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Última atualização: 27/08/2021
Music Video: Aya - Mamamoo

AVISO: A história que será contada aqui não retrata nenhum dado histórico e é totalmente sem compromisso com a realidade. De fatos reais foi tirado apenas a base como inspiração. Aqui a fantasia é o ponto principal.


Você falava como se fosse me dar o mundo
Agora apontamos flechas um para o outro
É um típico final ruim
Cuspindo na cara um do outro
E agora nos tornamos estranhos
Enlouquecendo por esse jogo de amor
Você é egoísta, eu já cansei
Aya - Mamamoo


Prólogo

Era uma vez…

A história de , a rainha feiticeira, começou muito antes de seu nascimento. O seu início vem de quando seu bisavô, Valask, decidiu que humanos e criaturas poderosas como feiticeiros não tinham capacidade para dividirem terras e que se tornaria perigoso em algum momento a convivência entre os dois povos. O egoísmo hora ou outra faria com que as faíscas que já existiam se tornassem algo muito mais intenso e difícil de mediar.
Foi então que, na terra média, Valask convenceu os seus iguais a se unirem e fundarem o próprio reino, assim se veriam livres de possíveis conflitos. E Valask teve grande parte o apoiando, incluindo anciãos que por muitos anos viveram sob o domínio de algum senhorio de grande poder naquela cidade antiga. O seu propósito incluía esse livramento de servidão que muitos feiticeiros tinham perante aos humanos.
Os planos de Valask eram os mais puros e defendiam sua espécie.
Fundou-se então o reino Ayaseo, comandado pelo rei Valask I e com suas leis fundadas em cima daquilo que era considerado benéfico para a população de feiticeiros. Claro que não foi fácil para Valask convencer os senhores que se consideravam acima dele a aceitar que iriam partir em massa e que, daquele momento por diante, os humanos que se virassem para conseguir suprir suas necessidades que dependiam de magia.
E, como uma medida de segurança até mesmo para que os feiticeiros fossem deixados em paz, um primeiro acordo fora feito com o rei para que, simbolicamente, confiassem que Vaskai não seria afetada e nunca atacada por aqueles que estavam indo embora. Então foi necessário que todos os feiticeiros, os mais de 300 homens e mulheres, produzissem uma proteção que sairia da nascente de água para todas as residências; esta proteção não permitiria que os humanos fossem manipulados facilmente por qualquer magia, portanto, não estariam vulneráveis.
Para I, aquele ato era um tranquilizante, pois assim sabia que a ideia de partida do povo de Valask se justificava apenas pela convivência, descartando qualquer ideia sobre um golpe que poderia tomar dos feiticeiros.
A segunda medida de segurança tomada foi um tratado. Nenhum dos dois lados teria poder sobre as terras do outro e, se quisessem algo, como parte de uma boa colheita, deveria ser pedido e não reivindicado. E o primeiro que descumprisse com tal medida seria condenado à sentença de morte, sendo ou não poderoso. O reino, pois bem, seria tomado por aquele que fora invadido.
E o tratado foi firmado em uma pedra, numa estrutura firme de rochas, no caminho que separava os dois reinos, mantendo uma distância certa de cada lado. Selado com a magia forte de todos os feiticeiros representantes daquele reino que estava sendo fundado, junto da tão poderosa espada de ouro do rei humano, que era a única arma capaz de matar um feiticeiro, colocada no meio da pedra, sendo fundida ao concreto.
Poucos anos depois, Valask I faleceu, deixando seu filho como líder de todo um povo. I demorou cerca de vinte anos para seguir o mesmo rumo. Valask II e II seguiram à risca todos os planos deixados em cartilhas e em formato de leis deixadas por seus pais. Vaskai e Ayaseo se tornaram dois grandes reinos e em torno deles surgiram outros. Mauok, o reino dos elfos, se juntou para as leis da pedra; logo em seguida, foi a vez de Lysantre, das fadas — o que custou aos dois primeiros acreditarem que realmente existiam fora das canções.
Então, logo se formou o reino Di Quatuor, composto por essas quatro divisões. E com isso se fez necessário as reuniões de seus senhores a cada colheita para que houvesse a paz e harmonia dentre todos.
Pelo ponto de vista padronizado do que se esperava, Valask III não teve a felicidade inicial de ter um filho homem para o suceder. Infelizmente, sua esposa faleceu no parto de , sua única filha, e casar-se de novo ia contra toda e qualquer lei de sua espécie, os Ayaseanos. Para seu avô, tudo acontecia por uma razão específica e deveria haver respeito quanto a esta natureza. Nada vinha sem propósito.
Portanto, Valask III não teve outra opção a não ser levar para as reuniões. Ela deveria ser preparada para governar o seu povo futuramente, e, assim como ele, que aos sete anos já ia com seu pai, a hora dela havia chegado.
— Mas papai, eu ainda não sei como controlar meus poderes — a garotinha disse, enquanto aguardava abrirem a porta de sua carruagem. Ela estava com medo daquele lugar escuro e com aquela atmosfera séria, queria voltar para seu castelo e brincar com .
— Eu era mais novo que você quando vim pela primeira vez, — Valask a disse, tentando ser compreensivo. Com certeza sua doce Ehra saberia lidar melhor com aquela situação. — E também não tinha noção de como controlar meus dons. — Olhou-a firme, corrigindo a forma como mencionava seus “poderes” com a magia. — Mas meu pai confiava em mim, assim como confio em você, minha filha. Um dia, no futuro, Ayaseo será comandada por sua sabedoria e estar aqui faz parte desse processo.
Valask apertou a mão da criança suavemente e ela apenas assentiu, mesmo que ainda não compreendesse a necessidade de estar ali.
O rei feiticeiro seguiu com sua filha pelo caminho, entrando naquele lugar rochoso e iluminado apenas por velas e tochas nas paredes. apertava sua mão, deixando transparecer todo o medo que sentia e ele não a culpava, era apenas uma menina e sua garotinha podia ter o medo que tivesse. Ele a protegeria.
Foram os últimos a chegarem à reunião. Sob os olhos atentos dos outros três reis, Valask entrou no ambiente sem receios, mesmo que soubesse dos possíveis comentários sobre, dentre todos, ser o único a não ter tido um filho homem para dar continuidade ao seu reinado. Entretanto, ele não ligava.
— Uma mulher? — III foi o primeiro a dizer, não escondendo sua arrogância humana. imediatamente se escondeu atrás das pernas de seu pai.
— E qual o problema, ? — Fëanor, rei dos elfos, perguntou. Sua superioridade era algo de classe. — Garanto que ela tem a mesma capacidade que a do pai para governar.
— Nem do reino das fadas tivemos uma mulher… — o humano insistiu.
— Eu acredito que não seja de sua conta quem irá ou não reinar em meu lugar, — Valask disse, se sentando em seu lugar, seu tom sem preocupação nenhuma. — Vocês humanos estão bem amparados pelas leis da pedra e, devo ressaltar, a sua nascente. A lei é a lei, não foi seu bisavô quem fundou isso?
não o respondeu. Apenas engoliu aquilo com todo o desprezo possível.
E enquanto os adultos ali prestavam atenção em seus interesses, naquela breve discussão, e o filho de III se aproximavam. O garotinho tinha em mãos uma flor que colheu aos pés da mesa de pedra — e que achou adorável por ser a única ali. Ele se aproximou com cuidado e estendeu para a menina em sua frente, porém, ao fazer isso, viu a flor murchar. a pegou em seus dedos, sentindo o toque na pele do menino. Ao pegar o pequeno lírio em sua mão, sentiu aquela corrente diferente por seu corpo, fazendo-a voltar a ficar em pé e viva.
Valask e encararam a cena atônitos, o filho do humano havia dado uma flor sagrada para , muito simbólica, inclusive. O lírio simboliza o amor eterno e aquela que estava ao pé da mesa só era tocada por aquele com intenção pura, certo para quem a entregaria. E o jovem IV deu para . Era o equivalente a prometer para a futura rainha feiticeira seu amor eterno.


