Capitulo Único
A nevasca começou como um incômodo.
Flocos tímidos no vidro da janela do trem, quase bonitos demais para preocupar alguém.
só percebeu que algo estava errado quando o vagão diminuiu a velocidade pela terceira vez em menos de dez minutos.
— Não… — murmurou, já fechando os olhos.
O aviso veio logo depois, em coreano e inglês, com aquela voz neutra demais para a situação:
“Devido às condições climáticas extremas, o trem fará uma parada obrigatória na próxima cidade. Pedimos compreensão.”
Alguns passageiros reclamaram. Outros suspiraram resignados. apenas afundou no assento, frustrada.
Ela estava indo visitar a melhor amiga, finalmente. Uma folga curta, Natal chegando, saudade acumulada. Tudo planejado nos mínimos detalhes — porque a vida já tinha sido caótica demais para improvisos.
Ou pelo menos era o que ela achava.
A pequena cidade do interior parecia saída de um cartão-postal antigo: ruas cobertas de neve, luzes amareladas penduradas nos postes, silêncio demais para quem vinha de Seul.
— Só pode ser brincadeira… — ela resmungou, puxando a mala pelo chão branco.
Foi quando esbarrou em alguém.
Literalmente.
— Ah, droga! — reclamou, segurando o braço da pessoa por reflexo para não cair.
— Desculpa — a voz masculina respondeu rápido, firme, gentil demais para alguém que também tinha sido atropelado por uma desconhecida irritada.
Ela ergueu o rosto para retrucar… e congelou por um segundo.
Não por reconhecer quem ele era.
Mas porque ele era absurdamente bonito de perto.
Alto, postura tranquila, cachecol escuro jogado de qualquer jeito no pescoço, olhos atentos — cansados, mas gentis.
— Você está bem? — ele perguntou, já soltando o braço dela.
— Estou. — ajeitou o casaco, defensiva. — Foi culpa minha.
Ele deu um meio sorriso educado, daqueles que encerram conversas.
— Boa sorte com… — ele fez um gesto vago para a neve — isso tudo.
Ela assentiu e seguiu em direção oposta, sem olhar para trás.
Não fazia ideia de quem ele era.
Namjoon, por outro lado, a observou por alguns segundos a mais do que deveria.
Talvez fosse o jeito impaciente dela.
Ou o fato de não parecer nem um pouco impressionada — algo raro demais.
A pousada era pequena. Antiga. Aconchegante no sentido “não temos opção melhor”.
O problema veio no balcão.
— Que Sorte! Ainda temos um quarto disponível — explicou a senhora, em inglês simples. — A nevasca cancelou tudo. Trens, ônibus… hotéis.
sentiu o estômago afundar.
— Um quarto? — ela ouviu de um homem perguntar ao fundo. — Não tem como…
— Desculpa, querido. Essa moça chegou primeiro.
— Então, gente fica com o quarto. — O rapaz respirou fundo, Mantendo a calma.
Ela se virou no mesmo instante. Era o homem do trem.
— O quê? — franziu o cenho.
— Se for um problema dividir… eu posso dormir no sofá, se tiver um — ele disse, olhando para a recepcionista. — Eu só não quero congelar dormindo no banco da praça.
— É um quarto com duas camas. — A senhora sorriu.
Silêncio.
analisou o desconhecido por dois segundos longos demais.
— Certo — disse por fim. — É só uma noite.
“Só uma noite”, ela pensou.
O que poderia dar errado?
Sabia que era uma loucura, porque era um desconhecido, mas estavam às vésperas do natal, talvez o papai noel a recompensasse.
O quarto era simples, aquecido demais, com cheiro de madeira antiga. Duas camas separadas. Uma janela embaçada pela neve do lado de fora.
— Eu sou — ela disse, mais por educação do que vontade.
— Namjoon.
Sem sobrenome.
Sem títulos.
Sem contexto.
O jantar foi improvisado: sopa quente, pão simples e chocolate quente servido em canecas grandes demais.
Eles começaram como dois estranhos educados.
Depois, dois desconhecidos forçados à convivência.
Até que, sem perceber, a conversa começou a fluir.
— Você mora na Coreia há muito tempo? — ele perguntou.
— Tempo suficiente pra saber que odeio tudo que envolve a indústria do entretenimento — respondeu sem filtro.
O silêncio foi imediato.
Namjoon piscou uma vez. Depois riu.
— Isso foi direto. — Riu de verdade.
— Desculpa. Não era pra você — ela suspirou. — Eu só… não suporto a indústria. A pressão, a idolatria, a falta de humanidade. Parece tudo falso.
— Às vezes é mesmo. — Ele a observou com atenção, mexendo na caneca.
— Você concorda? — Ela ergueu os olhos, surpresa.
— Eu acho que as pessoas esquecem que existem pessoas ali no meio — respondeu com calma.
— Então você não é fã? — sentiu algo diferente no peito.
— Digamos que eu estou… muito envolvido. — Ele sorriu de canto.
Horas depois, sentados no chão perto do aquecedor, dividindo o último chocolate quente, a nevasca continuava do lado de fora.
— Sabe o que é estranho? — disse, olhando para a janela. — Eu nunca fico confortável tão rápido com estranhos.
— Talvez você não esteja tão errada sobre não ser um acaso. — Namjoon a encarou.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi cheio de possibilidades.
E, naquela pequena cidade coberta de neve, na véspera de Natal, ainda não fazia ideia de que estava dividindo o quarto — e algo muito maior — com o líder do BTS.
Mas talvez…
Isso não fosse o mais importante.
A noite avançou sem que nenhum dos dois percebesse.
A pousada havia silenciado por completo, como se a nevasca tivesse engolido o mundo do lado de fora. Só o aquecedor fazia barulho, um som baixo e constante, e a luz amarelada deixava o quarto pequeno demais para dois estranhos que já não pareciam tão estranhos assim.
estava sentada no chão, encostada na lateral da cama, as pernas dobradas, segurando a caneca vazia de chocolate quente como se ainda pudesse sair algo dali.
