Capítulo Único
OOs gritos ensurdecedores ecoavam pelo estádio como um mar de ondas impiedosas. Cada luz que piscava, cada câmera que se movia, cada fã que chorava, vibrava ou tremia por ele — era mais uma camada invisível de peso esmagando os ombros de Jaebeom.
O palco era enorme, sim, mas ele se sentia preso nele. Como se cada metro quadrado empurrasse suas costelas, exigindo mais, sugando mais.
A batida da música pulsava forte no peito, ritmada como um lembrete cruel: Sorria. Performe. Resista.
À sua frente, os outros membros estavam perfeitamente alinhados, as coreografias milimetricamente ensaiadas. Ele se movia junto, os músculos obedecendo por instinto, enquanto a mente escapava por uma rachadura invisível, como fumaça que não se deixa conter.
Os olhos de Jaebeom pareciam fixos em algum ponto da arquibancada, mas, por dentro, ele via além. Muito além.
Havia algo errado naquela noite.
Não com o show. Não com o público. Errado nele. No centro do seu peito, algo vibrava com uma frequência estranha — como um acorde dissonante numa sinfonia perfeita.
E foi no instante em que a fumaça artificial tomou o palco que tudo começou a ruir.
Em um piscar de olhos, o calor abrasador das luzes deu lugar a um frio cortante que lambeu sua pele como gelo líquido. O som desapareceu. O rugido da multidão foi engolido por um silêncio absoluto, quase violento.
Ele piscou.
E não estava mais ali.
O chão ainda era sólido sob seus pés, mas o mundo ao redor… não era mais o mesmo. O palco sumira. O estádio também. Em seu lugar, ruínas. Um cenário pós-apocalíptico. O céu era um teto baixo de nuvens cinzentas, pesadas, e uma fina neve caía em flocos preguiçosos — como poeira de uma era extinta.
A Seul vibrante de poucos segundos atrás havia sido engolida por uma versão fantasma. A mesma cidade. O mesmo mapa. Mas sem cor. Sem voz. Sem alma.
Ele inspirou fundo — e o ar cortou os pulmões como se respirasse cacos de vidro.
O uniforme reluzente havia desaparecido. Agora usava uma jaqueta gasta, botas pesadas, calças térmicas encardidas de gelo. Os dedos estavam roxos, dormentes. Por um instante, confuso, ele se perguntou:
Qual das duas realidades é o sonho?
Ele conhecia aquele lugar. Já estivera ali antes.
Mais de uma vez.
Seul, a cidade que nunca dormia, agora parecia à beira de um sono eterno.
Jaebeom começou a andar entre os escombros. Os pés afundavam na neve suja que cobria antigas avenidas. Letreiros caídos. Prédios rachados. Carros abandonados, congelados no tempo. Um cartaz com o próprio rosto ainda balançava numa parede quebrada — como uma lembrança fantasmagórica de que o passado existiu… mas não importava mais.
Foi então que viu.
Perto da entrada semi-enterrada de uma estação de metrô, havia algo.
Ou alguém.
Um vulto pequeno. Imóvel. Observando.
Uma criança.
Jaebeom estacou. O coração falhou uma batida.
A menina tinha os cabelos longos, embaraçados, e usava uma jaqueta tão larga que quase tocava os tornozelos. Os olhos, escuros e intensos, estavam cravados nele — como se o conhecessem profundamente.
Mas ele… nunca a tinha visto.
Ou… já tinha?
A garotinha inclinou a cabeça de leve, sem sorrir.
E então, correu.
Sem pensar, Jaebeom foi atrás.
As batidas do coração aceleraram, ecoando no silêncio como tambores de guerra. A neve parecia mais densa, mais alta, como se ganhasse peso de propósito para impedi-lo de alcançá-la. Mas ele continuou. Algo dentro dele — mais forte que o medo, mais real que qualquer música — gritava que ele precisava encontrá-la.
Virou a esquina de uma viela estreita.
Vazia.
Só havia uma parede parcialmente destruída… e algo no chão.
Um pedaço de pano. Sujo, rasgado. Com um símbolo costurado à mão.
Ele se agachou, tocando o tecido com dedos trêmulos.
Reconheceu o símbolo antes mesmo de processar a imagem: o logo da antiga agência.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Fechou os olhos.
Quando os abriu… o frio se fora.
As luzes do palco explodiram em sua vista. O som retornou como uma avalanche: batidas, gritos, vozes. Estava de volta. Suado. Ofegante. Tremendo.
Ao redor, os membros ainda dançavam, ainda cantavam.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas algo tinha acontecido.
E alguém tinha visto.
Atrás de uma das câmeras, escondido na sombra da estrutura de gravação, havia um par de olhos atentos. Fixos nele.
Jaebeom engoliu seco, o coração ainda aos pulos.
Sabia.
Aquilo não tinha sido um delírio.
A fresta entre os mundos se abrira.
E agora… ela não queria mais se fechar.
❄️❄️❄️
O camarim fervilhava de vozes, passos, risadas e instruções, mas nenhuma delas parecia realmente alcançar JayB. Era como se ele estivesse imerso em um vidro grosso, onde tudo do lado de fora soava abafado, longe, irrelevante.
— Jaebeom, tá ouvindo? — Jackson ergueu uma garrafa de água e a sacudiu diante dele, os olhos cheios de preocupação. — Você tá suando como se tivesse corrido uma maratona.
JayB piscou. Ainda fixava o próprio reflexo no espelho à frente, mas algo nele estava errado. O rosto que encarava de volta parecia... deslocado. Como se pertencesse a outro homem, de outro tempo.
Ele ainda sentia o frio. O frio daquela Seul quebrada. Não só na pele — nos ossos. Como uma lembrança que não queria deixá-lo voltar completamente.
— Só cansei um pouco — murmurou, pegando a garrafa da mão de Jackson.
— Tá com aquela cara de "quero sumir" — Mark disse, largado no sofá, os pés sujos de dança apoiados na mesa como se o mundo não estivesse prestes a ruir. — Foi o setlist ou foi... aquilo?
O silêncio que se seguiu não foi casual. Foi denso. Intencional. Jackson franziu a testa.
JayB ergueu os olhos e encarou o espelho — mas era como olhar através dele. Os outros sabiam. Não tudo. Mas sabiam o suficiente para reconhecer a névoa em volta dele.
Eles também já tinham estado lá.
— Foi diferente dessa vez — disse ele, num tom baixo, como se ainda estivesse falando com o outro mundo. — Ela tava lá. Uma menina. Me viu. Me deixou algo. Não foi como antes.
— Você trouxe alguma coisa? — A voz de Yugyeom se sobrepôs às outras. Séria. Atenta. Ele podia ser o mais novo do grupo, mas era o que melhor sentia as rachaduras entre as realidades. Já havia passado por elas — e deixado partes de si lá.
JayB enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou o pedaço de pano. Ainda úmido. Sujo de neve e pó de concreto. O símbolo da antiga agência costurado à mão, em linhas vermelhas como sangue seco.
Ele o colocou sobre a mesa com cuidado. Como se fosse um artefato sagrado. Ou uma maldição.
O silêncio retornou, ainda mais espesso que antes. O tipo de silêncio que não é ausência de som, mas presença de algo invisível.
— Isso não devia ter vindo com você — Jinyoung quebrou, finalmente, a barreira. Sua voz era firme, mas os olhos… estavam escuros. — Os objetos nunca atravessam. Só nós. Isso... muda tudo.
Um calafrio percorreu a espinha de JayB. A fresta que se abrira não era mais apenas uma passagem. Era uma ponte. Ou pior: uma porta que agora rangia em ambos os sentidos.
— Talvez seja um aviso — murmurou, fechando os dedos ao redor do tecido, como se pudesse evitar que ele desaparecesse. — Ou um convite.
— Ou um jogo que a gente não entende. E a gente é a peça. — Jackson bufou, empurrando a franja para trás com uma expressão de incredulidade.
O ar ficou mais pesado. Todos sabiam que ele tinha razão, mas ninguém queria admitir.
Foi quando a porta do camarim se abriu com um estalo, interrompendo o peso do silêncio.
— Jaebeom-ssi — a gerente da agência surgiu com sua voz afiada, o blazer alinhado e os olhos impacientes. — Você precisa atender a imprensa. Agora.
Ele assentiu com um gesto breve, quase automático. Guardou o pano de volta no bolso como quem esconde um segredo antigo demais para ser contado.
Levantou-se.
Alongou os ombros como quem se prepara para um combate.
Inspirou fundo. E, então, vestiu o rosto que o mundo conhecia.
Mas antes de cruzar a porta, virou-se para os outros. O olhar sério, como se falasse de algo maior do que todos eles juntos.
— Se ela apareceu, é porque tem algo esperando do outro lado. E se aquilo... aquilo estiver vindo pra cá, a gente precisa decidir logo de que lado vai ficar.
— E se nenhum dos lados for seguro? — Yugyeom sussurrou, quase para si mesmo.
JayB não respondeu. Só cruzou a porta, engolido pelo brilho das câmeras, pelo som das perguntas, pela máscara que usava tão bem.
Mas o eco da pergunta ficou ali, pendurado no ar do camarim como a poeira da Seul esquecida.
Frio. Silencioso. Persistente.
❄️❄️❄️
O vento cortava como lâmina enquanto deslizava pelas ruas despidas da antiga Seul. O som era um sussurro constante, um lamento que ecoava pelas ruínas como se a cidade estivesse tentando lembrar ao mundo que, um dia, foi viva.
JayB andava devagar, os passos ecoando no gelo quebradiço que recobria o chão. A cidade morta, como ele havia aprendido a chamá-la, era uma cicatriz no tempo. Prédios retorcidos, postes tombados, vitrines estilhaçadas. Tudo ali era fantasma — exceto o frio. Esse era sempre real.
Seu casaco pesava sobre os ombros, não pelo tecido, mas pelo cansaço. A travessia entre os mundos o deixava esgotado de formas que ele ainda não compreendia completamente. Toda vez que retornava, sentia-se menos artista, menos ídolo, e mais... homem.
Um homem despido de luzes, câmeras e expectativas.
Ali, a fama não valia nada.
Atravessou um beco estreito, onde o som dos próprios passos era abafado pela neve. O ar tinha gosto metálico, denso, como se estivesse respirando ferro. Mas, naquele dia, algo furou a monotonia.
Pegadas.
Minúsculas, apressadas, recém-marcadas.
JayB se agachou, os olhos analisando os sulcos na neve. O coração acelerou. Elas não eram dele. E não pertenciam a ninguém grande. Eram leves demais. Infantis.
Seguiu o rastro, guiado mais pelo instinto do que pela razão. Contornou os escombros de uma cafeteria, subiu lentamente os degraus enferrujados de uma escada externa e então parou. À sua frente, meio escondida sob um toldo rasgado, ela estava ali.
Encolhida como um passarinho ferido.
Uma menina de talvez sete ou oito anos. Tinha os joelhos puxados ao peito, os braços magros envolvendo um urso de pelúcia mutilado, sem olhos e com o enchimento escapando pelas costuras. A touca vermelha lhe caía torta sobre os cabelos castanhos. As luvas, desiguais, pareciam emprestadas de outras mãos.
Mas foi o olhar dela que o fez parar.
Dois olhos grandes e escuros, fixos nele com uma calma que não combinava com a idade. Uma calma antiga, como se ela já tivesse visto demais para se assustar.
JayB ergueu as mãos devagar, num gesto pacificador.
— Ei... — sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — Tudo bem. Não precisa ter medo.
A menina não se moveu. Nem mesmo piscou. Mas também não fugiu.
— Eu te vi... antes — ele continuou, sentindo o próprio coração martelar nas costelas. — Você me deixou isso, lembra? — Tirou do bolso o pedaço de pano, agora ressecado e endurecido pelo frio. — Era seu?
Ela olhou para o tecido por um longo instante, depois de volta para ele. Seus lábios se entreabriram, como se as palavras precisassem de força para sair.
— Você... brilha — disse, num sussurro quase levado pelo vento.
— Brilho? — JayB franziu o cenho, surpreso com a escolha das palavras.
— No outro lugar — ela explicou, ainda abraçada ao urso. — Lá você brilha, mas é... triste. Aqui, você não brilha. Mas é de verdade.
Aquelas palavras o atravessaram como uma flecha.
— Você consegue me ver nos dois lados?— Ele se sentou no degrau da escada, a alguns passos dela, tentando absorver o que acabara de ouvir.
Ela assentiu, e ele notou que seus dedos tremiam por dentro das luvas grandes demais.
— Como se chama?.
Silêncio. Por um momento, ele achou que ela não responderia..
— Sian — disse, por fim. — Minha mãe dizia que nomes são como abrigos. Que, se você disser o nome de alguém em voz alta, essa pessoa não se perde..
JayB engoliu em seco. Aquela frase parecia ter vindo de um lugar muito mais velho que aquela criança..
— Onde está sua mãe agora, Sian?
— O gelo levou ela. Ela disse que ia voltar, mas o vento começou a gritar. Eu me escondi aqui. E esperei. — Ela virou o rosto, olhando para o vazio atrás dos prédios destruídos. O céu continuava imóvel, sem cor, sem promessa.
— Você tá com frio? — JayB apertou o pedaço de pano na mão. A dor que sentiu foi silenciosa, mas profunda. Uma dor que não era só dele.
Ela assentiu novamente, os olhos abaixando por um instante, vulnerável como nunca havia se mostrado.
Sem pensar duas vezes, ele tirou o cachecol do pescoço e, com movimentos lentos, o enrolou sobre os ombros estreitos dela. Sian não se afastou. Seus dedos tocaram o tecido como se fosse algo precioso.
— Obrigada — sussurrou, quase sem voz.
JayB ficou ali, ajoelhado à sua frente, lutando contra o impulso de protegê-la de tudo. Da neve, do silêncio, do esquecimento.
— Você vai embora de novo? — ela perguntou, e havia algo naquela pergunta que soava maior do que a situação. Como se ela não estivesse falando só daquele mundo.
Ele hesitou.
Sim, ele iria. Sempre ia. Mas, naquele momento, não conseguia. Não queria.
— Não hoje — respondeu, sentando-se ao lado dela.
Ela encostou levemente a cabeça em seu ombro, e o gesto partiu o peito dele em partes que ele não sabia mais como juntar.
Ali, no meio do nada, no coração do que restava de um mundo esquecido, Jaebeom se deu conta de algo simples e terrível:
Ele importava.
Talvez não no palco. Talvez não sob os holofotes. Mas ali. Para ela.
E era isso que tornava tudo mais real.
Nos dias que se seguiram, JayB descobriu algo curioso sobre Sian: ela falava pouco, mas dizia tudo com os olhos.
Era como se tivesse aprendido a sobreviver no silêncio. Cada passo dela era um gesto calculado, cada olhar, uma leitura do ambiente. Sabia onde encontrar o gelo mais puro para derreter em água potável, onde as estruturas ainda suportavam o peso dos dias, e — mais importante — onde não pisar. Havia sons naquelas ruínas que não pertenciam a nenhum mundo conhecido. Uivos longos e graves, como se a própria cidade tivesse começado a lamentar sua existência.
JayB improvisou um abrigo num antigo estúdio de gravação. O letreiro apagado ainda tremulava no vento, pendurado por um fio de esperança. Lá dentro, os vidros milagrosamente inteiros deixavam a luz cinzenta filtrar com melancolia, e as cortinas grossas abafavam o som do que quer que rondasse lá fora.
Instrumentos esquecidos jaziam cobertos por uma camada de mofo e poeira. Teclados sem vida, cabos embolados, caixas de som mudas — fantasmas de uma música que um dia existiu. Mas ali, o silêncio era menos hostil. Quase íntimo. Um silêncio de espera, não de fim.
Sian andava descalça, mesmo quando ele insistia em cobrir seus pés com meias surradas.
— Se eu não sentir o chão, ele me engole — ela dizia, com aquela certeza frágil das crianças que viveram demais.
Na primeira noite, JayB a ouviu murmurar pela mãe enquanto dormia. Um sussurro entrecortado, como se seu subconsciente ainda tentasse buscá-la entre as fendas do tempo.
Na segunda noite, ela chorou. Não com sons — apenas com os olhos. Um choro que não pedia consolo, só espaço.
JayB não disse nada. Apenas sentou ao lado dela, as costas contra a parede fria, compartilhando o peso daquele silêncio.
Na terceira noite, ela falou, enquanto remexia os restos de um cobertor:
— Se você quiser... pode ir embora. Esse mundo não é seu.
Ele parou de abrir a lata de comida, a chave enferrujada fazendo um estalo surdo no metal. Seus dedos congelavam, mas o que gelava de verdade era o que ela dizia.
— E o seu é?
Ela ficou em silêncio por um momento, os olhos perdidos no teto rachado.
— Já foi. Agora... acho que sou de onde você estiver.
Essas palavras o atravessaram como lâmina quente. Uma criança que não pedia nada, mas oferecia tudo. JayB não conseguiu dormir naquela noite. Ficou olhando para a penumbra, tentando entender onde tinha começado a mudança dentro dele.
No quarto dia, JayB foi despertado por algo raro naquele mundo: o som de um riso.
Era leve, infantil, quase absurdo naquele cenário.
Ele saiu do estúdio, apertando os olhos contra a claridade baça. Sian descia uma ladeira coberta de neve usando um pedaço de isopor como prancha. A cena parecia arrancada de um tempo anterior ao fim, tão deslocada e tão bonita que doía de olhar.
Ela girou o rosto ao notar a presença dele, os cabelos escapando da touca vermelha como fios de brasa viva.
— Acha que consegue me alcançar, branquelo?
JayB arqueou as sobrancelhas, genuinamente surpreso. Riu. Uma risada que partiu de um lugar esquecido dentro dele.
— Branquelo?! Eu era dançarino, sabia? — respondeu, erguendo a voz acima do vento.
— Então prova!
E ele provou. Ou tentou. Deslizou atrás dela, tropeçando, rindo, escorregando como se seus músculos tivessem lembrado o que era alegria.
Caíram juntos na neve, ofegantes, molhados até os ossos, mas vivos. Sian se virou para ele e encostou a mão pequena sobre o peito dele, como se buscasse algo além da pele.
— Aqui dentro... ainda tem calor — disse, com a voz cheia de certeza.
JayB não respondeu. Apenas olhou para o céu cinzento, onde nenhuma luz jamais atravessava. O sorriso ainda nos lábios, mas os olhos marejando sem que ele entendesse por quê.
Ela era tudo o que aquele mundo não era: pulsante. Quente. Real.
E ele sabia, com a mesma certeza silenciosa de Sian, que mesmo que o mundo os tragasse... aquele momento já valia tudo.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele estava num lugar onde não nevava por dentro.
❄️❄️❄️
A transição nunca era suave.
Não havia um clarão, nem uma fissura no tempo. Não havia sinalização, trilha sonora, ou qualquer gentileza. Era apenas um piscar — e tudo mudava. Como acordar de um sonho com a sensação incômoda de que o sonho era mais real do que a própria vigília. Mais quente. Mais verdadeiro.
JayB abriu os olhos com o incômodo das luzes de camarim queimando sua retina. Luzes frias, duras, impiedosas. O tipo de luz que expõe, mas não revela nada de essencial.
O ar condicionado soprava em jatos fortes, perfumados artificialmente, mas ele sentia calor. O calor abafado das roupas justas, da maquiagem selada com pó, do suor que não podia existir diante das câmeras. O calor de um corpo presente num lugar onde a alma não estava.
— Hyung, acorda. — A voz de Yugyeom soou perto, junto com um leve toque no ombro. — Três entrevistas seguidas hoje. O cronograma tá uma loucura.
JayB apenas assentiu, a mente ainda em outro lugar. Os olhos piscavam rápido, tentando se ajustar, mas era como se parte dele recusasse aceitar onde estava.
Ainda podia ouvir o riso de Sian, agudo e livre, cortando o ar como uma lembrança que se recusava a desaparecer. Ainda sentia o toque leve dos dedos dela em seu braço, como se deixassem marcas invisíveis na pele. E o vazio — aquele maldito vazio — do momento em que ele a deixou dormindo, enrolada num cobertor improvisado com pedaços de tecido costurados às pressas. Antes de ir, ela sussurrou “volta logo” contra o ombro dele. E ele, engolindo a culpa, respondeu “eu volto”. Jurou.
Mas aqui... ninguém sabia de nada disso.
— Seu rosto tá estranho. — Jinyoung apareceu ao lado do espelho, a expressão cautelosa. — Tá tudo certo?
JayB obrigou os músculos faciais a se moverem num sorriso que não tocava os olhos.
— Só... sonhei demais, acho.
“Sonhei demais.” Como se fosse possível sonhar de menos, vivendo ali.
As entrevistas chegaram como tempestades coreografadas. Palavras previsíveis, sorrisos de plástico, perguntas que ele já sabia de cor antes mesmo de serem feitas.
— Como é estar de volta?
— O novo álbum parece mais maduro. Foi intencional?
— Há alguém especial na sua vida?
Ele respondeu tudo com a precisão de quem já decorou o script da própria persona. A voz no tom certo. A piada no momento exato. A hesitação fingida quando o assunto esbarrava em sentimentos. Era uma atuação tão bem ensaiada quanto qualquer performance de palco. Mas, por dentro, cada resposta soava como uma traição. Como se, ao não dizer a verdade, ele estivesse apagando lentamente as pegadas que havia deixado na neve.
Apagando Sian.
Mais tarde, no carro, protegido pelos vidros escuros que o separavam do mundo lá fora, JayB recostou a cabeça contra o vidro gelado.
A cidade passava embaçada, cheia de luzes demais, sons demais, gente demais. Tudo girava rápido demais.
— Não parece estranho pra vocês? — murmurou, quase como se falasse consigo mesmo.
— O quê? — perguntou Youngjae, sem desviar os olhos do celular.
JayB demorou para responder, como se as palavras pesassem.
— A gente viver aqui... com tudo funcionando. Todo mundo sorrindo. Mas por dentro... ninguém consegue respirar.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Não pelo que foi dito, mas pelo que foi entendido — e não respondido.
— É só cansaço — disse BamBam, tentando aliviar, o tom leve demais para a densidade do que flutuava ali. — Amanhã melhora.
Mas JayB sabia que não.
Não amanhã.
Nem depois.
Porque o amanhã dele não existia naquele mundo. O que o esperava era um cronograma impiedoso, contratos empilhados, câmeras famintas, uma relação que precisava esconder, e um sorriso forjado dia após dia até que o rosto esquecesse como era sorrir de verdade.
E do outro lado... do lado onde tudo era frio, feio, quebrado... havia silêncio. Escuridão. Incerteza.
Mas também havia Sian.
Uma garotinha de pés descalços e olhos que viam além. Uma criança que o fazia se sentir inteiro, mesmo aos pedaços. Que via nele algo que ninguém ali via.
Ele fechou os olhos.
E desejou — com tudo o que ainda restava dele — que a neve o chamasse de volta.
Nos dias que se seguiram, JayB tentou se convencer de que era só mais um recomeço.
A agenda voltou a se acumular. As mensagens da equipe eram incessantes. Ele sorriu para fotos, gravou vídeos para os fãs, fez coreografias repetidas até o corpo reclamar. Era o ritmo que ele já conhecia, o que sempre o afastava da dúvida, da incerteza. E, por um momento, tudo parecia funcionar. Como sempre funcionou.
Mas algo não encaixava mais.
A luz dos palcos parecia forte demais. O calor das câmeras queimava sua pele de maneira diferente. As palmas pareciam vazias. E os gritos... não tinham o mesmo som de quando uma garotinha, perdida no meio da neve, ria com a inocência de quem ainda acreditava em um mundo inteiro.
Na reunião com a agência, enquanto falavam de prazos, streams e colaborações internacionais, JayB encarava a janela. A realidade lá fora parecia infinita, mas algo dentro dele a tornava distante, fria. Seul brilhava como uma joia opaca, cheia de prédios que arranhavam o céu cinza. Carros se arrastavam no trânsito, pessoas corriam como se o mundo nunca fosse parar.
Ele piscou.
Por um instante, a cidade se distorceu. Como se uma camada de neve e gelo cobrisse tudo, suavizando os contornos. Ele viu, por um breve momento, a imagem de um lugar que não existia mais. Uma cidade desmoronada sob um céu eternamente nublado. Um lugar que parecia muito mais real do que este, mais autêntico, apesar da dor que nele habitava.
— JayB, tá ouvindo? — a voz do gerente cortou seus pensamentos, uma chamada insistente de volta ao mundo.
— Sim — respondeu, automaticamente. Mas não estava.
Ele pensava em Sian. Pensava se ela ainda estava brincando com o isopor, deslizando pela neve como se a infância nunca tivesse sido roubada dela. Se sentia fome. Se ainda lembrava que ele disse que voltaria. O pensamento a consumia por dentro, atravessando todas as imagens de shows, entrevistas e flashes de câmeras. Como se houvesse uma linha invisível conectando os dois mundos. E, no fundo, ele sabia que não poderia continuar a viver em ambos. Não como um homem completo.
Mais tarde, no dormitório, Jackson o encontrou sentado no chão do corredor, com uma garrafa pela metade e o olhar perdido. Seus olhos estavam opacos, como se tentassem encontrar algo que não podia mais ser visto.
— Você tá indo pra lá de novo, né? — a voz de Jackson era suave, mas não havia dúvida nela. Ele sabia, porque ele também já tinha sido engolido por aquele vazio.
JayB olhou para ele, como se o estivesse vendo pela primeira vez.
— Como você sabe? — perguntou, sem realmente querer ouvir a resposta.
Jackson se sentou ao seu lado. Eles não precisavam de muitas palavras para compartilhar a mesma dor. O silêncio era suficiente para que ambos entendessem.
— Porque eu também já fui. E sei como é difícil querer voltar — respondeu Jackson, a sinceridade nas palavras pesando entre eles. Ele não sorriu. Não havia motivo para isso.
Silêncio.
JayB respirou fundo, sentindo o peso do momento. Ele não sabia mais como respirar. Era um ar pesado, sujo de expectativas e rostos falsos.
— Mas o que tem lá que você quer tanto? — Jackson perguntou, com um tom que era ao mesmo tempo inquisitivo e compreensivo.
JayB olhou para a garrafa em suas mãos. Ela estava pela metade, mas ele não sentia o sabor da bebida. O vazio dentro dele era muito maior que aquilo.
Ele não hesitou. A resposta saiu como se fosse um grito abafado, um desabafo que ele vinha engolindo há dias.
— Liberdade. Silêncio. Uma criança que me chama de casa.
Jackson o observou em silêncio. Não havia mais nada a dizer. O que JayB procurava não estava naquele mundo de luzes e aplausos. E, no entanto, ele estava preso ali.
— Então volta. Mas não demora demais... porque às vezes o que a gente deixa pra depois... não espera.
As palavras de Jackson ficaram ecoando no ar, como um aviso. JayB apertou a garrafa com mais força, como se ela fosse a única coisa que ainda o ancorava à realidade. Ele sabia que, mesmo que quisesse, não podia mais viver inteiro num mundo que o queria pela metade.
O pensamento de Sian ainda estava ali, persistente. Como uma chama fraca, mas real. Ela o chamava de volta para o único lugar que fazia sentido, para um lugar onde ele ainda podia se sentir humano. Mas ele sabia que não seria fácil. O tempo estava se esgotando e o caminho de volta era um labirinto sem fim.
Ele se levantou do chão, com a sensação de que, a cada passo que dava, o peso do mundo aumentava. Sabia o que precisava fazer, mas não sabia se conseguiria.
Com a garrafa nas mãos, ele olhou uma última vez para o camarim, para as luzes que o chamavam, para a vida que ele construíra. E então, respirou fundo. Era hora de decidir.
❄️❄️❄️
A neve estava mais alta.
JayB sentia o peso do inverno em cada passo que dava. A cidade de Gangnam, que antes transbordava de vida e movimento, agora era apenas um cenário desolado. O silêncio era denso, cortante, como se até o vento tivesse se cansado de clamar por atenção. Nada se movia, exceto ele, seu corpo tremendo não pelo frio, mas por algo mais profundo. Algo que ele não sabia nomear.
Medo. Medo do que encontraria, ou do que não encontraria. Medo de estar voltando para algo que já não tinha mais sentido.
Medo de perder Sian.
Ele avançava entre os escombros com passos lentos, quase como se o próprio ambiente tivesse engolido a cidade que ele conhecera. As vielas pareciam se esticar infinitamente, se contorcendo de formas inesperadas, como se as ruas também tivessem se perdido. O céu acima era um manto cinza opressor, sem sol, sem estrelas, sem promessas de amanhecer.
