Finalizada

Capitulo Único

ainda não tinha decidido se estava animada ou completamente deslocada.
A neve caía do lado de fora como se estivesse cumprindo um papel ensaiado — delicada, constante, bonita demais para ser real. Do lado de dentro do apartamento, o contraste era imediato: vozes sobrepostas, risadas altas, música tocando em volume confortável demais para ignorar, luzes coloridas piscando em tons quentes, refletindo nas janelas.
Era véspera de Natal.
O primeiro Natal dela em Seul.
Ela segurava uma taça de vinho como se fosse um escudo discreto, observando tudo com atenção curiosa. Entendia quase tudo que diziam, mas ainda tropeçava mentalmente em algumas expressões. Não que alguém a fizesse sentir excluída — muito pelo contrário. Os amigos da sua melhor amiga eram acolhedores demais, calorosos demais, como se quisessem compensar o fato de ela estar longe de casa.
Ainda assim, havia aquela sensação estranha de não pertencer totalmente.
— Relaxa, — sua amiga disse, encostando ao lado dela. — Você vai ver, Natal aqui é caótico, mas é bom.
— Eu já percebi a parte caótica — respondeu, sorrindo de canto.
Foi então que ela o notou.
Não foi algo dramático, nem imediato. Não foi aquele momento cinematográfico de câmera lenta. Foi simples: alguém riu mais alto do que o resto da sala, e o som chamou atenção.
estava perto da cozinha, ajudando a colocar mais pratos na mesa enquanto dançava de forma completamente despretensiosa, como se o próprio corpo seguisse a música sem pedir permissão. O suéter natalino era ridiculamente colorido — e, ainda assim, combinava com ele. O sorriso era fácil, aberto, daqueles que fazem parecer que a pessoa realmente gosta de estar ali.
Ele falava com todo mundo.
Circulava.
Tocava ombros, puxava cadeiras, fazia comentários engraçados.
pensou, sem muito compromisso: ele parece… leve.
— Ah — a amiga dela disse, percebendo o olhar. — Você ainda não conhece o , né?
Como se tivesse sido chamado, ele virou na direção delas no mesmo instante.
— Eu ouvi meu nome ou foi impressão? — perguntou, já sorrindo, em um inglês surpreendentemente bom.
— Ela é a — a amiga apresentou. — Veio de fora, é o primeiro Natal dela aqui.
inclinou a cabeça, interessado de verdade.
— Primeiro Natal em Seul? — repetiu. — Isso é importante.
— É? — ela arqueou a sobrancelha, divertida.
— Muito. Define expectativas.
— Então espero que não seja ruim.
— Impossível — ele respondeu, com convicção exagerada. — A gente garante que seja, no mínimo, memorável.
Ela riu. Um riso curto, sincero.
A conversa fluiu fácil demais para duas pessoas que tinham acabado de se conhecer. Ele fazia perguntas sem invadir. Ela respondia sem se sentir avaliada. Não havia flerte escancarado — só aquela troca confortável, quase perigosa, em que o tempo parece correr diferente.
Em algum momento, sentaram no chão da sala junto com outros amigos, dividindo petiscos e histórias aleatórias. Foi ali que alguém — ninguém parecia lembrar exatamente quem — soltou a frase que mudaria o clima da noite.
— Vocês conhecem a superstição de Natal, né?
— Lá vem… — alguém resmungou.
— Quem não beijar alguém à meia-noite vai ter um ano péssimo.
O comentário foi recebido com risadas, protestos e brincadeiras.
— Isso é chantagem emocional!
— Eu me recuso a acreditar nisso.
— Bom, por via das dúvidas…
riu junto, mas comentou, quase distraída:
— Então já aceitei meu destino.
— Destino trágico? — perguntou, olhando pra ela.
— Completamente azarado.
— Que exagero — ele respondeu. — Azar é relativo.
— Relativo como?
Ele apoiou o cotovelo no joelho, inclinando um pouco o corpo na direção dela.
— Às vezes o azar é não tentar.
Ela o encarou por um segundo a mais do que pretendia, depois riu, balançando a cabeça.