Namjoon observava de longe demais para alguém que dizia não estar pensando em nada.
— Você sempre fala tudo o que pensa? — ele perguntou, quebrando o silêncio.
— Só quando estou cansada demais pra fingir — ela respondeu, sem olhar para ele. — E você? Sempre parece tão… calmo.
— É sobrevivência. — Ele sorriu de leve.
— Isso soou mais profundo do que deveria pra uma noite presa numa cidadezinha aleatória. — Ela riu pelo nariz.
Namjoon se levantou, caminhando até a janela. Limpou o vidro embaçado com a manga do casaco. A neve continuava caindo pesada.
— Às vezes, quando tudo para assim… — ele disse, baixo — parece que a gente pode respirar sem ninguém esperando nada da gente.
— Você fala como alguém que vive sendo esperado. — levantou o olhar para ele.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Mais denso.
Mais próximo.
Ele virou o rosto devagar, encontrando o olhar dela. Não havia pressa. Nem defesas.
— Talvez — respondeu apenas.
sentiu algo apertar no peito. Não sabia explicar. Só sabia que, se continuasse olhando daquele jeito, ia acabar cruzando uma linha invisível.
— Ok — ela pigarreou, se levantando rápido demais. — Melhor eu tomar um banho antes que a água acabe ou congele.
Namjoon assentiu.
— Claro.
Ela pegou a bolsa, foi até o banheiro e fechou a porta com mais força do que precisava.
Do outro lado, ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
“Só uma noite”, ele repetiu para si mesmo.
Como se acreditasse.
Quando saiu do banho, o cabelo ainda úmido, moletom largo e meias grossas, encontrou Namjoon sentado na cama oposta, mexendo no celular.
— Espero que você não ronque — ela comentou, tentando recuperar a leveza.
— Só quando estou muito cansado — ele respondeu, levantando o olhar… e travando por meio segundo.
— O quê? — Ela percebeu.
— Nada — ele desviou rápido demais. — Você… parece confortável aqui.
— Milagre — ela deu de ombros. — Geralmente eu odeio improvisos.
— Boa noite, Namjoon.— Ela se jogou na cama, puxando o cobertor até o queixo.
— Boa noite, .
O quarto escureceu.
Mas o sono não veio.
Minutos depois — talvez horas — se virou na cama, encarando o teto.
— Você ainda está acordado? — ela perguntou.
— Estou.
— Posso te fazer uma pergunta meio invasiva?
— A essa altura, acho justo.
— Você nunca me disse… o que faz.— Ela respirou fundo.
Silêncio.
— Música. — Namjoon fechou os olhos por um instante. Abriu de novo.
— Produtor? — ela chutou.
— Algo assim.
— Banda? — ela insistiu.
— Algo… parecido.
— Você fala como se estivesse escondendo. — virou o rosto na direção dele, curiosa.
— Talvez eu esteja.
— Por quê? — Ele virou o rosto para ela. Os dois separados apenas pela distância das camas, pequena demais agora.
— Porque eu gosto de como você fala comigo sem saber.
— Sem saber o quê? — Ela franziu o cenho.
Antes que ele respondesse, o celular vibrou na mão dele, quebrando o momento como um tapa.
Na tela, o nome piscava: Hoseok.
leu sem querer.
— Hoseok… — ela repetiu em voz alta. — Que nome diferente.
Namjoon congelou.
— Desculpa — ela falou rápido. — Eu não quis…
Mas era tarde.
O telefone vibrou de novo. E de novo. Mensagens acumulando.
Ela não resistiu a olhar para a tela iluminada:
“Hyung, você está bem?”
“As notícias estão dizendo que o líder do BTS sumiu no meio da nevasca.”
O silêncio caiu pesado.
Muito pesado.
piscou uma vez.
Duas.
— Líder do… — ela engoliu seco. — Do BTS?
— Eu posso explicar. — Namjoon fechou os olhos.
Ela começou a rir.
Rir de nervoso.
Rir de incredulidade.
Rir como quem acabou de perceber que o universo estava tirando sarro dela.
— Não — ela levou a mão ao rosto. — Não, não, não… você só pode estar brincando comigo.
— …
— Você está me dizendo que eu passei horas reclamando da industria… pro Kim Namjoon?
— É.— Ele assentiu, quase culpado.
Ela caiu sentada na cama.
— Eu dividi chocolate quente… com o RM.
— Eu prefiro Namjoon — ele disse, com um sorriso pequeno, tenso.
— Eu te ofendi. Várias vezes.— Ela levantou o olhar devagar.
— Você foi honesta.
— Eu disse que parecia tudo falso.
— E eu concordei com você.
Silêncio.
Depois, ela soltou uma risada curta.
— Isso é muito injusto.
— O quê?
— Você não podia ser… diferente — ela apontou para ele. — Eu tinha um discurso inteiro pronto pra te odiar.
— E agora? — Ele se aproximou um pouco mais, sentando na beira da cama dela.
Ela engoliu seco.
Porque agora ele estava perto demais.
Porque agora ela via o homem antes do ídolo.
Porque agora… fazia sentido demais.
— Agora eu estou presa numa pousada, numa cidade coberta de neve, com o líder da maior banda do mundo… — ela respirou fundo. — E isso definitivamente não estava nos meus planos de Natal.
— Nem nos meus. — Namjoon sorriu, baixo.
O olhar deles se prendeu por tempo demais.
Quando a luz foi apagada de novo, teve certeza de uma coisa:
Aquilo não era só uma noite.
E aquela nevasca…
tinha parado o mundo por um motivo.
O silêncio depois da revelação não foi desconfortável.
Foi… cheio.
deitou de lado, virada para a parede, mas com a mente longe demais para dormir. O nome dele ecoava na cabeça como um segredo grande demais para caber naquele quarto simples.
Kim Namjoon.
Líder do BTS.
Ela fechou os olhos com força.
— Ei — a voz dele veio baixa, cuidadosa. — Se você quiser… a gente pode fingir que amanhã isso tudo não aconteceu.
