Capítulo Único
O cheiro de café fresco misturado ao barulho de vozes conhecidas preenchia a pequena cafeteria do bairro. Ela tinha acabado de sair do trabalho e decidiu passar ali antes de ir para casa. O lugar era o mesmo de sempre, com as mesas de madeira um pouco gastas e a vitrine de bolos que parecia não envelhecer nunca.
Enquanto esperava seu pedido, ouviu uma voz atrás dela.
Grave. Familiar.
— Desculpa, você está na fila?
O coração dela perdeu o compasso por um segundo. Virou-se lentamente, e lá estava ele. O tempo tinha deixado marcas: alguns fios grisalhos, o olhar mais sério, ombros mais pesados. Mas era ele. O mesmo sorriso que um dia a fez acreditar que o mundo cabia inteiro num beijo.
— Não acredito… — ela murmurou, surpresa, quase sem voz.
Ele sorriu, sem esconder o mesmo impacto.
— Eu também não. Achei que você já tivesse se mudado daqui.
Ela engoliu em seco, tentando recuperar o controle. As lembranças vieram como uma onda repentina: tardes na praça, risadas abafadas para não chamar atenção dos pais, promessas de um “pra sempre” que nunca aconteceu.
— Não… eu fiquei. — respondeu, ajeitando a aliança no dedo, quase como um reflexo. — E você… voltou?
Ele assentiu, e o olhar dele suavizou.
— Voltei. Com as meninas. Precisava recomeçar.
O barulho da máquina de café quebrou o silêncio entre eles, mas o friozinho no estômago permaneceu. Ela sorriu, um sorriso nervoso, e percebeu que o tempo havia mudado tudo… e, ao mesmo tempo, nada.
Ela recebeu o café das mãos da atendente e, por um instante, pensou em se despedir ali mesmo. Seria mais fácil, mais seguro. Mas quando ele perguntou, com um sorriso tímido:
— Posso me sentar com você?
Ela apenas assentiu.
Foram para uma mesa perto da janela, onde a luz do fim de tarde entrava suave. Ela mexia distraidamente no açúcar do café, tentando controlar a ansiedade. Ele, por outro lado, a observava como quem tentava reconhecer traços de alguém que já conheceu tão bem.
— Você está… diferente. — ele disse, por fim. — Mas de um jeito bom.
Ela riu de leve, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Você também. Mais… adulto, talvez.
— Culpa da vida. — respondeu, suspirando. — O casamento, as meninas, o divórcio… tudo isso me mudou.
O silêncio pairou por alguns segundos. Ela queria perguntar tantas coisas, mas temia parecer interessada demais. O coração batia rápido, como se tivesse dezessete anos outra vez.
— E você? — ele retomou, com um brilho curioso no olhar. — Está bem?
Ela olhou para a aliança, depois sorriu.
— Estou. Casei… e posso dizer que encontrei o amor da minha vida.
Ele assentiu, e o sorriso que deu foi sincero, mas havia uma sombra escondida ali. — Fico feliz por você. De verdade.
E, ainda assim, o friozinho insistia em ficar. Porque algumas pessoas, por mais que o tempo passe, sempre carregam consigo um pedaço de nós.
O som de passos apressados na calçada chamou a atenção dela. Virou-se e, antes que pudesse reagir, viu o marido sorridente entrando na cafeteria. Ele sempre tinha aquele jeito leve, que fazia o mundo parecer mais tranquilo só por estar por perto.
— Ei, amor! — chamou ele, a voz carregada de carinho. — Pronta para irmos?
Ela sentiu o peito se aquecer. O sorriso dele era diferente, mais profundo, cheio de certezas que só o tempo e o amor construíram. Ela se levantou, agradecendo discretamente ao ex com um aceno.
— Esse é… meu marido — disse, apresentando-o.
O ex olhou, surpreso, e depois sorriu, sincero.
— Prazer em conhecê-lo. Parece que ela fez boas escolhas.
O marido dela apertou a mão dele, firme e seguro.
— É verdade. E parece que você também tem suas responsabilidades. — um leve aceno à menção das filhas.
Enquanto se despediam, ela percebeu que o friozinho no estômago ainda estava lá, mas diferente: misturado à gratidão por ter alguém como o marido, alguém que era presença constante, alguém que a amava de verdade.
— Até mais, então. — o ex disse, com um último olhar que dizia mais do que palavras poderiam expressar.
Ela sorriu, sentindo um misto de nostalgia e alívio. O passado tinha voltado para visitá-la, mas o presente — sólido, seguro e cheio de amor — continuava firme, como sempre deveria estar.
Alguns dias depois, caminhava pelo parque do bairro, distraída com o barulho das folhas sob os pés e o aroma das flores de primavera. Ela mal sabia que aquela caminhada traria o passado de volta de forma inesperada.
— ? — chamou uma voz familiar, quase hesitante.
Ela congelou por um instante. Lá estava , encostado na cerca do parque, segurando a mochila das filhas. Ele parecia cansado, mas havia algo no olhar dele que a desarmava instantaneamente: a mesma intensidade de quando eram adolescentes.
— … — murmurou ela, surpresa, mas tentando manter a calma.
Ele sorriu, meio tímido, meio nervoso.
— Posso caminhar com você?
Ela hesitou, mas acabou assentindo. E assim, começaram a andar lado a lado, cada passo trazendo lembranças que pareciam ter sido guardadas apenas para aquele momento.
— Então… como está a vida? — perguntou ela, tentando soar casual.