Parte 1 — A Colheita

Ayaseo

A canção era linda, mas na voz de soava como o canto das fadas em uma noite estrelada e banhada ao clima bom de uma boa colheita. Não importava o sol forte que estava no céu, com seus raios escaldantes e cores tão chamativas como a bela estrela brilhava diariamente, para qualquer ayaseano, a abundância daquela manhã não seria abalada por nenhum outro detalhe natural. Era tudo sobre a alegria que mais uma temporada de plantio estava lhes entregando, portanto, a cantoria, as cirandas das crianças, dentre tantas outras formas de celebrações, não seriam cessadas pelo calor.
O silêncio se fez apenas pelo despontar da carruagem da rainha; claro que era um ato de respeito, recebê-la com aquele mar quieto de pessoas satisfeitas e admiradas não só por sua beleza, mas pelo reinado marcado por bons feitos. A rainha fora a primeira mulher a assumir o reino dos feiticeiros e há cerca de dez anos já tinha muitas histórias que serviram para conquistar seu povo. Assim como seu falecido pai, Valask III, o terceiro rei de uma linhagem iniciada por seu avô de mesmo nome, estava sendo não só uma boa feiticeira, mas uma excelente líder para seu povo; seu dom da magia, tão grande que era, poderia ser o nível de comparação para medir a satisfação quanto ao seu reinado.
As crianças que estavam mais distantes do caminho de pedras sobre areia, correndo pelas estufas, direcionaram suas corridas para o meio fio, esperando por sua saída da carruagem, como sempre, deslumbradas. Todos os feiticeiros que estavam ali trabalhando pararam o que estavam fazendo, a fim de seguirem o olhar para o mesmo foco. E a cantoria de cessou, com seu sorriso formado nos lábios.
— A rainha! Curvem-se para a rainha! — um dos homens disse, ao fundo da plantação, fazendo com que todos ali se curvassem no exato momento em que o cocheiro abriu a porta.
Ela era elegante, dona de uma simplicidade que nem mesmo o menos afortunado dos homens possuía. Sua presença era sempre rodeada não só pelo carinho de seu povo, mas o seu próprio afeto por eles. não se esquivava de conversas, não se colocava distante de nenhum homem e mulher, brincava com as crianças que lhe alcançavam, adorava caminhadas matinais pelas estufas abertas naquela zona de plantio mais afastada do castelo e, talvez o mais importante pelo ponto de vista ayaseano, não se distinguia de ninguém por ser a rainha. Era uma feiticeira assim como eles e não se sentia a mais pelo tamanho de seu poder.
Assim como as crianças gostavam de vê-la passar, os adultos, até mesmo os mais velhos, que ainda haviam acompanhado o governo de seu pai, se agraciavam com o prazer de terem sido abençoados pelos céus por terem uma pessoa no poder do povoado de tamanha competência e companheirismo. E já estava acostumada com todo esse carinho, talvez tenha sido isso que sempre incentivou a jovem rainha a se colocar no papel de seu povo sem sentir-se diferente, ou maior que qualquer um deles. A criação que seu pai se empenhou em manter acabou por render a boa convivência e harmonia entre todos.
Afinal, Ayaseo fora fundada com base no desejo de seu fundador em ter o clima tranquilo da boa convivência.
passou por entre os feiticeiros curvados, sorridente como sempre e segurando firme a alça do cesto que carregava, ia em direção de sua, além de rainha e mentora, melhor amiga. Não estava vestindo nenhuma falsa carapuça em seu comportamento saltitante, se sentia extremamente alegre e satisfeita com o que estavam colhendo, e, como de costume, era seu dever cruzar aquele mar de pessoas para chegar a e lhe relatar tudo. Não era como uma via de regra em que deveria delatar à rainha tudo o que acontecia no reino, assim como os humanos possuíam conselheiros em meio de seus governantes; por ser sempre ligada em todos os pontos de Ayaseo, , talvez dentre todos ali, era a pessoa que mais confiava e sabia poder colocar suas mãos em chamas caso fosse preciso.
Ao alcançar o caminho de pedra, curvou-se brevemente, mesmo com o revirar de olhos vindo de — ela achava isso uma extrema atitude desnecessária por ser de uma pessoa que passava mais do que o comum de tempo ao seu lado e que não compartilhava uma relação regada às formalidades.
— Você vai morrer revirando os olhos, porque eu nunca irei deixar de me curvar diante da minha rainha — comentou, ainda com a mesma animação.
— Até o dia em que eu usar de uma medida mais-
— Ah, não, rainha… Você não usaria magia de manipulação contra sua melhor amiga e conselheira só porque se recusa a vê-la curvar diante de ti? — cortou a fala de , com o uso de humor em suas palavras.
— Conselheira? — a encarou cética.
riu fraco, sabendo que aquilo a deixava um pouco incomodada.
Uma das maiores exigências em Ayaseo, desde o primeiro governo daquele povo, era de que não existiriam distinções. Quando fora feita a divisão de reinos, buscando firmar a harmonia para os feiticeiros e, como consequência, para os respectivos que foram divididos e formados, Valask I tomou como exigência que nenhum traço do que era o reino humano fosse vivenciado pelo seu povo. Fundar um reino para os feiticeiros se verem livres da servidão para com humanos foi justamente para que o tipo de cenário em que estava naquele momento fosse corriqueiro; basear-se em princípios, como o respeito, rendeu aos ayaseanos mais do que um lugar de moradia. Ayaseo tinha esse significado a mais e o ponto principal era sobre a sua essência.
São pessoas com poderes, desde os mais simples aos mais complexos, mas, mesmo assim, não existe o maior ou mais poderoso, cada um aprende com o outro o que deve agregar.
sabia muito bem que não gostava de fazer comparações, por menores que fossem, mas, mesmo assim, ainda brincava com sua amiga.
— Não se enrijeça, rainha… Hoje está um lindo dia para ficar se preocupando com trivialidades. — Ela movimentou o ombro, encostando em levemente. — Olhe para isso! — E se virou com os braços abertos, de maneira que o cesto pendurado em seu braço direito não caísse.
tomou um tempo para analisar, virando-se para a imensidão que apontava de sua forma. Era um terreno vasto, em que inúmeras caixas estavam sendo carregadas, com os mais diversos itens, dentre verduras, legumes, frutas, tudo o que fosse possível e a terra poderia fornecer em troca do cultivo respeitoso. Em seu mais íntimo, a rainha se sentia afagada por aquele ambiente, como se fosse uma mensagem direta de que estava indo bem e o resultado de mais uma temporada de colheita vinha como um abraço acalorado, em um tipo de tranquilidade por saber que mais uma vez fez certo.