— Você acha mesmo que dá pra fingir isso? — Ela se virou devagar.
— Eu tento fingir muitas coisas. — Namjoon sorriu de leve, cansado.
Ela o observou por alguns segundos longos demais.
— Eu não te odeio — disse, finalmente. — Odeio o que fazem com vocês. Com o que isso vira.
— Obrigado por separar as coisas. — Ele assentiu, como quem já tinha ouvido aquilo antes… mas nunca daquele jeito.
A luz do aquecedor piscou por um segundo. O vento bateu forte na janela. O Natal se aproximava lá fora, invisível sob a neve.
Sem pensar muito, se sentou na cama.
— Você consegue dormir?
— Não.
— Então vem aqui — ela deu um tapinha no colchão. — Só pra conversar. Eu prometo não morder.
— Isso parece perigoso. — Ele hesitou.
— Eu sou pequena. O que eu poderia fazer?
Namjoon riu baixo antes de se levantar e sentar na beirada da cama dela, mantendo uma distância respeitosa demais para duas pessoas que já tinham cruzado coisas maiores naquela noite.
— Me conta uma coisa — ela disse. — Quem você é quando ninguém está olhando?
Ele demorou a responder.
— Alguém que escreve músicas de madrugada, esquece de comer e sente saudade dos pais mais do que deveria admitir.
— Ok… isso foi inesperadamente humano. — sorriu.
— E você? — ele perguntou. — Quem você é quando não está odiando k-pop?
Ela revirou os olhos, mas riu.
— Alguém que sente falta da melhor amiga, que planeja demais pra não perder o controle… e que claramente não sabe lidar com improvisos.
Os olhares se prenderam.
Dessa vez, mais próximos.
Tão próximos que sentiu a respiração dele mudar. Tão próximos que, se ela se inclinasse só um pouco…
O celular vibrou de novo.
Os dois se assustaram.
— Sério? — ela murmurou.
Namjoon suspirou, pegando o aparelho. A tela iluminou o quarto escuro.
Notícias.
Mensagens.
Chamadas perdidas.
— A internet voltou — ele disse, tenso.
— Isso é ruim, né? — sentiu o estômago revirar.
— Significa que… — ele respirou fundo. — O mundo acordou.
Como se confirmasse, a televisão antiga da pousada ligou sozinha, chiando antes de mostrar imagens conhecidas demais.
“…o líder do BTS, Kim Namjoon, permanece desaparecido após a nevasca…”
— Acho que a nossa bolha estourou. — fechou os olhos.
— Desculpa. Eu não queria te colocar no meio disso. — Namjoon desligou a TV rapidamente, passando a mão pelos cabelos.
Ela se levantou, caminhando até a janela. Do lado de fora, o céu começava a clarear. Tons suaves de azul e rosa anunciavam o amanhecer.
— É Natal — ela disse, baixinho. — Ou quase.
— Eu nunca passo o Natal longe da família. — Ele se aproximou, ficando ao lado dela.
— Nem eu — ela respondeu. — Acho que é por isso que isso tudo parece… errado.
Ou talvez certo demais.
Eles se viraram ao mesmo tempo.
O espaço entre eles sumiu.
Não houve planejamento.
Nem razão.
Só o impulso.
Namjoon levou a mão ao rosto dela, devagar, como se pedisse permissão sem palavras. não recuou.
Quando os lábios quase se tocaram, alguém bateu na porta.
— Desculpem incomodar! — a voz da senhora da recepção soou animada demais. — O trem deve voltar a funcionar em algumas horas! Feliz Natal!
Os dois se afastaram num pulo, corações acelerados.
— Isso foi… cruel. — riu, passando a mão pelo rosto.
— O universo tem um timing péssimo. — Namjoon também riu, sem jeito.
— Ou ótimo — ela respondeu, encarando-o. — Porque agora a gente sabe que não foi imaginação.
Ele assentiu.
— …
— Não agora — ela interrompeu, suave. — Vamos sobreviver ao caos primeiro. Depois… a gente vê o que sobra.
— Combinado. — Ele sorriu daquele jeito calmo que agora ela reconhecia.
Do lado de fora, os sinos da pequena cidade tocaram.
Natal tinha chegado.
E, mesmo com o mundo pronto para puxá-los de volta para realidades opostas, algo entre eles tinha começado ali — no frio, na neve, no imprevisto.
Talvez não fosse um acaso.
Talvez algumas histórias precisassem que o mundo parasse
para finalmente acontecer.
O Natal chegou em silêncio.
acordou com o som distante de sinos e o cheiro de algo doce vindo de algum lugar da pousada. A luz da manhã entrava suave pela janela, refletindo na neve acumulada do lado de fora.
Por alguns segundos, ela esqueceu onde estava.
Até lembrar com quem estava.
Virou o rosto devagar.
Namjoon ainda dormia na cama ao lado, de lado, o cobertor meio jogado, o rosto relaxado de um jeito que ela nunca tinha visto em fotos ou vídeos — porque ali não havia líder, nem idol. Só um homem exausto que tinha sido gentil demais com uma estranha presa na neve.
Ela sorriu sem perceber.
— Feliz Natal… — murmurou, baixo.
Como se tivesse ouvido, Namjoon abriu os olhos.
— Feliz Natal — respondeu, a voz rouca de sono.
Houve um silêncio confortável.
Até que ele se sentou na cama, esfregando o rosto.
— Ainda parece estranho — ele disse. — Passar o Natal assim.
— Presa numa cidadezinha aleatória? — provocou.
— Com você — ele corrigiu, encarando-a.
O ar mudou.
Ela sentiu antes mesmo de entender.
Namjoon se levantou devagar, caminhando até a janela. o seguiu, ficando ao lado dele. Do lado de fora, algumas crianças brincavam na neve, risadas ecoando.
— Parece um filme — ela comentou.
— Os melhores são os que dão errado antes de dar certo.
Ela virou o rosto para ele.
