Beta: Raphinha Cullen | Autora: Andy Sousa | Postada Por: Rayanna Thaís
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Perdida em Crepúsculo
Conta a história de uma adolescente comum do século XXI - com obrigações,
problemas e pensamentos confusos como a maioria das garotas de sua idade - que, em um
inesperado momento, se vê presa em sua história favorita, tendo de lidar com a difícil missão
de manter toda a trama nos eixos e ao mesmo tempo resolver sua vida pessoal, trazendo
muitas confusões para a pacata cidadezinha de Forks.
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Por Andy Sousa*
Capítulo 1 - Doce Vício
Como muitas das coisas que acontecem em minha vida a leitura é geralmente algo que atraio inconscientemente; sem perceber eu sempre estou procurando algo novo para ler, mas mais do que isso, para reforçar minhas forças, porque quando você se entrega a um livro que te faz bem tudo ao redor parece simplesmente não importar. Como se sua própria vida fosse aquela que você segue com tanta avidez e a realidade apenas um sonho distante...
Foi em um de meus dias vagando pela internet que conheci Crepúsculo. Primeiro um ou dois pensamentos perdidos, depois comentários sobre os personagens e um mês depois lá estava eu na sala de cinema assistindo a esperada estréia do primeiro filme da série. Depois disso foi só uma questão de tempo para que eu comprasse os livros e me tornasse mais uma fã ou até mais do que isso: para que eu me apaixonasse por ele, o magnífico e inalcançável Edward Cullen.
- , você já está pronta? Seu pai e eu estamos quase saindo...
- Oh droga! - Sussurrei; ficara tão absorta enquanto escrevia em meu diário que me esqueci completamente da escola. - Irei em um minuto mamãe.
Pois é, esta sou eu, , uma adolescente como todas as outras, com uma vida geralmente sem muitos acontecimentos, mas com obrigações das quais eu não posso fugir e a escola é uma delas.
Arrumei-me o mais rapidamente que pude, mas no final acabei atrasada como na maioria dos dias.
- Isto tem que parar . Já perdi a conta de quantas vezes você já se atrasou para suas aulas, se eu for chamada na escola por conta de sua irresponsabilidade eu...
- Não irá ser chamada mãe, não se preocupe. - Interrompi-a de me passar sermão enquanto ela e meu pai me levavam à escola, dei sorte que meu pai lhe perguntou alguma coisa sobre as contas da casa e ela logo encontrou outra pessoa para repreender.
Meus pais são tão comuns como quaisquer outros. Ambos trabalham em uma firma de advocacia junto com a maioria de meus tios, primos, avós e etc. É um negócio de família que já existe há gerações, mas do qual eu não tenho a mínima vontade de fazer parte. Meu sonho é ser escritora, mas meus pais insistem em me dizer que eu não tenho chances de ter um futuro brilhante neste ramo - o que eles se referem, na verdade, é ao dinheiro. Assim como a maioria dos brasileiros eles trabalham incansavelmente em busca do sucesso financeiro; minha vida não é das mais luxuosas, eu sei que sou mal-agradecida dando pouca importância ao que tenho, mas a verdade é essa: eu não ligo para o dinheiro, isto nunca me trouxe felicidade e duvido que o faça um dia.
Cheguei à escola no exato momento em que a inspetora trancava o portão.
- Outra vez atrasada? - Eu nunca fui com a cara dessa mulher e tenho a impressão de se tratar de um sentimento recíproco. - Sinto muito, mas desta vez a senhorita terá de ficar aqui embaixo e assinar uma advertência - disse ela com um ar de autoridade que eu não suportava.
Velha antipática, justo hoje que eu já havia recebido aquele aviso ‘amigável’ de minha mãe ela inventa de me dar advertência.
Caminhei para o banquinho que ficava na parte mais solitária da escola e me sentei enquanto aguardava meu castigo, eu já podia até imaginar o que minha mãe diria: ‘isto é culpa destes malditos livros que seu pai lhe comprou, você parece não ter mais vida além deles, está deixando tudo de lado, blá, blá, blá’... É claro que ela se referia a meu livro favorito e sua respectiva saga, mas obviamente eu não concordava com sua opinião exagerada.
Eu não estou deixando nada de lado, pensei comigo mesma. Eu apenas tenho um passatempo diferente agora, dedico cada minuto livre à leitura, mesmo que já tenha lido Crepúsculo milhares de vezes ainda é leitura não é?
