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Última atualização: 22/07/2022

Prólogo

A porta do quarto foi aberta deixando-a bater contra a parede. O homem completamente furioso entrou por ela, jogando tudo o que encontrava pelo caminho. Derrubando quadros que se quebraram em pedaços; o guarda-roupa que cuspiu todas as roupas pelo chão; o criado mudo derrubando pertences preciosos. A fúria definitivamente tomou conta de todos os seus sentidos. E jogar os objetos ajudava a se acalmar.
Seu rosto sangrando e olhos marejados tomavam conta de sua face. A dor dos ferimentos em seu olho direito e nariz pareciam não existir. Toda dor e toda lágrima viraram raiva. Era um dom dos Sharapova transformar a dor em mais um pouco de fúria. Com não era diferente.
Ele havia acabado de sair de uma luta. Uma luta bastante brutal, onde perdeu metade de sua fortuna, integrantes e seu bem mais valioso. Um bem tão poderoso para o russo que agora planejava pegar de volta nem que isso custasse sua vida.
— Senhor, quer alguma coisa? Uma água, um... — o mordomo apareceu na porta vendo toda a destruição bastante assustado.
— EU NÃO QUERO NADA, OLIVER! SAIA DAQUI! — berrou fazendo o senhor sair correndo. sentia todos os seus músculos rígidos e seus ferimentos ardendo por causa do suor. Sua raiva estava transbordando, sempre ficava assim quando mexiam naquilo que era dele. Sentou-se na cama e passou as mãos pelos cabelos. No momento que sua cabeça estava abaixada, com os olhos fechados, tentando respirar fundo para se acalmar; um par de sapatos pretos bem engomadinhos passou pela porta.
— Você fez um estrago e tanto aqui em. — quando ouviu a voz, o pouco de sua calma foi para o ralo.
Um belo senhor, esbelta, vestido em um smoking caro. Na faixa de seus 46 anos. Estava entrando pelo quarto analisando cada detalhe da destruição que fizera. Seu semblante tranquilo deixou o rapaz mais eufórico e a falta de ferimentos dizia que não havia participado da luta.
ergueu a cabeça e encarou o pai com uma expressão de ódio.
— Foi você, não foi? — levantou-se com o rosto purificado pela raiva.
— Olha, ... Isso acontece... Não poderíamos fazer nada, faz parte de uma família mafiosa. — disse com calmaria.
— VOCÊ PODERIA TÊ-LA PROTEGIDO! — disse entredentes.
— VOCÊ SABE QUE ISSO ERA IMPOSSÍVEL!— o mais velho gritou fazendo as veias de seu pescoço saltarem.
— Não era, pai. — agarrou o colarinho do mais velho com força. — E você sabe muito bem disso!
Assim que teve as mãos do filho em sua roupa, não poupou esforços em agarrar o braço direito do rapaz e torcê-lo com força. Saulo Welton Sharapova fez o filho ficar de joelhos em apenas poucos movimentos. O chefe russo ainda conseguia imobilizar suas vítimas e não importava quem fosse. Nunca na vida foi colocado de joelho porque sempre tinha a mãe no caminho para protegê-lo, mas agora ele estava sozinho.
— Você, , — Saulo torceu mais o braço do filho, podendo ouvi-lo segurando a dor — é um merda! A sua mãe te mimou tanto por ser o último filho homem que por isso eu não tive outra escolha a não ser mandá-la para longe de você! — revelou. — A máfia Hayes estava louca pela cabeça dela e eu não pensei duas vezes antes de trocá-la por milhões de rublos. — a moeda russa era mais importante do que a própria família.
sentiu muita vontade de chorar, mas se segurou. Após a confissão de Saulo, todas as suas lágrimas viraram ódio e raiva. Com a mão livre, agarrou o braço do pai e se levantou com uma postura rígida e bastante calculada. Ele não torceu o braço de Saulo, apesar de querer, e simplesmente o afastou do seu. Nunca iria se igualar a seu pai.
— Você não faz ideia do mal que fez, pai! — bradou bastante furioso pela confissão. — Ela não tinha culpa. Ela detestava o senhor e agora eu vejo o porquê. — parou ao lado esquerdo do mais velho e disse bem perto de seu ouvido: — Eu declaro guerra aos Hayes e torça para eu não declarar guerra contra meu próprio sangue.
Saulo imediatamente, rápido como um guepardo, se virou e agarrou o maxilar do filho, olhando profundamente naqueles olhos carregados de ódio. O rapaz continuou com a expressão marrenta e raivosa.
— Não ouse trazer desgraça para essa família, . — o rapaz sorriu de lado e puxou o rosto para trás.
— Somente uma esposa americana. — provocou, infligindo a lei dos Sharapova.
deu as costas para o pai e seguiu rumo à porta. Saulo foi atrás dele e gritou no corredor eufórico:
— Aonde é que você vai, ?
O rapaz se vira e abre os braços, percebendo que seus irmãos, tios e tias saíam de seus quartos para ver o que estava causando tanto alvoroço e gritaria.
— Aos Estados Unidos! — disse abertamente antes de se virar e continuar andando.
Saulo transbordou de raiva e os múrmuros da rebeldia repercutiram pelo corredor. Enquanto isso, sorria.
A máfia rival estava preparada, mas ele não. E eles capturaram o ponto fraco do herdeiro russo e isso o deixou furioso. Justamente do herdeiro mais rebelde e teimoso. Nunca se deve mexer com um russo. Os americanos estavam brincando com o perigo. Russos e estadunidenses são inimigos históricos, a Guerra Fria era a marca que deixaram de todo ódio entre Estados Unidos e União Soviética. Agora aquele fator histórico iria contribuir para que a guerra entre as duas máfias esteja declarada.
A máfia Sharapova acabou de declarar guerra para a máfia Hayes. Em outras palavras: a máfia russa iria destruir a máfia estadunidense.

Capítulo 1 — Incertezas

"Para Tate.".

Passou as correspondências. Com seus olhos cansados e sem esperança, desesperados, transbordando insegurança. não sabia mais o que fazer. Sua cabeça estava infestada de pensamentos pessimistas. Não havia outra saída melhor, sem que seja pensar negativamente. Todos os caminhos foram traçados e a cada fim, parecia ser mais uma carta de cobrança que entrava na caixa de correio.
Jogou os papéis sobre a mesa. Naquele instante sua vontade era de chorar, mas não tinha forças para deixar suas lágrimas saírem. Apoiou os cotovelos na mesa de madeira e os dobrou, deixando suas mãos taparem o rosto de uma mulher dominada pelo medo. Não aguentava mais seu celular tocando sempre anunciando mais uma cobrança. A cada dia a situação piorava e não sabia mais como reverter isso.
Por sorte ainda tinha um sorriso que todas as noites a fazia pensar mil vezes antes de se arrepender do que fizera.
Mas, infelizmente, esse sorriso não poderia salvar sua casa. O aluguel atrasado há meses não mostrava outro resultado. Morar em uma casa alugada era a pior coisa que uma mulher solteira poderia fazer. No entanto, antes de sua vida mudar conseguia se manter estável. Até que seu irmão apareceu e em seus braços estava o pequeno , sofrendo de leucemia linfóide aguda.
Ver o sobrinho nos braços de seu irmão foi de cortar o coração. Olhar dentro dos olhos de e enxergar o medo, glóbulos carregados de desespero. Devido à doença, o corpo de estava bastante magro, perdia peso muito fácil e na época o garoto estava anêmico. A leucemia estava em um estado bastante avançado e o menino precisava ser internado imediatamente para receber os cuidados necessários. não teve escolhas e teve que pegar todas as economias guardadas para salvar o sobrinho.
Devido à condição do filho, foi obrigado a largar o emprego e a falta de dinheiro fez com que perdesse a casa e tudo o que tinha. O tratamento de era bastante caro e todas as sessões de quimioterapias eram bancadas pelo plano de saúde, porém acabaram perdendo o plano a partir do momento que não conseguiram mais pagar.
Desde então, , o irmão e o sobrinho moram na mesma casa.
A única saída era recorrer a ela ou a Charlotte. sabia que as irmãs não o deixariam na mão. Morar na rua estava fora de questão, ainda mais com uma criança bastante debilitada nos braços. foi a que abriu as portas, não que Charlotte tenha se recusado, muito pelo contrário, não pensou duas vezes antes de ajudar o irmão. Porém foi uma escolha de ficar com , desde crianças tinham um vínculo maior, eram mais próximos, e também não queria incomodar a vida de recém-casados de Charlotte e o marido.
Com uma casa para morar, ficou mais tranquilo e se dedicou ao máximo para bancar o tratamento do filho. Fazia bicos em descarregamento de caminhões nas empresas para ganhar alguns trocados. Como se recusava a sair de perto de , não procurava um emprego fixo e não queria pedir para cuidar do menino. Além do mais, ela trabalhava em uma padaria durante a manhã e em uma pizzaria a noite.
entendia que o irmão não queria abandonar o filho, aliás, o menino tinha recaídas a qualquer momento, sendo difícil deixá-lo sozinho. Então com os dois empregos que já tinha antes deles chegarem, conseguia dinheiro para pagar o aluguel e colocar comida na mesa. Porém as contas começaram a ficar cada vez mais altas. A cada vez que ia na farmácia era quase um caminhão de remédios que precisava comprar. E na tentativa de ajudar no tratamento do sobrinho, as contas foram deixadas de lado.
Ela sabia que nunca conseguiria bancar o tratamento de sozinho, ainda mais os transplantes de medula óssea que precisavam serem feitos para a recuperação. Então ela decidiu assumir a dívida. Foi uma péssima ideia. Com isso o aluguel foi deixado de lado. Sendo muito caro e com o dono da casa deixando-os ficar, é o peso que agora estava pesando mais na balança.
Seis meses de aluguel atrasado. Nenhum dono quer isso do seu inquilino. tentava de tudo para fazer o homem mudar de ideia e deixá-los ficar mais uns meses até acharem um lugar, um lugar cujo tinham medo de procurar. Ela tentara de tudo, a única coisa que amoleceu o coração do dono foi saber que ela e o irmão lutavam para cuidar de que sofria de leucemia. A revelação lhe fez dar o prazo de um ano para se mudarem. E esse prazo estava acabando. Faltavam exatos dois meses.
Segurou o choro, pois logo acordaria e perguntaria o porquê estava chorando, e ela não saberia como responder. Tirou as mãos do rosto e encarou a pilha de contas. A única que lhe chamava mais atenção era a do aluguel. respirou fundo para tomar coragem para abrir a correspondência.
Rasgou o envelope e abriu, puxando o papel dobrado. As palavras em uma caligrafia feita em computador encheram os olhos de de lágrimas.


Olá, ! Como está? Espero que bem melhor do que da última vez em que conversamos. Através desta carta estou avisando que faltam apenas dois meses para você e me entregarem a chave da casa. Já possuem um novo lugar para morar? Infelizmente, não vou conseguir segurar por mais tempo, . Eu tentei e esse é o meu máximo. Então, por favor, peço que dentro de dois meses me entreguem a chave e achem um lugar melhor para morarem e cuidarem de , eu gostaria muito que ficassem, mas infelizmente não irei conseguir segurá-los. Minha esposa está uma fera com o atraso do aluguel e ela quer que vocês entreguem a casa ou paguem todas as prestações. Eu sinto muito mesmo ...

Atenciosamente,
Alex Morbi.


A vontade de chorar era imensa. Receber uma carta que pedia para entregar o imóvel era a pior coisa que já lhe acontecera. E Alex ainda perguntava de ... O garoto estava ótimo, mas precisava urgente voltar para a quimioterapia, ia fazer três meses que não comparecia no hospital. Por sorte o pequeno não teve nenhuma recaída pela doença. Caso tivesse ela e iam entrar em desespero total.
Além disso, também deviam para o hospital. Os médicos entendiam as condições financeiras e a dificuldade, por isso deixavam algumas sessões de quimioterapia passarem sem serem pagas na hora. Mas se fossem somar o valor já estaria bem alto.
Não tinha jeito, ambos estavam bastante atolados na lama.
dobrou a carta de Alex e a colocou de volta no envelope, juntando com as demais. No instante em que as arrumou, um vulto passou correndo pela cozinha. Logo prendeu seus olhos no menino e abriu um imenso sorriso. estava correndo, pelado, pela casa fugindo do banho, como de costume todas as manhãs. apareceu para pegá-lo e se escondeu atrás de uma cadeira para que o pai não o pegasse. não poupou sua risada.
— Então é assim que vai ser garotinho? — disparou com um tom bastante brincalhão.
— Você não vai me pegar, papa. — respondeu e saiu correndo de novo, dessa vez dando a volta na mesa e indo em direção da sala.
o acompanhou com o olhar ainda com o sorriso em seus lábios. tinha a cabeça virada na direção que o garoto foi e o via brincando com alguns dinossauros no sofá. Ela respirou fundo e suspirou. Mesmo vendo bem, pensamentos de que ele iria piorar insistiam em invadir sua mente. Era muito pessimista e isso acabava lhe fazendo bastante mal.
Pensar que não tinha certeza do futuro e que no dia seguinte poderia estar nos braços do pai do mesmo jeito em que bateram na porta, lhe doía o peito. Percebia o quanto o menino estava magro, como naquele dia, e por mais que tentasse seguir uma dieta regrada para que ganhasse peso, era impossível fazê-lo engordar. A leucemia estava muito avançada e isso consumia todas as reservas do corpo para que o organismo lutasse contra a doença. Porém chegaria uma hora que um dos lados iria vencer e ela sabia que seria a leucemia.
Todos os dias, quando pensava no pior, sentia vontade de chorar. Como se não estivesse mais ali. Ela sofria de ansiedade, então sempre sofria de véspera, sendo assim não aproveitava o seu presente. sempre dizia que ela tem que tirar os pensamentos de um futuro incerto e focar no presente que estava acontecendo. estava bem, comendo, sorrindo e sem nenhuma complicação, então qual o motivo de pensar o pior quando se pode aproveitar o momento?
— Preocupada de novo? — puxou a cadeira e se sentou em frente a ela.
Assim que a resposta não veio, também virou a cabeça para a direta e viu jogando os dinossauros no ar, pegando dois e fazendo de conta que brigavam. Ele sabia exatamente o que estava pensando.
— Ele está bem, , qual é o problema de aproveitar esse momento? — disparou.
continuou com a mão apoiada na cabeça e olhando . Não encarando o irmão.
— Você tem que focar no presente, esqueça o futuro. Olha isso! — apontou o filho — Ele está ótimo, sorrindo, brincando... — sorriu bobo — Por favor, foque no agora só uma vez na vida.
suspirou, fechando os olhos. Só nesse instante que encarou .
— Nós dois sabemos o que vai acontecer, mas você insiste em não querer enxergar isso. — disse com o tom baixo, mexendo nas correspondências.
... Eu sei o que vai acontecer e não estou ignorando isso. — a olhou com pena. Sabia que ela não conseguia parar de pensar no pior. — Você sofre de véspera, mas — pegou na mão dela para que passasse a olhá-lo. Ela o fez — ele está vivo e está conosco. Não é melhor aproveitar isso do que ficar sofrendo por algo que ainda nem aconteceu?
— É difícil quando não se pode fazer nada para mudar essa situação... — deixou uma lágrima escorrer.
— Pode sim. — ele limpou a lágrima e olhou dentro os olhos dela. — O que você pode fazer é aproveitar o presente. Aproveitar esse momento e não pensar em algo que é incerto. — ele sorriu de lado. — Quem sabe um rico não se comove e tenta nos ajudar com o tratamento?
Ela sorri também.
— Meio difícil isso acontecer.
— Não basta sonhar. Temos de ser otimistas. — disparou e se levantou. Inclinou-se para beijar a testa da irmã. — Vou pegar o danado para tomar o banho dele. — ele abaixou o olhar para as contas e puxou a do aluguel, tendo a atenção da mulher. — Depois conversamos disso. Ok? — ela assentiu.
o acompanhou sair para pegar o garoto. , com um sorriso no rosto, agarrou e o ergueu em cima de sua cabeça como se estivesse voando. O menino abriu os braços e começou a rir, uma risada gostosa, carregada de calmaria e alegria. então correu e o filho continuou rindo, ambos juntos voaram em direção do banheiro. Como o banheiro ficava no corredor, tiverem que passar pela cozinha e sorria os vendo junto.
Definitivamente estava aproveitando todos os segundos ao lado do filho e ela também deveria fazer isso. Deveria deixar sua ansiedade de lado e focar no presente, estava bem e feliz. Não custava nada aproveitar o momento como se fosse o último. Tinha que aprender a viver um dia de cada vez com otimismo...

∆∆∆

Mais um dia que entrava pela porta da padaria, vendo os funcionários limpado o lugar para um novo dia se iniciar. O padeiro arrumava os pães e os doces na vitrine. O cheiro de pão saindo do forno inundava todo o ambiente, ninguém que passasse ali na frente resistia ao paladar. Não era a toa que o lugar se chamava Gold Oven, em outras palavras, Forno de Ouro.
Mas apesar do cheio delicioso que era capaz de fazer qualquer pessoa querer levar um dos quitutes. A padaria andou caindo em vendas nos últimos meses, após a inauguração do shopping à uma quadra dali. Ninguém iria tirar um tempinho para experimentar os quitutes do Sr. Donavon quando se tem tudo em um só lugar.
A sorte que a padaria tinha seus clientes fiéis, o azar era o aluguel e as contas a pagar. Após a queda das vendas ficou triplicada a dificuldade de quitar as dívidas. A sorte de Donavon que seus funcionários eram leais e bastante compreensíveis para esperar o salário cair na conta, caso contrário estaria com a padaria mais vazia que um campo de futebol molhado.
precisava do dinheiro para ajudar com o tratamento de e as contas. Mas como ajudar se o salário nunca caia? Impossível. Ultimamente se virava com o pouco da diária que recebia na pizzaria, não era muito, mas pelo menos dava para comprar arroz, feijão e pão, todos os dias. No entanto, se um dia precisasse faltar, por algum problema de saúde, estaria perdida, pois não teria como sustentar a casa até o dia após o seguinte.
— Já soube da novidade, ? — Stephanie disparou enquanto limpava o balcão com álcool.
— Qual novidade? — , que estava contando o dinheiro, perguntou.
Stephanie parou de limpar assim que um homem gorducho entrou pela porta e fez o sino balançar, anunciando que alguém havia entrado. Ergueu o olhar e se aproximou de , com o rosto perto do ombro disse:
— Ouvi que Donavon vai fechar a padaria. — imediatamente parou de contar e suas mãos travaram.
Ela fechou os olhos e demorou para abri-los, tentando assimilar a bomba, além de recuperar a concentração para voltar a contagem.
— Isso... Não... Não pode ser verdade, Stephanie. — a garganta de secou conforme falou. Uma onda de arrepio de medo caminhou por suas costas. Ela precisava muito do emprego na padaria.
— O Sr. Donavan não deu nenhum posicionamento desde que a notícia começou a correr pelos funcionários. — Stephanie seguia os movimentos do homem gorducho
engoliu o pouco de saliva que tinha, sentindo sua garganta raspando ao engolir. Logo a sua frente estava Donavan e o homem gorducho conversando. Ambos rapidamente se dirigiram para fora da padaria. Pela maneira como saíram, era um assunto que iam manter bem longe dos ouvidos de cada um dos funcionários.
— O que o pessoal está falando, exatamente? — quis saber separando o dinheiro em montinhos, pois nunca iria ter concentração o suficiente para contar tudo de uma vez.
Stephanie arrumou sua postura ficando ao lado de . Limpava as mãos com o pano enquanto falava.
— Que Donavan está falindo desde o dia que o shopping inaugurou. — disse, erguendo o olhar para a porta. — O que acha que eles estão conversando?
encarou a porta, porém seus pensamentos estavam longe. Principalmente envoltos em como iria pagar as contas e ajudar com as despesas do filho. Naquele instante viu sua vida entrando em um enorme, largo e infinito buraco, onde não tinha nada para se agarrar.
— Não quero tirar conclusões precipitadas. — respondeu voltando sua atenção para o dinheiro. Sentindo seu corpo começar um pequeno surto de ansiedade.
— Deveria, já que o tratamento do depende desse emprego. — Stephanie não falou por mal, realmente dependia da padaria para o tratamento.
Stephanie saiu para ajudar o padeiro na cozinha, alguns doces estavam saindo e Donavan gostava que os colocassem na estufa enquanto ainda estavam quentes. Havia algumas pessoas que gostavam de comer um beliscão com a goiabada derretendo. As bolachinhas de nata derretiam com mais facilidade quando quentes.
Donavan sempre fez tudo para agradar aos seus clientes, agora só por causa de um shopping ninguém mais quer comprar na padaria. O shopping era muito grande, com seus 5 andares, provavelmente havia umas 10 padaria lá dentro. Então quem ia querer descer as escadas rolantes e andar meio quarteirão para ir na Gold Oven?
estava nervosa. Sentia suas mãos tremendo para contarem o dinheiro do caixa. Era difícil até de se concentrar, pois estava novamente deixando o medo tomar conta de todos os seus sentidos. Sua ansiedade estava saindo a cada dia mais do controle. Sabia que precisava retornar para o psicólogo urgentemente, se não a qualquer momento entraria em um surto nervoso. Porém como ter dinheiro para pagar a ajuda psicológica quando todo o dinheiro que resta vai para o hospital?
Desde que chegou, precisou deixar muitas coisas de lado. Principalmente seus tratamentos psicológicos. Ela sabia que precisava passar e daria um jeito de voltar, só não sabia quando e como faria isso.
Sua cabeça estava a mil. Recheada de pensamentos pessimistas. Uma das principais lições que aprendeu com sua psicóloga foi que nunca se deve pensar negativo, porém como não pensar em uma situação como aquela? Padaria falindo e precisando de remédios. Difícil evitar e mais difícil ainda era aceitar.
Não conseguia aceitar que poderia morrer a qualquer momento, a doença era muito traiçoeira e apesar do tratamento estar sendo aceito, pela idade o câncer já está bastante avançado. Por mais que pensasse o melhor, seu principal medo era a morte. Não a sua morte, mas a de . Não conseguia se imaginar vivendo com sem o filho. Ele ficaria arrasado. não suportaria ver o irmão pelos cantos e não fazer nada.
A mente de era tão traiçoeira, que ao invés de se concentrar para contar o dinheiro do caixa, estava imaginando abraçado aos joelhos, no sofá da sala, chorando e entrando em uma profunda depressão. Seu coração dava pontadas sofridas e os olhos queriam chorar. Estava novamente sofrendo de véspera. O famoso e mais sofrido sentimento de um ansioso, que era a mente fazer o corpo sofrer por algo que nem sequer aconteceu ou, talvez, nem há probabilidades de acontecer.
Estava quase chorando, quando Donavan se aproximou do balcão e parou em frente ao caixa. Com um semblante bastante abatido. Sorte dela que viu seu chefe chegando, se não iria chorar por uma incerteza.
— Bom dia, Senhor Donavan. Tudo bem? — disfarçou seu semblante com um sorriso. Por mais incrível que pareça conseguia disfarçar seus momentos de ansiedade e insegurança com um simples sorriso. Era difícil acreditar que ela sofria do famoso: sofrimento de véspera.
— Nada bem. — focou toda sua atenção em Donavan, para que seus pensamentos pessimistas e ansiosos não enchessem sua cabeça de preocupação. — E vejo que você também não está. Está chorando, ? — ela o encarou imediatamente.
Sentiu seus olhos lacrimejando e nem notou que havia deixado seu medo ser mais forte que o autocontrole. Era bastante comum as pessoas perguntarem se estava chorando, pois realmente parecia que estava.
— Não. Eu só bocejei. Estou bem. — sorriu sem jeito tentando disfarçar seu nervosismo. — Muitas vezes as pessoas acham que estou chorando quando na verdade só estou com sono. — concentrou sua atenção para o dinheiro, os separando em montinho um do lado do outro.
Assim que o dinheiro em suas mãos acabou foi quando percebeu que havia se distraído de novo. Sua mente estava em uma dimensão completamente diferente dessa em que vivia. E essa dimensão tinha um nome: Tate. Todas as preocupações estavam vindo à tona e todas giravam em torno do menino. Justamente em momentos que nunca aconteceram, como: tendo que ir às pressas para o hospital; a falta de medicamentos e a falta de condição financeira para custear os gastos no hospital.
Felizmente, nunca e tiveram que levar às pressas ao centro de saúde, porém não custava se preparar psicologicamente para o momento. Ela sabia que se caso isso acontecesse quando estivesse desempregada, não aguentaria ver se "matando" em supermercados descarregando enormes caminhões ou em bicos para pagar o quarto para o filho ficar confortável e fora de perigo.
E, infelizmente, só tinha a irmã para buscar apoio, então como buscaria se ela estivesse com o emocional mais abalado que o dele?
De repente, Donavan pousou a mão sobre o pulso de , atraindo a atenção dela.
— Tenho que conversar com você, . Em particular. — o tom dele não passou segurança.
Donavan retirou a mão de cima do pulso de , e caminhou para a cozinha. Abriu a porta e passou por ela, lá dentro verificou se havia alguém por perto, quando percebeu que não havia ninguém mais além dele mesmo, foi que voltou e chamou-a com a mão. Provavelmente Stephanie e Otis já tinham acabado com os doces e estavam arrumando as vitrines na parte da frente da padaria.
empurrou a porta, tendo o pressentimento que Donavan não falaria algo bom.
— Aconteceu alguma coisa, Senhor Donavan? — preocupou-se.
Ele suspirou.
— Ah, ... — ela sentiu que ele segurava o choro. — Gold Oven está com seus dias contados. — na lata disparou.
esperava lágrimas e muitas explicações acompanhadas de injúrias. Porém Donavan decidiu contar a ela na lata e com bastante clareza. Ela sabia bem o que significava "dias contados". E imediatamente após as palavras, ficou em silêncio e invadiu sua mente, em uma lembrança correndo feliz e gritando no parque, com ela e atrás dele.
— Stephanie me contou que as vendas andaram caindo. — decidiu falar, ficar calada só pioraria seu emocional. — Mas não achei que o shopping estivesse realmente levando Gold Oven às ruínas. — gesticulava tentando distrair seus pensamentos com suas mãos.
— Para falar a verdade, ... — ele suspirou novamente, segurando com dois dedos os cantos dos olhos próximos ao nariz. — Esse lugar já estava com os dias contados desde quando o shopping abriu. Não tinha como nós vendermos mais do que eles. — uma voz tristonha e muito já casada saiu pelas cordas vocais do Senhor Donavan.
sentiu muita vontade, imensa e absurda de abraçá-lo, mas sabia que se fizesse iria começar a chorar compulsivamente.
— Eu nunca imaginei que o shopping pudesse nós atrapalhar tanto... — ela não sabia o que dizer, a única certeza que tinha era que ficaria desempregada.
— Eu já esperava, . — ele olhou no rosto dela com um sorriso amarelo. — Mas não achei que em menos de dois meses o movimento e os lucros fossem cair tanto... — suspirou em tristeza.
Donavan se virou e caminhou para o forno onde havia pães assando e muita farinha pelo chão. Era uma cozinha bastante humilde, somente de olhar dava para ver que o dono não gastava dinheiro com instrumentos caros, sendo que os mais baratos faziam o mesmo trabalho.
— Eu amo esse lugar, . — disse com a voz afetada pelo choro que quase escapou por seus olhos. — Mas não tenho outra escolha a não ser fechá-lo e vendê-lo... — passou a mão na mesa cheia de farinha, com uma expressão muito triste e abalada.
sentiu seu coração apertando a cada palavra e expressão de Donavan. Vê-lo daquele jeito era pior do que ouvir que ia perder o emprego. Sabia que era difícil para ele deixar a padaria, era um sonho aquele prédio. Desde muito cedo Donavan sonhava em abrir o próprio negócio com sua esposa e deixar de herança para os filhos.
Mas agora tudo foi por água abaixo...
— Eu sinto muito, Donavan... — foi a única coisa que conseguiu dizer.
Ele balançou a cabeça em negação.
— Não sinta, . — bateu as mãos para tirar a farinha e a encarou com uma expressão de compaixão. — Na verdade, era isso que eu queria conversar com você.
ficou em silêncio esperando ele dizer as palavras que tanto lhe doeria.
— Eu irei continuar te ajudando, . — as palavras a pegaram de surpresa.
Ela ficou imóvel e até sua garganta fechou, impossibilitando de dizer alguma palavra.
— Eu sei sobre o . — como Donavan era imperativo, conforme falava mexia nos objetos da mesa. — Por mais que você tente esconder, nós dois sabemos que ele está sem o tratamento há mais de um mês. — falou e não sabia o que dizer. — Sabemos que isso é arriscado. Você e precisam estar atentos e preparados para qualquer momento.
Donavan caminhou para a porta e saiu da cozinha, indo em direção do balcão. ficou imóvel por mais alguns minutos, até segui-lo, onde Donavan queria chegar falando sobre ? Será que era um recado do futuro para que ela e levassem o menino para o hospital?
Quando recuperou os movimentos de seu corpo e a mente parou de produzir pensamentos duvidosos, seguiu na direção em que Donavan saiu. O encontrou mexendo na gaveta de dinheiro e no computador, parecendo estar somando alguma coisa.
— Não quero que assuma nenhuma responsabilidade por , Donavan. — parou ao lado dele e disse próximo do ombro do senhor.
— Eu quero ajudar, . — disse puxando um envelope da última gaveta do balcão.
— Mas não precisa, Donavan. — repreendeu. — Eu e temos tudo sob controle. está bem e logo iremos levá-lo para o hospital.
Donavan sorriu de lado.
— Você é teimosa, . E mais ainda. — falava como se tivesse certeza do que falava.
estava morrendo de medo dele dizer que estava vendo indo aos poucos e que somente ela e que não queriam enxergar. Seu coração já palpitava acelerado com receio das palavras de Donavan.
Ele soltou o ar pela boca antes de começar a falar novamente.
— Quero que fique com isso. — estendeu o envelope que acabara de colocar bastante dinheiro.
— Não vou aceitar, Donavan. — não queria pegar o envelope, e por mais que a tentação quisesse, não conseguia fazer isso. Donavan não tinha obrigação de custear nada para .
— Aceite como uma cortesia da Gold Oven. — balançou o envelope para que ela pegasse. permaneceu intacta. — Sabemos que não é o suficiente, mas é o suficiente até você encontrar outro emprego bom. A pizzaria não vai aguentar também, .
No fundo, ela sabia que a pizzaria também iria falir, pois o shopping estava acabando com todas as empresas pequenas ao redor. E quem é o dono da pizzaria: o filho de Donavan. Então se o pai fechasse a padaria, a pizzaria também fecharia.
— Harry sabe que o shopping já ganhou, então não se prenda a pizzaria, . — Donavan revelou.
suspirou e se deixou levar pelo medo. Estava com muito medo de deixar sofrer e de faltar comida para comerem. Esticou o braço e pegou o envelope, sentindo o conteúdo bastante grosso dentro dele. Provavelmente, Donavan estava dando muito mais do que o valor do seguro desemprego.
— Eu irei devolver cada centavo, Donavan. — disse firme, olhando profundamente nos olhos dele.
— Dentro desse envelope, , está o seguro da padaria e da pizzaria. Harry irá ficar mais uma semana, porém já adiantou o seu pagamento. — explicou apontando o envelope. — Não se sentia envergonhada, pois estamos fazendo a coisa certa. merece viver.
"É merece, e muito.", pensou , enquanto ainda encarava os olhos do senhor.
Imediatamente ela sentiu vontade de chorar, seus olhos encheram de água rapidamente. É muita generosidade de Donavan e Harry. Ela nem sabia como agradecer e muito menos como devolveria. Somente um milagre faria aquele dinheiro voltar para as mãos deles. Porém ela sentia que em breve conseguiria arrumar um jeito de devolver cada centavo, talvez até mais.
correu e abraçou Donavan, escondendo o rosto no ombro do senhor. Deixou algumas lágrimas saírem, mas segurou as outras para que ninguém percebesse seu momento de fraqueza.
— Muito obrigada, Senhor Donavan. — agradeceu com a voz um pouco alterada. Ele devolvia o abraço. — Eu juro que eu e iremos devolver cada centavo.
— Não precisa devolver, filha. — romperam o abraço e Donavan pegou o rosto de , olhando profundamente em seus olhos. — A única coisa que eu, Harry e minha Elisabete queremos é que melhore e fique bem. O queremos ver correndo e esbanjando saúde.
sorriu e deixou algumas lágrimas escorrerem. Eram gotas de gratidão.
— Dentro desse envelope não tem só o seu seguro desemprego, mas também uma boa quantia que eu e Elisabete economizamos para ajudar a melhorar. — ele sorriu e voltou a abraçá-lo.
— Não sei nem como agradecer. Só espero que o senhor fique bem. — ela disse olhando a padaria.
— Iremos reinaugurar em outra cidade, junto com a pizzaria. Estamos pensando em fazer um Café. — contou e se encheu de felicidade por saber que a Gold Oven estava apenas começando a crescer.
Donavan merecia expandir seus horizontes e fazer a Gold Oven crescer cada vez mais. E tinha certeza que juntando com a pizzaria e tornando a empresa em um Café, os negócios iriam turbinar de vendas. Nunca ficara tão feliz com alguém antes. E somente de Donavan ajudar , já era motivo dele ganhar o mundo inteiro para si.

Capítulo 2 — Decisão Difícil

fecha o livro As Crônicas de Nárnia e olha para . Ele sorria já começando seus questionamentos sobre a história, amava quando ela lia livros antes de dormir. liberava a magia nas palavras e deixava o mundo de Nárnia mais mágico do que nos filmes. Sua leitura deixava qualquer criança flutuando em outro mundo. O tom que expressava cada acontecimento conseguia deixar aqueles que ouviam cada vez mais instigados para mais um capítulo. Sempre que estava na quimioterapia com outras crianças, ela aproveitava e soltava seu dom mágico tirando todos do mundo real.
Sempre que terminava a leitura, disparava diversos questionamentos dos trechos que não havia entendido e tentava explicar da maneira mais simplificada possível. Estar ali a tirava do mundo real. Estar ali, sentada na cama, com deitado ao seu lado, fazia todas as preocupações sumirem. O problema era quando saia do quarto e todos os problemas batiam na cara como o tapa mais ardido do universo. Às vezes, desejava nunca sair do quarto de e se refugiar ali.
Após terminar com seus questionamentos, pegou o globo terrestre que sempre ficava ao lado da cama e segurou entre as pernas. Girou e, com os olhos fechados, parou o globo com um dedo.
— Olha, tia! — sorriu, olhando o lugar que o dedo dele parou. — Amazonas, no Brasil!
— Será que lá vai ser sua próxima parada? — era nítida a felicidade dele.
— Espero que seja, sou louco para conhecer o Brasil! — queria muito que uma simples brincadeira se tornasse realidade. — Agora você, veja qual lugar irá viajar em breve! — ela de início negou, mas era impossível negar algo a .
girou o globo e fechou os olhos, parado o globo com o dedo como fez. Assim que abriu os olhos, ele já estava falando o nome do lugar:
— Saint Petersburg, na Rússia! — mostrou-se bastante feliz e encarou o globo.
Realmente seu dedo estava parado em cima da cidade de Saint Petersburg, na Rússia. Quando leu o nome sentindo uma sensação estranha. Um sentimento surreal com a cidade. Logo retirou o dedo e tentou disfarçar suas emoções para que não notasse e lhe enchesse de perguntas que nem ela mesma saberia responder.
— Olha essa cidade! — anunciou mostrando as imagens no celular de .
— É lindo, né? — disfarçou não gostando das paisagens e arquiteturas que via.
— Quando for para lá, você irá me levar junto?
— Claro. — alimentou a esperança dele. Logo se esqueceria da cidade.
— Agora vamos escovar os dentes? Você tem aula amanhã.
— Odeio ir para a escola. — resmungou fazendo beicinho.
riu.
— É o que todas as crianças falam, um dia irá me agradecer por isso. — ele rolou os olhos, fazendo-a rir mais ainda. — Agora vamos!
se levantou da cama e foi para o banheiro, ligou a luz na parede e esperou que entrasse para escovar os dentes. O menino, que estava logo atrás dela, adentrou e já foi logo pegando sua escova e pasta de dente. Tinham sorte por ele não ser o típico teimoso, se não teriam mais trabalho do que já tinham. Resmungava como toda criança para fazer o que lhe era pedido, mas no fundo fazia sem precisar obrigá-lo. alegava não gostar de ir à escola, pois, na maioria das vezes, assistia às aulas pelo computador, então não tinha o costume de frequentar a sala de aula.
perdia algumas aulas por estar no hospital, mesmo a escola fornecendo o estudo online. Após o tratamento ficava cansado e bastante debilitado, os remédios eram fortes o suficiente para sedá-lo e deixá-lo sem disposição para nada.
Enquanto se ocupava escovando os dentes e fazendo caretas em frente ao espelho com a escova na boca, aproveitava para arrumar a cama e guardar todos os objetos que usara durante a leitura. Quando pegou o globo viu novamente o nome da cidade, com um alfinete de cabo vermelho, marcando bem em cima de Saint Petersburg. Tentou sorrir, mas preferiu somente guardar o globo na prateleira, sentindo novamente aquela sensação estranha.
Era como se Saint Petersburg fosse um sinal ruim, ao ponto de dar arrepios pelo corpo todo. Havia uma rixa entre Estados Unidos e União Soviética há muito tempo, desde os tempos da Guerra Fria. E odiava tudo que tinha haver com a Rússia desde quando seu avô viajou para o país russo, sendo sequestrado pelos mafiosos e morto por não fornecer segredos norte-americanos. Na época, serviu de exemplo para aqueles que mexem com as máfias russas, sendo que ele era um mero turista no país.
Desde então tem repulso de tudo que envolve o país. Sendo assim, quando tirou Saint Petersburg no globo, provavelmente a sensação horrível que sentiu deve ter sido uma reação ao país que a cidade pertence devido aos acontecimentos passados.
! — gritou atraindo a atenção da mulher.
encarou o sobrinho e suas mãos soltaram o globo que caiu no chão, desprendendo a enorme bola da armação. Girou batendo na parede. E naquele instante, olhou desesperado para a tia, tentando limpar o sangue que escorria de seu nariz, seu corpo estava fazendo de novo. A leucemia novamente estava atacando. O garoto começou a chorar, sentindo fortes dores na cabeça e um formigamento intenso por todas as partes de seu corpo.
Foi quando, de repente, não conseguiu mais aguentar e deixou-se cair no chão, sentindo o impacto com o concreto contra seu rosto, braço e quadril. No exato momento, correu para segurar sua cabeça, ele estava entrando em uma crise convulsiva, fazendo o sangue sair por sua boca em pequenos vômitos, jorrando o líquido vermelho-escuro misturada com a comida por todo o chão e roupas da mulher.
— Por favor, ... Fica comigo. — sabia que ele estava completamente inconsciente, mas mesmo assim falava, na esperança dele conseguir voltar. — ! — se debatia pior do que um peixe fora d’agua.
retirou o celular do bolso com dificuldade, e com a mão tremendo discou o número do irmão.
— Atende, ... Por favor, atende... — com a mão livre segurava a cabeça do garoto para que não batesse contra o concreto. — Vamos, ! — sua voz estava tomada pelo medo e desespero.
Quando a linha finamente foi completada, atendeu em meio a vários sons de máquinas trabalhando e buzinas de caminhões. Provavelmente estava ajudando no descarregamento de carga em alguma fábrica de roupas ou de outra especialidade que fosse necessário trabalho pesado dos maquinários.
, escuta! — ela gritou para que ele pudesse ouvir. — Você precisa voltar para casa, agora! — o silêncio prevaleceu dos dois lados. — ... É o . — revelou em um fio de voz.
Liga para a ambulância agora, ... — a voz de estava tomada pelo choque de realidade.
∆∆∆

"Chamando Dr. Hodgins para a emergência. Repetindo: chamando Dr. Hodgins para a emergência.".