Estavam perto demais outra vez.
— Você vai embora hoje — ela disse, não como pergunta.
— Vou — ele assentiu. — Assim que liberarem os trens.
Ela respirou fundo, tentando parecer indiferente. Não conseguiu.
— Então talvez… — ela começou, mas parou.
— Talvez o quê? — Namjoon a encarou.
— Talvez a gente devesse parar de evitar.
Ele não respondeu com palavras.
A mão dele subiu devagar, tocando o rosto dela com cuidado, como se ainda houvesse dúvida. não deu espaço para ela existir.
Foi ela quem se inclinou primeiro.
O beijo foi lento.
Suave.
Quente demais para um lugar tão frio.
Não teve pressa, nem desespero — só reconhecimento.
Quando se afastaram, as testas ainda encostadas, riu baixinho.
— Ok… isso definitivamente não estava nos meus planos de Natal.
— Nem nos meus — Namjoon respondeu, sorrindo. — Mas estou começando a gostar da ideia.
Eles passaram a manhã juntos.
Caminharam pela cidade, dividiram comida simples, riram do jeito desajeitado um do outro. Para quem visse de fora, pareciam apenas um casal qualquer aproveitando o Natal.
E talvez fossem.
Na estação, o clima mudou.
O trem já estava ali. Funcionando. Real demais.
Namjoon parou diante dela, as mãos nos bolsos do casaco, como se estivesse se preparando para algo difícil.
— Eu queria que fosse diferente — ele disse.
— Eu também — respondeu. — Mas… eu não me arrependo.
Ele se aproximou mais uma vez.
— Nem eu.
O beijo de despedida foi diferente do primeiro.
Mais intenso.
Mais urgente.
Como se tentassem guardar um ao outro na memória.
Quando se afastaram, encostou a testa no peito dele.
— Vai ser estranho voltar a te ver na TV — ela confessou.
— Vai ser estranho cantar sabendo que você existe fora daquele mundo — ele respondeu.
— Me deixa te procurar? — Ele segurou o rosto dela mais uma vez, deixando um beijo demorado na testa.
— Me deixa fingir que não odeio mais k-pop? — Ela sorriu.
— Isso já é um milagre de Natal. — Ele riu.
O trem apitou.
Namjoon entrou, mas antes que a porta fechasse, voltou.
Beijou-a outra vez.
Sem pressa.
Sem plateia.
Só verdade.
Quando o trem partiu, ficou ali por alguns segundos, o coração acelerado, a neve caindo leve ao redor.
Talvez não fosse um conto de fadas.
Mas era real.
E, às vezes, isso era ainda melhor.
Epílogo
Seul nunca dormia de verdade.
Mas, naquela noite, sentia que a cidade inteira estava suspensa em um compasso diferente.
Ela não deveria estar ali.
Repetia isso mentalmente enquanto atravessava os corredores dos bastidores, seguindo uma funcionária que andava rápido demais para alguém tentando parecer calma. O crachá temporário balançava contra o peito, denunciando o nervosismo.
— É só uma entrega rápida — a mulher disse. — Depois você pode ir.
assentiu.
“Só uma entrega”, ela pensou, como se o coração estivesse colaborando com essa mentira.
O som abafado do público atravessava as paredes. A vibração era quase física.
A porta no fim do corredor se abriu.
E lá estava ele.
Namjoon estava sentado em um sofá, o cabelo escuro arrumado de qualquer jeito, roupa confortável de ensaio, expressão cansada — e imediatamente diferente no instante em que a viu.
Ele se levantou tão rápido que a funcionária parou, confusa.
— Pode deixar — ele disse, firme. — Eu resolvo daqui.
A porta se fechou atrás dela.
O mundo ficou pequeno de novo.
— Você veio — ele disse, a voz baixa, incrédula.
— Você disse que me procuraria — respondeu, cruzando os braços, tentando manter a compostura. — Eu só… facilitei.
— Eu pensei que você não viria.— Namjoon riu, aquele sorriso tranquilo que ela tinha aprendido a reconhecer.
— Eu pensei em não vir — ela admitiu. — Mas parecia errado fingir que aquela cidade, aquela noite… não existiram.
— Não existiram só pra você? — Ele se aproximou devagar.
— Não — ela respondeu, sincera. — Mas existiram pra mim.
O espaço entre eles desapareceu sem anúncio.
O beijo veio rápido, como se o corpo tivesse guardado o caminho. Não havia mais cuidado excessivo — só saudade contida.
Quando se afastaram, encostou a testa no peito dele, sentindo o coração acelerado.
— Eu ainda odeio a indústria — ela murmurou.
— Eu ainda faço parte dela — ele respondeu.
— Mas eu gosto de você.
— Isso já é mais do que eu esperava. — Namjoon sorriu, passando os dedos pelo cabelo dela.
O barulho do público aumentou do outro lado da parede.
— Você vai subir ao palco — ela disse.
— Em dois minutos.
— Então isso é… — ela respirou fundo. — Um adeus?
— Não.— Ele segurou o rosto dela com cuidado. A beijou outra vez. Mais lento. Mais certo.— É um começo — ele completou. — Do nosso jeito. Fora do roteiro.
— Eu não sei onde isso vai dar.— Ela sorriu.
— Nem eu — ele respondeu. — Mas eu sei que quero tentar.
— Joon, é hora.— Um membro da equipe bateu na porta.
— Me espera depois? — Ele deu um último beijo nela, curto, mas cheio de promessa.
— Feliz Ano Novo, Kim Namjoon.— assentiu.
— Feliz acaso, .— Ele sorriu antes de sair.
Ela ficou ali por alguns segundos, ouvindo os gritos da multidão quando ele subiu ao palco.
Pela primeira vez, não sentiu raiva.
Nem distância.
Só a certeza tranquila de que, mesmo em um mundo barulhento demais, algumas histórias nasciam no silêncio — na neve, no improviso, no inesperado.
E essa…
tinha começado exatamente assim.