- Sim é - falei enquanto abria a mochila e puxava o respectivo livro, já que teria de ficar aqui durante uma hora inteira nada melhor do que passar mais alguns momentos ao lado de Bella, Edward, e o restante dos personagens de Stephenie Meyer.
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- Bella. – Seus dedos acompanharam de leve o formato de meus lábios. – Eu vou ficar com você... Isso não basta?
Eu sorri sob a ponta de seus dedos.
- Basta por enquanto.
Ele franziu o cenho diante da minha tenacidade. Ninguém ia se render esta noite. Ele expirou e o som era praticamente um grunhido.
Toquei seu rosto.
- Olhe – eu disse. – Eu o amo mais do que qualquer coisa no mundo. Isso não basta?
- Sim, basta – respondeu ele, sorrindo. – Basta para sempre.
E ele se inclinou para encostar os lábios frios mais uma vez no meu pescoço.
Fechei o livro e fiquei olhando para frente sem nada ver. Já estávamos no intervalo, eu terminara de ler aquela história pela milésima vez e mesmo assim não conseguia me enjoar dela. Era um mundo completamente diferente para mim, eu me sentia íntima de cada uma daquelas pessoas, quase podia ouvir Edward sussurrando aquelas palavras com sua linda voz. Eu não podia negar que Robert Pattinson era mesmo perfeito para aquele papel, mas eu tinha um visão diferente de todos os personagens, uma mistura dos atores com as faces que eu mesma imaginava em minha cabeça; enfim, só o que eu sabia era que o Edward de meus pensamentos era a criatura mais maravilhosa que eu já pude conceber em minha imaginação fértil.
- Está pensando na morte da bezerra?
Olhei para o lado um pouco espantada, uma menina de cabelos castanhos claros me olhava com uma cara sorridente; ela era bem diferente de mim, que tenho as madeixas negras e os olhos claros, mas isso nunca nos impediu de sermos melhores amigas.
Rafaela avistou o livro em meu colo e logo fez a mesma cara de tédio que eu via em todas as pessoas que nunca compreendiam minha paixão por aquela história.
- De novo isto? - Perguntou enquanto sentava-se a meu lado naquele mesmo banquinho em que eu estivera mais cedo. - Sério , eu não entendo a sua fixação por este pedaço de papel aparentemente sem graça nenhuma.
- Isto é porque você é animada demais para qualquer coisa que não envolva meninos, baladas ou qualquer coisa do gênero - respondi enquanto ela me passava o lanche que havia comprado pra mim enquanto comia seu próprio. – Se, pelo menos uma vez, seguisse meu conselho e lesse alguma coisa você poderia entender o que sinto por este ‘pedaço de papel’ - a repreendi.
Ela apenas deu de ombros, dando uma dentada em seu pastel enquanto olhava para o lado em que seu paquera estava.
- É claro que a coisa a que você se refere é esse tal...
- Crepúsculo - completei. - Não exatamente este, mas se quisesse que eu lhe indicasse algum livro, com certeza seria...
- Está bem, está bem . - Ela me interrompeu enquanto se levantava para jogar o guardanapo no lixo. - Falando sobre a vida real agora - lancei-lhe um olhar mal-humorado, mas ela me ignorou completamente - o Henrique vai dar uma festa hoje na casa dele e nós duas fomos convidadas - ela sorria radiante enquanto compartilhava a notícia comigo.
- Rafa eu acho que não vou, não estou a fim de dar uma de vela para você e seu paquerinha.
- Você é uma boba, você não vai ficar de vela, e além do mais sabe quem também estará lá?
Tentei fingir interesse para não aborrecê-la mais ainda.
- O Alex - ela disse já sorrindo.
Agora eu não estava mais apenas fingindo estar interessada. Alex era meu ex-namorado, eu havia terminado com ele acusando-o de não ser nada romântico - apenas mais um daqueles garotos que não sabem distinguir a diferença fundamental entre a namorada e uma partida de videogame com os amigos - mas ultimamente o via frequentemente onde ia e às vezes até recebia alguns telefonemas dele, não podia negar que estava um pouco confusa e talvez esta noite fosse boa para descobrir quais eram suas novas intenções comigo.
- Hmmm quem sabe eu não passo por lá só para dar uma olhadinha - tentei parecer indiferente, mas Rafaela começou a rir, é claro que ela sabia de toda a história e com certeza já havia adivinhado meus pensamentos.
