que ameaçou escapar ao ter as costas abraçadas pela estrutura macia.
Cruzei as pernas e coloquei a almofada no colo. Madisson continuou a contar sobre o processo de Aidan e o quanto a mulher quase acabou com a sua vida. Ao prestar atenção, percebi que seu rosto se contorcia em caretas engraçadas, as palavras que deveriam soar com indiferença, carregavam certa repulsa. Arquei a sobrancelha, minha alma de escritora girando as engrenagens dentro do cérebro. Havia uma atmosfera diferente no ar, quase palpável.
Em um livro romântico, Madisson e Aidan seriam os protagonistas perfeitos. Fariam parte do mundo onde amigos se tornariam amantes, daqueles que vivem se provocando porque não sabem lidar com a carga dos seus sentimentos.
— No final, descobrimos que ela só queria que Aidan assumisse o filho dela, porque não sabia quem era o pai.
Uma sombra fugaz passou rápido pela minha visão periférica. Não precisando de muito esforço para identificá-lo.
— Ainda falando sobre a minha vida, bruxinha? — Aidan surgiu com em seu encalço. — Tenho certeza de que a não quer ouvir sobre os meus problemas no tribunal.
Madisson balançou a cabeça, expressou um sorriso sem graça e fez o beicinho mais grande da história.
— Você é tão babaca. — em seguida indicou a mesa de centro. — Vamos jogar? Estou doida para vê-lo perder. — estreitou as pálpebras em um desafio.
Aidan apontou os próprios olhos e jogou os dedos na direção da mulher, insinuando que estaria atento a qualquer sinal de trapaça. Sentou-se no chão, misturando as cartas habilidosamente. Dividiu em dois montes e os embaralhou mais uma vez, cantarolando uma música aleatória. Ele parecia um mágico prestes a tirar o coelho da cartola, concentrado em não errar a atração.
Madisson suspirou e esfregou o rosto com as mãos. O grito exaltado que explodiu da sua garganta fez todos darem um salto de susto. Aidan deixou algumas cartas caírem do baralho, as recolheu e disparou palavras ameaçadoras em direção da ruiva. Os dois se assemelhavam a irmãos birrentos, que adoravam se provocar a cada segundo. E era incrível saber que trabalhavam na mesma clínica veterinária.
Pressionei os lábios, enquanto a ouvia grunhir, dizendo que se não começasse a distribuir as cartas em cinco segundos, ia arrancar as bolas dele. Abaixei a cabeça e deixei a risada sair. Acompanhei quando Aidan revidou e uma almofada voou, acertando-o em cheio no rosto. Os cantos da minha boca se curvaram mais a cada provocação que ouvia.
Mas quando ergui a cabeça, meus olhos pairaram sobre o veterinário charmoso e de glóbulos azuis penetrantes, fixos em mim. Ele parecia diante da última maravilha do mundo. E por mais estranho que fosse, estava gostando de ser o centro da sua atenção. Era como se meu peito se enchesse, o orgulho subindo nas alturas.
me venerava com apenas um simples olhar.
Fiquei curiosa para saber como me trataria se estivesse embaixo do seu corpo, as bochechas rosadas e os lábios entreabertos, chamando-o pelo nome.
Graças aos deuses, Madisson me cutucou, entregando uma garrafa de cerveja – nem tinha percebido que havia saído da sala. Virei a cabeça e aceitei a bebida, mesmo que não tivesse a intenção de ficar bêbada. Algo me dizia que deveria estar sóbria nas próximas horas. Um sentimento sublime se apossava dos meus sentidos, causando um frio esquisito na barriga. Eu não sabia como, mas sentia que minha vida estava prestes a mudar.
Aidan fez um brinde com a garrafa de , antes de dar um longo gole. Começou a distribuir as cartas, ao mesmo tempo, explicando como funcionava as regras e o objetivo do jogo. Prestei atenção e entendi que precisávamos chegar o mais próximo do número 21 sem excedê-lo. O jogador que o ultrapassasse perderia.
Franzi o cenho, ao ouvi-lo falar sobre os valores de cada carta e me perdi no caminho, não conseguindo decorar tanta informação de uma vez. Ao mesmo tempo em que era um jogo simples, se igualava a um enigma para uma pessoa inexperiente como eu.
— A-acho melhor ficar fora dessa rodada. — engoli em seco, devolvendo as cartas para o baralho. — Posso observar e depois participar.
— Não é tão difícil, . — Madisson se inclinou, mostrando as figuras da dama, do rei e do valete. — Cada carta representa um número. Essas valem 10. — passou para outra, que possuía a letra A. — Essa pode valer 1 ou 11 pontos, dependendo do jogo. Gostamos de jogar com ela valendo 11. — as ajeitou sobre a mesa para que pudesse observar melhor.
pigarreou.
— Joga comigo. Vou te ensinar. — arrastou o corpo e se acomodou, ainda no chão.
Endireitou a coluna, encostando contra o estofado de modo que ficasse entre as minhas pernas. Discretamente, inclinou a cabeça e a apoiou contra meu joelho descoberto por causa do short de algodão que usava. A sua pele quente causou um choque elétrico que percorreu por todo o meu corpo, o arrepio subiu pela espinha. Impulsivamente, minha mão deslizou, os dedos penetraram os fios lisos do seu cabelo e massagearam em um carinho terno.
Tentei recuar assim que notei a tamanha besteira que havia feito. No entanto, foi mais rápido, agarrando o meu pulso. Puxou com delicadeza e os próximos segundos me pegaram completamente de surpresa. Sua boca depositou um beijo no dorso. O toque macio dos lábios fez as chamas em meu ventre se acederem, a mente traiçoeira imaginando como seria tê-lo beijando partes mais quentes do meu corpo.
Merda... Eu estava completamente louca por ele.
— Hora das apostas. — Aidan anunciou, distribuindo as cartas novamente. — Aposto 100 dólares, porque sei que vou vencer. — balançou a nota e a beijou antes de colocar sobre a mesa.
Madisson balançou a cabeça.
— Como tem tanta certeza de que irá vencer?
— Porque não poderá usar seus métodos de trapaças aqui, bruxinha. — alfinetou.
Ela rolou os olhos, mostrando o dedo para ele.
Em contrapartida, se remexeu. Retirou a carteira do bolso, quase me fez ter um infarto ao ver as cédulas que retirou de dentro.
— Aposto 200 dólares, triplicando o prêmio. — jogou as notas na mesa.
Aidan soltou um assobio.
— O que aconteceu com o que odeia jogos de apostas? — o amigo arqueou as sobrancelhas e olhou fixamente para ele.
— Precisa comprar um buquê de girassóis. — deu um gole na bebida e seus dedos roçaram em minha mão no seu ombro. Um toque inofensivo que não passou despercebido pelos dois.
Estremeci, a garganta seca pela revelação. As palavras me atingiram, cheias de um comprometimento que nunca havia recebido. Ele tinha ouvido, e mesmo depois de tanto tempo, ainda se lembrava. O ar circulou desenfreado nos pulmões, o coração batia agitado feito um tambor. Era como estar sonhando. O sorriso tímido brincou nos lábios. Meus olhos marejaram, as lágrimas carregadas de doçura por saber que se importava comigo, ao ponto de notar até os pequenos detalhes.
Jamais imaginei que se preocuparia com algo tão sutil.
Balancei a cabeça, deixando de ficar extasiada para me concentrar no jogo. Aidan bebeu a cerveja como se fosse o exilar da vida. Pegou uma carta do baralho e passou a vez. Notei que seus olhos estreitos varriam os amigos com tamanha atenção, sempre atento aos movimentos de Madisson. Provavelmente buscando por qualquer sinal de trapaça.
A ruiva fez a sua jogada em silêncio, o rosto inexpressivo. Segurou as cartas em mãos contra o peito e esperou até que fizesse a sua jogada. Levei o dedo indicador a boca, roendo a unha em nervosismo. Encarei os símbolos e meu cérebro entrou em curto, não conseguindo lembrar o que elas significavam. O coração começou as esmurrar as costelas em ansiedade.
— 21! — ele sorriu largo e expôs seu jogo sobre a mesa.
Aidan xingou e Madisson riu da sua expressão de indignação. Já eu, franzi a testa, não entendendo o que havia acabado de acontecer.
— Os 300 dólares são meus, Aidan. — estendeu a mão.
— Eu odeio você! — Aidan entregou o prêmio e continuou a murmurar sozinho. — Não tem como ganhar de primeira, você roubou.
— Você distribuiu as cartas. Eu só tive sorte de pegar um Ás e um valete. — deu de ombros, guardando o dinheiro na carteira.
O outro revirou os olhos e cruzou os braços igual a uma criança birrenta. Madisson juntou as cartas e começou a embaralhar, rindo do bico gigantesco do amigo. Enquanto isso, me explicou que as duas cartas juntas totalizavam 21 pontos, sendo assim fez um Blackjack, ganhando automaticamente.
Assenti, fingindo entender. Logo, Aidan e Madisson fizeram uma nova aposta. , animado e sentindo-se com a sorte do seu lado, arriscou com oitenta dólares e assim uma nova partida se iniciou. Optei por novamente ficar de fora, me inclinando sempre que o veterinário chamava com os dedos. Ele sussurrava de maneira tão rouca e sensual em meu ouvido que era incapaz de controlar o arrepio na espinha.
Um ronronar escapava do meu peito e pouco me importei com o jogo, só ficava cada vez mais ansiosa para a próxima explicação. Se queria me enlouquecer, estava funcionando, pois só conseguia pensar na sua voz repetindo as falas dos meus personagens, enquanto fodia loucamente suas parceiras.
Ele se encaixava tão perfeitamente, que seria impossível escrever as próximas cenas, sem imaginá-lo ali, presente em cada palavra.
O grito explodiu pela sala. Madisson levantou do sofá e fez a dancinha da vitória. Seu corpo balançou, dando pequenos saltos. A mão erguia a garrafa antes de dar um longo gole. Em contrapartida, Aidan encenou sua reação melodramática, digna de novela mexicana. Deitou-se no chão e pressionou a almofada no rosto com força. Grunhiu abafado de frustrações. A veia saltada na lateral do pescoço denunciava a tensão que o corroía, o estrangulando por dentro.
e eu rimos.
Madisson aproximou-se do corpo inerte. Curvou-se, acertando um tapa no braço dele. Exigiu que afastasse milimetricamente a almofada para que olhasse para ela.
— Aceite, Aidan. Somos o rei e a rainha do blackjack.
Lançou o quadrado felpudo para longe e apontou o dedo em riste.
— Vocês roubam. É impossível terem tanta sorte! — endireitou a coluna, esfregando o rosto com as mãos. — Estou morrendo de fome, quando podemos ir buscar as pizzas? — mudou de assunto rapidamente.
O estômago roncou alto. Esfreguei a barriga, a boca salivando só de imaginar o cheiro gorduroso do queijo derretido e do orégano. Com toda a loucura em organizar o guarda-roupas e as obrigações com Mia, minha última refeição havia sido há cinco horas – um mísero pão com ovo e algumas frutas com granola. Então não era surpresa que meu corpo reagisse a mera menção daquela bomba de carboidratos.
Madisson pegou o celular sobre o sofá. Digitou em silêncio, o som das teclas ecoando pela sala.
— Você deveria ter pedido para entregarem. — comentou, bebericando a cerveja.
— E pagar dez dólares, sendo que a pizzaria fica há quinze minutos daqui? — Aidan se levantou, espreguiçando. — Valorizo muito o meu dinheiro suado, obrigado.
Ela revirou os olhos.
— Você não vai ficar mais rico. — deu de ombros, ainda encarava o aparelho.
— O país pode sofrer uma crise econômica a qualquer momento. Temos que estar preparados. — pressionou o próprio peito com a mão, dramático.
balançou a cabeça em negação, os olhos fechados em uma súplica silenciosa ao universo. Um sorriso zombeteiro despontou em seus lábios.
— Certo, gênio. Você vai guardar dez dólares para comprar uma fazenda de proteção anti-apocalipse? — sua voz era cheia de sarcasmo. — Porque certamente o destino da economia do país depende de você ter economizado na entrega da pizza.
— Isso faz ele dormir melhor a noite, pensando que salvou o mundo. — Madisson disse.
Balancei a cabeça e pressionei os lábios, incapaz de segurar o riso mudo.
— Por que da próxima vez, você não vem andando, Aidan? Só para garantir a segurança financeira do mundo. — continuou a zombar.
O moreno ajeitou os cachos escuros que caíram sobre a testa, antes de cruzar os braços em frente ao peito.
— Sabe as infinidades de coisas que podemos fazer com dez dólares, cara?
— Tenho a certeza de que salvar o país de uma crise econômica não é uma delas. — o outro deu de ombros, dando o último gole na cerveja.
Um embate geopolítico se iniciou entre os dois. Aidan continuou a defender sua ideia de economia, afirmando que faria toda a diferença. Enquanto parecia não se importar, soltando palavras monossilábicas e defendendo a ideia de que veterinários não poderiam fazer muito em meio a uma crise, já que haveria diversos animais abandonados para se preocuparem.
Por sorte, a discussão não se estendeu por muito tempo. Madisson bateu palmas e os ameaçou – caso não calassem a boca iria prendê-los em um quatro minúsculo, sozinhos, sem água e comida. E só os soltaria quando realmente tivessem uma recessão de verdade para se preocuparem.
— Vamos buscar as pizzas. Antes que comecem a fazerem planos para o futuro de um colapso que só existe na cabeça de vocês. — ela vasculhou a bolsa atrás da carteira.
Em alguns instantes, saiu e Aidan foi em seu encalço. Mas apesar da porta ter se fechado, ainda era possível ouvir as provocações e as ameaças inconfundíveis do lado de fora. A troca de farpas que se tornou tão familiar.
Ri em silêncio e limpei as lágrimas que desciam pela bochecha, resultado da discussão maluca sobre geopolítica e veterinária. Inclinei-me para frente, a boca ainda torcida em um sorriso genuíno, os ombros relaxados. Nos últimos dias, a casa se infestou de alegria. Madisson e Aidan eram um caos adorável e cheio de diversão. E era impossível não ser arrastada para a bagunça deles, ainda mais quando pareciam dentro de um tribunal, defendendo suas ideias mirabolantes.
— Se divertindo? — quis saber.
Virei a cabeça e o encontrei voltando da cozinha. Abriu as duas novas garrafas que possuíam uma leve camada de água ao redor, recém tiradas do freezer. E não pude deixar de notar o movimento das veias no antebraço, que saltava apenas pelo simples movimento de girar as tampas metálicas.
— Eles são um caos saudável. — estendeu a bebida e a aceitei.
Endireitei o corpo e acompanhei quando se sentou no chão, na mesma posição, entre minhas pernas. Recostou contra a lateral do sofá e deu um longo gole. A careta que torceu o rosto másculo em seguida, foi resultado do líquido ter congelado o seu cérebro. Repeti seu movimento, sendo mais cautelosa.
— Estou me divertindo muito, mas tudo ficaria melhor se tivesse burritos.
Ele sorriu com o canto dos lábios, dando mais um gole.
Estiquei o braço, deixando a garrafa sobre a mesa, mas ao retornar para a posição inicial, tive a ideia de segurar nos ombros dele. A tensão controlada em seus músculos foi sentida ao suave toque das minhas palmas. Movi os dedos delicadamente, querendo aliviá-lo e o ouvi emitir um suspiro baixo, quase inaudível.
— Pedi para o Aidan buscar. — revelou com a naturalidade de quem pedia um copo de água. — Até deixei pago, sabia que ia gostar mais deles do que da pizza.
O ar fugiu, e por um instante, a única coisa que ecoava dentro da minha mente eram aquelas palavras inesperadas. Meu peito retumbou, o coração bombeava sangue e implorava por oxigênio. Um arrepio lento percorreu por toda a coluna. E sabia que não tinha nada a ver com o frio da cerveja.
Ele tinha pensado em mim.
Esqueci de como era respirar e deixei que as mãos deslizassem pelo peitoral duro. Curvei-me, o rosto apoiou sobre o ombro largo, que me acomodou em um encaixe perfeito. Meus músculos, minha alma e até mesmo o consciente pareceu entrar em curto, extasiada, sentindo aquela sensação tão deliciosa, quente, que só encontrava em seus braços.
E ali, no silêncio aconchegante da sala, só queria que o momento durasse para sempre. Com ele. Queria aproveitar cada segundo para me sentir a pessoa mais importante da sua vida. Mas foi então que o pensamento me ocorreu, a pontada da incerteza correndo pelas minhas veias e precisei perguntar:
— Falou sério sobre os girassóis? — minha voz era um sussurro baixo, mas soube que ele ouviria.
virou o rosto. Seus olhos encontraram os meus com tanta intensidade que era demais para a minha sanidade aguentar. Seus lábios tão próximos me fizeram engolir em seco, ansiosa, desesperada por ele. Nossas respirações descompassadas, misturaram-se ao ar rarefeito.
Droga. Ele tinha o cheiro tão bom. Os olhos tão lindos. A boca tão perfeita.
não hesitou em responder:
— Por que não falaria? Se pudesse, eu plantaria um jardim só de girassóis para você. — sua voz era apenas um sussurro rouco, apenas para mim.
Lentamente, encostou nossas testas. Fechamos os olhos, completamente entregues ao momento. A aproximação se assemelhava a ímãs que não conseguiam se repelir, a cada segundo cada vez mais perto de consumir o desejo que esteve preso em nossos corpos há tanto tempo. O silêncio nos rodeou, a plateia perfeita. Não era preciso palavras depois de tudo o que passamos e dessa vez, também não havia nada para nos impedir.
Os calafrios subiram pela coluna e se espalharam por todo o corpo. O estômago revirou de um jeito gostoso. Fui atingida por uma descarga elétrica, uma força invisível que me prendia a ele. E por mais que a razão gritasse para se afastar, tudo o que conseguia pensar era no desejo voraz que me fazia sentir. Era assustador, mas irresistivelmente doce, delicioso. Então não havia passado ou medo que me fizesse recuar naquele momento.
Eu estava cansada de fugir.
Monstros me assombraram por muito tempo, e agora tudo o que queria era me sentir viva, livre, desejada.
... Como é ser beijada de verdade? Por alguém que se gosta?
Mesmo com os olhos fechados, soube que o canto da sua boca se repuxou.
— É diferente, coelhinha.
— É como nos livros? Nosso corpo realmente entra em êxtase?
— É melhor do que isso. — nossos narizes se tocaram e outro arrepio me atingiu.
Umedeci os lábios, tentando buscar pela minha voz que aos poucos queria desaparecer.
— V-você pode me mostrar? Eu quero ser beijada por você, ser tocada pelas suas mãos... — sussurrei cada palavra, deslizando meus dedos pela lateral dos braços dele.
prendeu a respiração e se levantou. Pensei que fosse se afastar, até vê-lo crescer em cima de mim e correspondi automaticamente. Segurei o tecido da sua camiseta, lentamente me deitando no sofá, o levando junto. Por um momento, pensei que entraria em pânico, mas minha mente atingiu uma calmaria que nunca senti antes.
, estamos bêbados. — ele se ergueu o suficiente para não me esmagar.
Segurei os ombros rígido no exato momento em que seus olhos se encontraram com os meus. E nas pupilas pude ver toda a sua resistência se partindo aos poucos. Ele me queria tanto quanto eu.
— Chega de fugir, ... Vamos deixar que nossos corpos bêbados se entreguem, já que sóbrios não conseguimos. — forcei o tronco para frente, levando a boca até o pé do seu ouvido. — Será o nosso segredo.
Ouvi o seu grunhido e vi os pelos da sua nuca se arrepiaram. Se ele sentia a mesma chama que eu, então por que não conseguia se entregar de uma vez? Qual era o problema?
— Eu não posso fazer isso. Não é para ser assim. — sua mão envolveu a lateral do meu rosto. O polegar acariciou a bochecha. — Devemos lembrar disso no outro dia...
Minha boca se curvou em um sorriso automático.
— O novo psicólogo me disse para preciso enfrentar os meus medos. — contei, sentindo as bochechas esquentarem. — E o primeiro medo que quero enfrentar é o de beijar você.
paralisou. O toque quente do polegar cessou. Seus olhos azuis tornaram-se duas fendas escuras e profundas que pareciam enlouquecidas para me devorar. A respiração se tornou descompassada, as narinas infladas. A tensão entre nossos corpos se tornou insuportável, um clamando pelo outro em uma dança sensual e deliciosa.
— Eu quero você...
E isso bastou para fazê-lo avançar como um felino sobre mim.
não me beijou. Ele me tomou, me possuiu, me reivindicou.
Sua boca se fechou na minha com uma urgência voraz, incendiando cada pedacinho do meu ser. Seu corpo se apoiou sobre os antebraços e as mãos grandes envolveram meu rosto, aprofundando o beijo nada gentil. Seus lábios firmes e quentes eram possessivos, tomando cada centímetro sem pedir permissão para avançar.
Nossas línguas se tocavam feito explosões, se entregando ao desejo que tanto reprimimos. Gemi em sua boca, deixando os dedos deslizarem pela nuca forte, enroscando-se nos cabelos macios. O puxei com necessidade, sendo deixada levar pelo impulso e pouco me importei para isso, só queria que continuasse a me devorar sem pudor e gentileza. Colei mais nossos corpos, desejando quebrar as leis da física, nos fundir em um único espaço.
Delicioso, quente, poderoso e enlouquecedor.
Sua mão escorregou para meu pescoço e seguiu até a minha cintura, explorando lentamente. Os dedos afastaram a barra da camiseta, apertando a carne com vontade e necessidade. E em um movimento brusco chocou meu quadril contra o seu, querendo que sentisse a ereção protuberante pulsar contra a minha virilha.
Oh, céus, de todos os beijos que tive na vida, nenhum se comparava a intensidade, o desejo e a urgência desse.
E não restava dúvidas, poderia beber todas as garrafas de cerveja que trouxeram, eu jamais o esqueceria. Sempre que fechasse os olhos, me lembraria de cada segundo do seu toque, da língua possessiva, o cheiro de cedro e pimenta. ficaria marcado na minha boca eternamente.
Ao ficarmos ofegantes, ele se afastou com as labaredas queimando em suas íris. Entreabri a boca e arfei com sua mão na minha mandíbula. Segurou com força, distribuindo beijos molhados por todo o maxilar. Fechei os olhos, mordi os lábios e joguei a cabeça para trás, apreciando cada segundo. Ele desceu para o pescoço, dando uma leve mordida antes de passar a língua por toda extensão.
O gemido prazeroso, sem vergonha, tão entregue ecoou pela sala. A risada travessa bateu contra minha orelha. mordiscou o lóbulo, os dentes deslizando com delicadeza de maneira tão sensual que o meio das minhas pernas se contraiu.
Continuou a segurar meu rosto, enquanto com a outra mão fechou em torno de um dos mamilos. Agarrou com cuidado e afastou o sutiã, mesmo com a camiseta, resvalando o polegar pelo bico intumescido. Pelos deuses, foi como ser eletrocutada diversas vezes e esperasse ansiosa pela próxima descarga. O gemido escapou. Finalmente aceitei que não tinha mais o controle do próprio corpo que respondia automaticamente a todos os estímulos dele.
— Gostosa demais. — puxou a barra do tecido e deixou beijos famintos pela barriga, fazendo caminho até o busto.
Em um impulso, minhas mãos agarraram sua blusa, puxando-a com urgência. Ele me ajudou, se livrou dela num piscar de olhos e o jogou em qualquer lugar no sofá. Mordiquei o lábio inferior, percorrendo o troco nu, bronzeado e definido. tomou minha boca encaixando nossos corpos de forma perfeita. Minhas mãos deslizaram das costas largas para o abdômen definido, os dedos contornando cada músculo, ansiando para cravar as unhas ali, marcando-o como meu.
Estava prestes a entrar em um frenesi insano, quando o ronco do motor reverberou do lado de fora.
estremeceu. Ergueu a cabeça, encarando a porta como se quisesse confirmar o que tinha ouvido. Em questão de segundos sua expressão mudou, soltou um grunhido baixinho. Os olhos ainda tomados pela luxúria encontram os meus, o pânico invadindo as pupilas. Engoli em seco, paralisada, frustrada pela realidade nos fazer enxergar o que estávamos fazendo.
Seu corpo afastou-se bruscamente. Minha pele suplicou, sentindo falta do calor no mesmo instante. Rapidamente pegou a camiseta entre as almofadas, enfiou a cabeça, cobrindo o peitoral esculpido que nem tive tempo de apreciar. Levou as mãos para os cabelos, desarrumando ainda mais os fios, os olhos perdidos e o semblante abatido. Mordi a língua, o coração dando um solavanco. Eu conhecia muito bem essa expressão.
Merda.
Ele se arrependeu? Havia correspondido com tanto ardor, que pensei ter gostado. Eu sabia que era inexperiente na arte de satisfazer um homem, só não imaginei que os anos lendo livros românticos com cenas hots seriam tanto desperdício. Será que não gostou do beijo? Mas como, se foi ele que me beijou?
Os questionamentos vieram, o canto dos meus olhos se encheu de água e tudo o que mais quis foi correr para o quarto, me esconder sobre as cobertas, fingir que nada disso aconteceu. Só havia um pequeno problema... Eu ainda ardia por ele. Havia amado cada sensação. Então seria impossível conviver sobre o mesmo teto, fingir demência, quando ansiava por mais do seu toque, sentir o gosto e a firmeza dos seus lábios. Porra. Eu estava fodida.
O click da porta sendo aberta soou pela sala. Madisson entrou, segurava a embalagem dos burritos. Aidan veio logo atrás, as caixas de pizza empilhadas sobre os braços fortes. Eles balbuciaram algo e os acompanhou até a cozinha. E assim fui deixada sozinha apenas com as brasas incandescentes, o cheiro de cedro e pimenta nas roupas.
Girei a cabeça, ouvindo apenas as vozes animados ao fundo. Decidida, levantei-me em silêncio e subi as escadas. Precisava de um tempo sozinha. Queria conseguir respirar novamente, pensar no que aconteceu. Ao alcançar o andar de cima, corri para o quarto. Tranquei a porta, o corpo ficou encostado na madeira. Levei os dedos até os lábios inchados, relembrando cada segundo da boca dele na minha.
Balancei a cabeça, indo para a cama. Cobri o corpo, abraçando ao travesseiro, mas ao tentar fechar os olhos tudo voltava com força. A pegada forte; o corpo largo que se encaixava perfeitamente ao meu; a possessividade e o cuidado em cada movimento; a boca quente, cheia de desejo. Virei de barriga para cima, encarei o teto, a respiração ofegante apenas pelas lembranças.
Uma verdade era inegável.
Porra.
conseguiu foder com cada pedacinho do meu cérebro. E me deixei ser fodida por ele.