Infelizmente, quando a divisão dos reinos foi feita, os humanos pegaram o melhor pedaço da Terra Média, pois alegavam que não possuíam magia e nenhuma sabedoria elevada — por mais difícil que tenha sido admitir isso, o rei de Vaskai acabou por ceder — para conseguir cultivar em terras menos propícias, e isso poderia acarretar dificuldades com a alimentação de todo um povo. Valask I, o fundado de Ayasseo, não gostava da ideia da necessidade, da fome e da desvantagem. Ia contra seus princípios e ideais, estes que, inclusive, selaram sua busca por separar feiticeiros de humanos; portanto, no fim, ele cedeu e enfrentou o caminho longo e duro para que pudesse cultivar no pedaço de terra que lhe restara.
Entretanto, por terem sido os últimos na formação, Lysantre acabou por ficar com o trecho de todo o conjunto Di Quatuor que menos possuía vida. Isso não foi de fato tão ruim para as fadas, pelo contrário, assim como nas canções antigas que contavam sobre seu cuidado com a criação e manutenção de tudo o que carregava vida, eles conseguiram se manter e erguer-se em cima do solo menos proteico com muito afinco. O trabalho pesado, tanto conjunto quanto individual, com muita doação de cada uma das fadas naquele reino, resultou na abundância de suas colheitas, assim como em Ayasseo. A harmonia, por fim, se estendia entre os dois povos, além dos elfos. Era uma pena que Vaskai, mesmo não estando tão longe dos três, ainda se fazia distante; e sobre isso a rainha sempre pensava e ponderava, porque era de sua criação e essência se importar com os demais, algo passado de geração em geração desde seu tataravô, idealizador de todo aquele cenário harmônico.
Ver que as coisas continuavam a seguir o rumo ideal fazia com que ela respirasse aliviada e deixasse de lado até mesmo o oposto do trivial, partindo apenas para o pensamento de como tudo sob o seu olhar estava prazeroso de admirar e que seu pai deveria estar orgulhoso de como as coisas em seu comando caminhavam. Fechar os olhos brevemente, pressionados e com aquele sentimento genuíno da saudade, banhada na compreensão da ordem natural da vida, foi um ato de respeito e amor; era exatamente sobre isso, duas coisas que, juntas, fizeram parte da agregação de conhecimento para que pudesse governar sabiamente seu povo.
Ao abrir suas pálpebras, viu que seu povo já estava se levantando, e em sua maioria o sorriso continuava imenso. Quem não estava sorrindo era porque usava a boca para sibilar palavras de gratidão e admiração, deixando ser trazida de volta à realidade em que estava. Apesar de apreciar ser respeitada e agradecida, não era apenas seu trabalho como rainha que trazia aquele resultado, parte disso estava ali, bem diante de seus olhos. Eram os homens, mulheres e até mesmo as crianças mais teimosas que se aventuravam em aprender sobre plantações, que fizeram tudo aquilo acontecer, não existia magia certa, se dava pelo cuidado individual de cada um. E mesmo que soubesse ser um reflexo de como era com seu povo, recebendo o que dava, não podia e não queria levar o crédito de tal forma. Se tratava de todo um conjunto daquela cadeia de produção.
Sorrindo levemente para todos, ela assentiu, como forma de resposta.
— O que teremos para o inverno? — perguntou, virando o rosto para .
— Seria mais fácil perguntar o que não temos, — a outra respondeu, sob um riso frouxo. Olhou da rainha para o povo, retornando o olhar em ao continuar: — Talvez apenas a quantia de morangos seja menor do que a da primavera passada. Mas ainda assim podemos lidar com isso, visto que tivemos sobras.
— Sobras? Estas foram enviadas aos vilarejos e compartilhadas com o restante de Di Quatuor, sim? — se atentou, expressando de forma preocupada, e podia enxergar isso mesmo que ela não possuísse o franzido no cenho.
— Sim, fizemos nossas entregas — afirmou, não alterando seu tom para cessar a preocupação de , reconhecia que a reação de sua rainha se fazia um tanto preocupada demais às vezes; uma resposta simples bastaria, de nada iria adiantar debater situações, desde as mais simples até as mais complicadas. — A última carruagem chegou ontem, além das entregas feitas no dia da colheita, dispusemos mais pelas sobras que tivemos.
— Perfeito. E já temos as divisões desta? — Devagar a feição de se suavizou e ela retornou a olhar para aquela extensão de plantio, com os presentes ali retornando seus trabalhos em colher tudo o que tinham para retirar da terra.
— Sim, a primeira entrega será para Lysantre.
— Não iremos deixar Vaskai por último. Comece pelos humanos. — A voz de foi firme, ainda mantendo seu olhar na direção do horizonte de sua plantação.
— Mas… — não compreendeu muito bem.
Vasakai não possuía um bom relacionamento com nenhum dos reinos que formavam Di Quatuor, eram isolados, apesar de estarem no mesmo pedaço de terra e terem sido o primeiro reino formado e de conhecimento geral. As histórias antigas, por mais pesadas, tristes ou cheias de caos que eram, podiam soar menos terríveis e assustadoras do que se ouvia na atualidade. Apesar de serem quatro reinos divididos, ainda possuíam o respaldo da mesa de pedra, construída para que leis fossem criadas quando houve a divisão e formação de novos reinos. Eventualmente faziam reuniões para serem discutidas as questões que espelhavam entre si; não sabiam o que a cruzada no oceano reservava em nenhum de seus lados, portanto era necessário que se mantivessem em harmonia e na boa convivência para quem quer que fosse a despontar pela costa de qualquer um deles, fosse combatida em conjunto e não houvesse prejuízos.
Tanto Valask quanto , os primeiros de suas linhagens, acordaram que o princípio daquela divisão era este: harmonia.
Não houve muitas divergências em ideias para a criação de leis, mesmo que tivesse sido um tanto dificultoso encontrar a concordância, por parte dos humanos, claro. O passo mais difícil, contudo, fora a primeira ação: lutar por aquela divisão. E Vaskai havia feito com muito afinco, portanto, mesmo que Vaskai fosse um reino com histórias ruins e não muito bem visto pelos seus vizinhos, era necessário que os deixassem viver conforme queriam, desde que os interesses alheios não fossem afetados. Isso, todavia, ainda era mantido; IV poderia ter tido todos os erros e cometido todas os seus equívocos, manteria o propósito da saúde daqueles que a importavam, agindo sim pelas beiradas e também cuidando, da forma como podia e lhe cabia, fosse de Vaskai, Lysantre ou Mauok.
Afinal, era uma cadeia de interesses, se não cuidasse do externo, de que adiantaria seu ambiente interno ser harmonioso?
— Faça o que estou pedindo, apenas isso — soou o mais simples e saiu em caminhada para a direção do campo à sua frente, iria cumprimentar cada um ali e expressar sua gratidão.