- Eu sei muito bem o que você vai querer olha r- disse ela brincalhona e nós continuamos rindo enquanto o sinal anunciando o final do intervalo soava.
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Cheguei em casa antes de meus pais como de costume. Pelo horário imaginei que eles fossem almoçar fora. Eu não estava com fome, pensei por um momento e decidi dar um cochilo, passara quase a noite anterior inteira em claro lendo os últimos capítulos de meu livro.
Deitei em minha cama, pensando na vida enquanto o sono não vinha.
Eu não era nenhuma ‘crepúsculomaníaca’... Ou era? As pessoas é que implicavam comigo, qual era o problema em se gostar tanto de algo? É como um namorado, ou um animalzinho de estimação, só que em meu caso a coisa de que eu não desgrudava era mais... sem vida. Não, eu não conseguia assimilar aquilo, para mim tudo aquilo era real, eu me via na pele de Bella quando ela avistava Edward pela primeira vez, eu me emocionava com cada ato simplório de amor que surgia entre eles, eu me irritava com Rosalie - a loira perfeita - quando ela insistia em pegar no pé da protagonista e me imaginava sonhando em ter Alice como melhor amiga.
Mas tudo isso não significava que eu não amasse meus amigos, ou que desse menos atenção à minha vida... Ou significava?
Bem, eu não sabia a resposta - concluí quando já estava quase adormecendo - mas sabia que não poderia acontecer nada de extraordinário só porque eu vivia mais em Forks do que aqui em São Paulo.
Capítulo 2 - Conclusões
Acordei com minha mãe me chacoalhando impaciente.
- , acorde! A acabou de ligar perguntando se você vai à festa com ela e eu disse que você iria, afinal já faz muito tempo que você não sai de casa...
- Hmmm está bem - respondi enquanto esfregava meus olhos. - Que horas são?
- Quase sete. Ande, levante e se arrume que eu levo você.
Minha mãe deveria querer mesmo que eu fizesse algo além de ficar apenas lendo, porque ela não costumava ser tão compreensiva quando se tratava de comemorações que me incluissem e não a ela.
Percebi que eu já não estava mais no ânimo de antes para ir àquela festa, mas não estava disposta a ler nenhum dos livros restantes de Meyer - por mais que tivesse todos, o primeiro era o que mais me prendia, o início de tudo, quando o leitor era suavemente apresentado ao encantador mundo de Edward e Bella - então decidi ir me encontrar com , e mais outra pessoa na qual eu preferia não pensar para ficar ansiosa sem razão.
Quase quarenta minutos depois eu estava pronta, vestira calça jeans, tênis e meu suéter preferido, pois lá fora ventava como nunca ventara antes. Minha mãe me levou ao endereço que lhe passara por telefone, sempre falando demais, no seu costumeiro monólogo interminável. Eu amava muito minha mãe, mas não poderia dizer que éramos muito parecidas, eu, na maioria das vezes, evitava ficar com ela e meu pai e compartilhar de suas conversas sobre o sedutor mercado financeiro.
- Obrigada pela carona mamãe, ligo quando estiver indo embora - disse já abrindo a porta para sair e escapar de seu discurso sobre as vantagens de se ter um bom casamento do mundo atual.
- Está bem querida, eu te amo.
A isto eu claramente tinha que responder.
- Também te amo - disse e sorri para ela rapidamente.
Depois que ela partiu, fui andando em direção à porta da frente da casa de , podia ouvir o barulho alto da música tocando lá dentro, a risada das pessoas se divertindo e tentei ficar animada com o clima descontraído.
Quando estava quase chegando à campainha senti alguém puxando meu braço.
- Ei, me larga... - Comecei a dizer até que percebi de quem se tratava. - ? - Perguntei surpresa.
Ele sorriu de volta e se aproximou para me dar um beijo no rosto.
- Você está linda - disse. Eu estava um pouco nervosa por estar ali com ele, já fazia algum tempo que não nos falávamos, murmurei um ‘obrigada’ enquanto sentia minhas bochechas corarem.
Conversamos por mais alguns minutos ali mesmo na entrada - ele estava diferente, continuava bonito e com o olhar sedutor que sempre tivera - mas depois o barulho lá dentro ficou tão insuportável que mal conseguíamos ouvir nossas próprias vozes.
- Você quer mesmo entrar? - Perguntou de repente me lançando um olhar malicioso. - Porque se não quiser podemos ir para um lugar mais calmo e conversar...