Capítulo 24


A noite nunca passou tão devagar. O colchão parecia cheio de espinhos que impediam o meu corpo de relaxar. O lençol se assemelhava a palha, pinicando toda a pele. Suspirei, frustrada, resolvendo tomar um banho mesmo que tivesse o feito mais cedo — algo que também, ajudaria na minha farsa. Fui para o banheiro da suíte, retirei as roupas que ainda tinham o cheiro dele e mergulhei no jato de água quente que já saia do chuveiro.
Depois que subi para o quarto, Madisson veio trazer os burritos e perguntou se estava tudo bem. Tive de mentir, inventei que por não estar acostumada com o álcool, minha cabeça explodia como se ratos estivessem fazendo a festa, junto de uma banda de rock. Por sorte, ela não insistiu, deixando-me sozinha com a mente atordoada. Às vezes, ouvia risadas vindo do andar de baixo, significando que não iriam embora tão cedo.
A verdade era que não queria vê-lo depois do que aconteceu. Sentia vergonha e medo de como reagiria. Quando se levantou do sofá pareceu que uma flecha invisível o atingiu. O rosto tomado de volúpia se transformou em um misto de arrependimento que beirava ao remorso. Ele nem mesmo tentou disfarçar.
O meu coração se apertou, querendo quebrar em milhões de pedaços. Lutei contra os pensamentos intrusivos que diziam que só quis se aproveitar da minha vulnerabilidade, como todos os idiotas fizeram. Mas me recusei a acreditar. Eu o conhecia desde a adolescência, e apesar de ter tido a sua época de galanteador, algo em meu íntimo gritava que nunca faria isso comigo.
No começo, poderia ter reagido mal a nossa convivência forçada. Mas agora, depois de tudo o que passamos, seria impossível que fosse tão baixo a esse ponto. sempre respeitou o meu espaço. Se mostrou atencioso quando fui assombrada pelo trauma. E se lembrou que eu gostava de girassóis e burritos.
Esfreguei as mãos no rosto, retirando o excesso da água. Será que seria tão cretino para brincar com os meus sentimentos desse jeito?
Fechei o chuveiro, antes que começasse a alucinar. Enrolei-me na toalha fofinha e voltei para o quarto. Vesti a primeira camisola que encontrei no guarda-roupas, não me preocupando em usar uma calcinha. Ninguém entraria ali. Seria somente eu e minha mente problemática que pensava demais.
Apaguei todas as luzes, afastei o edredom e me joguei na cama, abraçando ao travesseiro. Passei alguns minutos encarando a noite pela janela aberta, antes de fechar os olhos. Deitei-me de bruços e finalmente pude relaxar, deixar a tensão de lado.
Respirei profundamente, quase adormecendo quando senti a vibração suave no pé da cama. Em seguida, algo incrivelmente pesado afundou o colchão em um baque surdo. O movimento abrupto me fez prender a respiração. Dedos ágeis subiram pela minha coxa, causando-me arrepios na espinha. A mão grande tomou posse da cintura e me puxou em direção a parede de músculos quentes. Arfei, ao sentir o lóbulo da orelha ser mordiscado de maneira que somente ele conseguia fazer.
Enquanto a mão continuava a venerar todo o meu corpo, a outra afastou os cabelos do ombro e a boca passou a beijar de forma lasciva. Mordi o lábio inferior com força, meu quadril ganhando vida própria, roçando contra a ereção endurecida em minha bunda.
Senhor, o tamanho desse homem era surreal.
— Vou fazê-la gritar meu nome a noite inteira. — usou o tom rouco que tanto me enlouquecia. — Vai gozar tanto no meu pau que nunca mais se esquecerá do homem que te fode tão gostoso.
Joguei a cabeça para trás, minhas pernas ficando bambas. Ele poderia fazer o que quisesse comigo, não teria como escapar – e ansiava por cada segundo dessa tortura.
Cada partícula do meu corpo se arrepiou. E disposto a me enlouquecer, subiu a barra da camisola, o suficiente para que acariciasse o quadril. O toque quente, delicioso e firme. Escuto-o grunhir baixinho e gemi quando sua mão alcançou os grandes lábios, se fechando ali com possessão.
— Porra, me esperando sem calcinha, ... — sussurrou rouco e senti seu pau pulsar ainda mais em minhas nádegas.
Os dedos alcançaram o clitóris e começou a massagear em círculos, obrigando-me a arquear as costas até estar completamente grudado ao seu peito nu. Uma súbita onda de prazer me atingiu quando introduziu dois dedos na minha entrada, torturando em um vai e vem lento, sem pressa.
— Tão molhada... — chupou meu pescoço com precisão e precisei agarrar o lençol, temendo entrar em combustão. — Goza para mim. Goza para o seu homem. — aumentou as estocadas, o polegar circulando o clitóris sensível.
O gemido que escapou da minha garganta se transformou em um grito de prazer. Um som que reverberou pelo quarto, puxando a realidade em um golpe seco e bruto...
E então, em um salto, acordei.
Ofegante, suada e completamente excitada.
Sentei-me na cama, esfregando o rosto com as mãos. O quarto encontrava-se silencioso, o único ruído sendo da minha respiração pesada e dos batimentos do coração contra as costelas. Olhei ao redor, a mente se recusando a acreditar que foi apenas um sonho, uma criação abominável do subconsciente.
Limpei o suor frio que se acumulava na testa. Toquei a barra da camisola, sentindo o tecido úmido colando ao corpo. Desci a mão para a coxa onde tocou, a pele ainda parecia em chamas. Subi para o pescoço, exatamente onde deveria ter deixado a mordida e o simples roçar dos dedos foi capaz de arrepiar a nuca inteira.
Fechei os olhos e suspirei. Foi muito real.
Era como se conseguisse sentir o cheiro do seu perfume impregnado no quarto. Ainda escutasse a voz rouca vibrar contra meu ouvido. O toque possessivo me tomar com ânsia. O fogo queimando em meu ventre...
— Eu não vou deixar você me assombrar, . — murmurei, notando que não conseguia nem sequer dizer o seu nome sem sentir o estômago revirar.
Merda.
Levantei-me, as pernas iguais a gelatinas. Abracei o próprio corpo ao ser atingida pelo ar gelado da noite que vinha da janela aberta. Caminhei até o parapeito, debruçando-me para olhar as ruas desertas da madrugada. O vento soprou contra os cabelos bagunçados, e só então notei que o carro de Aidan tinha desaparecido.
Engoli em seco. Qual seria a probabilidade de descer e dar de cara com o causador dos meus desejos mais impuros, parado no meio da sala?
As bochechas coraram ao ser dominada pela ideia de terminarmos o que começamos naquele sofá. Por Deus, eu só poderia estar enlouquecendo. Fechei o vidro, puxando as cortinas como se isso fosse minimizar a vergonha do sonho e da intensidade do meu desejo.
Desde o que aconteceu em Nova York, pensei que nunca mais sentiria isso por um homem. E apesar de toda o turbilhão estar me assustando, no fundo, me sentia extasiada. Por muito tempo, acreditei que viveria presa na bolha do trauma e agora era libertador saber que Kaleb não me assombraria mais.
Fiquei apreensiva quando visitei o novo psicólogo. Imaginei que fosse um desperdício de tempo e dinheiro. Mas estava errada. Em menos de duas semanas fizemos mais progresso do que anos com a antiga terapeuta. Yelena havia falado muito bem sobre ele, era o seu professor na universidade. Ele se aprofundou em ajudar casos como o meu, por isso foi tão certeiro.
Segundo seus conselhos, eu tinha me fechado para o mundo, com medo de viver. Minha mente canalizou o trauma e o transformou em um obstáculo. Temia tanto encontrar Kaleb, que me esqueci de que foi detido pela polícia por abuso sexual e porte de drogas, e se encontrava preso no presídio de segurança máxima. Além disso, assegurou que as pessoas ao meu redor sempre estariam dispostas a me proteger.
E apesar de ficar receosa sobre isso, não precisei pensar muito para saber que e Dante colocariam fogo no mundo por minha causa.
Dante foi o único que teve coragem de enfrentar Kaleb quando todos apenas observavam e riam. Ele me protegeu, me ajudou na noite chuvosa e comprou as passagens para que me mudasse para Boston. Sempre esteve ali quando precisei, mesmo que não fosse sua obrigação. E agora, se encontrava morando há poucos metros da minha casa.
E ... Bom, esse teria coragem de montar uma fortaleza só para que eu ficasse segura. Mesmo que não fôssemos um casal, éramos uma família. E desde novo sempre se mostrou disposto a fazer tudo pelas pessoas que ama. No dia que contei sobre Kaleb, senti seus músculos tensos a cada palavra que pronunciava, a veia saltada no pescoço e os punhos cerrados. Então, eu sabia que faria de tudo por mim e nem era porque tinha uma promessa com Noah.
No entanto, não imaginei que me sentiria assim depois de beijá-lo. Eu confiava nele, mas temia que a intensidade do meu desejo o fizesse fugir.
Soltei o ar pela boca, o peito se apertando com a mera possibilidade. Eu não queria perdê-lo por algo tão estúpido. E sabia que o único jeito de acabar com isso era conversando, só que era tarde demais e ele acordaria cedo para trabalhar. Minha única esperança seria esperar até o momento certo, quando estivéssemos mais calmos, de preferência sozinhos.
Mas o que fazer enquanto isso? Eu precisava canalizar essa energia e depois do sonho erótico, dormir estava fora de questão. Seria assombrada pela insônia.
Liguei o abajur ao lado da cama e meus olhos caíram sobre a única coisa que poderia drenar toda a euforia. Caminhei até a escrivaninha e alcancei o notebook. As palavras seriam o refúgio perfeito. Sentei-me na poltrona macia, começando a digitar, rápida e furiosa. Por ironia do destino, escreveria uma cena quente entre Elisa e Joshua, então usaria cada detalhe do sonho como combustível.
Os dedos voaram sobre as teclas, as palavras fluindo com tanta intensidade que em alguns momentos fiquei corada. E ali, em frente ao computador, sabia que a única forma de lidar com os problemas, era confrontando-os de frente. E seria exatamente isso que faria com .
Não me esconderia como uma garotinha assustada, tínhamos um assunto pendente para resolver. Eu só esperava que ele pensasse o mesmo.
*****

Cutuquei as ervilhas com o garfo, arranhei a porcelana branca com as pontas. Suspirei, encarando o prato cheio de arroz de forno, que havia feito naquela manhã para o almoço. Meu estômago parecia cheio, mesmo que não tivesse comido nada. A fome desapareceu como fumaça nos últimos dias. As poucas refeições que fiz, foram por insistência de Greta que ficou preocupada, temendo que eu adoecesse.
Ergui os olhos para o relógio, os ponteiros zombando de mim. Larguei o talher e fechei os olhos, a cabeça pendendo para baixo, decepcionada. Já se passaram dois dias e duas noites que não o via. Foram longas 48 horas com a angústia e a insegurança batucando as paredes da minha mente. Não que estivesse contando, mas com o painel marcando 14h30, se completava quase 60 horas.
O miado baixo, manhoso, atingiu meus tímpanos. Levantei a cabeça, o gato preto sentado a minha frente. Os olhos amarelos me encaravam com atenção. Cocei atrás da sua orelha, ouvindo-o ronronar. As patas peludas se ergueram e passou a se esfregar contra o braço estendido, enquanto acariciava suas costas.
— Será que se amarrar um bilhete na sua coleira, ele vai me responder? — soltei um risinho com a brincadeira, apesar de ser uma ótima ideia usá-lo como mensageiro. — Eu fiz alguma coisa de errado, Sky? — apoiei o queixo na mão livre e continuei com o carinho.
Eu só queria vê-lo. Perguntar se estava tudo bem, talvez, até pedir desculpas por deixar o álcool falar mais alto e ter quase implorado por um beijo.
Na manhã seguinte, após a noite de jogo, até cheguei a ver a sua sombra no café da manhã. Ele estava impecável com a camiseta de linho lilás que sempre usava nas segundas, a calça jeans escura e sapatos pretos. Os cabelos penteados para trás deixavam-no mais bonito. O relógio no pulso completava o visual. E o perfume amadeirado tinha o poder de me fazer relembrar cada momento do beijo caloroso no sofá.
Lembro-me de ter engolido em seco e as pontas dos dedos ficarem geladas de nervosismo. Tinha passado a noite inteira acordada, me preparando para aquele momento e quando finamente chegou foi como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral. Tomei coragem e decidi enfrentá-lo, mas o celular tornou-se meu obstáculo – a ligação parecia nunca ter fim.
Mal coloquei o café da manhã no prato e ele já havia desaparecido, dizendo que voltaria para o almoço. E assim as horas seguiram, nem sinal dele. Fiquei feito uma tola, esperando para almoçar. Por sorte Mia não teria creche por três dias, então passamos a tarde juntas assistindo a desenhos animados e um breve passeio no parque.
Quando a noite caiu, Greta e eu fizemos um jantar delicioso. Carne assada com purê de batatas e legumes. Esperamos por e até enviei uma mensagem perguntando se apareceria, fui ignorada. A governanta me acompanhou para que não ficasse sozinha, já que a pequena tomou uma grande mamadeira de leite e adormeceu – ela não estava com muito apetite.
Passei a madrugada acordada, escrevendo e só parei ao sentir os dedos reclamarem, os olhos implorando por descanso. Deitei-me por volta das duas da manhã e mesmo assim não consegui fechar os olhos, só os fiz ao escutar a porta da frente se abrindo; os barulhos na cozinha e do momento que conversou com Sky. Sua voz arrastada era como se tivesse acabado de ser atropelado por um caminhão.
Por isso, adiei a conversa para o dia seguinte. No entanto, ao despertar, ele já havia partido. Na porta da geladeira, deixou um bilhete. A caligrafia pedia desculpas por não ter aparecido e avisou para não esperá-lo, pois chegaria tarde. Soltei um suspiro resignado, tendo a ligeira impressão de que as desculpas eram mais direcionadas a Mia do que a mim.
E agora encontrava-me novamente sentada a mesa. Esperava que dessa vez aparecesse, já que não tinha nenhum papel na geladeira avisando sobre a sua ausência quando acordei.
— Ele não vai aparecer, não é? — direcionei para o gato, as sobrancelhas franzidas.
Em resposta, o felino se espreguiçou e esfregou a cabeça contra a minha mão em um consolo mudo.
A porta da frente se abriu e um pingo de esperança se acendeu no peito. Eu e Sky nos concentramos no som. E quando estava prestes a correr para a sala, a cabeça de uma Greta sorridente apontou na cozinha. Toda a expectativa se apagou, minha mente voltando a mergulhar no mar de frustração e angústia.
— Oh, querida. Você ainda está esperando. — aproximou-se, depositando um beijo casto sobre minha cabeça.
— Pensei que ele fosse aparecer. — murmurei, tocando o focinho de Sky com o indicador.
— Nem tocou na comida, . — deixou as compras sobre a bancada e vasculhou as sacolas em busca de algo. — Quer que eu faça uma sopa quentinha? Pode ajudar a abrir o seu apetite.
— Não será necessário, Greta. — a partir daquele momento meu coração deu um solavanco. — Vou parar de esperar. Acho que o tem preocupações maiores do que eu e a Mia. — peguei o garfo e levei uma porção generosa para a boca, a contragosto.
— Não diga isso, meu bem. Deve ter acontecido alguma coisa. — começou a guardar as compras no armário.
— Não achei que ele fosse tão covarde. — sussurrei baixinho, na esperança de somente o gato ouvir, mas fui descuidada.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês? — quando vi, Greta tinha largado tudo e se sentado a minha frente na mesa.
Engoli em seco, hesitante. A pequena garfada de comida ficou entalada na garganta. Comecei a suar frio, sem conseguir desviar os olhos dela, que esperava por uma resposta. Eu não sabia o que dizer. A mera ideia de Greta saber de tudo me espantou. Seria errado contar sobre algo tão insignificante que acabasse fazendo-a criar falsas esperanças.
— N-nós... Bem... — gaguejei, buscando pelas palavras certas. — Depois da noite de jogos, tivemos um desentendimento. E ainda não conversamos sobre isso. — abaixei a cabeça, fingindo interesse nos pontos coloridos do arroz de forno. — Tem algum conselho sábio para me dar?
As mãos pequenas e enrugadas me fizeram soltar o talher. Os dedos finos entrelaçaram aos meus, obrigando-me a levantar a cabeça para encará-la. Os olhos castanhos cheios de sabedoria me sondavam, como se conseguissem ler a minha alma atormentada.
— Não se preocupe muito, querida. Dentro de uma família o que mais terá são momentos de discussão. Nem sempre vocês irão concordar em tudo. — sorriu pequeno, acariciando meus dorsos com o polegar. — Conheço o desde criança e posso afirmar que ele não está fugindo. Só aconteceu alguma coisa na clínica e por isso anda sumido.
— Mas e se não conseguirmos nos entender? Isso afetará a Mia. — um relacionamento estável era tudo o que a assistente social precisava para tirar a guarda de uma vez, por isso que o beijo nem deveria ter acontecido.
— Dê tempo ao tempo. Pare de se martirizar. — anuiu. — Você já foi atrás. Mandou mensagem na segunda; esperou que ele aparecesse. E tudo o que recebeu foi um bilhete frio colado na geladeira. Deixe-o tentar também.
Suspirei, cansada.
— Eu não sei o que aconteceu e de verdade, não vou me intrometer no assunto dos dois. Mas saiba que se é importante, então ele vai aparecer. — deu uma risadinha. — Afinal, o não vive sem essa bola peluda. — acariciou a cabeça do gato que miou manhoso.
Ela se levantou e voltou a atenção para as compras. Enquanto eu, passei a refletir sobre as palavras sábias. Greta tinha razão, se o beijo significou alguma coisa para ele, uma hora iria aparecer para conversar. Estávamos unidos para sempre no compromisso de criar a pequena e não ousaria fugir disso. Então minha única solução seria parar de esperar, deixá-lo agir e quando acontecesse estar pronta para encarar a situação como adulta.
O nó de ansiedade finalmente se dissolveu da minha garganta. Uma dose de orgulho sendo injetada no peito. E pela primeira vez nos últimos dias, o estômago roncou, golpeou os músculos do abdômen. Peguei o garfo e devorei a comida, o apetite retornando com força.
, querida. Feliz aniversário! — afastou-se do balcão, em mãos carregando algo que não esperava.
Arregalei os olhos, o semblante dominado pela surpresa. Ofeguei, brevemente prendendo o ar. Acompanhei quando deslizou a embalagem com cautela e retirou a tampa, revelando o bolo redondo de tamanho médio e alto. Em envolta uma camada de cobertura branca, cremosa, aplicada de maneira rústica como se tivesse sido feito às pressas. O topo foi generosamente decorado com morangos frescos, minha fruta preferida.
— É um bolinho simples, mas juro que fiz de coração. — comentou genuinamente, levando a mão sobre o peito.
— É perfeito, Greta! — saltei da cadeira e a abracei com força, sentindo seus braços me envolverem.
Por um instante, os cantos dos olhos ficaram lacrimejados. O coração disparou brevemente, sendo esmagado ao lembrar que era o primeiro aniversário que passaria sem o meu irmão. Evitei pensar na data só para prolongar a saudade, mas agora, diante daquele bolo seria impossível ignorar a pontada que atingiu um peito.
Mas apesar da dor, o sorriso se curvou nos meus lábios. Os cantos elevaram de alegria por ter sido lembrada, mesmo que não tivesse falado para ninguém.
— Espero que goste do recheio de leite ninho. — comentou e nos soltamos para nos servir.
Greta pegou as taças de sobremesa e as colheres minúsculas. Cortamos o bolo e salivei ao ver a recheio escorrendo entre as camadas de massa branca, cheio de morangos. O sabor explodiu na boca, o buttercream suave lembrava os bolos de padaria que Noah adorava comprar, e naquele momento até desconfiei que pedia para a governanta fazê-los todas as vezes.
— Hummm... Está delicioso. — quase ronronei, levando outra colher a boca.
— Que bom que gostou, querida. — devorou o seu pedaço, apreciando o doce assim como eu.
Ficamos ali por mais algumas horas, conversando assuntos aleatórios. Ajudei a guardar as compras e depois fomos limpar a cozinha. Lavei a louça, enquanto ela organizava a geladeira, colocando o resto do arroz de forno em um recipiente de vidro que pudesse ir ao micro-ondas – facilitando para caso chegasse morrendo de fome na madrugada.
Ao terminar decidimos levar a pequena para um passeio no parque. Ela não tinha acordado muito bem naquela manhã. Não quis comer as frutas no café da manhã e nem tomar o leite quente que sempre fazia. O lado esquerdo do seu rosto encontrava-se levemente inchado, desconfiei que mais um dente estava prestes a nascer.
Caminhei pela calçada de concreto e aproximei-me do lago, mostrando os patos e gansos que nadavam serenamente. Mia escondeu o rosto no meu pescoço, a mãozinha agarrando firme o tecido da minha blusa. Meu coração deu um solavanco, imaginando a dor que ela sentiria se realmente fosse os dentes nascendo. Então era essa a sensação de impotência de uma mãe?
— Está tudo bem, meu amor. — beijei sua bochecha. — Olha os patinhos, estão comendo pão. — tentei mais uma vez.
Mia sequer mostrou interesse nas aves mergulhando atrás da oferenda. Ficou com a cabeça sobre meu ombro, os dedos brincando com as fibras do tecido. Decidi não insisti, voltando com a caminhada pela praça. Passamos por um grupo de garotas que aprendiam a andar de patins, depois por dois homens que corriam com cachorros e por último uma família levando os filhos para o parquinho.
— O que acha de um sorvetinho, princesa? — sugeri e ela balançou a cabeça. — Não? Podemos ver se ainda tem o de unicórnio, igual ao de ontem. — continuou a negar. — Tudo bem. Então... Vamos procurar a tia Greta para irmos embora? — dessa vez concordou.
Segurei o suspiro de impotência. Sentia-me incapaz de ajudá-la, queria poder fazer alguma coisa, mas não tinha nem ideia de por onde começar. Poderia mandar uma mensagem para e perguntar o que faziam quando os filhotes chegavam nessa fase, se não tivesse prometido a mim mesma parar de rastejar por atenção.
Mia grunhiu baixinho e remexeu-se no colo. Meu coração se apertou mais e mais. Os músculos da minha mandíbula tencionaram. Fui assolada por uma súbita vontade de chorar em posição fetal. Era como assistir a um incêndio sem ter o extintor para apagar.
Peguei o celular, abri a conversa com e digitei a mensagem. Naquele momento, não se tratava mais do meu orgulho, era o bem-estar da nossa filha. E ele como pai, poderia ser de grande ajuda. Estava prestes a apertar o botão para enviar quando a voz no horizonte gritou pelo meu nome.
Ergui a cabeça e o homem acenou, aproximando-se em passos largos. Por um instante, senti um pequeno alívio. Dante também cuidava de uma menina e com certeza sabia o que fazer em situações como essas.
— É a primeira vez que a vejo aqui. — cessou os passos, a respiração ofegante.
— Precisei sair um pouco de casa, a Mia não está se sentindo bem e pensei que poderia ajudar. — fui sincera, ajeitando o cabelo atrás da orelha.
— O que aconteceu? — colocou as mãos na cintura, ainda respirando pela boca.
Evitei que meus olhos caíssem sobre seu corpo musculoso e suado. Usava uma camiseta preta slim fit que colava ao físico, a bermuda de mesma cor era folgada de tecido leve e nos pés, calcava tênis de corrida de solado branco que pareciam muito confortáveis. Notei que no pulso tinha um relógio que monitorava seus batimentos cardíacos e a intensidade do treino.
Era normal sentir aquela pontada de culpa, a sensação de traição só por olhar para ele?
— Acho que um dos molares está nascendo. — acariciei os cabelos loiras da pequena, ela se encolheu. — Algum conselho?
Dante pressionou os lábios, a testa franziu e a cabeça balançou.
— Aplique compressas úmidas e frias, ajudam na coceira. — indicou a própria boca. — Bethany e eu também compramos mordedores. Coloque na geladeira por alguns minutos e ofereça a ela. — era tão sábio, enquanto eu me sentia uma foca burra. — Melancias também ajudam, principalmente se estiverem geladas.
Sorri em gratidão.
— Obrigada pelas dicas, assim que chegar em casa irei colocar todas em práticas. — resvalei o polegar contra a bochecha de Mia. — Odeio vê-la desse jeito e não saber o que fazer.
— É normal. Bethany e eu sofremos muito com noites mal dormidas até descobrirmos que sorvete e mordedores são ótimos aliados. — riu divertido.
— Me sinto tão inútil. — confessei e começamos a caminhar lado a lado.
Dante chutou uma pedra invisível. Vi que as mulheres passavam por nós, sem tirar os olhos dele. Elas pareciam querer devorá-lo. Também percebi que algumas torciam o nariz ao me notarem. Idiotas.
— É mãe de primeira viagem, . — sorriu simpático. — Nem tudo está no nosso alcance. Há determinadas coisas que apenas precisamos nos sentar e esperar.
— A maternidade é tão cruel. — beijei a testa de Mia, ajeitando os fios teimosos que caiam em sua testa.
Caminhamos em silêncio até a pequena feira de hortifruti que acontecia na rua ao lado. Avistei Greta entretida em uma barraca de beterrabas, o comerciante explicava quais os benefícios da raiz tuberosa. Ao seu lado estava um amontoado de sacolas cheias de compras que teríamos de carregar até em casa, por sorte morávamos há apenas alguns quarteirões dali.
Mia se remexeu e soltou outro grunhido sôfrego.
— É hora de ir. — proclamei e paramos na entrada da feira. — Novamente agradeço pelos conselhos, Dante. — grata, levantei o queixo para encará-lo.
— Não precisa agradecer. — ele coçou a nuca. — Então... O que acha de fazer alguma coisa na sexta? Poderíamos sair, relembrar os momentos bons de Nova York. — franziu o rosto. — Quer dizer... Se você e o não estiverem...
Minha boca ficou seca, a garanta arranhou.
— Eu e o é complicado. — ainda mais depois do beijo e do sonho erótico, a mera menção do seu nome já me causava calafrios.
— Mas estão juntos? — a pergunta soou ousada.
Eu queria dizer que “juntos” era uma palavra muito forte para rotular a relação estranha que tínhamos. Não sabia ao certo como explicar, minha cabeça estava uma bagunça e a ideia de sair com Dante começou a me parecer errada.
Balancei a cabeça em resposta da sua pergunta e olhei para Greta em busca de refúgio.
— Dante, podemos falar sobre isso depois? — desconversei, não sabendo ao certo o que dizer para não magoá-lo. — É que aconteceu tanta coisa desde o jantar que não sei se tenho cabeça para sair agora.
Ele pressionou os lábios e anuiu, enfiando as mãos no bolso.
— Tudo bem. — desviou o olhar, focando em um ponto qualquer pela praça. — Caso mudar de ideia, tem um parque de diversões chegando na semana que vem. As meninas iam adorar.
Assenti.
— A Bethany me passou o seu número. Eu... Hmm... Te ligo. — forcei um sorriso amarelo.
Sua boca se curvou em uma risadinha sem graça, provavelmente notando meu claro desconforto.
— Esperarei pela ligação. — em seguida, enlaçou minha mão e depositou um beijo casto antes de se despedir, voltando para a corrida.
Encarei a palma, girando em busca de algo. Franzi a testa, ainda analisando as linhas e os nós dos dedos. Meu cérebro martelou em curto-circuito. Por que para o toque de Dante, minha pele não suplicava a falta de calor? Por que meu corpo não se arrepiava na sua presença? E aquele revirar no estômago, onde estava?
Arfei, confusa.
O que possuía que incendiava todo o meu sistema nervoso apenas por pensar nas suas mãos me tocando? O que ele tinha que nem mesmo a imaginação de Dante, com o corpo quente e a respiração na minha nuca, nem sequer conseguia acender uma faísca? Qual era o problema?
— Pronta para ir, querida? — Greta surgiu e me arrancou dos desvaneios. — Está tudo bem? Deixou cair alguma coisa? — procurou ao redor.
E só então percebi que meu rosto ainda se encontrava retorcido, a testa enrugada. Droga. Eu deveria parar de parecer uma lunática.
— Tudo bem, Greta. Só... Pensando alto demais. — sorri sem os dentes e peguei duas sacolas.
A senhora carregou as outras e caminhamos para casa. Durante o caminho, contou que um dos feirantes tentou enganá-la, dizendo que a batata inglesa era o mesmo que batata doce. E depois que outro ficou tão encantado por sua beleza que deu os pés de alface de graça. Rimos como se não houvesse o amanhã.
Foi o único momento do dia em que minha mente permaneceu calada, ignorado todos os pensamentos conflituosos.
Ao cair da noite, a casa ficou em completo silêncio. Greta já tinha ido embora. A pequena dormia tranquila depois de conseguir comer alguns pedaços de melancia gelada. E eu, tive a brilhante ideia de cozinhar para acalmar a euforia no peito – apesar de que poderia devorar o bolo de morango sozinha.
Mais cedo antes de saímos da feira, comprei algumas velas aromáticas na barraca de produtos artesanais. Agora os pequenos potes de vidro localizavam-se em cima do balcão da cozinha, sendo a única iluminação do ambiente. O queimar suave das chamas exalava o aroma de baunilha, tornando o ar sereno, que me ajudava a relaxar.
Girei a colher dentro da panela, os movimentos delicados para que a receita saísse impecável. Com a mão livre, pesquei uma pequena porção e levei até a boca para sentir a textura do arroz. Ao dente, sendo hora de entrar com o vinho. Apaguei o fogo e fui até as sacolas de compras.
E enquanto buscava a garrafa, meu celular acendeu a tela sobre o mármore. Somente após encontrar a bebida e abrir a tampa, que peguei o aparelho. Voltei para o fogão, desbloqueando a tela pelo caminho. Meu coração deu um solavanco busco, tive de prender a respiração e segurar na lateral do balcão para não cair.
A galeria notificou a lembrança de um ano atrás. Uma foto minha e de Noah, segurando o bolo de aniversário junto dos pratos de risoto de filé mignon que ele tanto adorava. Meu irmão sorria radiante. O canto da boca sujo de chantilly depois de enfiar o dedo no doce antes da hora.
Nós éramos assim. Simples, espontâneos, cheios de uma felicidade que não cabia em nossos corações.
Por um instante, me esqueci da receita e deslizei o dedo pela tela, em cima do rosto dele. A garganta embargou, a saudade transbordando no peito. Dolorosa, invasiva. Tentei sorrir para evitar o soluço de sair, mas foi inútil. Senti as lágrimas rolaram no rosto, carregando a dor que não desapareceria tão cedo, apesar de achar estar imune dela.
Eu sentia tanta falta dele que doía.
Ainda com a garrafa na mão, tomei um grande gole. Meu rosto se contorceu em uma careta. Balancei a cabeça, o álcool descendo quente e forte pela garganta. Virei de novo e de novo. Minha visão ficou turva pelas lágrimas e me deixei chorar, dando continuidade ao risoto, nossa tradição mais antiga.
Eu queria ser forte, deixar que a dor e a saudade não me afetassem. Mas ao tomar mais um pouco do vinho tinto e depois virá-lo na panela, constatei que ali, sozinha, tinha liberdade para ser frágil.
E era exatamente isso que faria, porque o amanhã seria um dia melhor.