Era tudo o que ouvia. Nenhum médico ou enfermeiro lhe falavam nada. Já fazia alguns minutos que levaram para trás das enormes portas de emergência. Odiava não ter notícias, ficava angustiada esperando receber meras palavras de apoio.
estava a caminho do hospital. Assim que recebeu a ligação se adiantou em sair correndo da fábrica de roupas. Onde ajudava a carregar o caminhão que partiria na manhã seguinte com a carga em direção do aeroporto que transportaria as vestimentas até a Itália. Era um serviço pesado, mas rendia um bom dinheiro no final. teve sorte que o dono da fábrica lhe deu um pouco de dinheiro pelo serviço incompleto.
Naquele momento estava dentro de um táxi, olhando pela janela, inquieto e com medo. Medo de chegar e receber a notícia que seu filho estava partindo.
era o irmão que conseguia ver o lado bom de todas as coisas, o otimista. E a pessimista. Mas já estava começando a concordar que na situação em que se encontrava, se tornava mais difícil pensar em algo melhor. A cada dia que o levava às pressas ao hospital, recebiam mais alertas, mais dívidas e menos esperanças.
A situação era grave, mas estavam tentando de tudo para salvar uma vida. Uma vida inocente. Que desde quando nasceu já estava morando nos hospitais, na esperança de uma cura. Era preciso apenas um único transplante de medula. Compatível e que o corpo aceitasse, e assim estaria a salvo.
No entanto, os dois transplantes que e deram duro para pagar, foram rejeitados por . Assim que os médicos tentaram, logo veio a rejeição. Era difícil, mas eles nunca perderam a esperança. Até agora...
Quando o carro amarelo parou na porta do hospital, pagou o motorista e saiu correndo entre as pessoas. Buscava pela irmã. Assim que entrou, a viu sentada no sofá de espera, com as mãos contra o rosto e fungando. Provavelmente em uma crise de ansiedade, misturados com medo e angústia. Não havia ninguém disposto para ajudá-la a se acalmar.
Ele correu para perto dela.
... — agachou-se a sua frente, recebendo olhares de todos. — Se calme. Respira devagar. — tocou os braços dela. — . Olha para mim.
Ela arrastou as mãos para o lado e olhou profundamente nos olhos do irmão.
— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui com você, agora. — ela sorriu pequeno em alívio por vê-lo.
se sentou ao lado dela e a puxou para seus braços. Deixando-a com a cabeça apoiada em seu peito. Acariciando os cabelos no intuito de acalmá-la. Logo sentiu a camiseta ficar molhada, então resolveu abraçá-la mais forte.
— Calma, . — apoiou o queixo em cima da cabeça dela, não dizendo mais nenhuma palavra.
Em momentos como aquele, não era preciso dizer nada. O silêncio já era reconfortante, o único inimigo de eram os pensamentos. Mas pelo menos, estava ali para conversar e ajudá-la com o pessimismo.
(...)

Após duas horas de espera, dormia nos braços do irmão, completamente exausta. Já era madrugada, possivelmente duas horas da noite. O hospital estava mais calmo, e poucas pessoas circulavam. E nenhum sinal de até então... Tudo que recebia era que logo o médico iria chamá-lo para conversar, mas até o momento ninguém entrou ou saiu pela porta da emergência.
No entanto, não descansaria até receber alguma notícia. Nem que fossem apenas duas palavras do quadro do filho, já seria o suficiente para deixá-lo mais calmo ou frustrado. Ao contrário de que estava adormecida já tinha algumas horas. Após o choro, que a deixou muito mais calma, acabou dormindo, e por mais que lutasse para ficar acordada, o corpo implorava por descanso.
O dia havia sido bastante cansativo. Passou o dia inteiro na padaria, inundada de pensamentos que a deixaram mais cansada que o habitual. Pensar e ter medo do que aconteceria no futuro, não era o forte dela, então quando isso acontecia, os desgastes mentais e físicos davam ao cérebro a impressão que o corpo foi atropelado por um caminhão o deixado com diversas fraturas.
respirou fundo, bloqueando a tela do celular. Tentava se distrair com as redes sociais, mas nada conseguia lhe prender a atenção. Queria muito desviar seus pensamentos e pensar em coisas boas. Ou focá-los em alguma situação engraçada. No entanto, nada conseguia tirar de sua mente. Era inevitável.
Sempre pediu para ser otimista sobre o garoto, porém agora ele estava sendo o pessimista.
Remexeu o tronco em busca de uma posição mais confortável, suas costas já gritavam de dores. Estavam ali há muito tempo na mesma posição e tudo o que queria era ver os médicos abrindo as portas da emergência e correndo para seus braços, dizendo que não queria tomar banho.
Com o sutil movimento, tentou ser cauteloso para não acordar a irmã. Tentativa fracassada. ajeitou os cabelos rebeldes no rosto e esfregou o olho que coçava. Endireitou-se no sofá percebendo que a sala de espera estava completamente vazia.
— Quanto tempo eu dormi? — quis logo saber.
pensou.
— Tempo o suficiente para o hospital inteiro esvaziar.
— Isso seria? — ergueu uma sobrancelha.
— São duas e meia da madrugada, . — revelou na lata.
— Nossa! E nada sobre o ainda? — ficou assustada.
negou com a cabeça.
— Ninguém saiu ou entrou por aquela porta. — ele relaxou as costas no encosto e deixou suas feições se transformarem em traços da desesperança.
Ambos sabiam o que aquela demora significava, só não conseguiam acreditar que justo naquele momento a doença poderia estar se agravando e consequentemente se alastrando cada vez mais. Sabiam que precisavam juntar dinheiro para realizar outro transplante o mais rápido possível, mas de onde conseguiriam tanto? Era impossível juntar uma quantia tão alta nas circunstâncias que se encontravam.
soltou o ar pela boca e se levantou do sofá. Caminhando em direção da saída do hospital. Sua cabeça estava a mil, processando pensamentos e informações que ainda não foram confirmadas. Sentou-se na mureta em frente ao estacionamento e começou a olhar para as estrelas. Os brilhos intensos foram refletidos nos olhos dela. Somente um milagre resolveria todos os problemas naquele momento.
Queria chorar, mas não conseguia. Havia chorado todas as lágrimas e seu peito doía...
Abaixou a cabeça por um instante e logo a ergueu no momento em que uma estrela cadente cortou o céu. Correu para fazer um pedido. Não custava tentar, tudo que pudesse trazer a cura de estava valendo, sendo até um pedido inocente a um corpo celeste que penetrou a atmosfera terrestre. Fechou os olhos, deixando a voz de sua mente falar, acreditando imensamente que pudesse funcionar.

“Desejo que melhore, e que eu e possamos ajudar. Nem que para isso seja preciso colocar nossas vidas em risco.”.

Abriu os olhos, sentindo que as estrelas brilhavam mais que o comum. Talvez tivessem recebido o pedido e ajudariam com cada palavra. Os glóbulos apagados ganharam vida e uma leve ventania atingiu o corpo humano, fazendo com que pequenos arrepios subissem por cada extensão de pele. Os pelinhos enrijeceram e sentiu que era um sinal divino. O seu pedido seria atendido, só não imaginava que para isso teria de mudar completamente seu âmbito de vida. As palavras teriam consequências, mas não se importava, faria qualquer coisa para ver bem.
...? — a voz surgiu atrás de si. Fraca e baixa.
Abaixou a cabeça, ajeitando seus cabelos que insistiam em bater contra o rosto. Fechou os olhos podendo pressentir que algo de ruim estava por vir. Encarou as estrelas pela última vez e definitivamente entregou todas as suas esperanças em corpos celestiais que brilhavam deixando as noites mais encantadoras. Segurou a gola da camiseta, se preparando para encarar , sabia que o doutor estava aguardando, mas não queria entrar e receber a notícia que tanto temia.
...? — escutou e só então se virou, vendo o semblante triste do rapaz a sua frente.
— Oi, ... — puxou o ar e soltou levemente. — Como está o rosto dele?
— Nada bom.
O coração tomou uma apontada forte e dolorosa, se igualando a uma estaca afiada, penetrando cuidadosamente para que não sentisse dor. Foi tão dolorido que os batimentos cardíacos aumentaram ao nível hard. E a garganta se fechou, como se alguém estivesse lhe sufocando. Todas as sensações se assemelharam ao surto de ansiedade que teve em algumas ocasiões, por isso precisava respirar fundo antes que começasse a passar mal e virar mais uma preocupação para . Entretanto, a cada ar que invadia seus pulmões, pareciam chamas em brasa, queimando cada extensão do órgão. Até respirar doía. Não conseguia se acalmar, era impossível quando se estava preste a receber uma notícia que há tempo temia receber.
aproximou-se da irmã e pegou sua mão, gelada como o gelo. Após os anos de convivência, conseguia perceber perfeitamente quando ela estava entrando em uma crise ansiosa. Mostrar sua presença para que visse que não estava sozinha, ajudava a se acalmar. Portanto, o toque quente contra o gélido de nervosismo, foi o suficiente para acordá-la e ver que juntos tinham que serem fortes para superar todas as barreiras. Ambos eram apoios um do outro, não poderiam cair.
Juntos, vamos conseguir, . — o olhar de escondia o medo, mas demostrava toda coragem e apoio que ela precisava naquele momento.
— Juntos, né, . — sua voz saiu falha, segurou o choro o máximo que pôde.
a puxou para um abraço e beijou-lhe a testa. O calor entre os corpos fez ao pavor minimizar para que pudessem encarar os fatos juntos. Era tudo o que precisava, ter o irmão por perto para que tudo ficasse bem e perdesse o medo para que assim encarasse tudo de cabeça erguida e com valentia. O abraço foi se desfazendo conforme andaram em direção da porta do hospital, não tinha outra maneira de fazer aquilo, se pudessem fariam, mas o único jeito era ouvir o que o médico tinha a dizer.
O homem de cabelos castanhos, cacheados, com cara máscula, barba perfeitamente feita e olhos verdes penetrantes, estava tomando café em uma xícara branca e se ocupando com alguns papéis no balcão da recepção. Vestido de jaleco branco e arrumado. Aparentava ter seus 30 anos. Assim que pairou o olhar nele, seu coração deu uma cambalhota de medo, mas apertou sua mão com força para que lembrasse que não estava sozinha.
— Dr. Hodgins, essa é minha irmã, . — quebrou o silêncio.
As vozes dos hospitais, das recepcionistas e enfermeiras eram os únicos sons que invadiam o lugar. Mas quando falou, o doutor logo se virou e pairou os olhos em . Encarou-a parecendo surpreso, mas tentou disfarçar, passando rapidamente a atenção para o rapaz ao lado dela. No fundo ficara encantado pela mulher linda que estava a sua frente.
— Prazer, . Sou o Dr. Ronnie Hodgins. — apresentou-se estendendo a mão.
Um arrepio subiu pelo braço dele devido ao contato físico entre as peles.
— Prazer, doutor. — tentou disfarçar seu nervosismo por ter os olhos dele em si. Ele era bonito, mas não queria ficar interessada em ninguém depois de seu último relacionamento.
— O senhor disse que tinha notícias de . — cortou a apresentação.
— Sim, eu tenho, . — o semblante dele mudou para um tristonho.
reparou nas feições. Seu coração se apertou.
— É muito ruim, doutor? — ela questionou querendo que Ronnie fosse direto.
— Olha, ... — juntou as palmas das mãos como se fosse rezar. — Já adianto que não é uma notícia fácil e muito menos uma das melhores.
encarou , com os lábios em linha reta e as sobrancelhas caídas. Ele pegou na mão dela buscando apoio.
— Independente do que for, doutor, pode nos dizer. — disse, sabendo que o irmão não conseguiria dizer nenhuma palavra.
Ronnie soltou o ar pela boca, parecendo se preparar para anunciar uma das piores notícias que já havia dado.
— O não está nada bem. — falou na lata, sem enrolações ou lamentações. — Ele não deveria nunca ter parado a quimioterapia. — o alerta penetrou no coração de e lhe deixou mal, eles não tinham parado o tratamento de propósito, tinham por falta de recursos.
— Sabemos que não deveria, doutor... — disse em um fio de voz.
Ronnie suspirou olhando profundamente para o semblante da mulher.
— Eu sei que é difícil bancar as sessões. Acompanho o caso de há anos. — ele se sentou no sofá e vez menção para que os dois se sentassem a sua frente.
Ronnie esfregou a testa e tirou a máscara branca do rosto.
— Olha... Eu não estou aqui para dar bronca em vocês. Não adianta nada eu brigar e gritar, sendo que o que mais importa agora é a saúde de . — o olhar sincero do médico transmitia uma sensação de tranquilidade e generosidade. — O hospital sabe que vocês dão duros para cuidar dele. E nós, médicos, reconhecemos isso. Mas... — ele se inclinou e sorriu olhando para baixo por um instante — Que tal agora deixar o descansar? É bom para a saúde dele e na recuperação.
resolveu falar.
— Sabemos que nunca deveríamos ter parado a quimioterapia. Mas até agora o senhor ainda não nos falou o que realmente houve com o . — o encarou com um olhar de repreensão. Ronnie estava sendo apenas gentil antes de falar o que aconteceu.
, eu sei que está nervoso e entendo que também esteja bastante preocupado. — Ronnie disse com bastante calmaria. — O que teve foi um sinal para ficarmos em alerta. Todo aquele sangue era o corpo pedindo socorro... — seu semblante mudou para um triste e arrasado. — O câncer piorou.
levou a mão até a boca, sentindo o peito se apertando. Como se seu coração estivesse sendo moído em um moedor de carne, enquanto batia incansavelmente. Suas mãos tremiam sendo possível imaginar que quando ficasse em pé, não conseguiria ter equilíbrio. A mente estava em choque. Os pensamentos evaporaram assim que os ouvidos capturaram perfeitamente as palavras de Ronnie. Não conseguia pensar e era bastante difícil até de respirar.
olhava o nada, não conseguindo dizer nenhuma palavra.
A notícia os pegou de surpresa. Era esperado que o câncer piorasse, no fundo sabiam que esse dia fosse chegar, só que ainda não estavam preparados para lidar com a situação.
— Eu sei que não era nada do que vocês esperavam... — Hodgins quebrou o silencio percebendo a expressão surpresa e abalada dos dois. — Posso dar um momento para vocês... Sabe... Assimilarem tudo. — gesticulou com as mãos.
decidiu se pronunciar.
— Não, doutor. — encarou que a encarou de volta. Tinha as sobrancelhas caídas e olhos marejados. — Tem algo que podemos fazer para reverter isso?
O médico assentiu, mas com a expressão não muito boa.
— A única solução é fazermos novamente o transplante de medula óssea e torcer para que o corpo corresponda com sucesso. — as palavras transmitiam dúvidas misturadas com medo. Ele lembrava que dos dois transplantes que fez, todos foram rejeitados pelo organismo.
— Ele não aceitou nenhum dos transplantes que fizemos, doutor... — disse com o olhar perdido — Como tem tanta certeza que um novo fará o corpo aceitar e melhorar?
— Eu não disse que tinha certeza... São casos e casos. — corrigiu.
pensou em silêncio antes de falar:
— E se não funcionar? — encarou Ronnie nos olhos.
Ronnie esfregou as mãos querendo muito que sua resposta fosse outra.
— Infelizmente, não haverá mais nada que possamos fazer, sem ser esperar. — médicos eram frios, mas o Dr. Hodgins deixava toda sua sinceridade e altruísmo serem mais forte que o lado profissional. Ele assistia cada passo de como se fosse um pai desesperado.
sentiu a pontada rasgar seu peito até encontrar o coração. Tinha que conseguir dinheiro para fazer o transplante, não suportaria perder . E nunca iria se perdoar caso deixasse o filho partir de uma forma tão injusta. Aquele garoto tinha o mundo a fora para explorar, não era justo que ele deixasse o reino terrestre antes que visse tudo de perto.
— Iremos fazer o transplante. — disse olhando o nada.
Ronnie e a encararam. Ela disse as palavras tão de repente que os pegou de surpresa.
Ela ergueu a cabeça e olhou profundamente para Ronnie.
— Faça tudo que for possível para salvar o .
— Mas, ... — começou a protestar, no entanto bastou um olhar confiante da irmã para ficar quieto e entender que ela tinha o controle da situação.
Ela assentiu para Ronnie, fazendo-o também assentir como forma de responder que iria preparar tudo para a realização do transplante o quanto antes.
— Perfeito. — Ronnie disse, percebendo a expressão de confusão no rosto de , decidindo se retirar. — Irei ver como está. Queremos transferi-lo para o quarto para que possam vê-lo. Com licença.
Assim que Ronnie entrou pela porta da emergência, pôde finalmente ter privacidade para conversar com sobre o que ela acabara de dizer. Como iriam pagar o transplante sendo que estavam prestes a perder a casa em que moram? Ela estava ficando completamente pirada. Tinha a impressão que a irmã não estava pensando com clareza nas consequências e nos riscos.
esfregou as mãos no rosto e suspirou. Sentia-se desconfortável com não dizendo nenhuma palavra. E não sabia se deveria falar algo ou não. Sabia que iriam brigar e o momento estava pesado demais para brigas bobas. Portanto, se levantou do sofá e foi para fora tomar um pouco de ar, passando a mão incansavelmente pelos cabelos. Queria evitar que uma discussão acontecesse, porém se fosse o caso, seria bom que fosse bem longe do hospital, ninguém precisava escutar o que iriam dizer um ao outro.
encarou as costas do irmão sumindo pela porta e sendo consumida pela escuridão da noite. Seu coração ainda estava bastante acelerado. Nervosa e apreensiva. Ver incrédulo, buscando ficar longe para evitar confusão, doía mais que o corte mais profundo da lâmina de uma faca. Sabia das consequências de suas palavras, não seria fácil arcar com elas, mas arriscaria pela saúde de . Como havia pedido para as estrelas arriscaria a própria vida para ver o sobrinho bem e com vida.
Contudo, soltou o ar pela boca, sabendo que estava devendo uma boa explicação para .
Levantou-se do sofá e seguiu para fora, na mesma direção que o irmão. Já tentando pensar em como diria tudo o que pensava. Seu maior medo era de receber uma repreensão ou um discurso de irresponsabilidade. Mesmo assim tinha que fazê-lo. De cabeça erguida, interiormente sentindo o coração acelerar mais a cada passo, encontrou apoiado com as mãos na mureta, que dava de frente para o estacionamento do hospital.
Não sabia por onde começar, mas tinha que tentar.
...? — chamou com os braços cruzados, na tentativa de se proteger do frio. — , me deixa explicar.
Ele suspirou antes de encará-la.
— Explicar o que, ? — ele ficou ereto de frente para ela.
— Caramba, . — disse, sentindo a voz rouca. — Eu não poderia deixar o morrer.
— O doutor não disse que ele vai morrer, .
— Você não entende... — segurou as lágrimas — Ronnie não disse com clareza, mas dava para perceber no tom de voz dele que esse é o único resultado, se não fizéssemos esse transplante.
mordeu os lábios e se sentou na mureta, virando a cabeça para não encará-la. Na verdade queria esconder seu rosto de choro.
— Eu não sei mais o que fazer... — disse em um fio de voz.
... Eu... — hesitou não aguentando ver o irmão daquele jeito. — Eu concordei com o transplante porque eu sei que vamos dar um jeito. — levantou a cabeça para cima no intuito de evitar as lágrimas. — Eu recebi dinheiro da padaria e da pizzaria, podemos trabalhar duro para pagar o restante que falta. — colocou as mãos na cintura, tentando ficar firme.
— Íamos usar esse dinheiro para quitar todos os aluguéis atrasados! — se levantou com rapidez e deixando sua voz soar ríspida.
— Você prefere que seu filho fique vivo ou que tenhamos um lugar para morar? — ela rebateu no mesmo tom que ele.
A conversa estava tomando outro rumo. O rumo da raiva e da euforia. Não era esse o caminho que queria que suas palavras tomassem, mas estava alterado demais para uma conversa civilizada.
— Se possível os dois, . — bradou olhando profundamente nos olhos da irmã. — Eu me mudei para a sua casa, em busca de um lar para cuidar do . E tudo está desmoronando, está tudo saindo do jeito que eu nunca imaginei!
— Tudo estava na mais perfeita ordem até o dinheiro acabar. — enfrentou, não deixaria que ele dissesse tudo o que se passava pela cabeça para fazê-la se sentir mal. — Enfia nessa sua cabeça que tudo saiu dos trilhos porque eu estou te ajudando a cuidar do ! A maioria dos remédios sou eu que compro, e é assim que você me agradece?! — nessas horas de raiva, dizer o que o dinheiro dela comprava não era uma boa ideia.
— Está dizendo que nunca fiz nada pelo meu filho? — a conversa não estava indo para o melhor caminho.
passou a mão pelo cabelo e segurou uma boa quantia entre os dedos. Fechou os olhos e suspirou, pensando em algo para corrigir a merda que havia dito. Sabia que nunca deveria ter usado aquelas palavras. São cruéis, fúteis, além de demonstrarem todo o egoísmo por estar se gabando pelo dinheiro. Naquele momento tudo o que menos precisavam era brigar, e sim, se unirem mais uma vez para passarem por períodos difíceis com .
— Eu não quero brigar, . — disse com calmaria.
— Infelizmente é isso que está fazendo. — ele continuou com o tom de voz rígido e grosseiro.
— Não sou eu que estou fazendo uma tempestade no copo d’agua por ter feito uma atitude correta! — rebateu e em seguida respirou fundo.
Já estava cansada de discutir, sabendo que – enquanto estivesse eufórico – fosse jogar todos os argumentos possíveis em cima dela para machucá-la. Ele era um ótimo irmão, mas quando algo saia de seu controle, o irritando, o mais seguro é ficar bem longe de seus picos de fúria.
— Eu vou para casa. Você não tem jeito. — disse e lhe deu as costas, decidida pegar um táxi para ir embora.
. — agarrou o braço da irmã para que parasse de andar.
Ela o encarou com dúvida, o que mais jogaria na sua cara?
— Desculpa, tá? — pediu e ela soltou o ar pela boca, era sempre assim. — Eu sai do controle, mas caramba... Você não entende que nunca vamos conseguir dinheiro para pagar o transplante e a casa ao mesmo tempo?
puxou seu braço.
— Eu sei que vamos conseguir. Quem está sendo pessimista agora? — disparou o pegando de surpresa.
Era incrível que , incansavelmente, dizia para ela ser otimista, mas era os problemas chegarem que ele começava a ser pessimista consigo mesmo. Era incrível como os conselhos não serviam de nada consigo mesmo.
— Eu estou sendo realista. De onde vamos arrumar tanto dinheiro? — ele tinha as sobrancelhas caídas com os glóbulos recheados de medo e insegurança.
... Entenda uma coisa... — olhou profundamente nos olhos dela. — Todas as vezes que o precisou, conseguimos dar um jeito, não conseguimos? — ele assentiu — Então, irmão. Por que não vamos conseguir mais uma vez?
Ambos se encararam, tendo os mesmos pensamentos. Se sempre davam um jeito de bancar os procedimentos, por que dessa vez ia ser diferente? Eles iam conseguir juntar o dinheiro antes do prazo de pagamento. Só ainda não sabiam como iam fazer isso, mas com o tempo a vida irá mostrar o caminho.
— Vamos para casa, irmã?
assentiu e sorriu. Já a puxou para um abraço bastante apertado. Durante o contato dos corpos, só conseguiu pensar que estaria perdido se não tivesse aquela mulher por perto para lhe apoiar nos momentos mais difíceis. Provavelmente já teria pirado sem ela sendo seu alicerce. Não conseguia ver como viveria sem sua mana por perto. Apesar de tudo, ela era a pessimista, mas quando o mundo parecia virar de cabeça para baixo, conseguia ver tudo com otimismo e força de vontade para fazer dar certo.
era enigmática.
— Provavelmente irão transferi-lo para o quarto mais tarde. Precisamos fazer uma pequena mala para passarmos as noites e os dias ao lado dele. — disse assim que se soltaram do abraço e começaram a andar. — Por mais difícil que pareça, ele precisa mais do nosso apoio do que nós mesmos.
No entanto, durante o caminho para casa, só conseguia pensar que precisaria urgente ver o jornal em busca de alguma vaga de emprego. Não poderia ficar parada enquanto corria contra o tempo. Qualquer minuto perdido seria desperdício para quem precisa juntar uma quantia bastante alta.

Capítulo 3 — Medos

Dois dias haviam se passado desde o momento mais traumático da vida de . A cena em que estava convulsionando e deixando o sangue escorrer por todos os seus sentidos, insistia em não sair de sua mente. A cada dia que se arrastava ficava mais difícil de esquecer. E todas as vezes que se pegava sozinha, logo estava repassando todos os acontecimentos.
Dormir, relaxar, comer e até mesmo ler se tornaram difíceis.
Saber que está dentro de um quarto, respirando por aparelhos, sem dizer uma palavra, doía dentro da alma só de pensar no pior. Aquele menino tem toda uma vida pela frente, não poderia partir tão cedo. Mas a cada batimento cardíaco, parecia que estava cada vez mais cansado de lutar. Na noite anterior tinha dado um susto em e após passar por duas paradas cardíacas. Na segunda parada, os médicos quase desistiram, porém ele retornou no último minuto. O verdadeiro milagre.
E tudo parecia perdido. Até mesmo arrumar um bom emprego.
já estava farda de ligar para vários estabelecimentos e receber as mesmas palavras. Vaga preenchida.
Me desculpe, moça. Se eu ficar sabendo de algo ligo para você. Pode ser? — a secretária disse e novamente se segurou para suspirar.
— Tudo bem... Obrigada pela atenção. — sua voz transparecia a decepção.
Assim que desligou o telefone, tirou a tampa da caneta vermelha e riscou o último estabelecimento da lista. Não tinha conseguido nada. Todas as vagas já estavam sendo preenchidas. O desespero já estava começando a bater na porta. E a esperança também já estava indo embora.
Será que estava certo em estar sendo pessimista? Será que seria impossível conseguir o resto do dinheiro que faltava?
cobriu o rosto com as mãos e suspirou, esfregando os olhos cansados por não estar dormindo direito e ter acordado cedo. Logo notara estar sendo observada. , em silêncio, havia acabado de entrar na cozinha e pegava a garrafa de café para encher sua xícara. Ver a irmã desesperada por um emprego lhe doía por saber que não poderia fazer nada para ajudar. Era difícil arrumar um emprego na pequena cidade do Kansas, até parecia que metade da população estava desempregada e buscava urgente por uma vaga, assim como .
... — quebrou o silêncio — Pega mais leve consigo mesma. — tomou um gole da bebida quente, encostado no armário da pia.
— Adoraria pegar mais leve comigo mesma. — disse retirando as mãos do rosto e esfregando os olhos novamente. — Pega uma xícara de café para mim, , por favor. — pediu, sentindo e ouvindo seu estômago roncar.
deixou sua xícara de lado e pegou outra no escorredor de louça, enchendo com o líquido escuro. Deixando a fumaça levar o aroma delicioso pela casa toda.
Virou-se e caminhou para a cadeira em frente à irmã, onde se sentou. Colocando a bebida na frente dela.
— Obrigada. — agradeceu e pegou a xícara, dando um grande gole.
observou a irmã com olheiras e olhos vermelhos. Notando o semblante bastante cansado.
— Por que não tira um tempo para descansar? — sugeriu, retirando um pão do saquinho da padaria.
— Porque não dá, . — novamente coçou os olhos. — Estamos correndo contra o tempo, não dá pra deitar na cama e descansar, quando cada minuto importa.
respirou fundo e puxou o jornal do dia, indo direto para a parte em que as lojas publicavam sobre vagas livres de emprego. Tomou outro gole de café, sentindo o líquido bater no estômago e aquecê-lo. Não tirando os olhos do papel por nada. Seu corpo rapidamente exalou o calor por cada extensão de pele. Se a bebida quente pudesse aquecer também seu coração, assim como fez com a pele, seria um ótimo aliado na fase difícil que estava passando.
Enquanto os dois estavam em casa, tirando o tempo mínimo para descansar das paredes e climas do hospital, Charlotte estava com . Tinham sorte de ela ter topado ir ficar de manhã como acompanhante para poderem pelo menos dormir um pouco mais. Apesar de ser quase inútil tentar deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos. Ao movimento das pálpebras para cobrir os glóbulos, já era o gatilho para a mente produzir diversos cenários de tudo o que estavam passando. Cenários tristes e melancólicos.
— Como está o ? Alguma melhora? — quis saber, ainda com a atenção presa no jornal. Nem percebendo que já tinha tomado quase todo o café da xícara.
— Liguei para a Charlotte assim que acordei. Ela falou que ainda sem nenhuma melhora. — disse com o tom bastante desanimado.
percebeu o tom de voz baixo de , e foi o suficiente para tirar seus olhos do jornal. Finalmente conseguiu mudar seu foco para algo que realmente precisava muito de sua atenção. O seu irmão.
... Não fica assim, vai ficar bem. — estendeu o braço sobre a mesa e pegou em sua mão.
Com o polegar esfregou as costas da mão do irmão em uma tentativa de passar conforto.
— Ai, ... — suspirou — Eu não quero pensar em coisas horríveis, é só que... Eu não estou conseguindo... — confessou e o olhou com o olhar perdido.
— Vai dar tudo certo, . — segurou a outra mão e olhou fundo nos olhos do irmão. — Eu sinto que dessa vez é diferente.
— Diferente como, ? — a voz dele se alterou um pouco.
— Não diferente por ser algo ruim, mas diferente por ser algo bom. — tentou explicar. Ele arcou uma sobrancelha não entendendo. Ela suspirou. — É como se fosse uma sensação de conforto. Uma sensação inexplicável. Talvez, divino.
— Sexto sentido? — arcou novamente a sobrancelha em dúvida.
— É... Tipo isso. — alargou um sorriso meia boca, porém divertido. — Sabe aquele pressentimento de que só estamos esperando a tempestade acalmar para podermos realmente ver o mundo com mais clareza? É quase isso.
sorriu de lado e cruzou os braços, se encostando ao encosto da cadeira. Seu sorriso parecia divertido com as tentativas atrapalhadas da irmã de se explicar.
— Ah, ! Você entendeu, né? — abriu um largo sorriso, se divertindo com a própria confusão com as palavras.
riu, mordendo os lábios ao encará-la, ainda com os braços cruzados.
— É como se estivesse sentindo que um milionário irá ver a situação do , sentir pena de nós, se casar com você e nos ajudar com todos os gastos. — disse, fazendo-a bater a mão na testa.
— Não é nada disso, idiota! — rasgou um pedaço do jornal, amassou e jogou no irmão. — Que horror! Não me vejo casando tão cedo.
— Se caso o seu casamento fosse a solução dos nossos problemas, , se casaria? — quis saber segurando a risada.
— Lógico que não, seu sonso! — berrou, fazendo-o cair na gargalhada.
não achou graça. Mas se deixou levar pelo som da risada de e deixou seus lábios se curvarem em um sorriso tímido e de canto. Aliás, vê-lo sorrindo e se divertindo em um momento tão complicado e difícil como aquele, era como ver a esperança no meio da escuridão. A luz no final do túnel. Tinham de ter mais alegria em dias tristes, somente o sorriso já era o suficiente para nosso cérebro despertar os hormônios da felicidade – vulgo endorfina, dopamina, serotonina e ocitocina – e deixar nossos corpos mais leves e melhorar o humor.
Ver o sorriso de era como ver o dia amanhecer. Pleno, calmo e contagiante. Era como tirar os pesos das costas e finalmente ter um tempo para relaxar. E era tudo o que queria, um tempo para fugir do mundo real. Por mais que o momento de risadas durasse apenas cinco minutos, já era o suficiente para esquecer tudo ao redor.
— Queria ficar rindo das suas besteiras para sempre. — confessou e esticou os braços, vendo que descruzou os dele e pegou em suas mãos.
— Eu também queria. — ambos se acariciaram com os dedos. — Mas nem tudo são flores... — suspirou demorado.
abaixou o olhar, já sentindo o peso em suas costas novamente.
— Tenho medo de quando voltar, não termos mais um teto. — confessou, brincando com a ponta do jornal.
— Eu também tenho. Ainda mais que vamos ter que usar o dinheiro para pagar o transplante. — soltou o ar pela boca, parecendo exausta de pensar no aluguel atrasado. — Sinceramente, não sei o que faremos sobre o aluguel e as dívidas.
Eles se encaram por alguns segundos passando segurança para ambas as partes. Ainda com as mãos unidas, esfregando os dedos suavemente. A união representava o laço que nunca iria se quebrar. Não importa o que acontecesse, sempre estariam ali um para o outro. Era um elo de irmãos, uma ligação de sangue. Independente dos obstáculos, se eles estiverem juntos, sempre tentaram superar juntos. E se um caísse, o outro lhe levantaria.
Nesse instante, olhando os olhos perdidos de , que teve a ideia de remoer o passado. Seus pensamentos o levaram a um dos anos mais complicados para a família Tate. Um ano que todos tentaram esquecer-se da memória. Um ano que quase acabou com a reputação da família toda, incluído a de . Porém, fazia sentido acender as chamas de um passado excluído do presente. Seria a possível solução para todos os problemas.
— Podemos... — quebrou o silêncio que se fez, sentindo hesitação.
lhe encarou curiosa, e ele sabia que o que sairia por entre seus lábios não iria nem de longe trazer felicidade.
— Na verdade, eu... — novamente travou, olhando para baixo, tentando buscar coragem para dizer o que tinha para falar. — , eu... Eu pensei que poderia retornar a correr nas corridas de ruas. — conseguiu expor, já sentindo o olhar fuzilante da irmã.
, imediatamente, retirou as mãos da dele e lhe lançou um olhar misturado de ódio e surpresa. Como ele pôde viajar tanto no tempo? Aquele assunto estava encerrado e bem enterrado com os Tate, por que trazê-lo à tona em um momento tão delicado como aquele? O que tinha na cabeça?
— Você sabe bem a minha opinião para isso. Não ouse nem perguntar o que acho disso. — cruzou os braços lentamente, já expondo o semblante de raiva e ódio por ouvir a barbaridade que saiu da boca dele.
— Pensa comigo. É dinheiro fácil, é só ganhar algumas corridas com carros de luxo. — tentou convencê-la, apenas conseguiu fazê-la revirar os olhos. — O dinheiro que eu iria ganhar já seria o suficiente para pagar todos os meses de aluguel e as dívidas, mais o transplante e tudo que teremos de gastar com o hospital. — os olhos de chegavam a brilhar ao falar no assunto.
novamente rolou os olhos e negou com a cabeça. Ambos se lembravam da merda que deu no passado, então ela não conseguia entender a teimosia dele com isso.
— Existem outras maneiras de se ganhar dinheiro, . — disse com o tom ríspido. — Se fosse pelo dinheiro fácil, eu viraria prostituta! — sua voz se alterou.
— É... Só que as corridas são menos nojentas do que o book rosa. — ela admirava o atrevimento dele.
— Sem chance, . — cortou o mal pela raiz. — Nada que você diga me fará mudar de ideia.
suspirou passando as mãos pelo rosto. Realmente, onde estava com a cabeça ao pensar que ela iria lhe apoiar nisso? Depois de todos os problemas com seus pais, era lógico que não aceitaria. Mas na época ele era adolescente com seus dezoitos anos à flor da pele, agora é um adulto. As coisas mudavam. Tinha juízo e não iria entrar na mesma roubada e no vício do passado.
... — começou meio receoso com a reação dela. — Eu não vou dar trabalho. Não irei ficar todos os dias apostando nos carros e correndo. — ela o encarou ainda com o olhar de repreensão. — Agora eu tenho um filho para cuidar e eu nunca o abandonaria. — disse com a voz firme, sem nenhum pigarro, talvez se mostrasse confiança em suas próprias palavras – coisa que ele mesmo não tinha – pudesse convencer o olhar e expressão carrancuda da irmã.
! — se levantou de repente e espalmou as mãos na mesa com fúria. — Eu perdi meus dois empregos e nem por isso estou apelando por um convívio ilegal! — ditou fazendo-o se calar na hora. — Você se lembra bem das merdas que fez com o papai e a mamãe. Não venha tentando agir como se não tivesse acontecido nada! — tentou refrescar a memória dele. — Você se lembra dos traficantes que bateram na nossa porta, porque VOCÊ não pagou a quantia da aposta, que como VOCÊ mesmo se lembra, perdeu feio! — sua voz estava carregada de ódio, e sua garganta raspava de tanta força que fazia a cada palavra que gritava. — Você nunca vai voltar para as corridas clandestinas, ! — deixou claro com o olhar carregado de raiva.
não deixou barato toda a euforia da irmã. Levantou-se em um pulo e foi para a sala pegar sua camiseta e carteira. Retornando para a cozinha já apontando o dedo na direção de .
— Você sabe muito bem que as corridas iriam dar uma boa grana, ! — ditou com a voz bastante grosseira. — Você só é muito burra para ver isso! — ofendeu.
não mudou sua postura, pelo contrário, ficou mais brava do que já estava.
— Então vai, ! — apontou a porta da sala em forma de indicar a rua. — Vai lá e se envolva com aqueles traficantes e mafiosos. Vai! — limpou a lágrima de raiva que saiu por seu olho. Já não estava conseguindo conter a fúria dentro do corpo. — Vai lá. Só depois não venha me pedindo ajuda com dinheiro, porque estarei ocupada demais cuidando do . O seu filho! — lembrou com a voz alterada pelo choro.
foi empurrado para o lado quando passou por ele e esbarrou em seu ombro. Virou-se para acompanhar cada passo da irmã que correu para o quarto, deixando as lágrimas tomar conta do rosto. O semblante de seu rosto mudou imediatamente ao vê-la daquele jeito, lembrando-se do dia em que os bandidos invadiram a casa em busca do dinheiro e a deixaram apavorada. Ela tinha somente dezesseis anos na época. Ficou assuntada, entrou em pânico ao ver as armas apontadas para os pais.
Foi um dia turbulento que custou seis meses de trabalho ilegal do Sr. Tate.
Naquele instante soube que o certo era nunca retornar para as corridas, muitas pessoas iriam se machucar com isso. Incluindo ele e . E não merecia ver o pai no meio de mafiosos, viciando em dinheiro sujo e fácil. Mesmo que fosse difícil, o melhor era continuar a viver da maneira que estavam. Pelo menos era uma vida digna e honesta. A mesma vida que Amélia e Charles deram aos três filhos.
coçou a nuca e bagunçou os cabelos em seguida. Ficou tentado a ir ao quarto de e pedir desculpas, mas com certeza receberia a porta em sua cara. Quando estava com raiva ela demorava um tempo para se acalmar até ao ponto de conseguir ter uma boa conversa civilizada.
Foi então que ele decidiu sair em busca de bicos em fábricas ou lojas. Talvez tivesse sorte e conseguisse um pouco de dinheiro para comprar uma barra de chocolate para como um pedido de desculpas.
∆∆∆