Eu conhecia o suficiente para saber que a idéia dele de conversar era diferente da minha, mas também sabia que se o enrolasse conseguiria as respostas de que tanto precisava e depois dependendo do teor de suas palavras eu poderia decidir se continuaria com ele ou apenas voltaria para a festa.
- Claro - respondi com um sorriso.
Ele sorriu de volta e disse que iria pegar o carro para irmos. Aproveitei esses minutos para mandar uma mensagem à dizendo-lhe com quem estava e porque não havia aparecido ainda. Eu confiava em , mas não sabia se precisaria de outra pessoa para me trazer de volta à casa de .
Acabamos parando em uma pracinha ali por perto onde havia algumas pessoas fazendo caminhada, casais e amigos conversando etc., ainda assim era bem mais calmo que o lugar onde estávamos. Continuamos dentro do carro, nenhum dos dois preferia enfrentar o frio lá fora.
- - eu disse antes que o silêncio entre nós pudesse se tornar constrangedor. - Eu sei que os garotos não gostam de ter que ficar respondendo nada, mas eu preciso saber de uma vez, porque você voltou a me ligar, porque chamou justo a mim para vir aqui?
Ele me olhou meio surpreso por um instante, provavelmente estava achando que eu havia topado sair à sós com ele somente para ficarmos, mas eu não estava disposta a arriscar minha amizade com apenas por alguns minutos que estaríamos juntos. Ele olhou para a frente e quando falou olhava para baixo, meio constrangido.
- eu... Fiquei com saudades de nós dois.
Fiquei quieta, nunca o ouvira ser tão direto em algo, principalmente quando se tratava de sentimentos... Meu coração estava acelerado enquanto eu assimilava suas palavras.
respirou fundo, se virou para mim e segurou minhas mãos.
- A nossa história não teve um final dos mais felizes, me desculpe por ter sido a razão disto...
Ele parecia estar sendo sincero e eu tinha de concordar com o que dissera, mas já havia esquecido quaisquer mágoas que pudesse guardar de tudo. Agora, porém eu me sentia um pouco tocada, mas ainda assim não conseguia acreditar que aquilo seria o máximo que eu teria de amor em minha vida...
- Tu-Tudo bem. – Gaguejei.
Eu não sabia o que sentia por , eu gostava dele, mas estava insegura. Decidi que precisava pensar um pouco antes de tomar qualquer decisão.
- Será que podemos voltar para a festa? A vai ficar chateada se eu não aparecer por lá. - Era uma desculpa para escapar dali, eu vi em seus olhos que ele percebeu minha hesitação, então decidi que hoje eu resolveria logo a situação entre nós.
me levou de volta para a casa de sem dizer mais nenhuma palavra. Ele devia estar com raiva ou apenas se sentindo desprezado pela minha evidente evasiva. Eu não gostava de ser a razão daquilo, mas também não era capaz de fingir sentir por ele coisas que eu não tinha certeza de ainda sentir.
- Obrigada - eu disse assim que ele estacionou.
Ele deu um sorriso duro, evitando olhar para mim. Suspirei e saí do carro, dessa vez decidida a entrar logo naquela festa e tentar ficar com a mente limpa esta noite.
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Já havia se passado quase uma hora desde que eu chegara, ficara um tempo com , mas depois apareceu para reivindicá-la e a mandei ir curtir o resto da noite com ele. Estava na sacada observando as estrelas desde então. Meu Deus o que estava acontecendo comigo? Eu começara a perceber o quanto estava deslocada de minha própria vida, havia muito tempo que não saía com meus amigos, que não passava um tempo com meus pais... Havia muito tempo que eu não sentia nada que não fosse relacionado àquela minha coleção de livros.
O único garoto de quem eu realmente gostara viera até mim, revelara seus sentimentos e só o que fiz foi evitá-lo naquele meu momento de incerteza que nunca deveria ter existido... Eu me lembro de pensar que ficaria com pelo resto de minha vida, me magoara muito ter de acabar com o que tínhamos e agora que eu tinha a chance de recomeçar eu apenas não agi, me vi esperando por algum tipo de pensamento milagroso nesta última hora, mas acabara chegando a uma conclusão totalmente diferente da que eu imaginava.
Agora eu entendia todas as queixas de minha família e amigos: eu estava viciada em Crepúsculo!
O copo de ponche caiu de minha mão enquanto eu notava o que havia acontecido comigo. Desci as escadas num átimo sem saber bem o que estava fazendo. Enquanto eu percebia tudo o que havia perdido enquanto preferia ficar presa em meu quarto a viver fora dele eu queria somente mudar aquilo e já sabia exatamente como começar.