Capítulo 25


Encarei o relógio em cima da porta. O esforço fez a ardência aumentar, as lágrimas escorreram desenfreadas, sem permissão. Soltei o peso na cadeira, o estofado envolvendo as costas em um abraço acalentador. Fechei os olhos, apertando os cantos com os dedos. Um suspiro profundo escapou pelos lábios em sinal de todo cansaço dos últimos dias.
Exausto era a palavra perfeita para definir o meu estado. Competente para minhas ações. E covarde para os meus sentimentos.
Eu deveria estar realizado, honrado por estar com a clínica cheia de animais resgatados, mas era como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Na madrugada de domingo, fomos chamados pela polícia para invadir dois canis clandestinos que encontraram nos bairros medíocres de Nova Jersey. Nem tive tempo de avisar a sobre isso, precisei sair as pressas com Madisson e Aidan – que por sorte não estavam tão bêbados.
A invasão foi exaustiva. Os agentes derrubaram as entradas e prenderam os responsáveis em flagrante. E só depois de vasculharem o perímetro que eu e minha equipe conseguimos entrar. O lugar era um motel abandonado que nunca levantou suspeitas. Os quartos abrigavam animais em completo estado de calamidade.
Todas as cadelas prenhas estavam desnutridas, debilitadas demais para darem à luz. Os machos maltratados, presos juntos em um único cômodo sem água e comida. E os filhotes que encontramos fizeram meu coração debater em fúria. Fiquei louco para acabar com a vida dos desgraçados que comercializavam seres tão inocentes como mercadoria barata.
Levamos todos para a Institute of Veterinary Medicine e ordenei que os estagiários entrassem com o tratamento adequado para cada caso. Pedi para Madisson ficar encarregada dos filhotes e Aidan das fêmeas que precisavam de medicamentos e soro imediatamente. Enquanto eu, lidava com a burocracia, ligando para as clínicas locais em busca de apoio e ajuda financeira.
Por sorte, muitos veterinários se voluntariaram, tocados pela causa. E mesmo com todo o esforço, infelizmente perdemos muitas vidas. Nem sempre podemos salvar a todos.
Esfreguei o rosto com as mãos, curvando-me para frente até os cotovelos apoiarem sobre a mesa. Minha cabeça latejava, quase entrando em colapso. Dormir se tornou uma tarefa difícil, porque por mais que corpo implorasse por descanso, não conseguia parar de pensar no toque suave dos lábios da contra os meus.
Cada segundo na cama era uma tortura. Meu instinto me mandava ir para o quarto dela. Deitar-se ao seu lado, me embriagar com o cheiro do seu perfume. Queria tanto sentir a maciez da sua pele sobre minhas mãos de novo que doía ter de me segurar. Os gemidos dela ficaram gravados a ferro e fogo na minha mente, e bastava fechar os olhos para ouvi-los. Lembrar-me do seu corpo pequeno reagindo ao meu como se tivesse sido feito para mim.
E agora, estava preso naquela clínica mais uma noite...
deveria estar me achando um babaca por ter desaparecido, sem dar notícias. A última vez que a vi foi no café da manhã na segunda quando passei rapidamente em casa para tomar um banho e trocar de roupas. Nem tivemos tempo de conversar. Queria dizer que mesmo ela tendo me surpreendido, não me arrependia de nada.
Pelo contrário, estava tão ansioso para repetir que só de pensar nisso cada fibra do meu corpo vibrava.
Endireitei a postura e batuquei os dedos na mesa. Encarei a papelada e tentei pensar no que fazer. Eu queria sair, ir para casa e esclarecer tudo. Ela merecia saber que eu não era um canalha que se aproveitou do seu momento de vulnerabilidade. Além disso, também tinha de levar os presentes que encomendei exclusivamente para ela.
Depois do jantar na casa de Bethany, descobri através de Greta que o aniversário de estava chegando. Então, pesquisei todas as floriculturas que topariam fazer o arranjo de girassóis mais lindo e delicado, digno da minha coelhinha. Ansiava em presenteá-la com o melhor e por isso também comprei um colar estilo gravatinha de ouro com pingente de pérola que ficaria perfeito nela.
Minha boca se curvou em um sorriso, no mesmo instante que tomei a decisão mais importante da minha vida. Fechei a tampa do notebook, empilhei os documentos e peguei o celular – ou pelo menos o que restou dele. Levantei-me e atravessei a sala como um raio, conferindo se desliguei tudo antes de sair. Fechar a porta nunca foi tão gratificante.
No corredor, encontrei os estagiários que corriam de um lado para o outro. Alguns pararam para contar sobre seus pacientes, enquanto outros apenas acenaram com a cabeça em um cumprimento silencioso. Aproveitei o momento para passar na sala de internações, talvez procurar por Aidan ou Madisson e dizer que deveriam cuidar da clínica naquela noite. Também queria visitar uma cadela que foi diagnosticada com problemas hepáticos – também resgatada do canil.
Ao atravessar a porta, analisei as baias, a maioria com suportes de soro penduradas ao lado. Suspirei de cansaço, o coração se apertando ao conferir os relatórios de cada caso e relembrar a noite da invasão. Agradecia aos deuses, por ter uma equipe bastante competente que me deixou tranquilo nos últimos dias apenas para focar na burocracia, apesar de gostar de conferir cada passo das internações com os próprios olhos.
Parei em frente ao cubículo de número 15 e abri a tranca, sendo recebido por um par de olhos caramelos inexpressivos, atentos a qualquer movimento. As pupilas dilatadas e o focinho tão seco denunciavam o estado crítico de saúde. Soltei outra lufada de ar, ignorando os pensamentos intrometidos que relembraram o momento que a encontrei.
Sozinha, frágil e abandonada a própria sorte no armário de vassouras minúsculo, sem água e comida.
— Oi, garota. — murmurei baixo temendo assustá-la. — Como você está hoje? Se sente melhor? — sentei-me no chão, cruzando as pernas.
Alarguei um sorriso sem os dentes e levei a mão até o topo da cabeça peluda. Ela reagiu bruscamente, se encolhendo com tanta força contra o fundo da baia que parecia querer se fundir ao azulejo. Tremia de medo, os pelos eriçados e os olhos arregalados, esperando pelo golpe que não veio.
— Eu não vou te machucar, está segura agora. — aproximei-me com cautela. — Os dias de pesadelos acabaram. — deslizei os dedos atrás das orelhas pontudas e a senti estremecer. — Tudo bem... Podemos ir com calma. — afastei-me e retirei o sachê do bolso do jaleco, que sempre carregava comigo.
Puxei o pote de ração e percebi que ela sequer tocou nos grãos. Meu peito se retorceu, odiando estar naquela situação. A parte mais difícil da medicina veterinária era a espera. Ficar à espreita, torcendo para que os animais aceitassem a comida, antes de ficarem debilitados, hepáticos. E muitas vezes, não acabava em final feliz.
Despejei o conteúdo, misturando com o dedo, a fim de fazê-la comer um pouco. Não sabia ao certo por quanto tempo ficou presa naquele armário, mas pelos resultados dos exames diria que alguns dias. Os números só confirmaram a minha suspeita, o resultado difícil de aceitar.
Ela precisava ser forte e se agarrar a vida. E inexplicavelmente, desejava isso com todas as forças. Desde que a peguei nos braços, o corpo debilitado, trêmulo e magro demais para um Border Collie, prometi a mim mesmo que a salvaria. Mostraria um mundo diferente, longe da maldade humana, assim como fiz com Sky.
— É o melhor sachê de carne que posso oferecer. Se não gostar, posso trazer o de cordeiro. — empurrei o pote para perto dela, no fundo torcendo para que pelo menos mostrasse interesse. — O que acha de fazermos uma troca? Você come um pouco e prometo encontrar um lar cheio de amor. — tentei, a esperança viva em cada célula do meu ser.
No entanto, ela apenas inclinou a cabeça e cheirou a comida, talvez, verificando se realmente era real. Em seguida, se afastou, voltando a olhar para mim com desconfiança e atenção – e é nesses momentos que gostaria que eles pudessem falar para me contarem como se sentiam, assim poderia ajudá-los com palavras de acolhimento.
Tencionei a mandíbula, os olhos se fecharam em frustração. Tamborilei os dedos no joelho, buscando dentro da mente alguma solução para aquele impasse. Mordisquei o lábio inferior. A ideia que me cometeu foi de forçá-la a comer, como fazíamos em situações como essa. Mas isso a faria sentir mais medo de mim e não era o que queria. Tinha de conquistar a sua confiança, então tudo o que restava era esperar e receitar mais uma bolsa de soro.
— Vamos tentar amanhã de novo, garota. — arrumei o cobertor, tomando cuidado para não a assustar. — Não vou desistir de você. — fechei a porta e me levantei.
Analisei os outros pacientes e senti alívio ao ver que a grande maioria respondia perfeitamente ao tratamento. Desliguei as luzes e sai, indo rumo à recepção onde sabia que encontraria os dois responsáveis pelos plantões noturnos.
Durante o caminho, peguei o celular no bolso da calça e tentei ligar mais uma vez, apenas para me certificar de que a tela não acenderia. Em meio a todo o caos do resgate, deixei o aparelho em cima do teto da caminhonete da clínica, enquanto ajeitava as gaiolas na caçamba. E com a cabeça tão cheia, esqueci-me de pegá-lo antes de dar partida no veículo, agora, o que tinha nas mãos era só o resto que sobrou depois de tê-lo atropelado.
Rolei os olhos, sentindo-me um idiota por ainda insistir em algo que claramente se foi desse mundo. Era só olhar a tela trincada e a carcaça amassada que pouparia a esperança. Adicionei uma nota mental para lembrar de contar isso a , se caso tivesse enviado mensagem, não a ignorei por ser um babaca de merda.
— Cara, desiste. Não vai conseguir nada com esse lixo. — a voz de Aidan atraiu minha atenção.
Só então, reparei que estava parado no meio do corredor encarando os destroços.
— Sabe o que as pessoas fazem nesses casos? Elas compram um novo. — o delinquente envolveu meus ombros e gargalhou.
Empurrei-o pelas costelas e ele fez uma cena dramática, fingindo ter sido jogado contra a parede.
— Achei que era só colocar embaixo do travesseiro e esperar a fada do dente aparecer. — fui irônico, seguindo meu caminho com sua sombra em meu encalço.
— Olha, eu tentaria. Ouvi dizer que se roubar a magia da fada, você pode se tornar um mago. — soltou outra risada.
Balancei a cabeça, o sorriso divertido desenhado nos lábios. Somente aquele infeliz para me fazer rir em meio a tanto cansaço.
Chegamos na recepção moderna, sendo recebidos pela iluminação de LED embutidas no teto que tornava o ambiente mais receptivo. A brisa gelada devido ao ar-condicionado, conseguia acalmar meus nervos a flor da pele. Observei as poltronas de esperas vazias, exceto pela mulher sentada em uma delas, perto do balcão de atendimentos.
— Não acredito que o Aidan já está te perturbando, . — Madisson levantou a atenção do documento e nos encarou.
— É o que ele sabe fazer de melhor. — dei de ombros, indo para trás do balcão vazio e retirando o jaleco.
Aidan sentou-se ao lado da mulher e passou a apontar defeitos em seu relatório. A ruiva o estapeou com a prancheta, começando a provocação tão habitual. Às vezes, desconfiava que ele sentia algo tão forte por ela que não conseguia controlar e por isso a perturbava tanto.
— Espero que esteja com paciência hoje, Madisson. O plantão noturno é todo de vocês. — disse na lata.
Ela negou com a cabeça e jogou a cabeça para trás. Uma careta de desgosto torceu em seu rosto.
, se quer mesmo me matar, deveria me mergulhar em uma banheira de ácido.
— Não seja dramática, bruxinha. Formamos uma bela dupla juntos. — Aidan zombou e se recostou na poltrona, mastigando furiosamente o pacote de amendoim que retirou do bolso.
Sorri com o canto dos lábios, ao mesmo tempo em que digitava no computador. Precisava imprimir o receituário da cachorrinha para que os estagiários a medicasse durante a madrugada. Um bolsa de soro dali vinte minutos e outra perto do amanhecer. A impressora cuspiu a folha, no topo colei uma nota em vermelho para que ofertassem petiscos de carne a cada hora, no intuito de estimular o seu apetite.
De relance, vi como Aidan estava inquieto. Os dedos sujos tamborilavam na coxa. A perna tremia tanto que seria capaz de gerar energia própria. E quando um dos estagiários apontou no corredor, tive minhas suspeitas confirmadas. Ele correu junto do aluno, os passos batiam bruscamente contra o piso, como se estivesse correndo uma maratona. A voz estridente era capaz de ser ouvida pela clínica inteira, o tom acelerado demais para uma pessoa normal. E tinha os malditos amendoim que mastigava feito um maníaco.
— Aidan parou de fumar de novo? — quis saber, assinando a prescrição.
— Urgh. Você também notou?
— Ele já começou com as bolachas recheadas? — levantei-me, soltando um riso anasalado.
— Por Deus, espero que não. — apertou a ponte do nariz. — Da última vez, ele comeu três pacotes de bolacha em menos de 20 minutos.
— Se entupiu tanto de açúcar que ficou pior do que uma criança. — relembrei. — Qual o propósito dessa vez? — venci a distância entre nós e entreguei a receita.
— Ele disse que conheceu uma mulher conservadora que odeia cheiro de cigarro. — ela deu de ombros, fingindo interesse na caneta entre os dedos.
Fiz uma careta e cruzei os braços.
— Aposto cem dólares que não vai durar uma semana. — comecei os lances e Madisson ergueu a cabeça.
— Aceito a aposta. — riu e estendeu a mão.
Selamos o acordo. Uma brincadeira já bastante comum entre nós, usada para qualquer situação que nos acontecesse. Sempre tomando cuidado para que ficasse restrita aos três, sem envolver outras pessoas. E na maioria das vezes, o foco era apostar por quanto tempo Aidan conseguiria resistir sem seu fiel companheiro: a nicotina.
Despedi-me de Madisson, saindo no exato momento em que foi chamada pelos estagiários para ajudar a mobilizar um cachorro. Ao fundo, consegui ouvir que não sabiam se deveriam sedar o animal ou um Aidan agitado que se entupia de amendoins salgados. Fiz o caminho para o estacionamento rindo sozinho.
Ao entrar no veículo, o primeiro movimento foi verificar o arranjo de girassóis no passageiro. Arrumei as pétalas amarelas que ficaram levemente amassadas. Por sorte a floricultura os colocou em um vaso que facilitaria o transporte, sem correr o risco de acontecer um acidente. Peguei a mochila no banco de trás, revirando os bolsos em busca da caixa do colar e a deixei junto do buquê para não esquecer.
Manobrei, fazendo o caminho já tão habitual. O som do motor retumbava, não sendo o suficiente para abafar a turbulência dentro do meu peito. Era como se já conseguisse sentir o aroma de romã e verbena só por pensar nela. O estômago revirou. A ansiedade e a insegurança me atingindo de maneira inexplicável.
Será que ela gostaria dos presentes? Como reagiria ao ver as flores que tanto amava? E o mais importante: repetiríamos aquele beijo? Ou me rejeitaria por ter desaparecido nos últimos dias? E se perdêssemos nossa recente dinâmica familiar? Como criaríamos a Mia?
Droga. Eu poderia ter estragado tudo o que demoramos tanto tempo para construir...
A pontada aguda cutucou meu coração. Passei a apertar o volante com força ao imaginá-la rejeitando o buquê e me chamando de covarde. Eu sabia que de certo modo merecia isso. Deveria ter agido como um homem. No dia seguinte, preparado um café da manhã na cama para ela. Ter sido gentil, deixado claro que não me arrependia de cada segundo. Enfrentado os medos.
Merda.
Se era tão fácil assim, então por que me sentia como um adolescente inexperiente?
Já estive com muitas mulheres, mas nenhuma me fez suar frio com a ideia de ser descartado feito lixo. O que estava acontecendo? O que havia de tão especial em que me causava calafrios? Eu sabia que as outras foram apenas prazeres momentâneos, mas com ela... Era como se estivesse prestes a perder tudo: minha sanidade, minha filha e o futuro da minha família.
Estacionei no automático, o barulho das chaves arrancando-me do transe. Soltei os dedos lentamente do volante e tentei acalmar o tremor. Engoli em seco tão nervoso que o suor já escorria pela testa. Abri e fechei as palmas, os olhos fechados para que o cérebro iniciasse uma contagem silenciosa. Inspirava e expirava, os batimentos diminuindo aos poucos.
E se ela me rejeitasse? O que faria para que nossa convivência não mudasse?
Oh, céu...
Balancei a cabeça, afastando os questionamentos como se fosse fumaça. Não era hora de deixar a insegurança e o medo tomarem conta, eu já tinha ficado tempo demais longe dela para simplesmente fugir agora. É só a . Uma mulher de 1,66m de altura, e não um mostro com sete cabeça que se multiplicavam a cada segundo. Ah... Se minha irmã estivesse me vendo agora, com certeza estaria rindo do meu desespero.
Suspirei, finalmente empurrando a porta do carro. Segurei o buquê de girassóis e a caixinha do colar, guiando os passos até a porta. Tentei conseguir tempo antes de finalmente entrar. Lentamente travei o veículo e remexi o molho de chaves em busca da certa e a coloquei na fechadura. Girei, os dedos trêmulos. Era a hora da verdade.
E estava prestes a empurrar a madeira quando o som de vidro se estilhaçando penetraram meus ouvidos. Os sentidos ficaram aguçados e parei por um instante, tentando ouvir qualquer sinal de ameaça. Percorri a rua deserta e pensei que, dependendo o que me esperava atrás daquela porta, minha primeira escolha seria correr até que os pulmões implorassem por ar. Era novo demais para morrer.
Mas um novo estalo seco, seguido de um gemido prolongado e um miado estrondoso de pavor me fez jogar o corpo para dentro. A ansiedade e o medo deram lugar a adrenalina fria.
Fui recebido por uma atmosfera densa e incrivelmente deliciosa. O aroma de baunilha se espalhava por cada canto da casa, um detalhe estranhamente peculiar já que só usávamos desinfetante de lavanda. Arqueei as sobrancelhas ao notar que o único cômodo acesso era a cozinha. Aproximei-me do sofá, deixando os presentes ali, decidido a verificar o que estava acontecendo.
Tomei um pequeno susto ao sentir o corpo minúsculo de Sky se esfregar contra minhas pernas. Afaguei atrás das orelhas pontudas, pensando que pelo menos meu gato está a salvo. Mas se não foi o felino que fez aquele barulho, então quem seria?
O deixei na sala e tomei coragem para enfrentar seja lá o que estivesse na cozinha, mas nada me preparou para encontrar o balcão em U com pequenos potes de velas aromáticas – as causadoras de espalhar a baunilha por todo canto. Varri o chão com atenção, encontrando o frasco quebrado, a cera líquida se espalhava ainda quente, o pavio por sorte já apagado. No entanto, foi o objeto pontiagudo ao lado dos destroços que me chamou a atenção.
Não era para aquela faca estar ali. Mas que porra...
Feliz aniversário, ! O ano que vem será melhor! — a criatura emergiu de trás do balcão, uma garrafa de vinho pela metade na mão.
Ela fez um brinde imaginário, algumas gotas saíram pelo gargalho ao movimento brusco. Em seguida, bebeu um grande gole e soltou uma gargalhada excêntrica, completamente embriagada. E admito, teria rido se meu coração não tivesse dado um solavanco, os pensamentos me consumindo. Sabia que deveria ter vindo antes, agora tinha uma coelhinha muito bêbada no meio da minha cozinha.
Os cabelos negros encontravam-se bagunçados. fechou as mãos, segurando um punhado de fios desordenados, enquanto remexia o corpo em uma dança estranha, ao som da música que só existia na cabeça dela. A camisola branca fina moldava as suas curvas, deixando os movimentos perfeitamente sensuais e provocantes – algo que ela parecia não se importar.
Engoli em seco, imaginando qualquer outro cenário que não fosse esse. Gostava mais da ideia de ser recebido por uma frigideira cheia de óleo quente encontrando a minha cabeça. Meus olhos se arregalaram, percorrendo cada centímetro do cômodo em caos, como se tivesse sofrido um arrastão. Panelas se encontravam no chão no meio de legumes, arroz, utensílios cortantes e o que mais me chamou a atenção: outra garrafa de vinho tinto estilhaçada, embebedada na poça de álcool.
! — ela se virou entre cambaleadas, finalmente notando minha presença. — Você veio para o meu aniversário! — berrou, erguendo os braços realmente feliz.
Arquei a sobrancelhas e cruzei os braços, controlando os olhos para não cair sobre o tecido úmido, quase transparente, que revelava mais do que era capaz de suportar.
— Eu sei que será uma pergunta inútil, mas... O que aconteceu aqui? — olhei ao redor. — Por que tem arroz, alho e queijo espalhada pela cozinha inteira?
jogou a cabeça para trás e gargalhou estridente.
— É para o prato especial. — e de maneira desajeitada começou a mexer na panela.
Só então notei que o fogão estava ligado. Estremeci, a boca do estômago se retorcendo.
Por deus, agradeci por ter saído mais cedo da clínica, porque com toda certeza se tivesse o feito na madrugada, não encontraria mais uma casa para voltar, e sim um amontado de cinzas, bombeiros e a polícia exigindo depoimento. E eu como principal suspeito.
Cocei a testa com dois dedos, os olhos indignados com a falta de responsabilidade daquela mulher. Será que ela ao menos lembrou que existe uma criança naquela casa antes de encher a cara?
com os lábios torcidos em um riso torto, esticou o braço para pegar algo fora do meu campo de visão e sem querer bateu a mão em uma das panelas. O estrondo do inox, junto de outra gargalhada, fizera minha cabeça latejar – péssima hora para estar de ressaca do sono. Apertei a ponte do nariz e respirei profundamente, tentando manter o resto de calmaria que ainda restava.
— Está ouvindo essa música? — ela largou a colher e afastou-se, balançando os quadris.
No impulso, joguei o corpo para frente, debruçando-me sobre o mármore. Alcancei o fogão e desliguei o fogo, conseguindo segurar o cabo da panela antes que essa também se chocasse contra o azulejo. Soltei o ar, colocando-a em um lugar seguro. Encarei a faca em cima da tábua de corte, passando a imaginar todas as atrocidades que poderia ter acontecido ali.
Endireitei o corpo, para no instante seguinte ser surpreendido.
