The Royal Theater

Última atualização: 29/03/2021

Capítulo 1

achava curioso – para não dizer engraçado e até patético – como as pessoas costumavam acreditar em jornalistas que trabalham para revistas focadas em famosos e celebridades em geral. Sentada na espreguiçadeira à beira da piscina, folheava a mais nova edição da People com um sorriso amargo nos lábios.

“Um amor que nasceu na infância”, vinha escrito em uma das linhas da reportagem que haviam preparado para comemorar as bodas de algodão doce que seu casamento com completaria naquele mês. A matéria trazia fotos de quando ela e o marido eram apenas dois pré-adolescentes, 11 e 13 anos respectivamente, o jardim do palácio de Windsor como plano de fundo enquanto os jovenzinhos caminhavam tranquilos em meio ao verde. Mal sabiam os súditos que aquela cena tinha sido montada. Enquanto as legendas das fotografias sugeriam uma amizade mais próxima entre princesa e filho do conselheiro do rei, os protagonistas da foto não trocaram palavras na ocasião. Seus pais poderiam ser melhores amigos, mas a história não se repetia com a prole. Dois estranhos um para o outro, é o que eram.

A linha cronológica do casal prosseguia. deparou-se com imagens dela e cada vez mais velhos conforme seus olhos desciam pelas páginas da revista. Viu-se dançando a valsa com ele em seu aniversário de dezesseis anos. Encontrou registros de comemorações de algumas festas de final de ano em que estavam no mesmo ambiente, todos muito bem vestidos em trajes brancos assinados por estilistas de bom gosto, mas que não tinham os holofotes voltados para si – mas passaram a ter daquele dia em diante. Também inseriram cenas de presente em sua formatura no ensino superior, e outras imagens dela na dele.

Ergueu os olhos do material que segurava, suas íris focando no homem que nadava de um lado para o outro na piscina, os músculos das costas ficando evidentes conforme enterrava os braços na água. Sabia que, um dia, aquele momento também apareceria em uma revista como aquela que trazia nas mãos.

Os paparazzis estavam presentes naquele espaço, ela foi informada pouco antes de descerem para a área de lazer. À espreita, os fotógrafos que amavam invadir a privacidade de pessoas como ela com toda a certeza estavam clicando o momento em que ela passava com o marido. No futuro, até conseguia imaginar como descreveriam tudo aquilo. “Mesmo depois de casados, princesa e duque não reduzem a proximidade e aproveitam manhã ensolarada na grande piscina do palácio”.

Fechou a revista, deixando-a de lado. Haviam caprichado na produção daquele conteúdo, ela admitia, mas sentia como se tivesse acabado de ler um conto de fadas, uma ficção que nada se assemelha com a realidade. “Um sentimento que cresceu com o passar dos anos. Da adolescência à fase adulta, terminando em casamento”. Aquilo não representava sua história, não de verdade. Não é amor quando apenas um dos lados sente, sabia.

Assistiu deixar a piscina, os músculos do braço se mostrando ainda mais com o esforço em se apoiar na margem. O homem não se deu o trabalho de deixar que água escorresse do corpo, apenas deu uma leve corrida até onde a esposa estava sentada e colou os lábios nos dela, em um selo demorado. Ambos conseguiam ouvir os clicks das câmeras ficarem ainda mais frenéticos naquele instante. Os paparazzis deveriam estar em polvorosa.

E é assim que aquela cena ganharia seu desfecho, nos jornais. Um beijo supostamente apaixonado do jovem casal.

A despeito do que propôs para o noivo na noite de núpcias, e ainda não eram capazes de escrever os próximos capítulos daquela história com as próprias canetas. Davam andamento à narrativa que o rei havia preparado para os dois com tanto esmero, dois fantoches nas mãos da família real – e como acontece desde a pré-adolescência, tudo sem trocar uma única palavra.

As coisas continuavam iguais naquele palco.

***


— Assim encerramos o primeiro compromisso do dia, Alteza – comemorou, abrindo a porta do quarto que dividiam desde a noite de núpcias e permitindo que a esposa entrasse primeiro nos aposentos. odiava ser chamada de alteza daquela forma.

Ambos tinham consciência de que foram até a piscina apenas para entreter os paparazzis. Alimentar a ideia de que formavam um casal de recém-casados feliz fazia parte dos deveres que precisavam cumprir para com toda a família real. Além de duque, também virei ator, pensou, contendo uma risada incrédula enquanto entrava no quarto sem proferir palavra alguma. A mulher permaneceu calada desde o instante em que colocaram os pés na área de lazer do palácio.

