MV: Don't Say You Love Me

Finalizada
Music Video: Don't Say You Love Me- Jin

Capítulo Único

A Fuga

O relógio da sala marcava 4h17 da madrugada.
A casa estava mergulhada num silêncio quase vivo, quebrado apenas pelo tic-tac insistente e pelo som distante da chuva fina batendo no telhado.
estava no corredor do andar de cima, imóvel, segurando a alça gasta da mala.
O quarto dele ficava logo à esquerda.
A porta estava entreaberta, e uma fresta deixava passar o tom quente do abajur — nunca dormia no escuro total.
Ele estava deitado de lado, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo. O cabelo bagunçado caía sobre a testa, e um braço descansava sobre o travesseiro vazio ao lado, onde ela costumava dormir. Havia um leve vinco entre as sobrancelhas, como se até no sono ele sentisse que algo estava errado.
Não fazia muito tempo que tinham terminado o colégio.
Ainda estavam no início da vida adulta, tentando descobrir o próprio caminho, mas já dividindo aquele teto. Não por acaso: a tia de , que a criara desde pequena, tinha oferecido a casa para que morassem juntos.
Ela sempre os apoiara — sem julgamentos, sem impor regras sufocantes. Acreditava no amor deles, e a respeitava como se fosse parte da própria família.
Naquele quarto estavam os últimos anos da vida deles — a cama onde conversavam até o sol nascer, a pilha de cadernos e livros da época escolar, o vinil arranhado no canto que eles colocavam sempre que precisavam esquecer o mundo.
Era mais que um namoro. Era lar.
Mas agora, nada disso podia segurá-la. Não depois do que aconteceu. Não depois da ameaça, das mãos que ela queria esquecer e da voz do homem que podia destruir qualquer um que se colocasse contra ele.
era tudo que ela queria proteger — e, para isso, precisava se tornar a pessoa mais distante dele.
deu dois passos para trás, o suficiente para sair do alcance da luz e da visão dele.
Desceu as escadas com o cuidado de quem sabia onde cada tábua rangia.
A mala estava leve — só o necessário. O táxi já esperava no portão. O motorista, um senhor de olhar cansado, abriu o guarda-chuva para que ela entrasse. Antes de a porta fechar, olhou para a janela do quarto. O abajur continuava aceso. Ele continuava lá. E ela estava indo embora, levando tudo o que nunca disse.
O carro arrancou devagar, e as luzes da cidade foram ficando menores no retrovisor.
Na mala, roupas e documentos. No peito, um peso que ela sabia que não iria largar tão cedo.
Ela não sabia quando voltaria.
Ou se voltaria.
Mas sabia que, se um dia o fizesse, nada mais seria igual.

Anos Longe

Passaram sete anos desde que deixou a cidade.
Sete anos de silêncio, disciplina e planejamento. Sete anos em que o mundo se abriu, mas também se fechou para ela de um jeito que ninguém poderia tocar.
Morava em um apartamento pequeno, funcional, quase sem alma — paredes brancas, poucos móveis, cada detalhe pensado para que nada distraísse seu objetivo. Ela estudava, trabalhava e se movia como se cada passo fosse um cálculo: ela entrou para a política local, engajando-se em movimentos sociais e organizações de direitos humanos. Cada projeto, cada lei discutida, cada discurso público era uma arma silenciosa, um passo para derrubar o homem que havia ameaçado sua vida e sua liberdade.
O pensamento de surgia apenas às vezes, como uma brisa que invade uma sala fechada: um gesto, uma risada, a forma como segurava o cabelo quando concentrado, o cuidado silencioso que sempre teve com sua tia. Pequenos fantasmas que a faziam sorrir e doer ao mesmo tempo.
Mas não havia espaço para distrações. O amor que ainda carregava por ele estava escondido sob camadas de estratégia, disciplina e vingança. Esquecê-lo era fácil quando precisava — a sede de justiça consumia quase tudo. Ainda assim, a saudade vinha em flashes: a cozinha da tia, as escadas rangendo, o quarto que compartilhavam de forma improvisada. Tudo parecia distante, quase irreal, e ao mesmo tempo dolorosamente presente.
A tia enviava cartas discretas, cheias de conselhos e notícias da casa. Elas eram como um fio invisível que a conectava ao passado, lembrando-a de que havia um lar, e pessoas que a amavam, esperando por ela.
Finalmente, depois de anos de planejamento político, aliados conquistados e ações precisas, cumpriu seu objetivo: neutralizou a ameaça, de forma definitiva, elegante e invisível.
E então veio o golpe do destino: a tia, que sempre fora seu porto seguro, estava gravemente doente.
De repente, tudo o que ela havia adiado precisava ser confrontado: o passado, a cidade, e, sobretudo, .
Ela respirou fundo, sentindo o peso dos sete anos em seus ombros. O retorno começava agora — não apenas físico, mas emocional, perigoso e inevitável.