— Dança comigo, ! — ela me puxou pelo braço.
, está na hora de descansar. — murmurei e com cautela tentei tirar a garrafa de vinho da sua mão.
— Eu não quero descansar, quero dançar! — desviou e se virou de costas, seu corpo se embarrando contra o meu. — Ouça essa música! — gritou perto do meu ouvido e soube que se tivesse de passar a noite inteira assim, ficaria surdo pelos próximos anos.
— Não tem nenhuma música tocando. — tentei me afastar, mas ela me segurou pela nuca.
Heeeeyyyy brother. There's an endless road to rediscover.
Fechei os olhos, a mandíbula travada com força. O que eu tinha feito para o universo me castigar desse jeito? Muitas coisas, isso tinha certeza.
Heeeeyyyy brother. Do you still believe in one another? Heeeeyyyy sister. Do you still believe in love? I wonderrrrrr. — porra, ela cantava muito mal e com a voz embargada era como se a melodia explodisse meus tímpanos.
A música ficou mais intensa. bebericou a bebida e a usou como microfone em seu show de horrores, enquanto os dedos permaneciam agarrados a minha nuca. Novamente tentei me soltar antes que a alma saísse por contra própria do corpo, ou a insanidade começasse a falar mais alto. Além disso, se não parasse logo teríamos uma explosão de vidros naquela casa, digna a filme de terror.
Foi então que cérebro foi pisoteado por uma manada, e uma parte traiçoeira do meu corpo passou a se agitar. Ela inclinou o quadril, a bunda rebolou contra minha virilha e isso despertou o desejo insano que passou todos aqueles dias louco por ela. Mordi os lábios, segurei sua cintura, tentando mantê-la longe, mas quanto mais a afastava, mais ela se esfregava deliciosamente contra meu pau.
Meus dedos se fecharam, apertando a carne macia por baixo da camisola. E nem o próximo “Heeeeyyyy” foi capaz de fazer a ereção se aquietar. Sua cantoria nem incomodava mais, só queria que ela ficasse longe antes que a situação saísse do controle. E graças aos deuses o universo resolveu jogar do meu lado, tirando-me daquela situação embaraçosa que não conseguiria sair sozinho.
afastou-se bruscamente e senti falta do seu calor, o rebolar do quadril. Ela correu, finalmente se lembrando da panela no fogão. Despejou um pouco do vinho e acrescentou alguns ingredientes que conseguiria ter identificado se não fosse meu estado de vergonha.
— O que vai fazer agora? — disparei, arrumando a ereção dolorida.
A consciência voltou com força. Estapeou meu juízo de modo a me lembrar do que estava em risco ali. Não era hora de ficar excitando e pensar em jogar o corpo dela sobre a mesa da cozinha, foder loucamente sua bucetinha até que ficasse rouca de tanto gritar e gemer para mim. Eu precisava ter foco, porque apenas uma mente encontrava-se sã naquele momento – ou pelo menos era o que gostava de pensar.
soltou uma risada alta, que ao mesmo tempo parecia carregada com notas de angústia.
— Estou fazendo... Ah, estou fazendo o risoto mais sofisticado que você já provou! — contou um pouco atrapalhada. — É com cogumelos porcini e... E um toque de... De... Ah, o que era mesmo? — franziu a testa e olhou a bancada bagunçada.
Enquanto isso, aproveitei para me aproximar, assim seria mais fácil impedir que fizesse uma burrada, como por exemplo acender a boca do fogão e cozinhar naquele estado. Ela ainda buscava pelas palavras certas, quando pairei a atenção sobre a tábua de corte com alguns pedaços vermelhos, cortados perfeitamente em cubos.
— Carne? — completei e me deu um aceno com a mão.
— Não importa. O importante é que tem vinho! Muiiitooo vinho! — fez um brinde imaginário.
— Percebi. — peguei a panela e a coloquei na pia, torcendo para que se esquecesse dela. — E você usou bastante no preparo, não foi? — virei-me em sua direção os olhos pairando na bebida abaixo da metade da garrafa.
Ela assentiu vigorosamente.
— Sim! O chef disse que o segredo é... É beber o vinho, enquanto você cozinha. É para a alma da comida, né? Porque hoje... Hoje é um dia especial! — cuspiu com exaltação, não parando para tomar fôlego.
Acompanhei quando ela parou, o sorriso largo desaparecendo aos poucos. Meu peito se contorceu ao notar que olhava para um ponto além de mim, no vazio.
— O Noah adorava risoto. Ele sempre pedia quando... Quando a gente comemorava alguma coisa. — sua voz se tornou um sussurro quase inaudível.
Os olhos castanhos lacrimejaram, o brilho de antes se apagando. As gotas grossas escorreram pelas bochechas levemente ruborizadas pelo álcool. Aproximei-me e só então ela me encarou, as íris percorrendo cada centímetro do meu rosto. As sobrancelhas franzidas, a boca entreaberta, a ponta do nariz vermelha e a letra da música... Todos os sinais diziam mais do que palavras.
O vinho nunca foi para a alma da comida. Era para a dela, para afogar todas as dores.
... Talvez seja melhor parar de beber. — sussurrei gentilmente, estendendo a mão na direção da garrafa.
Ela recuou, segurando o objeto com força contra o peito.
— NÃO! — berrou e me lançou um olhar mortal. — Eu preciso... É o único jeito de... De sentir ele aqui, sabe? — soluçou, a ponta dos dedos acariciando o vidro. — Todos me machucaram, mas ele... Ele sempre me fazia rir, mesmo quando tudo estava uma bagunça. — os ombros balançaram, o choro sôfrego escapando sem mais vergonha de se revelar.
— Eu sei, ... Sei como dói. — dei mais um passo.
— Não, você não sabe… — outro soluço, a voz embargada. — Eu só queria que ele estivesse aqui. Para me zoar por queimar o alho de novo, e para... P-para me dizer o que fazer com o seu beijo. — mais lágrimas desceram e tomei o maior soco da existência na boca do estômago.
Porra!
Eu sabia que possuía uma parcela de culpa na sua dor, mas ouvir da sua boca era ainda mais doloroso, me dilacerava por inteiro. Queria poder abraçá-la, só que temia sua reação, então tentei a melhor escolha de palavras possíveis:
— Ele estaria orgulhoso de você. E acredite em mim quando digo que o Noah não gostaria de te ver assim.
E para a minha surpresa, limpou as bochechas úmidas e gargalhou ruidosamente, o tom de zombaria. Uma nova centelha de animação – graças ao álcool – acendeu em seus olhos. Havia me esquecido de como as pessoas naquele estado conseguiam ser tão bipolares.
— Ele não gostaria. Diria para chutar a bunda da tristeza e viver. — fungou, um sorriso pequeno e torto aparecendo. — É muito difícil, . Mas você está aqui e isso é bom, não é? É o meu salvador de risotos queimados! — abriu os braços e em seguida teve um pico de epinefrina.
Correu da minha direção, pronta para se jogar nos meus braços quando tropeçou nos próprios pés. Foi questão de segundos para me mover e ir ao seu encontro. Fechei as mãos firmes ao redor da sua cintura, segurando o corpo pequeno, de pele macia e perfume adocicado hipnotizante. riu histérica e levantou a garrafa como um prêmio.
— Consegui salvar o vinho!
Rolei os olhos, ainda a segurando contra o tronco. Ela levou a mão até a testa e soltou um grunhido dolorido, provavelmente sentindo uma pontada aguda cutucar a sua cabeça.
— Uau! O chão está dançando... Você viu isso, ? — firmei o aperto ao sentir ela amolecer levemente.
— Sim, , eu vi. — respondi, tentando manter a calmaria. — Que tal se sentar um pouco? Você já dançou bastante por hoje. — em um movimento rápido tentei retirar a garrafa da sua mão.
— Nããão. Eu tenho que terminar o risoto! Ele está me chamando, não está ouvindo? — pegou de volta e levou a mão em formato de concha até o ouvido. — , por favor, me termineee.
Soltei um risinho pela voz engraçada que ela fez ao fingir que imitava o prato.
— E depois... Depois podemos comer e... e rir! — ergueu a cabeça, segurou minha mandíbula, obrigando-me a olhar para ela.
A mera ideia de comer o conteúdo daquela panela fez meu estômago revirar em protesto. Só o cheiro forte de queimado era o suficiente para sentir enjoo. E o líquido que despejou para dar o sabor sofisticado, só serviu a tornar a pasta pegajosa e ainda mais escura. Arriscava-me em dizer que ela quis criar o próprio Venom, ao invés de fazer um risoto.
— Sinto muito, , mas não vou comer algo que vai me transformar no próximo Eddie Brock da Marvel. — por mais que mereça por tê-la feito sofrer.
Ela fez um beicinho fofo, segurando em meu queixo.
— Então, talvez, você possa me contar sobre os bichinhos da clínica. Eles são fofos? — piscou diversas vezes. — Você salvou os bichinhos, não salvou?
— Sim, salvei alguns. — não tinha ideia do quanto fiz isso nas últimas horas. — E conto sobre todos, se me entregar o vinho. — sugeri, implorando para que aceitasse. — Você já fez o suficiente por hoje. — aproveitei seu momento de distração e rapidamente puxei a garrafa de novo.
Um resmungo infantil escapou da sua boca.
— É a minha companheira de cozinha. Como vou terminar o risoto agora? — tentou pular assim que levantei o objeto acima da sua cabeça.
— Simples: você não vai. — contornei o balcão e deixei que todo o conteúdo caísse na pia.
— Não pode fazer isso, é o meu aniversário! — se jogou na minha direção, tentando salvar a bebida.
— Exatamente por ser seu aniversário que precisa estar bem. E você não está bem, . Você está bêbada. — declarei com convicção.
— Não estou bêbada, eu estou... Estou cheia do espírito de aniversário... Ah, e do Merlot que você jogou na pia. — rodopiou no lugar.
Soltei um suspiro resignado, tinha me esquecido de como era inútil conversar com alcoólatras.
— Dança comigo, Doutor ! — tropeçou ao tentar pegar minha mão e novamente tive de segurá-la.
— Pelo amor de deus, , vai acabar se matando desse jeito. — repreendi com as sobrancelhas franzidas.
gargalhou e depois tocou a ponta do meu nariz. Os olhos cheios de travessura feito uma criança endiabrada.
— Você fica tão lindo quando está bravo. Mas eu ainda quero dançar!
Travei a mandíbula e antes que ela pudesse correr para longe, envolvi os braços ao redor da sua cintura e a peguei no colo. soltou um gritinho de surpresa, segurando-me pelos ombros, no exato momento em que o calor dela atravessou pela minha camiseta, causando-me um arrepio na espinha.
— Podemos dançar, no quarto. — sugeri.
— No quarto? Mas e o risoto?
Tive a péssima ideia de encará-la. Encontrei a cabeça levemente inclinada, as bochechas rosadas e o bico torcido nos lábios ainda esperando pela resposta que não veio. Engoli em seco, sentindo o desejo me consumir. Merda. Só os deuses sabiam a imensa vontade que estava de beijar aquela boca atrevida.
— O risoto pode esperar, você não. — declarei e curvei-me para apagar as velas em único sopro.
gargalhou e bateu palmas ritmadas, acompanhando a fumaça que subiram dos pavios. Os olhos castanhos brilhavam, extasiados por um gesto tão simples. Foi naquele instante que entendi o porquê diziam que bêbados eram mais felizes que os sóbrios: eles encontravam a mais pura diversão em qualquer coisa, do minúsculo grão de areia a toda vastidão do universo.
Comecei a subir degrau por degrau, tomando cuidado a cada movimento de súbito que ela fazia. Tagarelava feito uma maritaca, contando as atrocidades que fez ao lado do seu irmão quando mais novos – e por mais incrível que parecesse, as palavras não a afetavam em nada, era como se estivesse anestesiada. Ria, um som tão gostoso que fazia meu peito se agitar ao pensar no momento que ela acordaria e se depararia com a dura realidade.
Tive de cessar os passos no topo da escada assim que ela teve a belíssima ideia de segurar o meu rosto com as mãos, obrigando que a olhasse, enquanto contava animadamente uma descoberta.
— Você sabia que o cristal é um líquido? — as íris reluziam iguais as joias.
— Um líquido? — arqueei a sobrancelha. — Onde ouviu uma atrocidade dessas?
— Acho que vi em um livro ou filme, não importaaa. — a voz arrastada começava a indicar pequenos sinais de cansaço.
De repente, jogou a cabeça para trás e esticou os braços, balançando o corpo animadamente. Tive de apoiar no corrimão para que não causasse um acidente.
— Eu adoro esse quadro, toda a família reunida. — apontou para o moldurado casamento de Lily e Noah, onde estávamos todos juntos e fizemos questão de pendurar no corredor.
Encarei a fotografia, meu peito se apertando ao olhar para nossos irmãos e ter a breve impressão de que nos observavam. O que pensariam se realmente pudessem nos ver? Será que riram ou nos repreenderiam como se fossem duas crianças irresponsáveis?
Balancei a cabeça, temendo que outra crise de angústia a afligisse, mas a sua próxima fala mostrou completamente o contrário.
— Uma pena que não podemos mais nos reunir e tirar mais fotos. Eu bebi demais e o casamento vai demorar para acabar. — ótimo, agora estava alucinando.
Apressadamente, afastei-me voltando para nosso caminho, antes que começasse a vomitar mais atrocidades verbais. Por um instante, amaldiçoei o arquiteto daquela casa por ter colocado o quarto quase no final do corredor. E a mera ideia de ficar preso em um ambiente fechado, fazia a tensão aumentar em meus músculos. Se tinha uma única certeza era que, quanto mais longe ficasse de naquele estado, mais seguro seria para nós dois.
Ela estava perigosamente fora de controle, não sabia ao certo quando se lembraria do nosso beijo e assim querer me acertar com uma cadeira.
, é verdade que os gatos podem ver espíritos? Acho que o Sky pode estar planejando uma invasão sobrenatural. — endireitou a postura e passou um braço ao redor do meu pescoço.
— O que você anda lendo ultimamente? — quis saber, realmente curioso.
— Existe uma série de dois irmãos que caçam... Humm... Demônios. Acho que deveríamos chamá-los para confirmar essa teoria. — explicou, a voz vacilante.
— Sam e Dean Winchester não existem, . — finalmente chegamos no quarto e pude me livrar das suas ideias mirabolantes.
No entanto, bastou atravessamos para dentro do cômodo e minha garganta secou, arranhando feito um disco velho. O arrepio subiu por todo corpo, o toque suave percorrendo do ombro até o antebraço. delineou os músculos dos bíceps e tríceps, os apertando levemente, apreciando o tamanho e a dureza. A intensidade em seus olhos me pegou de surpresa.
— Você é tão forte... E tão... Seguro. — deslizou até o pescoço, os dedos roçando na pele, causando um choque elétrico. — Eu gosto disso em você. — ela mordicou os lábios e meu coração deu um solavanco.
Soltei o ar pela boca, tentando acalmar cada canto da mente que insistia em me lembrar de que havia sido um imbecil com ela. Se tivesse a procurado e agido como homem, não estaríamos passando por essa situação.
, você está bêbada, não sabe o que está dizendo. — liguei o interruptor com o cotovelo. — Precisa descansar, amanhã temos que conversar. — chega de fugir do inevitável, a incerteza estava me dilacerando mais do que tudo.
Delicadamente, repousei seu corpo sobre a cama de casal. Ajeitei os travesseiros embaixo da sua cabeça e a cobri com o edredom macio. Queria que se sentisse confortável, e por sorte, ela não protestou, aconchegando-se no colchão feito uma gata manhosa. O problema aconteceu quando ameacei me afastar e meu pulso foi agarrado com força, urgência.
— Não quero ficar sozinha. — murmurou, os dedos me puxando para perto. — Quero ficar com você.
Engoli a saliva, molhando a garganta. Analisei a cama minuciosamente, pensando no que responder. Na verdade, nem sabia o que dizer. Encarei os poços castanhos que suplicavam, fazendo o nó se formar no meu estômago. O lado racional sussurrava para me afastar, mas o protetor falava mais alto.
— Posso ficar até você dormir. — sussurrei e ela abriu um sorriso adorável.
— E você vai me beijar? — oh, céu. Tudo menos isso.
Balancei a cabeça antes de responder:
— Não vou, pequena.
— E por que não? — a ruga da dúvida pairou em sua testa.
— Porque já a machuquei demais. — meu peito se apertou.
sentou-se abruptamente.
— Mas eu sou uma super-heroína. E os super-heróis nunca se machucam! — gritou, a voz esganiçada.
Sorri com o canto dos lábios.
... Você é... É um veterinário arrogante e muiiito forte. E eu acho... Que você tem medo de se envolver porque tem medo de sentir. — por um instante desconfiei da sua embriaguez.
— Incrível como bêbados se tornam tão filosóficos.
Ela gargalhou estridente e se jogou de costas na cama, remexendo os braços e pernas como se fizesse um boneco de neve.
— Você pode até fugir das mulheres, mas você não pode... Você não tem como fugir da sua mente. — embolou as palavras e riu em seguida.
— O uso excessivo de “você” na mesma frase não combina com a sua mente de escritora.
Ela apontou para mim e disparou, um pouco risonha:
— Você é um covarde que fugiu de mim nesses três dias, tudo por um beijo idiota!
Tencionei a mandíbula, o corpo inteiro enrijecendo. Perdi a noção do tempo, sendo estapeado pela verdade que aquelas palavras carregavam. A acusação me atingiu com a força de um raio. O calor subiu pelo meu peito, a vergonha queimando por dentro e a pontada aguda perfurando o estômago. As mãos se fecharam em punhos apertados cheio de frustração comigo mesmo.
estava certa, eu fugi como um rato covarde.
Encarei o rosto angelical, levemente avermelhado. O bolo se formando na garganta, nem sequer tendo uma justificativa plausível para o meu comportamento. E não adiantava pensar, já me sentia exposto, paralisado, um ser desprezível.
O som do bocejo suave e inocente foi o que me tirou do transe. se deitou de lado no colchão e nem sequer reparei nos seus movimentos. Ela já tinha os olhos fechados, o corpo mole e pesado. O álcool e a exaustão a vencendo.
— Se você não pode me dar um beijo... então... então eu queria passar o meu aniversário com o meu irmão. Só uma última vez. — balbuciou.
Suspirei, cautelosamente ajeitando o corpo pequeno no colchão. Notei a respiração dela se tornando mais lenta e profunda. Sentei-me no chão e apoiei a cabeça na beirada da cama, acariciando a bochecha rosada e colocando uma mecha de cabelo teimosa atrás da sua orelha. Ela era tão delicada, não merecia sentir tanta dor.
— Feliz aniversário, coelhinha... — sussurrei e depositei um beijo em sua testa. — Sinto muito por não poder te dar o que mais precisa. — observei cada traço do seu rosto, os dedos enfiados nos cabelos escuros em um carinho terno.
Respirei profundamente, aliviado por finalmente vê-la descansar. Fiquei por longos minutos naquela posição, apenas admirando o anjo que era e me amaldiçoando por tê-la machucado. Meu coração se apertava só de pensar nisso. Eu sabia que precisava reparar o meu erro, era o certo a fazer e não teria ninguém que me impedisse de fazê-lo no dia seguinte.
Aidan e Madisson que me perdoassem, mas eu tinha alguém que merecia mais a minha atenção do que o meu trabalho.

Capítulo 26


O gemido arranhou minha garganta, antes que os olhos conseguissem se abrir. O pulsar brutal atingiu a têmpora como um sino badalando. Virei-me de costas para a janela e o som dos carros circulando pelas ruas da cidade vibraram dentro da minha cabeça. Soltei o ar pela boca, as pálpebras se arrastaram lentamente, passando a identificar o ambiente.
A visão de lençóis macios, brancos, foi tudo o que consegui enxergar, antes da luz forçar-me a grunhir de dor e outra pontada me atingir. Franzi o cenho, observando ao redor do quarto e tentando entender como havia parado ali, sendo que apenas lembrava de estar preparando o risoto de filé mignon.
Engoli em seco, o gosto amargo presente na boca e o hálito quase causando náusea. O estômago dançava em ritmo violento. Fechei os olhos, tentando afastar qualquer distração que ficasse no caminho. Minha mente parecia um borrão vazio e por isso precisava me lembrar, mesmo que algo no meu âmago gritasse que me arrependeria disso.
Forcei o cérebro e primeiro, veio os olhos amendoados, azuis com pequenos pigmentos esverdeados que faziam minha pele se arrepiar. Depois, a garrafa de vinho tinto. E então, o roçar da minha bunda contra a virilha dele. Uma dança horrenda que pensei ser sexy. A última lembrança foi do rosto de , sério, com olheiras abaixo dos olhos, dizendo que não me beijaria, enquanto eu retrucava chamando-o de covarde.
Puxei o travesseiro e escondi o rosto, sentindo a vergonha me atingir com força. Respirei profundamente, antes de ouvir o roncar alto do estômago, implorando por comida – não conseguia me lembrar qual tinha sido a última refeição. Forcei o corpo a se sentar na cama, apertando os olhos até que se acostumasse com a luz do dia.
Esfreguei o rosto, soltando um gemido doloroso ao sentir outra cutucada. Massageei a testa, girando a cabeça em busca do meu celular, mas o que encontrei em cima da mesa de cabeceira me deixou boquiaberta. Meu coração acelerou e precisei piscar algumas vezes para acreditar no que estava vendo.
O vaso de vidro abrigava um buquê cheio, vibrante e alegre. As pétalas amarelas brilhantes e os centros escuros formavam os magníficos girassóis, que tanto era apaixonada. Arregalei os olhos, ignorando a cefaleia e toquei as flores, completamente encantada. Ao lado, havia uma caixinha quadrada de coloração branca, revelando o logotipo da joalheira muito cara.
Arqueei a sobrancelha, não hesitando em abrir o presente e me surpreender ao encontrar o colar de estilo gravatinha. A corrente fina era de prata minimalista. Como pingente havia uma pérola única e pequena, perfeitamente redonda de cor creme suave. Resvalei o dedo pela joia, temendo que um simples toque pudesse quebrá-la de tão delicada.
Minha boca curvou-se em um sorriso largo, os olhos adotando uma atmosfera iluminada. Encarei o arranjo novamente, sentindo o calor aquecer o coração. E apesar do cérebro ser uma massa cinzenta completamente vazia naquele momento, eu sabia que apenas uma pessoa conhecia o meu desejo em ganhar girassóis.
Não precisei de muito esforço para encontrar o pequeno pedaço de papel, se destacando atrás do vaso transparente. Lentamente, peguei o bilhete e desfiz a dobradura, os dedos trêmulos. Mal conseguia respirar de tão nervosa. A caligrafia forte e decidida que reconheceria em qualquer lugar. O nó apertou a boca do meu estômago ao lembrar da última vez que li o seu recado. Frio, distante.