— Você sempre fala assim ou é efeito colateral do Natal?
— Só quando tem luzes piscando e vinho envolvido.
Eles brindaram.
E, sem perceber, começou a contar mentalmente quanto tempo faltava para a meia-noite.
não soube dizer em que momento a conversa ao redor deixou de importar.
As vozes continuavam ali, a música ainda preenchia o ambiente, mas tudo parecia um pouco mais distante — como se o espaço entre ela e tivesse criado um campo próprio, silencioso, confortável demais para ser casual.
— Então — ele disse, apoiando o queixo na mão. — O que fez você passar o Natal tão longe de casa?
A pergunta não veio carregada de curiosidade invasiva. Era simples. Genuína.
Ela girou levemente a taça entre os dedos antes de responder.
— Eu precisava sair um pouco da minha rotina — disse. — E minha melhor amiga insistiu tanto que eu acabei cedendo.
— Insistir é um talento dela — ele riu. — A gente aprende rápido.
— E você? — devolveu. — Sempre passa o Natal aqui?
pensou por um segundo.
— Quase sempre. — Deu de ombros. — Gosto da bagunça. Do barulho. Das pessoas juntas sem saber muito bem o que dizer, mas dizendo mesmo assim.
Ela sorriu, observando-o.
— Você parece gostar de gente.
— Gosto. — Ele sustentou o olhar dela. — Mas gosto mais ainda de quem observa antes de falar.
O comentário a pegou desprevenida.
— Eu sou tão óbvia assim?
— Um pouco — ele respondeu, sem malícia. — Mas não de um jeito ruim.
riu, desviando o olhar por um instante. Quando voltou a encará-lo, percebeu que ele ainda estava ali, atento. Presente.
— Você não parece deslocada — continuou. — Só parece… em pausa.
— Talvez eu esteja. — Ela suspirou. — Tudo aqui é novo. Idioma, pessoas, cultura. Até o Natal parece diferente.
— Diferente como?
— Menos nostálgico. — Ela pensou melhor. — Ou talvez eu esteja sentindo falta de coisas que ainda não aconteceram.
franziu levemente a testa, interessado.
— Isso foi profundo demais pra uma conversa de sala com petiscos.
— Desculpa — ela brincou. — Culpa do vinho.
— Vou fingir que acredito.
Eles riram juntos.
O tempo passou sem que nenhum dos dois percebesse. Em algum momento, alguém aumentou o volume da música. Em outro, alguém puxou para mostrar a decoração do apartamento. foi junto, como se fosse natural.
Ela comentou sobre o frio de Seul.
Ele falou sobre como a cidade mudava no inverno.
Ela contou histórias rápidas da infância, ele respondeu com memórias bagunçadas e risadas fáceis.
Era simples.
Era confortável.
E, justamente por isso, perigoso.
— Você percebeu que estamos conversando há muito tempo? — comentou, em tom leve.
— Percebi — respondeu. — Você está reclamando?
— Não. Só… constatando.
— Ótimo. — Ele sorriu. — Porque eu ainda não terminei.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Sobre?
— Sobre você. — Ele se corrigiu rápido. — Quer dizer, sobre o que você acha do Natal.
— Eu acho que o Natal cria expectativas demais — ela respondeu. — Todo mundo espera que algo especial aconteça.
— E isso te incomoda?
— Um pouco. — Ela o encarou. — Porque quando nada acontece, parece que a culpa é sua.
ficou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que não pesa — só aprofunda.
— Talvez o problema seja achar que o especial precisa ser grande — ele disse por fim. — Às vezes é só… inesperado.
Os olhos deles se encontraram de novo.
E, pela primeira vez naquela noite, sentiu algo se acomodar no peito — uma sensação estranha, quente, difícil de nomear.
— Você fala como se já tivesse decidido que algo vai acontecer hoje — ela provocou.
— Não — respondeu, baixo. — Eu só acho que algumas noites gostam de surpreender a gente.
Ela sorriu, desviando o olhar, sentindo o coração bater um pouco mais rápido do que deveria.