O Retorno

O carro deslizou pela estrada que levava à cidade natal, e a chuva fina insistia em cair, desenhando pequenos rios nas laterais do vidro.
apertou a alça da mala no colo, sentindo cada quilômetro percorrido como se arrastasse anos de silêncio e segredos. O cheiro da terra molhada atravessava a janela, familiar e cruel, lembrando-a de tudo que deixara para trás — a casa, a tia, .
A casa da tia surgiu no topo da colina, iluminada pelas luzes amareladas. Tudo parecia igual à memória dela: o portão branco, o jardim cuidadosamente aparado, as janelas que refletiam a chuva. Mas havia algo diferente — uma sensação de tempo passando, de vidas que haviam mudado enquanto ela estava fora.
estava no jardim, curvado sobre algumas plantas, cuidando da tia que se apoiava em sua bengala. Ele se movia com a familiaridade de quem conhece cada detalhe da rotina, mas o olhar dele, ao erguer-se e encontrá-la, mudou tudo. Um misto de surpresa, reconhecimento e… algo indefinido que ele não conseguia nomear.
parou no carro por alguns segundos, respirando fundo. Cada passo que ela dava até a porta parecia ecoar pelo passado: as manhãs que dividiam na cozinha, as risadas abafadas pelos corredores, os silêncios cúmplices na sala, o quarto improvisado onde confidências eram trocadas. Tudo estava lá, intacto, e ao mesmo tempo distante, como um sonho que teima em se misturar com a realidade.
hesitou, quase instintivamente, deixando escapar um leve passo à frente. Cada movimento dela despertava lembranças que ele havia tentado enterrar: os jantares improvisados, as discussões bobas que terminavam em risos, o cuidado silencioso dela quando ele se sentia perdido. Ele percebeu que a distância não apagara a presença dela em sua vida — apenas a transformara em memória dolorida.
A tia, ainda frágil, sorriu com reconhecimento ao vê-la. — … você voltou. — A voz dela tremia, carregada de alívio e carinho.
desceu do carro, segurando a mala com força, quase esquecendo de respirar diante daquele reencontro.
O silêncio se instalou, pesado e cheio de significados. Palavras pareciam supérfluas diante de tudo o que carregavam no olhar um do outro. Eles se estudavam, cada gesto carregado de história, cada respiração marcada por anos de ausência.
Ela finalmente entrou, fechando a porta atrás de si, e por alguns segundos, a chuva continuou caindo lá fora, como se quisesse proteger aquele momento da realidade do mundo.
O passado estava ali, palpável, nos olhares, nos gestos, na casa que testemunhou tanto amor e dor. O futuro ainda era incerto, mas uma coisa era clara: nada do que vieria poderia apagar o que eles sentiram, e ainda sentiam, um pelo outro.
entrou na casa, a mala quase esquecida ao lado da porta. O cheiro familiar de madeira polida, café recém-passado e livros antigos a envolveu imediatamente. Cada detalhe parecia sussurrar lembranças: as manhãs preguiçosas, as risadas abafadas no corredor, as conversas até tarde da noite.
ficou parado por um instante, observando-a. Ela havia mudado — não só fisicamente, mas na postura, na presença. Mais segura, mais imponente, mas ainda havia algo ali que ele conhecia profundamente: a que ele amava, escondida sob camadas de distância e silêncio.
— Você… — ele começou, mas parou. Não havia palavras que servissem.
Ela apenas deu um passo adiante, evitando o olhar dele, como se soubesse que qualquer contato visual poderia desmoronar a fachada que ela manteve por sete anos.
A tia, percebendo a tensão, os chamou para o café.
— Venham, vocês dois. Não vamos deixar que a chuva e o tempo estraguem o calor da casa.
No caminho até a cozinha, cada gesto deles era carregado de história. pegava a xícara com cuidado, lembrando-se do modo como sempre a segurava, oferecendo o café mais quente para ela. Ele, por sua vez, tentava manter a naturalidade, mas cada olhar demorava mais do que devia, cada gesto parecia calculado para não revelar o quanto sentiu falta dela.
Durante o café, conversas curtas surgiam entre eles, quase triviais: comentários sobre o tempo, sobre a saúde da tia, sobre pequenas mudanças na cidade. Mas cada frase carregava subtexto: a saudade, o medo, o ressentimento, a admiração mútua.
Em silêncio, eles se olhavam, às vezes sorrindo de forma involuntária, outras vezes desviando os olhos, como se cada contato visual fosse perigoso. sentia a tensão crescer dentro dela, lembrando-se de tudo que havia deixado para trás — e de tudo que ela precisaria enfrentar para se permitir voltar a sentir algo por ele.
Quando a tarde caiu, o céu se tingiu de laranja e cinza, a chuva já havia parado. Mas a sensação de que o tempo não havia passado entre eles permanecia. O reencontro não precisava de palavras: o silêncio dizia tudo, e ao mesmo tempo, nada.

