Finalizada em: 29/01/2018
Music Video: VIXX LR - Beautiful Liar
Contador:

Prólogo

Eu nunca compreendi porque isso aconteceu comigo. Sim, agora eu sei a causa e o que eu tenho, mas por muitos anos eu vivi sem ter a mínima noção do que se tratava. Dizem que o que eu tenho se resulta de um trauma forte na primeira infância, seja algum tipo de abuso, agressão, pressão física ou mental. É tão triste que isso aconteça com crianças que não têm como se defender.
Na minha vida isso tudo aconteceu como uma espécie de ansiedade. Aos 10 anos de idade a ansiedade era tão forte, que qualquer onda de tristeza me afundava em pensamentos autodestrutivos e até mesmo suicidas. Muitos profissionais passaram pela minha vida, eu acho que mais da metade da coréia sabe pelo que eu passo. Muitos tratamentos falhos e muitos remédios administrados. Eu sempre tentei levar uma vida “normal”, mas é muito difícil esconder essas coisas. Minha mãe também, nunca quis que ninguém conhecido soubesse dos meus problemas. Mal nos relacionávamos quando eu morava com ela, para dizer a verdade.
Minha primeira infância, até a idade de sete anos mais ou menos era algo vago pra mim. Até algum tempo atrás, só tinha lembranças de quando já estava no colégio e de como me sentia confuso com as coisas, como as crianças começaram a se afastar cada vez mais de mim e como os dias passavam desregulares na minha vida. Eu dormia na segunda feira, na minha cabeça eu estava sonhando, mas quando eu despertava já era quinta feira, tinham se passado semanas ou meses. Quando eu era criança, eu só achava que não prestava atenção no tempo, que eu ia vivendo e quando percebia no calendário os dias já tinham passado e que meus sonhos vinham sendo ainda mais constantes e realistas.
Já na adolescência, depois de uns anos de terapia e de acordar algumas vezes com hematomas pelo corpo e de ressaca, mesmo nunca tendo ingerido uma gota de álcool e nem me metido em nenhuma briga, eu percebi que tinha algo estranho acontecendo comigo. Quase oito anos de terapia, quando eu estava na sala do meu décimo terceiro terapeuta, que na verdade era uma psiquiatra especializada no que eu tenho que conheci meu verdadeiro diagnóstico. A doutora Sun Hee foi a primeira profissional formada em medicina que eu contatei. Perto dos meus 17 anos, quando eu já estava cansado de só sentar e conversar e de sentir que estava deixando o tempo passar mais rápido que uma piscada de olhos, eu decidi buscar uma ajuda mais precisa. Eu sabia do meu nível alto de ansiedade, mas não sabia se isso era o suficiente para esses apagões que eu andava tendo a minha vida toda.
Eu fico muito confortável hoje em dia de falar sobre esse assunto. Depois de muitos anos convivendo com tudo isso, e também quando a gente consegue controlar, tudo fica mais fácil ao nosso redor. Quer dizer eu achava que conseguia controlar. Depois da ajuda certa, meu relacionamento com as pessoas melhorou muito, eu pude arrumar um emprego e até mesmo alguns amigos próximos, aos quais eu sempre deixei clara a minha condição. Quando eu entendi que o que eu tenho nunca foi culpa minha, eu também aprendi a me relacionar, a me sentir mais confortável, contando para as pessoas. Descobrir uma doença e descobrir logo após o que a causou, me deixou transtornado no inicio. Tenho que admitir. Não esperava que ambas as coisas fossem de tamanha gravidade, mas era pior do que eu imaginava. A grande maioria dos adultos acha que as crianças pequenas não entendem nada, que está tudo bem agir de forma autoritária e muitas vezes com violência, afinal, é de cedo que se deve aprender a respeitar as coisas e as pessoas. Só que aqui na coréia, algumas pessoas, membros das famílias e até mesmo conhecidos próximos tem mania de agir com certa agressividade, que beira a crueldade. Foi difícil pra mim, quando depois de um ano fazendo hipnose saber por meio da doutora, que eu não tinha nenhuma lembrança da minha primeira infância devido ter sofrido tudo isso. Fico me perguntando onde minha mãe estava nesses momentos, e parando para analisar ela nunca esteve efetivamente ao meu lado. Eu não a odeio por isso. A vida é feita de escolhas e ela talvez por falta de alguma instrução, ou por medo, escolheu ser assim, agir dessa forma. Aprendi por muitos anos esconder as coisas das pessoas, deve ser por isso que esconder isso dela não foi difícil pra mim, mas não há nada que conseguimos esconder para sempre, não é mesmo?! Eu vou começar toda essa historia do começo, quando eu descobri o que tenho, e depois passo para o ponto mais importante da minha vida... Ela.