Já era noite quando saiu da última fábrica. Desde que saiu de casa não havia conseguido nenhum bico para fazer. Todas as indústrias e mercados estavam com seus grupos de funcionários para descargas fechados. As portas se fechavam e liberavam uma sensação de angústia por todo o corpo de . Será que realmente não estava em um bom dia? Ou era uma mensagem da vida mostrando que não seria tão fácil arrumar algo para bancar o transplante? Ele sabia que seria difícil, só não contava que todas as portas fossem se fechar.
Com sendo cabeça dura ficava bastante complicado resolver tudo. As corridas dariam o lucro necessário para bancar cada gasto. Até o valor do quarto do hospital seria pago sem a necessidade de ter de parcelar cada centavo em três anos. No entanto, o passado não saia da cabeça dela e não sairia tão fácil. Sua consciência ficou marcada com os traficantes invadindo a casa atrás do dinheiro deles. A imagem do pai se submetendo a qualquer coisa para pagar o preço.
tinha medo que as corridas pudessem lhe obrigar a fazer ações contra sua vontade. Como fizeram com Charles.
Os tênis tocavam o asfalto, jogando as pequenas pedrinhas para o alto. A cada passo dado era um distância a menos para chegar em casa, e não queria voltar. Encarar , após a discussão, seria o mais difícil. Pois assumir que estava errado nunca foi o seu forte. Sempre a irmã estava certa em tudo e isso lhe irritava. Apesar de não conseguir ter o controle de suas emoções, em uma coisa ela sempre conseguia ser melhor do que ele. Responsabilidade e razão.
Sabia que no fundo todas as palavras que saíram pelos lábios dela eram completamente verdades.
Nunca teria o controle da situação. Nunca ficaria fora de encrencas. As apostas iriam bater bem na sua cara e seriam irresistíveis para um ex-viciado. Logo cederia e começaria a se arriscar com os carros, correndo como Dominic Torreto pelas ruas da cidade. Não impostasse o perigo que corresse ou a polícia doida para capturá-los. Os rachas estavam em seu sangue, não tinha como fugir disso, a cada nota de dinheiro que entrasse faria seus olhos brilharem e despertariam a ânsia por mais, duplicando os valores até o momento que perdesse e os cobradores forem bater em sua porta.
O que lhe impedia de voltar, não era nem a repreensão de , mas sim, a segurança de . Não poderia colocar o filho em risco por algo tão perigoso. Por isso tentava afastar todos os pensamentos sobre a corrida.
No instante que parou para olhar as ruas antes de atravessar, avistou luzes altas, de todas as cores, rodando no ar. Anunciando que algo bastante importante estava acontecendo. Seus ouvidos capturaram músicas eletrônicas com batidas que faziam o coração saltar para a boca. Gritos por todos os lados e barulho de motores famintos por velocidade. Seus olhos brilharam, recuperando toda a adrenalina adormecida de anos atrás. Bem ali, a dois quarteirões de distância, estava a maior e mais eletrizante corrida de rua ilegal que já vira.
As batidas das músicas fizeram o coração voltar a bater, como se tivesse acabado de levar a tremenda carga elétrica de um desfibrilador cardíaco. A cada batimento parecia que iria saltar do peito. Como antigamente. sentia todos os pelos de seu corpo enrijecer, se arrepiando com a sensação de estar novamente em “casa”. Aquela visão era tudo que mais queria ver naquele momento. Um racha clandestino.
Naquele momento todos os seus pensamentos desapareceram. Todas as preocupações sumiram. Na sua frente estava a solução para todos os seus problemas. Bastava se aproximar e dominar o motor arfante por adrenalina. Seu corpo implorava para dar os passos necessários para alcançar o desejo, porém algo no fundo de sua mente, teimosamente, insistia em dar petelecos para voltar a vida real.
“Então vai, ! Só depois não venha me pedindo ajuda com dinheiro, porque estarei ocupada demais cuidando do . O seu filho!”.
Essas palavras, essas malditas palavras.
Fechou os olhos e abaixou a cabeça, tentando ignorar todo o som de música, gritaria e motor. Não poderia se aproximar. Nunca mais poderia entrar em um carro esportivo como aquele. Nunca. A vida de não dependia de ver o pai atrás das grades. E nem a de dependia de cuidar do sobrinho. Não poderia ser tão egoísta com aqueles dois. E se caso fosse, Lilian nunca iria lhe perdoar por ter abandonado o filho por um vício arriscado e mal resolvido.
Ergueu a cabeça, vendo dois carros saírem do meio da multidão e irem em direção da avenida principal. As pessoas gritavam e isso trazia antigas lembranças que precisavam ficar guardadas a sete chaves. Balançou a cabeça, sentindo o coração se quebrar em milhões de pedaços. Queria muito competir em apenas uma única corrida, só que não poderia. Sua vida mudou e não era a mesma de antes. Agora tinha um filho e muita responsabilidade.
Obrigou seus pés a girarem e seguirem rumo para casa antes que todo o seu autocontrole fosse para o ralo e se rendesse aos encantos da corrida.
Durante todo o caminho, a cada passo que dava, não conseguia tirar as luzes coloridas da cabeça. A música penetrou sua mente e ficou grudada como chiclete no tênis, carregando-a por todo o trajeto. O cérebro manifestou momentos de adrenalina. Todos os modelos de carros que sabia cada potência de cavalos se passaram em um belo flashback. As mulheres com pequenas roupas comemorando todas as suas vitórias e o líder do antigo grupo lhe parabenizando por cada conquista e entregando o bolinho grosso de dinheiro.
Passou as mãos no rosto parando no meio fio da rua. Remexeu o cabelo, pousando as mãos na nuca e olhando para o céu. Seus olhos estavam perfeitamente perdidos.
— O que está acontecendo comigo? — perguntou para si mesmo, esperando que alguém aparecesse e lhe dissesse a resposta.
Ficou parado por um momento encarando as estrelas, como se a qualquer momento elas fossem escrever a resposta no enorme quadro negro. Estava perdido, completamente perdido em seus próprios pensamentos. Dessa vez era ele que misturava o presente e o passado. Lágrimas começaram a brotar quando o rosto de dominou a mente, não poderia fazer nada para tirá-lo daquela situação; das agulhas perfurando a pele em busca da veia; do cheiro horrível de hospital...
E doía... Doía não poder fazer nada.
Queria poder invadir o hospital e sequestrar o corpo do próprio filho. Levá-lo para longe de toda dor e do sofrimento. Poder abraçá-lo com muita força, escutando a respiração bem fraca e baixa. Dizer que tudo ficara bem e que o papai estaria ali para protegê-lo. Sumir do mapa, como nos filmes. Se livrar de todas as doenças do mundo. Se isolar completamente em busca de uma melhora e saber que no fundo, antes do final do filme, teria o sonhado final feliz. Um final onde corre pela grama alta, com um sorriso no rosto e pula no colo do pai, dizendo orgulhosamente que finalmente estava curado.
E isso doía. Não ter uma certeza e nem mesmo mais esperança. não aguentava mais ver o filho sofrer.
Limpou as lágrimas com as costas das mãos assim que começaram a rolar por suas bochechas e pingarem no tecido que cobria seus ombros. Abaixou a cabeça e fechou os olhos, suspirando longamente em uma tentativa falha de se acalmar. Repetindo diversas vezes, tanto por pensamento quanto pelos lábios, que tudo ficará bem. O ar penetrou suas narinas e antes de chegar aos pulmões, parecia que algo bloqueava sua passagem, fazendo o corpo se contorcer em soluços que ardiam o peito.
Lentamente abre os olhos e observa a imagem ao redor, reconhecendo as casas e o bairro humilde. Vira-se para o lado e encontra sua casa, com a única luz acessa, a da sala. A janela da cozinha completamente escondida pela cortina e a escuridão. As paredes de tijolos, bem velhas, pareciam demonstrar toda a tristeza de seus moradores. Aquela casa era o único porto seguro que tinha; a única certeza de que ali poderia desmoronar sem ser julgado ou receber olhares de pena.
Caminhou, em passos largos, em direção da porta, buscando pela chave durante o caminho. Assim que pegou o chaveiro, não demorou em destrancar a fechadura e entrar rapidamente. Queria muito ir para o seu quarto e desmoronar sozinho, invadido pela escuridão do ambiente, envolto de pensamentos complicados, egoístas e pessimistas. Precisava do seu momento. Desde que lhe ligou dizendo sobre e saindo correndo para o hospital, não teve um minuto a só consigo mesmo.
Um tempo para assimilar. Para lidar com todo o sofrimento repentino que do nada invadiu sua vida em questões de segundos. Precisava urgentemente ter esse tempo para chorar, gritar e entender cada ponto de todos os problemas.
Ao adentrar a casa, empurrou a porta com força fazendo-a bater contra o batente. As paredes tremeram com o impacto. E não hesitou em tirar os olhos do livro que lia para ver o que houve. Deitada no sofá, quando ergueu o tronco só conseguiu ver jogando a chave em qualquer lugar e limpando o rosto com uma mão, correndo para o quarto. Em poucos segundos, ela foi capaz de vê-lo e analisar o semblante abatido. Absolutamente nada bem. Mordeu os lábios e fechou o livro, já pensando no que possivelmente aconteceu. Provavelmente, não havia encontrado nenhum bico para fazer e agora o desespero tomava conta de todo o seu ser.
colocou o marca página no meio do livro e o deixou em meio às almofadas. Passou as mãos no rosto e suspirou, se preparando psicologicamente e fisicamente para o que encontraria dentro do quarto de . Sabia o que esperar, mas sempre a situação foi inversa, sendo ela o ponto mais fraco da família. No entanto, essa concepção mudou desde a última vez que foi internado.
Agora era o elo mais fraco. O que para ela ainda era muita coisa para assimilar.
Levantou-se e arrastou as pernas até o quarto do irmão. Pensando durante o caminho se deveria ir ou era melhor deixá-lo sozinho. não gostava de mostrar sua vulnerabilidade na frente das pessoas. Se tinha uma coisa que odiava era receber olhares de pena como urubus em busca de comida. Por isso em momentos como esses, buscava se esconder o mais longe das pessoas. Preferia ficar somente com sua própria companhia, ao invés de desabafar com alguém.
sofria do transtorno da somatização. Basicamente o costume de acumular os sentimentos presos dentro de si, desencadeando problemas mais sérios. Ele tinha gastrite nervosa sempre que vivia um momento intenso que jogava suas emoções no fundo do poço. Sentia sempre uma pontada no peito, como se fossem espinhos, e seu estômago queimava profundamente, além de sentir muitas dores abdominais. As sensações se assemelhavam com uma gastrite comum, porém a única diferença era que a nervosa não causava complicações para o aparelho digestivo, sendo esse o grande enigma dos médicos.
Desde que descobriu a gastrite nervosa, com a ajuda de um terapeuta cognitivo-comportamental. Desde então sempre soube quando precisava se isolar do mundo para colocar a cabeça em ordem. O estômago sempre dava os primeiros sinais de queimação, que fazia o corpo entender que uma onda intensa de sentimentos escorreria livremente pelos glóbulos oculares. Lágrimas sairiam como o mar.
sabia o que encontrar quando parou a um passo da porta aberta do quarto de .
Respirou fundo sabendo o que iria encontrar, a todo o momento pensando se era mesmo o certo a fazer. Fechou uma mão em punho, como uma forma de encorajamento, finalmente conseguindo vencer a distância do quarto, deixando a escuridão, com pequenos picos de luz da noite, invadirem sua visão. Precisou apertar os olhos para encontrar o corpo do irmão. Mas não foi preciso tanto esforço, já que os fungados do nariz lhe guiaram.
estava sentado, abraçado aos joelhos, ao lado da cama. Em um espaço pequeno que quase não dava para vê-lo. nunca teria o visto se não tivesse o escutado chorando. Estava uma sensação tensa no quarto, como se todas as frustações do rapaz tivessem invadido cada centímetro do ambiente. As mãos inquietas dele se alternavam em limpar o rosto e esfregar os braços. Seu corpo estava tão encolhido, com a cabeça entre os braços que passava a impressão de estar tentando desaparecer. Era nítido o quanto forçava as costas contra a parede, parecendo querer ser engolido pelos tijolos e sumir do mundo por algumas horas.
continuou em silêncio, não achando certo dizer alguma coisa. Seu coração dava cambalhotas que mexiam com seu emocional por inteiro. Uma vontade absurda de chorar surgiu ao vê-lo daquele jeito, mas precisava ser a mais forte naquele momento. precisava de seu consolo, de suas inteligentes palavras. Um abraço bem quente, talvez, já pudesse fazê-lo se sentir melhor. Apesar de que as angústias eram bem maiores do que ela imaginava.
Obrigou suas pernas, que até o momento estavam presas ao chão, se moverem em direção do irmão. Contornou a pequena cama de solteiro, até o canto esquerdo, pensando em como chegaria perto dele. Encarou o quarto tentando pensar em algo, deixando seus olhos baterem contra o criado-mudo que era onde estava levemente encostado. Seria ali mesmo onde se sentaria.
Deu mais alguns passos até chegar aonde desejava. Cautelosamente fez as pernas agacharem, até repousar as nádegas no chão e ficar sentada em posição de índio. Não poderia negar que ao relaxar as costas, os puxadores da gaveta do criado-mudo lhe incomodaram. Mas lembrou-se que a questão no momento não era agradá-la e sim, a seu irmão. Sentindo os puxadores lhe incomodando, decidiu arcar o tronco para frente, tentando encontrar uma maneira que pudesse lhe proporcionar conforto. Possivelmente ficaria naquela posição por algumas horas.
Encarou o teto escuro, vendo a pouca luz do lado de fora iluminar o forro velho que separava a quarto do telhado. Tentava pensar em algo para dizer, mesmo sabendo que palavras não eram necessárias. Porém sentia dentro de si que não poderia ficar em silêncio, tinha que conversar com e entender o que estava lhe deixando chegar ao fundo do poço. Não encarava isso como uma tarefa fácil, por na maioria das vezes os papéis estarem invertidos, só que tinha de tentar.
Portanto, afastou seus lábios, tentando fazer a voz sair firme. Tentando ignorar o barulho do choro compulsivo do irmão, caso contrário iria chorar também.
... — começou buscando palavras para continuar. — Você quer conversar? — foi o melhor que conseguiu dizer.
ergueu a cabeça e esfregou as mãos no rosto para limpar as lágrimas. Cada extensão de pele estava completamente vermelha de tanto que esfregava, em uma tentativa inútil de esconder o choro. ficou imóvel, olhando para o chão, pois sabia muito bem que se caso encarasse o irmão, ele perderia toda a coragem de falar algo.
— Eu... — fungou e novamente esfregou os dedos nos olhos. — Eu sou um inútil, .
Ela não soube o que dizer, achando melhor não dizer nada.
— Está tudo perdido. — abraçou aos joelhos, olhando para o nada. — Eu nunca vou conseguir salvar o . — confessou deixando as lágrimas saírem novamente. As palavras doíam em seu peito como uma facada dolorosa.
... Por que está pensando assim? — pela primeira vez o olhou no rosto. — Vai ficar tudo bem.
— Não vem com esse papo de que “tudo vai ficar bem”, porque não vai! — exaltou-se um pouco com a voz atingida pelo choro.
pressionou os lábios com força buscando alguma coisa para dizer. Por isso odiava consolar , porque ele sempre arranjava palavras para contrariá-la.
— Se eu tivesse escutado a Lilian, ao invés de insistir em ter um filho... Isso tudo é culpa minha... — começou e teve suas lembranças voltadas para o passado com Lilian, mãe de . — O nunca teria nascido e nada disso estaria acontecendo. Eu não estaria perturbando a sua vida, . — encarou-a com o olhar sofrido que despertou nela a imensa vontade de abraçá-lo. — A leucemia é genética. Lilian sofreu do mesmo jeito quando era apenas uma criança. E... Ela sabia que o poderia nascer com a doença. — tinha os olhos perdidos, relembrando todas as palavras que Lilian disse. — Eu nunca deveria ter contrariado as palavras dela. Ela sempre esteve certa.
, — pegou a mão dele, atraindo sua atenção. — mesmo que a Lilian tenha te alertado dos riscos, mesmo assim ela te amava muito para realizar o seu desejo. Ela sabia que você sempre quis ser pai e não poderia arrancar esse sonho de você. — as palavras eram verdadeiras, lembrava-se da felicidade dele quando Lilian revelou que estava grávida. — Ela queria esse filho tanto quanto você.
Ele sorriu de lado, enlaçando mais a mão na dela.
tinha razão, Lilian nunca iria negar um filho a . Tudo que fez foi por amor, enfrentou seus medos e os médicos para que realizasse o desejo de um homem de se tornar pai. Agora ele arcava com as consequências, mas nunca se arrependeria do momento que segurou seu filho pela primeira vez nos braços. Vê aquele bebê tão pequeno e tão frágil em suas mãos, lhe despertava uma sensação maravilhosa, uma sensação de finalmente estar completo. Algo que somente a paternidade poderia lhe proporcionar.
Portanto, não foi preciso mais palavras. conseguiu acalmá-lo com uma breve lembrança de Lilian. Sua fala mexeu com os pensamentos dele, lhe fazendo lembrar-se do momento que nasceu. Da sensação incrível que sentiu ao tê-lo nos braços. Tudo foi e sempre será pelo amor que Lilian sentia pelos dois. Ela morreu deixando o legado mais bonito que existe: o amor verdadeiro.
∆∆∆

Por mais que a noite tenha sido extremamente sensível e cheia de lembranças, assim que o dia nasceu, não conseguiu acordar para ir ao hospital. Os olhos estavam muito inchados e o rosto bastante vermelho de tanto que esfregou para limpar as lágrimas. Era nítido ao vê-lo dormindo que estava completamente exausto, talvez nem tivesse dormindo direito. Palavras não eram necessárias pra descrever tudo o que houve na noite passada. Apenas os olhares e a presença um do outro já eram o suficiente para uma boa comunicação entre almas.
Pegou a maça na geladeira e algumas fatias de pão que passou manteiga e as colocou dentro da pequena bolsa, dentro de um pequeno tupperware vermelho. Não gostava da comida de hospital, então decidiu levar a própria refeição. Nada melhor do que comer algo bom e de verdade ao invés de sopas completamente sem tempero. Apesar de na parte central do hospital ter uma pequena área de lazer, onde as visitas podiam ficar, havia uma lanchonete, pequena, que oferecia vários lanches e quitutes, mas nunca gostou do sabor salgado e bastante gorduroso, era muito enjoativo, não sendo o apropriado para pessoas que iriam ficar sentadas o dia todo assistindo os médicos lidarem com agulhas e exames.
Quando acabou de arrumar as coisas que seriam úteis para passar o dia no hospital. Verificou todas as janelas e portas para ver se estavam devidamente fechadas. E não se esqueceu de deixar o bilhete na geladeira para , dizendo para não se preocupar que ficaria com durante a manhã. Tudo tinha de ser planejado, senão não teria o toque das mãos de . Calculista e bastante meticulosa. Gostava de deixar tudo ajeitado para as pessoas entenderam e depois não dizerem que depois não foram avisadas.
Durante o caminho para o hospital, não conseguia deixar de sentir um frio na barriga. Como se todo o ar gelado da manhã estivesse centrado dentro de seu estômago e deixando cada milímetro de pele congelada. Ela conhecia essa sensação. Era medo. Medo de chegar nas portas e ver os médicos correndo para socorrer que não voltava da parada cardíaca. Medo de entrar e receber más notícias que transformariam o dia iluminado em um nublado e sem vida. Um dia escuro e sem luz. A cada passo parecia que seus dedos ficavam mais duros pelo frio causado pela brisa e o nervosismo.
Por outro lado estava ansiosa para ver Charlotte. Precisava muito conversar sobre as ideias mirabolantes de . Não conseguiria lidar com tudo sozinha. As duas lembravam-se do que tinha acontecido e sabiam exatamente como seria se voltassem a fazer parte daquele mundo. Tudo iria desmoronar de novo. E não seria fácil se reerguer, ainda mais sem emprego, com internado com a leucemia em estado grave. A situação ficaria mais crítica e perderiam tudo, até as roupas que usavam. Por isso precisava da irmã, tinha de convencê-la a ajudar para que mudasse de ideia antes que seja tarde demais.
Adentrou o hospital e identificou-se na recepção, sendo guiada por uma das belas moças até o quarto que estava. Todos os passos pelo corredor foram tensos, o coração parecia que pularia do peito a qualquer momento. E o barulho dos saltos da mulher loira ao seu lado era o único som que tentava se concentrar para não pensar em cenários horrendos que possivelmente não encontraria, mas que sua mente traiçoeira insistia em dar vida. E o pior que se deixava levar pela voz no fundo do sua cabeça, aquela voz inimiga que lhe deixava mais ansiosa e acelerava os batimentos sem fazer nenhum esforço físico para isso.
Portanto, assim que Molly, a recepcionista, abriu a porta. Os bipes dos aparelhos invadiram seus ouvidos, atraindo os olhos curiosos e amedrontados para a cama. estava deitado, com uma máscara de oxigênio no rosto, deixando quase nítido o tubo que colocaram em sua garganta para a passagem do ar. O soro, agora, pingava lentamente, se arrastando para escorregar pela enorme mangueira. Tudo parecia ter sido colocado em câmera lenta, com a velocidade duas vezes mais devagar.
Os olhos de variam o quarto em busca de motivos para desmoronar e cair de joelhos. Felizmente tudo que encontrou, após , foi o rosto conhecido e cansado de Charlotte segurando um livro fechado nas mãos, sentada na poltrona marrom, com as pernas perfeitamente cruzadas. Os cabelos ruivos caindo brevemente sobre os ombros. Vestida em um vestido floral de rosas azuis, que realçavam seus olhos claros, carregados de sono, de um tom azulado como o céu numa bela manhã de verão.
O coração de tranquilizou imediatamente, parando de querer rasgar as camadas do peito.
— Olá, . — Charlotte quebrou o silêncio. Levantou-se e deixou o livro sobre o acento da poltrona.
— Oi. — foi tudo que conseguiu dizer, ainda tentando se recuperar dos cenários medonhos e inexistentes de sua mente.
— Achei que viria de amanhã. — disse arrumando os cabelos de lado.
— Ele vinha. — relembrou a noite anterior. — Mas não teve uma noite muito boa. Por isso estou aqui. — mexeu os braços na tentativa fajuta de descontrair o clima.
Charlotte olhou para , antes de voltar os olhos para a irmã. O cenho franzido já esclarecia que ficou preocupada.
— Aconteceu alguma coisa com ele?
— Não... Bom, na verdade sim. — respondeu sabendo que tinha de revelar a verdade.
O assunto das corridas não poderia ficar em sigilo. Era fundamental Charlotte saber e o quanto mais rápido era melhor para impedir que faça alguma besteira por impulso.
? — pegou na mão da irmã, fazendo-a perceber que tinha ficado calada por muito tempo, presa em seus pensamentos.
Encarou profundamente os poços azuis recheados de preocupação. Sabia que não poderia esconder.
— Eu preciso falar uma coisa. — finalmente deixou sua voz sair. Teve total atenção de Charlotte. — É sobre o e os rachas.
Charlotte arregalou os olhos, prestando atenção apenas na palavra “racha” de tudo que ela disse. Essa era a palavra que não ouvia há anos saindo da boca de alguém, principalmente da de que se negava intensamente a falar sobre o assunto. Lembra-se bem o que tinha acontecido por isso seu coração parou de bater por alguns minutos e voltou parecendo arrastado por um caminhão na mais alta velocidade. Sentia o peito contrair a cada batimento, provavelmente fazendo até com que as pessoas ao redor pudessem ouvir.
Onde estava com a merda da cabeça?
Duas enfermeiras entraram no quarto, no instante que o silêncio estava sendo perturbante. Graças a elas e Charlotte pararam de se encarar como se fossem duas almas repugnantes. As duas mulheres, ambas morenas, se aproximaram de e começaram a checar os aparelhos, sem dizer uma palavra.
cruzou os braços em relutância sobre o que havia falado e virou-se para encarar a cama de . Enquanto acompanhava os movimentos e baixas palavras das enfermeiras, deixou a mente viajar. Será que tinha sido uma boa ideia falar de para Charlotte? Será que ela iria brigar sobre o que havia dito? Não sabia mais para que lado correr, estava desesperada. Será mesmo que não teria o apoio que tanto precisava?
— Iremos demorar um pouquinho, se quiserem sair para comer alguma coisa ou tomar um ar fresco. Podem ficar a vontade. — a enfermeira que segurava a prancheta disse, erguendo o olhar para as irmãs e rapidamente voltando para . Sussurrando algo a outra, segurando a mão do garoto.
mal escutou o que a enfermeira disse, muito perdida dentro da própria mente. Apenas voltando quando já estava andando rapidamente pelos corredores, arrastada por Charlotte. Nem havia percebido que a irmã tinha dito para irem até a área de lazer comer alguma coisa.
. — atraiu a atenção da irmã. — Agora você vai me explicar direitinho essa história. — sentou-se do banco de cimento que acompanhava a mesa redonda, em frente a lanchonete.
Havia outras pessoas no lugar, junto com seus parentes internados. Os pacientes usavam roupas completamente brancas, parecendo lençóis, que denunciavam suas identidades. Era horário de visitas, por isso o pátio da lanchonete estava tão cheia. Ao centro foi construída uma fonte de água, bastante semelhantes àquelas que ficam nas praças. Arredondada com a imagem de um garoto sorrindo apontando o céu, com seu cachorro ao lado correndo. A imagem era tipicamente parecida com as dos desenhos infantis. Traços grossos e robustos. Sendo o dedo indicador do menino de onde jorravam a água, parecendo uma chuva fina e perfeita aos olhos de quem via.
Todas as nossas crianças merecem a chance de ver o céu com os olhos de um adulto. Sendo cada adulto a esplêndida criança interior.
Essa era a frase esculpida aos pés do menino. Era em homenagem a todas as crianças que o hospital cuidava para que tivessem uma longa e esplêndida vida. É a forma de fazê-los ver que ali não era o fim e sim, o recomeço. Muitos saiam com a sensação de terem uma segunda chance para viverem e assim se tornarem adultos que carregarão para sempre cada furada da agulha de sua infância. A fonte era a marca de um recomeço, o símbolo para a vida. E o céu nunca era o fim para quem queria lutar e viver com honra e plenitude.
! Está me ouvindo? — Charlotte gritou, acenando com a mão na frente dos olhos da irmã.
acordou de seu transe. Era como se a mão de Charlotte tivesse quebrado a hipnose da estátua.
— O que você disse mesmo? — esfregou o rosto, parando os dedos para apertar os olhos.
— Você estava tão distraída que não ouviu nenhuma palavra do que eu disse. — o tom dela era meio ríspido.
— Desculpa. É que eu... Ah... — suspirou tirando as mãos do rosto e cruzando os braços na mesa na altura do peito. — Eu estou bastante distante da minha vida ultimamente. — encarou a formiga que roubava a pequena migalha de pão.
— Não precisa nem falar, né. É nítido isso. — rolou os olhos, puxando a bolsa da lateral do corpo para pegar os pães que havia trazido. — Mas, enfim, vamos falar do . — pegou o pão que lhe fora oferecido.
mastigou, pensando por onde iria começar a falar de . Havia tantos caminhos, mas não sabia qual era o certo para se iniciar uma conversa civilizada. Virou o rosto para a estátua, encontrando uma mãe, junto do filho vestido de branco. Ambos eram bastante semelhantes com e Lilian. Os cabelos loiros da mulher voavam, não escondendo o imenso sorriso de satisfação por ver o filho bem após as intensas sessões de quimioterapia.
Naquele momento, percebeu que o melhor era começar por Lilian.
falou da Lilian ontem. — deu uma mordida no pão. Pousou o dedo indicador contra os lábios como forma de dizer que tinha mais para falar. — Ele ficou se culpando por ir contra as palavras dela.
— Se culpando por ir contra ao quê? Ao fato dela não querer ter dado um filho para ele. — Charlotte foi ríspida, sempre foi contra a vontade de Lilian não querer ter um filho com .
— Ela não queria ter tido um filho com o , porque sabia que nasceria com leucemia. — explicou.
— E bingo, olha no que deu, né. — foi insensível.
— Charlotte, se for para você ficar agindo feito uma criança mimada, eu vou entrar e você vai embora. E não vamos falar de mais nada. — alertou já cansada dos joguinhos da irmã.
Charlotte suspirou e olhou para cima em tédio.
— Não adianta mais chorar pelo leite derramado. já nasceu e a Lilian nem está mais aqui. — disse ainda com o tom grosseiro.
não queria que isso tivesse acontecido. — a ignorou, voltando a contar sobre a noite anterior. — Ele queria o filho e a Lilian também. Caso contrário o não teria nascido.
— Certo.
— Ele chorou ontem a noite inteira por causa disso. Dizendo que a culpa do estar sofrendo é completamente dele. — revelou e a irmã não mostrou reação, continuando a comer o pão despreocupadamente. — Você não vai falar nada sobre isso?
Charlotte terminou de mastigar antes de falar:
— E ele está errado? — abriu as mãos e fez uma expressão de questionamento. — Tecnicamente falando, a culpa, realmente, é do e da Lilian. — rolou os olhos e bufou. — . Ninguém tem culpa por ele ter nascido com leucemia, mas eles sabiam dos riscos, e mesmo assim foram lá e arriscaram. Estão aí as consequências.
— Você... Poderia ser menos insensível, às vezes? — disse com as mãos fechadas.
— Mas, , eles sabiam dos riscos... — estava inconformada por dizer apenas a verdade.
— Sim, eles sabiam. Mas, Charlotte, eles queriam um filho deles. Tem como você entender isso? — Charlotte rolou os olhos e suspirou.
— Tá bom, eu entendo isso. Só não sei o porquê o está se culpando agora, sendo que o passado já acabou. Caramba, é passado, estamos vivendo o presente. — falou como se fosse óbvio e os sentimentos humanos fossem fácies de serem compreendidos.
— Nem todo mundo consegue lidar tão bem com a realidade como você consegue. — os irmãos eram uma intensa mistura daqueles que conseguem controlar a ansiedade e aqueles que se desesperavam.
Charlotte era o autocontrole da família, chegava até a irritar os irmãos. Ela conseguia perfeitamente assimilar todos os seus problemas e focar em soluções possíveis para resolvê-los. Vivia a vida como se o passado nunca lhe machucasse, importando somente o presente. Era como um vidro perfeitamente esculpido, que quando quebrado desmoronava. No entanto, era tanto controle que era impossível de se quebrar.
Por isso ela quase nunca conseguia compreender os sentimentos avoaçados dos irmãos. Porque enquanto e sofriam pelas situações, Charlotte já estava mais a frente planejando em como iria resolver. Era um desequilíbrio enorme entre eles.
— É simples. Pegue limões, que são os seus problemas, e faça uma limonada. — simplificou. — O que o precisa é de uma dose de realidade. O está bem, bom... Agora está mal, mas depois do transplante ele ficará bem e saudável. — falava como se fosse simples um ansioso lidar com os fatos da realidade. — É isso que ele precisa. Ver que não é o fim do mundo.
— Nossa, Charlotte... Como você é insuportável. — disse lhe lançando um olhar irritação. — Eu não sei como o Jonas aguenta.
— Ele aguenta porque somos duas pessoas que não enxergam o passado e não deixam os problemas virarem bolas de neve gigantes. Somos centrados na realidade. — as palavras fizeram a irmã bufar.
esfregou o rosto novamente, escorregando os dedos por cada extensão de pele até conseguir deixar suas palmas unidas com a ponta do nariz no meio, impedindo com se juntassem por completo. Encarou Charlotte e afastou as mãos no nariz, deixando-as ainda grudadas. Respirou fundo e bateu os dedos um nos outros, como se estivesse bolando um plano mirabolante. Era uma forma de amenizar sua raiva.
— Enfim, agora o está querendo participar de corridas de rua ilegais.
— Nossa... Isso é mesmo muito ruim. — Charlotte disse abrindo os olhos em falsa surpresa. Tinha um pequeno pingo de sarcasmo na voz.
— Não é piada, Charlotte.
— Eu sei disso, você já tinha estourado a bomba no quarto. Agora desembucha e conta o resto.
Ela se curvou sobre a mesa e pegou as mãos de , que batiam inquietamente, mostrando o quanto estava sendo difícil controlar a mente para não criar situações constrangedoras. Nem sempre Charlotte era ignorante e deixava de dar apoio aos irmãos, apenas só concedia do seu jeito meio antipático, pois no fundo era péssima para lidar com sentimentos.
quer voltar para as corridas, como quando era mais jovem. — disse deixando transparecer sua voz baixa e seus olhos ficarem marejados.
— Ele está desesperado, . Está delirando. — ver a irmã daquele jeito era de lhe cortar o coração. — Não está vendo que tudo o que aparecer na frente, ele vai agarrar com unhas e dentes? É o filho dele. — naquele momento Charlotte tinha deixado o jeito insensível de lado para conseguir entender .
— Eu sei... Só não queria que fossem os rachas. — confessou deixando uma lágrima escorrer por sua bochecha. Ela fechou os olhos com força para amenizar a visão e mais gotículas escorreram.
quebrou o contato de uma mão para limpar o rosto.
— Eu sei que seria a oportunidade perfeita para ganhar dinheiro. — fungou. — Mas isso vai colocar a vida dele em risco. — mais lágrimas brotaram. Pensar em perder o irmão lhe doía a alma profundamente.
— É... — Charlotte respirou fundo e soltou em um suspiro. — Lembro-me bem quando ele se meteu naquela encrenca e vieram atrás do papai. — o semblante dela mudou. Aquele episódio era o único do passado que ainda lhe tirava da linha.
— Ele perdeu feio e o nosso pai pagou por tudo. — a voz de saiu quase em um fungado. — Ficou seis meses longe da gente, tendo que trabalhar com aqueles traficantes. Tudo para pagar a dívida que o apostou. — doía relembrar os momentos mais difíceis da vida deles.
— E depois que o papai voltou, a mamãe teve o desgosto de nos abandonar para ficar com aquele cara rico. Como é mesmo o nome dele? — ainda teve essa questão que os machucou mais ainda. A separação dos pais.
— Benjamin Willou. — lembrou, rolando os olhos.
— Puff. Não gosto nem de lembrar. — a voz de Charlotte continha irritação.
— Charlotte... — começou. — Eu não preciso de mais uma preocupação. E nem dormir com medo de mafiosos baterem na minha porta e me levarem a força por causa do .
— Esse não é nem o problema, porque o tem o agora. Como ele ficaria nisso tudo? Sem o pai? — Charlotte estava certa, esse era outro pensamento perturbante da irmã.
— Essa é minha outra preocupação... — confessou com os olhos baixos, encarando as outras formigas que carregava os miolos.
Charlotte olhou ao redor e então notou que os pacientes estavam sendo levados pelos enfermeiros até seus respectivos quartos. O horário de visitas tinha chegado ao fim. Naquele instante, encarou o semblante abalado da irmã, e não poupou esforços para unir suas mãos novamente. Conseguiu fazer com que olhasse em seus olhos, só assim poderia dizer o que tinha que ser dito sem deixar a voz falhar.
. Vai ficar tudo bem. O não é louco de entrar nesse mundo. — suas sobrancelhas mexiam conforme falava. — Naquela época ele era só um menino, um adolescente rebelde. Mas agora é um homem, e pai. Espero que tenha criado juízo. — sorriu de lado para descontrair, esperando profundamente que suas palavras fossem verdadeiras.
suspira e tenta abrir um sorriso, mas não consegue.
— Queria que a mamãe e o papai estivessem aqui para nos ajudar, igual quando éramos crianças.
Charlotte riu, porém ficou séria. Não guardava boas lembranças dos pais.
— Eu não queria. — confessou.
. Eles cometeram erros, mas só que ainda são nossos pais. Isso nada e nem ninguém vai tirar deles. — era verdade.
rolou os olhos antes de começar com o tom mais agressivo que o comum.
— O papai está internado em uma clínica de viciados alcoólatras e não consegue de jeito algum largar a dependência. — arcou as sobrancelhas, começando a falar da parte que mais lhe doía. — E a mamãe... Casou com aquele velho rico, o Benjamin Willou, e foi embora. — pronunciou o nome do velho com nojo e raiva. — Ela nos abandonou por causa de luxo, Charlotte. Luxo! — não conseguia se conformar e seu peito doía apenas de lembrar o quanto chorou quando soube que a mãe nunca mais iria voltar.
— O papai se tornou depressivo e por isso se enfiou no álcool. Ele quis afogar as mágoas na bebida. — Charlotte corrigiu.
— E nem pensou em nós. Estava tipo foda-se para a gente! — bradou, deixando a irmã incomodada e arrependida por ter tocado no assunto. Não sabia que iria deixar exaltada.
— Bom... Pelo menos as brigas dos dois iriam nos fazer bem. — não poderia negar. — Ficaríamos distraídos por um tempo e esqueceríamos por um tempo da realidade. — Charlotte fez uma careta, sabendo que seria impossível ela se desligar da realidade, sendo realista como era.
nada disse, apenas encarou as mãos das duas unidas. Só então notando que havia apenas as duas no pátio. Todos haviam ido embora.
— Eu preciso ir trabalhar e de noite irei jantar com o Jonas. Não quero ser incomodada, mas se precisar, me manda uma mensagem que respondo assim que puder. Ligações nem pensar. — Charlotte rompeu o silêncio, voltando ser a mesma de minutos antes de desmoronar.
— Provavelmente terei que aproveitar a noite para arrumar um emprego. — disse já sabendo que teria de receber vários “não” pela frente.
— Só não fique acordada até tarde.
Charlotte se levantou e caminhou para fora do pátio. a assistiu ir embora, pegando sua bolsa para colocar o tupperware. Precisava ir logo para o quarto de antes que os médicos fossem lhe buscar. Teria um longo dia pela frente, sendo o único problema o silêncio dentro do quarto. A solidão lhe pegaria desprevenida e os pensamentos ficariam livres para perturbá-la.
Seria mais um dia como outro qualquer.