— Sempre foi desse jeito? – questionou, o tom não mais tão descontraído quanto antes. A seriedade repentina fez com que desviasse a atenção dos artigos de piscina que jogava sobre a cama e olhasse para o esposo. A interrogação nos olhos da mulher levou a prosseguir com a linha de raciocínio. – Os paparazzis – explicou. – Nós estamos em um palácio real. Supostamente deveríamos estar protegidos por uma segurança ferrenha. Esse tipo de gente não deveria ter acesso ao que fazemos, ou o que deixamos de fazer.

O amargor começou a se derramar no sorriso que se permitiu abrir. , como poderia ser tão ingênuo?

— Nota-se que você realmente viveu à margem de tudo antes de se casar comigo, não é mesmo? – soltou, voltando a tirar toalhas e protetor solar de dentro da bolsa de piscina. – Quem dá liberdade a esses profissionais é quem comanda a família real, . Atualmente, meu pai. Ou você acredita que essas pessoas continuariam empregadas se divulgassem algum material que desagradasse o rei? – o homem também desviou o olhar, dessa vez. Sentia-se um asno quando a esposa falava daquele jeito. Nem tudo era óbvio para ele!

— Como poderia saber? – defendeu-se. – Houveram casos, no passado, onde publicaram fotografias de duquesas mostrando os seios. Tenho comigo que reis e rainhas jamais permitiriam que membros da família real fossem expostos de tal forma.

À essa altura não conteve as risadas, aumentando o desconforto do outro.

, como pode ser tão cego? Esquece quem comandava tudo naquela época? – encarou o teto. Ao que parece de fato nunca se envolveu com qualquer assunto que envolvesse aquele universo. – Elizabeth Alexandra Mary – lembrou. Se bobear, o marido não saberia aquilo também. – É sabido que minha tataravó não nutria sentimentos amigáveis por suas noras, muito menos pelas esposas de seus netos. É óbvio que ela encontrou meios de difamar Diana, Camila, Catherinne e Meghan enquanto ainda estava viva, e não tenho dúvidas de que as demais noras e genros também comeram o pão que o diabo amassou nas mãos da velha. A imagem deles só não repercutia o suficiente para sofrerem uma humilhação pública, como as outras. Agora olhe para mim – pediu sem tanta delicadeza, esperando que o esposo a olhasse. Pedido concedido. Prosseguiu. – William acionou os paparazzis quando achava necessário. George e meu pai também. A diferença é que essas gerações passaram a avisar os membros fotografados. Bem-vindo à família real, caro esposo – finalizou, dando-lhe as costas e caminhando até o banheiro, mantendo a porta aberta.

jogou-se contra a cama, enojado. Quanto mais descobria os segredos daquela família, maior era a sua vontade de acabar com todo aquele teatro que estava ajudando a compor.

Nada de apelidos. Redes sociais eram proibidas e preservativos não eram permitidos. A partir do momento que um casal real se unia oficialmente perante Deus, o homem e a mulher não poderiam fazer uso de nenhum método contraceptivo – não à toa as mulheres começavam a parir desenfreadamente após o casamento e ele temia pelo dia que o mesmo aconteceria com ele e . Não sabia até quando poderiam evitar aquele destino com o coito interrompido. Agora a esposa lhe mandava essa última informação. Paparazzis eram chamados propositalmente para dentro do palácio, para colher material suficiente para transmitir o que o rei queria que os outros soubessem, fosse para o bem ou para humilhação.

Rolou no colchão. Queria vomitar.

***
despia-se do biquíni, perturbada pelos questionamentos que lhe fizera. Quanto mais pensava, mais chateada ficava a respeito.

Ele nunca se deu o trabalho de tentar entender o espaço onde seria inserido. tinha consciência de que se tornaria membro da família real desde os 13 anos e nunca, nunca, prestou-se o papel de estudar e compreender o veneno que embebia todo aquele universo, como se coubesse a ela dar-lhe tudo usando soro antiofídico.

encarou-se no espelho, a expressão fechada. Ele nunca quis saber. Ela tinha aquela impressão desde o início – a forma como ele a evitava nos eventos quando eram mais novos, a maneira como não puxava conversa nos momentos em que eram obrigados a posar para as câmeras em situações semelhantes à daquela manhã – e doeu ouvir a concordância sair de seus lábios na noite de núpcias, mas doía ainda mais ter aquela confirmação dia após dia na vida de casados que tentavam manter.

