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Última atualização: 15/01/2021

ONE: It took a minute, girl, to steal my heart tonight.

(Capítulo baseado na música Stole My Heart)

Sexta-feira, 22 de agosto de 2008; 21h10; .


A noite estava quente. Apesar de geralmente fazer frio por aquela hora, naquele dia eu suava e meus ombros pareciam queimar dentro da blusa de mangas compridas que vestia. Apesar disso, eu estava estranhamente feliz. Embora as aulas que havia tido pela manhã tivessem me torrado a paciência e minha irmã tivesse arrumado mais um motivo insignificante para me xingar de todos os nomes possíveis, eu estava relativamente animado quando saí de casa mais cedo.
Eu não era supersticioso, mas estava quase sentindo que algo muito bom iria me acontecer naquela noite. Só não sabia o que era.
Sentei-me com alguns colegas em um sofá assim que cheguei à casa de Arthur, um de meus melhores amigos. Era seu aniversário de 17 anos e ele havia conseguido o feito – incomum entre menores de idade na nossa cidade – de dar uma festa regada a álcool. Muitos beberiam pela primeira vez naquela noite e a adrenalina era quase palpável no ambiente abarrotado de jovens sem fiscalização de adultos.
Eu estava no auge dos meus 15 anos e, enquanto meus amigos mais velhos aproveitavam sua noite de liberdade, achei que seria uma boa ideia ingerir álcool pela primeira vez na minha vida. Aceitei o copo descartável que Arthur me entregou assim que cheguei. E depois mais um que George me deu, e depois mais um que encontrei abandonado em alguma mesa.
Sentado no sofá, não conseguia parar de pensar em como eu queria que aquela noite fosse diferente. Por geralmente só andar com pessoas um pouco mais velhas que eu, eu conhecia muito bem todas as festas da pequena , a ponto de saber que todas elas eram exatamente iguais e tinham exatamente as mesmas pessoas.
De novo, sem superstições, mas algo me fazia acreditar que alguma coisa diferente aconteceria naquela noite quando eu menos esperasse.
Foi aí que a vi, embaixo das luzes que Arthur tinha improvisado em seu quintal, conversando com um grupo de meninas que riam mais do que qualquer outra pessoa na festa. No momento em que a vi, meus olhos brilharam e tudo pareceu ficar mais lento ao meu redor.
Embora minha cidade natal fosse pequena e eu conhecesse todos que estivessem naquela festa, pois frequentávamos a única escola de Ensino Médio da região, nunca a tinha visto. Conhecia as meninas que riam com ela, eram um ano mais velhas que eu e costumavam ser as mais bonitas da cidade. Mas nunca, nos meus 15 anos em , tinha visto aquela menina que, no calor do momento ou na certeza dos hormônios da minha adolescência, pensei ser a mais bonita que eu já tinha visto.
— Arthur! — chamei o aniversariante assim que ele se aproximou do sofá em que eu estava desde o começo da festa, apenas bebendo o líquido vermelho do quarto copo descartável.
Arthur sentou-se ao meu lado, já completamente alterado. Seus olhos estavam quase se fechando, mas ele insistia em rir de qualquer coisa à sua volta.
— Quem é aquela conversando com Tiff e as meninas? — perguntei, esperando que, apesar de seu estado, ele conseguisse me responder, e apontei para o grupo escandaloso que atraía a atenção da festa.
, obrigada por vir, amigo! — ele me abraçou, totalmente desengonçado, mesmo que já tivesse me visto naquela noite e já tivesse falado essas mesmas palavras.
— Claro que eu viria, Art, você é meu brother — disse, rindo, e observei sua reação surpresa, como se eu tivesse lhe feito uma confissão ou algo do tipo. — Feliz aniversário, aliás — dei um soquinho em seu ombro e fui agradecido com mais abraços e frases empolgadas e emboladas que não consegui decifrar.
Arthur estava bêbado e, apesar de eu não ter bebido mais nada além dos três copos que haviam me dado há quase uma hora e da metade do copo que estava em minha mão, parecia que meus pensamentos começavam a processar de forma mais devagar também.
— Tem uma menina nova — disse assim que consegui chamar a atenção de Art novamente, depois que ele havia contado algo sobre como tinha convencido seus pais a visitarem sua tia no País de Gales para que conseguisse fazer essa festa. — Ali, conversando com a Tiff — apontei mais uma vez e finalmente o olhar de Arthur seguiu meu dedo.
O que foi uma péssima ideia, pois, na mesma hora, a menina olhou em nossa direção. Abaixei o dedo e virei rapidamente, envergonhado. Mas não adiantou muito, pois Arthur continuava olhando para ela com os olhos estreitos, talvez tentando reconhecê-la. Até acenou para ela enquanto eu sussurrava entre dentes – e mais vermelho do que a calça que Arthur usava –, para que ele parasse de encará-la.
— Aquela é minha prima — ele disse, rindo, enquanto eu procurava um jeito de me enterrar naquele sofá. — Eu te falei que consegui convencer meus pais de visitarem minha tia Amelia? — continuou, animado, voltando o olhar para mim e já enchendo o pulmão de ar para recomeçar a falar. — Falei pra minha mãe que tinha muito tempo…
— Sim, sim, Arthur, você já me falou — falei rapidamente, já recuperado da vergonha. — Mas e a prima, qual é o nome dela? — perguntei, ansioso, olhando de relance para a menina. Ela já não olhava mais para nós e conversava animadamente com as amigas.
Ele balançou a cabeça, levantando para cumprimentar alguém que passava pelo sofá, e sentou-se novamente, me encarando como se tivesse esquecido sobre o que estávamos falando.
— A sua prima — repeti, fazendo com que Arthur olhasse novamente para ela e sorrisse, já levantando o braço para acenar, mas eu o segurei antes que ele o fizesse. — O nome dela — sussurrei, quase como se alguém pudesse nos ouvir.
Ele balançou a cabeça, me encarando de uma forma estranha.
— É a , dude. — disse finalmente e eu juntei as sobrancelhas, tentando processar a informação.
? — perguntei depois de algum tempo, confuso, e ele assentiu. — Aquela ? — retomei, me lembrando dos primos de Arthur que vinham visitá-lo na infância.
Novamente Arthur assentiu, rindo provavelmente da minha expressão.
— Aquela que roubou meu caminhão de bombeiros? — perguntei, olhando para Arthur, que gargalhou.
— Sim, — ele falou, pegando o copo da minha mão e bebendo o resto de líquido que ainda tinha lá. — , filha da minha tia Amelia, que te detonava no futebol — riu e eu fiz uma careta, balançando a cabeça. — Minha mãe mandou ela e o irmão pra cá assim que chegou lá em Cardiff.
Eu tentava associar a imagem que tinha na minha cabeça de uma insuportável, que eu aturava nas brincadeiras só porque era prima do meu melhor amigo, com aquela que estava ali naquela noite, a alguns passos de mim, que parecia se dar bem com todas as pessoas presentes e tinha atraído a maioria dos olhares masculinos da festa. Eu tentava me lembrar da fisionomia dela, mas nada vinha à minha mente além de uma garotinha emburrada de cabelos bagunçados, com uma bola de futebol das Meninas Superpoderosas nos pés. De qualquer forma, fosse qual fosse a fisionomia antiga dela, com certeza não era aquela. Não podiam ser a mesma pessoa. Não parecia certo.
— Meu Deus, eu odiava ela — sussurrei mais para mim mesmo, lembrando da antiga e voltando a olhar de relance para a nova .
— Vocês tinham sete anos — Arthur riu, batendo de leve no meu ombro. — E ela sempre foi muito legal, você que era chatão naquela época.
Tentei falar alguma coisa, ofendido, mas meu cérebro ainda estava muito ocupado processando as informações que tinha acabado de receber.
Arthur me deixou sozinho no sofá assim que Millene, sua namorada, passou por nós com uma garrafa de vodka. Não antes de falar que os caras queriam colocar no meu lugar no time de futebol em 2000 e rir muito da minha cara.
Ainda estava muito atormentado com tudo o que tinha escutado quando ela se aproximou de mim, passados alguns minutos.
— Vai ficar a festa inteira nesse sofá? — ela perguntou e eu pude sentir cada centímetro do meu corpo se contrair.
Se antes era o calor do momento, naquela hora tive uma certeza quase científica de que aquela era a menina mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida. As luzes coloridas brilhavam em sua pele, como se ela fosse algum tipo de estrela, e o sorriso que sustentava nos lábios parecia que iria me desmanchar a qualquer momento.
— Tudo bem… — ela falou quando percebeu que eu não iria dizer nada, e eu me senti um idiota por ter travado completamente. — Prazer, . — sentou-se ao meu lado e estendeu a mão para mim. — Sou prima do Arthur.
Estendi a mão para ela quase que mecanicamente, sem reação. Ela não havia me reconhecido também, o que, por um lado, era bom. Já que, pelo jeito, todos me odiavam em 2000.
— E-eu — comecei, gaguejando, e ela riu antes de eu limpar a garganta e continuar. — Sou o .
Ela juntou as sobrancelhas, do mesmo jeito que eu havia feito, e aproximou-se um pouco de mim para encarar melhor meu rosto, que, a essa altura, deveria estar com uma expressão confusa nada bonita.
? — ela repetiu, com um riso nos lábios. — do caminhão de bombeiros? — perguntou com o olhar divertido.
E lá se ia a minha chance de tentar parecer um cara divertido e mudado.
— Em carne e osso — respondi, sorrindo. Ou tentando sorrir.
— Uau! — ela abriu a boca, surpresa. — Você se lembra de mim?
Minhas mãos suavam com a proximidade e meu coração começou a acelerar do nada.
— Se eu me lembro de você? — perguntei retoricamente, tentando parecer natural, embora começasse a sentir meu estômago revirar. — Você roubou meu caminhão de bombeiros.
— Ei, não roubei! — ela abriu a boca, ofendida. — Eu só… peguei emprestado — deu de ombros, soltando um sorrisinho de lado.
— Por oito anos! — arregalei os olhos e ela riu. — Era o meu brinquedo favorito, você não podia simplesmente levá-lo pro País de Gales daquele jeito — fingi estar ofendido, ou realmente ainda estava um pouco ofendido. Ela riu.
— Desculpa, — falou, sorrindo, e eu senti meu coração palpitar. — Se te consola, ainda guardo ele até hoje.
Não consegui segurar o sorriso bobo que saiu em meus lábios. Honestamente, nem me lembrava desse tal caminhão de bombeiros até o nome de ter sido mencionado por Arthur alguns minutos atrás, mas ela continuava o guardando depois de todo esse tempo. Talvez ela realmente gostasse mais dele do que eu.
— Não faz mais do que a obrigação — cruzei os braços, fechando a cara e tentando não sorrir. — Ia ficar muito bravo se você tivesse roubado ele de mim pra dar pra outra pessoa — falei e ela gargalhou.