Flocos tímidos no vidro da janela do trem, quase bonitos demais para preocupar alguém.
só percebeu que algo estava errado quando o vagão diminuiu a velocidade pela terceira vez em menos de dez minutos.
— Não… — murmurou, já fechando os olhos.
O aviso veio logo depois, em coreano e inglês, com aquela voz neutra demais para a situação:
“Devido às condições climáticas extremas, o trem fará uma parada obrigatória na próxima cidade. Pedimos compreensão.”
Alguns passageiros reclamaram. Outros suspiraram resignados. apenas afundou no assento, frustrada.
Ela estava indo visitar a melhor amiga, finalmente. Uma folga curta, Natal chegando, saudade acumulada. Tudo planejado nos mínimos detalhes — porque a vida já tinha sido caótica demais para improvisos.
Ou pelo menos era o que ela achava.
A pequena cidade do interior parecia saída de um cartão-postal antigo: ruas cobertas de neve, luzes amareladas penduradas nos postes, silêncio demais para quem vinha de Seul.
— Só pode ser brincadeira… — ela resmungou, puxando a mala pelo chão branco.
Foi quando esbarrou em alguém.
Literalmente.
— Ah, droga! — reclamou, segurando o braço da pessoa por reflexo para não cair.
— Desculpa — a voz masculina respondeu rápido, firme, gentil demais para alguém que também tinha sido atropelado por uma desconhecida irritada.
Ela ergueu o rosto para retrucar… e congelou por um segundo.
Não por reconhecer quem ele era.
Mas porque ele era absurdamente bonito de perto.
Alto, postura tranquila, cachecol escuro jogado de qualquer jeito no pescoço, olhos atentos — cansados, mas gentis.
— Você está bem? — ele perguntou, já soltando o braço dela.
— Estou. — ajeitou o casaco, defensiva. — Foi culpa minha.
Ele deu um meio sorriso educado, daqueles que encerram conversas.
— Boa sorte com… — ele fez um gesto vago para a neve — isso tudo.
Ela assentiu e seguiu em direção oposta, sem olhar para trás.
Não fazia ideia de quem ele era.
Namjoon, por outro lado, a observou por alguns segundos a mais do que deveria.
Talvez fosse o jeito impaciente dela.
Ou o fato de não parecer nem um pouco impressionada — algo raro demais.
A pousada era pequena. Antiga. Aconchegante no sentido “não temos opção melhor”.
O problema veio no balcão.
— Que Sorte! Ainda temos um quarto disponível — explicou a senhora, em inglês simples. — A nevasca cancelou tudo. Trens, ônibus… hotéis.
sentiu o estômago afundar.
— Um quarto? — ela ouviu de um homem perguntar ao fundo. — Não tem como…
— Desculpa, querido. Essa moça chegou primeiro.
— Então, gente fica com o quarto. — O rapaz respirou fundo, Mantendo a calma.
Ela se virou no mesmo instante. Era o homem do trem.
— O quê? — franziu o cenho.
— Se for um problema dividir… eu posso dormir no sofá, se tiver um — ele disse, olhando para a recepcionista. — Eu só não quero congelar dormindo no banco da praça.
— É um quarto com duas camas. — A senhora sorriu.
Silêncio.
analisou o desconhecido por dois segundos longos demais.
— Certo — disse por fim. — É só uma noite.
“Só uma noite”, ela pensou.
O que poderia dar errado?
Sabia que era uma loucura, porque era um desconhecido, mas estavam às vésperas do natal, talvez o papai noel a recompensasse.
O quarto era simples, aquecido demais, com cheiro de madeira antiga. Duas camas separadas. Uma janela embaçada pela neve do lado de fora.
— Eu sou — ela disse, mais por educação do que vontade.
— Namjoon.
Sem sobrenome.
Sem títulos.
Sem contexto.
O jantar foi improvisado: sopa quente, pão simples e chocolate quente servido em canecas grandes demais.
Eles começaram como dois estranhos educados.
Depois, dois desconhecidos forçados à convivência.
Até que, sem perceber, a conversa começou a fluir.
— Você mora na Coreia há muito tempo? — ele perguntou.
— Tempo suficiente pra saber que odeio tudo que envolve a indústria do entretenimento — respondeu sem filtro.
O silêncio foi imediato.
Namjoon piscou uma vez. Depois riu.
— Isso foi direto. — Riu de verdade.
— Desculpa. Não era pra você — ela suspirou. — Eu só… não suporto a indústria. A pressão, a idolatria, a falta de humanidade. Parece tudo falso.
— Às vezes é mesmo. — Ele a observou com atenção, mexendo na caneca.
— Você concorda? — Ela ergueu os olhos, surpresa.
— Eu acho que as pessoas esquecem que existem pessoas ali no meio — respondeu com calma.
— Então você não é fã? — sentiu algo diferente no peito.
— Digamos que eu estou… muito envolvido. — Ele sorriu de canto.
Horas depois, sentados no chão perto do aquecedor, dividindo o último chocolate quente, a nevasca continuava do lado de fora.
— Sabe o que é estranho? — disse, olhando para a janela. — Eu nunca fico confortável tão rápido com estranhos.
— Talvez você não esteja tão errada sobre não ser um acaso. — Namjoon a encarou.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi cheio de possibilidades.
E, naquela pequena cidade coberta de neve, na véspera de Natal, ainda não fazia ideia de que estava dividindo o quarto — e algo muito maior — com o líder do BTS.
Mas talvez…
Isso não fosse o mais importante.
A noite avançou sem que nenhum dos dois percebesse.
A pousada havia silenciado por completo, como se a nevasca tivesse engolido o mundo do lado de fora. Só o aquecedor fazia barulho, um som baixo e constante, e a luz amarelada deixava o quarto pequeno demais para dois estranhos que já não pareciam tão estranhos assim.
estava sentada no chão, encostada na lateral da cama, as pernas dobradas, segurando a caneca vazia de chocolate quente como se ainda pudesse sair algo dali.
Namjoon observava de longe demais para alguém que dizia não estar pensando em nada.