- Você viu o ? - Perguntei a um de seus colegas, mas ele fez que não com a cabeça e continuou a fumar seu cigarro.
Droga, pensei, eu tinha de encontrá-lo e pedir desculpas por tê-lo deixado sem resposta mais cedo. Disparei porta afora olhando para todos os lados enquanto procurava por ele. Lembrei-me de onde havíamos estacionado o carro e comecei a ir naquela direção.
Mas enquanto quase corria ansiosa um pensamento intenso e inesperado me ocorreu. Eu estava revoltada comigo mesma por ter mudado tanto nos últimos meses, mas sentia todo o meu amor pela história de Meyer vivo em meu peito da forma que estivera desde o primeiro momento em que tivera contato com toda a trama; agora eu me sentia dividida entre o remorso por ter abandonado as pessoas que amava e por apenas um segundo ter pensado em abandonar meu livro predileto e todos seus adoráveis personagens.
Eu ia atrás de porque sabia que o amava, mas ao mesmo tempo que afirmava aquilo uma parte de meu coração doía como se eu estivesse fazendo uma coisa que não era certa, como se eu estivesse abrindo mão de algo essencial...
Atravessei a rua dispersa e no mesmo segundo me arrependi de tê-lo feito.
Um carro virou a esquina em alta velocidade e eu tive poucos segundos antes que ele me atingisse.
Naqueles segundos - que me deixaram sem fala por conta do susto e da adrenalina - eu percebi algo: eu há muito tempo tinha duas vidas. Uma delas poderia ser chamada de presente divino ou qualquer coisa do tipo... A outra incontestavelmente se chamava Crepúsculo.
E agora eu estava prestes a ter ambas violentamente tiradas de mim.
Capítulo 3 - Bom - dia... Reneé?
Eu sabia que estava acordada, mas me recusava a abrir os olhos, pois a claridade de onde eu estava me perturbava mesmo com eles ainda fechados. Eu me sentia meio estranha e meus pensamentos estavam confusos.
Estávamos no inverno, porque havia tanta luz esta manhã? Abri os olhos e olhei à volta surpresa com o que via: eu não estava em meu quarto como pensei. Estava em outro lugar, mas não me lembrava de já ter ido ali antes.
Era um quarto pequeno e meio bagunçado. Havia um pequeno rack com um laptop em cima e ao lado uma estantezinha abarrotada de livros de aparência bem velha. As paredes eram de um azul clarinho, o chão era todo de taco marrom; havia coisas um pouco amontoadas pelos cantos como um cesto de roupas sujas, um abajur, e CD’s que eu desconhecia.
Me levantei da cama e olhei para a janela que era a fonte de toda aquela luz ficando meio abismada ao notar que fazia muito sol lá fora, algo muito incomum para aquela estação.
Onde eu estava afinal? Tentei me lembrar e nesse momento ouvi vozes vindo de algum lugar da casa.
Fui andando na ponta dos pés até a porta e a abri o mais silenciosamente que pude. Senti um cheiro estranho e meio enjoativo, parecia ser de ovos fritos ou algo do tipo...
Eu estava no final de um corredor estreito e podia avistar duas outras portas ali e algo que parecia ser a sala de estar na outra extremidade de onde eu me encontrava.
De repente me lembrei; eu estava na festa de , me lembrava dele, de , de ...
- Você não vai acordar a garota? Logo estaremos de saída. - Ouvi uma voz masculina perguntar; era meio monótona e parecia bem calma, mas não a reconheci.
- Acho que ainda não Phil, vou deixá-la dormir mais alguns minutinhos, não sei como direi a ela que terá de se mudar justo agora... - Uma mulher lhe respondeu com a voz meio infantil e insegura; espera aí, pensei, ela disse Phil?
Saí do quarto e fui andando até onde ouvia eles conversando.
- Eu sei que você não vai querer ser responsável por isso, mas não vamos jogar a menina na rua, ela terá outra casa para morar como tinha aqui, fique calma.
Cheguei à sala e podia ouvir as vozes vindo da cozinha ali ao lado. Havia uma suspeita totalmente insana crescendo em minha mente enquanto eu observava aquele lugar; perto da cozinha havia um balcão branco com um telefone em cima, também havia uma lareira de pedra cor de bronze que ficava entre a entrada dos dois cômodos, provavelmente de forma que pudesse oferecer calor a ambos lugares. No teto haviam grandes vigas escuras de madeira e as paredes também eram cobertas de uma madeira daquele tipo.