Capítulo Único

No auge dos meus 17 anos todos os meus colegas de classe já estavam focados em suas carreiras futuras, seus compromissos familiares e em flertar com as garotas. Uma escola só para meninos era algo que eu passei a agradecer depois que conheci o Ravi. Quem é Ravi? Ah, esse ai eu conheci nessa mesma época, na sala da doutora Hee. Foi aos meus 17 anos que comecei a frequentar o pequeno consultório no bairro de Seocho, em Seul. Eu não lembro bem como cheguei até lá, só lembro-me de parar em frente à placa de vidro transparente com grandes letras pretas escrito: Consultório psiquiátrico Drª Sun Hee. Subi as escadas, e fui gentilmente recepcionado por Shyn, que me encaixou em um horário de desistência para o mesmo dia. Eu sempre odiei salas de espera, já passei mais tempo da minha vida nesses lugares, do que dentro da minha casa. Os olhares julgando, tentando descobrir o que o outro tem e também os de pena, que para mim são os piores. Mas ali naquele dia em questão, eu não senti nada disso. Não senti nenhum desses olhares, as pessoas estavam bem à vontade, conversavam animadamente e não prestavam a atenção ao seu redor.
― Senhor ! É a sua vez. ― A voz de Shyn invadiu o espaço.
Eu me levantei e nessa hora eu não senti nenhum olhar me seguindo, segui com passos firmes até a porta branca da sala. O local era espaçoso, com paredes brancas e grandes janelas que deixavam o ambiente ainda mais iluminado. Os móveis em tons pastel de verde, lilás e azul me trouxeram uma paz que eu nunca tinha sentido na vida.
? ― Com a voz firme, a doutora chamou pelo meu nome e me fez desviar a atenção para ela. Uma mulher muito bonita, na casa dos seus 40 anos, cabelos pretos curtos e olhos sóbrios.
? Eu estou falando com ou outra personalidade? ― Aquelas palavras me pegaram de surpresa, eu não estava entendendo nada.
― Como assim outra personalidade, doutora? ― Questionei, sem nem mesmo responder a pergunta dela.
― Sente-se, por favor. ― Ela indicou o sofá a sua frente. ― Você não sabe nada, sobre o seu TDI? ― Perguntou em um tom calmo, assim que eu me ajeitei entre as almofadas.
― Minha, o quê? ― Eu realmente não estava entendendo nada.
― Você sabe que eu sou especialista em transtorno dissociativo de identidade, não sabe? ― Ela olhou pra mim, esperando alguma resposta e eu só olhei nos olhos dela. ― Por que veio me procurar, querido? ― Agora, era ela que não estava entendendo.
― Pra falar a verdade, eu só parei aqui e entrei. Venho fazendo terapia, mas já estou cansado de tudo o que já vi, resolvi entrar, por ser uma coisa mais voltada para a medicina. ― Disparei a falar com os nervos a flor da pele. Estava acostumado a falar sobre a minha vida para “estranhos”, mas não sei o que me deu, e eu sentia tanta urgência em conversar com ela sobre tudo. ― Eu sou assim, desde criança sinto como se estivesse perdendo o tempo. Não sei se dá pra entender. Também tem a ansiedade e os muitos momentos estranhos, que eu passo com as pessoas que eu nunca vi, ou em lugares onde eu não me lembro de já ter ido antes. ― Naquele momento, minha ansiedade já esta ficando alta e foi quando eu senti as mãos dela segurando forte as minhas.
― Fica calmo, , eu estou aqui para te ajudar, vamos com calma, fazer uns testes e ver qual seu diagnóstico. ― A voz calma e firme dela me fez respirar fundo e me acalmar.
! ― Eu disse do nada.
― Como? ― Ela parecia confusa novamente.
― Meu apelido é . Prefiro ser chamado assim, por favor!
Daquele momento em diante, as coisas começaram a se esclarecer na minha mente. Eu procurei entender mais o que era esse tal de transtorno dissociativo de identidade. Fizemos alguns exames e marcamos as sessões, três vezes durante a semana. Não demorou muito até que ele tivesse certeza de algumas coisas e assim conseguimos trabalhar o tratamento correto dessa vez.
, o papo é sério, e você vai me prometer que vai confiar em mim e deixar eu te ajudar! ― Era minha última sessão da semana.
― Doutora, pode me dizer, eu já passei muita coisa nessa vida, acho que o quer que tenha a me dizer não seja algo tão impactante. ― Eu ri, estava nervoso, mas a mudança de medicação para minha ansiedade estava fazendo efeito, e eu estava ficando mais relaxado.
― Bom, , seus resultados chegaram e já tenho o laudo do seu diagnóstico. ― As mãos dela soltaram as minhas, que ela tinha pego há um minuto quando começou a falar. Pegou uma pasta que estava sobre a mesa. ― Como eu imaginava, você sofre de um nível médio de transtorno dissociativo de personalidade. No seu caso, você só tem mais uma personalidade, o que é um avanço já que o nosso tratamento passa a ter apenas um foco, e esses seus “apagões” são por um período curto de tempo, já que em outros pacientes podem durar meses e até anos. ― Ela disse com calma, olhando dentro dos meus olhos para que eu compreendesse e assimilasse toda a informação. ― Eu tive contato algumas vezes com a sua personalidade, e por enquanto ele me disse que só você e ele habitam seu corpo. ― Eu só conseguia observar e absorver, toda aquela informação. ― , você está bem? ― Ela perguntou em um tom de preocupação.
― Eu estou compreendendo, doutora. Li bastante sobre o assunto, desde o nosso primeiro encontro. ― Sorri, tentando passar algum tipo de segurança.
― Então, eu consegui conversar e conhecer um pouco do Ravi. No caso ele tem a sua idade, mas ele é um pouco inconsequente, então ele bebe, arruma confusão, sai com diversas garotas. Pude sentir certa agressividade nele, então vamos prosseguir com o tratamento para que ele apareça menos e você tenha uma vida mais normal.
Não demorou muito tempo. Depois de um mês de sessão de hipnose, eu me deparei com o lado mais sombrio e doloroso da minha vida. Finalmente, tínhamos descoberto o que aconteceu na minha vida para que eu desenvolvesse outra personalidade.
― Vamos assistir a essa nossa última gravação então, , mas eu te aviso como sempre faço, eu estou ao seu lado e vamos passar por isso juntos. ― Era adorável, como a doutora Hee se preocupava comigo, mas sempre que ela dizia uma coisa dessas, era porque ia acontecer alguma coisa que ia me mexer comigo sem dúvida.
― Tudo bem. ― Respondi sorrindo, mais uma vez ela pegou minhas mãos e segurou firme.
― Vai ser difícil pra você ver isso, e se por acaso você se sentir mal, me avisa que paramos. Entendido? ― Ela disse com segurança e eu só balancei a cabeça positivamente.
Ela deu play no vídeo do computador, que estava sobre a mesa de centro do consultório. Era a nossa última sessão de hipnose feita, ela falava no vídeo primeiro para a câmera, como um vídeo diário e depois para mim. Essa primeira parte eu já conhecia, era o procedimento que ela fazia antes de começarmos. Meus olhos se fixaram na tela, enquanto as imagens ocorriam. Já estávamos avançados. Sabíamos que isso vinha ocorrendo desde muito novo e que com quatro anos de idade foi quando sofri o trauma maior, sabíamos que eu sempre gritava pela minha mãe, e que me agarrava a um coelho de pelúcia.
As cenas das imagens eram muito fortes, mas como nós assistíamos a todas as gravações, sempre na sessão seguinte de consulta, eu já estava acostumado com os berros que eu dava, e com os choros. Dessa vez a coisa foi mais detalhada, eu conseguia sentir tudo o que eu estava ditando. Tudo aconteceu no porão da casa dos meus avós paternos. Meu pai era um homem muito bruto e tinha problemas com o álcool. Em uma visita, durante as minhas férias, eu chorei porque queria dormir com o meu brinquedo preferido, e meu pai estava bebendo desde o momento que colocamos nossos pés na casa. Minha mãe, não se lembrava onde tinha colocado meu bichinho de pelúcia e eu como criança não entendia. Estava com sono e só queria meu coelhinho. Foi ai que meu pai se levantou da poltrona, onde estava assistindo a alguma coisa na TV, agarrou meus cabelos e me arrastou até o porão. Eu gritava assustado por socorro e ao chegarmos ao local, ele pegou alguma coisa, que eu não enxerguei o que era, já que o local estava escuro e me golpeou. Eu senti três vezes e depois eu desmaiei.
Eu já tinha visto muitos vídeos durante aquele mês, com algumas agressões, como tapas e puxões de cabelo. Mas tão detalhado e doloroso. Meus olhos, quando a doutora fechou o notebook, estavam transbordando de lágrimas e a dor física e emocional era quase insuportável. Sentir o que o pequeno eu sofreu e saber que, por causa de momentos assim, a minha vida foi afetada de uma maneira tão significativa, fazia com que tudo doesse mais. Daquele momento, até o fim da sessão, eu só sabia chorar. Foi bom, ter esse tempo e me livrar de pelo menos mais esse fantasma que me rondava. Depois desse dia, eu consegui trabalhar o perdão no meu coração e tudo ficou mais leve e fácil.