— Difícil, às vezes. Mas minhas meninas me mantêm firme. E você? — ele desviou o olhar por um segundo, com um sorriso triste. — está bem?
sentiu um calor no peito. O simples fato de se lembrar de seu marido a fez perceber o quanto a vida os tinha moldado.
— Sim, estamos bem. Ele é… incrível. — respondeu, com sinceridade. — Eu sou muito feliz com ele.
assentiu, respirando fundo.
— Fico feliz por você, de verdade. Sempre quis que você fosse feliz. — Uma pausa. — E eu… bem, eu queria que tivéssemos a chance de conversar, sabe, como adultos. Sem aquele turbilhão de sentimentos de adolescentes.
Ela sentiu o coração acelerar, mas também uma certeza firme: o que tinham era passado, doce, intenso, mas passado.
— Podemos conversar, sim. Mas só como amigos. Preciso que isso fique claro. — disse, olhando nos olhos dele.
sorriu, mas havia uma ponta de melancolia.
— Claro, . Amigos. Mas… não posso negar que ainda sinto aquele friozinho quando te vejo. — ele disse, meio em voz baixa, como se confessasse um segredo.
Ela respirou fundo, segurando a mão dela própria para não tocar na dele. — Eu também… mas precisamos respeitar o presente. é meu agora, e ele me faz sentir segura, amada de verdade.
assentiu, concordando silenciosamente.
— Eu entendo. Sempre entendi. E quero que seja feliz. Só espero que possamos rir, lembrar e… apoiar um ao outro, sem que isso complique nossas vidas.
sorriu, sentindo um misto de alívio e ternura. — Podemos, . Podemos.
Enquanto continuavam a caminhada, o passado e o presente se misturavam de forma delicada. O friozinho no estômago permanecia, mas agora acompanhado de uma serenidade que vinha de escolhas conscientes, de amor maduro e de respeito por tudo que construíram.
e caminhavam em silêncio quando ouviram uma voz chamando seu nome.
— Gabi!
Ela virou-se de imediato. vinha se aproximando pelo caminho do parque, sorrindo largo, como sempre fazia quando a via. O coração dela se apertou — por um lado, era o conforto absoluto de estar com o homem que amava; por outro, a estranha sensação de ter o passado e o presente colidindo ali, no mesmo espaço.
— Amor… — ela disse, forçando um sorriso natural. — Não sabia que você vinha.
a abraçou, deixando um beijo rápido em sua testa, antes de notar a presença de . O sorriso dele não se desfez, mas seus olhos se estreitaram de leve.
— Você deve ser o , certo? — perguntou, estendendo a mão com firmeza.
— Sou, sim. — respondeu, correspondendo ao aperto de mão. — Prazer em te conhecer.
Houve um breve silêncio, carregado de algo que só parecia sentir. Ela olhava para os dois homens, tão diferentes, mas de certa forma igualmente importantes em partes distintas da sua vida.
— Estávamos só conversando, colocando um pouco do passado em ordem. — disse, apressada, como se precisasse justificar a cena.
sorriu, tranquilo.
— Faz bem. É sempre bom reencontrar pessoas que fizeram parte da nossa história.
assentiu, mas o olhar dele se demorou por um instante a mais em . — É verdade. O passado nunca some de verdade.
sentiu o friozinho na barriga outra vez, mas ao segurar a mão de , encontrou a segurança de que precisava. O presente estava ali, sólido, estável, olhando para ela com amor incondicional.
— Bom, preciso ir buscar as meninas. — disse, com um sorriso educado. — A gente se vê por aí, .
— Claro, . Até mais. — respondeu ela, com um aceno discreto.
Assim que ele se afastou, voltou o olhar para ela. Não havia desconfiança explícita, apenas curiosidade.
— Você está bem?
respirou fundo, sorrindo.
— Estou. — respondeu, mesmo que seu coração ainda estivesse em turbilhão. — Estou exatamente onde deveria estar.
E ao entrelaçar os dedos aos dele, soube que era verdade. O friozinho do passado ainda existia, mas o amor do presente era maior, mais profundo.
A casa estava silenciosa naquela noite. O jantar tinha sido simples, regado a conversas leves sobre o trabalho de e pequenas histórias do dia a dia. Mas, por trás do sorriso de , havia um redemoinho que ela tentava esconder.
Ela estava no quarto, sentada na beira da cama, passando creme nas mãos, quando sentiu o colchão afundar ao lado. se aproximou, colocando um braço sobre seus ombros com aquele gesto tão natural, tão dele.
— Você ficou quieta hoje — disse ele, a voz baixa, suave. — Está cansada?
hesitou, mordendo o lábio inferior. Pensou em dizer “sim” e encerrar ali, mas sabia que a conhecia bem demais para aceitar uma resposta tão simples.
— Eu encontrei o hoje. — confessou, finalmente. — Ele estava no parque, com as filhas.
ficou em silêncio por alguns segundos. Não havia raiva no olhar dele, nem desconfiança, apenas atenção.
— E como foi?
respirou fundo, apoiando a cabeça no ombro dele.
— Estranho. Familiar. Eu não sei explicar… foi como se uma parte da adolescente que eu fui tivesse despertado de repente.
riu de leve, apertando a mão dela.
— É normal. Algumas pessoas deixam marcas que o tempo não apaga.
Ela o olhou, surpresa.
— Você não fica incomodado?
— Não. — ele respondeu com firmeza, mas sem arrogância. — Porque eu sei quem você é hoje. Sei o que temos, sei o que construímos juntos. E… sei que me ama.
As palavras dele a desmontaram. Uma onda de emoção a percorreu, porque era verdade: o friozinho que despertava não se comparava à solidez, ao amor profundo que oferecia todos os dias.
sorriu, sentindo os olhos arderem.