Era como se ele estivesse sendo arrastado para dentro de uma lembrança que ele não queria reviver.
Então ele viu.
A última esquina que virou trouxe o coração de JayB para a garganta. O que antes parecia ser uma construção forte e protegida agora parecia mais frágil, amassada pelo tempo e pela neve. As madeiras que ele usara para barricar a porta estavam no mesmo lugar, mas agora pareciam mais como um lembrete de que o mundo havia mudado, e com ele, tudo o que ele conhecia.
JayB empurrou a porta, um som estridente ecoando no vazio. A sala ainda estava lá, mas não da mesma forma. E ela... Ela estava ali.
Sian, deitada em um cobertor improvisado, com o brinquedo de isopor na mão, parecia um eco distante do que ele lembrava. Mas ela estava viva. E isso foi o suficiente para ele.
Ao lado dela, uma mulher. Ela não se levantou quando ele entrou, não se assustou com sua presença. Seus olhos, calmos e penetrantes, estavam fixos nele com uma intensidade que o desconcertava. Castanhos como terra molhada, como se ela conhecesse o peso do mundo de uma forma que ele ainda não compreendia.
— Você voltou — a mulher disse, e sua voz não tinha urgência. Era a constatação tranquila de algo já esperado.
JayB franziu a testa, não entendendo. Ela não parecia surpresa ou com medo. Apenas estava ali, como se soubesse que ele viria.
— Quem é você? — ele perguntou, a voz rouca.
A mulher olhou para ele com calma, como se já tivesse ouvido essa pergunta mil vezes. Mas ao mesmo tempo, ela era como uma página em branco. Uma nova história.
— Me chamo . Encontrei a pequena vagando sozinha, há uns dias. Ela disse que você voltaria. Então, eu esperei com ela.
JayB não conseguia desviar os olhos dela. Algo naquela mulher... Ele não sabia o que era, mas a presença dela tinha algo de familiar, algo que o fazia sentir que estava em casa, mesmo sem entender por quê.
Ele olhou para Sian, dormindo tranquilamente, e sentiu um alívio esmagador tomar conta dele. Alívio e dor, uma mistura de sentimentos que o invadiu de forma inesperada.
— Obrigado — ele disse baixinho, a gratidão misturada com um vazio que ele não sabia como preencher.
apenas assentiu, sem pressa, como se estivesse compartilhando um pedaço de paz no meio do caos.
— Você vem de onde? — JayB perguntou, tentando entender quem ela era, o que ela estava fazendo ali. Ela parecia uma parte do mistério, e ele precisava de respostas.
— Daqui mesmo. De um pouco mais ao norte. Eu vivia em Mapo antes de tudo congelar. Agora... vivo onde ainda consigo encontrar abrigo. E comida.
Ele a observou com mais atenção. As mãos cobertas por luvas rasgadas, a cicatriz fina em sua bochecha, quase imperceptível, mas que parecia contar histórias que ele não conhecia. Algo sobre ela dizia que ela não tinha tempo para questionamentos. Ela era feita de sobrevivência, de resistência.
A pergunta que ficou na mente de JayB foi simples, mas cheia de significado.
— Não tem medo de mim?
o encarou diretamente. Seus olhos não vacilaram.
— Devia ter?
Ele sorriu com leveza, mas era um sorriso cheio de incertezas. Não. Ela não devia ter medo dele. E, talvez, nem ele tivesse mais medo dela.
Ela não o tratava como um ídolo distante. Não o via com a mesma reverência ou distância que o mundo sempre fizera. era... diferente. Como se fosse mais uma pessoa que ele já conhecia. Ou talvez fosse ele quem se sentia assim.
Silêncio.
Ele se abaixou lentamente, sentando-se ao lado dela. A proximidade foi instintiva. Quase como se o calor que ela emanava fosse a única coisa que ele ainda conseguisse reconhecer como real. Algo dentro dele, profundo e distante, relaxou. Mas ainda havia algo estranho entre eles. Algo que não podia ser resolvido com palavras. Algo que ele ainda não entendia.
— Posso ficar? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
o observou por um momento, estudando seus olhos. Sian, ainda adormecida, parecia não notar a conversa. Mas sabia o suficiente.
— Sian disse que você é o lar dela. Então... sim. Pode ficar.
JayB fechou os olhos, sentindo uma onda de alívio e cansaço. Pela primeira vez em dias, ele não sentia a necessidade de fugir. Não sentia a pressão de ser algo que não queria ser. Ali, com eles, ele não precisava ser JayB. Ele podia ser só um homem que encontrou um lugar no meio do caos.
Ele podia ficar.
E isso era tudo o que ele precisava saber.
JayB despertou devagar, como quem volta de um lugar distante. Sentia o corpo dolorido, a coluna protestando contra o chão duro, e um frio persistente que parecia ter entrado pelos ossos.
Mas havia algo diferente naquela manhã.
Um cheiro.
Era sutil, quase imperceptível, mas definitivamente presente — quente, terroso, como raízes fervidas e alguma memória esquecida do que era aconchego.
Ele abriu os olhos.
O teto rachado ainda estava lá, coberto de sombras que dançavam conforme a chama tremulante da pequena fogueira no canto da sala. O plástico preso com fita adesiva nas janelas rangia sob o vento do lado de fora. Mas o que chamou sua atenção foi a figura ajoelhada diante do fogo.
.
Ela estava de perfil, os cabelos amarrados em um coque torto, as mangas do casaco puídas até quase se desfazerem. Manteve-se concentrada enquanto alimentava cuidadosamente as chamas com pequenos pedaços de madeira — alguns vindos de móveis quebrados, outros de caixas desmontadas.
Ao lado da fogueira, duas canecas de metal tremiam sobre uma grade improvisada. O vapor subia em espirais finas, misturando-se com o ar frio do abrigo.
JayB se sentou, os músculos protestando. Estava rígido, mas não apenas pelo frio — era a estranha sensação de estar em um lugar que ainda não compreendia por completo. A mente demorou a lembrar onde estava, e só quando viu os fios de cabelo espalhados sobre o cobertor ao seu lado, ele relaxou.
Sian ainda dormia, encolhida como um filhote, o brinquedo de isopor preso entre os dedos pequenos.
virou levemente o rosto e o notou acordado. Não sorriu, nem disse nada. Apenas inclinou a cabeça em um gesto simples, quase silencioso, como quem oferecia um “bom dia” sem precisar de palavras.
— Isso é chá? — ele perguntou, a voz rouca da noite, tentando se orientar naquele novo tipo de paz.
— Algo assim — respondeu , sem tirar os olhos do fogo. — Raízes secas e um pouco de casca de árvore. Tem gosto de terra molhada, mas esquenta.
Ela estendeu uma das canecas a ele. JayB pegou com as duas mãos, grato não apenas pelo calor, mas pelo cuidado.
O metal queimava na pele sensível dos dedos. Mas ele não se importou. Encostou a caneca nos lábios e soprou com cuidado, antes de provar.
Era amargo, forte, quase ácido. Mas era quente. E isso já era mais do que ele esperava encontrar naquela manhã.
— Obrigado — disse, sem conseguir disfarçar o peso da palavra. A gratidão não era só pelo chá. Era por ela ter ficado. Por ter protegido Sian. Por não ter perguntado nada naquela noite.
assentiu, como se entendesse tudo sem que ele precisasse explicar nada.
— Ela me falou de você — comentou, após um momento. A voz dela era baixa, calma, mas firme. — Não tudo. Só o que importava.
JayB olhou para Sian por um instante, antes de voltar os olhos para .
— E o que ela disse?
— Que você prometeu voltar. E voltou. Isso, pra uma criança, é tudo.
Ele assentiu lentamente, olhando para o líquido fumegante. De todas as promessas que já havia feito em sua vida, aquela tinha sido a mais simples — e a mais difícil de cumprir.
— Ela confiou em você muito rápido — ele murmurou, mais pra si do que pra. ela
sorriu de leve.
— Crianças sentem as coisas. Ela viu em mim o que eu vi nela: alguém sozinho demais pra não se apegar.
JayB a observou com mais atenção. O rosto dela era marcado pelo tempo e pela resistência. A pele pálida, os lábios rachados, as luvas esburacadas. E uma cicatriz fina, quase imperceptível, cortava a bochecha esquerda — uma marca de luta, de perda, de tudo que esse mundo já tinha tirado dela.
— Você perdeu alguém? — perguntou, com cuidado.
Ela hesitou.
— Todo mundo perdeu alguém — respondeu, após um longo silêncio. — E alguns ainda estão perdendo.
JayB não insistiu. Sabia bem que há dores que não se tocam com perguntas.
— Como sobrevive aqui? — mudou de assunto, olhando para as tábuas no chão, para os mantimentos escassos em um canto.
— Me movo. Procuro comida, madeira, água. Às vezes, encontro pessoas dispostas a trocar algo. Outras, só querem que eu desapareça. Já aprendi a distinguir os olhares. A cidade virou um tabuleiro, sabe? Cada rua tem suas próprias regras. E suas próprias ameaças.
JayB sorriu com tristeza.
— Parece mais vivo do que o outro lado.
o encarou, curiosa.
— Você fala como quem já esteve lá recentemente.
— E estive. Mas não por inteiro.
Ela o observou por mais um tempo, antes de dizer, com suavidade:
— Você parece cansado.
JayB soltou uma risada seca.
— Eu estou. Mas não é só o corpo.
— Não. Não é.
Ele a encarou, surpreso pela precisão do que ela dizia. Pela maneira como lia através dele sem esforço, como se tivesse estudado seus silêncios desde o primeiro instante.
— É tão óbvio assim?
— É. Mas não é um defeito. Cansaço de alma não se esconde. Só adia.
Ele virou o rosto, engolindo o que queria dizer. Parte de si queria contar tudo — o peso de ter sido alguém para o mundo inteiro, mas de não ser nada para si mesmo. A culpa. A ausência. O medo constante de nunca mais ser suficiente.
Mas ela não o pressionava. E talvez por isso, ele quis ficar.
— Você fala como se me conhecesse — disse ele, por fim.
— Eu conheço o que você tenta esconder. Sei o que é abraçar uma criança que não é sua como se fosse tudo o que resta. Sei como é andar com a sensação de que o mundo acabou — e você continuou.
JayB a fitou por um longo tempo, o chá agora morno em suas mãos.
— Você também não parece alguém comum. Coragem demais pra esse mundo... e gentileza demais também.
sorriu com uma calma que parecia quebrar qualquer resistência.
— Alguém precisa ter.
Silêncio.
A lenha estalava, o vento assobiava nas frestas da janela, e do lado de fora, o mundo continuava branco e morto.
Mas ali, dentro daquele pequeno abrigo, duas canecas fumegavam.
E era o bastante.
O calor do fogareiro era tímido, quase simbólico. A chama fraca estalava como se tivesse medo de existir, e sua luz tremulante lutava contra as sombras teimosas que tomavam os cantos do cômodo. Mas havia um outro tipo de calor ali dentro. Um que vinha de dentro — e que derretia mais do que o gelo acumulado do lado de fora.
Era o riso de Sian.
JayB estava sentado no chão, com as pernas estendidas e os olhos semicerrados, fingindo uma paciência que beirava a teatralidade. Diante dele, Sian, ajoelhada com concentração absoluta, penteava seus cabelos bagunçados com o que parecia ser um garfo de plástico, cuidadosamente lavado e agora transformado em instrumento de realeza.
— Você vai ser um príncipe, tá? — ela anunciou, como quem sela um destino com a força de uma profecia.
JayB franziu o cenho, fingindo indignação.
— Um príncipe? Achei que eu era um cavaleiro destemido, tipo aqueles dos contos que enfrentam dragões e salvam o dia.
Sian balançou a cabeça com veemência, segurando uma mecha teimosa que insistia em escapar de sua criação capilar.
— Cavaleiro não pode usar trança! — decretou, como se fosse óbvio. — Só princesa e príncipe.
Ele riu, fingindo dor quando ela puxou mais um nó.
— Ai! Sua majestade, vossa alteza real está me torturando!
— É assim que vira bonito — ela respondeu, séria. — Aguenta.
Do canto da sala, os observava em silêncio. Sentada sobre um tapete gasto, as mãos cruzadas sobre os joelhos, ela parecia ter se esquecido de respirar por um momento. Jamais imaginaria que aquele homem — o mesmo que chegara ali há poucos dias com o rosto endurecido e os olhos distantes — pudesse se moldar àquele cenário com tanta naturalidade.
Com Sian, JayB era outro. Mais leve. Mais solto. Quase menino. A risada que escapava dele era sincera, cheia de algo que ela achava que tinha se perdido no mundo: ternura.
Quando a brincadeira cansou Sian, ela simplesmente se jogou sobre ele, como se seu peito fosse travesseiro. JayB a recebeu com um dos braços e a envolveu como se aquilo fosse hábito. Como se ela sempre tivesse pertencido ali, encaixada entre os suspiros dele.
Por um segundo, os olhos de JayB buscaram os de .
Ela desviou.
Não por desconforto. Mas por algo mais delicado — algo que parecia... respeito. Havia, naquele olhar trocado, a consciência de que estava assistindo algo íntimo. Algo precioso demais para ser encarado de frente.
JayB abaixou o olhar, acariciando os cabelos da menina. A voz veio baixa, como se cada palavra precisasse atravessar um oceano interno para sair.
— Quando a encontrei... ela estava sozinha. Num estacionamento, perto de um mercado abandonado. Usava um casaco tão grande que parecia engoli-la. Chorava... mas não fazia som.
ergueu os olhos, agora completamente presente.
— E o que você fez?
Ele engoliu seco.
— Eu congelei. Não sabia o que fazer. Só... abri os braços.
Pausa.
— E ela veio.
O silêncio se estendeu como um cobertor. Mas era um silêncio bom. Um daqueles que não pressionam, apenas acolhem.
— Você salvou ela — disse , com uma suavidade que não pedia nada em troca.
JayB balançou a cabeça, seus olhos presos aos da pequena dormindo em seu colo.
— Não. Ela me salvou.
Houve algo ali, naquele instante, que não precisava ser dito. Como se ambos compreendessem que o amor, às vezes, escolhe os caminhos mais improváveis para se fazer presente. Como se, mesmo num mundo destruído, ainda houvesse milagres silenciosos — como uma menina pequena encontrando um homem quebrado e refazendo seus pedaços.
Sian ressonava leve. JayB, com todo o cuidado do mundo, a acomodou sobre os cobertores dobrados, ajeitando os ombros dela e cobrindo seu corpinho com o que tinham de mais quente. Depois disso, permaneceu ajoelhado ao lado dela por alguns segundos, apenas observando.
se levantou devagar. Caminhou até uma mochila encostada na parede e, de dentro dela, retirou um embrulho pequeno, envolto em tecido escurecido pelo tempo. Voltou até ele e estendeu o presente com delicadeza.
— Fiz isso quando era pequena — disse, sua voz quase um sussurro. — Meu pai me ensinou. Achei que... talvez Sian gostasse de ouvir música de verdade.
JayB desembrulhou com cuidado, como se o objeto dentro fosse frágil demais para tocar. Era uma pequena flauta de madeira, simples, rústica, esculpida à mão com marcas irregulares, mas cheia de beleza. Uma peça de outro tempo. De outra vida.
Ele ergueu os olhos para , e havia tanto nos olhos dele — surpresa, gratidão, emoção contida — que ela não conseguiu sustentar o olhar por muito tempo.
— Isso é... — começou, sem encontrar as palavras.
— Um pedaço meu — ela completou, com um sorriso tímido.
JayB apertou o presente entre os dedos.
— Obrigado — murmurou, e naquela palavra havia mais do que um agradecimento. Havia reconhecimento. Havia promessa.
Ele levou a flauta à boca e soprou devagar. O som que saiu era simples, hesitante, como um passo dado num caminho novo. Mas era música. Música de verdade. Música viva, no meio de um mundo morto.
E naquele som, havia algo que nem o frio conseguia apagar.
Algo que dizia:
Ainda existe beleza.
Ainda existe amor.
Ainda existe futuro.
Mesmo aqui.
Mesmo agora.
Mesmo nas ruínas.
❄️❄️❄️
Foi como cair do alto de um sonho — abrupto, desorientador, cruel.
O frio cortante da Seul congelada desapareceu em um piscar de olhos, substituído pela temperatura morna de um ambiente fechado. O cheiro do gelo derreteu num sopro, substituído por perfume industrializado, maquiagem e eletricidade. O som de ventania e flauta cedeu lugar ao zumbido de lâmpadas fluorescentes.
JayB arregalou os olhos, o peito arfando como se tivesse sido arrancado de um lugar onde finalmente respirava. O carpete sob suas pernas era áspero. A claridade forte das luzes o cegava. A flauta de madeira havia sumido de suas mãos. E o que mais doía — mais do que qualquer mudança de cenário — era a ausência de Sian. Como se uma parte de seu corpo tivesse sido arrancada sem anestesia.
— Hyung?! — A voz veio abafada, como se ele ainda estivesse atravessando a fronteira entre dois mundos. — Hyung, olha pra mim! — Yugyeom apareceu em sua frente, agachado, olhos arregalados de preocupação. — Você desmaiou de novo? Fala comigo, cara. A coletiva é daqui a vinte minutos. Tá me ouvindo?
JayB piscou algumas vezes, tentando fixar o olhar no rosto do maknae. O camarim estava em movimento ao redor — gente indo e vindo, celulares tocando, staff dando ordens. Tudo ao mesmo tempo. O mundo real era barulhento. Quase violento.
Ele passou a mão pela testa úmida, o coração ainda acelerado. O ar parecia preso nos pulmões.
— Eu... — ele começou, mas não conseguiu terminar. Sua voz falhou.
— Você precisa de um médico. Tá pálido, suando frio. Quer que eu chame alguém? — Yugyeom o segurou pelos ombros, suavemente, como se temesse que ele caísse de novo.
JayB balançou a cabeça com esforço.
— Não é isso. Eu só... — Ele fechou os olhos por um segundo, tentando se reencontrar. Mas tudo estava fora de lugar.
O celular vibrou em seu bolso, interrompendo o momento. Ele o tirou com mãos trêmulas. Várias mensagens de Jinyoung. Todas com o mesmo tom urgente.
“Me liga. Agora.”
“É sério.”
“Jay... é sobre a sua mãe.”
O coração de JayB apertou antes mesmo de tocar na tela para retornar a ligação.
— Hyung? — Jinyoung atendeu na primeira chamada, a voz baixa, contida, como se estivesse tentando controlar algo maior que ele.
— O que houve? — JayB engoliu seco.
— Sua mãe teve um colapso. Tá no hospital. É grave. — Do outro lado da linha, um breve silêncio.
JayB não respondeu de imediato. O peso das palavras se abateu sobre ele como uma enxurrada silenciosa. Ele olhou ao redor, mas não via mais nada. Só ouvia a própria respiração e a voz de Jinyoung.
— E tem mais — o amigo continuou, hesitante. — Youngjae... surtou ontem. Disse que não aguenta mais. Que vai sair do grupo. Não quer cantar, nem dançar. Nem levantar da cama. E, sinceramente, eu não sei o que fazer. Tô tentando segurar, mas... não dá mais sem você aqui.
JayB fechou os olhos, encostando a testa na parede fria atrás dele. A sensação era de estar espremido entre duas placas tectônicas. Por horas, talvez dias, ele havia vivido em outra realidade — um mundo quebrado, sim, mas onde existia algo puro. Onde havia uma criança em seu colo, uma flauta entre seus dedos, e um silêncio que preenchia.
Agora, tudo era pressa. Expectativa. Compromissos.
— Vou para o hospital — disse, enfim, baixo.
Do outro lado da linha, Jinyoung não insistiu. Não tentou convencê-lo a ficar. Ele sempre sabia a hora de calar.
No carro, a caminho do hospital, JayB se perdeu pelas janelas. A cidade corria do lado de fora com sua normalidade opressora. Prédios de vidro reluziam com os holofotes da vida perfeita. Anúncios imensos estampavam rostos sorridentes — inclusive o dele. O mesmo rosto que agora estava vazio.
O motorista falava algo, mas JayB não escutava. O mundo estava em mudo, como num filme dublado errado.
Ele encostou a cabeça no vidro gelado, tentando buscar Sian em algum canto da memória. Por um segundo, quase podia sentir o peso leve dela em seu colo, ouvir a risada abafada contra o peito dele. Quase podia ver a flauta — feita à mão, simples, mas cheia de significado.
Mas ela se esvaía como fumaça entre os dedos.
Ele não sabia se voltaria a vê-la. Não sabia sequer se aquilo havia sido real. Mas doía. E a dor era real demais para ser apenas um delírio.
Quando chegou ao hospital, o céu já começava a escurecer. Um roxo estranho tingia o horizonte. O tipo de cor que precede uma tempestade.
Ele desceu do carro sem dizer palavra, passos pesados, o peito apertado. A porta giratória do hospital girou diante dele como um portal para outra batalha. Outra dor. Outro mundo.
E foi ali, parado entre a entrada e o saguão iluminado, que JayB entendeu.
Talvez não fosse apenas a Seul congelada que estivesse desmoronando.
Talvez os dois mundos estivessem em colapso.
E ele... estivesse sendo esmagado entre eles.
O corredor do hospital parecia um lugar onde o tempo decidira desacelerar. As paredes claras, a iluminação implacável e o silêncio cheio de ruídos — tosses contidas, passos apressados, bipes longos e intermitentes — davam a sensação de que a vida ali caminhava em uma corda bamba entre o que ainda pulsa e o que quase cede.
JayB respirou fundo. O cheiro era uma mistura sufocante de álcool, flores vencidas e angústia. Aquele aroma agridoce de tudo que é estéril, porém carregado de emoção humana.
Parado diante da porta 408, sentia o coração batendo alto demais no peito. Como se a simples presença dele ali fosse capaz de perturbar o repouso do lugar. Seus dedos roçavam a maçaneta, indecisos. Por um segundo, pensou em recuar. Mas as memórias — todas as que importavam — o impediram.
Ele abriu a porta com o cuidado de quem acorda alguém que ama.
O quarto estava em penumbra. A televisão ligada no mudo mostrava um programa qualquer. Os lençóis brancos destacavam o tom pálido da pele dela, o rosto sereno apesar dos tubos e fios. Ainda havia força ali — mesmo na fragilidade, mesmo na pausa. A mulher que o criara sozinha, que suportara noites sem dormir, que vendera almoço para comprar janta. Agora, enfim, repousava como se tivesse sido vencida por todas as batalhas que lutou calada.
JayB avançou com passos lentos, como se temesse quebrar a quietude.
— Mãe... — chamou, num sussurro quase infantil, engolindo um nó que doía desde o estômago.
Ela abriu os olhos devagar. E naquele olhar, havia algo que só mãe tem: a capacidade de reconhecer o filho antes mesmo que ele diga quem é.
— Jaebeom… — A voz dela era baixa, mas firme. E o jeito como pronunciou seu nome — seu nome verdadeiro — fendeu alguma parte mal costurada dentro dele.
Ele se sentou ao lado da cama sem conseguir tirar os olhos dela. Pegou sua mão com cuidado, como se ainda fosse um menino que precisava de colo.
— Desculpa por não ter vindo antes — disse, a voz rouca de culpa.
Ela apertou levemente os dedos dele, como se quisesse dizer que tudo já estava perdoado muito antes de acontecer.
— Você sempre vem, meu filho. Mesmo quando não pode. Eu te vejo por aí... no rádio, nas vitrines, no olhar das meninas no metrô que choram ouvindo sua música. — Ela riu baixo, fraco. — Uma vez vi um grupo com seu rosto na mochila. Uma delas dizia que você era a razão de acordar de manhã. E eu só pensava: “Se elas soubessem como você se arrasta pra levantar da cama...”
JayB riu também. Mas era um riso atravessado, ferido. Como quem sangra por dentro sem deixar escapar.
— E isso te orgulha? — perguntou, sem saber se queria mesmo ouvir a resposta.
— Me orgulha, claro. Mas também me preocupa. Porque eu te conheço. E sei que você pode sorrir com os lábios enquanto grita por dentro. Você dança, canta, brilha... mas seus olhos, Jaebeom, às vezes não acompanham.— Ela o encarou com ternura.
Ele baixou o olhar, envergonhado pela transparência que só ela era capaz de enxergar.
— Tem um lugar — ele começou, hesitante. — Um lugar onde ninguém sabe quem eu sou. Onde o mundo não pesa tanto. Onde eu posso andar na rua sem medo de ser reconhecido, onde eu posso respirar. Onde tem uma garotinha que me abraçou como se eu fosse tudo o que ela tinha... e, mãe, eu não sei explicar. Mas eu sinto que preciso dela. E que ela precisa de mim.
Os olhos da mãe se umedeceram. Mas não havia surpresa neles. Apenas um tipo sereno de compreensão. Aquela que só o amor incondicional pode oferecer.
— Às vezes... fugir não é covardia. É sobrevivência. E às vezes, o que a gente chama de fuga... é só o caminho de volta pra quem somos de verdade.
— Mas se eu for de vez...? — ele murmurou. — Se eu deixar tudo pra trás?
— Então vá. Mas vá sabendo que sempre vai ter um lar pra voltar. Mesmo que esse lar só exista em mim. — Ela apertou sua mão com mais força do que ele esperava, como se ainda fosse capaz de protegê-lo do mundo inteiro.
As palavras caíram dentro dele como uma âncora. Um abrigo. Um colo invisível.
JayB deixou as lágrimas escorrerem sem pressa, sem vergonha. Como não chorava há muito tempo. Chorou pela ausência, pela culpa, pela pressão. Chorou pela criança que ainda havia dentro dele e que precisava de um lar. Chorou por Sian. Pela mulher que dormia sozinha no hospital, depois de tantos anos sem deixar que ninguém a visse fraca.
E ali, naquele quarto frio, rodeado por máquinas e silêncio, entendeu o que precisava fazer.
Talvez ele não pudesse salvar o mundo.
Talvez não pudesse se salvar inteiro.
Mas talvez — só talvez — ainda desse tempo de salvar os dois lados dele mesmo.
O homem. E o menino.
O ídolo. E o pai que nascia, aos poucos, dentro dele.
❄️❄️❄️
O café em cima da mesa estava esquecido, abandonado como as promessas que JayB fizera a si mesmo semanas atrás. O líquido, antes quente, agora era uma poça amarga e fria, refletindo as luzes amareladas do estúdio. Lá fora, Seul pulsava com sua pressa usual — buzinas impacientes, passos apressados, vida correndo como se nunca fosse parar. Mas ali dentro, tudo parecia suspenso.
JayB sentia como se estivesse no intervalo entre um refrão e o próximo verso. Como se estivesse prestes a cantar, mas a voz não saísse. Ele passava os dedos lentamente sobre a lateral da caneca, distraído, o olhar perdido na janela onde a cidade se distorcia sob o vidro embaçado.
Desde a notícia da melhora da mãe, algo dentro dele aliviou... mas não se desfez. Era como carregar uma mala menos pesada, porém ainda incômoda. Ele prometeu a si mesmo que esperaria pela alta dela. Não podia ir embora ainda. Não enquanto alguém aqui ainda precisava dele. Mesmo que o outro lado — aquele onde ele podia respirar, onde Sian ria com as bochechas rosadas e o olhava como se enxergasse além — chamasse com tanta força.
A porta do estúdio se abriu devagar.
Youngjae entrou com os ombros curvados, o corpo franzino envolto em uma blusa larga demais. Os olhos, que antes carregavam brilho e leveza, agora estavam apagados, fundos. Como se ele tivesse esquecido o caminho de volta pra si mesmo.
Quando os olhares se encontraram, o mais novo tentou sorrir — um gesto torto, trêmulo, que morreu antes de nascer.
— Hyung... — foi tudo o que conseguiu dizer, a voz rouca como se viesse de um lugar seco e fundo.
Ele não procurou um sofá. Apenas se deixou cair no chão do estúdio, cruzando as pernas como fazia nos tempos de trainee, quando sonhar ainda era mais fácil do que suportar.
JayB observou em silêncio. Viu as mãos do amigo brincarem com o cordão da blusa, puxando e enrolando como se aquilo o mantivesse firme.
— O Jinyoung me contou o que aconteceu — disse por fim, a voz baixa, sem julgamento.