Meu tratamento estava indo muito bem. Mais de dois anos sem que Ravi se manifestasse. As consultas passaram a acontecer de quinze em quinze dias e eu finalmente conseguia sentir todos os momentos da minha vida. Depois que eu descobri o que causou e já havia perdoado todo mundo que de alguma forma, foi responsável pela minha condição, estava em paz com meu coração.
As coisas foram ficando mais fáceis.
Sete anos desde que eu conheci a Doutora Hee. Foi quando conheci . Quase três anos sem a presença de Ravi. Eu estava em um bar com alguns amigos que estiveram ao meu lado esses anos. Eu precisava dançar e eles beber, então essa foi a desculpa da vez para sairmos em plena quarta feira. Comemorar tudo de bom que vinha acontecendo na minha vida, e que melhor comemoração do que ir ao Lee’s, nosso Bar preferido de todos em Seul? Chegando ao local, como de lei, eles foram atrás de uma mesa e eu me encaminhei para o jukebox, eu sempre escolhia uma música e geralmente não ia muito longe dali. Meu gosto musical era peculiar, segundo meus amigos, mas era algo que agradava a grande maioria das pessoas que frequentavam o Lee’s.
Quase ninguém usava a jujuka. Sim, eu dei um apelido fofo para o jukebox. Então presumi que essa noite como muitas outras, eu não teria problemas para escolher uma música decente. Mas lá estava ela, meu coração ficou descompassado na hora. A coisa mais linda em que eu já tinha colocado os olhos. Seus cabelos estavam armados, com cachos até a metade das costas, e as pontas cor de rosa. Seus olhos brilhavam como estrelas no céu e seu sorriso foi algo que me tirou o rumo. Eu literalmente parei no meio do caminho e ali fiquei olhando para ela por longos minutos, não acreditando que tinha me apaixonado a primeira vista. Pode ser que não fosse paixão mesmo, mas algo me encantou e foi à primeira vista sim. Sempre fui muito cauteloso quando se tratava de mulheres, mas naquele momento, o meu eu tinha se esquecido por um instante tudo o que eu podia fazer com as pessoas. Que um relacionamento afetivo não era uma boa idéia, na verdade eu nunca tinha pensado nisso, mas com certeza não era uma boa escolha. Quando dei por mim, já estava conversando com ela sobre música. A ligação dela com a música era parecida com a minha. Ela era baixista em uma banda de pop rock com as amigas, eu estava em um grande momento com o piano, apresentações todas as semanas por Seul. O instrumento e a música, vinham sendo grandes aliados no controle das minhas emoções.
Ficamos praticamente a noite toda ao lado do jukebox conversando, nunca tinha me sentido tão confortável assim com alguém no primeiro contato. A nossa noite estava chegando ao fim, pela janela lateral consegui ver que já estava amanhecendo. Ela anotou seu número de telefone em um guardanapo e me entregou, antes de sair com as amigas pela porta. Eu resolvi guardar o número dela, mas não entrar em contato, estava com medo. Medo de mim e do que podia acontecer com ela, se um cara feito eu de repente, fizesse parte da sua vida.
Algumas semanas depois, quando eu estava prestes a me apresentar em um festival de música que estava acontecendo em Jeju, nos reencontramos. Ela estava igualmente linda a noite que nos conhecemos. Eu tinha passado o olho na lista de apresentações do evento, mas não tinha prestado muito a atenção e parece que a banda dela ia se apresentar também. Assim que me avistou, ela veio a meu encontro sorrindo.
? ― A voz animada dela, me fez estremecer por dentro.
? ― Me fiz de desentendido.
― Quanto tempo, gatinho. ― Ela se curvou suavemente, me cumprimentando. ― Você não me ligou, nem mandou mensagem. Perdeu o papel que eu te dei, não foi? Eu sabia que isso ia acontecer. ― O sorriso que ela abriu desativou todos os alertas que eu vinha recebendo no meu inconsciente. Eu simplesmente ignorei e só conseguia prestar a atenção nela.
― Ahn... ― Tentei falar, mas não conseguia formar uma palavra coerente na minha cabeça.
― Tudo bem! ― Ela colocou uma das mãos no meu braço e segurou firme. ― Não precisa se explicar parece que o destino nos uniu mais uma vez, vamos tentar de novo, e se não der certo, é porque não tinha que ser. ― Ela bateu os grandes cílios postiços, pintados de azul e sorriu novamente. Eu, só conseguia balançar minha cabeça positivamente e esboçar um sorriso. Ela pareceu se animar, seus olhos, brilhavam tanto que era impossível não ficar olhando para eles. Ela então me entregou um aparelho de celular desbloqueado.
― Toma aqui! Põe seu número que eu te ligo.
Desviei meus olhos dela, para a tela do aparelho, e vi uma foto minha olhando com cara de besta, meu nome preenchido e o espaço do número do celular em branco. Dei uma risada curta, coloquei meu número de telefone e mudei o contato de para . Eu sempre gostei mais desse nome, usava pra tudo inclusive para nome artístico. Devolvi o aparelho para ela e sorri sem mostrar meus dentes.
? ― Ela me olhou confusa. ― Mas por que ? ― Ela fitou o celular, que estava em suas mãos e depois meu rosto. Eu ri mais aberto dessa vez.
― Sim, é como eu gosto de ser chamado. Ganhei esse apelido da minha vó quando era mais novo, e sempre me senti mais confortável quando sou chamado assim. ― Parei um tempo, fiquei observando a reação, ela estava calada me olhando fixamente.
― Ah! Eu amei. ― Ela começou a falar, quando percebeu que minha historia já tinha acabado. ― É mais fácil de falar, eu gosto de .
Em seguida ela voltou à atenção para o celular, de repente meu aparelho começou a tocar, pedi um momento e me afastei um pouco para atender a ligação.
― Alô, Quem é?
? ― A voz estava meio estranha, mas com certeza era uma voz conhecida, olhei mais uma vez para a tela e era um numero que eu não tinha na agenda.
― Sim! Quem fala?
Uma explosão de risadas soou do outro lado da linha, e as risadas pareciam estar mais perto do que eu imaginada. Desviei meu olhar para e percebi o que estava acontecendo.
― Marca ai, . Eu não tenho um nome tão legal quanto o seu, mas acho que esse serve. ― Ela continuou rindo e encerrou a ligação.
Eu abri um sorriso e fiquei observando ela se aproximar. Quando ela estava perto o suficiente pegou o telefone da minha mão, salvou o número e bateu uma foto dela fazendo biquinho.
― Pronto. Não temos mais desculpas. ― Me devolveu o aparelho. ― Agora eu tenho que ir. Até mais, . ― Ela jogou um beijo no ar e foi até onde as amigas estavam se preparando.
Mesmo ali, com todos os meus alertas ativos, piscando e fazendo um barulho absurdo dentro da minha mente, eu soube que estava perdidamente apaixonado por ela. Aquilo de deixou confuso e feliz. Ela parecia tão legal e eu tão esquisito, com tantos problemas e demônios. Não era justo com ela me envolver e não era justo comigo não me deixar levar.
Saímos algumas semanas depois. Ela era mais incrível do que eu imaginava, a paixão que ela tinha pela vida e pelas coisas simples que a cercavam, me encantava. O jeito que ela sorria e como seu sorriso iluminava tudo. Sua facilidade de ir de um assunto a outro, era demais. Eu só sabia observar e sentir algo estranho no meu estômago.
Contei para a doutora Hee como me sentia em relação à e ela me aconselhou a ter cautela e ser 100% sincero com ela. Estávamos fazendo um bom trabalho com o tratamento, mas nunca sabíamos o que podia acontecer. As nossas consultas já estavam sendo feitas uma vez por mês e sempre que eu precisava de alguma coisa eu ligava e muitas vezes resolvíamos pela ligação mesmo. Então eu achei que não teria problema esconder isso da . Afinal, eu nem sabia o que ela sentia por mim na verdade.
Saímos, para os mais diversos lugares naquele mês. Parques, cinemas, shows, cafés, restaurantes e eu descobri coisas incríveis. Como ela ser fluente em quatro línguas diferentes. Seguir as crenças cristãs, mesmo não frequentando nenhuma igreja. Sobre sua cor preferida ser a do crepúsculo, quando o sol está se pondo e tudo fica em um misto de azul, roxo, laranja e rosa. Que ela não comia coisas em tom de vermelho, porque não sentia uma boa vibração em alimentos daquela cor. Não tomar café, mas amar o cheiro da bebida sendo feita. Seus vícios em livros e músicas no geral. Seu sonho de visitar a Rússia e também sobre seu coelho de estimação. Eu realmente prestei atenção em todas as palavras dela e uma última observação ficou martelando na minha cabeça.
