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Última atualização: 30/03/2021

Prólogo

Cada passo era dado com incerteza. Os sons que ecoavam pelo corredor que levava ao vestiário não eram nada agradáveis. Já não seriam para o ouvido de qualquer um, mas eram menos ainda para . Ninguém deveria estar ali naquele horário. Era sexta, iriam todos para suas casas com a maior pressa do mundo. Mas a mãe de já dizia que ela não era como todos.
Queria que fosse mentira, queria que não fosse Harry. Com os dedos cruzados, torcia para que os boatos que escutara fossem apenas isso: boatos. Mas todo e qualquer mínimo detalhe sobre Harry Judd não lhe escapava. O nome dele seria facilmente mencionado por uma besteira? Sim. Mas o capitão do time de críquete da escola não deixaria que desrespeitassem sua pessoa de qualquer forma. Então acreditou haver verdade naquelas historinhas mal contadas durante o intervalo para almoço.
Sentia o coração querendo pular do peito quanto mais perto chegava da porta. Pensava consigo mesma que não era tarde demais para desistir. Mesmo que fosse verdade, preferia ser enganada. Estava finalmente vendo alguma razão em sua existência quando pensou que Harry Judd, logo ele, havia se interessado por ela. ainda repetia em sua mente que não deveria estar surpresa, que já sabia que Harry era areia demais para seu pobre caminhão.
Antes que percebesse, distraída por conta de seu conflito interno, estava de cara para a porta que levava aos chuveiros masculinos. Os sons, altos demais, estavam enfim inconfundíveis. Harry Judd estava fodendo uma qualquer no vestiário masculino, isso já era certo. Engolindo a raiva, irrompeu pela porta. Ao menos, faria com que ele passasse vergonha.
A garota, nua sob o corpo do atleta, parou de gemer repentinamente enquanto Judd ainda investia contra ela. Confuso, ele parou aos poucos enquanto tentava decifrar a expressão facial no rosto de Amy Black.
– O que houve? Desistiu?
Ela engoliu em seco. Logo, Harry acompanhou o olhar de sua companheira. Encontrou de braços cruzados. Queria chorar mas não daria aquele gosto a Harry de forma alguma. Não disse nada, não precisava dizer nada. Os dois que se escondiam ali estavam completamente sem reação. Era aquilo que podia fazer, era o máximo de humilhação que podia proporcionar aos dois. Ao ver que tinha surtido efeito, decidiu que iria sair dali e seguir em frente com sua vida, não importasse o quanto custasse fingir que Harry Judd jamais havia posto os olhos nela.
, espera! – Judd ainda pediu e ela não entendia como poderia importar, já que ele não estava dando a mínima para o compromisso que tinham assumido em conjunto. – !
– Você é o mesmo merda que seu pai. – Ela murmurou entredentes.
, eu...
– Vá se foder, Judd.
não pedia por muito. Enquanto eram namorados, ela apenas pediu por amor. Naquela situação, aquilo não era nada, era praticamente obrigação de Harry, mas ele se achava legal demais e ignorou-a quando deveria ter idolatrado a menina que estava ao seu lado. Mas não importava, porque Harry Judd tinha tudo o que qualquer garoto de sua idade sonhava, mas não teria nunca mais. Nunca deveria ter possuído a chance de tê-la para si, porque ela era muito mais do que ele mereceria em toda a sua desprezível existência.


Capítulo 01

Os passos ecoavam pelo diner que, àquela hora do dia, ainda estava vazio, aguardando pelo movimento certo do fim da tarde. De cabeça baixa e indisposta, se sentou em um dos boxes próximos à janela. Tirou o livro de dentro da mochila que levava consigo e colocou sobre a mesa, abrindo-o na página marcada. Estava pronta para imergir no universo de Alexandre Dumas quando ouviu os risinhos femininos vindos do box à sua frente. Dentre eles, reconheceu uma risada baixa contra a sua vontade. Quando levantou o olhar, encontrou uma das líderes de torcida olhando por cima do assento, disfarçando muito mal quando flagrada. Típico, pensou.
não era inocente. Não mais. Em poucas semanas, foi ao céu e ao inferno por conta de Harry Judd, capitão do time de críquete da escola. Pensou ser a escolhida. Afinal de contas, Judd tinha todas aos seus pés, não havia motivos para que ele tivesse olhos para , a retraída menina que mal era notada nos corredores do colégio. Um encontro e pronto, julgou estar apaixonada. Era tratada, de fato, como uma rainha. Até que o falatório começou.
Quem é aquela com quem Judd está saindo?”, “Judd está fazendo caridade esse ano?”, “Ele está enlouquecendo de vez?”, “Qual o sentido em os dois estarem juntos?”, “Será que é uma aposta e não sabemos?”, “Por que pensa ser melhor que as outras?”, “O que aquela garota tem que eu não tenho?”. Essas últimas perguntas eram as que consolavam temporariamente, porque o teor delas fazia com que entendesse que aquilo era apenas ciúme da chance que estava tendo. Besteira, descobriu depois.
Harry foi o primeiro namorado dela e tentou ser o último, tamanho o estrago que fez no coração da pobre . Em um dia, tratava-a como uma rainha, fazia se sentir a pessoa mais importante de sua vida. No outro, foi um completo estúpido por tantos motivos inumeráveis que nem gostava de lembrar. Ao menos, não tentou dar uma de ‘não é o que você está pensando’, ponderou por um instante ao recordar a cena de poucos dias atrás, eu deveria ter socado a cara dele.
– É verdade, Harry? – Ouviu uma delas falar.
– Seríssimo! – O capitão respondeu. – Quero dizer... Se uma mulher não sabe nem fazer isso, ela nem deveria ser considerada mulher.
– Uau, isso é tão ridículo... – Outra complementou.
– Eu sei. Por isso que eu terminei com ela, sabe? Eu não posso ficar em um relacionamento assim. Sou homem, capitão do time, tenho minhas necessidades fisiológicas que...
A partir desse momento, o sangue de parecia ferver dentro de si. Era quase como se estivesse em um vulcão entrando em erupção. Podia apostar, inclusive, que saía fumaça de dentro de suas narinas. Respirou fundo uma, duas, três vezes. Nem mesmo as aulas de yoga em que havia acompanhado a mãe estavam surtindo algum efeito. Estava pronta para desistir da refeição, iria terminar o turno no serviço com fome mesmo e daria um jeito de esperar até em casa, mas algo entrou em seu caminho. Ou melhor, alguém.
– Oi, .
– Oi, Doug. – Ela sorriu um pouco para o rapaz. – Tudo certo por aqui?
– Tudo certo sim. E com o doutor Graham? – Dougie olhou para o pequeno escritório do principal advogado da área, do outro lado da rua e visível através da vidraça que cobria toda a parede do diner, dividindo o ambiente interno do externo.
– Estamos nos dando bem, eu acho. Ele está em audiência hoje e eu estou ajeitando alguns papéis pro resto da semana, devo ficar até tarde e achei que seria melhor comer um pouco pra aguentar até mais tarde.
– Veio ao lugar certo. – Ele riu um pouco mas riu de si mesmo, pois pensou imediatamente que aquela fora uma das coisas mais idiotas que havia dito em toda a sua vida. – O que você vai querer?
– Pode me ver panquecas com calda de caramelo, por favor? E um milkshake de chocolate.
– Claro. – Ele anotou em seu bloco de notas. – Se precisar de alguma coisa, é só fazer um sinal que eu venho, ok?
assentiu. Pegou, na bolsa, o protetor auricular que usava no escritório quando a rua estava muito movimentada e o som dos carros atrapalhava o seu rendimento com a leitura. Se perguntassem, diria que era para não ouvir a música que tocava em volume ambiente no diner, o que seria uma mentira pois adorava Bon Jovi e, mesmo que a banda tivesse acabado de lançar-se na indústria musical, já podia prever que seriam um sucesso por muitos e muitos anos. Não, não era por causa do Bon Jovi. Era simplesmente para não ouvir as gracinhas do box à sua frente.
Edmond Danté havia começado a última etapa de sua fuga do Chateau d’If. Por mais que já tivesse relido o romance diversas vezes só naquele ano, encontrava-se tensa. Tinha a respiração pesada, segurava o livro com mais firmeza e corria os olhos pelas letras com pressa para chegar logo à parte em que Danté encontrava o tesouro. Estava imersa na escrita quando sentiu um par de olhos sobre si.
Ignorou tanto quanto pôde ao espiar, pelo canto do olho, que Dougie estava junto ao balcão. Se não era ele levando o seu pedido, não havia quem mais ser. Mas ainda sentia que estava sendo observada e aquilo estava incomodando-a tanto que levantou os olhos para descobrir de quem era alvo. A garota no box da frente virou-se imediatamente, disfarçando muito mal. Nem o protetor auricular conteve o som dos risinhos que foram propagados logo após sua espectadora voltar ao seu lugar.
Decidiu que não adiantava tentar disfarçar, não conseguiria ler. Precisava ter calma em sua cabeça para tal, e calma era o que menos havia ali. Não haveria calma enquanto Harry Judd estivesse por perto. O ódio em si era tão grande que atrapalhava até o maior prazer que via na vida. Também não era para menos. Cada vez que lembrava de tudo – desde o flagra no vestiário, passando por toda a tentativa patética de Judd se redimir e indo até as mentiras que ele espalhara sobre ela no colégio quando o colocou para correr de uma vez por todas –, só conseguia pensar que aquela desilusão amorosa havia sido, na verdade, um livramento.
Antes que tomasse qualquer decisão a respeito, viu Dougie se aproximar com a bandeja em que provavelmente levava seu pedido, já que a imagem era compatível com os itens solicitados. Respirou fundo, ao menos não perderia o prazer em comer. Ele deixou a refeição sobre a mesa com um sorriso meramente educado. De repente, estava tenso e ficou receoso de continuar, então optou apenas fazer um sinal com a cabeça, indicando o box de Harry quando deixou o guardanapo dobrado em cima da mesa de .
Dougie deu de ombros, como se dissesse que sentia muito, e realmente sentia. Ele se afastou enquanto desdobrava o guardanapo, torcendo para que não fosse nada muito ruim. Não queria ser mal educado com Judd porque ele sempre ia ali com os colegas do time, o que dava muito dinheiro para seus pais, mas também não queria chatear . A questão era que era apenas uma e Judd era escalável. Se seus pais soubessem que ele havia destratado um dos principais clientes do diner, Dougie ia escutar um sermão de horas que apenas serviria para fazê-lo sentir mais raiva daquela cidadezinha.