Coelhinha, a sua cabeça deve estar querendo explodir nesse momento, então sai para comprar aspirinas. Volto assim que sair da farmácia.
Fiquei no quarto até ter certeza de que você dormiu. Não se preocupe a cozinha está limpa, a Greta não vai querer te matar.
Ah, não poderia esquecer: Feliz aniversário!
Espero que tenha gostado dos girassóis e do colar, comprei pensando em você.
Estarei aqui quando acordar,
.


Os lábios se curvaram a cada palavra que lia. Um sorrisinho discreto, que foi capaz de mexer com as engrenagens do meu sistema nervoso. Balancei a cabeça e voltei a olhar para as flores que pareciam brilhar através da luz do dia. Ele havia cumprido a sua promessa e ainda gastou uma fortuna naquele colar.
Dessa vez, tive uma única certeza: ele não fugiu no dia seguinte. Pelo contrário, continuou cuidando de mim a noite inteira, mesmo que eu o tenha ofendido.
As bochechas ruborizaram, só em pensar que o encontraria assim que descesse as escadas. Sóbria, com uma maldita ressaca. Não teria como escapar, conversaríamos sobre o beijo e eu, pediria desculpas pelo jeito inconsequente que me comportei – mesmo que ele tivesse uma parcela de culpa na bebedeira.
Levantei-me e o chão girou ao movimento brusco. Segurei a borda da mesa de cabeceira até que tudo parasse de dançar. Apertei o canto dos olhos com força e engoli em seco, prometendo que nunca mais ia beber, as consequências ao amanhecer eram humilhantes demais.
Arrastei os pés até a suíte, molhando o rosto e escovando os dentes, antes que vomitasse pelo hálito amargo. Encarei o reflexo completamente assustador e tratei de dar um jeito no rosto pálido, olhos inchados e cabelos bagunçados – um pouco de maquiagem resolveria o problema. Ao terminar, sequei a pele e suspirei profundamente, segurando as bordas da pia.
O coração batia desenfreado como um trem desgovernado. Algo em meu íntimo sussurrava que as próximas horas seriam difíceis. Mas pelo menos, agora, sabia de uma coisa: estaria do outro lado, pronto para enfrentar os medos comigo. Não estava mais sozinha.
Entre cambaleadas, sai do quarto rumo ao meu destino. Segurei o corrimão da escada e parei ao ouvir risadas, tons de zombarias vindo da cozinha. Arqueei as sobrancelhas, reconhecendo as vozes tão familiares. Greta ria animadamente de alguma coisa que comentou sobre o seu celular, algo que não consegui escutar com clareza.
Fechei os punhos e soltei o ar dos pulmões, buscando a coragem para finalmente entrar na cozinha. Terminei de descer os degraus, sentindo o delicioso aroma de carne cozida. Meu estômago roncou feito um trator, a fome me fazendo finalmente vencer o medo que estava de encarar aquele homem.
Só que nada me preparou para vê-lo no meu estado mais sóbrio. Foi como ser atingida por um raio.
Nossos olhos se encontraram no exato momento em que cruzei a linha da cozinha. Paralisei no lugar, a boca seca, a respiração descompassada. E de repente meu corpo inteiro se arrepiou, sendo arremessada de volta para aquele sofá.
O cheiro do cedro e pimenta me embriagando. Os seus lábios tomando os meus com possessão. O calor do seu corpo sobre o meu. O toque quente e firme na minha pele. Os gemidos tão entregues...
Engoli em seco. Meu cérebro novamente sendo uma massa derretida e inútil, e não só me esqueci de como se falava, mas também de como respirava. Entrei em colapso, a única coisa que conseguia fazer era devorá-lo em silêncio. A camiseta preta realçava a largura impressionante dos ombros e o volume dos músculos dos bíceps; a calça jeans e o tênis pareciam desenhados com perfeição deixando-o mais gostoso.
Era incrível como conseguia mexer com a minha sanidade sem dizer nenhuma palavra.
Esfreguei os olhos, as bochechas corando ao ser assombrada pela lembrança de rebolar descaradamente contra a virilha dele. Afundei os dedos nos cabelos, puxando os fios com força, desejando estrangular a própria mente que insistia em reviver aquela humilhação.
Por Deus, eu precisava ter foco.
, querida, está tudo bem? — Greta perguntou, já parada a minha frente.
— É só uma dor de cabeça. — balancei a mão e ela me escoltou até a mesa.
— Sente-se um pouco, querida. — acariciou minhas costas.
Obedeci e em seguida suspirei, cobrindo o rosto para que não vissem meu rosto mais vermelho que uma pimenta.
— Eu cuido dela, Greta. — estremeci ao ouvir a voz máscula, baixa e profunda.
A governanta depositou um beijo no topo da minha cabeça e se afastou. Murmurou algo sobre buscar as sacolas de compras do almoço dentro do carro, deixando-nos sozinhos.
Massageei as têmporas, a pontada aguda cutucando o crânio. Grunhi e fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o toque quente e pesado sobre meus ombros. Os dedos grossos delinearam a pele nua – graças as alças finas da camisola. Apertaram e deslizaram suavemente os músculos do trapézio, espalhando o movimento firme pela área das escápulas
Segurei o gemido prazeroso, a tensão diminuindo a cada pressão que fazia. Mordiquei o lábio inferior, arqueando a coluna e jogando a cabeça para trás até que ficasse encostada contra o tronco rígido. O ritmo lento e forte da sua respiração bateu contra os fios o meu cabelo.
— Melhor? — a vibração da sua voz era quase um carinho. Assenti e ele continuou. — Você está com muitos pontos de tensão. — ah, ele não tinha nem ideia.
A pressão em um nó específico na região da nuca me fez arfar discretamente. A pequena dor se alastrou quando começou a massagear em círculos. O desconforto logo se transformou em uma explosão de alívio e prazer. A tensão muscular se dissipou, abrindo caminho para a minha mente traiçoeira imaginar como seria sentir aquela pressão em outros lugares do corpo.
— Tome o remédio para a dor de cabeça. Vai ajudar com a ressaca. — sugeriu e deslizou as pontas dos dedos para as laterais da minha testa.
Desenhou círculos com firmeza e tive de segurar o gemido de deleite. Uma corrente elétrica percorreu por todo meu corpo assim que o polegar roçou levemente no lóbulo da orelha esquerda. O seu calor enrijeceu cada pelo no caminho, vibrando docemente pela minha pele.
se afastou depois de um tempo e quase implorei para que voltasse a me mimar com as mãos tão habilidosas. Finalmente abri os olhos, no mesmo instante em que colocou o copo com suco de laranja a minha frente, a mão estendida com o comprimido branco, mediano e nada convidativo.
— Não adianta fazer careta, coelhinha. Se não tomar vou fazê-la engolir à força. — ameaçou, o tom de zombaria.
— Quem fez o suco? — tentei conseguir tempo, os ombros ainda moles pela massagem.
Ele sorriu com o canto dos lábios. Enxerguei em suas íris um brilho divertido, uma faísca de desafio.
— Fiz questão de escolher cada laranja a dedo, espremer com toda delicadeza do mundo e fazer o seu precioso suco. — foi irônico.
— E qual o veneno da ocasião? — passei o indicador pela borda do copo.
— Vai descobrir quando sentir os sinais da desidratação. — indicou o remédio com o queixo. — Quanto mais cedo você tomar, mais cedo vai se sentir melhor. Não seja teimosa.
Ignorei o quanto o rosto quis se contorcer, afinal meu crânio estava explodindo. Peguei o comprimido e engoli, tomando um grande gole do suco. E foi inevitável, a mandíbula reclamou, se retorcendo ao ácido da fruta. Grunhi de insatisfação. A cabeça balançou ao tentar dissipar o azedo. Se ele queria me matar, era só dizer que aceitaria de bom grado.
— Qual o seu problema com o açúcar? — abri e fechei os olhos com força, estremecendo.
— Nenhum, é o seu paladar que está mais sensível. — deu de ombros. — Em algumas pessoas, o álcool pode diminuir a percepção do doce e assim fazer com que o suco pareça mais azedo do que o normal.
Franzi o cenho, lançando um olhar desconfiado para ele. Eu esperava qualquer coisa, menos isso.
riu, antes de cruzar os braços em frente ao peito. Os músculos dos bíceps se tensionaram sob a camiseta, atraindo meus olhos inevitavelmente.
— Não olhe para mim desse jeito, está no google. É só pesquisar. — arqueou as sobrancelhas. — Talvez, prefira água de coco. — comentou, indo em direção a geladeira.
— Por que quer me entupir de bebidas logo cedo? — senti uma nova onda dolorosa na testa.
retirou a garrafa transparente de etiqueta verde, decorada com cocos e coqueiros. Gesticulou, o sorrisinho sarcástico se curvando, junto da testa franzida.
— Porque após uma noite de bebedeira, o recomendado é se hidratar. — falou o óbvio.
Rolei os olhos. Cruzei os braços sobre a mesa, escondendo o rosto ali. Apesar da noite de sono, meu corpo estava exausto, desejando voltar para a cama confortável. Mas, em contrapartida, levantou disposto a me obrigar a engolir uma caixa d’agua só para que meus rins não explodissem de tanto eliminar eletrólitos e líquidos.
O móvel vibrou quando ele bateu o copo de vidro e encheu com o isotônico natural. Logo em seguida, ouvi o pequeno ronronar vindo do canto da cozinha. Inclinei a cabeça, a tempo de ver a bola peluda pular no balcão e miar insistentemente. Curvei um pequeno sorriso, assistindo encher o pote de ração, o felino saboreou cada grão como se fosse a última maravilha do mundo.
No entanto, o momento calmo durou pouco. Voltei a esconder o rosto assim que meus olhos caíram sobre o homem, que acariciava o dorso do bichano. O bolo se formou na minha garganta e por um instante, me esqueci de como se respirava. As novas lembranças apunhalaram meu peito com força. E dessa vez, era algo pior do que a dança grotesca.
O peso das palavras caiu sobre os ombros. Fui torturada por brasa ao lembrar da grosseria desmedida com qual o acusei e profanei uma análise psicológica ridícula. Chamá-lo de covarde foi só a ponta do iceberg, porque ainda tive a capacidade de afundar o Titanic, destilando ainda mais a minha mágoa.
, eu... — murmurei, a voz embargada e fina. — Eu queria pedir desculpas pelo que aconteceu ontem. — endireitei a postura para encará-lo.
Ele ficou imóvel, talvez, percebendo que entraríamos em uma área delicada. Após alguns segundos, abandonou o felino e virou-se na minha direção. As costas permaneceram contra o balcão, os braços fortes cruzaram-se sobre o peito e adotou uma postura atenta. O azul dos seus olhos carregava uma fagulha de paciência que não achei que merecia.
— Não aconteceu nada, . Está tudo bem. — sua voz terna fez meu coração dar um solavanco.
Empinei o queixo e senti o arrepio subir pela nuca assim que notei não conseguir sustentar o seu olhar. Desviei o contato, decidida a observar ao redor da cozinha. Primeiro, vi Sky saltar do balcão e correr para a sala. Depois, eu não esperava que a minha boca se abrisse em um perfeito O, ao ver o brilho dos móveis. Por Deus, ele deixou tudo impecável.
— Eu deixei essa casa uma bagunça, como pode dizer que nada aconteceu? — protestei, ele continuou impassível. Suspirei antes de prosseguir: — A minha mente parece um campo minado. Lembro-me de algumas coisas, mas não de tudo. E... Lembro de ter me esfregado em você feito uma prostituta barata e ainda o chamei de covarde.
Por um instante, esperei pela repreensão que claramente merecia. No entanto, apenas sorriu com o canto dos lábios e venceu a distância até a mesa. Inclinou-se sobre o móvel, apoiando os antebraços musculosos de modo a ficar com os olhos fixos nos meus.
— Você estava sofrendo. Era o seu aniversário e sentiu falta do seu irmão. É normal. — como ele conseguia dizer isso com tanta calmaria? — E fique tranquila, não é a primeira vez que me chamam de covarde. — desviou o olhar, mirando um ponto qualquer.
Franzi o cenho, confusa, a curiosidade ansiando para que perguntasse mais sobre isso – mesmo sentindo que parecia um território delicado. E antes que pudesse questioná-lo, sua voz quebrou o silêncio.
— Você está sóbria agora, e está pagando pelas escolhas erradas com dor de cabeça. E eu estou aqui, com aspirinas, água de coco e suco de laranja na mesa. — apertou levemente minha mão.
Observei o entrelaçar dos nossos dedos. Seu polegar acariciava meu dorso delicadamente, em um consolo silencioso.
— V-você não está bravo por tê-lo chamado de covarde? — mal conseguia falar.
Uma lufada de cansaço escapou da sua boca.
, o álcool nos humilha e nos obriga a fazer coisas que nunca faríamos se tivéssemos sóbrios.
O arrepio subiu pela coluna ao perceber que não se referia a noite passada, e desejei que estivesse errada sobre isso. Engoli em seco, entendendo que o momento finalmente havia chegado. Era hora de encarar a verdade e por sorte, a confusão e a cefaleia diminuíram, assim conseguiria pensar com clareza.
— Você se arrependeu, não foi? — questionei, ignorando o pavor da resposta.
me encarou. Os olhos percorrendo cada traço do meu rosto demoradamente. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo som de nossas respirações. Sustentei o contato visual, a boca seca e os batimentos cardíacos nas alturas. E a cada segundo que passava, meu estômago se revirava de ansiedade.
— Não.
Minhas costelas foram esmurradas pela força do meu coração. O soco bruto e quase mortal. Entreabri os lábios, buscando pelas palavras, que escolheram aquele exato momento para desaparecerem. Puxei o ar com dificuldade, os pulmões clamando por oxigênio. Eu não estava preparada para ouvir aquilo.
Uma palavra tão simples. Apenas três letras. E um único significado.
O sorriso desenhou a minha boca e tive de olhar para qualquer outro ponto, temendo entrar em combustão. Mas a fuga foi em vão. Estremeci ao sentir segurar meu queixo com delicadeza, guiando-me para que estivesse olhando para ele. Nossos olhos se encontraram, os deles percorrendo novamente cada traço sem pressa, querendo esboçá-los na mente.
— Eu nunca me arrependeria de algo que desejei por tanto tempo. — ciciou. — Desde que a vi na delegacia, você nunca mais saiu da minha cabeça. E tudo o que mais queria era beijar a sua boca, calar os demônios que me fizeram desejá-la quando sabia que era errado. Mas agora... — delineou meus lábios com o polegar, o toque deixando-os quente e formigando. — É inútil querer passar por tudo isso e fingir que nada aconteceu. Você inunda os meus pensamentos. E tudo o que mais penso é em quando vou te beijar outra vez.
— E... Por que não faz isso agora? — aproximei nossos rostos, as palavras saindo antes que pudesse impedir.
Ele soltou um suspiro resignado. Seus olhos se fecharam por um instante, como se estivesse lutando contra si mesmo.
— Porque não sei se sou capaz de parar.
— Tente. — o desafiei, inclinando-me em direção a atração. — A sua única preocupação será se a Greta aparecer.
riu, sua mão deslizando para a base do meu pescoço. Fechei os olhos, entregando-me ao toque quente, delicioso.
— Alguém disse a ela que brigamos. Quando você desceu, acho que tirar as compras do carro pareceu a desculpa mais plausível para nos fazer conversar. Ela quis nos dar privacidade.
— Então, nunca existiu uma compra? — quis saber, ainda extasiada.
Abri os olhos, a tempo de vê-lo negar com a cabeça. O canto da minha boca se curvou em um sorriso diabólico. A coragem do submundo de dominou, e aproveitei nossa aproximação para levar os lábios até o pé do seu ouvido. O seu perfume me embriagou, o estômago revirou de nervosismo e quis puxá-lo de uma vez para mim, acabar com aquele tormento.
— Eu adoraria ver a sua falta de controle. — sussurrei, o risinho travesso arrepiando os pelos da sua nuca.
— Não sabe o que está me pedindo, coelhinha. — sua voz se tornou rouca e urgente.
apertou a base da minha nuca, o calor da sua mão me fazendo ofegar. Inclinei a cabeça e fiz um beicinho, sustentando ainda mais o nosso olhar cheio de uma volúpia quente, quase aterrorizante.
— Você me disse que era o lobo faminto, então... Pegue o seu coelhinho.
O desafio silencioso pairou no ar. Denso, sedutor, lascivo. A mandíbula dele tiqueou, seu semblante sério quase duro. E o seu olhar antes tão sereno, ganhava fagulhas que cresciam a cada segundo. As chamas escarlates possuíam as íris claras, sendo hipnotizante assistir o exato momento em que sua fachada caiu por terra, abrindo caminho para algo primitivo, carnal, cru.
O brilho se intensificou, as pupilas dilataram, as narinas inflaram, transformando a calmaria do oceano em uma tempestade possessiva. E talvez, eu ainda estivesse sobre o efeito da ressaca, porque achei sua nova persona incrivelmente sexy e excitante.
— Você não tem noção do perigo em que está se metendo, coelhinha. — murmurou, a voz profunda e atraente demais.
Minha garganta secou, as mãos inquietas sobre a mesa. não esperou por uma resposta, seu corpo se moveu com a velocidade de um felino. Endireitou a postura, ainda me olhando com o seu olhar de predador.
— Levanta. Agora.
Estremeci, porque não foi um pedido. Foi uma ordem, carregando uma autoridade que nunca ouvi vinda dele. Sem protestar, obedeci, a cozinha girando levemente sob os pés, a adrenalina percorrendo cada centímetro do meu corpo.
E nem sequer tive tempo de me endireitar para ele avançar sobre mim. A mão grande agarrou a base da minha coxa, e em um único movimento poderoso, me levantou do chão. Arfei surpresa, tratando de agarrar os ombros largos, nossos rostos ficando a centímetros de distância. Os narizes se resvalaram e entrei em combustão, a eletricidade queimando os neurônios responsáveis por me fazerem pensar.
Subi os dedos pela nuca forte, enroscando nos cabelos loiros e puxando levemente, enquanto caminhou comigo no colo. Apenas um braço sustentava o meu peso, como se não pesasse nada. Sem hesitar, me colocou sentada sobre o balcão de mármore frio, o tecido fino da camisola deslizando contra o material liso.
— O que você está fazendo? A Greta pode chegar e... — tentei questionar, mas foi interrompida pelo toque surpresa.
— Shhh. — tampou minha boca com a mão. — Eu só estou pegando o que é meu. — sibilou, admirando o meu corpo, explorando cada centímetro com a mão livre. — Você é uma obra prima, . — aproximou-se, a boca mordicando o lóbulo da orelha. — E vai precisar ficar quietinha, se não quiser que a Greta veja o que estamos fazendo aqui.
O corpo dele pressionou o meu contra o balcão, aprisionando-me. Ergueu a cabeça, a inclinando para admirar o momento que afastou a mão e a desceu para meu pescoço, os dedos se fechando sem muita sutileza. Mordiquei os lábios, magnetizada pelo rosto másculo que assombrava meus sonhos mais insanos.
— Você é só minha. — olhou-me nos olhos, proclamando o seu controle.
A do passado sentiria medo e tremeria inteira, mas agora, estava pronta para ser dominada por um sedento que poderia fazer o que quisesse comigo. Eu queria que ele me devorasse como o lobo faminto das histórias de romance. Adoraria cada segundo, porque nossa atração era uma força da natureza, e não tinha como lutar contra isso.
A mão que antes estava na garganta subiu. Os dedos enroscaram nos cabelos, puxando minha cabeça para trás. investiu, segurando meu queixo com firmeza, sua boca quase encostando na minha. Meu corpo arqueou em antecipação, o balcão de mármore gelado contratava com o calor ao nosso redor.
— É isso o que acontece quando você me desafia, meu amor. — seus lábios finalmente dominaram os meus com a urgência de um homem faminto.
Minhas mãos subiram para sua nuca, puxando-o para mais perto. A boca dele me tomou com exigência e eu o recebi como se estivesse morrendo de sede. O gosto amargo do suco de laranja foi imediatamente substituído pelo sabor viciante, doce e fresco de menta e café – uma combinação que só ele possuía.
gemeu, o som grave e profundo, aprovando a minha atitude. Sentia cada parte sua correspondendo ao meu, dessa vez completamente entregue e sem amarras. E isso era surreal, delicioso demais. Saber que ele estava ali de corpo e alma era como ir para o céu e voltar. O seu calor era viciante, o seu gosto eletrizante e o seu toque enlouquecedor.
Oh, céus, eu estava completamente rendida por esse homem.
A sua língua invadiu sem permissão, provando cada centímetro, explorando cada canto como se confessasse o desejo que reprimiu todo esse tempo. Gemi quando sua mão novamente apertou o meu pescoço, o som bafado, mas que aumentou a pressão do seu corpo, quase se fundindo em um único espaço.
Puxei os fios loiros escuros e nos separamos assim que o ar nos faltou. Nossas testas ficaram coladas, os peitos subindo e descendo rapidamente.
— Deveria ser tão delicioso ser devorada pelo lobo? — disparei ainda ofegante.
Ele sorriu diabólico e mais uma vez enfiou os dedos no meu cabelo já emaranhado, fazendo-me jogar a cabeça para trás. Soltei um gemidinho ao senti-lo mordiscar a lateral da minha mandíbula. Ao mesmo tempo, seu polegar deslizou por baixo da camisola fina, alcançando a pele macia da minha coxa.
Contorci-me, o arrepiou dominando minha coluna e vibrando o meio das minhas pernas. Meu Deus, eu estava louca para saber como era ter seus dedos ali, me provocando como no sonho.
— Não tem ideia das diversas maneiras em que o seu lobo pode te devorar. — deu uma mordida mais forte no meu queixo.
— E por que não me mostra? — agarrei o tecido da sua camiseta, puxando-o mais e mais.
— Porque não posso fazer isso aqui. Você merece ser venerada em um lugar melhor do que na cozinha. — segurou as laterais do meu rosto, tomando minha boca mais uma vez.
O beijo foi mais lento, exploratório, sem a urgência que nos dominava como dois animais. Sua boca comandava a minha, incendiando minha mente já vazia, livre da culpa e da ressaca. Havia apenas eu e , e nada mais importava. O fogo queimava em nossos corpos, não exista luto ou trauma, apenas a eletricidade prazerosa entre nós.
Infelizmente, o momento foi brutalmente quebrado pelo som agudo e insistente do celular de tocando. Ele gemeu em frustração, separando nossas bocas. Segurei a barra da sua camiseta, depositando beijos molhados pela mandíbula forte. Por um instante, aproveitou as caricias com os olhos fechados, levando a mão demoradamente até o bolso da calça.
— Não atende. — murmurei baixo.
Mas bastou ele encarar a tela do aparelho para se afastar abruptamente, a respiração ficando pesada e a expressão de luxúria desaparecendo em segundos.
— É da creche da Mia. — revelou com a voz rouca, erguendo a cabeça para me encarar, a testa franzida.
Engoli em seco, meu coração dando um salto dentro do peito. De repente, todo o calor que me consumia evaporou, substituídos por um arrepio gélido de pavor. Meu corpo que antes vibrava pelo beijo, agora tencionava, a intuição me dizendo que havia acontecido alguma coisa.
— Por que ainda está me olhando desse jeito? Atende logo! — ordenei, descendo do balcão e ajeitando a camisola.
— Mas, você disse...
— Esquece o que eu disse e atende essa porcaria, . — praticamente berrei, conseguindo respirar direto apenas quando levou o celular ao ouvido.
O silêncio nos rodeou, a pessoa do outro lado da linha despejando palavras que não conseguia escutar. Comecei a roer as unhas de apreensão, enquanto via os olhos azuis escurecendo de preocupação, me procurando como um apoio emocional. Por deus, o que aconteceu?
Esfreguei o rosto, a testa já com pequenas gotas de suor. Mal conseguia respirar, o coração batendo tão forte que senti a pontada de novo na cabeça. Merda, aquele celular parecia um alarme de incêndio, prestes a anunciar que deveria correr para fora da casa antes que morrêssemos queimados.
— Mas ela está bem? — questionou, a voz tensa, e assentiu com alívio. — Tudo bem, estamos indo agora mesmo. — e então desligou.
— O que aconteceu? Minha filha está bem? — disparei de uma vez.
— Ela está bem, . — tranquilizou, guardado o aparelho e segurando minhas mãos. — A creche ligou para buscá-la mais cedo, só isso. Fique tranquila.
— E o que estamos esperando? Vamos agora. — corri para a sala, esperando que ele me acompanhasse.
Mas quando vi que não o fez, coloquei as mãos na cintura, fuzilando-o com o olhar. permaneceu parado na cozinha, olhando-me de cima a baixo com um fogo perigoso dançando em suas íris.
— Você não vem?
Ele balançou a cabeça, a risada baixa saindo com espontaneidade.
— Você não vai de camisola. — disse simplesmente, cruzando os braços em frente ao peito.
— E por que não? É uma emergência! — lembrei, a voz alterada.
Aproximou-se a passos lentos, os olhos fixos em mim, percorrendo o tecido fino. Estremeci, o cheiro do seu perfume me atingindo feito a onda do oceano, quase deixando minhas pernas bambas.
— Irá acontecer uma emergência muito trágica se outro homem olhar para você. E, talvez, terá de me buscar na delegacia. — puxou-me pela cintura, meu corpo batendo contra seu peitoral duro. — Não suporto dividir o que é meu com ninguém. — seu olhar era de pura posse.
Sorri com o canto dos lábios, não conseguindo acreditar no que tinha acabado de ouvir. Era ridículo e inebriante, mas no fundo gostei disso.
— É sério que você está preocupado com isso? — arqueei as sobrancelhas, as mãos espalmando seu troco.
— Essa camisola é tão curta que toda a Nova Jersey vai ver a sua bunda. — sua mão desceu para minha nádega e apertou sem pudor.
Em contrapartida, segurei seu maxilar o sorriso cínico nos lábios.
— Não se preocupe, querido. Todos podem vê-la, mas apenas você irá tocá-la. — rapidamente fiquei na ponta dos pés e deixei um selinho em sua boca.
— Não me provoque, . — avisou e tudo o que consegui fazer foi rir, antes de me desvencilhar dos seus braços, subindo as escadas.
No entanto, parei no meio do caminho e segurei o corrimão. Virei-me, apontando para ele com o indicador, desenhando contas imaginárias no ar – tentando ligar as pontas soltas. E por isso precisava perguntar apenas mais uma coisa antes de subir, não era possível que estivesse ficando louca.
— Você trocou de celular? — perguntei, lembrando-me do aparelho anterior ser diferente, menor e muito mais velho.
riu.
— Troquei, coelhinha. O antigo foi atropelado no resgate de domingo. — explicou, o tom brincalhão, com uma suave culpa. — Deveria ter contado mais cedo, mas você resolveu atacar a minha boca antes que tivesse a chance.
O rubor se espalhou pelo meu rosto. Umedeci os olhos e gesticulei, lembrando de tê-lo visto em uma ligação no dia seguinte a noite de jogos. As sobrancelhas se juntaram, a dúvida ainda presente.
— Então... De quem era o aparelho que usou, quando me ignorou no café da manhã?
Ele enfiou as mãos no bolso, pressionando os lábios e segurando o sorriso antes de responder:
— Era da Greta. — revelou. — Eu precisava ligar para encomendar o colar e o arranjo de girassóis para o seu aniversário. — deu um passo em direção à escada. — Desculpe-me por ter desaparecido. Recebemos o chamado para resgatar os animais em um canil clandestino. Precisei buscar apoio financeiro e fazer reuniões com outras clínicas para organizarmos uma feira de adoção.
A respiração falhou, o ar preso nos pulmões. De repente, a angústia e todas as dúvidas dos últimos três dias desapareceram como fumaça. não tinha fugido, apenas ficou preso no trabalho, salvando vidas inocentes que dependiam dele para viver.
— Eu vou me vestir. Temos uma filha para buscar. — anunciei, desaparecendo no corredor.
Parei em frente a porta do quarto, deixando o corpo contra a madeira. Fechei os olhos e toquei os lábios ainda inchados, formigando pela urgência de . Sorri, relembrando de tudo o que fizemos naquela cozinha. Não foi apenas um beijo, foi uma explosão de sentimentos que finalmente estávamos sóbrios para apreciar.
Seus lábios firmes contra os meus me fizeram sentir um calor que nenhum homem sequer conseguiu. Com , me sentia vista, desejada e segura para sentir. Abaixei a mão, tocando a pele do pescoço, exatamente onde ele havia segurado. O que antes era assustador, se tornou uma eletricidade inconfundível.
O meu corpo, o meu coração e a minha alma estavam completamente entregues a ele. E pedia aos deuses para que nunca ousasse me machucar.