― Eu odeio mentiras. ― Ela disse, passando o dedo no meu sorvete de creme, que escorria sobre a casquinha na minha mão. Eu fiquei calado.
― Sabe, , eu já fui enganada das mais diversas maneiras. É que eu costumo confiar muito nas pessoas. E quando eu começo a me relacionar, não mentir é a única coisa que eu peço. Sempre. Independente em que âmbito essa relação seja. Eu tenho mesmo um forte por atrair pessoas assim. ― Ela riu, mas eu senti um pouco de decepção no tom da risada.
Mas eu não estava mentindo, não é? Era apenas omissão de fatos. Um fato GRAVE. Porém somente um fato. Eu contei a ela sobre minha infância, minha péssima relação com minha mãe, assim como minha ansiedade e os outros fatores da minha vida. Só não falei sobre meu TDI, não achava necessário depois de todos esses anos sem contato com o Ravi.
― Eu acho que gosto de você! ― Ela soltou no meu colo, o que eu mais queria e mais temia ouvir. Estávamos deitados, em um tecido xadrez no meio do Seongsan Ilchulbong, em uma das nossas visitas a Jeju. Aquilo me deixou meio confuso com tudo. Eu sabia que a amava e o que ela me fazia sentir, jamais tinha sentido antes. Agora, ela também gostar de mim, eram outros quinhentos. Ela me olhou, com os olhos arregalados, depois que eu não falar nada sobre o que ela tinha acabado de revelar.
― Me desculpa, . ― Ela disse, colocando as mãos no rosto. ― Eu. Eu sou uma idiota. Esquece o que acabei de falar, eu pensei que você. Que sentia a mesma coisa. Nossa, que vergonha.
Em um impulso eu virei meu corpo de lado, na direção onde ela estava deitada de costas. Tirei as mãos dela do rosto. Meus alertas internos não soavam mais, acho que tinham desistido de mim, ou eu deles. Olhei dentro dos olhos dela, passei uma das mãos pelo seu rosto, que estava avermelhado do sol e da vergonha. Abri o meu melhor sorriso.
― Eu também acho que gosto de você, . ― Respirei fundo, aproximei meu rosto do dela. ― Quer dizer. Na verdade eu não acho não, tenho certeza mesmo. Certeza que estou muito apaixonado por você. ― Juntei meus lábios nos dela e iniciei um beijo calmo. Sentir a maciez daquela boca, o êxtase da língua quente dela tocando a minha, fez com que algo se explodisse dentro de mim. Ficamos alguns minutos ali sendo somente boca, língua e sentimento.
Naquele, dia eu me senti mais completo. Senti uma felicidade que não sabia que era capaz de sentir. Muitos anos andando na escuridão e ali estava a luz que eu procurava. Não sei por que dessa analogia, não sei se porque estávamos sobre o por do sol, que custava a nos deixar ou se foi a luz que emanava dela, que eu fui capaz de ver e sentir assim que nossos corpos entraram em sintonia. Tudo naquele momento me deixava feliz e eu até tinha esquecido, que era um louco problemático. Mas não demorou muito, até que eu voltasse para a minha realidade.
Começamos um relacionamento sério. E eu menti. Primeiro para a doutora Hee, dizendo que havia contado 100% da minha vida para a . Depois eu menti pra mim mesmo, dizendo que não tinha problema esconder isso dela. Afinal, eu estava vivendo um momento incrível, e isso podia estragar tudo. Eu não tinha culpa de ser assim. E por fim, menti para a quando escondi tudo. Não por não confiar nela, mas por não ter autoconfiança o suficiente para achar que alguém pudesse amar alguém como eu, com tantos problemas.
Não demorou muito para que meu apartamento se tornasse nosso, e ela vir morar comigo. Nossa relação e ligação eram tão fortes, que nos dávamos bem em quase todos os pontos. Acredito que a única diferença que encontramos na vida, foi o time de futebol. Ela torcia para o FC Seoul e eu para o Jeju United. De resto, éramos bem compatíveis. A comunicação era fácil, e a rotina de ambos não afetou de nenhuma maneira nosso relacionamento. Como, dentro de um ano de relacionamento, ela veio morar comigo, deixei de frequentar as consultas. O que resultou ficar sem receita para meu remédio da ansiedade.
A doutora Hee entrou em contato comigo diversas vezes, e eu sempre tinha alguma desculpa. Até que eu disse que me sentia bem, e não precisava mais ir às consultas. QUE EU CONSEGUIA ME CONTROLAR. Doce ilusão. Ela insistiu de todas as maneiras para que eu não abandonasse o tratamento, mas como a decisão final era minha, não teve nada o que ela pode fazer. Daí, mais uma mentira para , eu a assegurei que continuava meu tratamento para a ansiedade. Continuava a minha terapia uma vez por mês, que era o que ela achava que eu fazia. Eu sentia que ela se preocupava com a minha saúde mental. Imagina se ela soubesse do Ravi.
Quando completamos dois anos juntos, eu a levei no mesmo lugar onde nos beijamos a primeira vez. O Park Sunrise (Seongsan Ilchulbong). Subimos a passarela de madeira e assim que o sol começou a se por eu me ajoelhei diante dela. Eu sempre achei, aquilo tudo muito brega, mas ela me fazia querer viver aquele tipo de coisa. Ela liberava o melhor em mim.
. Meus dias ao seu lado foram de longe os momentos mais felizes da minha vida. E... E eu quero sentir essa felicidade, todos os dias até o ultimo da minha vida. ― interrompi o pequeno discurso, puxando uma caixinha de veludo vermelha do meu bolso. Notei os olhos dela cheios de lágrimas. ― , Você aceita se casar comigo?
Naquele momento, o sol tinha acabado de mergulhar, por completo no horizonte. Ela começou a rir descontroladamente e depois chorou. Fiquei alguns minutos sem entender aquela reação, continuava de joelhos esperando uma resposta. Quando ela não parou de chorar, me levantei, fechei a caixinha e assim como ela fez há alguns anos atrás, me desculpei e cobri meu rosto com as mãos. Senti-me perdido. Como assim, eu achava que ela estava na mesma sintonia, que eu para o relacionamento que eu. Idiota. Eu me sentia um idiota. Foi ai que senti a mão dela puxando as minhas, para baixo. Em seguida me abraçou tão forte, que senti uma onda de sentimentos passar por todo meu corpo. Ela passou a mão pelo meu rosto, levou a boca até minha orelha e sussurrou suavemente.
― É claro que eu aceito, meu amor. Eu estou muito emocionada com tudo isso, e foi algo realmente muito perfeito. ― Ela desceu a boca até encontrar meus lábios, aos quais grudou os dela e iniciou o beijo, mais emocionado que eu já recebi na vida. Naquela boca, naquele momento eu pude sentir a alma dela tocar meu coração e tudo se acendeu dentro de mim.
Quem diria que um dia ia passar a ter uma vida normal. Amar, ser feliz, ser amado, e estar prestes a se casar. Tudo aquilo era demais para mim e eu já não lembrava como a minha vida era antes dali. Senti minha vida começar naquele momento. Mas alguém, não estava tão feliz assim, estava querendo outros sentimentos.
Eu sentia que precisava daquela mulher mais que nunca. Já morávamos juntos, mas eu queria mais, queria fazer dela minha para sempre. Começamos os preparativos. Resolvemos fazer uma pequena cerimônia para oficializar nossa união, na praia de Hyeopjae Beach, em Jeju. Jeju sempre teve um significado para nosso relacionamento, e mesmo a gente morando e vivendo em Seul, nossos corações moravam na ilha. Combinamos poucos convidados, no por do sol a beira mar. Tudo estava perfeito e encaminhado. Oito meses depois do pedido oficial, iríamos encaminhar os convites e o casamento iria acontecer, dentro de três meses.
Foi ai, nesse exato momento, que meu mundo desabou que eu não consegui mais controlar meus sentidos. Estava eufórico e ansioso para o grande dia. tinha acabado de sair para a gráfica buscar os convites. Eu fiquei em casa, respondendo alguns emails de confirmação de endereço. Eu não consigo descrever o momento exato que tudo aconteceu. Só sei que desliguei, mas dessa vez eu conseguia entender o que estava acontecendo. ERA ELE. Não podia ser ele. Não agora. Achei realmente que estava curado, como isso estava acontecendo?! Quando Ravi finalmente tomou conta do meu corpo e tudo ficou preto. ¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬
Eu conseguia lembrar de flashs do que aconteceu, quando voltei a mim, horas depois. estava trancada no banheiro e eu conseguia ouvir que ela ainda estava chorando. As imagens estavam rodando da minha cabeça.

