Contador:
Última atualização: 04/05/2021

Capítulo 1 - O Transporte do Fumo

Norte


- , pelo amor dos deuses, para de graça.
- Pelo amor dos deuses não, gata. Pelo amor de tupã, você quer dizer – a garota abriu a mala mais uma vez e tentou colocar mais um pacotinho de fumo dentro. – Vocês vão me agradecer quando chegar lá.
- O que ela tá fazendo?
perguntou se esgueirando pela porta, várias malas estavam no chão esperando pra ser carregadas.
- Colocando mais fumo na bolsa – respondeu, entregando a mala mais próxima nas mãos de . – Ela tá crente que vai achar o curupira por lá e dar fumo pra ele pra não ser comida viva.
- Vocês vão me agradecer quando chegar lá - falou mais uma vez, antes de passar pela porta carregando a mala já fechada. – Eu sou sensitiva, sinto que vamos encontrar com ele. E não, ele não vai me comer viva, no máximo, no máximo me bater um pouco e me deixar pra morrer no meio da mata.
As amigas se entreolharam e depois olharam pra esperando que ela fosse rir da piada. Mas não parecia que aquilo ia acontecer.
- Sei, sei, como se isso fosse melhor do que ser comida viva - abanou a mão segurando um riso. - Ela já até falou em tupã e tudo.
Então finalmente riu, sendo seguida de , enquanto parava e olhava pras duas com uma expressão nada feliz no rosto. Enquanto não pararam de rir, a garota enraivecida não parou de encarar.
- Estão prontas? - o seu Cardoso perguntou assustando , que deixou a bolsa de mão cair, espalhando uma porção de saquinhos de fumo em seus pés. – Vai me explicar o que é isso ou vamos cancelar a viagem?
- Seu Cardoso, ela é louca, o senhor já sabe.
murmurou enquanto saía de perto pra não levar bronca. nada falou, seguindo a amiga.

++++++++


- Então é isso, tchau mãe, tchau pai – abraçou os dois, deixando pequenas lágrimas saírem pelos cantos dos olhos. Odiava viajar sem os pais, mas tinha que fazer aquela viagem com as amigas. – Eu vou sentir muita saudade.
- Cuidado com esse negocio de fumo por aí. Ainda não comprei essa história.
- Pode deixar, seu Cardoso – riu, sabendo que ele conhecia bem a loucura da filha pra achar que ela faria algo além de dar o fumo pro tal curupira. – A gente vai cuidar bem dela.
apenas deu de ombros, fungou mais uma vez e passou a área de embarque, acompanhando as amigas.

++++++++


- Vamos, gatona, sente aí no seu lugar – sorriu, puxando a amiga pra perto de si, a encaixando na janela, enquanto sentava do outro lado, no corredor, pra ficarem perto uma das outras. – Eu nem acredito que a gente conseguiu passar a segurança com esse tanto de fumo entranhado nas suas coisas.
- Fiquei com medo disso também – sorriu enquanto ajeitava seu cinto. – Você deveria ter deixado pra comprar lá.
- Pensei nisso – ela sorriu. – Mas vou deixar pra comprar a cachaça lá.
- É sério mesmo? Pra que cachaça?
- Não se pode entrar na mata sem uma oferenda pra ele, – explicou à amiga como se fosse obvio, segurou uma risada.
rolou os olhos, naquele instante ela soube que aquela seria uma viagem super-hiper-mega longa.

++++++++


- Chegamos, graças aos deuses, aeroporto de Manaus.
- Tupã – falou sem nem olhar a amiga, estava mais preocupada com o tempo que levariam pra chegar ao hotel. – Pelo amor de tupã, eu já te disse . Se não vai cultuar o cristianismo, pelo menos cultue deuses brasileiros. É uma vergonha a gente ter uma cultura tão bonita e vocês resolverem chamar por deuses romanos.
- Sabemos, sabemos – colocou a mão por cima dos ombros da amiga. – Se não isso, pelo menos cultue a religião de pessoas que colonizaram o Brasil e resolveram que a cultura deles era o que importava...
- Você tá bem engajada, amiga – Luna colocou o braço por cima do de e apertou a amiga no meio. – Quem diria que antes de fazer essa viagem, tudo o que te importava, eram as marcas estrangeiras...
- Principalmente aquelas famosas onde se comem muitos hambúrgueres por poucas verdinhas...
- Chega vocês duas – se soltou e se afastou delas o suficiente pra ver plaquinhas com seus nomes. – Parem de tirar onda e vamos embora de uma vez.

++++++++


O primeiro dia do roteiro da viagem tinha sido o mais tranquilo possível, depois de descansar em um hotel em Manaus, no dia seguinte, elas começaram a “viagem pra dentro da selva”. Ficariam em um hotel onde poderiam conhecer e aprender sobre o que de mais rico tinham em seu país de origem. Até chegar ao hotel de destino, andaram de lancha onde puderam observar o encontro das águas dos Rios Negro e Solimões, apreciaram a forma incrível como as águas dos dois rios não se misturavam por nada e o modo como cada um tinha sua temperatura e cor. Depois, por um tempo que elas não contaram, andaram de carro, percebeu que estavam, de fato, em território amazonense, não que não soubesse disso, mas ainda custava a creditar que era tudo de verdade. Por vezes sentia seus olhos marejarem, era a realização de um sonho poder conhecer mais do seu Brasil. Depois disso fizeram mais uma parte do trajeto de barco, onde puderam ver furos e igarapés, jurava que tinha visto um boto cor de rosa por ali, mas deixou pra contar pras amigas depois, sentia que talvez, mais tarde, pudesse encontrar o boto pessoalmente...
- Finalmente terra firme – se jogou no chão, fazendo outros hóspedes rirem. – Sério, foi maravilhoso o passeio, mas com a fome que eu tô, estava começando a passar mal...
- Sim, sua esfomeada – ajudou a amiga a se levantar, enquanto um moço passava com uma bandeja com copos de suco. Ela catou dois assim que ele chegou mais perto. – Toma aqui, vê se para de show que você está passando vergonha.
- Hmm, que delícia, do que que é?
Perguntou ao moço que sorriu com o comentário.
- Cupuaçu, fruta típica da nossa região.
- Puta merda, hein – o moço se assustou com o comentário e sorriu sem graça. – É gostoso demais, querido. Posso pegar mais um?
- Não, moço, obrigada, deixa que a gente cuida dessa draga agora. Desculpa o vexame.
puxou de lado, enquanto ela virava o copo com o resto do suco. Depois de despacharem suas malas para seus quartos e pegarem suas chaves, seguiram para o restaurante do hotel onde seria servido o almoço.
- Pra que essa mochila, ? Pelo amor de D... – fez careta e rolou olhos. – Tupã, pelo amor de Tupã, tá pesando uns dez quilos.
- Não exagera, você vai me agradecer quando a gente entrar na mata, de novo. Aqui tem repelente, protetor labial, protetor solar, desodorante, cachaça e alguns pacotes de fumo – ela foi tirando tudo da mochila, ao passo que as amigas arregalavam os olhos. E as pessoas ao redor olhavam curiosas. – A gente vai conseguir fugir do curupira...
tapou a boca da amiga enquanto tentava segurar uma risada e os vizinhos de mesa do restaurante riam de verdade.
- Guarda isso aí sua louca – começou a juntar as coisas e jogar de qualquer jeito na mochila, sob protestos alterados de . – É sério que tu acredita nisso mesmo de oferenda com fumo e cachaça?
E tudo que fez foi dar um sorrisinho de canto.


