Última Atualização: 16/01/2026

Capítulo 1.

O escritório cheirava a café requentado e papel úmido, como sempre acontecia nos dias de chuva em Amsterdã. já estava ali antes do sol nascer, lendo os relatórios de mais uma vítima. Terceira mulher em menos de dois meses. Mesmo padrão: exposição íntima, chantagem emocional e, por fim, o corpo. Frio, limpo, arrumado demais.
Ela estava com o coque desalinhado e os óculos empurrados para o alto da cabeça quando a porta se abriu.
— Doutora ? — a voz veio antes do dono aparecer completamente. Jovem. Confiante. Irritantemente polido.
Ela levantou os olhos e viu um homem alto, magro, de blazer cinza escuro e olhos absurdamente calmos. Calmos demais para alguém que deveria estar assustado por entrar num caso como aquele.
. Forense digital. Reforço de Dublin. — Ele estendeu a mão.
a ignorou por alguns segundos. Depois apertou com firmeza, mais por protocolo do que por simpatia.
— Dublin? Achei que viria alguém com mais… experiência — murmurou, voltando os olhos para a tela do notebook.
deu um meio sorriso, daqueles que não chegam aos olhos.
— Trabalho melhor com dados do que com idade. Espero que isso não seja um problema, doutora.
fechou o laptop com um estalo seco.
— Só se você me atrasar.
O silêncio que se instalou entre eles era denso. Ele não parecia intimidado. Ela não estava disposta a facilitar.
— A maioria dos rastros foi limpa digitalmente. Não há mensagens armazenadas, nem prints. As mulheres deletaram tudo antes… ou alguém deletou por elas. O que consegue fazer com isso, senhor ?
puxou uma cadeira com calma, conectou seu laptop e começou a digitar com agilidade silenciosa.
— Pessoas deletam, doutora. Mas a internet... não esquece.
E pela primeira vez, sentiu um leve arrepio que não tinha nada a ver com o tempo lá fora.
observava da cadeira ao lado, os olhos semicerrados enquanto ele digitava. , o garoto prodígio, como os jornais o chamavam. Formado aos vinte e dois, um dos mais jovens a ingressar na divisão europeia de crimes cibernéticos. Agora, aos vinte e cinco, fora transferido para trabalhar com ela. Com ela.
Ele parecia estar em outro ritmo. Um ritmo que irritava profundamente.
— Você sempre é tão calmo assim? — ela perguntou, cruzando os braços, sem tirar os olhos do monitor onde ele manuseava linhas e mais linhas de código.
— Alguém precisa ser, — ele respondeu, sem olhar para ela — já que você parece carregar o caos suficiente para os dois.
Ela arqueou uma sobrancelha. Ele não tinha acabado de dizer isso. Tinha?
— Me desculpe. Você me conhece há menos de trinta minutos e já acha que pode fazer piada comigo?
— Não era piada. Era uma observação. — Ele finalmente olhou para ela, olhos cinzentos, frios, mas sem agressividade. Só... objetivo.
bufou, afastando a cadeira.
— Isso aqui é mais do que dados frios, . São mulheres reais. Vidas de verdade. Você pode jogar com suas telas e códigos, mas eu já estive frente a frente com um criminoso desse tipo. Você não tem ideia de como a cabeça deles funciona.
— E você não tem ideia do que eu posso fazer com uma vírgula mal colocada em um e-mail. — Ele respondeu sem hesitar.
A tensão pairou no ar. Silenciosa. Elétrica.
Por um instante, ela o encarou, como se quisesse arrancar dele qualquer coisa que não fosse aquele maldito autocontrole. Mas antes que pudesse responder, a tela piscou. inclinou-se um pouco para frente e apontou.
— Aqui. Um backup não autorizado sincronizado com um servidor esloveno. Provavelmente, o stalker armazenava tudo ali antes de deletar os rastros locais. Ele digitou algo rápido e a imagem de uma mulher apareceu na tela. Jovem, sorridente, em uma praia.
se aproximou, os olhos fixos na imagem.
— Essa é a primeira vítima.
— Sim. E tem muito mais aqui. — Ele clicou em outra pasta. Fotos, vídeos, gravações. — Ele coletava tudo. Vigiava. Escalava. Até...
Ele não precisou completar. Ela já sabia. Até que decidisse que era hora de matá-las.
sentiu o estômago virar. Já tinha lidado com casos assim. Mas havia algo especialmente cruel naquele. A sensação de que elas sabiam que estavam sendo observadas... mas ninguém as levou a sério.
— Precisamos de um mandado para acessar o servidor completo. — ela disse, séria, voltando ao modo profissional.
— Já pedi. Com o respaldo do MIU, não devem negar. — ele respondeu.
Ela o encarou mais uma vez. Ele era irritante. Jovem demais. Calmo demais. Bom demais.
E, para o seu desgosto, talvez exatamente o que ela precisava.
A manhã em Viena estava nublada, o tipo de dia que parecia anunciar tragédia. estacionou o carro em frente a uma casa modesta em um bairro residencial. O jardim estava malcuidado, o portão com a tinta descascando. Era ali que a primeira vítima havia morado. Onde tudo começara.
saiu do carro e ajeitou os óculos, olhando ao redor com atenção quase científica.
— O que estamos procurando exatamente? — ele perguntou, seguindo-a pelo caminho estreito até a porta.
— Qualquer coisa que os olhos de um especialista digital talvez não notassem. — respondeu , pegando a chave fornecida pela polícia local. — Um gesto repetido, um item fora do lugar, uma mensagem oculta. As vítimas sempre deixam pistas, mesmo sem saber.
A porta rangeu quando ela a abriu. O cheiro no ar era abafado, como se o tempo ali dentro tivesse parado.
— Não mexa em nada antes de eu analisar o ambiente. — ela disse com firmeza, quase em automático.
— Tudo seu, chefe. — Ele ergueu as mãos em rendição.
caminhou devagar, os olhos treinados vasculhando cada canto. O local estava tecnicamente limpo, mas algo ali parecia... errado. Parou em frente a uma estante cheia de livros e observou um deles, fora de ordem, pressionado demais contra os outros.
Puxou. Era um diário.
— Você notou isso só pelo alinhamento? — se aproximou, curioso.
— Intuição. — ela abriu o diário. Algumas páginas estavam rasgadas, outras escritas com letras tremidas. — Mulheres perseguidas escrevem como forma de desabafo. Isso aqui pode nos dar mais do que qualquer HD externo.
Ele tirou luvas da mochila e pegou um plástico protetor para armazenar o caderno. O cuidado dele chamou a atenção de .
— Você sempre anda com isso?
— Sempre. Nunca se sabe onde vai encontrar uma prova.
Ela assentiu, satisfeita.
— Vem comigo. — ela disse, subindo as escadas.
No quarto da vítima, parou de repente, os olhos presos no abajur.
— O que foi? — ele perguntou.
— Esse modelo tem câmera embutida. Disfarçada. A tomada está conectada em um adaptador de armazenamento. Ele vigiava ela aqui, não só online.
se aproximou e retirou com cuidado a parte debaixo do abajur. Ali estava: um microSD escondido.
— Caramba... isso aqui é sofisticado. Quase ninguém saberia identificar essa modificação.
— Só alguém que já viu demais. — respondeu, séria. — Isso não era só perseguição. Era controle total. Ele queria estar presente em cada gesto.
olhou para ela, impressionado. Pela forma como ela via o que ninguém via. Como sentia o ambiente, como se pudesse conversar com as sombras deixadas para trás.
— Você realmente é a melhor.
Ela desviou os olhos, desconfortável com o elogio. — Ainda é cedo pra dizer. Mas obrigada.
Enquanto saíam da casa, com o sol tímido começando a romper as nuvens, teve uma sensação estranha. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que não estava sozinha nessa.
E , apesar da pouca idade e da calma irritante... talvez tivesse mais para oferecer do que ela esperava.

