CAPÍTULOS: [Capítulo único]




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Capítulo Único


At first, I was afraid, I was petrified.
Kept thinkin' I could never live without you by my side.


Fiola Mare Restaurant – Washington D.C.

aproximou a mão da taça de água que o garçom servira minutos antes, mas percebeu os dedos trêmulos e desistiu de beber alguma coisa, para tentar desfazer o nó que se formara em sua garganta. Ao invés disso, respirou fundo, conseguindo controlar o choro apenas o suficiente para pedir licença e dizer que iria ao toilettes.
Tirando do colo o guardanapo de pano, levantou-se e caminhou a passos largos, de cabeça baixa, a fim de tentar evitar que os demais clientes do restaurante percebessem as lágrimas que escorriam por seu rosto. Entrou em disparada no banheiro, onde duas mulheres retocavam a maquiagem, de frente para o espelho, e ficou aliviada ao encontrar uma cabine vazia, na qual pode se esconder e deixar o choro sair livremente.
Não era a provável maldade dissimulada com que Paige e Madison tinham deixado escapar a verdade o que mais doía, apesar de nunca ter achado que a enteada lhe quisesse mal. O que queimava, o que a corroía por dentro, o que abria uma ferida em sua alma tão grande que provavelmente nunca cicatrizaria, era a verdade em si: a inescapável constatação de que Scott mentira para ela ainda mais do que ela imaginava, e a respeito de uma das coisas mais importantes sobre as quais poderia ter faltado com a verdade.
conhecera Scott quando ainda era uma garota de dezoito anos, e ele já era um homem de quase trinta e três, com uma filha de onze. Tinha se divorciado de Madison, mas era um pai maravilhoso para Paige, e isso fora uma das coisas que fizeram com que se encantasse por ele.
Muitas pessoas achavam que tinha se casado com Scott, logo depois de completar vinte e dois anos, apenas por causa da ligação entre ele e seu próprio pai, e por nunca ter questionado os planos que a família tinha feito para ela, mas a verdade era que ela tinha se apaixonado de verdade por aquele homem, sempre tão gentil, educado, galanteador, generoso, inteligente e tão bom pai.
Ela não se importava com o fato de Scott tê-la pedido em casamento pouco antes de dar início a sua campanha para o Senado pelo Arkansas, com o apoio de Thomas . Estava sempre tão cercada de políticos, sendo filha do Governador daquele Estado, que não se via sendo usada pelo pai nem pelo namorado, como um adereço fundamental no espetáculo político que eles encenavam.
Scott Bryant era o homem público cheio de ambições, que pretendia chegar, em um futuro próximo, à Casa Branca, fazendo dela sua Primeira Dama, mas ele era também o homem que a fazia rir, na intimidade, que preparava seus mojitos com perfeição, quando passavam o domingo à beira da piscina da casa dos pais dela, que lhe dava de presente DVDs de filmes franceses, enquanto o Sr. sempre pedira à secretária que escolhesse joias para sua mãe, nas datas comemorativas.
Ela acreditara que era amada e que o marido não tinha somente anseios de ascensão ao poder, mas também sonhos como os dela, de ter filhos, de vê-los crescer, preenchendo a casa com barulho e alegria, de enchê-los de amor, como ele fazia com Paige. Não passara pela sua cabeça, nem por um segundo, que o carinho dado à garota era assim tão grande justamente porque o amor de pai que Scott tinha para dar seria sempre todo dela.
“Seria ótimo se meu pai tivesse tido mais filhos, porque ele às vezes me sufoca.” Lembrou-se de Paige dizendo, alguns minutos antes. A menina estava fazendo dezoito anos e acabando o ensino médio, e sentia o enorme peso de ser uma Bryant. O pai falava, sem cessar, sobre vê-la cursando Direito em Harvard e seguindo seus passos.
“É uma pena que ele tenha fechado a fábrica tão cedo mesmo. E de uma forma tão radical.” A mãe da garota respondera, como se não estivesse tratando de nada importante.
“Mas a gente pretende ter filhos.” retrucara, sem entender a afirmação da ex de seu atual, que então a olhou, mostrando-se confusa.
“Mas... como assim?” Indagara a mulher, ficando em silêncio por alguns segundos apenas, como se algo lhe tivesse escapado.

saiu da cabine e se olhou no espelho. O rímel que usava felizmente era à prova d’água, então ela não estava uma completa palhaça - apesar de estar se sentindo uma – mas seu rosto estava vermelho e qualquer um poderia notar que havia chorado. Não havia o que fazer, a não ser esperar um tempo, mas sua permanência ali não estava fazendo nenhum bem, quando ela não conseguia parar de se lembrar.
”Ah, meu Deus, ! Eu pensei que você... Meu Deus! Eu falei bobagem. Esquece o que eu disse.” Madison tentara voltar atrás, mas obviamente isso não fora possível.
“Ele disse pra vocês que não quer ter mais filhos? Que
fechou a fábrica?” Lembrou-se de ter perguntado, com dificuldade, e de ter visto uma troca de olhares entre mãe e filha, antes de Paige acabar com qualquer esperança.
“O meu pai fez vasectomia, . Ele fez vasectomia há anos.”

A filha do marido, a única filha que ele teria e que não era dela, a olhara com pena, e ela não sabia se tinha sido de verdade ou não, mas isso pouco importava. Ela estava com pena de si mesma, e era provavelmente o pior sentimento que já tinha experimentado. Nada, em seus vinte e cinco anos de vida, havia preparado a garota para aquele patético instante.
Ela era uma jovem cheia de planos e sonhos, mas cada um deles tinha Scott como uma peça primordial, até aquele momento. Se, por um lado, estava claro que ele não era quem ela pensava que fosse e que ela nunca mais seria verdadeiramente feliz ao lado dele, por outro ainda era difícil – era mesmo aterrorizante! – pensar em viver sem ele.

But then I spent so many nights thinkin' how you did me wrong.
And I grew strong, and I learned how to get along.


Sede do The Washington Post - 1301 K Street NW, Washington, D.C. 20071

conferiu, mais uma vez, a aparência no espelho do banheiro, e depois, as horas, em seu relógio de pulso. Faltavam ainda dois minutos para a hora marcada, e ela não queria anunciar sua chegada antes, para não parecer desesperada. Decidiu tirar um pouco do batom, com um pedaço de papel toalha. O vermelho a deixava sexy, e ela ainda era, para todos os efeitos, a mulher bela, recatada e do lar de um Senador da República, prestes a se tornar candidato à Presidência dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, tinha pensado muito e chegado à conclusão, finalmente, de que toda a sua relação com Scott tinha sido uma mentira.
Thomas sempre tivera interesse em casar a filha com um homem com chances reais de se tornar ainda mais poderoso do que ele, e a havia preparado para isso, sem que ela tivesse percebido ser um simples joguete.
Ela falava quatro línguas, fizera aulas de dança, tocava piano e aprendera a receber convidados com a mãe, ainda na adolescência. Enquanto as colegas de escola estavam indo para várias faculdades em todo o país, fora mandada para a França, para seis meses de intercâmbio. Ao retornar, tinha sido apresentada a Scott, que precisava ter a seu lado uma garota discreta, culta e com um nome de família de peso, e que sabia seduzir e fazer uma garota acreditar que ele era um tipo de príncipe encantado.
não havia demorado a perceber, depois do casamento, que não se tratava de um príncipe. Tinha visto uma mensagem de outra mulher no celular dele, sem querer, e não acreditara quando ele lhe dissera que havia pego no sono no escritório, após uma reunião, quando ele passou uma noite fora. Tratavam-se, contudo, de mentiras que ela acreditava que devia perdoar, assim como a mãe sempre perdoava as escapulidas do pai e dizia que todo homem era assim.
Quando ficou sabendo que ele não podia ter filhos e que a deixara ter tantas ilusões sobre isso, no entanto, as coisas mudaram. A cada noite mal dormida, pensando em quanto ele tinha errado com ela, se fortalecera um pouco. Percebera que queria e merecia mais do que viver à sombra de alguém. Já não achava mais que não poderia viver sem ele e passara a esperar apenas pelo momento certo para deixá-lo.
Não via sentido em simplesmente sair da vida dele, mantendo tudo em seu devido lugar, e permitindo que todos os desejos dele permanecessem intactos e aptos a se transformarem em realidade, enquanto os dela tinham se reduzido a cacos e precisariam dar lugar a outros, totalmente novos. Queria muito que a imagem falsa que, sem intenção, tinha ajudado a fortalecer fosse desconstruída aos olhos dos eleitores, assim como tinha sido aos olhos dela.
Sendo ainda a Sra. Bryant, não fora difícil para ela agendar uma reunião com um jornalista de renome, para aquela tarde, mesmo que ele não tivesse ideia do material que a garota tinha para lhe entregar. Então, com dois minutos de atraso calculado, ela enfim saiu do banheiro, caminhou pelo corredor do jornal e se apresentou à recepcionista, que a levou até a sala do rapaz, apenas um pouco mais velho que ela, mas com semblante bastante sério. O momento chegara.
“Sr. Hutchinson, eu imagino que esteja curioso sobre a minha vinda até aqui e não vou fazer rodeios.” Disse, entregando a ele um envelope. “Você pode publicar tudo. A única coisa que eu peço em troca é que seja amanhã mesmo, e com o maior destaque possível.”
“Eu acho que consigo a primeira página.” Ele informou, após examinar as fotos e e-mails.
Ela não tinha nada mais a fazer no escritório dele, então apenas se despediu. Não agradeceu, afinal ele não estava fazendo um favor a ela maior do que estava fazendo a si mesmo. Era um furo e tanto o que ele tinha em mãos! Provavelmente ele seria promovido.
De volta ao apartamento que dividia com Scott em Embassy Row, tirou a roupa elegante, vestindo calças jeans e uma camiseta, enfiou mais algumas blusas e dois shorts, que normalmente só usava para fazer ginástica, em uma mochila que também comprara apenas para levar roupas à academia, e pediu um táxi que a levou a Georgetown.
, amiga! Você tá bem?” a puxou para seus braços, preocupada, sem nem mesmo fechar a porta do apartamento antes. A antiga colega de quarto ligara, algumas horas antes, para pedir-lhe abrigo, e contara todos os detalhes sobre seus planos de entregar os podres de Scott à imprensa e de se separar do marido.
“Tão bem quanto é possível.” Respondeu francamente. “Obrigada por me deixar ficar aqui, por um tempo. Mesmo! Eu não sei o que seria de mim sem a sua ajuda.”
“Não é nada demais. Tem espaço sobrando nesse apartamento.” A outra assegurou. “E eu nunca escondi ninguém. Vai ser divertido!”
riu, mesmo sabendo que a amiga estava apenas querendo brincar e deixá-la mais à vontade, e que não seria, na verdade, nem um pouco divertido ter que fazer tudo para ela, nos próximos dias, para que sua presença ali não fosse notada. Ou isso ou a rua em que morava se encheria rapidamente de jornalistas, que ficariam loucos para entrevistar a ex-mulher do Senador envolvido no último grande escândalo do país.
“Seus pais sabem?” Perguntou , tirando a bolsa da mão de e a jogando em uma poltrona, antes de puxar a amiga para o sofá.
“Não. Eles não me entenderiam.” respondeu, sem esconder que isso a chateava. “Eles vão saber junto com todo mundo, e eu já to preparada pra ambos tentando me convencer a apoiar o filho da mãe.”
“Você tem certeza que é isso que você quer fazer, ? Você tá mesmo bem com tudo isso?” Perguntou, apreensiva. “Talvez fosse melhor você ter simplesmente pedido o divórcio.”
“Eu tenho certeza, sim, amiga. Absoluta. E bem eu não to, mas eu vou sobreviver.” Deu de ombros.
...” pegou a mão dela e fez um carinho. “Sobreviver não é o bastante.”
“Sobreviver é o máximo que eu posso exigir de mim mesma agora, então... é o que vai ser!”

It took all the strength I had not to fall apart.
And trying hard to mend the pieces of my broken heart.