Sua risada era maravilhosa e entendi o porquê de as meninas com quem ela estava conversando estarem rindo tanto. Seus olhos ficavam pequenos e seu nariz ficava cheio de ruguinhas que destacavam algumas sardas perdidas por ali. Acho que, por conta dos três copos e meio da bebida desconhecida que eu tinha ingerido, tudo parecia muito maior e melhor do que realmente era, e meu coração pulsava muito mais do que o normal.
— Parece que você continua chato — ela falou quando terminou de rir.
— Vocês tinham algum tipo de clube pra falar mal de mim? — balancei a cabeça, incrédulo. — Você também não ia gostar se eu pegasse sua bola de futebol das Meninas Superpoderosas “emprestada” — fiz aspas com a mão e ela riu.
— Não tô falando mais do caminhão — ela disse. — Tô falando do fato de que, desde que você chegou, você estar sentado nesse sofá enquanto a festa tá rolando — olhou para mim e me senti patético. — E você não ousaria pegar minha bola das Meninas Superpoderosas.
— Você acha? — debochei, olhando em seus olhos.
— Tenho certeza — ela juntou as sobrancelhas e fez uma cara de brava que a deixou mil vezes mais atraente. — Eu era muito mais forte que você.
— Posso saber, então, o motivo de você ter vindo falar com o menino mais chato e fraco da festa? — perguntei, levantando uma sobrancelha.
Ela revirou os olhos e eu percebi suas bochechas ficarem um pouco mais coradas que o normal.
— Porque você parecia precisar de companhia — ela bufou e eu olhei em seus olhos, não acreditando no que ela tinha dito. — E também porque percebi você me olhando o tempo todo — ela sorriu e, dessa vez, minhas bochechas coraram.
— E-eu — tentei me justificar, só piorando a situação com o meu nervosismo.
Ela riu, colocando uma mecha solta do cabelo para trás da orelha.
— Não precisa explicar, — sorriu e, sem nenhum aviso prévio, segurou a minha mão antes de levantar rapidamente do sofá.
Meu corpo inteiro arrepiou com o susto. Eu estava tentando com todas as forças agir normalmente enquanto meu coração pulava, e não estava esperando que, do nada, uma mão gelada segurasse com tanta firmeza na minha, quente e molhada. Fiquei até com vergonha, mas ela sorriu e começou a me puxar, me fazendo levantar do sofá pela primeira vez desde que tinha chegado.
Caminhamos entre as pessoas no quintal e atravessamos o corredor que ligava a frente e os fundos da casa até chegarmos ao jardim da entrada da casa de Arthur.
A rua estava escura e silenciosa, os vizinhos certamente já tinham todos se deitado, e nós conseguíamos ouvir fracamente o barulho que os adolescentes faziam nos fundos.
Ela soltou minha mão antes de se sentar na grama.
— Sempre gostei de sentar aqui — disse, abraçando as próprias pernas. — Ficar olhando as pessoas passarem na rua.
Eu não conseguia parar de olhar para ela. Embora estivéssemos iluminados apenas pela luz fraca dos postes e pela iluminação – mais decorativa do que efetiva – do jardim de Arthur e das casas próximas, parecia emitir luz própria enquanto seus cabelos eram bagunçados pelo vento frio.
Decidi me sentar ao lado dela, mesmo odiando grama, e fiquei observando os detalhes de seu rosto enquanto ela observava a rua vazia.
— Estamos em agosto, né? — ela perguntou depois de um tempo e eu apenas assenti, sem forças para nada além de encará-la e admirá-la.
Ela olhou para mim e sorriu, percebendo que eu não tinha deixado de observá-la. Então se deitou ali mesmo, no jardim da casa de Arthur, e ficou olhando para o céu.
— Deita, — falou, sem deixar de olhar para cima.
Eu obedeci. A grama nem me incomodou, porque o cheiro de parecia inebriar todos os meus outros sentidos.
— Olha pro céu — pediu, rindo por eu ainda estar olhando para ela, e apontou com o dedo para algum lugar. — Tá vendo aquelas estrelas?
Meus olhos seguiram para a direção que ela apontava, sem que eu conseguisse identificar nada de anormal ou diferente.
— Tô vendo várias estrelas — respondi, dando de ombros.
— O triângulo ali — apontou novamente e eu consegui enxergar três estrelas que realmente se assemelhavam a um triângulo, depois senti seus olhos queimarem sobre mim. — Triângulo de verão — eu encarava o céu, tentando não me virar novamente para ela, sentindo meu coração pulsar rapidamente na minha garganta e buscando pelo ar que parecia ter desaparecido dos meus pulmões. — Altair, Deneb e Vega. São as estrelas que eu mais gosto.
— São bonitas — respondi, sentindo as mãos suarem.
— Só aparecem no verão — ela falou, voltando seu olhar para cima e me permitindo respirar novamente. — Parece que são pessoas de verdade, que vêm visitar a gente — sorriu e eu voltei o olhar para ela, que fechou os olhos.
A essa altura, a bebida vermelha já borbulhava no meu estômago pela junção do meu organismo estranhando o álcool com o nervosismo que estava me provocando. Eu estava rezando para que a vida não me pregasse uma peça e decidisse me envergonhar na frente daquela garota.
— Fala alguma coisa, — ela pediu, ainda de olhos fechados.
Respirei fundo. Minha mente parecia ter dado um branco e eu só conseguia pensar na menina ao meu lado.
— Você... — “está maravilhosa, a garota mais linda que já vi”, eram as palavras que estavam na minha mente, mas que saíram totalmente sem som pela minha boca, como se tivessem caído uma a uma na grama molhada em que eu estava deitado. — ... Mudou — soltei, fazendo uma careta por não conseguir expressar exatamente o que eu queria falar.
Ela abriu os olhos e virou seu corpo para mim, apoiando o cotovelo no chão e a cabeça na mão, de maneira que ficasse deitada de lado e pudesse me observar melhor.
— Você também — ela encarou meus olhos e, por um momento, pensei ter visto neles o mesmo desejo que eu estava sentindo, mas ela desviou-os rapidamente para a grama. — Mas não pense que agora consegue me vencer no futebol — riu e eu acompanhei, apoiando o cotovelo no chão também e ficando de frente para ela.
— Tá marcado, então — olhei-a, desafiador. — Até quando você fica por ?
— Só esse final de semana — ela suspirou e eu senti meu coração parar de bater dentro do meu peito, como se alguém estivesse o apertando. — Mas provavelmente venho passar as férias aqui no final do ano — sorriu, divertida. — Aí posso te vencer melhor. — voltou a deitar-se de costas no chão, sorrindo.
E era aí que meu sonho acabava. voltaria para Cardiff em poucos dias e seguiria sua vida de garota bonita da cidade grande enquanto eu continuaria aqui até o fim da minha vida, nesse vilarejo minúsculo, vivendo todos os dias iguais com as mesmas pessoas e me lembrando dela, a única coisa diferente que havia brilhado por um momento na minha vida. Mas que se apagaria tão rápido quanto se acendeu.
— Você deve estar louca pra ir embora — soltei, triste, observando seu semblante calmo.
— Realmente — ela falou e eu quase senti vontade de chorar. — Aqui por tem um tal de , que é o garoto mais insuportável do mundo — revirou os olhos teatralmente e eu a encarei, atônito. Ela olhou para mim e observou minha expressão antes de soltar uma gargalhada sincera e continuar: — É brincadeira.
Passou a mão pelo meu braço que estava apoiado no chão e todos os meus pelos se eriçaram. Seus olhos castanhos prenderam os meus e, por algum tempo indefinido, nos encaramos em silêncio, trocando segredos mudos e conversando pelo não-dito.
Criei coragem e passei o braço por cima dela, apoiando a mão no chão do outro lado do seu corpo. Fiz a mesma coisa com as pernas e encarei seu semblante confuso quando meu corpo ficou por cima do seu.
— Que bom — falei, aproximando devagar o meu rosto. — Porque não tem outro lugar que eu gostaria de estar agora.
Minha intenção era beijá-la, mas Deus sabe o quanto estava com medo de ter entendido errado os olhares dela e ser rejeitado. Por isso, ficamos ambos parados por um tempo, encarando um ao outro, até que ela colocou as mãos rapidamente no meu rosto e puxou-o mais depressa para junto do dela, juntando nossos lábios úmidos. O choque que senti pareceu durar menos de um segundo, pois, na mesma rapidez com que as juntou, ela afastou nossas bocas e soltou uma risada divertida.
Meu corpo estava completamente energizado, minha mente estava travada e meu coração iria certamente explodir a qualquer momento de tão rápido que batia.
Com a mesma agilidade de antes, ela inverteu nossas posições e sentou-se um pouco acima do meu quadril, me fazendo ter a visão mais bonita que eu já tinha tido. As poucas luzes iluminavam o seu cabelo e ela parecia ser uma das estrelas do triângulo que tinha me apontado mais cedo. Eu mal conseguia respirar.
— Você só quer me beijar pra que eu pare de falar — ela sorriu e eu sabia que nem ela mesma acreditava no que estava falando, pois, naquele momento, era visível o meu desejo.
— Não — falei sofridamente e ela riu, apoiando as mãos no meu peitoral. — Ainda quero te ouvir falar muito — continuei, sincero, só então percebendo que também queria falar um monte de coisas para ela, embora não conseguisse.
Algo em seu sorriso e em seus olhos que brilhavam me fazia querer contar tudo da minha vida para ela só para escutá-la falando sobre a sua. Eu queria mais do que tudo conhecer aquela nova , que estava agora em cima de mim e tomava conta dos meus pensamentos.
— Sabe, — ela começou, olhando para mim —, eu tinha uma quedinha por você naquela época.
Nessa hora, meu estômago embrulhou, fazendo a bebida que havia ingerido remexer em meio às prováveis borboletas que todo mundo sempre fala.
— Pensei que me odiasse — falei, observando o sorriso em seus lábios.
— Não — ela balançou a cabeça. — Eu odiava o fato de você me odiar — passou as mãos pelos cabelos que caíam na minha testa. — Até tive que roubar seu caminhão de bombeiros pra você me notar — ela riu baixo e sorriu, envergonhada. Eu queria morar dentro do sorriso dela.
— Eu realmente te odiava — ri, fazendo com que ela risse também. — Mas agora… — comecei, meu estômago dando voltas e o cheiro de invadindo minhas narinas.
Ela não deixou que eu terminasse de falar. Sua boca foi de encontro à minha com força antes que eu pudesse continuar e logo nossas línguas estavam entrelaçadas, descobrindo-se e fazendo com que eu sentisse, no pé da minha barriga, uma sensação completamente nova.
Quando nos separamos, com os rostos ainda próximos, sorriu. Não pude ignorar a palpitação em meu peito e muito menos as voltas do meu estômago.
— Eu acho — “que tô apaixonado por você”, era o que eu queria dizer, mas o líquido que borbulhava no meu estômago subiu rapidamente pela minha garganta e eu me virei num impulso, derrubando sem querer na grama e vomitando ali, na frente dela.