Capítulo 2- A Decepção do Primeiro Dia

- Você viu, louca da minha vida – bufou, sorriu e abraçou a amiga emburrada. – Não encontramos nada que fizessem jus ao seu contrabando de fumo.
- Teoricamente, não foi contrabando – tirou as mãos da amiga de cima de si e agarrou a mochila. – E segundo, a gente chegou aqui ontem. Não deu tempo de ver nada desse tipo de coisa.
Estavam voltando ao hotel, depois de um maravilhoso passeio de canoa. Tinha sido basicamente uma das melhores experiências da vida. Agora o jantar cairia super bem já que o café da manhã regrado a frutas típicas locais – que por sinal tinham feito extremamente feliz com a variedade de sabores – e o almoço rápido que fizeram pra não perder o passei, não tinha matado a fome da , que resmungava todo o caminho de volta desde que deixaram as barcas.
- E, não sei se você sabe, mas as coisas ruins que assolam esse vasto mundão, só aparecem à noite – largaram as mochilas em uma mesa qualquer e se enfiaram no meio da fila do buffet. – Até parece que você não assistiu um bilhão de filmes de terror na tua vida sem graça.
- Tem sentido.
murmurou e Julia rolou os olhos, continuou concentrada em encher seu prato com tudo que via de diferente do que comia no dia a dia.
- Só me falta vocês me dizerem que a noite a gente vai sair em caçada dessas tais coisas. Não que eu acredite nem nada, mas acho que sair no meio da floresta amazônica sozinhas, não é lá muito boa ideia.
- Claro, claro, ser humano do céu, tu não me ouve? – parou a meio caminho de encher a boca outra vez de um tal de pato no tucupi que ela nem sabia se tinha realmente gostado, logo depois de se sentarem mais afastadas dos outros. As amigas não queriam mais passar vergonha com o assunto do fumo. – Eu já te falei, eles só aparecem se a tua santa burrice machucar a floresta. E é claro que, no meu turno, isso não vai acontecer.
- Sei, sei. Além do que, você fez todo aquele ritual de colocar um copinho de cachaça e alguns punhados de fumo na entrada do hotel e perto do barco que levou a gente pra passear... você não acha que isso é machucar a floresta? Afinal, foram coisas feitas pelo homem jogadas ali...
abriu a boca, ficara sem resposta pela primeira vez na viagem, as amigas começaram a rir da expressão dela. Bufou irritada.
- Tá bem, tá bem, mas não é como se a não tivesse recolhido tudo depois, ingrata. E eu ia catar tudo depois que os espíritos da floresta entendessem a oferenda. Estava salvando nossas vidas. Mas não vou fazer mais – encheu a boca outra vez e sorriu ladina. – Vou deixar vocês morrerem.
Então o almoço se seguiu com assuntos leves, enquanto explicava como seria dolorida a morte das duas.