Capítulo 2

O laboratório improvisado ficava em uma sala isolada no porão do Instituto de Ciências Criminais. As paredes eram grossas, os ruídos abafados, como se o tempo ali tivesse outra cadência. document.write(Erza) trabalhar, os dedos dele deslizando com precisão pelo teclado enquanto os monitores exibiam linhas de código, arquivos criptografados e fragmentos de vídeo.
— Você sempre fica assim tão calmo? — ela perguntou, encostada na parede com os braços cruzados.
— A maior parte do tempo. O caos lá fora não me serve de nada se eu não conseguir decifrar isso aqui.
— Hm. Filosófico.
— Talvez um pouco. Mas prático também. — Ele olhou de lado e sorriu.
O silêncio voltou enquanto o sistema decodificava os dados do cartão de memória encontrado no abajur. De repente, um clique seco. A tela piscou. Arquivos de vídeo começaram a aparecer, organizados por datas. — Vamos ver os mais recentes primeiro.
clicou. O vídeo começou: a vítima, sentada na cama, digitando algo no celular. Ao fundo, um vulto refletido no espelho — parado. Observando.
— Ele estava ali. Dentro da casa. Mesmo com ela viva. — — E ela nem percebeu. — murmurou , digitando mais alguns comandos. — Os arquivos têm áudio. Vou limpar o ruído.
Segundos depois, a voz da vítima soou fraca, quase sussurrada:
“Se você está vendo isso… é porque ele conseguiu o que queria.”
congelou.
— Ela sabia. De algum modo, sabia que estava sendo vigiada. E ainda assim tentou deixar uma pista. — — Espera... — ele puxou um outro arquivo, com metadados criptografados. — Tem um padrão aqui. Uma rotina. Ele arquivava vídeos apenas quando ela interagia com um contato específico.
— Um cúmplice? — digitava rápido, o olhar fixo, os olhos brilhando com excitação analítica. — Tem algo aqui… — ele sussurrou. — Ela trocava mensagens com um número salvo como “Aurora”. Mas o IP vinculado é mascarado por VPNs sofisticadas. Isso é trabalho de profissional.
— Ou de alguém que conhece bem o predador. — Ele olhou para ela. E pela primeira vez, — Você pensa rápido. — ele comentou.
— Anos de campo. Você aprende a pensar enquanto tudo desmorona. — ela sorriu de lado. — Mas não desmereço seu cérebro brilhante, .
Ele riu, leve, quase surpreso.
— Acho que podemos ser uma boa dupla, .
Ela segurou o olhar dele por um segundo mais do que o necessário. E, por um momento, o ambiente frio do porão parecia ter aquecido alguns graus.
O nome “Aurora” não saia da cabeça de , enquanto projetava na tela parte dos dados reconstruídos. — Mas estou conseguindo recuperar os backups do aplicativo de mensagens. Vão aparecer fragmentos de texto… só precisamos conectar as peças.
— Você é um gênio, .
Ele corou levemente, mas não respondeu. Estava concentrado demais, os olhos dançando pelas linhas de código.
Os primeiros trechos decodificados começaram a aparecer. “...você prometeu que ia me tirar disso...”
“...ele sabe. Ele sempre soube.”
“...se acontecer comigo, jura que entrega o vídeo...”

— Era um pacto. Aurora era mais do que uma amiga. Era uma cúmplice. Talvez sobrevivente de algo anterior.
— Quer ir até o endereço vinculado ao primeiro IP que consegui rastrear? Está desativado, mas pode ser uma pista. — se virou para ela.
— Claro. Vista seu casaco. Vamos ao campo.