— Eu te amo tanto, .
Ele acariciou o rosto dela, aproximando-se para um beijo suave, daqueles que não precisavam de pressa ou intensidade para provar alguma coisa. Era apenas amor, puro e presente.
E, naquela noite, deitada ao lado dele, percebeu que o passado poderia até bater à porta… mas o futuro dela já tinha nome, voz e braços nos quais sempre quis descansar.
A casa estava mergulhada em silêncio quando fechou a porta do quarto das filhas. As duas já estavam dormindo, abraçadas a seus bichinhos de pelúcia, respiração lenta e tranquila. Ele ficou parado por alguns instantes na soleira, observando-as, antes de apagar a luz.
No corredor escuro, suspirou. O peso do dia caía sobre os ombros, mas era outro tipo de peso que o incomodava mais. O reencontro.
Foi até a sala, serviu-se de um copo de vinho barato e se jogou no sofá. A lembrança de vinha como um flash insistente: o jeito que ela mexia no cabelo, o sorriso nervoso, o brilho nos olhos ao falar do marido.
— … — murmurou em voz baixa, como se o nome tivesse gosto amargo.
Não era inveja. Não era ódio. Era saudade. Saudade de algo que talvez nunca tivesse sido realmente dele.
apoiou a cabeça no encosto e fechou os olhos. A mente o arrastou de volta para a adolescência: rindo com as mãos sujas de tinta depois de pintar uma faixa para o colégio, os beijos roubados atrás da quadra, a promessa ingênua de que ficariam juntos para sempre. Ele não pôde cumprir. E ela, pelo jeito, encontrou alguém que cumpriu por ele.
— Você está feliz, Gabi. — sussurrou, como se falasse com ela, mesmo sozinho. — E eu… eu estou tentando ficar.
O silêncio da casa respondeu. Ele olhou para o porta-retratos sobre a estante: uma foto dele com as meninas, sorrindo na praia. A lembrança da dor do divórcio ainda era recente, mas aquelas duas pequenas eram sua âncora.
E, ainda assim, por mais que tentasse, não conseguia apagar a sensação de que, ao reencontrar , uma parte dele havia acordado de novo.
passou a mão pelos cabelos, cansado.
— Amigos. Só amigos. — repetiu, como um mantra. Mas no fundo sabia que não seria tão simples.
O sol da tarde iluminava o pátio da escola, onde pais aguardavam os filhos saírem das aulas. estava encostada na grade, segurando uma sacola com alguns materiais que tinha passado para deixar ali. Ela não tinha filhos, mas estava ajudando uma amiga a buscar os sobrinhos naquele dia.
Foi então que ouviu risadinhas atrás dela. Duas meninas pequenas corriam pelo portão, os cabelos soltos balançando ao vento. Atrás delas, com o semblante cansado mas atento, vinha .
— Devagar, meninas! — ele chamou, com aquela autoridade suave de pai.
congelou por um instante. Não esperava vê-lo ali, tão de repente, ainda mais nesse papel que ela nunca tinha imaginado: o de pai.
— ? — sorriu, surpreso ao reconhecê-la. — De novo…
— É, o destino anda pregando peças — ela respondeu, rindo de leve, embora sentisse o coração acelerar.
As meninas se aproximaram, curiosas.
— Pai, quem é? — perguntou a mais velha, escondendo-se parcialmente atrás da perna dele.
olhou para , um pouco sem graça.
— Essa é a … uma amiga do papai, de muito tempo atrás.
se agachou, olhando para as duas com ternura.
— Prazer em conhecer vocês. Vocês têm o sorriso do pai.
As meninas riram, tímidas, e logo se distraíram com outras crianças. suspirou, ajeitando a mochila delas.
— Elas são minha vida agora. Às vezes penso que são o que me mantém de pé.
observou o jeito cuidadoso com que ele ajeitava os cabelos da menor, a paciência nos gestos, e sentiu algo apertar em seu peito. O garoto impetuoso que ela conhecera tinha dado lugar a um homem transformado.
— Elas têm sorte de ter você. — disse com sinceridade.
a olhou, por um instante, em silêncio. E aquele olhar dizia coisas que palavras não ousariam. Mas, logo, ele desviou, chamando as filhas.
— Vamos, meninas, precisamos ir.
Antes de se despedirem, hesitou.
— … talvez… a gente pudesse marcar um café qualquer dia. Só pra conversar melhor.
Ela respirou fundo, tentando ignorar o friozinho que voltou a tomar conta de seu estômago.
— Podemos, sim. Mas só como amigos, .
Ele sorriu, meio melancólico, meio grato.
— Amigos. Eu prometo.
Enquanto ele se afastava com as filhas, ficou ali, imóvel, observando a cena. E percebeu que, por mais que tivesse certeza de seu presente com , o passado insistia em bater à porta de maneiras que ela não conseguia controlar.
A cafeteria estava quase vazia naquela manhã de sábado. O som suave do jazz preenchia o ambiente, misturando-se ao aroma de grãos recém-moídos. chegou primeiro, escolhendo uma mesa próxima à janela. A cada segundo que passava, sentia o coração bater mais rápido, como se fosse a adolescente de antes, esperando o primeiro encontro proibido.
Quando entrou, por um instante, tudo voltou: a forma como ele passava a mão pelos cabelos, o jeito de procurar alguém no meio do lugar, a insegurança disfarçada em um sorriso. Mas havia algo novo também — os ombros mais pesados, o olhar marcado por experiências que ela não conhecia.