A edição do Post rodada naquela madrugada trazia em sua primeira página uma foto de Scott com uma garota no colo e a legenda “Senador do Arkansas promovia festas em que ele e outros membros do Partido Republicano consumiam drogas e prostitutas de luxo”.
Outras fotos e alguns trechos de mensagens trocadas com seus colegas de partido e com fornecedores de substâncias de comercialização ilícita ilustravam outras páginas do periódico, em que era feita uma narrativa detalhada a respeito das orgias patrocinadas com dinheiro público.
tinha gasto uma boa grana do próprio Scott para conseguir o material, utilizando-se de um hacker e de um detetive particular. Além dos dois, muito bem pagos, contou também com um dos políticos que frequentavam os encontros clandestinos e que decidiu ajudar o tal detetive, em troca de não ter seu nome citado. Sua participação foi imprescindível, principalmente no que dizia respeito às fotos tiradas dentro de um dos encontros.
Quando a notícia chegou ao conhecimento deles, tanto Scott quanto os pais de tentaram fazer contato com ela, por meio do celular, mas ela sequer o levara consigo para a casa de . Tinha deixado o aparelho caríssimo para trás, junto com o notebook e o tablet, assim como todas as roupas, bolsas, sapatos e demais acessórios de grife, as joias, incluindo a aliança, e os cartões de crédito.
Não queria nada de Scott Bryant! Só levara algumas peças de roupa porque ela e não usavam o mesmo número, e, ainda assim, pegara as mais simples que encontrara.
Os ligaram para todas as amigas dela, depois de finalmente conseguirem falar com o genro, e descobrirem que ela tinha deixado uma carta para ele, avisando que um advogado entraria em contato, em breve, para tratar do divórcio.
confirmou para a Sra. que estava hospedando a filha dela, mas somente isso, pois pediu que a amiga informasse que ela não queria falar com ninguém, naquele momento, e foi o que ela fez.
É claro que os informaram o paradeiro da filha ao genro, mas ele não chegou a ser um problema. No momento em que o carro que o levava ao apartamento de entrou na rua em que ficava o prédio dela, ele viu os repórteres aglomerados em frente ao edifício e pediu que o motorista passasse direto e fosse para outro lugar. nunca soube, mas com certeza este foi o lado bom da fofoca de uma vizinha de , que a vira chegar, a uma amiga, que por sua vez comentou com outra, que comentou com um parente, até que já não fosse segredo o destino da esposa do Senador.
O lado ruim foi que a presença de jornalistas e fotógrafos a manteve presa, por alguns dias.
“Tem muito menos gente lá embaixo hoje.” A cunhada de , Beverley, informou, entrando no apartamento com a filha Kyra nos braços.
“Eu espero que todos tenham sumido até depois de amanhã.” respondeu, chamando a garotinha para seu colo. Ela era uma das crianças mais encantadoras que a garota já tinha conhecido e, simpática, não hesitou em deixar o colo da mãe, atirando-se no da tia .
“Eu vou até lá e ponho todos pra correr, se ainda estiverem aí.” comentou, sempre disposta a defender a amiga com unhas e dentes. “Já vai ser um dia ruim o suficiente!”
“Eles vão se cansar. Já estão se cansando!” Beverley disse, otimista como costumava ser, e sorriu, vendo a filha se aninhar no ombro de , como se a conhecesse há anos e não há apenas alguns dias. Poderia sentir ciúmes, mas, na verdade, gostava de ver a filha criando laços com mais uma pessoa que poderia ajudar na criação dela, estar por perto, dando amor e carinho. Conhecia a amiga da cunhada havia muito pouco tempo, mas algo nela inspirava confiança e ela era ótima com Kyra!
também sorriu, grata pelo prognóstico positivo, e aproveitou a presença da menininha de dois anos para se distrair das preocupações. Depois de pegar alguns lápis e folhas de papel na escrivaninha que tinha em um canto da sala, sentou-se com ela no chão, para desenhar bichinhos, enquanto a pequena riscava tudo, afirmando também estar retratando um au au, uma cocó e pipius.
A criança ficou realmente envolvida na atividade, após pedir para a tia fazer também a Babie, a Pincesa Elsa e o boneco Olaf, e só deixou os rabiscos de lado quando o pai chegou. Ele mal tinha colocado a bolsa-carteiro que usava para trabalhar no chão, quando ela o viu e correu para os braços dele, de um jeito engraçado, quase tropeçando nas próprias pernas.
pegou Kyra no colo e a encheu de beijos, provocando risos na filha quando os carinhos no pescoço fizeram cócegas nela. Ele também ria, feliz, visivelmente fascinado pelo fruto de seu amor por Beverley, com quem trocou um beijo rápido, ainda com a menina no colo. observava a cena, maravilhada, imaginando que um casal como aquele só poderia mesmo ter sido brindado com uma bebê apaixonante.
“Como foram as coisas hoje?” perguntou a , que começou a recolher o material de escritório que espalhara pelo chão.
“Eles não tocaram o interfone nenhuma vez, nem gritaram meu nome, tentando me fazer aparecer. Talvez algum vizinho tenha reclamado do barulho, ou eles só estão desanimando mesmo, como a Bev acha que estão.” Deu de ombros.
“Você gostaria que eu falasse com eles, como seu advogado? Que eu confirmasse que vocês vão se divorciar?”
“Não precisa, .” Ela assegurou. “Eles já imaginam que sim, ou eu estaria lá, ao lado do idiota, enquanto ele nega o inegável. E vai ficar ainda mais claro, à medida que o tempo passar e eu não voltar pra casa dele. Pra mim, é indiferente o que sai no jornal. Eu só quero assinar os papéis e me ver livre de qualquer coisa que me ligue àquele...”
Por ter pensado em um palavrão, ela jamais completou a frase. , que tinha ido até a cozinha logo após abrir a porta para o irmão, voltou neste momento, chamando todo mundo para jantar, e assuntos leves acompanharam o peixe frito com purê de batatas e legumes.
Só dois dias depois voltou a falar em Scott, apesar de ter pensado nele muito mais vezes do que gostaria, durante as quarenta e oito horas que precederam sua ida ao escritório do advogado dele, em Judiciary Square.
“Você ainda pode mudar de ideia, .” falou, enquanto os dois esperavam pelo Senador Bryant e o Dr. Price. “Você tem direi-”
“Não, . Eu entendo a sua preocupação, mas eu já te disse várias vezes: eu quero assinar esse acordo.” Interrompeu. “Eu não quero nada dele, mesmo que seja meu direito.”
“Ok.” Respondeu o rapaz, entre conformado e admirado. Parte dele achava que o congressista republicano deveria ser depenado até onde conseguissem, mas outra parte entendia e respeitava que tivesse tanto brio.
Logo depois, em um clima nada amigável, o ex-casal assinava os papéis relativos ao divórcio, sem trocar uma palavra. Ver Scott foi mais difícil do que confessaria a qualquer um, e foi necessário usar toda a força interior de que dispunha para não chorar na frente dele e não demonstrar que estava abalada.
Seu coração se partira em milhares de pedaços, e, para juntar todos os cacos, seria preciso bem mais do que apenas levar até as últimas consequências uma decisão racionalmente tomada.

And I spent oh so many nights just feeling sorry for myself
I used to cry, but now I hold my head up high


podia ter mostrado amor próprio e orgulho, ao recusar qualquer bem ao qual pudesse ter direito, após a separação, mas, bem lá no fundo, havia muitas noites em que ela sentia pena de si mesma.
Ela não tinha dinheiro nem para fazer algo simples como compras no supermercado, e assim colaborar um pouco com a amiga que a estava hospedando. Os pais, como previsto, tinham ficado contra ela, e recorrer a eles estava tão fora de questão quanto receber pensão de Scott. E, para piorar, havia descoberto que não tinha qualquer amiga além de , visto que nenhuma das mulheres que frequentavam sua casa, quando era a Sra. Bryant, atendera suas ligações, nas últimas semanas.
“Eu já te disse que não tem problema, . Você pode ficar quanto tempo quiser e não precisa se preocupar com nenhuma conta.” falou, provavelmente pela décima vez só naquela semana. “Eu to adorando ter você aqui e relembrar os velhos tempos! Ainda que a gente não veja a Torre Eiffel da janela e nem sinta cheiro de bolo quentinho.” Riu, lembrando dos detalhes mais interessantes do apartamento kitnet em Paris.
Conhecera logo no primeiro dia do curso de conversação em Língua Francesa, na Cidade Luz, quando as duas faziam intercâmbio na capital francesa. fazia parte de uma classe mais avançada, mas ambas estavam procurando Le Père Goriot (O pai Goriot), de Honoré de Balzac, na biblioteca, e acabaram começando uma conversa sobre a diferença entre ler originais e traduções, que terminou em um Café, do outro lado da rua.
Depois disso, não se desgrudaram mais! Visitaram todos os pontos turístico juntas, frequentaram bistrots e bares, com vários colegas de classe, fizeram amigos franceses e conheceram turistas de vários países, foram a piqueniques e tentaram entrar – sem sucesso – em casas noturnas impróprias para garotas da idade delas.
estava hospedada em um loft caro, mas queria usar o dinheiro que os pais mandavam para pagar um curso de iniciação à Patisserie na Le Cordon Bleu Paris, então acabou se tornando roommate de . O apartamento de um único cômodo tinha apenas um sofá cama e um futon, mas ficava perto do metrô e ao lado de uma confeitaria de cujo chef ganhara um caderno de receitas exclusivas, depois de tê-lo salvo, ajudando na cozinha, quando dois de seus auxiliares faltaram no mesmo dia.
Definitivamente, tinha sido a mais divertida das viagens e também sentia saudades, mas este não era um bom motivo para permanecer como hóspede da amiga por tempo indeterminado.
“Eu já to me sentindo melhor, e já não tem ninguém na porta do prédio, querendo me entrevistar. Eu vou procurar um trabalho e, depois, um lugar pra ficar.” Afirmou, dobrando uma das roupas que a amiga tinha tirado da máquina e que poderia ir direto para a cômoda.
“Tudo bem. Acho que vai ser bom pra você.” concordou, examinando uma outra peça e decidindo colocá-la na cesta das roupas que teriam que ser passadas. “Maaaaas não tem pressa.”
“Que milagre é esse?” Beverley indagou, entrando na lavanderia do prédio, onde ela e também moravam. Estava realmente surpresa, já que a cunhada normalmente pagava uma adolescente vizinha das duas para cuidar das roupas dela e nunca era vista no local.
“Acho que estou pra me tornar adulta.” Brincou , ainda que, na verdade, estivesse lavando as próprias coisas para fazer companhia a , que tinha ainda menos familiaridade com serviços domésticos que ela, a não ser pelos dotes culinários.
“Cadê a Kyra?” perguntou, enquanto Bev colocava as roupas que trouxera em uma sacola na máquina que fora esvaziada.
“Tá com o . Ele disse que ia dar uma volta com ela no parque, pra ver se ela esquecia o chocolate que viu no nosso quarto e não a deixamos comer.” Suspirou. Ainda bem que contava com ele para colocar aquele tipo de limite à filha!
“Eu vou sentir falta dela.” Lamentou .
“Você vai embora?” A mãe da criaturinha perguntou, surpresa.
“Ela cismou com isso, mas eu já disse que não tem pressa.” repetiu, ficando aborrecida.
“Ela também vai sentir sua falta.” Beverley disse, se aproximando de e colocando a mão no ombro dela. “Todos nós vamos! É bom ter você aqui.”
se emocionou, pois sabia que as palavras eram sinceras. Ainda assim, ela precisava de um lugar para chamar de seu, e merecia ter sua privacidade de volta. Procuraria algo próximo, mas se mudaria, assim que pudesse.
Imaginou que não seria muito difícil arrumar um emprego porque, apesar de não ter uma formação, de não ter feito uma faculdade, sabia línguas, escrevia bem, tinha cultura geral. Perdera tempo participando de projetos falsamente filantrópicos que, no fundo, visavam apenas chamar a atenção do eleitorado, mas agora estava pronta até mesmo para voltar a estudar e, no futuro, ter uma carreira.
Não somente com o objetivo de colocar algum dinheiro na carteira, mas também para deixar os dias de choradeira para trás, comprou os classificados, marcou anúncios de empresas que procuravam secretárias, recepcionistas e outros profissionais sem fazer exigência de diplomas, e foi à luta.
Infelizmente, as coisas foram bem mais difíceis do que imaginara, pois a imprensa podia tê-la deixado de lado, mas nem todo mundo esquecera os recentes acontecimentos.
As melhores vagas, como as de secretária executiva, em escritórios de advocacia e contabilidade ou de grandes corporações, eram magicamente preenchidas, no momento em que ela chegava ou era identificada como a ex-mulher de um senador cujo mandato estava em risco. Simpatizantes dos republicanos a repudiavam por ter virado as costas para Scott. Eleitores do partido democrata não tinham simpatia por alguém que se relacionara por quase sete anos com um republicano dos mais reacionários, e era filha de outro.
Mesmo as vagas de recepcionista foram sendo negadas a ela, em razão de sua ligação com Bryant, ou da ruptura desta. Apenas depois de uma semana e meia de entrevistas, conseguiu enfim uma oferta para ser balconista de uma agência de turismo.
“É um emprego digno.” afirmou, ao saber que ela começaria na segunda-feira da semana seguinte.
“Com toda certeza, !” Bev concordou com o marido.
“Eu disse isso a ela.” Comentou , que vinha tentado animar a amiga, desde que ela voltara das entrevistas do dia.
“Não é isso, gente. Eu também acho super digno!” Garantiu a garota. “Só que o salário é baixo. Eu esperava poder alugar um apartamento, mas ele não vai ser suficiente pra um aluguel e todas as outras contas.”
, eu já disse um milhão de vezes...”
“...que gosta de me ter aqui. Eu sei, !” Interrompeu, frustrada. “E eu vou ter que ficar, então espero que goste mesmo. Só que você vai ter que me aceitar como roommate de novo, e não mais como hóspede.”
“E te deixar pagar metade das contas. Ok!” Revirou os olhos a outra, já tendo ouvido aquele mesmo pedido, antes que as duas fossem para o apartamento do casal .
“Eu sinto muito por não ter conseguido nada pra você lá no escritório, .” disse, envergonhado. “Se eu fosse sócio e mandasse alguma coisa, a gente teria te contratado, sem pestanejar.”
“Eu entendo.” Assegurou ela, dando o prato na mão dele, que estava servindo macarrão com queijo para todo mundo.
A família, na qual ela tinha sido agregada, jantava junta duas vezes por semana. Em uma delas, cozinhava. Na outra, era a vez de Beverley ou de improvisar alguma coisa.
Ele encheu o prato dela e o devolveu, para então sentar-se com Kyra no colo e ajudá-la a comer, antes de servir a si mesmo. O jantar foi agradável e Beverley, sempre disposta a enfatizar o lado bom das coisas, começou a falar sobre a contribuição que poderia dar à agência de turismo, depois de ter feito tantas viagens ao redor do mundo. Segundo suas previsões, ela logo seria promovida!
duvidava do palpite da nova amiga, sabendo que todos os demais funcionários da loja eram formados em turismo, mas gostou de ouvir coisas positivas, e adorou sobretudo perceber que não sentia mais qualquer pena de si mesma.
Com todas as recusas recebidas e apenas uma proposta de emprego, ela tinha conseguido manter a cabeça erguida.