Youngjae assentiu devagar. O silêncio entre eles parecia preencher todo o cômodo, como se qualquer palavra a mais pudesse quebrar o ar.
— Eu queria desaparecer, Jay. Não só da carreira... — a pausa veio carregada de dor — ...de tudo. — JayB respirou fundo. O peso daquelas palavras caiu como um trovão em seu peito, mas ele não desviou o olhar. — Não aguentava mais acordar e fingir. Sorrir pra câmera, pra equipe, pro espelho. Fingir que ainda amava cantar. Que ainda era eu. — Youngjae engoliu seco. — Comecei a acordar no meio da noite, com o peito travado. Às vezes chorava sem saber por quê. Às vezes só... queria não existir.
Ele disse aquilo sem olhar para cima, encarando o chão como se estivesse confessando algo vergonhoso.
JayB escorregou do sofá e se sentou ao lado dele no carpete. Ficaram lado a lado, sem se tocarem, mas tão próximos quanto duas almas cansadas podem estar.
— Sabe por que eu sumi? — perguntou, depois de alguns segundos.
— Porque você também não tava aguentando? — Youngjae virou o rosto devagar, como se já soubesse, mas quisesse ouvir da boca dele.
JayB assentiu.
— Encontrei um lugar... uma cidade pequena, fria, cheia de silêncio e neve. Ninguém me reconhece lá. Eu ando na rua e sou só um cara qualquer. E nesse lugar... eu encontrei uma garotinha. Órfã. E ela me escolheu. Me chamou de pai. — Ele sorriu, mas era um sorriso cheio de rachaduras. — Eu nem sabia o que fazer. Mas fiquei. Porque... porque cuidar dela me fez respirar de novo. E depois veio a . E ela viu em mim algo que nem eu via mais. E eu... me apaixonei.
Youngjae deixou escapar uma risada breve, úmida.
— Isso parece roteiro de filme, hyung.
— Eu sei. Mas é a parte mais real da minha vida.
— E você quer voltar pra lá?
JayB demorou a responder. Encarou as mãos, os dedos entrelaçados, os calos que a guitarra deixara ao longo dos anos.
— Eu não quero. Eu preciso. Lá, o mundo tá mais quieto, quase morrendo... mas eu me sinto vivo. Aqui, tudo explode, brilha, gira. Mas por dentro... às vezes, eu só sobrevivo.
Youngjae fechou os olhos. Os ombros tremeram levemente, e JayB o puxou num abraço silencioso, sem aviso. O mais novo resistiu por um segundo — só por orgulho — antes de desabar ali, contra o peito do amigo.
— Eu só queria respirar, hyung...
— E vai. Nem que eu tenha que segurar o mundo por você um tempo. Já fez isso por mim tantas vezes. Agora é minha vez.
O choro de Youngjae era contido, quase mudo, mas tão verdadeiro que JayB o sentiu vibrar em seu próprio corpo. Apertou os braços em torno dele, como se pudesse colar os pedaços que estavam se soltando.
Ficaram ali por um tempo que não dava pra medir em minutos.
JayB sabia que não podia ficar para sempre. Que a outra Seul, coberta de neve, o chamaria de volta em breve. Que Sian estaria esperando sua voz para dormir, e com aquele olhar entre desafio e ternura que tanto o desarmava.
Mas agora... agora ele era necessário aqui. Para Youngjae. Para a mãe. Para o grupo.
E mesmo com o coração congelado longe dali, ele seguraria firme o que ainda podia ser salvo.
Por enquanto, ele ficaria.
Mas a neve... a neve ainda o chamava. E uma parte dele já começava a responder.
Não com palavras. Mas com uma melodia fria, constante, que vibrava dentro dele como uma memória que se recusa a ser esquecida. Era o tipo de silêncio que falava mais alto do que qualquer multidão gritando seu nome. E JayB ouvia.
A cidade pulsava ao redor — viva, vibrante, exigente. A Seul real, cheia de compromissos, expectativas, promessas cobradas em olhares. Os ensaios retomados, as entrevistas marcadas, os flashes esperando por sua versão mais brilhante. Mas tudo nele parecia estar preso em outra latitude — onde a neve cobria os escombros, onde o tempo andava mais devagar, onde uma garotinha adormecia com a cabeça em seu colo.
Sua mãe, agora em casa, insistia que estava bem. Sorria mais, dizia que já podia se cuidar sozinha, mesmo que suas mãos ainda tremessem quando pensava que ele partiria de novo.
Ele sabia. Era hora de ir.
Naquela noite, JayB entrou no próprio quarto como quem pisa em um santuário. Passou os dedos pelas fotos coladas no espelho: imagens desbotadas, mas ainda quentes. Ele, sorrindo com os membros do grupo. Sua mãe, de olhos brilhando ao soprar velas de aniversário. Youngjae, com os braços ao redor dele no backstage, os dois rindo, cobertos de suor e euforia.
Ele tocou uma dessas fotos com mais cuidado, como se ela pudesse se quebrar. Como se ele mesmo estivesse se quebrando aos poucos.
Vestiu o casaco lentamente. Cada botão fechado parecia um nó no peito.
Não deixou bilhetes. Nem promessas. Apenas atravessou a porta com o som do silêncio atrás de si.
O vento ali era o mesmo. Cortante. Quase cruel. Mas, para JayB, soava como um velho conhecido.
A cidade congelada parecia suspensa no tempo. Nenhum passo recente marcava a neve suja das calçadas quebradas. As construções desmoronadas, os postes apagados, os restos de vida que um dia fervilhavam por ali — tudo agora era sombra. Mas não uma sombra assustadora. Era o tipo de silêncio que acolhia, mesmo sendo brutal.
Ele caminhou devagar, reconhecendo os caminhos como se fossem cicatrizes. O frio cortava as bochechas, mas não doía tanto quanto a ausência que carregava desde que partiu. A cada passo, uma lembrança. A cada esquina, uma pergunta.
Chegou à pequena casa com o coração apertado. As tábuas da porta haviam sido trocadas. O telhado, remendado com lonas. Alguém cuidara dali. Mesmo em sua ausência, havia alguém mantendo tudo de pé.
Empurrou a porta devagar. O estalo das dobradiças ecoou como um chamado.
O calor da lareira improvisada ainda resistia ao frio. Era pouco, mas era algo. E ali, no meio da sala, envolta pelo brilho fraco do fogo, estava ela.
— Jay?
A voz veio trêmula, quase inaudível. Mas não havia dúvida. Era .
Ele virou devagar, como se não quisesse quebrar o momento.
Ela estava parada perto da parede, com Sian dormindo em seus braços. Os cabelos presos às pressas, a roupa gasta, coberta por pontos de neve derretida. Os olhos cansados, mas ainda tão vivos. Ainda os mesmos que haviam o desarmado desde o primeiro dia.
— Eu achei que você não voltaria — ela disse. E havia dor naquele sussurro. Não uma dor de raiva. Mas de quem esperou tempo demais sem certeza alguma.
JayB se aproximou com calma, os olhos fixos na menina adormecida em seus braços. Sian respirava devagar, o rosto colado ao ombro de . Estava mais magra. Os cabelos bagunçados. Mas viva. E ali.
— Eu disse que voltaria — ele murmurou. — Só… só não sabia quanto tempo levaria.
assentiu com a cabeça, mas não respondeu. Como se ainda duvidasse que aquilo fosse real. Como se parte dela precisasse tocar nele para ter certeza.
Ele se ajoelhou perto da lareira, estendendo os braços devagar. Ela hesitou, então se abaixou e colocou Sian com cuidado nos braços dele.
JayB a acolheu como se fosse feita de vidro. Encostou o rosto nos cabelos finos da menina, fechando os olhos. Por um instante, respirou como não respirava há semanas.
— O mundo de lá… ainda gira — ele disse, baixinho, olhando as chamas lutarem contra o frio. — Mas gira rápido demais. E exige que eu gire junto.
— E aqui? — perguntou, sentando-se ao lado dele.
— Aqui… tudo espera. O tempo, a dor, até as respostas. É como se o silêncio soubesse das coisas antes de mim. E mesmo assim… é aqui que eu sinto que existo de verdade.
Ela não disse nada. Apenas o observou.
— Ela sentiu sua falta — disse, depois de alguns segundos. — Perguntava todos os dias se você ia voltar. Se tinha ido embora pra sempre.
JayB olhou para Sian. A garotinha se mexeu um pouco nos braços dele, como se reconhecesse o calor do abraço.
— Eu tô aqui agora. E não vou embora sem lutar.
desviou o olhar, piscando rápido para afastar o brilho nos olhos. Ele a observou por um instante.
— Você cuidou dela. De tudo. Mesmo quando não tinha obrigação.
— Tinha sim — ela respondeu, a voz baixa. — Porque ela também virou meu lar.
JayB respirou fundo. O peito doía. Mas era um tipo de dor diferente — aquela que vem da certeza de que, mesmo depois de se perder, você finalmente chegou onde precisava estar.
Ficaram ali por um tempo. Nenhum dos dois falou. O silêncio entre eles era cheio. Cheio de histórias ainda não ditas, de sentimentos ainda não nomeados.
Mas bastava.
Porque naquele fim de mundo, entre o som do fogo estalando e a neve caindo lá fora, JayB percebeu que às vezes, voltar não é só retornar a um lugar. É reencontrar partes de si mesmo que estavam esperando.
E ele tinha voltado.
Por elas. Por ele. Pelo que ainda podia ser salvo.
O mundo continuava congelado do lado de fora — janelas embaçadas, vento uivante, a neve cobrindo tudo como um manto branco e silencioso. Mas ali dentro, naquela pequena casa de madeira improvisada, o gelo começava a ceder. Lentamente, quase imperceptível, algo se aquecia. Algo que não vinha do fogareiro ou da lareira fraca, mas do reencontro de três almas tentando, cada uma à sua maneira, sobreviver.
JayB despertou com um som leve — quase um tropeço, quase uma dança. Passos pequenos ecoando no assoalho, acompanhados de uma risada leve, infantil, que fez o peito dele se expandir antes mesmo de abrir os olhos.
— Acorda, Jay! Acorda! — veio a voz aguda e animada, como o tilintar de sinos em pleno inverno. — A fez pão!
Ele mal teve tempo de reagir antes de sentir um corpo leve pular sobre ele, espalhando cobertas e gargalhadas. Sian estava com os cabelos ainda mais bagunçados do que o habitual, como se a noite tivesse transformado sua cabeça num ninho de passarinhos alegres. Ela o abraçou com força, cheirando a frio e infância.
JayB soltou um riso rouco, ainda com o rosto afundado no travesseiro.
— Pão? — murmurou, entre um bocejo e um sorriso debochado. — Aqui, no fim do mundo? Tem certeza que não é um sonho?
— Não é! — ela garantiu, batendo as mãozinhas no peito dele. — Tá quentinho! E ela fez chá também! Vem logo!
Sem ter muita escolha, ele deixou-se ser puxado, carregando Sian no colo enquanto se dirigiam à cozinha — um espaço apertado, de paredes improvisadas e prateleiras cheias de coisas que claramente foram juntadas com esforço. Mas era aconchegante. Quase como se tivesse alma.
estava ali. De costas para eles, mexia algo em uma panela velha sobre o fogareiro. Usava um suéter grosso demais para o corpo magro e o cabelo estava preso de qualquer jeito, algumas mechas soltas caindo sobre a nuca. O cheiro de pão, surpreendentemente doce, enchia o ar.
— Bom dia — ele disse, a voz ainda pastosa de sono, mas com um sorriso que lhe escapou sem esforço.
Ela virou-se devagar, e o olhar que lançou a ele foi como um cobertor macio: sereno, calmo, acolhedor. Estendeu-lhe uma caneca de cerâmica, com vapor saindo lentamente.
— Dormiu bem?
Ele assentiu, pegando o chá com cuidado. Sian escorregou do colo dele e correu até a mesa, onde tentava espiar dentro da cesta com os pães improvisados. JayB sentou-se, observando tudo com um tipo de admiração muda.
A casa era feita de pedaços — tábuas diferentes, móveis desalinhados, mantas costuradas à mão. E ainda assim, havia nela uma harmonia discreta, como se alguém tivesse montado aquele lar com muito mais afeto do que recursos. Tudo ali tinha um propósito. Tudo respirava.
Os dias que se seguiram foram de uma estranha tranquilidade.
JayB acordava cedo com Sian o puxando pela mão, e passavam a manhã recolhendo lenha, reforçando a estrutura da casa ou limpando a neve acumulada. Ele descobriu que era péssimo na cozinha, mas excelente em fazer Sian rir. Às vezes, os três dividiam as tarefas. Outras vezes, ele e se revezavam silenciosamente, como se já tivessem morado juntos por anos.
À noite, com a menina dormindo entre os cobertores, os dois adultos sentavam perto da lareira, dividindo a pouca luz e o muito silêncio. E ali, as palavras surgiam — baixas, espaçadas, quase reverentes.
Numa dessas noites, ele perguntou, com os olhos fixos nas chamas:
— Como você achou essa casa?
demorou para responder, como se precisasse voltar até aquele momento com o corpo inteiro.
— Eu estava fugindo de uma nevasca. Já não sentia as mãos, os pés. Achei que ia morrer congelada no meio da rua. Mas aí vi fumaça. Subindo da chaminé. Corri. Entrei. E... encontrei a Sian.
JayB não disse nada. O maxilar travado, os olhos baixos. Uma parte dele ainda se culpava — por não ter estado aqui, por tê-las deixado naquele mundo sem garantias.
— Eu prometi que voltaria pra ela — murmurou, mais pra si mesmo do que pra ela. — Não queria que ficasse sozinha de novo.
— Ela não ficou — disse, com doçura firme. — Nós cuidamos uma da outra. Como você cuida dela agora.
Silêncio.
Ela então estendeu a mão por sobre o cobertor que os separava. Um toque simples, sem alarde. Mas firme, direto. Como quem diz: Eu estou aqui. E não preciso de promessas. Só da sua presença.
JayB virou a mão e entrelaçou os dedos nos dela.
A lareira estalou discretamente.
Do lado de fora, a neve continuava caindo — lenta, densa, eterna. Mas dentro daquelas paredes, havia calor. Havia presença. E, pela primeira vez em muito tempo, havia abrigo.
Naquela noite, ninguém precisou dizer nada. Porque o silêncio já dizia tudo.
Eles estavam, finalmente, juntos.
E isso bastava.
O céu escureceu antes do tempo, tingido por um cinza denso que parecia pesar sobre a terra. Havia uma pausa no ar — como a inspiração contida antes de um grito. JayB sentiu isso antes mesmo de ver os primeiros sinais. O vento mudara de direção, tornando-se mais impiedoso, e os flocos de neve giravam no ar como estilhaços, afiados e impacientes.
Ele caminhava com passos firmes entre os escombros da cidade adormecida, os ombros arqueados pelo peso dos feixes de lenha empilhados contra o peito. O frio já rasgava a pele por baixo das camadas de tecido, mas era outra coisa que o incomodava mais — uma inquietação no peito, como se o próprio inverno respirasse pesado atrás dele.
Quando empurrou a porta da casa, sentiu o calor tímido da lareira o acolher como um velho amigo.
dobrava mantas com movimentos metódicos no sofá. Sian, no chão, montava torres com pedaços de madeira, suas bochechas coradas e o cabelo despenteado em ondas suaves.
JayB largou a lenha no canto, tirando as luvas enrijecidas e o cachecol úmido.
— A tempestade vem aí — disse, sério, a voz baixa, carregada de certeza. — Vai ser forte. Precisamos nos preparar agora.
ergueu os olhos para ele, sem surpresa, e assentiu com um movimento curto de cabeça. Ela era assim — uma força calma, discreta, mas firme como rocha. Não havia desespero em seus gestos, apenas ação.
Trabalharam lado a lado, os corpos sincronizados como se já compartilhassem aquela rotina há anos. Selaram janelas com tábuas resgatadas de móveis quebrados, empilharam sacos pesados nas portas, dividiram as últimas latas de comida, organizaram garrafas de água e cobertores extras nos cantos da casa.
A noite começava a cair quando parou por um instante diante do amontoado de lenha na varanda. Seus olhos se estreitaram em preocupação.
— Jay... a lenha não vai durar mais que três ou quatro dias — disse em voz baixa, como se falasse consigo mesma, mas esperasse por sua resposta.
Ele se aproximou, medindo o estoque com o olhar.
— Assim que a tempestade acalmar, eu saio. Prometo que volto com mais.
Ela apenas assentiu, mas o modo como seus olhos permaneceram ali, fixos na madeira, dizia mais que qualquer palavra.
Quando a tempestade chegou, chegou como uma fera solta.
O vento rugia com uma força primal, fazendo as paredes tremerem. A neve arremetia contra as janelas como punhos furiosos, tentando invadir aquele pequeno refúgio. A casa — remendada, frágil, viva — resistia como podia.
JayB sentou-se próximo à lareira, alimentando o fogo com cautela. Sian dormia entre ele e , encolhida sob mantas até os olhos, o corpo pequeno em paz no meio do caos.
, do outro lado, o observava em silêncio. As chamas projetavam sombras dançantes em seu rosto. Os olhos dela tinham aquele brilho raro que só aparece em momentos onde tudo é incerto, mas ainda assim... há amor.
— Você ainda tem medo de estar aqui? — ela perguntou, quase num sussurro, como se a própria pergunta fosse frágil demais para o vento levar.
JayB desviou o olhar para Sian, dormindo com a boca levemente aberta, a respiração ritmada e tranquila, depois voltou para .
— Não — respondeu, após uma pausa. — Aqui... eu posso existir sem disfarces. Sem máscaras. Posso respirar. Isso tem sido mais do que eu achei que merecia.
sorriu, pequeno, como quem reconhece a verdade nas entrelinhas.
— E você? — ele devolveu a pergunta, mas sua voz tinha um cuidado especial, como se não quisesse invadir demais. — Tem medo?
Ela abaixou o olhar por um segundo, acariciando os cabelos de Sian com ternura.
— Não de estar com vocês. Só de perder isso. Essa trégua que a gente construiu no meio da guerra.
O silêncio que se instalou entre eles não era vazio — era denso, confortável. Um abrigo.
JayB estendeu a mão por cima da menina adormecida. Os dedos encontraram os dela, quentes apesar do frio lá fora. Ele entrelaçou as mãos na dela, e naquele simples gesto havia tudo: promessa, coragem, entrega.
— A gente cuida um do outro — ele disse, firme, como um voto selado não com palavras, mas com presença. — Prometo.
Lá fora, a tempestade urrava. Mas ali, no coração da escuridão, havia calor. E um princípio de paz.
A tempestade cessou como um suspiro preso que finalmente escapava do peito do mundo.
A manhã chegou envolta em um silêncio denso, quase sagrado. Não havia pássaros, nem vento, nem sons de passos distantes. Era como se tudo — o tempo, a cidade, o próprio destino — tivesse sido soterrado sob o peso da neve. Do lado de fora da casa, Seul era apenas um vulto fantasmagórico de si mesma. As ruas, os prédios, as esquinas conhecidas… tudo estava deformado, oculto sob um manto branco que parecia não ter fim.
JayB observou por longos minutos através da janela embaçada. O mundo além dela parecia um sonho antigo e perigoso. Mas ele sabia que precisava sair. O estoque de lenha mal daria para mais dois dias, e a tempestade tinha devorado qualquer ilusão de segurança.
Vestiu as camadas mais grossas que tinha. Uma a uma, como se fossem armaduras improvisadas contra o frio e os próprios pensamentos. Antes de abrir a porta, olhou para dentro.
dormia encolhida ao lado de Sian, o corpo da menina envolto pelos braços dela como um casulo de calor humano. A lareira ainda ardia em brasa, a água sobre as pedras sussurrava uma canção baixa de vapor. Era paz. Era o que ele sempre disse não querer — e, no entanto, não conseguia mais deixar de proteger.
Saiu sem fazer barulho.
A cada passo na neve, sentia o estalo dos próprios pensamentos. O mundo estava devastado. Árvores partidas como ossos quebrados. Carros soterrados. Placas de trânsito retorcidas como se algo maior e invisível tivesse passado por ali, esmagando tudo com a ponta dos dedos. As construções conhecidas pareciam ruínas de um tempo esquecido. E o frio... o frio entrava pelas costuras da roupa e se infiltrava por dentro da pele, até grudar nos ossos.
Não era só o mundo que parecia prestes a ruir — era ele também.
Foi ao se aproximar da antiga estação de metrô que o viu.
Um homem velho, curvado, sentado em uma caixa coberta por uma lona azul, diante do que restava de uma barraca improvisada. JayB diminuiu o passo, sentindo uma inquietação crescer. Aquele homem parecia fora de lugar. Ou talvez estivesse exatamente onde devia estar.
Quando se aproximou, o velho ergueu os olhos. Pequenos, enrugados, mas intensos. Como brasas no fim da fogueira. Como olhos que já tinham visto muito mais do que deviam.
— Procurando por mais do que lenha, garoto? — disse ele, com a voz rouca, mas firme.
JayB parou. Um calafrio percorreu sua espinha, e não era por causa do frio.
— O quê?
O velho soltou um riso baixo, quase sem humor.
— Você não nasceu aqui. Não pertence a esse lado da cidade. Ainda carrega o cheiro do outro mundo nos ombros.
JayB franziu a testa. O vento soprou mais forte naquele instante, e a neve levantou-se em redemoinhos ao redor deles.
— Como você sabe disso? — perguntou em um sussurro, como se admitir a pergunta fosse o primeiro passo para perder o pouco que ainda compreendia.
— Porque eu já estive no seu lugar — respondeu o velho, com os olhos presos aos dele. — E ninguém atravessa duas vezes sem pagar um preço.
— Eu... não entendo.— JayB sentiu o coração bater mais pesado dentro do peito.
— Você ainda tem duas viagens — disse o velho, como se o tempo fosse uma estrada que ele conhecia bem demais. — Uma, de volta. A outra, se decidir voltar... será a última.
O silêncio entre eles era como a neve: caía devagar, mas cobria tudo.
— A última? O fim de quê?
— O fim da dúvida. Do entre-lugares. Seu coração vai ter que escolher: ou fica preso ao que perdeu... ou abraça o que encontrou aqui. Mas não poderá mais fugir entre os dois.— O velho sorriu, mas era um sorriso sem alegria.
— E se eu não souber o que escolher? E se... eu ainda estiver quebrado demais pra saber o que quero? — JayB respirou fundo, mas o ar parecia não chegar direito.
O velho ergueu os ombros com lentidão, como se o peso das respostas já fosse familiar demais.
— A última viagem não mente. Ela mostra quem você é. O que de fato importa. E quem, no fim, te faz querer continuar. — Ele ficou de pé, apoiando-se com dificuldade em uma bengala improvisada. As mãos tremiam. O corpo doía só de se mover. Mas os olhos... os olhos eram firmes como montanhas. — Pegue o que precisa, garoto. Leve a lenha, leve a dúvida. Mas se quiser mesmo calor... volte pra onde estão os dois corações que batem por você.
JayB não conseguiu dizer nada. Ficou ali, parado, observando o velho desaparecer lentamente entre os escombros. A neve caiu sobre os ombros dele como um manto antigo. E então ele sumiu. Como se nunca tivesse existido.
O frio voltou a apertar. Mas havia algo mais gelado do que o vento.
JayB ainda tinha duas viagens.
E agora, pela primeira vez, ele começava a sentir o tempo correr.
JayB entrou na casa com os braços cheios de lenha, mas o peso que sentia não estava no fardo físico que carregava. Era o peso do desconhecido, da dúvida que se alojava em seu peito e na garganta, que o sufocava com o gosto amargo da incerteza. Cada passo que ele dava, o chão gelado sob seus pés parecia pesar ainda mais, como se o mundo ao redor estivesse desmoronando, sem que ele pudesse fazer nada para impedir.
estava na cozinha, preparando algo simples, mas reconfortante, quando o viu entrar. Seu sorriso habitual surgiu ao vê-lo com as mãos ocupadas, mas o brilho nos olhos dela desapareceu por um segundo quando notou a expressão distante que ele trazia. As gotas de gelo que escorriam de seus cabelos pareciam mais pesadas do que o habitual. Algo estava errado.
Sian, com a energia de uma criança que ainda acreditava que o mundo era cheio de possibilidades, correu até ele, os passos apressados e descoordenados, quase tropeçando nas próprias pernas. Quando chegou perto, soltou um grito alegre que cortou o silêncio da casa fria.
— Jay! Jay! — ela exclamou, com os olhos brilhando de felicidade pura.
JayB abaixou-se para recebê-la, seu corpo se curvando como se o peso das horas que passaram o tivesse dobrado. Ao pegá-la nos braços, ele encostou o rosto no dela, e por um momento, tentou absorver aquele calor, o cheiro de infância, a pureza de um tempo que ele sabia que estava prestes a perder. Ele segurou Sian mais apertado, como se tentasse prendê-la, como se pudesse manter o momento intacto. Porque, no fundo, ele sabia que aquilo poderia ser o último.
— Trouxe lenha suficiente para mantermos o fogo por dias — disse, com a voz mais baixa do que ele gostaria. A alegria da criança no colo não conseguia apagar a sombra que o rondava. Ele forçou um sorriso, mas ele estava cansado. Não da viagem, mas da escolha que se impunha a ele.
observou a cena com um sorriso suave, mas logo percebeu que a quietude dele estava longe do habitual. Ela se aproximou, com passos firmes e atentos, e perguntou, sua voz suave, quase uma preocupação disfarçada.
— Está tudo bem? — Sua expressão era serena, mas havia algo em seus olhos que mostrava que ela sabia que ele não voltara inteiro. Ela esperava, e ele sabia que, por mais que tentasse esconder, perceberia.
JayB passou a língua nos lábios, um gesto nervoso. Deixou as madeiras caírem no canto, suas mãos tremendo um pouco enquanto se abaixava para deixar Sian no chão. A menina, animada demais para notar a tensão no ar, correu para brincar sozinha, suas risadas preenchendo o espaço, mas o silêncio pesado se formou entre os dois adultos.
Ele se sentou no chão, as pernas cruzadas, e puxou Sian para o colo. Ela se aninhou, tranquila, alheia às tempestades que JayB trazia dentro de si. sentou-se diante dele, e o silêncio continuou, como se o próprio ambiente estivesse esperando por uma resposta.
Ele olhou para as chamas que dançavam na lareira, a luz alaranjada refletindo em seus olhos, e suspirou profundamente. O som do fogo crepitando parecia, de certa forma, reconfortante, mas não conseguia afogar a inquietação que o corroía por dentro.
— Hoje encontrei um homem... um velho, perto da estação — começou, com a voz rouca, quase como se tentasse não acreditar nas palavras que estava prestes a dizer. ficou em silêncio, esperando. Ela sabia que algo estava prestes a ser revelado. Ele não sabia por onde começar, então respirou fundo e continuou. — Ele parecia me conhecer. Como se soubesse de onde eu venho, de quem eu sou.
o observava atentamente, sua expressão imperturbável. Ela sabia que a verdade precisava ser dita, mesmo que fosse difícil.
— O que ele disse? — A pergunta foi simples, mas carregada de uma preocupação silenciosa.
JayB fechou os olhos por um momento, tocando o cabelo de Sian adormecida, tentando organizar os pensamentos. O velho havia dito tantas coisas, e ainda assim, parecia ter falado de maneira tão enigmática, tão desgastada, que ele mal conseguia entender.
— Ele disse que eu só tenho mais duas viagens. — Ele olhou para , os olhos cansados. — Uma de volta... e uma, se meu coração decidir voltar para cá. E, se eu voltar... é aqui que eu vou ficar. De vez.
O silêncio que se seguiu foi denso. ficou quieta, absorvendo as palavras dele, tentando entender o que estava em jogo. Ela podia ver a dúvida e o conflito nos olhos de JayB, algo que ele estava tentando esconder, mas que não podia ser negado.
— E o que você quer? — , com sua serenidade habitual, perguntou com a suavidade de quem conhece a alma de quem está ao lado
JayB fechou os olhos novamente, como se tentasse fugir de algo, mas não conseguia. O fogo na lareira estalava, como se a própria casa esperasse por uma resposta. Ele olhou para , depois para Sian, e em um suspiro, a verdade saiu.
— Eu não sei. — Ele sorriu, mas era um sorriso triste, desgastado. — No outro mundo, tudo é bonito por fora, mas tudo pesa. A fama, os olhos, as expectativas. Não sou dono de mim. Aqui… — Ele olhou para ela, como se fosse a primeira vez que estivesse realmente vendo-a. — Aqui, eu sinto que posso respirar. Que existo. Que posso ser só... eu.