Algo em minha mente me dizia que eu conhecia aquele lugar, mas não por já ter estado ali pessoalmente. Do outro lado da parede ainda podia ouvir as duas pessoas conversando e fiquei parada enquanto começava a entender o que estava presenciando.
- Você diz isso porque nunca foi obrigado a ir para lá, você não sabe como Forks é melancólica, eu detestava aquela cidade e não gosto nada de ter que mandar alguém para um lugar a que eu mesma não faria questão de voltar.
- Tudo bem Renée, se você está dizendo eu acredito, mas ainda assim é melhor do que deixarmos ela aqui sozinha em uma casa que nem mesmo é dela.
Ele disse Renée?
De repente tudo se encaixou em minha mente, mas parecia ser algo tão improvável que eu mal podia acreditar.
Eu pessoalmente não conhecia nenhum Phil, muito menos alguma Renée, eram nomes bem incomuns para mim a não ser pelo fato de se tratarem dos nomes de dois personagens de Stephenie Meyer; era realmente muita coincidência que eu agora estivesse em um lugar idêntico ao que Bella mencionava no final do livro - quando Alice fazia o desenho de sua visão em um papel - que ela mesma identificara como sendo a sua própria casa em Phoenix.
Segui para o outro cômodo devagar sentindo minha respiração acelerar de ansiedade com a suspeita de quem poderia encontrar do outro lado daquelas paredes.
- Bem eu vou começar a colocar as coisas no carro, acorde ela logo senão saíremos atrasados para ir ao aeroporto. - Phil falou e pude ouvir os passos dele indo para outra direção.
Respirei fundo e me encaminhei decidida para o portal que dava para aquele outro cômodo.
Assim que cheguei me deparei com uma mulher de cabelos castanho-claros que estava à beira do fogão preparando alguma coisa que tinha o mesmo cheiro que eu sentira mais cedo, mas agora se misturava a outro odor que reconheci como sendo de bacon frito.
Ela não era muito alta, vestia regata de cor clara e calça jeans azul clara.
Então ela se virou me deixando ver seu rosto.
- Oh que susto! - Exclamou quase derrubando o prato que segurava e sorrindo para mim em seguida. - Já está acordada? Me desculpe, não ouvi você entrar aqui, como foi sua noite?
Seus olhos eram azuis e muito bonitos e ela tinha algumas rugas de expressão na pele branca, mas queimada pelo sol. Ao todo era uma face jovem, a face que eu sempre imaginava como sendo a de Renée nos livros.
Aquela era a Renée de meus pensamentos, inexplicavelmente ela estava ali à minha frente.
- Foi boa eu acho... - Eu estava perplexa, comecei a vasculhar meus pensamentos tentando desesperadamente me lembrar do que poderia estar acontecendo comigo para me fazer delirar a ponto de ver as coisas tão nítidas daquela maneira.
- Que bom. - Ela ficou nervosa de repente e se voltou para o fogão tirando os ovos e o bacon do oléo e colocando-os no prato.
Tá legal, pensei comigo mesma, eu estou na cozinha de uma tal de Renée - que por alguma brincadeira bastante sem graça de meu cérebro se parece enormemente com a pessoa que eu sempre imaginei como mãe de Isabella Swan - o que eu fiz nas últimas horas que pode estar me causando essa cena bizarra?
Renée colocou o prato em cima da mesa e voltou a olhar para mim com o sorriso um pouco tímido.
- Seu café está pronto - disse apontando para a refeição à nossa frente.
Eu olhei para o prato lotado de coisas gordurosas e meu estômago embrulhou um pouco, eu não costumava comer de manhã e muito menos aquele tipo de coisa, mas resolvi me sentar, pelo menos para evitar que desmaiasse de terror a qualquer momento.
- Então , você já deve saber como é o trabalho do Phil não é? - Perguntou Renée, sentando-se numa cadeira à minha frente enquanto falava. - Às vezes ele tem que fazer alguns sacrifícios para conseguir melhorar nossa situação de vida e o fato é que há alguns dias ele soube de uma boa oferta de emprego na Flórida e há cerca de dois dias ele recebeu o pedido de que fosse para lá se quisesse fechar contrato...
Ela se calou por um minuto e eu a olhei séria. Será que era alguma espécie de pegadinha? Alguém descobrira a minha paixão pela saga e resolvera me colocar em alguma espécie de ‘Twilight Reality Show’?