Flash On
Ravi já tinha dominado a minha mente, quando chegou em casa sentiu um clima estranho. Um sorriso maldoso estava nos lábios dele.
― Oi, linda, você deve ser a . ― Ravi disse, se aproximando bruscamente dela. Ela estava confusa e assustada.
, eu não to com clima para gracinhas agora, essas coisas do casamento estão me deixando doida. Temos um monte de envelopes pra fechar, notinhas para escrever, e correio para enviar.
Ela colocou as coisas em cima da bancada da cozinha, e Ravi já estava com o corpo colado no dela.
― Eu não sou o , bebê. ― Ele passou um braço pela cintura dela, pressionando os corpos. ― Não acredito que aquele babaca não contou do grande Ravi pra você. ― Ele soltou uma gargalhada alta.
― Para de brincadeirinhas, . E não estou com humor ou tempo pra isso. Me solta. ― A voz dela estava firme. Ele a virou de uma vez, olhou fundo nos olhos dela.
― EU JÁ DISSE QUE EU NÃO SOU A DROGA DO . ― Ele gritou, apertando os braços dela. ― Eu, não tenho culpa se aquele inútil nunca te disse nada sobre ele ser maluco. E esse corpo pertencer tanto a mim, quanto a ele. ― A voz de Ravi, ecoava enfurecida pelo local.
Flash Off