TWO: I used to think that I was better alone, why did I ever wanna let you go?

(Capítulo baseado nas músicas Rock Me e Love You Goodbye)

Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h23; .


Apesar do meu incidente com o vômito na primeira vez que nos beijamos, no verão de 2008, e eu continuávamos cada vez mais próximos. Ficávamos juntos toda vez que ela vinha para . Nas férias ou nos feriados prolongados, éramos como um casal e fazíamos coisas de casal. Eu adorava isso. Me sentia especial ao segurar sua mão e tinha certeza de que todos os garotos tinham inveja de mim quando dividíamos uma casquinha de sorvete.
Com o tempo, fomos nos tornando muito amigos, além de tudo. Apesar de ser pouco o tempo em que nos víamos pessoalmente, ela foi tomando lentamente espaços da minha vida que eu nem sabia que existiam. Ela era sempre a primeira pessoa para quem eu ligava para contar uma novidade ou para chorar quando estava triste. Era sempre a primeira pessoa em que eu pensava quando me acontecia alguma coisa. Eu pensava nela a cada minuto do dia e lembrava dela quando estava fazendo as coisas mais banais. E eu queria saber das coisas mais banais que tinham acontecido no dia dela. Toda vez que o telefone tocava, eu corria para atender e rezava para ouvir a risada dela do outro lado da linha. Ouvir a voz de através do telefone ou ver seu rosto pelas chamadas de vídeo tinha praticamente se tornado um mantra para mim.
Isso até junho de 2010, que foi quando o destino simplesmente decidiu virar a minha vida do avesso.
Depois que pisei no palco do X-Factor, minha vida nunca mais voltou a ser a mesma. As pessoas não me olhavam mais da mesma maneira, o meu ciclo social mudou, eu não tinha mais contato com meus amigos de , e até minha irmã estava me tratando melhor. Às vezes eu pensava até que, de alguma forma, o eu antigo tinha morrido para dar lugar a uma pessoa completamente nova, de tanto que as coisas tinham mudado. Tudo estava diferente. Bem, tudo menos ela.
No meio de todo esse caos, continuava sendo a de sempre. Ela continuava a mesma pessoa, brilhando do mesmo jeito, sorrindo do mesmo jeito e amando do mesmo jeito. Continuava me amando e continuava me ligando, mas, por causa da nova rotina, nem sempre eu atendia.
Ela tinha sido, por um tempo, a coisa diferente da minha vida, o brilho quando tudo era opaco e sem graça na velha . Mas, quando de repente tudo se tornou diferente, ela se tornou igual. E eu, naquele momento com meus 18 anos recém-completos e um princípio de fama batendo à porta, achei que era a minha vez de ser diferente. E, na concepção fajuta de um recém jovem adulto, ser diferente significava deixar as coisas normais para trás. Inclusive ela.


Terça-feira, 21 de julho de 2009; 15h44; Liverpool.

O verão de 2009 tinha sido facilmente a melhor época da minha vida.
Claro, ser famoso e cantar é maravilhoso e me proporciona, até hoje, incontáveis momentos que nunca vou esquecer. Ter fãs é algo que me encanta e me faz agradecer todos os dias. Ter muito dinheiro também me garante que eu tenha as melhores coisas das melhores marcas sempre que eu quiser.
Mas aquela época era diferente. Naquela época, tudo era maior. As pessoas geralmente falam que o ser humano tende a idealizar o passado por causa de sentimentos como a nostalgia e toda essa baboseira romântica. Admito que, realmente, talvez isso aconteça comigo. Mas isso não altera o fato de que eu era extremamente feliz quando vivia aquilo.
Em 2009, eu estava no segundo ano do Ensino Médio. Tinha um grupo de maravilhoso de amigos e estava apaixonado, o que é uma combinação perfeita para que um adolescente de 16 anos de idade se ache o dono do mundo.
Além disso, em 2009, passou o verão inteiro em . A mãe de Arthur tinha feito uma cirurgia nas varizes e a mãe de mandou ela e seu irmão, Evan, para ajudarem nas coisas da casa enquanto a Sra. Hill se recuperava. Se eu quisesse vê-la, só precisava ir à casa do Arthur, que ficava apenas a dois quarteirões da minha. Tudo estava perfeito. A garota que eu gostava estava a uma curta caminhada de distância depois de meses se comunicando apenas por Skype, e poderíamos fazer qualquer coisa que quiséssemos. Eu pensava que não poderia melhorar. E, claro, estava enganado.
Era uma terça-feira quando decidimos ir até Liverpool. O pai de Arthur tinha acabado de comprar um carro novo, o que significava que o antigo ficaria por conta de Art até que o Sr. Hill encontrasse um comprador. Todos acharam que seria uma ótima ideia estrear o “presente” de Arthur com uma ida à praia. E foi isso que fizemos depois de convencermos os pais dele e termos uma pequena discussão sobre quem iria no banco do passageiro.
Fomos no carro eu, , Evan e Millene, a namorada de Arthur. Chegamos no final da tarde, pois havia acordado por volta das 14h e insistido em almoçar antes de sair.
Os meninos foram procurar madeira para fazermos uma fogueira, pois, apesar de ainda não estar escuro, estava frio para caramba, e eu e ficamos nos beijando na areia enquanto Millene fazia piadinhas obscenas.
Apesar de serem mais velhos que , Arthur e Evan não eram nada protetores e se juntaram à Millene nas piadas assim que chegaram com a lenha. e o irmão tinham uma relação muito bonita. Diria que eram melhores amigos se, no caso, eu não me considerasse o melhor amigo dela.
Assim que a fogueira ficou pronta, nos colocamos ao redor dela e ficamos conversando. Como sabia fazer tudo, ela pegou o violão que havia trazido e começou a tocar algumas músicas, e eu me lembro de pensar, naquele momento, o quanto ela era perfeita e o quão apaixonado eu estava.


Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h35; .

Escutei duas batidas e me ajeitei na cama, observando a cabeça de aparecer no vão que se abriu entre a porta e a parede branca do meu quarto. Ela estava com uma das mãos nos olhos e riu antes de falar:
— Espero que não esteja pelado.
Soltei uma risada baixa para acompanhá-la, mas estava tão nervoso que nem soube se ela escutou ou não.
— Nada que você já não tenha visto — falei, tentando me animar um pouco, mas minha mente continuava pensando no que eu teria que falar.
Ela abriu um espaço entre os dedos para me observar e soltou um grunhido de desaprovação quando me viu completamente vestido, tirando a mão do rosto e fechando a porta atrás de si.
— Eu estava secretamente esperando que você estivesse realmente pelado — ela sussurrou, rindo, e eu sorri amarelo.
Silêncio. Estava decidido, mas, agora que ela estava ali e que seu perfume estava tão próximo de mim de novo, não me sentia preparado. fez uma careta antes de se sentar ao meu lado na cama.
— Trouxe um presente — ela falou, sorrindo, e me entregou uma sacola vermelha, em que era possível enxergar um disco de vinil através do material translúcido.
— Não precisava — respondi, sem graça e começando a me sentir mal.
Ela continuava sendo a pessoa mais legal do mundo e eu me sentia idiota por não querer continuar o nosso relacionamento.
— Eu sei — ela revirou os olhos. — Mas eu quis — sorriu antes de beijar a minha bochecha. — Abre.
A sacola quase tremia em minhas mãos e eu tive medo de tirar o LP de dentro dela. Tive medo de desistir do meu propósito. Tive medo de entender que eu ainda amava e que terminar com ela era a coisa mais absurda que eu poderia fazer.
O silêncio se instalou no quarto novamente e ficou visivelmente incomodada. Raramente ficávamos em silêncio, era quase impossível não termos um assunto. Muito provavelmente, ela tinha percebido desde que abriu a porta que eu estava estranho. Ela sempre sabia de tudo.
Eu tentava entender o porquê de eu estar tão estranho. Nunca tive medo de falar nada para , afinal. Naquele momento, porém, eu estava, no meu íntimo, lutando contra mim mesmo. Estava com medo de dizer o que eu havia decidido dizer. E pensei até em voltar atrás ao observar seus olhos curiosos se comprimirem e seu corpo se mexer desconfortável enquanto ela pegava a sacola em minhas mãos e tirava, ela própria, o LP de dentro.
Ela se levantou rapidamente, mas consegui identificar que o disco era o Abbey Road dos Beatles, e soltei um suspiro demorado enquanto ela o encaixava na minha vitrola.
Os primeiros acordes da primeira música começaram e ela se virou novamente para mim, apreensiva.
— Desculpa por não ter vindo pro seu aniversário — falou. Eu observava seus olhos me observando e me sentia a pior pessoa do mundo. — Minha última prova foi ontem e eu realmente precisava estudar.
— Eu sei, — falei, compreensivo. Não estava chateado com ela, nem perto. Estava chateado comigo mesmo. — Não tem problema nenhum — sorri, sincero, e ela acalmou os ombros, ficando menos tensa e voltando para a cama para me abraçar.
— Feliz aniversário, — ouvi sua voz no meu peito e senti vontade de chorar. Meu coração se apertava cada vez mais.
— Obrigado, — suspirei e ela levantou a cabeça para me encarar. — Como foi nas provas?
Eu tentava prolongar ao máximo nossa conversa para que o momento onde eu seria obrigado a falar não chegasse. Será que eu realmente era obrigado a falar? Se eu tivesse a noção que tenho hoje naquela época, certamente teria respondido: “É lógico que não, seu imbecil. Você está criando coisas na sua cabeça infantil de merda e está sendo egoísta pra caralho”. Mas eu não tinha ideia. Tinha dezoito anos e uma cabeça infantil de merda, tinha acabado de ficar famoso de uma hora para a outra, e estava pensando em mim mais do que em qualquer outra coisa. E, pensando em mim, eu achava que seria muito melhor estar sozinho quando começava a trilhar uma carreira. Eu realmente não tinha ideia.
parecia não engolir uma palavra do que eu falava e parecia pressentir que algo iria acontecer, mas, mesmo desconfiada, abriu um sorriso lindo antes de responder:
— Eu passei — separou nossos corpos abraçados antes de me olhar fixamente, sorrindo abertamente. — Passei de ano e…
Como falei, egoísta de merda. Eu a via ficando feliz enquanto falava e só pensava que ela ficaria ainda mais triste quando eu falasse o que tinha que falar para ela, por isso a interrompi, mas as nossas falas acabaram por ser iguais.
— Tenho uma coisa pra te falar — falamos juntos, ou quase isso.


Terça-feira, 21 de julho de 2009; 16h17; Liverpool.

ficava mais linda ainda quando tocava, se é que isso era possível. Ela se conectava com a música e qualquer um ao seu redor poderia afirmar que ela se desconectava da realidade, entrando em um estado catártico enquanto ouvia a melodia que saía de suas próprias mãos.
Ela era apaixonada por música. Todo e qualquer tipo de música. E sonhava em poder trabalhar com isso, embora soubesse que seus pais nunca iriam deixar.
Os pais de eram advogados, e, mesmo ela sempre tendo certeza de que não queria seguir a carreira, era nisso que os pais dela apostavam desde sempre. E sempre se importou demais com a opinião deles para confrontá-los, levando sua maior paixão sempre como um hobby.
Ali, porém, em volta da fogueira, enquanto ela tocava e eu cantava – porque ela dizia que a minha voz era bem melhor do que a dela, embora eu não concordasse –, percebi que não queria que trabalhasse com algo que não fosse sua paixão. Percebi que queria ajudá-la a trabalhar com música e jurei para mim mesmo que um dia o faria. Queria que fosse para sempre daquele jeito. Nós dois, juntos, fazendo o que amávamos fazer, sem amarras, sem julgamentos, até que ficássemos velhos e impossibilitados. Eu soube que queria ela para mim, e que queria protegê-la de quem a fizesse mal e enfrentar com ela quem não a compreendesse.
Ali, naquela terça-feira do verão de 2009, enquanto o sol se punha lentamente e eu ouvia o som que saía dos seus dedos e da sua alma, eu soube que amava . E que nunca iria querer dizer adeus a ela.


Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h43; .

— Pode falar primeiro — respondi, balançando a cabeça, e ela assentiu, sorrindo.
— Fui aceita na Universidade de Manchester — seu sorriso era largo e seus olhos brilhavam. — Vou fazer Música, !
Não pude deixar de arregalar os olhos e abrir um sorriso sincero, a abraçando fortemente.
, como isso aconteceu? — perguntei, animado, voltando a olhar para ela. — O que seus pais acharam disso?
Ela suspirou e deu de ombros antes de responder:
— Eles não têm que achar nada.
Arregalei os olhos, relativamente surpreso, mas verdadeiramente feliz. Não conhecia aquele seu lado e acho que ela percebeu.
— É minha vida, — ela falou simplesmente. — É o que eu vou fazer pro resto dela — suspirou, e eu pude ver que ainda estava um pouco nervosa ou confusa com a aquela decisão.
Balancei a cabeça, assentindo e tentando encorajá-la ao segurar suas mãos geladas.
— Estou muito orgulhoso de você — falei, sincero, observando seus olhos brilharem novamente.
— É tudo por sua causa — ela voltou a sorrir e eu engoli em seco instintivamente. — Bem, você com esse programa de talentos e toda a coragem que teve — ela deu de ombros, se referindo ao X-Factor. — Tudo bem que seus pais são bem diferentes dos meus — riu, e eu me sentia cada vez mais na merda —, mas você conseguiu.
Meu sorriso diminuiu aos poucos e, se eu não estivesse tão babaca e egoísta na época, teria decidido ali, naquela hora, que terminar com ela não era mais uma opção. Ainda mais quando ela se aproximou de mim, colocando as mãos no meu pescoço, e disse:
— E agora estarei a apenas trinta minutos de você — selou nossos lábios rapidamente e me encarou, sorrindo e balançando-se no ritmo da música que tocava na vitrola. — E você, o que tem pra falar?
Segurei seus braços, que estavam envoltos em meus ombros, e afastei-os um pouco com o semblante sério, o que fez com que ela desse um passo para trás, com a expressão confusa e um olhar um pouco abatido. E, ali, eu soube que ela já sabia o que estava por vir.