++++++++

- Todos prontos para o passeio? Vamos dar uma volta de barco procurando jacarés.
O guia falou mais alto, estavam se organizando pra entrar no barco, várias pessoas, incluindo e , estavam mais do que encolhidas, abraçadas umas às outras com medo de serem comidas por onças e sucuris gigantes. Pobres tolos, sucuris não engolem pessoas adultas. ia pensando consigo mesma, à medida que se aconchegava ao lado das amigas na Barco. Sentia pena de como as pessoas eram bem desinformadas.
- Qual é, vocês estudaram biologia na escola? – perguntou de lado as amigas que rolaram os olhos. Falava alto para que fosse ouvida por mais gente. – Se não mexer com o bicho, ele não mexe com a gente. Além do mais, o mais perigoso que a gente vai achar aí dentro, é o Cobra Honorato. E, convenhamos, ele nem é tão perigoso assim.
Algumas pessoas riram, as amigas colocaram as mãos entre o rosto mortas de vergonha, o guia gargalhou, achando graça da veemência da menina. Conhecia bem aquela lenda. Ao passo que algumas pessoas pediam explicações sobre o que era a tal cobra e se ela era peçonhenta, o guia se viu na obrigação de contar.
- A lenda conta que a índia Tapuia sentiu a gravidez quando se banhava nas águas do rio Claro– os suspiros de alivio foram ouvidos por toda a barco, felizes por não ser mesmo uma cobra de verdade. – Teve os filhos nas margens do Cachoeiri, entre os rios Amazonas e Trombetas. Vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras. A mãe lhes deu os nomes cristãos de Honorato e Maria. Eram gêmeos. Não podiam viver na terra. Criaram-se nas águas. O povo os chamava Cobra Norato e Maria Caninana.... Cobra Norato era forte e bom. Não fazia mal a ninguém. Pelo contrário, salvou muita gente de morrer afogada. Lutou contra peixes grandes e ferozes. Passava o dia nadando, esperando a chegada da noite. Quando a lua surgia no céu, ele saía da água, arrastando o corpo pela areia. Então, Cobra Norato se desencantava. Deixava o couro da cobra na margem do rio, e se transformava num belo rapaz. Adorava festas. Ia dançar, ver as moças, conversar com os outros rapazes. Pela madrugada, enfiava-se novamente no couro da cobra que deixara na margem e mergulhava nas águas do rio....
“Sua irmã, Maria Caninana, era má e violenta. Jamais visitou a mãe. Afundava embarcações, feria peixes pequenos. Por isso, Cobra Norato a matou, depois de uma luta terrível. As duas serpentes se engalfinharam no meio do rio Madeira, transformando suas águas calmas num imenso redemoinho...”
“Para virar homem de uma vez por todas, Cobra Norato precisava de alguém que ajudasse a desencantá-lo. Antes de mais nada, era necessário encontrá-lo dormindo. Depois, deveriam se jogar três pingos de leite de mulher na boca da cobra e dar uma cutilada de ferro virgem na sua cabeça. Ela, então, fecharia a boca e da ferida na cabeça sairiam três gotas de sangue. Assim, Honorato ficaria homem para o resto da vida....
“Mas a cobra assombrava. Todos tinham medo. Demorou para aparecer alguém que quisesse ajudar. Certo dia, a cobra nadou pelo Tocantins. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado topou e fez tudo o que era preciso. Honorato suspirou descansado. Queimou o couroda cobra. As cinzas voaram.
”Ele estava, enfim, livre da maldição.”
sorriu, tinha um brilho nos olhos, quase como se fosse chorar. Era uma lenda linda, mas...
- Tem certeza? – todos olharam pra ela. – Sério, como podem ter certeza de que ele não está, nesse exato momento, abaixo de nós, esperando alguém pra salvar ele?
Algumas pessoas estremeceram, e suspiraram em conjunto, o guia riu.
- É só uma lenda, mocinha. Além do mais, nada mesmo prova que ele foi libertado – ele murmurou depois de pararem os motores do barco. Ligou a lanterna e lançou um olhar pra . – A gente vai observar os olhos dos jacarés, se quiser, pode ficar atenta, os olhos do Honorato brilham dourados no fundo do rio...
sentiu um arrepio por todo o corpo, no momento seguinte se pôs a observar o rio com mais cautela. Veria o que queria, gostando os outros ou não, mas, à medida que o guia mostrava como os jacarés ficavam imóveis e com os olhos vermelhos, ia ficando chateada porque nada parecia acontecer.
Ficaram mais um tempo por ali, o guia trouxe um dos jacarés pra dentro do barco, coisa que maravilhou muita gente, outras apenas ficaram o mais longe possível, se deixou levar pelo encanto do momento, talvez nunca mais tivesse a chance de passar a mão num bicho tirado diretamente da floresta. Nem sabia se podia, mas pediria ao guia.
Perto da li, olhava atentamente pro rio, se sentindo feliz por terem combinado aquela viagem e ter conseguido realizar. Por mais que sentisse vergonha das loucuras da , sabia que, com ela junto, as coisas seriam bem mais divertidas. Pensava em como seria o passei do dia seguinte, quando sentiu apertar as unhas em volta do seu braço com força, quase ao ponto de machucar. Se virou pra ela rapidamente e viu que a garota tinha lágrimas nos olhos e parecia prestes a gritar.
- Me diz que eu tô alucinando e que eu não tô vendo aquilo.
De longe, parecendo estar no fundo do rio, um brilho laranja chamou atenção, Julia sentiu o sangue gelar. Olhou pra , que ria feliz próximo ao guia, tentando chegar mais perto do pequeno jacaré que tinha trazido dentro do barco. Ao voltar os olhos pra o local do rio onde viu o brilho, decidiu o que fazer.
- Nenhuma palavra disso com a – falou baixinho pra enquanto essa engasgou um soluço de pavor. – Ela já é surtada demais sem isso.

Capítulo 3 - O Namorador da Meia-noite

- Vocês passaram o dia meio distantes demais... – as amigas se entreolharam, enquanto se maquiava na frente do espelho do quarto. – Certo que era tudo muito maravilhoso e que a gente se perde mesmo vendo toda essa fauna e flora, mas vocês pareciam ainda mais idiotas do que costumam ser, fazendo caretas pra água e se recusando a mergulhar com todo aquele calorão e os botos...
As duas sentadas na cama, fingindo não estar prestando atenção, se entreolharam de novo. se virou pras duas e cruzou os braços, assim que ela levantou uma das sobrancelhas, soube que teriam que contar. não aguentaria a pressão das caras feias de .
- Tudo bem, tudo bem, tudo bem... – respirou fundo, se sentindo aliviada por não ter que contar a história. levantou os braços antes de continuar. – Em nossa defesa, estávamos tentando não atrapalhar o seu dia. Você parecia empolgada, parecia estar se divertindo com todos os peixinhos, e araras, e lendas do gatinho guia... – suspirou, lembrando-se dos sorrisos que trocara com ele. – Em fim, nós vimos olhos brilhando no fundo do rio.
fechou os olhos e se encolheu esperando o surto que a amiga teria, sentiu o corpo se arrepiar, pensando na sensação de ver aqueles olhos “chamando” por ela, assim viu a hora em que as engrenagens de começaram a girar a mil.
- Vocês... São... Ridículas...
Respirou fundo e deixou o quarto sem dar mais explicações fazendo com que as amigas a seguissem de pronto.
- , por favor.
- Por favor, por favor, ? Aumentou o tom de voz à medida que seguia pra o salão onde seria servido o jantar. – Por favor, o escambáu. Vocês sabem o que eu vim procurar aqui, sabem que eu daria qualquer coisa pra ver qualquer coisa desse tipo, e me esconderam isso por um dia inteiro. Suas cabras. Agora eu vou comer e não quero mais papo. Espero que da próxima vez vocês finjam que são minhas amigas e me contem o que acontece e...
E depois disso as duas já não ouviam mais, sabiam que a raiva da menina passaria com a mesma velocidade com que veio. Talvez depois de um prato ou dois de pato no tucupi.