Eu não conseguia parar de chorar, não podia acreditar que isso realmente aconteceu e eu não pude fazer nada para proteger o que mais amava na vida. Mais um flash voltou a minha mente.

Flash On
, encolhida no chão do quarto, e Ravi sem camisa, com uma feição monstruosa. Dava pra notar que a alça do vestido preto de estava rasgado, o rosto dela vermelho e lágrimas escorrendo.
― Agora, acredita em mim? ― O olhar perverso dele refletia no espelho da penteadeira. ― Acredita que eu não sou aquele babaca inútil que não tem coragem nem de colocar uma mulher no lugar dela? ― Ele ria de um modo que meu coração tremeu.
Flash Off

O que ele tinha feito com ela. O QUE EU FIZ?!
Levei minhas mãos ao rosto, perdi as forças nos joelhos. Outro Flash me invadiu. E meu corpo perdeu real as forças, desabei no chão.

Flash On
Ela chorava, incontrolavelmente, encolhida no chão. Em um momento depois ela estava se arrastando para o banheiro o mais rápido que podia e ele pulou de onde estava na cama, em direção a ela.
Flash Off

Todas aquelas imagens na minha cabeça, estavam me fazendo esquecer como respirava, a visão estava ficando turva. Não podia perder o controle do meu corpo novamente. Estava em estado de pânico, em uma luta interna. Procurei pelo ar do quarto que parecia ter sumido. Avistei a janela mais próxima e com dificuldade me locomovi até ela. Abri o máximo possível, enfiei minha cara para fora e respirei profundamente. O que está acontecendo, ou melhor, por que estava acontecendo? Eu não compreendia, achava que depois de descobrir meu trauma, essas coisas iriam parar de acontecer. A culpa era minha. Ouví-la soluçando no outro cômodo só me deixava ainda mais em pânico, preocupado e desesperado. Afinal, o que ele, o que eu, fiz com ela? Por que eu...
Reuni o resto da minha coragem com todas as forças do meu corpo, caminhei até a porta do banheiro. Encostei minha testa na madeira da porta que separava os dois cômodos. Sentir aquilo no meu rosto me fez sentir um comichão percorrer todas as partes do meu corpo, meu estômago começou a embrulhar e o ar estava sumindo de novo. Sentei no chão de costas para a porta.
. Você está bem? ― Perguntei em um tom fraco, mas alto o suficiente para que ela escutasse. ― Me perdoa, eu... Eu não sei o que ele fez com você, mas me perdoa. Eu nunca vou ser capaz de me perdoar, se ele tiver tocado em você. ― Falei já com as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto. Levei minhas mãos ao rosto, e meu corpo se encolheu junto à porta.
― Você, é louco ou o quê? ― A voz dela saiu fraca, quase inaudível. ― Qual o seu problema, ? Todos esses anos juntos, tanto tempo que te conheço e eu nunca te vi assim. Você estava drogado? ― A voz dela começou a criar força e eu senti um misto de raiva e decepção no tom.
, eu.. eu na verdade, não era eu. Aquele era o...
― Ravi?! De onde você tirou esse absurdo? Eu não entendi nada, e estou muito apavorada com tudo ainda. ― Ela voltou a chorar.
― Meu amor, vamos conversar. Eu preciso saber o que aconteceu, o que aquele monstro fez com você. Por favor.
, você é um sádico! Eu vou sair daqui, pra você me explicar o que ta acontecendo, mas fique ciente que eu mandei mensagem para as meninas da banda e elas estão vindo me buscar. ― A voz dela só era raiva agora.
Voltei a chorar. Aquilo tudo era muito agonizante. Senti a porta abrir atrás de mim, ela passar por cima das minhas pernas com o menor contato possível. Sentou-se na cadeira e apoiou as mãos na mesa, ela segurava um dos nossos convites e as chaves com os punhos fechados. Seu rosto estava inchado e vermelho, a alça rasgada do seu vestido não expunha nada, mas seus braços estavam avermelhados. Levantei-me devagar, mas assim que eu coloquei meus olhos nela meu coração se comprimiu e eu tive que me apoiar na parede para não cair no chão de novo. Segui procurando o ar, e me sentei a sua frente.
ㅡ Me fala o que foi isso tudo, ? ㅡ Ela apertava forte o envelope azul marinho, com flores em um tom mais claro de azul pregado nele. Aquele mesmo envelope que escolhemos juntos meses atrás. Meus olhos encontraram os dela, e eu vi sua feição mudar de raiva para decepção.
ㅡ Eu não fui 100% honesto com você, . ㅡ Meus olhos estavam fixos nos dela, que se encheram de lágrimas assim que as palavras saíram da minha boca. ㅡ Pensei que estava curado, achei que não seria necessário te contar essa fase sombria da minha vida. ㅡ Meus olhos baixaram até a toalha de mesa florida. ㅡ Você podia se afastar, me deixar e eu não conseguia mais ver a minha vida sem você.
Nesse momento ela bateu com os dois punhos ainda fechados sobre o tampo da mesa. O que me fez voltar à atenção para o rosto dela. As lágrimas pingavam de seu rosto e molhavam a toalha.
ㅡ Mas que merda! Que merda de argumento foi esse? ㅡ Ela respirava fundo. ㅡ A única coisa que eu pedi quando eu te conheci era pra ser honesto comigo. E depois desse tempo todo, você não confiava o suficiente em mim pra ser honesto comigo? Que argumentinho mais furado. Uma vez eu disse que te amava mais do que já amei outra coisa ou pessoa na minha vida, que queria seu bem e que não sairia do seu lado. Por acaso a minha palavra não vale de nada pra você?!
Tudo aquilo me pegou de surpresa. E eu não tinha notado como aquilo era realmente grave pra ela. O que meu ato de egoísmo a fez passar hoje.
ㅡ Me desculpa, . Eu fui um egoísta, não por não confiar em você. Mas por não ter confiança suficiente em mim pra achar que alguém podia me amar e querer estar comigo, mesmo com todos esses demônios que eu carrego dentro de mim. ㅡ Eu estava tremendo, com o coração quase saindo pela boca.
ㅡ Me fala, fala toda a verdade de uma vez por todas, . É só o que eu te peço, não quero discursos, nem desculpas. A única coisa que eu quero de você agora é a verdade. ㅡ Ela se ajeitou na cadeira, colocou seus dois pés sobre o acento, ainda sentada e abraçou os joelhos, olhando no fundo dos meus olhos.
Eu mal conseguia respirar, estava tentando controlar a minha mente para conseguir formar as frases necessárias. Tudo dentro de mim estava uma bagunça.
ㅡ Eu, sou uma pessoa com muitos problemas. ㅡ Comecei a falar, olhando o estado que ela estava e me controlando para não chorar. ㅡ E um deles é o Transtorno Dissociativo de Identidade, que quer dizer que além de mim existe mais uma personalidade que habita esse corpo. ㅡ Respirei fundo, bati algumas vezes o punho fechado no meu peito, segurando firme o choro que insistia em querer sair. ㅡ Essa outra personalidade é violenta, rude, imatura e inconsequente. Ele se intitula como Ravi. Fiz tratamento por mais ou menos seis anos, descobri que sofri abuso psicológico e físico do meu pai, que era uma pessoa extremamente machista e tinha problemas sérios com a bebida. ㅡ Minhas mãos suavam, e as lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto dela. ㅡ Parei o tratamento assim que você veio morar comigo. Achei realmente que tinha me curado e até mesmo alguns anos antes de te conhecer eu já não tinha contato com o Ravi. É isso. Esse é o meu segredo, ou mentira, como você preferir. Agora me fala o que aquele desgraçado fez com você! ㅡ Olhei para o rosto dela, esperando alguma resposta.