— Gabi… — ele disse, ao se aproximar. — Obrigado por ter vindo.
— Claro. — ela respondeu, com um sorriso breve, enquanto o friozinho no estômago se espalhava. — É bom… conversar de novo.
Sentaram-se. O silêncio inicial foi quebrado pelo garçom trazendo os cafés. mexia distraidamente no açúcar, enquanto a observava, como quem tentava guardar cada detalhe.
— Você mudou tanto… — ele começou, quase em voz baixa. — Mas ainda reconheço você em cada gesto.
Ela desviou o olhar para a janela, respirando fundo.
— O tempo muda todo mundo, . E, de certa forma, ainda bem que muda.
Ele riu de leve, mas o sorriso carregava melancolia.
— Eu pensei em você tantas vezes, sabia? Mesmo casado… mesmo em outra vida. Você sempre foi uma lembrança viva.
sentiu o peito apertar. Parte dela queria ouvir aquilo; a outra parte queria que ele não tivesse dito.
— Eu também pensei em você. Mas… a vida seguiu. Eu encontrei o , e ele me deu tudo o que eu sempre quis: estabilidade, amor, paz.
ficou em silêncio por alguns segundos, antes de apoiar os braços sobre a mesa. — Eu não vim aqui para atrapalhar isso, Gabi. Só queria… entender se ainda havia um espaço, nem que fosse pequeno, para a gente se reencontrar como amigos.
Ela finalmente o encarou. E naquele olhar, viu o garoto que um dia a fez acreditar em para sempre, mas também o homem que agora buscava um recomeço.
— Há espaço, sim. — respondeu com firmeza. — Mas apenas para a amizade, . Eu não posso — e não quero — abrir mão do que tenho hoje.
Ele assentiu, aceitando, mas os olhos diziam outra coisa: um desejo calado, uma saudade que não se apagava.
— Então que seja amizade. — disse, tentando sorrir. — Talvez seja isso que nos restava desde o início.
apertou a xícara entre as mãos, sentindo o calor do café contrastar com o friozinho no estômago. Sabia que não seria simples. Nunca era.
A cafeteria estava quase vazia naquela manhã de sábado. O som suave do jazz preenchia o ambiente, misturando-se ao aroma de grãos recém-moídos. chegou primeiro, escolhendo uma mesa próxima à janela. A cada segundo que passava, sentia o coração bater mais rápido, como se fosse a adolescente de antes, esperando o primeiro encontro proibido.
Quando entrou, por um instante, tudo voltou: a forma como ele passava a mão pelos cabelos, o jeito de procurar alguém no meio do lugar, a insegurança disfarçada em um sorriso. Mas havia algo novo também — os ombros mais pesados, o olhar marcado por experiências que ela não conhecia.
— Gabi… — ele disse, ao se aproximar. — Obrigado por ter vindo.
— Claro. — ela respondeu, com um sorriso breve, enquanto o friozinho no estômago se espalhava. — É bom… conversar de novo.
Sentaram-se. O silêncio inicial foi quebrado pelo garçom trazendo os cafés. mexia distraidamente no açúcar, enquanto a observava, como quem tentava guardar cada detalhe.
— Você mudou tanto… — ele começou, quase em voz baixa. — Mas ainda reconheço você em cada gesto.
Ela desviou o olhar para a janela, respirando fundo.
— O tempo muda todo mundo, . E, de certa forma, ainda bem que muda.
Ele riu de leve, mas o sorriso carregava melancolia.
— Eu pensei em você tantas vezes, sabia? Mesmo casado… mesmo em outra vida. Você sempre foi uma lembrança viva.
sentiu o peito apertar. Parte dela queria ouvir aquilo; a outra parte queria que ele não tivesse dito.
— Eu também pensei em você. Mas… a vida seguiu. Eu encontrei o , e ele me deu tudo o que eu sempre quis: estabilidade, amor, paz.
ficou em silêncio por alguns segundos, antes de apoiar os braços sobre a mesa. — Eu não vim aqui para atrapalhar isso, Gabi. Só queria… entender se ainda havia um espaço, nem que fosse pequeno, para a gente se reencontrar como amigos.
Ela finalmente o encarou. E naquele olhar, viu o garoto que um dia a fez acreditar em para sempre, mas também o homem que agora buscava um recomeço.
— Há espaço, sim. — respondeu com firmeza. — Mas apenas para a amizade, . Eu não posso — e não quero — abrir mão do que tenho hoje.
Ele assentiu, aceitando, mas os olhos diziam outra coisa: um desejo calado, uma saudade que não se apagava.
— Então que seja amizade. — disse, tentando sorrir. — Talvez seja isso que nos restava desde o início.
apertou a xícara entre as mãos, sentindo o calor do café contrastar com o friozinho no estômago. Sabia que não seria simples. Nunca era.
inspirou fundo, como quem precisava de fôlego para encerrar de vez um capítulo. Olhou para e sorriu, um sorriso leve, mas firme.
— Você sempre vai ser importante pra mim — disse, deixando claro que era um afeto real, mas que já tinha limites. — Mas meu lugar… é com ele. E eu não vou abrir mão disso.
segurou o olhar dela por alguns segundos, sério, mas acabou assentindo. Não havia mais nada a ser dito. Eles entendiam o que aquilo significava.
De volta para casa, quando o marido a recebeu com um abraço apertado, soube que estava onde precisava estar. O coração dela não era mais dividido, mas inteiro, entregue à escolha que fez.
ficaria como lembrança de um “e se” que nunca mais teria espaço. O futuro, no entanto, estava bem ali, ao alcance das mãos que agora seguravam as dela.