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Amsterdã, Subúrbio Norte – 16h27

O bairro era cinza, chuvoso e pouco convidativo. Um sobrado antigo, de janelas estreitas e grades enferrujadas, marcava o número vinculado ao IP. document.write(Erza) a seguisse em silêncio. Ele obedecia com precisão, mas a tensão dele era palpável.
— Primeira vez em uma entrada como essa? — ela perguntou, sussurrando.
— Primeira vez sem avisar antes. — ele respondeu, sincero.
— É assim que se pega alguém que não quer ser pego. — Ela abriu um leve sorriso.
O interior da casa estava vazio. Mas não abandonado. Havia uma cira com água ainda morna. Luzes acesas. Papeis espalhados sobre a mesa da sala. document.write(Erza) se aproximava de um notebook trancado com senha.
— Você acha que dá pra...
— Dê-me cinco minutos. — ele disse, já ligando os equipamentos que trouxera.
document.write(Ava) — Achei ela. — disse, com a voz baixa. — A pessoa por trás do “Aurora” se chama… Sofia Karmic. Tem um histórico de internações por crises de ansiedade e fobia. O último registro é de três meses atrás. Desde então, sumiu completamente do radar.
— Ela sabia que seria caçada. Por isso se apagou.
— E pode estar viva ainda. — ele murmurou, olhando para — Vamos encontrá-la, . Nem que eu tenha que vasculhar essa cidade inteira.
O céu de Amsterdã pesava com nuvens baixas, e a chuva fina deixava tudo mais lento. O carro cruzava as ruas estreitas da parte leste da cidade, onde as construções pareciam resistir ao tempo. document.write(Erza) digitava freneticamente no notebook equilibrado no colo.
— Tenho um possível paradeiro. — ele disse, sem desviar os olhos da tela. — Sofia usou o mesmo e-mail antigo pra tentar acessar uma conta hospitalar. Foi rejeitado, mas o IP apontou para um abrigo temporário aqui perto. Bairro Indische Buurt.
— Você é rápido. — ela comentou, virando bruscamente a direção. — Rápido demais para alguém recém-saído da universidade.
— Quando sua vida social se resume a códigos e simulações, você desenvolve uma certa... habilidade. — Ele sorriu de canto.
— E eu achando que era só charme.
riu, surpreso com o comentário.



Indische Buurt – 17h55

O abrigo era discreto, misturado aos demais prédios residenciais, com uma placa mínima na porta de entrada. Lá dentro, uma funcionária os atendeu com olhos cansados.
— Sofia Karmic? — A mulher hesitou, depois assentiu lentamente. — Ela esteve aqui. Ficou por algumas noites. Saía sempre muito cedo, voltava tarde, assustada... Mas desapareceu há cerca de uma semana. Deixou isso. — entregou um envelope com o nome de Sofia, escrito à mão.
“Se estiverem lendo isso, é porque ele chegou perto. Eu não vou correr mais. Existe um lugar onde ele não pode me alcançar. No canal onde tudo começou. – A.”
— Ela está se despedindo. — disse já digitava novamente.
— Vamos. Agora. —


Canal Aurora – 18h43

O céu agora era chumbo. A água refletia os tons escuros da cidade, e os passos dos dois ecoavam no calçamento molhado. O local era isolado, arborizado, com postes antigos e pouca movimentação. document.write(Erza) vinha logo atrás, escaneando os arredores com um olhar treinado — mesmo que novo.
Então ela a viu.
Sofia, parada à beira da água, com os ombros curvados e um envelope nas mãos.
— Sofia! — A mulher se virou lentamente. Os olhos fundos, a expressão marcada pelo medo e exaustão.
— Eu achei que ele viria. — ela sussurrou. — Eu achei que seria hoje.
Sofia hesitou. E antes que pudesse responder, o som de passos apressados atrás deles fez ! — ela gritou.
Mas o cientista forense já havia se colocado entre Sofia e o atacante. Ele não hesitou. Usou o próprio corpo como barreira e o braço pra desviar o golpe que vinha.
O homem caiu. Sofia caiu de joelhos, chorando.
ofegava, com o braço machucado.
— Você tá louco? Podia ter se machucado sério! — — Mas você teria me dado bronca se eu tivesse deixado ela ser levada. — Ele sorriu, ofegante.
— Você é um idiota. Um idiota muito corajoso. — Ela riu, sem querer. Estava assustada. E impressionada.
Os olhos deles se encontraram por um segundo longo demais. A chuva caía fina, mas eles já não se importavam.