— Você sempre fala tudo o que pensa? — ele perguntou, quebrando o silêncio.
— Só quando estou cansada demais pra fingir — ela respondeu, sem olhar para ele. — E você? Sempre parece tão… calmo.
— É sobrevivência. — Ele sorriu de leve.
— Isso soou mais profundo do que deveria pra uma noite presa numa cidadezinha aleatória. — Ela riu pelo nariz.
Namjoon se levantou, caminhando até a janela. Limpou o vidro embaçado com a manga do casaco. A neve continuava caindo pesada.
— Às vezes, quando tudo para assim… — ele disse, baixo — parece que a gente pode respirar sem ninguém esperando nada da gente.
— Você fala como alguém que vive sendo esperado. — levantou o olhar para ele.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Mais denso.
Mais próximo.
Ele virou o rosto devagar, encontrando o olhar dela. Não havia pressa. Nem defesas.
— Talvez — respondeu apenas.
sentiu algo apertar no peito. Não sabia explicar. Só sabia que, se continuasse olhando daquele jeito, ia acabar cruzando uma linha invisível.
— Ok — ela pigarreou, se levantando rápido demais. — Melhor eu tomar um banho antes que a água acabe ou congele.
Namjoon assentiu.
— Claro.
Ela pegou a bolsa, foi até o banheiro e fechou a porta com mais força do que precisava.
Do outro lado, ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
“Só uma noite”, ele repetiu para si mesmo.
Como se acreditasse.
Quando saiu do banho, o cabelo ainda úmido, moletom largo e meias grossas, encontrou Namjoon sentado na cama oposta, mexendo no celular.
— Espero que você não ronque — ela comentou, tentando recuperar a leveza.
— Só quando estou muito cansado — ele respondeu, levantando o olhar… e travando por meio segundo.
— O quê? — Ela percebeu.
— Nada — ele desviou rápido demais. — Você… parece confortável aqui.
— Milagre — ela deu de ombros. — Geralmente eu odeio improvisos.
— Boa noite, Namjoon.— Ela se jogou na cama, puxando o cobertor até o queixo.
— Boa noite, .
O quarto escureceu.
Mas o sono não veio.
Minutos depois — talvez horas — se virou na cama, encarando o teto.
— Você ainda está acordado? — ela perguntou.
— Estou.
— Posso te fazer uma pergunta meio invasiva?
— A essa altura, acho justo.
— Você nunca me disse… o que faz.— Ela respirou fundo.
Silêncio.
— Música. — Namjoon fechou os olhos por um instante. Abriu de novo.
— Produtor? — ela chutou.
— Algo assim.
— Banda? — ela insistiu.
— Algo… parecido.
— Você fala como se estivesse escondendo. — virou o rosto na direção dele, curiosa.
— Talvez eu esteja.
— Por quê? — Ele virou o rosto para ela. Os dois separados apenas pela distância das camas, pequena demais agora.
— Porque eu gosto de como você fala comigo sem saber.
— Sem saber o quê? — Ela franziu o cenho.
Antes que ele respondesse, o celular vibrou na mão dele, quebrando o momento como um tapa.
Na tela, o nome piscava: Hoseok.
leu sem querer.
— Hoseok… — ela repetiu em voz alta. — Que nome diferente.
Namjoon congelou.
— Desculpa — ela falou rápido. — Eu não quis…
Mas era tarde.
O telefone vibrou de novo. E de novo. Mensagens acumulando.
Ela não resistiu a olhar para a tela iluminada:
“Hyung, você está bem?”
“As notícias estão dizendo que o líder do BTS sumiu no meio da nevasca.”
O silêncio caiu pesado.
Muito pesado.
piscou uma vez.
Duas.
— Líder do… — ela engoliu seco. — Do BTS?
— Eu posso explicar. — Namjoon fechou os olhos.
Ela começou a rir.
Rir de nervoso.
Rir de incredulidade.
Rir como quem acabou de perceber que o universo estava tirando sarro dela.
— Não — ela levou a mão ao rosto. — Não, não, não… você só pode estar brincando comigo.
— …
— Você está me dizendo que eu passei horas reclamando da industria… pro Kim Namjoon?
— É.— Ele assentiu, quase culpado.
Ela caiu sentada na cama.
— Eu dividi chocolate quente… com o RM.
— Eu prefiro Namjoon — ele disse, com um sorriso pequeno, tenso.
— Eu te ofendi. Várias vezes.— Ela levantou o olhar devagar.
— Você foi honesta.
— Eu disse que parecia tudo falso.
— E eu concordei com você.
Silêncio.
Depois, ela soltou uma risada curta.
— Isso é muito injusto.
— O quê?
— Você não podia ser… diferente — ela apontou para ele. — Eu tinha um discurso inteiro pronto pra te odiar.
— E agora? — Ele se aproximou um pouco mais, sentando na beira da cama dela.
Ela engoliu seco.
Porque agora ele estava perto demais.
Porque agora ela via o homem antes do ídolo.
Porque agora… fazia sentido demais.
— Agora eu estou presa numa pousada, numa cidade coberta de neve, com o líder da maior banda do mundo… — ela respirou fundo. — E isso definitivamente não estava nos meus planos de Natal.
— Nem nos meus. — Namjoon sorriu, baixo.
O olhar deles se prendeu por tempo demais.
Quando a luz foi apagada de novo, teve certeza de uma coisa:
Aquilo não era só uma noite.
E aquela nevasca…
tinha parado o mundo por um motivo.
O silêncio depois da revelação não foi desconfortável.
Foi… cheio.
deitou de lado, virada para a parede, mas com a mente longe demais para dormir. O nome dele ecoava na cabeça como um segredo grande demais para caber naquele quarto simples.
Kim Namjoon.
Líder do BTS.
Ela fechou os olhos com força.
— Ei — a voz dele veio baixa, cuidadosa. — Se você quiser… a gente pode fingir que amanhã isso tudo não aconteceu.