🗡️


Di Quatuor era formada por quatro reinos, sendo: fadas, elfos, feiticeiros, humanos, e cada um deles possuía suas características cantadas nas canções que rodavam de um a um.
Sobre Lysantre era fortemente dito como eles tinham o poder e a delicadeza para fazer com que a vida fluísse e não enfrentando nenhuma forma de ser podado. Zhara, o rei fada, era tratado como um ser doce, assim como suas antepassadas foram, e isso também complementava a história lysantrina. Os trechos variavam sobre como era possível sentir-se encantado e ter a sensação de estar maravilhado com o que encontrava atrás do bosque de cores, assim como sempre dito, tão vivas. O caminho de dois dias desde o centro de Di Quatuor, local da casa de leis, levava a uma parede verde, de árvores robustas e maiores até mesmo que as torres que escondiam os interiores do castelo élfico, e, por detrás da brisa que as folhas emanavam, existia aquele pedaço com um povo tão aconchegante. Qualquer um que adentrar o bosque, dizia a canção, irá se sentir acolhido e perderá o caminho de retorno, sua linha tênue, inclusive.
Em Mauok o traço contado era sobre como os elfos tinham tamanha presença e elegância, vivendo de forma fechada e tão pouco preocupados, visto que para eles o egoísmo não era encarado como uma presunção. A imortalidade se fazia como o ponto alto, embora fosse a beleza tão exuberante que se fizesse mais impactante para os demais seres. Muito era cantado a forma como eles viviam, pouco de fato se falava de como e de onde surgia a longevidade. Fëanor, o rei elfo, era, inclusive, o ser mais velho de toda Di Quatuor, e chegou na mesma época de fundação, pouco depois de seu pequeno povo desbravar o oceano, saindo de uma ilha minúscula que fora atacada, colocando em risco de extinção os elfos. Na letra da canção mauokana, além da elegância e imortalidade, Fëanor era bem lembrado por seu feito de navegar um oceano e reconstituir seu povo em um outro continente.
Sobre os humanos se tratava do poder físico, sua forma de viver em um pedaço de terra com outros reinos de poderes distintos e, se equiparado, mais elaborados e que permitiam certo poder a mais. Até mesmo a imortalidade élfica trazia muito conhecimento e habilidades para os elfos, enquanto o que os humanos aprendiam em seu tempo curto de vida, nem mesmo se fazia relevante. A canção mais curta era sobre eles, pois não se falava muito sobre a outra parte, a realidade e as letras cantadas eram criadas para divertir e gerar o entretenimento de quem ouvia. Quem iria gostar de ter em seus ouvidos um conjunto de palavras que fosse retratar mesquinharia?
Como tudo precisa ter um equilíbrio, assim como todos os reinos acreditavam fielmente, pelo céu que se equilibrava em dia e noite, cada reino possuía seu lado obscuro. Porém, sobre isso as canções eram censuradas e as que tratavam dessa questão eram pouco cantadas. Levou muito tempo, por exemplo, para que soubesse que Ayasseo era o reino fadado à solidão, mesmo que tanto doasse. Era algo sobre o anseio de seu tataravô em se distanciar de humanos, ou qualquer outra criatura existente que pudesse querer se apossar de seus iguais pelo poder com magia, ter gerado aquele tipo de realidade onde ninguém se aproximaria. Por um lado isso era bom, mas até qual ponto da história sendo construída, já não tinha mais certezas.
Por mais aterrorizante que pudesse chegar a ser, ainda que Vaskai fosse amedrontada em suas letras por ser fadada sempre ao fracasso da mesquinharia, ou que Mauok tivesse em sua história a certeza da imortalidade, para ayaseanos, a solidão se fazia mais cruel. Entretanto, já se faziam mais de trezentos anos desde a fundação de Di Quatuor, com isso veio a aceitação e o costume de viver com tal cenário.
Então, nenhuma canção, censurada ou não, seria capaz de arrancar a alegria daquele povo ao dar boas-vindas para mais uma abundante colheita. Talvez não existisse naquele continente um único ser não ayasseano que estivesse mais feliz estando distante dali. Não existiam sorrisos maiores e brilhantes, ou tão genuínos quanto. Se tratava de todo um trabalho árduo de meses, com dias e noites chuvosas, o alto calor que a cada temporada se intensificava mais. Era sobre a gratidão. E isso, também carregava em seu peito. Olhava para aquela imensidão de homens, mulheres e crianças, enquanto sentada em sua cadeira, ao lado de seus amigos, mantendo a satisfação e tranquilidade em todo o seu ser.
— Você podia sorrir mais, Taeyon. — Ergueu a taça com seu vinho, levando aos lábios para entornar parte do líquido, ao mesmo passo que virava seu rosto de perfil, encarando o homem do seu lado direito. — Talvez seja o inverno em que estaremos mais bem protegidos e com as dispensas repletas de toda a variedade que nossa terra produziu — completou, ao ter a atenção dele, após seu gole curto da bebida.
Ele a encarou de volta, com sobrancelhas erguidas, parecendo retornar de alguma viagem interna de sua mente. Abriu os lábios, não dizendo nada antes da lufada de ar que tomou. Então sua voz saiu um pouco mais baixa que o comum, porém ainda assim audível.
— Peço desculpas, minha-
— Não sou sua. Não complete essa frase. — retornou o rosto para o modo ereto, olhando à frente e novamente bebendo vinho.
Odiava formalidades com aqueles que eram tão próximos de si, não apenas de forma física.
— Me desculpe… — Taeyon respirou lentamente desta vez, também virando o rosto para frente. — Talvez seja o cansaço de ter ido para o sul e voltado em apenas uma semana.