++++++++


- Já te falei cara. Olha só aquilo – apontava o dedo pra no balcão. A menina sorria e gesticulava – as duas sabiam que ela já estava mais pra lá do que pra cá – parecia contente de conversar com o cara com que conversava. – A maior característica de um boto é o nariz grande, olha só o tamanho do nariz daquele cara.
- É só um cara bonito, . Confia no potencial da tua amiga...
- , minha gata, se aquela criatura me ouvisse, ela saberia que a primeira coisa que se faz quando se vê um cara vestido de branco e com um chapéu, é pedir pra ele tirar o chapéu. Tem um buraco lá, de onde os botos espirram água...
- Que bonitinho, igual uma baleia, só que menor.
- Isso, isso, presta atenção aqui, baby desviou a atenção da amiga do rio pra onde ela olhava com um ar sonhador. - Ela vai engravidar – engasgou com a própria saliva. - E ele vai querer levar o bebê pro fundo do rio, e antes que eu tenha que lutar com um boto pra ele não levar meu sobrinho pro fundo do rio, eu prefiro não deixar que ela engravide assim e corra o risco.
- do céu – olhou no fundo dos olhos dela e percebeu que nem uma das palavras que ela proferiu, saiam de forma que fariam alguém duvidar de que ela não acreditasse em tudo que disse. – Você tem problemas...
- Santa criatura, presta atenção, é um caso de vida ou morte. Ela está enfeitiçada. Agora vai ser difícil a gente tirar ela do encanto.
- Eu também me encantaria, viu como ele tem um rosto másculo e olhos profundos, profundos como o fundo do rio...
- Lugar que vocês deveriam ter me mostrado os olhos do Honorato, suas ingratas...
- .
- Vocês me devem uma vida, uma aventura que eu perdi...
- .
- Eu seria capaz de pular dentro do rio e agarrar o rabo da cobra e...
- , CARALHO!
- O que foi ?
Ela finalmente prestou atenção quando a amiga apontou a porta por onde saia com o moço bonito.
- Pelo amor de Tupã, cadê todo aquele fumo pra eu oferecer antes de entrar na selva...

++++++++


conseguia ver apenas o sorriso ofuscante que seu mais novo amigo oferecia pra ela. Enquanto ele a puxava delicadamente pelas mãos, ela podia sentir o toque suave do vento na pele. Além disso, sentia o cheiro maravilhoso que provinha da terra e das folhas úmidas abaixo de seus pés. O som era maravilhoso, bichos faziam barulhos por toda a parte, pássaros piavam, jacarés faziam o barulho que os jacarés faziam... Ela não se lembrava de como chamava.
Mas se lembrava da voz melodiosa que o rapaz tinha, de como entrava doce em seus ouvidos e aquecia seu coração e por consequência, fazia todo o seu corpo se aquecer de um jeito muito, muito gostoso.

++++++++


- Como isso é possível? Eles acabaram de passar pela porta, não deu tempo de terem sumido tão rápido.
- A gente deve ter entrado na esquina errada – bufou à medida que se aconchegava mais a ela, tentando não perder de vista a luz da lanterna que a menina segurava. – Tenho certeza que não foram longe. Se você não tivesse parado pra comprar álcool pra fingir que tá oferecendo pra sabe-se lá o que...
- Claro, claro. Finjam que eu sou louca e que não sei o que estou dizendo – tomou um gole da cachaça que levava em mãos e ia jogando um pouco pelo caminho. – Quero que você me diga, ser de luz divina, onde é que tu tá vendo esquina pra ser dobrada? Eu só vejo mato e mais mato, além de poucas pegadas. Além do mais, o álcool era estritamente necessário – estendeu a garrafa à amiga que deu um gole longo. - Tupã amado, me ajuda a achar minha amiga antes de ela ser fecundada magicamente.
- Magicamente mesmo, viu filha. Ela toma anticoncepcional desde sempre.
- , isso não significa nada, às vezes, as coisas falham... Ainda mais quando se é um boto e a única função é produzir mais botos pra repetir o processo futuramente.
bufou tentando não pensar que estavam exagerando em ir atrás da amiga, que a amiga só queria ter uma noite mais quente como não tinha há tempos. Percebeu tarde demais que já não via mais as luzes do hotel e que não se lembrava mais em que esquinas tinham virado.
- , por favor, vamos voltar.
Puxou a mão da amiga quando essa parou e pediu que ela fizesse silêncio. Um pouco mais a frente de onde estavam, num espaço mais aberto à luz da lua, próximo demais do rio, estava deitada no chão, sorrindo largamente para as coisas que o rapaz bonito de nariz grande dizia. Dali elas não podiam ouvir e talvez nem quisessem.
- Você vai mesmo empatar a foda dela?
- , cala a boca - puxou a amiga mais pro lado de uma árvore, de onde não podiam ser vistas pelo casal. – Presta atenção. Quando ela tirar o chapéu dele, se não tiver nada de interessante na cabeça, a gente dá o fora.
- E você quer ficar olhando? – assentiu e fingiu vomitar. – Como você sabe que ela vai tirar o chapéu?
- Eu já ouvi várias vezes ela fazendo coisinhas com meu irmão, pode ter a certeza que ela vai pedir pra ele tirar o chapéu.
- Sua voyeur esquisita. Eu que não ficaria ouvindo o meu irmão com a minha melhor amiga, eca.
- Vai por mim, se você começasse a ouvir coisas esquisitas como “vai amor, coloca o cabelo na minha boca”, em meio a gemidos, você também ia querer ouvir mais coisas... - estremeceu tentando não imaginar que coisas mais não teria ouvido. – Agora faz silêncio que eu preciso ver o que está acontecendo...

++++++++


Os barulhos vindos da mata faziam tudo ficar melhor, se sentia flutuar à medida que o rapaz de rosto perfeito – ela não lembrava o nome dele – sussurrava palavras desconexas em seu ouvido. Sabia que tinha deixado alguém pra trás, sabia que precisava voltar e falar com alguém, sabia que não sabia onde estava, mas nada disso fazia ter vontade de levantar do... Chão?
Ignorou completamente a sensação do chão duro e úmido abaixo de si, sentia os pés encharcados de água, mas se permitiu não ficar brava com isso. Ao invés de tentar entender como tinha ido parar naquela situação, colocou as mãos pra cima, numa tentativa de tirar alguns fios de cabelo do rosto do rapaz e ver as madeixas negras dele, quando esse se ergueu mais um pouco por cima dela. Com esse gesto, derrubou o chapéu dele. Por muito pouco ela conseguiu distinguir o grito agudo e mesmo assim a cena continuava não fazendo sentido.