ㅡ Eu te odeio, . Não acredito que estava prestes a se casar comigo e me escondeu uma coisa dessas. É a porra da sua e da minha vida, isso aqui não é um filme ou um conto de fadas. Como você tem duas personalidades e não me disse nada, como você se transforma de um amor, para uma pessoa violenta e não me diz nada? ㅡ A expressão dela era de medo. ㅡ Qual seu maldito problema? E se a gente tem um filho e você tem uma crise dessas, sem eu saber de nada? E se de repente ele machucasse meu filho? Como você achou que esconder isso de mim era uma boa idéia?
Sem tempo para respostas, bateu firme os pés no chão, se levantou e foi andando até nosso quarto. Eu tinha acabado de lavar um soco na boca do estômago com as palavras dela. Ali eu percebi, o quão imbecil eu fui por esconder isso dela. Algo que sim, podia prejudicar nosso futuro, e a vida dela. Fui atrás dela no quarto, ainda precisava saber o que ele tinha feito com ela.
, eu sei que não tenho o direito de te pedir nada. Mas por favor, o que ele fez pra você? ㅡ Tentei me aproximar, mas ela se afastou. Pegou uma mala dentro do armário de roupas e começou a jogar suas coisas dentro.
ㅡ Eu preciso de um tempo. Preciso respirar, sobre tudo que aconteceu aqui hoje. Assimilar essas informações que me deu e eu espero que vá procurar sua médica de novo. ㅡ Ela disse, arremessando as coisas dentro da mala. ㅡ Quero pedir também que não venha atrás de mim. Estou pensando seriamente em sair de vez da sua vida, já que não faz diferença eu participar dela ou não. ㅡ A voz dela era firme, assim como os passos que ela dava pelo cômodo.
Sentei-me na beirada da cama e encolhi meu corpo, assim como ela tinha feito há pouco tempo na cadeira da cozinha.
ㅡ Eu prometo. , eu te prometo, se realmente ficar longe de mim é o que você quer, e eu acho que precisa, eu vou respeitar essa decisão, não vou te procurar, eu nem tenho esse direito. Só por favor, me diz o que ele fez pra você.
Senti a cama balançar, percebi que ela tinha se sentado na cabeceira, mas não me virei para confirmar. Ela respirou fundo.
ㅡ Ele não fez nada que me deixasse marcada para sempre. Não abusou de mim nem nada disso. ㅡ Meu coração estava espalhado pelo quarto, e eu estava quase perdendo o sentido dos meus pensamentos. ㅡ Ele só apertou meus braços e puxou minha roupa. Depois ele tirou a camisa, me olhou de um jeito estranho, ai eu corri para o banheiro. ㅡ Ela finalizou e eu senti o sangue esvaindo, do meu corpo todo.
ㅡ Me perdoa, . Eu me odeio tanto, sempre me odiei, mas estando com você ao meu lado, pensei que nunca mais na vida sentiria isso. Perdão, por fazer você passar por isso, me perdoa por não ter, te contato e me perdoa por eu ser quem sou. Meu corpo desabou para trás, já sem forças, e eu senti o impacto das minhas costas batendo no colchão. Ela se levantou e fechou a mala.
ㅡ Vou embora agora, eu preciso de um tempo.
Essas foram às últimas palavras que eu ouvi da boca dela, antes dela se virar e sair pela porta principal do apartamento. Parte de mim queria correr atrás dela e implorar para que ficasse. Mas minha parte consciente sabia que a melhor coisa era deixá-la ir, e esperava que ela fosse pra sempre. Deixar que ela vivesse e que encontrasse um amor saudável, alguém que pudesse ao menos defendê-la de si próprio e que fosse feliz, da forma que eu nunca mais seria sem ela.
Minhas únicas companhias foram as lágrimas, elas sempre estiveram presentes na minha vida. Eu não sei o que eu tinha na cabeça em pensar que eu tinha o direito de ser feliz como eu vinha sendo.
Eu não a procurei como havia prometido. Estava arrumando algumas coisas para devolver os presentes que tínhamos recebido de alguns amigos próximos, e cancelando algumas coisas, que já estavam contratadas para o casamento.
Um mês havia se passado depois do ocorrido. Eu voltei a ver a doutora Hee, e mesmo com todas as broncas me senti mais seguro. Há três semanas sem contato nenhum com o Ravi, e minha ansiedade estava controlada. A única coisa que eu ainda sentia era saudades dela, do jeito que ela acordava animada todas as manhãs, do jeito que ela era apaixonada pelas coisas, do jeito que ela sorria. Eu nunca deixei de acreditar no amor dela, mas por medo e insegurança, eu perdi a mulher da minha vida. Eu nunca esperei que ela me aceitasse, a única coisa que eu queria é que ela me perdoasse.
Dois meses depois, eu já tinha resolvido tudo sobre as pendências do casamento. Estava prestes a iniciar uma pequena turnê como pianista por algumas cidades próximas. Estava terminando de arrumar minhas malas quando escutei o barulho de um molho de chaves sendo colocado sobre a mesa. Eu não pude acreditar quando cheguei à sala. Ela estava parada com os cabelos mais curtos que da última vez que nos vimos, em um verde desbotado, uma roupa toda preta e seus olhos brilhantes, como eu os guardava na minha mente.
ㅡ Oi, . Precisamos conversar. ㅡ Ela esboçou um pequeno sorriso.
Eu achei que estivesse sonhando, mas quando me sentei novamente na frente dela, naquela mesa de jantar, tive a certeza de que aquilo era real.
ㅡ Você está muito linda, . ㅡ As palavras saíram da minha boca. ㅡ Eu não imagino o que você tem a falar. Mas eu preciso te dizer uma coisa antes. ㅡ Olhei firme pra ela. ㅡ Primeiro quero te pedir perdão, por tudo mais uma vez. Segundo gostaria que soubesse que voltei a ter consultas com a doutora Hee. Por último, quero dizer que eu te amo muito, mas não posso pedir pra que fique comigo e corra algum risco.
Ela não disse nada nos minutos que se seguiram, ficou me olhando de uma forma misteriosa, logo depois ela abriu um sorriso.
ㅡ Te agradeço, por ter me dado o espaço que eu pedi. ㅡ Ela começou a falar com uma voz calma, e em um tom animado. ㅡ Eu pude colocar minha cabeça no lugar. Pesquisei sobre o assunto, procurei sua médica para entender melhor as coisas que aconteceram. ㅡ Ela alcançou uma de minhas mãos e a segurou firme. ㅡ , saiba que eu não fui embora por você ter esse problema. Eu fui porque estava assustada e magoada com a sua atitude. Mas depois de me aprofundar mais no assunto, eu meio que compreendi porque agiu dessa forma. Eu desaprovo totalmente, mas eu não deixo de me colocar no seu lugar. Eu ainda não gosto de você por isso, mas quero que me prometa que não vai mais fazer uma coisa dessas. Honestidade, lembra? Por mais que doa em mim, ou em você. ㅡ Ela fez carinho na minha mão. ㅡ Acontece que eu te amo, tentei me afastar, seguir a minha vida, mas não consegui, senti sua falta todos os dias até aqui. E eu quero nos dar uma nova chance. ㅡ Ela voltou a segurar firme minha mão e sorriu.
ㅡ Não posso te fazer passar por aquilo de novo, . Não posso permitir que estrague a sua vida ao lado de alguém como eu. ㅡ Respirei fundo e a frustração percorreu todo meu corpo.
ㅡ Tá pra nascer quem saiba mais dos meus sentimentos do que eu. ㅡ Ela soltou uma gargalhada. ㅡ Eu sei bem que vai ser difícil e que daqui pra frente vamos ter que tomar alguns cuidados, mas pode não ser tão complicado assim com o tratamento certo. Eu escolhi continuar te amando, te dando suporte quando necessário e seremos as nossas melhores versões juntos.
ㅡ Você é a pessoa mais incrível que eu já conheci, . ㅡ Me curvei um pouco e dei um beijo na mão dela que estava na minha. ㅡ Eu prometo, eu nunca mais vou esconder nada de você. ㅡ Sorri ao colocar meus olhos nos dela. ㅡ Te amo tanto.
ㅡ Eu te amo por completo, de todos os seus jeitos. Vamos enfrentar tudo juntos de agora em diante. ㅡ Ela disse passando a mão no meu rosto.
ㅡ Eu te amo, .
ㅡ Eu te amo, .