Enquanto esperava seu pedido, ouviu uma voz atrás dela.
Grave. Familiar.
— Desculpa, você está na fila?
O coração dela perdeu o compasso por um segundo. Virou-se lentamente, e lá estava ele. O tempo tinha deixado marcas: alguns fios grisalhos, o olhar mais sério, ombros mais pesados. Mas era ele. O mesmo sorriso que um dia a fez acreditar que o mundo cabia inteiro num beijo.
— Não acredito… — ela murmurou, surpresa, quase sem voz.
Ele sorriu, sem esconder o mesmo impacto.
— Eu também não. Achei que você já tivesse se mudado daqui.
Ela engoliu em seco, tentando recuperar o controle. As lembranças vieram como uma onda repentina: tardes na praça, risadas abafadas para não chamar atenção dos pais, promessas de um “pra sempre” que nunca aconteceu.
— Não… eu fiquei. — respondeu, ajeitando a aliança no dedo, quase como um reflexo. — E você… voltou?
Ele assentiu, e o olhar dele suavizou.
— Voltei. Com as meninas. Precisava recomeçar.
O barulho da máquina de café quebrou o silêncio entre eles, mas o friozinho no estômago permaneceu. Ela sorriu, um sorriso nervoso, e percebeu que o tempo havia mudado tudo… e, ao mesmo tempo, nada.
Ela recebeu o café das mãos da atendente e, por um instante, pensou em se despedir ali mesmo. Seria mais fácil, mais seguro. Mas quando ele perguntou, com um sorriso tímido:
— Posso me sentar com você?
Ela apenas assentiu.
Foram para uma mesa perto da janela, onde a luz do fim de tarde entrava suave. Ela mexia distraidamente no açúcar do café, tentando controlar a ansiedade. Ele, por outro lado, a observava como quem tentava reconhecer traços de alguém que já conheceu tão bem.
— Você está… diferente. — ele disse, por fim. — Mas de um jeito bom.
Ela riu de leve, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Você também. Mais… adulto, talvez.
— Culpa da vida. — respondeu, suspirando. — O casamento, as meninas, o divórcio… tudo isso me mudou.
O silêncio pairou por alguns segundos. Ela queria perguntar tantas coisas, mas temia parecer interessada demais. O coração batia rápido, como se tivesse dezessete anos outra vez.
— E você? — ele retomou, com um brilho curioso no olhar. — Está bem?
Ela olhou para a aliança, depois sorriu.
— Estou. Casei… e posso dizer que encontrei o amor da minha vida.
Ele assentiu, e o sorriso que deu foi sincero, mas havia uma sombra escondida ali. — Fico feliz por você. De verdade.
E, ainda assim, o friozinho insistia em ficar. Porque algumas pessoas, por mais que o tempo passe, sempre carregam consigo um pedaço de nós.
O som de passos apressados na calçada chamou a atenção dela. Virou-se e, antes que pudesse reagir, viu o marido sorridente entrando na cafeteria. Ele sempre tinha aquele jeito leve, que fazia o mundo parecer mais tranquilo só por estar por perto.
— Ei, amor! — chamou ele, a voz carregada de carinho. — Pronta para irmos?
Ela sentiu o peito se aquecer. O sorriso dele era diferente, mais profundo, cheio de certezas que só o tempo e o amor construíram. Ela se levantou, agradecendo discretamente ao ex com um aceno.
— Esse é… meu marido — disse, apresentando-o.
O ex olhou, surpreso, e depois sorriu, sincero.
— Prazer em conhecê-lo. Parece que ela fez boas escolhas.
O marido dela apertou a mão dele, firme e seguro.
— É verdade. E parece que você também tem suas responsabilidades. — um leve aceno à menção das filhas.
Enquanto se despediam, ela percebeu que o friozinho no estômago ainda estava lá, mas diferente: misturado à gratidão por ter alguém como o marido, alguém que era presença constante, alguém que a amava de verdade.
— Até mais, então. — o ex disse, com um último olhar que dizia mais do que palavras poderiam expressar.
Ela sorriu, sentindo um misto de nostalgia e alívio. O passado tinha voltado para visitá-la, mas o presente — sólido, seguro e cheio de amor — continuava firme, como sempre deveria estar.
Alguns dias depois, caminhava pelo parque do bairro, distraída com o barulho das folhas sob os pés e o aroma das flores de primavera. Ela mal sabia que aquela caminhada traria o passado de volta de forma inesperada.
— ? — chamou uma voz familiar, quase hesitante.
Ela congelou por um instante. Lá estava , encostado na cerca do parque, segurando a mochila das filhas. Ele parecia cansado, mas havia algo no olhar dele que a desarmava instantaneamente: a mesma intensidade de quando eram adolescentes.
— … — murmurou ela, surpresa, mas tentando manter a calma.
Ele sorriu, meio tímido, meio nervoso.
— Posso caminhar com você?
Ela hesitou, mas acabou assentindo. E assim, começaram a andar lado a lado, cada passo trazendo lembranças que pareciam ter sido guardadas apenas para aquele momento.
— Então… como está a vida? — perguntou ela, tentando soar casual.
— Difícil, às vezes. Mas minhas meninas me mantêm firme. E você? — ele desviou o olhar por um segundo, com um sorriso triste. — está bem?
sentiu um calor no peito. O simples fato de se lembrar de seu marido a fez perceber o quanto a vida os tinha moldado.
— Sim, estamos bem. Ele é… incrível. — respondeu, com sinceridade. — Eu sou muito feliz com ele.
assentiu, respirando fundo.