++++++++


gelou na hora em que viu o chapéu branco cair no chão ao lado de . De longe, à luz da lua, ela pode perceber o leve “buraco” na cabeça do rapaz, estava crente que precisava fazer alguma coisa. percebeu o momento exato em que ela sairia em disparada em defesa de , mas não teve tempo de segurar . Porém, o reflexo de segurar, não tinha vindo tão rápido quanto o de gritar, e foi exatamente o que ela fez.
- , sua doente, não empata a foda dos outros.
levantou a cabeça em direção ao som, franzia a testa, enquanto via uma garota se aproximar dela. Sabia que conhecia, mas não lembrava de onde. Assistia ela vir e sua direção em câmera lenta, por um breve momento, se virou pro rapaz que estava em cima dela sentiu o corpo dele enrijecer e se afastar bruscamente, levando consigo todo o calor que ela sentia. Viu ele levantar o mais rápido que pode, e, com um único movimento, se jogar pra dentro do rio, sumindo logo depois de ela pensar ter visto um...
- Golfinho?!
- , do céu, tá tudo bem? Ele te machucou? Deu tempo de ele me dar um sobrinho? Você acha que vai se recuperar e continuar fazendo coisinhas com meu irmão depois dessa? - gesticulava ferozmente, enquanto se aproximava com cautela, sem tirar os olhos da água onde ela jurava que tinha visto o homem se transformar em um boto cor de rosa, segundos antes de ouvir o som de água se espalhando. Chegou próximo de e tocou ela devagar, visto que ela parecia não estar entendendo o que estava acontecendo. – , joga água aqui nela, por favor, não tá vendo que ela tá em transe.
olhou outra vez pra o rio e por um momento teve medo de tocar ali pra jogar água em , decidiu por fim pegar a garrafa de bebida que estava segurando e virar ela na boca, sorvendo o máximo que pode do liquido, antes de dar duas bofetadas no rosto de , que finalmente pareceu perceber quem era.
- O que aconteceu? O que a gente tá fazendo na água? Por que eu estou com os meus tênis novos dentro da água?
- Ai, Tupã todo poderoso – agarrou a cabeça da amiga e apertou o quanto pode, antes de ela se desvencilhar. – Minha cabeça oca está bem e pelo visto, as calças ficaram no lugar...
Julia olhou pra e essa murmurou um “longa história”, antes de se dar conta de que não sabia bem onde estavam.
- Acho que agora vai ficar difícil de localizar as esquinas onde a gente dobrou...