Olhei para o prato à minha frente e resolvi comer um pedacinho de ovo enquanto pensava. Estava bom, bem temperado. Eu ainda preferia que fossem torradas ou algo do tipo, mas era melhor do que ficar de barriga vazia naquela situação.
- Você entende então querida - continuou ela, já que eu não havia respondido nada - que ele tem de ir para lá o mais rápido possível?
Desta vez eu pude ver que ela me encarava com uma expressão um pouco sem graça e que esperava alguma resposta minha.
- Claro... - Foi só o que consegui dizer.
Até descobrir que espécie de brincadeira era aquela eu não pretendia falar nada que pudesse me comprometer.
Renée sorriu.
- Bem como deve imaginar, isto não é tudo... - Ela parou por um instante e ficou olhando para a toalha de mesa - que era laranja com girassóis bordados; tudo aqui tinha uma aparência bem clara e alegre como o sol - e continuou sem voltar a olhar para mim. - Ele não sabe quanto tempo poderá levar para conseguir o contrato e eu não suporto ficar longe dele, então decidi acompanhá-lo enquanto precisar ficar fora.
Eu juntei suas palavras ao que a ouvira conversando com Phil agora há pouco, ao que parecia ela estava se explicando para mim e pedindo desculpas pelo que iria fazer ao mesmo tempo. Renée dissera que não queria dizer à garota que ela teria de se mudar, mas a garota a que se referiam era eu? Aquilo já estava indo longe demais para um pesadelo, uma brincadeira de mau gosto ou qualquer coisa do gênero, eu tinha que acabar logo com aquela bobeira toda.
- Está bem Renée. - Disse seu nome de forma sarcástica porque não acreditava mesmo que aquela mulher pudesse ser quem aparentava. - Qual é o joguinho hein? O que eu tenho de fazer, dizer que não concordo com sua decisão e começar a berrar revoltadamente? Isto daria mais audiência para este programa ou seja lá o que for isso?
Ela me encarava atordoada.
- Programa? Como assim? Não querida, não quero que se revolte, acredite em mim eu mesma não queria ter de fazer isto, mas é pelo Phil então que escolha tenho?
- Está bem. Você não vai mesmo dizer do que se trata isto? Pois bem então eu descobrirei sozinha! - Respondi enquanto me levantava e corria em direção ao quarto onde acordara há alguns minutos.
Tranquei a porta ao passar e me sentei na cama nervosa. Respirei fundo algumas vezes e coloquei a mão no bolso à procura de meu celular, assim que o encontrei disquei o número das únicas pessoas que eu queria ver no momento: meus pais.
Ouvi chamar duas vezes e então a linha ficou muda.
Puxei o celular para olhar o que havia acontecido e notei que na tela podia ler-se as palavras ‘fora de área’.
- Ótimo - falei derrotada.
A minha única esperança de falar com alguém acabara de falhar.
Capítulo 4 - Que tal um passeio de radio patrulha?
Deitei na cama e fiquei olhando para o teto claro tentando assimilar tudo pelo que passara nos últimos momentos.
Decidi começar pelo começo, fazendo uma retrospectiva de meus próprios pensamentos à procura de qualquer explicação plausível.
Eu me lembrava de ter ido aquela festa, me lembrava de ter conversado com , me lembrava de ter ficado um tempo com e de ter ficado sozinha na sacada logo depois...
A claridade que entrava pela janela me impediu de continuar de olhos abertos então peguei o travesseiro e o coloquei em cima de meu rosto na tentativa de pensar melhor.
Aos poucos eu ia me recordando.
Eu havia ido atrás de para pedir-lhe desculpas por meu comportamento, chegara a sair da casa de e corrido por alguns metros quando decidira atravessar a rua...
- Oh meu Deus! - Arfei, lançando o travesseiro longe enquanto me sentava rapidamente, chocada com a última lembrança que tivera.
Eu fora atropelada por um carro que viera em alta velocidade em minha direção e depois disso a única coisa de que lembrava era de acordar neste quarto, mas como poderia ser?
- Será que eu... Morri? - Indaguei perplexa, mas algo me disse que não era aquilo que havia acontecido. - Eu posso estar em coma por causa do acidente e em consequência estou sonhando com aquilo que mais esteve em minha mente nos últimos meses. – Aquela explicação era mais lógica, mas mesmo assim não era a mais consoladora.