CAPÍTULO 03

A sala de interrogatório era pequena, fria e silenciosa. O vidro espelhado refletia a tensão que pairava no ar. O homem estava sentado, algemado à mesa. As mãos suadas, os olhos vermelhos de raiva e cansaço. Dizia-se chamado Markus Van Eijk, técnico de informática freelancer — mas já sabia que ele era mais do que isso. observava pelo lado de fora, com os braços cruzados. Um curativo improvisado cobria o corte em seu braço, mas seus olhos estavam fixos em , que já estava lá dentro, sentada diante do suspeito. A luz central fazia sombras duras no rosto dela.
— Você quer começar com mentiras ou com verdades, Markus? — perguntou, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
— Eu não tenho nada a dizer. Já falei que só estava passando. Aquela mulher surtou. — Markus bufou.
— Você estava com um bisturi cirúrgico no bolso. "Só estava passando" é o argumento mais fraco que você podia usar. — sorriu sem humor.
Ele manteve o olhar firme. Mas era paciente. E perigosa no silêncio. Ela sabia exatamente como quebrar alguém. Um dos talentos que fez dela referência nacional em perfis comportamentais ligados à violência de gênero.
— Emma Van Dijk. Sofia Karmic. Julia Maes. Noor Van Velzen. Todas mulheres que frequentaram o mesmo fórum online que você monitorava. Todas alvo de chantagem digital. Todas com padrões de submissão emocional. Três mortas. Uma quase.
— Coincidência. — ele murmurou, mas seu maxilar tremia.
— Você criou os perfis falsos, extorquiu segredos, publicou vídeos íntimos. Quando a exposição já não te dava mais adrenalina, você quis ver até onde elas iriam para esconder. O suicídio de Emma foi a sua obra-prima, não foi? — se inclinou. — Mas você perdeu o controle quando Sofia decidiu sobreviver.
Markus ficou mudo. Então, com um riso sádico, murmurou:
— Você se acha muito boa, doutora . Muito esperta. Mas no fundo... vocês são todas iguais. As que fingem ter o controle. Até o dia que... perdem.
ficou em silêncio por um segundo. O rosto impassível.
Então ela se levantou, firme, mas sem pressa. A porta se abriu, e a esperava do lado de fora.
— Ele vai falar mais. — ela disse, seca. — Mas vai levar tempo. Ele gosta de jogar. É metódico. Calculista.
assentiu, mas seus olhos estavam nela. — Você o conhecia. — disse com calma.
Ela hesitou. E por fim, assentiu.
— Ele era um dos pacientes do centro onde eu estagiei, quando estava em formação. Tinha 19 anos. Já apresentava traços obsessivos, mas ninguém levou a sério. Na época, não havia histórico criminal. Só tendências. E hoje... eu estou pagando por isso.
não disse nada. Mas se aproximou. — Você não está pagando por nada. Está resolvendo o que ninguém mais teria coragem de enfrentar. E eu estou vendo isso agora. De verdade.
Os olhos dela se ergueram para os dele. A tensão era densa. Não era a da chuva ou do interrogatório. Era algo mais profundo. Uma conexão que vinha se costurando em silêncio, entre atritos e silêncios.
— Você é muito novo pra entender certas coisas. — sussurrou, mais pra si mesma do que pra ele.
— Ou talvez eu só enxergue mais do que você pensa. — sorriu. acendeu um cigarro, mesmo sabendo que não podia fumar ali. Estavam na varanda lateral do departamento de crimes digitais, no alto de um prédio brutalista de Amsterdã. A noite caía molhada, e o vento soprava com aquele cheiro de cidade antiga e nova ao mesmo tempo.
estava ao lado dela, encostado na grade. Mãos nos bolsos, olhar perdido nas luzes.
— Não sabia que você fumava. — ele disse, sem encará-la.
— Normal. Eu não faço isso na frente de novatos. — ela respondeu, tragando com raiva disfarçada.
— Você ainda me considera um novato?
virou-se um pouco. O olhar dela o percorreu dos pés à cabeça. Ele estava com a camisa branca amarrotada, o topete bagunçado da correria. Mas os olhos… os olhos ainda eram calmos. E isso a tirava do sério.
— Você ainda age como um. Cheio de fé na justiça e nas pessoas. Isso vai passar. — Talvez passe. Ou talvez eu só me recuse a deixar isso me quebrar. Igual você fez. — riu, sem humor.
— Você não sabe o que eu fiz. — Ela virou o rosto.
— Então me conta. — ele respondeu de imediato.
se calou por um tempo. O silêncio se estendeu entre eles, só interrompido pelo som distante de uma sirene.
— Quando eu comecei, achava que era possível salvar todas as mulheres que passavam pela minha sala. Todas. Mesmo as que não queriam ser salvas. Mesmo as que não achavam que estavam em perigo. — Ela jogou a ponta do cigarro fora. O vento levou a fumaça. — Mas aí vem um caso como esse. E você percebe que está apenas limpando o sangue da mesma ferida há anos. Que tudo continua girando do mesmo jeito. E que às vezes, nem mesmo as que você tentou ajudar... escapam.
a olhou. Seus olhos tinham aquela firmeza que não vinha da idade, mas da essência.
— E mesmo assim, você continua. Sabe o que isso significa?
— Ilumina meu dia com sua sabedoria, . — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Significa que, apesar de tudo, você ainda acredita. Nem que seja só um pouco. Porque se não acreditasse... já teria ido embora.
abriu a boca para retrucar, mas nada saiu. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu vista. Não como a profissional impecável. Não como a referência. Mas como alguém real, cansada, contraditória – e ainda assim… inteira. se aproximou. Só um pouco. O suficiente para que ela sentisse o calor dele mesmo no frio.
— Você não precisa carregar tudo sozinha. — ele murmurou.
— E você não precisa me salvar. — ela respondeu, tentando manter o controle.
— Não estou tentando. Mas talvez eu queira ficar. Ao seu lado. Enquanto você decide.
O coração de deu um pulo sutil. E pela primeira vez em semanas, ela sentiu algo que não era raiva, medo ou frustração.
Era desejo.
segurava a pasta com as novas evidências, mas o que realmente pesava eram as memórias. Ela e caminhavam pelos corredores do departamento, os passos ecoando entre as paredes úmidas de Amsterdã. A chuva fina tamborilava contra as janelas. Lá fora, a cidade seguia seu ritmo de bicicletas apressadas e canais silenciosos. Aqui dentro, tudo era um jogo de espera.
— Você sabia que ele tinha mudado de nome? — perguntou, sem tirar os olhos do relatório que carregava no tablet.
— Desconfiei. O sobrenome Van Eijk era novo. Mas o rosto... eu nunca esqueci. — respondeu com a voz seca, sem olhar pra ele.
deslizou o dedo sobre a tela, ampliando um anexo. — O nome original era Markus Slaets. Internado aos 17 por comportamento autodestrutivo e episódios obsessivos ligados a uma professora do colégio. Ele a seguia, gravava conversas, invadia o sistema da escola. — Fez uma pausa, então completou: — A professora entrou com uma denúncia, mas retirou depois de receber mensagens ameaçadoras. Ninguém conseguiu provar que foram dele.
parou no meio do corredor. Os olhos fixos em um ponto invisível à frente.
— Era por isso que ele estava lá quando eu o conheci. Ele se mostrava calmo, quase gentil. Mas tinha aquele brilho no olhar. Aquela ausência de empatia que grita nos detalhes.
— Você falou com ele diretamente? — perguntou, mais gentil agora.
— Por meses. — soltou um riso breve, sem humor. — E sabe o que é pior? Eu achava que estava ajudando. Mas ele estava só estudando. Me observando como um animal curioso. Como se estivesse catalogando cada resposta emocional minha. Eu fui um experimento.
Eles chegaram à sala de análise, onde os dados dos dispositivos apreendidos na casa de Markus começavam a ser organizados. Um policial entregou um HD externo a .
— Encontramos isso escondido atrás de uma falsa parede no quarto. Quase não achamos. O cabo estava camuflado dentro da tomada.
conectou o dispositivo ao notebook e esperou os arquivos carregarem. observava em silêncio.
Imagens começaram a se formar na tela: vídeos. Centenas. A maioria com thumbnails borradas de chamadas de vídeo, conversas salvas, prints de telas com legendas manipuladas. Vozes distorcidas. Uma sequência de terror digital.
— São todas vítimas. Ou potenciais vítimas. — murmurou.
— Ele monitorava elas em tempo real. As encurralava emocionalmente até que implodissem por dentro. Depois, sumia. Mudava o modo de operar. Como um artista sádico mudando de estilo.
clicou em uma pasta nomeada com iniciais: “L.D.”. Ele olhou pra , hesitando.
— Acha que...
— Abre. — ela respondeu antes que ele completasse.
Dentro, havia registros de conversas manipuladas. E também vídeos. Imagens de uma jovem: Lisa Dammers. Chamadas de vídeo gravadas sem consentimento, prints de mensagens privadas, tentativas de extorsão emocional. Os últimos arquivos tinham menos de uma semana.
— Ele já tinha começado com ela. — murmurou. — Mas ela ainda não consta como ferida, nem desaparecida.
— Então ainda temos tempo. — se aproximou. — Precisamos encontrá-la e convencê-la a depor. Ela pode ser a peça final para mantê-lo preso. Sem ela, o advogado dele vai alegar manipulação dos dados ou falsa associação com as outras vítimas.
— Você acha que ela vai colaborar?
— Não sei. Se ele chegou fundo demais... ela pode ter medo. Ou vergonha. E essas duas coisas são difíceis de quebrar. — respondeu, pegando o casaco.
— Quer que eu vá com você?
Ela olhou para ele. E dessa vez, não havia hesitação.
— Sim. Eu preciso de você nisso.
E havia algo naquela frase que não era apenas sobre a investigação. O prédio de Lisa Dammers era um conjunto moderno de apartamentos em Haarlem, a meia hora de Amsterdã. A fachada era de vidro, as varandas discretas. Mas sabia: a sofisticação não blindava ninguém dos fantasmas digitais.
— Moradia estudantil? — comentou, analisando a lista de moradores no interfone.
— Ela cursa Letras. Tem vinte e dois anos. Mora sozinha desde o fim do ano passado. — apertou o botão do 5B. Silêncio. Apertou de novo. — Lisa Dammers?
Nada.
Ela olhou para , e ele puxou o celular. — Ela ainda está ativa nas redes, postou uma story há duas horas. Está em casa.
suspirou. — Ou está com medo.
Chamaram a síndica. Com os documentos certos e um pedido da polícia, conseguiram acesso ao andar. bateu na porta com firmeza, mas não brusquidão.
Quando a porta se entreabriu, Lisa apareceu — olhos inchados, cabelo preso às pressas, expressão confusa.
— Vocês são da polícia?
. Esse é o analista forense . Podemos conversar com você por alguns minutos?
Lisa hesitou. O olhar dela correu pela porta, pelo corredor, como se tivesse medo de alguém vigiando.
— Isso é sobre Markus?
assentiu. — Sabemos que ele te ameaçou. Que te chantageou. Precisamos do seu depoimento.
— Não quero isso. Não quero que as pessoas saibam. Meus pais nem sabem… ele me avisou que, se eu falasse com alguém, ele soltaria os vídeos.
— Ele está preso. E as provas já estão com a polícia. Nada disso vai escapar do nosso controle. — disse com firmeza, mas a voz era humana. — E se você ficar em silêncio, ele pode sair. Pode fazer com outras o que fez com você. E pior. Lisa olhou para baixo. A mão tremia levemente.
— Você não entende… ele me conhecia. Me estudava. Sabia quando eu estava mais frágil. Ele dizia que ninguém acreditaria em mim. E por muito tempo, eu acreditei nisso.
deu um passo à frente, com cuidado. — Mas nós acreditamos. E você não está sozinha. Você é a chave para impedir que ele machuque mais alguém.
Um silêncio tenso pairou. observava, deixando que a decisão viesse da própria jovem. Era assim que funcionava com sobreviventes — controle era tudo.
— Eu… eu preciso de um tempo. Mas… vou falar com vocês. — Lisa disse, finalmente.
O alívio foi silencioso, mas presente. assentiu, entregando um cartão.
— Vamos manter tudo sob confidencialidade. Quando você estiver pronta, me ligue. E, Lisa? — segurou o olhar dela. — Você já começou a quebrar o ciclo. O resto… a gente faz junto.
Na saída do prédio, respirou fundo.
— Eu não sei como você faz isso. Dizer exatamente o que elas precisam ouvir, sem parecer que está forçando. Sem quebrar.
— Não é sobre quebrar. É sobre resistir. — respondeu, olhando o horizonte de prédios e bicicletas. — E depois de tantos anos… a gente aprende a carregar as dores, mas sem deixá-las dominar. É o que eu tento fazer.
a observou. Havia admiração em seu olhar — e algo mais. Algo mais íntimo, mais silencioso. Como se ela fosse a resposta para perguntas que ele nem sabia que tinha.
— Quando ela ligar… — ele começou.
— Vamos derrubar Markus de vez. — concluiu por ele.
E dessa vez, havia uma certeza nos olhos dela que ninguém poderia apagar.