Capítulo 4 — Apostando Tudo

A porta bateu e a mesa da cozinha recebeu a chave escorregando pela toalha de girassol até bater contra os guardanapos. Em seguida alguns jornais fizeram companhia para os utensílios. Afastou algumas louças e se sentou, já buscando por algo, virando as páginas para buscar a área reservada exclusivamente para as vagas de emprego. Aquele pequeno lugar, no final das folhas, quase insignificantes que no momento se tornaram o mais procurado dos últimos dias.
precisava arrumar alguma coisa. E estava se sentindo confiante perante a isso.
Tudo estava melhorando. havia sido retirado dos aparelhos e chegou até a abrir brevemente os olhos. o chamou e ele sabia que era a tia na sua frente. Uma pontada de esperança abraçou seu coração ao ver aqueles pequenos glóbulos completamente exaustos, mas guerreiros ao serem persistentes com a batalha. E enquanto segurava a mão do sobrinho, não conseguia conter as lágrimas. Ele estava melhorando e todos os esforços estavam sendo necessários, todos os detalhes importavam, pois eram importantes para a recuperação.
O Dr. Ronnie Hodgnis disse que poderiam ter esperanças, porque estava apresentando grandes sinais de melhoras. Portanto, ainda tinha o risco das recaídas. Precisavam estar preparados para qualquer coisa, pois remover os aparelhos não era sinônimo de alta hospitalar. Mesmo que fosse jovem, a leucemia era bastante traiçoeira sendo que, às vezes, as melhoras se tornavam fatal. Nem sempre os pacientes que melhoravam tinham a sorte de sair, muitos pareciam voltar para uma “despedida”, no entanto, Hodgnis torcia pelo caso do garoto ser diferente.
apresenta bastantes sinais de uma boa melhora. Os exames não negam, . — o médico disse segurando a prancheta ao lado do corpo.
Ele se aproximou de que sorria olhando para . Ela segurava a pequena mão do menino, deixando as lágrimas rolarem sem vergonha, estava feliz por ver aqueles pequenos olhos abertos de novo.
— Isso é bom, Ronnie. — deixou sair, mesmo sabendo que não tinha tanta intimidade para chamá-lo pelo primeiro nome.
— Gosto quando me chamam pelo primeiro nome. — ele puxou a cadeira para ela se sentar.
virou rapidamente a cabeça para ver a cadeira e sorriu pequeno para o rapaz.
— Obrigada. — tirou o peso das pernas por estar agachada e se sentou na beirada da cadeira.
Ronnie, por outro lado, se agachou ao lado dela, colocando a prancheta sobre a cama. Deixando sua mão próxima do enlaço das de e .
é um guerreiro. — quebrou o silêncio. — O acompanho desde que nasceu e esse menino só me da orgulho. — sorriu sem tirar os olhos do garoto.
— Ele realmente é um presente de Deus. — fez carinho com o polegar nas costas da mão do sobrinho.
Ronnie virou a cabeça para estudar mais de perto. O sorriso nos pequenos lábios lhe conquistava e tirava toda a concentração. Os cabelos caiam levemente pelos ombros como uma neve caindo do céu. E cada detalhe do rosto parecia ser desenhado delicadamente pelo melhor pintor. Somente um bom escultor saberia fazer traços finos, meticulosos e tão doces. Ela era como as lindas esculturas da Grécia Antiga, que atingiram a delicadeza e perfeição que nenhuma outra conseguiu.
era perfeita. E Ronnie com seu medíocre conhecimento em artes, arriscaria em dizer que nem mesmo Michelangelo conseguiria fazer algo tão belo e provido de perfeição como aquela mulher. Cheia de formosura e encanto, seu jeito doce e carinhoso não conseguia passar despercebido pelo hospital e provavelmente por nenhum lugar que frequentava. É uma ofensa lembrar que aquela mulher havia sido traída e trocada por seu ex-namorado. Provavelmente o sem vergonha era um ser bastante desprezível para trocar Afrodite por Hefesto.
No entanto, ela parecia buscar por seu Ares, o poderoso deus da guerra. Por mais que Afrodite e Ares tivessem sido apenas amantes, parecia buscar um homem que realmente fosse o oposto dela, assim como os deuses. O amor e a guerra juntos era a combinação perfeita para uma boa mitologia.
sorriu ao pegá-lo lhe olhando. Ronnie achou encantador como as bochechas dela ficaram ruborizadas.
— Você fica linda quando está com vergonha. — elogiou e levou a mão para os fios de cabelo que escondiam a lateral do rosto dela.
— Não deveria fazer isso. — recuou o corpo para o lado, impedindo que ele lhe tocasse.
Interiormente se sentia horrível com o toque de outros homens que não fosse de . Qualquer demonstração de afeto, que não fosse do irmão, era como brasas de fogo que queimavam cada milímetro de pele que encostavam. guardava muitos traumas do seu relacionamento passado e desde então nunca se achou digna para tentar de novo. Nunca conseguindo enxergar que os homens lhe achavam espetacularmente bonita. E mesmo que já tenha se feito muito tempo do rompimento, as mágoas e os medos lhe acometiam de algo novo.
Quando buscou palavras para sair do clima constrangedor que surgiu, que lhe deixava muito incomodada, não precisou pensar muito. A porta do quarto se abriu e entrou, atraindo a atenção dos dois. Acenou com a mão, fazendo Hodgnis se levantar e sair sem dizer nenhuma palavra. Parecia até mesmo um médico bastante apressado. O rapaz chegou até a se questionar se o aceno, na verdade, soou como um pedido de expulsão.
se sentiu bastante aliviada.
Foi então que os questionamentos começaram. quis saber cada detalhe do que estava acontecendo antes de chegar. Felizmente sabia ler bem as expressões faciais da irmã e conseguia perceber quando algo a estava incomodando. não poupou palavras para contar tudo o que aconteceu. Revelando que já estava notando os olhares diferentes de Ronnie, mas que nunca achou que ele seria capaz de dar um passo a mais.
a acusou de pessimismo. Sendo bonita e atraente, era nítido que iria fazer os homens se apaixonarem. Insistiu que ela deveria deixar o passado para trás e começar a ver o futuro com outros olhos. Havia se passado anos desde o término, já estava na hora de se deixar gostar de alguém.
Ele falava mesmo sabendo que nunca iria tirar da cabeça a insegurança e o medo de um novo envolvimento amoroso.
Agora estava ali, rodeada de jornais em busca de uma pequena vaga de emprego que ainda estivesse livre. Porém sua concentração estava inexistente. Não parava de pensar no que houve no hospital e sempre sorria quando o rosto de indignação de , pelo aceno, invadia sua mente. Tinha sido um momento constrangedor e ao mesmo tempo engraçado.
Por mais que gostasse de se sentir no pedestal de um homem, no momento sentia que Ronnie não era o certo para fazê-la feliz. Sendo médico, provavelmente, não teria tempo para passar noites em claro vendo filmes ou planejar um grandioso jantar. Ele era atraente, elegante e bastante bonito, não poderia negar, mas algo lhe dizia que não era para ser. Como uma intuição que batucava o fundo da cabeça, querendo dizer que outro amor estava aguardando muito em breve.
esfregou as mãos no rosto e balançou levemente a cabeça para espantar os pensamentos. Precisava da atenção em outros assuntos agora, os relacionamentos amorosos poderia deixar para mais tarde. Não tinha pressa de engatar em um namoro, ainda mais na situação deplorável que se encontrava. Enquanto estivesse sofrendo com a leucemia, não tinha tempo para ligações profundas com pessoa que prometiam lhe fazer feliz, sendo que no final sempre acabava sofrendo sozinha.
Naquele instante, seus olhos bateram contra as enormes palavras, em uma caligrafia de fonte Cambria, que tomava conta do final da página, logo abaixo da reportagem que comparava o aumento e a queda do dólar em curto espaço de tempo. Aquelas palavras em inglês fizeram a visão dela se iluminar. Era como se milhares de estrelas tivessem invadido o seu olhar, trazendo clareza e bastante alívio. “Vaga de Emprego Disponível”, definitivamente tudo o que precisava ler.
Imediatamente vasculhou entres os jornais em busca do celular. Achando primeiro a caneta vermelha para circular a oportunidade para caso pensasse ser uma alucinação. E após fazer uma tremenda bagunça pela mesa, foi que encontrou o telefone perdido entre as pilhas de folhas. Rapidamente o desbloqueou e apertou a área de discagem. Quando escutou o número chamando, seu coração vibrou junto com o som da ligação. Era até difícil de respirar devido ao tamanho de seu nervosismo.
Quando a voz surgiu do outro lado de linha, seu corpo paralisou e a língua pareceu dar um nó na garganta. Os pelos enrijecerem como se estivessem em situação de perigo. Mas tudo era apenas efeito de sua ansiedade.
Alô? — a voz feminina pronunciou. Ao fundo dava para escutar barulhos de carros e buzinas.
— Oi, aqui é... É a . — engoliu a saliva que enchia a boca. Respirou fundo para fazer sua voz sair mais firme e isolou todos os pensamentos para trás do muro. — Eu estou ligando para saber sobre a vaga de emprego. — olhou o jornal para certificar-se de que não era mero fruto da imaginação e se acalmou mais após ver o círculo vermelho.
Ah! Então é isso. — um silêncio se estabeleceu e conseguiu escutar vozes sussurrando.
Oi! Meu nome é Elena. Tudo bem? É um prazer, . — a linha foi passada para outra voz. — Tiffany me passou o telefone, dizendo que você está interessada na nossa vaga de emprego. — ela parecia mais alegre e simpática que a anterior.
— Isso. — apoiou o cotovelo do braço livre na mesa e esfregou o rosto em angústia. — Por favor, me diga que a vaga ainda está livre. — sua voz saiu baixa, quase um sussurro de imploração.
Tinha os dedos, indicador e do meio, cruzados em um sinal de boa sorte e esperança. Precisava muito de um emprego.
No momento, ainda não encontramos ninguém. Portanto, a vaga está mais que livre para você. escutou sentindo seu coração começar a acelerar, mas respirou fundo, era cedo demais para comemorar. — Se quiser, você pode fazer um teste amanhã a noite. Sem compromisso. — a voz do outro lado era fina e bastante suave. Pelo tom e a gravidade, conseguiu montar uma imagem fictícia de Elena. Morena de olhos castanhos.
tentou encontrar sua voz. Com a reposta de Elena, tinha perdido completamente a noção que tinha de dar uma resposta.
— Sim! — exaltou-se um pouco. Sorria grande, sentindo que finalmente as coisas começariam a dar certo. — Sim! Eu quero muito!
Elena cochichou com alguém antes de responder.
Maravilha! Então pode vir às oito horas. Estaremos te esperando. — ela parecia aliviada e feliz por ter encontrado alguém para trabalhar na lanchonete.
— Pode deixar! Muito obrigada! — agradeceu e a ligação foi encerrada.
Quando tirou o celular da orelha, se deixa dominar pela felicidade. Levantou os braços e os balança em comemoração. Solta alguns gritinhos e sorri como uma criança que ganhou o melhor brinquedo do mundo. Assim que se recupera do momento, apoia os cotovelos na mesa e ajeita os cabelos que se bagunçaram. Seus olhos encaravam e reliam as palavras que circulou. Sua boca não parava de alargar sorrisos, tamanho era o alívio dentro de si.
All Night, o nome. Uma lanchonete simples, humilde e lotada. Uma das poucas que ficava quase toda a noite aberta. Estourava até 3h da manhã. Sem turnos, os funcionários se revezavam. Trabalhavam em quatro para assim conseguirem lidar com o cansaço. Apesar disso, no final do mês todo o esforço era recompensado com o salário gordo, mais as gorjetas que os clientes insistiam em oferecer. E também, considerava os lanches os melhores da cidade, então que mal teria trabalhar ali?
Há muito tempo, pedia todas as noites de final de semana o lanche mais simples da All Night. Passava a madrugada acompanhada do hambúrguer, sem bacon, junto de um bom filme de romance. Sempre os mesmos: Querido John e Cartas para Julieta. Idolatrava os filmes da Amanda Seyfried, então em todas as oportunidades que tinha estava vendo os trabalhos impecáveis da atriz. Sofria junto com a personagem, principalmente com a Savannah aguardando seu grande amor, John.
Suas relações amorosas não existiam, então se iludia com os romances impecáveis.
estava feliz e era isso que importava. Nada mais poderia estragar o seu dia. E precisava contar para a novidade, tinha certeza que ele ia adorar ser o primeiro a saber. Charlotte também gostaria, mas a conhecendo, provavelmente, julgaria o fato de ser uma lanchonete.
“Oie.”, enviou para . Não conseguia conter o sorriso em seus lábios. “Posso te ligar?”, nem esperou a resposta, já discando o número dele.
Após alguns segundos chamando, ele atendeu. Sua voz parecia bastante cansada. Era óbvio após ter tido uma péssima noite mal dormida.
Oi, . — pelo visto estava completamente dominado pelo cansaço. Ele suspirou no final.
— Nossa, que voz é essa, ? Até parece que foi atropelado por um caminhão. — riu, ouvindo-o suspirar do outro lado.
Foi quase isso... — jurava que ele desarrumava os cabelos naquele exato momento. — Mas... Conta aí, porque tanta felicidade. — notou a euforia da irmã.
, você não vai acreditar no que eu consegui! — sorriu e mordeu os lábios para não sair atropelando as palavras.
Finalmente arrumou um marido rico, vai casar e sair do meu pé? — ela fez careta e o escutou rindo.
— Não! Está falando como se eu fosse a mamãe. — disse, não gostando de lembrar o que Amélia Tate fez no passado.
O que é então? — perguntou, escutando vozes ao fundo.
— Está ocupado aí? — quis saber, conseguindo escutar mais vozes.
É... Na verdade, não. É só os médicos fazendo o trabalho deles de sempre, só isso. — explicou rápido e notou que não era só isso. estava escondendo alguma coisa. — O que você ia me contar mesmo?
— Eu ia te contar que finalmente consegui um emprego! — anunciou com alegria, tentando ignorar os pensamentos duvidosos que insistiam em criar vida em sua mente.
Sério? Que massa, ! — ele estava feliz, não era fingimento. Apesar de não esconder que algo estava lhe incomodando. — Quando você começa? E onde que é?
— Lembra-se da All Night? Aquela lanchonete que eu pegava lanche sempre. — explicou e a animação dele morreu ao descobrir qual era o lugar.
Lembro sim. Mas... Aquela lanchonete fica no final da cidade, você sabe, né? — tinha um conceito por trás dos estabelecimentos que ficavam no final da cidade.
— Sei, . Mas pelo menos é um emprego. — o escutou suspirar. — Eu sei que não é o melhor lugar do mundo, mas é melhor do que não ter nada. — nisso ela estava certa.
... — ele suspirou de novo. — Você sabe que não é o melhor lugar. Até às onze da noite, tudo bem. Mas depois que vira madrugada a barra fica pesada. — as vozes ao fundo voltam e até as respondem. — Eu não quero tirar a sua felicidade, sei que estamos precisando. Só que... Não é o melhor lugar. — novamente as vozes os interrompem e ela conseguiu ouvir negando algo do outro lado da linha.
não conseguia mais esconder que estava curiosa para saber o que estava acontecendo com os médicos. Será que estava bem?
... — o escuta fugar e sabia que ele estava ouvindo. — , o que houve? — quis saber, ouvindo-o chorando. — ! — chamou, já bastante preocupada.
... — pausou para respirar fundo. — O piorou.
O coração de acelerou e seu corpo paralisou por completo. Aquelas três palavras eram tudo que menos precisava ouvir.
— O que aconteceu? — perguntou, já esquecendo o motivo de ter ligado.
Eu não sei... Ele acordou, logo depois que você foi embora. — começou a explicar e parou para ouvir o que o médico dizia.
— O que ele está dizendo? — sentiu que começava a suar frio.
Estão dizendo que terá que permanecer entubado até fazerem o transplante. apertou os olhos e mordeu os lábios para não chorar. — Ele começou a vomitar sangue e isso estava impedindo que o ar chegasse aos pulmões. — ela esfregou o nariz, já fungando.
A notícia tinha sido como enfiar uma estaca em seu peito, penetrando o coração lentamente. Não conseguia acreditar que em questões de algumas horas, o quadro de tenha dado aquela tremenda reviravolta.
— A gente precisa fazer logo esse transplante, ! — foi tudo o que conseguiu dizer.
Com que dinheiro, ?
— Eu não sei. Não sei! — deixou-se dominar pelas lágrimas. Com a mão livre limpou o rosto, já cansada de chorar todos os dias.
encarou o jornal, relendo as palavras dentro do enorme círculo. O emprego tinha que dar certo.
— Eu vou aceitar esse emprego, . — afirmou com firmeza na voz.
Tem certeza disso? — ele quis saber, não querendo concordar por causa do tipo de ambiente que a All Night era.
— Já corri perigos piores... Nada comparado com as noites que irei passar ali. — disse, se referindo ao passado. Se referindo a um segredo que levaria para o túmulo.
Do que está falando? nunca soube daquele segredo e se dependesse dela, nunca saberia.
... Esse emprego tem que dar certo. — cortou o assunto, conseguindo cessar o choro.
É necessário dar certo, . — ele corrigiu.
encerrou a ligação assim que disse que precisava descer para assinar alguns papéis na recepção. Ficar sem ouvir a voz dele fez a fisgada mais dolorosa atingir seu coração. Não conseguia parar de pensar nos pequenos olhos de , abertos e cansados, olhando para ela. Estava tudo bem de manhã, por que as coisas tinham que ser aquele jeito? Por que ele tinha que piorar? Eram perguntas que não tinha as respostas, por mais que procurasse. É como um enigma a ser decifrado, ninguém sabia o que dizia.
Naquele momento, com os cotovelos apoiados na mesa e as mãos fechadas contra a boca, foi quando entendeu o que o olhar de significava. Tinha sido uma despedida. O câncer estava piorando cada vez mais a cada dia e não tinha como melhorar sem fazer o transplante. Ele olhou fundo nos olhos de , como se dissesse que tudo ficaria bem. Não tinham como fazer o transplante, nem sabia mais da onde conseguiriam tanto dinheiro. parecia saber disso, por isso acordou e sem dizer uma só palavra se despediu da tia.
deixou-se cair em lágrimas, um choro sofrido e bastante ardente. Fungava tanto que lhe doía respirar. Pensou até, por um momento, que iria se sufocar. Não conseguia acreditar que estava partindo aos poucos. A qualquer momento ele nunca mais iria acordar. Ronnie estava certo em sua teoria sobre a melhora, na maioria das vezes não era o melhor a se esperar. A melhora repentina era um enigma que os médicos e especialistas não conseguiam decifrar, nem mesmo com a ajuda do melhor cientista do mundo. Era um sinal divino dando a chance da pessoa se despedir...
∆∆∆

Foi a pior noite que já passou em toda sua vida. Dormir com a incerteza na cabeça era a pior sensação que qualquer ser humano poderia ter. Não saber do amanhã; ter medo do amanhã; criar cenas pessimistas mesmo com a luz do abajur ligada. E não dava para evitar, até tentava ter o controle dos seus pensamentos, mas naquela hora era algo tremendamente impossível. Sua mente virou o lugar mais traiçoeiro do universo, a cada ilustração fictícia aumentava cada vez mais o choro e os soluços no quarto. O travesseiro nunca ficou tão encharcado.
Só conseguiu dormir quando realmente o sono lhe atingiu e os olhos chegaram ao limite, inchados demais para abrirem. Seu corpo implorou por descanso, assim como a mente.
— Você tem que parar de pensar nessas coisas. — Charlotte disse lavando as xícaras para tomar café. — Vai acabar se matando de tanto estresse.
— Eu sei... — suspirou, com as mãos segurando o queixo parecendo que a cabeça ia cair a qualquer momento.
— Não foi uma despedida. O melhorou, apenas isso. — Charlotte colocou as xícaras e a garrafa de café na mesa. — Pare de achar que vamos perdê-lo. Iremos conseguir o dinheiro do transplante.
— Não tenho tanta certeza disso. — disse desanimada, esfregando as mãos nas coxas cobertas pelo short do pijama.
. — a mulher pegou no queixo da irmã, obrigando-a a olhar em seu rosto. — Para de se crucificar. Isso não faz bem para ninguém, ainda mais para você que tem um teste hoje à noite.
— Eu sei, Charlotte... Eu sei. — falou com o tom de voz derrotado.
puxou o saco da padaria e retirou um pão quentinho de dentro.
— Seja otimista, . — pediu, colocando café nas duas xícaras.
— Não tem como ser otimista! — exaltou-se. Odiava quando Charlotte queria que agisse como ela. — Olha a situação que o está. Está piorando a cada dia e o transplante é a nossa única esperança! — praticamente gritou querendo que a irmã entendesse sua situação.
— Por isso você precisa focar no teste que fará na lanchonete e não, no . — disse como se fosse fácil.
rolou os olhos.
— Para falar a verdade, não estou tendo um bom pressentimento para essa noite. — revelou, sentindo um calafrio com suas próprias palavras.
Charlotte soltou o ar pela boca, deixando o pão e a faca de lado. Esticou os braços sobre a mesa e pegou nas mãos geladas de . Notou o nervosismo e a insegurança da irmã.
— Não seja boba. — começou, esfregando os dedos nas costas da mão da mulher a sua frente. — Tudo dará certo. Você só precisa acreditar que dará certo.
olhou para baixo, ainda sentindo o mau pressentimento.
— Eu vou tentar. — Charlotte não sentiu firmeza na voz dela, por isso a corrigiu.
— Você não tem que tentar, você tem que fazer dar certo. São coisas completamente diferentes. — disse conseguindo tirar um pequeno sorriso de .
Só que o sorriso da mulher durou pouco, assim que o celular começou a tocar e a vibrar ao seu lado, seus lábios se desfizeram como o pó que o ventou levou.
— Atende, é o . — Charlotte incentivou, recebendo o olhar preocupado da irmã.
engoliu em seco, sentindo seu estômago revirar.
— E se for algo que não esperamos?
Charlotte ergueu os ombros e tombou um pouco a cabeça para o lado.
— Nunca vamos saber se você não atender. — estava certa. O “não” elas já tinham.
então resolveu atender, com o coração entalado na garganta. Possivelmente passaria mal e iria para o hospital se fosse uma notícia ruim.
— Oi, . — se preparou, psicologicamente, para o pior.
Oi, ! — a alegria dele, ajudou-a se acalmar. — Você não vai acreditar no que aconteceu!
encarou Charlotte que fazia sinal de positivo com os dedos das duas mãos, assistindo a irmã assentir.
— O que aconteceu, ? Parece ser algo bom. — sorriu com a felicidade dele. Se concentrar em algo lhe faria tirar da cabeça o mau pressentimento que sentia.
Me chamaram para fazer um bico hoje à noite. Falaram que vão pagar bem por isso! — ela ficou sem palavras e começou a pesquisar algo pela mente para dizer.
— Eh... Que legal, ! — finalmente encontrou algo bom para dizer. — Mas, quem vai ficar com o ? — quis saber com as sobrancelhas arcadas.
Charlotte, é claro. — disse como se fosse óbvio e ela encarou a irmã que tomava seu café, olhando algo no celular.
— E... Já falou com ela sobre isso? — lançou um olhar impiedoso para a irmã.
Charlotte não entendeu nada, olhando o sorriso sapeca que escapava pelos lábios de .
Irei falar a hora que ela chegar. Daqui a pouco no caso. revelou.
— Eu só acho que ela não irá gostar nada disso. — brincou, segurando o riso.
— Vocês estão falando de mim, não é? Seus idiotas! — Charlotte protestou, deixando o celular de lado, fazendo os dois rirem. — Eu sou a irmã mais velha, por favor, mereço respeito.
— Charlotte, se eu fosse você, iria para o hospital agora mesmo. — disse fazendo-a arregalar os olhos. — É uma coisa bastante importante o que o tem a dizer para você.
Charlotte pega sua bolsa e se prepara para sair, querendo muito saber o que tinha para dizer. Por mais que não fosse gostar de ter que ficar no hospital durante a noite, quando usava do tempo para sair com Jonas. Portanto, para acabar com sua curiosidade, se adiantou em sair logo. Despediu-se de com um aceno breve e desejou “boa sorte” no teste da lanchonete, pedindo que depois contasse como tinha sido.
No instante que Charlotte fechou a porta, disse que precisava desligar para arrumar algumas coisas no quarto, pois os médicos iriam fazer uma avaliação mais profunda sobre o caso de . O modo como suspirou, revelou que não depositava muitas esperanças nos resultados, foi então que lembrou-se da possível “despedida” do sobrinho. Esfregou o rosto, bastante exausta dos seus próprios pensamentos, parecia que quanto mais pensava, mais a sua cabeça ficava pesada.
— Espera, . — pediu, lembrando que precisava dizer uma coisa importante. — Hoje não vou estar em casa à noite, então, você não se esqueça de levar o dinheiro do acerto da padaria e da pizzaria para o hospital. Pelo menos assim eles já começam a se organizar para realizar o transplante o mais rápido possível.
Quer dar uma garantia? Mas, , esse dinheiro é para quitar as dívidas do aluguel. — lembrou, fazendo-a assentir para si mesma.
— Eu sei... Depois daremos um jeito com o aluguel. O mais importante, agora, é o receber essa medula antes que seja tarde demais. — soltou o ar pela boca, sentindo-se sufocada.
Tudo bem, então. Eu levo hoje à noite, antes de ir fazer o bico. — assim que completou a frase, alguns médicos entraram no quarto e foi obrigado a desligar.
Ele nem sequer teve tempo de desejar “boa sorte”. Provavelmente os médicos estavam querendo realizar os exames e diagnósticos bem rápidos. Tinham esperança de que ainda tivesse tempo para a cirurgia, tempo o suficiente para aguentar mais duas noites, no máximo. Com o pouco do dinheiro em mãos, o hospital já entenderia que o desejo de e era seguir com o transplante, sendo assim já providenciariam tudo para fazê-lo o mais depressa possível. não tinha muito tempo para esperar.
suspirou, segurando o ar nas bochechas, soltando devagar. Estava angustiada para a chegada da noite. E parecia que quanto mais pensava, mais os arrepios subiam por seu corpo. Os pelos enrijecendo não era um bom sinal, e tinha medo do que ainda estava por vir. Talvez, fosse o medo do teste não dar certo, mas sentia que não era somente isso. Tinha algo a mais. Tentou sorrir diversas vezes, mas seu sorriso morria todas as vezes que os arrepios surgiam.
Com os braços cruzados sobre a mesa, olhou o nada, com os olhos perdidos. O que aconteceria ao anoitecer?
∆∆∆

