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Última atualização: 05/09/2021

Prólogo

A porta do quarto foi aberta deixando-a bater contra a parede. O homem completamente furioso entrou por ela, jogando tudo o que encontrava pelo caminho. Derrubando quadros que se quebraram em pedaços; o guarda-roupa que cuspiu todas as roupas pelo chão; o criado mudo derrubando pertences preciosos. A fúria definitivamente tomou conta de todos os seus sentidos. E jogar os objetos ajudava a se acalmar.
Seu rosto sangrando e olhos marejados tomavam conta de sua face. A dor dos ferimentos em seu olho direito e nariz pareciam não existir. Toda dor e toda lágrima viraram raiva. Era um dom dos Sharapova transformar a dor em mais um pouco de fúria. Com não era diferente.
Ele havia acabado de sair de uma luta. Uma luta bastante brutal, onde perdeu metade de sua fortuna, integrantes e seu bem mais valioso. Um bem tão poderoso para o russo que agora planejava pegar de volta nem que isso custasse sua vida.
— Senhor, quer alguma coisa? Uma água, um... — o mordomo apareceu na porta vendo toda a destruição bastante assustado.
— EU NÃO QUERO NADA, OLIVER! SAIA DAQUI! — berrou fazendo o senhor sair correndo. sentia todos os seus músculos rígidos e seus ferimentos ardendo por causa do suor. Sua raiva estava transbordando, sempre ficava assim quando mexiam naquilo que era dele. Sentou-se na cama e passou as mãos pelos cabelos. No momento que sua cabeça estava abaixada, com os olhos fechados, tentando respirar fundo para se acalmar; um par de sapatos pretos bem engomadinhos passou pela porta.
— Você fez um estrago e tanto aqui em. — quando ouviu a voz, o pouco de sua calma foi para o ralo.
Um belo senhor, esbelta, vestido em um smoking caro. Na faixa de seus 46 anos. Estava entrando pelo quarto analisando cada detalhe da destruição que fizera. Seu semblante tranquilo deixou o rapaz mais eufórico e a falta de ferimentos dizia que não havia participado da luta.
ergueu a cabeça e encarou o pai com uma expressão de ódio.
— Foi você, não foi? — levantou-se com o rosto purificado pela raiva.
— Olha, ... Isso acontece... Não poderíamos fazer nada, faz parte de uma família mafiosa. — disse com calmaria.
— VOCÊ PODERIA TÊ-LA PROTEGIDO! — disse entredentes.
— VOCÊ SABE QUE ISSO ERA IMPOSSÍVEL!— o mais velho gritou fazendo as veias de seu pescoço saltarem.
— Não era, pai. — agarrou o colarinho do mais velho com força. — E você sabe muito bem disso!
Assim que teve as mãos do filho em sua roupa, não poupou esforços em agarrar o braço direito do rapaz e torcê-lo com força. Saulo Welton Sharapova fez o filho ficar de joelhos em apenas poucos movimentos. O chefe russo ainda conseguia imobilizar suas vítimas e não importava quem fosse. Nunca na vida foi colocado de joelho porque sempre tinha a mãe no caminho para protegê-lo, mas agora ele estava sozinho.
— Você, , — Saulo torceu mais o braço do filho, podendo ouvi-lo segurando a dor — é um merda! A sua mãe te mimou tanto por ser o último filho homem que por isso eu não tive outra escolha a não ser mandá-la para longe de você! — revelou. — A máfia Hayes estava louca pela cabeça dela e eu não pensei duas vezes antes de trocá-la por milhões de rublos. — a moeda russa era mais importante do que a própria família.
sentiu muita vontade de chorar, mas se segurou. Após a confissão de Saulo, todas as suas lágrimas viraram ódio e raiva. Com a mão livre, agarrou o braço do pai e se levantou com uma postura rígida e bastante calculada. Ele não torceu o braço de Saulo, apesar de querer, e simplesmente o afastou do seu. Nunca iria se igualar a seu pai.
— Você não faz ideia do mal que fez, pai! — bradou bastante furioso pela confissão. — Ela não tinha culpa. Ela detestava o senhor e agora eu vejo o porquê. — parou ao lado esquerdo do mais velho e disse bem perto de seu ouvido: — Eu declaro guerra aos Hayes e torça para eu não declarar guerra contra meu próprio sangue.
Saulo imediatamente, rápido como um guepardo, se virou e agarrou o maxilar do filho, olhando profundamente naqueles olhos carregados de ódio. O rapaz continuou com a expressão marrenta e raivosa.
— Não ouse trazer desgraça para essa família, . — o rapaz sorriu de lado e puxou o rosto para trás.
— Somente uma esposa americana. — provocou, infligindo a lei dos Sharapova.
deu as costas para o pai e seguiu rumo à porta. Saulo foi atrás dele e gritou no corredor eufórico:
— Aonde é que você vai, ?
O rapaz se vira e abre os braços, percebendo que seus irmãos, tios e tias saíam de seus quartos para ver o que estava causando tanto alvoroço e gritaria.
— Aos Estados Unidos! — disse abertamente antes de se virar e continuar andando.
Saulo transbordou de raiva e os múrmuros da rebeldia repercutiram pelo corredor. Enquanto isso, sorria.
A máfia rival estava preparada, mas ele não. E eles capturaram o ponto fraco do herdeiro russo e isso o deixou furioso. Justamente do herdeiro mais rebelde e teimoso. Nunca se deve mexer com um russo. Os americanos estavam brincando com o perigo. Russos e estadunidenses são inimigos históricos, a Guerra Fria era a marca que deixaram de todo ódio entre Estados Unidos e União Soviética. Agora aquele fator histórico iria contribuir para que a guerra entre as duas máfias esteja declarada.
A máfia Sharapova acabou de declarar guerra para a máfia Hayes. Em outras palavras: a máfia russa iria destruir a máfia estadunidense.

Capítulo 1 — Incertezas


"Para Tate.".