Terça-feira, 21 de julho de 2009; 18h59; Liverpool.

O sol já havia se posto e a lua tomava uma boa parte do céu. Eu e estávamos deitados em uma toalha na areia, enrolados em uma manta e observando as estrelas enquanto nossos amigos estavam conversando um pouco mais distantes. A luz da lua se juntava à luz que emanava do resto da fogueira e o barulho que as ondas faziam quando chegavam à praia parecia o som perfeito quando se juntava à melodia da voz de . Eu estava rendidamente apaixonado.
Não pensei duas vezes antes de pedir a chave do carro emprestada para Arthur, dizendo que iríamos comprar um band-aid porque tinha machucado o pé. Era mentira, claro. O pé dela estava perfeitamente normal, mas senti a necessidade de ficar a sós com ela por um momento e dizer tudo o que eu estava sentindo.
Apesar do frio lá fora, estava quente quando entramos no carro. Sem a luz da fogueira, apenas a lua nos iluminava parcamente, através do para-brisas, no banco traseiro do veículo.
Os olhos de também brilhavam no escuro, iluminando seu rosto delicado e destacando cada traço de uma expressão nova em seu rosto. O sorriso meio ladino, as bochechas levemente coradas e os olhos ardendo e fixados em mim, me queimando.
Estávamos ambos nervosos. O banco de couro tremia no ritmo de nossos corações acelerados, mas ela não transparecia tanto quanto eu. Em algum momento, ela engatinhou até o painel do carro e apertou um botão, e uma rádio local de rock começou a tocar.
— Acho que eu amo você, — soltei, sentindo meu corpo inteiro estremecer, quando ela voltou devagar para o banco traseiro.
Ela arregalou os olhos, como se não estivesse esperando por isso, e seu sorriso alargou, fazendo com que meus ombros relaxassem.
— Eu também acho, — ela riu, nervosa, e suas mãos, geladas como sempre, seguraram as minhas.
Ela sorria e se aproximava mais de mim, enquanto meu corpo obedecia prontamente a todos os seus pedidos e respondia quase que imediatamente aos seus toques, arrepiando-se ou tremendo um pouco.
— Acho que a gente devia… — comecei, já meio inebriado pelo cheiro dela e pela proximidade nada saudável entre nós. — ... Tipo, namorar.
Ela sorriu antes de se aproximar mais ainda, levantando-se e ficando de joelhos na minha frente, abrindo as pernas para sentar-se no meu colo.
— Você tá me pedindo em namoro, ? — ela sussurrou contra a minha boca, o nariz encostado ao meu e os cabelos caindo sobre meu rosto.


Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h49; .

… — suspirei e ela balançou a cabeça, como se pedisse para eu continuar, com um semblante sério no rosto. — Você sabe, nada mais está normal na minha vida — limpei as mãos que suavam na minha calça, e me pus a olhar o chão. — Fiquei quase o mês de janeiro inteiro em Londres gravando algumas coisas e isso é só o começo.
A expressão de estava indecifrável e eu engoli em seco.
— Sei, — ela respondeu, a voz inabalável mas os olhos transparecendo que seu interior estava balançando. — Fale logo o que quer dizer.
Ela estava séria, o semblante firme, e já sabia o que eu queria dizer, mas esperava para ouvir de que forma eu diria.
— chamei e ela assentiu, olhando nos meus olhos. — Quero dizer que nem tudo na minha vida vai ficar igual — virei-me de costas para ela, passando a mão pelo rosto e me sentindo um covarde por não conseguir olhar para ela. — E que eu não posso te submeter a essa mudança.
Por um momento, esperei que ela dissesse algo como “mas eu quero me submeter a essa mudança” ou “você não pode decidir isso por mim” – frases típicas do temperamento forte e decidido de –, e que nós entrássemos em uma discussão sobre o futuro e como ficaríamos ou não ficaríamos juntos. Mas ela apenas ficou calada, fazendo com que o único som no quarto fosse a voz dos Beatles ecoando na vitrola.
, não acho que conseguiremos ficar juntos — falei rapidamente, após perceber que ela permaneceria em silêncio.
Aguardei mais algum tempo, escutando Paul McCartney cantar e rezando para que falasse alguma coisa, mas nada.
Voltei-me para ela, para encontrá-la exatamente como antes: o semblante firme, a expressão indecifrável. Nenhum resquício de tristeza ou dor. Mas eu conhecia muito bem para saber, através de seus olhos, que ela desabava por dentro. Mesmo assim, não me pergunte como, ainda tive coragem de dizer, olhando para ela:
— Acho que tenho que entrar nessa sozinho — e encarar seu semblante mudo por algum tempo antes de explicitar: — Estou terminando com você, .


Terça-feira, 21 de julho de 2009; 19h11; Liverpool.

Eu estava suando enquanto sentia sua virilha encostada à minha e, por impulso, segurei forte sua cintura, puxando-a para mim, quase fundindo nossos corpos.
Oh! Darling, dos Beatles, começou a tocar e ela suspirou alto enquanto sentia meus toques por baixo de seu vestido. E eu, pela primeira vez na vida, tive certeza do que queria.
— Namora comigo, — pedi, suspirando também, e ela fechou os olhos, aproveitando o momento.


Oh! Darling, please believe me
I’ll never do you no harm


Nossos pelos se eriçavam com facilidade. Nossos corpos se mexiam desengonçadamente no ritmo da música e nossos corações pulsavam juntos, assim como todos os outros membros, que pareciam mais vivos do que nunca.
Ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, respondendo ao meu pedido. Entendi que ela estava sem forças para responder verbalmente quando sussurrou fraca e espaçadamente ao meu ouvido:
— Sim, eu quero namorar com você.
O ar começava a faltar no carro apertado e ela passou as mãos pelos meus cabelos antes de levar sua boca em direção à minha num beijo lento. Ela se movimentava contra mim, querendo nos aproximar mais, e eu apertava forte sua cintura, por dentro de seu vestido, sentindo seu corpo inteiro arrepiar contra o meu.
— Eu te amo, — assegurei quando separamos nossos lábios e nossos narizes se encostaram novamente.
— Eu também te amo, — ela falou calma, apesar de sua respiração acelerada.
Acariciei seu rosto com uma das mãos enquanto ela sorria timidamente. Ela beijou meu dedo quando ele passou por sua boca e, no ritmo da música, cantou baixinho:
— Me faça acreditar que você nunca vai me fazer mal.
Eu entendi o que ela quis dizer quando começou a distribuir beijos molhados pelo meu pescoço e a percorrer as mãos macias pelos meus ombros e peitoral, fazendo com que meus músculos se contraíssem.
Deitei-a sobre o banco cuidadosamente e me pus por cima dela, os cotovelos apoiados ao lado de sua cabeça.


Believe me when I tell you
I’ll never do you no harm


Me mostre que você se importa, — falou com os olhos fechados, suas mãos apertando com força os meus braços e suas pernas começando a contornar meu tronco.


Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 11h27; .
Edwards


Oh! Darling, if you leave me
I’ll never make it alone


Por coincidência ou pura ironia do destino, era Oh! Darling que tocava na vitrola quando o peso do meu corpo caiu, exausto, sobre o de na cama.
Estávamos em silêncio absoluto. Nenhum de nós ousava falar qualquer palavra que quebrasse o sentimento envolvido no momento que havia acabado de acontecer. Nossos corpos unidos pela última vez ao som da música que nos uniu pela primeira vez, no verão de 2009.
Algo roçava em minha garganta quando descansei a cabeça em seu peito e eu queria acreditar que também se sentia assim, apesar de ele parecer tranquilo enquanto sua mão caminhava suavemente pelas minhas costas.
Era o fim. E o fim tinha o gosto amargo da saudade.


When you told me you didn’t need me anymore
Well, you know, I nearly broke down and cried


Não pensei, nem por um momento, em discordar enquanto ele terminava comigo, embora sua voz, vinte minutos depois, ainda ecoasse repetidamente na minha cabeça, que começava a dar indícios de uma enxaqueca.
Eu sabia que teríamos que nos separar algum dia, afinal. Nunca pensei que seríamos eternos, apesar de desejar, naquele momento, que Oh! Darling fosse infinita e que nós pudéssemos ficar ali, juntos e em silêncio, para sempre.
Mas o fim era inevitável, tudo acabava um dia, inclusive as coisas boas. Só não pensava que seria tão de repente, e que eu não estivesse preparada quando isso acontecesse. Eu sempre estava preparada para tudo e odiava ser surpreendida, mas me peguei realmente surpresa quando decidiu me dar adeus.
Não consegui evitar que uma lágrima solitária rolasse por meu rosto e caísse no peito de , fazendo com que ele levantasse um pouco a cabeça e segurasse meu rosto com as mãos firmes.