, quais as int- céus, eu sinto muito! – interrompeu a si próprio ao entrar no banheiro e encontrar a esposa nua em frente à pia. voltou-se para o marido, incrédula. Sente muito?!

– Devo lembra-lo de que nos casamos e que você me vê exatamente assim com certa frequência? – questionou. Será possível que aquele homem conseguiria estragar ainda mais sua manhã?! recebeu as palavras da esposa dando um passo para trás, sem saber ao certo para onde deveria olhar. – Retire-se, – exigiu, dura. – Vá se aprontar para seus próximos compromissos em outro aposento.

Some da minha frente, sentiu vontade de acrescentar. Apesar de toda a decepção, porém, não queria perder o respeito para com o cônjuge e viu sua mensagem ser bem recebida sem ser necessário usar da grosseria. retirou-se tão rápido quanto apareceu.

Fechou a porta atrás de si, machucada. Ele sempre seria distante, exatamente como o rapaz que ela observava quando tinha 13, 16, 20 anos. Poderiam estar casados no papel e dividir os lençóis em noites onde o desejo falava mais alto do que tudo, mas aquele ainda era um compromisso onde um dos lados não desejava fazer parte.

***


Nem mesmo a água fria era capaz de lavar a imagem de sem roupa das lembranças de .

Esfregava rosto e cabelos com as mãos conforme o chuveiro jorrava sobre sua cabeça, os músculos ainda enrijecidos ante a visão da esposa sem nada cobrindo o corpo. Sentia-se da mesma forma quando a via daquela maneira, à noite. era linda. Seu corpo pedia por aquela pele, ele sabia. A diferença é que quando não era dia e os dois se viam daquela forma, não era apenas para observar. Eram horas em que ambos queriam ação. Ali, à luz do dia, não soube como reagir. Eram marido e esposa perante a sociedade, mas entre eles não passavam de dois estranhos que conversavam vez ou outra; ela, uma mulher inalcançável, princesa, e não se age com naturalidade quando encontra a futura rainha nua diante de seus olhos.

tinha que entender.

Engoliu em seco, o sangue ainda correndo quente e rápido pelas veias. Banho frio não seria suficiente para acalmá-lo. Desceu a mão para a intimidade, substituindo a visão de minutos antes pelas cenas que encontrava na madrugada, na cama. gemendo seu nome. Os lábios dela tomando-o, faminta. Suas mãos a invadir o corpo aparentemente frágil da mulher.

Parou apenas quando o alívio veio em forma de líquido espesso e branco se misturando à água que descia pelo ralo. Respirou fundo. Por ora estava bom, mas sabia que, mais tarde, ia querer mais.

Secou-se, sentindo-se mais sujo do que antes do banho. Sua vida tinha se resumido àquilo. Compromissos com o exército inglês – afinal tinha que ter uma ocupação para colocar no currículo. Presença em eventos que eram importantes para todos os outros, menos para ele. Sexo com a mulher com quem foi obrigado a se casar.

Estava vazio.

Pegou o celular. Membros da família real não tinham permissão para administrar redes sociais pessoais, mas era burrice acreditar que não existiam perfis fakes para que pudessem acessar as mídias de alguma forma. tinha as dele. Abriu o facebook que exibia a foto e o nome de um estranho qualquer, digitando Joanne Hammingway na busca. Clicou na primeira conta que apareceu.

Joanne mantinha todas as suas publicações em modo privado, e ele, que não a tinha mais adicionada, não tinha acesso a nada. Suspirou, dolorido. Ver a foto da ex no perfil bastava para suprir um pouco da saudade. Não guardava nenhuma lembrança material daquela mulher. ou algum criado poderia encontrar e ele não estava disposto a misturar a melhor parte de sua vida com aquele período que estava sendo obrigado a viver, então não valia o risco. Aquela lembrança era sua. Joanne era sua. não iria se envolver nisso. Limitava-se apenas a ver a foto da mulher sorridente, então – a mulher que ele nunca mais iria ver pessoalmente outra vez.



Capítulo 2

estava completando seis meses de casado naquele dia, e pela primeira vez desde as tais “Bodas de Beijinho” seu enlace com não era o assunto principal do momento.