Capítulo 4 - O Conselho da Iara

Parecia que uma eternidade tinha se passado, mas na verdade faziam apenas...
- Vinte minutos andando, , vinte minutos.
- E eu tenho culpa, ? – parou e se virou encarando as amigas. – A doida aí que se deixou ser enganada e eu que tenho culpa? Se tivesse usando o fumo que eu dei...
- Ah, não vem com esse negócio de fumo não. Quem garante que isso aí ia dar certo? Além do mais, você falou que isso era pra pedir permissão pro Curupira deixar a gente entrar na floresta sem arrancar nossos pés.
- Que orgulho – apertou as bochechas de com força. – Você lembrou do que eu falei.
- A que custo, meu Pai, a que custo...
falou e olhou pra atrás de si. Essa ia balbuciando coisas desconexas como: “um boto, ele virou um boto” ou ”eu quase morri” e ainda ”o que eu ia fazer com uma criança meio golfinho? A piscina da minha casa é super pequena”, sem se importar com as amigas que caminhavam à frente.
- Isso é pra vocês aprenderem que de louca, a louca aqui não tem nada.
- Isso nem faz sentido, .
- , as coisas são, elas não precisam fazer sentido, além do mais...
- puxou a mão da amiga fazendo parar de andar. – Olha ali, são pegadas.
se aproximou, ao ponto de agachar pra ver as pegadas indicando uma trilha que ela não tinha visto por estar ocupada demais reclamando com as amigas. Ainda pensando em como teria sido mais legal ter pulado do barco pra tentar pegar uma cobra do que salvar a amiga da forma como salvou, estava irritada por não ter tido tempo de ver o homem se transformar em boto, era a segunda vez que perdia o mistério.
- Se eu fosse você seguia o lado oposto das pegadas...
sentiu todo o sangue gelar, um arrepio pesado passou pela espinha da garota à medida que ela levantava.
- Você sabe de quem elas são, não sabe?
A voz melodiosa e doce retornou a ser ouvida, e sentiu que poderia desmaiar ali mesmo, tamanho o terror que sentia. tentava descobrir de onde vinha a voz, mesmo que o frio na espinha a dissesse que ela tinha que correr pra o mais longe possível. se sentia fora da gravidade da terra, parecia que, de repente, tinha sido sugada pra um lugar onde ela podia se sentir flutuar, onde ela não sentia nada além de vontade de correr pra onde a doce voz chamava por ela.
- Se aproximem meninas, quero ver vocês mais de perto - por um breve momento, a luz da lua iluminou uma pedra grande mais dentro do rio que elas tentavam seguir de perto.
Lá de cima, se podia ver a mulher mais bonita do mundo e como se fosse pra deixar ela ainda mais linda, uma cauda brilhante, em tons de verde escuro, podia ser vista de onde era pra estarem as pernas dela.
- Eu sabia.
- Tupã nos ajude.
- Acho que apaixonei.
As três meninas disseram juntas e a moça da cauda brilhante sorriu, e começou a cantar e, de onde estava, ouvia a melodia mais suave e perfeita que já tinha ouvido em toda sua vida. Sentia que precisava ouvir mais e mais e com isso se viu andando a passos lentos pra mais perto do rio, em direção à voz. e apenas sentiam que seus ouvidos iam ficando mais fechados, como quando se está nadando, ainda ouvindo um estranho piiiiiii super forte ecoar.
- É, e nós já vamos embora – tentou puxar que ainda continuava parada, visto que começava a andar pro lado oposto ao do rio. – Mas o que... - e então ela viu o rosto da amiga, parecia que estava congelado numa expressão de puro êxtase, enquanto olhava fixamente a mulher que ainda cantava, sentada lá, encarando de volta, com um olhar que parecia perverso demais. – , me ajuda a puxar a , acho que ela está enfeitiçada.
- Mas como assim? – se aproximou das amigas. – Eu achei que a Iara só hipnotizava homens.
- Mas a sua amiga não gosta só de homens, não é?
- Ah, essa é uma ótima hora pra se lembrar que ela é bi.
- Sim, , sim, considerando que agora ela está indo em direção a Iara – soltou o braço da amiga quando sentiu que ela já fazia força o suficiente pra se soltar. – A bendita e maravilhosa Iara – ela se virou emocionada pra sereia que ainda cantava e encarava de braços abertos. – Que era um dos meus maiores sonhos de conhecer – colocou a mão na cabeça, enquanto assistia . – E que agora eu sinto uma enorme tristeza por não poder ouvir cantar, e...
- , cacete, cala a boca e me diz como que alguém se livra da Iara.
A garota se empertigou toda antes de começar a falar.
- A Iara atrai homens com seu canto, agora eu sei que mulheres também – ela coçou a cabeça e olhou pra amiga dentro do rio, essa já tinha a água pelos joelhos. – Ai, ai, enfim. Nenhum homem nunca sobreviveu, né, considerando que eles andam sozinhos à noite, pra pesar ou Tupã sabe o que... – sorriu tentando pensar no que mais poderia ser esse “o que”, porém nada lhe vinha à mente. – O canto dela sempre faz eles entrarem lentamente na água, assim que chega ao ponto onde não conseguem mais voltar e são carregados pela correnteza forte do rio...
- , PELO AMOR, CALA A BOCA E DIZ A SOLUÇÃO! - gritou quando percebeu que já tinha ido longe, com água chegando ao cós do short que vestia, faltava pouco pra amiga chegar onde a correnteza a arrastaria. – Ai, meu Pai, agora não é hora de cachaça, , a vai se afogar.
Resolveu ir atrás da amiga, enquanto sentia raiva por ter se jogado ao chão e começado a retirar o conteúdo de sua mochila pra fora. Chegou perto da amiga e agarrou seu pulso a puxando com força, parecia não ter sentido nada, enquanto tinha certeza de que aquilo que fazia era o certo, de que ouviria aquela voz maravilhosa eternamente. Não sentia a água acariciando suas pernas, as plantas que nasciam no fundo agarrando em seu tênis, nem muito menos ouvia a voz da amiga pedindo desesperada que ela acordasse. A única coisa que sabia era que aquela mulher maravilhosa era dona da sua vida.
Depois de tirar tudo de dentro da bolsa, do fundo dela, tirou uma lanterna. Se levantou sentindo um tremor no corpo quando viu as amigas dentro d’água, cobertas até pouco abaixo dos seios. Ligou a lanterna e apontou a luz direto no rosto da sereia. O que fez a sereia parar de cantar, fazendo com que parasse de andar. sentiu certo alivio, agora poderia pensar num meio de puxar pra fora da água, ia dar um jeito mesmo parecendo que a amiga tinha virado uma estátua onde estava.
- O que você está fazendo?
O rosto da sereia se abriu em confusão, jamais tinha sido interrompida depois de chamar por suas vitimas.
- Eu quero conversar com você, assim, como amigas, duvido que você tenha conversado com muita gente nesses anos todo afogando pessoas.
- Eu não afogo ninguém, meu amor, eles vêm porque querem, querem o inalcançável, querem a perfeição que eu sou.
- De fato, de fato, você é a mulher mais...
- Mulher?!
A sereia perguntou, interrompendo a fala de , fazendo com que a garota engasgasse um pouco.
- Ser, você é o ser mais maravilhoso que eu já vi na minha vida – Iara colocou as mãos no peito, num gesto muito afetado, o que fez sentir que o ego dela era o mais importante. Acenou pra que continuasse tentando tirar da água. – É claro, eu nem sequer imagino como é ser como você, nem posso imaginar como é ter tantos homens apaixonados pelo seu canto, mas eu fico muito feliz em conhecer você, é sério.
- Eu sei que você está feliz posso sentir daqui - a sereia sorriu e se virou pras meninas na água, vendo que puxava loucamente, sem sucesso algum. - E eu sei o que você está tentando fazer, você está tentando fazer com que eu deixe sua amiga ir embora.
Dito isso, a sereia voltou a cantarolar baixinho, mas o suficiente pra que voltasse a se mexer em direção a pedra.
- É claro que eu estou.
- , sua louca – gritou em desespero, sentindo que era o fim.
- Vossa perfeição sabe que não pode viver sem atrair os homens, eu não posso viver sem essa criatura que eu chamo de - a sereia parou de cantar e voltou a olhar pra . Essa sorria sem graça, sentindo alivio por ter chamado a atenção da criatura de volta pra si. – Veja bem, ela é uma boa amiga, pouco me escuta, mas está sempre junto, em todas as minhas aventuras. Eu acredito que vossa perfeição pode abrir uma pequena brecha, um diazinho sem atrair alguém com esse canto magnifico. Vossa perfeição é...
- Já chega! – Iara falou calando a menina de uma vez, estalou os dedos fazendo acordar, suspirar aliviada e sorrir. - Eu abro uma exceção, porque vejo sinceridade nas suas palavras. Você é corajosa, menina. E percebo que está mesmo encantada por mim, mesmo sem poder ouvir meu canto.
- Como não estar, né? Maravilhosa.
abanou a mão fazendo a sereia rir. rolou os olhos, sem conseguir acreditar que a amiga tinha conseguido e olhava, ainda encantada (não enfeitiçada), a sereia, tentando entender porque estava dentro d’água com agarrada a seu braço.
- A gente já vai, né, ? – sorriu sem graça. – Vossa perfeição, fico grata pela sua misericórdia para com a minha amiga aqui.
- Mais uma coisa menina – a sereia mergulhou de uma vez e chegou mais próximo das meninas. - Se eu fosse você, seguiria o lado oposto ao das pegadas, o Curupira pode ainda estar por aí e ele pode não se tão amigável quanto eu sou. E eu te garanto que ele não liga pra todas essas coisas na sua mochila. Reze pra não encontrar com ele.
E então a criatura se foi. Fazendo com que as sensações de encantamento e agradecimento dessem lugar ao medo. Pelo menos era o que e sentiam. Tudo o que conseguia pensar era que...
- Ele existe, por Tupã, eu preciso conhecer esse homem.
- Tá mais pra ser, ou você não ouvi a Iara?
- Ouvi, , eu ouvi. E aí, fala pra mim qual é a sensação de poder ouvir a voz de uma mãe d’água.
- É indescritível, amiga...