Oh! Darling, please believe me
I’ll never let you down


, eu… — ele começou, mas coloquei um dedo sobre a sua boca antes que ele continuasse a falar.
— Fica quieto, — falei pela primeira vez, com a voz baixa. Desenhei seu rosto com a mão, tentando decorá-lo. — Eu entendo — tentei sorrir, mas meus lábios não obedeceram a meu comando, então só encarei , que também me encarava. — Tá tudo bem. Somos adultos.
Ele pareceu assentir, mas seu olhar era triste como o meu, apesar de tudo.
Embora eu estivesse triste, não queria que fosse de outra maneira. Havíamos jurado nos amar e ele me amou até não sentir mais o mesmo. Eu preferia que isso acontecesse do que se tivesse empurrado um relacionamento sem sentir mais alguma coisa por mim. Sempre fomos sinceros um com o outro e, apesar de estar doendo naquele momento, eu era madura o suficiente para agradecer a pela sinceridade, embora eu não tivesse dito uma palavra desde então.
De qualquer forma, naquele momento, pensei que a pessoa que disse que alguns infinitos eram menores do que outros, ou algo parecido com isso, realmente estava certa. E eu tentava me convencer disso enquanto lembrava de nossos bons momentos juntos e segurava o choro preso no meu peito, que subia e descia junto com o de .
Nunca mais seria assim.


Believe me when I tell you
I'll never do you no harm


— Despedidas são amargas — ele soltou quando a música acabou, me encarando, e eu assenti, concordando.
Eu entendia , apesar de tudo. Entendia seu lado e o que tinha o levado a tomar essa decisão. E sabia que ele me entendia também, por isso me encarava com ternura e preocupação.
Doía, mas eu sabia que ia passar e não queria que ele se martirizasse por estar fazendo o que queria. Muito antes de namorados, éramos amigos. E amigos se importam com a felicidade um do outro. estava feliz com seu novo caminho e sua nova vida, e eu esperava conseguir ficar feliz por ele também. Acima de tudo, porém, eu esperava que continuássemos amigos e que ele não me esquecesse completamente.
Era impossível saber o que aconteceria dali para frente. em Londres, com seus novos amigos e sua nova vida, e eu em Manchester, sozinha e pronta para descobrir um mundo completamente novo, sem quem eu mais esperava estar por perto. Eu esperava, ingenuamente, que ainda assim pudéssemos nos ajudar, como amigos, à distância.
Estiquei um pouco o corpo para alcançar os seus lábios macios e quentes. Doeu entender que estaria experimentando-os pela última vez.
Enquanto me lembrava inconscientemente de todas as coisas que já tínhamos passado e de todas as noites em que tínhamos nos amados verdadeiramente, uma segunda lágrima salgada caiu de meus olhos fechados e se juntou ao gosto doce do nosso beijo.
— Boa sorte, — falei suavemente contra seus lábios antes de me afastar dele, provavelmente pela última vez.
Esperei que ele me devolvesse o desejo de sorte enquanto eu me levantava de sua cama e procurava por minhas roupas entre os lençóis bagunçados. Mas ele ficou quieto e reflexivo por muito tempo, e só abriu a boca quando eu estava prestes a sair de seu quarto, com o coração na mão e um nó enorme na garganta:
— Tchau, .


THREE: You know I can’t fight the feeling and every night I feel it.

(Capítulo baseado nas músicas Right Now e Too Much To Ask)

Quarta-feira, 14 de dezembro de 2011; 17h56; Manchester.
Edwards


O clima natalino já enchia as avenidas largas de Manchester naquele dia 14. O gorro cor de rosa em minha cabeça detia alguns flocos de neve que desciam do céu, que começava a escurecer.
Desde que saí da Universidade, há quase trinta minutos, estava andando sem rumo pelas ruas decoradas. Eu deveria estar no alojamento, me arrumando para a comemoração do fim do meu primeiro semestre, mas algo em especial naquela noite de dezembro me mantinha longe do pequeno dormitório que eu dividia com uma menina que sequer olhou na minha cara nos últimos meses. Eu sabia muito bem o que era, embora evitasse pensar muito nisso.
Era quase como se, à medida que a noite descia por entre os flocos de neve naquela noite de dezembro, algo chamasse por mim. Ou como se, de alguma forma que eu não sabia explicar, eu estivesse esperando por alguém.
Vozes de todos os timbres, tons e alturas cantavam músicas de Natal na praça em que resolvi me acomodar, sentando-me em um banco vazio mais distante de todas as famílias e rostos alegres que acompanhavam contentes a melodia das canções. Uma lágrima fina rolou pelo meu rosto gelado enquanto meu coração se aquecia.
Meus pais não falavam comigo desde que perceberam que eu realmente viria para Manchester estudar Música e não estava apenas brincando quando contei isso para eles, no início do ano. Não os culpava, afinal, também era o sonho deles que estava em jogo. Quem cuidaria do escritório e do renome quando eles se fossem? Eles haviam apostado literalmente todas as fichas em mim, e, às vezes, até me sentia egoísta por estar seguindo o meu sonho. Já que, apenas devido à educação que eles me deram, eu poderia estar desobedecendo-os e estudando na Universidade de Manchester.
Meu irmão, Evan, estava agora na Austrália, fazendo seu mestrado em Biologia. Raramente conseguíamos nos falar sem ser em horários muito impróprios e desconfortáveis para algum dos dois. Naquele momento, por exemplo, em que eu realmente gostaria de ouvir sua voz, deveria ser algo próximo das quatro ou cinco da manhã por lá. Quando ele me ligou mais cedo, eu estava no meio da minha última prova de Abordagens para Musicologia.
Eu já estava acostumada, depois de seis meses. Mas, em momentos como aquele, enquanto estava sentada em um banco de uma praça qualquer ouvindo estranhos cantarem músicas natalinas, eu me sentia muito sozinha.
Sempre fui uma pessoa extrovertida, mas algo em mim havia simplesmente travado nos últimos tempos. De alguma forma, apesar de querer muito, era como se eu não me sentisse pertencente. Como se eu não devesse estar ali, estudando Música em Manchester, e sim em Cardiff, estudando Direito para dar continuidade ao negócio dos meus pais. Era como se eu não merecesse viver o que queria, nem mesmo fazer amigos na nova cidade e na Universidade. Havia me isolado e me privado de tantas coisas de uma maneira que nem eu mesma entendia, mas que doía tanto a ponto de quase me fazer desistir de tudo e voltar para casa.
Minha maior inspiração, aquele que me encorajou a largar tudo e entrar de cabeça nessa aventura, deveria estar agora na América ou em qualquer outro lugar onde houvesse coisas e pessoas muito mais importantes e interessantes do que eu. Talvez ele nem se lembrasse mais de mim, porque, desde o dia do seu aniversário, no começo do ano – também lembrado como o dia em que terminamos nosso relacionamento –, nunca mais havíamos nos falado.
Apesar disso, continuava me lembrando dele todos os dias. Não havia um dia sequer em que ele não estivesse incrustado no fundo dos meus pensamentos e nos meus mais profundos desejos antes de dormir. Eu evitava ouvir sua música ou ligar a televisão em algum canal que ele pudesse aparecer de repente, mas, com o tempo, foi se tornando inevitável não escutar em qualquer lugar sobre o membro cobiçado da One Direction.
Gostaria de saber se ele pensava assim em mim também. Se ele às vezes se pegava rezando para ver meu nome no visor do celular quando o ouvia tocando, porque eu fazia isso cada mísera vez. Me pegava imaginando o que eu falaria se um dia, por acaso, o encontrasse na rua, e meu coração sempre pulava uma batida quando o confundia com alguém que estivesse de costas na fila do mercado ou no ponto de ônibus. Não que fosse algum dia pegar um ônibus em Manchester, mas eu não podia controlar o desespero e a esperança que subiam no pé da minha barriga quando eu pensava que, um dia, poderia realmente ser ele passando as compras no caixa ao lado do meu.
Também não podia lutar contra o sentimento egoísta que insistia em me fazer querer que ele estivesse aqui comigo, enquanto tudo era extremamente novo para mim. E eu sentia isso todas as noites.