Passou as correspondências. Com seus olhos cansados e sem esperança, desesperados, transbordando insegurança. não sabia mais o que fazer. Sua cabeça estava infestada de pensamentos pessimistas. Não havia outra saída melhor, sem que seja pensar negativamente. Todos os caminhos foram traçados e a cada fim, parecia ser mais uma carta de cobrança que entrava na caixa de correio.
Jogou os papéis sobre a mesa. Naquele instante sua vontade era de chorar, mas não tinha forças para deixar suas lágrimas saírem. Apoiou os cotovelos na mesa de madeira e os dobrou, deixando suas mãos taparem o rosto de uma mulher dominada pelo medo. Não aguentava mais seu celular tocando sempre anunciando mais uma cobrança. A cada dia a situação piorava e não sabia mais como reverter isso.
Por sorte ainda tinha um sorriso que todas as noites a fazia pensar mil vezes antes de se arrepender do que fizera.
Mas, infelizmente, esse sorriso não poderia salvar sua casa. O aluguel atrasado há meses não mostrava outro resultado. Morar em uma casa alugada era a pior coisa que uma mulher solteira poderia fazer. No entanto, antes de sua vida mudar conseguia se manter estável. Até que seu irmão apareceu e em seus braços estava o pequeno , sofrendo de leucemia linfóide aguda.
Ver o sobrinho nos braços de seu irmão foi de cortar o coração. Olhar dentro dos olhos de e enxergar o medo, glóbulos carregados de desespero. Devido à doença, o corpo de estava bastante magro, perdia peso muito fácil e na época o garoto estava anêmico. A leucemia estava em um estado bastante avançado e o menino precisava ser internado imediatamente para receber os cuidados necessários. não teve escolhas e teve que pegar todas as economias guardadas para salvar o sobrinho.
Devido à condição do filho, foi obrigado a largar o emprego e a falta de dinheiro fez com que perdesse a casa e tudo o que tinha. O tratamento de era bastante caro e todas as sessões de quimioterapias eram bancadas pelo plano de saúde, porém acabaram perdendo o plano a partir do momento que não conseguiram mais pagar.
Desde então, , o irmão e o sobrinho moram na mesma casa.
A única saída era recorrer a ela ou a Charlotte. sabia que as irmãs não o deixariam na mão. Morar na rua estava fora de questão, ainda mais com uma criança bastante debilitada nos braços. foi a que abriu as portas, não que Charlotte tenha se recusado, muito pelo contrário, não pensou duas vezes antes de ajudar o irmão. Porém foi uma escolha de ficar com , desde crianças tinham um vínculo maior, eram mais próximos, e também não queria incomodar a vida de recém-casados de Charlotte e o marido.
Com uma casa para morar, ficou mais tranquilo e se dedicou ao máximo para bancar o tratamento do filho. Fazia bicos em descarregamento de caminhões nas empresas para ganhar alguns trocados. Como se recusava a sair de perto de , não procurava um emprego fixo e não queria pedir para cuidar do menino. Além do mais, ela trabalhava em uma padaria durante a manhã e em uma pizzaria a noite.
entendia que o irmão não queria abandonar o filho, aliás, o menino tinha recaídas a qualquer momento, sendo difícil deixá-lo sozinho. Então com os dois empregos que já tinha antes deles chegarem, conseguia dinheiro para pagar o aluguel e colocar comida na mesa. Porém as contas começaram a ficar cada vez mais altas. A cada vez que ia na farmácia era quase um caminhão de remédios que precisava comprar. E na tentativa de ajudar no tratamento do sobrinho, as contas foram deixadas de lado.
Ela sabia que nunca conseguiria bancar o tratamento de sozinho, ainda mais os transplantes de medula óssea que precisavam serem feitos para a recuperação. Então ela decidiu assumir a dívida. Foi uma péssima ideia. Com isso o aluguel foi deixado de lado. Sendo muito caro e com o dono da casa deixando-os ficar, é o peso que agora estava pesando mais na balança.
Seis meses de aluguel atrasado. Nenhum dono quer isso do seu inquilino. tentava de tudo para fazer o homem mudar de ideia e deixá-los ficar mais uns meses até acharem um lugar, um lugar cujo tinham medo de procurar. Ela tentara de tudo, a única coisa que amoleceu o coração do dono foi saber que ela e o irmão lutavam para cuidar de que sofria de leucemia. A revelação lhe fez dar o prazo de um ano para se mudarem. E esse prazo estava acabando. Faltavam exatos dois meses.
Segurou o choro, pois logo acordaria e perguntaria o porquê estava chorando, e ela não saberia como responder. Tirou as mãos do rosto e encarou a pilha de contas. A única que lhe chamava mais atenção era a do aluguel. respirou fundo para tomar coragem para abrir a correspondência.
Rasgou o envelope e abriu, puxando o papel dobrado. As palavras em uma caligrafia feita em computador encheram os olhos de de lágrimas.


Olá, ! Como está? Espero que bem melhor do que da última vez em que conversamos. Através desta carta estou avisando que faltam apenas dois meses para você e me entregarem a chave da casa. Já possuem um novo lugar para morar? Infelizmente, não vou conseguir segurar por mais tempo, . Eu tentei e esse é o meu máximo. Então, por favor, peço que dentro de dois meses me entreguem a chave e achem um lugar melhor para morarem e cuidarem de , eu gostaria muito que ficassem, mas infelizmente não irei conseguir segurá-los. Minha esposa está uma fera com o atraso do aluguel e ela quer que vocês entreguem a casa ou paguem todas as prestações. Eu sinto muito mesmo ...

Atenciosamente,
Alex Morbi.


A vontade de chorar era imensa. Receber uma carta que pedia para entregar o imóvel era a pior coisa que já lhe acontecera. E Alex ainda perguntava de ... O garoto estava ótimo, mas precisava urgente voltar para a quimioterapia, ia fazer três meses que não comparecia no hospital. Por sorte o pequeno não teve nenhuma recaída pela doença. Caso tivesse ela e iam entrar em desespero total.
Além disso, também deviam para o hospital. Os médicos entendiam as condições financeiras e a dificuldade, por isso deixavam algumas sessões de quimioterapia passarem sem serem pagas na hora. Mas se fossem somar o valor já estaria bem alto.
Não tinha jeito, ambos estavam bastante atolados na lama.
dobrou a carta de Alex e a colocou de volta no envelope, juntando com as demais. No instante em que as arrumou, um vulto passou correndo pela cozinha. Logo prendeu seus olhos no menino e abriu um imenso sorriso. estava correndo, pelado, pela casa fugindo do banho, como de costume todas as manhãs. apareceu para pegá-lo e se escondeu atrás de uma cadeira para que o pai não o pegasse. não poupou sua risada.
— Então é assim que vai ser garotinho? — disparou com um tom bastante brincalhão.
— Você não vai me pegar, papa. — respondeu e saiu correndo de novo, dessa vez dando a volta na mesa e indo em direção da sala.
o acompanhou com o olhar ainda com o sorriso em seus lábios. tinha a cabeça virada na direção que o garoto foi e o via brincando com alguns dinossauros no sofá. Ela respirou fundo e suspirou. Mesmo vendo bem, pensamentos de que ele iria piorar insistiam em invadir sua mente. Era muito pessimista e isso acabava lhe fazendo bastante mal.
Pensar que não tinha certeza do futuro e que no dia seguinte poderia estar nos braços do pai do mesmo jeito em que bateram na porta, lhe doía o peito. Percebia o quanto o menino estava magro, como naquele dia, e por mais que tentasse seguir uma dieta regrada para que ganhasse peso, era impossível fazê-lo engordar. A leucemia estava muito avançada e isso consumia todas as reservas do corpo para que o organismo lutasse contra a doença. Porém chegaria uma hora que um dos lados iria vencer e ela sabia que seria a leucemia.
Todos os dias, quando pensava no pior, sentia vontade de chorar. Como se não estivesse mais ali. Ela sofria de ansiedade, então sempre sofria de véspera, sendo assim não aproveitava o seu presente. sempre dizia que ela tem que tirar os pensamentos de um futuro incerto e focar no presente que estava acontecendo. estava bem, comendo, sorrindo e sem nenhuma complicação, então qual o motivo de pensar o pior quando se pode aproveitar o momento?
— Preocupada de novo? — puxou a cadeira e se sentou em frente a ela.
Assim que a resposta não veio, também virou a cabeça para a direta e viu jogando os dinossauros no ar, pegando dois e fazendo de conta que brigavam. Ele sabia exatamente o que estava pensando.
— Ele está bem, , qual é o problema de aproveitar esse momento? — disparou.
continuou com a mão apoiada na cabeça e olhando . Não encarando o irmão.
— Você tem que focar no presente, esqueça o futuro. Olha isso! — apontou o filho — Ele está ótimo, sorrindo, brincando... — sorriu bobo — Por favor, foque no agora só uma vez na vida.
suspirou, fechando os olhos. Só nesse instante que encarou .
— Nós dois sabemos o que vai acontecer, mas você insiste em não querer enxergar isso. — disse com o tom baixo, mexendo nas correspondências.
... Eu sei o que vai acontecer e não estou ignorando isso. — a olhou com pena. Sabia que ela não conseguia parar de pensar no pior. — Você sofre de véspera, mas — pegou na mão dela para que passasse a olhá-lo. Ela o fez — ele está vivo e está conosco. Não é melhor aproveitar isso do que ficar sofrendo por algo que ainda nem aconteceu?
— É difícil quando não se pode fazer nada para mudar essa situação... — deixou uma lágrima escorrer.
— Pode sim. — ele limpou a lágrima e olhou dentro os olhos dela. — O que você pode fazer é aproveitar o presente. Aproveitar esse momento e não pensar em algo que é incerto. — ele sorriu de lado. — Quem sabe um rico não se comove e tenta nos ajudar com o tratamento?
Ela sorri também.
— Meio difícil isso acontecer.
— Não basta sonhar. Temos de ser otimistas. — disparou e se levantou. Inclinou-se para beijar a testa da irmã. — Vou pegar o danado para tomar o banho dele. — ele abaixou o olhar para as contas e puxou a do aluguel, tendo a atenção da mulher. — Depois conversamos disso. Ok? — ela assentiu.
o acompanhou sair para pegar o garoto. , com um sorriso no rosto, agarrou e o ergueu em cima de sua cabeça como se estivesse voando. O menino abriu os braços e começou a rir, uma risada gostosa, carregada de calmaria e alegria. então correu e o filho continuou rindo, ambos juntos voaram em direção do banheiro. Como o banheiro ficava no corredor, tiverem que passar pela cozinha e sorria os vendo junto.
Definitivamente estava aproveitando todos os segundos ao lado do filho e ela também deveria fazer isso. Deveria deixar sua ansiedade de lado e focar no presente, estava bem e feliz. Não custava nada aproveitar o momento como se fosse o último. Tinha que aprender a viver um dia de cada vez com otimismo...