— Fico feliz por você, de verdade. Sempre quis que você fosse feliz. — Uma pausa. — E eu… bem, eu queria que tivéssemos a chance de conversar, sabe, como adultos. Sem aquele turbilhão de sentimentos de adolescentes.
Ela sentiu o coração acelerar, mas também uma certeza firme: o que tinham era passado, doce, intenso, mas passado.
— Podemos conversar, sim. Mas só como amigos. Preciso que isso fique claro. — disse, olhando nos olhos dele.
sorriu, mas havia uma ponta de melancolia.
— Claro, . Amigos. Mas… não posso negar que ainda sinto aquele friozinho quando te vejo. — ele disse, meio em voz baixa, como se confessasse um segredo.
Ela respirou fundo, segurando a mão dela própria para não tocar na dele. — Eu também… mas precisamos respeitar o presente. é meu agora, e ele me faz sentir segura, amada de verdade.
assentiu, concordando silenciosamente.
— Eu entendo. Sempre entendi. E quero que seja feliz. Só espero que possamos rir, lembrar e… apoiar um ao outro, sem que isso complique nossas vidas.
sorriu, sentindo um misto de alívio e ternura. — Podemos, . Podemos.
Enquanto continuavam a caminhada, o passado e o presente se misturavam de forma delicada. O friozinho no estômago permanecia, mas agora acompanhado de uma serenidade que vinha de escolhas conscientes, de amor maduro e de respeito por tudo que construíram.
e caminhavam em silêncio quando ouviram uma voz chamando seu nome.
— Gabi!
Ela virou-se de imediato. vinha se aproximando pelo caminho do parque, sorrindo largo, como sempre fazia quando a via. O coração dela se apertou — por um lado, era o conforto absoluto de estar com o homem que amava; por outro, a estranha sensação de ter o passado e o presente colidindo ali, no mesmo espaço.
— Amor… — ela disse, forçando um sorriso natural. — Não sabia que você vinha.
a abraçou, deixando um beijo rápido em sua testa, antes de notar a presença de . O sorriso dele não se desfez, mas seus olhos se estreitaram de leve.
— Você deve ser o , certo? — perguntou, estendendo a mão com firmeza.
— Sou, sim. — respondeu, correspondendo ao aperto de mão. — Prazer em te conhecer.
Houve um breve silêncio, carregado de algo que só parecia sentir. Ela olhava para os dois homens, tão diferentes, mas de certa forma igualmente importantes em partes distintas da sua vida.
— Estávamos só conversando, colocando um pouco do passado em ordem. — disse, apressada, como se precisasse justificar a cena.
sorriu, tranquilo.
— Faz bem. É sempre bom reencontrar pessoas que fizeram parte da nossa história.
assentiu, mas o olhar dele se demorou por um instante a mais em . — É verdade. O passado nunca some de verdade.
sentiu o friozinho na barriga outra vez, mas ao segurar a mão de , encontrou a segurança de que precisava. O presente estava ali, sólido, estável, olhando para ela com amor incondicional.
— Bom, preciso ir buscar as meninas. — disse, com um sorriso educado. — A gente se vê por aí, .
— Claro, . Até mais. — respondeu ela, com um aceno discreto.
Assim que ele se afastou, voltou o olhar para ela. Não havia desconfiança explícita, apenas curiosidade.
— Você está bem?
respirou fundo, sorrindo.
— Estou. — respondeu, mesmo que seu coração ainda estivesse em turbilhão. — Estou exatamente onde deveria estar.
E ao entrelaçar os dedos aos dele, soube que era verdade. O friozinho do passado ainda existia, mas o amor do presente era maior, mais profundo.
A casa estava silenciosa naquela noite. O jantar tinha sido simples, regado a conversas leves sobre o trabalho de e pequenas histórias do dia a dia. Mas, por trás do sorriso de , havia um redemoinho que ela tentava esconder.
Ela estava no quarto, sentada na beira da cama, passando creme nas mãos, quando sentiu o colchão afundar ao lado. se aproximou, colocando um braço sobre seus ombros com aquele gesto tão natural, tão dele.
— Você ficou quieta hoje — disse ele, a voz baixa, suave. — Está cansada?
hesitou, mordendo o lábio inferior. Pensou em dizer “sim” e encerrar ali, mas sabia que a conhecia bem demais para aceitar uma resposta tão simples.
— Eu encontrei o hoje. — confessou, finalmente. — Ele estava no parque, com as filhas.
ficou em silêncio por alguns segundos. Não havia raiva no olhar dele, nem desconfiança, apenas atenção.
— E como foi?
respirou fundo, apoiando a cabeça no ombro dele.
— Estranho. Familiar. Eu não sei explicar… foi como se uma parte da adolescente que eu fui tivesse despertado de repente.
riu de leve, apertando a mão dela.
— É normal. Algumas pessoas deixam marcas que o tempo não apaga.
Ela o olhou, surpresa.
— Você não fica incomodado?
— Não. — ele respondeu com firmeza, mas sem arrogância. — Porque eu sei quem você é hoje. Sei o que temos, sei o que construímos juntos. E… sei que me ama.
As palavras dele a desmontaram. Uma onda de emoção a percorreu, porque era verdade: o friozinho que despertava não se comparava à solidez, ao amor profundo que oferecia todos os dias.
sorriu, sentindo os olhos arderem.
— Eu te amo tanto, .
Ele acariciou o rosto dela, aproximando-se para um beijo suave, daqueles que não precisavam de pressa ou intensidade para provar alguma coisa. Era apenas amor, puro e presente.