Capítulo 27


De todas as mulheres que já me relacionei nessa vida, nenhuma chegava aos pés daquela que descia as escadas. O vestido branco com listras pretas realçava a curva do seu quadril, a silhueta deixando-a mais linda ainda. A verdadeira visão do paraíso. Nos pés usava uma sandália escura, sem amarras que completavam o visual delicado, tão perfeito.
O sorriso em seu rosto era iluminado, cheio de doçura. Ao parar na minha frente, meus olhos capturaram os lábios carnudos, ainda levemente avermelhados. Tive de apertar a mandíbula, reprimindo o desejo de jogá-la no sofá da sala e deixar meu corpo conduzi-la ao êxtase.
A lembrança dela pedindo para mostrar as diversas maneiras de devorá-la, acendia meu pau que nem deveria se animar com isso. As bochechas rosadas, os lábios entreabertos e os olhos suplicando que a possuísse. Tão entregue a mim que foi difícil me segurar. Mas precisei controlar a vontade de fazê-la minha em cima daquele balcão.
era especial demais para mim, e por isso nossa primeira vez também deveria ser. Uma cama grande, a lua brilhando no lado de fora e os seus gemidos só para mim. O cenário perfeito.
Greta finamente apareceu, vindo da garagem onde permaneceu escondida até aquele momento. Segurei a porta para que saísse e antes de segui-la, juntei o polegar e o indicador, fazendo um sinal de “OK” para a governanta, deixando claro que tudo tinha sido resolvido. Ela levantou as mãos aos céus, agradecida pelas preces atendidas.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, também grato pelo todo poderoso ter respondido as minhas súplicas. Agora, finalmente poderia beijar a minha coelhinha sem culpa ou medo de perdê-la. E estava doido para fazer isso de novo e de novo em todos os cantos daquela casa. Havia se passado apenas alguns minutos e já sentia falta do seu calor.
Atravessei o jardim da entrada, destravando o carro. ocupou o banco do passageiro e esperou até que eu tomasse o meu lugar como motorista. Manobrei, ao mesmo tempo em que conectava o rádio para tocar uma música eletrônica, desaguando pelas ruas da cidade fazendo o caminho já tão conhecido por nós.
No meio do caminho, fui obrigada a parar em frente ao supermercado e esperar até que descesse para comprar alguma coisa que pudesse acalmar o seu estômago revolto, roncando feito um trator. Entreguei a ela o cartão de crédito, enquanto aproveitava o tempo para ligar para Aidan – torcendo para não ter de lidar com a sua abstinência.
Por sorte, Madisson atendeu o telefone, dizendo que nosso amigo estava apagado na cama da sala de descanso, após passar a madrugada inteira se entupindo de açúcar e infernizando os estagiários. Soltei uma risada divertida, notando que o dia parecia mais colorido que o comum. Ela me contou sobre os pacientes e, também atualizou sobre o estado da Border Collie.
Um alívio dominou o meu peito ao escutar que mostrou interesse nos petiscos de carne. Pouco, mas era o grande começo da sua batalha.
Madisson finalizou, contando que havia enviado o meu número para os outros veterinários da região, a fim de tratarem sobre assuntos burocráticos diretamente comigo. Agradeci a ela por segurar as pontas, enquanto estivesse fora – pelo menos sabia que os animais estavam em ótimas mãos.
Guardei o aparelho e troquei a música, batucando os dedos conforme a batida. Um sorriso largo e inebriante dominou meu rosto assim que assisti a mulher de cabelos escuros atravessar a rua, carregando apenas uma sacola. Meu coração passou a bater mais rápido a cada passo dela, era como se nunca tivesse a visto antes.
entrou no carro e devolveu o cartão, já buscando pelo cinto de segurança. E graças a sua voz, parei de olhá-la igual a um maníaco. Retirou duas barras de proteína da sacola, junto de um copo transparente com rótulo de alguma coisa natural. O líquido rosa me chamou a atenção. Franzi o cenho assim que deu uma mordida generosa no cereal e soltou o “hummm” mais satisfeito que já tinha ouvido.
— Como você consegue comer isso? É tão sem graça. — quis saber, dando a partida no veículo.
— Do mesmo jeito que você gosta de comer gordura saturada. — deu de ombros, enfiando o canudo na tampa do copo.
Rolei os olhos e soltei um risinho no canto dos lábios.
, o cartão tem limite para comprar o supermercado inteiro e escolheu logo isso? Por que não pegou um lanche natural e um suco de laranja? — eu conseguiria viver com o fato dela gostar de comer alimentos saudáveis, feito um coelhinho. Mas isso já era demais.
— Porque não tinha lanche natural. E depois do suco de laranja azedo, fiquei traumatizada. — tomou o que parecia ser um shake de proteína e soltou outro “hummm”. — Isso é maravilhoso, deveria experimentar. — estendeu e neguei com a mão.
— O que é isso? — olhei para os lados, esperando o momento certo para atravessar a avenida.
— É um smoothie proteico. — deu outro gole e leu o rótulo: — Feito com leite de amêndoas, whey protein, banana e açaí. — ofereceu e dessa vez aceitei, bastante curioso para descobrir o sabor daquilo.
O plástico estava gelado, pequenas gotículas molhando meus dedos. Hesitei por um segundo, o cheiro adocicado de banana possuía uma sutil nota terrosa do açaí invadindo as narinas. Balancei o copo, assistindo o líquido rosa se misturando, uma cor vibrante e completamente diferente de tudo o que costumava engolir.
Pelo canto dos olhos, me encarava quase vibrando de ansiedade e por isso, mordisquei o canudo, dando um gole cauteloso – temia que o gosto fosse pior do que estava imaginando. E para a minha surpresa, a cremosidade era aveludada, uma massa macia, fria e satisfatória. O sabor inicial era do doce da banana e o fundo levemente amendoado pelo leite.
O gosto do açaí foi a parte mais estranha, dando o toque sofisticado, equilibrando o doce. Saboreei cada gota, girando o volante com apenas uma mão. Bebi mais um pouco, notando que ficava melhor a cada segundo.
Olhei para a coelhinha, encontrando a expectativa e o sorriso sincero no rosto angelical.
— Sinto falta do leite condensado no açaí. — devolvi o smoothie. — É estranhamente bom. Tem gosto de saudável e a textura parece com as fórmulas que damos para os filhotes na clínica.
riu e estapeou meu ombro. O som leve me atingiu como uma onda de calmaria e conforto.
— Viu, não é tão ruim assim. — colocou a mecha teimosa atrás da orelha e se recostou no banco, aproveitando a bebida.
O sorriso divertido repuxou meu rosto e virei a cabeça para encará-la. Os olhos caíram, irresistivelmente, no canto sujo da sua boca. E sem pensar, estendi o braço, limpando com a ponta do polegar. paralisou, acompanhando cada movimento. O contato breve a fez prender a respiração e suas bochechas coraram assim que levei o dedo aos lábios, saboreando o resquício doce.
— Tem razão, não é ruim. — minha voz saiu rouca, e quis acrescentar que ficaria melhor ainda se tivesse de limpar o seu corpo inteiro, sujo com smoothie.
recobrou a consciência, disfarçando o rubor e o nervosismo ao se concentrar em beber o resto do shake. Por um instante, o silêncio nos rodeou, quebrado apenas pela batida animada da música, até o momento que ela decidiu trocar de assunto.
— Como estão os animais resgatados? — mordiscou a barra de proteína.
— Estão bem. — troquei a marcha, desacelerando. — Conversei com os outros veterinários da cidade e estamos planejando fazer uma feira de adoção.
— O Dante me disse que vai ter um parque de diversões na próxima semana, seria uma ótima oportunidade para fazer a feira.
Apertei as sobrancelhas, a mandíbula apertada com força. Os dentes rangeram a cada vez que minha mente repetiu aquele nome. Um calor estranho e agressivo, se espalhou pelo meu peito, fechando a garganta.
— Quando viu o Dante? — fui direto, parando o carro no sinaleiro. Pouco me importei com a voz grave e quase cortante.
— Greta e eu fomos na feira perto de casa. Levamos a Mia para passear e o encontrei praticando exercícios. — abaixou a cabeça por um instante. De relance, a vi que morder o lábio inferior. — E... Ele me chamou para sair. — ergueu o rosto, os olhos castanhos fixos nos meus.
Engoli em seco e segurei o volante com força, os nós dos dedos ficaram brancos contra o couro. As veias grossas saltaram dos antebraços como se fossem consumidas por uma raiva repentina que possuía cada célula do meu interior. A euforia retumbava com violência no peito, batendo igual a um tambor de guerra, as garras ameaçavam rasgar as costelas.
— E o que disse a ele? — as palavras saíram antes que pudesse evitar, e no fundo não sabia dizer se queria ouvir aquela resposta.
— Não falei nada ainda. — mordeu o canudo, a testa levemente franzida.
Limpei a garganta, buscando a coragem do submundo. Fechei os dedos novamente em volta do volante, a força física me incentivando a perguntar antes que fosse corroído.
— Você quer sair com ele? — meu coração se apertou por alguns segundos que pareceram horas.
De repente, o pavor de ser rejeitado voltou com força, um soco gélido no estômago.
tocou minha perna por cima da calça jeans, os dedos apertando suavemente. Aproximou-se devagar, parecendo temer minha reação, os olhos presos nos meus, intensificando ainda mais os batimentos cardíacos que poderiam me levar ao infarto.
— Confesso que depois de você me deixar sozinha no meu aniversário, pensei em sair com ele. — sussurrou baixo. — Quis me vingar. — sua boca sequer tremeu ao confessar. O tom honesto desarmou parte da aflição.
— Muito infantil a propósito. Mas... O que a fez mudar de ideia?
Ela mordiscou o canto dos lábios, soltando um pequeno risinho que me arrepiou por inteiro. Minha pele vibrou reagindo a ela.
— Eu não sinto nada quando estou perto dele, ao contrário, de quando estou com você.
Fui pego de surpresa e prendi a respiração.
— E o que sente quando está comigo? — quis saber, a voz baixa e quase inaudível, aproximando mais nossos rostos.
— Sinto que o meu corpo vai entrar em combustão com apenas um único toque seu. Você acende partes minhas que sequer sabia serem possíveis.
Por um instante, minha única reação foi entrar em choque. Os sentidos em guerra. Os pelos se eriçaram como se antecipassem o perigo iminente. A revelação me atingiu como o estalo seco de um trovão, a imagem dela consumindo toda a angústia que ainda sentia.
Encarei o exato momento em que entreabriu os lábios para falar alguma coisa, e foi interrompida pela minha mão a puxando pela nuca. Minha boca tomou a sua com urgência. Sua mão livre segurou em meu ombro e aprofundei o beijo, recheado de uma fusão ardente e descontrolada. Queria devorá-la ali mesmo, no meio do trânsito. Mostrar que ela também me incendiava por inteiro.
O gosto do açaí nunca foi tão viciante e delicioso. Gemi contra a sua boca, sentindo a urgência da sua língua faminta e isso me incentivou a puxá-la mais para mim. Enrosquei os dedos em seus cabelos macios, os olhos fechados, o mundo se resumindo apenas ao calor e o toque dela.
Porra. prometeu me enlouquecer e estava cumprindo perfeitamente o seu papel.
E estava prestes a avançar sobre ela, quando o som estridente e furioso de uma buzina cortou a atmosfera eletrizante. Afastei-me bruscamente, batendo a cabeça no teto do carro, enquanto se encolheu no banco completamente ofegante, os olhos arregalados de susto. Rapidamente olhei para trás e encontrei o motorista de um SUV preto, reclamando, a mão gesticulava com violência.
— Que merda! — xinguei, encarando o sinaleiro verde.
Recuperei a postura e troquei a marcha, as mãos trêmulas. Acelerei, o rubor subindo levemente até as orelhas, mas isso não impediu que o sorriso divertido preenchesse meus lábios. Já começou a rir nervosamente, um tom de constrangimento que constatava com o rosto vermelho e a boca inchada.
— Acho que quase causamos um engarrafamento por causa de um... — olhei para ela, notando ser incapaz de nomear o que tínhamos feito.
— Um momento de combustão? — completei, o sorriso malicioso se alargando mais e mais.
Ela balançou a cabeça, os ombros subindo e descendo.
— Tivemos sorte de não ser a polícia. — ela murmurou, ainda rindo.
Os próximos minutos se resumiram a uma atmosfera calma e zombeteira, com criando cenários imaginários caso a autoridade tivesse aparecido e nos acusando de atentado ao pudor. A incentivei a deixar sua mente criativa fluir, me deliciando com as risadas mais escandalosas e sinceras que já tinha ouvido.
E como era bom vê-la daquele jeito. Leve, relaxada, livre. O alívio penetrava pelos meus poros, o peso dos ombros desaparecendo. Finalmente tendo a certeza de que poderia beijá-la, sem precisar temer a sua reação depois.
Viramos a esquina e finalmente chegamos à creche. Estacionei na frente, já varrendo o lugar com os olhos. Através das grades do portão, conseguia ver o pátio central, extenso e cheio de crianças brincando e correndo. As árvores de troncos finos decoravam o ambiente, tornando a área do parquinho mais fresca.
O edifício tinha o estilo arquitetônico simples e aconchegante, com dois andares. As cores primárias eram fortes. O vermelho vivo pintava as paredes da parte de baixo, enquanto o amarelo brilhante a de cima. O contraste perfeito com as portas coloridas das salas de aula.
Era um lugar que transpassava alegria e energia, ainda mais com o céu azul intenso ao fundo.
Desci do veículo e apressei-me em abrir a porta para . Ela agradeceu com um sorriso que remexeu algo dentro de mim. E ao sair, enquanto arrumava o vestido, a brisa travessa soprou seus cabelos escuros e o aroma adocicado do perfume me atingiu em cheio. Fechei os olhos, inalando o ardor da romã e da verbena.
Uma explosão invisível desconcertou meus sentidos, os consumindo. O coração não batia, ele tropeçava em um ritmo insano. Minha alma e toda célula do corpo regia a presença dela.
Fixei os olhos sobre aquela mulher belíssima. Inclinei ligeiramente a cabeça, os lábios se repuxando em um sorriso pequeno, quase tímido – completamente hipnotizado por sua beleza. Ela tentava ajeitar os fios revoltos que caiam em seu rosto, uma cena simples, mas que me fascinava profundamente. Era como se o tempo parasse e existisse apenas ela.
Meu cérebro voltou a órbita quando passou a caminhar em direção ao portão, exalando toda sua feminilidade inebriante. Suspirei de desleite, seguindo cada passo de perto, ao ponto dos nossos dedos se tocarem brevemente. Paralisei e engoli em seco ao sentir a corrente elétrica percorrer pelo meu braço, encarei a pele arrepiada e depois a procurei pelo pátio.
Ela pareceu não notar o incidente. Então, o que estava acontecendo comigo? Por que meu corpo inteiro queria entrar em curto-circuito somente de estar perto dela?
— Ah! Ainda bem que vocês chegaram. — a mulher baixinha levantou-se rapidamente do sofá, assim que chegamos no hall de entrada.
acelerou os passos, correndo para perto da professora que usava uma camiseta branca e calça preta, o avental temático de bichinhos sendo o símbolo da infância. Mia estava em seu colo, a cabeça tombada sobre o ombro dela e mordiscava o próprio dedo. O rostinho vermelho e os olhos inchados fizeram o nó se apertar na minha garganta.
— Aconteceu alguma coisa com a Mia? Ela está machucada? — a coelhinha disparou, a voz alta e carregada de preocupação.
Levei a mão para o meio de suas costas, oferecendo apoio, na tentativa de acalmá-la.
— Na verdade, ainda não. Mas creio que hoje será uma noite complicada para vocês. — Emma contou, arrumando os fios finos da cabeça de Mia. — Na hora do lanche, ela recusou até o suco e notamos que o rostinho estava um pouco inchado, especialmente nessa área. — apontou para a bochecha direta, onde havia uma leve protuberância. — Ela começou a chorar e não parava de chamar pelo pai.
Estremeci ao imaginar minha pequena com dor e imediatamente venci a distância entre nós, a envolvendo nos braços. Seu corpo pequeno se aninhou contra meu peito, sua mão agarrou firmemente o tecido da minha camiseta, choramingo baixinho. Acariciei delicadamente seus cabelos loiros, depositando um beijo em sua testa.
— Do… dói… papa…
— Papai está aqui, meu amor, está tudo bem. — resvalei os dedos pela bochecha e senti a pele mais quente que o comum. — Ela está com começo de febre.
— Acho melhor levá-la ao pediatra. — sugeriu, agarrada em meu braço, os olhos fixos em Mia.
Assenti com a cabeça, tenso. Temia que fosse algo grave, não conseguia suportar vê-la sofrendo.
Antes de irmos, Emma nos orientou a monitorar a temperatura de hora em hora e a usar analgésicos sem medo, caso a médica receitasse. Ela desejou melhoras para Mia e boa sorte para nós, aproveitando o momento para dizer que o nascimento dos segundos molares costumava ser uma das fases mais sofridas das crianças.
Agradecemos por todo o cuidado e aceleramos os passos até o carro. Por sorte, Mia não reclamou quando a coloquei no colo de e assim pude me concentrar em dirigir o mais rápido possível até a clínica pediátrica. Durante o caminho, meu peito se apertou e me senti impotente ao ver as mulheres da minha vida, encolhidas no banco, sem poder fazer nada para ajudá-las.
Naquele instante, desejei incontrolavelmente que a dor das minhas duas coelhinhas desaparecesse.