Capítulo 5 - Enfrentando o Perigo pra Chegar Perto da Cobra

- Aí, você pensa que está flutuando, na verdade, eu estava mesmo flutuando, e parece que é a única coisa que precisa ser ouvida pra o resto da vida – ia falando sonhadora, enquanto as meninas seguiam as pegadas do curupira – na direção contrária – pra poder voltar ao hotel. – Eu podia ver o fundo do rio, e era tudo lindo, e colorido, e cheio de vida...
- Sei... – murmurou encarando a água escura, se perguntando como tinha entrado ali sem medo de ter alguma cobra, ou jacaré, é, o amor pela amiga fazia milagres. – Eu acho que era mais fácil você estar vendo o céu, já que ia morrer afogada.

A amiga concordou com uma careta, antes de se bater bruscamente com as costas de , que tinha ido à frente do grupo até aquele momento, apenas sentindo inveja da amiga por ela ter escutado a perfeição da Iara. Mas teve que parar quando, na beira da água, um pouco mais a frente de onde estavam, viu uma cobra gigantesca dormindo de boca aberta.

- Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia!

Começou a cantarolar e dançar indo em direção a cobra devagar. segurou o pulso dela e puxou ela de vez, fazendo ela se assustar e consequentemente calar a boca.

- Meu anjo, eu não sei como funciona o sono das cobras, mas eu preciso que você fique quieta e cale a boca antes que essa sucurizona acorde e nos devore.
- A , pelo amor de Tupã, deixa de ser trouxa, não tá vendo que é só a cobra Norato e que ele precisa ser desencantado antes de voltar pro corpo de manhã?

Ela falou calmamente se afastando das amigas e indo em direção da cobra devagar. Pouco antes mesmo de chegar mais próximo, rolou os olhos e saltou na frente da amiga antes que ela fizesse a maior besteira.

- Você tem que se lembrar da lenda do guia gatinho, pensa, , pensa...

Então ela parou encarou a cobra, depois encarou a amiga e depois a cobra de novo, então ela abriu um sorriso.

- Se a gente tivesse deixado o boto te pegar de jeito, agora nós teríamos um pouco de leite de mãe... - bateu as próprias mãos na testa, começou a rir e encarou a cobra outra vez. – Eu volto pra te salvar, senhor Norato, pode esperar.

Sem dizer mais nada, voltou a acompanhar as pegadas, sendo seguida de perto pelas amigas. A coisa que era que aquilo não parecia ter fim, de jeito nenhum, de um lado, e rezavam pra não encontrarem nada mais estranho, do outro, pedia a Tupã que encontrasse seu Curupira, queria muito ver ele de perto e saber se ele era realmente mau com os caras maus.
Fato é que, depois do que pareceram algumas horas, elas estavam de volta ao hotel sãs e salvas – salvas pelo menos.


+++++++++


acordou mais cedo do que as amigas, colocaria seu plano em prática sem que elas soubessem, ficariam loucas quando descobrissem então achava melhor deixar pra contar depois. Desceu até o restaurante, onde sabia que uma mulher estaria com seu filho desde cedo porque ele acordava cedo.
Tinha ouvido ela recamar várias vezes durante o passeio sobre isso, então não foi difícil localiza-la perto da janela do restaurante, de onde se via parte do rio. Chegou coçou um dos olhos a ponto de deixa-lo vermelho quando checou em seu espelhinho, parte um do plano concluído. Se aproximou dos dois e pediu licença pra moça.

- Então, a senhora tem uma avó, não tem? A mulher levantou uma das sobrancelhas, mas assentiu. – Eu também tenho uma, duas na verdade, e uma delas costumava dizer que quando tem alguma coisa errada no nosso olho, era bom colocar leite de peito de humanos pra fazer ficar melhor. Eu vi que a senhora ainda amamenta seu filhinho – o que é bastante maravilhoso, visto que muitos médicos incentivam a livre demanda até quando eles quiserem – então, queria saber se você pode me dar um pouquinho do seu leite pra eu colocar no meu olho?

Por um momento as duas se encararam, a mulher pensando o que tinha feito pra Deus pra ouvir aquilo àquela hora da manhã e pensando que tinha sido muito convincente em sua história. Por fim ela se rendeu.

- Minha vó também dizia isso – respirou fundo e passou a mão na cabeça do filho. – Se você conseguir um potinho, eu te dou um pouco de leite.
- Você vai tirar aqui na hora?

abriu um sorriso satisfeita por ter conseguido, ao que a mulher respirou fundo mais uma vez. Pegou um copinho que tinha conseguido com um dos recepcionistas do hotel e entregou a mulher.

- Pra minha sorte, eu tirei um pouco hoje mais cedo – abriu a mochila que nem tinha reparado antes e tirou de lá uma mamadeira cheia de leite, transferindo um pouco pro potinho que a menina tinha entregado. – Aqui está, mas faça isso no banheiro, pelo menos.

abraçou a mulher, feliz demais, saiu do restaurante saltitando.


+++++++++


- Você tá com um sorriso estranho demais pra quem ainda não bebeu ne metade do drink...

Estavam no bar do hotel, encava a amiga, que fingia não ouvir, procurando alguma coisa pelo salão com o canto do olho.

- , eu acho que a gente devia ter medo desse olhar.

respirou fundo, já sentindo que vinha coisa por aí. Conhecia a amiga bem demais pra saber que a noite passada não ia ser deixada de lado.

- Seu amigo boto não veio hoje, sorriu de lado, ainda tentando ignorar. – Acho que ele sabe que tem gente que sabe da existência dele aqui. Eu vou ao banheiro - assim que ela se levantou, as amigas levantaram junto, fazendo ela as olhar estranho. – Onde vocês vao?
- Com você?
- O código das amigas...

e falaram juntas, ao que rolou os olhos.

- Posso ir sozinha, obrigada.