As palavras foram difíceis de engolir, mas ali, naquele espaço congelado, JayB sentia que finalmente encontrara um pedaço de paz, algo que ele não sabia que estava buscando até então.
— E quando olho para você e para Sian, eu sinto que encontrei algo que não sabia que procurava. Algo que, talvez, eu nunca tenha procurado de verdade antes.
, que escutava com o coração aberto, não respondeu de imediato. Ela apenas se aproximou dele, com o corpo ainda frio do inverno, e segurou sua mão. Seus dedos estavam gélidos, mas o toque dela era seguro e caloroso. Era o calor que ele precisava, o que ele mais temia perder.
— Então vive isso. Por enquanto. Como se o tempo fosse acabar. — Sua voz era firme, mas cheia de uma suavidade que fazia os olhos dele arderem. — Porque talvez acabe. Mas se acabar… que seja com você inteiro.
JayB a olhou, tentando entender a profundidade das palavras dela. Ela sabia o que ele precisava. Ela sabia, mais do que ninguém, que o tempo era algo volúvel, e que ele deveria viver cada segundo. E, por um instante, JayB se entregou ao momento, permitindo-se sentir algo que ele temia. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer mais nada, mas seu coração sabia que, por mais difícil que fosse, ele estava começando a fazer sua escolha.
Nos dias seguintes, JayB viveu como se cada amanhecer fosse um presente. Ele se dedicou a ajudar a reparar o abrigo, a ensinar Sian a desenhar na neve com galhos secos, a rir das brincadeiras infantis da menina e a ouvir o som das respirações tranquilas delas enquanto dormiam. Aqueles momentos, aparentemente simples, começaram a se tornar preciosos demais para serem ignorados.
Mas no sexto dia, o céu mudou. Não de forma dramática, mas na sutileza de um pressentimento. O ar parecia mais pesado, a luz do sol mais apagada, como se o mundo estivesse se preparando para algo que ele não queria entender. Dentro dele, algo puxava, uma sensação de inevitabilidade. Ele sabia que estava prestes a partir. De novo.
E, desta vez, seria a penúltima vez.
A última viagem estava cada vez mais perto, e ele sabia que, ao contrário de todas as outras, essa viagem não teria mais volta.
❄️❄️❄️
O barulho da cidade o atingiu antes mesmo de abrir os olhos.
O som distante do tráfego, a sinfonia constante de buzinas e motores, o tic-tac rítmico do relógio de parede, o feixe de luz que atravessava as cortinas espessas e iluminava as paredes em tons de amarelo pálido.
Seul estava viva, cheia de pressa e energia, mas a verdade era que JayB já não se sentia mais parte daquele caos acelerado e incansável.
Ele acordou na cama onde sempre esteve, o colchão tão macio, a temperatura da casa tão controlada, o silêncio da cidade tão familiar. E, ainda assim, nada parecia tão... confortável. Era um conforto vazio, impessoal. Algo em seu interior gritava que, apesar de tudo estar como deveria, ele não pertencia mais a esse mundo. Não completamente. Não como antes.
Ele sentou-se na cama e olhou para as paredes ao seu redor. A suavidade do ambiente só aumentava a sensação de desconexão. Era como se, por mais que tentasse se ajustar, o que ele tinha passado — o que ele encontrou no outro mundo — não pudesse ser apagado. Nada ali fazia sentido como antes.
Passou os primeiros dias com a mãe, tentando preencher os vazios com gestos de carinho. Ela estava melhor. Os exames mostravam sinais de recuperação, e isso devia ser o suficiente para trazê-lo de volta à realidade que ela tanto desejava. Ele sorria, mas era um sorriso cansado, forçado. Não conseguia se convencer de que tudo estava bem.
A mãe, sempre atenta, não deixava de perceber que havia algo estranho em seu filho. Algo mais distante. Ela segurava a mão dele com uma ternura maternal, mas os olhos dela estavam inquietos, como se soubesse que, por mais que ele estivesse ali, uma parte dele ainda estava longe.
— Você tá diferente, Jaebeom. Seus olhos... estão mais quietos. — disse ela, uma tarde, a voz suave, mas carregada de uma sabedoria que só uma mãe poderia ter.
Ele sorriu e beijou os dedos dela, tentando esconder o que sentia.
— É só cansaço, omma.
Mas não era. Ele sabia disso. E ela sabia. O silêncio entre eles disse mais do que qualquer palavra poderia.
Com os amigos, as coisas também estavam diferentes. Youngjae parecia mais calmo, mais centrado, mas ainda havia algo de pensativo em seu olhar, uma intensidade subjacente que não passava despercebida. Em uma madrugada silenciosa, os dois estavam sentados no sofá, com copos de chá quente nas mãos e a playlist antiga do grupo tocando suavemente ao fundo, como uma lembrança dos tempos de antes.
— Eu quase larguei tudo — Youngjae disse, quebrando o silêncio com uma sinceridade inesperada. — Mas você me acalmou, mesmo sem estar aqui. Senti sua falta, hyung.
JayB o olhou, sem saber o que responder. As palavras pareciam distantes, como se houvesse uma barreira invisível entre ele e os outros. Ele também havia pensado em largar tudo. Pensado, sim, mas não teria coragem de admitir isso em voz alta. Porque ninguém sabia o peso que ele carregava. E, na verdade, ele também não tinha certeza do que queria mais.
A sensação de estar perdido crescia a cada passo que ele dava. Ele passeou pelas ruas de Seul, as lembranças de anos passados ecoando a cada esquina. Ele se sentou em uma cafeteria com BamBam, riu com Yugyeom, que ainda dançava como se o tempo não tivesse parado para ninguém. Era como se a cidade continuasse a seguir em frente, mas ele não conseguia mais se encaixar.
Atravessou o Han River uma tarde. O vento frio cortava seu rosto, e a vista da cidade, com seus prédios altos e luzes piscando ao longe, parecia uma pintura distante. Mas o aperto em seu peito não diminuía. Em sua mente, , Sian, o abrigo, a neve, o calor nos olhos delas estavam sempre ali, tão vivos quanto a cidade ao seu redor.
Ele amava Seul. Mas amava também o outro mundo. E, cada vez mais, a ideia de ter que escolher entre os dois mundos parecia inevitável. Sabia que em breve teria que tomar essa decisão.
E, de repente, a angústia se tornou mais clara. A próxima viagem... seria a última. E fosse qual fosse a direção, haveria perdas. Haveria despedidas. E ele não sabia como sobreviver a elas.
Com essa certeza cravada em seu peito, JayB se lançou na rotina como se cada dia fosse o último. Como se cada momento fosse a última chance de saborear o que a vida lhe dava, mesmo que fosse breve.
A última risada no estúdio, com os amigos em torno dele, fazendo piadas sobre a música do último álbum. O último pôr do sol visto do telhado da gravadora, quando ele ficava parado, observando a cidade abaixo como se fosse um observador distante de sua própria vida.
O último jantar com a mãe, onde as palavras não eram suficientes para expressar o quanto ele já sabia que poderia perder.
Talvez tudo aquilo fosse realmente o fim. A última vez. A despedida. E, se fosse, ele queria que fosse com o coração inteiro.
Naquela noite, Jaebeom não conseguiu encontrar paz no sono.
Estava deitado em sua cama, rodeado por tudo o que a vida lhe proporcionara — o sucesso, o reconhecimento, a estabilidade que muitos desejavam. Mas, no fundo, ele sentia que algo lhe faltava. Mesmo com as cobertas quentes e a visão das luzes da cidade cintilando ao longe, o vazio era palpável, como se o ar ao seu redor tivesse perdido algum tipo de vitalidade.
Ele estava ali, no lugar onde deveria se sentir completo, mas algo não se encaixava. Ou melhor, alguém não se encaixava.
O relógio na mesinha ao lado da cama mostrava 03:47 quando Jaebeom se levantou, num impulso. Caminhou lentamente pela sala escura, os passos suaves sobre o piso de madeira. A casa parecia estar em harmonia, mas a paz era um fardo pesado para ele. Chegou até a janela e a abriu com um suspiro, sentindo a brisa fria da madrugada beijar seu rosto.
Seul estava acordada — o céu estava claro, mas nenhuma estrela se atrevia a aparecer entre as luzes ofuscantes da cidade. Apenas os letreiros, os faróis dos carros, o incessante movimento das ruas. O mundo estava vibrando, sem pausas, sem descanso.
E foi então que ele sentiu.
Uma onda de calor percorreu seu corpo, começando nas costas e subindo até o peito. Era uma sensação estranha, quase etérea, como se o ar estivesse se tornando mais espesso, mais quente, mais próximo de algo que ele havia deixado para trás. Uma sensação que só poderia significar uma coisa.
Ele fechou os olhos, tentando se concentrar. E, no momento seguinte, os sons começaram a invadir sua mente como se o tempo e o espaço tivessem se dobrado.
O cheiro da lenha queimando, um calor pungente e acolhedor que ele conhecia tão bem. A risada doce de Sian, chamando-o com a inocência de quem ainda acreditava que o mundo era simples. O som suave da neve caindo sobre o solo, uma música que só a natureza podia compor. E, acima de tudo, o toque firme e gentil de , suas mãos envoltas nas dele, oferecendo algo que ele não sabia se merecia.
O mundo gelado estava chamando-o novamente.
A certeza começou a tomar conta dele. Ele sabia que, se retornasse, não haveria volta. A última viagem era um caminho sem retorno, e ele tinha apenas uma escolha a fazer: seguir em frente, para onde o calor daquelas lembranças o aguardava.
O dia seguinte começou cinzento, com um clima de despedida no ar. O grupo estava reunido para uma gravação importante. Cada momento ali parecia ter um peso diferente, como se ele estivesse tentando gravar em sua memória até os menores detalhes: o jeito cuidadoso de Jinyoung ao ajustar o microfone, as piadas descontraídas de Jackson que ecoavam pelo estúdio, os olhos focados e intensos de Mark, sempre atentos. Aqueles momentos eram agora preciosos demais, mas ele não podia mais se enganar. Cada um deles estava ali, mas ele sabia que, em algum momento, teria que seguir outro caminho.
Depois, foi até sua mãe. A casa estava quente, como sempre, e o cheiro da comida caseira se espalhava pelo ar. Ela preparou seu prato favorito, e os dois conversaram sobre o passado, sobre os pequenos detalhes da vida que pareciam tão distantes quando ele estava longe. Ela falava sobre o tempo, sobre o que ele significava para ela.
“Às vezes, filho… o coração da gente já tomou uma decisão antes mesmo da gente perceber.” A voz dela era suave, mas suas palavras cortaram como uma faca. Ela sabia. De algum modo, ela sabia.
Jaebeom sorriu, mas a dor estava ali, apertando sua garganta. Ele engoliu a vontade de chorar, de abrir o peito e contar tudo o que sentia. Mas, ao invés disso, deu-lhe um sorriso cansado e beijou seus dedos. Ele não precisava de palavras para ela entender que algo estava errado.
Naquela noite, depois de mais uma rotina que parecia já ter sido vivida mil vezes, Jaebeom se retirou para seu quarto. Pegou o caderno onde costumava rabiscar suas letras, aonde escrevia sua alma. Não era uma música para ninguém ouvir, não mais. Era apenas uma última tentativa de deixar algo para trás. De fazer com que aquela parte dele, que se sentia perdido, fizesse sentido em palavras.
A caneta deslizou sobre o papel, mas suas mãos tremiam. Cada linha, cada verso parecia uma despedida mais profunda do que a anterior. Ele não sabia ao certo o que estava escrevendo, mas sabia que, no fundo, estava tentando se prender a algo que não poderia mais ter. Não da mesma forma.
❄️❄️❄️
Era uma noite calma em Seul. A cidade, embora distante do seu apartamento, ainda se fazia presente. As luzes da cidade iluminavam a janela de Jaebeom, mas, dentro de sua casa, o ar estava pesado, carregado de algo que ele não podia explicar direito. O silêncio parecia mais denso do que nunca, como se a tranquilidade do ambiente contrastasse com a tempestade silenciosa que ele sentia dentro de si. Ele sabia que o tempo estava correndo. Ele não sabia exatamente quanto tempo lhe restava ali, mas sentia que algo estava prestes a mudar, e a sensação era palpável, quase insuportável.
Ele olhou para os meninos, que estavam espalhados pela sala, rindo, conversando sobre trivialidades e se distraindo com piadas de Jackson. A luz suave da sala refletia em seus rostos, criando uma sensação de familiaridade reconfortante. Mas Jaebeom sabia que aquela normalidade estava prestes a ser quebrada. Ele sentia que o momento estava ali, à porta, e que ele não poderia mais adiá-lo.
Foi então que, sem que ninguém soubesse o que estava por vir, ele se levantou devagar, como quem sentia o peso do mundo nos ombros. Quando ele se sentou à frente deles, os meninos notaram a diferença. A leveza habitual da sala desapareceu. O olhar de Jaebeom era sério, carregado de algo que nenhum deles poderia identificar de imediato, mas que, sem dúvida, os deixava alertas.
Ele passou as mãos nos cabelos, como se tentasse organizar seus próprios pensamentos antes de falar. O silêncio entre eles se alongou, cada um esperando que ele tomasse a palavra. O peso das palavras que ele estava prestes a dizer estava tão evidente que até o riso fácil de Jackson morreu na boca dele. A inquietação se espalhou, e Jaebeom não conseguiu mais adiar.
— Eu… — Ele começou, mas as palavras saíram entrecortadas. Engoliu em seco, tentando se recompor, mas algo na sua garganta parecia bloqueá-lo. Ele respirou fundo, os olhos fixos em cada um dos meninos, sentindo o vazio dentro de si crescer ainda mais com o peso do momento. — Eu não sei quanto tempo mais vou estar aqui com vocês. A vida muda muito rápido, de uma forma que a gente não pode controlar. Quando isso acontece, tudo o que a gente pode fazer é tentar lidar com o que vem depois.
Ele parou, seus olhos deslizaram de um a um, observando-os. Cada um estava em silêncio agora, como se tentassem entender a magnitude daquelas palavras. Jaebeom podia sentir a tensão tomando conta da sala. Ele sabia que os meninos estavam começando a perceber o que estava acontecendo, mesmo sem que ele tivesse dito tudo o que estava em sua mente. A sensação de despedida era palpável, e ele não conseguia mais escondê-la.
— Eu só queria que soubessem… — Ele forçou mais uma vez. Sua voz estava baixa, quase frágil, como se temesse que, ao dizer o que realmente sentia, perdesse algo ainda mais precioso. — Se algum dia eu sumir, ou precisar me afastar, não se preocupem, tá? Não é que eu não queira estar aqui, com vocês. Mas quando você sente que o mundo ao redor pode mudar de uma hora para outra, a única coisa que a gente consegue fazer é aproveitar o que tem. E eu quero que cada momento que passamos juntos seja lembrado. Eu nunca vou esquecer nada disso. Nunca.
Havia um peso indescritível nas suas palavras, e ele sabia que os meninos podiam sentir isso. A pausa que se seguiu foi longa. Cada um tentava digerir a gravidade do que acabara de ser dito, sem saber como responder ou o que pensar. O olhar de Mark estava fixo no chão, como se não pudesse encontrar forças para olhar Jaebeom diretamente. Jinyoung estava com os olhos baixos, mas o olhar dele parecia mais profundo do que o normal. Ele estava tentando entender, mas também, de alguma forma, estava começando a aceitar. Jackson, o mais extrovertido, o mais brincalhão, foi o primeiro a tentar aliviar a tensão.
— Não seja tão dramático, hyung — disse ele, rindo, mas sua risada soava forçada. Era como se estivesse tentando proteger a si mesmo mais do que aos outros. Jaebeom sabia disso, sabia que Jackson estava tentando esconder a preocupação. Mas a tentativa de humor não disfarçou a apreensão no ar.
Jaebeom sorriu fraco, tentando devolver a leveza com o mesmo tom de Jackson, mas algo dentro dele não conseguia mais brincar. Ele estava sendo sério, muito mais sério do que jamais poderia imaginar.
— Eu não estou sendo dramático — disse, o tom da voz agora mais firme, mas sem perder a suavidade. Ele olhou para os meninos, um por um. — Eu só preciso que vocês saibam, se algum dia eu me afastar, se algo acontecer… Eu não quero que fiquem pensando que eu não fiz tudo o que pude. Eu não quero deixar nada não dito, nenhum arrependimento.
A sala ficou em silêncio. Cada um digeria aquilo de forma diferente. O peso das palavras parecia flutuar no ar, e Jaebeom sentiu como se estivesse deixando um pedaço de si ali, com eles. Como se a despedida já tivesse começado, sem que ele tivesse dito “adeus” de fato.
Foi Jinyoung quem quebrou o silêncio, sua voz suave, mas cheia de significado.
— Você sempre vai ser nosso líder, Jaebeom — disse, e suas palavras saíram com uma firmeza tranquila, como se fosse um fato inquestionável. — Você sempre vai ser a nossa força, não importa onde você esteja. Sempre.
Jaebeom fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquelas palavras se instalar dentro dele. Ele respirou fundo, tentando controlar a emoção que ameaçava transbordar. Mas, ao mesmo tempo, uma sensação de paz tomou conta de seu peito, como se ele finalmente tivesse feito o que precisava.
— Obrigado — murmurou, a voz falhando levemente. Ele se levantou lentamente, sem olhar para trás, o peso da despedida ainda muito presente, mas também um certo alívio por ter dito o que precisava ser dito. O ar estava denso, e a atmosfera ao redor deles parecia estar se fechando.
Ele caminhou até a porta, sentindo a dor das despedidas ainda não ditas pairando no ar. Quando saiu da sala, deixou para trás os meninos que, silenciosos, absorviam tudo o que ele havia dito. Eles sabiam, assim como ele, que a despedida não precisava de palavras finais. Ela estava no olhar, no silêncio, no sentimento de que algo estava se encerrando, mesmo sem ser completamente anunciado.
A casa estava quieta, envolta por um silêncio que não era desconfortável, mas cheio de pequenas memórias. Cada objeto parecia guardar ecos de outros tempos — o relógio antigo marcando o tempo em compassos calmos, os retratos na parede refletindo sorrisos que pareciam tão distantes agora. O cheiro inconfundível de chá recém-feito e arroz no vapor pairava no ar, como uma carícia nos sentidos. Era um cheiro que sempre fizera Jaebeom se sentir em casa. Seguro. Protegido.
Ele caminhou devagar até a cozinha, os passos amortecidos pelo tapete desgastado no corredor. Ao entrar, viu sua mãe sentada à mesa, com o rosto levemente inclinado para frente enquanto mexia o chá com delicadeza. Os dedos finos, marcados pelo tempo, seguravam a colher como se fosse um ritual sagrado. A luz da manhã atravessava as cortinas floridas, acariciando seus cabelos grisalhos e realçando a serenidade de seu semblante.
Ela não disse nada ao vê-lo. Apenas ergueu os olhos, e seu sorriso pequeno, contido, o atingiu com a força de um abraço. Mas o que mais o desestabilizou foi o olhar dela — aquele olhar de quem já sabia. De quem sempre soube.
— Mãe… — a palavra saiu baixa, como um sussurro trêmulo. Ele parou ao lado da mesa, os olhos buscando nos dela um apoio que ele ainda não sabia como pedir. — Tem algo que eu preciso te dizer.
Ela não respondeu de imediato. Apenas terminou de mexer o chá e repousou a colher com cuidado sobre o pires. Seus olhos não deixaram os dele.
— Às vezes, eu sinto como se estivesse à beira de perder tudo — Jaebeom continuou, a voz rouca, a garganta apertada como se cada sílaba machucasse. — Tem algo vindo, algo que… vai mudar tudo. E por mais que eu queira lutar contra isso, eu sei que não posso. Não dessa vez.
A mãe apenas ouviu. Seus olhos não o julgavam, não o interrompiam. Era como se o acolhessem inteiramente, como se já tivessem ouvido aquelas palavras no silêncio dos gestos dele.
— Eu só… não quero te decepcionar. — Ele abaixou a cabeça, os dedos tremendo ao apoiar-se no encosto da cadeira. — Você sempre foi meu porto seguro. Meu norte. E se eu tiver que ir… se eu tiver que sumir… não quero que ache que fui fraco ou que não tentei. Só quero que saiba que eu amei cada segundo dessa vida que você me deu.
Por um instante, o tempo pareceu parar. Ela se levantou devagar, o movimento tão tranquilo quanto sua presença. Caminhou até ele com passos leves, como se o chão inteiro pertencesse a ela. E quando chegou perto, estendeu as mãos e segurou as dele com firmeza.
— Jaebeom… — sua voz era baixa, mas firme, como o som da chuva caindo no telhado em noites longas. — Você nunca me decepcionaria. Nunca. Você é meu filho, meu maior orgulho. E não importa o que o mundo coloque no seu caminho, você sempre terá minha bênção.
Ele a olhou, os olhos marejados, sentindo a alma tremer diante daquelas palavras. Era como se ela o perdoasse por algo que ele ainda nem tinha feito. Como se dissesse, sem dizer, que já o havia libertado de qualquer culpa antes mesmo de ele carregar qualquer peso.
— Mas eu posso não voltar, mãe. — Sua voz saiu em um sussurro rachado, carregando o medo que ele não conseguia mais esconder. — E eu sei que, no fundo, você já sentiu isso. Já entendeu.
Ela levou a mão até o rosto dele, acariciando com ternura a linha da mandíbula, como fazia quando ele era menino. Seu toque era quente, reconfortante, mas havia ali também uma despedida silenciosa, um entendimento mútuo de que talvez aquele fosse o último momento entre eles.
— Onde quer que você vá, você estará comigo — ela disse, com os olhos marejados, mas o rosto sereno como o céu depois da tempestade. — Eu te carrego aqui — e levou a mão ao próprio peito. — Sempre. Vai em paz, meu filho. Vai com coragem. E saiba que, mesmo distante, meu amor vai te alcançar.
Jaebeom fechou os olhos, e as lágrimas finalmente escaparam. Não chorou alto, não soluçou. Mas deixou as emoções fluírem no silêncio daquela cozinha, onde tantos cafés da manhã foram divididos, tantas conversas sem pressa aconteceram. O lugar onde ele aprendeu a amar em silêncio e com profundidade.
Ele a abraçou. Apertado. Forte. Como se pudesse eternizar aquele gesto na memória.
— Eu te amo, mãe — sussurrou, com a voz embargada.
Ela não respondeu com palavras. Apenas o abraçou de volta, e naquele toque, havia tudo. Toda a vida, todo o amor, toda a despedida que eles não ousavam nomear.
Quando ele se afastou, algo dentro dele já sabia: ele estava partindo. E, mesmo sem dizer, ela já o havia deixado ir.
E então, quando o calor ao seu redor começou a se dissipar, quando a luz na sala se distorceu, quando o mundo pareceu parar de girar por um breve segundo… ele não resistiu.
Deixou-se levar. Deixou que a última viagem o envolvesse. Sem palavras, sem questionamentos, apenas a certeza de que não havia mais nada que ele pudesse fazer. O chamado era forte demais para ignorar.
E assim, no silêncio da madrugada, ele se foi.
Quando Jaebeom atravessou o véu entre os mundos e finalmente pisou novamente na Seul congelada, o tempo pareceu desacelerar, como se o próprio universo prendesse a respiração. Cada floco de neve em suspensão parecia parar no ar por um breve segundo, girando em câmera lenta ao redor dele, como uma saudação silenciosa de boas-vindas.
O vento cortava a pele com sua lâmina invisível, mas Jaebeom não sentiu dor. O frio, que costumava castigar, agora era quase um velho conhecido que o acolhia de volta. Ele não estremeceu, não hesitou. Ali, naquele mundo suspenso em inverno, ele se sentia estranhamente completo — como se algo finalmente tivesse se encaixado dentro dele.
A cidade ainda vestia branco, como se o inverno tivesse decidido fincar raízes por tempo indeterminado, mas havia algo diferente naquela tarde. Não era o clima. Era ele.
Jaebeom caminhava devagar pelas ruas semi-desertas, sentindo os flocos de neve pousarem suavemente nos ombros. O estúdio aparecia logo à frente, com as janelas iluminadas em tom âmbar, como um farol silencioso no meio do concreto gelado.
Do lado de fora, um boneco de neve incompleto aguardava por olhos, nariz e boca — uma promessa congelada de que alguém esperava que ele voltasse.
E ele voltou.
O portão rangeu ao ser empurrado. Ele subiu os poucos degraus da entrada com passos lentos, quase hesitantes, até que a porta se abriu antes mesmo que ele tocasse a maçaneta.
— Você demorou — disse uma voz fininha, firme.
Sian estava ali, parada como uma pequena guardiã de tudo o que importava. As bochechas coradas pelo frio e os olhos atentos, como se buscassem confirmação de que ele não era só mais uma ilusão.
Jaebeom se abaixou para ficar na altura dela.
— Mas voltei, não voltei?
Ela o observou por um segundo longo demais, até que assentiu e o abraçou com força. Um abraço silencioso, quase desesperado, como se quisesse colar os pedaços de um medo antigo que começava, enfim, a se dissolver.
Ali, naquele gesto pequeno e absoluto, Jaebeom entendeu tudo o que precisava saber.
Do corredor, surgiu, recostada na moldura da porta, com uma caneca de chá quente entre as mãos. Usava um moletom surrado e uma expressão indecifrável. Ela não sorriu imediatamente, tampouco correu até ele. Apenas o encarou. Como se estivesse esperando mais do que uma presença física. Como se quisesse ter certeza de que ele havia voltado inteiro.
— Então... — ela disse, com um sopro de voz, que escapou no ar como fumaça — decidiu?
Jaebeom se levantou, caminhando até ela. Pegou a caneca sem pedir, sentindo o calor invadir seus dedos frios. E olhou ao redor.
O sofá velho, agora coberto por mantas. As guitarras encostadas no canto, em silêncio. Os desenhos infantis colados na parede. O cheiro de canela e algo assando no forno. A trilha sonora baixa que vinha de uma caixinha de som esquecida no aparador.
A vida ali tinha mudado. Ele também.
— Eu pensei em tudo o que deixei pra trás — ele começou, a voz rouca. — Amigos, família, uma carreira que eu construí com sangue. Mas nada disso me segura mais. Porque aqui… é onde o meu coração bate mais forte. Onde eu não preciso fingir que estou bem quando não estou. Onde eu posso simplesmente ser… eu.
baixou os olhos, apertando as mangas do moletom com os dedos.
— Eu achei que você não ia voltar — confessou. — Achei que talvez tivesse sido só um intervalo. Que a gente era só… uma pausa no caos.
Ele se aproximou, encostando a testa na dela com suavidade. A mão dele tocou o queixo dela com um cuidado quase reverente.
— Eu tive medo. Medo de ficar, medo de partir. Mas entendi que fugir não era mais uma opção. Eu não quero só sobreviver. Eu quero viver. Aqui. Com você. Com a Sian.
Um suspiro escapou dos lábios dela, quente e breve.
— Eu estava me preparando pra esquecer você — ela murmurou. — Porque amar alguém que não sabe se vai ficar... cansa.
— Eu sei — ele respondeu, encostando os lábios na testa dela. — Mas agora você não precisa mais esperar.
Eles ficaram assim por alguns segundos, respirando no mesmo compasso. Não havia mais palavras necessárias. Só a presença. Só a certeza.
Do lado de fora, Sian apareceu na varanda com as luvas tortas e o gorro torto.
— Jaaaaay! Vem logo! Nosso boneco de neve ainda tá pelado!
Jaebeom riu, afastando-se de com um beijo leve na bochecha.
— Parece que estou sendo requisitado.
— Ela mandou você — disse, tentando disfarçar um sorriso.
— Uma líder nata — ele respondeu, já indo em direção à porta.
Ele se jogou na neve ao lado da menina, e o riso dos dois encheu o ar, ecoando pelas paredes do prédio e pelos andares de concreto da cidade que nunca dormia.
os observava da janela, com a caneca ainda entre as mãos. Não dizia nada. Não precisava.
Naquele instante, ela sabia: o tempo recomeçava ali.
As tempestades ainda viriam. O frio ainda retornaria com força. Mas agora, não era mais exílio. Era lar.
Porque às vezes, não é o lugar que muda — é a gente que aprende onde o coração mora.
O palco era enorme, sim, mas ele se sentia preso nele. Como se cada metro quadrado empurrasse suas costelas, exigindo mais, sugando mais.