O sul, era isso. Ouvir qualquer coisa que se remetia a Vaskai trazia em um formigamento, o qual ela nunca saberia dizer do que exatamente se tratava. Viviam em extremos opostos, Ayasseo estando no norte e Vaskai no sul. Se encontravam no centro quando era necessário e tinham reuniões dos respectivos reis e a única rainha, e isso já se fazia extremamente mais do que o necessário. Encontrar o humano tinha aquele peso em seu ser, como se ele trouxesse para ela sugar todos os seus problemas e anseios; não era como se seu cenário fosse perfeito e banhado em somente coisas boas, não, Ayasseo também tinha problemas, mas a forma de lidar com eles sempre prevalecia como um bom divisor para comparativos.
Era cansativo encarar o olhar carregado dele, por mais que tenha sido um nome presente e marcante de sua infância. Contudo, ainda era extremamente importante manter a boa convivência, nem que fosse apenas aparência. Os encontros eram bem eventuais, nos últimos dez anos, aliás, haviam se visto cerca de quatro vezes e isso já era bom o suficiente. se preocuparia com a visão que tinha em sua frente, de seu povo celebrando. Mesmo que Tayeon tivesse citado algo que se remetia diretamente a , ela iria focar apenas naquilo que de fato importava: Ayasseo.
Mas a voz dele se fez presente novamente depois do silêncio dela, os dois estando na mesma posição ainda.
— Pergunte, eu sei que você está se perguntando sobre ele…
Ela pousou a taça em cima da madeira que formava sua enorme mesa naquele palanque do salão real, que a dava total visão de todo o ambiente, podendo sempre enxergar até mesmo as entradas laterais e a principal estando posicionada diretamente na frente da porta. tomou a mesma lufada de ar que fora pega por Taeyon há poucos segundos e evitou expressões.
— Não tenho nenhum interesse no rei de Vaskai — respondeu, sem muita demora.
— Sim.. — Taeyon murmurou, ficando mais confortável na cadeira em que estava, de modelo menor do qual a rainha se sentava. — Ele ainda segue sendo o primeiro Vaskai a não ter se casado.
— Não prossiga com esse assunto, Taeyon! — apareceu entre a cadeira dos dois, dizendo firme ao colocar uma tigela com frutas na mesa. — Hoje é sobre celebrar, não incomode sua rainha com trivialidades.
— Eu só estava dizendo o que gostaria de saber — ele se defendeu, dobrando o cotovelo no braço da cadeira e colocando o queixo na mão. — E, palavras dela, ela não é minha.
Olhou de para , recebendo um revirar de olhos da segunda.
arrastou a cadeira, levantando-se imediatamente. Ajeitou a saia longa de seu vestido e bateu firme as botas no chão, dando a volta no móvel.
— Vou descansar, não tirem a proteção da porta. Não queremos os adultos usando magia neste estado embriagado.
Não esperou por nenhuma resposta e caminhou para a saída do palanque. Sua caminhada foi feita pela saída lateral, na mesma direção do local em que estava, dando direto para o corredor que, seguindo reto, a levaria para a escadaria e então poderia subir para seu aposento.
De maneira alguma gostaria de saber sobre como estava vivendo sua vida, não lhe cabia os interesses pessoais do rei vaskaino, fora criada sabendo que humanos e feiticeiros não tinham a menor ou mais remota chance de uma boa parceria. Por muitos anos, seus antepassados foram objeto de servidão para os seres que, até Valask I partir em direção à alforria, eram submetidos a todo tipo de serviço para seus senhores. Não existia a vontade ou os feiticeiros sequer podiam viver suas vidas sem medo, uma vez que viviam nas terras colonizadas por um humano. Seu poder não era de uso próprio, era detido por qualquer senhorio e sempre usado para coisas supérfluas e sem muito sentido. Uma prova da mesquinharia humana se dava em como o reino de Vaskai ficou após a divisão, pessoas imploravam para serem aceitas nos reinos vizinhos.
Pensar nos mínimos detalhes não era para qualquer um, disso sabia e era um conhecimento que fora passado para ela desde que começou a compreender melhor quem seria no futuro, ainda na infância. Então tinha esse padrão de reinado, com decisões que se encaixavam dentro de todos os tópicos de cuidado, precisando existir estratégias e uma boa visão na amplitude séria do que tudo era de fato. Seu tataravô deixou escritos, pergaminhos com todas as características que poderiam situar aquele bom reino, claro que tendo por base como era o caos humano e tudo o que ele não gostaria de viver em seu próprio pedaço de terra conquistado após muito suor.
O que na atualidade, comandada pela sabedoria advinda de gerações passadas, para era uma consequência. Se ela tinha aquele salão repleto de pessoas felizes e preparadas para o novo inverno, com previsão mais intensa, era porque desde a raiz tudo fora feito com extremo cuidado.
Isso nenhuma música retrataria, nenhuma letra teria em suas entrelinhas e nenhuma voz daria ênfase.
Então, de forma alguma ela queria saber sobre o reino que ficava do outro lado do continente, não lhe importava as questões internas, desde que suas estratégias continuassem rendendo o que era almejado, de nada importava saber quem levaria para sentar-se ao seu lado do trono ou não. Nenhum pedaço do céu sagrado diria que a rainha feiticeira possuía qualquer sentimento pelo rei humano, o que importava a era somente a segurança de seu povo.
Nem mesmo um lírio iria interferir nisso.