Sentia-se aliviado. Admirava a esposa pelo esforço que vinha desempenhando ao seu lado nos últimos tempos, mas precisava admitir que não aguentava mais ter que comemorar, mensalmente, uma união que nenhum dos dois tinha desejado. Ali, vestindo o blazer cinza claro diante do espelho, estava satisfeito por todas as atenções estarem voltadas para a reinauguração do Queen Elizabeth Hospital, um evento que contaria com a presença de uma parte da família real.

— Mantenha-se junto de sua esposa o tempo inteiro – o pai, postado alguns passos atrás de onde estava, orientou. Acha que eu vou fazer o quê?, sentiu vontade de retrucar. Aproveitar que tô fora da prisão, tacar a algema invisível na cara dela e sair correndo enquanto grito pela minha liberdade?

Era tentador, porém limitou-se a passar a segurança que o conselheiro do rei queria ouvir.

— Pode deixar.

— Quando retornarem, prepare-se para o jantar – que jantar?, pensou, aturdido. – Dessa vez organizamos algo íntimo para a comemoração das bodas, apenas para o casal.

Ah. Haveria um jantar para eles, então. Teriam fotógrafos escondidos dessa vez, também?

— Você precisa cumprir com o seu dever, – o mais velho prosseguiu. – Espera-se a chegada de um novo membro na família real após o primeiro ano de casamento. Lembre-se que você e a princesa estão alcançando a metade deste prazo – seu tom era sério, grave e quase severo.

Case-se com quem você não quer. Seja fiel à sua esposa acima de qualquer coisa. Pose para paparazzis, sem parecer que está realmente posando. Finja. Atue. Tenha filhos dentro de um ano! Importava-se tanto com a futura criança que sequer a tratava como “neto”, ao mencioná-la, e sim “um novo membro da família real”.

Mas que grande merda era aquela que estava sendo forçado a viver?

— Fique tranquilo – a despeito do tom usado pelo pai, o dele era contido. Não queria deixar transparecer a revolta que vinha se acumulando em seu íntimo. Também não tinha aquele direito. Não era um ser humano, na visão daquelas pessoas. Sentir era um luxo que aparentemente não lhe pertencia mais. Era um fantoche, como a própria costumava dizer vez ou outra, referindo-se tanto a ele quanto a ela. Estavam ali pelo entretenimento, para transmitir aos “súditos” uma mensagem com a qual não concordavam, e, claro, para procriar. Além de tudo, eles ainda seriam responsáveis por perpetuar aquela situação, e fadar uma criança – uma criança dele – ao mesmo destino.

Viu o pai deixar o quarto, mas não sem antes colocar uma caixa de veludo sobre a cama. Uma joia que teria de entregar a durante o tal jantar, à noite. Um presente.

Até isso eram eles que escolhiam.

***


Deitada de bruços, sentia a agulha perfurar a pele. Fechou os olhos enquanto o hormônio era injetado em seu corpo, livrando-a, ao menos por mais alguns meses, da possibilidade de permitir que uma criança passasse por aquilo que estava tendo que viver com . Sabia que era errado – sabia que era proibido –, mas também tinha consciência de que não era justo ser obrigada a carregar uma responsabilidade daquele porte quando não se sentia pronta para tal.

— Eu não sei se teremos condições de fazer isso de novo – a ginecologista disse após finalizar o procedimento. Ela também tinha consciência de que estavam indo contra as regras do palácio.

— Eu preciso da sua visita com frequência e em particular – lembrou, enrolando-se em um roupão. Não ter mais a presença da mãe ou de qualquer outra mulher durante as consultas foi um direito concedido após o casamento. – Já guardamos segredos antes – olhou para a médica com firmeza. Os exames que comprovavam sua virgindade antes dos votos com o marido não vieram do nada, não é mesmo? – Teremos todas as condições possíveis para manter mais um.

Teve a sensação de que a médica estava pronta para contrapor seu argumento, mas não teve a oportunidade de se expressar a tempo. Foi interrompida pelo som de alguém batendo na porta.

— Pode entrar – autorizou. Não estava disposta a ouvir o que a ginecologista tinha a dizer.

— Alteza – Chloe, uma de suas secretárias, cumprimentou. – Com licença.

— Acredito que nossa consulta foi concluída, certo, doutora? – voltou-se para a médica, que assentiu. Entendendo que sua presença não era mais necessária, retirou-se. deveria ter segredos com diversos funcionários.