Terça-feira, 14 de dezembro de 2010; 00h22; .
Edwards


Tarde da noite. Os sorrisos mais radiantes estavam nos rostos ao redor da mesa amadeirada no quintal da casa de . Eu, ele, nossos amigos e os novos amigos dele, os companheiros da banda que tinha acabado de ser formada e de sair com o terceiro lugar do programa de talentos mais famoso do Reino Unido. Tudo ainda era muito novo e tudo ainda parecia um sonho.
— Você é a , certo? — o membro que tinha apresentado como se dirigiu a mim. Balancei a cabeça em concordância, o sorriso estava congelado no meu rosto. — O não parou de falar de você nem por um minuto! Aposto que sei mais sobre a sua vida do que você mesma — ele brincou, fazendo com que todos rissem e tentasse esconder a tonalidade rosada de suas bochechas na curva do meu pescoço.
— Por aqui não foi muito diferente — Evan rolou os olhos, apontando com a cabeça para mim e atraindo a atenção da mesa. — isso, aquilo, “você viu como dança bem”.
Meu rosto esquentou enquanto eu ria, balançando a cabeça.
— Ela me ligava de Cardiff todo sábado pra ter certeza que eu não perderia as apresentações ao vivo — Arthur, meu primo, complementou, fazendo com que os meninos da banda fizessem poses engraçadas, se sentindo importantes.
— Acho que é o único casal que eu conheço que se dá tão bem à distância — Evan comentou novamente, nos encarando de rabo de olho e deixando transparecer em seu rosto sério um pequeno sorriso acolhedor.
Sorri verdadeiramente, assentindo com a cabeça, quase como que agradecendo pelas palavras do meu irmão.
Os meninos retornaram a tagarelar sem parar. havia voltado com eles de Londres no dia anterior e, pelo pouco que eu os conhecia, sabia que eram divertidos e bastante animados.
Meu peito, porém, não apertava de saudade deles – afinal, eu sequer os tinha visto sem ser na televisão. Era de que eu sentia falta todos os minutos do dia. E, mesmo que ele estivesse ao meu lado há três horas, desde que eu o havia buscado no aeroporto, e que eu segurasse firmemente sua mão por debaixo da mesa, era quase como se ele não estivesse verdadeiramente ali. Como se uma projeção ocupasse seu lugar entre meus braços.
— Um dia o ficou horas trancado no camarim escrevendo uma carta pra você — outro companheiro de banda, o , comentou, chamando minha atenção. — Uma carta! — ele enfatizou, gargalhando. — Quem ainda escreve cartas?
— A aqui — Arthur apontou para mim com o polegar. — O pegou essa mania esquisita dela — concluiu, rolando os olhos.
— Chega de queimação de filme, né? — falei, envergonhada, levantando da cadeira em que estava sentada e ajeitando a minha saia. — Me ajuda a pegar mais bebidas? — olhei para , que não demorou a assentir e levantar-se também.


Quarta-feira, 14 de dezembro de 2011; 18h03; Flórida.


Era muito estranho passar um Natal sem neve. A temperatura do sul dos Estados Unidos me incomodava a ponto de me fazer ficar deitado na cama do quarto de hotel encarando a janela, enquanto meus companheiros de banda saíam para se divertir.
Talvez tivesse outro motivo para o súbito desconforto, mas preferia colocar a culpa no calor e na falta de flocos brancos caindo no meu rosto. Pela primeira vez, iria passar o Natal longe da minha família e dos meus amigos, a um oceano de distância, para ser mais específico. E, pela primeira vez em um ano, alguns questionamentos surgiam na minha cabeça.
A fama não era apenas festa. Era responsabilidade e trabalho. E, principalmente, era ausência e saudade. Eu sentia falta de absolutamente tudo em minha vida antiga. Dos meus pais, da minha irmã, dos meus amigos, de , de tudo o que eu gostava, e o pior, de tudo o que eu jurava que não ligaria em perder.
Familiares chatos, casa pequena e apertada, minha irmã demorando uma hora no banheiro que dividíamos, escola, professores insuportáveis, matemática, comida sem graça da cantina, as mesmas festas e as mesmas pessoas. E, claro, ela.
Afinal, o que se tornara diferente agora era justamente o normal. Até quando esse paradoxo me perseguiria?
Quando tudo era normal, eu queria mais do que tudo algo que fosse diferente. Agora que tudo é absurdamente novo e diferente, eu queria que tudo voltasse a ser como antes. E que ela estivesse aqui comigo.
Me sentia idiota, bipolar e egoísta. Afinal, eu havia terminado com ela. Eu a havia deixado na mão enquanto ela também dava um passo importante em sua vida. Eu havia ligado apenas para mim enquanto ela se desdobrava para me apoiar.
Por isso, assim que percebi a burrada que havia feito, algumas semanas depois do meu aniversário, me considerei indigno de tê-la de volta.
Enquanto eu viajava pela Europa com a banda, me divertindo e conhecendo coisas diferentes, sequer pensava que ela estaria em Manchester descobrindo um mundo novo totalmente sozinha. Ou pior, que pudesse ter desistido de tudo e voltado para Cardiff para seguir a vontade dos pais, desperdiçando sua chance e seu talento.
Tarde da noite, porém, quando as luzes se apagavam e os gritos e as risadas cessavam, era nela que eu pensava. Era pra ela que eu queria ligar e contar tudo de novo que havia acontecido no meu dia, exatamente como fazíamos há um ano, quando namorávamos à distância. Era ela que eu queria que estivesse comigo, rindo comigo, descobrindo o mundo comigo.
Às vezes, esquecia que ela de fato não era mais a minha namorada e eu não podia simplesmente ligar quando via algo que era sua cara ou quando eu estivesse passando mal depois de comer camarão.
Será que ela sequer pensava em mim às vezes? Ou será que sua nova vida em Manchester já havia preenchido o meu lugar? Ela sempre foi mais extrovertida do que eu, afinal. Com certeza já tinha vários amigos e um novo namorado para me substituir, mil vezes melhor do que eu, inteligente como ela.
Eu sabia que ela não iria me ligar. A conhecia muito bem e conhecia seu orgulho. Sabia que tinha o ferido e me pegava mais vezes do que gostaria encarando os números que brilhavam no visor do telefone, pensando em discar o único que eu conhecia de cor.


Terça-feira, 14 de dezembro de 2010; 00h27; .


— Não quer realmente pegar bebidas, não é? — perguntei assim que chegamos à cozinha de minha casa, e se virou com um sorriso travesso.
— Posso querer meu namorado só pra mim por alguns minutos? — ela perguntou, me abraçando e suspirando, quase como se quisesse ter certeza que era realmente eu ali, e não uma projeção ou outra pessoa me substituindo.
Seus dedos finos apertavam com força as minhas costas e eu podia sentir sua respiração rápida como a de uma criança que não queria acordar de um sonho bom que tivera.
— Senti saudade de você. De verdade — sussurrou no meu ouvido e eu respirei fundo.
Apesar de sempre termos tido um relacionamento majoritariamente à distância, eu sentia o que acabara de dizer.
Obviamente não tinha tido muito tempo para conversar com ela durante as gravações do programa, e conhecia suficientemente bem para saber que ela sentia muito mais falta de mim do que teria coragem de admitir. Por isso, abracei-a da maneira mais forte que consegui, confirmando que eu realmente estava ali, em seus braços e naquela vez, não no telefone ou através de telas de computador.
— Sou seu — sorri ao encostá-la na bancada.
Ela desfez o abraço e me olhou. A meia-luz da cozinha a tornava ainda mais bonita, e, quando ela sorriu de volta para mim, seu rosto parecia iluminado como o sol.
— Você fica bem mais bonito fora da televisão — ela falou depois de me encarar por alguns segundos.
— Me deixa muito tranquilo saber que metade do mundo me viu menos bonito — brinquei e ela balançou a cabeça, me dando um leve tapa no ombro.
— Que sorte a minha — ela piscou e encostou os lábios suavemente nos meus.
Senti-los depois de tantos meses parecia um remédio para uma doença que eu sequer sabia que tinha. Curava tudo o que eu não sabia que estava doendo e me fazia sentir finalmente em casa depois de tanto tempo. Era como se todas as preocupações, medos e dores que eu tivesse sentido durante os dias separados simplesmente desaparecessem quando ela estava por perto e me envolvia com seus braços delicados e seus lábios macios. Como se ela fosse a única direção possível para qual eu pudesse correr quando tudo ao meu redor estivesse desmoronando. Como se ela sempre fosse ser a minha direção, independente da situação.
— Canta pra mim — ela pediu, baixinho, enquanto colocava as duas mãos ao redor do meu pescoço e começava a me guiar por uma dança silenciosa ao redor da cozinha. — Por favor.
Sorri, descendo as minhas mãos para sua cintura e deixando-me conduzir por ela e seus passos suaves. Limpei a garganta e tentei lembrar a letra da música que eu sabia ser sua favorita desde que nos conhecemos.
Slow down, you crazy child, you’re so ambitious for a juvenile. But then, if you're so smart, tell me why are you still so afraid?
Ela fechou os olhos e respirou fundo, sem parar de dançar por nem um segundo. Eu sabia que era muito emotiva, principalmente quando se tratava de música, mas, em momentos como aquele, era quase como se eu pudesse sentir sua alma saindo por todos os seus poros.
Where's the fire? What's the hurry about? You better cool it off before you burn it out, you got so much to do and only so many hours in a day.
Ela colocou a cabeça sobre o meu peito e me abraçou, e eu já nem lembrava que todos os nossos amigos estivessem lá fora esperando por bebidas ou por nós. Ali, naquele momento, éramos apenas eu e ela dançando pela cozinha meio escura. O mundo poderia até explodir que eu nem perceberia e, se percebesse, sinceramente não ligaria.
But you know that, when the truth is told, that you can get what you want or you can just get old. You're gonna kick off before you even get halfway through. Ooh, when will you realize… — abaixei a cabeça para encará-la. Ela sorria, ainda de olhos fechados, e sabia que eu esperava que ela completasse: — … Vienna waits for you.