A noite caiu mais rápido do que o esperado. Rapidamente a lua substituiu o sol e fez a escuridão dominar tudo ao redor. A temperatura diminuiu devido à falta de luz solar, mas nada que fosse preciso grandes casacos de pele para se esquentar. Era apenas uma leve brisa que arrepiava os pelinhos do braço.
não teve muito tempo para se preparar psicologicamente para o que, possivelmente, iria enfrentar. Bastou piscar e já estava ouvindo as ruas mais movimentadas e algumas corujas cantando nas árvores. Era incomum ouvir as aves, e como dizia sua vó, sempre que elas apareciam era sinal de algo muito ruim. E esse foi o estopim para deixá-la com mais medo e ansiedade do que o comum. Estava sendo uma grande batalha conciliar a respiração e os pensamentos, parecia que as técnicas para se acalmar tinham se tornado inúteis, tamanho era seu nervosismo.
Quando saiu do banheiro, cada passo deixava seu peito cada vez mais rígido e apertado. A respiração parava involuntariamente, só voltando quando o cérebro anunciava que precisava de oxigênio. Sobre a cama estava a roupa que separou mais cedo. Uma calça jeans azul clara, camiseta branca com uma frase de estampa e tênis causais pretos. Tinha sido a melhor escolha, nada chamativo. Não queria chamar a atenção justo em seu primeiro dia, pois, provavelmente, apenas o rosto novo já seria o suficiente para todos olharem.
"We live waiting for better days; days of peace; more days; days we will not leave behind.”, releu a frase na camiseta, conseguindo enxergar que se encaixava perfeitamente com sua vida. Contava os dias, esperando dias melhores, aqueles que nunca deixará para trás. O dia que finalmente sorriria e assistiria saindo do hospital, correndo, e a abraçando, dizendo: “Tia, eu venci o câncer!”. Esse seria o dia. E ela sentia, no fundo de sua alma, que estava mais próximo do que nunca.
Puxou a respiração em frente ao espelho, afastando o rímel para não borrar o rosto. Segurou o ar e contou 10 segundos na cabeça, sendo que o corpo implorava por oxigênio. Mas essa era uma das técnicas que mais dava certo. O fato de prender a respiração fazia com que o cérebro fosse obrigado a se acalmar e dissesse ao corpo que não precisava de tensão, porque tudo estava bem. Soltou devagar, sentindo os pulmões comemorarem, logo em seguida retornando para a maquiagem.
A maquiagem era o ponto que não poderia faltar quando estava preste a fazer algo bastante valioso. Despertava em a autoconfiança – também levantando a autoestima – sentindo-se mais segura para enfrentar os seus medos. Essa é a maneira que encontrava para conseguir realizar uma tarefa extremamente importante, sem os realces era como se não se sentisse boa o suficiente. Além disso, sua beleza se destacava e atraia olhares da multidão, principalmente dos homens, sabendo o que pensavam. Ela virava uma deusa, a filha de Afrodite, deixando assim as mulheres nervosas e inseguras perto de si.
Portando, assim que finalizou a maquiagem e soltou os cabelos sobre o ombro direito, olhou-se no espelho, sorrindo sozinha. Estava bonita, por mais que a escolha de roupa tivesse sido simples. Respirou fundo ainda se encarando, fechou os olhos para que o exercício tivesse mais resultado. Realizou a contagem mentalmente e em seguida liberou o ar. Repetiu os movimentos por três vezes até sentir que estava finalmente pronta. O coração estava mais calmo e a mente vazia, nenhum pensamento se atrevia a surgir e atravessar o muro de pedras que tinha sido construído.
encarou seus próprios olhos. “Nada irá estragar essa noite.”, disse para si mentalmente.
Arrumou o quarto o mais breve possível e saiu. Atravessou a pequena sala que ficava entre o corredor dos quartos e a cozinha, chegando sobre a mesa que estava sentada mais cedo com Charlotte. Pegou sua pequena bolsa preta e abriu, retirando o envelope, no perfeito estado que o Sr. Donavan tinha lhe entregado. Não tinha tirado nem um centavo dali de dentro, estava guardando para quitar o aluguel, porém o destino sempre soube a quem aquele dinheiro pertencia. Seus olhos deslizaram pela bagunça, encontrando a caneta que usou para circular a vaga na lanchonete. Não hesitou em escrever um bilhete para .
“O dinheiro está no envelope, não se esqueça de levar no hospital. .”, escreveu, deixando em cima do envelope, segurado por uma xícara de café. era desligado o suficiente para esquecer de levar ao hospital, por isso revolveu deixar a mensagem como precaução.
Novamente respirou fundo, sentindo seu coração acelerar apenas por lembrar que iria sair pela porta. Não tinha certeza se conseguiria se controlar a noite toda, mas sabia que quando chegasse na lanchonete e fosse conversar com Elena sobre seus serviços, tudo se acalmaria como penas tocando o chão. Todos aqueles sintomas tinham nome: histeria. Seu medo maior era de não dar certo e esse pensamento tornava os próximos passos mais difíceis, por isso o corpo estava agitado, causando sufocações involuntárias. estava prestes a ter um ataque de pânico, algo que não seria nada bom para seu primeiro dia.
Sem escolhas, resolve encarar de vez a realidade. Como Charlotte sempre dizia: “Você nunca saberá se dará certo, se não tentar.”. E seria com essa frase de incentivo que enfrentaria todo e qualquer minuto daquela noite. Não poderia acontecer nada de ruim, era só um teste e se caso não gostasse, não era obrigada a ficar. Também não estava sozinha, com certeza teria outros funcionários trabalhando lá e todos tiveram que passar pela insegurança do primeiro dia. Então não tinha o que temer, todos estavam no mesmo barco. só precisava manter seus medos trancados até o final de noite.
E em hipótese alguma pensar em , caso contrário, se o teste for ruim, se sentiria na obrigação de ficar e encarar situações que poderiam prejudicar seu emocional. Trabalhar em um local estressante, que lhe deixaria doente aos poucos, não era nem de longe a melhor escolha.
Decide parar de enrolar e sair pela porta da cozinha. Passa a chave na fechadura, deixando-a embaixo do tapete para quando chegasse. Os primeiros passos foram tranquilos, ajeitou a bolsa no ombro, enquanto colocava o celular dentro, não parando sua caminhada. Conforme andava, distraia-se com os prédios e casas ao redor. Avistou famílias reunidas e até crianças brincando na rua. Animais domésticos passeavam e iam fazer suas necessidades no lixo dos vizinhos. sorria sempre que encontrava um cachorro, parando alguns segundos para afagá-lo. Se tinha uma coisa que amava mais do que si mesma, eram animais.
Não demorou muito para chegar ao centro da cidade, encontrando muitos carros e estabelecimentos abertos. As pessoas passeavam, com amigos ou em casais, sorrindo e aproveitando os momentos que a noite proporcionava. sorria para as pessoas que a olhavam com olhares curiosos. Conseguia identificar alguns rostos conhecidos, parando para conversar por alguns minutos, não enrolando muito já que faltava longos quarteirões até o final da cidade. Sua sorte era que bastava apenas seguir a avenida principal para chegar até a All Night.
começou a se desesperar quando passou a ver o final da avenida. Já não havendo tanta movimentação como no centro de Kansas. Imediatamente inicia seu método infalível para se acalmar: falar consigo mesma. “Está tudo bem”; “se acalme tudo dará certo”; “é só um teste”. As poucas pessoas que encontrava a olhavam com semblantes duvidosos e até riam. Isso só deixava-a mais acuada, sentindo-se pequena como uma formiga. Esse era o problema do ser humano, caçoavam ao invés de ajudar. Ansiosos sofriam ao serem considerados loucos pelo simples fato de o acharem um doido conversando sozinho.
Ninguém queria saber o verdadeiro motivo por trás de tanto nervosismo.
tentava ignorar os olhares ao redor, pois somente ela sabia como se acalmar. E só ela sabia o que estava passando para estar ali.
Naquele instante começa a pensar que o emprego precisava dar certo, ainda mais agora que havia pedido para levar o dinheiro para iniciarem os procedimentos dos transplantes. A partir do momento que o envelope chegasse nas mãos dos recepcionistas, era o começo da dívida. Desde então iriam pagar, aos poucos, a quantia necessária para salvar . E somente o pouco que ganharia da lanchonete, já seria o suficiente para juntar com o de e irem até o final. Seria uma batalha extremamente difícil, mas faria de tudo para ver com saúde e correndo como as outras crianças.
arregalou o sorriso ao imaginar sorrindo, nem reparando que tinha virado à esquerda, lhe colocando a uma quadra da lanchonete. Do ponto que estava conseguia ver o movimento do lugar. Lotado, como imaginava. Seu coração sobe para a boca ao ver as pessoas nas mesas, obrigando suas pernas a pararem para conseguir se estabilizar, não poderia deixar que o nervoso lhe atingisse naquele momento. Repete a respiração até sentir que finalmente conseguiria se aproximar.
“Você nunca saberá se dará certo, se não tentar.”, foi com as palavras de Charlotte que tomou coragem para seguir em frente.
Começou a se aproximar do lugar, já escutando a música que colocavam para descontrair os clientes. Era um toque eletrônico, mas não muito agressivo. Se assemelhando bastante com as batidas de Martin Garrix e Alok. reconheceu a que tocava, se chamava Without You do Avicii. Notou que não seria tão difícil suportar a noite já que eletrônica era o seu gênero musical favorito, perdendo apenas para o Pop. Em seu passado, durante várias noites, escutava aquele tipo de som, então passou a gostar e a escutar, pois lhe faziam mergulhar nos melhores momentos de sua vida. Momentos esses que são o seu maior segredo.
Quando chegou mais perto do trailer é que reparou o quão humilde e simples era. Nada comparado com outros estabelecimentos como Starbucks e McDonald's. A All Night estava mais para as lanchonetes do interior de São Paulo, em trailer de ruas com músicas e o sabor maravilhoso, famosos Food Truck. Desde a última vez que esteve ali, muitos detalhes mudaram. O logo agora era um lanche enorme com um emoji amarelo o segurando com dentes famintos por uma mordida; a pintura tinha sido renovada e agora tomava conta um preto hipnotizante e brilhante, com as mesas e cadeiras de mesma cor para combinar; e o trailer tinha sido trocado, estava bem maior que o anterior.
Não só reparou nisso, como também que a maior parte do público era composta por homens. E eles não hesitaram em analisar cada pedaço do corpo dela, com olhares nojentos que pareciam nunca ter visto uma bela mulher antes. se sentiu acuada de novo e tentou afastar os pensamentos da mente, ignorando todos os olhares ao redor. Tentativa quase inútil.
Ao passar o olhar rapidamente pelo lugar, consegue avistar uma garçonete se aproximando do trailer e decide ir ao seu encontro, fazendo o primeiro contato.
— Oi, boa noite. — começou, atraindo a atenção da mulher.
Ele tinha os cabelos pretos e vestia um uniforme bastante pequeno para seu corpo. Mascava chiclete e o rosto estava escondido por uma camada bem grossa de maquiagem.
— Boa noite. Em que posso ser útil? — perguntou, mascando o chiclete com a boca aberta. se segurou para não revirar os olhos e mandá-la mastigar com a boca fechada
— Eu sou a . Vim para o teste. — a mulher sorriu e quando ia abrir a boca para falar, outra a interrompeu.
— Vai atender a mesa, Tiffany. Eu cuido dela. — essa era morena, com os cabelos lisos e pele branca.
A outra saiu, analisando dos pés a cabeça e lhe lançou o dedo do meio. Tate franziu o cenho com a atitude de Tiffany.
— Não liga para ela. Tiffany é assim com todas as novatas. — a morena disse, enquanto escrevia algo no bloquinho de notas e entregava para a outra mulher dentro do trailer. — Sou a Elena, a que falou com você no telefone.
— Muito prazer. — sorriu, sentindo-se aliviada por encontrá-la.
— Vem comigo que vou explicar como você fará as coisas por aqui. — Elena foi direto ao ponto, colocando o bloquinho e a caneta no bolso da blusa.
Elena guiou até atrás o trailer, onde abriu um pequeno compartimento e retirou a camiseta vermelha do uniforme, pegando mais um bloquinho e uma caneta. Estendeu para Tate que segurou, olhando a outra fechar o compartimento com o cadeado.
— É bem simples aqui. — começou, voltando para frente do trailer. — A gente vai fazendo testes. Você pode ser garçonete ou trabalhar na cozinha. — gesticulava enquanto falava. — Estarei aqui para o que precisar. Eu e a Bruce iremos te ajudar. — indicou a mulher dentro do trailer que acenou e sorriu, devolveu o aceno.
— Então irei atender as mesas, né? — quis confirmar.
— Isso, pode começar por aquela, a seis. — indicou a mesa onde quatro homens estavam sentados.
sentiu um arrepio enquanto se aproximava da mesa. Aqueles homens não pareciam amigáveis e tinham cara de velhos tarados por moças mais jovens. Deixou o calafrio dominar a espinha, assim que parou em frente. Respirou fundo antes de falar:
— Boa noite. Posso anotar o pedido de vocês? — perguntou educadamente, com seu tom de voz mais doce.
— NÃO! — protestaram juntos e começaram a falar ao mesmo tempo, deixando-a confusa.
— Preferimos que a Tiffany pegue nossos pedidos, ela é mais gostosa do que você. — o mais gordo foi direto e , em seguida, assistiu Tiffany chegar e se sentar no colo dele. Todos sorriam com a garota que fumava um cigarro e vestia um short preto que deixava sua bunda quase toda a mostra.
revirou os olhos e foi para a mesa do lado que estavam com as mãos levantadas. Era um casal com dois filhos pequenos que ficavam com os sachês de ketchups e maioneses. Não pareciam tão ruins.
— Boa noite. Posso anotar o de vocês? — sorriu e a mulher lhe sorriu de volta.
— Claro que sim, querida. — ela disse e se sentiu mais aliviada. Dava para perceber que eram uma família aproveitando a noite juntos. — Vou querer o número 2 e 5 para as crianças, e para mim... — olhou o cardápio em busca do pedido. — Pode ser o número 10, sem mostarda e cebola.
— Ok. E o senhor? — direcionou para o homem de cabelos grisalhos que ainda olhava o cardápio.
No momento que ele ia abrir a boca para fazer seu pedido, sentiu uma mão bem grande bater contra suas nádegas, impulsando o corpo para frente, derrubando o bloquinho e a caneta. Foi depositada tanta força que teve de se apoiar da mesa do casal para não cair. Os quatro pés da mesa se movimentaram para frente, causando a queda da garrafa de refrigerante, as crianças choraram ao ver os sachês ensopados de guaraná.
ficou eufórica com as risadas dos quatro homens e de Tiffany que os acompanhava. Ela franziu o cenho e seus olhos ficaram carregados de raiva. Seu corpo agiu por impulso, não conseguia controlar os próprios movimentos, completamente movidos pela fúria. Endireitou o corpo e mirou o homem que havia lhe batido – o mesmo que lhe rejeitou –, não poupou esforços de ir até ele e acertar o soco mais forte que já tinha dado em alguém. O punho entrou em choque contra a lateral do rosto, arrancando um gemido sofrido, fazendo todos da lanchonete pararam para ver a cena. O golpe calou os outros três na hora, paralisados ao notarem que tinham mexido com a garota errada.
— Não precisa de tanta violência, boneca. — o golpeado disse, esfregando a mão no local atingido. — Isso foi apenas para você se soltar mais... — gemeu de dor após dizer.
— Eu não preciso agir como uma vadia para me misturar com gente da sua lábia. Uma que tipos como você me dão nojo! — ditou com raiva, os olhos transbordando de fúria. — Você nem me conhece, nem sabe o meu nome, para fazer um desrespeito como esse!
No instante seguinte, toda a lanchonete começou a gritar em indignação, protestando por causa do golpe e as palavras determinadas dela. As mulheres ficaram em silêncio, olhando assustadas as atitudes dos homens em um ato bastante machista. , pela primeira vez, não se importou com o que as pessoas achavam, havia sido um tremendo desrespeito o que aquele homem fez e os outros apoiarem a atitude era o ato mais nojento e horrível que já vira.
Logo, Elena apareceu e puxou dali pelo braço, escutando os homens comemorarem por tirá-la de lá. Elas caminham em silêncio até atrás do trailer para terem mais privacidade para conversar.
, o que foi aquilo? — quis saber com os olhos arregalados.
— Você viu o que aquele cara fez! — disse ainda um pouco eufórica.
Elena suspirou e cruzou os braços.
... — passou as mãos no rosto. — É assim que as coisas funcionam por aqui. Se quiser ser garçonete na All Night tem que estar ciente que precisa se soltar mais e agradar aos clientes. — ficou surpresa e com mais nojo ainda. Como uma mulher seria capaz de se rebaixar àquilo?
— Eu não sou garota de programa, Elena! — falou na lata, sem perder a postura. — Eu estou aqui para ajudar o meu sobrinho que precisa de um transplante de medula urgente. Então não estou aqui para deixar aqueles idiotas me tratarem como se eu fosse um objeto. — Elena ficou calada, enquanto jogou as costas no trailer, respirando fundo com os olhos fechados. Estava muito alterada por isso precisava se acalmar.
Por um momento, Tate não sabia dizer se falar de adiantaria de alguma coisa, mas pelo silêncio que se estalou entre elas, provavelmente a revelação causou choque em Elena.
— Acho que é melhor você ajudar a Bruce na cozinha. — sugeriu após um longo silêncio, tirando o avental e entregando para ela.
Elena caminhou para frente do trailer e pegou um bloquinho e a caneta, já indo em direção das mesas com seu melhor sorriso no rosto e simpatia. Já , respirou fundo mais algumas vezes antes de passar o avental pelo pescoço e amarrar atrás das costas. Lentamente, querendo sair correndo após todo o ocorrido, chegou ao lado das escadas do trailer e encarou a porta. Suspirou antes de subir os dois degraus e empurrar as cortinas de plástico que lhe revelaram Bruce estudando alguns pedidos.
Seria melhor na cozinha, do que no meio dos clientes.
A morena, de cabelos negros como a noite, olhava atentamente alguns pedidos que estavam pendurados na parede do trailer, ao lado da chapa que fritava os hambúrgueres e bacons. Ela lançou um rápido olhar para e abriu um enorme sorriso, antes de colocar dois pratos de lanches acompanhados de fritas, iguais ao do Burguer King, sobre a janela. Bateu a campainha de mesa para que Tiffany ou Elena fossem pegar.
— Oi, . Pode ficar a vontade, eu não mordo. — riu, puxando alguns papéis da parede e jogando no lixo embaixo da mesa cheia de utensílios com molho.
venceu o espaço que tinha entre elas e observou cada detalhe do trailer durante o caminho. Bastante apertado para quem via pela primeira vez. Sua atenção é atraída quando escuta algumas risadas e vê Tiffany deixando um homem barbudo e gordo repousar a mão em sua cintura.
— Todos os dias são assim. — Bruce quebrou o silêncio, arrumando a mesa para colocar os pratos limpos para mais uma remessa de lanches. — Eu só estou esperando a oportunidade perfeita para cair fora. — revelou, com uma faca na mão, cortando os pães de hambúrgueres.
fica calada, admirando e analisando a destreza que Bruce tinha para montar os lanches. Primeiro, o pão, depois a salada, o hambúrguer, os molhos e para finalizar colocava um enorme palito no meio para que não caísse quando as garçonetes fossem manobrar o prato. Percebeu que ela fritava os acompanhamentos ao mesmo tempo em que realizava a montagem. Rápida, delicada e precisa. Após ter uma breve visão de como fazer os procedimentos, Bruce sugere que tente fazer um dos pedidos, sozinha.
— Por que está aqui, se está claro que não gosta de trabalhar aqui? — questiona, conforme cortava o pão com delicadeza para ficar reto.
Ouviu um alvoroço do lado de fora, atraindo a atenção das duas. Eram os homens protestando porque Elena não os deixava encostaram em sua cintura, afastando sempre a mão sem dizer uma palavra. se sentiu incomodada ao vê-la sorrindo amarelo, percebendo que no fundo ela não estava gostando de estar ali no meio de pessoas tão nojentas. A cena era revoltante.
— Só estou aqui, porque tenho dois filhos que preciso sustentar. — Bruce apoiou os braços na mesa, parecendo pensar nos filhos. — Também uma casa cheia de aluguéis atrasados para pagar. — se identificou, enquanto colocava a alface e o tomate. — E você, por que está aqui?
suspira antes de começar.
— Meu sobrinho sofre de leucemia linfóide aguda e está muito mal. — seu coração deu uma pontada ao lembrar-se de . — Ele precisa fazer um transplante de medula o mais rápido possível. Além disso, tenho várias dívidas para pagar, incluindo o aluguel. — esperou Bruce colocar o hambúrguer para prosseguir. — Eu e meu irmão estamos ao ponto de perder a casa. — revelou tentando afastar as preocupações da cabeça.
— Nossa, eu sinto muito. — Bruce disse com as sobrancelhas caídas, pegando mais pedidos que Elena trouxera.
riu de lado.
— Meu irmão até estava pensando em participar de corridas de ruas ilegais para conseguir dinheiro. — negou com a cabeça, mantendo o sorriso nos lábios. — Isso é de longe uma péssima ideia.
concluiu o lanche e segurou o pão com firmeza para Bruce espetar com o palito.
Bruce sorriu sem os dentes.
— Nesses momentos vale tudo. — pegou o prato e colocou na janela, tocando a campainha. — Podemos fazer assim? Eu frito os bacons e os hambúrgueres e você, monta? — concordou com a cabeça.
No momento que Bruce puxa o papel do pedido que tinha acabado de montar. Um homem gorducho com uma barba enorme, bastante nojenta, e careca, começar a socar e bater na parede de fora do trailer.
sente medo, ficando travado no lugar.
— Por que as duas não calam a boca e trabalhem logo? Estou com fome. — protestou e Bruce colocou uma mão na cintura.
— Vai à merda, Frank! — gritou e permaneceu em silêncio apenas observando. — Se você quer rapidez, vá pedir a sua mãe!
Bruce e Frank começaram a discutir, com direito a ofensas, enquanto saiu do meio deles, sem tentar ser notada, e começou a fingir arrumar os objetos no trailer.“Em que merda eu fui me enfiar?”, era o pensamento que passava por sua mente conforme ouvia as palavras duras atrás de si. O único problema era que não tinha a resposta para a própria pergunta. Não conseguia se conformar que teria de trabalhar ali, as pessoas eram asquerosas e não tinham respeito pelas mulheres. Quando ligou para o número do jornal, não imaginou que a All Night tinha virado um lugar tão nojento e desrespeitoso.
Realmente valia a pena trabalhar no meio de pessoas como aquelas por causa de ?
— O seu irmão está certo, . — Bruce chutou o pé da mesa, fazendo os frascos de molho caírem no chão e sujarem a toalha. — Correr pelas ruas é, sem dúvidas, mil vezes melhor do que trabalhar aqui! — agachou-se para pegar os frascos, bufando a todo o momento.
ficou calada, em dúvida entre falar algo ou ficar calada. E graças ao silêncio, sua mente começou a criar. Nas palavras de Bruce, parecia ter um tom de conhecimento, como se já tivesse frequentado as corridas. A maneira como falou tinha certo arrependimento na voz, deixando ao entendimento que em um passado algo tinha acontecido, algo que a repulsava.
— Você fala como se já tivesse corrido. — arriscou-se em dizer.
Bruce abriu um grande sorriso, não mudando a expressão amarrada. Virou a cabeça na direção de Tate para responder.
— Eu corria. Até ser expulsa da equipe. — endireitou o corpo, organizando os pratos para montar mais pedidos. Pelos movimentos agressivos, ela tinha um passado conturbado com as corridas.
ficou em silêncio, ajudando-a a montar os pratos. Ambas não disseram uma palavra após a revelação e Tate não sabia ser deveria ou não perguntar sobre a história de Bruce, pois lhe pareceu ser um assunto extremamente pessoal. E por mais que quisesse muito saber o motivo da expulsão, preferiu ficar calada. Lembrava-se do mecanismo das corridas, sendo os membros como uma família, então para serem expulsos deveriam cometer um erro gravíssimo e bastante crucial para a equipe chegar a tal consenso.
Elena se aproxima do trailer, trazendo mais dois pedidos, que Bruce se encarrega de colar na parede, numerando-os com a caneta de ponta grossa vermelha. Nesse instante, presta atenção do lado de fora. Os clientes estavam quietos, sem mais euforias. No meio estava Tiffany sentada no colo de um deles, bastante familiarizada, tomando o drinque que possivelmente pagaram para ela. Foi notando o sorriso sem vergonha da mulher, que Tate notou que aquele lugar não era para ela, não se enquadrava no meio das outras mulheres e nunca iria permitir que os homens lhe tocassem de maneira tão indevidamente.
Conseguiu chegar a sua decisão sobre o teste.
— Você quer ouvir sobre as corridas e o porquê fui expulsa? — Bruce perguntou, fazendo tomar um leve susto, saindo de suas reflexões.
Tate riu para disfarçar o pequeno susto.
— Bom... Irei ficar aqui a noite inteira mesmo. — brincou.
Antes de começar, Bruce apertou a campainha e entregou uma bandeja com oito lanches para Elena. Somente naquele momento que notou que pensava e montava os pedidos sem prestar atenção. Torceu para estarem todos certos. Engoliu em seco ao pensar na probabilidade de estarem errados.
— Bom... Os rachas se dividiam em equipes ou grupos. A minha era como uma família, fazíamos tudo juntos, menos dividir os lucros. — começou e Tate prestava atenção, ao mesmo tempo em que limpava alguns pratos. — As pessoas chegavam, apostavam e tinham a chance de correr em um dos carros dos líderes. Depois, se fizessem uma boa corrida, eram convocadas para a equipe. — ela suspira, parecendo se lembrar de algo que não gostava. — O meu líder se chamava Sharapova. — Bruce limpa as mãos com o guardanapo. — Aquele delinquente.
Estava nítido que Bruce e tinham um passado bastante controverso. A expressão no rosto dela não escondia seus sentimentos. Possivelmente sua expulsão tinha alguma relação com o líder.
Sharapova? — arcou uma sobrancelha, se lembrando do rosto do rapaz na televisão. — É o mesmo mafioso rebelde que está saindo nos tabloides? — quis confirmar.
Bruce assentiu.
— O próprio. — Tate ficou surpresa, até o momento não sabia que ele também estava envolvido com as corridas. — Ele está saindo nos tabloides mais pelo tráfico, do que pelos rachas. — explicou, entregando dois pratos nas mãos de Elena.
A morena não perdeu a oportunidade de escutar a conversa.
— Estão falando do ? — Elena se intrometeu, entregando mais dois pedidos para . — Olha... Ele pode ser o maior cretino, mas também é um baita gostoso! — Bruce revirou os olhos, observando-a levar os lanches com as mãos equilibradas.
Tiffany encosta-se ao trailer com mais pedidos, agora mascando outro chiclete. Sua maquiagem estava um pouco borrada, provavelmente, resultado de algum cliente.
— O é o rei das ruas. — de repente ela se vira para as mesas e grita: — Quem é Sharapova?
— O REI DAS RUAS! — todos gritaram em um coral.
deixa escapar um “uau” pela boca, ficando intrigada com a fama do mafioso, também sentindo que deveria sair correndo dali. Os funcionários e clientes conheciam , então, havia grande probabilidade dele frequentar a lanchonete após as corridas. estava certo, aquele lugar era perigoso e não era lugar para ela. Naquele momento só conseguia pensar em uma coisa: em que merda estava se enfiando?
— O vem na lanchonete todas as noites com a gangue de corredores. — mira a pessoa que respondeu seus pensamentos. Tinha sido Elena, já de volta.
A morena pegou os pedidos que estavam prontos e entregou mais para Bruce. não conseguia dizer nada, estava literalmente travada, apenas escutando.
— Droga! Se ele vir essa noite, eu juro que saio do expediente mais cedo. — Bruce disse fazendo careta.
Até o momento Tate não entendia porque Bruce odiava tanto .
— Você o conhece ? — Elena disparou pegando-a de surpresa, enrolando para levar os pedidos para as mesas.
— Não! — respondeu como se estivesse dizendo algo errado. — Bom... Na verdade só o conheço dos noticiários. — corrigiu sua postura.
— Então você irá se encantar com o rostinho bonito dele. — Elena sorriu sem vergonha, finalmente levando os lanches.
riu de lado em deboche, ajudando Bruce com os pedidos que haviam aumentado.
— Nunca que eu iria me encantar por gente da lábia dele. — disse em negação.
— É a melhor coisa que você faz, . O é tão misterioso que chega a ser assustador. — Bruce revirou os olhos e fazia as coisas com bastante raiva.
percebeu que Bruce estava bastante incomodada com o assunto.
— Não liga para ela, . A Bruce só acha isso porque o pediu para ela ser esposa dele por 1 ano ou até pegar a herança da família. — Elena retornou, parecendo que levava os lanches correndo apenas para participar da conversa. — E esse foi o motivo dela ter sido expulsa.
Tate arregalou os olhos, virando o rosto para encarar Bruce. Imaginou algo menos grave, como um roubo ou discussões com os colegas da equipe, mas nunca uma proposta recusada de casamento.
Bruce suspira e concorda que merecia uma explicação.
sempre quis uma esposa para pegar a herança da família. O problema é que o pai dele não aceita nenhuma como farsa, porque nenhuma delas é puramente russa.
Elena se debruça sobre a janela do trailer.
— Talvez, agora, ele tenha mudado. Principalmente depois que o pai dele vendeu a cabeça da esposa para a máfia rival americana. — a naturalidade que ela falava, parecia que contava uma história infantil.
— Nossa, que doideira. — Tate pegou uma garrafinha de água no freezer e bebeu. — Como que isso aconteceu? — perguntou tentando encontrar refúgio na conversa para passar o tempo.
— O sempre foi o filhinho da mamãe, e com isso no caminho, provavelmente, ele pegaria toda a herança porque a mãe dele lhe daria tudo de “mão beijada” e não, por mérito. — Bruce explicou, percebendo que as duas estavam atentas. — Ao contrário do pai dele que quer vê-lo ralando ao máximo por cada pedacinho da herança.
— Agora está à procura de uma mulher que tenha sangue totalmente americano para vingar o que houve com a mãe dele. — Elena cortou, resumindo a história toda.
engoliu em seco, sentindo um calafrio na espinha. Ela tinha sangue puramente americano.
— Ainda bem que somos mestiças de americanos com espanhóis! — Bruce e Elena comemoraram juntas.
E ali, olhando e analisando todos os detalhes da noite, foi que concluiu, sem sobras de dúvidas, que nunca iria trabalhar ali. Era uma loucura.
— Vai trabalhar, Elena! — Bruce mandou, rindo. — Não se preocupe, , o nunca dará a mínima para você. Ele só se interessa por garotas que correm — revelou e Tate não se mostrou surpresa, pensando que aquele seria um bom motivo para manter seu segredo trancado.
A conversa finalmente foi encerrada, graças aos clientes que começaram a reclamar da demora, pois tinham se esquecido de fazer os pedidos. E durante todo o tempo que passaram caladas dentro do trailer, foi tempo o suficiente para agradecer por ter brigado com para não entrar para o mundo das corridas. A barra tinha se tornado mais pesada do que imaginava. Os mafiosos comandavam e isso deixava as corridas de ruas com mais sinônimos de perigo.
Não conseguia imaginar o que faria se se metesse com a gangue de . O mafioso estava sendo procurado pelo território americano inteiro e ninguém conseguia capturá-lo. Além de perigoso, era bastante esperto. Depois da história sobre o sangue puramente americano, seria melhor que ficasse bem longe, ninguém tinha certeza do que um mafioso seria capaz por vingança. Apesar dos americanos cidadãos não terem culpa do ocorrido entre as máfias, mesmo assim era melhor não arriscar.
De repente, Bruce e tiveram seus olhos atraídos pelos movimentos do lado de fora. Os clientes se levantaram para saudar os carros que roncavam famintos por asfalto. Os veículos pararam na frente da lanchonete, todos bastante luxuosos e atraentes, alguns carregando enormes arranhões como consequências das corridas. Emparelhados, os olhos de Tate brilharam, era esplendidamente apaixonada por carros esportivos, mas seu encanto acabou quando soube de quem era a silhueta que descia da Ferrari vermelha.
— Agora você vai conhecer o de perto. — Bruce revelou.
estremeceu e sentiu o arrepio subindo até sua espinha quando focou o olhar no rapaz engomadinho, que arrumava o terno, tirando o óculo escuro para revelar seus olhos belos, atraentes e cheios de mistérios. Imediatamente recebe os penetrantes poços em si, como imãs que se atraíram. Novamente sente os arrepios percorrendo cada extensão de seu corpo. Os olhos de eram completamente diferentes daqueles que mostravam na televisão, pessoalmente carregavam o ar mais tenebroso.
— Que estranho... O que será que aconteceu com o Koenigsegg CCXR Edition? É o xodó dele. — Bruce comentou, comendo um pedaço de bacon. — Estranho que até a noite anterior ele estava com o carro. — deu de ombros, voltando a fritar os hambúrgueres.
Foi quando o celular de vibrou várias vezes dentro da bolsa que estava em uma pequena prateleira perto da porta. Não hesitou antes de ver do que se tratava, tendo já em mente algo de ruim que possa ter acontecido com . Respirou fundo, criando coragem para ver. Assim que usou a digital para desbloquear a tela, abriu a mensagem de , arcando a sobrancelha ao ver que era uma foto e um áudio.
Sentindo um mau pressentimento, seus dedos começaram a tremer, decidindo apertar o play.
! Nossos problemas acabaram! Ai caralho, você não vai acreditar no que aconteceu! A vida do está a salvo!”.
Tate não entendeu o áudio, resolvendo carregar a imagem. Se pudesse não teria feito aquilo... Levou a mão na boca para impedir que soltasse um tremendo palavrão. Seu coração disparou a uma velocidade irreconhecível e todo o seu autocontrole foi para o ralo. Ficou sem ar. Na foto, sorria com um carro preto bastante bonito logo atrás dele.
— Caramba... Que merda, ! — disse para si mesma.
O carro era justamente o Koenigsegg CCXR Edition de Sharapova.

Capítulo 5 — A Merda Toda

(...) Três horas antes...


caminhava pelas ruas desertas, perdido em seus próprios pensamentos. Afrontosos e pessimistas. Não sabia mais o que esperar do futuro. De repente a pequena melhora de , acabou se tornando em um quadro de vida ou morte. Era como andar numa corda bamba, onde sem equilíbrio poderia cair e tornar o belo espetáculo em uma apresentação horrível e vergonhosa.
E não sabia mais o que pensar...
Ele, que insistia tanto para ser otimista, agora não conseguia mais pensar em nada, a não ser perder o filho para a leucemia. Tudo ficou cada vez mais difícil assim que saiu do hospital. O sentimento de saber que não estaria lá caso acordasse e quisesse vê-lo uma última vez estava lhe consumindo. Cada passo tornava a caminhada uma tortura. Mais um passo, significava mais alguns centímetros que ficava longe do filho.
Soltou o ar pela boca, puxando pelo nariz. Parecia que seus pulmões estavam travados e recusavam qualquer entrada de oxigênio. Não conseguia respirar. A garganta travava sempre que tentava e era preciso bocejar para o ar entrar. Os olhos lacrimejavam de cansaço e por querer desmoronar, mas precisava ser forte e dizer para si o mesmo dilema de sempre. Tudo ficará bem.
Estava cansado de pensar e não ver nada acontecendo. Naquela tarde, realmente pensou que acordaria e sairia do hospital em breve. Tinha acreditado fielmente que tudo ficaria bem. Mas quando viu todo aquele sangue e o sufoco que o filho tinha para respirar foi a gota d'água. Os médicos lhe puxando para fora e fazendo uma roda em torno da cama do garoto...
A imagem de , com sangue escorrendo pela boca, os olhos amedrontados e implorando para que a dor parasse, insistia em ficar na memória. A todo o minuto era torturante a maneira que a mente dava replay na cena. Era como um disco arranhado, travado dentro do display.
O pior foi olhar tudo do lado de fora, por um pequeno vidro na porta, forçar a maçaneta e nada acontecer. O desespero tomando conta, disparando socos na madeira, e apenas assistir era algo muito angustiante. Saber que suas mãos não eram capazes de tirar o sofrimento, tomar para si a dor e os medos. Queria muito abraçar e arrancar todos os sentimentos ruins, tudo o que o machucava. Um pai poderia suportar o sofrimento pelos filhos.
faria de tudo para não ver sofrer. Trocaria até de lugar se pudesse.
Envolto em seus pensamentos, somente percebeu que estava na frente de sua casa quando levantou a cabeça e viu as paredes tão familiares. Nem tinha percebido para onde estava andando, deixando as pernas traçarem o caminho no automático. Precisava parar de deixar sua mente lhe atordoar daquela maneira, não era a vida que queria e em questões de dias ficaria paranoico, além de adquirir uma tremenda depressão.
Pegou a chave de debaixo do tapete e destrancou a porta. Ao entrar, ligou a luz do lado da bancada da pia, iluminando a cozinha. Já pairando os olhos no envelope em cima da mesa com uma mensagem escrita, embaixo de uma xícara.
Fechou os olhos e suspirou, havia se esquecido completamente que tinha pedido para levar o dinheiro no hospital, para iniciarem os procedimentos do transplante. Aquele dinheiro seria a garantia para a melhora de . A última reserva que tinham estava dentro de um amassado e amarelo envelope. Ainda fresco pela assinatura do Sr. Donavan. O adesivo que prendia a abertura não tinha sido rasgado e nem mesmo descolado, o valor da quantia estava pincelado por uma tinta azul do lado de trás. Não havia motivos para desconfianças, por isso que nem tinha se dado ao trabalho de conferir as cédulas.
retirou o bilhete, lendo as palavras desenhadas pela delicada caligrafia da irmã. Como sempre sendo bastante calculista e cuidadosa para nada dar errado. Ela sabia perfeitamente que ele esqueceria.
Sorriu sozinho, pegando o envelope e já indo em direção da porta. Não estava com pressa para chegar ao hospital, aliás, o bico que faria naquela noite havia sido cancelado por causa do atraso dos caminhões na estrada – devido à fiscalização dos federais em busca de drogas ilícitas –, sendo previsto o carregamento só para dali dois dias, então tinha o resto das horas livre para fazer o que quisesse. Tudo, menos se deixar dominar pelo pessimismo.
Após conferir a porta e guardar a chave para não correr o risco de algum bandido entrar na casa, começou a caminhar. Resolveu mudar o trajeto, optando por cortar entre as ruas afastadas do centro, os famosos becos escuros. Ainda era cedo, então não corria risco de vida. Pelo menos de vida, não, mas de ter um colapso mental, sim. Se ficasse andando pela escuridão por muito tempo, logo não aguentaria tanto silêncio e deixaria os medos lhe consumirem como abelhas atacando o inimigo ao invadirem a colmeia em busca do mel.
Caminhando com as mãos do bolso, segurando o envelope para se certificar de que estava com ele, começou a desviar os pensamentos para . Como estava sendo seu primeiro dia? Será que ela estava gostando? Por algum momento pensou em desistir e voltar para casa, triste, por não obter sucesso? Tinha feito amizades? O lugar era tão desagradável como pensava? Quais seriam as primeiras palavras que ela iria dizer? Foi bom? Ruim? Irei ficar?
Torcia para o emprego na lanchonete dar certo. Por mais que fosse contra saber que iria trabalhar em um lugar tão porco com a All Night, no fundo estava torcendo por ela. Tinha sido a escolha dela e assim, somente ela saberia dizer se é o lugar perfeito ou não. almejava que a irmã não gostasse e procurasse por outro, pois conhecia a qualidade das pessoas que pediam lanches ali. Nunca se perdoaria ao saber que teria sofrido algum constrangimento por parte dos clientes, talvez, até fosse atrás do desgraçado e quebrasse a sua cara.
Mas por um lado, era a garantia que precisavam para saber que estaria caminhando para o caminho da salvação. Com o dinheiro entrando, os dois poderiam dormir tranquilos. Só que a atitude não orgulhava um dos lados da balança. sentia-se completamente egoísta por não conseguir sair de perto do filho para arrumar um bom emprego. Além de medo, também sentia culpa por ver querendo ajudar em seu lugar, ela não tinha obrigação de fazer nada, mas sempre dava um jeito. Seu espírito bondoso nunca deixaria uma criança sem amparo.
era um anjo em formato de gente.
Ao parar para olhar os dois lados da rua, antes de atravessar, puxou o ar e soltou com prudência pela boca. Pairou os olhos no poste do outro lado, percebendo o quanto estava bastante distraído e travando uma guerra dentro de si. Naquele momento o pior lugar para estar era dentro de seu corpo, um lugar cheio de feridas, que era disputado friamente pela força do coração contra a mente. A batalha era insana. Nenhum dos lados queria ceder a derrota. O pessimismo contra o otimismo.
Dois pesos cruciais para equilibrar a balança.
Por ora, o lado pessimista estava ganhando. O medo de chegar às portas do hospital e ouvir, friamente, os médicos e enfermeiros dizerem que entrou em fase terminal, era calculado, na medida certa, para causar pânico. Algo improvável. Cheio de dúvidas, não conseguia se desviar e por isso a caminhada havia se tornado algo torturante e deprimente. O medo era capaz de fazer a pessoa mais centrada do mundo a vacilar. Então, quem era para tentar lutar contra algo que não tinha o controle?
O ser humano é feito de falhas e nenhum consegue ser tão sensato ao ponto de não fraquejar na última hora. Com nunca foi diferente.
“Pensamento positivo. Pense positivo. Tudo dará certo.”, eram as palavras que entre intervalos contínuos, em que a língua molhava os lábios secos, buscavam trazer algum conforto. Alguma segurança que levasse a dar o próximo passo, sem receio do que irá encontrar.
E essa segurança, enfim chegou...
Sua atenção foi completamente atraída quando os altos barulhos do som de motores invadiram seus tímpanos. Roncos estridentes e gritos enlouquecedores, aceleraram o seu coração. Os batimentos cardíacos foram à loucura. Era possível sentir o órgão batendo incansavelmente contra o peito, tentando buscar o caminho pela garganta para pular em direção dos esportivos. As luzes coloridas – vermelhas e azuis – giravam no ar para atrair mais atenção.
sentiu arrepios por todo o corpo. Os pelos de seus braços se enrijeceram com força. A cada buzinada dos carros subia mais um calafrio por sua espinha. Era como voltar no passado e ver os flashes de memórias como realidade. Tudo era real. Conseguia sentir a textura dos bancos dos esportivos envolvendo seu corpo com bastante conforto; as mãos alisando o volante, se preparando para a corrida; o som do motor roncando com força e cheio de vontade para correr.
Respirou profundamente, tentando acalmar seu coração e cair na verdadeira realidade. Não era de corridas clandestinas que precisava e sim, caminhar mais alguns quarteirões para chegar ao hospital e entregar o dinheiro. Mas, mesmo se esforçando muito para bloquear as lembranças, não conseguia parar de relembrar como era boa a sensação de sentir o vento no rosto e ganhar as corridas. Ele sabia que aquele cenário poderia ser a solução para todos os problemas de e .
Retirou o envelope do bolso e o encarou. Quem iria saber? não ficaria furiosa depois de ver que o dinheiro dobrou de valor. já conseguia ver os olhos lacrimejados da irmã, cheios de emoções e alívio, indo abraçá-lo com um sorriso maior que o universo no rosto. Então, por que não tentar a sorte? Que mal faria em ir contra as regras, se no final tudo daria certo?
Obrigou as pernas a seguirem em sentido contrário do que deveria. No fundo do subconsciente, sabia perfeitamente que seria uma péssima ideia, mas o desejo e o vício falaram mais alto. Não conseguia parar de pensar em sentir de novo a mesma sensação de dirigir um esportivo. Sentar em frente ao volante e ouvir os gritos eufóricos ao redor. Naquele momento, só conseguia pensar em uma única coisa: vencer a corrida.
Enfiou-se em meio à multidão, tentando chegar mais perto para comtemplar os carros que saiam para a luta. Seria um Honda Civic Si, vermelho, de para-choque preto e vidros escuros, contra um Ford Mustang Fastback preto, de lataria brilhosa, provavelmente encerada há poucos dias. Era nítido o carro vencedor, mas a corrida poderia ter uma grande reviravolta caso seus respectivos motoristas soubessem manobrar suas grandes obras de arte. Essa era a essência, saber qual venceria e apostar, correndo o risco de no final ter uma surpresa ao ver o modelo mais fraco roubar a cena da vitória.
estava fascinado. Eram muitas pessoas aglomeradas em um só lugar. Várias mulheres se misturavam com os corredores. Os carros atraiam mulheres que levavam a vida para entreter os homens, afim de no final da corrida ganharem dinheiro extra por seus serviços noturnos. Mas também, tinham aquelas que estavam ali para glorificar e competir com os homens. As duronas e mais corajosas, conseguiam deixar qualquer competidor de queixo caído. Atualmente, as mulheres conquistaram seus lugares nas corridas, algo que antes era visto com bastante preconceito e agora, elas conseguiam subestimar a plateia.
Uma mulher, vestida com um short preto e camiseta vermelha apertada, andou até o meio da pista, ficando na frente dos dois carros que já tinham seus motores roncando. As pessoas ao redor pulavam e gritavam em euforia. Ao fundo da multidão, perto de um improvisado estacionamento, estavam quatro figuras masculinas, trajando treino e smokings luxuosos. Eles observavam ao longe a largada dos seus preciosos esportivos. Provavelmente aqueles seriam os líderes das esquipes de corredores e donos dos carros.
A plateia contou para dar a largada. Ao gritarem o número três, a mulher ergueu o lança confete que estava em suas mãos e o estourou, explodindo papéis prateados por todos os lados. Os corredores entenderam o aviso e não hesitaram ao acelerar os veículos e arrancarem com agressividade. Logo de início o Honda Civic Si empurrou o Ford Mustang Fastback para o lado, na tentativa de sair na frente, conseguindo tempo de tomar uma grande distância do concorrente. E esse era o único problema das corridas: não havia regras; sendo assim o famoso vale tudo para vencer. Por isso as maiorias das brigas eram pelos prejuízos causados nos carros, não havia limites, podendo até correr o risco de perda total do esportivo.
sorriu com o agito da torcida. Sentia-se bem pela primeira vez há muito tempo, como se ainda fosse o mesmo adolescente de dezoito anos, sem responsabilidades e sem limites. Os problemas desapareceram e era como se as preocupações com tivessem sumido em uma fração de segundos. Nada mais existia, a não ser aqueles veículos e a multidão. Os gritos e o agito. Não tinha como negar, estava se sentindo em casa. Ansioso como antes para entrar em um dos esportivos e acelerar até a linha de chegada, sentir a adrenalina por todo o corpo, arrepiando seus pelos.
Caminhou pela multidão, escutando murmúrios para quem seria o vencedor, todos apostavam no Honda Civic Si, apenas por sua largada ter sido triunfal. Os apostadores gritavam, chamando as pessoas para fazerem suas apostas, sendo esses representantes de cada equipe. sentia os dedos coçando para fazer sua aposta, mas pelo menos nesse requisito a consciência conseguia falar mais alto, o pouco de dinheiro que guardou não poderia sair daquele envelope, o máximo que poderia acontecer era duplicar o valor.
Parou de andar assim que chegou no estacionamento improvisado, recheado de carros esportivos aguardando para sentir a velocidade penetrando seus motores. Várias pessoas estavam estudando os veículos e fechando corridas com seus donos. ficou boquiaberto com todos os modelos, conseguindo dizer o nome de todos eles. Estava se sentindo dentro do próprio filme Velozes e Furiosos, só faltava encontrar com Dominic Toretto e Brian O’Conner. Para um viciado em corridas, aquele era o cenário mais deslumbrante do local.
Aproximou-se de um veículo branco, brilhante como a neve, de vidros claros, cheios de detalhes delicados e magníficos. O Mercedes-Benz SLS AMG. As portas se abriam para cima e isso lhe dava um charme que cativava os olhos; a tintura chamava a atenção de todos que passavam. Na opinião de , era o carro mais bonito entre todos que estavam ali. Passou a mão sobre o capô, sentindo a textura lisa, sem nenhum arranhão.
De repente, sua atenção foi tomada quando a plateia correu para saudar os dois veículos que chegavam. Inesperadamente o Ford Mustang Fastback passou pela multidão e estacionou completamente intacto, apenas com alguns arranhões na lataria. Logo atrás apareceu o Honda Civic Si com o para-choque caído, sendo arrastado pelo asfalto, além de um grande amassado na porta do motorista, diversos arranhões e o vidro central completamente quebrado em milhões de pedaços. As pessoas o vaiaram, correndo para saudar o corredor do vencedor.
sorriu com a cena. Era épico ver o carro que tanto estavam apostando aparecer completamente destruído.
Uma figura masculina, vestida com um smoking caríssimo, alto, com bastante perfil de rico, se aproximou do Ford Mustang Fastback. O homem retirou o óculo escuro do rosto e parabenizou o corredor, lhe entregando dois bolinhos de dinheiro das apostas. Logo em seguida ele entrou no carro e o tirou do meio da multidão para a próxima corrida acontecer. Enquanto isso, várias mulheres bajulavam o vencedor.
assistiu o esportivo ser estacionado ao lado do Mercedes-Benz, conseguindo ver de perto o rosto de seu dono. Olhos misteriosos, barbar por fazer e corpo musculoso. O homem desceu do veículo, ficando debruçado no teto, enquanto acompanhava o carro perdedor entrar no estacionamento e indo para sua vaga.
— Você me paga, Sharapova! — gritou o homem gordo, velho e baixinho que desceu do carro.
— Você não sabe perder, Lionel. A hora que souber, venha me procurar para uma revanche. — gritou de volta, fechando a porta do veículo.
Lionel chutou o pneu do Honda Civic Si, xingando alto. Estava completamente eufórico e frustrado pelo fracasso. Provavelmente teria gastado muito para deixar o carro impecável para ser o vencedor. Além da frustração, a decepção por escutar os gritos de vitória se tornarem em vaias, lhe custou muito dinheiro. recebeu toda a grana que haviam apostado no esportivo perdedor. Somente a quantia das apostas já eram o suficiente para comprar dois Ford Mustang Fastback.
— Você é novato por aqui. — estremeceu quando ouviu a voz máscula e grossa atrás de si. — Eu saberia dizer se já tivesse o visto por aqui. — disse enquanto frisava a atenção em seu pulso direto, mexendo nos botões decorativos da manga do smoking.
virou-se de frente para ele.
— Já tinha ouvido falar nas corridas, mas ainda não tive o prazer de participar de uma. — respondeu, assistindo , discretamente, incomodado com o smoking que usava.
Desabotoou os botões da frente, parecendo se sentir aliviado.
— Estava de olho no meu esportivo, pelo que reparei. — andou até , indicando o carro branco. — Mercedes-Benz SLS AMG... — negou com a cabeça, sorrindo cínico. não entendeu. — Péssima escolha.
encostou-se ao capô do carro e novamente mexeu nos botões decorativos perto do pulso. Seus olhos estudavam os carros e as pessoas ao redor. conseguia perceber o modo como ele analisava, em silêncio, destemido como uma águia. Calculista.
— Sugiro meu Koenigsegg CCXR Edition, ou, como costumo chamar, o corcel negro das noites. — indicou o veículo preto estacionado na horizontal, pegando lugar de dois carros estacionarem.
encarou o veículo e ficou boquiaberto. Era um belíssimo esportivo, o mais bonito entre todos, ganhava do Mercedes-Benz em um estralar de dedos. Sua tintura negra brilhava com a mesma intensidade da noite. Os detalhes em vermelho-sangue nos retrovisores, para-choque, portas e parte traseira, pareciam ter sido escolhidos para carregarem o peso dos detalhes. O vermelho dava o toque de imbatível, enquanto o preto carregava todo o luxo e o encanto. Era o carro divergente.
— Esse não é só um carro, é o foguete mais poderoso de todos. — exibiu, caminhando para perto do inabalável esportivo. — Está olhando para o carro com o motor de 1018cv de potência que faz de 0 a 100 km/h em 2.9 segundos. — em outras palavras era o carro mais veloz de todos que estavam ali.
destravou o alarme. Ao abrir, assistiu a curvatura de 180º mais perfeita do mundo. O lado do motorista foi revelado após a porta se erguer, curvando delicadamente para frente. O interior era perfeito. Recheado de vermelho, os bancos eram revestidos de couro caríssimo; com a central de comandos cheia de detalhes robustos em uma cor prateada bastante atrativa; tendo o painel do volante recoberto de pontos minuciosamente selecionados para deixar qualquer pessoa boquiaberta.
Uma máquina magnífica.
— Ele é perfeito. Mas... Não posso pagar pelo aluguel. — estava diante do carro mais caro da corrida inteira, era nítido que o dinheiro de não era nada perto do que almejava.
ri, ficando frente a frente com .
— Com essa máquina... Hã... — indicou o rapaz, querendo saber seu nome.
.
— Bom, ... Como estava dizendo, como essa máquina você não precisa oferecer muito. — indicou a plateia que enlouquecia com mais uma corrida se iniciando. — As apostas serão todas nele e é certeza absoluta que a vitória é minha. Ninguém consegue subestimar os meus esportivos. — gabou-se. Naquele momento, compreendeu que estava lidando com o dono dos carros mais desejados e luxuosos do racha.
então se deixou levar, estava completamente doido para dirigir a máquina mais veloz. Há tempos não sentava dentro de um carro tão potente como aquele. Sua mão escorregou para dentro do bolso, pegando o envelope com o dinheiro de . A vitória já estava mais que definida, então era certeza que duplicaria o valor.
— Isso é tudo que tenho. — estendeu o envelope, nem percebendo que havia entregado o bilhete de junto.
sorriu malicioso, aceitando o envelope.
— É todo seu. — indicou o veículo, abrindo caminho para adentrar.
Quando sentou no banco do motorista e puxou o cinto de segurança, sentiu-se nas nuvens com tanta tecnologia e luxo o rodeando. abaixou a porta e a travou. Aproveitou para se debruçar no vidro, falando para tudo que precisava saber para manobrar o esportivo. Deu instruções valiosas, dizendo que nas corridas não havia imites, então se pudesse fazer o adversário capotar com o carro, seria uma belíssima maneira de ter a corrida ganha. Tate escutava tudo com atenção, com os olhos brilhando parecendo ter voltando na época dos dezoito anos, no exato momento que estava prestes a pilotar o primeiro carro do racha.
não poderia decepcionar .
— Só não mata o meu esportivo favorito. — Sharapova pediu. — E mais uma coisa, : vença essa corrida, senão, será a última da sua vida. — ameaçou com os olhos tonificados de escuridão, estava mais que nítido que não era nem de longe a melhor pessoa para confiar. Mas Tate estava fascinado demais para perceber. — Se vencer, poderá entrar para a minha equipe. Você tem cara de ser um ótimo corredor, então não terei problemas. — conseguia conquistar os corredores com suas lábias, no fundo já esperava que não conseguisse dar conta do recado.
segurou firme no volante com as duas mãos, sentindo seu coração acelerar os batimentos cardíacos. Puxou o ar e soltou pela boca diversas vezes, na esperança de se manter calmo, precisava muito vencer, então tinha que estar com a cabeça fresca e bastante concentrada. Fechou os olhos, tentando espantar as imagens de e da mente, o dinheiro do hospital estava entregue para , então não tinha mais alternativas a não ser vencer e duplicar o valor. Estava com o melhor esportivo em mãos, não tinha nenhum outro a altura para lhe vencer, a vitória o aguardava, mas para isso tinha de ter a mente completamente focada na pista.
Cautelosamente, controlando os batimentos do coração, girou o volante e fez o carro andar até a pista onde seria anunciada a largada. As pessoas, ao verem o Koenigsegg CCXR Edition desfilar, foram à loucura, gritando o nome de e o nomeando de o “rei das ruas”. No entanto, quando o Toyota Supra prateado – idêntico ao de Velozes e Furiosos, exceto pela cor – chegou para ocupar seu lugar do lado veículo imbatível, a plateia o vaia e gritam para sair dali.
sorriu, sentindo a força da multidão, todos apostavam nele. Já conseguia ver a bolada de dinheiro que as pessoas estavam dando. Provavelmente, ganharia bastantes dólares por aquele carro.
Quando a mulher se dirigiu ao meio da pista para dar a largada, os carros se preparam. Já com a mão preparada no câmbio e o pé colado no acelerador. deixou o som do motor roncando enlouquecer mais ainda os espectadores. Encarou a moça que se exibia e aproveitou o tempo para aumentar o volume do rádio, deixando a música We'll Be Coming Back — Calvin Harris ft. Example, tocar e lhe atingir os tímpanos. A música perfeita para uma corrida.
Ao início da música, mais dois carros encostaram. Um Mercedes-Benz SLS AMG, negro como a noite; e uma Ferrari, vermelha como a lua de sangue. engoliu em seco, começando a sentir suas mãos tremendo.
— Abre a tela. — ergueu o olhar para fora da janela e encontrou com parado ao lado do carro. — Está logo acima do rádio. — indicou.
Tate o fez, tentando conter a tremedeira. Bastou pressionar com os dedos a área retangular, que uma pequena tela, semelhante à de GPS saiu do interior do painel. Todas as informações sobre o veículo foram expostas na parte lateral da tela.
“Olá, corredores.”, a voz feminina emitiu. “Por favor, aguarde a rota ser processada. Enquanto isso certifique de que seus veículos estão em ótimas condições para a corrida.”, encarou e analisou a imagem da rota que teria de fazer. Seria no meio da avenida principal mais movimentada.
— Os comandos são mandados pela central da corrida. Essa é a última da noite que rende muitos milhões. — explicou. — Não falhe e siga a rota. — disse rispidamente antes de dar dois tapinhas no ombro de .
“Corredores orientem-se pela rota vermelha.”. encarou o painel que mostrava o percurso brilhando pela cor vermelha. “Contagem regressiva para a largada.”.
respirou fundo, segurando firme no volante. Não tinha como perder, bastava apenas ser um bom piloto.
“10... 9...8...”.
Pisava e tirava o pé do acelerador, fazendo o motor roncar. Ao mesmo tempo em que encarava os outros corredores. Todos aceleravam seus esportivos.
“7...6...5...”.
— Você está frito novato! — o motorista da Ferrari gritou. — Minha belezinha aqui vai te deixar no chinelo! — gargalhou junto com os outros.
A provocação continuou, mas mordeu os lábios e ignorou. Focando sua atenção na rota exibida junto com a contagem.
“4...3...2...”.
— É o que vamos ver. — disse para si mesmo, preparando o câmbio para a largada.
“1. Que vença o melhor!”.
(SOLTA A MÚSICA)
E então largaram, cantando pneus e levando a multidão ao delírio. Como esperado a Ferrari saiu em disparada na frente, bloqueando os outros durante o caminho estreito. O Mercedes-Benz colado em sua traseira, fez os outros corredores não terem chance para lhes alcançar. Seria uma corrida recheada de brutalidade.
“Sigam em frente até a Avenida Principal.”.
encarou o painel, pisando fundo no acelerador. Manobrou o volante para a esquerda e pisou com mais força, retirando rapidamente para trocar a marcha. O carro começou a ganhar velocidade, passando rapidamente o Toyota Supra e ganhando bastante vantagem durante a ultrapassagem. Tate sorriu largo e malicioso, jogando o Koenigsegg CCXR Edition para o lado, acertando o outro veículo e lhe tirando da estrada, fazendo-o bater a traseira em um muro de construção, arrancando suas luzes traseiras e fazendo-o girar diversas vezes no mesmo lugar.
Sorriu largo, acelerando mais o carro e mudando as marchas para alcançar os outros dois.
“Vire a direita, há 500 metros.”.
Segurou firme no volante, mantendo a completa atenção da estrada. Ao ver a curva, manobrou rapidamente o volante, não se preocupando em diminuir a velocidade. Os pneus cantaram ao levarem de encontro com a avenida principal. Os carros buzinaram e foram obrigados a saírem de suas rotas, deixando o esportivo dominar as pistas. Novamente manobrou o veículo, deixando a traseira bater contra o farol de um carro cheio de pessoas, não se deixou abalar, continuando o percurso.
Encarou o espelho retrovisor central, deixando mais um sorriso se formar em seus lábios ao ver o tumulto de carros sendo deixado para trás. Era essa adrenalina que sentia tanta falta.
Seguiu na avenida, causando estragos ao ultrapassar os carros. Após ficar preso entre dois caminhões, encarou rapidamente o painel, encontrando os dois carros sendo sinalizados há alguns metros de distância. Trincou os dentes, jogando o carro para o lado, ao fazer isso precisou ser rápido. Tinha acabado de entrar na contramão. Rapidamente, sentindo o coração na garganta, manobrou fazendo o veículo girar, sendo rápido em engatar a marcha de ré e acelerar, segurando com uma mão no encosto do banco do passageiro, enquanto olhava atentamente a estrada movimentada pelo vidro traseiro. Com sua esplêndida coordenação motora, jogava o carro para a esquerda e para a direita com talento.
“Siga em frente e faça o retorno há 1.300 metros.”.
— CALA A BOCA, PORRA! — gritou mantendo a atenção na estrada.
Ao longo do difícil percurso, quando calculou a distância dos carros precisamente, girou o volante com agilidade, obrigando o carro a girar e retornar para a pista correta. Invadiu a estrada, empurrando dois carros durante o caminho, causando uma enorme paralisação. Encarou novamente o retrovisor central e continuou o percurso, trocando as marchas ao ultrapassar os carros que buzinavam incansavelmente.
“Faltam 20 minutos para chegar ao seu destino.”.
encarou o percurso novamente, localizando o Mercedes-Benz a dois carros de distância, à sua direita.
— Fim da linha para você! — bradou entre os dentes.
Manobrou, jogando brutalmente para o lado. Os dois carros de passeio foram empurrado fortemente um contra o outro. continuou empurrando, até o segundo atingir o Mercedes-Benz. Imediatamente o corredor encarou o esportivo negro, xingando ao vê-lo.
sorriu.
Decidido, distanciou um pouco o carro e com todo força, girou o volante para o lado, fazendo o primeiro carro de passeio perder o controle e ser mandado para frente, deixando-se ficar atravessado na frente do segundo. Os carros se chocaram, causando um tremendo capotamento dos veículos por cima do Mercedes-Benz, não lhe restando escapatória, a não ser jogar-se para o lado. Mas foi uma péssima escolha quando notou que colidiria com um enorme caminhão cargueiro, fazendo o veículo ser engolido e a carreta ficar atravessada na pista, dando passagem livre para os carros colidirem, causando em poucos segundo uma enorme explosão.
olhou o painel, agora só faltava a Ferrari.
“Faltam 10 minutos para chegar ao seu destino.”.
Mordeu os lábios, pisando fundo no acelerador, aproveitando que a pista estava completamente vazia de carros devido à paralisação com o caminhão. Passou os olhos rapidamente pela tela do trajeto, conseguindo localizar a Ferrari logo à frente, virando na próxima curva sem o painel pedir. Provavelmente iria cortar caminho para chegar mais rápido. precisava descobrir quais seriam as coordenadas que a Ferrari estava seguindo.
“Você tem uma nova chamada.”, arcou a sobrancelha, enquanto tentava pensar em uma maneira de alcançar a Ferrari.
? É o . — a voz máscula emitiu do painel. — Escuta. — disse precisão. — Pega a contramão da ponte. Está vendo o viaduto?
Tate ergueu o olhar, encontrando a enorme travessia que atravessava a avenida principal inteira.
— Não vai dar tempo de pegar...
ARREMESSA ESSE CARRO NA CONTRAMÃO! gritou já eufórico.
então o fez, trocou a marcha e se arriscou no meio dos carros. Tendo o coração batendo em seus ouvidos, girava o volante de um lado para o outro rapidamente, se desviando dos veículos que buzinavam e xingavam, alguns perdendo o controle e ficando atravessados no meio da pista. Acelerou para pegar a curvatura que lhe levaria até o viaduto, sentindo o carro raspando nas laterais da curva estreita. Torceu para não estar mais na linha para escutar.
“Faça o retorno há 1.000 metros.”, ignorou.
Atravessou o viaduto como um foguete, tão rápido que quando foi para descer a rampa, o carro saltou e foi de encontro com o chão brutalmente, lhe causando sérios prejuízos no para-choque. Reduziu a marcha ao adentrar as ruas estreitas cheias de curvas.
“Recalculando rota.”, naquela altura da corrida, ninguém mais obedecia aos comandos no painel.
virou em uma curva para a direita, lhe trazendo para uma rua de sentido reto que lhe levaria direto até a corrida. Sorriu já sentindo a vitória em suas mãos, só não contava com um único problema: a Ferrari aparecendo do meio dos prédios, arremessando diversos pedaços de madeira e causando alvoroço nos donos comerciantes.
Engoliu em seco, vendo o carro pisar fundo no acelerador, sendo manobrado bastante desnorteado. fez o mesmo, exigindo uma força absurda do motor que roncou alto e emitiu sinais de queima no painel do volante. Trocou as marchas rapidamente, não tirando o pé do acelerador por nada. Conseguiu alcançar a Ferrari em questões de segundos. O Koenigsegg CCXR Edition era simplesmente invencível.
Os conversíveis ficaram emparelhados, com suas frentes disputando fortemente quem estava na frente. Uma batalha oscilante.
No momento que estava para engatar a última marcha e largar na frente, foi surpreendido pelo enorme empurrão da Ferrari que lhe fez quase ir de encontro com um poste de rua. Mas com isso, um pedaço do assento do passageiro se locomoveu, atraindo sua atenção. Com a mão direta, puxou o que parecia a tampa de um compartimento e encontrou com imensos cilindros de nitros. Os famosos aceleradores potentes de motores. São os líquidos de altíssima pressão que quando acionados penetram o motor, lhe acionando um percentual muito grande de velocidade.
pensou rápido, assistindo a Ferrari, logo a sua frente, fazer uso dos nitros para ganhar vantagem. Arcou as sobrancelhas, girando o registro do cilindro, chegando à conclusão que já estava aberto, provavelmente tinha se encarregado dessa função. Encarou a tela, mostrando que faltava apenas uma curva e já estaria envolvido pela multidão, decidindo que era a melhor hora para liberar os nitros. Pisou fundo no acelerador, engatando a última marcha, vendo os ponteiros do painel chegarem ao seu limite.
Semicerrou os olhos e apertou os dois botões minúsculos que ficavam centralizados abaixo no volante, escondidos para serem usados apenas em momentos cruciais como aquele. Seu corpo foi jogado contra o banco com brutalidade. O carro saiu em disparada, se igualando a um foguete, não conseguia mais sentir o controle do volante, parecia que as rodas não lhe obedeciam. O painel de trajetos começou a piscar uma luz vermelha, emitindo o enorme aviso escrito: “DANGER!!!”. Ultrapassou a Ferrari sem esforços, deixando-o respirar o cheiro da derrota. Não exista mais chances de inverter os resultados.
O Koenigsegg CCXR Edition fez a curva final, tendo seu motor normalizado ao final do cilindro de nitro. A multidão foi à loucura, começando a correr atrás do carro lhe saudando. soltou um alívio, comemorando e gritando conforme pisava o pé no freio. Assim que o esportivo parou, abriu a porta para descer do carro e foi recebido pelas pessoas que gritavam o nome dele e de . Era nítido que não passava de um corredor e que o “rei das ruas” levaria todo o crédito.
Enquanto comemorava com as pessoas e o motorista da Ferrari ia parabenizá-lo pela incrível corrida. assistia de longe, junto com mais dois homens vestidos de smoking preto. Escondido atrás do óculo escuro mirava com destreza, estudando todas as suas feições de felicidade. Nunca tinha o visto antes nas corridas, então como era possível correr tão bem?
Sorriu largo, erguendo o pedaço de papel que tinha ficado em sua mão todo aquele tempo. “O dinheiro está no envelope, não se esqueça de levar no hospital. .”. As poucas palavras já eram o suficiente para dizerem muito sobre . leu e releu o recado durante toda a corrida, conseguindo descobrir algumas informações sobre o corredor. Ele tinha dívidas altíssimas com o hospital local. Dívidas que e sua gangue conseguiram descobrir ser de vários remédios, internações e transplantes de medula óssea. O paciente se chamava Tate, consequentemente assim descobrindo o sobrenome de . Além disso, encontrou o endereço de sua residência onde morava com a irmã de nome Tate, a assinante do bilhete.
Sharapova amassou o bilhete nas mãos, tendo os olhos atraídos para o notebook que seu braço direito, Vadim, segurava com vários dados sobre o Koenigsegg CCXR Edition. Com o monitoramento, conseguiram rastrear o veículo por todo o percurso. Os tópicos mostravam resultados positivos, conseguiu ter um brilhante desempenho, exceto pela reta final que o cilindro de nitro foi ativado, causando sérios problemas no motor. O percentual de gás injetado foi alto demais, mas somente o valor das apostas já eram o suficiente para acabar com o problema.
O mais importante de toda a tabela, era que Tate tinha tido um desempenho tão bom ao ponto de conseguir ter potencial para ser recrutado a equipe de campeões de .
— O garoto tem talento, senhor. — Vadim disse, mudando a tabela para a ficha de . — O único problema dele são essas dívidas. Não se pode ser considerado uma pessoa de confiança.
sorriu malicioso.
Eu não sou de confiança, Vadim. — tirou o óculo, colocando no colarinho do smoking.
Arrumou o paletó e as mangas, resolvendo dar um ponto final na corrida. Devido ao acidente causado com o caminhão cargueiro, logo os agentes federais sairiam em busca do esportivo negro capturado pelas câmeras de segurança da avenida principal. Caminhou em meio à multidão, guardando o bilhete amassado dentro do bolso do paletó. Teve de ser rápido, não queria correr o risco de ter que trocar tiros com a polícia como da última vez. Rolou os olhos diversas vezes durante o trajeto quando algumas mulheres entravam em seu caminho com propostas indecentes, péssima hora. estava no pior momento para definir negócios com as prostitutas.
— Fez uma ótima corrida, ! — gritou, assistindo as pessoas abrirem caminho para ele. Ninguém ousava entrar em seu caminho, tinha o respeito por todos.
Caminhou com as mãos nos bolsos, com um sorriso irônico nos lábios. O desgraçado sabia fingir simpatia muito bem.
— Tem certeza de que é novato nisso? — questionou, tendo em mente o objetivo de arrancar mais informações de .
— Eu já corri há muito tempo. — revelou não conseguindo conter o sorriso de felicidade.
ergueu as sobrancelhas, guardando as palavras no fundo de sua mente.
— Bom... Aqui está a sua vitória. — retirou o envelope, que havia lhe entregado, acrescentando mais um bolinho grosso de dólares dentro dele. — Essa é a sua porcentagem nas apostas e um bônus extra por ter feito uma corrida impecável com esse esportivo. — estendeu o envelope.
— Obrigado, . — agradeceu, não hesitando em pegar.
Tate abriu o envelope e conferiu a quantia, enquanto passou por ele e foi conferir os prejuízos do esportivo. Sorriu aliviado, já imaginando aliviada por finalmente conseguirem quitar toda a dívida do aluguel. Além de entregar uma pequena porcentagem para o hospital. No final das contas não seria o suficiente, mas já dava para pagar muitas coisas. Seus olhos brilhavam de emoção, não acreditando que seu plano deu tão certo. Portanto, guardaria as lágrimas para quando contasse para a irmã e ambos chorarem juntos.
esfregou a mão pelo aranhão na porta do carro, direcionando os olhos para .
— O que acha de fazer parte da equipe, ? — sugeriu, notando que o para-choque estava bastante amassado.
estremeceu, não conseguindo forças para falar.
— Você deu um show essa noite. — elogiou, notando a multidão desaparecendo. Tinha que sair dali também caso não quisesse enfrentar a polícia.
caminhou até e lhe enlaçou pelo pescoço. Parecia ter simpatizado muito com o rapaz, mas no fundo só o queria em sua equipe para extorquir.
— Pense bem, . — começou o seu jogo de manipulação. — Podemos competir em qualquer corrida e sairmos vencendo. Eu tenho os melhores carro e você, como meu piloto, seria impossível as equipes nos vencerem. — usou as palavras certas, na intenção de enlaçar .
— Não sei, . — respondeu, lembrando em como foi contra a sua decisão de voltar para as corridas. Não queria decepcioná-la.
assentiu, percebendo que teria de apelar mais.
— Darei um tempo para você decidir. — quebrou o enlaço dos dois. — Enquanto isso, você cuida do meu Koenigsegg CCXR Edition. Entenda como um presente. — arriscou seu carro favorito, tudo para trazer para a equipe.
— Não posso aceitar isso. — negou, sentindo que seria uma belíssima fria entrar no acordo de .
— Presente não se rejeita, não é mesmo? — disparou, caminhando até ficar de frente com .
Pegou a mão do rapaz, colocando a chave do esportivo.
— Ele é todo seu. Nos vemos na próxima corrida, . — e essas foram as últimas palavras de , antes de dois BMW X1 completamente negros, de vidros escuro, pararem ao lado deles.
Assim que entrou no primeiro carro, ambos arrancaram parecendo bastante apressados para irem embora. Naquele momento que reparou que só restava ele e o esportivo, junto da escuridão da noite. Ao longe escutou o som das viaturas de polícia se aproximando, entendendo assim o motivo de todos terem desaparecido tão rápido.
Ele encarou a chave em sua mão, sorrindo largo. De repente saltou e gritou, comemorando a vitória da noite. Rapidamente pegou o celular no bolso da calça e tirou uma foto junto com o esportivo para enviar para , enviando logo atrás um áudio.
! Nossos problemas acabaram! Ai caralho, você não vai acreditar no que aconteceu! A vida do está a salvo! — sua voz estava alta, alterada pela felicidade.

(...) Atualmente...


(...) a vida do está a salvo! escutou o áudio mais uma vez, para se certificar de que tudo não passava de um tremendo pesadelo ou até mesmo um engano.
Mas não, era exatamente a voz de . A foto estava ali para comprovar todas as suas suspeitas.
Seu corpo ficou paralisado. Não conseguia mover os dedos para responder a mensagem. Suas mãos tremiam tanto que até achou que o celular logo iria de encontro com o chão. Recobrou os movimentos quando notou que precisava tomar um ar, caso contrário não iria conseguir enfrentar o resto da noite. Sua mente estava bloqueada, não conseguia pensar em mais nada. Só pairava uma única pergunta no centro dos únicos neurônios que ainda funcionavam: o que caralhos tinha na cabeça?
— Bruce... — conseguiu pronunciar, engolindo em seco. — E-eu vou ali fora, tomar um pouco de ar. — gaguejou, não conseguindo sentir suas pernas ao dar os primeiros passos.
— Está tudo bem, ? — Bruce questionou, abandonando tudo que estava fazendo para dar atenção a ela.
virou-se e usou seu melhor sorriso de farsante.
— Está sim. Só um pequeno problema com o meu irmão. — mentiu quando se referiu ao problema como algo pequeno. Aquele era um tremendo problema.
— Tudo bem, . Caso precisar de alguma coisa me chame, ok? — assentiu em agradecimento.
Correu para fora do trailer, descendo as escadas correndo. Passou as mãos no rosto, sentindo uma fúria imensa emergir de seu interior. Sentiu a temperatura do corpo elevar de tamanha raiva que estava lhe dominando. tinha sorte de não estar ali, naquele exato momento, se não receberia uma pela surra de . A sua vontade era sair da lanchonete e ir para casa acertar um tapa ardido na cara dele, um tapa que o faria lembrar pelo resto da vida a estupidez que acabara de fazer.
Estendeu os braços com as mãos abertas, fechando os olhos. Puxou o ar com força e o segurou por três segundos antes de soltar pela boca. Repetiu a técnica o quanto precisou para se acalmar. Precisava muito daquele emprego, por mais que fosse horrível de se trabalhar ali. Se acalmaria por , porque se dependesse de para isso, teria um colapso nervoso justo em seu primeiro dia. Inspirou o ar por mais uma vez, o soltando devagar. Ao abrir os olhos, virou-se para entrar de volta no trailer e seus olhos foram de encontro com os olhos de .
Ele estava com um cotovelo apoiado na mesa, tendo a mão fechada contra a boca. E os olhos, que deveriam estar atentos na tela do notebook, estavam focados em . Um horripilante calafrio subiu por todo o corpo dela, lhe paralisando no lugar. Será que sabia que se tratava da irmã de ? Mas não era possível já que não tinham trocado nenhum tipo de apresentação. Apesar de que a semelhança entre os irmão era nítida, no entanto, preferiu acreditar que o mafioso não era o tipo de homem que estudava as pessoas querendo enxergar dentro de suas almas para montar uma árvore genealógica.
Se continuasse a olhando daquela maneira, aumentaria cada vez mais a vontade dela de bater em .
Rolou os olhos tentando espantar os pensamentos, assim que o mafioso desviou o olhar para o notebook. Respirou fundo, se preparando para voltar ao trailer. Mas antes desligando o celular para que não lhe atolasse de mensagem que somente iriam lhe atrapalhar. A hora que saísse, trataria de ter uma conversa bastante esclarecedora com ele. Queria saber todos os detalhes que passaram por sua cabeça para que parasse em uma corrida de rua clandestina, mexendo com o maior mafioso dos Estados Unidos, e ainda por cima russo.
Subiu as escandas, guardando o celular no bolso da calça. Ao entrar viu que Bruce estava concentrada nos lanches; Elena debruçada na janela do trailer mexendo no celular e Tiffany estava indo até a mesa de pegar os pedidos, tentando subir mais o seu short curto como uma boa oferecida. rolou os olhos com a cena.
— Conseguiu resolver as coisas com o seu irmão, ? — Bruce perguntou, não tirando os olhos dos lanches.
— Ah... Ainda não. Mas ele me aguarda a hora que eu chegar em casa. — “e era bom ele estar bem acordado”, pensou.
Bruce pegou a bandeja de lanches e entregou para Elena. Em seguida rolou os olhos, olhando fixamente para Tiffany.
— Ah, como é oferecida essa garota! — resmungou, amassando o papel dos pedidos que acabara de sair, arremessando no lixo.
olhou para Tiffany. Ela estava sentada no colo de um dos homens que acompanhavam , gargalhando como uma hiena. Rolou os olhos ao perceber o quanto Bruce estava incomodado por pouca coisa.
— Olha o jeito que ela vai pegar os pedidos! — Bruce reclamou.
nada disse, só conseguindo pensar em toda merda que tinha feito naquela noite. Era impossível não pensar já que estava sentado em uma das mesas da lanchonete. Naquele momento queria ter um botão que pudesse apertar para bloquear todos os pensamentos que insistiam em aparecer. Não conseguia parar de imaginar o irmão no meio de mafiosos, no meio de pessoas gananciosas e egoístas que fariam qualquer coisa por dinheiro.
. — Elena chamou, tirando-a de seus pensamentos.
Direcionou o olhar para a mulher, na janela do trailer.
— Me da uma mãozinha para colocar mais mesas. — pediu fazendo beicinho. — A Tiffany está meio ocupada. — sussurrou, colocando a mão na lateral do rosto.
Tate mirou a mulher que ainda estava enrolando na mesa de . Rolou os olhos, antes de notar que o mafioso estava bastante desconfortável com a presença dela, talvez até incomodado, a partir do momento que ele retirou a mão dela de seu ombro. não sabia o porquê, mas sorriu com aquilo.
Desceu as escadas indo ajudar Elena. No momento em que pisou no chão, seus olhos foram direcionados para o lado e o sorriso que habitava seus lábios, morreu imediatamente. O olhar hipnotizante e atento estudava cada movimento, sendo cuidadoso o suficiente para não deixar nada passar. O contato visual foi profundo, pareciam que ambos conseguiam se entender apenas pela linguagem corporal dos olhos. evitou qualquer gesto que pudesse mostrar intimidação, porque se ele ainda não sabia que ela era a irmã de , não poderia de fato dar isso de bandeja.
Era nítido que era esperto o suficiente para notar as semelhanças.
O contato visual foi quebrado quando Elena apareceu carregando duas mesas. desviou o olhar naturalmente, nem fazer esforços. Já correu para trás do trailer, encontrando os empilhamentos. Ao retirar duas mesas, apoiou as mãos sobre ela firmemente, respirando pesadamente. Não conseguia acreditar que havia sustentado o olhar de um mafioso. Claro, o seu objetivo era fazer com que não descobrisse a verdade, mas o que isso lhe diferenciava de ?
Enfrentar um mafioso, realmente é a maior idiotice do mundo. Mas pelo menos ela estava preservando a sua identidade, ao contrário de , que dirigiu de encontro com o perigo. só não sabia de onde tinha surgido tanta coragem para fazer o que fez. O maior mafioso dos Estados Unidos. “Os russos sempre queriam acabar com os americanos”, tinha de ter isso em mente. No entanto, não pensou nessa frase quando praticamente deixou-se “flertar” com Sharapova.
Deveria ser auto parabenizar por isso? Ou deveria se jogar na frente do primeiro carro que aparecesse? De fato, incorporar a coragem, quando não se é corajosa, era de longe uma péssima ideia.
Respirou fundo, ficando ereta. Esfregou as mãos no rosto, tentando espantar todo e qualquer tipo de pensamento sobre . Segurou a mesa e caminhou para frente do trailer, recebendo Elena ao seu encontro. As duas se ajudaram e conseguiram organizar as mesas e as cadeiras que faltavam, antes das pessoas reclamarem. E durante a organização, não tinha acontecido mais nenhuma tentativa de contato visual. então concluiu que talvez só estivesse reparando que era uma novata, ou, às vezes nem estava olhando diretamente para ela.
Tate só estava nervosa demais por saber que o irmão estava com o esportivo do mafioso.
— Os movimentos sempre aumentam depois dos rachas ilegais. — Elena comentou, espirrando álcool na mesa e limpando com um pano.
estava parada, observando e conversando com Elena.
, me ajuda aqui! — Bruce gritou.
Assim que caminhou para o trailer, os olhares de caíram sobre ela mais uma vez. Mas não estudava sua aparência incondicional e atraente, dessa vez estava interessando em seu apelido: . Retirou o bilhete amassado do bolso do paletó, desamassou e releu a mensagem novamente. “O dinheiro está no envelope, não se esqueça de levar no hospital. .”. Encarou a escrita, fazendo sua cabeça trabalhar a mil por hora, queria muito descobrir quem era a irmã de . Vadim pesquisou sobre ela, mas não tinha encontrado nenhum requisito do nome. Gostava de saber dos integrantes das famílias dos corredores, assim ficava mais fácil de ameaçá-los caso saíssem da linha.
— Olá, boa noite! Estou com o pedido de vocês. — a voz doce, recheada de calmaria, atingiu seus tímpanos. — De quem é o número 2? — perguntou conforme ia repousando os lanches na mesa, conseguindo uma harmonia com os clientes.
a analisou, encarando o bilhete ao mesmo tempo. Cobriu os lábios com a mão fechada. Profundamente queria muito que aquela mulher tão doce, aparentemente delicada, não tivesse nenhuma ligação com Tate. Não conseguia imaginar seus capangas torturando aquela garota com o rosto tão angelical.
sorriu ao receber elogios por seu atendimento. O sorriso dela prendeu a atenção de de um jeito que Vadim precisou o cutucar para prestar atenção nos negócios que precisavam resolver com a Rússia. Dobrou o bilhete aguardando-o dentro do bolso de novo. Não poderia deixar se distrair, seu irmão aguardava os gráficos do outro lado do mundo. No entanto, isso se tornava impossível quando uma mulher despertava o seu pior lado.
— Qualquer coisa é só chamar. Fiquem a vontade. — sorriu, se retirando para retornar ao trailer.
Ao chegar perto do Food Truck, Bruce pediu que fosse ajudar na cozinha. Seu tom de voz estava bastante sério e com pequenos traços de grosseria. Percebeu na hora que ela estava irritada com alguma coisa.
Quando entrou no trailer, ficou boquiaberta ao ver que tudo estava uma bagunça. Bruce estava morrendo de raiva da correria com os pedidos. sente-se culpada por deixá-la sozinha, mas esse sentimento lhe abandonou ao notar que deveria perguntar o que estava acontecendo ali.
— Bruce... — começou com receio. — Está tudo bem? — perguntou, instantes depois se arrependendo.
— NÃO ESTÁ NADA BEM NESSA MERDA! — gritou eufórica e muito grosseira. — Ai, ... Me desculpa. — suspirou tentando salvar os hambúrgueres que quase queimavam. — Eu sempre perco o controle nessas horas, o movimento sempre cresce muito. — suspirou pesadamente de novo.
ficou calada, não precisava de mais palavras. No instante seguinte ajudou com os lanches, notando o quanto era realmente difícil montar todos os pedidos sendo pressionada para entregar logo. Tinha que ser rápida, apenas tocando o sino de mesa na janela do trailer e deixando a bandeja para que Tiffany e Elena fossem buscar e servir os clientes.
Bruce novamente queimou os hambúrgueres e suspirou alto, esfregando a testa numa tentativa de se acalmar.
— Desculpa perguntar, Bruce, mas... — deixou escapar, pensando depois que tinha sido uma péssima ideia. — Tudo isso é por causa do ? — ergueu uma sobrancelha em dúvida.
— Está tão na cara assim? — assentiu e Bruce fechou os olhos com forma.
Bruce limpou os olhos que ameaçavam escorrer lágrimas. Abaixou a cabeça encarando os hambúrgueres.
— Eu sou apaixonada naquele cretino! — confessou, sentindo o peito dar uma pontada. — Ainda não consigo me conformar que ele não me quis por não ser americana pura. — ergueu a cabeça para evitar as lágrimas.
entendia como era a sua dor de ser rejeitada.
— Mas... A Elena não falou que ele tinha te pedido em casamento? — questionou.
— É tudo mentira. — revelou, pegando de surpresa. — Eu contei isso para a Elena e a Tiffany para elas não rirem de mim por um amor impossível. — puxou o ar com força, tentando se acalmar. — Mas é passado. Ele provavelmente nem se lembra mais de mim. — tentou sorrir, mas não conseguiu.
— Eu... Não sei o que dizer, Bruce. — realmente não sabia.
— Não tem nada que possa ser dito. Eu fui uma burra por ter se apaixonado por alguém que nunca olharia para mim. — as palavras cortaram o coração de , mas por um lado não queria estar no lugar dela, apaixonada por um mafioso. — Não conta pra ninguém, . Por favor. — seu pedido saiu quase como uma imploração.
pegou no braço de Bruce, tentando lhe trazer conforto.
— Juro não contar para ninguém.
Ambas retornaram a fazer os lanches, conversando diversos assuntos aleatórios. A conversa rendeu altas risadas e foi bom para as duas se distraírem. precisava esquecer a vontade que estava de matar , e Bruce precisava esquecer que estava ali.
A conversa estava fluindo, mas foram interrompidas, quando Elena apareceu na janela do trailer e pediu que ajudasse a pegar e levar os pedidos. Pois ela e Tiffany não estavam conseguindo dar conta de entregar todos ao mesmo tempo.
lavou as mãos, enxugando no avental branco. Ao descer do trailer, pegou o bloquinho e a caneta que estava na janela. Como esperado foi bem recebida por todos os clientes que teve de anotar os pedidos. Por sua simpatia e sorriso sincero, ganhava elogios e encantava ao público. Sorria de felicidade e alívio por saber que o tapa que deu naquele homem, mais cedo, não interferiu em nada na sua imagem. Vê-la se dando bem com as pessoas, estava incomodando apenas uma: Tiffany, porque ela era quem interagia melhor do que ninguém.
Ao retornar e entregar os papéis com os pedidos, Bruce depositou uma bandeja com quatro lanches enormes sobre a janela. Colocando os molhos em um copinho plástico.
— Leva esses, por favor, . — pediu já limpando outra bandeja para o próximo pedido.
olhou o pedido, preso por uma fita, na borda da bandeja. Seus olhos se arregalaram e seu peito ficou arfante. Era o pedido da mesa de .
Engoliu em seco, olhando para os lados, a procura de Elena ou Tiffany para levar em seu lugar. Infelizmente ambas estavam ocupadas, então só restava ela mesma. Segurou a bandeja nas mãos, tomando cuidado para não deixá-la cair com o nervosismo. Caminhou lentamente, conseguindo tempo para se acalmar. Ao longe conseguia ver a mesa; estava sério, mexendo em algo muito importante no celular, enquanto os outros três gargalhavam de algo bastante engraçado.
Quando parou para dizer os lanches, não conseguiu outro lugar, a não ser ao lado de . Respirou fundo antes de abrir a boca.
— Olá, boa noite... — sua garganta secou, sendo obrigada a engolir saliva para molhar. — Estou com o pedido de vocês. O número 2, de quem é? — torceu para ser de e acabar de vez com a tortura.
O rapaz que ainda ria ergueu a mão. Chamou o próximo, sendo do homem mais velho, que falava algo no ouvido de .
Enquanto colocava os lanches na mesa, se segurava para não olhar para ela. Estava tentando acreditar em suas próprias palavras de que não se tratava da irmã de . Então, como não direcionava os olhos a ela, notou que os outros homens ao redor não paravam de olhá-la. Os entendia, a mulher era bastante atraente e bonita. Também era nítido o quanto Tate se incomodava com os olharem.
Após dizer o número do último lanche, virou a cabeça para o lado e seus olhos se encontram com o dela de novo, mas dessa vez com a certeza de que ambos se olhavam. Ficou admirado pela tonalidade do azul em suas íris, tão delicado e perfeito. A pigmentação escolhida na medida certa. O contato visual foi profundo, apesar de ter sido curto. Conseguiriam enxergar através do outro se fossem ficar ali a noite inteira.
sentiu um arrepio na espinha. A dignidade a chamava para o mundo real. O contato visual foi quebrado. Ela se sentiu incomodada, fingindo arrumar o avental e repousar a bandeja ao lado do corpo. Já mexeu nos cabelos, repousando o dedo indicador nos lábios, lançando um olhar distraído para Vadim.
— Bom... Desejam mais alguma coisa? — Tate quebrou o silêncio.
— Sim. — foi pega de surpresa com a voz grave e autoritária.
sentiu o coração acelerar, estava morrendo de medo dele dizer algo relacionado com .
— O meu pedido agora é saber o seu nome. — virou o rosto para encará-la.
Foi algo bem pior do que imaginava. Por que ele queria saber o seu nome? Sentiu um pressentimento que deveria mentir, mas não o fez.
— É , senhor. — Vadim, ao lado de , limpa a garganta ao ouvir o nome dela.
— Você... É novata aqui, não é? — ela assentiu.
sorriu.
— E você é o famoso “rei das ruas”? — as palavras escaparam por seus lábios.
— O próprio. — sorriu glorioso.
— Quem? O ? Ele é o dono do pedaço quando o assunto é corridas. — Vadim se intrometeu e os outros riram.
fingiu surpresa, sorrindo amarelo, mostrando-se mais envergonhada.
— É bom saber que já me conhece. — as palavras soaram pelos lábios de com um ar ameaçador e ao mesmo tempo galanteador.
Tate sorriu sem os dentes, bem sem graça.
— É esse o meu pedido, . Obrigado. — pronunciou, abaixando a cabeça e mantenho o olhar misterioso.
— Qualquer coisa é só me chamar. — sorriu simpático antes de sair de volta para o trailer.
a acompanhou de longe, até que chegasse no trailer e pegasse os outros pedidos. Os homens na mesa riram, atraindo sua atenção.
— Gamou nela, senhor? — Vadim questionou.
— Não, Vadim. — retirou o bilhete do bolso e entregou para seu braço direito. — Ela é a irmã do . — disse com certeza na voz.
Vadim mordeu o lanche, lendo o bilhete ao mesmo tempo.
— O senhor, descobriu isso pela assinatura? — questionou e desbloqueou o celular.
— Análises, Vadim. Análises. — respondeu como se fosse óbvio.
Colocou o celular na mesa com uma foto de , sorrindo, na tela.
— Olha o queixo dos dois, são redondos. As sobrancelhas são grossas e robustas. — falava, indicando a foto. — As bocas são idênticas, a dela só é menos carnuda. — Vadim e os outros ficaram impressionados com os detalhes. — A cor do cabelo também é igual, a mesma tonalidade. — encostou as costas na cadeira, cruzando os braços. — Está aí a prova.
— Mas isso não prova nada, senhor. — Vadim o enfrentou, era o único de toda a máfia que tinha coragem de contradizer Sharapova. — São características físicas e não, um exame de DNA. — negou com a cabeça. — Senhor, está olhando para essa moça desde que chegou. Não me venha dizer que é só porque estava comparando os traços dela com o . — lhe lançou um olhar repreendedor.
— Olha as assinaturas, Vadim. — ordenou e o conselheiro o fez. — Está assinado por “” e escutei a Bruce chamá-la por esse apelido. — negou com a cabeça. — Além de tudo, pesquisamos que a irmã dele se chama Tate. E o nome dela qual é?
. — Vadim arcou as sobrancelhas. — Não pode ser coincidência. Mas mesmo assim, senhor, continuam sendo suposições. — suspirou, odiava ser contrariado. — O que ela despertou no senhor?
— O meu pior lado, Vadim. — Vadim foi pego e surpresa. Não gostava quando usava aquelas palavras, porque pessoas sempre se machucavam.
∆∆∆

