Capitulo Único
A cozinha parecia um campo de batalha. Havia farinha na camisa dela, açúcar espalhado pela bancada e uma travessa abandonada que, definitivamente, não deveria estar pendurada na ponta da mesa daquele jeito.
Era madrugada. Faltavam três dias para o Natal. E estava prestes a surtar.
A receita da torta da avó — o carro-chefe da pequena confeitaria da família — simplesmente tinha desaparecido. Um papel amarelado, rabiscado à mão, guardado dentro de um caderno antigo. Ela jurava ter deixado na gaveta certa. Jurava. Mas agora estava encarando a gaveta aberta como se ela fosse responder onde diabos tinha enfiado.
— Não, não, não… — ela murmurou, puxando mais coisas para fora. — Isso não pode estar acontecendo hoje.
A campainha tocou.
Ela congelou. Quem, às duas da manhã, tocava campainha?
Já imaginou que fosse algum vizinho reclamando do barulho, porque ela tinha derrubado a terceira forma no chão naquela noite.
Mas quando abriu a porta…
Lá estava ele. , o famoso - principalmente entre a mulherada - Chef .
O chef do restaurante ao lado. O homem que ela evitava só pela paz mental. Bonito demais, confiante demais, aquele sorriso largo demais, que parecia saber exatamente o efeito que causava. Cabelos escuros ligeiramente bagunçados, um avental pendurado no ombro e um casaco de lã que deixava claro que ele tinha acabado de atravessar a rua.
— Você tá viva — ele disse, dramático, segurando o peito. — Achei que tinha explodido alguma coisa. Seu som de panela caindo rivalizou com fogos de artifício.
Ela fechou os olhos. Claro. Claro que era ele.
— O que você quer?
— Meu forno quebrou. — Ele ergueu um objeto nas mãos. Uma travessa inteira de massa crua. — Preciso assar isso pra amanhã. Posso usar o seu?
— …agora?
— Agora.
Ela abriu a boca para dizer que não, que estava ocupada, que estava sob uma crise digna de chorar no chão.
Mas ele a encarou com aquele olhar dramático e perfeitamente calculado.
— Por favor? — ele insistiu, inclinando um pouco a cabeça, numa pose tão encantadora que parecia feita sob encomenda. — Prometo não bagunçar nada. Juro pela minha beleza.
— Ah, nossa. Aí sim fico tranquila.— soltou um suspiro debochado.
Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo.
Quando entrou na cozinha, percebeu imediatamente o caos.
— Uau. — arqueou a sobrancelha. — Isso aqui foi um rato com acesso à cafeína ou você tentando cozinhar?
— Perdi a receita da minha avó.— cruzou os braços.
— Então vamos achar. — O sorriso dele desfez-se por um instante. Depois voltou — mais suave dessa vez.
— Não pedi sua ajuda.
— E eu não pedi sua permissão. — deu de ombros. — Mas se eu ignorar isso aqui e só assar minha massa do lado, vou ficar com peso na consciência. Você está com cara de quem já chorou duas vezes e ameaçou um saco de farinha.
— Eu não chorei.
— Certo. Só suou pelos olhos. — Ele a observou com atenção - aquele tipo de atenção que desmontava.
virou de costas para esconder o riso quase inaudível.
Ele pegou o avental dela e amarrou atrás da cintura dela como se fosse natural, como se fizesse aquilo todos os dias.
— Vamos reconstruir a receita — disse, aproximando-se da bancada. — Do jeito que sua avó fazia. Você lembra do gosto, não lembra?
Ela engoliu seco.
Claro que lembrava.
Natal simplesmente não existia sem aquela torta.
— Lembro — murmurou.
Ele sorriu, como se fosse exatamente a resposta que esperava.
— Então vamos fazer juntos. — Ele ergueu a mão para um high-five. — Pelo bem da torta, da tradição… e do meu ego culinário.
bateu a mão na dele, sem saber por que.
— Mas só porque estou desesperada — ela avisou.
— Ótimo. Eu adoro mulheres desesperadas.
arregalou os olhos, chocada — até soltar uma gargalhada linda, daquela que enche o ambiente.
— Tô brincando! — ele disse, rindo. — Deus, seu rosto vale ouro.
Ela bufou, mas o canto da boca ameaçou sorrir.
Ele abriu o armário dela como se estivesse em casa.
— Então, chefe… — disse, com um olhar que misturava charme, provocação e algo que ela não conseguia decifrar. — Vamos salvar esse Natal?
E pela primeira vez naquela madrugada caótica…
Ela achou que talvez fosse possível.
colocou a tigela na bancada com um estrondo suave, ainda tentando controlar a avalanche de emoções da noite. , por outro lado, parecia completamente confortável — como se cozinhar na cozinha dela às duas e pouco da manhã fosse o ápice da normalidade.
— Certo — ele disse, estalando os dedos. — Vamos começar pelo básico: textura. Como era a massa? Mais firme? Mais cremosa?
fechou os olhos por um instante, tentando puxar a lembrança exata. O cheiro. A sensação. O som da avó batendo a colher na borda da tigela. — Era macia — disse enfim. — Não muito pesada. E tinha um cheiro… quente. Aconchegante.
— Aconchegante? — ele repetiu, já anotando. — Ok, isso não ajuda nada, mas vamos fingir que sim.
— Você pediu detalhes. — Ela revirou os olhos.
— Eu pedi detalhes úteis. — Ele pegou uma colher e passou dentro do pote de manteiga, cheirando como um especialista. — “Aconchegante” não é uma categoria culinária. Mas… — piscou — eu aceito.
Ela tentou não sorrir.
Ele preparou alguns ingredientes, medindo tudo com precisão dramática. Fazia barulhos exagerados ao misturar, dava pequenas dancinhas quando encontrava algo que queria, e narrava a própria ação como se apresentasse um programa culinário.
— E agora, senhoras e senhores, vou adicionar a essência da perfeição: baunilha — ele disse, exibindo o frasco.
— Você sempre foi assim? — segurou uma risada.
— Assim como?
— Teatral. Confiante. O centro do universo.
— Ah — sorriu, satisfeito. — Então você percebeu.
— Difícil não perceber.— Ela bufou.
— E você… sempre foi tão séria? — Ele inclinou o rosto para o lado, aproximando-se um pouco demais.
não esperava a pergunta. Nem o tom suave que acompanhava.
— Não sou séria — ela rebateu. — Só estou cansada. Minha avó morreu faz pouco tempo. É o primeiro Natal sem ela. E eu… queria que fosse perfeito.
Ele parou.
Por alguns segundos, ficou em silêncio — o que era raro vindo dele.
— Sinto muito — disse então, genuíno. — Não sabia.
Ela engoliu o nó na garganta.
tocou de leve o ombro dela, num gesto rápido, quase tímido, mas cheio de respeito.