A Primeira Conversa

Já passava das nove da noite. A tia havia subido para descansar cedo, deixando a casa em um silêncio quase incômodo. O som distante da chuva, agora mais fraca, se misturava ao tique-taque do velho relógio de parede.
estava na sala, folheando um livro antigo que encontrou na estante. Era um dos favoritos da tia, e ela lembrava de como costumava ler para ambas nas noites frias, a voz dele enchendo o ambiente de uma calma segura.
— Não achei que você fosse voltar. — A voz dele veio baixa, quase como se não quisesse quebrar o clima da casa.
Ela levantou os olhos. estava encostado no batente da porta, braços cruzados, expressão indecifrável.
— Nem eu. — respondeu, fechando o livro devagar.
Houve um silêncio pesado, como se as paredes estivessem esperando para ouvir o que viria a seguir.
— A tia… — ele começou, parando por um momento. — Ela não falou muito sobre você. Acho que… achou que era melhor assim.
— Melhor para quem? — a pergunta saiu mais afiada do que ela pretendia.
Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante.
— Para todo mundo. — respondeu, mas o tom sugeria que nem ele acreditava completamente nisso.
apoiou o livro no colo e o encarou por alguns segundos, estudando cada traço que havia mudado nele: o cabelo um pouco mais comprido, as mãos marcadas pelo trabalho, os olhos… ainda os mesmos, mas mais cansados.
— Sete anos, . — ela disse, quase como um suspiro. — É muito tempo para achar que nada mudou.
Ele deu um passo à frente, a distância entre eles diminuindo.
— Mudou, sim. — respondeu, firme. — Mas tem coisas que… não mudam nunca.
A intensidade do olhar dele fez com que ela precisasse desviar os olhos, fingindo ajeitar o livro nas mãos. A sala parecia menor, o ar mais denso. Tudo gritava que havia algo ali que nenhum dos dois tinha coragem de dizer.
Antes que ela pudesse responder, a tia chamou do quarto, a voz fraca mas insistente.
se levantou, quase aliviada por interromper aquele momento.
— Eu vou ver o que ela precisa. — disse, saindo sem olhar para trás.
ficou parado, observando-a desaparecer pelo corredor, sentindo a mesma mistura de esperança e frustração que o acompanhava desde que a vira novamente.

