Última atualização: 05.12.2020

Toda história de Mary Basset tinha um Prólogo

sentiu um frio na barriga, naquela manhã, ao desembarcar do avião que a levara de Nova York a Londres, e ver uma garota sorridente, esperando por ela, com uma placa que trazia o desejo de boas vindas a Mary Basset, na mesma fonte cursiva que era usada nas capas de seus livros mais recentes.
Não era nenhuma novidade, pois ela sempre sentia aquele tipo de nervosismo, ao chegar a um lugar em que, pela primeira vez, participaria de uma tarde de autógrafos, com fãs das séries de romances de época às quais vinha se dedicando nos últimos anos. No entanto, podia jurar que a ansiedade dessa vez era ainda maior, o que atribuiu ao fato de estar prestes a se encontrar com leitoras que viviam no país em que todas as histórias em que permanecia mergulhada, durante boa parte de seu tempo, eram ambientadas.
Após cumprimentar a menina que a aguardava, que descobriu então ser Madison, uma das secretárias do editor de seus livros no Reino Unido, com quem já havia falado algumas vezes por whatsapp, entregou sua mala ao rapaz que a acompanhava e caminhou com os dois até o carro que a levaria ao hotel.
Aquela era sua primeira vez em solo inglês sob o pseudônimo Mary Basset, que a consagrara como autora de livros de época, depois de algumas tentativas de usar seu próprio nome e escrever romances que se passavam no mesmo local e época em que ela própria vivia. Porém, como uma pessoa apaixonada pela cultura daquele país, ela já tinha estado lá muitas vezes e então não prestou muita atenção ao caminho, aproveitando para mandar mensagens à mãe e ao melhor amigo e dizer que havia chegado com segurança.
No hotel, havia uma refeição esperando por ela, e Madison lhe informou que um outro carro a buscaria às três da tarde, a fim de levá-la até a livraria em que ocorreria o evento. Ainda teria algumas horas pela frente e dormir pareceu uma boa ideia, mas em meia hora deitada ela não conseguiu relaxar nem um pouco. Era assim mesmo, todas as vezes em que se aproximava mais uma oportunidade de falar sobre suas criações para um público realmente interessado nelas. E era apenas teimosa em achar que poderia ser diferente dessa vez!
Então ela pegou seu laptop e o levou para a cama, abrindo um dos arquivos relacionados ao livro cuja produção estava em andamento. Era o sexto da série dedicada à família Elliott, de um total de oito livros encomendados pela editora americana Books In Wonderland, e tinha como personagem principal o mais novo dos quatro filhos homens de Joseph Elliott, que se apaixonava perdidamente por uma das filhas de sua madrasta. Algumas ideias tinham surgido durante o voo e ela havia feitos anotações, então talvez conseguisse desenvolver alguma coisa, antes de se arrumar. A cena em que o protagonista confessava ao irmão mais velho seus sentimentos, implorando por ajuda, foi finalmente finalizada, mas, enquanto fazia ajustes na parte em que Thomas e Lizzie são flagrados pela mãe dela, ela adormeceu sem perceber, vencida pelo cansaço de quem não tinha dormido bem durante a viagem noturna.
Acordou totalmente renovada, pronta para se levantar e vestir o terninho elegante que havia comprado na semana anterior, especialmente para aquela tarde, combinando com as sapatilhas vermelhas que lembravam os sapatos cor de rubi que Dorothy usava, em O Mágico de Oz e eram como um amuleto da sorte. No entanto, levou um susto, ao abrir os olhos, e se ver não somente vestindo algo totalmente diferente do pijama de flanela com o qual pegara no sono, como em um local que nada se assemelhava à suíte de hotel reservada pela equipe da editora que publicava e distribuía seus livros na Inglaterra.
Estava deitada em uma enorme cama, com um dossel com pilares em madeira escura e esculpida, que sustentava cortinas pesadas em um lindo tecido verde esmeralda, Á sua volta, havia um armário de modelo muito antigo, mas com aparência bastante nova, o que também podia-se dizer da grande penteadeira, em cima da qual havia frascos de perfume em vidro talhado, uma escova de cabo dourado e uma caixa em porcelana linda, que era exatamente como a de uma foto que ela encontrara em suas pesquisas sobre o Século XIX e descrevera no segundo livro de Os Elliott.
Seu coração estava disparado, pelo susto, quando ela se levantou e observou todos os detalhes do lugar. A editora tinha feito um trabalho esplêndido, ao montar um cenário tão minuciosamente semelhante aos quartos que descrevia em seus livros, para lhe fazer uma surpresa – em especial o quarto de hóspedes da Birdwhistle House, com sua decoração nos mesmos tons de verde e ouro velho presentes no brasão dos Elliott –, apesar de ser bastante estranho pensar que havia sido levada desacordada até o local e que haviam trocado sua roupa (toda!). A camisola, apesar de comportada, pois era de um modelo usado na Era Vitoriana, também não parecia a melhor opção de traje temático para a tarde de autógrafos, mas ela tentou focar na dedicação e nas boas intenções da equipe e sorriu.
Seu sorriso, entretanto, se desfez rapidamente. Alguma coisa estava muito estranha! Ela não estava só vestida de modo diferente. Agora que tinha despertado totalmente, não tinha como ignorar que seu cabelo estava muito grande! Suas unhas também estavam diferentes, sem os esmaltes vermelhos com os quais haviam sido pintadas dois dias antes. Não havia como terem feito tudo aquilo! Só se a tivessem drogado ou algo assim.
Os sons do lugar também eram diferentes. Havia um barulho estranho de… cavalos galopando?
Foi então que ela prestou mais atenção e viu que havia uma janela. Uma janela que dava para uma paisagem maravilhosa, de tirar o fôlego. Uma janela grande, antiga, de madeira escura, da qual se aproximou com cuidado, sentindo o coração voltar a disparar, causando aquela sensação maluca de que ele poderia de repente sair pela boca, a qualquer instante.
Então ela viu. Havia cavalos – uma carruagem, na verdade, parada em frente a propriedade onde ela estava, que era belíssima, detalhadíssima e imensa, de modo que jamais poderia ser apenas um cenário. Um jardim se estendia à frente, com um colorido majestoso e com desenhos que ela conhecia e poderia descrever, de olhos fechados. Havia um pequeno lago, bem no meio dele, rodeado por bancos de pedra, onde havia um casal sentado, o rapaz usando um chapéu que combinava com seu terno e a moça, uma sombrinha, azul como seu vestido, mas em um tom mais escuro.
Ela não só conhecia aquele lugar. Ela criara aquele lugar!
Parecia impossível, é claro! Talvez ela estivesse louca ou ainda estivesse dormindo e fosse um sonho muito intenso, que parecia real. Mas, de algum modo, em sonho ou por loucura, ela estava na Birdwhistle House.
Parecia impossível, sim, ela sabia! Mas o fato é que, diante de tudo que ela estava vendo, também era impossível que não se tratasse da Birdwhistle House!




Continua...



Nota da autora: Lá vamos nós embarcar em mais uma história, torcendo para que tudo corra bem e que o projeto tenha de fato andamento. Peço um pouquinho de paciência comigo, pois estou tentando administrar meu tempo, entre ser mulher, mãe, profissional, webby do ffobs e ainda autora de fics. Não tem sido muito fácil, mas eu também não estou pronta para desistir! Vocês vem comigo? Espero que sim. Beijo grande a todas que leram até aqui!♥️♥️♥️♥️♥️





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