Ao chegar à ponta da escadaria que a levaria para o primeiro andar do enorme e majestoso castelo, sentiu a brisa do ar um tanto frio, lembrando que era o gélido da pré-estação mais gelada, que trazia tempestades de neve. Para se apoiar, colocou a mão direita no corrimão de prata, brilhante, e que tinha o reflexo da luz do luar, invadindo aquela área interna da entrada do castelo pelo teto de vidro transparente bem no alto. ergueu o rosto, olhando para aquele céu tão escuro quanto os mais sombrios tons da magia proibida, com pontilhados brilhantes das estrelas que constelavam aquele infinito. Era sagrado demais para que ela passasse por ali e não agradecesse ao céu.
Pelo menos em Di Quatuor todos os reinos tinham aquilo em comum: a crença na divindade que era o imenso céu que os cobriam, não existia nada tão ou mais perfeito que aquela infinitude do equilíbrio.
Sentindo-se entregue ao momento de agradecimento e calmaria, ainda com a brisa gélida que batia em seu rosto por conta do vão da porta de entrada aberta, ela fechou os olhos. Entretanto, pela primeira vez em sua existência, teve a sensação incomum do incômodo; não sabia como era aquele buraco negro que seu pai tanto a contava, nomeando como algo que fosse capaz de implodir qualquer feiticeiro, porque cada um sempre tinha sua camada sombria da feitiçaria, mas ela poderia afirmar que se sentiu como se estivesse implodindo. Os olhos não queriam se abrir e o peito estava pesado, a mão no corrimão parecia estar envolta de uma camada grossa de energia que a levaria para algum lugar desconhecido. E então o que a trouxe de volta foi o barulho estrondoso da enorme porta batendo, seus olhos se abriram instantaneamente e por reflexo virou o corpo na direção do barulho, assustada.
“Você precisa controlar seu pandemônio, … Uma hora aquilo que fora prometido será cobrado”, a voz sussurrada de seu pai ecoou em seus ouvidos, mas, olhando para os lados, ela não encontrava nada, ninguém. Seu corpo, sozinho, se firmou no lugar e a mão que usava para a apoiar se apertou no corrimão de prata.
Ela foi sugada e não estava mais em seu castelo.
Era ela, conhecia aquela criança em frente à mesa das leis. Em sua frente só poderia ser ele, , com o lírio murcho em mãos, estendido em sua direção. pegou o lírio e imediatamente a flor reviveu, aquilo era a promessa eterna. Mas, tão rápido quanto começou, acabou, e em seguida podia ver Fëanor preocupado, não sabia o que seu pai lhe dizia, era uma reunião que ela não esteve presente e só tinha o elfo com o rei de Ayasseo. Ela tentou interagir com aquilo, mas fora sugada de novo e então seu pai estava do seu lado, à beira do lago Lahyane, que cortava o caminho entre Ayasseo e o centro Di Quatuor, ele a dizia as palavras sobre controlar o pandemônio — naquela época, tinha apenas dez anos e não sabia o que isso significava, mas confiou no que seu pai dizia. Então, por fim, estava em sua frente, sorrindo, adulto e lindo, usando uma coroa, mas não era qualquer coroa. A cor desta brilhava em um azul diferente.
Era o azul de Ayasseo. De seu reino.
!
De repente, fora expelida para fora daquela situação.
Sentiu os braços de Taeyon servindo como amparo para o que poderia ter sido sua queda e abriu os olhos, forçando suas pálpebras a se manterem abertas mais do que era possível e já estavam. Encarou ele, parecendo um pouco atônita e saiu da aproximação que estavam, subindo o primeiro degrau e usando o corrimão de prata para se manter em pé. Quando se colocou nessa posição, pôde ver e Zara paradas, confusas e soando preocupadas.
, envie um corvo para cada reino. Precisamos de uma reunião.
Mais uma vez naquela mesma noite, ela não esperou por respostas, deu as costas, fazendo o caminho forçado pelos degraus. Taeyon não ousou segui-la, a conhecia muito bem para saber que se fazia mais perigoso ir atrás dela do que a deixar se virar sozinha, de qualquer forma, estariam ali caso fosse necessário. estava pesada, mas não poderia externar o que havia acabado de ver, não antes de ter uma reunião para que fosse confirmado. As visões nem sempre se mantinham fiéis e esse lado ela não teve como desenvolver com tanta maestria, uma vez que o desenvolvimento desse “dom” — como seu pai chamava — fora tardio e Valask já tinha falecido.
Estava lidando com isso sozinha desde a primeira ocorrência.
Quando a viu finalizar o último degrau e sumir para o corredor à sua esquerda, Sauriel virou-se para , curiosa.
— O que foi isso? — perguntou em um volume baixo de voz.
teve uma visão — Taeyong respondeu, olhando para , que ainda encarava o lugar em que viu a amiga pela última vez.
— Por favor, me diga que não tem nada a ver com o lírio — Sauriel pediu de forma encarecida.
— Não sei. Espero que não.
— O que acontece se ela tiver visões com o lírio? — parecendo um pouco perdida na ordem das coisas, Sauriel perguntou, recebendo então o olhar profundo de . Não parecia a mesma mulher que estava extremamente contente desde antes do primeiro raiar do sol na manhã do dia que já havia acabado. Porém foi Taeyon quem respondeu:
— Significa que o amor será reivindicado.
— E se-
— Não é o amor que ele irá reivindicar. Todos sabem disso — cortou o que poderia surgir de dúvida de Sauriel, iniciando sua caminhada para o lado oposto do caminho que daria a volta para o salão.
Naquele momento, ela tinha que enviar corvos para o que poderia ser, em sua concepção, o início de uma disputa a qual era evitada por anos, não haveria mais festas. Infelizmente, talvez tenha sido a última.