E, naquela noite, deitada ao lado dele, percebeu que o passado poderia até bater à porta… mas o futuro dela já tinha nome, voz e braços nos quais sempre quis descansar.
A casa estava mergulhada em silêncio quando fechou a porta do quarto das filhas. As duas já estavam dormindo, abraçadas a seus bichinhos de pelúcia, respiração lenta e tranquila. Ele ficou parado por alguns instantes na soleira, observando-as, antes de apagar a luz.
No corredor escuro, suspirou. O peso do dia caía sobre os ombros, mas era outro tipo de peso que o incomodava mais. O reencontro.
Foi até a sala, serviu-se de um copo de vinho barato e se jogou no sofá. A lembrança de vinha como um flash insistente: o jeito que ela mexia no cabelo, o sorriso nervoso, o brilho nos olhos ao falar do marido.
— … — murmurou em voz baixa, como se o nome tivesse gosto amargo.
Não era inveja. Não era ódio. Era saudade. Saudade de algo que talvez nunca tivesse sido realmente dele.
apoiou a cabeça no encosto e fechou os olhos. A mente o arrastou de volta para a adolescência: rindo com as mãos sujas de tinta depois de pintar uma faixa para o colégio, os beijos roubados atrás da quadra, a promessa ingênua de que ficariam juntos para sempre. Ele não pôde cumprir. E ela, pelo jeito, encontrou alguém que cumpriu por ele.
— Você está feliz, Gabi. — sussurrou, como se falasse com ela, mesmo sozinho. — E eu… eu estou tentando ficar.
O silêncio da casa respondeu. Ele olhou para o porta-retratos sobre a estante: uma foto dele com as meninas, sorrindo na praia. A lembrança da dor do divórcio ainda era recente, mas aquelas duas pequenas eram sua âncora.
E, ainda assim, por mais que tentasse, não conseguia apagar a sensação de que, ao reencontrar , uma parte dele havia acordado de novo.
passou a mão pelos cabelos, cansado.
— Amigos. Só amigos. — repetiu, como um mantra. Mas no fundo sabia que não seria tão simples.
O sol da tarde iluminava o pátio da escola, onde pais aguardavam os filhos saírem das aulas. estava encostada na grade, segurando uma sacola com alguns materiais que tinha passado para deixar ali. Ela não tinha filhos, mas estava ajudando uma amiga a buscar os sobrinhos naquele dia.
Foi então que ouviu risadinhas atrás dela. Duas meninas pequenas corriam pelo portão, os cabelos soltos balançando ao vento. Atrás delas, com o semblante cansado mas atento, vinha .
— Devagar, meninas! — ele chamou, com aquela autoridade suave de pai.
congelou por um instante. Não esperava vê-lo ali, tão de repente, ainda mais nesse papel que ela nunca tinha imaginado: o de pai.
— ? — sorriu, surpreso ao reconhecê-la. — De novo…
— É, o destino anda pregando peças — ela respondeu, rindo de leve, embora sentisse o coração acelerar.
As meninas se aproximaram, curiosas.
— Pai, quem é? — perguntou a mais velha, escondendo-se parcialmente atrás da perna dele.
olhou para , um pouco sem graça.
— Essa é a … uma amiga do papai, de muito tempo atrás.
se agachou, olhando para as duas com ternura.
— Prazer em conhecer vocês. Vocês têm o sorriso do pai.
As meninas riram, tímidas, e logo se distraíram com outras crianças. suspirou, ajeitando a mochila delas.
— Elas são minha vida agora. Às vezes penso que são o que me mantém de pé.
observou o jeito cuidadoso com que ele ajeitava os cabelos da menor, a paciência nos gestos, e sentiu algo apertar em seu peito. O garoto impetuoso que ela conhecera tinha dado lugar a um homem transformado.
— Elas têm sorte de ter você. — disse com sinceridade.
a olhou, por um instante, em silêncio. E aquele olhar dizia coisas que palavras não ousariam. Mas, logo, ele desviou, chamando as filhas.
— Vamos, meninas, precisamos ir.
Antes de se despedirem, hesitou.
— … talvez… a gente pudesse marcar um café qualquer dia. Só pra conversar melhor.
Ela respirou fundo, tentando ignorar o friozinho que voltou a tomar conta de seu estômago.
— Podemos, sim. Mas só como amigos, .
Ele sorriu, meio melancólico, meio grato.
— Amigos. Eu prometo.
Enquanto ele se afastava com as filhas, ficou ali, imóvel, observando a cena. E percebeu que, por mais que tivesse certeza de seu presente com , o passado insistia em bater à porta de maneiras que ela não conseguia controlar.
A cafeteria estava quase vazia naquela manhã de sábado. O som suave do jazz preenchia o ambiente, misturando-se ao aroma de grãos recém-moídos. chegou primeiro, escolhendo uma mesa próxima à janela. A cada segundo que passava, sentia o coração bater mais rápido, como se fosse a adolescente de antes, esperando o primeiro encontro proibido.
Quando entrou, por um instante, tudo voltou: a forma como ele passava a mão pelos cabelos, o jeito de procurar alguém no meio do lugar, a insegurança disfarçada em um sorriso. Mas havia algo novo também — os ombros mais pesados, o olhar marcado por experiências que ela não conhecia.
— Gabi… — ele disse, ao se aproximar. — Obrigado por ter vindo.
— Claro. — ela respondeu, com um sorriso breve, enquanto o friozinho no estômago se espalhava. — É bom… conversar de novo.
