Finalizada

Capitulo Único

O amor deles nunca foi barulhento.
Isso foi algo que aprendeu com o tempo, não por falta de intensidade, mas justamente pelo contrário. Enquanto o mundo conhecia como o artista de presença magnética, voz profunda e olhar que parecia atravessar multidões, o homem que ela amava existia em outra frequência — mais baixa, mais lenta, mais silenciosa.
Ele era feito de pausas.
De observar antes de agir.
De sentir antes de falar.
De transformar pequenos gestos em algo quase sagrado.
Talvez por isso o relacionamento deles tenha sobrevivido a tantos anos.
Naquela véspera de Natal, o apartamento refletia exatamente isso. Não havia pressa. Não havia expectativa externa. Apenas um cuidado quase artístico em cada detalhe, como se o espaço tivesse sido pensado para abrigar tudo o que eles eram quando ninguém mais estava olhando.
A árvore de Natal ocupava um canto da sala. Não era grande, nem perfeitamente simétrica. Os galhos se projetavam de forma irregular, e os enfeites pareciam não seguir lógica alguma. Ainda assim, tudo fazia sentido.
estava ajoelhada diante dela, segurando um pequeno enfeite de vidro que insistia em pender para o lado.
— Esse aqui continua feio — comentou, erguendo-o à altura dos olhos.
, que observava da cozinha enquanto organizava os pratos da ceia, sorriu de canto.
— Continua sendo o seu favorito.
— Justamente por isso — ela respondeu, pendurando-o mesmo assim.
Ele gostava de vê-la assim. Descalça, confortável, vestindo uma blusa larga dele que já carregava o cheiro familiar de casa. nunca tentou se encaixar no mundo dele — e talvez por isso tenha sido a única pessoa que realmente o acolheu fora do palco.
O som baixo de um vinil preenchia o ambiente. Jazz antigo. havia escolhido sem pensar muito, mas, no fundo, sabia exatamente o que fazia. Ele nunca gostou de músicas óbvias demais, nem mesmo no Natal. Preferia sons que pediam atenção, que convidavam ao silêncio entre uma nota e outra.
A cozinha estava organizada com um cuidado quase exagerado. alinhava pratos, ajustava talheres, reposicionava pequenos detalhes que provavelmente passariam despercebidos. Para ele, aquilo não era sobre perfeição — era sobre presença.
se aproximou da bancada, apoiando o quadril ali enquanto observava os movimentos dele.
— Se alguém visse isso — comentou, com um meio sorriso — jamais imaginaria que você passa a maior parte do ano em palcos gigantes.
Ele deu de ombros.
— Palcos são fáceis. — Fez uma pausa, levantando os olhos para ela. — Difícil é isso aqui. Ficar.
Ela entendeu o que ele quis dizer sem precisar de mais palavras.
O relacionamento deles foi construído exatamente assim: ficando. Mesmo quando era complicado. Mesmo quando o tempo parecia curto demais. Mesmo quando o mundo exigia que ele estivesse em todos os lugares, menos ali.
era estrangeira naquele país, naquele idioma e, principalmente, naquele universo que cercava . Não porque fosse excluída, mas porque escolhera não pertencer completamente a ele. O anonimato nunca foi imposto. Foi uma decisão consciente, dolorosa às vezes, mas necessária.
sempre soube disso.
— Você tem certeza de que quer passar o Natal assim? — ela perguntou, a voz baixa. — Só nós dois.
Ele secou as mãos no pano de prato antes de se aproximar, ficando diante dela.
— Eu sei que o mundo espera outra coisa de mim — respondeu, com calma. — Mas eu passei o ano inteiro sendo quem esperam. Hoje eu quero ser só… quem eu sou com você.
sentiu o peso daquelas palavras se acomodar no peito. Aproximou-se e encostou a testa no peito dele, fechando os olhos por um instante.
A casa cheirava a comida recém-preparada, vinho aberto cedo demais, madeira aquecida pelo inverno. As luzes quentes criavam sombras suaves nas paredes, como se tudo ali tivesse sido feito para desacelerar.
Eles se movimentavam pelo espaço com uma intimidade silenciosa. dobrava guardanapos com cuidado quase cerimonial. ajeitava velas que talvez nem fossem acesas. Não importava. O gesto era suficiente.
Preparar a ceia nunca foi sobre a comida.
Era sobre permanecer.
Quando finalmente se sentaram no sofá, cada um com uma taça de vinho na mão, o mundo parecia distante demais para interferir. observava enquanto ela falava sobre pequenas coisas — detalhes do Natal em sua família, lembranças antigas, tradições simples que sempre a fizeram amar aquela época do ano.
Ele ouvia do jeito que sempre ouviu: com atenção total. Como quem grava cada palavra para revisitá-las depois.
— Eu gosto do Natal porque tudo fica mais lento — ela disse. — Parece que, por alguns dias, ninguém espera nada de mim.
sentiu algo apertar no peito.
— Aqui — respondeu, tocando a mão dela — ninguém nunca esperou nada além de você ser quem é.
Ela sorriu. Um sorriso calmo, inteiro.
Do lado de fora, a cidade seguia iluminada, ruidosa, cheia de compromissos e celebrações.
Ali dentro, o tempo parecia ter escolhido outro ritmo.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava exatamente onde deveria estar.
A noite avançava devagar, como se respeitasse o ritmo deles.