∆∆∆

Mais um dia que entrava pela porta da padaria, vendo os funcionários limpado o lugar para um novo dia se iniciar. O padeiro arrumava os pães e os doces na vitrine. O cheiro de pão saindo do forno inundava todo o ambiente, ninguém que passasse ali na frente resistia ao paladar. Não era a toa que o lugar se chamava Gold Oven, em outras palavras, Forno de Ouro.
Mas apesar do cheio delicioso que era capaz de fazer qualquer pessoa querer levar um dos quitutes. A padaria andou caindo em vendas nos últimos meses, após a inauguração do shopping à uma quadra dali. Ninguém iria tirar um tempinho para experimentar os quitutes do Sr. Donavon quando se tem tudo em um só lugar.
A sorte que a padaria tinha seus clientes fiéis, o azar era o aluguel e as contas a pagar. Após a queda das vendas ficou triplicada a dificuldade de quitar as dívidas. A sorte de Donavon que seus funcionários eram leais e bastante compreensíveis para esperar o salário cair na conta, caso contrário estaria com a padaria mais vazia que um campo de futebol molhado.
precisava do dinheiro para ajudar com o tratamento de e as contas. Mas como ajudar se o salário nunca caia? Impossível. Ultimamente se virava com o pouco da diária que recebia na pizzaria, não era muito, mas pelo menos dava para comprar arroz, feijão e pão, todos os dias. No entanto, se um dia precisasse faltar, por algum problema de saúde, estaria perdida, pois não teria como sustentar a casa até o dia após o seguinte.
— Já soube da novidade, ? — Stephanie disparou enquanto limpava o balcão com álcool.
— Qual novidade? — , que estava contando o dinheiro, perguntou.
Stephanie parou de limpar assim que um homem gorducho entrou pela porta e fez o sino balançar, anunciando que alguém havia entrado. Ergueu o olhar e se aproximou de , com o rosto perto do ombro disse:
— Ouvi que Donavon vai fechar a padaria. — imediatamente parou de contar e suas mãos travaram.
Ela fechou os olhos e demorou para abri-los, tentando assimilar a bomba, além de recuperar a concentração para voltar a contagem.
— Isso... Não... Não pode ser verdade, Stephanie. — a garganta de secou conforme falou. Uma onda de arrepio de medo caminhou por suas costas. Ela precisava muito do emprego na padaria.
— O Sr. Donavan não deu nenhum posicionamento desde que a notícia começou a correr pelos funcionários. — Stephanie seguia os movimentos do homem gorducho
engoliu o pouco de saliva que tinha, sentindo sua garganta raspando ao engolir. Logo a sua frente estava Donavan e o homem gorducho conversando. Ambos rapidamente se dirigiram para fora da padaria. Pela maneira como saíram, era um assunto que iam manter bem longe dos ouvidos de cada um dos funcionários.
— O que o pessoal está falando, exatamente? — quis saber separando o dinheiro em montinhos, pois nunca iria ter concentração o suficiente para contar tudo de uma vez.
Stephanie arrumou sua postura ficando ao lado de . Limpava as mãos com o pano enquanto falava.
— Que Donavan está falindo desde o dia que o shopping inaugurou. — disse, erguendo o olhar para a porta. — O que acha que eles estão conversando?
encarou a porta, porém seus pensamentos estavam longe. Principalmente envoltos em como iria pagar as contas e ajudar com as despesas do filho. Naquele instante viu sua vida entrando em um enorme, largo e infinito buraco, onde não tinha nada para se agarrar.
— Não quero tirar conclusões precipitadas. — respondeu voltando sua atenção para o dinheiro. Sentindo seu corpo começar um pequeno surto de ansiedade.
— Deveria, já que o tratamento do depende desse emprego. — Stephanie não falou por mal, realmente dependia da padaria para o tratamento.
Stephanie saiu para ajudar o padeiro na cozinha, alguns doces estavam saindo e Donavan gostava que os colocassem na estufa enquanto ainda estavam quentes. Havia algumas pessoas que gostavam de comer um beliscão com a goiabada derretendo. As bolachinhas de nata derretiam com mais facilidade quando quentes.
Donavan sempre fez tudo para agradar aos seus clientes, agora só por causa de um shopping ninguém mais quer comprar na padaria. O shopping era muito grande, com seus 5 andares, provavelmente havia umas 10 padaria lá dentro. Então quem ia querer descer as escadas rolantes e andar meio quarteirão para ir na Gold Oven?
estava nervosa. Sentia suas mãos tremendo para contarem o dinheiro do caixa. Era difícil até de se concentrar, pois estava novamente deixando o medo tomar conta de todos os seus sentidos. Sua ansiedade estava saindo a cada dia mais do controle. Sabia que precisava retornar para o psicólogo urgentemente, se não a qualquer momento entraria em um surto nervoso. Porém como ter dinheiro para pagar a ajuda psicológica quando todo o dinheiro que resta vai para o hospital?
Desde que chegou, precisou deixar muitas coisas de lado. Principalmente seus tratamentos psicológicos. Ela sabia que precisava passar e daria um jeito de voltar, só não sabia quando e como faria isso.
Sua cabeça estava a mil. Recheada de pensamentos pessimistas. Uma das principais lições que aprendeu com sua psicóloga foi que nunca se deve pensar negativo, porém como não pensar em uma situação como aquela? Padaria falindo e precisando de remédios. Difícil evitar e mais difícil ainda era aceitar.
Não conseguia aceitar que poderia morrer a qualquer momento, a doença era muito traiçoeira e apesar do tratamento estar sendo aceito, pela idade o câncer já está bastante avançado. Por mais que pensasse o melhor, seu principal medo era a morte. Não a sua morte, mas a de . Não conseguia se imaginar vivendo com sem o filho. Ele ficaria arrasado. não suportaria ver o irmão pelos cantos e não fazer nada.
A mente de era tão traiçoeira, que ao invés de se concentrar para contar o dinheiro do caixa, estava imaginando abraçado aos joelhos, no sofá da sala, chorando e entrando em uma profunda depressão. Seu coração dava pontadas sofridas e os olhos queriam chorar. Estava novamente sofrendo de véspera. O famoso e mais sofrido sentimento de um ansioso, que era a mente fazer o corpo sofrer por algo que nem sequer aconteceu ou, talvez, nem há probabilidades de acontecer.
Estava quase chorando, quando Donavan se aproximou do balcão e parou em frente ao caixa. Com um semblante bastante abatido. Sorte dela que viu seu chefe chegando, se não iria chorar por uma incerteza.
— Bom dia, Senhor Donavan. Tudo bem? — disfarçou seu semblante com um sorriso. Por mais incrível que pareça conseguia disfarçar seus momentos de ansiedade e insegurança com um simples sorriso. Era difícil acreditar que ela sofria do famoso: sofrimento de véspera.
— Nada bem. — focou toda sua atenção em Donavan, para que seus pensamentos pessimistas e ansiosos não enchessem sua cabeça de preocupação. — E vejo que você também não está. Está chorando, ? — ela o encarou imediatamente.
Sentiu seus olhos lacrimejando e nem notou que havia deixado seu medo ser mais forte que o autocontrole. Era bastante comum as pessoas perguntarem se estava chorando, pois realmente parecia que estava.
— Não. Eu só bocejei. Estou bem. — sorriu sem jeito tentando disfarçar seu nervosismo. — Muitas vezes as pessoas acham que estou chorando quando na verdade só estou com sono. — concentrou sua atenção para o dinheiro, os separando em montinho um do lado do outro.
Assim que o dinheiro em suas mãos acabou foi quando percebeu que havia se distraído de novo. Sua mente estava em uma dimensão completamente diferente dessa em que vivia. E essa dimensão tinha um nome: Tate. Todas as preocupações estavam vindo à tona e todas giravam em torno do menino. Justamente em momentos que nunca aconteceram, como: tendo que ir às pressas para o hospital; a falta de medicamentos e a falta de condição financeira para custear os gastos no hospital.
Felizmente, nunca e tiveram que levar às pressas ao centro de saúde, porém não custava se preparar psicologicamente para o momento. Ela sabia que se caso isso acontecesse quando estivesse desempregada, não aguentaria ver se "matando" em supermercados descarregando enormes caminhões ou em bicos para pagar o quarto para o filho ficar confortável e fora de perigo.
E, infelizmente, só tinha a irmã para buscar apoio, então como buscaria se ela estivesse com o emocional mais abalado que o dele?