— O que você tem para me dizer hoje, Chloe? – perguntou, assim que sentiu-se segura o suficiente de que estavam a sós.

— Venho com o relatório com os dados da semana passada – disse, entregando à princesa tudo o que o sistema havia colhido. pegou a pasta, abrindo e correndo os olhos pelas informações trazidas pela secretária. Os encontros com Chloe, tendo esta finalidade, aconteciam pelo menos duas vezes por mês.

continua olhando as redes sociais dessa outra mulher, então – constatou. Os laudos traziam todo o caminho percorrido pelo Duque, na rede de internet do palácio.

— Com menos frequência, deve-se observar – Chloe apontou, como se aquele fosse um bom sinal.

— Mas ainda acessa, não? – retrucou. – Mesmo depois de seis meses sem vê-la, ainda acessa.

— O que a senhora pretende fazer quanto a isso? – não sabia se tinha permissão para ir tão longe naquela conversa.

— Nada – respondeu, mesmo ciente de que a resposta não dizia respeito à funcionária. Nada ainda. – Meu marido teve uma história bastante intensa com essa tal Joanne, antes de nos casarmos, e eu não posso obriga-lo a apagar uma coisa dessas de sua vida. Cada um tem uma maneira de lidar com as situações, algumas só são mais deprimentes do que outras.

A maneira que havia escolhido para lidar com aquilo de maneira menos dolorida era olhar uma foto de perfil de uma mulher, em uma rede social. A dela era controlar tudo o que o homem acessava na internet, sem que ele soubesse. Por isso mesmo sabia que o marido se limitava somente a olhar. Se tivesse tentado manter contato com a outra, os relatórios diriam e providências teriam de ser tomadas.

Não se arrependia da decisão de investigar os passos de , junto dos funcionários que tinha como aliados dentro do palácio. Se não o tivesse feito, seria uma ignorante sobre a vida do homem que tinha como companheiro. Não soube do relacionamento do marido com a ex através daqueles que deveriam ter lhe contado – fosse seu pai, seu sogro ou mesmo seu próprio esposo. Por sorte, contava com uma rede de pessoas que lhe mostravam lealdade e lhe serviam de olhos e ouvidos onde não poderia estar presente. Ela mandaria em tudo aquilo, um dia. Ela tinha o direito de saber.

Fechou a pasta, entregando-a para Chloe.

— Leve – tinha a ânsia de saber tudo, mas não guardava as provas consigo. Poderiam ter quartos separados, mas compartilhava o cômodo com , as vezes. Não era de seu interesse que ele descobrisse o que vinha fazendo por debaixo dos panos. – Agora vou me arrumar para o evento de hoje. Agradeceria se você me desse licença, Chloe.

— Claro, senhora – concordou, fazendo uma breve reverência antes de sair.

***


Era impressionante como tudo o que envolvia a família real gerava grande comoção.

No início acreditava que a presença da realeza em um determinado local só provocava certa aglomeração quando se tratava de algo grande, como seu casamento com , por exemplo. Lembrava-se do quão sem reação havia ficado ao ver a quantidade de ingleses em torno da igreja onde se casaram, todos em busca de uma visão privilegiada conforme os carros com os convidados passavam pelas ruas. Mas não. Ali, a caminho do Queen Elizabeth Hospital, pôde notar que, não, não eram apenas grandes eventos que faziam as pessoas sair de casa apenas para vê-los.

Era uma simples reinauguração de um hospital, e elas estavam ali, sorrindo e acenando para eles. Surreal.

— Será que um dia eu vou entender a razão disso tudo? – não era sua intenção dizer em voz alta. Foi como se as palavras escapassem de sua boca, sem sua própria permissão.

— Dificilmente – respondeu, sentada ao seu lado dentro do veículo. Foi o suficiente para sobressaltá-lo. Ela correspondia os acenos das pessoas na calçada com um sorriso gentil nos lábios, transmitindo simpatia. Apesar de ter verbalizado sua dúvida, não imaginou que receberia alguma resposta. – E se te consola – ela prosseguiu, voltando-se para ele. – Nem eu entendo direito.

Se nem mesmo a pessoa que nasceu e cresceu naquele meio entende, como poderia ele, logo ele, compreender?

***


Apenas uma ala do hospital estava sendo reinaugurada. Após longos meses de reforma, tudo em prol da modernização do espaço, a área da pediatria retomava suas atividades a partir daquele dia. Além de visitar os pequenos pacientes que estavam sendo transferidos para os novos leitos, caberia a eles cortar a faixa que oficializava o evento.