— Falta menos de uma hora pra meia-noite! — Do outro lado da sala, alguém anunciou
respirou fundo.
A superstição voltou à mente como uma piada insistente.
E, dessa vez, ela não teve tanta certeza se queria fugir dela.
Eles acabaram se afastando do centro da sala quase sem perceber.
Não foi uma decisão consciente — só aconteceu. A música estava mais alta perto da janela, as pessoas se acumulavam perto da mesa de comida, e o pequeno corredor que ligava a sala ao outro cômodo oferecia um respiro inesperado. Menos vozes. Menos olhos atentos.
encostou na parede, sentindo o calor do ambiente contrastar com o frio que ainda parecia grudado na pele. ficou à frente dela, perto demais para ser casual, longe demais para ser óbvio.
— Você ficou quieta — ele comentou.
— Estou pensando — ela respondeu.
— Isso é bom ou perigoso?
— Depende do assunto. — Ela sorriu de lado.
— E no que você está pensando agora? — inclinou levemente a cabeça, observando-a com atenção renovada.
hesitou. Não por falta de resposta — mas por excesso delas.
— Em como essa noite não parece mais tão estranha quanto parecia quando cheguei.
— Isso é um elogio? — ele perguntou, em tom leve.
— É uma constatação. — Ela ergueu o olhar para ele. — Culpa sua, em partes.
— Eu assumo esse risco.
O silêncio que se instalou não foi desconfortável. Foi cheio. Como se algo estivesse sendo dito sem palavras.
Foi então que notou.
Logo acima deles, preso de forma quase discreta à moldura da porta, havia um pequeno ramo de visco, amarrado com uma fita vermelha.
Ela soltou uma risada baixa, desacreditada.
— Não acredito nisso.
— No quê? — seguiu o olhar dela… e congelou por um segundo antes de sorrir. — Ah.
— Claro que teria visco — ela murmurou. — Óbvio demais.
— Isso é um sinal? — ele brincou, mas a voz saiu um pouco mais baixa.
— Na minha família, seria. — cruzou os braços, ainda olhando para o ramo verde. — Onde eu cresci, dizem que duas pessoas embaixo do visco precisam se beijar.
— Precisam? — arqueou a sobrancelha.
— Precisam — ela confirmou. — Se não beijarem, dá azar. Especialmente no amor.
Ele a encarou com atenção redobrada.
— Então temos duas superstições agora.
— Exatamente. — Ela riu, nervosa. — A do Natal… e a do visco.
— Isso está ficando perigoso — ele comentou, mas não se moveu.
— Muito.
— Gente, falta cinco minutos! — Do outro lado do apartamento, alguém gritou
O aviso pareceu ecoar diretamente entre eles.
deu um passo mínimo à frente. O suficiente para perceber o perfume dele. O suficiente para o espaço ficar… reduzido demais.
— A gente não precisa fazer nada — ele disse, com cuidado. — Não acredito muito em azar.
— Eu também não — ela respondeu. — Mas acredito em histórias que a gente carrega sem perceber.
— E você carrega essa? — Ele sorriu de leve.
— Carrego.
— Quatro minutos! — Mais um grito ao longe:
respirou fundo, sentindo o coração bater mais rápido. levantou a mão devagar, quase como se estivesse pedindo permissão, e apoiou os dedos na parede ao lado do rosto dela. Não a tocou. Ainda.
— Se isso for só superstição… — ele começou.
— …então acaba à meia-noite — ela completou.
— E se não for?
— Aí a gente vai ter que lidar com isso depois. — Ela sustentou o olhar dele, sentindo o peso da pergunta se acomodar no peito.
O barulho da contagem começou a se formar na sala.
— Três!
A proximidade agora era impossível de ignorar. O visco acima deles parecia observá-los, cúmplice.
— Dois!
se inclinou um pouco mais, a voz quase um sussurro:
— Última chance de fugir.
— Eu já fugi demais esse ano. — sorriu, sentindo o frio na barriga.
— Um!
Ela não fechou os olhos de imediato.
Ele também não.
E, por um breve segundo, antes mesmo do beijo acontecer, ambos souberam: aquilo jamais seria só para espantar o azar.
O mundo não explodiu quando os lábios deles se tocaram.
Foi quase decepcionante de tão simples.
Quase.
O primeiro contato foi breve, cuidadoso — um roçar que parecia mais uma confirmação do que um gesto definitivo. Como se ambos estivessem testando a realidade daquele momento, perguntando silenciosamente se era mesmo isso que estavam prestes a fazer.
Então o relógio marcou meia-noite.
A sala atrás deles se encheu de vozes, aplausos, abraços apressados, risadas altas. Alguém gritou Feliz Natal! em coreano, outro respondeu em inglês, a música mudou de repente. Fogos estouraram ao longe.
Mas nada disso alcançou .
O que ela sentiu foi o calor.
O toque firme, porém contido, da mão de finalmente encontrando sua cintura. Não apertou. Não puxou. Apenas esteve ali, como se dissesse estou aqui, se você quiser continuar.
Ela quis.
Sem pensar, sem planejar, sem negociar com a própria razão.
O beijo aprofundou-se devagar. Não houve urgência — apenas curiosidade, reconhecimento, uma entrega silenciosa que parecia mais honesta do que qualquer decisão tomada antes naquela noite.
fechou os olhos quando sentiu o polegar dele se mover levemente contra sua lateral, quase um carinho inconsciente. O gesto fez algo se revirar dentro dela, uma sensação quente e inesperada, como se aquele toque tivesse atravessado camadas que ela nem sabia que existiam.
, por sua vez, sentiu o mundo perder o ritmo habitual.
Ele sempre foi alguém de presença expansiva, de risos fáceis e gestos abertos. Mas ali, naquele beijo, tudo nele se aquietou. O sorriso que costumava vir primeiro ficou suspenso em algum lugar distante. O que restou foi atenção absoluta.
Ela não beijava como alguém que estava ali só pela superstição.
Havia cuidado. Havia escolha.
Quando os lábios dela responderam com um pouco mais de pressão, ele sentiu o peito apertar de um jeito estranho, quase perigoso. Como se estivesse atravessando uma linha invisível sem ter combinado isso com ninguém — nem mesmo consigo.
O beijo durou mais do que deveria.
Não o bastante para virar espetáculo.
Mas o suficiente para que, quando se afastaram, nenhum dos dois soubesse exatamente como agir.
abriu os olhos primeiro.
O rosto de estava próximo demais. O sorriso brincalhão não tinha voltado ainda. No lugar dele, havia algo mais contido. Mais sério. Mais real.
— Isso… — ela começou, a voz baixa demais para competir com o barulho ao redor.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Não pareceu só superstição.
Ela balançou a cabeça, concordando, sentindo o coração bater forte demais no peito.
— Não.
Por um instante, ela pensou em rir. Fazer uma piada. Descontrair. Era o que sempre fazia quando algo saía do controle.
Mas não conseguiu.
Porque ainda sentia os lábios dele ali.
Porque ainda sentia a mão dele em sua cintura, mesmo depois de ter se afastado. Porque, pela primeira vez naquela noite, a ideia de que aquilo pudesse ser passageiro… incomodava.
deu um passo para trás, criando espaço — não por arrependimento, mas por respeito.
— A gente pode fingir que foi só o Natal — ele disse, com honestidade. — Se você quiser.
ergueu o olhar para o visco acima deles outra vez, depois voltou a encará-lo.
— Acho que já passamos do ponto de fingir — respondeu.
Ele sorriu então. Não o sorriso largo de sempre, mas um menor, quase tímido.
— Então… Feliz Natal?
Ela riu, finalmente.
— Feliz Natal.
Mas ambos sabiam:
o azar não estava em não beijar.
O verdadeiro risco agora era tudo o que aquele beijo tinha despertado.


FIM



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? A CARNE CAINDO NO PRATO DA CARNIVORA E EU AMO DEMAAAAAAIS, BEIJA MESMOOOOO kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.