Quando eu terminar aqui,
posso cuidar de você.

A raiva subiu à cabeça de ao ler o bilhete com a inconfundível e péssima caligrafia de Judd, e ela levantou de supetão. Deu os três passos do caminho até onde Harry estava cercado pelas garotas e socou o tampo da mesa. Harry pulou de susto no assento, junto com todas as outras meninas. Queria provocá-la, é claro, mas não pensou que chegaria àquele ponto. Ele, em si, não tinha medo. Era outro sentimento, aliado à vergonha que tinha de ter feito mal a . Sim, ele tinha vergonha, mas jamais admitiria para não correr o risco de parecer fraco para qualquer outro. Prezava, sobretudo, por sua imagem de durão para todos do colégio. Mas o fato era que Harry Judd tinha irritado , mais uma vez, e ela era uma das únicas coisas que colocavam Judd em uma posição de extrema vulnerabilidade.
– Que merda você tem na sua cabeça, Judd?
– Ui, olha que boca suja. – Mary, uma das meninas, falou.
– Ao menos tá suja de palavras e não de um pinto qualquer que você chupou atrás da arquibancada enquanto tava matando aula. – rosnou para a garota, que encolheu-se com as palavras proferidas. – E você, Judd, já passou da hora de crescer, não acha? Se eu quisesse você, ainda estava do seu lado como uma perfeita otária, igual a essas vagabundas aí.
– Vagabunda é a sua mãe!
– Não estou falando com você, Carlton, estou falando com ele. – Ela brigou com a garota. – Porque eu não quis transar com você, eu não te amo, eu não penso no seu bem, eu não quero um futuro pra gente. Ótimo, que seja. Você tá cheio de mulher em cima de você, que tanto você tem que continuar se metendo comigo?
Harry não disse nada, só fez sinal para que elas abrissem caminho para ele. Então Judd se levantou e ficou de frente para , encarando-a de bem perto. Abriu um sorriso debochado. não fazia ideia de que a atuação estava custando muito caro para o psicológico de Harry, mas também não dava a mínima.
– Quem disse que eu continuo me metendo com você, ?
– Você não ouse começar com seus escárnios, Judd.
– Isso foi uma ameaça, gatinha?
não pensou duas vezes e disparou a palma da mão, completamente aberta, na direção da bochecha esquerda dele. Não sabia se tinha surtido o efeito que queria, mas sua mão ardia com o impacto. Segurou a respiração e não demonstrou reação alguma, era inadmissível demostrar qualquer tipo de fraqueza frente a ele. Nisso, os dois tinham muito em comum.
– Se você falar comigo desse jeito de novo, eu juro que vou dar um jeito de quebrar seus dentes.
... – Ele tentou sussurrar, fazendo uma careta que indicava que não queria conversar sobre o que tinha que conversar naquele lugar.
– É senhorita pra você. Daqui pra frente, não ouse fazer uso do meu apelido, Judd, e eu estou falando sério.
– Claro que está falando sério, eu...
Ela lhe direcionou um olhar tão carregado de ódio que calou Harry de uma vez por todas. Estava decidido a não falar mais nada, a continuar tentando conversar com para tentar retratar-se. Mal sabia ele que nunca aceitaria nada vindo de alguém que prezava mais pela imagem do que pelo que as pessoas sentiam em consequência de suas ações. E ele também não sabia que jamais deixaria aquilo barato. Já que ele havia espalhado boatos sobre ela, podia também jogar o mesmo jogo.
– Já contou pra elas que você tem sífilis? – Disse em alto e bom tom.
estava mentindo. Harry sabia, é claro, mas as garotas que estavam grudadas no pescoço dele segundos atrás não sabiam, então elas logo deram alguns largos passos para o lado, aterrorizadas. queria rir da situação, mas estava tão irritada que não podia. Então Dougie passou atrás, tentando ignorar a cena, com uma bandeja para servir a mesa próxima da ponta do diner, quando se virou e pegou um dos refrigerantes que ele carregava. Com os olhos transbordando ódio, derrubou o refrigerante todo em cima de Harry. Dougie, paralisado, acabou ficando por ali mesmo.
Ela foi de volta para sua mesa, colocou o livro de volta na mochila, pegou uma nota grande na carteira e deixou com Dougie. De repente, não havia mais raiva em e os dois trocaram um olhar triste.
– Pra pagar o que eu ia comer, o refrigerante que eu joguei fora e o trabalho com a limpeza. Peça desculpas a seus pais por mim, por favor. – A garota disse com sinceridade.
, a gente pode tirar o Harry daqui, você não precisa ir...
– Não, Dougie, quê isso. Não tem necessidade de trazer problema pra você e pros seus pais, de verdade.
Sorrindo tristemente para o pobre rapaz, saiu do diner quase correndo. Afinal de contas, ia voltar à ideia que devia ter seguido desde o começo: segurar a fome e comer apenas em casa.


Capítulo 02

Na segunda-feira, aquele era o assunto entre os corredores no colégio. , a garota sem destaque nenhum, tinha sido rude com Harry Judd, o herói capitão do time de críquete. Provavelmente, ela foi para a cama com ele e quis algo mais sério, agora está se lamentando, as más mentes pensavam. Harry também não ajudou com os boatos que criou sobre , que já estava cansada de desmentí-lo a cada dez minutos passados ali dentro.
sabia que estava sendo minuciosamente observada em cada movimento que fazia enquanto arrumava o armário para a próxima semana de aulas, mas sentiu quando não era qualquer pessoa que estava encarando-a. Virou para confirmar de quem se tratava e ficou presa ali. Harry não tinha vergonha alguma, queria que os rumores espalhassem-se por conta própria. Então um borrão atrapalhou sua visão e, em um segundo, Dougie estava à sua frente.
– Ei, tá tudo bem?
– Oi! É... Tá tudo bem sim.
O rapaz se encostou em um dos armários vizinhos ao seu e abraçou os livros que carregava na frente do próprio corpo.
– O que você fez ontem... – Dougie começou a dizer e suspirou. – Ele merecia.
– Eu sei. – deixou escapar um sorriso de canto.
– Você precisa de alguma ajuda com ele?
– Não, Dougie, tá tudo bem. Mas obrigada por se oferecer.
– Sei que não sou a melhor pessoa pra isso, mas pode conversar comigo, se for o caso de precisar conversar com alguém. Eu acredito em você, sei que não fez as coisas que ele diz que você fez.
– Obrigada. – sorriu para o rapaz. – De verdade, obrigada mesmo.
– Que aula você tem agora? – Ele tentou puxar assunto repentinamente.
– Literatura inglesa.
– Dunbar? – Dougie perguntou e ela assentiu em resposta. – Boa sorte, é uma aula chata.
– Eu gosto.
– Da aula?!
– Não, da matéria. A senhora Dunbar é... – Ela procurou por uma palavra que tivesse mais precisão em demonstrar o que queria dizer. – ... peculiar.
– Eu tenho uns livros legais que ela recomenda. Quer que eu te empreste?
– Podemos ver isso qualquer dia desses.
Ele ajeitou o cabelo comprido.
– Meus pais mandaram dizer que, da próxima vez, você pode falar comigo ou com um deles, quem estiver mais perto. Se o Harry te perturbar de novo, a gente tira o babaca de lá.
– Não, Dougie, isso... – Ela suspirou e virou-se para ele, apoiando parte do corpo no armário atrás de si. – Harry leva o time de críquete inteiro lá, várias vezes no mês. Vai toda hora com uma ou mais garotas, e até amigos que não têm nada a ver com o colégio. No fim das contas, Harry é um bom cliente pros seus pais e eu não posso nem devo me meter nos negócios deles. Não é justo.
– Nós somos pessoas decentes, , não vamos deixar que você sofra injustamente dentro do nosso próprio estabelecimento.
– E eu também não vou deixar que vocês percam dinheiro por minha culpa.
– Você não é culpada por nada, ele que é.
Continuou arrumando suas coisas enquanto sentia que Dougie não parava de encará-la nem por um segundo sequer. Estava começando a ficar incomodada com aquilo quando virou-se para ele novamente.
– Você quer falar alguma coisa, Poynter?
– Quer ir ao baile comigo?
– O quê?! – Ela se surpreendeu com o convite repentino.
– Bem... Quer dizer... Eu não sei se você sabe, mas a minha banda vai ser a atração principal da noite durante o baile de formatura.
– Não estava sabendo. – pendurou a mochila finalmente em seus ombros. – O que tem a banda?
– Acho que você vai gostar muito.
ponderou sozinha com seus pensamentos por um instante, balançando a cabeça conforme pensava. Dougie, ao seu lado, estava com a garganta seca de ansiedade.
– E então?
Não é uma pergunta tão difícil de se responder, Dougie pensou consigo mesmo.
– Posso pensar?
– Claro. – Ele deu de ombros.
– Te dou uma resposta até o final de semana. – sorriu para Dougie e o alarme do colégio tocou, indicando o início das aulas. – Preciso ir, mas eu te procuro.
Dougie ficou parado ali, contendo um leve sorriso, enquanto assistia a garota mais incomum da escola se afastar pelo corredor à sua frente. Nem mesmo preocupou-se com o horário de sua própria aula. Gostou da visão, correria o risco do inspetor flagrá-lo ali porque valia a pena para ele.
– Ei, Poynter, vai se atrasar pra Biologia.
– To ciente, Jones. – Resmungou para o colega de classe.
Dali, seguiu para a sala de aula quase sonhando. Podia sentir os passarinhos animados voando em volta de sua cabeça e quase afastou-os porque não queria sentir-se afetado daquele jeito por – ao menos, achava que não queria.
– Você sabe que a é a menina mais incomum desse colégio, não sabe?
– To ciente, Jones. – Dougie respondeu a resposta que tinha dado ao amigo poucos minutos antes. – To ciente de muitas coisas, na verdade. O que você quer dizer com isso?
– Poynter e Jones, sem conversa paralela, por favor! – O professor, senhor Harbin, gritou na frente da turma.
Os dois disfarçaram enquanto a explicação sobre botânica seguia a pleno vapor. Dougie, no entanto, não teve paz por muito tempo. Sentiu, logo, o amigo lhe cutucar o ombro.
– Você tá afim dela?
– Fiz o convite.
– Pro baile? – Ele ficou surpreso quando Dougie respondeu com uma ligeira e quase imperceptível afirmação. – Você é corajoso. Eu acho que ela não vai aceitar.
– Por quê?
– A não é exatamente a pessoa mais sociável desse colégio. Talvez ela nem queira ir.
– Não é o sonho de toda garota? – Dougie sussurrou, perguntando sem tirar os olhos do quadro onde o professor fazia anotações sobre o assunto da aula para não ficar tão óbvio que não estava prestando atenção.
– Sei lá, é diferente.
Ele ficou em silêncio após aquela fala. Dougie pegou um marcador permanente na mochila que estava no chão, ao pé de sua carteira escolar, e anotou em letras garrafais no topo da primeira página sobre o assunto do dia “ler tudo de novo/procurar tutoria”. Pensava no que o amigo havia acabado de dizer e sabia que, provavelmente, não conseguiria focar em mais nada além daquilo durante o dia.
– Você sabe se é verdade o que o Judd falou sobre ela?
– Se o Judd foi quem falou, já é um passo pra desconfiar fortemente, você não acha?
– Acho, claro que acho... – Ele deu de ombros. – Mas não sei, também foi estranho os dois terem se envolvido.
não faria aquilo e o Judd tem sido um grande babaca com ela ultimamente.
?!
– O que tem?
– Você tá apaixonado mesmo, hein, Poynter! Que merda... – Deu dois tapinhas no ombro de Dougie como quem dizia que sentia muito por algum acontecimento e voltou sua atenção completamente para aula, de onde seu foco nunca deveria ter desviado.
Três salas de aula de distância dali, era a aluna sentada na primeira cadeira da classe de literatura inglesa. Não tinha dificuldade com aprendizado, muito pelo contrário. O assunto daquela aula era um de seus preferidos, mas toda e qualquer precaução era pouca em seu planejamento de vida. Notas baixas eram inadmissíveis para , e não era no sentido de puramente ter um bom desempenho escolar. Ela não queria, de forma alguma, sujeitar-se a qualquer tipo de prolongamento, mesmo que mínimo, do que já era um martírio naquela escola.
Sentia os murmúrios atrás de si e o tanto de vezes em que a senhora Dunbar chamou a atenção dos alunos não lhe ajudava em nada, só relembrava mais ainda o que estava acontecendo naqueles dias, especialmente naquela segunda-feira. Olhou para Carey, a única amiga que tinha naquele colégio porque era a única que também era segregada de todos os grupinhos em que os alunos se dividiam. Ela fez cara de quem sugeria que deveria deixar para lá.
era separada por ser novata, filha de mãe solteira, que não frequentava as festinhas e amiga de Carey. Esta, por sua vez, era separada de todos simplesmente por ser negra. Uma achava o motivo pelo qual a outra era segregada um absurdo, mas não tinha nada que pudessem fazer a respeito daquilo. As pessoas estavam sendo idiotas com elas, de fato, mas ambas precisavam seguir em frente como se nada tivesse acontecido ou aquilo só teria piores efeitos em suas vidas.
Na saída, após o fim das longuíssimas horas ali dentro, tanto quanto Carey ficaram olhando o ônibus escolar partir. Mais uma vez, preferiam ter o trabalho de caminhar uma longa distância do que estar dentro de um veículo lotado de gente que não as respeitava.
– Então... Você e o Poynter... – Carey começou a murmurar, segurando nas alças da mochila enquanto colocavam o pé na calçada que levaria as duas para casa.
– Eu e o Poynter?!
– É... – Ela disfarçou. – Vi vocês dois no corredor antes do começo das aulas... Pareciam íntimos.
– Só impressão sua.
– O que ele queria?
– Eu acho que ele me convidou pro baile.
– Acha?! – Carey riu.
– É... Ele perguntou se eu queria ir com ele, depois falou alguma coisa sobre a banda... Enfim, não ficou exatamente claro o que ele queria.
– E você disse sim?
– Eu disse que ia pensar.
– O Poynter é legal. – A amiga deu de ombros. – Não que eu tenha muito contato com ele mas, só de ele não ser um total idiota comigo, já é um bom começo. Você devia dar uma chance a ele.
– Você tá falando sobre o que eu acho que tá falando? – olhou a amiga de soslaio, que riu em resposta.
– O que você acha?!
– Não, nem vem. – Ela balançou a cabeça, rindo também. – Faltam poucas semanas e, em breve, eu vou estar tão longe dessa cidade que nem vou me lembrar mais da existência dela.
Após soltar a frase, notou que sua acompanhante murchara. Logo, tratou de abraçá-la por cima dos ombros e apertou-a um pouco.
– Ei, não estou falando de você.
– Eu sei que não. – Carey balbuciou. – Mas ele é bonitinho, você tem que assumir.
– Quem? Poynter?!
– É!
– Chega de homens por essa cidade, Carey, eu já me ferrei demais com o primeiro.
– O Judd foi um babaca com você, mas isso não quer dizer que todos sejam babacas.
– Bem, já tá extremamente claro que os amigos dele são, o que já é boa parte da cidade.
– É... Nisso, você tá certa. – Carey deu razão à amiga. – Ainda assim, você deveria dizer ‘sim’ ao Dougie.
– Nem sei se foi um convite de fato, Carey.
– Eu tenho certeza de que foi.
– Você sempre sabe tudo? – Perguntou, rindo.
– Sim, sempre. – Ela deu de ombros. – Você não disse que, se fosse ao baile, só queria alguém para dançar com você?
– Disse. Por quê?
– Dougie parece ser o tipo de cara que faria isso bem.
riu. Andaram mais alguns passos em silêncio enquanto as falas da amiga ecoavam na mente de , que devaneava pelas mais diversas possibilidades.
– Você vai trabalhar hoje?
– Vou sim.
– Que horas você sai? Podíamos tomar um milkshake lá no Poynter...
– Eu acho que não tenho horário hoje. – respondeu. – Podemos marcar pra amanhã? Eu vou estar de folga.
– Claro.
As duas seguiram o trajeto conversando sobre o professor de matemática e o tanto que ele parecia não entender sobre o que estava explicando durante a aula daquela manhã. Em certo ponto, tiveram que dividir-se, pois as casas ficam em sentidos opostos do mesmo bairro. terminou a caminhada sozinha, entretida com os próprios pensamentos. Às vezes, estar dentro de si mesma era divertido. Às vezes, nem tanto. Naquele dia, estava mais para o segundo caso.
– Deu tudo certo colégio, filha? – A senhora perguntou assim que ouviu a filha passar pela porta de casa. – Como foram as aulas de hoje?
– Boas. – respondeu com a indiferença de sempre.
Não foi até a cozinha falar com a mãe. Deixou a mochila no chão, perto da porta de entrada, e seguiu escada acima, em direção a seu quarto. Queria ficar sozinha.
– Vou deixar seu almoço em cima do fogão e voltar para o trabalho! – Ouviu a mãe gritar quando já estava no segundo andar.
não se preocupou com responder. Só queria uma única coisa: enfiar a cara no travesseiro e gritar para dispersar seus demônios interiores. Não aguentava mais aquele cidade, aquele colégio, aquela década, aquela vida... Mal podia esperar pelo fim do curso, que aproximava-se lentamente – de seu ponto de vista.


Capítulo 03

– Certo. O senhor tem mais algum pedido?
– Eu precisava de um grande favor, que você transcrevesse o depoimento do Cletus Dubose.
– Já fiz isso, deixei na sua mesa mais cedo.
– Sério? – O doutor Graham encarou curioso. – Como você sabia que eu ia te pedir isso?
– O senhor sempre pede transcrição de depoimentos quando os casos envolvem risco de prisão perpétua como sequência.
O advogado estava surpreso, de forma boa.
– Se continuar assim, vai ser uma ótima advogada no futuro. Aliás, sua carta de recomendação está pronta, pegue-a antes de ir embora comigo.
sorriu. Aquilo era tudo o que precisava para ir a Yale no dia que havia marcado para visitar o campus e realizar sua inscrição. Mal podia esperar pelo dia em que veria-se longe daquela cidade de uma vez por todas. Era de Yale para o mundo. não colocaria mais os pés naquele lugar por nada, ainda mais se conseguisse a tão sonhada bolsa de estudos que seu chefe estava tentando ajudá-la a conquistar. Tinha planos perfeitos e ficava extremamente feliz com aquilo.
Dali para a frente, seu expediente foi tranquilo. O doutor Graham recebeu dois clientes e as reuniões ocorreram sem complicações. Ela se manteve firme em suas funções, reorganizou a agenda do chefe para a semana seguinte, confirmou alguns compromissos e aproveitou o tempo livre que restou para estudar um pouco de Álgebra, matéria da qual teria prova na outra manhã.
– Terminou, ?
– Sim, senhor. – Ela respondeu prontamente o chefe quando este dispensou o último cliente do dia.
– Pode ir embora então, eu fecho o escritório.
– O senhor tem certeza?
– Claro, vá descansar. – Ele disse, com o semblante tranquilo porém sério. – Vá descansar, nos vemos amanhã.
Com um sorriso educado, assentiu e recolheu suas coisas. Colocou tudo de forma organizada dentro da grande bolsa que levava consigo e saiu do escritório. Olhou para os dois lados da rua e, certificando-se de que não havia nenhum carro vindo, atravessou na direção do diner da família Poynter.
O som do sino acima da porta anunciou sua entrada. não viu, mas Dougie sorriu ao percebê-la ali. Cortou a conversa que estava tendo com duas garçonetes no balcão e foi até ela quase aos pulos. Não foi surpresa – nem para Dougie nem para – a escolha da mesa. Sempre que ia ali, escolhia o box na exata metade do salão, junto à vidraça que dividia o ambiente interior da calçada. gostava de observar os transeuntes e, por motivo nenhum, o escritório onde passava as tardes trabalhando.
– Oi, . – O tom de voz de Dougie era mais feliz naquele dia do que no último encontro dos dois ali, e isso não passou despercebido pela garota. – O de sempre?
– O de sempre, Doug. – Ela sorriu.
Sentiu-se imediatamente mal por sequer mencionar uma possível resposta a seu convite. A verdade era que ainda estava confusa, não sabia em qual sentido aquele convite havia sido feito. Dougie, por sua vez, não queria falar nada para não pressioná-la. Os dois estavam tirando conclusões precipitadas sobre o outro.
– Você tá caidinho nela. – James, seu primo, lavava pratos quando ele chegou com o novo pedido.
– Cala a boca, cara.
– Gente... Pedido da . Acelera aí, por favor.
– Vai demorar um pouco, Dougie. – A cozinheira, Patricia, avisou. – Tinha um ovo podre na última leva, to limpando tudo aqui pra voltar a usar essa parte da cozinha.
– Ok, adianta quando puder, por favor.
Ela assentiu e Dougie voltou ao salão. Entregou alguns pedidos, orientou as garçonetes a fazerem atendimentos. O sino tocou e ele prestou atenção. Sua mãe, Samantha, entrava alegre. Só pela postura dela, todos os presentes concluíram que ela havia acabado de sair do salão de beleza. Passou por Dougie, apertou sua bochecha com um sorriso forçado no rosto e foi até a caixa registradora. Abriu a gaveta e tirou três notas de vinte dólares de lá.
– Eu anoto essa retirada depois.
– Não, mãe, você vai anotar agora. – Dougie disse à mais velha.
– O quê?!
– Da última vez, você esqueceu e uma pessoa quase foi demitida injustamente. – Ele resmunou e, depois, baixou a voz para si mesmo. – Ou fingiu que esqueceu que retirou, né...
– O que você disse, mocinho?
– Mãe, só faz a anotação no caderno de controle, não leva nem meio minuto.
Samantha Poynter estava pronta para rosnar um belo sermão ao filho em alto e bom tom, sem se importar com os clientes do diner – e ele estava igualmente disposto a devolver o argumento na mesma voz –, quando a filha do prefeito entrou pela porta. De uma hora para outra, a senhora Poynter estava mudada. Dougie revirou os olhos e seguiu com o seu serviço, pegando outro pedido que havia ficado pronto, o que foi anunciado pela campainha da janela entre a cozinha e o balcão.
Mais uma vez, o sino da porta tocou. O ambiente foi tomado por vozes com volume mais alto. Alguns dos clientes ficaram visivelmente incomodados. Dessa vez, para a infelicidade de Dougie – e de também –, o sino da porta não trazia boas notícias. Entre as risadas e palavras sem nexo, a voz de Harry Judd era perfeitamente identificável.
Ninguém sabia que Harry também tinha um lugar fixo favorito no diner por conta de . Era ela quem sempre escolhia onde eles se sentavam quando frequentavam o lugar como um casal. Para Dougie, era, de certo, motivo de alívio vê-los separados, mas não queria que aquilo tivesse causado dor em de forma alguma. Só queria a chance de desvendá-la mas, quanto mais perto parecia estar, mais inalcançável ele sentia que ela era.
– Courtney, pelo amor de Deus, vai atender o Judd. Se eu for...
– Pode deixar, Doug.
assistiu, à distância, a mão da garçonete pousar com delicadeza no braço do colega. Não soube dizer de onde veio a pequena e quase imperceptível pontada de ciúmes, mas soube constatá-la. De qualquer forma, não importava. Pegou o livro da vez em sua bolsa, o refúgio de sempre que adorava ter.
O escolhido era Os Miseráveis. não tentava esconder sua predileção pela literatura francesa, embora detestasse o idioma. De qualquer forma, aquela seria a sua primeira vez mergulhando nos mistérios da escrita de Victor Hugo. Estava feliz por experimentar mais um autor, achava que seria uma ótima distração para afastar sua mente da presença de Harry ali.
Por sorte, não foi notada. Mas os comentários maldosos ainda persistiam entre Harry e as líderes de torcida, praticamente carrapatos sugando o seu sangue. Os comentários, no entanto, não eram apenas sobre . Eram sobre outras colegas, algumas até mesmo de quem meninas ali diziam-se amigas.
Ela não colocou os protetores auriculares de forma correta propositalmente. Queria saber se Harry estaria espalhando um novo boato e preparar sua defesa se esse fosse o caso. Disfarçou isso com o cabelo. Todos ali a conheciam, esperavam que ela não estivesse ouvindo nada nem ninguém. , a garota que sempre vivia no mundo da lua... Com isso, ela não se ofendia.
Viu Dougie se aproximar da mesa colada à dela com uma bandeja lotada na mão. Respirou fundo, conteve-se... Eram só refrigerantes, o pedido dela certamente estava sendo feito naquele exato momento, o que significava que estaria fresquíssimo na hora de comer. Pensamentos positivos, , a garota disse a si mesma mentalmente. Mas, de repente, viu o olhar pesaroso no colega e sentiu que havia algo errado prestes a acontecer. Arrancou os protetores auriculares de qualquer jeito e começou a processar a sentença no meio dela.
– ... você não tem objetivo de vida, né, Poynter? – A voz que tanto odiava conhecer proferiu.
– Harry, por favor, eu não quero problemas.
– Ah, coitadinho do Poynter... – O mais velho debochou e a vontade de entrar no meio foi até a garganta de e voltou. – Você nunca vai agir como um homem de verdade, não é mesmo? Por isso que você é virgem até hoje.
– Harry, é sério. Se você tiver algum problema pessoal comigo, podemos resolver, mas fora do estabelecimento dos meus pais. Só diga o lugar e a hora, eu estarei lá.
– Não tenho problema nenhum com você, Poynter. To até deixando você ficar com o restinho do prato onde eu comi. volta pra mim num piscar de olhos se eu pedir, e ela nunca mais vai olhar no seu rosto, pivete. – colocou os protetores auriculares para valer nessa altura, não ia suportar escutar as ofensas de baixo calão que Judd certamente direcionaria a Dougie. – Quando ela se cansar de você, vai voltar rapidinho pra mim. E sabe como eu sei disso? Porque você não é nem dez por cento do homem que eu sou, Poynter.
– Tudo bem, você tá certo, mas eu posso servir os refrigerantes?
– Vai em frente, lacaio.
Dougie bufou mas fez seu serviço. Estava realmente em seu limite, mas queria o mínimo de estresse possível. Depois de Courtney reclamar que tinha sido assediada por Harry deliberadamente, restava a ele fazer o serviço da mesa onde ele estava com as líderes de torcida de sempre. Quando botou o último copo de refrigerante sobre a mesa, Harry teve o atrevimento de derrubar o copo em cima de Jackie, uma de suas acompanhantes. Fez a melhor cara fingida de deboche para Dougie.
– Vai lá pegar material pra limpar os meus pés, lacaio.
O apelido era o de menos para Dougie. De tudo, aquela era a parte mais fácil de aturar. Mas o chão precisava ser limpo de qualquer forma porque, se o refrigerante secasse, ia ficar um nojo, e era bem capaz de Harry Judd e seu exército irem passear pelo diner só para espalhar a sujeira pelo chão. Mas foi só andar na direção de uma mesa mais à frente que sentiu uma mão puxar seu braço e o coração pulou uma batida.
ouviu o suficiente. Harry estava incomodado com a proximidade entre os dois, isso ficou evidente no pouco que aguentou escutar da conversa. Não havia melhor momento para fingir que não havia notado sua presença. Mas até mesmo , que estava tentando afastar de sua mente a ideia de estar com um homem novamente tão cedo, sentiu as faíscas quando as duas peles fizeram contato. Levantou o olhar e encontrou um Dougie curioso, no mínimo – e outras coisas mais.
– Doug, – Ela começou a falar e percebeu que sua voz estava ligeiramente fraca, então empenhou-se em melhorá-la pois queria propositalmente que Harry ouvisse ao mesmo tempo que ficasse como verdade para todos que ela ainda não sabia de sua presença no estabelecimento. – desculpa ter demorado tanto pra responder... O convite ainda está de pé?
– Pro baile? – Os olhos do rapaz brilharam e um sorriso iluminou o rosto que, poucos segundos atrás, estava completamente derrotado.
– Sim.
– C-claro que tá. – Dougie gaguejou. – Por quê?
– Eu adoraria ir com você.
Só então que os dois notaram que ainda estavam fisicamente conectados. Dougie ruborizou, também. Harry ouviu o diálogo da mesa, obviamente reconheceu a voz e viu o sorriso aumentar significativamente no rosto de seu adversário. A raiva e o ciúme lhe corroeram o estômago.
– Harry, tá tudo bem? – Julie, a que estava mais próxima dele, perguntou, colocando a mão em seu peito.
Judd desvencilhou-se da garota e saiu da mesa às pressas, indo na direção do banheiro com passos firmes. A porta do banheiro bateu com força, assustando alguns dos clientes. Outros já esperavam o som pois acompanharam o tempestuoso capitão do time de rugby do colégio desde o momento em que ele se levantou. Nem Dougie nem notaram. As faíscas ainda estavam ali e, por algum motivo, nenhum dos dois queria que aquele momento acabasse.
– Doug, pedido da assistente do Graham tá pronto! – Gritaram o rapaz da bancada.
– Eu vou lá pegar e trazer pra você. – Ele falou baixinho e ainda hesitou em soltar seu braço.
No banheiro, Harry bufava contra o espelho. Olhava o próprio reflexo, perguntava-se o que poderia fazer para pegar de volta para si – porque sim, Harry a enxergava como uma propriedade – e o que fazer para tirar Dougie Poynter do seu caminho de uma vez por todas. Pobre Judd, não sabia que o destino já tinha dado as cartas.


Capítulo 04

O juiz entrou e deu permissão para que todos sentassem. ajeitou a saia preta rodada no joelho para que continuasse em posição de decência e que o movimento não a amarrotasse. Conferiu com os olhos os papeis com as informações sobre o caso em questão, como também o seu bloco de anotações pessoal sobre os detalhes específicos que chamaram a sua atenção.
– Bem, o que temos aqui, meus amigos?
Os Humphries eram uma família com relevância na cidade. Não tinham parentesco de sangue com o prefeito, mas diziam que eram primos mesmo que todos soubessem que era mentira. Gostavam de andar com pompa, expondo-se para quem quisesse – ou não – ver. E ai de quem ousasse mexer com os Humphries, porque eles juravam ter a polícia na mão deles.
Pois bem, não tinham.
A recíproca entre os Humphries e o prefeito não existia. Era puro fingimento, porque os Humphries tinham dinheiro e isso era bem quisto por ele. Mas foi só a primeira falha grave e não-excludente de punibilidade surgir a partir do filho perturbado do casal que o prefeito lavou as suas mãos e fez-se de bobo, que nada tinha a ver com a família. Era aí que entrava. Bem... Não necessariamente . Na verdade, entreva o doutor Graham. era a assistente.
Seria óbvio se eles estivessem defendendo o Humphrie mais novo, claro, porque era o herdeiro mais poderoso da cidade, então faria sentido se a família contratasse o melhor advogado ao alcance deles. Só que o mundo acabara de ver, com pavor, o caso de Ted Bundy e suas diversas artimanhas. Desde que veio a público, alguns anos antes daquele julgamento em específico, o doutor Graham se prometeu que, caso fosse cotado para defender um criminoso, iria oferecer auxílio gratuito à vítima deste – se fosse o caso de ser necessário.
Marcel Humphrie estava sendo acusado de estupro. Uma acusação gravíssima, de fato. A princípio, Mary Shanks, a vítima, não achou que seria levada a sério, mas ver o doutor Graham assumindo a posição de assistente de acusação fez com que ela voltasse a ter um pouco de esperança. A questão era que, enquanto não fosse condenado pelo juiz Klein, mesmo com as fofocas correndo pela cidade inteira de que as provas eram irrefutáveis, Mary continuaria sendo julgada. Isso, por si só, entristecia imensamente . O fato de Marcel ser amigo de Harry só fazia o ódio lhe subir mais à cabeça.
– Protesto! – O doutor Graham se levantou de imediato, erguendo não só seu corpo como também a voz. – Meritíssimo, a vítima fez a denúncia com a identificação do réu. A vítima apontou o réu dentro desta sala. Isso é mesmo necessário?
– Mantido. Doutora Saucier, por favor, reformule ou retire a sua pergunta, não a consederarei.
– Certo, meritíssimo. Senhor Humphrie, desde quando conhece a suposta vítima?
– Protesto!
– Doutora Saucier, eu estou alertando...
– Perdão... Desde quando conhece a senhorita Shanks?
– Nós crescemos juntos. –– O acusado deu de ombros.
– E como poderia ser definido o relacionamento que vocês dois possuem?
– Nós não temos um relacionamento, apenas nos conhecemos de vista.
Mentira, pensou de imediato e conteve uma careta, gesto que não passou despercebido por seu patrão, compenetrado porém atento a tudo. Sabia que sua assistente não estava em um dia normal e apenas o pressentimento foi suficiente para colocar a dúvida em sua mente. Ela ficava cada vez mais ansiosa conforme imaginava a si mesma protestando contra tal resposta, mas estava consciente de que não poderia levar a vida pessoal para dentro do tribunal.
Não, meritíssimo. Na verdade, os dois se conhecem muito bem. Se o senhor perguntar a qualquer aluno, confirmarão o que estou dizendo: Mary estava na posição que todas – ou quase todas – queriam, ao lado de Marcel. Este nunca foi homem digno do que carrega entre as suas pernas e fez incontáveis menininhas se apaixonarem por ele pela cidade. Todos sabiam que Marcel a levava para trás do ginásio no intervalo para fazerem sabe-se lá o quê, e corriam boatos sobre Mary estar sendo forçada por meio de violência psicológica para coagí-la a realizar os desejos de Marcel. Se todos sabem disso, até mesmo eu, que mal falo uma palavra sequer dentro da escola para evitar ser atacada sem necessidade pela horda de seguidores de Harry Judd e o próprio, como não tem ninguém levantando a mão para defender Mary?
devolveu seu bloco de anotações para a mesa mas realizou um movimento preciso demais para que Graham não notasse. Sabia que aquele era um de seus primeiros julgamentos de relevância e grande proporção, também sabia que precisava de um comportamento exemplar se quisesse continuar ao lado de Graham. Foi alertada por ele mesmo que deveria manter-se na linha a qualquer custo pois qualquer erro mínimo poderia custar muito caro. Mesmo assim, decidiu escrever. Os olhos do advogado pararam no bloco por alguns segundos, como se a palavra grifada PERJÚRIO não estivesse clara o suficiente e ele estivesse duvidando do que lia.
– Doutor Graham?
– Hm... Sim?
– O senhor vai assumir a testemunha ou não? – O juiz perguntou, tirando o doutor Graham de seus pensamentos que, pela primeira vez em muito tempo, foram capazes de distraí-lo.
Ele ponderou por alguns segundos. Estava para apostar alto por uma indicação de uma menina que mal conhecia as obscuridades do direito criminal. Mas algo em sua consciência repetia que seu instinto deveria ser, como sempre, escutado.
– Eu gostaria de pedir um recesso breve, meritíssimo.
– Um recesso?! – O juiz não estava entendendo mais nada. – O quão breve?
– Dez, quinze minutos. No máximo.
O juiz Klein pensou e pensou, dando finalmente um parecer favorável a Graham. O advogado, por sua vez, saiu da sala quase correndo, com a assistente em seu encalço tentando acompanhá-lo sem fazer um estardalhaço com seus saltos batendo contra o chão do piso de madeira. Do lado de fora, o doutor Graham apenas esperou que não houvesse por perto alguém que pudesse ouvir a conversa entre os dois.
– O que você quis dizer com aquilo, ?
– Eles namoraram.
– Quem pode confirmar isso?
– Eu, qualquer um da nossa idade que frequente a escola, professores talvez.
– E por que nenhum deles veio voluntariamente testemunhas?
– O problema são os Humphries, doutor. Eles fazem ameaças generalizadas porque eles controlam muita coisa aqui. Podem fazer empregos desaparecerem só com o estalar dos dedos. Marcel é de um ano além do meu, sabemos que ele simplesmente não vai às aulas mas não é reprovado jamais.
– Então eu precisaria provar sem um testemunho, o que é quase impossível.
– A promotoria...
– Não confie em promotores de cidades pequenas quando o caso envolver um dos lados com dinheiro, , nunca. É um dos melhores conselhos que eu poderia passar para você.
– E então o que faremos agora?
Graham pensou e teve uma ideia.
– É um absurdo, mas...
Em questão de segundos, todas as partes estavam no escritório do juiz Klein. ficou mais próxima da porta, dando lugares aos figurões importantes. Graham parecia ansioso.
– De onde você tirou essas conclusões, Graham? De uma bola de cristal?!
– Isso não pode ser sério... – As palavras escaparam da boca de enquanto ela pensava alto sem perceber.
– Como é, senhorita?
O juiz arqueou uma sobrancelha, pensando não ter escutado direito. , no entanto, tinha sido tomada por uma coragem súbita repentina.
– Esse cara... Perdão... O acusado cometeu perjúrio. A advogada de acusação provavelmente sabe disso e, mesmo tendo uma mulher atacada envolvida no julgamento, prefere proteger um mentiroso.
– Meritíssimo, com todo o respeito, aqui não é lugar para adolescente, muito menos uma adolescente que não sabe respeitar uma autoridade como eu.
– A adolescente está aqui como minha assistente, e tanto o senhor, meritíssimo, como os meus colegas sabem disso. – O doutor Graham defendeu , acenando para ela com um gesto de cabeça brevemente. – Além disso, minha cara colega, a única autoridade aqui é o juiz do caso.
O ar ficou pesado no ambiente e o silêncio era sepulcral. Podia-se sentir a tensão quase palpável.
– Posso perguntar de onde a senhorita tirou essa conclusão, senhorita...?
. . – Ela se apresentou formalmente e aproximou-se da mesa do juiz. – Eu conheço ambos, tanto réu quanto vítima. Estudam na mesma escola que eu. Sei de boatos não favoráveis ao réu, mas isso não vem ao caso porque entendo que boatos não cabem em um julgamento. A verdade é que eles tiveram um relacionamento até pouco tempo. Com o delegado, o réu disse que eram apenas amigos. Poucos minutos atrás, disse que não tinham qualquer relacionamento.
– E o que faz a senhorita pensar que isso pode ter relevância no caso?
– Método da dúvida. Aceitar apenas informações que sabe-se serem verdadeiras, a de que eles tiveram de fato um relacionamento. Quebrar a informação em unidades menores, o réu quer esconder que eles tiveram um relacionamento e o réu está cometendo perjúrio. Resolver os problemas simples primeiro, descobrir por qual motivo o réu teria interesse em agir desse forma se há o princípio in dubio pro reo. Fazer lista completa de outros problemas... O poder que a família do réu exerce na cidade financeiramente, o risco que o réu pode representar para outras mulheres, outros possíveis delitos que o réu tenha cometido que tenham ligação com o delito em julgamento, entre outros.
– Por Deus... – O juiz ficou boquiaberto, o que levou um pequeno sorriso contido aos lábios de Graham enquanto Klein apertava um botão no telefone em sua mesa para comunicar-se com seu secretário. – Richard, me traga a transcrição das oitivas prévias do réu Marcel Humphrie, por favor, imediatamente. Doutores, na volta da audiência, anunciarei um recesso de vinte e quatro horas. Graham, você tem esse tempo para arrumar uma testemunha que corrobore com o que a sua assistente acabou de dizer.
saiu quase saltitante do tribunal, mais ainda quando recebeu uma parabenização calorosa por parte de seu patrão. Atravessou a rua quase correndo ao chegarem de volta ao escritório e entrou no diner esbaforida.
– Poynter? – Ela chamou quando viu o amigo, poderia chamá-lo assim?, atrás do balcão.
Para Dougie, não havia melhor motivo para sorrir. Em termos gerais, ele estava caidinho de amores por , daquele tipo que perderia um dia inteiro só fazendo planos que não sabia se virariam realidade. Um verdadeiro sonhador, do seu ponto de vista.
– Oi, ! – Respondeu animado demais e, logo que percebeu a entonação, ficou com vergonha.
– A gente pode conversar em um lugar... Hm... Privado?
Por um segundo, Dougie se perdeu no seu próprio eixo. Ela vai cancelar o baile, pensou. Tinha tanto carinho por que via a menina como alguém superior a ele. Logo, não faria sentido, em sua mente, que ela estivesse minimamente interessada em um cara como ele, que autointitulava-se como desleixado e preguiçoso.
– Claro. – Dougie começou a tirar o avental do diner. – Pode ser no depósito?
– Desde que nós não sejamos interrompidos...
Dougie ficou nervoso por outro motivo. Era uma conversa estranha demais para ele. Mesmo assim, não hesitou. Saíram os dois pela porta do diner e deram a volta na esquina, entrando por um portão logo atrás do estabelecimento. Assim que ficaram sozinhos, não esperou mais nenhum segundo.
– Eu preciso te pedir um favor, mas quero saber se posso confiar em você antes.
– Claro que pode, .
– Preciso de uma testemunha pro caso do Humphrie.
– Marcel?! – Dougie questionou e assentiu. – Isso vai ser quase impossível, você...
– Eu sei disso, mas preciso disso amanhã e não poderia ser você porque temos uma ligação direta. Se a defesa descobre, podem usar isso a favor do réu. É só pra confirmar que Marcel e Mary namoraram por um tempo.
– Só isso?
– Sim.
– Bem, tem um amigo meu que pode aceitar.
– Ele é de confiança?
– Sim, é o Jones, você deve saber quem ele é.
– Acho que só de vista. Qual o nome completo dele?
– Daniel Alan David Jones.
tirou o bloco da bolsa que carregava e anotou o nome ali.
– Eu preciso da confirmação dele o mais cedo possível.
– É bem provável que ele venha pra cá daqui a pouco, então eu posso perguntar pessoalmente ou passar na casa dele quando o meu turno acabar.
– Você tem o meu número?
– Não. – Dougie respondeu e levantou uma sobrancelha.
Mais uma vez, tomou o bloco e começou a escrever, dessa vez, o seu telefone residencial.
– Assim que tiver uma resposta, você me liga, por favor?
Dougie só conseguia pensar no quão incrível era ter o número de para si. Tão extasiado que ficou, mal conseguiu afirmar com a cabeça.
– Obrigada, Dougie. – Ela disse, deixou um beijo estalado em sua bochecha que fez o rosto do rapaz praticamente pegar fogo e saiu correndo.


Capítulo 05

Em dias como aquele, queria que o mundo explodisse sobre a sua cabeça. Estava perdendo a fé na humanidade pouco a pouco, por motivos diversos mas sempre justos. se sentia enjoada pelo que acabara de presenciar e mais ainda pelo que sabia que viria a seguir. Ficar calada não era uma opção para , não naquele dia. Mas, mesmo com sua decisão tomada, ainda sentiu um calafrio quando ouviu os inconfundíveis passos da senhora chegando perto da sala da diretoria, onde queria bufar a cada respiração.
– Diretora Thomas! É um prazer revê-la, independente das condições. – A mãe de se inclinou por cima da diretora, que levantou-se da sua cadeira para cumprimentar a recém-chegada.
– Senhora , eu sinto muito ter que chamá-la no meio da semana. – Alison Thomas começou o discurso formado de quem já tinha feito aquilo várias vezes. – Sei que a senhora precisa estar no trabalho, então tentarei ser breve. O que aconteceu foi que a sua filha, , se envolveu em uma briga física antes do começo das aulas dessa manhã.
– Eu defendi a minha amiga.
, os adultos estão falando. – Foi corrigida pela mãe.
– Mas estão falando mentira. – Ela se levantou, indo de encontro às ordens que acabara de receber. – A diretora vai dizer que eu agredi o desgraçado do Powell a troco de nada quando, na verdade, ele estava ofendendo a minha melhor amiga de forma racista, o que é tão errado que eu nem deveria tentar explicar para adultos. E mais uma vez, pessoas como o Powell vão sair como vítimas porque a diretoria desse colégio protege e concorda com esses hábitos quando se cala perante tais atos violentos.
– Senhorita , devo lembrá-la que a senhorita ainda está nas dependências da escola e não no escritório com o doutor Graham.
– Queria estar lá e não aqui, porque ele não é hipócrita e doentio como vocês. – cuspiu as palavras, sentou-se novamente e cruzou os braços.
– Diretora Thomas, eu sinto muito pela minha filha, eu nem sei o que falar.
– Não se preocupe, senhora . Eu vou, cordialmente, deixar como um último aviso. Caso volte a comportar-se dessa maneira, sinto que, infelizmente, deveremos seguir as regras impostas ao nosso sistema educacional e retirá-la do nosso rol de alunos.
– Eu garanto que isso não vai acontecer novamente.
– Conto com isso, senhora . Por hoje, estará dispensada das atividades escolares.
Trocaram alguns outros cumprimentos até que a senhora deixou a diretoria com a filha, que batia os pés propositalmente como uma pirraça. Ao contrário do que parecia, sua mãe tinha, na verdade, a melhor das intenções. Quis deixar isso claro quando saíram e foi puxada pelo braço na direção do banheiro feminino.
– Obrigada pelo apoio, mãe!
, você sabe o quanto isso pode custar? Você tá bem estabelecida na cidade, sendo assistente do melhor na área. Se você for expulsa da escola, vai jogar tudo no lixo faltando tão pouco tempo, filha.
– Mas eles estavam ofendendo a Carey! Era pra eu ficar quieta?
– Claro que não. O que eu estou pedindo é que você tenha um pouco mais de paciência. Entendo que você esteja insatisfeita, , mas eu não tenho condições de arcar com você perdendo um ano letivo inteiro. Só mais alguns dias, por favor. Você pode fazer isso por mim?
– Alguém pode defender a Carey? – bufou. – Eu vou pegar minhas coisas e encontro com a senhora no estacionamento.
Caminhou irritada na direção do seu armário. Como sua mãe demorara a chegar à escola, esperou por tempo o suficiente para que a primeira aula do dia já tivesse acontecido, e os alunos estavam em horário de troca de turmas. Os corredores estavam lotados de adolescentes correndo para a próxima aula.
Ela queria disfarçar-se entre os estudantes porque as fofocas certamente já estavam correndo sobre o acontecimento daquela manhã. Quanto mais rápido saísse dali, melhor seria para todos – menos para Carey que, ainda chateada por ter sido agredida injustamente, sentia-se grata pela defesa que partiu da amiga. Estar sozinha no colégio não era bom para Carey, e sabia daquilo, mas o pensamento voou de sua mente quando percebeu alguém se aproximando e torceu para que não fosse a pior das possibilidades.
– Oi! – O rapaz de cabelo castanho claro e sardas no rosto que ostentava olhos azuis correu na direção de , que estranhou e até imaginou que não fosse para ela que ele estava acenando. – Você é a , não é?
– Sou... Sou eu sim.
– O Dougie falou comigo sobre o negócio lá do julgamento do Humphrie.
– Isso! Eu pedi pra ele te agradecer, você não sabe o quanto isso significa pra gente.
– Sem problema. Eu só pensei que eu podia te fazer uma contraproposta.
– Contraproposta?! – arqueou uma sobrancelha, ligeiramente curiosa com a fala do colega.
– É. Você precisa de mim, eu preciso de você.
– Precisa?
– Preciso sim. Acontece que todo mundo aqui sabe que, na sua escola antiga, você venceu um concurso de talentos cantando.
As palavras trouxeram lembranças indesejadas a de quando sua vida aparentemente perfeita desmoronou do dia para a noite com o divórcio dos seus pais. Estava tudo em ordem. se dava bem com todos, tinha boas notas e não havia uma pessoa sequer que olhasse para ela de forma pejorativa. Então o pai teve um caso vergonhoso com a diretora da escola e ninguém mais queira por perto.
Chegou a pensar que a mudança de cidade seria favorável, ainda mais com Judd se mostrando interessando nela tão rápido quanto ela chegou na nova escola. Mas deveria ter imaginado o que estava por vir com tudo dando tão certo do dia para a noite. Desde a infidelidade de seu pai, nada de bom acontecia a . Por que razão Harry Judd deveria dar certo? O pensamento e a lembrança percorreram a espinha de .
– Eu venci...
– Certo, então você pode me agradecer pelo depoimento contra o Humphrie com isso.
– Desculpa, eu não to entendendo.
– Minha banda tá sem vocalista pro baile de formatura. Eu até cantaria, mas to com um problema na voz que pode não se recuperar até o baile e é melhor garantir alguém de qualidade logo do que precisar arrumar em cima da hora. Você veio de uma cidade muito maior que a nossa, o que me faz concluir que tinha gente muito melhor pra competir contra você. Então, se você ganhou, você é boa, com certeza. E a gente não tem tempo pra ensaiar. Tiro no escuro por tiro no escuro, você é a nossa melhor opção.
– Nossa?!
– É, da banda.
– Bem, eu não sei o que dizer. É que...
– Aqui a lista das músicas que a gente tá querendo tocar. – Jones entregou o papel para , que segurou apenas como reflexo, já que não sentia ter controle do que estava fazendo naquele exato momento. – Você conhece o McFLY? Eles têm uma música com o seu nome.
Sim, pensou, foi dessa música que meus pais tiraram a inspiração para o meu nome. Mas, ao invés de responder em voz alta, apenas assentiu, dando corda para que Danny Jones continuasse tagarelando em sua frente.
– Essa é a música principal que nós ensaiamos durante os últimos meses, mas perdemos o nosso vocalista e, como eu disse, você é a nossa melhor opção. Foi quando eu pensei que seria uma ótima moeda de troca.
– É... Acho que tudo bem. – disse sem saber exatamente que palavras usar, já que tinha sido surpreendida pela proposta de Jones.
– Legal! – Danny pulou, animado. – A gente se encontra no dia do baile.
E saiu andando como se não houvesse nada de estranho naquele pedido. ficou ainda por ali, fitando a lista que Jones lhe entregara. Bon Jovi, Michael Jackson, Guns N’ Roses e George Michael eram uns dos artistas da lista. respirou fundo e chegou a perguntar-se sobre valer a pena submeter-se àquilo, então lembrou-se de duas coisas. A primeira era o benefício que o depoimento de Jones traria. A segunda era que, conhecendo Jones o pouco que conhecia, ela sabia que ele estava só brincando e que daria o depoimento de qualquer forma. Pensou, no mínimo, ser justo recompensá-lo pela ajuda, se é que aquilo podia ser chamado de recompensa.
Duas salas depois, os amigos chegaram milagrosamente cedo para a aula. O professor notou, e poderia até fazer uma piada sobre o assunto, mas decidiu conter-se. Já era previsto, no entanto, que o trio não fosse ficar calado e comportado durante a aula. A entrada de Harry Judd na sala foi só o estopim, começando pelo rosto de Dougie se contorcendo em desaprovação, parecendo fazer possível sair fumaça de suas narinas tamanha a raiva que sentia só de estar no mesmo ambiente que Judd.
– Disfarça, Poynter. – Thomas Fletcher, o único incrivelmente mais tímido que Dougie, se pronunciou. – Daqui a pouco, você vai estar com tanta raiva dele que a sua cabeça vai explodir só de pensar no Judd.
– É a paixão dele pela .
– Nem começa, Danny.
– Falando nela... – O amigo disfarçou e virou-se para a frente, observando atentamente Beth Price, que entrava na sala trajando uma saia indecente e parecia fazer de propósito ao mover o quadril de um lado para o outro ao andar, revelando demais por baixo do tecido e deixando Jones atordoado com a imagem.
– Danny?
– O quê?
– Depois fala do Dougie. – Tom riu.
– O que tem o Dougie?
– Esquece o Dougie. O que você ia falar?
– Sobre o quê?
– Mas é burro mesmo, hein! – Dougie resmungou e acertou-se na cadeira.
– Bom dia, senhores. Eu espero que vocês tenham lembrado de trazer o relatório sobre a nossa última aula no laboratório.
– Ei, Dougie. – Jones sussurrou e Poynter revirou os olhos automaticamente.
– O Harrison vai reclamar, Danny. Hoje não, por favor.
– Eu lembrei o que eu ia falar, é sobre a .
– O quê?!
O professor ouviu quando o volume se fez mais alto na voz de Dougie. Só conseguia pensar que era claro que algo aconteceria, já que os três chegarem cedo para aula já era um milagre por si só. Mas decidiu que não seria útil interromper a aula, mesmo que esta estivesse apenas no seu começo. Se ele se desviasse, os alunos poderiam ir pelo mesmo caminho, e aí a desatenção de três seria a desatenção de mais dezessete além deles. Como professor, o senhor Harrison tomou a decisão certa.
Dougie, urgindo por saber do que o assunto se tratava, foi mais inteligente que o amigo, no entanto. Pegou seu caderno em silêncio e arrancou um pedaço da última folha, ainda em branco. Ainda sem emitir qualquer som, arrastou a folha junto com sua caneta na direção de Danny, que sentava ao seu lado na carteira dupla em todas as aulas que eles tinham juntos. Qualquer tema sobre despertada aquele desespero nele.
Jones demorou, mas finalmente entendeu o que aquele gesto significava. Tomou o papel na mão e dispensou a caneta oferecida, pegando a sua própria. O professor passou pelo corredor entre as carteiras, recolhendo o trabalho que havia solicitado. Danny e Dougie se apressaram em entregar para que ele não se demorasse mais por ali, então o primeiro colocou a ponta da caneta no papel rapidamente porque nenhum dos dois tinha tempo de sobra.

Fiz o convite
aceitou


Rapidamente, Dougie pegou sua caneta. Escreveu às pressas para devolver uma pergunta ao amigo, que achava engraçada a sua reação desesperada. Dany, entrou, recuperou o papel, leu a pergunta e começou a escrever a resposta. Só faltava Dougie arrancar o papel da mão dele para lê-la mais rápido.

Não falei que você tá na banda
Ela não faz ideia


Dougie respirou aliviado mas ficou com o pé atrás. O amigo tinha um histórico de frequentes desleixos não propositais que acabavam por colocá-lo junto em situações desconfortáveis, como quando Danny soltou, sem querer e na frente de um professor, que eles haviam conseguido o gabarito da prova de história, ou quando ele quis mostrar serviço, ajudando no diner, mas só estragou tudo porque fez diversas contas erradas. O tanto que Daniel Jones tinha de bom coração, Dougie sabia que ele também tinha de atrapalhado. E burro, nas palavras de Poynter.