— Vamos fazer a torta do jeito que ela faria — ele disse. — Nem que a gente passe a noite inteira tentando. Prometo.
não sabia se era o toque, as palavras, ou o jeito confiante que ele usava para consolar sem ser invasivo. Mas algo nela relaxou.
— Ok — ela murmurou. — Vamos tentar outra vez.
Eles testaram a primeira versão da massa. Não deu certo. A segunda queimou por baixo. A terceira ficou crua no meio.
Na quarta tentativa, provou a massa crua na ponta do dedo e fez um som dramático de aprovação.
— Isso! Isso aqui está perfeito! — anunciou, como se tivesse descoberto o segredo do universo. — Toma.
Ele aproximou o dedo dela.
hesitou.
— Prova — insistiu, olhando direto nos olhos dela.
O toque foi rápido, apenas a ponta da língua na massa. Mas o olhar dele, ah… esse durou mais do que deveria.
— Tá quase — ela disse, recuando um passo.
— Como assim “quase”? — ele abriu os braços. — Isso é praticamente arte.
— A torta da minha avó era melhor.
— Melhor do que eu? Impossível. — colocou a mão no peito, fingindo indignação.
— Não é competição.— riu, finalmente entregando-se por um segundo.
— Tudo é competição — ele respondeu, servindo a massa na forma. — E eu vou ganhar. Pelo menos dessa avó na sua memória.
balançou a cabeça, mas estava sorrindo de novo — aquele sorriso largo, irônico, cheio de luz.
A cozinha já tinha cheiro de algo bom. Algo que lembrava infância, lareira… e talvez algo novo também.
Enquanto esperavam a torta assar, ela percebeu que ele estava observando-a em silêncio.
— Que foi? — ela perguntou.
— Nada. — Ele apoiou os cotovelos na bancada, o queixo nas mãos. — Só estou pensando que você fica muito bonita quando sorri.
Ela ficou imóvel.
O rosto quente.
O coração batendo forte.
percebeu — claro que percebeu — e sorriu ainda mais.
— Não precisa agradecer — ele acrescentou, brincalhão.
— Eu não ia agradecer.
— Hum. Então ia dizer o quê?
— Que você pega muito pesado no charme.— Ela cruzou os braços, tentando recuperar o controle.
— Não pego. — Ele arqueou a sobrancelha. — O charme sou eu. Só existo.
Ela bufou, mas riu baixinho.
O timer do forno apitou.
Eles se aproximaram ao mesmo tempo. Ombro com ombro.
Ele abriu o forno devagar, como se fosse um momento sagrado.
A torta estava dourada. Cheirosa. Acolhedora.
engoliu o ar, emocionada.
— Parece… — ela começou.
— A receita da sua avó — completou com gentileza.
Ela o olhou. Realmente olhou.
E entendeu que ele estava ali por escolha.
Por ela.
— Obrigada — murmurou.
Ele deu um sorrisinho satisfeito, suave dessa vez.
— Ainda não terminou — disse. — A gente tem que provar.
Ela pegou a faca.
Ele colocou a mão por cima da dela, num gesto completamente natural.
— Juntos — ele disse.
E o Natal começou a parecer possível outra vez.
O pedaço de torta fumegava entre eles.
segurava o prato com as duas mãos, respirando fundo. parecia prestes a fazer um discurso inspirador sobre o significado universal de sobremesas natalinas.
— Ok — ele disse, ajeitando o cabelo com exagero teatral. — Momento da verdade. Meu talento contra a memória afetiva da sua avó. É quase injusto pra ela.
— Você fala como se fosse invencível. — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Não é culpa minha ser perfeito.
— Aham. — deu um passo para longe. — Come primeiro, vaidoso.
— Claro. Se for ruim, morro eu primeiro. Que nobre da sua parte.
tentou não rir, mas era inevitável. sempre parecia dizer exatamente o que arrancava um sorriso dela, mesmo quando ela tentava manter a postura.
Ele pegou o garfo, espetou um pedaço e, antes de levar à boca, fechou os olhos como se estivesse prestes a receber uma revelação divina.
A mordida aconteceu.
E, no mesmo segundo, os olhos dele se arregalaram.
congelou.
— E aí? — perguntou, nervosa. — Ficou ruim? Tá estranho?
mastigou devagar, segurando o suspense como se aquilo fosse um reality show.
— Hm… — ele murmurou. — Eu não sei.
— Não sabe?! Como assim você não sabe?!
— Espera. — Ele ergueu um dedo. — Tudo na vida precisa ser apreciado. — Quando engoliu, respirou fundo. — É realmente boa — disse, enfim. — Mas não vou falar mais nada até você provar.
pegou o garfo, com o coração batendo mais rápido do que gostaria de admitir.
Um pedaço pequeno.
Uma mordida curta.
O sabor preencheu a boca.
E, por um momento, ela esqueceu de respirar.
Doce, mas não demais.
A massa macia.
O toque exato de especiarias.
O cheiro…
O cheiro era exatamente aquele.
Aquele que ela pensou nunca mais sentir.
Ela pousou o garfo devagar.
— É igual — sussurrou, com a voz embargada. — Igualzinho ao da minha avó.
sorriu. Um sorriso suave, sem brincadeiras dessa vez. Cheio de orgulho, mas principalmente de cuidado.
— Eu sei — disse, baixinho. — Eu vi no seu rosto.
E antes que pudesse evitar, lágrimas silenciosas escaparam. Tentou limpar rápido, envergonhada.
— Desculpa — ela murmurou. — Eu tô só… cansada, eu acho.
— Ei. — se aproximou devagar. — Não precisa pedir desculpa. É Natal. É saudade. É muita coisa junta.
Ele estendeu a mão e, com delicadeza inesperada nele, enxugou uma lágrima no canto do olho dela.
O toque foi leve. Mas profundo.
— Além do mais — completou, sorrindo de lado — chorar provando comida que eu fiz é o melhor elogio possível. Pode continuar. Eu adoro ser dramaticamente elogiado.
— Idiota. — Ela soltou uma risada entre soluços.
— Um idiota talentoso.
O clima mudou.
Suave.
Quente.
Uma aproximação que parecia inevitável.
Ele ainda estava perto. Mão ainda perto do rosto dela. Olhar lento, observador, quase carinhoso demais para o jeito provocador que ele normalmente usava.
— Você… — ele começou.
Mas não terminou.
Porque, naquele momento, a energia da casa piscou uma vez.
Duas.
E apagou completamente.
A cozinha mergulhou no escuro.
— Ah, ótimo — resmungou. — Falta de luz é tudo que eu precisava hoje.
— A culpa é minha — ele disse, muito sério.
— Como assim?
— Minha beleza sobrecarregou o bairro. Acontece.
— Você não existe. — Ela quase jogou o prato nele.
— Não mesmo. — Ele riu. — Mas calma. Eu tenho uma lanterna no celular.