CAPÍTULO 04

O silêncio da sala de escuta era quase respeitoso. e estavam sentados atrás do vidro espelhado, observando a jovem que, finalmente, havia decidido quebrar o silêncio.
Lisa Dammers tremia levemente, mas a voz, ainda que trêmula, tinha um fio de aço que antes não estava ali.
— Eu conheci ele num fórum de literatura. Ele usava um nome falso, mas era carismático. Me elogiava, lia o que eu escrevia, fazia parecer que se importava. Até que... começaram os pedidos de fotos. De vídeos. — Ela engoliu seco. — Quando eu recusei, ele ameaçou divulgar meus textos, os mais íntimos. Os que falavam sobre minha sexualidade, sobre meu medo de ser rejeitada pela minha família. Eu cedi. E foi aí que ele começou o jogo.
O gravador na mesa piscava lentamente.
observava cada detalhe — os gestos contidos de Lisa, a forma como ela mantinha os olhos fixos num ponto atrás da câmera, tentando não se desmanchar. Não dessa vez.
— Você reconhece este homem? — a promotora perguntou, apontando para a imagem impressa de Markus.
Lisa não hesitou. — Sim. Esse é o homem que arruinou minha vida. E se tiver chance… ele vai arruinar outras.
Do lado de fora, se permitiu fechar os olhos por um segundo. Não era só um depoimento. Era o ponto de virada.
virou-se para ela. — Isso é o bastante?
— Combinado ao que já temos, sim. É sólido o bastante pra garantir que o juiz mantenha a prisão preventiva e permita acusação formal. — Ela suspirou, a tensão nos ombros finalmente começando a se desfazer. — E o melhor: Lisa vai servir como testemunha-chave. Ela tem detalhes demais pra serem ignorados.
assentiu. Mas havia algo mais em seu olhar.
— Você se importou com ela. Muito além da investigação.
— Me importei porque ela podia ter sido qualquer uma. Porque já vi muitas Lisas se calarem. Algumas, nunca mais falaram. — disse, olhando para o vidro, onde Lisa ainda estava sentada, agora abraçada a uma assistente social. — Mas essa, a gente salvou a tempo.
ficou em silêncio por um momento, depois disse:
— Sabe, quando eu entrei nessa área, achei que as evidências falavam por si. Mas... sem histórias, sem vozes, elas são só dados frios.
— É por isso que você está aqui. Você escuta. Até o que ninguém diz. — virou-se pra ele, suavizando o rosto pela primeira vez naquele dia.
E naquele instante, em meio ao peso da justiça que se movia, havia também um instante leve. Um fio de entendimento entre dois mundos diferentes — o da frieza analítica e o da empatia feroz.