De repente, Donavan pousou a mão sobre o pulso de , atraindo a atenção dela.
— Tenho que conversar com você, . Em particular. — o tom dele não passou segurança.
Donavan retirou a mão de cima do pulso de , e caminhou para a cozinha. Abriu a porta e passou por ela, lá dentro verificou se havia alguém por perto, quando percebeu que não havia ninguém mais além dele mesmo, foi que voltou e chamou-a com a mão. Provavelmente Stephanie e Otis já tinham acabado com os doces e estavam arrumando as vitrines na parte da frente da padaria.
empurrou a porta, tendo o pressentimento que Donavan não falaria algo bom.
— Aconteceu alguma coisa, Senhor Donavan? — preocupou-se.
Ele suspirou.
— Ah, ... — ela sentiu que ele segurava o choro. — Gold Oven está com seus dias contados. — na lata disparou.
esperava lágrimas e muitas explicações acompanhadas de injúrias. Porém Donavan decidiu contar a ela na lata e com bastante clareza. Ela sabia bem o que significava "dias contados". E imediatamente após as palavras, ficou em silêncio e invadiu sua mente, em uma lembrança correndo feliz e gritando no parque, com ela e atrás dele.
— Stephanie me contou que as vendas andaram caindo. — decidiu falar, ficar calada só pioraria seu emocional. — Mas não achei que o shopping estivesse realmente levando Gold Oven às ruínas. — gesticulava tentando distrair seus pensamentos com suas mãos.
— Para falar a verdade, ... — ele suspirou novamente, segurando com dois dedos os cantos dos olhos próximos ao nariz. — Esse lugar já estava com os dias contados desde quando o shopping abriu. Não tinha como nós vendermos mais do que eles. — uma voz tristonha e muito já casada saiu pelas cordas vocais do Senhor Donavan.
sentiu muita vontade, imensa e absurda de abraçá-lo, mas sabia que se fizesse iria começar a chorar compulsivamente.
— Eu nunca imaginei que o shopping pudesse nós atrapalhar tanto... — ela não sabia o que dizer, a única certeza que tinha era que ficaria desempregada.
— Eu já esperava, . — ele olhou no rosto dela com um sorriso amarelo. — Mas não achei que em menos de dois meses o movimento e os lucros fossem cair tanto... — suspirou em tristeza.
Donavan se virou e caminhou para o forno onde havia pães assando e muita farinha pelo chão. Era uma cozinha bastante humilde, somente de olhar dava para ver que o dono não gastava dinheiro com instrumentos caros, sendo que os mais baratos faziam o mesmo trabalho.
— Eu amo esse lugar, . — disse com a voz afetada pelo choro que quase escapou por seus olhos. — Mas não tenho outra escolha a não ser fechá-lo e vendê-lo... — passou a mão na mesa cheia de farinha, com uma expressão muito triste e abalada.
sentiu seu coração apertando a cada palavra e expressão de Donavan. Vê-lo daquele jeito era pior do que ouvir que ia perder o emprego. Sabia que era difícil para ele deixar a padaria, era um sonho aquele prédio. Desde muito cedo Donavan sonhava em abrir o próprio negócio com sua esposa e deixar de herança para os filhos.
Mas agora tudo foi por água abaixo...
— Eu sinto muito, Donavan... — foi a única coisa que conseguiu dizer.
Ele balançou a cabeça em negação.
— Não sinta, . — bateu as mãos para tirar a farinha e a encarou com uma expressão de compaixão. — Na verdade, era isso que eu queria conversar com você.
ficou em silêncio esperando ele dizer as palavras que tanto lhe doeria.
— Eu irei continuar te ajudando, . — as palavras a pegaram de surpresa.
Ela ficou imóvel e até sua garganta fechou, impossibilitando de dizer alguma palavra.
— Eu sei sobre o . — como Donavan era imperativo, conforme falava mexia nos objetos da mesa. — Por mais que você tente esconder, nós dois sabemos que ele está sem o tratamento há mais de um mês. — falou e não sabia o que dizer. — Sabemos que isso é arriscado. Você e precisam estar atentos e preparados para qualquer momento.
Donavan caminhou para a porta e saiu da cozinha, indo em direção do balcão. ficou imóvel por mais alguns minutos, até segui-lo, onde Donavan queria chegar falando sobre ? Será que era um recado do futuro para que ela e levassem o menino para o hospital?
Quando recuperou os movimentos de seu corpo e a mente parou de produzir pensamentos duvidosos, seguiu na direção em que Donavan saiu. O encontrou mexendo na gaveta de dinheiro e no computador, parecendo estar somando alguma coisa.
— Não quero que assuma nenhuma responsabilidade por , Donavan. — parou ao lado dele e disse próximo do ombro do senhor.
— Eu quero ajudar, . — disse puxando um envelope da última gaveta do balcão.
— Mas não precisa, Donavan. — repreendeu. — Eu e temos tudo sob controle. está bem e logo iremos levá-lo para o hospital.
Donavan sorriu de lado.
— Você é teimosa, . E mais ainda. — falava como se tivesse certeza do que falava.
estava morrendo de medo dele dizer que estava vendo indo aos poucos e que somente ela e que não queriam enxergar. Seu coração já palpitava acelerado com receio das palavras de Donavan.
Ele soltou o ar pela boca antes de começar a falar novamente.
— Quero que fique com isso. — estendeu o envelope que acabara de colocar bastante dinheiro.
— Não vou aceitar, Donavan. — não queria pegar o envelope, e por mais que a tentação quisesse, não conseguia fazer isso. Donavan não tinha obrigação de custear nada para .
— Aceite como uma cortesia da Gold Oven. — balançou o envelope para que ela pegasse. permaneceu intacta. — Sabemos que não é o suficiente, mas é o suficiente até você encontrar outro emprego bom. A pizzaria não vai aguentar também, .
No fundo, ela sabia que a pizzaria também iria falir, pois o shopping estava acabando com todas as empresas pequenas ao redor. E quem é o dono da pizzaria: o filho de Donavan. Então se o pai fechasse a padaria, a pizzaria também fecharia.
— Harry sabe que o shopping já ganhou, então não se prenda a pizzaria, . — Donavan revelou.
suspirou e se deixou levar pelo medo. Estava com muito medo de deixar sofrer e de faltar comida para comerem. Esticou o braço e pegou o envelope, sentindo o conteúdo bastante grosso dentro dele. Provavelmente, Donavan estava dando muito mais do que o valor do seguro desemprego.
— Eu irei devolver cada centavo, Donavan. — disse firme, olhando profundamente nos olhos dele.
— Dentro desse envelope, , está o seguro da padaria e da pizzaria. Harry irá ficar mais uma semana, porém já adiantou o seu pagamento. — explicou apontando o envelope. — Não se sentia envergonhada, pois estamos fazendo a coisa certa. merece viver.
"É merece, e muito.", pensou , enquanto ainda encarava os olhos do senhor.
Imediatamente ela sentiu vontade de chorar, seus olhos encheram de água rapidamente. É muita generosidade de Donavan e Harry. Ela nem sabia como agradecer e muito menos como devolveria. Somente um milagre faria aquele dinheiro voltar para as mãos deles. Porém ela sentia que em breve conseguiria arrumar um jeito de devolver cada centavo, talvez até mais.
correu e abraçou Donavan, escondendo o rosto no ombro do senhor. Deixou algumas lágrimas saírem, mas segurou as outras para que ninguém percebesse seu momento de fraqueza.
— Muito obrigada, Senhor Donavan. — agradeceu com a voz um pouco alterada. Ele devolvia o abraço. — Eu juro que eu e iremos devolver cada centavo.
— Não precisa devolver, filha. — romperam o abraço e Donavan pegou o rosto de , olhando profundamente em seus olhos. — A única coisa que eu, Harry e minha Elisabete queremos é que melhore e fique bem. O queremos ver correndo e esbanjando saúde.
sorriu e deixou algumas lágrimas escorrerem. Eram gotas de gratidão.
— Dentro desse envelope não tem só o seu seguro desemprego, mas também uma boa quantia que eu e Elisabete economizamos para ajudar a melhorar. — ele sorriu e voltou a abraçá-lo.
— Não sei nem como agradecer. Só espero que o senhor fique bem. — ela disse olhando a padaria.
— Iremos reinaugurar em outra cidade, junto com a pizzaria. Estamos pensando em fazer um Café. — contou e se encheu de felicidade por saber que a Gold Oven estava apenas começando a crescer.
Donavan merecia expandir seus horizontes e fazer a Gold Oven crescer cada vez mais. E tinha certeza que juntando com a pizzaria e tornando a empresa em um Café, os negócios iriam turbinar de vendas. Nunca ficara tão feliz com alguém antes. E somente de Donavan ajudar , já era motivo dele ganhar o mundo inteiro para si.