O celular também estava desligado.
— Ok… talvez eu esteja mais encalhado que você. — suspirou dramaticamente.
— Eu não tô encalhada!
— Claro que não — ele disse, sorrindo no escuro. — Tô só te provocando. Vem cá.
pensou em protestar.
Mas o ambiente estava escuro, silencioso, e a única luz vinha da janela — uma claridade fraca da neve começando a cair lá fora.
segurou a mão dela.
Natural.
Quente.
Segura.
— Senta perto — ele disse. — Até a luz voltar.
sentou. se acomodou ao lado, ombro tocando o dela de leve.
Por alguns segundos, apenas silêncio.
E então, ele falou baixinho:
— Você sabe… — começou, com a voz mais suave do que ela já tinha ouvido nele — você merece um Natal bonito. Não só por causa da torta. Mas porque você também é… aconchegante.
virou o rosto para ele, surpresa.
— Aconchegante não é uma categoria culinária — ela retrucou, ecoando a frase dele.
— Mas é uma categoria de gente. — Ele sorriu no escuro.
O coração dela tropeçou dentro do peito.
E quando o vento soprou do lado de fora, fazendo a janela tremer, ela percebeu que quebrar a madrugada ao lado dele… estava se tornando o melhor pedaço daquela noite caótica.
O tipo de pedaço que poderia virar lembrança.
Ou algo mais.
A cozinha estava tomada pelo sossego escuro da madrugada, iluminada apenas pela neve que refletia um brilho fraco através da janela. Lá fora, o vento zunia; lá dentro, o silêncio era quente demais.
ainda segurava a mão dela.
E não tirou.
— Sabe o que é engraçado? — ele disse, com a voz baixa, quase confessional.
— O quê?
— Não achei que ia terminar a noite sentado no chão, no escuro, dividindo uma torta com alguém… que eu conheci de verdade hoje.
Ela desviou o olhar para a torta sobre a bancada.
— É — murmurou. — Nem eu.
— Mas… — ele deu um leve puxão na mão dela, obrigando-a a encará-lo — não estou reclamando.
O coração dela deu um salto.
O dele… ela tinha certeza de que estava firme, confiante, do jeito característico dele. Mas alguma coisa nos olhos — mesmo na meia-luz — entregava algo mais profundo. Algo novo.
— Você sempre fala assim com todo mundo? — ela perguntou, tentando se proteger com humor. — Seduz todo mundo com torta e conversa bonita?
— Não. Só quando vale a pena. — Ele soltou uma risada curta, arrastada.
Ela prendeu a respiração.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a energia voltou de repente, com um estalo que iluminou tudo de uma só vez.
Ela piscou, ofuscada pela luz. Ele piscou junto.
Mas nem um dos dois se afastou.
Eles estavam tão perto que ela conseguia sentir o cheiro do perfume dele — limpo, doce, quente, tipo algodão recém-lavado misturado com inverno.
Ele inclinou a cabeça.
Apenas um pouco.
Como se estivesse avaliando se podia ir mais perto… ou se devia.
— A luz voltou — sussurrou, sem saber por que sussurrava.
— É — ele respondeu, igualmente baixo. — E eu ainda não me mexi. Estranho, né?
Ela engoliu seco.
aproximou um pouco mais — milímetros, só — num movimento lento, cuidadoso, como se estivesse pedindo permissão sem palavras.
— Se continuar assim… — começou, mas não conseguiu terminar.
— Assim como? — provocou, a voz mais grave que antes.
— Perto. — Ela fez um gesto vago.
Um sorriso apareceu no canto da boca dele. Aquele sorriso. O típico dele, cheio de charme, mas agora… com algo diferente.
— Mas você não se afasta — observou.
— Você também não.
Ele inclinou mais um pouco.
Agora, ela conseguia sentir a respiração dele.
— Talvez eu não queira — ele admitiu, baixinho.
A confissão atingiu ela diretamente no peito.
E quando ela abriu a boca para responder — qualquer coisa, não importava o quê — a panela que estava sobre o fogão estalou alto, fazendo os dois pularem para trás ao mesmo tempo.
— A-Ah, ótimo — ela gaguejou, levando a mão ao peito. — Obrigada, panela, salvando vidas desde sempre.
— Perdi uns cinco anos de vida. — levou a mão ao coração também, fazendo drama.
— Você é muito exagerado.
— Eu quase morri! — ele insistiu, apontando para a panela. — A coisa ia me atacar.
balançou a cabeça, rindo, deixando o clima impedir que o momento fosse longe demais — mas não tão longe que quebrasse tudo.
— Vem. Antes que sua cozinha resolva assassinar nós dois. — se levantou, estendeu a mão para ajudá-la a levantar também.
segurou a mão dele e se levantou. Ele não soltou.
— Então… — ele disse, tentando recuperar o charme, mas ainda com as bochechas levemente coradas — onde eu durmo?
— Como assim “durmo”? Você não vai embora? — Ela piscou. — Seu restaurante é bem ali na frente. — Apontou para o estabelecimento com as luzes apagadas à frente.
— Tá nevando. Forte. — Ele apontou para a janela. — E eu sou lindo demais pra morrer congelado.
Ela riu tão alto que teve que segurar a boca.
— Vamos subir então, você vai dormir na sala — ela disse. — Nem tente pedir mais.
— Mas eu nem pedi.
— Ainda.
— Verdade. — Ele abriu um sorriso largo.
pegou algumas almofadas, os dois andando juntos pelo corredor estreito. As mãos se soltaram, mas a presença dele continuava colada na dela, de um jeito que ela já tinha aceitado que era perigoso.
parou no meio da sala.
— Ei — ele chamou suavemente.
se virou.
Ele estava observando ela de um jeito indecente e inocente ao mesmo tempo.
— Obrigado por me deixar ficar — disse.
— Eu… não deixei. Você se convidou.
— Verdade. — Ele deu um passo para trás, teatral. — Mas você não me chutou.
Ela mordeu o lábio.
— Boa noite — ela disse.
— Boa noite — ele respondeu… depois acrescentou, devagar, com aquele sorriso que derrubava qualquer defesa: — e, só pra constar… se a panela não tivesse interrompido, eu teria chegado mais perto.
parou de respirar.
— Dorme, vai — ela conseguiu dizer, fugindo para não derreter ali mesmo.
— Só se você prometer tentar não me beijar enquanto durmo.
— EU QUE?!
— Boa noite, séria. — jogou a almofada no rosto, rindo.
Ela bateu a porta do quarto antes que ele visse o sorriso enorme que ela estava tentando esconder.
acordou com uma sensação estranha.
Algo quente.
Algo… cheiroso.
Não era normal sua casa cheirar tão bem logo cedo, quando ela ainda estava na cama.
. Aliás, não era normal a casa cheirar a café fresco, manteiga derretida e… panquecas? Ela dificilmente fazia panquecas para seu café da manhã, geralmente saia correndo para a confeitaria.