A batida da música pulsava forte no peito, ritmada como um lembrete cruel: Sorria. Performe. Resista.
À sua frente, os outros membros estavam perfeitamente alinhados, as coreografias milimetricamente ensaiadas. Ele se movia junto, os músculos obedecendo por instinto, enquanto a mente escapava por uma rachadura invisível, como fumaça que não se deixa conter.
Os olhos de Jaebeom pareciam fixos em algum ponto da arquibancada, mas, por dentro, ele via além. Muito além.
Havia algo errado naquela noite.
Não com o show. Não com o público. Errado nele. No centro do seu peito, algo vibrava com uma frequência estranha — como um acorde dissonante numa sinfonia perfeita.
E foi no instante em que a fumaça artificial tomou o palco que tudo começou a ruir.
Em um piscar de olhos, o calor abrasador das luzes deu lugar a um frio cortante que lambeu sua pele como gelo líquido. O som desapareceu. O rugido da multidão foi engolido por um silêncio absoluto, quase violento.
Ele piscou.
E não estava mais ali.
O chão ainda era sólido sob seus pés, mas o mundo ao redor… não era mais o mesmo. O palco sumira. O estádio também. Em seu lugar, ruínas. Um cenário pós-apocalíptico. O céu era um teto baixo de nuvens cinzentas, pesadas, e uma fina neve caía em flocos preguiçosos — como poeira de uma era extinta.
A Seul vibrante de poucos segundos atrás havia sido engolida por uma versão fantasma. A mesma cidade. O mesmo mapa. Mas sem cor. Sem voz. Sem alma.
Ele inspirou fundo — e o ar cortou os pulmões como se respirasse cacos de vidro.
O uniforme reluzente havia desaparecido. Agora usava uma jaqueta gasta, botas pesadas, calças térmicas encardidas de gelo. Os dedos estavam roxos, dormentes. Por um instante, confuso, ele se perguntou:
Qual das duas realidades é o sonho?
Ele conhecia aquele lugar. Já estivera ali antes.
Mais de uma vez.
Seul, a cidade que nunca dormia, agora parecia à beira de um sono eterno.
Jaebeom começou a andar entre os escombros. Os pés afundavam na neve suja que cobria antigas avenidas. Letreiros caídos. Prédios rachados. Carros abandonados, congelados no tempo. Um cartaz com o próprio rosto ainda balançava numa parede quebrada — como uma lembrança fantasmagórica de que o passado existiu… mas não importava mais.
Foi então que viu.
Perto da entrada semi-enterrada de uma estação de metrô, havia algo.
Ou alguém.
Um vulto pequeno. Imóvel. Observando.
Uma criança.
Jaebeom estacou. O coração falhou uma batida.
A menina tinha os cabelos longos, embaraçados, e usava uma jaqueta tão larga que quase tocava os tornozelos. Os olhos, escuros e intensos, estavam cravados nele — como se o conhecessem profundamente.
Mas ele… nunca a tinha visto.
Ou… já tinha?
A garotinha inclinou a cabeça de leve, sem sorrir.
E então, correu.
Sem pensar, Jaebeom foi atrás.
As batidas do coração aceleraram, ecoando no silêncio como tambores de guerra. A neve parecia mais densa, mais alta, como se ganhasse peso de propósito para impedi-lo de alcançá-la. Mas ele continuou. Algo dentro dele — mais forte que o medo, mais real que qualquer música — gritava que ele precisava encontrá-la.
Virou a esquina de uma viela estreita.
Vazia.
Só havia uma parede parcialmente destruída… e algo no chão.
Um pedaço de pano. Sujo, rasgado. Com um símbolo costurado à mão.
Ele se agachou, tocando o tecido com dedos trêmulos.
Reconheceu o símbolo antes mesmo de processar a imagem: o logo da antiga agência.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Fechou os olhos.
Quando os abriu… o frio se fora.
As luzes do palco explodiram em sua vista. O som retornou como uma avalanche: batidas, gritos, vozes. Estava de volta. Suado. Ofegante. Tremendo.
Ao redor, os membros ainda dançavam, ainda cantavam.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas algo tinha acontecido.
E alguém tinha visto.
Atrás de uma das câmeras, escondido na sombra da estrutura de gravação, havia um par de olhos atentos. Fixos nele.
Jaebeom engoliu seco, o coração ainda aos pulos.
Sabia.
Aquilo não tinha sido um delírio.
A fresta entre os mundos se abrira.
E agora… ela não queria mais se fechar.
O camarim fervilhava de vozes, passos, risadas e instruções, mas nenhuma delas parecia realmente alcançar JayB. Era como se ele estivesse imerso em um vidro grosso, onde tudo do lado de fora soava abafado, longe, irrelevante.
— Jaebeom, tá ouvindo? — Jackson ergueu uma garrafa de água e a sacudiu diante dele, os olhos cheios de preocupação. — Você tá suando como se tivesse corrido uma maratona.
JayB piscou. Ainda fixava o próprio reflexo no espelho à frente, mas algo nele estava errado. O rosto que encarava de volta parecia... deslocado. Como se pertencesse a outro homem, de outro tempo.
Ele ainda sentia o frio. O frio daquela Seul quebrada. Não só na pele — nos ossos. Como uma lembrança que não queria deixá-lo voltar completamente.
— Só cansei um pouco — murmurou, pegando a garrafa da mão de Jackson.
— Tá com aquela cara de "quero sumir" — Mark disse, largado no sofá, os pés sujos de dança apoiados na mesa como se o mundo não estivesse prestes a ruir. — Foi o setlist ou foi... aquilo?
O silêncio que se seguiu não foi casual. Foi denso. Intencional. Jackson franziu a testa.
JayB ergueu os olhos e encarou o espelho — mas era como olhar através dele. Os outros sabiam. Não tudo. Mas sabiam o suficiente para reconhecer a névoa em volta dele.
Eles também já tinham estado lá.
— Foi diferente dessa vez — disse ele, num tom baixo, como se ainda estivesse falando com o outro mundo. — Ela tava lá. Uma menina. Me viu. Me deixou algo. Não foi como antes.
— Você trouxe alguma coisa? — A voz de Yugyeom se sobrepôs às outras. Séria. Atenta. Ele podia ser o mais novo do grupo, mas era o que melhor sentia as rachaduras entre as realidades. Já havia passado por elas — e deixado partes de si lá.
JayB enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou o pedaço de pano. Ainda úmido. Sujo de neve e pó de concreto. O símbolo da antiga agência costurado à mão, em linhas vermelhas como sangue seco.
Ele o colocou sobre a mesa com cuidado. Como se fosse um artefato sagrado. Ou uma maldição.
O silêncio retornou, ainda mais espesso que antes. O tipo de silêncio que não é ausência de som, mas presença de algo invisível.
— Isso não devia ter vindo com você — Jinyoung quebrou, finalmente, a barreira. Sua voz era firme, mas os olhos… estavam escuros. — Os objetos nunca atravessam. Só nós. Isso... muda tudo.
Um calafrio percorreu a espinha de JayB. A fresta que se abrira não era mais apenas uma passagem. Era uma ponte. Ou pior: uma porta que agora rangia em ambos os sentidos.
— Talvez seja um aviso — murmurou, fechando os dedos ao redor do tecido, como se pudesse evitar que ele desaparecesse. — Ou um convite.
— Ou um jogo que a gente não entende. E a gente é a peça. — Jackson bufou, empurrando a franja para trás com uma expressão de incredulidade.
O ar ficou mais pesado. Todos sabiam que ele tinha razão, mas ninguém queria admitir.
Foi quando a porta do camarim se abriu com um estalo, interrompendo o peso do silêncio.
— Jaebeom-ssi — a gerente da agência surgiu com sua voz afiada, o blazer alinhado e os olhos impacientes. — Você precisa atender a imprensa. Agora.
Ele assentiu com um gesto breve, quase automático. Guardou o pano de volta no bolso como quem esconde um segredo antigo demais para ser contado.
Levantou-se.
Alongou os ombros como quem se prepara para um combate.
Inspirou fundo. E, então, vestiu o rosto que o mundo conhecia.
Mas antes de cruzar a porta, virou-se para os outros. O olhar sério, como se falasse de algo maior do que todos eles juntos.
— Se ela apareceu, é porque tem algo esperando do outro lado. E se aquilo... aquilo estiver vindo pra cá, a gente precisa decidir logo de que lado vai ficar.
— E se nenhum dos lados for seguro? — Yugyeom sussurrou, quase para si mesmo.
JayB não respondeu. Só cruzou a porta, engolido pelo brilho das câmeras, pelo som das perguntas, pela máscara que usava tão bem.
Mas o eco da pergunta ficou ali, pendurado no ar do camarim como a poeira da Seul esquecida.
Frio. Silencioso. Persistente.
O vento cortava como lâmina enquanto deslizava pelas ruas despidas da antiga Seul. O som era um sussurro constante, um lamento que ecoava pelas ruínas como se a cidade estivesse tentando lembrar ao mundo que, um dia, foi viva.
JayB andava devagar, os passos ecoando no gelo quebradiço que recobria o chão. A cidade morta, como ele havia aprendido a chamá-la, era uma cicatriz no tempo. Prédios retorcidos, postes tombados, vitrines estilhaçadas. Tudo ali era fantasma — exceto o frio. Esse era sempre real.
Seu casaco pesava sobre os ombros, não pelo tecido, mas pelo cansaço. A travessia entre os mundos o deixava esgotado de formas que ele ainda não compreendia completamente. Toda vez que retornava, sentia-se menos artista, menos ídolo, e mais... homem.
Um homem despido de luzes, câmeras e expectativas.
Ali, a fama não valia nada.
Atravessou um beco estreito, onde o som dos próprios passos era abafado pela neve. O ar tinha gosto metálico, denso, como se estivesse respirando ferro. Mas, naquele dia, algo furou a monotonia.
Pegadas.
Minúsculas, apressadas, recém-marcadas.
JayB se agachou, os olhos analisando os sulcos na neve. O coração acelerou. Elas não eram dele. E não pertenciam a ninguém grande. Eram leves demais. Infantis.
Seguiu o rastro, guiado mais pelo instinto do que pela razão. Contornou os escombros de uma cafeteria, subiu lentamente os degraus enferrujados de uma escada externa e então parou. À sua frente, meio escondida sob um toldo rasgado, ela estava ali.
Encolhida como um passarinho ferido.
Uma menina de talvez sete ou oito anos. Tinha os joelhos puxados ao peito, os braços magros envolvendo um urso de pelúcia mutilado, sem olhos e com o enchimento escapando pelas costuras. A touca vermelha lhe caía torta sobre os cabelos castanhos. As luvas, desiguais, pareciam emprestadas de outras mãos.
Mas foi o olhar dela que o fez parar.
Dois olhos grandes e escuros, fixos nele com uma calma que não combinava com a idade. Uma calma antiga, como se ela já tivesse visto demais para se assustar.
JayB ergueu as mãos devagar, num gesto pacificador.
— Ei... — sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — Tudo bem. Não precisa ter medo.
A menina não se moveu. Nem mesmo piscou. Mas também não fugiu.
— Eu te vi... antes — ele continuou, sentindo o próprio coração martelar nas costelas. — Você me deixou isso, lembra? — Tirou do bolso o pedaço de pano, agora ressecado e endurecido pelo frio. — Era seu?
Ela olhou para o tecido por um longo instante, depois de volta para ele. Seus lábios se entreabriram, como se as palavras precisassem de força para sair.
— Você... brilha — disse, num sussurro quase levado pelo vento.
— Brilho? — JayB franziu o cenho, surpreso com a escolha das palavras.
— No outro lugar — ela explicou, ainda abraçada ao urso. — Lá você brilha, mas é... triste. Aqui, você não brilha. Mas é de verdade.
Aquelas palavras o atravessaram como uma flecha.
— Você consegue me ver nos dois lados?— Ele se sentou no degrau da escada, a alguns passos dela, tentando absorver o que acabara de ouvir.
Ela assentiu, e ele notou que seus dedos tremiam por dentro das luvas grandes demais.
— Como se chama?.
Silêncio. Por um momento, ele achou que ela não responderia..
— Sian — disse, por fim. — Minha mãe dizia que nomes são como abrigos. Que, se você disser o nome de alguém em voz alta, essa pessoa não se perde..
JayB engoliu em seco. Aquela frase parecia ter vindo de um lugar muito mais velho que aquela criança..
— Onde está sua mãe agora, Sian?
— O gelo levou ela. Ela disse que ia voltar, mas o vento começou a gritar. Eu me escondi aqui. E esperei. — Ela virou o rosto, olhando para o vazio atrás dos prédios destruídos. O céu continuava imóvel, sem cor, sem promessa.
— Você tá com frio? — JayB apertou o pedaço de pano na mão. A dor que sentiu foi silenciosa, mas profunda. Uma dor que não era só dele.
Ela assentiu novamente, os olhos abaixando por um instante, vulnerável como nunca havia se mostrado.
Sem pensar duas vezes, ele tirou o cachecol do pescoço e, com movimentos lentos, o enrolou sobre os ombros estreitos dela. Sian não se afastou. Seus dedos tocaram o tecido como se fosse algo precioso.
— Obrigada — sussurrou, quase sem voz.
JayB ficou ali, ajoelhado à sua frente, lutando contra o impulso de protegê-la de tudo. Da neve, do silêncio, do esquecimento.
— Você vai embora de novo? — ela perguntou, e havia algo naquela pergunta que soava maior do que a situação. Como se ela não estivesse falando só daquele mundo.
Ele hesitou.
Sim, ele iria. Sempre ia. Mas, naquele momento, não conseguia. Não queria.
— Não hoje — respondeu, sentando-se ao lado dela.
Ela encostou levemente a cabeça em seu ombro, e o gesto partiu o peito dele em partes que ele não sabia mais como juntar.
Ali, no meio do nada, no coração do que restava de um mundo esquecido, Jaebeom se deu conta de algo simples e terrível:
Ele importava.
Talvez não no palco. Talvez não sob os holofotes. Mas ali. Para ela.
E era isso que tornava tudo mais real.
Nos dias que se seguiram, JayB descobriu algo curioso sobre Sian: ela falava pouco, mas dizia tudo com os olhos.
Era como se tivesse aprendido a sobreviver no silêncio. Cada passo dela era um gesto calculado, cada olhar, uma leitura do ambiente. Sabia onde encontrar o gelo mais puro para derreter em água potável, onde as estruturas ainda suportavam o peso dos dias, e — mais importante — onde não pisar. Havia sons naquelas ruínas que não pertenciam a nenhum mundo conhecido. Uivos longos e graves, como se a própria cidade tivesse começado a lamentar sua existência.
JayB improvisou um abrigo num antigo estúdio de gravação. O letreiro apagado ainda tremulava no vento, pendurado por um fio de esperança. Lá dentro, os vidros milagrosamente inteiros deixavam a luz cinzenta filtrar com melancolia, e as cortinas grossas abafavam o som do que quer que rondasse lá fora.
Instrumentos esquecidos jaziam cobertos por uma camada de mofo e poeira. Teclados sem vida, cabos embolados, caixas de som mudas — fantasmas de uma música que um dia existiu. Mas ali, o silêncio era menos hostil. Quase íntimo. Um silêncio de espera, não de fim.
Sian andava descalça, mesmo quando ele insistia em cobrir seus pés com meias surradas.
— Se eu não sentir o chão, ele me engole — ela dizia, com aquela certeza frágil das crianças que viveram demais.
Na primeira noite, JayB a ouviu murmurar pela mãe enquanto dormia. Um sussurro entrecortado, como se seu subconsciente ainda tentasse buscá-la entre as fendas do tempo.
Na segunda noite, ela chorou. Não com sons — apenas com os olhos. Um choro que não pedia consolo, só espaço.
JayB não disse nada. Apenas sentou ao lado dela, as costas contra a parede fria, compartilhando o peso daquele silêncio.
Na terceira noite, ela falou, enquanto remexia os restos de um cobertor:
— Se você quiser... pode ir embora. Esse mundo não é seu.
Ele parou de abrir a lata de comida, a chave enferrujada fazendo um estalo surdo no metal. Seus dedos congelavam, mas o que gelava de verdade era o que ela dizia.
— E o seu é?
Ela ficou em silêncio por um momento, os olhos perdidos no teto rachado.
— Já foi. Agora... acho que sou de onde você estiver.
Essas palavras o atravessaram como lâmina quente. Uma criança que não pedia nada, mas oferecia tudo. JayB não conseguiu dormir naquela noite. Ficou olhando para a penumbra, tentando entender onde tinha começado a mudança dentro dele.
No quarto dia, JayB foi despertado por algo raro naquele mundo: o som de um riso.
Era leve, infantil, quase absurdo naquele cenário.
Ele saiu do estúdio, apertando os olhos contra a claridade baça. Sian descia uma ladeira coberta de neve usando um pedaço de isopor como prancha. A cena parecia arrancada de um tempo anterior ao fim, tão deslocada e tão bonita que doía de olhar.
Ela girou o rosto ao notar a presença dele, os cabelos escapando da touca vermelha como fios de brasa viva.
— Acha que consegue me alcançar, branquelo?
JayB arqueou as sobrancelhas, genuinamente surpreso. Riu. Uma risada que partiu de um lugar esquecido dentro dele.
— Branquelo?! Eu era dançarino, sabia? — respondeu, erguendo a voz acima do vento.
— Então prova!
E ele provou. Ou tentou. Deslizou atrás dela, tropeçando, rindo, escorregando como se seus músculos tivessem lembrado o que era alegria.
Caíram juntos na neve, ofegantes, molhados até os ossos, mas vivos. Sian se virou para ele e encostou a mão pequena sobre o peito dele, como se buscasse algo além da pele.
— Aqui dentro... ainda tem calor — disse, com a voz cheia de certeza.
JayB não respondeu. Apenas olhou para o céu cinzento, onde nenhuma luz jamais atravessava. O sorriso ainda nos lábios, mas os olhos marejando sem que ele entendesse por quê.
Ela era tudo o que aquele mundo não era: pulsante. Quente. Real.
E ele sabia, com a mesma certeza silenciosa de Sian, que mesmo que o mundo os tragasse... aquele momento já valia tudo.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele estava num lugar onde não nevava por dentro.
A transição nunca era suave.
Não havia um clarão, nem uma fissura no tempo. Não havia sinalização, trilha sonora, ou qualquer gentileza. Era apenas um piscar — e tudo mudava. Como acordar de um sonho com a sensação incômoda de que o sonho era mais real do que a própria vigília. Mais quente. Mais verdadeiro.
JayB abriu os olhos com o incômodo das luzes de camarim queimando sua retina. Luzes frias, duras, impiedosas. O tipo de luz que expõe, mas não revela nada de essencial.
O ar condicionado soprava em jatos fortes, perfumados artificialmente, mas ele sentia calor. O calor abafado das roupas justas, da maquiagem selada com pó, do suor que não podia existir diante das câmeras. O calor de um corpo presente num lugar onde a alma não estava.
— Hyung, acorda. — A voz de Yugyeom soou perto, junto com um leve toque no ombro. — Três entrevistas seguidas hoje. O cronograma tá uma loucura.
JayB apenas assentiu, a mente ainda em outro lugar. Os olhos piscavam rápido, tentando se ajustar, mas era como se parte dele recusasse aceitar onde estava.
Ainda podia ouvir o riso de Sian, agudo e livre, cortando o ar como uma lembrança que se recusava a desaparecer. Ainda sentia o toque leve dos dedos dela em seu braço, como se deixassem marcas invisíveis na pele. E o vazio — aquele maldito vazio — do momento em que ele a deixou dormindo, enrolada num cobertor improvisado com pedaços de tecido costurados às pressas. Antes de ir, ela sussurrou “volta logo” contra o ombro dele. E ele, engolindo a culpa, respondeu “eu volto”. Jurou.
Mas aqui... ninguém sabia de nada disso.
— Seu rosto tá estranho. — Jinyoung apareceu ao lado do espelho, a expressão cautelosa. — Tá tudo certo?
JayB obrigou os músculos faciais a se moverem num sorriso que não tocava os olhos.
— Só... sonhei demais, acho.
“Sonhei demais.” Como se fosse possível sonhar de menos, vivendo ali.
As entrevistas chegaram como tempestades coreografadas. Palavras previsíveis, sorrisos de plástico, perguntas que ele já sabia de cor antes mesmo de serem feitas.
— Como é estar de volta?
— O novo álbum parece mais maduro. Foi intencional?
— Há alguém especial na sua vida?
Ele respondeu tudo com a precisão de quem já decorou o script da própria persona. A voz no tom certo. A piada no momento exato. A hesitação fingida quando o assunto esbarrava em sentimentos. Era uma atuação tão bem ensaiada quanto qualquer performance de palco. Mas, por dentro, cada resposta soava como uma traição. Como se, ao não dizer a verdade, ele estivesse apagando lentamente as pegadas que havia deixado na neve.
Apagando Sian.
Mais tarde, no carro, protegido pelos vidros escuros que o separavam do mundo lá fora, JayB recostou a cabeça contra o vidro gelado.
A cidade passava embaçada, cheia de luzes demais, sons demais, gente demais. Tudo girava rápido demais.
— Não parece estranho pra vocês? — murmurou, quase como se falasse consigo mesmo.
— O quê? — perguntou Youngjae, sem desviar os olhos do celular.
JayB demorou para responder, como se as palavras pesassem.
— A gente viver aqui... com tudo funcionando. Todo mundo sorrindo. Mas por dentro... ninguém consegue respirar.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Não pelo que foi dito, mas pelo que foi entendido — e não respondido.
— É só cansaço — disse BamBam, tentando aliviar, o tom leve demais para a densidade do que flutuava ali. — Amanhã melhora.
Mas JayB sabia que não.
Não amanhã.
Nem depois.
Porque o amanhã dele não existia naquele mundo. O que o esperava era um cronograma impiedoso, contratos empilhados, câmeras famintas, uma relação que precisava esconder, e um sorriso forjado dia após dia até que o rosto esquecesse como era sorrir de verdade.
E do outro lado... do lado onde tudo era frio, feio, quebrado... havia silêncio. Escuridão. Incerteza.
Mas também havia Sian.
Uma garotinha de pés descalços e olhos que viam além. Uma criança que o fazia se sentir inteiro, mesmo aos pedaços. Que via nele algo que ninguém ali via.
Ele fechou os olhos.
E desejou — com tudo o que ainda restava dele — que a neve o chamasse de volta.
Nos dias que se seguiram, JayB tentou se convencer de que era só mais um recomeço.
A agenda voltou a se acumular. As mensagens da equipe eram incessantes. Ele sorriu para fotos, gravou vídeos para os fãs, fez coreografias repetidas até o corpo reclamar. Era o ritmo que ele já conhecia, o que sempre o afastava da dúvida, da incerteza. E, por um momento, tudo parecia funcionar. Como sempre funcionou.
Mas algo não encaixava mais.
A luz dos palcos parecia forte demais. O calor das câmeras queimava sua pele de maneira diferente. As palmas pareciam vazias. E os gritos... não tinham o mesmo som de quando uma garotinha, perdida no meio da neve, ria com a inocência de quem ainda acreditava em um mundo inteiro.
Na reunião com a agência, enquanto falavam de prazos, streams e colaborações internacionais, JayB encarava a janela. A realidade lá fora parecia infinita, mas algo dentro dele a tornava distante, fria. Seul brilhava como uma joia opaca, cheia de prédios que arranhavam o céu cinza. Carros se arrastavam no trânsito, pessoas corriam como se o mundo nunca fosse parar.
Ele piscou.
Por um instante, a cidade se distorceu. Como se uma camada de neve e gelo cobrisse tudo, suavizando os contornos. Ele viu, por um breve momento, a imagem de um lugar que não existia mais. Uma cidade desmoronada sob um céu eternamente nublado. Um lugar que parecia muito mais real do que este, mais autêntico, apesar da dor que nele habitava.
— JayB, tá ouvindo? — a voz do gerente cortou seus pensamentos, uma chamada insistente de volta ao mundo.
— Sim — respondeu, automaticamente. Mas não estava.
Ele pensava em Sian. Pensava se ela ainda estava brincando com o isopor, deslizando pela neve como se a infância nunca tivesse sido roubada dela. Se sentia fome. Se ainda lembrava que ele disse que voltaria. O pensamento a consumia por dentro, atravessando todas as imagens de shows, entrevistas e flashes de câmeras. Como se houvesse uma linha invisível conectando os dois mundos. E, no fundo, ele sabia que não poderia continuar a viver em ambos. Não como um homem completo.
Mais tarde, no dormitório, Jackson o encontrou sentado no chão do corredor, com uma garrafa pela metade e o olhar perdido. Seus olhos estavam opacos, como se tentassem encontrar algo que não podia mais ser visto.
— Você tá indo pra lá de novo, né? — a voz de Jackson era suave, mas não havia dúvida nela. Ele sabia, porque ele também já tinha sido engolido por aquele vazio.
JayB olhou para ele, como se o estivesse vendo pela primeira vez.
— Como você sabe? — perguntou, sem realmente querer ouvir a resposta.
Jackson se sentou ao seu lado. Eles não precisavam de muitas palavras para compartilhar a mesma dor. O silêncio era suficiente para que ambos entendessem.
— Porque eu também já fui. E sei como é difícil querer voltar — respondeu Jackson, a sinceridade nas palavras pesando entre eles. Ele não sorriu. Não havia motivo para isso.
Silêncio.
JayB respirou fundo, sentindo o peso do momento. Ele não sabia mais como respirar. Era um ar pesado, sujo de expectativas e rostos falsos.
— Mas o que tem lá que você quer tanto? — Jackson perguntou, com um tom que era ao mesmo tempo inquisitivo e compreensivo.
JayB olhou para a garrafa em suas mãos. Ela estava pela metade, mas ele não sentia o sabor da bebida. O vazio dentro dele era muito maior que aquilo.
Ele não hesitou. A resposta saiu como se fosse um grito abafado, um desabafo que ele vinha engolindo há dias.
— Liberdade. Silêncio. Uma criança que me chama de casa.
Jackson o observou em silêncio. Não havia mais nada a dizer. O que JayB procurava não estava naquele mundo de luzes e aplausos. E, no entanto, ele estava preso ali.
— Então volta. Mas não demora demais... porque às vezes o que a gente deixa pra depois... não espera.
As palavras de Jackson ficaram ecoando no ar, como um aviso. JayB apertou a garrafa com mais força, como se ela fosse a única coisa que ainda o ancorava à realidade. Ele sabia que, mesmo que quisesse, não podia mais viver inteiro num mundo que o queria pela metade.
O pensamento de Sian ainda estava ali, persistente. Como uma chama fraca, mas real. Ela o chamava de volta para o único lugar que fazia sentido, para um lugar onde ele ainda podia se sentir humano. Mas ele sabia que não seria fácil. O tempo estava se esgotando e o caminho de volta era um labirinto sem fim.
Ele se levantou do chão, com a sensação de que, a cada passo que dava, o peso do mundo aumentava. Sabia o que precisava fazer, mas não sabia se conseguiria.
Com a garrafa nas mãos, ele olhou uma última vez para o camarim, para as luzes que o chamavam, para a vida que ele construíra. E então, respirou fundo. Era hora de decidir.
A neve estava mais alta.
JayB sentia o peso do inverno em cada passo que dava. A cidade de Gangnam, que antes transbordava de vida e movimento, agora era apenas um cenário desolado. O silêncio era denso, cortante, como se até o vento tivesse se cansado de clamar por atenção. Nada se movia, exceto ele, seu corpo tremendo não pelo frio, mas por algo mais profundo. Algo que ele não sabia nomear.
Medo. Medo do que encontraria, ou do que não encontraria. Medo de estar voltando para algo que já não tinha mais sentido.
Medo de perder Sian.
Ele avançava entre os escombros com passos lentos, quase como se o próprio ambiente tivesse engolido a cidade que ele conhecera. As vielas pareciam se esticar infinitamente, se contorcendo de formas inesperadas, como se as ruas também tivessem se perdido. O céu acima era um manto cinza opressor, sem sol, sem estrelas, sem promessas de amanhecer.
Era como se ele estivesse sendo arrastado para dentro de uma lembrança que ele não queria reviver.
Então ele viu.
A última esquina que virou trouxe o coração de JayB para a garganta. O que antes parecia ser uma construção forte e protegida agora parecia mais frágil, amassada pelo tempo e pela neve. As madeiras que ele usara para barricar a porta estavam no mesmo lugar, mas agora pareciam mais como um lembrete de que o mundo havia mudado, e com ele, tudo o que ele conhecia.