Capítulo 2 — Decisão Difícil

fecha o livro As Crônicas de Nárnia e olha para . Ele sorria já começando seus questionamentos sobre a história, amava quando ela lia livros antes de dormir. liberava a magia nas palavras e deixava o mundo de Nárnia mais mágico do que nos filmes. Sua leitura deixava qualquer criança flutuando em outro mundo. O tom que expressava cada acontecimento conseguia deixar aqueles que ouviam cada vez mais instigados para mais um capítulo. Sempre que estava na quimioterapia com outras crianças, ela aproveitava e soltava seu dom mágico tirando todos do mundo real.
Sempre que terminava a leitura, disparava diversos questionamentos dos trechos que não havia entendido e tentava explicar da maneira mais simplificada possível. Estar ali a tirava do mundo real. Estar ali, sentada na cama, com deitado ao seu lado, fazia todas as preocupações sumirem. O problema era quando saia do quarto e todos os problemas batiam na cara como o tapa mais ardido do universo. Às vezes, desejava nunca sair do quarto de e se refugiar ali.
Após terminar com seus questionamentos, pegou o globo terrestre que sempre ficava ao lado da cama e segurou entre as pernas. Girou e, com os olhos fechados, parou o globo com um dedo.
— Olha, tia! — sorriu, olhando o lugar que o dedo dele parou. — Amazonas, no Brasil!
— Será que lá vai ser sua próxima parada? — era nítida a felicidade dele.
— Espero que seja, sou louco para conhecer o Brasil! — queria muito que uma simples brincadeira se tornasse realidade. — Agora você, veja qual lugar irá viajar em breve! — ela de início negou, mas era impossível negar algo a .
girou o globo e fechou os olhos, parado o globo com o dedo como fez. Assim que abriu os olhos, ele já estava falando o nome do lugar:
— Saint Petersburg, na Rússia! — mostrou-se bastante feliz e encarou o globo.
Realmente seu dedo estava parado em cima da cidade de Saint Petersburg, na Rússia. Quando leu o nome sentindo uma sensação estranha. Um sentimento surreal com a cidade. Logo retirou o dedo e tentou disfarçar suas emoções para que não notasse e lhe enchesse de perguntas que nem ela mesma saberia responder.
— Olha essa cidade! — anunciou mostrando as imagens no celular de .
— É lindo, né? — disfarçou não gostando das paisagens e arquiteturas que via.
— Quando for para lá, você irá me levar junto?
— Claro. — alimentou a esperança dele. Logo se esqueceria da cidade.
— Agora vamos escovar os dentes? Você tem aula amanhã.
— Odeio ir para a escola. — resmungou fazendo beicinho.
riu.
— É o que todas as crianças falam, um dia irá me agradecer por isso. — ele rolou os olhos, fazendo-a rir mais ainda. — Agora vamos!
se levantou da cama e foi para o banheiro, ligou a luz na parede e esperou que entrasse para escovar os dentes. O menino, que estava logo atrás dela, adentrou e já foi logo pegando sua escova e pasta de dente. Tinham sorte por ele não ser o típico teimoso, se não teriam mais trabalho do que já tinham. Resmungava como toda criança para fazer o que lhe era pedido, mas no fundo fazia sem precisar obrigá-lo. alegava não gostar de ir à escola, pois, na maioria das vezes, assistia às aulas pelo computador, então não tinha o costume de frequentar a sala de aula.
perdia algumas aulas por estar no hospital, mesmo a escola fornecendo o estudo online. Após o tratamento ficava cansado e bastante debilitado, os remédios eram fortes o suficiente para sedá-lo e deixá-lo sem disposição para nada.
Enquanto se ocupava escovando os dentes e fazendo caretas em frente ao espelho com a escova na boca, aproveitava para arrumar a cama e guardar todos os objetos que usara durante a leitura. Quando pegou o globo viu novamente o nome da cidade, com um alfinete de cabo vermelho, marcando bem em cima de Saint Petersburg. Tentou sorrir, mas preferiu somente guardar o globo na prateleira, sentindo novamente aquela sensação estranha.
Era como se Saint Petersburg fosse um sinal ruim, ao ponto de dar arrepios pelo corpo todo. Havia uma rixa entre Estados Unidos e União Soviética há muito tempo, desde os tempos da Guerra Fria. E odiava tudo que tinha haver com a Rússia desde quando seu avô viajou para o país russo, sendo sequestrado pelos mafiosos e morto por não fornecer segredos norte-americanos. Na época, serviu de exemplo para aqueles que mexem com as máfias russas, sendo que ele era um mero turista no país.
Desde então tem repulso de tudo que envolve o país. Sendo assim, quando tirou Saint Petersburg no globo, provavelmente a sensação horrível que sentiu deve ter sido uma reação ao país que a cidade pertence devido aos acontecimentos passados.
! — gritou atraindo a atenção da mulher.
encarou o sobrinho e suas mãos soltaram o globo que caiu no chão, desprendendo a enorme bola da armação. Girou batendo na parede. E naquele instante, olhou desesperado para a tia, tentando limpar o sangue que escorria de seu nariz, seu corpo estava fazendo de novo. A leucemia novamente estava atacando. O garoto começou a chorar, sentindo fortes dores na cabeça e um formigamento intenso por todas as partes de seu corpo.
Foi quando, de repente, não conseguiu mais aguentar e deixou-se cair no chão, sentindo o impacto com o concreto contra seu rosto, braço e quadril. No exato momento, correu para segurar sua cabeça, ele estava entrando em uma crise convulsiva, fazendo o sangue sair por sua boca em pequenos vômitos, jorrando o líquido vermelho-escuro misturada com a comida por todo o chão e roupas da mulher.
— Por favor, ... Fica comigo. — sabia que ele estava completamente inconsciente, mas mesmo assim falava, na esperança dele conseguir voltar. — ! — se debatia pior do que um peixe fora d’agua.
retirou o celular do bolso com dificuldade, e com a mão tremendo discou o número do irmão.
— Atende, ... Por favor, atende... — com a mão livre segurava a cabeça do garoto para que não batesse contra o concreto. — Vamos, ! — sua voz estava tomada pelo medo e desespero.
Quando a linha finamente foi completada, atendeu em meio a vários sons de máquinas trabalhando e buzinas de caminhões. Provavelmente estava ajudando no descarregamento de carga em alguma fábrica de roupas ou de outra especialidade que fosse necessário trabalho pesado dos maquinários.
, escuta! — ela gritou para que ele pudesse ouvir. — Você precisa voltar para casa, agora! — o silêncio prevaleceu dos dois lados. — ... É o . — revelou em um fio de voz.
Liga para a ambulância agora, ... — a voz de estava tomada pelo choque de realidade.
∆∆∆

"Chamando Dr. Hodgins para a emergência. Repetindo: chamando Dr. Hodgins para a emergência.".