Abriu os olhos devagar.
O cobertor pesado ainda estava sobre ela. Tinha esquecido que estava dormindo no seu sofá, pelo menos deveria estar, mas aparentemente estava cozinhando. teve certeza pelo som vindo da cozinha.
Cantando.
Desafinada.
meio Ridícula.
E, familiar.
— Não… — sussurrou, passando a mão no rosto enquanto o pânico e a incredulidade se misturavam. — Ele não acordou antes de mim. Ele não acordou antes de mim. Ele não… — Falava aquilo enquanto calçava as pantufas e ia para o outro cômodo.
— Bom dia, dorminhoca! — ele cantou, literalmente cantou, surgindo na porta da cozinha, antes que ela alcançasse o cômodo, com uma espátula na mão, o cabelo desgrenhado daquele jeito que denunciava que ele tinha acabado de acordar também, mas fingia que sempre estava impecável.
piscou algumas vezes. Era impossível ele ser lindo daquele jeito logo de manhã, ela mesmo parecia uma indigente.
sorriu como se fosse o dono da casa.
— Você… — ela apontou para ele, depois para a cozinha, depois para a própria cabeça, porque nada fazia sentido daquela cena. — O que você está fazendo?
— Nosso café da manhã. — Ele voltou para o fogão, a voz animada demais para o horário. — Aliás, você dorme roncando baixinho. Fofo, mas nada profissional.
— EU NÃO — Ela ficou boquiaberta.
— Ronca sim — ele disse, mexendo a panqueca. — Parece um gatinho gripado.
Ela jogou o primeiro pano de prato que achou pela frente, mas errou.
sorriu de canto, aquele sorriso perigoso que avisava que ele se divertia demais provocando ela.
— Relaxa — ele completou. — Você estava exausta. E como eu acordei cedo porque o sofá é pequeno demais pra minha beleza, resolvi fazer café da manhã. Considere um pagamento pelo abrigo.
— Você sabe que não precisava. — Ela cruzou os braços, tentando não sorrir.
— Sei — ele deu de ombros. — Mas quis.
Silêncio.
Dos tranquilos.
Dos perigosos.
Ela desviou o olhar.
Foi então que uma batida forte ecoou na porta da frente.
Os dois se sobressaltaram.
— Você está esperando alguém? — ele perguntou.
— Não.
Os dois desceram as escadas e ela abriu a porta… e congelou.
Literalmente.
Um Papai Noel — de barba torta, roupa amassada e carregando um saco de presentes completamente aberto — estava na porta com o maior desespero que ela já vira em um homem adulto.
— Desculpa — ele arfou — mas alguém aqui sabe arrumar uma bicicleta infantil? A roda caiu. CAIU. A criança mora duas ruas acima. Eu tenho cinco minutos antes dela acordar. Eu não posso estragar o Natal dela, moça. Eu não posso!
piscou, sem reação.
, por outro lado, entrou imediatamente no modo herói dramático de filme natalino trash.
— Deixa comigo, bom velhinho — ele disse, arrancando a bicicleta das mãos do Papai Noel. — Essa criança vai ganhar o melhor Natal da vida. Eu sou lindo, mas também sou útil. Às vezes.
suspirou, mas sua boca já estava sorrindo sem ela perceber.
levou a bicicleta para o chão da confeitaria e começou a mexer como se fosse mecânico de longa data.
observou, impressionada (e um pouco irritada por estar impressionada).
— Você sabe mesmo o que está fazendo? — ela perguntou.
Ele nem levantou o rosto.
— Confia. — Apertou um parafuso com uma moeda. — Cresci desmontando coisas.
— Por isso você era um terror na escola?
— Eu era um gênio incompreendido.
— Deus abençoe vocês. — O Papai Noel fungou emocionado.
— A gente tenta — ele respondeu, testando a roda. — Pronto. Perfeita. A criança nem vai saber que quase perdeu o Natal.
O bom velhinho abraçou os dois ao mesmo tempo (um abraço meio fedido de spray de neve e desesperança), agradeceu como se eles tivessem salvado a humanidade e saiu correndo rua acima.
A porta fechou.
Silêncio.
Não o silêncio confortável.
O outro.
O carregado.
Ele olhou para ela.
Ela olhou para ele.
Ele estava ainda de joelhos no chão, as mãos nas laterais da bicicleta, o cabelo caindo nos olhos, a respiração um pouco acelerada.
sentiu algo quente subir pelo peito.
se levantou devagar.
Eles estavam perto demais outra vez.
— Então… — ele disse, a voz bem mais baixa — Você toma café com ou sem açúcar?
Ela tentou responder, mas seu corpo decidiu travar.
Ele deu um passo.
Ela não recuou.
ergueu a mão e tirou um fiapo de neve falsa que tinha ficado preso no ombro dela por causa do abraço do Papai Noel.
Foi um toque tão pequeno… mas que acendeu tudo.
— Se você continuar me olhando assim… — ele murmurou.
— Assim como? — ela respondeu, a voz saindo mais suave do que pretendia.
— Como se estivesse pensando no que quase aconteceu ontem. — Ele sorriu, lento, perigoso.
prendeu a respiração.
aproximou o rosto — devagar, cuidadoso, pedindo permissão sem pedir.
A mão dele pousou na cintura dela.
A dela subiu até o peito dele sem que ela tivesse decidido nada.
— Eu vou te beijar agora. Se você não quiser, me empurra. — Ele sussurrou
Ela não empurrou.
Então ele beijou.
Não como no cinema.
Mas como duas pessoas que seguraram vontade demais.
Calmo no começo, depois quente, depois inevitável.
Quando se afastaram, ela estava sem ar.
Ele também.
— Tá. Isso… não foi culpa da panela dessa vez. — Ele encostou a testa na dela, rindo baixinho.
Ela deu um tapa suave no peito dele.
— Precisamos ir — ela disse, com a voz trêmula. — As tortas, as entregas, as reservas no seu restaurante… é Natal. Você sabe como é.
— Sim. E o técnico do meu forno chega em meia hora. Se ele não vier, eu vou chorar. Literalmente. No chão. Igual uma criancinha que ficou sem a bicicleta. — Ele suspirou profundamente, teatral.
Ela riu, o coração ainda correndo.
Ele pegou o casaco.
Mas antes de sair, virou-se.
— Não faz aquilo que você faz — ele disse.
— Aquilo o quê?
— Fingir que nada aconteceu.
Ela ficou quieta.
— Porque aconteceu — ele completou, dando aquele sorriso que entrava debaixo da pele. — E vai acontecer de novo, se você quiser.
sentiu o rosto queimar.
abriu a porta.
— Te vejo à noite, confeiteira.
— Quem disse que eu vou te ver?
— Eu disse.
E foi embora.
Deixando neve no tapete, cheiro de café…
e um beijo que ainda ardia nela.