O vinho já havia sido servido mais de uma vez, mas nenhum dos dois bebia com pressa. As taças descansavam nas mãos como extensões do próprio corpo, aquecidas pelo toque constante. A casa estava ainda mais silenciosa agora, envolta por uma calma que não vinha do cansaço, mas da intimidade.
se acomodou no sofá, as pernas dobradas sob o corpo, observando em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— Vamos fazer uma coisa?
Ele virou o rosto na direção dela, atento.
— O quê?
— Confissões. — Ela ergueu a taça, como se propusesse um brinde invisível. — Uma por taça. Nada que a gente já saiba. Nada ensaiado.
sorriu de leve. Ele gostava desse tipo de acordo implícito. Pequenos rituais sempre fizeram sentido para ele — talvez porque lembrassem composição, estrutura, intenção.
— Você começa — disse, recostando-se no sofá.
pensou por um instante. O olhar vagou pela árvore iluminada, pelos enfeites tortos, pela casa que parecia mais viva naquela noite.
— Minha confissão — começou, com a voz baixa — é que houve momentos em que eu tive medo de ser apenas um intervalo na sua vida. Não por insegurança… mas porque o mundo em volta de você nunca para.
não respondeu de imediato. Ele nunca foi rápido para falar quando algo realmente importava. Preferia deixar as palavras assentarem antes de tocá-las.
— A minha — disse, depois de um gole — é que houve momentos em que eu quis te pedir para ir embora. Não porque eu não te amasse… mas porque eu achei que te amar fosse te pedir demais.
virou o corpo na direção dele, tocando sua mão com cuidado.
— Amar você nunca foi um pedido excessivo — respondeu. — Difícil sempre foi imaginar não amar.
As confissões seguiram assim. Sem acusações. Sem dramatização. Apenas verdades que haviam sido guardadas tempo demais para continuarem silenciosas.
Eles falaram das despedidas em aeroportos, das mensagens enviadas em horários impossíveis, das noites em que o cansaço emocional chegava antes do sono. Falaram também das certezas silenciosas: do jeito como sempre voltava diferente depois de cada turnê, mas nunca distante; de como se tornara o ponto fixo em uma vida que nunca parava.
Com o passar do tempo, ficou mais quieto.
O olhar demorava mais nas sombras da sala, nas luzes da árvore, no relógio preso à parede. Era um silêncio diferente — não vazio, mas concentrado. percebeu. Ela sempre percebia quando ele se recolhia assim, do mesmo jeito que fazia antes de subir no palco ou antes de mostrar uma música nova.
Quando o relógio marcou 23:58, se levantou para buscar mais vinho. Ao voltar, encontrou o sofá vazio.
…? — chamou, sentindo o coração acelerar sem saber exatamente por quê.
Ele estava perto da árvore.
De pé, imóvel por um instante, como se organizasse algo por dentro antes de agir. As luzes refletiam em seus olhos escuros, deixando evidente uma mistura de nervosismo e convicção rara até mesmo nele.
respirou fundo.
O mesmo tipo de respiração que fazia antes de cantar uma nota difícil.
Antes de se expor.
Então, com calma, ajoelhou-se.
levou a mão à boca antes mesmo de perceber que estava chorando.
— Eu pensei muito antes de fazer isso — ele começou, a voz baixa, firme, carregada de sinceridade. — Pensei na minha carreira. No que isso significa para você. No quanto o mundo pode ser invasivo quando decide olhar de perto demais.
Ele abriu a pequena caixa, revelando o anel simples, elegante, escolhido sem exagero algum.
— Eu sei que esse passo muda tudo. Que não existe mais a ilusão de “um dia”. Que envolve escolhas difíceis, exposição, perguntas que nunca acabam.
ergueu os olhos, encontrando os dela.
— Mas eu também sei que dividir minha vida entre quem eu sou no palco e quem eu sou em casa tem me cansado mais do que qualquer turnê. — A voz vacilou por um segundo. — E a única coisa que nunca foi dúvida… foi você.
As lágrimas escorriam livremente agora.
— Eu não posso te prometer uma vida simples — continuou. — Nem silêncio. Nem anonimato para sempre. Mas posso te prometer que você nunca será um detalhe. Nunca será alguém que “ficou”. Você sempre será escolha.
A meia-noite chegou quase imperceptível, como se respeitasse aquele momento.
— ele disse, com cuidado — você aceita ser minha casa, mesmo quando o mundo tentar nos atravessar?
Ela não precisou pensar.
— Sim — respondeu, entre lágrimas e riso. — Eu escolho você. Mesmo quando for difícil. Principalmente quando for difícil.
sorriu, visivelmente emocionado, antes de se levantar e puxá-la para perto. O beijo que trocaram não teve urgência. Foi lento, profundo, cheio de tudo o que haviam construído ao longo dos anos.
Do lado de fora, fogos estouravam, vozes celebravam, o Natal seguia barulhento.
Ali dentro, existia apenas paz.
encostou a testa na dela, ainda sorrindo.
— Feliz Natal, minha noiva.
fechou os olhos, sentindo-se inteira de um jeito que nunca havia sentido antes.
— Feliz começo.


FIM



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? A RESPOSTA SEMPRE VAI SER SIIIIM, KIM TAEHYUNG kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.