Poucas foram as vezes em que esteve em um hospital, mas em todas, em absolutamente todas, sentiu uma vontade imensa de fazer mais por aqueles ambientes. Na posição de membro da família real, ela nada mais era do que um elemento que trazia destaque ao espaço. Olha, vejam o quão grande foi investimento neste local! Vejam quão boa é a estrutura, e como nossos médicos são capacitados para cuidar de vocês! Ela queria ser mais do que aquilo. Lembrava-se do quanto havia ansiado, durante a adolescência, ser um daqueles médicos.

Não podia.

Precisava sim de uma formação, mas nada que pudesse desviá-la de seu compromisso para com a família real futuramente.

Fazia, então, o que estava ao seu alcance.

— Você é mesmo a princesa? – a garotinha perguntou, deitada em uma das camas. Fios ligavam seus bracinhos aos equipamentos que registravam os batimentos de seu coração. A criança havia sido transferida durante a manhã.

— Bem, sim – disse. Ela nunca saberia ao certo o que responder quando lhe perguntavam isso, ainda mais quando o questionamento vinha de uma criança. Os olhos da menina brilharam. – Mas você pode me chamar de , ou Vic. Como você se chama?

— Anne – respondeu. – Sabia que eu quero ser como você, quando eu crescer?

Não, Anne, você não quer, era o que sentia vontade de responder. Tinha consciência de que servia de inspiração, especialmente para as meninas. Esse era um dos grandes objetivos da família real para com a população, e isso a aterrorizava. Aquela instituição na qual estava enraizada até o último fio de cabelo visava ser referência aos outros, e se aproveitava de sua influência para que modelos tradicionais e conservadores fossem mantidos. Naquele teatro, sabia que sua personagem era usada para inspirar meninas como Anne a desejar o casamento com um homem belo e formoso, como , e assim viver algo que na realidade não existia.

Por mais que Anne não tivesse dito que queria aquilo para seu futuro, essa era a intenção de quem estava no poder. A ideia de que uma menina como aquela pudesse cair em um jogo tão sujo lhe revirava o estômago.

não desejava aquilo para Anne, nem para nenhuma outra menina.

— Mas sabe o que eu quero que a senhorita faça, Anne? Estude – incentivou. – Seja uma boa aluna quando receber alta deste hospital. Estude bastante. Bastante mesmo! – reforçou. – E que esse estudo te inspire a sonhar e a realizar cada um destes sonhos.

Eu quero que você seja livre e independente, Anne.

Já que nunca poderia dar um conselho como aquele para uma filha, sentia-se com a responsabilidade de plantar aquela sementinha nas cabeças de outras crianças quando encontrava a oportunidade. Iria torcer para que suas palavras enraizassem na mente daquela menininha e que, de alguma forma, ela pudesse contribuir de forma positiva no desenvolvimento da próxima geração.

***


Diferente de , não se demorava muito nas conversas com os pequenos. Era mais do que não querer estar lá. não suportava hospitais. Por mais que tivesse consciência de que aquelas crianças estivessem ali justamente para melhorar do que quer que tivessem, não era ali que elas deveriam estar. Lugar de criança era brincando, correndo, estudando, não deitada em uma cama com fios levando remédio para seus corpos.

Jamais poderia ser médico.

— Mas você vai ficar bem logo, Erin – garantiu à menina com quem estava conversando. Não sabia o que Erin tinha, achou que seria indelicado perguntar, mas aquela parecia ser a coisa certa a dizer. Ela parecia ser uma das mais velhas daquela ala, mais um pouco e talvez nem fosse paciente da pediatria.

— É o que eu espero, príncipe.

Não era príncipe, era duque, mas não seria ele que iria corrigir a garota. Se ela quisesse chama-lo até de pato, ela podia.

— A propósito, belos brincos – elogiou, indicando o par de estrelas que adornavam as orelhas da paciente.

Além de médico, aquela função também deveria ser proibida para alguém como ele. não servia para fazer sala a pessoas que sequer conhecia. Quem faz um elogio como aquele para uma criança internada?!

Apesar de soar errado, em sua cabeça, suas palavras iluminaram o rosto de Erin.

— Foi minha mãe quem fez! – exclamou. A postura da menina mudou completamente. – É o trabalho dela. Mamãe faz bijouterias e semi-joias. Aqui, na primeira gaveta tem uma caixinha com alguns. Vossa Alteza quer ver?

arqueou as sobrancelhas. Não estava esperando por aquela reação. Sua intenção era despedir-se e dar atenção a outro paciente, não se prolongar tanto quanto estava fazendo com Erin.

Olhou para a gaveta que a menina havia indicado. De fato, havia um gaveteiro ao lado da cama para que os pacientes pudessem guardar alguns pertences. Tornou a olhar para a menina, que em poucos segundos ficou animada. Falar sobre o trabalho da mãe parecia deixa-la radiante. Quando teria sido a última vez que conversou com alguém sobre algo que gostava? Não sabia. Mas sabia que ela iria conversar sobre aquilo agora, com ele.

Abriu a gaveta indicada, tirando a caixinha que a menina havia dito. Era um porta joias.

— Não sabia que vocês podem trazer esse tipo de coisa pra cá – comentou.

— Não é proibido – Erin riu. – Nós podemos ter coisas que gostamos muito, como livros e tal. E mesmo que usar brincos, colares, pulseiras e essas coisas todas não seja autorizado dentro de um hospital, alguns agradinhos são dados pra gente, já que somos novos e estamos enfrentando uma situação difícil – explicou. – Eu adoro ficar olhando pra eles sempre que posso. Como não pode passar muito tempo comigo, minha mãe se dedica neles em casa e as vezes traz alguns durante as visitas.

Tinham quatro pares dentro da caixinha. Um tinha forma de conchas, outro de lua, coração e flores. Ficou impressionado com o último, delicado e todo cravejado com pedrinhas brilhantes. Não deveria ser diamante ou outro material de grande valor, mas não deixava de ser lindo mesmo assim.

— Algum desses está à venda?

— Para o senhor? Jamais – disse a menina. – Para Vossa Alteza fica de presente mesmo.

Encarou a pré-adolescente. Não iria discutir, mas certamente um de seus secretários entraria em contato com a mãe de Erin para lhe pagar por aquele trabalho.

— Muito obrigado, Erin.

***


O que quer que tenha dito para aquele menino, foi o suficiente para arrancar gargalhadas muito gostosas da criança. assistiu à cena, de longe. Ela própria sorria para o pequeno – um sorriso suave, mas que ainda assim era capaz de iluminar todo o seu rosto. Como poderia nomear aquela expressão? Traços de ternura? De carinho? A única certeza que tinha é de que nunca havia presenciado aqueles traços na esposa. Estava ainda mais linda do que costumeiramente.

Haviam prolongado a visita por mais 30 minutos, após terem cortado a faixa da inauguração da nova ala da pediatria. Acabaram conversando tanto com algumas crianças que outras ficaram completamente sem atenção antes do corte, sendo concedida, então, a autorização para ficarem mais um pouco. Todas aquelas crianças precisavam se sentir especiais.

Mas o tempo ali estava chegando ao fim.

– chamou-a, colocando-se ao seu lado. – Precisamos ir.

Os ombros da esposa caíram ante o seu chamado. Aparentemente queria ficar.

— Claro – respondeu. – Vou me despedir de Scott e logo te alcanço, tudo bem?

Assentiu. Deixou-a se despedir do menino – agora com nome, Scott –, seguindo para a saída.

***


— O que achou do nosso primeiro compromisso completamente sozinhos?

Estavam à mesa de jantar. Seu pai estava certo: realmente prepararam uma refeição especial para os dois, em comemoração aos seis meses de casamento. No entanto, não estava sentindo o desconforto que pensou que sentiria, tanto pelo que estavam fazendo quanto à pergunta de .

— De verdade? – perguntou, vendo a esposa assentir com o pescoço um tanto rígido. – Eu gostei – as sobrancelhas de se arquearam, surpresa, levando-o a sorrir. – A situação não era legal. Crianças internadas? Definitivamente não seria o programa que eu escolheria, mas conversar com elas e passar um tempo juntos... eu gostei. E você?

Teve a sensação de que os ombros da esposa relaxaram um pouco após ouvi-lo.

— Compartilho do mesmo sentimento – respondeu. era sempre formal demais. – Cumprir com esse tipo de função não foi nenhuma novidade para mim, mas tudo ainda é muito novo para você. Não sabia ao certo como você iria se sentir.