Era tudo o que ouvia. Nenhum médico ou enfermeiro lhe falavam nada. Já fazia alguns minutos que levaram para trás das enormes portas de emergência. Odiava não ter notícias, ficava angustiada esperando receber meras palavras de apoio.
estava a caminho do hospital. Assim que recebeu a ligação se adiantou em sair correndo da fábrica de roupas. Onde ajudava a carregar o caminhão que partiria na manhã seguinte com a carga em direção do aeroporto que transportaria as vestimentas até a Itália. Era um serviço pesado, mas rendia um bom dinheiro no final. teve sorte que o dono da fábrica lhe deu um pouco de dinheiro pelo serviço incompleto.
Naquele momento estava dentro de um táxi, olhando pela janela, inquieto e com medo. Medo de chegar e receber a notícia que seu filho estava partindo.
era o irmão que conseguia ver o lado bom de todas as coisas, o otimista. E a pessimista. Mas já estava começando a concordar que na situação em que se encontrava, se tornava mais difícil pensar em algo melhor. A cada dia que o levava às pressas ao hospital, recebiam mais alertas, mais dívidas e menos esperanças.
A situação era grave, mas estavam tentando de tudo para salvar uma vida. Uma vida inocente. Que desde quando nasceu já estava morando nos hospitais, na esperança de uma cura. Era preciso apenas um único transplante de medula. Compatível e que o corpo aceitasse, e assim estaria a salvo.
No entanto, os dois transplantes que e deram duro para pagar, foram rejeitados por . Assim que os médicos tentaram, logo veio a rejeição. Era difícil, mas eles nunca perderam a esperança. Até agora...
Quando o carro amarelo parou na porta do hospital, pagou o motorista e saiu correndo entre as pessoas. Buscava pela irmã. Assim que entrou, a viu sentada no sofá de espera, com as mãos contra o rosto e fungando. Provavelmente em uma crise de ansiedade, misturados com medo e angústia. Não havia ninguém disposto para ajudá-la a se acalmar.
Ele correu para perto dela.
... — agachou-se a sua frente, recebendo olhares de todos. — Se calme. Respira devagar. — tocou os braços dela. — . Olha para mim.
Ela arrastou as mãos para o lado e olhou profundamente nos olhos do irmão.
— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui com você, agora. — ela sorriu pequeno em alívio por vê-lo.
se sentou ao lado dela e a puxou para seus braços. Deixando-a com a cabeça apoiada em seu peito. Acariciando os cabelos no intuito de acalmá-la. Logo sentiu a camiseta ficar molhada, então resolveu abraçá-la mais forte.
— Calma, . — apoiou o queixo em cima da cabeça dela, não dizendo mais nenhuma palavra.
Em momentos como aquele, não era preciso dizer nada. O silêncio já era reconfortante, o único inimigo de eram os pensamentos. Mas pelo menos, estava ali para conversar e ajudá-la com o pessimismo.
(...)

Após duas horas de espera, dormia nos braços do irmão, completamente exausta. Já era madrugada, possivelmente duas horas da noite. O hospital estava mais calmo, e poucas pessoas circulavam. E nenhum sinal de até então... Tudo que recebia era que logo o médico iria chamá-lo para conversar, mas até o momento ninguém entrou ou saiu pela porta da emergência.
No entanto, não descansaria até receber alguma notícia. Nem que fossem apenas duas palavras do quadro do filho, já seria o suficiente para deixá-lo mais calmo ou frustrado. Ao contrário de que estava adormecida já tinha algumas horas. Após o choro, que a deixou muito mais calma, acabou dormindo, e por mais que lutasse para ficar acordada, o corpo implorava por descanso.
O dia havia sido bastante cansativo. Passou o dia inteiro na padaria, inundada de pensamentos que a deixaram mais cansada que o habitual. Pensar e ter medo do que aconteceria no futuro, não era o forte dela, então quando isso acontecia, os desgastes mentais e físicos davam ao cérebro a impressão que o corpo foi atropelado por um caminhão o deixado com diversas fraturas.
respirou fundo, bloqueando a tela do celular. Tentava se distrair com as redes sociais, mas nada conseguia lhe prender a atenção. Queria muito desviar seus pensamentos e pensar em coisas boas. Ou focá-los em alguma situação engraçada. No entanto, nada conseguia tirar de sua mente. Era inevitável.
Sempre pediu para ser otimista sobre o garoto, porém agora ele estava sendo o pessimista.
Remexeu o tronco em busca de uma posição mais confortável, suas costas já gritavam de dores. Estavam ali há muito tempo na mesma posição e tudo o que queria era ver os médicos abrindo as portas da emergência e correndo para seus braços, dizendo que não queria tomar banho.
Com o sutil movimento, tentou ser cauteloso para não acordar a irmã. Tentativa fracassada. ajeitou os cabelos rebeldes no rosto e esfregou o olho que coçava. Endireitou-se no sofá percebendo que a sala de espera estava completamente vazia.
— Quanto tempo eu dormi? — quis logo saber.
pensou.
— Tempo o suficiente para o hospital inteiro esvaziar.
— Isso seria? — ergueu uma sobrancelha.
— São duas e meia da madrugada, . — revelou na lata.
— Nossa! E nada sobre o ainda? — ficou assustada.
negou com a cabeça.
— Ninguém saiu ou entrou por aquela porta. — ele relaxou as costas no encosto e deixou suas feições se transformarem em traços da desesperança.
Ambos sabiam o que aquela demora significava, só não conseguiam acreditar que justo naquele momento a doença poderia estar se agravando e consequentemente se alastrando cada vez mais. Sabiam que precisavam juntar dinheiro para realizar outro transplante o mais rápido possível, mas de onde conseguiriam tanto? Era impossível juntar uma quantia tão alta nas circunstâncias que se encontravam.
soltou o ar pela boca e se levantou do sofá. Caminhando em direção da saída do hospital. Sua cabeça estava a mil, processando pensamentos e informações que ainda não foram confirmadas. Sentou-se na mureta em frente ao estacionamento e começou a olhar para as estrelas. Os brilhos intensos foram refletidos nos olhos dela. Somente um milagre resolveria todos os problemas naquele momento.
Queria chorar, mas não conseguia. Havia chorado todas as lágrimas e seu peito doía...
Abaixou a cabeça por um instante e logo a ergueu no momento em que uma estrela cadente cortou o céu. Correu para fazer um pedido. Não custava tentar, tudo que pudesse trazer a cura de estava valendo, sendo até um pedido inocente a um corpo celeste que penetrou a atmosfera terrestre. Fechou os olhos, deixando a voz de sua mente falar, acreditando imensamente que pudesse funcionar.

“Desejo que melhore, e que eu e possamos ajudar. Nem que para isso seja preciso colocar nossas vidas em risco.”.