***


O Tribunal Distrital de Amsterdã estava agitado. As luzes brancas da sala de audiência eram quase tão implacáveis quanto a atenção da promotoria. Markus Van Eijk estava algemado, com o olhar firme, mas menos arrogante do que dias atrás. Ele sabia o que significava ter uma testemunha ocular disposta a falar. Uma que havia sobrevivido.
estava sentada na primeira fileira, ao lado da promotora. Elegante em sua postura, mas fria como o mármore de um túmulo. Seus olhos estavam fixos nos documentos à sua frente, mas não conseguia desviar os próprios olhos dela.
Talvez fosse a forma como ela se mantinha inabalável, mesmo sendo o centro de olhares e julgamentos. Ou talvez fosse o contraste entre a rigidez exterior e o que ele havia visto de perto — a mulher que hesitava, que guardava feridas antigas com a mesma precisão que preparava relatórios. não era fácil. Mas era exatamente isso que o fazia se perder nela.
Enquanto o juiz lia os autos do processo e as acusações formais eram apresentadas — extorsão, chantagem emocional, exposição de material íntimo, tentativa de homicídio —, mal ouvia. Estava ali, fisicamente presente, mas sua mente voltava para a noite anterior.
Eles haviam ficado no escritório até tarde. Reorganizando as linhas da investigação, revendo os depoimentos. , já sem o blazer, os cabelos presos com descuido e os olhos vermelhos do cansaço, lhe lançara um sorriso curto quando ele trouxe café.
— Você ainda vai cansar disso, . De mim, da carga emocional, da complexidade.
Ele apenas respondera com um olhar demorado. E ali soube: não ia, nunca.
A porta da sala se abriu com um ranger leve, tirando-o dos pensamentos. Lisa Dammers entrou escoltada, cabeça erguida, apesar da tensão evidente. Quando cruzou os olhos com Markus, o homem perdeu o controle por um instante — um lampejo de ódio cortou seu rosto.
se inclinou levemente para frente. Estava pronta. E também.
Porque agora não era mais apenas sobre crimes. Era sobre reparar. Sobre transformar trauma em justiça. E talvez, nesse processo, transformar admiração em algo ainda mais profundo.
Lisa sentou-se à frente do juiz com as mãos entrelaçadas no colo. O microfone captava a respiração irregular, mas sua voz, quando surgiu, era surpreendentemente firme.
Ela refez todo o depoimento que deu na delegacia, palavra por palavra, sentimento por sentimento, sem deixar nada passar.
manteve os olhos fixos em Lisa, respeitando cada pausa. observava os dois lados: Lisa, vulnerável e corajosa; , estátua de aço prestes a desabar por dentro.
Markus se remexeu na cadeira. O advogado tentou conter a reação.
— Você chegou a encontrá-lo pessoalmente? — perguntou a promotora.
Lisa assentiu, trêmula. — Ele disse que só queria conversar. Que podia apagar tudo se eu fosse até ele. Mas quando cheguei lá… ele me prendeu. Me agrediu. Disse que eu era “mais uma hipócrita fingindo empoderamento”. Eu achei que ia morrer naquela noite. Mas consegui fugir. Me joguei pela janela do banheiro. Foi assim que rompi o braço.
Um silêncio pesado caiu na sala. Até o juiz engoliu seco.
respirou fundo. O peso daquela história era real. Cruel. E ver com os punhos cerrados no colo, tentando não se deixar levar pela emoção, só deixava tudo mais pessoal.
O juiz interrompeu a sessão por dez minutos para revisão dos autos.
foi até o corredor dos fundos. Precisava respirar. O casaco estava aberto, os olhos marejados. Ela odiava aquilo — sentir demais.
a seguiu, devagar. Parou a uma distância respeitosa, mas próxima o suficiente para que ela sentisse sua presença.
— Você segurou tudo muito bem lá dentro. — disse ele, suavemente.
— Só porque eu me treinei pra isso. Mas por dentro... é como ouvir todas as minhas antigas versões gritando. As meninas que eu não salvei. As que não fui capaz de alcançar a tempo. — Ela soltou um riso breve, sem alegria.
— Você alcançou a Lisa. — respondeu. — E alcançou a mim também.
— Você? — virou o rosto, surpresa com a sinceridade.
— Eu entrei nesse caso achando que era mais um. Mas… você. Seu jeito de lidar com o trauma, com os detalhes, com as vítimas… com a verdade. Você me mudou, . — Ele deu um passo à frente.
O silêncio entre eles era quente, diferente daquele da sala de interrogatório. Ela olhou para ele, e pela primeira vez, não havia muro. Só uma fresta. Uma brecha real.
— Você não faz ideia do que está dizendo. — ela sussurrou.
sorriu, encostando-se na parede ao lado dela.
— Eu acho que sei exatamente o que estou dizendo. E a única coisa que me assusta… é o quanto quero continuar descobrindo.