Quarta-feira, 14 de dezembro de 2011; 19h21; Manchester.
Edwards


Meu dormitório estava escuro e extremamente silencioso quando o adentrei depois de passar alguns bons minutos na praça. Isso significava que Lyla, minha colega de quarto, já havia saído para as comemorações de fim de semestre ou estava em qualquer lugar melhor do que um dormitório em uma noite de quarta-feira.
Não me importava. Sinceramente, adorava os poucos momentos em que podia ficar totalmente sozinha. Deixei as luzes desligadas e caminhei pelo pequeno cômodo, respirando fundo. Parei em frente à única janela, apoiando meus antebraços no parapeito e encarando a rua lotada de pedestres da universidade se movimentando agitados com o fim do ano letivo. As luzes de Natal se misturavam com as luzes dos postes e de alguns poucos faróis que passavam por ali.
Os pensamentos de sempre continuavam rondando minha cabeça. O medo do futuro e a solidão me faziam pensar seriamente em arrumar as malas naquele momento e ligar chorando para os meus pais pela primeira vez em sete meses, pedindo desculpa por ter seguido meu sonho.
Respirei fundo e fechei os olhos, sentindo as luzes da rua iluminarem o dormitório escuro.
Slow down, you're doing fine, you can't be everything you wanna be before your time, although it’s so romantic on the borderline tonight — cantei baixinho, sentindo meus pelos arrepiarem involuntariamente.
Havia um motivo para Vienna do Billy Joel ser minha música favorita de todos os tempos desde que Evan cantara ela para mim quando eu tinha nove anos. Independente da situação, ela sempre parecia responder a todos os questionamentos que eu tinha e me tranquilizar o suficiente para tomar a decisão certa. Ela parecia se comunicar diretamente comigo.
Empurrei o parapeito da janela e rodopiei no meio do cômodo escuro. — Too bad, but it's the life you lead, you're so ahead of yourself that you forgot what you need. Though you can see when you're wrong, you know you can't always see when you're right.
Podia observar as luzes que vinham da janela e iluminavam a penumbra do quarto, acompanhando meus passos sozinhos e desajeitados. Minha sombra vinha sendo minha única companheira por algum tempo.
You've got your passion, you've got your pride, but don't you know that only fools are satisfied?
Por um momento, desejei que abrisse a porta do dormitório e sorrisse pra mim, me acompanhando na dança e continuando a canção para mim – afinal, sua voz sempre fora melhor do que a minha. Ele falaria que se arrependia de ter terminado comigo naquele dia 2 de fevereiro e pediria desculpas por ter me deixado sozinha quando eu mais precisei. É claro que eu o desculparia, como a bela tola apaixonada que ainda não tinha o superado, e nós dançaríamos a noite inteira no silêncio e na penumbra do meu quarto escuro.
Dream on, but don't imagine they’ll all come true… — rolei os olhos, parando bruscamente de rodopiar e bufando.
Com certeza esse era um dos sonhos que claramente ficariam apenas na minha cabeça e não se realizariam. Era a vida.
Joguei-me na cama e encarei o teto semi-iluminado pela janela.
When will you realize…
Mas não tinha ninguém ali para completar a melodia.


Terça-feira, 14 de dezembro de 2010; 04h59; .
Edwards


— Então… — começou, brincando com os dedos da minha mão e encarando os próprios pés. — Agora que acabei de chegar, você vai voltar pra Cardiff.
Estávamos no telhado da sua casa, observando o céu escuro começar a clarear. Arthur e Evan já tinham ido pra casa e os meninos da banda provavelmente estavam amontoados na sala de estar de , em um sono profundo depois de seis engradados de cerveja.
— Ainda temos uma semana — o tranquilizei, acomodando a cabeça em seu ombro. — Mas você sabe que tenho que passar o Natal com a minha família.
— Sua família está aqui, — ele falou. — Arthur, seus tios… Eu — e soltou uma risadinha sem graça, quase como se estivesse com vergonha de dizer aquilo.
Eu ri, abraçando-o mais de lado e aconchegando-me em seu corpo.
— Eu também tenho pais, embora não pareça — respondi, com uma voz engraçada, e logo limpei a garganta para que a próxima frase saísse num tom mais sério. — Mas sempre nos demos bem com a distância, . Você sabe que sempre estarei a apenas uma ligação de distância.
Ele balançou a cabeça, assentindo, mas ficou calado, e o seu silêncio ecoou profundamente na minha alma. Se eu percebesse, saberia que as coisas estavam começando a mudar dali para frente. Afinal, e eu estávamos crescendo, e um de nós iria começar a fazer isso cercado por câmeras e uma imensidade de possibilidades.
Ao longe, uma luz amarelada começou a surgir no horizonte limpo de . O sol começava a nascer e, com ele, o início de uma nova era em meu relacionamento com .


Quarta-feira, 14 de dezembro de 2011; 20h20; Flórida.


Um banho gelado não fora o suficiente para me animar nem para congelar meus pensamentos desgastantes. Sentei-me na cama novamente, agora com o cabelo pingando algumas gotas frias no lençol.
Encarei o celular novamente e o segurei firmemente, encarando o teclado convidativo.
Me sentia patético. O que poderia falar? Sinto sua falta, queria que você estivesse aqui comigo agora mesmo. O quão egoísta isso poderia soar? Não parece tão errado a gente não estar mais apaixonado? Sempre quero te ligar pra contar alguma coisa… Idiota, até eu desligaria na minha cara.
Desculpa ligar, eu só queria ouvir a sua voz… Sabe, às vezes tenho medo de esquecê-la. Nunca me perdoaria se deixasse isso acontecer.
A noite já estava totalmente escura quando meus dedos discaram seu número automaticamente. A intenção não era realmente ligar, apenas observar a combinação que parecia tão certa no meu visor e fingir para mim mesmo que eu tinha coragem de fazer aquilo.
Mas não tinha. Comprovei isso quando meu polegar esbarrou sem querer no botão chamador e eu senti meu coração parar e fazer o caminho exato pela minha garganta, deixando ali um nó imenso que me impedia de engolir ou respirar.
Fiquei tão desesperado que permaneci alguns segundos paralisado enquanto ouvia a ligação chamando baixinho. O sangue parecia simplesmente ter se esvaído do meu corpo e meu coração, que antes parecia ter parado, começava a bater mais rápido do que o que poderia ser saudável.
Aquela seria uma boa hora para desligar a chamada e fingir que aquilo nunca tinha acontecido. Mas eu simplesmente não consegui. Era quase como se eu estivesse esperando para que algo assim acontecesse e me obrigasse a fazer o que eu queria ter feito há muito tempo.


Quinta-feira, 15 de dezembro de 2011; 04h36; Manchester.
Edwards


Estava escuro quando abri os olhos. Eu podia sentir o suor escorrendo pela minha pele, apesar de não estar enrolada em nenhum cobertor. Olhei para baixo e entendi o porquê. Estava com as mesmas roupas que tinha chegado ontem, roupas de frio e um casaco grosso preso sobre meus ombros.
A última coisa que eu me lembrava era de ter chegado no dormitório escuro e ter dançado sozinha por algum tempo. Não me lembrava de ter dormido, muito menos de ter ligado o aquecedor.
Peguei rapidamente meu celular. Eram 04h37 da manhã e 1 ligação perdida piscava na tela. Deveria ser Evan de novo.


Continua...



Nota da autora: Oi, pessoal! Espero que alguém ainda esteja por aqui! Preciso confessar que quase abandonei essa fanfic, embora já tenha todo o roteiro dela planejado. É uma história bastante densa, com muito mais pensamentos e conversas internas ao invés de diálogos, e isso pode ser cansativo pra muitas pessoas, inclusive pra mim! hahahaha.
Mas está tomando a forma que eu quero, para que os acontecimentos possam se desenrolar da melhor maneira possível e dar lugar ao roteiro que está na minha cabeça. Espero muito que tenham gostado e que continuem comigo nessa jornada. Quais músicas vocês acham que serão as próximas?
Beijos, Lara. :)





Outras Fanfics:
04. Fuck It, I Love You
05. Used To Be
I Think We Best Just Get The Balance Right




Nota da beta: Genteee que história mais lindaaaaa 😭😭😭 Lara do céu, por favor não desista dessa preciosidade! Os pensamentos e as conversas internas desses dois xonadinhos tá a coisa mais gostosa de ler. Acompanhar o desenvolvimento dos personagens vai ser um prazer IMENSO, e sua escrita excelente com certeza vai dar conta do recado.


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