As meninas estranharam, mas não fizeram objeção. Então foi até o banheiro mais próximo de onde estavam, visto que, mesmo que fosse até o mais longe, teria que passar novamente pelas amigas caso quisesse sair do restaurante sem que elas vissem, mas tinha u plano em mente: a janela do banheiro. Era grande o suficiente pra passar uma pessoa adulta.
Checou de novo tudo em sua bolsa: lanterna, fumo, álcool, o leite, algumas pedrinhas pra marcar o caminho... respirou fundo, jogou uma água no rosto e vestiu o melhor sorriso que tinha. Era a hora de ir viver sua aventura.

- Vou contar isso pros meus netos – murmurou pra si mesma depois de ter pulado pro lado de fora, dando de cara direto com a mata. Tirou a garrafa da bolsa, deu uma golada e logo em seguida derramou um pouco no chão. – Senhor das matas, aceite minha oferenda, não farei mal algum aos seres vivos dessa floresta.
- Que tocante – deu grito alto, o que fez as outras duas se assustarem. tapou a boca dela rápido. – Tu achou mesmo que ia se enfiar no mato sem a gente perceber? Tu tem problema?
- Eu sabia que vocês iam tentar me impedir...
- O certo é isso, né? – murmurou e pegou a garrafa da mão da amiga dando um longo gole logo em seguida. – Mas, se não pode contra os inimigos junte-se a eles.

Então as três seguiram juntas pra dentro da mata. Duas delas com medo e a outra sentindo que era a pessoa mais importante do mundo.


+++++++++


- Você tem certeza que se lembra onde era que a cobra estava?
- Tenho, ! Puta merda, hein. Já te disse, na próxima curva – e assim as três viraram novamente pelo que elas julgaram ser uma curva, mas era apenas mais uma árvore bloqueando o caminho. – Eu ouço o rio, a gente só precisa achar o lugar onde o mato deixa a gente chegar perto da água.
- Ou seja, vamos andar e andar até que não exista vestígio de que a gente possa voltar pro hotel.
- Assim não, né, ?! O curupira vai ajudar a gente a voltar – e trocaram um olhar rápido, coisa que ignorou prontamente. Ele já as tinha ajudado uma vez, nada impedia que ajudasse de novo. – Ali.

Deu um gritinho mais alto quando viu o que queria. Finalmente quando a mata deu trégua, puderam ver a beira do rio, de lado e com a boca aberta, uma cobra imensa descansava.

- Como caralhos você sabe que isso não é só uma sucuri imensa e normal esperando pra comer alguém ou alguma coisa que for idiota o suficiente pra chegar perto dela?

falou rápido demais, mas não o suficiente pra não ser entendida. abriu um sorriso.

- Eu não sei.
- E você vai chegar perto dela mesmo assim?
- Vou sim, . Vou salvar o senhor Norato. Vou só chegar perto da cobra, fazer o que eu tenho que fazer e aí é papum...

Mas antes que pudesse chegar mais perto da cobra, ouvi um clique suave perto do seu ouvido. Clique esse que conhecia muito bem dos filmes de ação que assistia com as amigas pra ver os atores bonitos.

- Parada aí, mocinha. O que pensa que está fazendo?

Um homem falou alto o suficiente pra que as três ouvissem. engoliu em seco ao ver que as duas amigas também estavam sendo rendidas. Por cerca de mais três homens.

- Indo checar se a cobra está bem.

Falou devagar indicando a cobra com a mão. Essa parecia não ter ouvido os ruídos ao seu redor. O homem deu uma gargalhada.

- Ouviram essa rapazes? Checando se a cobra está bem. Mentirosa – o homem deu um tapa forte na garota o que a fez cair com as mãos no chão, o pequeno pote de leite rolando pra longe dela, chegando mais perto da cobra... por pura sorte o homem não reparou. – Quer saber quem mandou vocês aqui? A polícia? Outra dessas ONGs de proteção ambiental?

Ironizou fazendo os outros homens do ando rirem.

- Nós estamos perdidas. Ela só achou a cobra bonita, ia tirar uma foto.
- Ah, a historinha do turista perdido... – falou o homem interrompendo a fala de . – Vocês acha que me enganam? Eu já perdi carga demais por causa de imbecis de nos que nem vocês. Sempre tentando preservar a natureza. Fingindo que se importam com animais selvagens enquanto vivem suas vidinhas trancadas na cidade grande.
- Ôô, seu embuste – levantou e ficou de frente pro mais velho. – Você não vai pegar mercadoria nenhuma aqui não. Sendo de ong ou não sendo, animal silvestre nenhum merece viver preso – estufou o peito sentindo o rosto arder onde tinha sido estapeado. Não parecia ter medo nenhum da arma apontada pra si. – Só pegam essa cobra por cima do meu cadáver, seu traficante de merda.
- Que assim seja então.

Outra vez o clique de destravamento da arma foi ouvido, enquanto engolia em seco, fechava os olhos e finalmente rezava pra tupã e sentia que ia desmaiar a qualquer momento, um assobio alto foi ouvido ali perto. Ninguém conseguiu identificar de onde vinha o som, à medida que ficava mais alto.

- Como eu falei, só por cima do meu cadáver.

Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. Um tiro foi ouvido, se jogou no chão, gritou alto, tentando se soltar de seu captor, desmaiou e por pouco não foi ao chão graças ao homem que apertava seu corpo para que não fugisse, o homem assistia o sangue jorrar de sua mão, resultado da flecha que tinha atravessado em cheio a mão que segurava a arma na direção do rosto de . Essa abriu os olhos segundos depois, sentindo alivio por não ter sido atingida, onde quer que o tiro tenha pegado. Começou a se arrastar devagar em direção ao frasco, enquanto ouvia urros e reclamações. Podia ouvir ao seu redor o barulho de flechas zunindo, mas continuou se arrastando, até chegar perto da cobra – que ainda não tinha se mexido, fazendo com que ela tivesse a certeza que estava enfeitiçada porque os animais são sensíveis a barulhos – com o frasco em mãos e finalmente derramar o leite na boca da cobra.
Deitou ali, sentindo finalmente a adrenalina e o sentido lhes deixar...




Continua...



Nota da autora: Demorei, mas estou de volta. Espero que gostem do capítulo.



Outras Fanfics:

04. Treasure - Ficstape Bruno Mars
08. Frank D. Fixer - Ficstape Jason Mraz
12. Girl Next Door - Ficstape Alessia Cara
Let Me Down Slowly - Originais
Meu Véu de Luar - Especial Pagode


comments powered by Disqus