Aproximação

Os dias se alongavam como um filme em câmera lenta. A rotina na casa da tia era simples, quase monótona, mas carregada de pequenos gestos que não esperava encontrar.
Na primeira manhã, quando desceu para a cozinha, o aroma do chá-preto já preenchia o ar. estava de costas, mexendo lentamente a xícara da tia. Ao notar sua presença, ele serviu outra xícara, colocando uma colherada de mel ao lado. Não perguntou se ela ainda usava, apenas deixou ali, como fazia anos atrás.
— Achei que você tivesse esquecido. — ela disse, quase sorrindo.
— Algumas coisas não se esquecem. — ele respondeu, sem levantar os olhos.
À tarde, ajudavam a tia no quintal. cortava lenha com golpes firmes, e recolhia as folhas secas, empilhando-as no canto. Às vezes, quando um galho teimava em não quebrar, ele se aproximava e o partia com um movimento rápido, devolvendo-o para ela sem dizer nada.
O som ritmado do machado, o cheiro de madeira fresca e a brisa úmida criavam um cenário que, de forma inesperada, parecia confortável.
À noite, a varanda se tornava um refúgio. Sentavam-se em cadeiras separadas, com uma pequena mesa entre eles. O céu, muitas vezes encoberto, deixava apenas algumas estrelas tímidas à mostra.
— A cidade continua pequena. — comentou numa dessas noites. — Ou a gente que cresceu demais. — ele rebateu, com um olhar rápido para ela antes de voltar a encarar a estrada vazia.
As conversas eram curtas, mas carregadas de significados não ditos. Cada palavra era medida, cada silêncio era pesado. Ainda assim, havia algo diferente no ar: um cuidado implícito, como se ambos testassem a possibilidade de se aproximar sem se ferir.
No quarto dia, deixou uma toalha limpa dobrada na cadeira dele, exatamente como fazia antigamente. No quinto, apareceu na varanda com duas xícaras de chá, entregando uma a ela sem comentar.
E no sexto, quando um trovão forte fez a luz piscar, ela percebeu que instintivamente havia se virado para ele — e que ele estava olhando de volta, como se tivesse feito o mesmo.
Era uma aproximação silenciosa, feita de gestos pequenos e memórias antigas. Nenhum dos dois dizia em voz alta, mas a verdade era simples: estavam se encontrando novamente, mesmo sem planejar.

Ruptura O sétimo dia começou com chuva fina, o tipo que parecia dissolver o horizonte. A casa estava silenciosa, exceto pelo som constante das gotas no telhado e pelo cheiro de café recém-passado vindo da cozinha.
passava pelo corredor dos fundos carregando uma caixa de ferramentas. A tia havia pedido para consertar uma dobradiça no armário. Quando chegou perto do quarto de hóspedes, notou a porta entreaberta. A princípio, não se importou — até ouvir a voz de .
— Eu sei que o prazo está apertado, mas eu não posso voltar ainda… — A pausa no meio da frase veio acompanhada do som baixo de chuva batendo na janela. parou.
— Sim, o trabalho precisa de mim. Eu só vim resolver umas coisas aqui… Não, não vai demorar.
Ele ficou imóvel, sentindo cada palavra como uma confirmação de algo que já desconfiava: ela não tinha voltado para ficar.
Não sabia para onde era “voltar” dessa vez, nem o que significava “não vai demorar”, mas compreendeu o suficiente — não fazia parte dos planos dela.
Seu corpo reagiu antes que pudesse pensar. O peito apertou, a garganta fechou, e ele sentiu aquela velha ferida ser aberta outra vez, como sete anos atrás, quando acordou e ela já não estava mais.
Sem fazer barulho, deu dois passos para trás, afastando-se do quarto. O som da voz dela ficou mais distante, abafado pela chuva e pelo rangido do assoalho sob seus pés.
Naquela noite, enquanto a tia dormia, arrumou suas coisas. Não havia muito — algumas roupas, um livro, as ferramentas. Colocou tudo em uma mochila gasta. Antes de sair, ficou parado por um instante na varanda, olhando a estrada escura.
Melhor ir agora, antes que doa mais.
Na manhã seguinte, acordou com o cheiro habitual de chá e café… mas a cadeira dele estava vazia. O quarto, limpo e arrumado, parecia nunca ter sido usado.
A tia, com o rosto marcado por uma tristeza silenciosa, apenas disse:
— Ele saiu cedo. Não disse para onde ia.
ficou parada no corredor, as mãos frias, como se o ar tivesse se tornado mais pesado. Não houve briga, não houve explicação. Apenas silêncio — o mesmo silêncio que ela havia deixado para trás anos antes, agora devolvido por ele.