Era madrugada. Faltavam três dias para o Natal. E estava prestes a surtar.
A receita da torta da avó — o carro-chefe da pequena confeitaria da família — simplesmente tinha desaparecido. Um papel amarelado, rabiscado à mão, guardado dentro de um caderno antigo. Ela jurava ter deixado na gaveta certa. Jurava. Mas agora estava encarando a gaveta aberta como se ela fosse responder onde diabos tinha enfiado.
— Não, não, não… — ela murmurou, puxando mais coisas para fora. — Isso não pode estar acontecendo hoje.
A campainha tocou.
Ela congelou. Quem, às duas da manhã, tocava campainha?
Já imaginou que fosse algum vizinho reclamando do barulho, porque ela tinha derrubado a terceira forma no chão naquela noite.
Mas quando abriu a porta…
Lá estava ele. , o famoso - principalmente entre a mulherada - Chef .
O chef do restaurante ao lado. O homem que ela evitava só pela paz mental. Bonito demais, confiante demais, aquele sorriso largo demais, que parecia saber exatamente o efeito que causava. Cabelos escuros ligeiramente bagunçados, um avental pendurado no ombro e um casaco de lã que deixava claro que ele tinha acabado de atravessar a rua.
— Você tá viva — ele disse, dramático, segurando o peito. — Achei que tinha explodido alguma coisa. Seu som de panela caindo rivalizou com fogos de artifício.
Ela fechou os olhos. Claro. Claro que era ele.
— O que você quer?
— Meu forno quebrou. — Ele ergueu um objeto nas mãos. Uma travessa inteira de massa crua. — Preciso assar isso pra amanhã. Posso usar o seu?
— …agora?
— Agora.
Ela abriu a boca para dizer que não, que estava ocupada, que estava sob uma crise digna de chorar no chão.
Mas ele a encarou com aquele olhar dramático e perfeitamente calculado.
— Por favor? — ele insistiu, inclinando um pouco a cabeça, numa pose tão encantadora que parecia feita sob encomenda. — Prometo não bagunçar nada. Juro pela minha beleza.
— Ah, nossa. Aí sim fico tranquila.— soltou um suspiro debochado.
Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo.
Quando entrou na cozinha, percebeu imediatamente o caos.
— Uau. — arqueou a sobrancelha. — Isso aqui foi um rato com acesso à cafeína ou você tentando cozinhar?
— Perdi a receita da minha avó.— cruzou os braços.
— Então vamos achar. — O sorriso dele desfez-se por um instante. Depois voltou — mais suave dessa vez.
— Não pedi sua ajuda.
— E eu não pedi sua permissão. — deu de ombros. — Mas se eu ignorar isso aqui e só assar minha massa do lado, vou ficar com peso na consciência. Você está com cara de quem já chorou duas vezes e ameaçou um saco de farinha.
— Eu não chorei.
— Certo. Só suou pelos olhos. — Ele a observou com atenção - aquele tipo de atenção que desmontava.
virou de costas para esconder o riso quase inaudível.
Ele pegou o avental dela e amarrou atrás da cintura dela como se fosse natural, como se fizesse aquilo todos os dias.
— Vamos reconstruir a receita — disse, aproximando-se da bancada. — Do jeito que sua avó fazia. Você lembra do gosto, não lembra?
Ela engoliu seco.
Claro que lembrava.
Natal simplesmente não existia sem aquela torta.
— Lembro — murmurou.
Ele sorriu, como se fosse exatamente a resposta que esperava.
— Então vamos fazer juntos. — Ele ergueu a mão para um high-five. — Pelo bem da torta, da tradição… e do meu ego culinário.
bateu a mão na dele, sem saber por que.
— Mas só porque estou desesperada — ela avisou.
— Ótimo. Eu adoro mulheres desesperadas.
arregalou os olhos, chocada — até soltar uma gargalhada linda, daquela que enche o ambiente.
— Tô brincando! — ele disse, rindo. — Deus, seu rosto vale ouro.
Ela bufou, mas o canto da boca ameaçou sorrir.
Ele abriu o armário dela como se estivesse em casa.
— Então, chefe… — disse, com um olhar que misturava charme, provocação e algo que ela não conseguia decifrar. — Vamos salvar esse Natal?
E pela primeira vez naquela madrugada caótica…
Ela achou que talvez fosse possível.
colocou a tigela na bancada com um estrondo suave, ainda tentando controlar a avalanche de emoções da noite. , por outro lado, parecia completamente confortável — como se cozinhar na cozinha dela às duas e pouco da manhã fosse o ápice da normalidade.
— Certo — ele disse, estalando os dedos. — Vamos começar pelo básico: textura. Como era a massa? Mais firme? Mais cremosa?
fechou os olhos por um instante, tentando puxar a lembrança exata. O cheiro. A sensação. O som da avó batendo a colher na borda da tigela. — Era macia — disse enfim. — Não muito pesada. E tinha um cheiro… quente. Aconchegante.
— Aconchegante? — ele repetiu, já anotando. — Ok, isso não ajuda nada, mas vamos fingir que sim.
— Você pediu detalhes. — Ela revirou os olhos.
— Eu pedi detalhes úteis. — Ele pegou uma colher e passou dentro do pote de manteiga, cheirando como um especialista. — “Aconchegante” não é uma categoria culinária. Mas… — piscou — eu aceito.
Ela tentou não sorrir.
Ele preparou alguns ingredientes, medindo tudo com precisão dramática. Fazia barulhos exagerados ao misturar, dava pequenas dancinhas quando encontrava algo que queria, e narrava a própria ação como se apresentasse um programa culinário.
— E agora, senhoras e senhores, vou adicionar a essência da perfeição: baunilha — ele disse, exibindo o frasco.
— Você sempre foi assim? — segurou uma risada.
— Assim como?
— Teatral. Confiante. O centro do universo.
— Ah — sorriu, satisfeito. — Então você percebeu.
— Difícil não perceber.— Ela bufou.
— E você… sempre foi tão séria? — Ele inclinou o rosto para o lado, aproximando-se um pouco demais.
não esperava a pergunta. Nem o tom suave que acompanhava.
— Não sou séria — ela rebateu. — Só estou cansada. Minha avó morreu faz pouco tempo. É o primeiro Natal sem ela. E eu… queria que fosse perfeito.
Ele parou.
Por alguns segundos, ficou em silêncio — o que era raro vindo dele.
— Sinto muito — disse então, genuíno. — Não sabia.
Ela engoliu o nó na garganta.
tocou de leve o ombro dela, num gesto rápido, quase tímido, mas cheio de respeito.
— Vamos fazer a torta do jeito que ela faria — ele disse. — Nem que a gente passe a noite inteira tentando. Prometo.
não sabia se era o toque, as palavras, ou o jeito confiante que ele usava para consolar sem ser invasivo. Mas algo nela relaxou.
— Ok — ela murmurou. — Vamos tentar outra vez.
Eles testaram a primeira versão da massa. Não deu certo. A segunda queimou por baixo. A terceira ficou crua no meio.
Na quarta tentativa, provou a massa crua na ponta do dedo e fez um som dramático de aprovação.
— Isso! Isso aqui está perfeito! — anunciou, como se tivesse descoberto o segredo do universo. — Toma.
Ele aproximou o dedo dela.
hesitou.
— Prova — insistiu, olhando direto nos olhos dela.
O toque foi rápido, apenas a ponta da língua na massa. Mas o olhar dele, ah… esse durou mais do que deveria.
— Tá quase — ela disse, recuando um passo.
— Como assim “quase”? — ele abriu os braços. — Isso é praticamente arte.
— A torta da minha avó era melhor.
— Melhor do que eu? Impossível. — colocou a mão no peito, fingindo indignação.
— Não é competição.— riu, finalmente entregando-se por um segundo.
— Tudo é competição — ele respondeu, servindo a massa na forma. — E eu vou ganhar. Pelo menos dessa avó na sua memória.
balançou a cabeça, mas estava sorrindo de novo — aquele sorriso largo, irônico, cheio de luz.
A cozinha já tinha cheiro de algo bom. Algo que lembrava infância, lareira… e talvez algo novo também.
Enquanto esperavam a torta assar, ela percebeu que ele estava observando-a em silêncio.
— Que foi? — ela perguntou.
— Nada. — Ele apoiou os cotovelos na bancada, o queixo nas mãos. — Só estou pensando que você fica muito bonita quando sorri.
Ela ficou imóvel.
O rosto quente.
O coração batendo forte.
percebeu — claro que percebeu — e sorriu ainda mais.
— Não precisa agradecer — ele acrescentou, brincalhão.
— Eu não ia agradecer.
— Hum. Então ia dizer o quê?
— Que você pega muito pesado no charme.— Ela cruzou os braços, tentando recuperar o controle.
— Não pego. — Ele arqueou a sobrancelha. — O charme sou eu. Só existo.
Ela bufou, mas riu baixinho.
O timer do forno apitou.
Eles se aproximaram ao mesmo tempo. Ombro com ombro.
Ele abriu o forno devagar, como se fosse um momento sagrado.
A torta estava dourada. Cheirosa. Acolhedora.
engoliu o ar, emocionada.
— Parece… — ela começou.
— A receita da sua avó — completou com gentileza.
Ela o olhou. Realmente olhou.
E entendeu que ele estava ali por escolha.
Por ela.
— Obrigada — murmurou.
Ele deu um sorrisinho satisfeito, suave dessa vez.
— Ainda não terminou — disse. — A gente tem que provar.
Ela pegou a faca.
Ele colocou a mão por cima da dela, num gesto completamente natural.
— Juntos — ele disse.
E o Natal começou a parecer possível outra vez.
O pedaço de torta fumegava entre eles.
segurava o prato com as duas mãos, respirando fundo. parecia prestes a fazer um discurso inspirador sobre o significado universal de sobremesas natalinas.
— Ok — ele disse, ajeitando o cabelo com exagero teatral. — Momento da verdade. Meu talento contra a memória afetiva da sua avó. É quase injusto pra ela.
— Você fala como se fosse invencível. — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Não é culpa minha ser perfeito.
— Aham. — deu um passo para longe. — Come primeiro, vaidoso.
— Claro. Se for ruim, morro eu primeiro. Que nobre da sua parte.
tentou não rir, mas era inevitável. sempre parecia dizer exatamente o que arrancava um sorriso dela, mesmo quando ela tentava manter a postura.
Ele pegou o garfo, espetou um pedaço e, antes de levar à boca, fechou os olhos como se estivesse prestes a receber uma revelação divina.
A mordida aconteceu.
E, no mesmo segundo, os olhos dele se arregalaram.
congelou.
— E aí? — perguntou, nervosa. — Ficou ruim? Tá estranho?
mastigou devagar, segurando o suspense como se aquilo fosse um reality show.
— Hm… — ele murmurou. — Eu não sei.
— Não sabe?! Como assim você não sabe?!
— Espera. — Ele ergueu um dedo. — Tudo na vida precisa ser apreciado. — Quando engoliu, respirou fundo. — É realmente boa — disse, enfim. — Mas não vou falar mais nada até você provar.
pegou o garfo, com o coração batendo mais rápido do que gostaria de admitir.
Um pedaço pequeno.
Uma mordida curta.
O sabor preencheu a boca.
E, por um momento, ela esqueceu de respirar.
Doce, mas não demais.
A massa macia.
O toque exato de especiarias.
O cheiro…
O cheiro era exatamente aquele.
Aquele que ela pensou nunca mais sentir.
Ela pousou o garfo devagar.
— É igual — sussurrou, com a voz embargada. — Igualzinho ao da minha avó.
sorriu. Um sorriso suave, sem brincadeiras dessa vez. Cheio de orgulho, mas principalmente de cuidado.
— Eu sei — disse, baixinho. — Eu vi no seu rosto.
E antes que pudesse evitar, lágrimas silenciosas escaparam. Tentou limpar rápido, envergonhada.
— Desculpa — ela murmurou. — Eu tô só… cansada, eu acho.
— Ei. — se aproximou devagar. — Não precisa pedir desculpa. É Natal. É saudade. É muita coisa junta.
Ele estendeu a mão e, com delicadeza inesperada nele, enxugou uma lágrima no canto do olho dela.
O toque foi leve. Mas profundo.
— Além do mais — completou, sorrindo de lado — chorar provando comida que eu fiz é o melhor elogio possível. Pode continuar. Eu adoro ser dramaticamente elogiado.
— Idiota. — Ela soltou uma risada entre soluços.
— Um idiota talentoso.
O clima mudou.
Suave.
Quente.
Uma aproximação que parecia inevitável.
Ele ainda estava perto. Mão ainda perto do rosto dela. Olhar lento, observador, quase carinhoso demais para o jeito provocador que ele normalmente usava.
— Você… — ele começou.
Mas não terminou.
Porque, naquele momento, a energia da casa piscou uma vez.
Duas.
E apagou completamente.
A cozinha mergulhou no escuro.
— Ah, ótimo — resmungou. — Falta de luz é tudo que eu precisava hoje.
— A culpa é minha — ele disse, muito sério.
— Como assim?
— Minha beleza sobrecarregou o bairro. Acontece.
— Você não existe. — Ela quase jogou o prato nele.
— Não mesmo. — Ele riu. — Mas calma. Eu tenho uma lanterna no celular.
O celular também estava desligado.
— Ok… talvez eu esteja mais encalhado que você. — suspirou dramaticamente.
— Eu não tô encalhada!
— Claro que não — ele disse, sorrindo no escuro. — Tô só te provocando. Vem cá.
pensou em protestar.