Capítulo 28


Se antes me perguntasse qual era o pior sentimento do mundo, responderia ser a tristeza. Depois viria a raiva e por fim, o medo. Mas agora, descobri aquele capaz de me fazer tremer e ao mesmo tempo sentir meu coração se dilacerar aos poucos, como se fosse arrancado lentamente, rasgado pela ponta da faca mais afiada do universo.
Impotência.
Segundo os estudiosos, era um sentimento profundo, que surge pela falta de controle, poder ou a capacidade de agir diante de situações. Junto sentimos medo, desespero e a frustração no nível mais superior. E era exatamente assim que me sentia naquele momento, sendo capaz apenas de segurar as lágrimas, enquanto via minha pequena chorar no meu colo.
— Calma, meu amor... — pedi, acariciava seus cabelos e balançava os braços, ninando-a. — Eu sei que dói e me corta o coração te ver assim. — minha voz fanhosa não ajudava em nada.
— Papa... Q-quelo o papa... — essas eram as únicas palavras que ouvia a mais de vinte minutos.
— O papai já está vindo, pequena. Espere só mais um pouquinho. — nem eu acreditava nisso, quem dirá ela.
Comecei a cantarolar uma música infantil baixinho, o coração apertado por vê-la naquele estado. Segurei sua mão minúscula, acariciando a palma suavemente. Minha mente rodava desenfreada atrás de uma solução, não querendo que Mia sofresse mais nenhum segundo pela gengiva inchada.
Listei todas as opções na cabeça, descartando as dicas que Dante havia dito no parque. Nem mesmo as melancias e os mordedores gelados estavam funcionando. E tudo o que me restava era uma imensidão vazia. Massageei a testa, soltando um suspiro de frustração. O choro aflito, os berros intensos dominando cada canto da sala.
Depois que saímos da creche, fomos direto para a clínica pediátrica. Por sorte, a médica nos atendeu assim que cruzamos a recepção – mesmo que fosse o final do seu expediente. Ela realizou todos os exames necessários e nos tranquilizou quanto a febre, que por ser baixa era considerada normal. Mas pediu que continuássemos a monitorar, caso aumentasse significaria algo mais grave.
Também fomos orientados para administrar o analgésico que ajudaria aliviar a dor intensa da gengiva. E recebemos dicas úteis para sua alimentação: frutas amassadas, picolés caseiros e até mesmo iogurtes ou pudim. A única exigência que fossem gelados.
O problema era que nada funcionou e Mia estava ficando mais agitada que o comum.
Aflita, peguei o celular no meio das almofadas. Deslizei o dedo e fui rápida em digitar outra mensagem para . Talvez, na clínica existisse um método especial para os filhotes. Balancei a cabeça, decidida a enviar a pergunta, porque nada poderia ser pior do que ficar ali parada, esperando. Era uma criança chorando compulsivamente contra uma mulher adulta desesperada e o gato preguiçoso, que dormia confortavelmente ao nosso lado no sofá.
Encarei o horário na tela. Quase final da tarde e nem sinal de e Greta. Ambos haviam saído para buscarem os remédios receitados e depois passariam no mercado para abastecer a geladeira. Eu só não imaginei que fossem demorar tanto.
Cansada de ficar parada, olhando minha pequena desmoronar em lágrimas, pensei em ir para a cozinhar pesquisar algo de útil no notebook. Sky ergueu a cabeça assim que levantei. Espreguiçou-se e nos seguiu. Sentei-me na primeira banqueta em frente ao balcão, ainda balançando os braços. O felino se acomodou ao lado da máquina e começou a escovar os pelos sedosos com a língua.
— Tudo bem, Mia. Primeiro, vou colocar o seu desenho favorito. — abri a tampa, deslizando o dedo pelo touchpad. — O dinossauro roxo. — aumentei o som e deixei que o vídeo fosse transmitido no quadro minúsculo no canto inferior, apenas para ela assistir.
E enquanto iniciava uma nova aba para as pesquisas, notei que o choro incessante foi parando gradativamente. Olhei para Mia e a encontrei mordiscando o próprio dedo, os olhos claros concentrados na tela. Deixei um sorriso se alargar, depositando um beijo no topo da sua cabeça. Finalmente poderia respirar com calma.
Pelo menos foi o que pensei até o ouvir o estrondo e o pequeno grunhido, semelhante a um pombo. Fechei os olhos com força, o rosto se contorcendo em uma careta. Mia desviou a atenção do desenho, os berros retornando com vigor total. Lentamente afastei as pálpebras, mirando o felino insolente debruçado sobre o balcão, admirando o porta-talheres de inox girando no chão da cozinha.
— Você não tinha uma hora melhor para derrubar isso? — disparei entre os dentes, a voz grave e profunda.
Ele girou a cabeça e emitiu outro grunhido. Atrevido, a pata peluda passou a empurrar o frasco de vidro de uma das velas aromáticas – a única sobrevivente.
— Não ouse. Se está frustrado, a vela não tem culpa. — apontei o dedo em riste e em resposta, ele empurrou mais um pouco.
A tensão se acumulou nos ombros, enquanto apertava a borda do balcão. Estive prestes a levantar para enxotá-lo dali, quando a porta da sala se abriu e o felino teve sua atenção desviada. Sky saltou e correu para receber os visitantes, o rabo balançando como uma afronta. Balancei a cabeça, desacreditada com sua atitude malcriada.
Retornei as tentativas inúteis de acalmar a minha princesa. Xingava mentalmente o bichano a cada soluço, quando o aroma amadeirado preencheu a cozinha. Soltei o ar preso nos pulmões, meu peito se aquiescendo. Fiquei aliviada por ter alguém com quem compartilhar o fardo. O peso nas costas desapareceu assim que ouvi os passos se aproximando, o barulho das sacolas sendo deixadas sobre o balcão e a mão de Greta repousar sobre meu ombro.
Encostei a cabeça no braço da governanta, permitindo sentir o alívio momentâneo. Ela distribuiu um carinho terno nos meus cabelos. E em seguida, se aproximou, seu corpo se inclinando com cautela. Mia arregalou os olhos inchados e vermelhos assim que o viu, já estendendo os braços em um apelo mudo. Franzi o cenho ao vê-lo a pegar no colo, a aconchegando contra seu peito, um gesto que parecia natural.
E então, o choro foi ficando cada vez mais baixo.
As lágrimas se acumularam no canto dos meus olhos e pisquei rapidamente. O soluço escapou por entre os lábios, assim que o pensamento mais óbvio me invadiu. Meu coração se apertou, ao mesmo tempo em que se aqueceu. Mia só queria o calor e a proteção dos braços daquele que sempre a mimou. A sua pessoa favorita desde que nasceu.
— Ela acha que você é o pai dela. — comentei, a voz embargada.
levantou a cabeça, os olhos azuis arregalados e as sobrancelhas arqueadas. Talvez, sua ficha finalmente caindo, como a minha.
— Mas, eu não sou o pai dela. Quer dizer... Não o de verdade. — abaixou a cabeça, visivelmente a mandíbula tencionada.
Ele voltou a olhar para a pequena, dessa vez com uma doçura dançando ao redor das pupilas. Em outra ocasião, poderia julgá-lo como rude, mas ali, entendia que era apenas o seu modo de lutar contra os próprios pensamentos.
Era um assunto delicado que nunca tivemos a chance de discutir abertamente.
— Você é a figura paterna dela agora. — segurei a mão de Greta em meu ombro, a direcionando um sorriso tímido. — A Lily sempre dizia que o Noah tinha um dom mágico para acalmar a Mia, não é?
Greta assentiu, os lábios se curvando como se estivesse tendo uma memória doce.
— E, agora, é você quem tem esse poder. — ela revelou e vi engolir em seco. — Uma vez, li que as memórias dos bebês são como borrões. A Mia não se lembra exatamente do pai, mas quando o vê, é como se uma parte do Noah ainda estivesse aqui.
apenas sorriu em silêncio, um movimento terno, carregado de profunda emoção. Deixou um beijo na lateral da cabeça de Mia, antes de puxar delicadamente a mãozinha dela e depositar outro em sua palma. Greta e eu apenas olhamos, completamente encantadas pela cena de carinho entre os dois.
Meu coração deu um solavanco. a olhava com tanta devoção que o momento se tornou mágico. E ao mesmo tempo em que quis correr para os seus braços e beijá-lo até o ar nos faltar, entendia que havíamos acabado de avançar mais um passo em nossa família, como se somente naquele instante, estivéssemos assumindo nossos verdadeiros papéis de guardiões.
— Ela ainda está um pouco quente. — ele murmurou, o tom de voz preocupado, tocando a testa de Mia.
A governanta estalou os dedos, finalmente voltando a órbita. Correu na direção das sacolas de compras.
— Trouxemos o remédio que a pediatra receitou. — vasculhou as sacolas em busca da caixa pequena.
Girei a cabeça, as sobrancelhas arqueadas.
— Não é melhor ela comer primeiro? — encarei , igual olharia para o gênio da lâmpada. — Tentei oferecer melancias, mas sem sucesso. — pressionei os lábios em frustração, cruzando os braços sobre o peito.
suavemente remexeu os braços, oferecendo mais conforto para Mia. Seu rosto retorcido pareceu ter uma ideia.
— Na clínica, usamos compressas mornas para baixar a febre dos filhotes. Podemos tentar um banho morno, enquanto a Greta prepara a sopa que compramos no mercado. — sugeriu.
— Acha que pode funcionar? Ela... Bem... Não é um cachorrinho. — levantei os ombros e fiz uma careta cética.
Ele semicerrou os olhos, um brilho divertido no olhar.
— Meu celular está lotado de mensagens suas, perguntando se fazemos alguma coisa com os filhotes nessa fase. Não julgue minhas ideias agora. — ditou firme, mas com um leve tom de zombaria.
Ergui as mãos em rendição e depois desliguei o notebook, já me preparando para subir as escadas.
— Então como pretende fazer isso? Usamos a banheira dela? — levantei-me, indo em sua direção.
— Pensei em usar o chuveiro, você poderia entrar com ela e dar o banho morno.
— Podemos tentar, e enquanto isso você ajuda a Greta.
assentiu e venceu a distância que nos separava. Moveu as mãos com leveza, tentando fazer com que Mia aceitasse ir para o meu colo. Ela se agarrou firme na camiseta de linho, emitiu um som enraivecido, ameaçando chorar caso continuasse a insistir. Sem sucesso, apenas a observei esconder franzir o rosto em contragosto.
— Acho que ela fez a escolha dela. Será o papai. — soltei um risinho divertido.
As pupilas de se dilataram, a respiração falhou e o tique nervoso na mandíbula denunciou o seu pânico. Imediatamente, levei a mão até seu ombro esquerdo e acariciei suavemente, sentindo a musculatura tensa sob meus dedos. Busquei pelos olhos claros e olhei dentro deles, transmitindo um claro sinal de apoio.
— Não se preocupe, eu vou te ajudar. — garanti. Por dentro, bastante ansiosa para vê-lo, finalmente, assumir seu papel na paternidade.
A tensão pairou no ar e sabia que estava morrendo de medo de encarar aquela tarefa, por isso ficaria em seu encalço a todo momento. Mia se aninhou contra o seu pescoço, enquanto subíamos as escadas e aproveitei a posição dela para fazer algumas caretas divertidas, a fim de lhe arrancar um sorriso. Como esperado, nada aconteceu e novamente fui atingida pela frustração.
Atravessamos o corredor, indo para o quarto dela onde separei as peças de roupas e as levei para o quarto principal. se movia com cautela, cada passo parecendo um desafio. Ao chegar na suíte, preparei a banheira cor de rosa – optamos por usá-la, já que o chuveiro poderia assustá-la com os jactos agressivos.
No entanto, Mia se recusou a colaborar, então tivemos de improvisar. Pedi para que ele ficasse com ela dentro do box, apenas a segurando, enquanto eu jogava a água morna da banheira com auxílio de um pote que encontrei no armário da pia. Nossas roupas ficaram encharcadas, um detalhe que não nos incomodou já que estávamos preocupados demais com a saúde da pequena.
Após o banho, a enrolamos na toalha cor de salmão e seguimos para o quarto. Por sorte, a água morna pareceu relaxá-la e consegui tirá-la dos braços de sem a resistência de antes. E enquanto ele se encarregou de arrumar o banheiro, minha missão foi vesti-la com o macacão de bichinho que a transformou numa raposinha, a touca com orelhas pontudas dando o charme fofo.
Sorri, depositando um beijo em sua testa. Mia remexeu os braços, os olhos claros arregalados como se buscasse por algo. Entreguei a ela o mordedor em formato de mão, e imediatamente foi levado até a boca. Aproveitei a calmaria para aferir sua temperatura, peguei o termômetro infravermelho e apontei a testa, esperando alguns segundos até que os números aparecessem no visor.
Soltei a lufada de alívio ao ver que a febre tinha cessado. Agradeci aos deuses por ter um veterinário competente ao meu lado que pensou no banho morno, assim não teríamos que medicá-la com o remédio amargo – apesar de ainda termos que ficar atentos caso voltasse a ficar quente.
Rapidamente, troquei minhas roupas molhadas, optando por uma blusa branca larga e um short preto. Arrumei os cabelos em um coque frouxo, pronta para a missão mais importante: alimentar minha filha com a sopa de legumes, nutritiva e deliciosa que Greta se encarregou de preparar.
surgiu do banheiro, a camiseta e a bermuda coladas ao corpo de tão molhadas. Sua testa carregava algumas gotículas de suor, os fios loiros-escuros grudados ali e o semblante parecia carregado. Arquei a sobrancelha, o analisando de cima a baixo. Mesmo com o estado deplorável, meu corpo traiçoeiro insistia em querer agarrá-lo, minhas mãos formigando para deslizar por toda musculatura forte.
Deixei o risinho escapar e tratei de cobrir a boca com a mão assim que seu olhar me fuzilou. Céus, ele era lindo demais.
— Parece que você foi atropelado por um caminhão. — zombei, envolvendo Mia nos braços.
— Ser pai é complicado. — deu de ombros, fechando a porta da suíte.
Mordi o lábio inferior, segurando a risada.
— Por que você está reclamando, se eu que fiz todo o trabalho? —fingi estar ofendida.
Ele caminhou em nossa direção e franziu o cenho ao ver o macacão de bichinho que coloquei em Mia. Seus olhos foram dela para mim. E pela primeira vez, naquele dia, a pequena soltou um risinho, se divertindo com a careta de confusão no rosto dele.
— Por que a vestiu com isso? — quis saber, acariciando a bochecha da filha.
— Porque foi a primeira coisa que achei no guarda-roupas. — dei de ombros, ajeitando a touca na cabeça dela. — Olha essas orelhinhas.
Minha boca se curvou em um sorriso divertido e só então reparei que me encarava com a expressão carrancuda, parecendo diante de uma mulher problemática. Os braços cruzados em frente ao corpo já denunciavam sua desaprovação.
— Qual é o problema? Ela ficou ótima de raposa. — Mia se remexeu em meu colo, aprovando a ideia.
— Isso é quente demais, . — apontou para a roupa felpuda. — Você vai cozinhá-la viva.
Rolei os olhos. Ele não poderia estar falando sério.
— Não seja dramático. É um conjunto fino. — justifiquei, obrigando-o a tocar o tecido. — Viu? Pare de procurar problema onde não tem. — fui impulsiva, dando um peteleco em sua testa. — Tome um banho, enquanto levo essa princesa para comer a melhor sopa do mundo.
Sem hesitar, sai do quarto, rumo a cozinha. O delicioso aroma de comida me atingiu, de modo que se fosse um desenho animado, sairia flutuando atrás da fumaça branca. Meu estômago roncou alto, faminto ao ver a travessa cheia com carne de panela e batatas sobre a mesa. Ao lado havia a panela com arroz e uma bacia com salada de alface. Minha boca salivou, tornando-se um oceano.
Mas, a fome ficaria para mais tarde.
Acomodei Mia na cadeirinha de alimentação. O prato de plástico em formato de urso, já a esperava, cheio com o caldo colorido. E assim que minha mão alcançou a cadeira ao lado, o toque gentil de Greta repousou sobre meu ombro. Ela se ofereceu para ajudar e até tentei argumentar, sendo inútil.
— Querida, você já fez o bastante. Agora, vá alimentar o dragão que vive no seu estômago. — ordenou feito um general.
Assenti mesmo a contragosto, a obedecendo. Apressei-me em montar o prato com uma montanha de salada e a carne de panela assada com batatas. O cheiro delicioso me sufocava. No entanto, quando estava prestes a me deliciar com o sabor da comida, o garfo congelou no ar. Engoli em seco, quase engasgando com a visão que surgiu na entrada da cozinha.
invadiu o cômodo, completamente seco. O cabelo escuro ainda úmido, o semblante letalmente renovado. Vestia apenas uma calça de moletom cinza; o tronco nu como uma estátua grega perfeitamente esculpida ainda carregava pequenas gotículas de água. A cada passo lento, os músculos do abdômen se contraíam, brilhando perigosamente sob a luz branca da cozinha.
Porra.
Desviei o olhar, só então notando a bola peluda em dos seus braços. Os dedos longos coçavam atrás das orelhas pontudas, o ronronar do felino preenchendo o silêncio. E por um instante, senti um gemido subir pela minha garganta ao ver aquele homem se virar de costas para a mesa, expondo a musculatura forte, enquanto enchia o pote de ração de Sky.
Ao fundo, Greta soltou um comentário que arrancou uma risada sincera de . Estava tão anestesiada, admirando a curva brutal dos ombros e o dorso definido, que não escutei nenhuma palavra. Tensionei a mandíbula, forçando meus olhos de volta para o prato.
Tentei recuperar a dignidade que havia feito as malas e me abandonado, quando meu celular vibrou em cima da mesa.
Agarrei o aparelho e, imediatamente, o corpo inteiro estremeceu ao ver a notificação da meteorologia. Fui atingida por um soco no estômago. Minha boca secou, a garganta arranhou. Na tela, a imagem fictícia das gotas caindo do céu escuro me afrontou. Rolei o dedo, o calafrio subindo pela espinha ao ler que em menos de uma hora, Nova Jersey seria afogada por uma chuva estrondosa.
De repente, tudo ao redor desapareceu, a fome morreu e me encontrei caindo em um abismo escuro, sem fim. Meu coração começou a bater descontroladamente, esmurrando as costelas em completo desespero. Como se não bastasse a preocupação com Mia e a agonia dos hormônios por aquela criatura a poucos metros de mim, ainda teria que enfrentar uma tempestade que me abateria em poucos minutos.
Maldita hora para o universo brincar com o meu desespero.