— Você acha mesmo que dá pra fingir isso? — Ela se virou devagar.
— Eu tento fingir muitas coisas. — Namjoon sorriu de leve, cansado.
Ela o observou por alguns segundos longos demais.
— Eu não te odeio — disse, finalmente. — Odeio o que fazem com vocês. Com o que isso vira.
— Obrigado por separar as coisas. — Ele assentiu, como quem já tinha ouvido aquilo antes… mas nunca daquele jeito.
A luz do aquecedor piscou por um segundo. O vento bateu forte na janela. O Natal se aproximava lá fora, invisível sob a neve.
Sem pensar muito, se sentou na cama.
— Você consegue dormir?
— Não.
— Então vem aqui — ela deu um tapinha no colchão. — Só pra conversar. Eu prometo não morder.
— Isso parece perigoso. — Ele hesitou.
— Eu sou pequena. O que eu poderia fazer?
Namjoon riu baixo antes de se levantar e sentar na beirada da cama dela, mantendo uma distância respeitosa demais para duas pessoas que já tinham cruzado coisas maiores naquela noite.
— Me conta uma coisa — ela disse. — Quem você é quando ninguém está olhando?
Ele demorou a responder.
— Alguém que escreve músicas de madrugada, esquece de comer e sente saudade dos pais mais do que deveria admitir.
— Ok… isso foi inesperadamente humano. — sorriu.
— E você? — ele perguntou. — Quem você é quando não está odiando k-pop?
Ela revirou os olhos, mas riu.
— Alguém que sente falta da melhor amiga, que planeja demais pra não perder o controle… e que claramente não sabe lidar com improvisos.
Os olhares se prenderam.
Dessa vez, mais próximos.
Tão próximos que sentiu a respiração dele mudar. Tão próximos que, se ela se inclinasse só um pouco…
O celular vibrou de novo.
Os dois se assustaram.
— Sério? — ela murmurou.
Namjoon suspirou, pegando o aparelho. A tela iluminou o quarto escuro.
Notícias.
Mensagens.
Chamadas perdidas.
— A internet voltou — ele disse, tenso.
— Isso é ruim, né? — sentiu o estômago revirar.
— Significa que… — ele respirou fundo. — O mundo acordou.
Como se confirmasse, a televisão antiga da pousada ligou sozinha, chiando antes de mostrar imagens conhecidas demais.
“…o líder do BTS, Kim Namjoon, permanece desaparecido após a nevasca…”
— Acho que a nossa bolha estourou. — fechou os olhos.
— Desculpa. Eu não queria te colocar no meio disso. — Namjoon desligou a TV rapidamente, passando a mão pelos cabelos.
Ela se levantou, caminhando até a janela. Do lado de fora, o céu começava a clarear. Tons suaves de azul e rosa anunciavam o amanhecer.
— É Natal — ela disse, baixinho. — Ou quase.
— Eu nunca passo o Natal longe da família. — Ele se aproximou, ficando ao lado dela.
— Nem eu — ela respondeu. — Acho que é por isso que isso tudo parece… errado.
Ou talvez certo demais.
Eles se viraram ao mesmo tempo.
O espaço entre eles sumiu.
Não houve planejamento.
Nem razão.
Só o impulso.
Namjoon levou a mão ao rosto dela, devagar, como se pedisse permissão sem palavras. não recuou.
Quando os lábios quase se tocaram, alguém bateu na porta.
— Desculpem incomodar! — a voz da senhora da recepção soou animada demais. — O trem deve voltar a funcionar em algumas horas! Feliz Natal!
Os dois se afastaram num pulo, corações acelerados.
— Isso foi… cruel. — riu, passando a mão pelo rosto.
— O universo tem um timing péssimo. — Namjoon também riu, sem jeito.
— Ou ótimo — ela respondeu, encarando-o. — Porque agora a gente sabe que não foi imaginação.
Ele assentiu.
— …
— Não agora — ela interrompeu, suave. — Vamos sobreviver ao caos primeiro. Depois… a gente vê o que sobra.
— Combinado. — Ele sorriu daquele jeito calmo que agora ela reconhecia.
Do lado de fora, os sinos da pequena cidade tocaram.
Natal tinha chegado.
E, mesmo com o mundo pronto para puxá-los de volta para realidades opostas, algo entre eles tinha começado ali — no frio, na neve, no imprevisto.
Talvez não fosse um acaso.
Talvez algumas histórias precisassem que o mundo parasse
para finalmente acontecer.
O Natal chegou em silêncio.
acordou com o som distante de sinos e o cheiro de algo doce vindo de algum lugar da pousada. A luz da manhã entrava suave pela janela, refletindo na neve acumulada do lado de fora.
Por alguns segundos, ela esqueceu onde estava.
Até lembrar com quem estava.
Virou o rosto devagar.
Namjoon ainda dormia na cama ao lado, de lado, o cobertor meio jogado, o rosto relaxado de um jeito que ela nunca tinha visto em fotos ou vídeos — porque ali não havia líder, nem idol. Só um homem exausto que tinha sido gentil demais com uma estranha presa na neve.
Ela sorriu sem perceber.
— Feliz Natal… — murmurou, baixo.
Como se tivesse ouvido, Namjoon abriu os olhos.
— Feliz Natal — respondeu, a voz rouca de sono.
Houve um silêncio confortável.
Até que ele se sentou na cama, esfregando o rosto.
— Ainda parece estranho — ele disse. — Passar o Natal assim.
— Presa numa cidadezinha aleatória? — provocou.
— Com você — ele corrigiu, encarando-a.
O ar mudou.
Ela sentiu antes mesmo de entender.
Namjoon se levantou devagar, caminhando até a janela. o seguiu, ficando ao lado dele. Do lado de fora, algumas crianças brincavam na neve, risadas ecoando.
— Parece um filme — ela comentou.
— Os melhores são os que dão errado antes de dar certo.
Ela virou o rosto para ele.
Estavam perto demais outra vez.
— Você vai embora hoje — ela disse, não como pergunta.