***


O bar era pequeno, discreto, escondido entre duas ruas silenciosas do Jordaan. Mesas de madeira escura, velas acesas dentro de garrafas de vinho recicladas, uma jukebox antiga no canto tocando Just Like Heaven do The Cure.
chegou antes. Tirou o sobretudo, ajeitou o cabelo e pediu um vinho tinto sem olhar o cardápio. Não era o tipo de lugar onde ela costumava estar, mas hoje... hoje ela precisava disso.
chegou minutos depois. Jaqueta de couro, sorriso contido, mas os olhos atentos. Sentou-se ao lado dela, em vez de em frente. notou. Não comentou.
— Sabe que esse bar é praticamente um segredo da vizinhança? — ele disse, enquanto pedia uma cerveja. — Só quem mora por aqui conhece.
— É claro que você saberia de um lugar assim. — murmurou, encarando o copo. — Tem esse jeito de quem nunca para quieto.
— E você tem esse jeito de quem nunca baixa a guarda. Mas hoje... parece diferente. — Ele riu.
— É só o vinho. — Ela desviou os olhos, mas o canto da boca se curvou.
— Não. — ele virou o corpo para ela. — É a gente.
O silêncio caiu por um segundo. sentiu o peso daquelas palavras.
...
— Eu estou interessado em você. — ele interrompeu, direto. — Não só como colega. Não só por admiração.
Ela prendeu a respiração. O vinho pareceu esquentar nas veias.
— Você tem 28 anos.
— E você, 40.
— Doze anos, . — Ela deu uma risada amarga. — Isso não é só um número. São fases diferentes. Caminhos. Bagagens.
— E ainda assim, aqui estamos. Sozinhos. No mesmo caso. No mesmo copo. Na mesma tensão que você tenta ignorar desde o primeiro dia que eu te enfrentei naquela sala de análise.
— Eu não posso me envolver com alguém que trabalha comigo. — Ela virou o rosto.
— Então me transfere. Me demite. Me manda embora. — ele respondeu, com um sorriso suave. — Mas não diz que não sente.
segurou o copo com força. O som da jukebox mudou para Heroes, do Bowie.
— Eu não sei o que eu sinto. — confessou. — E isso... isso me apavora mais do que qualquer depoimento ou cena de crime.
assentiu. E não insistiu. Apenas estendeu a mão e encostou de leve sobre a dela, que repousava na mesa.
Ela não tirou.
E pela primeira vez, em muito tempo, não sentiu culpa por apenas... ficar ali.

***


O tribunal estava em silêncio absoluto quando o juiz voltou à sala. Os olhares estavam fixos nele — nas mãos que seguravam os autos, na expressão contida, no destino que ele carregava na voz.
Markus sentava-se no banco dos réus com a coluna tensa, o maxilar travado. Ainda tentava manter a postura arrogante, mas os olhos — fundos e cansados — denunciavam o medo.
observava sem piscar. Sentia o peso dos meses de investigação, das noites sem dormir, do dilema entre ética e justiça, finalmente se materializando ali, naquele momento.
— Após a análise minuciosa dos documentos apresentados e os testemunhos das vítimas, este tribunal declara Markus Willem Van Der Zee culpado por todos os crimes listados no processo — anunciou o juiz. — Incluindo chantagem, assédio moral, abuso de poder e obstrução de justiça.
Um silêncio tenso se espalhou. Markus permaneceu inerte. A única coisa que se moveu foi o músculo em sua mandíbula.
— Fica decretada sua prisão imediata em regime fechado, e a suspensão definitiva de qualquer atividade profissional ligada ao Ministério da Justiça ou a qualquer órgão público.
sentiu o peito afrouxar. , ao seu lado, apenas assentiu, como se confirmasse uma equação já resolvida.
— Não houve colaboração. Não houve arrependimento. E, sobretudo, não houve um pingo de humanidade nos atos que praticou — finalizou o juiz. — Esta sentença é, acima de tudo, um recado claro: o poder não é escudo para impunidade.
Os guardas se aproximaram de Markus. Ele levantou com um movimento brusco, mas não resistiu. Olhou ao redor como quem procura uma saída invisível.
— Vocês não entendem... — murmurou. — Eu só queria controlar o que era meu por direito...
Mas suas palavras se perderam no som das algemas se fechando.
o seguiu com o olhar até a porta se fechar.
Fim de jogo.
tocou levemente o ombro dela.
— Acabou.
— Acabou pra ele — respondeu. — Mas não pra quem ele destruiu.
assentiu.
— E é por isso que a gente continua.

CAPÍTULO 05

O tribunal estava vazio. A maior parte das pessoas já tinha ido embora, e a noite começava a tomar conta da cidade lá fora, pintando as janelas com tons de azul profundo.
Ava ficou ali por alguns minutos, sozinha, diante do estrado. Não sabia bem por quê — talvez por respeito ao silêncio, talvez para dar um último adeus à luta que agora se encerrava.
— Sabia que te encontraria aqui. — a voz de Erza cortou suavemente o silêncio, como uma nota bem colocada no fim de uma música.
— Me tornei previsível? — Ela virou-se devagar, um sorriso quase imperceptível nos lábios.
— Não. Só... aprendi a te ler. — ele se aproximou, com as mãos nos bolsos, o corpo relaxado.
Ficaram frente a frente, com o peso do fim e a leveza de algo que, talvez, estivesse apenas começando.
— Fechamos um ciclo hoje. — Ava murmurou. — E eu não sei o que fazer com o silêncio que vem depois.
— A gente pode preencher ele... juntos. — Erza assentiu, devagar. — Não estou te pedindo nada. Só dizendo que eu fico, se você deixar. — Ela ergueu o olhar, surpresa. Ele riu de leve.
Ava encarou aqueles olhos castanhos por um momento longo demais. E pela primeira vez em muito tempo, não procurou uma desculpa para ir embora.
— Vem comigo. — disse ela, por fim, com a voz baixa, quase um sussurro.
Erza não hesitou.