A Carta O outono chegou trazendo um frio mais úmido que de costume. já estava de volta à cidade há algumas semanas quando percebeu que a saúde da tia se agravava.
As mãos, antes firmes para mexer na terra do quintal, tremiam ao segurar a xícara de chá. As caminhadas curtas pela varanda passaram a ser feitas com pausas frequentes.
, mesmo acostumada com a rotina agitada de seu cargo político, reduziu compromissos para estar presente. Passava horas ao lado da tia, ouvindo histórias antigas, algumas já repetidas, outras contadas como se fossem segredos guardados para aquele momento.
Numa tarde de céu cinzento, enquanto o vento trazia o cheiro de terra molhada, a tia pediu papel e caneta.
— Vai escrever pra quem? — perguntou, tentando sorrir.
— Pra quem merece saber. — respondeu, com um brilho cansado nos olhos.
Nos dias seguintes, a doença avançou rapidamente. Quando o inverno finalmente mostrou seu peso, a tia partiu de madrugada, com segurando sua mão.
Entre as coisas deixadas no criado-mudo, havia um envelope com o nome de escrito à mão, em caligrafia trêmula. hesitou ao vê-lo, mas não o abriu. Pediu a um vizinho de confiança que o entregasse.
A carta chegou numa manhã fria, dobrada dentro de um envelope simples, sem remetente. reconheceu a caligrafia antes mesmo de tocar no papel. Abriu com cuidado, como se o movimento pudesse quebrar algo que ainda queria preservar.

",
Sei que minha partida será minha última viagem, mas quero ir em paz sabendo que fiz o que podia para consertar algumas pontes.
Você sempre foi como um filho para mim, e é por isso que não posso deixar que o silêncio continue.
não foi embora porque quis. Havia algo na cidade que a ameaçava, algo que poderia destruir mais do que o nome dela. Um homem poderoso, acostumado a conseguir tudo com chantagem ou medo, tentou tomar dela o que não podia. Ela fugiu não para te abandonar, mas para se proteger… e, eu acredito, para proteger você também.
Lá fora, ela buscou justiça do jeito que podia. Talvez tenha conseguido mais do que imagina, mas o preço foi alto: viveu anos com o coração preso aqui.
Sei porque vi — ela nunca deixou de amar você.
Há uma lenda que ouvi quando era jovem: dizem que almas gêmeas se encontram três vezes na vida, e que na terceira, se escolherem ficar, nada mais poderá separá-las.
Vocês já tiveram duas. Não deixem escapar a terceira.
Com carinho,
sua eterna titia."

releu o texto até as palavras começarem a borrar diante de seus olhos. O peso da revelação, misturado à culpa e à saudade, deixou-o imóvel por longos minutos. Quando finalmente se levantou, o fez com a certeza silenciosa de que precisava voltar.