— Vou — ele assentiu. — Assim que liberarem os trens.
Ela respirou fundo, tentando parecer indiferente. Não conseguiu.
— Então talvez… — ela começou, mas parou.
— Talvez o quê? — Namjoon a encarou.
— Talvez a gente devesse parar de evitar.
Ele não respondeu com palavras.
A mão dele subiu devagar, tocando o rosto dela com cuidado, como se ainda houvesse dúvida. não deu espaço para ela existir.
Foi ela quem se inclinou primeiro.
O beijo foi lento.
Suave.
Quente demais para um lugar tão frio.
Não teve pressa, nem desespero — só reconhecimento.
Quando se afastaram, as testas ainda encostadas, riu baixinho.
— Ok… isso definitivamente não estava nos meus planos de Natal.
— Nem nos meus — Namjoon respondeu, sorrindo. — Mas estou começando a gostar da ideia.
Eles passaram a manhã juntos.
Caminharam pela cidade, dividiram comida simples, riram do jeito desajeitado um do outro. Para quem visse de fora, pareciam apenas um casal qualquer aproveitando o Natal.
E talvez fossem.
Na estação, o clima mudou.
O trem já estava ali. Funcionando. Real demais.
Namjoon parou diante dela, as mãos nos bolsos do casaco, como se estivesse se preparando para algo difícil.
— Eu queria que fosse diferente — ele disse.
— Eu também — respondeu. — Mas… eu não me arrependo.
Ele se aproximou mais uma vez.
— Nem eu.
O beijo de despedida foi diferente do primeiro.
Mais intenso.
Mais urgente.
Como se tentassem guardar um ao outro na memória.
Quando se afastaram, encostou a testa no peito dele.
— Vai ser estranho voltar a te ver na TV — ela confessou.
— Vai ser estranho cantar sabendo que você existe fora daquele mundo — ele respondeu.
— Me deixa te procurar? — Ele segurou o rosto dela mais uma vez, deixando um beijo demorado na testa.
— Me deixa fingir que não odeio mais k-pop? — Ela sorriu.
— Isso já é um milagre de Natal. — Ele riu.
O trem apitou.
Namjoon entrou, mas antes que a porta fechasse, voltou.
Beijou-a outra vez.
Sem pressa.
Sem plateia.
Só verdade.
Quando o trem partiu, ficou ali por alguns segundos, o coração acelerado, a neve caindo leve ao redor.
Talvez não fosse um conto de fadas.
Mas era real.
E, às vezes, isso era ainda melhor.
Seul nunca dormia de verdade.
Mas, naquela noite, sentia que a cidade inteira estava suspensa em um compasso diferente.
Ela não deveria estar ali.
Repetia isso mentalmente enquanto atravessava os corredores dos bastidores, seguindo uma funcionária que andava rápido demais para alguém tentando parecer calma. O crachá temporário balançava contra o peito, denunciando o nervosismo.
— É só uma entrega rápida — a mulher disse. — Depois você pode ir.
assentiu.
“Só uma entrega”, ela pensou, como se o coração estivesse colaborando com essa mentira.
O som abafado do público atravessava as paredes. A vibração era quase física.
A porta no fim do corredor se abriu.
E lá estava ele.
Namjoon estava sentado em um sofá, o cabelo escuro arrumado de qualquer jeito, roupa confortável de ensaio, expressão cansada — e imediatamente diferente no instante em que a viu.
Ele se levantou tão rápido que a funcionária parou, confusa.
— Pode deixar — ele disse, firme. — Eu resolvo daqui.
A porta se fechou atrás dela.
O mundo ficou pequeno de novo.
— Você veio — ele disse, a voz baixa, incrédula.
— Você disse que me procuraria — respondeu, cruzando os braços, tentando manter a compostura. — Eu só… facilitei.
— Eu pensei que você não viria.— Namjoon riu, aquele sorriso tranquilo que ela tinha aprendido a reconhecer.
— Eu pensei em não vir — ela admitiu. — Mas parecia errado fingir que aquela cidade, aquela noite… não existiram.
— Não existiram só pra você? — Ele se aproximou devagar.
— Não — ela respondeu, sincera. — Mas existiram pra mim.
O espaço entre eles desapareceu sem anúncio.
O beijo veio rápido, como se o corpo tivesse guardado o caminho. Não havia mais cuidado excessivo — só saudade contida.
Quando se afastaram, encostou a testa no peito dele, sentindo o coração acelerado.
— Eu ainda odeio a indústria — ela murmurou.
— Eu ainda faço parte dela — ele respondeu.
— Mas eu gosto de você.
— Isso já é mais do que eu esperava. — Namjoon sorriu, passando os dedos pelo cabelo dela.
O barulho do público aumentou do outro lado da parede.
— Você vai subir ao palco — ela disse.
— Em dois minutos.
— Então isso é… — ela respirou fundo. — Um adeus?
— Não.— Ele segurou o rosto dela com cuidado. A beijou outra vez. Mais lento. Mais certo.— É um começo — ele completou. — Do nosso jeito. Fora do roteiro.
— Eu não sei onde isso vai dar.— Ela sorriu.
— Nem eu — ele respondeu. — Mas eu sei que quero tentar.
— Joon, é hora.— Um membro da equipe bateu na porta.
— Me espera depois? — Ele deu um último beijo nela, curto, mas cheio de promessa.
— Feliz Ano Novo, Kim Namjoon.— assentiu.
— Feliz acaso, .— Ele sorriu antes de sair.
Ela ficou ali por alguns segundos, ouvindo os gritos da multidão quando ele subiu ao palco.
Pela primeira vez, não sentiu raiva.
Nem distância.
Só a certeza tranquila de que, mesmo em um mundo barulhento demais, algumas histórias nasciam no silêncio — na neve, no improviso, no inesperado.
E essa…
tinha começado exatamente assim.
FIM
Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? Tá, ela tava bem calminha dividindo um quarto com fuking Kim Namjoon, claramente não seria o meu caso e sei que o de vocês também kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.
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