JayB empurrou a porta, um som estridente ecoando no vazio. A sala ainda estava lá, mas não da mesma forma. E ela... Ela estava ali.
Sian, deitada em um cobertor improvisado, com o brinquedo de isopor na mão, parecia um eco distante do que ele lembrava. Mas ela estava viva. E isso foi o suficiente para ele.
Ao lado dela, uma mulher. Ela não se levantou quando ele entrou, não se assustou com sua presença. Seus olhos, calmos e penetrantes, estavam fixos nele com uma intensidade que o desconcertava. Castanhos como terra molhada, como se ela conhecesse o peso do mundo de uma forma que ele ainda não compreendia.
— Você voltou — a mulher disse, e sua voz não tinha urgência. Era a constatação tranquila de algo já esperado.
JayB franziu a testa, não entendendo. Ela não parecia surpresa ou com medo. Apenas estava ali, como se soubesse que ele viria.
— Quem é você? — ele perguntou, a voz rouca.
A mulher olhou para ele com calma, como se já tivesse ouvido essa pergunta mil vezes. Mas ao mesmo tempo, ela era como uma página em branco. Uma nova história.
— Me chamo . Encontrei a pequena vagando sozinha, há uns dias. Ela disse que você voltaria. Então, eu esperei com ela.
JayB não conseguia desviar os olhos dela. Algo naquela mulher... Ele não sabia o que era, mas a presença dela tinha algo de familiar, algo que o fazia sentir que estava em casa, mesmo sem entender por quê.
Ele olhou para Sian, dormindo tranquilamente, e sentiu um alívio esmagador tomar conta dele. Alívio e dor, uma mistura de sentimentos que o invadiu de forma inesperada.
— Obrigado — ele disse baixinho, a gratidão misturada com um vazio que ele não sabia como preencher.
apenas assentiu, sem pressa, como se estivesse compartilhando um pedaço de paz no meio do caos.
— Você vem de onde? — JayB perguntou, tentando entender quem ela era, o que ela estava fazendo ali. Ela parecia uma parte do mistério, e ele precisava de respostas.
— Daqui mesmo. De um pouco mais ao norte. Eu vivia em Mapo antes de tudo congelar. Agora... vivo onde ainda consigo encontrar abrigo. E comida.
Ele a observou com mais atenção. As mãos cobertas por luvas rasgadas, a cicatriz fina em sua bochecha, quase imperceptível, mas que parecia contar histórias que ele não conhecia. Algo sobre ela dizia que ela não tinha tempo para questionamentos. Ela era feita de sobrevivência, de resistência.
A pergunta que ficou na mente de JayB foi simples, mas cheia de significado.
— Não tem medo de mim?
o encarou diretamente. Seus olhos não vacilaram.
— Devia ter?
Ele sorriu com leveza, mas era um sorriso cheio de incertezas. Não. Ela não devia ter medo dele. E, talvez, nem ele tivesse mais medo dela.
Ela não o tratava como um ídolo distante. Não o via com a mesma reverência ou distância que o mundo sempre fizera. era... diferente. Como se fosse mais uma pessoa que ele já conhecia. Ou talvez fosse ele quem se sentia assim.
Silêncio.
Ele se abaixou lentamente, sentando-se ao lado dela. A proximidade foi instintiva. Quase como se o calor que ela emanava fosse a única coisa que ele ainda conseguisse reconhecer como real. Algo dentro dele, profundo e distante, relaxou. Mas ainda havia algo estranho entre eles. Algo que não podia ser resolvido com palavras. Algo que ele ainda não entendia.
— Posso ficar? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
o observou por um momento, estudando seus olhos. Sian, ainda adormecida, parecia não notar a conversa. Mas sabia o suficiente.
— Sian disse que você é o lar dela. Então... sim. Pode ficar.
JayB fechou os olhos, sentindo uma onda de alívio e cansaço. Pela primeira vez em dias, ele não sentia a necessidade de fugir. Não sentia a pressão de ser algo que não queria ser. Ali, com eles, ele não precisava ser JayB. Ele podia ser só um homem que encontrou um lugar no meio do caos.
Ele podia ficar.
E isso era tudo o que ele precisava saber.
JayB despertou devagar, como quem volta de um lugar distante. Sentia o corpo dolorido, a coluna protestando contra o chão duro, e um frio persistente que parecia ter entrado pelos ossos.
Mas havia algo diferente naquela manhã.
Um cheiro.
Era sutil, quase imperceptível, mas definitivamente presente — quente, terroso, como raízes fervidas e alguma memória esquecida do que era aconchego.
Ele abriu os olhos.
O teto rachado ainda estava lá, coberto de sombras que dançavam conforme a chama tremulante da pequena fogueira no canto da sala. O plástico preso com fita adesiva nas janelas rangia sob o vento do lado de fora. Mas o que chamou sua atenção foi a figura ajoelhada diante do fogo.
.
Ela estava de perfil, os cabelos amarrados em um coque torto, as mangas do casaco puídas até quase se desfazerem. Manteve-se concentrada enquanto alimentava cuidadosamente as chamas com pequenos pedaços de madeira — alguns vindos de móveis quebrados, outros de caixas desmontadas.
Ao lado da fogueira, duas canecas de metal tremiam sobre uma grade improvisada. O vapor subia em espirais finas, misturando-se com o ar frio do abrigo.
JayB se sentou, os músculos protestando. Estava rígido, mas não apenas pelo frio — era a estranha sensação de estar em um lugar que ainda não compreendia por completo. A mente demorou a lembrar onde estava, e só quando viu os fios de cabelo espalhados sobre o cobertor ao seu lado, ele relaxou.
Sian ainda dormia, encolhida como um filhote, o brinquedo de isopor preso entre os dedos pequenos.
virou levemente o rosto e o notou acordado. Não sorriu, nem disse nada. Apenas inclinou a cabeça em um gesto simples, quase silencioso, como quem oferecia um “bom dia” sem precisar de palavras.
— Isso é chá? — ele perguntou, a voz rouca da noite, tentando se orientar naquele novo tipo de paz.
— Algo assim — respondeu , sem tirar os olhos do fogo. — Raízes secas e um pouco de casca de árvore. Tem gosto de terra molhada, mas esquenta.
Ela estendeu uma das canecas a ele. JayB pegou com as duas mãos, grato não apenas pelo calor, mas pelo cuidado.
O metal queimava na pele sensível dos dedos. Mas ele não se importou. Encostou a caneca nos lábios e soprou com cuidado, antes de provar.
Era amargo, forte, quase ácido. Mas era quente. E isso já era mais do que ele esperava encontrar naquela manhã.
— Obrigado — disse, sem conseguir disfarçar o peso da palavra. A gratidão não era só pelo chá. Era por ela ter ficado. Por ter protegido Sian. Por não ter perguntado nada naquela noite.
assentiu, como se entendesse tudo sem que ele precisasse explicar nada.
— Ela me falou de você — comentou, após um momento. A voz dela era baixa, calma, mas firme. — Não tudo. Só o que importava.
JayB olhou para Sian por um instante, antes de voltar os olhos para .
— E o que ela disse?
— Que você prometeu voltar. E voltou. Isso, pra uma criança, é tudo.
Ele assentiu lentamente, olhando para o líquido fumegante. De todas as promessas que já havia feito em sua vida, aquela tinha sido a mais simples — e a mais difícil de cumprir.
— Ela confiou em você muito rápido — ele murmurou, mais pra si do que pra. ela
sorriu de leve.
— Crianças sentem as coisas. Ela viu em mim o que eu vi nela: alguém sozinho demais pra não se apegar.
JayB a observou com mais atenção. O rosto dela era marcado pelo tempo e pela resistência. A pele pálida, os lábios rachados, as luvas esburacadas. E uma cicatriz fina, quase imperceptível, cortava a bochecha esquerda — uma marca de luta, de perda, de tudo que esse mundo já tinha tirado dela.
— Você perdeu alguém? — perguntou, com cuidado.
Ela hesitou.
— Todo mundo perdeu alguém — respondeu, após um longo silêncio. — E alguns ainda estão perdendo.
JayB não insistiu. Sabia bem que há dores que não se tocam com perguntas.
— Como sobrevive aqui? — mudou de assunto, olhando para as tábuas no chão, para os mantimentos escassos em um canto.
— Me movo. Procuro comida, madeira, água. Às vezes, encontro pessoas dispostas a trocar algo. Outras, só querem que eu desapareça. Já aprendi a distinguir os olhares. A cidade virou um tabuleiro, sabe? Cada rua tem suas próprias regras. E suas próprias ameaças.
JayB sorriu com tristeza.
— Parece mais vivo do que o outro lado.
o encarou, curiosa.
— Você fala como quem já esteve lá recentemente.
— E estive. Mas não por inteiro.
Ela o observou por mais um tempo, antes de dizer, com suavidade:
— Você parece cansado.
JayB soltou uma risada seca.
— Eu estou. Mas não é só o corpo.
— Não. Não é.
Ele a encarou, surpreso pela precisão do que ela dizia. Pela maneira como lia através dele sem esforço, como se tivesse estudado seus silêncios desde o primeiro instante.
— É tão óbvio assim?
— É. Mas não é um defeito. Cansaço de alma não se esconde. Só adia.
Ele virou o rosto, engolindo o que queria dizer. Parte de si queria contar tudo — o peso de ter sido alguém para o mundo inteiro, mas de não ser nada para si mesmo. A culpa. A ausência. O medo constante de nunca mais ser suficiente.
Mas ela não o pressionava. E talvez por isso, ele quis ficar.
— Você fala como se me conhecesse — disse ele, por fim.
— Eu conheço o que você tenta esconder. Sei o que é abraçar uma criança que não é sua como se fosse tudo o que resta. Sei como é andar com a sensação de que o mundo acabou — e você continuou.
JayB a fitou por um longo tempo, o chá agora morno em suas mãos.
— Você também não parece alguém comum. Coragem demais pra esse mundo... e gentileza demais também.
sorriu com uma calma que parecia quebrar qualquer resistência.
— Alguém precisa ter.
Silêncio.
A lenha estalava, o vento assobiava nas frestas da janela, e do lado de fora, o mundo continuava branco e morto.
Mas ali, dentro daquele pequeno abrigo, duas canecas fumegavam.
E era o bastante.
O calor do fogareiro era tímido, quase simbólico. A chama fraca estalava como se tivesse medo de existir, e sua luz tremulante lutava contra as sombras teimosas que tomavam os cantos do cômodo. Mas havia um outro tipo de calor ali dentro. Um que vinha de dentro — e que derretia mais do que o gelo acumulado do lado de fora.
Era o riso de Sian.
JayB estava sentado no chão, com as pernas estendidas e os olhos semicerrados, fingindo uma paciência que beirava a teatralidade. Diante dele, Sian, ajoelhada com concentração absoluta, penteava seus cabelos bagunçados com o que parecia ser um garfo de plástico, cuidadosamente lavado e agora transformado em instrumento de realeza.
— Você vai ser um príncipe, tá? — ela anunciou, como quem sela um destino com a força de uma profecia.
JayB franziu o cenho, fingindo indignação.
— Um príncipe? Achei que eu era um cavaleiro destemido, tipo aqueles dos contos que enfrentam dragões e salvam o dia.
Sian balançou a cabeça com veemência, segurando uma mecha teimosa que insistia em escapar de sua criação capilar.
— Cavaleiro não pode usar trança! — decretou, como se fosse óbvio. — Só princesa e príncipe.
Ele riu, fingindo dor quando ela puxou mais um nó.
— Ai! Sua majestade, vossa alteza real está me torturando!
— É assim que vira bonito — ela respondeu, séria. — Aguenta.
Do canto da sala, os observava em silêncio. Sentada sobre um tapete gasto, as mãos cruzadas sobre os joelhos, ela parecia ter se esquecido de respirar por um momento. Jamais imaginaria que aquele homem — o mesmo que chegara ali há poucos dias com o rosto endurecido e os olhos distantes — pudesse se moldar àquele cenário com tanta naturalidade.
Com Sian, JayB era outro. Mais leve. Mais solto. Quase menino. A risada que escapava dele era sincera, cheia de algo que ela achava que tinha se perdido no mundo: ternura.
Quando a brincadeira cansou Sian, ela simplesmente se jogou sobre ele, como se seu peito fosse travesseiro. JayB a recebeu com um dos braços e a envolveu como se aquilo fosse hábito. Como se ela sempre tivesse pertencido ali, encaixada entre os suspiros dele.
Por um segundo, os olhos de JayB buscaram os de .
Ela desviou.
Não por desconforto. Mas por algo mais delicado — algo que parecia... respeito. Havia, naquele olhar trocado, a consciência de que estava assistindo algo íntimo. Algo precioso demais para ser encarado de frente.
JayB abaixou o olhar, acariciando os cabelos da menina. A voz veio baixa, como se cada palavra precisasse atravessar um oceano interno para sair.
— Quando a encontrei... ela estava sozinha. Num estacionamento, perto de um mercado abandonado. Usava um casaco tão grande que parecia engoli-la. Chorava... mas não fazia som.
ergueu os olhos, agora completamente presente.
— E o que você fez?
Ele engoliu seco.
— Eu congelei. Não sabia o que fazer. Só... abri os braços.
Pausa.
— E ela veio.
O silêncio se estendeu como um cobertor. Mas era um silêncio bom. Um daqueles que não pressionam, apenas acolhem.
— Você salvou ela — disse , com uma suavidade que não pedia nada em troca.
JayB balançou a cabeça, seus olhos presos aos da pequena dormindo em seu colo.
— Não. Ela me salvou.
Houve algo ali, naquele instante, que não precisava ser dito. Como se ambos compreendessem que o amor, às vezes, escolhe os caminhos mais improváveis para se fazer presente. Como se, mesmo num mundo destruído, ainda houvesse milagres silenciosos — como uma menina pequena encontrando um homem quebrado e refazendo seus pedaços.
Sian ressonava leve. JayB, com todo o cuidado do mundo, a acomodou sobre os cobertores dobrados, ajeitando os ombros dela e cobrindo seu corpinho com o que tinham de mais quente. Depois disso, permaneceu ajoelhado ao lado dela por alguns segundos, apenas observando.
se levantou devagar. Caminhou até uma mochila encostada na parede e, de dentro dela, retirou um embrulho pequeno, envolto em tecido escurecido pelo tempo. Voltou até ele e estendeu o presente com delicadeza.
— Fiz isso quando era pequena — disse, sua voz quase um sussurro. — Meu pai me ensinou. Achei que... talvez Sian gostasse de ouvir música de verdade.
JayB desembrulhou com cuidado, como se o objeto dentro fosse frágil demais para tocar. Era uma pequena flauta de madeira, simples, rústica, esculpida à mão com marcas irregulares, mas cheia de beleza. Uma peça de outro tempo. De outra vida.
Ele ergueu os olhos para , e havia tanto nos olhos dele — surpresa, gratidão, emoção contida — que ela não conseguiu sustentar o olhar por muito tempo.
— Isso é... — começou, sem encontrar as palavras.
— Um pedaço meu — ela completou, com um sorriso tímido.
JayB apertou o presente entre os dedos.
— Obrigado — murmurou, e naquela palavra havia mais do que um agradecimento. Havia reconhecimento. Havia promessa.
Ele levou a flauta à boca e soprou devagar. O som que saiu era simples, hesitante, como um passo dado num caminho novo. Mas era música. Música de verdade. Música viva, no meio de um mundo morto.
E naquele som, havia algo que nem o frio conseguia apagar.
Algo que dizia:
Ainda existe beleza.
Ainda existe amor.
Ainda existe futuro.
Mesmo aqui.
Mesmo agora.
Mesmo nas ruínas.
Foi como cair do alto de um sonho — abrupto, desorientador, cruel.
O frio cortante da Seul congelada desapareceu em um piscar de olhos, substituído pela temperatura morna de um ambiente fechado. O cheiro do gelo derreteu num sopro, substituído por perfume industrializado, maquiagem e eletricidade. O som de ventania e flauta cedeu lugar ao zumbido de lâmpadas fluorescentes.
JayB arregalou os olhos, o peito arfando como se tivesse sido arrancado de um lugar onde finalmente respirava. O carpete sob suas pernas era áspero. A claridade forte das luzes o cegava. A flauta de madeira havia sumido de suas mãos. E o que mais doía — mais do que qualquer mudança de cenário — era a ausência de Sian. Como se uma parte de seu corpo tivesse sido arrancada sem anestesia.
— Hyung?! — A voz veio abafada, como se ele ainda estivesse atravessando a fronteira entre dois mundos. — Hyung, olha pra mim! — Yugyeom apareceu em sua frente, agachado, olhos arregalados de preocupação. — Você desmaiou de novo? Fala comigo, cara. A coletiva é daqui a vinte minutos. Tá me ouvindo?
JayB piscou algumas vezes, tentando fixar o olhar no rosto do maknae. O camarim estava em movimento ao redor — gente indo e vindo, celulares tocando, staff dando ordens. Tudo ao mesmo tempo. O mundo real era barulhento. Quase violento.
Ele passou a mão pela testa úmida, o coração ainda acelerado. O ar parecia preso nos pulmões.
— Eu... — ele começou, mas não conseguiu terminar. Sua voz falhou.
— Você precisa de um médico. Tá pálido, suando frio. Quer que eu chame alguém? — Yugyeom o segurou pelos ombros, suavemente, como se temesse que ele caísse de novo.
JayB balançou a cabeça com esforço.
— Não é isso. Eu só... — Ele fechou os olhos por um segundo, tentando se reencontrar. Mas tudo estava fora de lugar.
O celular vibrou em seu bolso, interrompendo o momento. Ele o tirou com mãos trêmulas. Várias mensagens de Jinyoung. Todas com o mesmo tom urgente.
“Me liga. Agora.”
“É sério.”
“Jay... é sobre a sua mãe.”
O coração de JayB apertou antes mesmo de tocar na tela para retornar a ligação.
— Hyung? — Jinyoung atendeu na primeira chamada, a voz baixa, contida, como se estivesse tentando controlar algo maior que ele.
— O que houve? — JayB engoliu seco.
— Sua mãe teve um colapso. Tá no hospital. É grave. — Do outro lado da linha, um breve silêncio.
JayB não respondeu de imediato. O peso das palavras se abateu sobre ele como uma enxurrada silenciosa. Ele olhou ao redor, mas não via mais nada. Só ouvia a própria respiração e a voz de Jinyoung.
— E tem mais — o amigo continuou, hesitante. — Youngjae... surtou ontem. Disse que não aguenta mais. Que vai sair do grupo. Não quer cantar, nem dançar. Nem levantar da cama. E, sinceramente, eu não sei o que fazer. Tô tentando segurar, mas... não dá mais sem você aqui.
JayB fechou os olhos, encostando a testa na parede fria atrás dele. A sensação era de estar espremido entre duas placas tectônicas. Por horas, talvez dias, ele havia vivido em outra realidade — um mundo quebrado, sim, mas onde existia algo puro. Onde havia uma criança em seu colo, uma flauta entre seus dedos, e um silêncio que preenchia.
Agora, tudo era pressa. Expectativa. Compromissos.
— Vou para o hospital — disse, enfim, baixo.
Do outro lado da linha, Jinyoung não insistiu. Não tentou convencê-lo a ficar. Ele sempre sabia a hora de calar.
No carro, a caminho do hospital, JayB se perdeu pelas janelas. A cidade corria do lado de fora com sua normalidade opressora. Prédios de vidro reluziam com os holofotes da vida perfeita. Anúncios imensos estampavam rostos sorridentes — inclusive o dele. O mesmo rosto que agora estava vazio.
O motorista falava algo, mas JayB não escutava. O mundo estava em mudo, como num filme dublado errado.
Ele encostou a cabeça no vidro gelado, tentando buscar Sian em algum canto da memória. Por um segundo, quase podia sentir o peso leve dela em seu colo, ouvir a risada abafada contra o peito dele. Quase podia ver a flauta — feita à mão, simples, mas cheia de significado.
Mas ela se esvaía como fumaça entre os dedos.
Ele não sabia se voltaria a vê-la. Não sabia sequer se aquilo havia sido real. Mas doía. E a dor era real demais para ser apenas um delírio.
Quando chegou ao hospital, o céu já começava a escurecer. Um roxo estranho tingia o horizonte. O tipo de cor que precede uma tempestade.
Ele desceu do carro sem dizer palavra, passos pesados, o peito apertado. A porta giratória do hospital girou diante dele como um portal para outra batalha. Outra dor. Outro mundo.
E foi ali, parado entre a entrada e o saguão iluminado, que JayB entendeu.
Talvez não fosse apenas a Seul congelada que estivesse desmoronando.
Talvez os dois mundos estivessem em colapso.
E ele... estivesse sendo esmagado entre eles.
O corredor do hospital parecia um lugar onde o tempo decidira desacelerar. As paredes claras, a iluminação implacável e o silêncio cheio de ruídos — tosses contidas, passos apressados, bipes longos e intermitentes — davam a sensação de que a vida ali caminhava em uma corda bamba entre o que ainda pulsa e o que quase cede.
JayB respirou fundo. O cheiro era uma mistura sufocante de álcool, flores vencidas e angústia. Aquele aroma agridoce de tudo que é estéril, porém carregado de emoção humana.
Parado diante da porta 408, sentia o coração batendo alto demais no peito. Como se a simples presença dele ali fosse capaz de perturbar o repouso do lugar. Seus dedos roçavam a maçaneta, indecisos. Por um segundo, pensou em recuar. Mas as memórias — todas as que importavam — o impediram.
Ele abriu a porta com o cuidado de quem acorda alguém que ama.
O quarto estava em penumbra. A televisão ligada no mudo mostrava um programa qualquer. Os lençóis brancos destacavam o tom pálido da pele dela, o rosto sereno apesar dos tubos e fios. Ainda havia força ali — mesmo na fragilidade, mesmo na pausa. A mulher que o criara sozinha, que suportara noites sem dormir, que vendera almoço para comprar janta. Agora, enfim, repousava como se tivesse sido vencida por todas as batalhas que lutou calada.
JayB avançou com passos lentos, como se temesse quebrar a quietude.
— Mãe... — chamou, num sussurro quase infantil, engolindo um nó que doía desde o estômago.
Ela abriu os olhos devagar. E naquele olhar, havia algo que só mãe tem: a capacidade de reconhecer o filho antes mesmo que ele diga quem é.
— Jaebeom… — A voz dela era baixa, mas firme. E o jeito como pronunciou seu nome — seu nome verdadeiro — fendeu alguma parte mal costurada dentro dele.
Ele se sentou ao lado da cama sem conseguir tirar os olhos dela. Pegou sua mão com cuidado, como se ainda fosse um menino que precisava de colo.
— Desculpa por não ter vindo antes — disse, a voz rouca de culpa.
Ela apertou levemente os dedos dele, como se quisesse dizer que tudo já estava perdoado muito antes de acontecer.
— Você sempre vem, meu filho. Mesmo quando não pode. Eu te vejo por aí... no rádio, nas vitrines, no olhar das meninas no metrô que choram ouvindo sua música. — Ela riu baixo, fraco. — Uma vez vi um grupo com seu rosto na mochila. Uma delas dizia que você era a razão de acordar de manhã. E eu só pensava: “Se elas soubessem como você se arrasta pra levantar da cama...”
JayB riu também. Mas era um riso atravessado, ferido. Como quem sangra por dentro sem deixar escapar.
— E isso te orgulha? — perguntou, sem saber se queria mesmo ouvir a resposta.
— Me orgulha, claro. Mas também me preocupa. Porque eu te conheço. E sei que você pode sorrir com os lábios enquanto grita por dentro. Você dança, canta, brilha... mas seus olhos, Jaebeom, às vezes não acompanham.— Ela o encarou com ternura.
Ele baixou o olhar, envergonhado pela transparência que só ela era capaz de enxergar.
— Tem um lugar — ele começou, hesitante. — Um lugar onde ninguém sabe quem eu sou. Onde o mundo não pesa tanto. Onde eu posso andar na rua sem medo de ser reconhecido, onde eu posso respirar. Onde tem uma garotinha que me abraçou como se eu fosse tudo o que ela tinha... e, mãe, eu não sei explicar. Mas eu sinto que preciso dela. E que ela precisa de mim.
Os olhos da mãe se umedeceram. Mas não havia surpresa neles. Apenas um tipo sereno de compreensão. Aquela que só o amor incondicional pode oferecer.
— Às vezes... fugir não é covardia. É sobrevivência. E às vezes, o que a gente chama de fuga... é só o caminho de volta pra quem somos de verdade.
— Mas se eu for de vez...? — ele murmurou. — Se eu deixar tudo pra trás?
— Então vá. Mas vá sabendo que sempre vai ter um lar pra voltar. Mesmo que esse lar só exista em mim. — Ela apertou sua mão com mais força do que ele esperava, como se ainda fosse capaz de protegê-lo do mundo inteiro.
As palavras caíram dentro dele como uma âncora. Um abrigo. Um colo invisível.
JayB deixou as lágrimas escorrerem sem pressa, sem vergonha. Como não chorava há muito tempo. Chorou pela ausência, pela culpa, pela pressão. Chorou pela criança que ainda havia dentro dele e que precisava de um lar. Chorou por Sian. Pela mulher que dormia sozinha no hospital, depois de tantos anos sem deixar que ninguém a visse fraca.
E ali, naquele quarto frio, rodeado por máquinas e silêncio, entendeu o que precisava fazer.
Talvez ele não pudesse salvar o mundo.
Talvez não pudesse se salvar inteiro.
Mas talvez — só talvez — ainda desse tempo de salvar os dois lados dele mesmo.
O homem. E o menino.
O ídolo. E o pai que nascia, aos poucos, dentro dele.
O café em cima da mesa estava esquecido, abandonado como as promessas que JayB fizera a si mesmo semanas atrás. O líquido, antes quente, agora era uma poça amarga e fria, refletindo as luzes amareladas do estúdio. Lá fora, Seul pulsava com sua pressa usual — buzinas impacientes, passos apressados, vida correndo como se nunca fosse parar. Mas ali dentro, tudo parecia suspenso.
JayB sentia como se estivesse no intervalo entre um refrão e o próximo verso. Como se estivesse prestes a cantar, mas a voz não saísse. Ele passava os dedos lentamente sobre a lateral da caneca, distraído, o olhar perdido na janela onde a cidade se distorcia sob o vidro embaçado.
Desde a notícia da melhora da mãe, algo dentro dele aliviou... mas não se desfez. Era como carregar uma mala menos pesada, porém ainda incômoda. Ele prometeu a si mesmo que esperaria pela alta dela. Não podia ir embora ainda. Não enquanto alguém aqui ainda precisava dele. Mesmo que o outro lado — aquele onde ele podia respirar, onde Sian ria com as bochechas rosadas e o olhava como se enxergasse além — chamasse com tanta força.
A porta do estúdio se abriu devagar.
Youngjae entrou com os ombros curvados, o corpo franzino envolto em uma blusa larga demais. Os olhos, que antes carregavam brilho e leveza, agora estavam apagados, fundos. Como se ele tivesse esquecido o caminho de volta pra si mesmo.
Quando os olhares se encontraram, o mais novo tentou sorrir — um gesto torto, trêmulo, que morreu antes de nascer.
— Hyung... — foi tudo o que conseguiu dizer, a voz rouca como se viesse de um lugar seco e fundo.
Ele não procurou um sofá. Apenas se deixou cair no chão do estúdio, cruzando as pernas como fazia nos tempos de trainee, quando sonhar ainda era mais fácil do que suportar.
JayB observou em silêncio. Viu as mãos do amigo brincarem com o cordão da blusa, puxando e enrolando como se aquilo o mantivesse firme.
— O Jinyoung me contou o que aconteceu — disse por fim, a voz baixa, sem julgamento.
Youngjae assentiu devagar. O silêncio entre eles parecia preencher todo o cômodo, como se qualquer palavra a mais pudesse quebrar o ar.
— Eu queria desaparecer, Jay. Não só da carreira... — a pausa veio carregada de dor — ...de tudo. — JayB respirou fundo. O peso daquelas palavras caiu como um trovão em seu peito, mas ele não desviou o olhar. — Não aguentava mais acordar e fingir. Sorrir pra câmera, pra equipe, pro espelho. Fingir que ainda amava cantar. Que ainda era eu. — Youngjae engoliu seco. — Comecei a acordar no meio da noite, com o peito travado. Às vezes chorava sem saber por quê. Às vezes só... queria não existir.
Ele disse aquilo sem olhar para cima, encarando o chão como se estivesse confessando algo vergonhoso.
JayB escorregou do sofá e se sentou ao lado dele no carpete. Ficaram lado a lado, sem se tocarem, mas tão próximos quanto duas almas cansadas podem estar.
— Sabe por que eu sumi? — perguntou, depois de alguns segundos.
— Porque você também não tava aguentando? — Youngjae virou o rosto devagar, como se já soubesse, mas quisesse ouvir da boca dele.
JayB assentiu.
— Encontrei um lugar... uma cidade pequena, fria, cheia de silêncio e neve. Ninguém me reconhece lá. Eu ando na rua e sou só um cara qualquer. E nesse lugar... eu encontrei uma garotinha. Órfã. E ela me escolheu. Me chamou de pai. — Ele sorriu, mas era um sorriso cheio de rachaduras. — Eu nem sabia o que fazer. Mas fiquei. Porque... porque cuidar dela me fez respirar de novo. E depois veio a . E ela viu em mim algo que nem eu via mais. E eu... me apaixonei.
Youngjae deixou escapar uma risada breve, úmida.
— Isso parece roteiro de filme, hyung.
— Eu sei. Mas é a parte mais real da minha vida.
— E você quer voltar pra lá?
JayB demorou a responder. Encarou as mãos, os dedos entrelaçados, os calos que a guitarra deixara ao longo dos anos.
— Eu não quero. Eu preciso. Lá, o mundo tá mais quieto, quase morrendo... mas eu me sinto vivo. Aqui, tudo explode, brilha, gira. Mas por dentro... às vezes, eu só sobrevivo.
Youngjae fechou os olhos. Os ombros tremeram levemente, e JayB o puxou num abraço silencioso, sem aviso. O mais novo resistiu por um segundo — só por orgulho — antes de desabar ali, contra o peito do amigo.
— Eu só queria respirar, hyung...
— E vai. Nem que eu tenha que segurar o mundo por você um tempo. Já fez isso por mim tantas vezes. Agora é minha vez.
O choro de Youngjae era contido, quase mudo, mas tão verdadeiro que JayB o sentiu vibrar em seu próprio corpo. Apertou os braços em torno dele, como se pudesse colar os pedaços que estavam se soltando.
Ficaram ali por um tempo que não dava pra medir em minutos.
JayB sabia que não podia ficar para sempre. Que a outra Seul, coberta de neve, o chamaria de volta em breve. Que Sian estaria esperando sua voz para dormir, e com aquele olhar entre desafio e ternura que tanto o desarmava.
Mas agora... agora ele era necessário aqui. Para Youngjae. Para a mãe. Para o grupo.
E mesmo com o coração congelado longe dali, ele seguraria firme o que ainda podia ser salvo.
Por enquanto, ele ficaria.
Mas a neve... a neve ainda o chamava. E uma parte dele já começava a responder.
Não com palavras. Mas com uma melodia fria, constante, que vibrava dentro dele como uma memória que se recusa a ser esquecida. Era o tipo de silêncio que falava mais alto do que qualquer multidão gritando seu nome. E JayB ouvia.
A cidade pulsava ao redor — viva, vibrante, exigente. A Seul real, cheia de compromissos, expectativas, promessas cobradas em olhares. Os ensaios retomados, as entrevistas marcadas, os flashes esperando por sua versão mais brilhante. Mas tudo nele parecia estar preso em outra latitude — onde a neve cobria os escombros, onde o tempo andava mais devagar, onde uma garotinha adormecia com a cabeça em seu colo.
Sua mãe, agora em casa, insistia que estava bem. Sorria mais, dizia que já podia se cuidar sozinha, mesmo que suas mãos ainda tremessem quando pensava que ele partiria de novo.
Ele sabia. Era hora de ir.
Naquela noite, JayB entrou no próprio quarto como quem pisa em um santuário. Passou os dedos pelas fotos coladas no espelho: imagens desbotadas, mas ainda quentes. Ele, sorrindo com os membros do grupo. Sua mãe, de olhos brilhando ao soprar velas de aniversário. Youngjae, com os braços ao redor dele no backstage, os dois rindo, cobertos de suor e euforia.
Ele tocou uma dessas fotos com mais cuidado, como se ela pudesse se quebrar. Como se ele mesmo estivesse se quebrando aos poucos.
Vestiu o casaco lentamente. Cada botão fechado parecia um nó no peito.
Não deixou bilhetes. Nem promessas. Apenas atravessou a porta com o som do silêncio atrás de si.
O vento ali era o mesmo. Cortante. Quase cruel. Mas, para JayB, soava como um velho conhecido.
A cidade congelada parecia suspensa no tempo. Nenhum passo recente marcava a neve suja das calçadas quebradas. As construções desmoronadas, os postes apagados, os restos de vida que um dia fervilhavam por ali — tudo agora era sombra. Mas não uma sombra assustadora. Era o tipo de silêncio que acolhia, mesmo sendo brutal.
Ele caminhou devagar, reconhecendo os caminhos como se fossem cicatrizes. O frio cortava as bochechas, mas não doía tanto quanto a ausência que carregava desde que partiu. A cada passo, uma lembrança. A cada esquina, uma pergunta.
Chegou à pequena casa com o coração apertado. As tábuas da porta haviam sido trocadas. O telhado, remendado com lonas. Alguém cuidara dali. Mesmo em sua ausência, havia alguém mantendo tudo de pé.
Empurrou a porta devagar. O estalo das dobradiças ecoou como um chamado.
O calor da lareira improvisada ainda resistia ao frio. Era pouco, mas era algo. E ali, no meio da sala, envolta pelo brilho fraco do fogo, estava ela.
— Jay?
A voz veio trêmula, quase inaudível. Mas não havia dúvida. Era .
Ele virou devagar, como se não quisesse quebrar o momento.
Ela estava parada perto da parede, com Sian dormindo em seus braços. Os cabelos presos às pressas, a roupa gasta, coberta por pontos de neve derretida. Os olhos cansados, mas ainda tão vivos. Ainda os mesmos que haviam o desarmado desde o primeiro dia.
— Eu achei que você não voltaria — ela disse. E havia dor naquele sussurro. Não uma dor de raiva. Mas de quem esperou tempo demais sem certeza alguma.
JayB se aproximou com calma, os olhos fixos na menina adormecida em seus braços. Sian respirava devagar, o rosto colado ao ombro de . Estava mais magra. Os cabelos bagunçados. Mas viva. E ali.
— Eu disse que voltaria — ele murmurou. — Só… só não sabia quanto tempo levaria.
assentiu com a cabeça, mas não respondeu. Como se ainda duvidasse que aquilo fosse real. Como se parte dela precisasse tocar nele para ter certeza.
Ele se ajoelhou perto da lareira, estendendo os braços devagar. Ela hesitou, então se abaixou e colocou Sian com cuidado nos braços dele.
JayB a acolheu como se fosse feita de vidro. Encostou o rosto nos cabelos finos da menina, fechando os olhos. Por um instante, respirou como não respirava há semanas.
— O mundo de lá… ainda gira — ele disse, baixinho, olhando as chamas lutarem contra o frio. — Mas gira rápido demais. E exige que eu gire junto.
— E aqui? — perguntou, sentando-se ao lado dele.
— Aqui… tudo espera. O tempo, a dor, até as respostas. É como se o silêncio soubesse das coisas antes de mim. E mesmo assim… é aqui que eu sinto que existo de verdade.
Ela não disse nada. Apenas o observou.
— Ela sentiu sua falta — disse, depois de alguns segundos. — Perguntava todos os dias se você ia voltar. Se tinha ido embora pra sempre.
JayB olhou para Sian. A garotinha se mexeu um pouco nos braços dele, como se reconhecesse o calor do abraço.
— Eu tô aqui agora. E não vou embora sem lutar.
desviou o olhar, piscando rápido para afastar o brilho nos olhos. Ele a observou por um instante.
— Você cuidou dela. De tudo. Mesmo quando não tinha obrigação.
— Tinha sim — ela respondeu, a voz baixa. — Porque ela também virou meu lar.
JayB respirou fundo. O peito doía. Mas era um tipo de dor diferente — aquela que vem da certeza de que, mesmo depois de se perder, você finalmente chegou onde precisava estar.
Ficaram ali por um tempo. Nenhum dos dois falou. O silêncio entre eles era cheio. Cheio de histórias ainda não ditas, de sentimentos ainda não nomeados.
Mas bastava.
Porque naquele fim de mundo, entre o som do fogo estalando e a neve caindo lá fora, JayB percebeu que às vezes, voltar não é só retornar a um lugar. É reencontrar partes de si mesmo que estavam esperando.
E ele tinha voltado.
Por elas. Por ele. Pelo que ainda podia ser salvo.
O mundo continuava congelado do lado de fora — janelas embaçadas, vento uivante, a neve cobrindo tudo como um manto branco e silencioso. Mas ali dentro, naquela pequena casa de madeira improvisada, o gelo começava a ceder. Lentamente, quase imperceptível, algo se aquecia. Algo que não vinha do fogareiro ou da lareira fraca, mas do reencontro de três almas tentando, cada uma à sua maneira, sobreviver.
JayB despertou com um som leve — quase um tropeço, quase uma dança. Passos pequenos ecoando no assoalho, acompanhados de uma risada leve, infantil, que fez o peito dele se expandir antes mesmo de abrir os olhos.
— Acorda, Jay! Acorda! — veio a voz aguda e animada, como o tilintar de sinos em pleno inverno. — A fez pão!
Ele mal teve tempo de reagir antes de sentir um corpo leve pular sobre ele, espalhando cobertas e gargalhadas. Sian estava com os cabelos ainda mais bagunçados do que o habitual, como se a noite tivesse transformado sua cabeça num ninho de passarinhos alegres. Ela o abraçou com força, cheirando a frio e infância.
JayB soltou um riso rouco, ainda com o rosto afundado no travesseiro.
— Pão? — murmurou, entre um bocejo e um sorriso debochado. — Aqui, no fim do mundo? Tem certeza que não é um sonho?
— Não é! — ela garantiu, batendo as mãozinhas no peito dele. — Tá quentinho! E ela fez chá também! Vem logo!
Sem ter muita escolha, ele deixou-se ser puxado, carregando Sian no colo enquanto se dirigiam à cozinha — um espaço apertado, de paredes improvisadas e prateleiras cheias de coisas que claramente foram juntadas com esforço. Mas era aconchegante. Quase como se tivesse alma.
estava ali. De costas para eles, mexia algo em uma panela velha sobre o fogareiro. Usava um suéter grosso demais para o corpo magro e o cabelo estava preso de qualquer jeito, algumas mechas soltas caindo sobre a nuca. O cheiro de pão, surpreendentemente doce, enchia o ar.
— Bom dia — ele disse, a voz ainda pastosa de sono, mas com um sorriso que lhe escapou sem esforço.
Ela virou-se devagar, e o olhar que lançou a ele foi como um cobertor macio: sereno, calmo, acolhedor. Estendeu-lhe uma caneca de cerâmica, com vapor saindo lentamente.
— Dormiu bem?
Ele assentiu, pegando o chá com cuidado. Sian escorregou do colo dele e correu até a mesa, onde tentava espiar dentro da cesta com os pães improvisados. JayB sentou-se, observando tudo com um tipo de admiração muda.
A casa era feita de pedaços — tábuas diferentes, móveis desalinhados, mantas costuradas à mão. E ainda assim, havia nela uma harmonia discreta, como se alguém tivesse montado aquele lar com muito mais afeto do que recursos. Tudo ali tinha um propósito. Tudo respirava.
Os dias que se seguiram foram de uma estranha tranquilidade.
JayB acordava cedo com Sian o puxando pela mão, e passavam a manhã recolhendo lenha, reforçando a estrutura da casa ou limpando a neve acumulada. Ele descobriu que era péssimo na cozinha, mas excelente em fazer Sian rir. Às vezes, os três dividiam as tarefas. Outras vezes, ele e se revezavam silenciosamente, como se já tivessem morado juntos por anos.
À noite, com a menina dormindo entre os cobertores, os dois adultos sentavam perto da lareira, dividindo a pouca luz e o muito silêncio. E ali, as palavras surgiam — baixas, espaçadas, quase reverentes.
Numa dessas noites, ele perguntou, com os olhos fixos nas chamas:
— Como você achou essa casa?
demorou para responder, como se precisasse voltar até aquele momento com o corpo inteiro.
— Eu estava fugindo de uma nevasca. Já não sentia as mãos, os pés. Achei que ia morrer congelada no meio da rua. Mas aí vi fumaça. Subindo da chaminé. Corri. Entrei. E... encontrei a Sian.
JayB não disse nada. O maxilar travado, os olhos baixos. Uma parte dele ainda se culpava — por não ter estado aqui, por tê-las deixado naquele mundo sem garantias.
— Eu prometi que voltaria pra ela — murmurou, mais pra si mesmo do que pra ela. — Não queria que ficasse sozinha de novo.
— Ela não ficou — disse, com doçura firme. — Nós cuidamos uma da outra. Como você cuida dela agora.
Silêncio.
Ela então estendeu a mão por sobre o cobertor que os separava. Um toque simples, sem alarde. Mas firme, direto. Como quem diz: Eu estou aqui. E não preciso de promessas. Só da sua presença.
JayB virou a mão e entrelaçou os dedos nos dela.
A lareira estalou discretamente.
Do lado de fora, a neve continuava caindo — lenta, densa, eterna. Mas dentro daquelas paredes, havia calor. Havia presença. E, pela primeira vez em muito tempo, havia abrigo.
Naquela noite, ninguém precisou dizer nada. Porque o silêncio já dizia tudo.
Eles estavam, finalmente, juntos.
E isso bastava.
O céu escureceu antes do tempo, tingido por um cinza denso que parecia pesar sobre a terra. Havia uma pausa no ar — como a inspiração contida antes de um grito. JayB sentiu isso antes mesmo de ver os primeiros sinais. O vento mudara de direção, tornando-se mais impiedoso, e os flocos de neve giravam no ar como estilhaços, afiados e impacientes.
Ele caminhava com passos firmes entre os escombros da cidade adormecida, os ombros arqueados pelo peso dos feixes de lenha empilhados contra o peito. O frio já rasgava a pele por baixo das camadas de tecido, mas era outra coisa que o incomodava mais — uma inquietação no peito, como se o próprio inverno respirasse pesado atrás dele.
Quando empurrou a porta da casa, sentiu o calor tímido da lareira o acolher como um velho amigo.
dobrava mantas com movimentos metódicos no sofá. Sian, no chão, montava torres com pedaços de madeira, suas bochechas coradas e o cabelo despenteado em ondas suaves.
JayB largou a lenha no canto, tirando as luvas enrijecidas e o cachecol úmido.
— A tempestade vem aí — disse, sério, a voz baixa, carregada de certeza. — Vai ser forte. Precisamos nos preparar agora.
ergueu os olhos para ele, sem surpresa, e assentiu com um movimento curto de cabeça. Ela era assim — uma força calma, discreta, mas firme como rocha. Não havia desespero em seus gestos, apenas ação.
Trabalharam lado a lado, os corpos sincronizados como se já compartilhassem aquela rotina há anos. Selaram janelas com tábuas resgatadas de móveis quebrados, empilharam sacos pesados nas portas, dividiram as últimas latas de comida, organizaram garrafas de água e cobertores extras nos cantos da casa.
A noite começava a cair quando parou por um instante diante do amontoado de lenha na varanda. Seus olhos se estreitaram em preocupação.
— Jay... a lenha não vai durar mais que três ou quatro dias — disse em voz baixa, como se falasse consigo mesma, mas esperasse por sua resposta.
Ele se aproximou, medindo o estoque com o olhar.
— Assim que a tempestade acalmar, eu saio. Prometo que volto com mais.
Ela apenas assentiu, mas o modo como seus olhos permaneceram ali, fixos na madeira, dizia mais que qualquer palavra.
Quando a tempestade chegou, chegou como uma fera solta.
O vento rugia com uma força primal, fazendo as paredes tremerem. A neve arremetia contra as janelas como punhos furiosos, tentando invadir aquele pequeno refúgio. A casa — remendada, frágil, viva — resistia como podia.
JayB sentou-se próximo à lareira, alimentando o fogo com cautela. Sian dormia entre ele e , encolhida sob mantas até os olhos, o corpo pequeno em paz no meio do caos.
, do outro lado, o observava em silêncio. As chamas projetavam sombras dançantes em seu rosto. Os olhos dela tinham aquele brilho raro que só aparece em momentos onde tudo é incerto, mas ainda assim... há amor.
— Você ainda tem medo de estar aqui? — ela perguntou, quase num sussurro, como se a própria pergunta fosse frágil demais para o vento levar.
JayB desviou o olhar para Sian, dormindo com a boca levemente aberta, a respiração ritmada e tranquila, depois voltou para .
— Não — respondeu, após uma pausa. — Aqui... eu posso existir sem disfarces. Sem máscaras. Posso respirar. Isso tem sido mais do que eu achei que merecia.
sorriu, pequeno, como quem reconhece a verdade nas entrelinhas.
— E você? — ele devolveu a pergunta, mas sua voz tinha um cuidado especial, como se não quisesse invadir demais. — Tem medo?
Ela abaixou o olhar por um segundo, acariciando os cabelos de Sian com ternura.
— Não de estar com vocês. Só de perder isso. Essa trégua que a gente construiu no meio da guerra.
O silêncio que se instalou entre eles não era vazio — era denso, confortável. Um abrigo.
JayB estendeu a mão por cima da menina adormecida. Os dedos encontraram os dela, quentes apesar do frio lá fora. Ele entrelaçou as mãos na dela, e naquele simples gesto havia tudo: promessa, coragem, entrega.
— A gente cuida um do outro — ele disse, firme, como um voto selado não com palavras, mas com presença. — Prometo.
Lá fora, a tempestade urrava. Mas ali, no coração da escuridão, havia calor. E um princípio de paz.
A tempestade cessou como um suspiro preso que finalmente escapava do peito do mundo.
A manhã chegou envolta em um silêncio denso, quase sagrado. Não havia pássaros, nem vento, nem sons de passos distantes. Era como se tudo — o tempo, a cidade, o próprio destino — tivesse sido soterrado sob o peso da neve. Do lado de fora da casa, Seul era apenas um vulto fantasmagórico de si mesma. As ruas, os prédios, as esquinas conhecidas… tudo estava deformado, oculto sob um manto branco que parecia não ter fim.
JayB observou por longos minutos através da janela embaçada. O mundo além dela parecia um sonho antigo e perigoso. Mas ele sabia que precisava sair. O estoque de lenha mal daria para mais dois dias, e a tempestade tinha devorado qualquer ilusão de segurança.
Vestiu as camadas mais grossas que tinha. Uma a uma, como se fossem armaduras improvisadas contra o frio e os próprios pensamentos. Antes de abrir a porta, olhou para dentro.
dormia encolhida ao lado de Sian, o corpo da menina envolto pelos braços dela como um casulo de calor humano. A lareira ainda ardia em brasa, a água sobre as pedras sussurrava uma canção baixa de vapor. Era paz. Era o que ele sempre disse não querer — e, no entanto, não conseguia mais deixar de proteger.
Saiu sem fazer barulho.
A cada passo na neve, sentia o estalo dos próprios pensamentos. O mundo estava devastado. Árvores partidas como ossos quebrados. Carros soterrados. Placas de trânsito retorcidas como se algo maior e invisível tivesse passado por ali, esmagando tudo com a ponta dos dedos. As construções conhecidas pareciam ruínas de um tempo esquecido. E o frio... o frio entrava pelas costuras da roupa e se infiltrava por dentro da pele, até grudar nos ossos.
Não era só o mundo que parecia prestes a ruir — era ele também.
Foi ao se aproximar da antiga estação de metrô que o viu.
Um homem velho, curvado, sentado em uma caixa coberta por uma lona azul, diante do que restava de uma barraca improvisada. JayB diminuiu o passo, sentindo uma inquietação crescer. Aquele homem parecia fora de lugar. Ou talvez estivesse exatamente onde devia estar.
Quando se aproximou, o velho ergueu os olhos. Pequenos, enrugados, mas intensos. Como brasas no fim da fogueira. Como olhos que já tinham visto muito mais do que deviam.
— Procurando por mais do que lenha, garoto? — disse ele, com a voz rouca, mas firme.
JayB parou. Um calafrio percorreu sua espinha, e não era por causa do frio.
— O quê?
O velho soltou um riso baixo, quase sem humor.
— Você não nasceu aqui. Não pertence a esse lado da cidade. Ainda carrega o cheiro do outro mundo nos ombros.
JayB franziu a testa. O vento soprou mais forte naquele instante, e a neve levantou-se em redemoinhos ao redor deles.
— Como você sabe disso? — perguntou em um sussurro, como se admitir a pergunta fosse o primeiro passo para perder o pouco que ainda compreendia.
— Porque eu já estive no seu lugar — respondeu o velho, com os olhos presos aos dele. — E ninguém atravessa duas vezes sem pagar um preço.
— Eu... não entendo.— JayB sentiu o coração bater mais pesado dentro do peito.
— Você ainda tem duas viagens — disse o velho, como se o tempo fosse uma estrada que ele conhecia bem demais. — Uma, de volta. A outra, se decidir voltar... será a última.
O silêncio entre eles era como a neve: caía devagar, mas cobria tudo.
— A última? O fim de quê?
— O fim da dúvida. Do entre-lugares. Seu coração vai ter que escolher: ou fica preso ao que perdeu... ou abraça o que encontrou aqui. Mas não poderá mais fugir entre os dois.— O velho sorriu, mas era um sorriso sem alegria.
— E se eu não souber o que escolher? E se... eu ainda estiver quebrado demais pra saber o que quero? — JayB respirou fundo, mas o ar parecia não chegar direito.
O velho ergueu os ombros com lentidão, como se o peso das respostas já fosse familiar demais.
— A última viagem não mente. Ela mostra quem você é. O que de fato importa. E quem, no fim, te faz querer continuar. — Ele ficou de pé, apoiando-se com dificuldade em uma bengala improvisada. As mãos tremiam. O corpo doía só de se mover. Mas os olhos... os olhos eram firmes como montanhas. — Pegue o que precisa, garoto. Leve a lenha, leve a dúvida. Mas se quiser mesmo calor... volte pra onde estão os dois corações que batem por você.
JayB não conseguiu dizer nada. Ficou ali, parado, observando o velho desaparecer lentamente entre os escombros. A neve caiu sobre os ombros dele como um manto antigo. E então ele sumiu. Como se nunca tivesse existido.
O frio voltou a apertar. Mas havia algo mais gelado do que o vento.
JayB ainda tinha duas viagens.
E agora, pela primeira vez, ele começava a sentir o tempo correr.
JayB entrou na casa com os braços cheios de lenha, mas o peso que sentia não estava no fardo físico que carregava. Era o peso do desconhecido, da dúvida que se alojava em seu peito e na garganta, que o sufocava com o gosto amargo da incerteza. Cada passo que ele dava, o chão gelado sob seus pés parecia pesar ainda mais, como se o mundo ao redor estivesse desmoronando, sem que ele pudesse fazer nada para impedir.
estava na cozinha, preparando algo simples, mas reconfortante, quando o viu entrar. Seu sorriso habitual surgiu ao vê-lo com as mãos ocupadas, mas o brilho nos olhos dela desapareceu por um segundo quando notou a expressão distante que ele trazia. As gotas de gelo que escorriam de seus cabelos pareciam mais pesadas do que o habitual. Algo estava errado.
Sian, com a energia de uma criança que ainda acreditava que o mundo era cheio de possibilidades, correu até ele, os passos apressados e descoordenados, quase tropeçando nas próprias pernas. Quando chegou perto, soltou um grito alegre que cortou o silêncio da casa fria.
— Jay! Jay! — ela exclamou, com os olhos brilhando de felicidade pura.
JayB abaixou-se para recebê-la, seu corpo se curvando como se o peso das horas que passaram o tivesse dobrado. Ao pegá-la nos braços, ele encostou o rosto no dela, e por um momento, tentou absorver aquele calor, o cheiro de infância, a pureza de um tempo que ele sabia que estava prestes a perder. Ele segurou Sian mais apertado, como se tentasse prendê-la, como se pudesse manter o momento intacto. Porque, no fundo, ele sabia que aquilo poderia ser o último.
— Trouxe lenha suficiente para mantermos o fogo por dias — disse, com a voz mais baixa do que ele gostaria. A alegria da criança no colo não conseguia apagar a sombra que o rondava. Ele forçou um sorriso, mas ele estava cansado. Não da viagem, mas da escolha que se impunha a ele.
observou a cena com um sorriso suave, mas logo percebeu que a quietude dele estava longe do habitual. Ela se aproximou, com passos firmes e atentos, e perguntou, sua voz suave, quase uma preocupação disfarçada.
— Está tudo bem? — Sua expressão era serena, mas havia algo em seus olhos que mostrava que ela sabia que ele não voltara inteiro. Ela esperava, e ele sabia que, por mais que tentasse esconder, perceberia.
JayB passou a língua nos lábios, um gesto nervoso. Deixou as madeiras caírem no canto, suas mãos tremendo um pouco enquanto se abaixava para deixar Sian no chão. A menina, animada demais para notar a tensão no ar, correu para brincar sozinha, suas risadas preenchendo o espaço, mas o silêncio pesado se formou entre os dois adultos.
Ele se sentou no chão, as pernas cruzadas, e puxou Sian para o colo. Ela se aninhou, tranquila, alheia às tempestades que JayB trazia dentro de si. sentou-se diante dele, e o silêncio continuou, como se o próprio ambiente estivesse esperando por uma resposta.
Ele olhou para as chamas que dançavam na lareira, a luz alaranjada refletindo em seus olhos, e suspirou profundamente. O som do fogo crepitando parecia, de certa forma, reconfortante, mas não conseguia afogar a inquietação que o corroía por dentro.
— Hoje encontrei um homem... um velho, perto da estação — começou, com a voz rouca, quase como se tentasse não acreditar nas palavras que estava prestes a dizer. ficou em silêncio, esperando. Ela sabia que algo estava prestes a ser revelado. Ele não sabia por onde começar, então respirou fundo e continuou. — Ele parecia me conhecer. Como se soubesse de onde eu venho, de quem eu sou.
o observava atentamente, sua expressão imperturbável. Ela sabia que a verdade precisava ser dita, mesmo que fosse difícil.
— O que ele disse? — A pergunta foi simples, mas carregada de uma preocupação silenciosa.
JayB fechou os olhos por um momento, tocando o cabelo de Sian adormecida, tentando organizar os pensamentos. O velho havia dito tantas coisas, e ainda assim, parecia ter falado de maneira tão enigmática, tão desgastada, que ele mal conseguia entender.
— Ele disse que eu só tenho mais duas viagens. — Ele olhou para , os olhos cansados. — Uma de volta... e uma, se meu coração decidir voltar para cá. E, se eu voltar... é aqui que eu vou ficar. De vez.
O silêncio que se seguiu foi denso. ficou quieta, absorvendo as palavras dele, tentando entender o que estava em jogo. Ela podia ver a dúvida e o conflito nos olhos de JayB, algo que ele estava tentando esconder, mas que não podia ser negado.
— E o que você quer? — , com sua serenidade habitual, perguntou com a suavidade de quem conhece a alma de quem está ao lado
JayB fechou os olhos novamente, como se tentasse fugir de algo, mas não conseguia. O fogo na lareira estalava, como se a própria casa esperasse por uma resposta. Ele olhou para , depois para Sian, e em um suspiro, a verdade saiu.
— Eu não sei. — Ele sorriu, mas era um sorriso triste, desgastado. — No outro mundo, tudo é bonito por fora, mas tudo pesa. A fama, os olhos, as expectativas. Não sou dono de mim. Aqui… — Ele olhou para ela, como se fosse a primeira vez que estivesse realmente vendo-a. — Aqui, eu sinto que posso respirar. Que existo. Que posso ser só... eu.
As palavras foram difíceis de engolir, mas ali, naquele espaço congelado, JayB sentia que finalmente encontrara um pedaço de paz, algo que ele não sabia que estava buscando até então.
— E quando olho para você e para Sian, eu sinto que encontrei algo que não sabia que procurava. Algo que, talvez, eu nunca tenha procurado de verdade antes.
, que escutava com o coração aberto, não respondeu de imediato. Ela apenas se aproximou dele, com o corpo ainda frio do inverno, e segurou sua mão. Seus dedos estavam gélidos, mas o toque dela era seguro e caloroso. Era o calor que ele precisava, o que ele mais temia perder.
— Então vive isso. Por enquanto. Como se o tempo fosse acabar. — Sua voz era firme, mas cheia de uma suavidade que fazia os olhos dele arderem. — Porque talvez acabe. Mas se acabar… que seja com você inteiro.
JayB a olhou, tentando entender a profundidade das palavras dela. Ela sabia o que ele precisava. Ela sabia, mais do que ninguém, que o tempo era algo volúvel, e que ele deveria viver cada segundo. E, por um instante, JayB se entregou ao momento, permitindo-se sentir algo que ele temia. Ele assentiu com a cabeça, sem dizer mais nada, mas seu coração sabia que, por mais difícil que fosse, ele estava começando a fazer sua escolha.
Nos dias seguintes, JayB viveu como se cada amanhecer fosse um presente. Ele se dedicou a ajudar a reparar o abrigo, a ensinar Sian a desenhar na neve com galhos secos, a rir das brincadeiras infantis da menina e a ouvir o som das respirações tranquilas delas enquanto dormiam. Aqueles momentos, aparentemente simples, começaram a se tornar preciosos demais para serem ignorados.
Mas no sexto dia, o céu mudou. Não de forma dramática, mas na sutileza de um pressentimento. O ar parecia mais pesado, a luz do sol mais apagada, como se o mundo estivesse se preparando para algo que ele não queria entender. Dentro dele, algo puxava, uma sensação de inevitabilidade. Ele sabia que estava prestes a partir. De novo.
E, desta vez, seria a penúltima vez.
A última viagem estava cada vez mais perto, e ele sabia que, ao contrário de todas as outras, essa viagem não teria mais volta.
O barulho da cidade o atingiu antes mesmo de abrir os olhos.
O som distante do tráfego, a sinfonia constante de buzinas e motores, o tic-tac rítmico do relógio de parede, o feixe de luz que atravessava as cortinas espessas e iluminava as paredes em tons de amarelo pálido.
Seul estava viva, cheia de pressa e energia, mas a verdade era que JayB já não se sentia mais parte daquele caos acelerado e incansável.
Ele acordou na cama onde sempre esteve, o colchão tão macio, a temperatura da casa tão controlada, o silêncio da cidade tão familiar. E, ainda assim, nada parecia tão... confortável. Era um conforto vazio, impessoal. Algo em seu interior gritava que, apesar de tudo estar como deveria, ele não pertencia mais a esse mundo. Não completamente. Não como antes.
Ele sentou-se na cama e olhou para as paredes ao seu redor. A suavidade do ambiente só aumentava a sensação de desconexão. Era como se, por mais que tentasse se ajustar, o que ele tinha passado — o que ele encontrou no outro mundo — não pudesse ser apagado. Nada ali fazia sentido como antes.
Passou os primeiros dias com a mãe, tentando preencher os vazios com gestos de carinho. Ela estava melhor. Os exames mostravam sinais de recuperação, e isso devia ser o suficiente para trazê-lo de volta à realidade que ela tanto desejava. Ele sorria, mas era um sorriso cansado, forçado. Não conseguia se convencer de que tudo estava bem.
A mãe, sempre atenta, não deixava de perceber que havia algo estranho em seu filho. Algo mais distante. Ela segurava a mão dele com uma ternura maternal, mas os olhos dela estavam inquietos, como se soubesse que, por mais que ele estivesse ali, uma parte dele ainda estava longe.
— Você tá diferente, Jaebeom. Seus olhos... estão mais quietos. — disse ela, uma tarde, a voz suave, mas carregada de uma sabedoria que só uma mãe poderia ter.
Ele sorriu e beijou os dedos dela, tentando esconder o que sentia.
— É só cansaço, omma.
Mas não era. Ele sabia disso. E ela sabia. O silêncio entre eles disse mais do que qualquer palavra poderia.
Com os amigos, as coisas também estavam diferentes. Youngjae parecia mais calmo, mais centrado, mas ainda havia algo de pensativo em seu olhar, uma intensidade subjacente que não passava despercebida. Em uma madrugada silenciosa, os dois estavam sentados no sofá, com copos de chá quente nas mãos e a playlist antiga do grupo tocando suavemente ao fundo, como uma lembrança dos tempos de antes.
— Eu quase larguei tudo — Youngjae disse, quebrando o silêncio com uma sinceridade inesperada. — Mas você me acalmou, mesmo sem estar aqui. Senti sua falta, hyung.
JayB o olhou, sem saber o que responder. As palavras pareciam distantes, como se houvesse uma barreira invisível entre ele e os outros. Ele também havia pensado em largar tudo. Pensado, sim, mas não teria coragem de admitir isso em voz alta. Porque ninguém sabia o peso que ele carregava. E, na verdade, ele também não tinha certeza do que queria mais.
A sensação de estar perdido crescia a cada passo que ele dava. Ele passeou pelas ruas de Seul, as lembranças de anos passados ecoando a cada esquina. Ele se sentou em uma cafeteria com BamBam, riu com Yugyeom, que ainda dançava como se o tempo não tivesse parado para ninguém. Era como se a cidade continuasse a seguir em frente, mas ele não conseguia mais se encaixar.
Atravessou o Han River uma tarde. O vento frio cortava seu rosto, e a vista da cidade, com seus prédios altos e luzes piscando ao longe, parecia uma pintura distante. Mas o aperto em seu peito não diminuía. Em sua mente, , Sian, o abrigo, a neve, o calor nos olhos delas estavam sempre ali, tão vivos quanto a cidade ao seu redor.
Ele amava Seul. Mas amava também o outro mundo. E, cada vez mais, a ideia de ter que escolher entre os dois mundos parecia inevitável. Sabia que em breve teria que tomar essa decisão.
E, de repente, a angústia se tornou mais clara. A próxima viagem... seria a última. E fosse qual fosse a direção, haveria perdas. Haveria despedidas. E ele não sabia como sobreviver a elas.
Com essa certeza cravada em seu peito, JayB se lançou na rotina como se cada dia fosse o último. Como se cada momento fosse a última chance de saborear o que a vida lhe dava, mesmo que fosse breve.
A última risada no estúdio, com os amigos em torno dele, fazendo piadas sobre a música do último álbum. O último pôr do sol visto do telhado da gravadora, quando ele ficava parado, observando a cidade abaixo como se fosse um observador distante de sua própria vida.
O último jantar com a mãe, onde as palavras não eram suficientes para expressar o quanto ele já sabia que poderia perder.
Talvez tudo aquilo fosse realmente o fim. A última vez. A despedida. E, se fosse, ele queria que fosse com o coração inteiro.
Naquela noite, Jaebeom não conseguiu encontrar paz no sono.
Estava deitado em sua cama, rodeado por tudo o que a vida lhe proporcionara — o sucesso, o reconhecimento, a estabilidade que muitos desejavam. Mas, no fundo, ele sentia que algo lhe faltava. Mesmo com as cobertas quentes e a visão das luzes da cidade cintilando ao longe, o vazio era palpável, como se o ar ao seu redor tivesse perdido algum tipo de vitalidade.
Ele estava ali, no lugar onde deveria se sentir completo, mas algo não se encaixava. Ou melhor, alguém não se encaixava.
O relógio na mesinha ao lado da cama mostrava 03:47 quando Jaebeom se levantou, num impulso. Caminhou lentamente pela sala escura, os passos suaves sobre o piso de madeira. A casa parecia estar em harmonia, mas a paz era um fardo pesado para ele. Chegou até a janela e a abriu com um suspiro, sentindo a brisa fria da madrugada beijar seu rosto.
Seul estava acordada — o céu estava claro, mas nenhuma estrela se atrevia a aparecer entre as luzes ofuscantes da cidade. Apenas os letreiros, os faróis dos carros, o incessante movimento das ruas. O mundo estava vibrando, sem pausas, sem descanso.
E foi então que ele sentiu.
Uma onda de calor percorreu seu corpo, começando nas costas e subindo até o peito. Era uma sensação estranha, quase etérea, como se o ar estivesse se tornando mais espesso, mais quente, mais próximo de algo que ele havia deixado para trás. Uma sensação que só poderia significar uma coisa.
Ele fechou os olhos, tentando se concentrar. E, no momento seguinte, os sons começaram a invadir sua mente como se o tempo e o espaço tivessem se dobrado.
O cheiro da lenha queimando, um calor pungente e acolhedor que ele conhecia tão bem. A risada doce de Sian, chamando-o com a inocência de quem ainda acreditava que o mundo era simples. O som suave da neve caindo sobre o solo, uma música que só a natureza podia compor. E, acima de tudo, o toque firme e gentil de , suas mãos envoltas nas dele, oferecendo algo que ele não sabia se merecia.
O mundo gelado estava chamando-o novamente.
A certeza começou a tomar conta dele. Ele sabia que, se retornasse, não haveria volta. A última viagem era um caminho sem retorno, e ele tinha apenas uma escolha a fazer: seguir em frente, para onde o calor daquelas lembranças o aguardava.
O dia seguinte começou cinzento, com um clima de despedida no ar. O grupo estava reunido para uma gravação importante. Cada momento ali parecia ter um peso diferente, como se ele estivesse tentando gravar em sua memória até os menores detalhes: o jeito cuidadoso de Jinyoung ao ajustar o microfone, as piadas descontraídas de Jackson que ecoavam pelo estúdio, os olhos focados e intensos de Mark, sempre atentos. Aqueles momentos eram agora preciosos demais, mas ele não podia mais se enganar. Cada um deles estava ali, mas ele sabia que, em algum momento, teria que seguir outro caminho.
Depois, foi até sua mãe. A casa estava quente, como sempre, e o cheiro da comida caseira se espalhava pelo ar. Ela preparou seu prato favorito, e os dois conversaram sobre o passado, sobre os pequenos detalhes da vida que pareciam tão distantes quando ele estava longe. Ela falava sobre o tempo, sobre o que ele significava para ela.
“Às vezes, filho… o coração da gente já tomou uma decisão antes mesmo da gente perceber.” A voz dela era suave, mas suas palavras cortaram como uma faca. Ela sabia. De algum modo, ela sabia.
Jaebeom sorriu, mas a dor estava ali, apertando sua garganta. Ele engoliu a vontade de chorar, de abrir o peito e contar tudo o que sentia. Mas, ao invés disso, deu-lhe um sorriso cansado e beijou seus dedos. Ele não precisava de palavras para ela entender que algo estava errado.
Naquela noite, depois de mais uma rotina que parecia já ter sido vivida mil vezes, Jaebeom se retirou para seu quarto. Pegou o caderno onde costumava rabiscar suas letras, aonde escrevia sua alma. Não era uma música para ninguém ouvir, não mais. Era apenas uma última tentativa de deixar algo para trás. De fazer com que aquela parte dele, que se sentia perdido, fizesse sentido em palavras.
A caneta deslizou sobre o papel, mas suas mãos tremiam. Cada linha, cada verso parecia uma despedida mais profunda do que a anterior. Ele não sabia ao certo o que estava escrevendo, mas sabia que, no fundo, estava tentando se prender a algo que não poderia mais ter. Não da mesma forma.
Era uma noite calma em Seul. A cidade, embora distante do seu apartamento, ainda se fazia presente. As luzes da cidade iluminavam a janela de Jaebeom, mas, dentro de sua casa, o ar estava pesado, carregado de algo que ele não podia explicar direito. O silêncio parecia mais denso do que nunca, como se a tranquilidade do ambiente contrastasse com a tempestade silenciosa que ele sentia dentro de si. Ele sabia que o tempo estava correndo. Ele não sabia exatamente quanto tempo lhe restava ali, mas sentia que algo estava prestes a mudar, e a sensação era palpável, quase insuportável.
Ele olhou para os meninos, que estavam espalhados pela sala, rindo, conversando sobre trivialidades e se distraindo com piadas de Jackson. A luz suave da sala refletia em seus rostos, criando uma sensação de familiaridade reconfortante. Mas Jaebeom sabia que aquela normalidade estava prestes a ser quebrada. Ele sentia que o momento estava ali, à porta, e que ele não poderia mais adiá-lo.
Foi então que, sem que ninguém soubesse o que estava por vir, ele se levantou devagar, como quem sentia o peso do mundo nos ombros. Quando ele se sentou à frente deles, os meninos notaram a diferença. A leveza habitual da sala desapareceu. O olhar de Jaebeom era sério, carregado de algo que nenhum deles poderia identificar de imediato, mas que, sem dúvida, os deixava alertas.
Ele passou as mãos nos cabelos, como se tentasse organizar seus próprios pensamentos antes de falar. O silêncio entre eles se alongou, cada um esperando que ele tomasse a palavra. O peso das palavras que ele estava prestes a dizer estava tão evidente que até o riso fácil de Jackson morreu na boca dele. A inquietação se espalhou, e Jaebeom não conseguiu mais adiar.
— Eu… — Ele começou, mas as palavras saíram entrecortadas. Engoliu em seco, tentando se recompor, mas algo na sua garganta parecia bloqueá-lo. Ele respirou fundo, os olhos fixos em cada um dos meninos, sentindo o vazio dentro de si crescer ainda mais com o peso do momento. — Eu não sei quanto tempo mais vou estar aqui com vocês. A vida muda muito rápido, de uma forma que a gente não pode controlar. Quando isso acontece, tudo o que a gente pode fazer é tentar lidar com o que vem depois.
Ele parou, seus olhos deslizaram de um a um, observando-os. Cada um estava em silêncio agora, como se tentassem entender a magnitude daquelas palavras. Jaebeom podia sentir a tensão tomando conta da sala. Ele sabia que os meninos estavam começando a perceber o que estava acontecendo, mesmo sem que ele tivesse dito tudo o que estava em sua mente. A sensação de despedida era palpável, e ele não conseguia mais escondê-la.
— Eu só queria que soubessem… — Ele forçou mais uma vez. Sua voz estava baixa, quase frágil, como se temesse que, ao dizer o que realmente sentia, perdesse algo ainda mais precioso. — Se algum dia eu sumir, ou precisar me afastar, não se preocupem, tá? Não é que eu não queira estar aqui, com vocês. Mas quando você sente que o mundo ao redor pode mudar de uma hora para outra, a única coisa que a gente consegue fazer é aproveitar o que tem. E eu quero que cada momento que passamos juntos seja lembrado. Eu nunca vou esquecer nada disso. Nunca.
Havia um peso indescritível nas suas palavras, e ele sabia que os meninos podiam sentir isso. A pausa que se seguiu foi longa. Cada um tentava digerir a gravidade do que acabara de ser dito, sem saber como responder ou o que pensar. O olhar de Mark estava fixo no chão, como se não pudesse encontrar forças para olhar Jaebeom diretamente. Jinyoung estava com os olhos baixos, mas o olhar dele parecia mais profundo do que o normal. Ele estava tentando entender, mas também, de alguma forma, estava começando a aceitar. Jackson, o mais extrovertido, o mais brincalhão, foi o primeiro a tentar aliviar a tensão.
— Não seja tão dramático, hyung — disse ele, rindo, mas sua risada soava forçada. Era como se estivesse tentando proteger a si mesmo mais do que aos outros. Jaebeom sabia disso, sabia que Jackson estava tentando esconder a preocupação. Mas a tentativa de humor não disfarçou a apreensão no ar.
Jaebeom sorriu fraco, tentando devolver a leveza com o mesmo tom de Jackson, mas algo dentro dele não conseguia mais brincar. Ele estava sendo sério, muito mais sério do que jamais poderia imaginar.
— Eu não estou sendo dramático — disse, o tom da voz agora mais firme, mas sem perder a suavidade. Ele olhou para os meninos, um por um. — Eu só preciso que vocês saibam, se algum dia eu me afastar, se algo acontecer… Eu não quero que fiquem pensando que eu não fiz tudo o que pude. Eu não quero deixar nada não dito, nenhum arrependimento.
A sala ficou em silêncio. Cada um digeria aquilo de forma diferente. O peso das palavras parecia flutuar no ar, e Jaebeom sentiu como se estivesse deixando um pedaço de si ali, com eles. Como se a despedida já tivesse começado, sem que ele tivesse dito “adeus” de fato.
Foi Jinyoung quem quebrou o silêncio, sua voz suave, mas cheia de significado.
— Você sempre vai ser nosso líder, Jaebeom — disse, e suas palavras saíram com uma firmeza tranquila, como se fosse um fato inquestionável. — Você sempre vai ser a nossa força, não importa onde você esteja. Sempre.
Jaebeom fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquelas palavras se instalar dentro dele. Ele respirou fundo, tentando controlar a emoção que ameaçava transbordar. Mas, ao mesmo tempo, uma sensação de paz tomou conta de seu peito, como se ele finalmente tivesse feito o que precisava.
— Obrigado — murmurou, a voz falhando levemente. Ele se levantou lentamente, sem olhar para trás, o peso da despedida ainda muito presente, mas também um certo alívio por ter dito o que precisava ser dito. O ar estava denso, e a atmosfera ao redor deles parecia estar se fechando.
Ele caminhou até a porta, sentindo a dor das despedidas ainda não ditas pairando no ar. Quando saiu da sala, deixou para trás os meninos que, silenciosos, absorviam tudo o que ele havia dito. Eles sabiam, assim como ele, que a despedida não precisava de palavras finais. Ela estava no olhar, no silêncio, no sentimento de que algo estava se encerrando, mesmo sem ser completamente anunciado.
A casa estava quieta, envolta por um silêncio que não era desconfortável, mas cheio de pequenas memórias. Cada objeto parecia guardar ecos de outros tempos — o relógio antigo marcando o tempo em compassos calmos, os retratos na parede refletindo sorrisos que pareciam tão distantes agora. O cheiro inconfundível de chá recém-feito e arroz no vapor pairava no ar, como uma carícia nos sentidos. Era um cheiro que sempre fizera Jaebeom se sentir em casa. Seguro. Protegido.
Ele caminhou devagar até a cozinha, os passos amortecidos pelo tapete desgastado no corredor. Ao entrar, viu sua mãe sentada à mesa, com o rosto levemente inclinado para frente enquanto mexia o chá com delicadeza. Os dedos finos, marcados pelo tempo, seguravam a colher como se fosse um ritual sagrado. A luz da manhã atravessava as cortinas floridas, acariciando seus cabelos grisalhos e realçando a serenidade de seu semblante.
Ela não disse nada ao vê-lo. Apenas ergueu os olhos, e seu sorriso pequeno, contido, o atingiu com a força de um abraço. Mas o que mais o desestabilizou foi o olhar dela — aquele olhar de quem já sabia. De quem sempre soube.
— Mãe… — a palavra saiu baixa, como um sussurro trêmulo. Ele parou ao lado da mesa, os olhos buscando nos dela um apoio que ele ainda não sabia como pedir. — Tem algo que eu preciso te dizer.
Ela não respondeu de imediato. Apenas terminou de mexer o chá e repousou a colher com cuidado sobre o pires. Seus olhos não deixaram os dele.
— Às vezes, eu sinto como se estivesse à beira de perder tudo — Jaebeom continuou, a voz rouca, a garganta apertada como se cada sílaba machucasse. — Tem algo vindo, algo que… vai mudar tudo. E por mais que eu queira lutar contra isso, eu sei que não posso. Não dessa vez.
A mãe apenas ouviu. Seus olhos não o julgavam, não o interrompiam. Era como se o acolhessem inteiramente, como se já tivessem ouvido aquelas palavras no silêncio dos gestos dele.
— Eu só… não quero te decepcionar. — Ele abaixou a cabeça, os dedos tremendo ao apoiar-se no encosto da cadeira. — Você sempre foi meu porto seguro. Meu norte. E se eu tiver que ir… se eu tiver que sumir… não quero que ache que fui fraco ou que não tentei. Só quero que saiba que eu amei cada segundo dessa vida que você me deu.
Por um instante, o tempo pareceu parar. Ela se levantou devagar, o movimento tão tranquilo quanto sua presença. Caminhou até ele com passos leves, como se o chão inteiro pertencesse a ela. E quando chegou perto, estendeu as mãos e segurou as dele com firmeza.
— Jaebeom… — sua voz era baixa, mas firme, como o som da chuva caindo no telhado em noites longas. — Você nunca me decepcionaria. Nunca. Você é meu filho, meu maior orgulho. E não importa o que o mundo coloque no seu caminho, você sempre terá minha bênção.
Ele a olhou, os olhos marejados, sentindo a alma tremer diante daquelas palavras. Era como se ela o perdoasse por algo que ele ainda nem tinha feito. Como se dissesse, sem dizer, que já o havia libertado de qualquer culpa antes mesmo de ele carregar qualquer peso.
— Mas eu posso não voltar, mãe. — Sua voz saiu em um sussurro rachado, carregando o medo que ele não conseguia mais esconder. — E eu sei que, no fundo, você já sentiu isso. Já entendeu.
Ela levou a mão até o rosto dele, acariciando com ternura a linha da mandíbula, como fazia quando ele era menino. Seu toque era quente, reconfortante, mas havia ali também uma despedida silenciosa, um entendimento mútuo de que talvez aquele fosse o último momento entre eles.
— Onde quer que você vá, você estará comigo — ela disse, com os olhos marejados, mas o rosto sereno como o céu depois da tempestade. — Eu te carrego aqui — e levou a mão ao próprio peito. — Sempre. Vai em paz, meu filho. Vai com coragem. E saiba que, mesmo distante, meu amor vai te alcançar.
Jaebeom fechou os olhos, e as lágrimas finalmente escaparam. Não chorou alto, não soluçou. Mas deixou as emoções fluírem no silêncio daquela cozinha, onde tantos cafés da manhã foram divididos, tantas conversas sem pressa aconteceram. O lugar onde ele aprendeu a amar em silêncio e com profundidade.
Ele a abraçou. Apertado. Forte. Como se pudesse eternizar aquele gesto na memória.
— Eu te amo, mãe — sussurrou, com a voz embargada.
Ela não respondeu com palavras. Apenas o abraçou de volta, e naquele toque, havia tudo. Toda a vida, todo o amor, toda a despedida que eles não ousavam nomear.
Quando ele se afastou, algo dentro dele já sabia: ele estava partindo. E, mesmo sem dizer, ela já o havia deixado ir.
E então, quando o calor ao seu redor começou a se dissipar, quando a luz na sala se distorceu, quando o mundo pareceu parar de girar por um breve segundo… ele não resistiu.
Deixou-se levar. Deixou que a última viagem o envolvesse. Sem palavras, sem questionamentos, apenas a certeza de que não havia mais nada que ele pudesse fazer. O chamado era forte demais para ignorar.
E assim, no silêncio da madrugada, ele se foi.
Quando Jaebeom atravessou o véu entre os mundos e finalmente pisou novamente na Seul congelada, o tempo pareceu desacelerar, como se o próprio universo prendesse a respiração. Cada floco de neve em suspensão parecia parar no ar por um breve segundo, girando em câmera lenta ao redor dele, como uma saudação silenciosa de boas-vindas.
O vento cortava a pele com sua lâmina invisível, mas Jaebeom não sentiu dor. O frio, que costumava castigar, agora era quase um velho conhecido que o acolhia de volta. Ele não estremeceu, não hesitou. Ali, naquele mundo suspenso em inverno, ele se sentia estranhamente completo — como se algo finalmente tivesse se encaixado dentro dele.
A cidade ainda vestia branco, como se o inverno tivesse decidido fincar raízes por tempo indeterminado, mas havia algo diferente naquela tarde. Não era o clima. Era ele.
Jaebeom caminhava devagar pelas ruas semi-desertas, sentindo os flocos de neve pousarem suavemente nos ombros. O estúdio aparecia logo à frente, com as janelas iluminadas em tom âmbar, como um farol silencioso no meio do concreto gelado.
Do lado de fora, um boneco de neve incompleto aguardava por olhos, nariz e boca — uma promessa congelada de que alguém esperava que ele voltasse.
E ele voltou.
O portão rangeu ao ser empurrado. Ele subiu os poucos degraus da entrada com passos lentos, quase hesitantes, até que a porta se abriu antes mesmo que ele tocasse a maçaneta.
— Você demorou — disse uma voz fininha, firme.
Sian estava ali, parada como uma pequena guardiã de tudo o que importava. As bochechas coradas pelo frio e os olhos atentos, como se buscassem confirmação de que ele não era só mais uma ilusão.
Jaebeom se abaixou para ficar na altura dela.
— Mas voltei, não voltei?
Ela o observou por um segundo longo demais, até que assentiu e o abraçou com força. Um abraço silencioso, quase desesperado, como se quisesse colar os pedaços de um medo antigo que começava, enfim, a se dissolver.
Ali, naquele gesto pequeno e absoluto, Jaebeom entendeu tudo o que precisava saber.
Do corredor, surgiu, recostada na moldura da porta, com uma caneca de chá quente entre as mãos. Usava um moletom surrado e uma expressão indecifrável. Ela não sorriu imediatamente, tampouco correu até ele. Apenas o encarou. Como se estivesse esperando mais do que uma presença física. Como se quisesse ter certeza de que ele havia voltado inteiro.
— Então... — ela disse, com um sopro de voz, que escapou no ar como fumaça — decidiu?
Jaebeom se levantou, caminhando até ela. Pegou a caneca sem pedir, sentindo o calor invadir seus dedos frios. E olhou ao redor.
O sofá velho, agora coberto por mantas. As guitarras encostadas no canto, em silêncio. Os desenhos infantis colados na parede. O cheiro de canela e algo assando no forno. A trilha sonora baixa que vinha de uma caixinha de som esquecida no aparador.
A vida ali tinha mudado. Ele também.
— Eu pensei em tudo o que deixei pra trás — ele começou, a voz rouca. — Amigos, família, uma carreira que eu construí com sangue. Mas nada disso me segura mais. Porque aqui… é onde o meu coração bate mais forte. Onde eu não preciso fingir que estou bem quando não estou. Onde eu posso simplesmente ser… eu.
baixou os olhos, apertando as mangas do moletom com os dedos.
— Eu achei que você não ia voltar — confessou. — Achei que talvez tivesse sido só um intervalo. Que a gente era só… uma pausa no caos.
Ele se aproximou, encostando a testa na dela com suavidade. A mão dele tocou o queixo dela com um cuidado quase reverente.
— Eu tive medo. Medo de ficar, medo de partir. Mas entendi que fugir não era mais uma opção. Eu não quero só sobreviver. Eu quero viver. Aqui. Com você. Com a Sian.
Um suspiro escapou dos lábios dela, quente e breve.
— Eu estava me preparando pra esquecer você — ela murmurou. — Porque amar alguém que não sabe se vai ficar... cansa.
— Eu sei — ele respondeu, encostando os lábios na testa dela. — Mas agora você não precisa mais esperar.
Eles ficaram assim por alguns segundos, respirando no mesmo compasso. Não havia mais palavras necessárias. Só a presença. Só a certeza.
Do lado de fora, Sian apareceu na varanda com as luvas tortas e o gorro torto.
— Jaaaaay! Vem logo! Nosso boneco de neve ainda tá pelado!
Jaebeom riu, afastando-se de com um beijo leve na bochecha.
— Parece que estou sendo requisitado.
— Ela mandou você — disse, tentando disfarçar um sorriso.
— Uma líder nata — ele respondeu, já indo em direção à porta.
Ele se jogou na neve ao lado da menina, e o riso dos dois encheu o ar, ecoando pelas paredes do prédio e pelos andares de concreto da cidade que nunca dormia.
os observava da janela, com a caneca ainda entre as mãos. Não dizia nada. Não precisava.
Naquele instante, ela sabia: o tempo recomeçava ali.
As tempestades ainda viriam. O frio ainda retornaria com força. Mas agora, não era mais exílio. Era lar.
Porque às vezes, não é o lugar que muda — é a gente que aprende onde o coração mora.
Fim
Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? EU SOU ABSOLUTAMENTE OBCECADA POR ESSA HISTORIAAAA, JURO, AMEI DEMAIS ESCREVER, QUANDO EU SOUBE DESSE ESPECIAL, ESSE FOI O PRIMEIRO PLOT QUE SURGIU NA MINHA MENTE kkkkkk. Espero que goste e não esquece de comentar, ok?
ps: Se quiser conhecer mais fanfics minhas vou deixar aqui embaixo minha página de autora no site e as minhas redes sociais, estou sempre interagindo por lá e você também consegue acesso a toda a minha lista de histórias atualizada clicando AQUI.
AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.
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