🗡️


— Tem certeza de que IV foi avisado?
piscou lentamente e encarou Zhara apenas com o movimento de seu globo ocular, em uma espécie de olhar ladino. Tanto ele quanto Fëanor haviam notado como a rainha estava limitando-se em palavras diante daquele ambiente sagrado, não sendo pelo lugar em si e toda a sua atmosfera, mas porque algo de fato a incomodava. Muitos anos já tinham se passado para que não levassem a sério o conhecimento que tinham sobre a feiticeira, principalmente o rei elfo, que praticamente a viu crescer e ter seu caráter formado. Entretanto, a demora de para dar o ar de sua graça dentro do templo das leis quatuoranas, não impediu ao rei das fadas que demonstrasse sua inquietação, para o conhecimento não só dele, o caminho de qualquer um dos reinos até o centro de Di Quatuor, não levava mais de duas luas, portanto aquela demora do humano o preocupava.
A preocupação vinha apenas do lado fada, pois a feiticeira sentada em um dos lados daquela mesa quadrada e o elfo à sua esquerda não tinham a menor pressa. Embora os anos de convivência entre os quatro reinos já fossem em um número suficiente para que houvesse costume de uns com os outros, Zhara não gostava do atraso. Pelo outro lado, seus dois companheiros de espera pouco se preocupavam em, de fato, se importar com aquilo, sabiam que não era nenhuma novidade.
E se fosse tratar de algum acontecimento catastrófico, com certeza já saberiam, a luz contava.
— Está duvidando da entrega de meus corvos, Zhara? — perguntou, sem mudar sua posição.
Em sua cadeira de assento alto e na cor verde, Zhara se movimentou desconfortável, aquele olhar que recebia se fazia tão intenso que ele podia sentir um certo formigamento dentro de seu estômago, mesmo sabendo que não poderia produzir nenhuma magia ali.
— Não. Não é sobre você, feiticeira — ele respondeu, limpando a garganta. — Mas que deveria ter sido o primeiro a chegar, isso é fato.
— Está agindo como um inexperiente, Zhara. — Fëanor riu anasalado, mantendo sua postura ereta, completamente encostado em sua cadeira tão dourada quanto ouro. Sua superioridade sendo, como sempre, exalada por seus movimentos e modo de falar, com os braços alinhados em cada um dos apoios laterais no móvel em que estava sentado. — A pontualidade humana não é nem mesmo citada pelo nosso sagrado infinito.
— Não coloque o céu no meio das falhas humanas.
— Até porque todos vocês são seres de tamanha perfeição… — murmurou, tomando atenção dos dois homens. Moveu a cabeça pela primeira vez, virando-a para a direção de Fëanor. — Com exceção da sua beleza, elfo, isso não deve ser contabilizado.
— Muito bem adiantado, feiticeira. — Zhara riu, recebendo o olhar incisivo do elfo, em resposta ao seu riso pelo tom de humor imposto na fala de .
— Fizeram uma reunião para termos um momento amigável e convidaram o humano?
A voz grossa de foi ouvida, trazendo um eco junto, pelo formato do ambiente. Seu rosto surgiu quando terminou de cruzar o corredor que vinha da porta, sendo iluminado pelas diversas tochas de fogo. Zhara cessou sua gargalhada instantaneamente, endireitando-se na cadeira, enquanto Fëanor não moveu um músculo sequer, tratando aquela chegada com toda a indiferença conhecida. E , diferente de todos os outros encontros anteriores, não conseguiu desviar o olhar ou sequer contabilizar a própria respiração.
Ela podia ver o azul brilhando em cima da cabeça de , assim como a visão que tivera, e aquilo estava a assustando. Era tão assustador quanto a existência do pandemônio que implodia feiticeiros relapsos.
— Tudo isso é saudade, minha rainha? — perguntou, ao encerrar sua caminhada, chegando à cadeira vermelha, do outro lado da mesa, na mesma direção que a dela.
Então, ouvindo o tom e reconhecendo aquele mínimo traço de sorriso, se recompôs. Voltou ao propósito que tinha quanto àquela reunião.
— Não, estava buscando em você qualquer resquício de sangue, fiz uma aposta com Zhara de duas plantações de Namatrê e ganhei — ela respondeu, tomando uma postura menos rígida. Virou-se para Zhara e completou: — Mandarei Taeyon em Lysantre para buscar suas melhores fadas assim que acabar o inverno.
— Mas o quê?
— Como sempre esquecendo das entrelinhas, lysantrino. Lastimável. — Fëanor riu da feição confusa do outro. — É aquilo que os humanos de Vaskai dizem: rir por último para rir melhor. — Piscou para ele, em devolutiva.
Ninguém disse nada pelo intervalo daquele diálogo, enquanto se ajeitava em sua cadeira. Zhara encarava um ponto da mesa, lembrando-se em qual momento havia afirmado a aposta com , deixando os ombros murcharem ao lembrar do diálogo que teve com a rainha assim que se encontraram na entrada do templo. Praguejou por mais uma vez ter sido lento ao notar o tom dela, esquecendo-se de como a mulher tinha uma personalidade versátil e que, apesar do perfil centrado, ainda tinha seus lapsos de humor e descontração.
Duas plantações de Namatrê era muita coisa para se apostar, já que a erva não se produzia facilmente.
E enquanto a fada estava em seu próprio consciente, organizando-se para aquela dívida que havia agregado em sua terceira participação na reunião, soltava seu suspiro, estufando o peito com o ar inspirado em seguida servindo para inflar seus pulmões, seu olhar fora direcionado à rainha em sua frente, perfeitamente na mesma direção.
— Qual o motivo de um corvo ter adentrado meu castelo, feiticeira? — perguntou diretamente.
Sem hesitar, manteve a troca de olhares. Ela não sabia naquele momento o que dizer, entretanto, pediu por aquela reunião justamente para saber o que deveria fazer e se suas visões tinham qualquer fundamento ou se era o pandemônio a consumindo — afinal, se lembrava de seu pai dizer que, na idade em que estava, isso acontecia de forma comum. Tentou desenvolver qualquer tipo de assunto para ser tratado ali, mas não encontrou outro a não ser a preocupação. Demonstrar interesse em como seus vizinhos lidariam com a temporada de frio poderia ser uma boa forma de especular o que tinha em mente.
Embora aquele sorriso camuflado dele já a respondesse antes mesmo de qualquer pergunta.
— Essa temporada tem previsão de temperaturas mais baixas que o normal. Achei que seria necessário uma conversa e sabermos no que podemos ajudar uns aos outros.
— Está disposta a abrir seus portões, rainha? — ele questionou em tom de surpresa, elevando a mão para a direção de seu queixo, mantendo o cotovelo dobrado no apoio da cadeira.