I'm a survivor, I'm not gon give up
I'm not gon stop, I'm gon work harder
I'm a survivor, I'm gonna make it
I will survive, Keep on survivin'


Valdemar Travel - 1010 Vermont Ave NW #100, Washington, DC 20005

“Senhora, eu já expliquei...” respirou fundo e contou até dez, pela segunda vez, trocando o celular de ouvido. “Certo. Certo, senhora. É claro. O problema é que... Não, não. Não, senhora. Nós fizemos o possível, mas... Ok, senhora. Ok.”
“Dia difícil?” questionou, quando a amiga desligou o telefone. Tinha passado os últimos cinco minutos sentada na frente dela, aguardando enquanto ela falava com uma cliente da agência. Não que ela tivesse realmente falado algo, durante o telefonema! Talvez enquanto ela ouvia as reclamações da cliente fosse uma descrição mais honesta.
“Difícil não é fiel à realidade o suficiente.” respondeu, massageando as têmporas.
O último ano tinha sido uma verdadeira luta, mas a garota não estava disposta a se deixar vencer. Trabalhava cada vez mais duro, ainda que continuasse apenas atendendo clientes no balcão ou pelo telefone, e ouvindo as reclamações deles, enquanto seus colegas faziam reservas em hotéis, e vendas de passagens e pacotes turísticos, e recebiam comissões por isso.
Não desistira, no entanto, de ter uma carreira de verdade, e um mês antes tinha começado a marcar anúncios de emprego nos classificados de novo, para tentar achar um em que ganhasse um pouco mais. e ela estavam bem, morando juntas, mas, do mesmo modo que o dinheiro não bastava para pagar o aluguel de um imóvel, também não daria para custear nenhum dos cursos de gastronomia que sonhava fazer.
“Eu te pago uma cerveja, antes de irmos pra casa.” ofereceu e ela assentiu, adorando a ideia de relaxar em um bar, sair um pouco da rotina, ver gente. Sabia que a Srta. já estava com segundas intenções, ao ir buscá-la na agência, depois de sair do próprio trabalho, em uma loja de antiguidades, mas nem se importou com isso. Mesmo que ela ficasse flertando com o gerente do pub, como tinha feito da última vez, estava disposta a aproveitar a noite, jogando algumas partidas de dardos, comendo batata frita cheia de bacon e queijo, e cantando no videokê.
“Vou pegar minha bolsa.” Avisou, levantando-se e indo até o fundo da loja, onde ficavam os pertences dos funcionários durante o expediente.
Voltou com um sorriso no rosto, mas encontrou a outra garota aos prantos, com o celular no colo, e soube imediatamente que algo de muito errado tinha acontecido.
Ao invés de terminar a sexta-feira bêbada, com um microfone em uma das mãos e uma caneca na outra, passou boa parte da noite em um corredor de hospital, e o final dela tomando conta de uma criança, que dormia tranquila, ignorando que sua vida tinha acabado de mudar de forma extrema e irremediável. Ao invés de aproveitar o sábado para descansar ou testar receitas, enquanto sonhava em fazer novos cursos e se especializar em patisserie, passou-a em um funeral, ajudando a mãe de a servir comidas e bebidas para as pessoas, enquanto ele chorava, abraçado a .
Já sentia falta de Beverley e do entusiasmo inigualável da amiga pela vida. Era difícil demais acreditar que ela tinha saído para encontrar uma amiga no shopping e, por um descuido bobo, tinha sofrido um atropelamento fatal.
O que doía mais, no entanto, era ver parecendo uma sombra de si mesmo. Ele não era só o irmão de sua melhor amiga, nem o advogado especializado em responsabilidade civil que, sem cobrar nada, a orientara sobre o divórcio e fora com ela enfrentar as feras que eram o ex-marido e seu causídico. Ele se tornara seu amigo, se tornara sua família, e ela não conseguira lhe dizer nada além de “sinto muito”, não conseguira pensar em nenhum modo de fazer com que ele se sentisse melhor.
Ela sabia que ele iria sobreviver, mas tinha razão quando lhe dissera, pouco mais de um ano antes, que sobreviver não era o bastante. Era preciso continuar sobrevivendo, a cada dia. Era necessário não desistir, lutar bravamente.
tinha Kyra e ela só podia esperar que isso desse forças a ele. Só podia torcer e rezar para que, assim como ela, ele se tornasse esse tipo especial de sobrevivente.

Now that you're out of my life, I'm so much better [...]
You thought that I'd be weak without you, but I'm stronger


“Ela dormiu, finalmente.” disse, entrando na sala, onde olhava uma revista, sentada no sofá. Ela tinha cuidado de Kyra, durante algumas horas, porque ele ficara até mais tarde no escritório, preso em uma reunião. Mesmo voltando exausto, ele fizera questão de colocar a filha na cama e de contar uma história a ela, mas pedira para a amiga esperar.
“Que bom! Agora, você pode dormir também.” A garota respondeu, fechando a revista. Passados alguns meses do falecimento de Bev, já não demonstrava mais estar tão triste, mas com certeza parecia bem cansado.
“Fica mais um pouco?” Ele pediu, no entanto. “Toma uma cerveja comigo?”
“Claro, ! Eu só pensei que você quisesse mesmo descansar.” Com a resposta positiva dela, ele foi até a cozinha, e voltou com dois copos e uma garrafa de cerveja nas mãos.
“Eu até quero. Na verdade, eu preciso! Mas a gente quase não tem conversado. Eu to sempre super ocupado ou ansioso pra descansar dessa minha jornada dupla.” Comentou, servindo a bebida para os dois. “Eu não quero me queixar, ainda mais com você, que tem me ajudado tanto, mas é que às vezes parece que eu não vou dar conta, sabe? Eu não sei como vocês mulheres dão conta, quase sempre sozinhas! Sem você e a , eu acho que já teria desabado.”
“Eu não posso nem imaginar o quanto tudo isso tá sendo difícil pra você.” Ela disse, dando um suspiro, antes de pegar um dos copos na mesa de centro. “E eu acho que nunca te disse de verdade o quanto eu sentia pela Bev. Eu não sabia o que dizer direito. Eu acho que ainda não sei.”
“Você não precisa.” Garantiu ele, mas viu a hesitação escrita no semblante dela. “É sério. Eu sei que vocês tinham se tornado amigas, que você sente falta dela. E sei que você é minha amiga também, que se preocupa comigo. Sei que você ama a Kyra... que nós todos formamos uma espécie de família, desde que você se mudou pra casa da .”
“É verdade.” Concordou, e os dois trocaram um sorriso melancólico.
“A Beverley ficaria muito grata e feliz em ver você me ajudando a cuidar da Kyra, , e eu sou muito grato também, mas...”
“Mas?” Questionou, preocupada não só com o uso inesperado do pronome adversativo, como com a pausa que ele fez. Que espécie de porém poderia haver, naquela situação?
“Mas eu não posso desejar que você abra mão da sua vida por nós.”
“Abrir mão da minha vida?”
“É.” Ele confirmou. “A me disse que você tava querendo trocar de emprego, antes de tudo isso acontecer, e que você quer também voltar a estudar. Ontem, quando ela veio aqui, eu perguntei como iam as coisas, e ela me disse que você continua na agência e que achava que você não tava nem mesmo procurando outra coisa.”
“Eu realmente não fui a nenhuma entrevista de emprego recentemente, mas não foi por causa de vocês. Eu juro.” Tranquilizou-o. “Até porque eu tinha pensado em tentar de novo vagas de secretária, e elas não atrapalhariam em nada a mãozinha que eu te dou com a Kyra, de vez em quando.”
“Então por quê?” Ele quis saber. “Eu acho que, depois desse tempo todo, as pessoas já esqueceram, e você com certeza merece um trabalho melhor do que aquele na agência. E merece, sim, voltar a estudar. Você pode ter a carreira que quiser, !”
“Eu não duvido disso. Não mais! Eu to me sentindo mais forte, mais inteligente, mais capaz, mais esperta.” A garota sorriu, agora de forma mais alegre, e o amigo não pode deixar de sorrir junto. “Mas eu tenho a impressão de que isso me deixou mais ambiciosa também, mais ousada. Eu resolvi ficar mais um tempo na agência porque mandei um email pra um amigo na França e tava esperando uma resposta.”
, então, explicou que seu sonho não era fazer uma faculdade qualquer, e sim completar seus estudos para ser uma chef pâtissier licenciada. Tinha começado sua formação no intercâmbio durante o qual conhecera a irmã dele, mas havia ficado pouco tempo em Paris para que pudesse ser considerada, de fato, uma especialista em confeitaria francesa.
Durante este mesmo período, conhecera o chef Debussy. Ele tinha uma confeitaria linda e cheia de coisas deliciosas, bem como a famigerada licença. Antes de voltar para os Estados Unidos, tinha dito que a jovem poderia sempre contar com a ajuda dele, se precisasse, então ela tinha tomado coragem e feito alguns pedidos ao velho amigo.
Ele respondera, alguns dias depois. Dissera estar muito feliz com a perspectiva de tê-la como ajudante na cozinha, em uma espécie de estágio, enquanto ela fizesse o curso profissionalizante. Informara, ainda, que conseguira um teste para ela, depois do qual, se fosse bem – coisa da qual não duvidava nem por um minuto –, ganharia uma bolsa de estudos.
“E por que você não contou nada pra gente?” indagou, animando-se genuinamente, como havia muito tempo não acontecia. “Por que ainda não tá com as malas prontas?”
“Porque eu não pensei muito, antes de mandar o email. Se eu passar no teste, não vou gastar com o curso e, trabalhando com Debussy, eu vou ganhar o suficiente pra alugar um quarto e pras despesas pessoais, o que é bom. Só que eu não tenho dinheiro para ir à França! Eu ganho bem pouco na agência e não consegui guardar praticamente nada.”
“Eu posso comprar sua passagem.” Ele levantou a mão, para impedi-la de protestar. “Não como um presente, que eu sei que você não aceitaria, mas como um empréstimo. Você pode me pagar com correção e juros, se preferir, exatamente como faria com um banco. A vantagem é que eu não vou te pedir nenhuma garantia, e você vai poder me pagar quando começar a ganhar dinheiro como a chef fantástica que eu sei que você vai ser.”
o encarou, séria. Olhando para trás, ela tinha percebido que a maior parte das pessoas jamais havia feito nada por ela de forma desinteressada, incluindo seus pais. tinha sido a primeira, ao recebê-la em sua casa, e agora estava agindo de forma semelhante, oferecendo ajuda sem que pudesse visar nenhuma vantagem na ida da amiga a Paris. Na verdade, pensando bem, só teria prejuízos, pois ficaria sem alguém que tomava conta da filha dele gratuitamente, que já tinha preparado, mais de uma vez, o jantar em sua casa, e ajudado inúmeras vezes com o serviço de lavanderia.
“Obrigada.” Ela respondeu, abraçando o rapaz.
“É de coração, . E, antes de ir, tenho certeza que você vai ter tempo de me agradecer com algumas receitas desse seu amigo de Paris.”

After of all of the darkness and sadness, soon comes happiness
If I surround myself with positive things, I'll gain prosperity


preparou éclairs e macarons no dia de sua partida, e todos estavam tão contentes por ela que deixou até Kyra provar os dois doces. A menina estava com o rosto cheio de creme de chocolate quando a tia se despediu dela, com um abraço apertado que ela retribuiu, apesar de não entender que se tratava de uma despedida.
se ofereceu para levá-la ao aeroporto, mas a amiga agradeceu e recusou. Ele estava com olheiras enormes e tinha emagrecido ainda mais nas três últimas semanas, enquanto ela se preparava para a viagem. Kyra iria para o jardim-de-infância, quando o ano letivo começasse, e ele estava estudando a proposta de um escritório do qual poderia se tornar sócio, tendo assim a chance de trabalhar em horários mais flexíveis, para poder levar e buscar a filha, ficar com ela sempre que não estivesse na escolinha e ter horas de sono apropriadas. Por enquanto, contudo, sua jornada dupla estava mais intensa que nunca: uma vizinha ficava com a menina, enquanto ele estava no escritório, quase sempre por mais de dez horas seguidas, mas era ele quem preparava as refeições, cuidava da casa, colocava a menina na cama...
“A e a Jessalyn vão comigo.” Ela disse, dando um abraço rápido nele. Tinha que ser bem rápido pois quase chorara ao fazer o mesmo com Kyra. Era por isso que detestava despedidas! Por mais que houvesse muitas coisas boas esperando por ela, a despedida era o momento que fazia lembrar o que estava ficando para trás.
“Aqui, . Vai no meu carro.” Ofereceu ele, jogando a chave para a irmã. “Eu vou descer com vocês, de qualquer jeito, pra levar as malas.”
Jessalyn, colega de trabalho de , pegou Kyra no colo, e os quatro entraram no elevador em silêncio. até tentou brincar com no carro, a caminho do Washington Dulles, mas o choro que se iniciara durante o segundo abraço que dera em , dessa vez mais apertado, não cessou até vários minutos depois de a Srta. entrar no avião.
Ela estava indo rumo a um sonho, mas seriam três anos longe da família mais especial que alguém poderia ter. Não havia laços de sangue entre eles, era verdade, mas isso não tinha importância nenhuma! Ela sabia que sentiria saudades.
Quando chegou a seu destino, entretanto, ela voltou a se animar. Paris era a mesma cidade encantadora de que se lembrava, com suas cores, cheiros, os moradores com seu jeitinho peculiar, e Debussy a recebeu mais calorosamente do que poderia ter esperado.
O trabalho duro começou no dia seguinte e, durante quinze dias, sempre que a cozinha da confeitaria fechava, o chef permanecia com a ajudante, preparando-a para o teste que estava por vir.
Se já não tivesse resgatado a autoestima em que Scott tanto pisara, isto teria acontecido quando ela passou na concorrida prova e ganhou uma das duas bolsas integrais disponíveis para a turma daquele ano. Ou ao menos quando foi convidada, por um de seus professores favoritos, a integrar a equipe de uma confeitaria que ele iria inaugurar, como chef aprendiz, quando ela cursava o quarto semestre.
e vibravam com as conquistas dela, mesmo à distância. Quando eles trocavam mensagens por escrito e alguns áudios, diariamente, por whatsapp, ou quando conseguiam um pouco mais de tempo livre e se falavam por Skype, o entusiasmo e o carinho eram tantos que eles pareciam mais próximos que nunca!
Kyra também participava das conversas com vídeo, para sempre se lembrar de quem era a titia. Vê-la crescendo fazia sorrir e ficar ainda mais motivada a voltar preparada para ter uma carreira de sucesso como chef confeiteira, e ser um exemplo bem diferente do das mulheres em meio as quais ela própria crescera.
“O papai tem uma surpresa.” A menina disse, certa tarde, e , sentado ao lado dela, abriu um sorriso.
“Essa danadinha aqui e eu vamos te fazer uma visita, no final do ano.” Esclareceu e quase gritou do outro lado. “E ela também quer ver a Minnie, a Mulan, a Bella... Você teria como tirar um ou dois dias de folga pra ir à EuroDisney com a gente?”
“Mas é claro que sim!” Respondeu sorrindo e tentando não chorar também. Por mais que tudo estivesse indo bem na França, tê-los com ela nos feriados de Natal e Ano Novo seria como estar em casa novamente, ainda que por um curto período. “Me conta tudo! Quando vocês chegam? Quais são os planos?”
Kyra se jogou nos braços dela, no aeroporto, e tirou seus pés do chão, ao abraçá-la e rodopiar com ela. Infelizmente, não havia espaço em seu apartamento, para que pudesse convidá-los a ficar lá, mas encontrou um lugar perfeito para os dois, por meio do site airbnb, e fez questão de criar todo o clima de festas, montando uma grande árvore de Natal e espalhando luzes pisca-pisca pelo local.
Durante os quinze dias que os passaram na capital francesa, ela esteve com eles sempre que pode. Caprichou na ceia de Natal, depois da qual trocaram presentes, preparou uma pequena cesta com guloseimas, para levarem com eles, quando decidiram celebrar a chegada de um novo ano em Montmartre, à beira da Sacre-Coeur, e os acompanhou na visita à Disneyland Paris.
“A devia ter vindo com a gente. Ela vira uma criança em parques de diversão.” comentou, enquanto caminhavam de uma atração para outra, com Kyra à frente deles, devorando um picolé com o formato da cabeça do Mickey.
“Ela deve amar todas essas montanhas russas enormes em que eu sempre tive medo de andar, graças aos meus pais.” riu. Eles nunca a incentivaram a ser aventureira, mas felizmente ela agora estava derrubando todas as barreiras, inclusive quanto a se divertir em brinquedos como Space Mountain, Big Thunder Mountain Road e Rock’n Roller Coaster Aerosmith.
“Sim, ela ama. Pena que, no momento, ela ame ainda mais o tal de Owen.” Falou, fazendo uma careta.
“Alguém tá com ciúmes?” Ela provocou, dando um soquinho no braço dele.
“Talvez, mas até que eu gosto do cara.” Admitiu. “Ele parece amar a minha irmã. De verdade. E eu acho que eles pensam parecido a respeito das coisas mais importantes.”
“Isso, e ela indo passar as festas com a família dele no Canadá podem indicar um casamento em breve?”
“Minha irmãzinha se casando?” Ele fingiu, dramaticamente, uma dor do lado esquerdo do peito. “Até que seria bom. Talvez assim ela não me arraste nunca mais pra uma daquelas xícaras giratórias, depois de ter comido um cachorro-quente com coca-cola.”
contou mais algumas histórias de sua infância ao lado da irmã, enquanto aguardavam na fila para a atração Indiana Jones et le temple du péril. riu tanto que ficou com o abdômen dolorido. Não se lembrava de ter rido daquele modo, por anos!
O amigo parecia verdadeiramente animado e, durante os dias que passou com pai e filha, mostrando a eles a cidade, pode perceber que ele estava realmente melhor e isso a deixou muito feliz!
não era do tipo que ficava reclamando e sempre mantinha o bom humor, mas quem o conhecia de verdade, sabia o quanto a morte de Bev o abalara. Quando ela viajara, ele já não tinha mais os olhos vermelhos de quem chorava escondido, mas também não tinha brilho nos olhos, como antes do evento trágico. Ali, em meios às luzes artificiais de Paris, no entanto, ela vislumbrara, algumas vezes, a luz própria de piscando, ameaçando se acender.
Com o passar do tempo, ele estava se parecendo mais com ele mesmo, assim como , depois de seu próprio drama pessoal, vinha descobrindo, com a ajuda dos dias, meses e anos, quem ela era de fato. E se permitindo ser ela mesma!

Thought that I would fail without you, but I'm on top


“Coloca ali, por favor.” indicou um dos cantos da cozinha industrial ao rapaz que carregava uma das muitas caixas de mantimentos que estavam sendo retiradas de um caminhão e trazidas para dentro da loja.
“E isso aqui, tia ?” Indagou Kyra, mostrando o embrulho em sua mão, uma das poucas coisas que estavam vindo direto de sua casa, no carro de .
“Pode colocar em cima daquele balcão, princesa.” Respondeu, apontando. “E depois volta pro carro e fica junto com o seu pai. O pessoal tá carregando coisas pesadas, e eu não quero que você corra nenhum risco.” Pediu, fazendo um carinho na cabeça da menina, que assentiu, sorrindo.
A garota obedeceu e só voltou por volta de quinze minutos depois, acompanhada de , que tinha terminado de coordenar o trabalho dos carregadores do lado de fora. Ele trazia algumas sacolas penduradas nos braços, com coisas frágeis.
“Você vai querer ajuda pra arrumar?” Questionou.
“Não. Eu vou guardar algumas coisas na geladeira só. O resto vai ser colocado em seus devidos lugares amanhã. Vai ser o primeiro dia dos funcionários, e eles vem justamente pra fazer isso, junto comigo.” Explicou ela. “Mas vocês podem me ajudar no apartamento, se quiserem, e eu posso fazer um steak au poivre avec pommes noisette pra nós três, mais tarde.”
“O que é isso, tia? É um dos seus doces?” Kyra perguntou, animada.
“Não.” O pai riu. “É um filé ao molho de pimenta, com batatas, mas com nome chique.”
“Mas eu posso fazer uma carne sem pimenta pra você.” ofereceu, vendo a careta que a pequena fazia. “E uma sobremesa também, é claro. Acho que você vai adorar o meu crème brulée.”
“Podemos ir, papai.” Ela juntou as mãozinhas, como se fosse preciso implorar e ele achou graça de novo.
“É claro que a gente vai. Mas a tia precisa de ajuda e não de mais trabalho.” Censurou.
De fato, estava precisando demais de auxílio! Depois de quase quatro anos fora de casa, mais até do que planejara de início, ela voltara, uma semana antes, a Washington D.C. e tinha muitas coisas a organizar.
Havia a confeitaria que estava abrindo na cidade, tendo como sócia capitalista uma chef francesa, amiga de Debussy, que confiara em seu trabalho o suficiente para acreditar que ela poderia ser a especialista em confeitaria responsável pelo local. Havia o casamento do sócio de , que aconteceria dentro de duas semanas e seria o primeiro evento para o qual prepararia uma quantidade grande dos doces sofisticados em que se graduara. Por fim, e não menos importante, havia o apartamento que alugara, em uma rua próxima àquela em que os moravam, e que ainda estava cheio de caixas e malas repletos de roupas e outros itens pessoais.
Foram necessárias algumas horas para que o lugar ficasse com jeito de lar, mas, no final, a dupla de ajudantes foi recompensada com um jantar delicioso. Kyra se serviu duas vezes de sobremesa, enquanto lembrava ao pai que tinha ajudado a preparar a iguaria, para que ele não a proibisse. Porém, mesmo com todo o açúcar envolvido, foi vencida pelo cansaço e dormiu no sofá.
“É melhor eu levar essa pulga pra casa.” disse, fazendo menção de se levantar do tapete, onde estava sentado, ao lado de .
“Não! Por favor! Espera um minuto.” Pediu, segurando no braço dele e levantando ela mesma. “Eu sei que você vai dirigir e não pode beber muito, mas queria pelo menos fazer um brinde à minha casa nova.” Falou, retornando da cozinha com vinho, um saca-rolhas e duas taças, e ocupando o lugar ao lado dele novamente.
“E ao resto também.” Propôs, observando enquanto ela abria a garrafa com precisão. “À sua volta pros Estados Unidos, à sua licença de chef patissier, à Château Douce...”
“Aos amigos que me ajudaram a realizar esse sonho.” Completou ela, entregando-lhe uma das taças e servindo o elixir descoberto por Baco.
“Você merece, .”
Eles estavam sentados bem próximos e, quando se virou para bater a taça na dela, seu olhar foi atraído para o dela e ele sentiu um calor totalmente repentino. Um gole do vinho branco gelado ajudou, mas ele ainda estava muito consciente da presença dela a seu lado, as pernas dobradas, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos alisando a taça.
“Eu to muito empolgada com a loja! Amanhã, no final do dia, eu quero que você vá lá, ver como ficou.”
“Eu vou, claro.”
“Eu trouxe alguns pôsteres de Paris, pra dar um clima mais francês. E uns bibelôs também. Aquela coisa bem tradicional: a Torre, o Arco... aquelas perninhas de bailarinas de can can.” Riu.
“Vai ficar ótimo! Eu não entendo muito dessas coisas, mas eu sei que vai ficar maravilhoso.”
Os dois trocaram sorrisos e olhares de novo, e dessa vez se pegou observando os lábios da amiga. Ela pareceu não reparar e continuou falando, mas ele já não conseguia prestar muita atenção.
Aquela atração o estava deixando extremamente confuso! Ele sempre achara uma mulher linda, mas nunca tinha pensado nela daquela forma. Ela era sua amiga, a melhor de todas! Ela era um membro da família, uma irmã para , uma tia para Kyra.
Talvez ele não tivesse visto como mulher, até aquele momento, porque, quando fora apresentado à garota, na época da separação desastrosa entre ela e Scott, ele era casado com Bev. Depois disso, viera o luto, e ele estivera, por um longo tempo, triste demais para ver até a si mesmo.
Havia algum tempo que ele tinha voltado a ter encontros, mas eles não eram sérios. ainda não tinha certeza sobre estar preparado para se comprometer novamente. E, como ele jamais poderia arriscar sua amizade com , apenas por causa de uma atração, era melhor fingir que continuava não enxergando tudo aquilo.
Ele podia ter usado a filha como desculpa para beber apenas uma taça e sair correndo, mas disse a si mesmo que não era covarde e ficou. Ele esvaziou a garrafa com a melhor amiga, viu o dia nascer, conversando com ela, e acreditou que, se ignorasse que não estava sentindo um frio absurdo na barriga, em algum momento ele iria passar.

You thought that I'd be sad without you, I laugh harder


abriu a porta do apartamento e imediatamente sentiu uma enorme vergonha, por estar usando uma camiseta velha de malha e calças de moletom. Não que nunca o tivesse visto assim, mas isso parecia ter acontecido em uma outra era, quando ele não se importava se ela o achava atraente ou não.
É claro que isso era uma bobagem, já que ele não pretendia fazer nada a respeito do que estava sentindo, mas querer parecer bem aos olhos de alguém, quando estamos nos apaixonando pela pessoa, é algo quase instintivo, involuntário como as próprias batidas mais aceleradas do coração.
“E aí?” Ela cumprimentou, dando um beijo na bochecha dele. “Eu tava lá na , mas ela vai sair com o Owen, e eu fiquei totalmente só, nessa noite chuvosa de sexta-feira, sem nada pra fazer.” Comentou, entrando na sala e jogando o casaco no encosto de uma poltrona.
“Bem-vinda ao tédio!” Brincou ele, voltando para o sofá, onde estava antes da chegada da garota.
“Cadê a Kye?” Inquiriu, sentando-se ao lado dele.
“Foi pra casa dos meus pais.”
“E você tava... jogando vídeo game?” Franziu a testa.
“Eu comprei pra Kyra, no aniversário dela.”
“Você vai mesmo usar uma criança como desculpa?” Implicou, cutucando a barriga dele, que quase se encolheu, com medo da reação que o contato poderia provocar em seu corpo.
“Não é uma desculpa. Foi ela quem pediu.” Assegurou. “O lance é que eu acabei descobrindo uma versão de Street Fighter maneiríssima pra ele, além de vários jogos foda de futebol. Eu não resisti!”
“Quer saber de uma coisa, ?” Ela se aproximou, como se fosse mesmo fazer alguma confissão séria. “Em Paris, eu tinha um desses. Eu trabalhava muito, mas, nas minhas horas vagas, não tinha tanto o que fazer e precisei de algo pra ajudar a passar o tempo. Eu dei pro neto do Debussy, antes de vir embora, mas to começando a achar que devia ter trazido.”
“Quer jogar um pouco?” Tentou a sorte, e ela olhou para o console do PlayStation sobre a mesa, por alguns segundos, antes de abrir um sorriso largo.
“Eu jogo com a Chun Li.” Informou, categórica, pegando o controle. “Quer ver meu Kung-fu? Vou te mostrar.”
Os dois se divertiram como adolescentes e, depois de várias derrotas, propôs que eles vissem um filme, querendo garantir que ficasse por mais algumas horas. Preparou pipoca, pegou um balde de gelo, colocando algumas long necks de Stella Artois dentro dele, e deixou que ela escolhesse um de seus DVDs.
Os Excêntricos Tenenbaums não foi uma escolha romântica, e nem O hotel Budapeste, que ele escolheu, em seguida, por insistência dela. Mesmo que eles nunca tivessem passado tanto tempo assim juntos, somente os dois, parecia seguro ver filmes, rir juntos, conversar sobre a atuação de Gene Hackman e sobre as imagens da fictícia República da Zubrowka, sugerir outros filmes dos quais a amiga provavelmente gostaria.
Quando os filmes acabaram e ela sugeriu, embalada pela conversa sobre artistas e pelo álcool, que eles brincassem de Quem sou eu?, colando post-its na testa um do outro, com nomes de celebridades, ele também não podia imaginar que nada além de mais risadas inocentes esperasse pelos dois.
“Eu sou mulher?” Ele perguntou, tentando adivinhar o nome da vez. Era a quarta rodada e a brincadeira estava sendo bastante interessante. era inteligente e perspicaz, e tinha umas tiradas geniais que só ela teria!
“Não.” Ela respondeu, bebendo um gole de cerveja, de um jeito travesso.
“Eu sou ator?” Um sinal negativo. “Cantor?” Idem. “Jogador de futebol?”
“Também não, .” Disse, já começando a rir.
“Político?”
“Isso!” Ela assentiu vigorosamente, dessa vez.
“Eu sou negro?”
Nope.”.
“Sou seu pai?” Outra negativa. “Fui seu marido?”
“NÃO!” Ela soltou uma gargalha sonora. “Mil vezes não, por favor.”
“Huuuum... Deixa eu pensar.” fez sua melhor expressão de pessoa concentrada. “Eu me vejo como um branco superior, mas na verdade to mais pra laranja? E essa coisa que eu chamo de cabelo se parece mais com um filhote de shih tzu que esqueceram em cima da minha cabeça, certo? Em um desenho super comédia, com pessoas amarelas, fizeram a péssima previsão de que eu seria o futuro presidente da América?” Emendou uma pergunta na outra, imitando o recém-eleito governante da nação, e deixando claro que tinha matado a charada. Então estreitou os olhos, encarando a jovem, e foi se aproximando dela, como se quisesse encarnar alguém ameaçador, enquanto ela ria sem parar. “Agora que eu ganhei, vocês estão demitidos! Não, espera... acho que me confundi. Na verdade, eu vou expulsar geral e construir um muro com o dinheiro do vizinho. Mas isso não tava na previsão, tava?” Fingiu refletir e ela sentiu a barriga doer, de tanto rir.
estava sem fôlego, depois de tantas crises de riso provocadas pelo jogo, e no momento em que ela parou de rir, inspirando fundo, estava com o rosto bem próximo ao dela e literalmente a encarava. Os olhos dele pareciam conter alguma coisa nova, um calor que nunca vira ali antes, e seu rosto estava bonito de um jeito que deveria ser até proibido! A barba por fazer lhe dava um quê ainda mais masculino, e emoldurava uma boca úmida e entreaberta que eram um convite ao pecado.
Foi fácil demais – e pareceu tão certo - segurá-lo pela nuca e colar os lábios nos dele, que ela sequer hesitou. Talvez porque estivesse carente de um contato físico, já que a última vez em que saíra com alguém fora quase um ano antes, ainda na França. Ou talvez simplesmente porque ela sempre achara o amigo absolutamente perfeito e só não pensara muito sobre isso justamente por ele ser seu melhor amigo.
Fosse qual fosse o motivo, lá estava ela com a língua enroscada na dele, com uma das mãos em seus cabelos e a outra agarrada à camisa de malha surrada que ele vestia. E estava sendo um beijo maravilhoso! estava correspondendo, segurando o rosto dela entre as mãos, e aquele conjunto de carícias enviou rapidamente sinais deliciosos para todo o corpo dela.
Contudo não tardou a chegar o momento em que os sinais penetraram seu cérebro, emitindo um alerta máximo que ela não poderia ignorar. Ela não podia simplesmente viver o momento, como tinha feito com todos os caras que conhecera depois de Scott, com alguém que era tão importante pra ela.
“Me perdoa, .” Pediu, se afastando. “Meu Deus! Me perdoa! Eu não sei o que me deu.”
“Tá tudo bem, . Você não fez isso sozinha.” Retrucou, pensando em quantas vezes, desde o dia em que a ajudara com a arrumação do apartamento novo, ele tivera que obrigar a si mesmo a não fazer o que ela tinha acabado de fazer.
“Você é meu melhor amigo. É muito importante pra mim! Eu não quero que você pense que eu não gostei... Mas eu também não posso me deixar levar e depois...” Ela não sabia o que dizer, porém não era necessário. Ele entendia! Aquela atração, que vinha se revelando muito mais que isso, também o pegara de surpresa e o confundira demais.
“Eu também não colocaria em risco a nossa amizade por nada nesse mundo.” Ele garantiu e pensou em pagar na mão dela, mas recuou, sabendo que o contato de pele com pele só dificultaria as coisas.
“Eu não quero que esse beijo deixe as coisas estranhas entre a gente.” Revelou preocupação. “Me promete que as coisas não vão ficar esquisitas?”
“Claro.” Ele sorriu e assentiu, mas ela não relaxou. Ainda estava desconcertada e não conseguia encará-lo. Tomou mais um gole de cerveja, comeu um punhado de amendoins torrados, fez um comentário bobo sobre ele ter achado que ela colocaria o nome do pai no post-it que colou na testa dele, pouco antes. Ou – ainda pior! – o do canalha.
No passeio que seus olhos fizeram pela sala dele, evitando seu rosto a qualquer custo, encontrou o próprio casaco e, com isso, uma escapatória.
“É melhor eu ir. Nem percebi que tava tão tarde.” Declarou, se levantando. “Amanhã eu começo a trabalhar cedo, como sempre. Você chama um táxi pra mim?”
Ele fez o que ela pediu e a acompanhou até a portaria, tentando puxar assunto, mas falhando miseravelmente. Naquele momento as coisas estavam, sim, bem estranhas entre eles, e só podia se apegar à esperança de que uma boa noite de sono levasse o constrangimento e só deixasse a lembrança deliciosa do momento em que tivera em seus braços.

I'm not gon blast you on the radio (I'm better than that)
[...]
I'm not gon hate on you in the magazines


Château Douce – 800 F Street NW, Washington, DC 20004

Alleyne entrou, animada com sempre, na cozinha industrial, onde preparava alguns itens encomendados por clientes da confeitaria. Os doces vendidos ao longo do dia eram feitos sempre bem cedo, antes da abertura da loja, e o restante do tempo era dedicado a estas encomendas especiais ou a eventos que estavam se tornando cada vez mais frequentes. Talvez ela fosse precisar até aumentar o número de funcionários.
, tem um senhor lá fora, insistindo muito para cumprimentar a chef, depois de ter comido o que ele disse ser o o melhor canelé que já provou fora da França.” A balconista informou e a outra garota olhou para ela com um de seus sorrisos cheios de orgulho.
“Diz a ele que eu vou em um minuto.” Respondeu, terminando de confeitar com chantilly um de seus famosos baba au rhum.
A garota desapareceu da cozinha tão rápido quanto se materializara ao lado de , que confeitou os dois doces faltantes da bandeja, antes de limpar as mãos em um pano de prato, tirar e pendurar o avental, e ajeitar o vestido. Ela não era só a chefe, mas também uma empresária, e gostava de circular entre os frequentadores da loja com a melhor aparência possível.
Contudo, naquela tarde, foi difícil (para dizer o mínimo) manter um semblante agradável. Bastou que saísse da cozinha para que ficasse branca como um fantasma, ou melhor, como alguém que acabara de se deparar com um.
Podia ter se preparado melhor, se soubesse quem era o cliente ansioso para vê-la, mas, a julgar pela indiferença total de Alleyne ao encontro que se desenrolava a pouco mais de meio metro do balcão, ela não sabia de quem se tratava mesmo.
Não era tão estranho assim, se pensasse bem, já que, após o escândalo que ela ajudara a causar, ele fora forçado a deixar de lado sua campanha para chegar à Casa Branca e tivera até o mandato de Senador cassado. Atualmente, pelo que ficara sabendo, muito por alto, ele estava concorrendo a Prefeito de Little Rock, no Arkansas.
“Olá, .” Scott falou, de forma educada, em tom de voz baixo que somente ela e as balconistas poderiam ouvir. Felizmente, só ela estava prestando atenção, visto que as três outras jovens estavam bastante ocupadas.
“É claro que você nunca poderia ter dito que era o melhor canelé da sua vida, não é? Esse tipo de elogio você só fazia quando eu era sua mulher e você queria algo de mim.” Disse ela, cruzando os braços na frente do corpo. “O que você tá fazendo aqui, Bryant?”
“Você não pode me culpar por ficar curioso, ao ver a minha ex numa capa de revista.” Replicou, dando um daqueles sorrisos charmosos nos quais ela já acreditara um dia. Olhando um pouco para o lado, percebeu que as pessoas estavam observando, fosse porque tinham reconhecido os dois, de outra era, fosse simplesmente pelo jeito nada amigável dela.
Descruzando os braços e procurando se acalmar, fez um gesto na direção de uma mesa vaga, bem no canto da loja. Ele puxou uma das cadeiras para ela, fazendo o papel de cavalheiro que desempenhava tão bem. Aquilo a fez ter ainda mais certeza de que o problema nunca tinha sido ela. Julgara ter sido tola, muitas vezes, no passado, mas na verdade um bom número de mulheres poderia ter acreditado nas ilusões que ele vendia, principalmente sendo jovens como ela era e tendo pais que o ajudaram a parecer seu par perfeito.
“Eu to ocupada. Trabalhando. Portanto, se tem alguma coisa pra dizer, desembucha.”
“Uau!” Scott continuou com aquele sorriso que parecia até parte de seu rosto cínico. “Que escolha de palavras nada elegante!”
“Eu não to com paciência pra ser elegante.”
“Ok.” Ele fez um sinal de rendição com as mãos. “Eu, na verdade, não tenho nada pra falar. Eu só queria ver, com meus próprios olhos. Nunca imaginei você como uma chef de cozinha.”
“Você nunca me imaginou como nada além de uma manequim que sabia andar e cumprimentar.”
“Não é isso, linda. Eu só...”
“Sem isso de linda ou qualquer coisa parecida, ok?” se debruçou sobre a mesa, falando com firmeza e se esforçando para não elevar o tom de voz. “Você esperava que eu voltasse pra você, mesmo depois do divórcio... que eu estivesse só magoada, mas fosse coisa de momento. E, quando você viu que eu não voltaria, achou que ao menos eu iria pro Arkansas, pra debaixo das asas dos meus pais. Você me achava uma fraca, uma covarde, uma bobinha... até meio burrinha, eu aposto. Nunca pensou que eu fosse não só sobreviver, mas chegar a algum lugar, sozinha. Sem você principalmente.”
“E com chegar a algum lugar você se refere a comandar uma cozinha?” Debochou ele, achando que assim conseguiria desestruturá-la. “Você poderia ter sido a primeira dama desse país, !”
“Eu cheguei à cozinha porque escolhi a cozinha, assim como poderia ter escolhido qualquer outra carreira. Sua ironia não vai me atingir porque eu sei que, se você veio até aqui, para tentar usá-la comigo, foi justamente porque te incomodou muito ver que eu sou uma empresária, que eu to ganhando dinheiro, fazendo uma coisa que eu gosto de fazer, e to ficando até um pouco famosa, de um jeito muito mais legal do que era, quando eu aparecia nos jornais e nas revistas apenas por causa de outras pessoas.”
De fato, tinha sido maravilhoso receber um fotógrafo e um jornalista na loja, em razão do trabalho dela e não porque ela era uma ou uma Bryant.
O primeiro havia registrado seu trabalho nos fundos da loja, literalmente enquanto estava com a mão na massa, e depois fizeram várias fotos dela próximo ao balcão e às mesas em que os clientes eram atendidos. A que estampara a capa da revista era lindíssima, com a chef segurando uma pequena torta de chocolate, morangos e marshmallows.
O segundo tinha feito uma entrevista com ela, sobre o prêmio que a confeitaria recebera da revista, especializada em gastronomia: a melhor tarte tatin dos Estados Unidos. O prêmio, junto com vários outros, em reconhecimento aos profissionais da culinária doce e salgada, era oferecido todos os anos, e fora contemplada com um, menos de seis meses após a abertura das portas de seu estabelecimento comercial, o que era fantástico.
É claro que o jornalista pesquisara sobre a vida dela e, tendo descoberto suas ligações com políticos, perguntara pelo ex-marido e pelo pai da jovem. Porém, de forma muito simpática e educada, ela conseguira manter o foco em sua produção. Não havia razão para falar sobre uma família que tinha preferido se manter distante dela, e muito menos para dizer nada – fosse bom ou ruim – a respeito de um homem que fizera parte apenas de seu passado.
No final, a reportagem tinha apenas mencionado o parentesco com Thomas e um breve casamento com Scott Bryant, com quem não manteve contato nos últimos anos, o que incomodara ainda mais o vaidoso político.
“Se você não se incomoda...” Começou a falar, levantando-se. “Ou melhor, você se incomodando ou não, eu tenho muito trabalho me esperando. Como você veio aqui só ver pra crer, acho que já pode ir, né?”
“É claro.” Ele não fez nenhuma objeção, tendo percebido que não seria de nenhuma valia. Levantou-se também, abotoando o terno.
“Alleyne.” chamou, se aproximando do balcão. “O Sr. Bryant vai levar uma caixa de macarons pra filha dele, por conta da casa.”
Antes de entrar na cozinha, ela deu um sorrido educado ao visitante indesejado, como o que teria dado a qualquer cliente. Sorriu ainda mais, ao mudar de cômodo, recolocar seu avental e começar a preparar massa para fraisier, satisfeita com o modo como as coisas tinham corrido.
Antes de ver Scott, ela já sabia que não o amava mais – se é que tinha amado em algum momento, já que a pessoa que ela amara não existia de verdade –, mas havia sempre um certo medo pairando no ar, de que ele ainda pudesse mexer com ela, como quando o vira pela última vez, no dia do divórcio. Agora que o havia encarado, no entanto, tinha a doce certeza de que não havia mais nada ligando os dois, nem mesmo ódio.
É claro que ela levara um susto e que não fizera questão de tratá-lo bem, mas isto acontecera apenas pela surpresa e porque ele não merecia ser tratado com nenhum tipo de deferência, quando fora até ali claramente para tentar desdenhar de tudo que ela se tornara.
No mais, tinha ficado claro que ela era, finalmente, indiferente a ele. Então, pela primeira vez, abriu uma garrafa de champagne no meio do expediente, e bebeu sozinha, simplesmente porque podia!

I've got all my life to live
I've got all my love to give


colocou as sacolas que estava carregando sobre a bancada, enquanto Kyra tirava um caderno e o estojo de dentro da mochila da escola. A garota puxou um dos banquinhos e o aproximou da parte vaga da bancada, sentando-se para fazer o dever de casa, sem que ele precisasse dizer nada.
, que tinha acompanhado a dupla no supermercado, olhou para ele, com olhar questionador, enquanto começava a ajudar o irmão a guardar as compras.
“Ela vai ajudar a com seus bem-casados, se estiver com todas as tarefas em dia.” Ele explicou. A menina estava super animada com todos os preparativos para a festa de casamento da tia, e sua parte favorita era aquela pela qual ficara responsável.
“Será que alguém finalmente vai aprender a cozinhar nessa família?” brincou, pois nenhum das últimas três gerações sabia sequer fritar ovos.
“Não sei se ela vai aprender a cozinhar, não, mas seria maravilhoso se ela, um dia, se apaixonasse por alguma coisa e fosse tão feliz quanto a é, trabalhando com isso, né?” olhou para a filha, que levantou os olhos do exercício e sorriu para ele, concordando.
“É... acho que sim.” Respondeu a irmã, por sua vez, mas sem muita firmeza.
“Acha?” Ele estranhou. “Como assim acha? A loja é um sucesso, ganhou até prêmio! E ela tá super animada com esse lance das festas, agora. Aconteceu alguma coisa que eu não to sabendo?”
“Não, mas... sei lá. Ela tá se dando bem nesse negócio, sim, mas me chateia um pouco que ela ainda esteja sozinha, depois de todo esse tempo.” Comentou, preocupada.
“Fala sério, !” Respondeu, incrédulo. “A é uma pessoa maravilhosa, comunicativa, bem humorada, inteligente, além de ser uma mulher linda.” Disse, e o elogio tão enfático não passou despercebido pelas duas mulheres da vida dele, ainda que ambas tenham preferido nada comentar. “Se ela tá sozinha, é claro que é porque ela quer. E é um direito dela preferir ficar sozinha, certo?”
“Certo, sabichão! Foi a mesma mãe quem criou nós dois, viu? Eu sei que uma mulher pode e deve fazer suas escolhas. Não precisa repetir o mantra da Sra. .” Riu. “O que acontece é que eu não acho que a queira ficar sozinha. Eu tenho medo que ela esteja simplesmente com pavor de abrir a guarda pra alguém novamente, e se machucar mais uma vez.”
“Ela tem as razões dela pra isso.” Ele fez questão de lembrar.
“Eu sei!” Assegurou. “Só que me preocupo do mesmo jeito. Eu não gostaria de ver a minha melhor amiga enterrar os sonhos dela por causa de um idiota!”
“Ela não enterrou os sonhos, ...”
“Como você sabe?” Interrompeu. “Uma mulher pode ser forte, bem sucedida, não precisar de nenhum homem do lado dela, mas, ainda assim, desejar uma família, filhos, um quintal cheio de brinquedos, um cachorro bobão que quase derruba os donos, quando eles chegam. A sempre quis isso! Ela não é como eu, que só resolvi me casar agora, depois de encontrar um cara que aceitou numa boa que eu não quero filhos, ou como a Jessalyn, que teve um filho, mas não aceitou nenhum dos muitos pedidos de casamento que recebeu, porque prefere não ter esse tipo de compromisso. Ela sempre acreditou em dividir a vida com outra pessoa e sempre quis pelo menos um casal de filhos, até descobrir que aquele merda era um mentiroso safado...”
!” Repreendeu, inclinando a cabeça para apontar a filha.
“Desculpa.” Disse, respirando fundo para se acalmar. “Eu não gosto de imaginar que ela possa estar reprimindo essas vontades, por achar que é impossível ter tudo isso, sabe? E tudo por causa de um idiota como aquele ex dela! Eu sei que grande parte dos homens não merece mesmo muito crédito, mas – poxa! – você não é assim, o Owen não é assim, e tem que haver mais exceções por aí, não é?”
sorriu, abraçou a irmã de lado e deu um beijo na testa dela. Também queria ver feliz, por isso a entendia completamente. Porém eles não podiam interferir, precisavam respeitar o tempo dela.
Se, no fundo, ainda tivesse os mesmos sonhos de menina, ele tinha fé de que ela ia ser abençoada com a realização de cada um deles. E, se ele tivesse sorte o suficiente, talvez pudesse ser uma pequena peça desse sonho realizado.
***

Na sexta-feira daquela semana, depois de conferir todas as tarefas de casa de Kyra e ver que elas estavam mesmo em dia, levou a filha até o apartamento de , onde ela estava preparando alguns doces para a festa do dia seguinte.
Quando Owen e fizeram a lista de convidados, e lhe disseram tudo o que gostariam de colocar na mesa de doces, ela constatara que o evento seria maior que qualquer outro para o qual já tinha aceito encomendas e contratara alguns ajudantes. A cozinha da loja estava mais movimentada do que nunca, por isso ela tinha dado as orientações necessárias, colocado a segunda chef no comando e buscado um lugar para trabalhar com mais tranquilidade, nos itens mais importantes, como bem-casados e o croquembouche, uma tradição francesa à qual os noivos tinham aderido com entusiasmo.
“Ela não vai mesmo te atrapalhar?” perguntou, antes de ir embora, deixando as moças sozinhas.
“Claro que não! Ela vai me ajudar.” Retorquiu , piscando para a menina. “Vai pegar o seu terno e o meu vestido, que assim você me ajuda também.” Falou, praticamente empurrando o rapaz porta afora, e ele obedeceu, brincando de bater continência.
Felizmente, a amizade entre e não tinha sido abalada pelo beijo, e o constrangimento entre os dois ficara relegado apenas àquele primeiro momento, logo depois que ele acontecera. Os dois continuavam muito à vontade um com o outro, sempre rindo e brincando, apesar de as coisas não serem exatamente como antes, já que agora havia trocas de olhares e sorrisos constantes, e momentos em que ela o flagrava observando seus movimentos, ou era pega fazendo o mesmo com ele.
“O meu pai tá ranzinza!” Kyra falou, subindo no banquinho que ficava junto à ilha de trabalho, no meio da cozinha. A tia apenas franziu a testa, surpresa. Nunca tinha visto a menina falar absolutamente nada de ruim sobre ele! “Eu acho que ele tá precisando de uma namorada.”
“Uma namorada, é?” Indagou, apoiando os cotovelos na bancada e encarando o serumaninho, que falava como se tivesse autoridade no assunto.
“É. Você não acha, tia?”
“Eu não sei... talvez. Mas você não sentiria ciúmes?”
“Eu acho que um pouco, sim. Mas eu ia gostar de ver o meu pai mais feliz.”
“Você é mesmo uma menina de ouro, Kye!” fez um carinho na bochecha dela e então se afastou, para começar a pegar os primeiros ingredientes que usaria e colocar sobre a bancada.
“Mas é claro que teria que ser alguém que gostasse de mim, né? E que fosse ser tipo uma mãe pra mim, sabe? Eu não lembro da minha e sinto falta de ter uma, pra ir às festas do colégio, convencer o meu pai a me dar um cachorrinho, fazer compras com a gente. Às vezes, o meu pai nem sabe direito o que comprar pra mim, e tem que ficar chamando a tia , que agora vai casar e nem vai ser mais nossa vizinha.”
quebrou alguns ovos e os jogou dentro de um bowl, enquanto a garota a observava, pensativa. Acrescentou açúcar ao recipiente e o encaixou na batedeira. Kyra, que sempre fazia mil perguntas e se oferecia para fazer as coisas, permanecia quieta parecia distante, ainda que seu olhar estivesse direcionado para as mãos de .
“Por que você não namora o meu pai, tia?” Perguntou, de repente, e a outra agradeceu aos céus por não estar mais quebrando ovos, ou teria feito uma bagunça da cozinha. “Seria perfeito!”
“Namorar o seu pai, Kye? Mas... e-eu e o seu pai somos amigos.”
“E isso não é bom? Minha tia diz que meu pai e minha mãe eram muito amigos.” Argumentou. “Você não acha o meu pai bonito?”
queria sumir magicamente, ou talvez enfiar o rosto, que com certeza estava vermelho, no pote cheio de ovos e açúcar. Ao invés disso, arrumou uma desculpa – o fermento que ainda não tirara do armário – para se virar de costas por um tempo.
“Ele te acha linda! Linda e inteligente e bem humorada... Eu vi quando ele falou pra minha tia.” Continuou a pequena, sem se dar conta de que estava deixando a amiga do pai sem jeito.
“Seu pai é muito bonito, sim.” Respondeu, tentando não se abalar. Kyra era só uma menina, que podia estar confundindo as coisas. “Mas a gente não namora todo mundo que a gente acha bonito.”
“Eu não to dizendo pra você namorar todos os caras bonitos, tia!” Colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça, como se estivesse falando uma coisa óbvia e não sendo compreendida. “Só o meu pai.”
não conseguiu deixar de rir, mas depois apertou carinhosamente o nariz da criaturinha e voltou a falar sério.
“Eu acho bem legal que você queira que seu pai namore e fico super feliz que você queira que eu seja tipo uma mãe pra você, meu amor! Mas só quem pode decidir se quer namorar e quem quer namorar é o seu pai, ok?”
“Uhum.” Aceitou ela, muito a contragosto, baixando o olhar.
“Você vai ou não me ajudar aqui? A gente em muito trabalho pra fazer!” Informou, entregando um novo bowl a ela e explicando o que deveria fazer com alguns dos ingredientes separados.
Durante toda a tarde e parte da noite, trabalhou, tentando afastar do pensamento aquela ideia teimosa de que talvez, em sua sabedoria infantil, Kyra tivesse percebido algo que ela e evitavam encarar.
Ela sabia que havia alguma coisa. Desde o dia do beijo, ela sabia! Havia desejo, com certeza. Havia afeto, ternura. Havia amor, também com certeza, mas esse amor sempre tinha sido um amor de amigo, sempre tivera um sentido de família. Seria possível que tivesse se convertido em outro tipo de amor?
Ela não dormiu naquela noite, apenas para concluir que sim. Ao menos da parte dela, esse amor tinha mudado. Ela estava apaixonada pelo melhor amigo e negara isso, enquanto não se sentira preparada.
Estava, enfim, amando alguém que merecia seu amor. E só podia torcer para ter o dele, já que tinha certeza de que também merecia.

Now I'm savin' all my lovin' for someone who's lovin' me


e se levantaram, junto com todos os outros convidados especiais que estavam sentados à mesa da família e padrinhos de e Owen. Logo depois que os noivos terminaram de abrir a pista, dançando ao som de uma música especial, outra se iniciara e o dj convidara os integrantes do cortejo a se juntarem aos recém-casados.
e tinham sido um par no cortejo, então ele foi até ela e a tirou para dançar, como era esperado. Não que fosse um sacrifício, é claro. Especialmente naquela noite, em que ela estava mais linda que nunca! Não havia ninguém que ele teria escolhido, se não houvesse uma tradição a seguir.
“Belas palavras, Dr, .” Ela disse, já nos braços dele, no meio do salão.
“Você também foi muito bem.” Comentou ele de volta. Minutos antes, algumas pessoas importantes, como os pais e irmãos dos noivos, e os padrinhos, tinham feito seus discursos de praxe.
“Seu mentiroso!” Ela deu um tapinha no peito dele. “Eu sou péssima falando em público.”
“Eu não diria péssima.” Ele falou, com um sorriso brincalhão.
“Sim. Péssima, no mínimo. Eu me contento em encantar as pessoas no final da festa com meus doces.” Retorquiu. “Esse dom da oratória é mais coisa de pessoas como você, meu pai e o Scott.”
Scott?” Ele arregalou os olhos. “É a primeira vez, em anos, que eu ouço você falar esse nome, e não imbecil, calhorda, idiota... coisa pior, às vezes.”
“Ele continua a ser tudo isso, eu acho, principalmente se a gente levar em conta a atitude dele, quando foi lá na Château Douce.”
“Isso foi de uma cara de pau! Eu quase não acreditei quando a me contou.”
“Mas foi bom, porque, como eu disse, ele pode continuar sendo tudo isso, mas eu vi que ele não me incomoda mais, sabe?” Houve um momento breve de silêncio, no qual ela procurou os olhos dele. “Eu to finalmente pronta pra seguir em frente.”
Ele a encarou de volta, tentando descobrir se estava entendendo corretamente uma espécie de sinal verde da parte dela, ou se era só a esperança falando. Ela respirou fundo, sustentando o olhar, e entreabriu os lábios, se preparando para falar alguma coisa, mas o momento foi interrompido quando o pai e a mãe dele se aproximaram dos dois.
“A nossa não está radiante?” A Sra. perguntou, retoricamente.
“Ela tá maravilhosa, e o noivo não é nada mal, mas eu gastei demais nessa festa pra estar bebendo tão pouco.” O Sr. mais velho reclamou.
“Christopher!” A esposa repreendeu. “A festa mal começou.”
“Foram pelo menos quarenta minutos entre a espera pelos noivos e os discursos. Certo, filho?” Foi a vez dele de ser completamente retórico.
“Mas, após essa dança, o senhor vai poder aproveitar.” interviu, simpática.
“Você tá linda, minha querida!” Adele elogiou. “Vocês estão lindíssimos, dançando juntos. Aproveitem a festa e deixem esse rabugento comigo.”
Quando eles se afastaram, a oportunidade tinha passado. se limitou a sorrir e continuar dançando. tivera a impressão de que ela ia dizer alguma coisa, mas preferiu não perguntar, não desejando pressioná-la. Ao invés de conversar, resolveu se divertir, fazendo passos mais elaborados, ao som de The Way You Look Tonight, na voz de Michael Bublé.
“Eu não sabia que você dançava assim!” Ela falou, depois que ele a fez dar um giro rápido. “Desse jeito, eu vou te querer como par a noite toda.”
“Sou todo seu.” Respondeu, segurando mais forte na cintura dela e dando um sorriso de lado com um quê de malícia que se refletiu em seus olhos. “Eu aprendi a dançar por insistência da Bev. Ela queria abrir a pista, no nosso casamento, em grande estilo.”
“Eu posso imaginar. Deve ter sido maravilhoso.” Comentou, lembrando-se da amiga, mas não se sentiu uma traidora por querer tanto aquele que fora marido dela. Não podia se sentir culpada por um amor que nascera aos poucos, depois de tantos anos de amizade verdadeira com . Onde quer que Beverley estivesse, imaginava que ela desejaria que fossem ambos felizes.
“Foi uma noite linda.” Ele concordou. “Nós realmente dançamos, como ela tanto queria, e depois ela não deixou mais a pista.”
“Você ainda sente muita falta dela, não é?” Perguntou, receosa. Não porque nutrisse qualquer ciúme da história que ele sempre teria com a mãe de sua filha, mas porque ainda não sabia muito bem como ele se sentia, mesmo que tivesse flertado com ela, pouco antes.
“Eu sempre vou sentir. Ela foi importante demais pra mim, e eu sempre vou ter muito amor por ela, dentro do meu coração.” Confirmou. “Mas é diferente, agora. Eu não penso mais nela com tristeza. Ficaram as lembranças boas, os bons sentimentos, sabe? E eu to finalmente pronto pra seguir em frente.”
Ao repetir as palavras de , a encarou, e os dois sorriram. Houve um entendimento silencioso entre eles, não sendo necessário dizer mais, por enquanto. e Owen se aproximaram, pouco depois, e propuseram uma troca de pares.
Depois disso, ficou presa na pista, por um bom tempo, com , Jessalyn e outras amigas da noiva que ela conhecera durante os preparativos para a festa e o chá de panelas. cumprimentou muitos conhecidos e conversou com familiares, observando a garota, sempre que podia.
Voltaram a se aproximar quando a irmã dele revolveu reunir as solteiras, para jogar o buquê. Ele estava sentado no bar, de frente para a movimentação das jovens no meio do salão, e ela se aproximou, ocupando um banco ao lado do dele.
“Não vai participar?” Questionou ele.
“Não acredito que pegar um buquê faça alguém se casar.” Ela explicou. “E nem acho mais que casar seja assim tão importante.”
“Isso é porque você teve uma experiência ruim.” Afirmou ele, pegando duas taças de espumantes da bandeja de um garçom que passava, e entregando uma a ela. “A novos começos.” Disse, levantando a própria taça.
“A seguir em frente.” Brindou com ele, bebendo um gole em seguida.
Nesse momento, jogava o pequeno arranjo de rosas vermelhas, amarradas com um laço de fitas branco, que foi disputado por mulheres de todas as idades, e acabou nas mãos da tia de Owen, sexagenária e divorciada havia alguns anos. O namorado, por volta de dez anos mais jovem, a pegou no colo, provocando gritinhos e gargalhadas nos demais convidados.
acompanhou tudo, mas percebeu que não ria do casal, e sim de alguma outra coisa, já que estava virada para o lado oposto.
“O que eu perdi?” Quis saber.
“Não olha agora, mas a sua filha não tira os olhos da gente.”
“É mesmo?” Ele franziu a testa e procurou por Kyra, fazendo o oposto do que ela tinha acabado de sugerir. A garota não se incomodou em disfarçar e deu um tchauzinho para o pai.
“Ela andou me falando sobre você arrumar uma namorada.” comentou, bebendo mais um gole de seu drinque.
“E deu uma de Cupido, sugerindo o seu nome para o posto, certo?” Foi a vez dele de rir. “Ela é muito esperta.” Disse, baixinho, próximo ao ouvido dela, como se contasse um segredo. Ele mordeu o lábio inferior, se controlando para não beijá-la, ali mesmo, e ela, por sua vez, pegou um mini vol au vent que um garçom lhe ofereceu e o mordeu com vontade.
“Bebidinha fraca, cara!” O primo de apareceu, passando o braço esquerdo por cima dos ombros dele e pegando, com a mão direita, a taça que ele segurava, para despejar todo o líquido garganta abaixo. “A gente tá planejando sair daqui e fazer uma festinha menos suave.” Declarou o rapaz, já alterado pelo álcool. “Você vem com a gente, né, cara?”
“Eu não sei, Neil. De repente, se eu arrumar alguém pra ficar com a Kyra, pode ser.”
“Enquanto isso, eu vou atrás de uma bebida de verdade.” O jovem deu um beijo estalado na bochecha de e se debruçou no bar.
“A Sra. Standen não ia ficar com a Kye?” inquiriu, confusa.
“Eu não to a fim de uma festinha menos suave com meu primo, .” Esclareceu. “Além do mais, eu esperava convidar uma outra pessoa para dar uma esticada, depois daqui.”
“Ela aceita.” Anunciou, em tom de formalidade fingido. “Mas é melhor disfarçar, sabe? Pelo pouco que a sua filha observou até agora, eu acho que ela já deve estar prevendo o nosso casamento pra amanhã mesmo.” Riu.

For as long as I know how to love, I know I'll stay alive

abriu a porta da frente do apartamento, tentando não derrubar a pasta de trabalho, o guarda-chuva, nem as correspondências que pagara no escaninho do prédio. Sorriu, ao ver as duas mulheres da vida dele sentadas no sofá, envolvidas com diferentes tarefas.
Kyra nem mesmo desviou os olhos da TV, enquanto dizia Oi para o pai, atenta aos bonequinhos do Minecraft. terminou apenas de escrever amaciante na lista de supermercado que estava fazendo, e então levantou-se, para ajudar o namorado. Pegou o guarda-chuva da mão dele e deu um beijo rápido em seus lábios, antes de levar o objeto molhado para a área de serviço e pendurá-lo na ponta do varal.
colocou a correspondência sobre a mesa de centro e se aproximou da filha, beijando o topo de sua cabeça, antes de seguir em direção ao quarto, desfazendo o nó da gravata e tirando o paletó, ainda no caminho até o cômodo.
“Como foi seu dia?” perguntou, entrando no quarto logo atrás dele.
“Cansativo, mas proveitoso. Fechamos um bom contrato.”
“Que ótimo!” Ela disse, entusiasmada. “Vamos comemorar com um jantarzinho gostoso em família, feito pela Kyra. Ela só tava esperando você chegar pra finalizar.”
“Sério?” Ele ergueu as sobrancelhas, enquanto começava a desabotoar a camisa social. Além de Kyra ter parecido interessada demais no videogame, para alguém que estava esperando a chegada dele para servir o jantar, ela nunca tinha feito comida sozinha.
“Ela tem talento! Juro!” Observou, sincera.
“Mas eu achei que você tava ensinando seus doces pra ela.”
“Eu não precisei ensinar prato nenhum. Ela disse que pegou receitas na Internet.” Deu de ombros.
“Vamos ver se isso tá bom mesmo, já já, mas eu queria falar com você antes.” Comunicou, jogando a camisa em um cesto de roupas no canto do quarto.
“Aconteceu alguma coisa?” Ela se preocupou, mas ele fez um gesto negativo com a cabeça e sorriu, sentando-se na cama e a puxando para o colo em seguida.
“Sabe aquela casa que você amou, quando tava ajudando a Berthe a procurar a casa pros pais dela?” Perguntou ele.
“Aquela que eles não compraram por causa das escadas?” Ela indagou de volta, com o mesmo semblante desanimado que tinha no rosto, ao contar a ele que o Sr. e a Sra. Johnson tinham escolhido outra casa, porque era toda térrea. Ela entendia, afinal ambos já tinham idade avançada, mas não pode deixar de lamentar. Tinha achado a casa simplesmente maravilhosa!
“Essa mesmo. Aquela com a piscina, o balanço e a casa da árvore, que te deixou suspirando por uma semana.” Ele riu e a fez rir também, porque era verdade. Ele a conhecia tão bem!
“O que tem a casa, afinal?”
“A Berthe me deu o telefone da corretora, e eu liguei, hoje à tarde. Ela me passou valor, condições de pagamento, me falou de todos os pequenos problemas que a casa tem, e que fizeram o preço dela cair um pouco... Enfim, eu confirmei que a grana que eu tenho guardada é suficiente pra gente dar um sinal, e que as prestações seriam em um valor totalmente adequado pra gente, completamente dentro da nossa realidade.”
“Você...” Ela hesitou um pouco. “Tá pensando em comprar a casa?”
“E por que não?” Parecia um passo bastante lógico para , na verdade. Eles estavam juntos havia pouco mais de um ano, e ela fora morar com ele e Kyra, por volta de sete meses antes. A vida a dois pedia mais algumas mudanças, na opinião dele.
“Porque... eu não sei, na verdade. É só que eu sempre achei que você gostasse daqui. Além disso, os seus pais deram o apartamento pra você, e eles já ficaram bem chateados quando a alugou o dela, e foi morar com o Owen no dele.”
“A foi morar com o Owen num apartamento alugado, menor que o nosso, e em um bairro bem mais distante da casa dos meus pais que esse aqui.” Ele explicou. “A gente continuaria no mesmo bairro, numa casa nossa, e eles sabem que o apartamento vai ficar pequeno pra gente.”
“Vai?” Ela questionou, meio sem jeito.
“Só não vai, se você não quiser. Se depender de mim, com certeza.” Ele sorriu. “E a Kyra também vive perguntando sobre irmãos, e pedindo um São Bernardo de presente!”
riu. Aquele tipo de cachorro precisaria de um quintal grande no qual correr, e crianças mereciam ter piscina, balanço, casa na árvore, um pomar de onde colher frutas do pé e um jardim colorido. A casa que tinha visitado com a sócia, semanas antes, seria mesmo o paraíso para o tipo de família que ela queria ter.
“Pode ser uma boa ideia mesmo.” Disse, enfim, mordendo o lábio.
É uma ótima ideia.” Ele assegurou, tomando uma das mãos dela entre as suas. “Eu quero esse tipo de vida com você, : ter mais filhos, criar a Kyra e eles, numa casa com espaço pra correr, com plantas, bichos...”
“Eu também quero isso, amor.” Ela respondeu, emocionada, encostando o rosto no dele.
“Eu sei que um dia a gente pensou que nunca mais ia amar ninguém. Eu, por ter amado antes, uma pessoa especial, que me fez muito feliz, me deu uma filha linda, e foi levada desse mundo, super de repente. Você, por ter amado alguém que te machucou demais, que fez você perder a confiança nas pessoas.” Disse, entrelaçando os dedos aos dela e observando suas mãos unidas. “Mas a gente tinha muito amor dentro da gente pra guardar! Nós sabemos amar e merecemos isso. Eu te amo muito, .”
“Eu te amo mais.” Ela brincou.
“Se você quiser, a gente pode fechar negócio, ainda essa semana.” Ele a olhou, cheio de expectativa e, em alguns segundos, ela sacudia a cabeça, confirmando que sim. Feliz, ele a puxou para si e tomou sua boca em um beijo lento, mas profundo, que só confirmava tudo que havia declarado.
Um cheiro gostoso de bacon assaltou as narinas de ambos, pouco tempo depois, e a voz de Kyra, chamando por eles, invadiu seus ouvidos, quase ao mesmo tempo. A menina surpreendeu o pai, com uma costela ao molho barbecue, acompanhada de batatas com cheddar e bacon, que não deixava nada a desejar, comparada à de vários restaurante que eles conheciam.
Foi mesmo uma comemoração e tanto, complementada pelo crêpe Suzette que trouxera da loja, e pelo vinho que os adultos tomaram, depois de colocar a pequena chef na cama.
O contrato foi mesmo fechado naquela semana, mas a mudança para a casa nova demorou quatro meses, porque algumas melhorias tiveram que ser feitas sem a presença de moradores no imóvel. Com isso, dispôs de tempo suficiente para organizar uma open house toda especial, com a ajuda de Berthe, Kyra e Jessalyn.
enfeitou as árvores do quintal com fios de luzes, e completou a decoração pendurando nelas passarinhos brancos de origami, feitos por Kyra, que aprendera a técnica de dobradura em um acampamento de férias. Jessalyn espalhou arranjos de flores pela casa e providenciou parte dos comes e bebes, complementados, é claro, por criações da própria .
Apesar de não ser oficialmente uma festa de casamento, as ideias foram surgindo e sendo colocadas em prática, de forma natural.
Berthe, que era sócia de no fornecimento de doces para eventos, e fazia principalmente bolos de casamento, confeccionou um em forma de toque blanche, colocando, sobre o falso chapéu, bonequinhos de pasta americana que imitavam , com sua maleta de advogado nas mãos e uma camiseta do Washington Wizards, aparecendo por debaixo do terno, de vestido de festa, com uma badeja cheia de doces em uma das mãos e uma cesta com flores na outra, e Kyra sentada, de pernas cruzadas, montando um quebra-cabeças.
Kyra presenteou o casal com um par de alianças, que comprou com dinheiro dado por todos os membros da família , e eles foram pegos totalmente de surpresa, mas as colocaram em seus anelares esquerdos, declarando seu amor um pelo outro em meio a parentes e amigos. Não havia necessidade de ostentá-las em suas mãos direitas, pois eles já viam aquela reunião entre amigos como a celebração máxima de união de que precisavam. Nem uma benção religiosa, nem proclamas lhes pareciam necessários.
Foi uma festa maravilhosa, a primeira de muitas realizadas naquela casa, que seria o lar dos por gerações. e curtiram muito o espaço, até o fim de suas vidas, com filhos, netos e até bisnetos!
Eles foram bastante felizes juntos, conquistando tudo aquilo que mereciam, já que ser um sobrevivente na verdade é muito mais do que sobreviver!
Fim



Nota da autora: Talvez essa história não tenha sido bem aquilo que vocês esperavam encontrar no mixtape girlpower. Provavelmente, várias das histórias postadas nesse especial não deixaram espaço para um homem especial, já que o objetivo era exaltar as mulheres (e tudo ótimo, pois toda visão é respeitável).
No entanto, eu sou muito romântica, acredito no amor, no companheirismo, e não vejo o empoderamento feminino como algo que pressupõe "demonização" dos homens.
O que eu tentei passar foi que, na minha opinião, de mulher e autora, nós, mulheres, temos que lutar para nunca nos rendermos à vontade dos homens, para não dependermos deles, nem financeiramente, nem emocionalmente, MAS que isso não precisa significar abrir mão de amor, de família, de filhos, de NADA que faça parte dos nossos desejos e sonhos mais íntimos, da mesma forma que NÃO É PROBLEMA NENHUM não ter vontade de se casar, de ter filhos...
Ser empoderada é se colocar em posição de exercer plenamente a liberdade de ESCOLHA.
Espero ter feito um bom trabalho. Você poderiam me contar! Eu adoraria!! Beijos mil a todas que chegaram até aqui <3

Fics da autora:

A Chave Para O Coração
Dos Tons Pastel Ao Vermelho
Herança De Grego
Quando nossos corpos falam
Entre outras...
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