Capítulo 29


A dor cortante arrepiou cada pelo do meu corpo. A fisgada subiu do dedo indicador e se alastrou como veneno, dominando cada célula pelo caminho. O ar dos pulmões faltou e mordisquei a pele na lateral do polegar. Depois passei a roer a unha já curta, com uma ferocidade desesperadora.
De um lado para o outro, as pernas se moviam em círculos. A mente, prestes a entrar em colapso, gritou para que me isolasse. E foi isso o que fiz, mergulhando nas profundezas do quarto que seriam o meu consolo. Precisava estar bem para assumir as responsabilidades como mãe – algo que pensei ser impossível de fazer naquela noite.
Lembro-me de ter levantado tão rápido da cadeira que quase a deixei cair. Com a desculpa de que precisava tomar o remédio de alergia, subi as escadas às pressas. O peito retumbava, um tambor de guerra. O coração esmurrava os ossos com violência, querendo saltar para fora e correr em busca de um abrigo seguro. Invadi o quarto principal e fiquei ali, longos minutos, parada à mercê do pânico.
Os dedos da mão esquerda, trêmulos e suados, espremiam o celular com força. Ao sentir a vibração, encarei a tela. O grande aviso da meteorologia saltou, emitindo o alerta da possibilidade de granizo, ventos intensos e queda de energia na região. Além disso, a recomendação para se abrigarem em locais seguros, longe de árvores e campo abertos parecia uma sentença de morte.
Oh, céus... Só poderia ser um pesadelo.
Fechei os olhos com tanta força que a testa deu uma pontada. Puxei e soltei o ar devagar, contando mentalmente até o número três. Desejei que a notificação desaparecesse ou fosse falsa. Mas quando tomei coragem para novamente encarar o aparelho, duas batidas controladas na porta me fizeram dar um salto no lugar.
O soluço escapou pela garganta. Controlei as lágrimas que ameaçaram rolar pelo susto. Virei-me assim que ouvi as dobradiças rangerem, a madeira se abrindo em uma pequena fresta. O rosto de surgiu, másculo, com uma ruga de preocupação na testa. Ele segurou a maçaneta, decidido a não avançar a linha do quarto.
Arqueou as sobrancelhas, os olhos azuis escrutavam meu rosto pálido, tentando decifrar cada traço carregado de pavor.
— Está tudo bem?
Seu corpo lentamente se moveu para dentro, e só então notei que havia vestido uma camiseta branca.
— Sim... — tentei soar segura, a voz saindo por um fio.
Corri na direção da janela e puxei as cortinas, os vidros finalmente desaparecendo graças ao tecido grosso e escuro. Suspirei, os ombros caindo para a frente. Os dentes retornaram a roer as unhas até a carne. E meus pés foram incapazes de se mexer, por isso fiquei ali, parada feito uma estátua. Os olhos perdidos, sem brilhos, tomados pelo medo.
Estremeci ao sentir o toque quente, pesado e protetor sobre as laterais dos braços. Os dedos deslizaram em um carinho terno, suave e lento. O breve roçar desencadeou um formigamento elétrico, sendo uma faísca em meio ao caos. Fechei os olhos, o ar saindo pelos pulmões em um suspiro longo. Não aguentava mais carregar aquele fardo sozinha e a sua presença era um bálsamo, forte o suficiente para me fazer desmoronar.
Os cantos dos meus olhos transbordaram, as gotas grossas rolaram pesadas pelas bochechas. A garganta embargou, tornando impossível de respirar. Solucei feito uma criança abandonada, meu corpo inteiro balançava em desespero.
— Também recebi o alerta, . Por isso precisava vê-la. — revelou, continuando o carinho que me mantinha ancorada.
Arfei, virando-me para encará-lo. E ao encontrar o oceano acolhedor dos seus olhos, foi como ser baleada por uma dose de morfina. O choro aumentou. O peito, misteriosamente, doendo menos a cada soluço.
— E-eu.... T-tenho medo d-da chuva. — gaguejei.
me estudou com uma atenção quase científica. Delicadamente, limpou as lágrimas com os polegares. Envolveu meu rosto com as mãos, se aproximando para sussurrar de modo que só eu conseguisse ouvir:
— Eu sei disso. Por isso, estou aqui. — e foi nesse exato momento que a energia falhou.
O grunhido assustado saiu por entre os lábios e, institivamente, me agarrei a ele com desespero. Meus braços envolveram seu corpo largo. Escondi o rosto contra o peitoral duro, as pernas bambas como gelatina. As luzes piscavam sem parar, criando uma agonia que antecedeu o som estrondoso que reverberou do lado de fora.
Foi como ser jogada de volta naquele asfalto imundo de Nova York. Sozinha, desesperada e a pele pegajosas pelos toques imundos.
O trovão brutal chacoalhou as paredes, fazendo-me tremer mais e mais. Os soluços aumentaram, o ar faltou nos pulmões. me apertou com os braços, oferecendo proteção e um abrigo impenetrável. Ofegante, ergui a cabeça, apoiando-a sobre seu ombro, de modo que o nariz roçasse contra o seu pescoço.
Inspirei lentamente, o perfume amadeirando inundando as vias aéreas, estranhamente acalmando os demônios que gritavam em minha mente. Repeti o movimento, até que finalmente conseguisse respirar sem dificuldade e o coração passasse a bater mais devagar. O seu cheiro se assemelhava ao desejo que tive de terem me acolhido naquela noite; era como se minha mente recriasse o passado e me encontrasse após o ataque.
— Eu estou aqui com você. — suas mãos voltaram a segurar o meu rosto, obrigando-me a olhá-lo. — Está tudo bem. É só uma chuva. — fechei os dedos ao redor dos pulsos grossos, querendo sentir o seu calor. — Ninguém vai te fazer mal, enquanto estiver comigo.
Funguei, os lábios trêmulos.
— P-promete?
— Sempre, coelhinha. — beijou minha testa com uma ternura avassaladora, e tudo o que conseguia fazer foi apreciar o toque macio dos seus lábios.
Puxei o ar e voltei a abraçá-lo, aconchegando o rosto em seu peito. apoiou o queixo no topo da minha cabeça, os dedos deslizando pelo cabelo. Fechei os olhos, apreciando o carinho, ao mesmo tempo em que ouvia o tum-tum-tum do seu coração.
A calmaria brevemente nos rodeou, e bastou apenas ficarmos em silêncio para que os pensamentos pessimistas me afligissem. O nó se formou na garganta, e tudo o que consegui fazer foi suspirar.
— Como posso ser a mãe que a Mia tanto precisa, se na primeira chuva, entro em pânico? — meus olhos se perderam no quarto, a angústia consumindo o peito. — Como posso ser o melhor exemplo para ela?
... Até as mães sentem medo. Somos seres imperfeitos, não se cobre tanto por isso.
Outro trovão explodiu no céu. Grunhi, encolhendo-me mais contra ele.
— Preciso colocar a Mia para dormir. — fez menção de se afastar e, imediatamente, o segurei pela cintura.
— Não me deixa aqui sozinha, por favor. — supliquei, a voz abafada e vulnerável.
levantou minha cabeça com sutileza. Nossos olhos se encontraram, uma conexão inexplicável que aquecia minha alma sem precisar dizer nenhuma palavra. A eletricidade e a segurança nítida em um só olhar.
— Nunca vou deixá-la sozinha. — frisou, os polegares acariciando as bochechas úmidas. — Venha comigo, seja a minha sombra. — sorriu galanteador, e apenas consegui assentir.
Ao finalmente se afastar, ele estendeu a mão na minha direção e esperou até que a envolvesse com os dedos. Em silêncio atravessamos o corredor, a cada lampejo meu corpo paralisava. Fechava os olhos com força, as lembranças do ataque me assolando, ao ponto de quase cair de joelhos no chão, mas graças aos deuses, estava ali para ser a luz no final do túnel.
Ele cessava os passos e, pacientemente, me abraçava, como um escudo que repelia todos os demônios. Eu me encolhia e ouvia o ritmo frenético do seu coração. O pulsar lento, calmo, poderoso. Cada batida soando como o badalar dos sinos, acalmando o pavor e o medo que insistiam em assombrar a minha alma.
O seu calor, a firmeza dos músculos e as palavras acolhedoras se tornaram meu alicerce inabalável. Em meio à escuridão, eu o procurava e era recebida por braços fortes que sempre estariam dispostos a me acolher.
Por sorte, nenhum raio rasgou o céu quando descemos as escadas. Lentamente, me guiou de volta para a cozinha. O cuidado em cada movimento aquecia meu peito de maneira inexplicável. Ele usava o próprio corpo como escudo, impedindo-me de ver o claro ofuscante dos relâmpagos pelas janelas. Além de sussurrar frases engraçadas e acolhedoras que serviam de distração.
Agarrei firme em seu pulso assim que chegamos na entrada do cômodo e um pequeno trovão escoou ao longe. Logo, fomos acolhidos pela agitação de Greta que batia palmas e fazia uma dança desajeitada. Varri cada móvel com atenção, até encontrar Mia na cadeirinha de alimentação, a boca e o babador sujos com os ingredientes da sopa.
— Consegui fazê-la comer! — a governanta comemorou e sacolejou o quadril em um ritmo engraçado.
Tentei sorrir, mas logo minhas pupilas dilataram ao encarar a janela em cima da pia. Através da vidraça, estava diante de um filme de terror. A imagem de Kaleb surgiu do lado de fora. Engoli em seco, ao ver o sorriso diabólico curvar em seu rosto, como se estivesse prestes a saltar e me devorar.
Meus pés recuaram, minha garganta secou e a mente traumatizada fez com que o homem erguesse a mão, exibindo a mesma faca ensanguentada daquela noite. O arrepio gélido subiu pela espinha. Meu corpo inteiro entrou em colapso, cada fibra vibrando de horror.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, escondendo o rosto desesperadamente contra a omoplata de . Encolhi-me até que não visse nem o vislumbre da janela. Meus dedos se fecharam com força ao redor do seu pulso.
Funguei baixinho e senti quando a sua mão livre deslizou para trás, tocando minha cintura. Em um movimento calculado, fez com que meu corpo se colasse mais ao seu, como se fôssemos apenas um só contra a tempestade.
, querida. Você está bem? — ouvi a voz de Greta. O tom preocupado me obrigou a encará-la.
E lá estava ele... Na da janela, os olhos sanguinários me encarando feito um maníaco. Engoli em seco, concentrando a atenção no rosto da mulher.
— Sim... Eu só... — busquei pelas palavras certas, mas a atenção desviou para a vidraça e minha voz desapareceu. — E-eu...
— Ela está com um pouco de tontura, Greta. — se intrometeu, enlaçando nossas mãos.
Acenei em concordância e a governanta agiu rapidamente. Puxou a cadeira mais próxima, correu até mim e me forçou a sentar. Antes que pudesse protestar, colocou o prato de comida a minha frente – o mesmo que havia abandonado mais cedo.
— Você precisa comer, menina. Sentir tontura é sinal de baixo nível de açúcar no sangue. — repreendeu, enchendo o copo com suco. — E não se preocupe com a Mia, irei colocá-la na cama. — pegou a pequena no colo e fez uma careta engraçada. — Já a mediquei com os remédios para dor e febre. Só por precaução.
Caminhou para a saída da cozinha e bateu levemente sobre o ombro de . E assim como fez comigo, deu uma bronca por também não ter comido nada no jantar. Antes de sair, apontou para os próprios olhos e depois os lançou na nossa direção, não precisando de muito para entendemos que estava de olho em nosso comportamento.
O veterinário riu, sentando-se ao meu lado. Já eu, remexi a folha de alface com o garfo, olhando de relance para a janela. Respirei aliviada por não encontrar com o rosto que me assombrava em todas as noites chuvosas.
Tomei um pequeno susto ao sentir os dedos grossos tocaram minha coxa desnuda. A pele se arrepiou e virei a cabeça para encarar o responsável por me fazer saltar na cadeira.
— Está tudo bem. Coma um pouco. — acariciou a região em círculos com o polegar. — Posso fazer uma salada de frutas com granola. — ofereceu com gentileza e cuidado.
— Eu agradeço, . Mas não estou com fome. — empurrei o prato para longe, segurando as bordas da mesa.
Ele fez um beicinho e inclinou a cabeça, aproximando-se como um cachorrinho abandonado.
— Você precisa comer, meu anjo. — com a ponta do indicador me tocou no queixo, virando o rosto em sua direção. — Não quero que fique doente. E depois de ter exagerado na bebida, precisa se alimentar direitinho.
Em seguida, encurtou a distância entre nós, beijando-me a testa carinhosamente. Um sorriso discreto curvou no canto dos meus lábios, sentindo-o esfregar nossos narizes em um beijo de esquimó.
— Quer que eu peça burritos? — sua voz estava carregada de preocupação.
Balancei a cabeça em aceitação, sabendo que não desistiria tão fácil. se afastou, discou o número do meu restaurante favorito e encomendou a maior porção disponível no cardápio. Arregalei os olhos ao ouvir que havia pedido a opção com oito burritos variados e uma Coca-Cola grande.
Soltei um risinho de indignação, não acreditando no que tinha acabado de escutar.
— Você é maluco. — comentei assim que encerrou a ligação.
— Faço de tudo para ver esse sorriso no seu rosto. — as palavras doces fizeram meus lábios se curvarem mais e mais. — E não vamos desperdiçar comida.
Ele puxou o meu prato e começou a se deliciar com cada garfada generosa. O silêncio confortável se instalou. Apoiei o cotovelo na mesa, a mão direta sustentando o peso da cabeça, enquanto assistia devorar a comida. Soltei o ar pela boca, uma profunda calmaria se apossou dos meus sentidos.
Gargalhei ao ver as caretas desagradáveis que ele fez, assim que descobriu que Greta havia colocado azeite na salada. E foi nesse momento que notei o quanto a presença daquele homem era capaz de afastar todo o tremor e a angústia que sentia. Por um instante, a aproximação da tempestade passou a ser apenas uma lembrança distante.
Minha atenção foi tomada ao ouvir a buzina de um carro ecoando na frente da casa. Em segundos, Greta surgiu no arco da cozinha. Rapidamente atravessou o cômodo, buscando pela bolsa e algumas sacolas de compras que deixou mais cedo sobre o balcão. Ela vestiu o casaco de couro com um movimento rápido e arrumou os cabelos, antes de nos lançar um sorriso satisfeito.
— Estou lisonjeada por ver esse menino comendo toda a salada. — brincou, aproximando-se para deixar um beijo carinhoso no topo da minha cabeça. — Meu marido está me esperando. A Mia está dormindo, então, por favor, não hesitem em me ligar caso acontecer alguma coisa. — repetiu o gesto em e parou no batente. — Eu amo vocês. Fiquem bem, crianças.
— Também amamos você, Greta. — dissemos em um uníssono.
Ela se foi com pressa, jogando um beijo no ar.
Mas bastou apenas ouvirmos o som do carro se distanciando para as primeiras gotas pesadas de chuva atingirem o telhado. Estremeci, sentindo o ar esfriar de repente. A torrente aumentou, quase explodindo sobre a casa. A água deslizava pelos canos, um barulho alto, quase ensurdecedor.
Molhei a garganta com saliva. A sensação fria dos pelos arrepiados na espinha, subiu para a nuca. De costas para a janela, não precisei me virar para saber que estava sendo vigiada. Meu coração passou a bater descompassado, um tambor desesperado, esmurrando as costelas com tanta força que me deixava sem ar.
— É só uma chuvinha... Só uma chuvinha boba... — sussurrei, a voz fina, quase inaudível.
Olhava fixamente para um ponto qualquer sobre a mesa, tentando acalmar a mente tempestuosa que ousava criar cenários aterrorizantes. As primeiras lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, enquanto repetia as palavras, sentindo-me fora da órbita.
... — a voz grossa pareceu distante, ofuscada pela chuva — Ei, olha para mim.
As mãos grandes e quentes tocaram meu rosto. E foi como tomar um choque elétrico. Meu corpo saltou para trás, a cadeira raspando contra o azulejo. Respirava pela boca, em golfadas curtas, o desespero puro me dominando.
— Calma. Sou eu. — murmurou firme. — Respira comigo. Ouça o meu coração. — pegou minha mão e a pressionou contra seu peito, deixando-me sentir as batidas sobre a camiseta.
O calor do seu gesto não foi o suficiente para me trazer de volta, porque bastou olhar por cima do seu ombro para ver o homem sombrio parado na entrada da cozinha. Ele estalou o pescoço e girou a lâmina entre os dedos. Os olhos escuros possuídos de ódio e uma pequena faísca de alegria ao finalmente me encontrar.
— Não. Não. NÃO! — berrei, levantando-me com urgência.
! — gritou, não sendo o suficiente para me arrancar daquele pesadelo.
A cadeira tombou para o lado e meus pés se arrastaram até que as costas encontrassem o balcão gelado. Desabei em lágrimas, escorregando pelo mármore, deixando-me cair sentada no chão. Solucei em desespero, curvando a coluna para frente. Escondi o rosto nos braços sobre os joelhos dobrados, o choro agonizante saindo sem escrúpulos.
A música da boate. A risada maléfica dele. As palavras cruéis do que faria comigo.
Tudo voltou com força.
— Ei… , olha para mim. — ouvi quando o veterinário se ajoelhou a minha frente, tocando gentilmente meus joelhos.
— Ele está aqui, ... Está aqui. — revelei com a voz por um fio.
— Meu anjo, você precisa se acalmar. — gentilmente levantou minha cabeça, arrumando os fios teimosos que grudavam na pele molhada. — Respire, por favor. Vamos, repita comigo. — inspirou pelo nariz e espirou pela boca, incentivando que o imitasse.
Eu o fiz, não conseguindo desviar a atenção dos olhos azuis cheios de aflição e ternura.
— Isso. Vamos, de novo — repetiu os movimentos, gesticulando com a mão.
O acompanhei, os pulmões agradecendo por finalmente receberem ar puro.
— E-ele está aqui... — consegui sussurrar em meio aos soluços.
— Não há ninguém aqui além de nós. — colocou a mecha de cabelo atrás da minha orelha. — Por favor, respire. Preciso que me diga o que está vendo.
Funguei, as vias aéreas queimando feito brasa. Ergui a cabeça e busquei pela silhueta de Kaleb, mas tudo o que encontrei foi o vazio. Meu coração se apertou, um nó gigantesco, temendo que seu rosto sombrio aparecesse para me assombrar.
Outro estouro grotesco sacolejou as paredes. O som se assemelhava a vidros estraçalhando, muros e concreto se partindo. Soltei um grito apavorado, encolhendo-me contra o balcão frio.
Mais gotas salgadas rolaram, o medo e angústia me sufocando aos poucos.
— Calma. Está tudo bem. — sentou-se ao meu lado e puxou o corpo frágil para seu colo.
Agarrei sua camiseta e escondi o rosto em seu tórax. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas molharam as fibras do tecido. A respiração ruidosa se tornou o único som entre nós, além da chuva agressiva. delicadamente segurou minhas mãos trêmulas e com uma firmeza gentil as levou até os lábios, distribuindo beijos castos, reconfortantes.
— E-ele estava aqui, . — tomei coragem para falar, sabendo que ele merecia uma resposta.
— Era o Kaleb? — gentilmente, resvalou o polegar pela bochecha, capturando as lágrimas.
Assenti, os olhos varrendo a cozinha em busca de alguma sombra.
— Eu o vi na janela da pia... E depois e-ele estava atrás de você, na entrada da cozinha. — molhei a garganta com a saliva, o mero movimento arranhando a faringe.
soltou um suspiro resignado, os dedos enroscando-se em meus cabelos em um carinho lento, acolhedor.
— Coelhinha, você acredita em mim? — disparou e anuí em resposta. — Então, acredita quando digo que não tinha ninguém aqui, além de nós?
— Mas... Eu o vi, ele estava bem ali! — apontei, a voz esganiçada. — Ele tinha uma faca e um sorriso diabólico no rosto. — meus dedos cravaram-se em seus antebraços, temendo que não acreditasse em mim.
não recuou e nem me abraçou. Dessa vez, sua postura mudou. Segurou em meus pulsos com delicadeza, acariciando a pele em círculos. Os olhos tomados pelo imenso oceano azul, capturaram os meus, criando aquela conexão tão profunda e intensa que só tive o prazer de experimentar com ele.
— Você confia em mim? — quis saber, a testa enrugada.
— Confio. — respondi sem hesitar, porque era a verdade. — Mas o Kaleb ainda pode estar aqui. Ele pode nos matar. — desviei o olhar para a saída, ainda buscando pela sombra demoníaca.
— Vem, vamos levantar. — lentamente me puxou para cima, minhas pernas pesando toneladas.
E assim que nossos corpos ficaram eretos, uma brisa gelada, quase sombria nos abraçou. Mas permaneci firme, esperando que me guiasse, já que sozinha não seria capaz de fazê-lo.
— Agora, quero que olhe para a janela junto comigo. Pode fazer isso? — sussurrou com a naturalidade de quem pedia um copo d’agua.
Arregalei os olhos em espanto. Meu coração voltou a bater feito um tambor desenfreado. Estremeci dos pés à cabeça, como se estivesse diante de uma aberração. Eu quis gritar, xingá-lo de louco, mas a voz desapareceu como fumaça. E antes que ousasse fugir, senti o aperto firme das suas mãos nas minhas.
Eu sabia que só queria me ajudar, mas o que estava me pedindo era um absurdo.
— Por favor, não me peça para fazer isso. Eu não consigo.
— Só confie em mim. Feche os olhos, se quiser. — aproximou-se, estudando minhas reações com atenção. — Estarei aqui com você, vamos olhar para ele, juntos.
Minha boca secou, um deserto árido. Mesmo com o corpo tremendo, deixei que cada fibra do meu ser fosse entregue a ele. E ao sentir as mãos de tocaram meus cotovelos, foi como ouvir a voz sábia do novo psicólogo, sussurrar: , o medo só irá morrer quando você tiver a coragem para encará-lo de frente”.
Suas palavras também me disseram que se eu, um dia, quisesse voltar a viver, precisava atravessar o fogo que Kaleb acendia em minha mente. E era exatamente isso que tentaria fazer.
As pálpebras se fecharam por vontade própria, enquanto deixava me guiar. Os braços se fecharam ao redor da minha cintura, formando um cinto de segurança. Senti o peso da sua cabeça repousar sobre meu ombro, podendo ouvir o som da sua respiração calma, lenta. Em seguida, passou a me empurrar com cuidado e soube que me levava em direção à janela.
— Vamos fazer isso devagar.
Seu corpo se colou nas minhas costas e senti o pulsar do coração martelando em um ritmo constante, diferente do meu, que parecia uma ave moribunda.
— Me diga tudo o que está sentindo. — pediu e pegou minha mão trêmula, a colocando contra a superfície dura.
Tateei, as pontas dos dedos tomando um pequeno choque térmico ao deslizar pela estrutura.
— É gelado, e parece ter desenhos de ondas. — delineei os relevos com cuidados.
— É apenas o vidro canelado da janela. — sussurrou contra meu ouvido e me afastou. — Vamos dificultar um pouquinho.
se afastou por alguns segundos. Um chiado metálico, semelhante a trilhos, alcançou meus tímpanos. O corpo se arrepiou ao ser atingido pela brisa fria da noite. Por um instante, soube exatamente o que ele tinha feito, mas a ruga de curiosidade me impediu de recuar.
— Tudo bem. — guiou novamente minha mão. — E agora, o que está sentindo?
Estiquei o braço, além do limite e por um instante arqueei a sobrancelha, por não encontrar mais o vidro. Avancei mais alguns centímetros e de súbito, o ar frio foi substituído por um minúsculo estalo na ponta do indicador, seguido de mais um e mais um. Tomei coragem e abri a mão, sentindo as batidas rítmica massagearem a pele, inundando a palma.
Entre os dedos, pude sentir o líquido escorrer, algo vivo, macio e indolor.
— Também é gelado. — de repente, minha boca se curvou em um sorriso tímido. — Parecem micro agulhas líquidas e muito gentis.
— É a chuva, meu amor. — segurou em meus ombros e poderia jurar que estava sorrindo. — Sente como ela é leve? Como é molhada?
Minha mão ficou encharcada. As lágrimas se formaram em meus olhos, porque pela primeira vez, aquelas gotas possuíam uma força diferente de tudo o que conhecia.
— Agora, quando se sentir pronta, quero que abra os olhos. — retornou a repousar a cabeça sobre o ombro e os braços ao redor da minha cintura. — Não precisa ter pressa, temos todo o tempo do mundo. — deixou um beijo cálido contra meu pescoço e estremeci.
Suspirei profundamente. As pálpebras se abriram e através dos cílios puder ver o exato momento em que a imagem de Kaleb oscilou, como um holograma falho. Pisquei algumas vezes, afastando as lágrimas para admirar cada detalhe da mão ensopada, brilhando como se reluzem todo a angústia dos últimos anos.
Onde antes via o rosto aterrorizante, agora, era apenas uma janela aberta, com fortes gotas da chuva caindo do céu. Ao longe, era possível ver um vislumbre da casa do vizinho, o balançar das árvores e os arbustos de hortênsias sendo acoitados pelo vento.
— Viu? Não tem ninguém lá fora. — me abraçou por trás. — O único monstro está apenas dentro da sua cabeça. É uma forma do subconsciente te manter em alerta, tentando protegê-la de uma dor que já passou. — roçou o nariz contra minha têmpora e fechei os olhos, apreciando o carinho. — A sua mente precisa entender que não precisa mais dessa proteção. Você não está mais em Nova York. Agora, está aqui comigo.
— É só uma chuva. — constatei, as palavras soando diferentes, mais leves.
— Isso, anjo. O Kaleb nunca mais vai te machucar. — prometeu, virando-me de frente para si. — Mas se ele voltar a assombrar os seus pensamentos, eu sempre estarei aqui para expulsá-lo todas as vezes. — envolveu meu rosto as mãos — Você é mais forte do que pensa, . E nunca deixe ninguém dizer o contrário sobre isso.
Fechei os olhos assim que encostou nossas testas. O silêncio reconfortante caiu sobre nós. O som das nossas respirações ritmadas se misturava ao bater da chuva no telhado. Por um instante, o resto do mundo desapareceu e pela primeira vez me sentia reluzente.
A minha alma tinha acabado de ser despida. Uma parte lapidada. conheceu o meu pior pesadelo, viu de perto o mundo colapsar e ainda assim, permaneceu ali. Segurou minha mãe com firmeza, guiando-me em direção da cura.
Ele se tornou o cúmplice que não imaginei que precisava.
Levantei a cabeça lentamente. Ansiei para ver os olhos claros que diziam mais do que palavras. Admirei cada traço do seu rosto, completamente fascinada por cada pedacinho dele. O maxilar quadrado e forte; a barba por fazer que tanto adorava; os cabelos que sempre pareciam desgrenhados; e as íris intensas em conjunto com as sobrancelhas grossas me deixavam sem ar.
Minhas mãos subiram para seu pescoço, atraídas por um magnetismo incontrolável. Aproximei nossos rostos, o calor emanando ao redor. Vi o exato momento que fechou os olhos e se inclinou para selar nossos lábios. Eu precisava disso, senti-lo mais perto, talhado em minha alma.
Nossas línguas se encontraram, e o que antes era calmo e terno, se transformou em uma dança faminta. Enrosquei os dedos nos fios macios, puxando-o com urgência para mim. arfou em minha boca e desceu as mãos para a minha cintura, empurrando-me até que as costas batessem contra o mármore da pia.
Eu me perdi no gosto dos seus lábios, na força dos seus braços e no perfume amadeirado. Gemi completamente entregue. O mundo poderia desabar do lado de fora, os trovões poderiam rugir, e nada mais nos alcançaria. Nenhum fenômeno era capaz de apagar o fogo que nos consumia. E a cada segundo, queria me fundir mais e mais a , deixar que seu corpo me possuísse por inteira.
Mas o som agudo da campainha escolheu o momento errado para invadir a cozinha. Soltei um grunhido de frustração ao vê-lo se afastar. Ele soltou uma risada curta, passando a mão pelos cabelos. E tudo o que consegui fazer foi observá-lo em silêncio, hipnotizada por cada movimento.
— Seus burritos chegaram, meu anjo. — ele murmurou, a boca se curvando naquele sorriso descarado que fazia o meio das minhas pernas se contorcer. — É incrível com as pessoas adoram arruinar os melhores momentos da minha vida.
Ele segurou meu queixo e roubou um selinho rápido antes de se afastar para atender o entregador. Observei suas costas, sentindo meu coração finalmente calmo, os batimentos encontrando a paz. Olhei para a janela aberta, a chuva ainda caia com força, mas sabia que enquanto estivesse com , o som da torrente seria apenas um ruído de fundo.
Mordi os lábios e dei um passo na intenção de segui-lo, quando o universo decidiu brincar comigo mais uma vez.
O clarão branco e ofuscante rasgou o céu, iluminando a casa inteira. O estrondo ensurdecedor – mais alto que os anteriores – sacudiu as paredes como se fossem feitas de gelatina. O chão tremeu, as luzes piscaram por alguns segundos, até se apagarem por completo.
Paralisei no lugar. A escuridão absoluta se tornou sufocante. O pânico que havia acabado de prender no baú a sete chave, saltou com força total. A mão invisível apertou meu pescoço, o ar desaparecendo dos pulmões. E a penumbra se transformou na silhueta masculina, o claro dos raios fazendo-me vê-lo por completo.
Minhas mãos tatearam o nada e por sorte, encontraram o metal frio do meu notebook em cima do balcão. Agarrei-o com as unhas, os dedos latejando de tanta força que fazia. Olhei para os lados em busca de ajuda, mesmo sabendo ser inútil. Segurei o aparelho, pensando que o usaria como escudo, caso Kaleb tentasse me alcançar.
Foi então que eu ouvi.
A gargalhada cortou as paredes da cozinha. A vibração arranhando os cantos da minha mente, zombando de mim como sempre fazia.
Achou mesmo que aquele playboy ia te proteger? — a voz grossa pareceu soprar em minha nuca, misturado ao cheiro do meu medo.
O calafrio subiu pela minha espinha e rapidamente desferi o golpe. Girei o corpo e lancei o notebook, querendo acertar o rosto do desgraçado, mas tudo o que consegui fazer foi derrubar os utensílios. Cerrei os dentes, a raiva abrindo caminho entre o medo e o pânico.
Era hora de encarar o meu pior pesadelo.
Outra risada sacodiu as sombras da cozinha e me concentrei no som, querendo expulsá-lo de uma vez do subconsciente. Fechei os olhos, o som de passos pesados atingindo meus tímpanos. Segurei o aparelho com firmeza, pronta para dilacerá-lo – porque se era isso que precisava fazer, então o faria.
O chão rangia, e bastou apenas sentir suas mãos imundas me segurarem pelos ombros para o instinto falar mais alto, então apenas reagi. Virei com toda a força que não sabia que possuía, levantei o notebook e o impacto foi certeiro. O som do metal encontrando os ossos e a carne ecoou pela cozinha silenciosa, sendo gratificante de ouvir.
Mas foi o grunhido de dor bastante real que me fez voltar para a realidade.
— Puta merda, !
Um feixe de luz cortou o breu, encontrando o meu rosto. Os olhos arderam, contrai a testa assim que a pontada incomodou. Pisquei algumas vezes, até me acostumar com a claridade. E então, meu coração errou a batida.
O celular com a lanterna acessa foi deixado em cima da mesa, ao lado da caixa de burritos. se inclinou sobre o móvel, a mão pressionando a cabeça. Os olhos fechados, a respiração ruidosa e a expressão de dor em seu rosto, quase me fizeram derrubar o notebook no chão.
Rapidamente, a culpa me corroeu. Larguei o objeto de qualquer jeito sobre o mármore, correndo em sua direção. Toquei suavemente o maxilar forte, girando sua cabeça até que conseguisse vê-lo por completo. Fui tomada pelo choque ao ver o sangue brotar perto do supercílio, escuro e muito real.
, me desculpe, eu não vi você. — peguei o guardanapo, pressionando o ferimento. — E-eu pensei que era... Meu deus, me perdoa. — as lágrimas se formaram no canto dos olhos e comecei a temer sua reação.
— Tudo bem, coelhinha. — afastou o pano de prato e soltou um grunhido. — Foi superficial. Fique calma. — tentou me tranquilizar, mas a mancha vermelha ainda me deixava em choque.
— Como posso ficar calma? Você está sangrando! — quase berrei, algumas gotas salgadas rolando pelas bochechas em desespero.
— Ei, calma. — ele venceu a distância entre nós e me embalou em seus braços. — Lembre-se que recebo mordidas e arranhões todos os dias. E acredite, doem muito mais do que isso. — sorriu, disfarçando o gemido de dor. — Então... Você o viu? Por isso que quase me matou?
Deslizei as mãos para as costas largas. Aconcheguei a cabeça sobre seu peito, deixando que um sorriso discreto se formasse nos lábios.
— Fui tola em achar que o trauma se curaria tão rápido.
— Dê tempo ao tempo, meu anjo. — beijou minha têmpora. — Vai chegar o dia que nada mais vai te assustar.
— Alguém me ensinou a como enfrentar os medos, e foi isso que tentei fazer. Só não pensei que quase fosse arrancar a sua cabeça. — zombei, soltando um risinho.
— Da próxima vez irei usar uma armadura. — estapeei seu peito e meu estômago escolheu aquele momento para se intrometer.
Escondi o rosto. O ronco alto fez minhas bochechas corarem.
— Acho que alguém está com fome. — ele comentou e se afastou, pegando a caixa de burritos. — Vamos para o quarto. Depois de comer, podemos assistir um filme de romance.
— Você odeia esse tipo de filme. — arqueei a sobrancelha, os olhos semicerrados.
— Faço de tudo para que se sinta segura essa noite. Mesmo que tenha de queimar alguns neurônios. — suas palavras soaram como a declaração mais sincera que já tinha ouvido.
pegou a embalagem com uma mão, e com a outra segurou o celular para iluminar o caminho. Fiquei em seu encalço, levando o notebook para ser a nossa tela de cinema. E enquanto subíamos os degraus da escada, a chuva aumentava com uma força aterrorizante. Os trovões continuavam a cortar o céu, o clarão brilhando através das janelas.
Antes de irmos para o quarto, passamos para ver se Mia estava bem. Medimos sua temperatura, nos certificando que a febre foi embora. Ficamos aliviados ao vê-la finalmente relaxada, sem dores. Ajeitei a coberta sobre o corpo pequeno, notando que a protuberância na bochecha havia quase desaparecido por completo.
Cautelosos, voltamos para o corredor escuro. Caminhamos em silêncio, a torrente sendo o único som entre nós. A cada relâmpago, sentia um arrepio na espinha. A energia não voltaria tão cedo, então tudo indicava que seria uma longa noite.
E eu sabia que o passado voltaria a qualquer momento para me assombrar. Era apenas o começo, ainda teria muitas recaídas e vitórias. Levaria meses até finalmente estar curada. Mas pelo menos, saber que estaria comigo em cada passo, me confortava.
Ele mataria todos os fantasmas que ousassem se aproximar, porque daquele dia em diante, sempre garantiria que eu conseguisse dormir em paz.



Continuaaaa...



Nota da autora: Oiie, leitores!! Espero que estejam gostando de nossos protagonistas, da baby e do gatinho preguiçoso. Estou amando escrever essa fic de tão gostosinha que ela é, e ansiosa para mostrar como será o desenrolar da nossa coelhinha e do veterinário, só posso dizer que teremos muitas emoções com esses dois!!
Me diga do que mais estão gostando e deixe aquele comentário que irei amar ler! ❤
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