Tirou os olhos da comida, voltando-os para a mulher sentada à sua frente. Não sabia ao certo como você iria se sentir. se importava? A forma como se sentia ou deixava de sentir tinha alguma importância? Encarou-a, lembrando-se da mulher que sorria para um garotinho desconhecido naquela tarde. Era alguém que ele nunca tinha visto até então. Sentia-se da mesma forma, naquele momento, como se estivesse diante de uma pessoa diferente daquela com quem convivia.

?

— Sim? – retrucou, aturdido. Ficou quieto por quanto tempo?

— Está tudo bem?

— Tudo ótimo – disse, soando como um robô de tão automático. Pigarreou — Não se preocupe. Eu gostei e vai chegar o momento em que vai se tornar comum pra mim também, não é?

— Bem, acredito que sim – dava para sentir a desconfiança nas palavras da mulher. Ela realmente estranhou o silêncio repentino. – Saídas como a de hoje vão acontecer mais vezes. Dito isto, vou me retirar caso não se importe. Estou exausta.

A despedida de foi como um gatilho para se lembrar do que trazia no bolso.

— Espera – pediu. – Não me importo que vá, mas tem algo que quero lhe dar antes. Sabe como é, em comemoração à data.

Encontrou a expressão vazia no rosto da esposa. Mais do que a exaustão provocada pelo dia, ela não parecia nem um pouco interessada em presentes. Ainda assim, levantou-se e tirou o pequeno pacote de papel pardo do bolso – e aquilo sim pareceu chamar a atenção da mulher. Nada de caixinhas de veludo que geralmente guardavam joias caras, era um pacote simples.

— O que é isso? – questionou, mais curiosa do que decepcionada.

— Abra, oras! – incentivou.

Não demorou para que o par de brincos em formato de flor caíssem na mão de , as pedrinhas reluzindo conforme ela passeava os dedos neles. Já que teria de presentear a esposa para cumprir um protocolo de mesversario de casamento, que fosse com algo que ele realmente quisesse dar. A caixa deixada por seu pai, mais cedo, que se danasse.

— A mãe de uma das garotinhas que estavam no hospital que faz – explicou. Sabia que não era comum um duque ter acesso a uma peça sem qualquer valor e não queria despertar nenhum tipo de desconfiança na esposa.

— São lindos – ela sussurrou, ainda olhando para o par de bijouteria.

— Gostou?

Recebeu como resposta uma tirando os brincos que já usava, para coloca-los.

— É, ao que tudo indica, gostou – sorriu.

Só não estava esperando que viria a seguir.

Em um instante estava sentada, no outro colocou-se em pé, tomando-lhe o rosto nas mãos e unindo os próprios lábios aos seus. Apesar da surpresa, não demorou para que fechasse os olhos e a acompanhasse no beijo, as mãos na cintura da mulher e o coração tomando um novo pulsar.

Já haviam se beijado antes – várias vezes, por sinal –, porém lá estava aquele mesmo sentimento de minutos atrás. Anormalidade. Desconhecido. Ares de primeiro encontro. afastou-se aos poucos, finalizando com selinhos. Ela sempre foi delicada daquele jeito? Não, não é possível – ele teria percebido se fosse. Teria, não teria?

— Muito obrigada pelo presente.

Piscou algumas vezes, ainda tomado pela confusão.

— Imagina – foi a única que conseguiu dizer antes de vê-la sair.

Respirou fundo. Não entendia o que estava acontecendo, mas estava disposto a descobrir.



Continua...



Nota da autora: Eu não sei nem o que dizer pra vocês, de verdade. O primeiro capítulo de TRT veio ao ar em março de 2018 e agora, 3 anos depois, apareço com o capítulo 2.

Tantas coisas aconteceram nesses três anos, meninas, tantas! Juro pra cada uma de vocês que nunca se passou pela minha cabeça abandonar a Vic, o Elliot e muito menos vocês, mas ser adulta as vezes é complicado e conciliar as responsabilidades com o que nós realmente queremos fazer é um desafio que nem sempre conseguimos cumprir com a rapidez que gostaríamos.

Mas o capítulo 2 chegou, antes tarde do que nunca, e eu amei reencontrar esses dois. Será que eles ainda tem salvação? Juro que respondo nos próximos capítulos, que NÃO VÃO levar mais 3 anos pra chegar!!

Depois me contem o que vocês estão achando nos comentários? Vou ficar muito feliz <3



Outras Fanfics:

Finalizadas:

The Royal Wedding #1 (Outros/Restrita)



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