Reencontro no velório

A capela estava envolta em silêncio, pesado e quase sufocante. O cheiro de flores misturado ao incenso parecia preencher cada espaço, e o rangido discreto do piso sob os passos de quem entrava só reforçava o clima de luto.
estava ali, parado próximo ao caixão. Seu olhar não descansava apenas na figura imóvel da tia dela, mas percorria cada canto da sala como se tentasse absorver tudo antes que desaparecesse. Ele havia cuidado dela por anos, trazendo chá, ajustando almofadas, ouvindo histórias repetidas, protegendo-a como se fosse sua própria família. A morte dela era um golpe que ia além da tristeza: era uma sensação de perda de uma parte de si mesmo que ele não sabia como preencher.
Ele sentiu o peso da carta nas mãos, as palavras da tia explicando tudo sobre a fuga dela, sobre a proteção que ela buscava e o amor que ainda nutria por ele. A carta tinha deixado cicatrizes e clareza ao mesmo tempo, e agora cada batida do coração lembrava-lhe da distância que os anos impuseram e do que poderia ter sido.
E então, ele a viu.
Ela entrou pela porta lateral, o vestido preto simples contrastando com o ambiente carregado. Os olhos marejados a traíam, e cada passo que ela dava parecia carregado de cautela e medo de reabrir feridas antigas. sentiu o ar falhar no peito. Não era apenas a saudade, mas a mistura de alívio, culpa e medo de perder tudo de novo.
Ela parou a poucos metros dele. Por um instante, o mundo se fechou à sua volta: nada mais existia além daquele espaço compartilhado de silêncio, memória e emoção contida.
— Eu… sinto muito — murmurou ela, quase como se falasse para a tia, mas deixando que as palavras alcançassem .
Ele desviou o olhar, incapaz de encará-la diretamente. A raiva, a dor e a saudade se misturavam, tornando difícil respirar.
— Eu sei — disse ele por fim, a voz rouca e contida. — Ela me contou sobre você… e sobre tudo o que aconteceu.
O silêncio voltou, agora ainda mais pesado, mas diferente.
Não havia distância imposta, apenas o espaço entre dois corações que ainda se reconheciam. Ela deixou a mão descansar perto da dele, mas não tocou, e ele sentiu que poderia chorar, mas permaneceu firme, porque a dor da perda da tia se misturava à força do que ainda sentia por ela.
Eles ficaram assim, lado a lado, apenas respirando, sentindo cada instante, cada memória, cada ausência e cada presença que o tempo não conseguiu apagar.

O carro

O caminho até o carro estava silencioso, exceto pelo som da chuva fina que começava a cair sobre o estacionamento. O céu cinzento refletia a sensação dentro dele: pesado, fechado, impossível de ignorar.
Ela caminhou até ele devagar, como se cada passo fosse calculado para não quebrar a barreira de dor e lembrança entre eles. destravou as portas, mas permaneceu parado, os dedos ainda tocando o metal frio do carro. Quando ela entrou, o espaço parecia pequeno demais para conter tudo o que não havia sido dito.
O motor ligou, e os faróis cortaram a escuridão. A chuva caía mais forte agora, pingando no vidro, preenchendo o espaço entre eles com um ritmo constante, quase hipnótico.
Ela cruzou os braços sobre o colo, os olhos baixos, mas atentos a cada gesto dele. Ele dirigia devagar, evitando o retrovisor, o volante apertado entre os dedos, a tensão percorrendo cada músculo. Por dentro, ele sentia o turbilhão: culpa por ter se afastado, dor pela perda da tia, medo de se entregar de novo e acabar machucado.
Finalmente, ela quebrou o silêncio:
— Eu recebi a carta… li tudo.
Ele não respondeu de imediato, o olhar preso à estrada molhada. Um minuto se passou, ou talvez dez segundos — tempo suficiente para que o coração disparasse com o simples som da voz dela.
… eu nunca deixei de… — a frase parou no meio, engolida pela emoção que crescia.
Ele respirou fundo, os olhos finalmente se encontrando com os dela pelo retrovisor. Havia tantas coisas ali: arrependimento, saudade, amor antigo e a certeza de que o passado não podia mais ser ignorado.
— Eu sei — respondeu, firme, mas com a voz embargada. — E agora… talvez seja a hora de tentar de verdade.
O carro seguiu pela estrada molhada, o silêncio ainda presente, mas diferente: pesado, sim, mas também carregado de uma promessa silenciosa. Eles estavam juntos novamente, e, pela primeira vez, havia espaço para que não se perdessem de novo.


Fim



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? Eu nem sei o que sentir quanto a essa história hahahah. Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.