Capítulo 06

estava sentada no último andar da arquibancada, encolhida entre dois livros de história e seu caderno, fazendo anotações sobre a era de Napoleão e como a Inglaterra foi o único país que conseguiu opor-se devidamente a seu regime. Gostava de história, de uma forma geral, mas não de estudar por obrigatoriedade. Para , era interessante pensar em como o funcionamento do mundo e de seus sistemas foi adaptando-se, ao longo do tempo, a diferentes condições, até chegar ao que conhecia daquele século. Mas nada lhe atraía em ler e reler sobre alguns assuntos tão específicos quanto desnecessários, em sua opinião, e perguntava-se constantemente se, para seguir a carreira que escolhera, era tão necessário conhecer sobre história como era cobrado em seu curso.
Só queria terminar logo. Em seus pensamentos, o resumo que o senhor Brown havia solicitado era sua prioridade, e livrar-se dele de uma vez por todas significada emancipação para , já que o trabalho estava sendo tão maçante. A jovem estava tão focada em finalizar aquilo que não ouviu o crescente murmúrio que aproximava-se do campo. Quando percebeu, era tarde demais e os primeiros tons do uniforme das detestáveis líderes de torcida surgiam, saindo do túnel que fazia o caminho dos vestiários ao campo. Já estava recolhendo as suas coisas, irritada pois checou e não tinha atividade nenhuma marcada para o campo naquele dia, quando as pessoas começaram a subir a arquibancada.
Sempre cuidadosa com a organização de seus materiais, jogou-os na bolsa de qualquer jeito. Que precisasse parar no banheiro para arrumar a mochila, seria melhor. E menos humilhante, de acordo com o pensamento dela. Finalmente, a última peça, uma caneta recém-comprada, foi jogada lá dentro e fechou o zíper. Levantou-se às pressas, descendo os degraus de cabeça baixa, fitando apenas a estrutura da arquibancada para não correr o risco de tropeçar e chamar mais atenção do que pretendia. Ou pior: cruzar olhares com alguém que dirigisse a a palavra.
Sua pressa era, principalmente, para não correr risco de cruzar com Judd, capitão do time, as líderes de torcida sanguessugas dele ou mesmo seus amigos espalhafatosos. Chamar a atenção, para , estava fora de cogitação. E poderiam pensar que era absurdo isso, já que ela estava justamente no território de quem mais queria evitar, porém tinha certeza do que vira no calendário dos treinos, não fazia o menor sentido que toda aquela movimentação estivesse crescendo do nada. Parecia que, quanto mais queria correr, mais lenta ficava.
Mas o esbarrão fora inevitável. notou, pelas palavras perdidas que escutou dos presentes ali, que tratava-se de uma espécie de pré-jogo e que, por isso, tantos estavam interessados em assistir tão repentinamente. Sua concentração em fugir, no entanto, foi abalada pela vontade de saber, ao mínimo, o que estava acontecendo. Dougie a segurou pelos ombros assim que percebeu o impacto e os dois quase sorriram de alívio ao perceberem que não se tratava de um completo estranho dividindo o momento acidental com eles.
!
– Dougie, eu...
– Você tá bem?
– To, não foi nada, eu só tava... De saída.
– Tudo bem. – Dougie murmurou, um pouco tímido.
– Você veio... Ver rugby?!
queria mesmo entender o porquê de Dougie estar onde, supostamente, aqueles que veneravam Judd estavam, mas não verbalizou sua teoria. Ao invés disso, projetou uma pergunta totalmente diferente que resolvesse a mesma dúvida.
– Eu só vim fazer companhia pro Jones e ver o Fletcher.
– Thomas Fletcher? – Perguntou e Dougie confirmou com a cabeça. – Não sabia que ele gostava de esportes, ele não faz o tipo.
– Não mesmo, mas as bolsas pra faculdade estão sendo cada vez mais disputadas e os pais dele não querem que ele seja bancado nos estudos, por mais que eles tenham condições, então ele tá tentando conseguir algo jogando rugby.
– O que tá acontecendo, afinal de contas? – Ela apontou ligeiramente para a movimentação.
– Os Lizards passaram para a próxima fase do campeonato ontem e eles são perigosos, vão intensificar os treinos e os Ancients vieram jogar contra o nosso time hoje.
– Sem aviso no cronograma?
– O quê?
– Eu chequei antes de vir e... Deixa, eu preciso ir de qualquer forma.
– Você não quer ficar e assistir o jogo com a gente? – As palavras escapuliram da boca de Dougie, e ele ficou feliz por não ter esperado até o último segundo para fazer algo a respeito, embora não tivesse certeza sobre aquela espontaneidade toda ser a sua melhor aliada naquele instante.
– Tenho que terminar um trabalho que preciso entregar até o final de semana e não sei se vou ter outro tempo livre pra fazer isso, mas obrigada pelo convite. Eu te vejo no diner amanhã?
– Claro, até lá!
Dougie não insistiu. Era de sua vontade, claro, mas sabia que sua vontade não era exatamente o caminho mais curto para o coração de . Ao invés de seguir seu coração, ficou observando enquanto a mulher descia mais ainda na direção da saída do campo, perdendo-se de vista em meio às dezenas de alunos que aproveitariam o tempo livre para um pouco de lazer.
– Seu idiota, não vou segurar seu lugar pra sempre não! – Dougie escutou o amigo gritar e sabia que era com ele que Danny estava falando.
Desviou o olhar por um microssegundo e perdeu-a de vez. Vencido, Dougie se deslocou até o lugar que sua companhia para aquela manhã aguardava por ele. Quando sentou no lugar reservado, sentiu o tapa amigável nas costas.
– Ela tá caidinha por você.
– Para com isso, Danny.
– Ah, lá vem você... O Dougie que eu conheço ia se gabar, ainda mais que você praticamente roubou a do Judd.
– Ela não é e nunca foi do Judd. – Dougie rosnou.
– Ei, ei, ei! Eu to só brincando, tá? Não precisa ficar todo boladinho, foi só uma brincadeira.
– Uma brincadeira de mau gosto.
– Olha, eu sei que a é gente boa. E se você gosta dela, vai fundo. Desculpa ter brincado sobre ela. Só cuidado pra não irritar o capitão. – Danny apontou para Harry, entrando no campo ovacionado pelas líderes de torcida e alguns dos presentes na arquibancada.
– Irritar o capitão com o quê, Danny? – Ele usou a palavra com desgosto. – Eu não me meto na vida dele, ele não tem que se meter na minha, e é assim que a banda toca.
– Falando em banda, olha só aquele colírio pros olhos de rosa...
– Tá apaixonado pela Gardner como você tava pra pedir a Houghton em casamento na semana passada?
– Eu tava com a impressão errada sobre a Olivia.
– Da mesma forma que tava com a Miriam, com a Aria, com a Eve, com a... Qual é o nome daquela com quem você jurou que ia casar quando formasse mesmo? Claudia?!
– O nome dela era Leyla, nada a ver com Claudia. E você não tá me ajudando.
– Nem sei se você quer ajuda. Você mesmo não tá se ajudando, né?
– Cala a boca aí, os Lizards chegaram.
– Você tá vendo o Tom?
– Ele tá no banco, eu acho. Ah! E o nome dela não era Leyla. Essa era outra. A que você tá falando era Clara.
– Eu sabia que o nome dela era com C. – Dougie comentou.
passou pela porta de entrada do prédio principal do colégio e o silêncio mortal soou como música para seus ouvidos. Caminhou até seu armário, decidida a deixar por lá a maior parte de seu material, aquela que não levaria para casa. Assim que destravou a fechadura e abriu a porta de aço, um pequeno envelope caiu e, pela posição de partida, concluiu que ele havia sido colocado por entre as brechas para passagem de ar. Ela olhou para os dois lados do corredor antes de abaixar-se e pagar o envelope em suas mãos.
As instruções na frente eram simples e as letras, garrafais: “abra com cuidado”. tratou o papel como se fosse o material mais precioso do mundo, embora não reconhecesse a caligrafia. Dentro, havia uma folha dobrada ao meio, mas era visível que carregava algo por dentro e, só de ver o contorno, começou a sorrir. Desdobrou o papel, revelando uma pequena borboleta de cor azul brilhante, também dobrada.
O sorriso se espalhou pelo rosto de conforme sua mente ia deixando a imaginação ganhar espaço. Pensava nos olhos azuis que sempre pareciam estar muito distantes, nos cabelos loiros sempre bagunçados, nas mãos grandes que soltavam faíscas ao tocar sua pele e nos lábios que curvavam-se de forma extremamente tímida com certa constância. Na mente de , o remetente daquela singela demonstração de carinho tinha nome e sobrenome: Dougie Poynter.
Mas o tempo não parava nem para , então ela guardou o conteúdo de volta no envelope e cuidadosamente encaixou-o entre páginas de um livro paradidático que pegara empresado na biblioteca. Havia uma sala de aula totalmente vazia bem próxima de seu armário e foi para lá que ela se direcionou. Bem... pensava estar vazia. Descobrir que estava enganada, no entanto, nunca foi tão delicioso.
– Então era aqui que você estava escondida esse tempo todo.
– Eu te procurei, achei que você tinha escutado sobre o jogo em cima da hora. – Carey lhe disse com um sorriso amigável. – Trabalho do Brown?
– Sim. Trabalho da Rose? – Devolveu a pergunta.
– Bingo!
– Em que pé você tá?
– Na metade, e você?
– Quase acabando, só falta fechar uns três parágrafos, no máximo, sobre o exílio de Napoleão na ilha de Elba e voilá.
– Ai, que inveja...
Depois da breve conversa, as duas amigas se sentaram lado a lado e, em silêncio, seguiram com seus afazeres. Escutavam os gritos oriundos do campo vez ou outra, mas ambas ignoravam por completo porque não era do menor interesse de nenhuma delas. Ao final de menos de meia hora de paz naquela solidão feliz, estava livre do seu trabalho e Carey estava encaminhada para uma conclusão que faria assim que chegasse em casa.
– O que você acha de almoçar logo antes que todo mundo volte? A cantina deve estar abrindo por agora.
– Não sei, eu estava pensando em matar a aula da tarde.
– Sua mãe vai ficar louca.
– Vai nada, ela só parece durona. Ela sabe que eu não aguento mais.
– A gente tá quase, . Mais poucos dias e liberdade!
– Sim, mas a que preço? – levantou uma sobrancelha. – Certo, vamos comer, é melhor do que ficar aqui de qualquer forma.
– Eu tenho fofocas novas. Na verdade, uma fofoca só. Sabe a Hallie, da turma antes da nossa?
– Sei.
– Eu vi a Hallie e o professor Gibson... – Carey sussurrou.
– Quando? – saiu da sala. – Hoje?!
– Antes de vir pra cá, quando eu saí da aula de biologia marinha. Isso é tão errado... Alguém tem que fazer algo sobre isso.
– Carey, a direção não tá nem aí pra como você é desrespeitada constantemente aqui, tanto por alunos como professores e demais funcionários. Você acha mesmo que estão ligando pra... Pra isso.
– Vão ligar quando uma das menininhas de ouro impecáveis dessa cidade infernal aparecer com um barrigão apontando o indicador na direção de um professor.
– Acalme-se. Não seremos nós, então tá tudo certo.
– Bem, não serei eu, né? Porque não tenho chance nenhum com ninguém mesmo... A não ser que eu decida que tudo bem dar uma chance pro Jake, o que eu não vou fazer. Mas você já tá bem encaminhada, graças a Deus.
– Eu... O quê?
– O Poynter, amiga. – Carey revirou os olhos, incomodada com o questionamento em cima de um fato tão óbvio como aquele. – Ele é um doce de menino. Os pais são bem babacas, mas o Poynter é legal. Ele é bem bonitinho, pra falar a verdade. Se eu for parar pra pensar, eu nunca tinha notado o quanto ele é bonitinho. E ele tá caidinho por você.
– Deixa disso, Carey.
– Negar é pior.
– Tudo é ruim nesse lugar, Carey, tirando a...
– Bom dia, meninas! Não quiseram ir assistir o jogo?
– Bom dia, senhora Ball. – cumprimentou a cozinheira responsável por comandar a cantina do colégio. – Nosso cérebro precisava de ocupações menos fúteis.
– Então agora o estômago de vocês vai ter o prazer de comemorar esses grandes cérebros, porque vocês serão premiadas com batatas fritas fresquinhas! Vão querer bolo de carne com purê ou macarrão com almôndegas?


Continua...



Nota da autora: O que vai sair daí? Fiquem de olho, prometo que vão amar!





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