Mas o ambiente estava escuro, silencioso, e a única luz vinha da janela — uma claridade fraca da neve começando a cair lá fora.
segurou a mão dela.
Natural.
Quente.
Segura.
— Senta perto — ele disse. — Até a luz voltar.
sentou. se acomodou ao lado, ombro tocando o dela de leve.
Por alguns segundos, apenas silêncio.
E então, ele falou baixinho:
— Você sabe… — começou, com a voz mais suave do que ela já tinha ouvido nele — você merece um Natal bonito. Não só por causa da torta. Mas porque você também é… aconchegante.
virou o rosto para ele, surpresa.
— Aconchegante não é uma categoria culinária — ela retrucou, ecoando a frase dele.
— Mas é uma categoria de gente. — Ele sorriu no escuro.
O coração dela tropeçou dentro do peito.
E quando o vento soprou do lado de fora, fazendo a janela tremer, ela percebeu que quebrar a madrugada ao lado dele… estava se tornando o melhor pedaço daquela noite caótica.
O tipo de pedaço que poderia virar lembrança.
Ou algo mais.
A cozinha estava tomada pelo sossego escuro da madrugada, iluminada apenas pela neve que refletia um brilho fraco através da janela. Lá fora, o vento zunia; lá dentro, o silêncio era quente demais.
ainda segurava a mão dela.
E não tirou.
— Sabe o que é engraçado? — ele disse, com a voz baixa, quase confessional.
— O quê?
— Não achei que ia terminar a noite sentado no chão, no escuro, dividindo uma torta com alguém… que eu conheci de verdade hoje.
Ela desviou o olhar para a torta sobre a bancada.
— É — murmurou. — Nem eu.
— Mas… — ele deu um leve puxão na mão dela, obrigando-a a encará-lo — não estou reclamando.
O coração dela deu um salto.
O dele… ela tinha certeza de que estava firme, confiante, do jeito característico dele. Mas alguma coisa nos olhos — mesmo na meia-luz — entregava algo mais profundo. Algo novo.
— Você sempre fala assim com todo mundo? — ela perguntou, tentando se proteger com humor. — Seduz todo mundo com torta e conversa bonita?
— Não. Só quando vale a pena. — Ele soltou uma risada curta, arrastada.
Ela prendeu a respiração.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, a energia voltou de repente, com um estalo que iluminou tudo de uma só vez.
Ela piscou, ofuscada pela luz. Ele piscou junto.
Mas nem um dos dois se afastou.
Eles estavam tão perto que ela conseguia sentir o cheiro do perfume dele — limpo, doce, quente, tipo algodão recém-lavado misturado com inverno.
Ele inclinou a cabeça.
Apenas um pouco.
Como se estivesse avaliando se podia ir mais perto… ou se devia.
— A luz voltou — sussurrou, sem saber por que sussurrava.
— É — ele respondeu, igualmente baixo. — E eu ainda não me mexi. Estranho, né?
Ela engoliu seco.
aproximou um pouco mais — milímetros, só — num movimento lento, cuidadoso, como se estivesse pedindo permissão sem palavras.
— Se continuar assim… — começou, mas não conseguiu terminar.
— Assim como? — provocou, a voz mais grave que antes.
— Perto. — Ela fez um gesto vago.
Um sorriso apareceu no canto da boca dele. Aquele sorriso. O típico dele, cheio de charme, mas agora… com algo diferente.
— Mas você não se afasta — observou.
— Você também não.
Ele inclinou mais um pouco.
Agora, ela conseguia sentir a respiração dele.
— Talvez eu não queira — ele admitiu, baixinho.
A confissão atingiu ela diretamente no peito.
E quando ela abriu a boca para responder — qualquer coisa, não importava o quê — a panela que estava sobre o fogão estalou alto, fazendo os dois pularem para trás ao mesmo tempo.
— A-Ah, ótimo — ela gaguejou, levando a mão ao peito. — Obrigada, panela, salvando vidas desde sempre.
— Perdi uns cinco anos de vida. — levou a mão ao coração também, fazendo drama.
— Você é muito exagerado.
— Eu quase morri! — ele insistiu, apontando para a panela. — A coisa ia me atacar.
balançou a cabeça, rindo, deixando o clima impedir que o momento fosse longe demais — mas não tão longe que quebrasse tudo.
— Vem. Antes que sua cozinha resolva assassinar nós dois. — se levantou, estendeu a mão para ajudá-la a levantar também.
segurou a mão dele e se levantou. Ele não soltou.
— Então… — ele disse, tentando recuperar o charme, mas ainda com as bochechas levemente coradas — onde eu durmo?
— Como assim “durmo”? Você não vai embora? — Ela piscou. — Seu restaurante é bem ali na frente. — Apontou para o estabelecimento com as luzes apagadas à frente.
— Tá nevando. Forte. — Ele apontou para a janela. — E eu sou lindo demais pra morrer congelado.
Ela riu tão alto que teve que segurar a boca.
— Vamos subir então, você vai dormir na sala — ela disse. — Nem tente pedir mais.
— Mas eu nem pedi.
— Ainda.
— Verdade. — Ele abriu um sorriso largo.
pegou algumas almofadas, os dois andando juntos pelo corredor estreito. As mãos se soltaram, mas a presença dele continuava colada na dela, de um jeito que ela já tinha aceitado que era perigoso.
parou no meio da sala.
— Ei — ele chamou suavemente.
se virou.
Ele estava observando ela de um jeito indecente e inocente ao mesmo tempo.
— Obrigado por me deixar ficar — disse.
— Eu… não deixei. Você se convidou.
— Verdade. — Ele deu um passo para trás, teatral. — Mas você não me chutou.
Ela mordeu o lábio.
— Boa noite — ela disse.
— Boa noite — ele respondeu… depois acrescentou, devagar, com aquele sorriso que derrubava qualquer defesa: — e, só pra constar… se a panela não tivesse interrompido, eu teria chegado mais perto.
parou de respirar.
— Dorme, vai — ela conseguiu dizer, fugindo para não derreter ali mesmo.
— Só se você prometer tentar não me beijar enquanto durmo.
— EU QUE?!
— Boa noite, séria. — jogou a almofada no rosto, rindo.
Ela bateu a porta do quarto antes que ele visse o sorriso enorme que ela estava tentando esconder.
acordou com uma sensação estranha.
Algo quente.
Algo… cheiroso.
Não era normal sua casa cheirar tão bem logo cedo, quando ela ainda estava na cama.
. Aliás, não era normal a casa cheirar a café fresco, manteiga derretida e… panquecas? Ela dificilmente fazia panquecas para seu café da manhã, geralmente saia correndo para a confeitaria.
Abriu os olhos devagar.