Sentaram-se. O silêncio inicial foi quebrado pelo garçom trazendo os cafés. mexia distraidamente no açúcar, enquanto a observava, como quem tentava guardar cada detalhe.
— Você mudou tanto… — ele começou, quase em voz baixa. — Mas ainda reconheço você em cada gesto.
Ela desviou o olhar para a janela, respirando fundo.
— O tempo muda todo mundo, . E, de certa forma, ainda bem que muda.
Ele riu de leve, mas o sorriso carregava melancolia.
— Eu pensei em você tantas vezes, sabia? Mesmo casado… mesmo em outra vida. Você sempre foi uma lembrança viva.
sentiu o peito apertar. Parte dela queria ouvir aquilo; a outra parte queria que ele não tivesse dito.
— Eu também pensei em você. Mas… a vida seguiu. Eu encontrei o , e ele me deu tudo o que eu sempre quis: estabilidade, amor, paz.
ficou em silêncio por alguns segundos, antes de apoiar os braços sobre a mesa. — Eu não vim aqui para atrapalhar isso, Gabi. Só queria… entender se ainda havia um espaço, nem que fosse pequeno, para a gente se reencontrar como amigos.
Ela finalmente o encarou. E naquele olhar, viu o garoto que um dia a fez acreditar em para sempre, mas também o homem que agora buscava um recomeço.
— Há espaço, sim. — respondeu com firmeza. — Mas apenas para a amizade, . Eu não posso — e não quero — abrir mão do que tenho hoje.
Ele assentiu, aceitando, mas os olhos diziam outra coisa: um desejo calado, uma saudade que não se apagava.
— Então que seja amizade. — disse, tentando sorrir. — Talvez seja isso que nos restava desde o início.
apertou a xícara entre as mãos, sentindo o calor do café contrastar com o friozinho no estômago. Sabia que não seria simples. Nunca era.
A cafeteria estava quase vazia naquela manhã de sábado. O som suave do jazz preenchia o ambiente, misturando-se ao aroma de grãos recém-moídos. chegou primeiro, escolhendo uma mesa próxima à janela. A cada segundo que passava, sentia o coração bater mais rápido, como se fosse a adolescente de antes, esperando o primeiro encontro proibido.
Quando entrou, por um instante, tudo voltou: a forma como ele passava a mão pelos cabelos, o jeito de procurar alguém no meio do lugar, a insegurança disfarçada em um sorriso. Mas havia algo novo também — os ombros mais pesados, o olhar marcado por experiências que ela não conhecia.
— Gabi… — ele disse, ao se aproximar. — Obrigado por ter vindo.
— Claro. — ela respondeu, com um sorriso breve, enquanto o friozinho no estômago se espalhava. — É bom… conversar de novo.
Sentaram-se. O silêncio inicial foi quebrado pelo garçom trazendo os cafés. mexia distraidamente no açúcar, enquanto a observava, como quem tentava guardar cada detalhe.
— Você mudou tanto… — ele começou, quase em voz baixa. — Mas ainda reconheço você em cada gesto.
Ela desviou o olhar para a janela, respirando fundo.
— O tempo muda todo mundo, . E, de certa forma, ainda bem que muda.
Ele riu de leve, mas o sorriso carregava melancolia.
— Eu pensei em você tantas vezes, sabia? Mesmo casado… mesmo em outra vida. Você sempre foi uma lembrança viva.
sentiu o peito apertar. Parte dela queria ouvir aquilo; a outra parte queria que ele não tivesse dito.
— Eu também pensei em você. Mas… a vida seguiu. Eu encontrei o , e ele me deu tudo o que eu sempre quis: estabilidade, amor, paz.
ficou em silêncio por alguns segundos, antes de apoiar os braços sobre a mesa. — Eu não vim aqui para atrapalhar isso, Gabi. Só queria… entender se ainda havia um espaço, nem que fosse pequeno, para a gente se reencontrar como amigos.
Ela finalmente o encarou. E naquele olhar, viu o garoto que um dia a fez acreditar em para sempre, mas também o homem que agora buscava um recomeço.
— Há espaço, sim. — respondeu com firmeza. — Mas apenas para a amizade, . Eu não posso — e não quero — abrir mão do que tenho hoje.
Ele assentiu, aceitando, mas os olhos diziam outra coisa: um desejo calado, uma saudade que não se apagava.
— Então que seja amizade. — disse, tentando sorrir. — Talvez seja isso que nos restava desde o início.
apertou a xícara entre as mãos, sentindo o calor do café contrastar com o friozinho no estômago. Sabia que não seria simples. Nunca era.
inspirou fundo, como quem precisava de fôlego para encerrar de vez um capítulo. Olhou para e sorriu, um sorriso leve, mas firme.
— Você sempre vai ser importante pra mim — disse, deixando claro que era um afeto real, mas que já tinha limites. — Mas meu lugar… é com ele. E eu não vou abrir mão disso.
segurou o olhar dela por alguns segundos, sério, mas acabou assentindo. Não havia mais nada a ser dito. Eles entendiam o que aquilo significava.
De volta para casa, quando o marido a recebeu com um abraço apertado, soube que estava onde precisava estar. O coração dela não era mais dividido, mas inteiro, entregue à escolha que fez.
ficaria como lembrança de um “e se” que nunca mais teria espaço. O futuro, no entanto, estava bem ali, ao alcance das mãos que agora seguravam as dela.
Fim
Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? Eu tive a ideia desse plot ha mais de um ano, indo para o show dos jonas brothers, 15 anos depois de ter ido a primeira vez, finalmente a lili cantou pra esse plot kkkkkkk. Espero que goste e não esquece de comentar, ok?
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.
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