Fim.



Nota da autora: A primeira coisa que eu pensei quando coloquei meus olhos nesse MV, foi dupla personalidade. Eu nem sabia como realmente chamava, descobri que o nome certo é Transtorno Dissociativo de Identidade, Não tem “cura”, mas com o tratamento certo é controlado. Qualquer assunto, sobre algo que a gente não vive é meio superficial, uma visão de fora do assunto, mas eu procurei pesquisar bastante sobre o assunto. Eu realmente assisti a algumas coisas sobre como o dorama Kill me Heal me e o filme fragmentado, os dois muito maravilhosos e o assunto é bem construído recomendo que assistam. Agora eu quero falar que escrever essa fanfic foi um pouco difícil pra mim, não foi à primeira escrita em primeira pessoa, mas vai ser a primeira publicada. Escrever sobre a visão do PP e tentar passar a emoção e a experiência dele com a doença, foi algo incrivelmente difícil, mas me conectou tanto com tudo. Espero que vocês sintam o que eu quis passar com essa historia. Ela é minha xodó até o momento <3

HOJE eu vou agradecer as minhas amigas de uma forma diferente, eu sempre mando beijo achando que to no programa da Xuxa, maaaaaaaaaaaaaaaaaas eu quero dizer que as amo muito por me incentivar e por serem autoras TÃO MARAVILHOSAS. Aderindo a campanha #autorainfluenciadoraffobs, aqui esta a minha lista do amor. Vou dividir meus amores entre mais Mvs fiquem atentos hahahha
- The Midnight Train
- Calling love
- 9. Outro: Her
- 05. Stigma
- Love is not over
- 10. Lost
- Med Club
- Tempo certo
- 4. Dimple
- 07. Reflection

Leiaaaaaaaaaaam e comentem muito em todas as autoras maravilhosas que habitam esse site <3 <3





Outras Fanfics:
Baby How You Like That;
Eyes Nose Lips;
Baby, I Like You;
16. Not Today.


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus