Capítulo Único
🌫️ Parte 1 — O Palco
Luz.
Sempre começa com a luz.
Um feixe branco que corta a escuridão como uma lâmina silenciosa.
No centro, .
Descalço.
De pé.
No exato momento em que tudo recomeça.
O ar cheira a madeira antiga. O chão range sob seus pés. Cortinas escuras balançam sem vento algum.
Ele respira fundo. Fecha os olhos. Espera a música.
Ela sempre vem.
Uma melodia lenta, arrastada, quase tímida.
Não há plateia.
Não há voz.
Apenas ele... e ela.
Ela surge das sombras, com o corpo envolto em tecido leve, como névoa dançante. O cabelo preso em um coque frouxo. Os pés também descalços. Seu olhar encontra o dele — e mesmo que não diga uma palavra, sente tudo.
A dor. A saudade. A culpa.
Eles dançam. Como sempre fazem.
Como se seus corpos fossem peças de um quebra-cabeça antigo, esquecido numa gaveta de lembranças apagadas.
Os movimentos não são ensaiados. São instintivos.
As mãos quase se tocam. Mas sempre param no último segundo. E então, ela começa a desaparecer.
Primeiro os contornos. Depois a luz. Até restar apenas o vazio.
cai de joelhos.
O palco some. A música para. Ele acorda.
— De novo... — sussurra para o teto do quarto, ofegante.
O suor escorre pela têmpora. O coração bate como se tivesse corrido por horas.
Mas o pior é outra coisa.
A dor não vem do corpo.
Vem de um lugar que ele não sabe nomear.
Um lugar onde, talvez, ela tenha ficado.
✨ Parte 2 — A Mulher do Espelho
As mãos de se movem sozinhas.
O grafite risca o papel em traços suaves, precisos, como se guiados por uma memória que não é dele… e ainda assim pulsa dentro do peito.
Olhos grandes. Um queixo delicado.
Lábios que parecem à beira de dizer algo, mas nunca chegam a falar.
Quando termina, ele encara o desenho como se esperasse que ela abrisse os olhos e o chamasse pelo nome.
— Quem é você? — ele sussurra.
Nenhuma resposta.
Apenas o som distante de uma nota de piano. Ele não sabe se foi real ou se apenas ecoa de dentro da sua cabeça — ou do sonho.
A porta do estúdio se abre devagar.
— ? — chama Yuna, com uma sacola de comida nas mãos. Ele rapidamente fecha o caderno, como se escondesse algo indevido.
— Tô... bem. — mente. Ela o observa com aquela expressão de quem sabe que ele não está. Mas respeita o silêncio.
Enquanto ele se levanta, o caderno escorrega e cai aberto no chão.
A folha com o retrato se vira para cima.
E Yuna paralisa.
— …
— O que foi? — Ela se ajoelha, pega o papel com cuidado.
— Você… você desenhou isso de cabeça? — Ele confirma, hesitante.
— Sonho com ela todas as noites. Sempre igual. Dançamos, mas eu nunca sei quem ela é.
Yuna engole em seco.
— O nome dela é . — sente o ar sumir.
— Você a conhece?
— Conheço.
Um silêncio denso se instala entre os dois.
— … ela vai ao seu túmulo todos os meses. — Ele franze o cenho, confuso.
— Como assim?
Yuna hesita.
Então, abre o celular, acessa uma pasta escondida. Mostra uma foto: uma mulher ajoelhada diante de uma lápide branca.
O nome esculpido na pedra: .
Data de morte: exatamente um ano atrás.
— Isso… isso é uma brincadeira?
— Você não se lembra. Mas não está vivo, .
— Isso é impossível. Eu estou aqui.
— Está. Mas não deveria.
O chão parece se afastar. As paredes perdem o contorno, como se tudo ao seu redor fosse... falso.
Como se a única coisa real fosse ela.
.
A mulher que não o deixava ir.
A mulher que o mantinha vivo… dentro de um sonho.
✨ Parte 3 — Memória Corporal
Quando a luz se acende, ele já está lá.
O palco. O silêncio. O ar denso como vidro quebrado. Mas algo mudou. Pela primeira vez, ele sabe que está sonhando. Pela primeira vez, ele sabe que está morto.
A música começa.
Baixa, hesitante, como se sentisse vergonha de existir. A mesma melodia, sempre. Mas agora, há algo diferente. Um detalhe que sempre esteve ali, escondido entre as notas.
Uma voz.
Uma voz feminina, tênue, quase imperceptível, sussurrando o começo de uma canção:
“When I lost you… I lost myself too.”
prende a respiração. Ele conhece essa música. Mas não sabe de onde.
Ela aparece.
Sempre do mesmo lugar: entre sombras, mas agora ele a vê com outros olhos.
.
real.
que ainda sente falta.
que ainda ama.
que segura cada passo como se fosse o último.
Ela se aproxima. Lenta. Frágil. Um rastro de luz branca a acompanha.
Desta vez, ele repara: Há uma aliança em sua mão esquerda. Dourada. Simples. Brilhando como uma promessa que o tempo não conseguiu apagar.
— Você era minha…? — ele sussurra, mas o som evapora no palco.
dança.
Não para ele — mas por ele.
Os braços sobem com delicadeza. Os olhos se fecham. A expressão é de luto, mas também de amor.
Os movimentos contam uma história que ele quase entende. Ela se curva. Gira sobre si mesma. Coloca a mão no coração.
Depois, estende o braço, como se quisesse libertá-lo. Ou deixá-lo partir.
— Você está se despedindo… Ou me pedindo pra ficar?
Ele não sabe. Talvez ela também não.
Mas seu corpo sabe o que fazer. As pernas se movem. Os braços respondem.
Ele dança com ela — não mais por instinto, mas por escolha.
A sintonia é profunda.
Como se cada passo fosse uma lembrança. Como se cada rotação trouxesse de volta um pedaço do que foram.
Ou do que ainda são, mesmo separados por mundos que não se tocam.
E então, ela para.
Fica imóvel. Olha para ele. A boca se move, como se tentasse dizer algo pela primeira vez, mas nenhum som sai, só um olhar cheio de dor e ternura.
E quando ele estende a mão…
Ela desaparece.
Mais uma vez.
acorda com lágrimas escorrendo dos olhos, mas não chora de tristeza. Pela primeira vez, chora por lembrar. Não de tudo, mas o suficiente.
.
Sua .
Sua dança.
Seu amor.
E agora ele sabe: não está preso por acaso. Está preso porque ela ainda o segura — mesmo sem saber.
✨ Parte 4 — Notas Esquecidas
O piano está coberto por uma fina camada de poeira. passa os dedos pelas teclas, como se pedisse permissão.
Ele não sabe por que está ali, apenas sentiu que devia voltar.
O estúdio de composição no fundo da casa — o lugar onde costumava criar.
O lugar onde a música começou a virar memória.
Yuna o observa de longe, em silêncio. Nas mãos, uma caixa antiga de madeira clara, encontrada no fundo do armário. Ela não queria mexer.
Mas algo no olhar de dizia que já era hora.
— Isso era seu, antes… antes do acidente. — diz, entregando a caixa com cuidado.
se senta no chão, cruzando as pernas, como se tivesse voltado no tempo. A caixa tem cheiro de papel antigo, perfume leve e nostalgia. Dentro, partituras dobradas, uma pulseira de couro gasta, uma caneta com tinta falhada.
E, no fundo, dois objetos:
Um anel.
E uma folha solta, com apenas duas palavras escritas no canto inferior:
“Para .”
A folha está coberta por notas musicais — uma melodia simples, incompleta.
encosta os dedos nas teclas do piano. Um, dois, três acordes. A melodia ganha forma.
Lentamente.
Como uma lembrança que volta arrastando os pés.
“When I lost you… I lost myself too…”
Ele paralisa.
Essa frase. A mesma música nos sonhos. Ele a escreveu.
Ele a compôs.
Para ela.
— Eu prometi... — sussurra.
Mas ainda não lembra o quê.
A memória vem em flashes:
rindo ao seu lado, gravando a demo no celular. Os dois sentados no chão do estúdio, dividindo fones. Um beijo leve no ombro. As mãos entrelaçadas. Ela dizendo:
“Se um dia eu te perder, vou te buscar nem que seja em sonho.”
Ele se levanta de repente.
A caixa cai. O anel rola pelo chão. Mas ele não vê. Porque agora ele lembra. Não de tudo, mas da última noite. A chuva forte. A estrada. A música tocando no rádio. E o som dos pneus derrapando. , gritando seu nome.
A batida.
O escuro.
O fim.
— Ela me segurou… Ela me amarrou aqui.
Quando ele volta a si, está diante do espelho do estúdio. Seu reflexo parece diferente. Pálido. Quase ausente. Mas seus olhos brilham.
— Eu sei quem você é, . E eu lembro do que vivemos. Mas... será que estou pronto para partir?
✨ Parte 5 — Último Ensaio
O palco o recebe como um velho amigo. Tudo está igual, mas nada está igual. está acordado dentro do sonho. O corpo vibra com um tipo de verdade que antes não existia. Nos dedos, ele sente a música. Nos pés, os passos que se tornam confissão.
já está lá.
Mais nítida.
Mais real.
Seu rosto tem a mesma expressão suave, mas os olhos… Há cansaço neles. E saudade.
Ela se aproxima em silêncio, mas antes de dançar, estende a mão. Na palma, algo pequeno e brilhante: a aliança dele.
— Eu lembro. — diz , e a voz ecoa pela escuridão.
Ela o olha. Pela primeira vez, ouve. Pela primeira vez, responde.
— Eu nunca quis te prender aqui.
— Então por que me manteve? — ele pergunta, com ternura, não com raiva.
— Porque eu achei que… se sonhasse forte o suficiente… você voltaria. — As palavras doem mais do que qualquer silêncio.
— Eu voltei, . Mas não posso ficar.
A música começa. Desta vez, não é a trilha que o sonho escolhe. É a canção deles, agora completa. As notas flutuam, vivas. E com elas, vem a dança, mas há algo novo nos gestos.
Um cuidado maior. Um pesar em cada rotação. Um adeus bordado em cada toque que quase acontece, mas não se permite durar.
gira, segura a mão dele e, dessa vez, ela fala com os olhos nos olhos:
— Me deixa te soltar, . — Ele hesita.
— Eu tenho medo.
— Eu também.
— E se... e se depois disso eu te esquecer?
sorri, mas é um sorriso triste — daqueles que sabem que o amor nem sempre é sinônimo de presença.
— Então eu vou lembrar pelos dois.
A música se aproxima do fim. O palco inteiro escurece, exceto pelo círculo de luz sobre eles.
Últimos movimentos.Última troca de olhares.
Último passo.
— Obrigado por dançar comigo. — ela diz, com a voz embargada.
toca o rosto dela com a ponta dos dedos. A primeira vez que consegue.
E a última.
— Obrigado por me amar. — responde.
E então, ele fecha os olhos.
E se deixa ir.
🌒 Epílogo – Flor Branca
Meses depois…
caminha até o túmulo de . Na mão, uma flor branca. Na outra, a partitura final — a música que terminaram juntos no sonho. Ela se ajoelha, respira fundo, e sussurra:
— Eu te soltei, mas nunca te deixei.
O vento passa.
Uma folha dança sozinha no ar.
E, por um breve segundo, jura ouvir um riso leve — como o eco de um último ensaio.
FIM...
Nota da autora: Sem nota.
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