O cobertor pesado ainda estava sobre ela. Tinha esquecido que estava dormindo no seu sofá, pelo menos deveria estar, mas aparentemente estava cozinhando. teve certeza pelo som vindo da cozinha.
Cantando.
Desafinada.
meio Ridícula.
E, familiar.
— Não… — sussurrou, passando a mão no rosto enquanto o pânico e a incredulidade se misturavam. — Ele não acordou antes de mim. Ele não acordou antes de mim. Ele não… — Falava aquilo enquanto calçava as pantufas e ia para o outro cômodo.
— Bom dia, dorminhoca! — ele cantou, literalmente cantou, surgindo na porta da cozinha, antes que ela alcançasse o cômodo, com uma espátula na mão, o cabelo desgrenhado daquele jeito que denunciava que ele tinha acabado de acordar também, mas fingia que sempre estava impecável.
piscou algumas vezes. Era impossível ele ser lindo daquele jeito logo de manhã, ela mesmo parecia uma indigente.
sorriu como se fosse o dono da casa.
— Você… — ela apontou para ele, depois para a cozinha, depois para a própria cabeça, porque nada fazia sentido daquela cena. — O que você está fazendo?
— Nosso café da manhã. — Ele voltou para o fogão, a voz animada demais para o horário. — Aliás, você dorme roncando baixinho. Fofo, mas nada profissional.
— EU NÃO — Ela ficou boquiaberta.
— Ronca sim — ele disse, mexendo a panqueca. — Parece um gatinho gripado.
Ela jogou o primeiro pano de prato que achou pela frente, mas errou.
sorriu de canto, aquele sorriso perigoso que avisava que ele se divertia demais provocando ela.
— Relaxa — ele completou. — Você estava exausta. E como eu acordei cedo porque o sofá é pequeno demais pra minha beleza, resolvi fazer café da manhã. Considere um pagamento pelo abrigo.
— Você sabe que não precisava. — Ela cruzou os braços, tentando não sorrir.
— Sei — ele deu de ombros. — Mas quis.
Silêncio.
Dos tranquilos.
Dos perigosos.
Ela desviou o olhar.
Foi então que uma batida forte ecoou na porta da frente.
Os dois se sobressaltaram.
— Você está esperando alguém? — ele perguntou.
— Não.
Os dois desceram as escadas e ela abriu a porta… e congelou.
Literalmente.
Um Papai Noel — de barba torta, roupa amassada e carregando um saco de presentes completamente aberto — estava na porta com o maior desespero que ela já vira em um homem adulto.
— Desculpa — ele arfou — mas alguém aqui sabe arrumar uma bicicleta infantil? A roda caiu. CAIU. A criança mora duas ruas acima. Eu tenho cinco minutos antes dela acordar. Eu não posso estragar o Natal dela, moça. Eu não posso!
piscou, sem reação.
, por outro lado, entrou imediatamente no modo herói dramático de filme natalino trash.
— Deixa comigo, bom velhinho — ele disse, arrancando a bicicleta das mãos do Papai Noel. — Essa criança vai ganhar o melhor Natal da vida. Eu sou lindo, mas também sou útil. Às vezes.
suspirou, mas sua boca já estava sorrindo sem ela perceber.
levou a bicicleta para o chão da confeitaria e começou a mexer como se fosse mecânico de longa data.
observou, impressionada (e um pouco irritada por estar impressionada).
— Você sabe mesmo o que está fazendo? — ela perguntou.
Ele nem levantou o rosto.
— Confia. — Apertou um parafuso com uma moeda. — Cresci desmontando coisas.
— Por isso você era um terror na escola?
— Eu era um gênio incompreendido.
— Deus abençoe vocês. — O Papai Noel fungou emocionado.
— A gente tenta — ele respondeu, testando a roda. — Pronto. Perfeita. A criança nem vai saber que quase perdeu o Natal.
O bom velhinho abraçou os dois ao mesmo tempo (um abraço meio fedido de spray de neve e desesperança), agradeceu como se eles tivessem salvado a humanidade e saiu correndo rua acima.
A porta fechou.
Silêncio.
Não o silêncio confortável.
O outro.
O carregado.
Ele olhou para ela.
Ela olhou para ele.
Ele estava ainda de joelhos no chão, as mãos nas laterais da bicicleta, o cabelo caindo nos olhos, a respiração um pouco acelerada.
sentiu algo quente subir pelo peito.
se levantou devagar.
Eles estavam perto demais outra vez.
— Então… — ele disse, a voz bem mais baixa — Você toma café com ou sem açúcar?
Ela tentou responder, mas seu corpo decidiu travar.
Ele deu um passo.
Ela não recuou.
ergueu a mão e tirou um fiapo de neve falsa que tinha ficado preso no ombro dela por causa do abraço do Papai Noel.
Foi um toque tão pequeno… mas que acendeu tudo.
— Se você continuar me olhando assim… — ele murmurou.
— Assim como? — ela respondeu, a voz saindo mais suave do que pretendia.
— Como se estivesse pensando no que quase aconteceu ontem. — Ele sorriu, lento, perigoso.
prendeu a respiração.
aproximou o rosto — devagar, cuidadoso, pedindo permissão sem pedir.
A mão dele pousou na cintura dela.
A dela subiu até o peito dele sem que ela tivesse decidido nada.
— Eu vou te beijar agora. Se você não quiser, me empurra. — Ele sussurrou
Ela não empurrou.
Então ele beijou.
Não como no cinema.
Mas como duas pessoas que seguraram vontade demais.
Calmo no começo, depois quente, depois inevitável.
Quando se afastaram, ela estava sem ar.
Ele também.
— Tá. Isso… não foi culpa da panela dessa vez. — Ele encostou a testa na dela, rindo baixinho.
Ela deu um tapa suave no peito dele.
— Precisamos ir — ela disse, com a voz trêmula. — As tortas, as entregas, as reservas no seu restaurante… é Natal. Você sabe como é.
— Sim. E o técnico do meu forno chega em meia hora. Se ele não vier, eu vou chorar. Literalmente. No chão. Igual uma criancinha que ficou sem a bicicleta. — Ele suspirou profundamente, teatral.
Ela riu, o coração ainda correndo.
Ele pegou o casaco.
Mas antes de sair, virou-se.
— Não faz aquilo que você faz — ele disse.
— Aquilo o quê?
— Fingir que nada aconteceu.
Ela ficou quieta.
— Porque aconteceu — ele completou, dando aquele sorriso que entrava debaixo da pele. — E vai acontecer de novo, se você quiser.
sentiu o rosto queimar.
abriu a porta.
— Te vejo à noite, confeiteira.
— Quem disse que eu vou te ver?
— Eu disse.
E foi embora.
Deixando neve no tapete, cheiro de café…
e um beijo que ainda ardia nela.
FIM
Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? Sempre que Seokjin aparece nas minhas histórias ele é chef de cozinha, eu tenho hiperfoco nisso, me perdoem kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.
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