Abriu os olhos, sentindo que as estrelas brilhavam mais que o comum. Talvez tivessem recebido o pedido e ajudariam com cada palavra. Os glóbulos apagados ganharam vida e uma leve ventania atingiu o corpo humano, fazendo com que pequenos arrepios subissem por cada extensão de pele. Os pelinhos enrijeceram e sentiu que era um sinal divino. O seu pedido seria atendido, só não imaginava que para isso teria de mudar completamente seu âmbito de vida. As palavras teriam consequências, mas não se importava, faria qualquer coisa para ver bem.
...? — a voz surgiu atrás de si. Fraca e baixa.
Abaixou a cabeça, ajeitando seus cabelos que insistiam em bater contra o rosto. Fechou os olhos podendo pressentir que algo de ruim estava por vir. Encarou as estrelas pela última vez e definitivamente entregou todas as suas esperanças em corpos celestiais que brilhavam deixando as noites mais encantadoras. Segurou a gola da camiseta, se preparando para encarar , sabia que o doutor estava aguardando, mas não queria entrar e receber a notícia que tanto temia.
...? — escutou e só então se virou, vendo o semblante triste do rapaz a sua frente.
— Oi, ... — puxou o ar e soltou levemente. — Como está o rosto dele?
— Nada bom.
O coração tomou uma apontada forte e dolorosa, se igualando a uma estaca afiada, penetrando cuidadosamente para que não sentisse dor. Foi tão dolorido que os batimentos cardíacos aumentaram ao nível hard. E a garganta se fechou, como se alguém estivesse lhe sufocando. Todas as sensações se assemelharam ao surto de ansiedade que teve em algumas ocasiões, por isso precisava respirar fundo antes que começasse a passar mal e virar mais uma preocupação para . Entretanto, a cada ar que invadia seus pulmões, pareciam chamas em brasa, queimando cada extensão do órgão. Até respirar doía. Não conseguia se acalmar, era impossível quando se estava preste a receber uma notícia que há tempo temia receber.
aproximou-se da irmã e pegou sua mão, gelada como o gelo. Após os anos de convivência, conseguia perceber perfeitamente quando ela estava entrando em uma crise ansiosa. Mostrar sua presença para que visse que não estava sozinha, ajudava a se acalmar. Portanto, o toque quente contra o gélido de nervosismo, foi o suficiente para acordá-la e ver que juntos tinham que serem fortes para superar todas as barreiras. Ambos eram apoios um do outro, não poderiam cair.
Juntos, vamos conseguir, . — o olhar de escondia o medo, mas demostrava toda coragem e apoio que ela precisava naquele momento.
— Juntos, né, . — sua voz saiu falha, segurou o choro o máximo que pôde.
a puxou para um abraço e beijou-lhe a testa. O calor entre os corpos fez ao pavor minimizar para que pudessem encarar os fatos juntos. Era tudo o que precisava, ter o irmão por perto para que tudo ficasse bem e perdesse o medo para que assim encarasse tudo de cabeça erguida e com valentia. O abraço foi se desfazendo conforme andaram em direção da porta do hospital, não tinha outra maneira de fazer aquilo, se pudessem fariam, mas o único jeito era ouvir o que o médico tinha a dizer.
O homem de cabelos castanhos, cacheados, com cara máscula, barba perfeitamente feita e olhos verdes penetrantes, estava tomando café em uma xícara branca e se ocupando com alguns papéis no balcão da recepção. Vestido de jaleco branco e arrumado. Aparentava ter seus 30 anos. Assim que pairou o olhar nele, seu coração deu uma cambalhota de medo, mas apertou sua mão com força para que lembrasse que não estava sozinha.
— Dr. Hodgins, essa é minha irmã, . — quebrou o silêncio.
As vozes dos hospitais, das recepcionistas e enfermeiras eram os únicos sons que invadiam o lugar. Mas quando falou, o doutor logo se virou e pairou os olhos em . Encarou-a parecendo surpreso, mas tentou disfarçar, passando rapidamente a atenção para o rapaz ao lado dela. No fundo ficara encantado pela mulher linda que estava a sua frente.
— Prazer, . Sou o Dr. Ronnie Hodgins. — apresentou-se estendendo a mão.
Um arrepio subiu pelo braço dele devido ao contato físico entre as peles.
— Prazer, doutor. — tentou disfarçar seu nervosismo por ter os olhos dele em si. Ele era bonito, mas não queria ficar interessada em ninguém depois de seu último relacionamento.
— O senhor disse que tinha notícias de . — cortou a apresentação.
— Sim, eu tenho, . — o semblante dele mudou para um tristonho.
reparou nas feições. Seu coração se apertou.
— É muito ruim, doutor? — ela questionou querendo que Ronnie fosse direto.
— Olha, ... — juntou as palmas das mãos como se fosse rezar. — Já adianto que não é uma notícia fácil e muito menos uma das melhores.
encarou , com os lábios em linha reta e as sobrancelhas caídas. Ele pegou na mão dela buscando apoio.
— Independente do que for, doutor, pode nos dizer. — disse, sabendo que o irmão não conseguiria dizer nenhuma palavra.
Ronnie soltou o ar pela boca, parecendo se preparar para anunciar uma das piores notícias que já havia dado.
— O não está nada bem. — falou na lata, sem enrolações ou lamentações. — Ele não deveria nunca ter parado a quimioterapia. — o alerta penetrou no coração de e lhe deixou mal, eles não tinham parado o tratamento de propósito, tinham por falta de recursos.
— Sabemos que não deveria, doutor... — disse em um fio de voz.
Ronnie suspirou olhando profundamente para o semblante da mulher.
— Eu sei que é difícil bancar as sessões. Acompanho o caso de há anos. — ele se sentou no sofá e vez menção para que os dois se sentassem a sua frente.
Ronnie esfregou a testa e tirou a máscara branca do rosto.
— Olha... Eu não estou aqui para dar bronca em vocês. Não adianta nada eu brigar e gritar, sendo que o que mais importa agora é a saúde de . — o olhar sincero do médico transmitia uma sensação de tranquilidade e generosidade. — O hospital sabe que vocês dão duros para cuidar dele. E nós, médicos, reconhecemos isso. Mas... — ele se inclinou e sorriu olhando para baixo por um instante — Que tal agora deixar o descansar? É bom para a saúde dele e na recuperação.
resolveu falar.
— Sabemos que nunca deveríamos ter parado a quimioterapia. Mas até agora o senhor ainda não nos falou o que realmente houve com o . — o encarou com um olhar de repreensão. Ronnie estava sendo apenas gentil antes de falar o que aconteceu.
, eu sei que está nervoso e entendo que também esteja bastante preocupado. — Ronnie disse com bastante calmaria. — O que teve foi um sinal para ficarmos em alerta. Todo aquele sangue era o corpo pedindo socorro... — seu semblante mudou para um triste e arrasado. — O câncer piorou.
levou a mão até a boca, sentindo o peito se apertando. Como se seu coração estivesse sendo moído em um moedor de carne, enquanto batia incansavelmente. Suas mãos tremiam sendo possível imaginar que quando ficasse em pé, não conseguiria ter equilíbrio. A mente estava em choque. Os pensamentos evaporaram assim que os ouvidos capturaram perfeitamente as palavras de Ronnie. Não conseguia pensar e era bastante difícil até de respirar.
olhava o nada, não conseguindo dizer nenhuma palavra.
A notícia os pegou de surpresa. Era esperado que o câncer piorasse, no fundo sabiam que esse dia fosse chegar, só que ainda não estavam preparados para lidar com a situação.
— Eu sei que não era nada do que vocês esperavam... — Hodgins quebrou o silencio percebendo a expressão surpresa e abalada dos dois. — Posso dar um momento para vocês... Sabe... Assimilarem tudo. — gesticulou com as mãos.
decidiu se pronunciar.
— Não, doutor. — encarou que a encarou de volta. Tinha as sobrancelhas caídas e olhos marejados. — Tem algo que podemos fazer para reverter isso?
O médico assentiu, mas com a expressão não muito boa.
— A única solução é fazermos novamente o transplante de medula óssea e torcer para que o corpo corresponda com sucesso. — as palavras transmitiam dúvidas misturadas com medo. Ele lembrava que dos dois transplantes que fez, todos foram rejeitados pelo organismo.
— Ele não aceitou nenhum dos transplantes que fizemos, doutor... — disse com o olhar perdido — Como tem tanta certeza que um novo fará o corpo aceitar e melhorar?
— Eu não disse que tinha certeza... São casos e casos. — corrigiu.
pensou em silêncio antes de falar:
— E se não funcionar? — encarou Ronnie nos olhos.
Ronnie esfregou as mãos querendo muito que sua resposta fosse outra.
— Infelizmente, não haverá mais nada que possamos fazer, sem ser esperar. — médicos eram frios, mas o Dr. Hodgins deixava toda sua sinceridade e altruísmo serem mais forte que o lado profissional. Ele assistia cada passo de como se fosse um pai desesperado.
sentiu a pontada rasgar seu peito até encontrar o coração. Tinha que conseguir dinheiro para fazer o transplante, não suportaria perder . E nunca iria se perdoar caso deixasse o filho partir de uma forma tão injusta. Aquele garoto tinha o mundo a fora para explorar, não era justo que ele deixasse o reino terrestre antes que visse tudo de perto.
— Iremos fazer o transplante. — disse olhando o nada.
Ronnie e a encararam. Ela disse as palavras tão de repente que os pegou de surpresa.
Ela ergueu a cabeça e olhou profundamente para Ronnie.
— Faça tudo que for possível para salvar o .
— Mas, ... — começou a protestar, no entanto bastou um olhar confiante da irmã para ficar quieto e entender que ela tinha o controle da situação.
Ela assentiu para Ronnie, fazendo-o também assentir como forma de responder que iria preparar tudo para a realização do transplante o quanto antes.
— Perfeito. — Ronnie disse, percebendo a expressão de confusão no rosto de , decidindo se retirar. — Irei ver como está. Queremos transferi-lo para o quarto para que possam vê-lo. Com licença.
Assim que Ronnie entrou pela porta da emergência, pôde finalmente ter privacidade para conversar com sobre o que ela acabara de dizer. Como iriam pagar o transplante sendo que estavam prestes a perder a casa em que moram? Ela estava ficando completamente pirada. Tinha a impressão que a irmã não estava pensando com clareza nas consequências e nos riscos.
esfregou as mãos no rosto e suspirou. Sentia-se desconfortável com não dizendo nenhuma palavra. E não sabia se deveria falar algo ou não. Sabia que iriam brigar e o momento estava pesado demais para brigas bobas. Portanto, se levantou do sofá e foi para fora tomar um pouco de ar, passando a mão incansavelmente pelos cabelos. Queria evitar que uma discussão acontecesse, porém se fosse o caso, seria bom que fosse bem longe do hospital, ninguém precisava escutar o que iriam dizer um ao outro.
encarou as costas do irmão sumindo pela porta e sendo consumida pela escuridão da noite. Seu coração ainda estava bastante acelerado. Nervosa e apreensiva. Ver incrédulo, buscando ficar longe para evitar confusão, doía mais que o corte mais profundo da lâmina de uma faca. Sabia das consequências de suas palavras, não seria fácil arcar com elas, mas arriscaria pela saúde de . Como havia pedido para as estrelas arriscaria a própria vida para ver o sobrinho bem e com vida.
Contudo, soltou o ar pela boca, sabendo que estava devendo uma boa explicação para .
Levantou-se do sofá e seguiu para fora, na mesma direção que o irmão. Já tentando pensar em como diria tudo o que pensava. Seu maior medo era de receber uma repreensão ou um discurso de irresponsabilidade. Mesmo assim tinha que fazê-lo. De cabeça erguida, interiormente sentindo o coração acelerar mais a cada passo, encontrou apoiado com as mãos na mureta, que dava de frente para o estacionamento do hospital.
Não sabia por onde começar, mas tinha que tentar.
...? — chamou com os braços cruzados, na tentativa de se proteger do frio. — , me deixa explicar.
Ele suspirou antes de encará-la.
— Explicar o que, ? — ele ficou ereto de frente para ela.
— Caramba, . — disse, sentindo a voz rouca. — Eu não poderia deixar o morrer.
— O doutor não disse que ele vai morrer, .
— Você não entende... — segurou as lágrimas — Ronnie não disse com clareza, mas dava para perceber no tom de voz dele que esse é o único resultado, se não fizéssemos esse transplante.
mordeu os lábios e se sentou na mureta, virando a cabeça para não encará-la. Na verdade queria esconder seu rosto de choro.
— Eu não sei mais o que fazer... — disse em um fio de voz.
... Eu... — hesitou não aguentando ver o irmão daquele jeito. — Eu concordei com o transplante porque eu sei que vamos dar um jeito. — levantou a cabeça para cima no intuito de evitar as lágrimas. — Eu recebi dinheiro da padaria e da pizzaria, podemos trabalhar duro para pagar o restante que falta. — colocou as mãos na cintura, tentando ficar firme.
— Íamos usar esse dinheiro para quitar todos os aluguéis atrasados! — se levantou com rapidez e deixando sua voz soar ríspida.
— Você prefere que seu filho fique vivo ou que tenhamos um lugar para morar? — ela rebateu no mesmo tom que ele.
A conversa estava tomando outro rumo. O rumo da raiva e da euforia. Não era esse o caminho que queria que suas palavras tomassem, mas estava alterado demais para uma conversa civilizada.
— Se possível os dois, . — bradou olhando profundamente nos olhos da irmã. — Eu me mudei para a sua casa, em busca de um lar para cuidar do . E tudo está desmoronando, está tudo saindo do jeito que eu nunca imaginei!
— Tudo estava na mais perfeita ordem até o dinheiro acabar. — enfrentou, não deixaria que ele dissesse tudo o que se passava pela cabeça para fazê-la se sentir mal. — Enfia nessa sua cabeça que tudo saiu dos trilhos porque eu estou te ajudando a cuidar do ! A maioria dos remédios sou eu que compro, e é assim que você me agradece?! — nessas horas de raiva, dizer o que o dinheiro dela comprava não era uma boa ideia.
— Está dizendo que nunca fiz nada pelo meu filho? — a conversa não estava indo para o melhor caminho.
passou a mão pelo cabelo e segurou uma boa quantia entre os dedos. Fechou os olhos e suspirou, pensando em algo para corrigir a merda que havia dito. Sabia que nunca deveria ter usado aquelas palavras. São cruéis, fúteis, além de demonstrarem todo o egoísmo por estar se gabando pelo dinheiro. Naquele momento tudo o que menos precisavam era brigar, e sim, se unirem mais uma vez para passarem por períodos difíceis com .
— Eu não quero brigar, . — disse com calmaria.
— Infelizmente é isso que está fazendo. — ele continuou com o tom de voz rígido e grosseiro.
— Não sou eu que estou fazendo uma tempestade no copo d’agua por ter feito uma atitude correta! — rebateu e em seguida respirou fundo.
Já estava cansada de discutir, sabendo que – enquanto estivesse eufórico – fosse jogar todos os argumentos possíveis em cima dela para machucá-la. Ele era um ótimo irmão, mas quando algo saia de seu controle, o irritando, o mais seguro é ficar bem longe de seus picos de fúria.
— Eu vou para casa. Você não tem jeito. — disse e lhe deu as costas, decidida pegar um táxi para ir embora.
. — agarrou o braço da irmã para que parasse de andar.
Ela o encarou com dúvida, o que mais jogaria na sua cara?
— Desculpa, tá? — pediu e ela soltou o ar pela boca, era sempre assim. — Eu sai do controle, mas caramba... Você não entende que nunca vamos conseguir dinheiro para pagar o transplante e a casa ao mesmo tempo?
puxou seu braço.
— Eu sei que vamos conseguir. Quem está sendo pessimista agora? — disparou o pegando de surpresa.
Era incrível que , incansavelmente, dizia para ela ser otimista, mas era os problemas chegarem que ele começava a ser pessimista consigo mesmo. Era incrível como os conselhos não serviam de nada consigo mesmo.
— Eu estou sendo realista. De onde vamos arrumar tanto dinheiro? — ele tinha as sobrancelhas caídas com os glóbulos recheados de medo e insegurança.
... Entenda uma coisa... — olhou profundamente nos olhos dela. — Todas as vezes que o precisou, conseguimos dar um jeito, não conseguimos? — ele assentiu — Então, irmão. Por que não vamos conseguir mais uma vez?
Ambos se encararam, tendo os mesmos pensamentos. Se sempre davam um jeito de bancar os procedimentos, por que dessa vez ia ser diferente? Eles iam conseguir juntar o dinheiro antes do prazo de pagamento. Só ainda não sabiam como iam fazer isso, mas com o tempo a vida irá mostrar o caminho.
— Vamos para casa, irmã?
assentiu e sorriu. Já a puxou para um abraço bastante apertado. Durante o contato dos corpos, só conseguiu pensar que estaria perdido se não tivesse aquela mulher por perto para lhe apoiar nos momentos mais difíceis. Provavelmente já teria pirado sem ela sendo seu alicerce. Não conseguia ver como viveria sem sua mana por perto. Apesar de tudo, ela era a pessimista, mas quando o mundo parecia virar de cabeça para baixo, conseguia ver tudo com otimismo e força de vontade para fazer dar certo.
era enigmática.
— Provavelmente irão transferi-lo para o quarto mais tarde. Precisamos fazer uma pequena mala para passarmos as noites e os dias ao lado dele. — disse assim que se soltaram do abraço e começaram a andar. — Por mais difícil que pareça, ele precisa mais do nosso apoio do que nós mesmos.
No entanto, durante o caminho para casa, só conseguia pensar que precisaria urgente ver o jornal em busca de alguma vaga de emprego. Não poderia ficar parada enquanto corria contra o tempo. Qualquer minuto perdido seria desperdício para quem precisa juntar uma quantia bastante alta.



Continua...



Nota da autora: Olá, meus amores, vamos a mais um capítulo dessa história que eu amo? Demorei por motivo de escrita mesmo, eu quis deixar esse capítulo massa, e ele ficou! Uma leitura bem gostosa, espero que gostem!

Tenho um grupo onde podem ficar sabendo tudo o que rola sobre a fic, caso estiver interessado sua presença será bem vinda.
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