---


Horas depois, o casaco dela estava pendurado na cadeira da sala e os sapatos esquecidos perto da porta. O vinho descansava em duas taças sobre a mesa. Lá fora, Amsterdã seguia vivendo.
Lá dentro, Ava e Erza estavam sentados no chão da sala, costas encostadas na parede, rindo de uma lembrança boba.
E quando o silêncio caiu de novo, dessa vez não foi incômodo. Foi confortável. Foi íntimo.
— Posso te beijar? — Ele virou o rosto para ela.
Ela respondeu com um olhar. E pela primeira vez, em meio a tanto caos, Ava se permitiu.
E dessa vez... ela não recuou.
Ela não disse nada.
Mas se virou devagar, o joelho roçando no dele, o corpo inclinando o suficiente para que a distância deixasse de existir como proteção.
Erza entendeu.
A mão dele subiu com cuidado, como se ainda pedisse permissão mesmo depois do consentimento silencioso. Os dedos tocaram o maxilar dela, leves, sentindo o calor da pele, o pulso acelerado que ele percebeu antes mesmo de pensar.
O beijo começou assim: contido. Quase tímido.
Um encostar breve, como se ambos ainda estivessem testando o que aquilo significava.
Mas Ava não recuou.
Pelo contrário — foi ela quem respirou fundo e aprofundou o beijo, como se naquele gesto estivesse a decisão que ela vinha adiando há semanas. Os lábios se encaixaram melhor, mais firmes, carregados de tudo o que não tinha sido dito.
O mundo lá fora seguiu existindo.
As luzes da cidade, o som distante de um bonde, a vida que não parava.
Ali dentro, porém, o tempo cedeu.
Erza fechou os olhos quando sentiu a mão dela se apoiar em seu peito, não para afastá-lo, mas para se ancorar. O beijo perdeu qualquer traço de dúvida — tornou-se lento, profundo, cheio de uma urgência contida que fazia o ar entre eles parecer escasso.
Quando se afastaram, foi apenas o suficiente para respirar.
As testas encostadas, a respiração desalinhada, o silêncio agora pesado de algo que tinha mudado para sempre.
Ava manteve os olhos fechados por um segundo a mais.
E soube, com uma clareza quase assustadora, que daquela vez…
ela não tinha se permitido à toa.

---


Ava chegou cedo.
Como sempre, ela foi a primeira a entrar na sala de reunião, café forte na mão, fichas do novo caso já organizadas em cima da mesa. Mas dessa vez, havia algo diferente. Uma leveza nos ombros. Um certo brilho no olhar que ela não percebia — mas que todos à sua volta veriam logo.
Erza entrou segundos depois.
Ele tentou parecer casual. Mas os olhos encontraram os dela com um segundo a mais do que o necessário. Um segundo que dizia tudo o que nenhuma palavra poderia.
— Bom dia. — ele disse, sentando-se ao lado dela, como de costume.
— Bom dia. — ela respondeu, fingindo que o coração não acelerava. Fingindo que os lábios dele ainda não estavam marcados nos dela desde a madrugada anterior.
A sala foi se enchendo devagar, colegas chegando com passos arrastados, resmungando sobre o novo caso. Havia algo estranho em um corpo encontrado dentro de uma livraria antiga — a cena montada como se fosse um trecho de um romance policial.
Enquanto as teorias começavam a ser discutidas, Ava e Erza trocavam olhares rápidos, cúmplices, contidos.
— O que sabemos até agora? — ela perguntou, assumindo a liderança da reunião.
Erza abriu uma pasta. — Vítima: homem, 35 anos, dono da livraria. Nenhum sinal de arrombamento. Aparentemente, a cena foi encenada. E o mais curioso... — ele deslizou uma foto para ela — é isso.
Ava encarou a imagem: um livro aberto sobre o peito da vítima. “Crime e Castigo”.
— Temos um assassino literário? — Ela arqueou a sobrancelha, surpresa.
— Parece que sim. — Erza murmurou, depois baixinho, só para ela: — E sinceramente? Prefiro os seus mistérios.
Ela conteve um sorriso.
Mas o clima entre os dois? Esse já era impossível de esconder.
— Ele sabia o que estava fazendo. — Ava murmurou, folheando o laudo preliminar. — A encenação não foi por acaso. Ele queria que encontrássemos a vítima assim.
— E não foi só o livro. As luzes da loja estavam todas apagadas... exceto por um abajur sobre o corpo. Um foco de cena. — Erza se aproximou, puxando uma cadeira.
— Ele montou o próprio palco. — Ava disse, mais para si mesma do que para o parceiro. — Está nos conduzindo.
— E o detalhe mais estranho? — ele estendeu outro documento. — No verso da última página do livro, foi encontrado um bilhete escrito à mão. Só uma frase: “O verdadeiro castigo começa depois.”
— Isso é pessoal. — Ava fixou o olhar nas palavras, sentindo um arrepio na nuca.
— Parece. — Erza respondeu, observando-a de perto. — E talvez seja o começo de uma série.
Ela respirou fundo.
A lembrança do último caso ainda era recente demais. Mas esse era diferente. O assassino não era impulsivo nem amador — era um manipulador. Um arquiteto do crime.
— Quero os arquivos completos do dono da livraria. — ela ordenou, já se levantando. — Histórico familiar, financeiros, registros de atendimento psicológico, qualquer desentendimento com autores, críticos, leitores… tudo.
Erza se levantou com ela.
— Ava. — ele disse, num tom mais baixo, quando os dois ficaram sozinhos na sala. Ela virou o rosto devagar. — Sobre ontem à noite…
— Foi um erro? — ela interrompeu, o coração já na garganta.
— Foi inevitável. — Ele negou com um sorriso suave.
— E agora? — Ela suspirou.
— Agora... a gente encontra um assassino. Depois... a gente decide o que fazer com isso. — Erza se aproximou um pouco mais.
O jogo havia começado. E não era só com o assassino. — Ava assentiu, engolindo em seco. Porque ela sabia
Era entre eles também.


CONTINUA...



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? NÃO ACREDITO QUE MEUS ANOS DE CSI E A PAIXÃO ABSOLUTA POR TRUE CRIMES DE SERIEAL KILLER NOS TRAIAM ATÉ AQUI AAAAAAA Serio, to amando escrever isso kkkkk. Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.