— Não se trata de abrir portões, mas apenas deixar claro que Ayasseo não será egoísta, nunca fomos — rebateu.
Tanto Zhara quanto Fëanor ouviam o diálogo quietos, ambos sabiam que a história entre feiticeiros e humanos vinha de muito antes, sendo apenas o elfo o único a ter presenciado o início da relação entre e . Ele sabia muito bem que aquela conversa entre eles já carregava o tom do que o futuro tinha guardado e que Valask III tanto prezou para que não tivesse tomado tal rumo.
E entendendo como Fëanor não demonstrou qualquer reação, Zhara seguiu o mesmo perfil.
— Não abriria seus portões para um povo que cruzou Di Quatuor entrar? No meio de um inverno extremo? — estreitou o olhar na direção dela.
— Fazemos muito por todos os nossos vizinhos, mas também é necessário manter a ordem, não acha? Isso tem sido o grande ponto aqui. Equilíbrio.
O humano aumentou o sorriso um pouco, deixando-o aparecer de forma mais visível, porém ainda não tão explícito. Com os dois cotovelos apoiados nos braços laterais da cadeira, uniu as mãos à frente de seu peito, apoiando o queixo no nó de seus dedos. O olhar estreito continuando como se fosse uma atividade imparável.
— Somos o reino mais antigo, responsável principal pela divisão de toda Di Quatuor, merecemos e podemos ocupar parte de suas terras. — Como se ainda fosse possível, a voz dele levou para o corpo de toda a cadeia elétrica do incômodo.
Infelizmente, era tão previsível, que suas visões não foram um erro ou a confusão de seu inconsciente que temia o que fora mostrado e a interpretação que isso levava.
Ela estava certa, afinal.
Seu corpo se enrijeceu e estufou o peito, sentindo o broche que prendia o tecido de sua capa na altura de seu ombro direito pesar contra a sua pele.
— Não foi você quem idealizou a divisão dos dois reinos, que ainda sequer sabiam sobre a existência de lysantrinos — disse firme em resposta. — Está tudo na mesa de pedra, as leis, as histórias. Não é necessário magia para acessar, basta ler! E eu sei que leitura é ensinado desde jovem para os mais afortunados do seu reino, assim como é seu caso, .
Ele a encarou com os lábios se abrindo mais no sorriso, causando a trepidação no coração de . E quando se levantou, mantendo o olhar ainda fixo no dela, apoiou as duas mãos sobre a pedra das leis, aumentando a voz para dizer:
— Então eu não vou pedir, rainha… Eu vou reivindicar.
Fëanor engoliu a seco, seu olhar vagou para a direção do rosto da rainha, vendo-a estremecer com sua mandíbula travada. O rosto dela se inclinou levemente para que a troca de olhares não fosse cessada. Ele poderia dizer que, se o templo não fosse protegido para que nenhum dos quatro usassem suas habilidades e dons uns contra os outros ali dentro, teria acabado com a vida de apenas com aquela íris escura. E não se lembrava da doce garotinha que acompanhava o pai para aprender o ofício ter uma profundidade no olhar tão sombria.
Mas ele não julgaria, era de conhecimento antigo que todos os reis ayasseanos possuíam tamanha proteção por seu povo e qualquer coisa, principalmente se tratando de humanos, causava a reação de defesa neles. Estranho era ter levado tantos anos para isso se despontar, porém compreensível, uma vez que IV fora o primeiro de sua linhagem a ser desprovido de tanta intelectualidade para além de um horizonte.
— Você não pode fazer isso… — disse audivelmente, recebendo um olhar de repreensão vindo de Zhara. O rei das fadas definitivamente não achava uma boa ideia entrar naquela discussão.
— Ah não, elfo? E por quê? É uma promessa da mesa, do santuário em que tudo fora selado e acordado. — bateu na pedra em sua última palavra, firme, usando o punho esquerdo. — Eu tenho direito de reivindicar o nosso amor! — Olhou para com o rosto direcionado para baixo devido a ela estar sentada.
Mas a rainha se levantou tão rápido que as palavras de Fëanor pararam no meio de sua garganta. No tom mais alto e firme que podia, saindo da posição passiva em que se sentiu ser colocada no momento que ele se levantou e posteriormente agiu com palavras agressivas batendo na pedra das leis, ela rebateu:
— Basta! Você não irá colocar um dedo sequer em meu reino, IV, nem que eu tenha que-
— Tenha que o quê? — Ele riu nasalado, cortando-a. — Está ameaçando o amor de sua infância, rainha? Sabe que estamos em um lugar sagrado, não sabe? Não pode ameaçar aquele que te deu um lírio. Ele saiu pelas minhas mãos, devo eu te recordar sobre o significado disso?
O lírio, claro.
A última coisa que gostaria de ouvir falar sobre era isso. Se pudesse, voltaria no tempo e nunca teria aceitado aquela flor murcha do homem que estava em sua frente, naquela época ainda uma criança, assim como ela. Não teria alimentado a ideia de que seria seu amor eterno por dar a única flor à base da mesa, que, pela história, só saia na mão de alguém que possuísse coração puro. faria tudo novamente, porém diferente, porque o maior fardo de sua vida não era o que a canção sobre seu reino censurava, mas sim aquela promessa de que um humano seria dono de seu amor para toda a eternidade.
Não existia um pedaço sequer abaixo do infinito sagrado que testemunhasse uma feiticeira e um humano se amando; de um lado o interesse sempre iria prevalecer no poder.
— Mas você não é o mesmo garotinho daquela época, com intenções puras, tente olhar para seu reflexo em um espelho ou qualquer rio limpo que tenha no caminho daqui para Vaskai… — Juntou o máximo de coerência que podia. — E se ainda possuir algo bem cuidado nos arredores mais próximos da sua terra.
Zhara se encolheu, Fëanor engoliu as palavras que haviam parado em sua garganta e o tempo estava estremecido com aquela reunião. Seria aquela a primeira dentro de todos os anos desde sua formação que, pela primeira vez, fora marcada pela quebra do equilíbrio em Di Quatuor.
sairia dali imediatamente, pensando em como faria para que a sua visão não se tornasse real e que na cabeça de IV brilhasse qualquer coisa, menos a coroa azul de Ayasseo.


Continua...



Nota da autora: Olá, primeira att no ar! Já sabem: deixem o comentário aqui, é muito importante saber a opinião de vocês! E até a próxima. Aqui embaixo tem os links para acompanhar nas redes sociais e também o grupo de leitoras :)



Nota da beta: Outra história sua para me deixar completamente apaixonada. Olha, sinceramente? EU AMO E JÁ QUERO MAIS HAHAHA.
Mulher, fico boba com o quão bem você consegue desenvolver suas histórias. Tu arrasa demais! ♥

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