O final da noite finalmente havia chegado. não aguentava mais de cansaço, não conseguiu sentar um minuto sequer depois que o movimento aumentou. As outras garotas também estavam cansadas e doidas para irem embora, mas primeiro tinham que terminar a limpeza. Tinha sido uma noite produtiva. Os clientes elogiaram e saíram satisfeitos como sempre. Mas em compensação havia várias mesas sujas para limpar.
limpava uma mesa, quando Elena se aproximou.
— Aqui está o pagamento de hoje, . — estendeu o dinheiro e Tate parou o que estava fazendo para encará-la.
A decepção penetrou profundamente o seu olhar. Havia trabalhado tanto para ganhar muito pouco. Portanto, não tinha outra escolha a não ser aceitar.
— Você vai continuar vindo? — quis saber com um sorriso cansado nos lábios.
tinha a resposta na ponta da língua, mas preferiu guardá-la para si.
— Ainda não sei. — ela sabia sim, só não queria dizer. — Posso ligar para falar amanhã? — pensava que prolongar seria mais fácil.
— Claro. — concordou, assentindo. — Esperamos muito que volte! — disse empolgada. — Boa noite, . Você já pode ir.
assentiu e retribuiu a despedida. Caminhou para dentro do trailer, pegando sua bolsa na prateleira para guardar o dinheiro. Antes de sair se despediu de Bruce e de Tiffany.
Quando começou sua caminhada para casa, sentia o coração palpitando de medo. As ruas estavam desertas e odiava andar sozinha. Não queria ligar para ir buscá-la, pois iria com o Koenigsegg CCXR Edition e ela queria passar bem longe daquele carro. Então foi orgulhosa o suficiente para prosseguir só, rezando para não encontrar ninguém de má índole pelo caminho. Portanto, por precaução, decidiu seguir pelos bairros mais iluminados que iriam fazê-la chegar mais rápido, evitando ao máximo os becos escuros.
Isso porque ainda não tinha notado nenhuma movimentação diferente ao seu redor devido ao medo. Eestava sendo seguida desde o momento que saiu da lanchonete...
Virou em uma rua, sendo surpreendida por dois cachorros que corriam atrás de um gato. Eles derrubaram algumas lixeiras, causando um tremendo susto em . Não segurou o grito, mas sentiu-se aliviada por ver que eram apenas animaizinhos inocentes. Continuou o seu caminho, retirando o celular da bolsa para caso precisasse ligar para alguém.
No exato momento que o aparelho ligou, várias mensagens de invadiram a tela de bloqueio.
sentiu todo o seu medo transbordando assim que lembrou que tinha muito sobre o que falar com . A noite estava bem longe de acabar. Pelo menos os pensamentos lhe distraíram, assim fazendo com que pensasse qual seria as melhores palavras para começar o sermão do irmão. Talvez começasse pela sua teimosia? Ou por sua irresponsabilidade por mexer com mafiosos? Talvez até jogasse na cara dele o quanto é ingênuo por não pensar na própria vida ao ter se metido no meio da corrida.
Pensava em diversas maneiras de começar, mas todos acabariam com uma tremenda discussão. E apesar de estar doida para brigar com , sabia que não era o momento ideal para ficarem de mau um com o outro. ainda precisava deles. Então por mais que a tentação penetrasse suas entranhas, tinha que fazer o possível para ter uma conversa civilizada. Nem era o fim do mundo ou era?
Nem notou quando chegou na rua de sua casa. Caminhou no automático, sendo guiada por seus sentidos.
Logo de primeira, seus olhos pairaram sobre a imagem no carro negro, brilhoso, chamativo e magnifico. O Koenigsegg CCXR Edition era mesmo real, sua ficha só estava caindo naquele exato momento. No fundo ainda tinha esperança de ter sido tudo um delírio, mas era verdade. teria que ter uma boa explicação para explicar tudo aquilo. E torcia pelo dinheiro do hospital estar intacto dentro do envelope, pois tinha certeza que ele não havia levado como pediu no bilhete.
O mais curioso foi ver um carro, vermelho, estacionado em um pedaço escuro da rua. Os vidros escuros não denunciavam se havia alguém dentro, mas conseguiu pressentir que aquele veículo não estava ali por acaso. Aproximou-se para ter uma visão mais clara. Arregalou os olhos assim que identificou o modelo como sendo uma Ferrari. Imediatamente a cena de descendo de uma Ferrari vermelha na lanchonete veio com força atingir a sua mente.
Era óbvio que estava vigiando o que era dele. A única questão que ainda não conseguia compreender era: como sabia onde morava?
Mais uma vez a raiva transbordou dentro de . Será que teve mesmo coragem de dizer o endereço para o mafioso?
Aumentou o passo, conseguindo vencer a distância em poucos minutos. Procurou pela chave dentro da bolsa, suspirando alto ao lembrar que havia deixando embaixo do tapete. Agachou-se para procurar, sentindo suas costas queimando. Virou a cabeça para trás, encontrando com os faróis da Ferrari acesos. Sua garganta secou, tinha alguém lá dentro e estava lhe observando. Rapidamente passou a mão pelo chão, sentindo o medo lhe consumir de novo.
Seu corpo tremeu quando o carro saiu da escuridão, saindo bem devagar. Ao mesmo tempo sentiu um alívio. Porém foi rápido em continuar a busca pela chave, encontrando-a perto da porta. Rolou os olhos, provavelmente tinha entrado e jogado por baixo para quando ela chegasse. Ficou ereta, já passando a chave na fechadura. Quando a porta se abriu, não hesitou em entrar correndo.
Encostou as costas na madeira, passando uma mão no rosto. Se antes não sabia que ela era a irmã de , agora tinha absoluta certeza. A situação ficava cada vez mais crítica.
Abandonou os seus pensamentos, assim que notou que o chuveiro estava ligado. Um bom sinal, pelo menos estava em casa. E provavelmente estava se livrando do cheiro ruim das corridas. Suspirou, trancando a porta Sentiu-se aliviada assim que escutou o som da tranca da fechadura. Fechou os olhos e respirou fundo. Ao soltar o ar pela boca, caminhou em direção da cozinha, pegando um copo para beber água. Enquanto esperou o corpo encher com a água da torneira da pia, aproveitou para puxar uma pequena fresta da cortina.
Queria verificar se a Ferrari não tinha voltado. Percebeu que não. Seus olhos bateram contra o Koenigsegg CCXR Edition, negro como a noite. Há alguns anos atrás, teria gostado muito de ter a oportunidade de pilotar um esportivo como aquele. Mas na situação em que se encontrava, não queria relar nem um dedo na lataria. No entanto, a admiração e paixão por carro de corrida não havia desaparecido, o carro realmente era bastante bonito. A única coisa que não gostava era do dono daquele esportivo.
Parou de olhar pela janela, resolvendo se sentar para beber a água e esperar por . No instante em que sentou, seus olhos foram de encontro com o envelope de dinheiro no centro da mesa de cozinha. O mesmo envelope que tinha deixado mais cedo. Curiosamente, levou a mão para abrir um pedaço da abertura, seus olhos se arregalaram ao ver a quantidade de dinheiro. Provavelmente muito mais que o dobro do que tinha. Ah, mas teria que explicar detalhadamente como aquelas notas foram parar ali.
Escutou o chuveiro desligando, já preparando as palavras na ponta da língua. Não demorou para aparecer vestido com uma bermuda, a camiseta jogada sobre o ombro e a toalha secando os cabelos. Ele se surpreendeu ao encontrar com a irmã sentada na mesa da cozinha com cara de poucos amigos.
abriu o melhor de seus sorrisos cínicos, sem os dentes.
— Você tirou todo o cheiro de gasolina do corpo, ? — o tom de voz que usou já entregava que seria uma conversa bem longa.
revirou os olhos, jogando a toalha no sofá, vestindo a camiseta em seguida. fuzilou a toalha com um olhar repreendedor, como se pudesse fazê-la queimar com o poder de seus olhos raivosos. Imediatamente o rapaz pegou a toalha e jogou sobre o ombro.
— Quando vai parar de agir como se fosse minha mãe? — disparou se referiu à mania dela de sempre ficar brava com a toalha no sofá.
— A hora que você parar de agir como um moleque. — disse rispidamente.
riu de lado, caminhando até a janela da pia para dar uma checada no esportivo.
suspirou, apoiando os cotovelos na mesa e esfregando o rosto.
— De quem é esse carro, ? — perguntou tentando ficar calma. No fundo esperando que ele não respondesse: Sharapova. Assim tudo não passaria de um simples engano.
— É de um dos líderes da equipe de corrida. — foi sincero na resposta. Caminhava pela cozinha girando a toalha na mão. — Acho que o nome dele é . — ele gostava de brincar com o perigo.
— Você acha? — quer dizer que ele não tinha nem certeza do nome? — Essa merda de carro pertence ao Sharapova! — levantou num pulo, bastante eufórica.
não mostrou surpresa, dando de ombros.
— É o mafioso dos tabloides? — questionou bem calmo, começando a rir logo em seguida.
cruzou os braços em frente ao peito, tentando entender onde que estava a graça.
— Isso não tem graça, ! — estava com uma vontade absurda de voar em e estrangular o seu pescoço. — O Sharapova é o maior mafioso dos Estados Unidos. Ele é um homem perigoso, procurado pelas autoridades! — refrescou a memória dele.
continuou rindo, caminhando até o sofá, onde se jogou deitado. Levou as mãos para trás da cabeça, deixando mais eufórica.
— O que você queria, que eu fizesse ? Que chamasse a polícia? — questionou.
Ela foi até atrás do sofá, repousando os braços em cima do encosto.
— Sim! Lógico que sim! — arcou as sobrancelhas de indignação pela plenitude dele. — Quem sabe assim você não ganhava uma boa recompensa. Já que a cara dele está estampada em todos os lugares dos Estados Unidos! — novamente esfregou o rosto com as mãos.
— Eu discordo. — elevou o tronco, ficando sentado. — Talvez a polícia não esteja procurando direito o suficiente. Ele é o líder de uma das equipes de corrida. Isso quer dizer que em todas as corridas ele estará lá. — disse o óbvio.
acreditava que a polícia tinha mais medo de , do que ele da polícia.
— Isso não importa agora, ! — agarrou o encosto do sofá, apertando com força. — A única coisa que importa é que você vai devolver aquele carro e sair dessa emboscada, enquanto ainda tem tempo! — apontou a porta, se referindo ao esportivo.
— Você está sendo pessimista, ! — a voz dele começou a se alterar. Apontou o dinheiro em cima da mesa. — Está vendo aquele dinheiro? Já é o suficiente para quitar toda a dívida do aluguel! Deveria estar feliz com isso! — bradou parecendo ter acertado um tapa na cara dela.
— Eu não dou a mínima, ! — disse entredentes. — Prefiro perder a casa, do que me meter com mafiosos.
— Você não dá a mínima, mas eu dou! — levantou-se do sofá. — Eu tenho o e ele precisa de um lar!
suspirou, esfregando a testa.
— Você sempre arruma um jeito de usar o como desculpa para todas as suas merdas. — disse baixo, dando as costas para o irmão.
Ficou farda de discutir. Respirou fundo e caminhou até a lata de lixo ao lado da pia, retirando o enorme saco. Amarrou a boca e saiu pela porta. Não adiantava discutir com . Ele sempre usava para justificar todos os seus erros, nunca conseguia admitir que estivesse errado. Por isso saiu, seria uma perda de tempo continuar a discussão. Ele já tinha achado uma maneira de envolver o filho, então que argumento tinha para revidar? Nenhum.
Conforme caminhava, não conseguia parar de pensar na tremenda idiotice que fez. Ele se recusava a devolver o carro, porque estava disposto a correr de novo. O ciclo vicioso iria se repetir e novamente ela estava correndo risco de vida. O egoísmo e a ganância tomaram conta de , como antes. Se ele não fosse esperto, estará colocando mais em risco. Sendo seu filho, seria o primeiro alvo da máfia. O garoto sofreria por qualquer erro do pai.
Limpou as lágrimas que ameaçavam escorrer, virando para o pequeno beco onde ficavam os enormes containers de lixo. Levantou a tampa do maior, erguendo o pesado saco. Arremessou para dentro, fazendo esforço para fechar a tampa. O cheiro ruim e forte de azedo e podridão penetraram suas narinas, deixando seu estômago revirado. Engoliu em seco, tentando não vomitar o lanche que tinha acabado de comer na lanchonete.
Até que um gatinho apareceu do imenso breu da noite, miando. sorriu, se agachando para lhe fazer carinho. O animal logo começa a brincar com as moscas, procurando alguma coisa para comer. Naquele momento, ela decidiu ir embora, caso contrário levaria o gatinho para casa. E já tinha muitos gastos para lidar, mas um, iria deixá-la doida.
Quando se virou, estava distraída sorrindo com o gatinho. Sendo assim só conseguiu raciocinar o que havia acontecido quando suas costas foram brutalmente de encontro à parede e o gato miou assustado, saindo correndo. O impacto fez todo o seu corpo reclamar. Não conseguia se mexer, estava paralisada, algo muito grande e forte estava logo a sua frente. Enormes mãos seguravam seus braços, além de ter um tronco forte, duro e largo colado a si. Seu coração batia nos ouvidos, apertado demais para passar pela garganta. O peito doía de tanto que o órgão batia contra os músculos.
sentiu o suor escorrer por sua testa e espinha. Gotas geladas. Estava suando frio. A escuridão piorava a visão. Não dava para ver o rosto do homem a sua frente. O capuz parecia ter sido colocado de propósito. O único feixe de luz que a possibilitou de ver algo, vinha do poste da calçada. Uma luz fraca, mas o suficiente para iluminar o maxilar, revelando a barba rala, por fazer. Ela arcou a sobrancelha, notando ser bastante familiar.
A lembrança que lhe veio em mente, foi de com a mão pousada contra os lábios, encarando o notebook. Mas é claro! Sabia que já tinha visto aquela barba em algum lugar, só não contava que fosse justamente da pessoa que tanto estava com medo.
Seu coração bateu mais rápido que o comum. Começou a se desesperar com a identidade revelada do homem. juntou força de onde nem sabia que existia, começando a se debater contras os braços dele, mas, o máximo que conseguiu, foi ter os punhos segurados a cima de sua cabeça. De longe, era nítido quem era o mais forte. Ofegante, virou a cabeça para o lado, fechando os olhos com força. Mentalmente pedia que a deixasse ir, prometendo a si mesma que nunca mais iria cruzar seu caminho com o dele.
Sentiu quando a mão dele tocou seu maxilar, virando cuidadosamente a cabeça para frente. abriu os olhos, encontrando com aqueles poços recheados de escuridão e mistério. Ao mesmo tempo em que o contato visual acontecia, o aperto em seus punhos foi se afrouxando. Tate usou disso como vantagem, sustentando o olhar até se ver livre para fugir. De repente, o empurrou com toda a força pelo peitoral, conseguindo tempo para correr o mais rápido que conseguia até sua casa.
Não era intenção de machucá-la, nem assustá-la. A única coisa que queria era ver os olhos inocentes e belos, fazendo conjunto com o rosto angelical e doce, pela última vez naquela noite.

Capítulo 6 — O Rosto Dele

A chuva caia brevemente do lado de fora da casa. A madrugada estava sendo recheada pela água que molhava cada centímetro da cidade. O cheiro de terra molhada penetrava o nariz daqueles que ainda não tinham dormido e dos que já dormiam, o sono ficava mais confortável e relaxante... Menos para uma pessoa que não conseguia se desprender de um tremendo pesadelo.
abriu os olhos e se sentou na cama quando um raio cortou o céu, emitindo um estrondoso espasmo por toda extensão do Texas. Engoliu em seco, virando a cabeça para olhar a janela com os vidros embaçados, cheios de gotículas de água pelo lado de fora. Esfregou o rosto, tentando espantar e se esconder dos próprios pensamentos. O pesadelo não saia de sua mente e por mais que fechasse os olhos para fugir da realidade, a memória ainda estava li para assombrá-la.
A todo o momento, parecia que estava presa naquele beco de lixo. Era como se tivesse invadido a sua mente e se recusava a deixá-la. Como uma droga viciante. Era possível sentir o seu perfume como se estivesse dentro do quarto. O cheiro grudou em suas narinas. Sua mente não parava de criar diversas situações que poderiam ter acontecido, ele poderia ter aproveitado dela ou pior, até a matado. E tudo que conseguiu fazer foi ficar parada o olhando, paralisada pelo medo.
Esticou o corpo para pegar o celular sobre a mesa de cabeceira, se ajeitando até se ver abraçada aos joelhos. Acendeu a tela do celular, notando que era pouco mais das 6 horas da manhã. Provavelmente o tempo nublado e chuvoso iria impedir o sol de sair. Odiava dias chuvosos, pareciam que faziam sincronia com os acontecimentos das pessoas que davam o recado de que as coisas não ficariam bem.
estava sentindo que alguma coisa muito ruim iria acontecer ao anoitecer, só esperava que não fosse nada com .
Suspirou ao ter imagens de , e invadindo o mesmo espaço de sua cabeça. Eram os nomes de seus respectivos problemas, sendo o último o pior deles. Não conseguia parar de pensar no momento em que estava trabalhando na lanchonete, os olhos de não paravam de olhá-la. E na hora que foi tirar o lixo, teve certeza disso. Ele observava como um leão observa sua presa, esperando o momento certo para atacar.
E Sharapova era o maior leão da savana, o animal que o pequeno cervo deveria manter distância. Mas o que acontece quando o predador encurrala a sua presa? Ele a devora e era isso o que faria com . A observou, encurralou e agora era hora da refeição. não parecia um homem de perdão, então já sabia o ponto fraco de , além do filho. Usar para persuadir seria um caminho sem volta, pela irmã faria de tudo para mantê-la segura. Se pedisse para ele matar para salvá-la, então mataria.
No entanto, no beco, a estudava com tamanha destreza. A segurava com força, parecendo ter medo de perdê-la. Os olhos passeavam pela face dela buscando por algo que não encontrou. Talvez quisesse entender o quanto a presença dela na lanchonete estava incomodando. Ou por que estava trabalhando em um lugar tão sujo e ruim. Ou também, tentando engolir que ela realmente era a irmã de . Talvez para Sharapova o maior inimigo dentro de si era aceitar que uma moça tão bonita e inofensiva era irmã daquele que estava com o seu maior esportivo.
O fardo de ter de ameaçá-la estava o consumindo. só não sonhava com isso.
sentiu um tremendo arrepio subir por seu corpo, fazendo o frio da manhã incomodá-la. Não conseguia entender o que queria a abordando daquela maneira. O máximo que conseguiu foi deixá-la com medo.
Parado na sua frente, lhe prendendo contra a parede, sem chances para fugir. O que ele queria? O que procurava? E por que sozinho? Onde estavam os capangas para ajudá-lo? Será que já contava que estivesse sozinha?
Fechou os olhos e deixou o corpo cair para trás, repousando o celular sobre a barriga. Pegou o travesseiro e cobriu o rosto, numa tentativa fracassada de abafar os pensamentos sobre . Era nítido que pensava nele daquela maneira com medo do que pudesse fazer com , não havia outra intenção. Da última vez que pensou tanto em alguém, como pensava naquele momento, foi quando estava apaixonada pelo idiota do seu ex, mas a situação era completamente diferente. Pelo menos não a colocou em perigo.
Retirou o travesseiro do rosto e levou o dedo indicador até a boca, mantendo os olhos firmes no teto do quadro. Com os dentes começou a cutucar a pele no canto do dedo. Estava muito ansiosa, deixando-se ficar preocupada demais. Era como se a qualquer momento fosse aparecer na porta do seu quarto e apontar uma arma em sua cabeça, dizendo com palavras firmes que tinha vindo atrás de na intenção de matá-lo. O medo conseguia de um simples floco de neve virar uma gigantesca bola que ninguém tinha capacidade de pará-la.
E essa bola estava descendo a montanha naquele exato momento, pronta para atingir o primeiro alvo.
Puxou a pele do dedo indicador, sentindo uma pequena dor no local. Suspirou e jogou o braço sobre seus olhos, fazendo-a entrar em uma escuridão total. O único problema era que em meio ao escuro a única silhueta que via era do maxilar perfeitamente desenhado, com uma barba rala perfeitamente alinhada, com lábios grossos e olhos penetrantes que pareciam ler a sua alma com destreza e habilidade. Estava impossível tirar da cabeça.
Não poderia negar que não o achou atraente, mas também não poderia se permitir ficar atraída. Caso contrário já sabia onde tudo iria resultar, talvez em uma paixão não correspondida ou com um pedido de casamento que a levaria de encontro para uma toca cheia de lobos sarnentos e famintos, doidos para destroçar o pequeno coelho americano.
Americanos e russos nunca dariam certo e era exatamente essa a afirmação que Tate tinha de ter em mente. São países que na história ficaram famosos por sua rivalidade, a história de e não seria diferente. E tudo estava interligado perfeitamente com o fator histórico. A esposa do chefe da máfia Sharapova havia sido vendida a sangue frio para a máfia Hayes – Tate tinha feito questão de fazer pesquisas assim que chegou na ontem passada –, nos tabloides tentaram esconder o verdadeiro motivo e disseram que tinha sido um “acordo de paz”.
Mas lembrou-se de Elena e Bruce comentando que tudo tinha acontecido por causa da proteção da mãe com o filho, porém era uma parte da história que somente conseguiria explicar. E não estava com intenção de perguntar.
Você tem que tirá-lo da cabeça, não pode ficar pensando nele toda hora, vai acabar se afogando de tanto pensar. Isso tinha razão, teria que arrumar um jeito de tirar o rosto dele da mente.
Ao suspirar, escutou a porta do quarto sendo batida.
— Pode entrar. — gritou, assistindo em seguida aparecer em seu campo de visão.
Puxou o ar e o prendeu nas bochechas antes de soltar e começar a falar.
— Só quero que saiba que você é a última pessoa que quero ver na minha frente agora. — rolou olhos conforme se levantava da cama.
— Só queria saber se teve algum pesadelo essa noite. — disse em um fio de voz. As mãos dentro do bolso do moletom relatavam que estava trazendo más notícias.
— O meu pesadelo teve nome e sobrenome. — disse entredentes, arrastando as pernas para fora do quarto para ir até o banheiro escovar os dentes. — E se quiser saber mais, eu até te conto a etnia a qual ele pertence. — entrou no banheiro e se sentou no vaso sanitário, esfregado as mãos no rosto.
E novamente naquele dia, o rosto de estava fervente em sua mente.
— O que eu vim te contar, é uma notícia sobre o . — disse com a voz sendo abafada pela porta do banheiro.
— Fala então, . — pediu se levantando e começando a pegar os objetos para escovar os dentes.
se encostou na madeira da porta, para conseguir dizer as palavras com clareza para ela ouvir perfeitamente do lado de dentro.
— Ele teve uma recaída. — as palavras paralisaram todo o corpo de , deixando a pasta de dente cair na pia. — E os médicos queriam saber qual a nossa posição sobre tudo isso.
deixou a escova e a pasta na pia, tratando de ser rápida em abrir a porta e encontrar com o rosto do irmão. foi capaz de perceber o semblante preocupado e abatido da irmã, possivelmente não era a notícia que gostaria de receber justo às 7h da manhã. Os corações batiam fortemente e incansavelmente, parecendo desesperados para saltar do peito e correr para o abismo mais perto, somente para não ter que passar por uma situação tão dolorosa como aquela.
Os médicos queriam saber o que eles queriam, se preferiam deixar morrer ou iriam arriscar cada milímetro de pele por sua vida.
— O que aconteceu com ele? — perguntou, tendo o tom de voz alterado após a notícia.
segurou a mão dela antes de começar a contar.
— Na noite passada, começou a voltar sangue pelo tubo de respiração e o coração não aguentou causando mais duas paradas cardíacas. — a cada palavra era uma fisgada tanto na mente, quanto no coração. Imaginavam o tamanho da dor que estava sentindo. — ... — a voz de falhou.
A mulher ergueu o rosto para olhar profundamente nos olhos lacrimejados do irmão.
, eles disseram que se caso não entrarmos com o pedido do transplante agora, não terá outra solução a não ser esperar para dizer adeus. — respirou fundo para conter as lágrimas.
também respirou fundo.
, não tem outra resposta. Temos que permitir esse transplante, é a nossa última esperança, a única que o ainda tem. — disse encarando o rosto do irmão. — Eu posso tentar conseguir esse dinheiro, talvez o banco aceite se eu fazer uma proposta de empréstimo, depois resolvemos como vamos pagar. — levou uma mão até a cabeça, esfregando os cabelos e descendo para a nuca. — Ou podemos, sei lá... Pedir emprestado para alguém. O marido da Charlotte conhece bastante gente rica, podemos tentar perguntar se alguém quer nos ajudar. — deixou algumas lágrimas saírem. — PORRA, EU NÃO SEI! — gritou em desespero, virando o corpo e encostando as costas na pia, cruzando os braços.
imediatamente pegou o rosto da irmã e olhou em seus olhos profundamente. não conseguia mais segurar o choro e puxou o corpo do irmão contra o seu e o abraçou com força, deixando as lágrimas escorrendo serem mais forte que a vontade de segurá-las.
— O transplante era a única opção... — começou a dizer, acariciando os cabelos dela. — . eu preciso confessar uma coisa. — tomou coragem para dizer. Ficou horas pensando em como contaria para ela o que tinha feito para salvar a vida do filho.
se desfez do abraço e limpou as lágrimas.
— Seja lá o que você tem a dizer, , não pode ser pior do que isso que estamos passando. — ela nem imaginava.
quase hesitou, mas resolveu confessar de uma vez.
— Eu vendi o carro do . — as palavras saíram e imediatamente as feições da mulher congelaram.
O coração dela parou de bater por alguns segundos e seus pulmões pararam de trabalhar. Seu corpo encontrou em colapso e a mente ainda processava em câmera lenta as palavras e os movimentos da boca de ao falar. Puta merda, !
Torceu para ainda estar tendo um pesadelo. Mas quando abaixou a cabeça e encontrou com o piso do banheiro, escutando a torneira da pia pingando e a respiração voltando a uma velocidade maior do que o Koenigsegg CCXR Edition poderia atingir, o que resultou em seu coração voltando com tanta força que era capaz de ouvir ao chegar perto dela, foi que constatou não se tratar de um sonho, mas sim de uma tremenda burrada que Tate tinha acabado de fazer.
... — quebrou o silêncio olhando para o rosto do irmão. Ergueu o dedo indicador não quebrando o contato visual. — Você vai agora me falar que isso que acabou de dizer não passou de uma brincadeira de mal gosto para me tirar do sério! — batucava o dedo contra o tronco dele conforme dizia, deixando as últimas palavras saírem entre os dentes.
suspirou, não quebrando o contato visual.
— Eu não tive outra escolha. — foi apenas isso que disse e foram palavras o suficiente para tirar do sério.
sorriu, quase uma risada, recheada de sarcasmo e indignação. Como ele não tinha escolha? Ela sabia que na hora do desespero as pessoas acabavam fazendo idiotices por impulso, mas aquilo era demais. Vender o carro do ? Você ficou maluco, ?!
— Sabe o que eu queria agora? — seu rosto estava com uma expressão que qualquer um no lugar de sentiria medo. — Eu queria muito que o viesse atrás de você e acabasse com a sua raça! — o rapaz permaneceu calado, já esperando que ela fosse surtar. — Mas do fundo da minha alma, lá no fundo onde ainda reina o pingo de compaixão que sinto por você, eu espero que o nunca descubra e nem sinta falta desse esportivo!
a encarou, estudando cada traço de irritação no corpo dela. Olhos estralados, boca cerrada, punhos fechados com tanta fora que seriam capazes de quebrar o seu maxilar caso ela ousasse usá-los.
— Eu. Não. Tive. Outra. Escolha. — repetiu pausadamente.
sorriu sarcástica, unindo as mãos e encostando o queixo sobre elas, encarando o irmão com toda a fúria que corria incansavelmente por cada centímetro de seu corpo, esquentando lugares que ela nem imaginava que existiam.
— E agora o que a gente faz? — questionou com calmaria. — A gente pula de alegria e dança na cara do maior mafioso dos Estados Unidos ou arrumamos nossas malas e fugimos para o Japão na esperança de que os japoneses joguem uma bomba igual a de Hiroshima e Nagasaki na Rússia? — o sarcasmo dela estava presente em cada palavra que dizia e em uma carga extremamente absurda. — Apesar que o Japão não teria forças o suficiente para fazer isso, até porque.... A RÚSSIA É O MAIOR PAÍS COM ARMAS NUCLEARES DO MUNDO!
puxou o ar que lhe foi necessário ao se exaltar e falou calmamente, olhando dentro dos olhos do irmão para que ele não mentisse em nenhum momento.
— Que merda você tem na cabeça, ? Hum? — negou com a cabeça. — Era o carro do Sharapova... Você tem ideia do quanto isso é ruim?
Ele assentiu e complementou.
— Eu tenho absoluta certeza que foi a pior ideia que já tive, . — ela cruzou os braços, querendo ouvir o que ele tinha a dizer sobre aquilo. — Sinto muito que não tenha nada que possamos fazer para reverter isso. — revelou e esfregou o rosto, segurando com dois dedos os cantos dos olhos.
— O que você fez com o dinheiro? — já sabia a resposta, mas queria ouvir da boca dele, somente assim cairia na real.
— Eu fiz a transferência para o hospital assim que o valor caiu na conta. Exigi que os melhores médicos realizassem a cirurgia.
Ela descruzou os braços e se apoiou na pia, encarando o chão.
— Possivelmente estão realizando o transplante de medula nesse exato momento.
o direcionou o olhar e apenas disse suas últimas palavras:
— Torça para que dê certo, caso contrário, ... — pausou para suspirar. — Torça para que o seja bonzinho e poupe as nossas vidas. — seu coração se contorceu ao dizer, doía saber que naquele instante havia se tornado alvo de um dos mafiosos mais temidos e procurados dos Estados Unidos.
fechou os olhos com força e engoliu em seco, antes de segurar a porta do banheiro pronta para fechá-la.
— Ele nem sabe que tenho uma irmã. — tentou, na tentativa inútil de consolá-la.
— Não sabe, né? — negou com a cabeça. — Ele só tem uma Ferrai vermelha e me encurralou no beco do lixo ontem. Só isso, .
— Ele fez algo com você? — quis saber arcando as sobrancelhas e sentindo raiva. — , se ele fez algo com você, juro que eu vou...
— Ele não fez nada comigo. — o cortou. — O me observou na lanchonete a noite inteira e provavelmente me seguiu até em casa. — contou, relembrando os acontecimentos. — Depois ele me encurralou no beco. Eu não sei qual era a verdadeira intenção dele, mas sei que nessa altura do campeonato ele já saiba que sou a sua irmã. — o medo começava a se fazer presente e não tinha nada que pudesse fazer a respeito.
O momento de tensão se alastrou pelo ambiente e nenhum dos dois conseguia dizer uma só palavra. Estavam perdidos, completamente ferrados, presos na teia construída por . E a única esperança que restava era esperar para que pelo menos conseguisse ter um transplante de medula bem sucedido e saísse vivo para contar a história de seu pai e sua tia, porque a única certeza que tinham era que iria ir atrás deles, em que momento não sabiam, mas seria mais cedo do que esperavam...
∆∆∆

O dia tinha sido tenso. A noite nunca demorou tanto para cair como naquele dia. Parecia que o tempo tinha parado, os ponteiros dos relógios pareciam não querer girar, como se a pilha tivesse acabado. Foram longos e sofridos segundos até o anoitecer.
retirou algumas peças de roupas do guarda-roupa e colocou sobre a cama, na intenção de escolher a melhor combinação. Na verdade, o que buscava era uma forma de se distrair até dar o horário de sair para ir trabalhar na lanchonete. Camiseta branca e calça azul ou camiseta azul e calça branca? De que importa escolher roupas quando se poderia estar indo de encontro com o seu fim?
Provavelmente, estaria na lanchonete naquela noite. Não perderia a chance de encontrá-la por lá e exigir o acerto de contas.
Fechou os olhos com força e massageou as têmporas, decidindo que o melhor para passar o tempo seria tomando um demorado banho com água quente. O vapor e a temperatura que cairiam sobre seu corpo iriam limpar todas as impurezas físicas, e seria ótimo se também limpasse as emocionais. Estava precisando limpar a alma de todo o caos que estava presenciando nos últimos dias.
No instante que estava caminhando para o banheiro, sentiu o celular vibrando em sua mão, anunciando que uma nova mensagem tinha chegado.

, a cirurgia foi um sucesso! Deu tudo certo e estou voltando para casa.

Leu a mensagem se sentindo mais aliviada, mas ainda com uma sensação de sufocamento no peito. O medo de aparecer de repente na porta de sua casa era o que tirava toda a sua paz. Tentava focar sua mente em e em quantas vezes conseguiria ver o sorriso nos lábios dele, sem medo de no momento seguinte vê-lo se desfazendo e transformando tudo em cores cinzas e cheias de angustias, mas por mais que tentasse não conseguia.
Girou o registro do chuveiro e observou a água saindo dos furinhos, atingindo o chão com leveza e suavidade. Seus lábios ficaram entreabertos e deixou sair um suspiro recheado de incertezas. Era para se sentir aliviada e doida para visitar , mas não conseguia parar de pensar em e em todos os riscos que estava correndo, apenas pelo fato de ter pensado com o coração, ao invés da razão.
Retirou as roupas e colocou-as em cima do cesto de roupas sujas, deixando o celular sobre elas. Entrou debaixo da água, sentindo a temperatura quente desenhar cada centímetro de sua pele, molhando-a. Com o sabonete de flores de cerejeiras nas mãos passou por todo o corpo, com delicadeza em cada extensão como uma cortesia para limpar as impurezas dos últimos dias. Estava necessitada de água quente como terapia de relaxamento, mesmo que fossem apenas alguns minutos.
Evitava fechar os olhos para que a silhueta de cabelos escuros, olhos amedrontadores, corpo peculiar e perfeitamente esculpido para uma figura mafiosa, não penetrasse seus pensamentos e invadisse seu coração acelerando os batimentos cardíacos ao ponto do ar lhe faltar. Seu peito entrava em combustão apenas de se deixar levar pelos pensamentos inapropriados, e se deixasse que isso acontecesse provavelmente teria uma crise de ansiedade e não conseguiria trabalhar naquela noite.
Pegou o frasco de shampoo e despejou nas mãos, passando nos cabelos calmamente e demoradamente, usando as pontas dos dedos para massagear o couro cabeludo. No momento em que fechou os olhos para retirar o produto dos fios, rapidamente os abriu assim que escutou o barulho de dois carros buzinando do lado de fora da casa, sendo prosseguido pelo som de cachorros latindo e gatos miando junto com o barulho de latas de lixo sendo derrubadas. A noite estava bastante agitada para o trânsito, principalmente naquele bairro que haviam vários animais que circulavam atrás de comida que sobravam dos restaurantes ali perto.
Os cachorros adoravam correr na frente dos carros perseguindo gatos.
respirou fundo e soltou pela boca para acalmar o coração já que tinha tomado um susto. Esse era um dos motivos que odiava ficar sozinha na casa, qualquer barulho e já ficava assustada.
Só que naquele momento em que voltou a massagear a cabeça, sentiu como se a água fosse lâminas pontiagudas e bastante afiadas que arranhavam e rasgavam todo o seu corpo. A sensação de uma coceira que parecia repuxar a camada da pele, era sinal de um mal pressentimento. Algo iria acontecer naquela noite...
Desligou o chuveiro e pegou duas toalhas, enrolando uma nos cabelos molhados e a outra em volta do corpo. Caminhou para o quarto ao mesmo tempo em que verificava se tinha mandando mais alguma mensagem, ao ver que a última tinha sido há de minutos atrás, somente deu o play na música Dusk Till Dawn — Zayn Malik ft. Sia, a deixando para repetir assim que acabasse. Adorava se arrumar ouvindo aquela música, tinha um ritmo perfeito para quem não queria pensar em nada enquanto colocava as roupas e passava a maquiagem.
— Você não vai olhar para ele. Você vai fingir que nunca o viu na vida e que aquele dia no beco nunca existiu. — falou sozinha, enquanto passava o rímel cuidadosamente.
Se repetiu várias vezes as mesmas palavras, não queria correr o risco de vacilar em sua segunda noite na lanchonete e nem mostrar aos clientes e para as funcionárias que seu problema era exclusivamente por causa de uma burrada de seu irmão com Sharapova. Tudo tinha que sair perfeito para conseguir o emprego para tentar recuperar o dinheiro que foi usado para quitar as dívidas e a cirurgia, talvez até pudesse fazer um acordo com , não custava nada tentar, apesar que sentia que ele nunca iria lhe dar a chance de dizer algo.
E naquela noite fingiria que ele tinha pegado a mulher errada no beco dos lixos, seria o melhor a se fazer. Encará-lo seria uma maneira de dizer que estava com medo e que desejava que ele fosse se justificar sobre o que houve, além do mais tudo que menos precisava era de indo em sua direção lhe dirigindo a palavra. Isso colocaria a sua vida em um grande perigo, por mais que quisesse saber a verdadeira intenção do mafioso por tal ato.
Assim que finalizou a maquiagem, analisou as roupas sobre a cama mais uma vez para conferir se estava tudo certo. E um pressentimento estranho tomou conta de seu corpo, sentiu que poderia estar sendo vigiada. Seus olhos caíram imediatamente sobre a janela do quarto e resolveu fechar as cortinas como uma maneira de mostrar para si mesma que tudo não passava de sua mente querendo lhe pregar peças.
O medo era tão grande que estava conseguindo confundir a sua mente.
Retirou a toalha e vestiu as roupas rapidamente, após verificar o celular e ver que faltava meia hora para seu expediente começar, já lhe levando a pensar que chegaria bem em cima do horário por causa do trajeto que tinha de ser feito andando. Rapidamente pegou a bolsa com seus pertences e correu para o corredor da casa, se adiantado pelo caminho ao desligar as luzes que encontrava acesa.
Voou para a cozinha, dando play no áudio de 1 minuto e 20 segundos de .

, você não vai acreditar. Os médicos acabaram de trazer os resultados de alguns exames e falaram que as células do doador aparentemente não estão sofrendo nenhuma rejeição no organismo, isso é ótimo! Já estou ansioso para ouvir da boca deles que está definitivamente curado!

Sorriu escutando as palavras empolgantes do irmão, foi ágil em enviar um emoji sorrindo e uma figurinha que mostrava um ursinho dançando em comemoração. Em alguns segundos pareceu embaixo do nome de que ele estava gravando um novo áudio. Assim que a mensagem chegou, alargou mais o sorriso ao dar play, escutando-o falando sobre como foi a cirurgia e quais eram as expectativas de Ronnie sobre o transplante.
Girou a chave da porta de saída na cozinha e continuou escutando distraidamente, sendo assim, não notou quando a maçaneta girou definitivamente sozinha. No instante seguinte deixou-se arregalar os olhos quando seu corpo brutalmente encontrou com a parede, causando um tremendo impacto que lhe causou na hora uma pequena dor incômoda subindo na lombar e se alojando nos ombros. Um gemido doloroso e falho escapou por entre seus lábios.
E sua garganta fechou imediatamente, assim como o coração iniciou a aceleração dos batimentos cardíacos, sendo capaz de qualquer pessoa que chegasse perto escutasse. e provavelmente ele estava escutando perfeitamente.
Aqueles olhos , os mesmos poços da noite anterior estavam ali, mirados e centralizados bem na frente de , lhe consumindo com fúria. Acompanhavam o perfeito maxilar rígido, as sobrancelhas grossas arcadas e os fios de cabelos bagunçados, fazendo um belo conjunto com a veia saltada na lateral do pescoço daquele homem. Somente aquele olhar seria capaz de deixar Tate sem forças para sustentar as pernas e sem falas.
Tentou do fundo da garganta soltar um grito para que qualquer pessoa pudesse escutar, mas foi então que notou que a mão dele estava tampando sua boca, provavelmente já contava que ela fosse gritar e se garantiu de lhe impedir. Ele havia calculado cada passo. Se assegurando de posicionar a arma destravada contra a cabeça da mulher, esperando que o gatilho fosse acionado a qualquer deslize dela.
— Boa noite, doce, . — os lábios levemente carnudos pronunciaram em um perfeito fio de voz rouco.
arregalou os olhos e com isso abriu um enorme sorriso.
Desde o início sabia quem era ela, bastou apenas Vadim procurar mais sobre os Tate e encontrou aquele belo rosto em uma foto junto com a equipe da padaria Gold Oven do Sr. Donavan, e isso bastou para excluir qualquer dúvida que ainda existisse. Enquanto , desde que o ouviu na lanchonete, soube que era sinônimo de encrencas.

(...) , você não vai acreditar... O acordou!

Foram as palavras do último áudio que enviou, o único som que se escoou pela cozinha.
Mas mal sabia que estava naquele exato momento presa nas garras do maior mafioso dos Estados Unidos. Seu nome: Sharapova.

Capítulo 7 — Ela é Americana


O corpo de encontrou a estrutura macia do sofá, causando um impacto entre a temperatura quente e gelada. Sua respiração estava descompassada e os olhos queriam chorar, mas lágrimas não iam ajudar em nada naquele momento. Ninguém teria piedade de si. Sua cabeça estava uma bagunça ainda tentando processar tudo que tinha acontecido. De repente um dia normal tornou-se um caos, um dia que deveria ter sido recheado de ansiedade e medos acabou se tornando real.
Agora Sharapova estava de fato dentro da casa dos irmãos Tate.
Os braços de Tate estavam amarrados com um lençol azul bebê, a macies do algodão denunciavam de onde era, do quarto de . Os mafiosos tiveram a audácia de invadir os cômodos em busca de algo para amarrá-la. E assim como os pulsos, suas pernas também estavam presas por um lençol, além de terem colocado um pequeno pano branco dentro de sua boca para que não pudesse gritar por ajuda.
Em silêncio, apenas se remexendo para tentar se soltar, não conseguia deixar de escutar os três homens conversando em um idioma que não estava conseguindo entender uma só palavra. É claro que seria o russo. Mesmo que não pudesse entender, conseguia ler as expressões faciais e a linguajar corporal. Quando estavam falando dela, lhe direcionava o olhar breve e negava com a cabeça, ele tinha a mão pousada contra o queixo, usando o polegar para esfregar o lábio inferior.
Foi quando ouviu o nome de seu irmão saindo pelos lábios de . Imediatamente seu coração deu um salto, uma fisgada dolorosa. Era óbvio que estavam ali pelo dinheiro da venda do Koenigsegg CCXR Edition, mas o tom de fúria na voz de denunciava que não havia gostado do resultado que encontrou. Possivelmente o plano era invadir a residência, dar uma lição em e pegar o dinheiro, o que não foi bem o que aconteceu.
O modo como o mafioso se expressava, com seu tom de voz e os punhos cerrados, só mostravam o quanto estava ferrado.
E quando escutou seu celular vibrando contra o chão, avisando que uma nova mensagem de havia chegado – a tela do aparelho tinha ficado desbloqueado na janela da conversa –, desejou profundamente que o segurasse no hospital e que não o deixasse retornar aquela noite para casa, sendo esperto o suficiente para só aparecer ali com a polícia sendo seu braço direito.
começou a pensar que tinha de dar um jeito de escapar, uma forma de fugir e avisar as autoridades sobre o que estava acontecendo. Pedir ajuda a alguém. Nem que para isso tivesse que correr igual uma maratonista de corrida em busca da delegacia mais próxima. Não poderia deixar e sua gangue tirarem a vida de seu irmão e deixarem o pequeno órfão.
Em busca de algo pela sala que pudesse servir para escapar, seus olhos pairaram sobre a arma na cintura de e escorregaram para a outra que ele havia deixado em cima da mesa. rolou os olhos, com o pouco de conhecimento que tinha sobre Sharapova, tinha certeza que aquele revólver tinha sido colocada propositalmente ali para testar o atrevimento dela. O que ele buscava com isso? Era uma resposta que Tate queria muito saber.
Mas no momento não tinha muito tempo para pensar nos joguinhos de , tinha que agir. Talvez se conseguisse pegar a arma, pudesse se defender dos mafiosos, levando em consideração seu pouco conhecimento em revólveres – graças ao seu passado –, só que tinha muito medo de arriscar. Se caso conseguisse se soltar e manobrar a arma poderia ter a grandiosa surpresa em saber que estava sem balas, porém, não custava nada tentar.
Tentou puxar o lençol que enlaçava seus pulsos com toda a destreza que conseguia, evitando fazer qualquer movimento brusco que pudesse chamar a atenção dos homens. Percebeu que o nó não estava tão apertado como parecia, com o auxílio dos dedos conseguiu se soltar sem fazer muito esforço. Ao sentir sua pele respirando em alívio, começou a pensar se seria uma boa ideia pegar aquela arma, seus olhos olhavam fixamente as costas largas de . E se caso pegasse e isso acabasse colocando fim a sua vida? E se realmente fosse um teste de ? Haviam muitas possibilidades que poderiam acontecer e a cada vez que pensava no “e se”, seu encorajamento diminuía.
De repente, os dois homens passaram na sua frente caminhando em direção do corredor da casa, provavelmente tinham ido em busca do dinheiro em um dos cômodos. Quando deu por si, estava sentado na beirada da mesa de centro, de frente para ela, com aqueles poços lhe encarando com tamanha luxúria para ler dentro de sua alma. Seu olhar parecia formigar o rosto de Tate. E ao sentir o toque dos dedos dele em seu maxilar, parecia que todo o medo se transformou em raiva, odiava sentir o calor dele em sua pele.
segurou o maxilar da mulher e retirou o pano de sua boca, obrigando-a a encará-lo. Os lábios dele se abriram e pronunciaram uma frase com entonação de pergunta, mas em russo, apenas deixando-se entender o nome de .
arcou as sobrancelhas, não entendendo nenhuma palavra.
I don’t speak your fucking language! — ditou firme, sentindo a raiva em suas veias. Odiava demais aquele homem.
suspirou, abaixando a cabeça por um momento, mas logo recuperando a compostura.
— Onde está o ? — falou com bastante facilidade.
o encarou e seus olhares se encontraram, travando uma luta intensa de rivalidade. Mas isso não lhe fez perder a compostura, porque naquele momento a raiva estava sendo o seu alicerce para ter coragem de enfrentá-lo.
— Você tem tantos homens que fazem as coisas para você, peça para um deles encontrar o meu irmão. — sorriu de lado, um sorriso divertido, parecia estar se deliciando com a postura teimosa de .
No instante seguinte, o celular dela tocou no chão, vibrando ao ritmo do som. virou o rosto para o lado, sentindo que a observava. Que merda , agora não!
— Estou com muita sorte hoje. — ele provocou, fazendo-a rolar os olhos.
Ele se levantou para pegar o celular. Durante o tempo sozinha, aproveitou para puxar o lençol de uma vez, mas quando retornou, olhando a tela e lendo o nome que aparecia, fingiu que ainda estava amarrada.
engoliu em seco quando reparou que ele tinha uma arma destravada na mão.
— Atende o seu irmão e peça que volte imediatamente para casa. — ordenou em um tom rígido e autoritário.
encarou do celular para o rosto de , fazendo uma expressão de que não sabia como fazer isso já que suas mãos estavam amarradas.
Sharapova suspirou e revirou os olhos.
— Eu sei que você se soltou, não sou tão burro quanto pensa. — merda. Mordeu o lábio com o pensamento.
não contava que fosse tão inteligente ao ponto de notar que estava solta ou, talvez, ele tenha feito de propósito. Independente de qual era o ponto que ele quis chegar, ela deu de ombros e levou suas mãos até o celular. Quando sentiu o aparelho com o tato, simplesmente, bastante determinada e ciente dos riscos, deslizou o dedo indicador para recusar a ligação. E no instante seguinte, encarou com um olhar de desdém.
— Se quer mesmo achar o meu irmão, o faça sem a minha ajuda. — imediatamente Sharapova segurou com mais firmeza a arma e seu punho cerrou.
temeu pelo gatilho ser apertado, mas por mais incrível que pareça, o medo de ser baleada se transformou no último fio de adrenalina que pudesse ter e rapidamente se levantou. Em movimentos habilidosos e ágeis, agarrou o cano do revólver o obrigando a abaixar, isso obrigou a atirar em direção do encosto do sofá. Mas a distração e o som do tiro escoando pela sala, não foram o suficiente para tirar o foco daquele homem.
E assim que lhe deu as costas para correr, ele a agarrou pela cintura e a puxou contra si, causando um tremendo choque entre os corpos. Tate fechou os olhos sentindo suas costas se chocarem com o tronco dele, ao mesmo tempo em que sentiu o cano gelado da arma sendo posicionado na lateral de sua cabeça e a mão quente e grande da mão livre escorregar para seu pescoço fazendo uma leve pressão, mas não o suficiente para lhe deixar sem ar. Sua respiração se descontrolou e engoliu a saliva para molhar a garganta seca.
Naquele exato momento, Sharapova tinha chegado ao seu limite. A respiração pesada dele denunciavam fúria e muita raiva.
— Quando quiser passar um mafioso para trás, primeiro: nunca dê as costas a ele. — o hálito quente atingiu a orelha de . — e segundo: sempre o olhe nos olhos antes de agir, isso o faz concentrar a atenção em seu rosto, e não nas suas ações. — Tate estremeceu e engoliu em seco.
Um homem esbelta e aparentemente mais velho que , apareceu na entrada da sala com o semblante assustado e pareceu bastante surpreso ao ver Sharapova com em seus braços. Algo em seu rosto dizia que um tiro não fazia parte do combinado.
— O que aconteceu, senhor? — questionou com os braços abertos, indicando o lugar.
obrigou os corpos a virarem na direção do homem.
— Nada, foi só a querendo dar uma de esperta. — brandou em sua defesa.
— Senhor, atirar uma hora dessas pode chamar a atenção dos vizinhos. — Vadim começou. — Não seria melhor deixá-la presa dentro do quarto? — aconselhou.
estava imóvel, bastante assustada, temendo pelo o que iam fazer com ela. E quando escutou os passos dos capangas escoarem pelo corredor e chegando até a sala, foi que o desespero começou a tomar conta de seu corpo. Arrepios subiam por cada extensão de pele, acelerando seu coração estava ficando cada vez mais tensa, sentia-se minúscula, e o fato de ser a única americana lhe deixava em uma situação preocupante. Não sabia o que se passava na cabeça daqueles russos.
Suspirou e fechou os olhos assim que deu dois passos para trás, abrindo mais o seu campo de visão, e seus olhos capturaram a bolsa cheia de dinheiro que os capangas seguravam.
— Isso foi tudo o que encontramos, senhor. — um dos homens, o mais barbudo falou.
começou a tremer ao escutar a respiração pesada de , conseguia perceber que ele não estava nada feliz com o que via. E por mais difícil que fosse aceitar, naquele momento o seu apoio era o corpo de Sharapova.
— Está faltando bastante dinheiro, senhor. — o outro respondeu.
suspirou pesadamente, mas agiu rápido ao envolver mais o pescoço de e levantar a cabeça dela para cima para que ficasse com a orelha na altura de sua boca, e tudo que Tate conseguiu fazer, foi agarrar com força o braço do mafioso e tentar inutilmente puxá-lo.
— Onde está o resto do dinheiro? — questionou, apertando com mais força o pescoço dela ao notar que ficou em silêncio.
grunhiu e o ar estava começando a lhe faltar, mas não ia revelar a verdade sobre o que fez com todo aquele dinheiro, iria fazer de tudo para não por na mira dos mafiosos.
No entanto, a pressionou, afastando os cabelos da orelha dela e falando firmemente, com o tom bastante autoritário e sério:
— Sabe essa arma que está grudada na sua cabeça? — pressionou o cano da arma. — Ela está carregada e faminta para que uma de suas balas rasgue o cérebro de alguém. Não quer que seja o seu, não é, ?— os lábios dele tocaram levemente a orelha, causando arrepios em Tate. — E eu... Não costumo ter piedade das minhas vítimas, não pense que será diferente com você. — o hálito quente contra a pele de , estava lhe levando ao delírio.
Tate suspirou, fechando os olhos, temendo por sua vida. Pensou rápido e resolveu que seria melhor revelar a verdade, caso contrário, poderia ser pior se Sharapova resolvesse descobrir por conta própria.
— O usou o dinheiro para pagar o transplante de medula do filho dele... — doía profundamente seu peito ao dizer as palavras. Seus olhos se encheram de lágrimas. — Por favor, deixem a criança em paz. Ele não tem nada a ver com isso. — pediu com a voz afetada pelo desespero e o início do choro.
De repente, em rápidos movimentos obrigou-a a ficar de frente para ele e no instante seguinte a empurrou contra o sofá. sentiu suas costas baterem brutalmente contra o encosto.
Sharapova se inclinou sobre ela, deixando os braços estendidos segurando firmemente no encosto do sofá, deixando-a no meio. sentiu uma tremenda onda de medo subir por seu corpo ao deixar seus olhos se encontrarem com os glóbulos tão de perto e recheados de inimizades e escuridão que lhe causavam medo. parecia um lobo selvagem muito raivoso.
— O mexeu com a pessoa errada. — começou a falar, não quebrando o contato visual. — E ele deveria ter pensado no filho antes de vender o esportivo de um mafioso russo.
segurou as almofadas com firmeza se contraindo contra o sofá ainda o encarando. Queria poder fugir daqueles olhos, mas era quase impossível quebrar o contato visual, era como se houvesse imãs entre eles.
— Confesso que quando vi você na lanchonete, torci para não ser a irmã de . — confessou em baixo tom apenas para ela ouvir.
conseguia ver uma clareza em meio a escuridão dos olhos dele que não conseguia identificar.
então se levantou e deu as costas para .
— Vadim, venha comigo ali fora. — ordenou. — Enquanto vocês dois, levem-na para o quarto e fiquem vigiando para que não fuja, não quero mais nenhum imprevisto para essa noite.
Mas antes que ele saísse, juntou coragem para fazer a pergunta que tanto a estava incomodando.
— Por que você me perseguiu até em casa naquela noite? — gritou com firmeza, sendo o suficiente para Sharapova parar de andar.
Ele se virou para ela com um sorriso atrevido nos lábios.
— Eu não estava perseguindo você. — disse em um tom bastante claro. — Eu estava apenas cuidando do que era meu, senhorita. — explicou-se sentindo que não era sobre aquele momento que ela se referia. — E sobre o beco de lixo... Eu estava apenas querendo checar se a irmã de era a mesma mulher que vi na lanchonete. — soltou um sorriso de lado, continuando: — Apesar de que não é preciso ser tão esperto para notar isso, já que a semelhança entre vocês é grotesca. — e então virou as costas e seguiu para fora da casa, com Vadim ao seu alcance.
Os dois homens se encarregaram de levar como havia pedido. Ao se aproximarem ela logo se levantou e caminhou com eles até seu quarto. Não houve nenhum diálogo durante o percurso e nem precisava. Ao chegar na porta, eles empurraram Tate e logo em seguida fecharam a porta com força, trancando-a por fora para que não saísse, com a absoluta certeza de que não tinha como ela escapar, ficando ambos vigiando o corredor por segurança.
venceu a distância até sua cama e se jogou sobre ela, sendo envolvida pelo lençol macio. Seus olhos finalmente se libertaram e começaram a chorar, e quanto mais o medo e o desespero subiam por todo o seu corpo era que as lágrimas mais saiam. Chorava compulsivamente. Puxou o travesseiro e o abraçou, encarando a fina chuva que caia do lado de fora que deixava algumas gotas no vidro.
— Por favor, ... — começou a dizer para si mesma. — Por favor, não volte para casa hoje, por favor... — implorava em meio aos soluços. — Eu imploro que o te segure aí de alguma forma, por favor... Não venha para casa... — repetiu diversas vezes as palavras com o desejo de que no fundo elas fossem se realizar.
Enquanto isso do lado de fora, se encostou ao capô da Ferrari, retirando o cigarro e o isqueiro do bolso. Colocou entre os dentes e acendeu, enquanto olhava o nada. Assim que tragou pela primeira vez foi que Vadim venceu a distância entre eles, ficando ao lado do mafioso. Até o momento observava seu chefe, tentando entender o que estava acontecendo com ele, sempre que acendia o cigarro era sinal de que alguma coisa estava batucando a sua mente.
Como seu conselheiro de anos, sabia ler perfeitamente como ninguém.
— Você só acende o cigarro quando algo está lhe importunando. — quebrou o silêncio, olhando para o lado e vendo Sharapova soltar a fumaça para cima.
nada respondeu. Vadim insistiu.
— No que está pensando, senhor? — mirou seus olhos na mesma direção que seu chefe e nada encontrou.
Sharapova demorou a responder, tragando e soltando a fumaça vagarosamente.
— Na . — respondeu em russo.
Vadim sorriu de lado.
— Está pensando em poupá-la? — questionou também em russo.
soltou novamente a fumaça para cima e lançou um olhar de canto dos olhos para Vadim. Ficando em silêncio mais uma vez.
— O senhor gostou dela? — Vadim se arriscou em perguntar.
— “Gostar” é uma maneira muito incerta para explicar no que estou pensando, Vadim. — respondeu em americano.
— Então, o que é afinal, senhor?
lhe lançou um olhar de lado e respondeu:
— Que ela é americana. — frisou.
Imediatamente Vadim compreendeu o que ele tanto refletia. Apontou o dedo indicador na direção de Sharapova e abriu um imenso sorriso.
— Saulo não irá gostar nada disso, senhor. — comentou com o sorriso ainda nos lábios.
tragou o cigarro e soltou pelo nariz.
— Mesmo assim significa que é para seguirem com o plano. — as palavras pegaram o conselheiro de surpresa deixando-o confuso.
— Então desistiu de confrontar o seu pai? — questionou incerto do que almejava.
— Não. — foi ríspido. — Mas irei esperar até que peça para ser minha esposa. — levou o cigarro até o lábios e tragou.
— Não está sendo muito convencido quanto a isso, senhor? — tudo que recebeu foi o olhar de repreensão de . — Ela não irá sem motivos pedir para se casar com o senhor.
batucou a própria cabeça, dizendo:
— Tudo já está saindo conforme o meu plano e lhe darei motivos caríssimos para isso. — Vadim ficou confuso. — Espere um pouco e verá, Vadim. A virá correndo para os meus braços. — garantiu bastante convencido.
— Lembre-se, senhor, seja lá o que está pensando, temos a política de não fazer nenhum mal as mulheres e...
— Não irei encostar os dedos nela, se é essa a vossa preocupação. — interrompeu.
Vadim se calou, mas ainda não estava convencido dos planos de seu chefe.
— E qual será exatamente o plano, senhor?
tragou a última vez e entregou o restante para Vadim. Assim que soltou a fumaça, observou o conselheiro aceitando e levando até a boca.
— Esfrie a cabeça Vadim, em breve saberá de tudo. — levou a mão até o ombro do homem a sua frente e deu alguns tapinhas.
— Não pegue tão pesado com tudo isso, . — usou o nome do mafioso em sinal de que estava bastante preocupado com tudo aquilo.
— Meu pai declarou guerra quando decidiu fazer o que fez com minha mãe. — lembrou.
— Lembre-se de que não temos nenhuma certeza do destino final dela, já que não foi encontrado nenhum sinal de Serafina dos Estados Unidos. — o repreendeu. Era um dos únicos a quem ainda ouvia.
— Eu não irei parar até saber a verdade, Vadim. — ditou com os olhos cheios da fúria de vingança. — E somente o infeliz do meu pai pode dizer o que realmente aconteceu. Ele é especialista em agir por debaixo dos panos.
Os punhos de cerraram em raiva. Odiava quando Vadim insistia em remoer todo o seu ódio por Saulo, e por mais que fosse seu conselheiro de confiança, sentia nele algo que parecia ia contra ao seu desejo de vingança.
Ao notar que não estava nem um pouco confortável em discutir aquele assunto, decidiu fumar em silêncio. O herdeiro russo sempre era indescritível quando a conversa envolvia o passado sombrio de sua família. Os Sharapova escondiam demais e sabiam perfeitamente como acobertar algo precioso que poderia chocar o mundo, ainda mais que nos últimos meses estiveram à beira de terem seus segredos revelados ao mundo.
A máfia Hayes fez questão de expor o “tratado de paz” que fez com os Sharapova, causando assim um enorme alvoroço nos noticiários. Na Rússia, Saulo conseguiu convencer de que tudo não passava de rumores doentios dos americanos, já nos Estados Unidos, teve que se encarregar de despejar ameaças contra as imprensas para que parassem de notificar as informações, sendo assim poucas pessoas sabiam sobre o que fizeram com Serafina.
Os Sharapova sempre buscavam manter a descrição.
— O que exatamente pretende fazer com ela, senhor? — Vadim questionou, quebrando o silêncio que mesmo impôs.
— Minha mente fala para fazer muitas coisas, mas no momento prefiro me abster de torturá-la. — seus olhos capturaram o nada a sua frente, apreciando a escuridão do lugar.
— Em outras palavras, digo que já a está machucando. — gesticulou com a mão segurado o cigarro.
— Não. — foi rápido e preciso na resposta. — Não sou eu quem a está machucando, e sim o irmão dele e a porra de vida que leva. — mirou Vadim com os olhos carregados de fúria misturados com a razão. — Confesso que não concordo com o estilo de vida que leva. — complementou.
Vadim sorriu de lado deixando a fumaça sair pelo seu sorriso.
— E honestamente acha que ela deve viver como nós? — quis saber, estudando a expressão no rosto do rapaz.
abriu um sorriso divertido e negou com a cabeça. Vadim também sorriu.
— Não seria nada mal vê-la em um vestido longo e vermelho servindo a máfia Sharapova. — divertiu-se com a imagem que invadiu seus pensamentos.
Vadim soltou um riso de desdém e voltou a fumar. Negou com a cabeça enquanto tragava, já percebendo que havia ficado encantado pela beleza deslumbrante de . Seu interesse foi maior quando descobriu que ela se tratava de sangue americano.
— Senhor, o seu interesse nela é por ser inteiramente americana ou tem algo a mais que mereço saber?
— Sabe que tantos questionamentos me deixam entediado, Vadim. — suspirou, cruzando os braços. — Mas me diga, onde quer chegar através deles?
— O senhor não tem tempo para paixonites ou envolvimentos amorosos. Sabe que precisamos voltar às pressas para a Rússia. — foi direto ao ponto. — Ainda precisamos rever o fato de levarem alguns esportivos conosco.
rolou os olhos e suspirou.
— Você como meu braço direito deveria saber melhor disso do que eu. Parece até que desaprendeu a fazer o seu trabalho. — respondeu rispidamente. — E vê se esfria a cabeça. Está falando muita merda hoje. — deu alguns tapinhas no ombro de Vadim. — O meu único interesse pela é por sua nacionalidade e nada a mais.
Vadim desconfiava que tudo fosse somente pela nacionalidade da mulher, mas poderia ficar ali a noite inteira que nunca iria revelar a verdade por trás de suas reais intenções. Era orgulhoso demais para admitir e também muito enigmático, uma hora poderia estar entusiasmado e na outra indiferente.
— Irei voltar para a casa. Peço que retirem todos os carros daqui, não quero levantar nenhuma suspeita. Fui bem claro, Vadim? — sem nem sequer ouvir a resposta do conselheiro, lhe deu as costas e caminhou com os passos determinados a retornar para a residência.
— Sim, senhor, como vossa excelência preferir. — disse praticamente para si mesmo.
Vadim se virou e encarou Sharapova retornando a casa. Suspirou quando assistiu-o desaparecendo pela porta. Repreendia as atitudes tomadas por com os americanos, achava tudo um tremendo absurdo. No fundo de sua alma, desejava que o rapaz ficasse em paz com seus pensamentos, mas a cada dia que se passava, parecia que estava cada vez mais dominado por sua vingança que tanto o atormentava. A briga entre as raças não iria levar a nada no final, pois nunca mais veria Serafina para lhe chamar de mãe.
Sentiu pena da pobre , ela não tinha culpa de nada no meio daquele tormento.
∆∆∆

As horas passaram que nem mesmo percebeu, aquela noite estava sendo a sua melhor noite dos últimos dias. Estava bastante feliz por finalmente ver despertando com seus olhos, sensíveis a luz, parecendo cansados, mas profundamente aliviados. A cirurgia havia sido um sucesso e por mais que os médicos ainda estivessem receosos para anunciar que o garoto estava fora de perigo, o simples fato de vê-lo acordando já era o suficiente para acender aquela minúscula esperança que ainda possuía.
Assim que Charlotte chegou para trocar o turno dos acompanhantes com o irmão, se recusava a voltar para casa. Ficar ao lado do filho e assistindo pouco a pouco sua lenta recuperação era tudo que mais desejou, mesmo que ainda fosse precisar frequentar o hospital um bom tempo para realizar exames rotineiros, vê-lo progredindo já era o bastante. Teria uma maravilhosa noite de sono depois de saber que finalmente o transplante tinha dado certo.
Mas ainda queria chegar e conversar com , sentia que alguma coisa tinha acontecido com ela.
Durante o caminho que percorria, tentava pensar no porquê estava visualizando todas as suas mensagens e não a respondia nenhuma, nem mesmo os áudios tinha escutado. Talvez estivesse bastante ocupada na lanchonete e tivesse deixado na pressa o celular desbloqueado no aplicativo dentro da bolsa. Porém pelo horário em que saiu do hospital, era para o turno já ter terminado, então não conseguia pensar em um motivo mais explicativo, a não ser que havia acontecido alguma coisa com ela.
No entanto, tentava não pensar no pior, pois para aquela noite prometeu que somente os bons pensamentos adentrariam sua mente.
sorriu por todo o percurso. Um sorriso abobalhado. Não conseguia parar de pensar que depois de todo o sofrimento que passou, finalmente teria o filho nos braços bem e com muita saúde. Além disso, outro pensamento se apossava de seus neurônios, o fato de ter conseguido pagar o transplante – mesmo que não tivesse sido da maneira mais limpa – estava fazendo-o questionar sobre sua permanência definitiva nas corridas. Havia muitos pontos positivos, sendo um deles a certeza de que nunca mais iriam passar por necessidades, pois a cada dia lucraria cada vez mais.
E esses pensamentos aclamavam as lembranças dos dias em que disputava; em uma esplêndida corrida, magnífica com uma Ferrari azul marinho como as águas do Oceano Pacífico. Conseguia lembrar-se dos gritos dos torcedores e dos vastos elogios que recebia dos outros corredores.
Estava tão envolto em seus pensamentos que nem havia notado que estava a poucos passos de sua casa. Aproximou-se da residência, sentindo o coração acelerado, em ritmo de ansiedade, estava bastante ansioso para ver a reação de quando contasse pessoalmente todas as novidades sobre . Ela choraria e agradeceria de joelho por aquele milagre.
Mas sentia que a cada passo, um pressentimento ruim e muito pesado se sentava em seus ombros. Ao chegar mais perto da porta, foi quando seu sorriso morreu. Olhou ao redor encontrando a rua deserta, sem sinal de movimentos. Engoliu em seco, hesitando ao empurrar a porta que estava entreaberta. nunca iria deixar a porta aberta, então achou entranho encontrá-la daquela maneira.
Tudo estava em completo silêncio e escuridão parecendo que sua irmã não havia chegado.
Respirou fundo e decidiu empurrar, torcendo para que não tivesse acontecido nada com e o restante do dinheiro que estava em seu quarto, debaixo da cama. Os primeiros passos foram receosos e cuidadosos, se assemelhando ao silêncio. Sentiu novamente o mau pressentimento ao ver que a luz da sala era a única acessa. Engoliu em seco antes de prosseguir, mas a cena que encontrou logo depois nunca mais iria sair de sua mente...
estava sentada no sofá com as mãos e pernas amarradas e sua boca com um pano lhe impedindo de gritar. Quando ela viu o irmão tentou gritar para que saísse dali, tendo os olhos transmitindo muito medo, mas nada saia por seus lábios, apenas sofridos múrmuros. ficou incrédulo com a cena que via, no entanto, seu corpo congelou assim que sentiu o cano gelado posicionado atrás de sua cabeça com direito a ouvir a arma sendo destravada.
arregalou os olhos e ficou inquieta, tentando de soltar, mas foi inútil.
— Finalmente nos encontramos de novo, Tate. — a voz do mafioso escoou pelo local.
estremeceu. Sabia o porquê estava ali.
De repente, sentiu uma dor imensa na nuca e em seguida no meio das costas. tinha o golpeado com o cotovelo com toda a fúria se transformando em força. Seu corpo caiu de joelhos e foi então que os outros mafiosos apareceram com suas armas miradas contra o rapaz, incluindo a de Sharapova atrás de sua cabeça. Estava cercado.
tentou gritar, contraindo a expressão em sofrimento. E ela ficou mais inquieta quando assistiu chutando pelas costas e o corpo do irmão encontrando o chão brutalmente, segurando os grunhidos no fundo de sua garganta.
— Eu exijo o meu esportivo de volta. — pisou nas costas de para impedi-lo de levantar, ainda com a arma mirada para a cabeça do rapaz.
— Eu... Não posso fazer isso. — revelou, encarando a irmã.
— Me diga o porquê você não pode fazer isso? — forçou o pé, escutando um gemido de dor. Ele sabia o porquê, mas queria escutar da boca de .
— Por que... — hesitou, ainda com os olhos atentos a . Ela virou levemente a cabeça para o lado, com os olhos implorando para que dissesse o que queria ouvir. — E-eu vendi o Koenigsegg CCXR Edition para pagar o tratamento do meu filho. — confessou e fechou os olhos, sentindo forçando cada vez mais o pé contra suas costas.
Sharapova sentiu a ferocidade invadir cada pedacinho do seu corpo com a revelação. Por mais que já tivesse dito a verdade, ouvir pela boca de o consumiu mais ainda.
— Meu filho precisava desse transplante... Vocês não entendem. — falou com a voz desesperada.
riu e forçou mais o pé, se isso ainda era possível.
— Eu não dou a mínima para o seu filho. — foi ríspido. — O que eu quero é o meu dinheiro, e não uma história de quinta categoria sobre o câncer de uma criança! — as palavras doeram nos irmãos.
rapidamente ergueu o olhar para , vendo que ela tentava de todas as maneiras se soltar das cordas inutilmente.
— Me perdoa, . — ela o encarou, iniciando um contato visual. — Me perdoa por enfiar você no meio disso... Por favor, ... — ela deixou a lágrimas saírem por seus olhos. — Espero que um dia consiga me perdoar...
ouviu as palavras de , era quase impossível de não ouvir, e seus olhos foram instantaneamente mirados sobre , a encontrando chorando e com a expressão mais destruída do mundo. Ficou imóvel encarando a mulher, lembrando que o combinado consigo mesmo era que ela não sofresse por algo que não tinha culpa, então não era justo fazê-la assistir o irmão sendo torturado. Retirou o pé das costas de , deixando seus capangas sem entender nada.
Afastou-se em passos largos, chamando Vadim com os dedos para que o acompanhasse até a entrada da sala.
— Deem uma pequena lição nele. — sussurrou em russo para o conselheiro.
— Na frente dela, senhor? — encarou a mulher antes de voltar seu olhar para Vadim.
— Se estou mandando, obedeça. — foi arrogante, se virando de frente para o irmãos e ficando com os braços cruzados.
Vadim, sem ter escolha, ordenou o desejo de para os outros homens que não hesitaram em obedecer. Os movimentos dos capangas imediatamente deixaram desesperada. Ela começou a puxar brutalmente as cordas, sentindo os pulsos ardendo pelo atrito com sua pele, se debatendo loucamente. grunhiu a cada chute que recebia e os golpes eram dados sem nenhuma piedade.
Tate entrou em pânico completamente desesperada, assistindo o irmão sendo golpeado. se virou de barriga para cima, segurando a região das costelas esquerdas, recebendo mais chutes. Seu rosto denunciava todo o sofrimento do momento.
— Mexeram com o mafioso errado. — disse em bom tom, assistindo um dos capangas chutando pela lateral da barriga fazendo-o grunhir contra o chão.
A tortura persistiu por longos minutos. tentava gritar para que parassem, mas o pano em sua boca impedia de sair uma única palavra. Estava sendo horrível assistir e não conseguir fazer nada para ajudar, doía no fundo de sua alma, e quanto mais doía mais lágrimas escorriam. Em determinado momento de desespero, teve a ideia de olhar para , encontrando-o se deliciando com a cena, imediatamente sentiu muita raiva do cretino infeliz. No entanto, esperou que ele percebesse que estava sendo observado e quando o fez, implorou profundamente com a linguagem dos olhos para que tudo aquilo acabasse.
não conseguia quebrar o contato visual, era como um encantamento que o obrigava a olhar. Portanto, tudo foi quebrado quando Vadim ficou atrás dela e puxou sua cabeça, pressionando um pano branco contra seu rosto. se debateu, mas não conseguiu evitar que inalasse a substância. O cheiro fez seu cérebro ficar confuso e sua visão embaçada, além de sentir o corpo ficando mole à medida que puxava o ar para sustentar os pulmões.
O último som que ouviu, antes de tudo escurecer, foram das palavras de dizendo o quanto os americanos só serviam para dar trabalho.



Continua...



Nota da autora: Oiie! Tudo bem como vocês? Venho trazer mais uma atualização, espero que gostem e não me batam no final.... Espero que tenha tido uma boa leitura, beijinhos!!! Até o próximo!!
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