Ouvi uma batida tímida na porta e a encarei calada.
- Querida me desculpe se lhe deixei nervosa com a notícia, Phil me disse para lhe contar antes, mas eu não tive coragem. Será que posso entrar para falar com você?
Pensei bem, pelo pouco que ouvira falar sobre pacientes que voltavam do coma a maioria dizia que havia tido um incentivo de dentro ou fora, ou seja, sonhavam ou sentiam algo que lhes fazia acordar inesperadamente; eu até agora não havia sentido nada de anormal, mas vira bastante coisa assustadora em minha mente então tinha de ir atrás de algo forte o bastante para me despertar daquele sonho incomum.
Me levantei e abri a porta para Renée dando-lhe a chance que queria de falar comigo.
- Me desculpe por não ter avisado antes, mas prometo que tentarei voltar a tempo de você poder falar com Bella novamente.
Que maravilha, pensei desanimada, então havia mais personagens naquela história sem sentido. Resolvi arrancar o que quisesse saber de Renée, esperando que ela colaborasse com minhas dúvidas.
- Por falar em Bella eu não a vi ainda... - Joguei verde.
Renée me olhou confusa por um minuto, mas depois sorriu.
- Você deve estar com sono, por isso está tão diferente esta manhã. Bella está em sua casa não se lembra? Vocês duas trocaram de lugar por um tempo porque ambas estavam entediadas com a vida que levavam. Eu mesma achei uma bobeira, mas confio em Bella e se é o que ela quer eu não tenho porque interferir.
Bella estava em minha casa? Nossa, minha imaginação era mesmo fértil para criar uma coisa daquelas!
- Sim claro. É que estou com um pouco de sono por que não dormi muito bem - tentei disfarçar minha surpresa. - Já que cheguei aqui... - Quando eu havia chegado ali mesmo?
- Ontem à noite querida. Logo após lhe recebermos aqui o Phil recebeu a ligação, por isso preferi lhe contar tudo hoje, você vai ficar um tempo com o pai de Bella em Forks.
É verdade, eu a ouvira falar sobre isso com Phil. Espera ai, eu iria para Forks?
- Vocês vão me mandar ficar com Charlie?
- Sim. Bella já deve ter lhe falado sobre seu pai, acho que você pode até gostar de lá... - Renée mordeu o lábio mostrando o quanto ela mesma duvidava daquilo. - Eu fiz suas malas ontem, guardei as coisas de Bella para você já que até isso vocês trocaram. Às vezes não entendo vocês adolescentes... - Completou ela para si mesma enquanto ia para um canto do quarto e pegava uma mala e uma mochila que eu não reparara ali antes.
Caramba, que sonho estranho... Era tão vívido, mas ao mesmo tempo impossível! Eu não me lembrava de ter chegado ali, apenas de ter acordado do nada. Mesmo assim eu nunca tivera pensamentos tão reais como pareciam ser aqueles: o cheiro, o toque, a visão, tudo parecia ser de verdade, mas no entanto não fazia sentido algum.
Num impulso impensado dei um beliscão forte em mim mesma e logo me arrependi porque doeu - e muito.
- Ainda há espaço na mochila caso você queira guardar mais alguma coisa. Vou ver se Phil precisa de ajuda. - Renée sorriu novamente e saiu do quarto.
Minha cabeça rodava, agora a história do coma não parecia mais tão convincente nem mesmo para mim, mas então qual era a explicação? Eu fora magicamente transportada para dentro de meus pensamentos? Não, nada daquilo parecia ser apenas pensamentos...
Juntei as peças: eu já havia conhecido Renée e Phil, eles iam para a Flórida em busca de um contrato de trabalho para ele e estavam me mandando para Forks para morar com Charlie... Então aquilo queria dizer que... MEU DEUS DO CÉU, eu estava dentro de Crepúsculo?
Eu ainda usava a mesma roupa da véspera, a única coisa que tinha para levar era meu celular que insistia em não funcionar de jeito nenhum.
Depois da última descoberta que fizera tudo à minha volta parecia ser capaz de prender minha atenção; eu ficara sentada no banquinho que ficava ao lado de fora da casa e que dava para o jardim grande e iluminado de Renée. Estava impressionada demais com o que presenciava para sequer conseguir emitir uma palavra. Era tudo exatamente como eu imaginava: o calor, a umidade, as árvores que mal faziam sombra, as pessoas animadas na rua; agora eu entendia porque Bella gostava tanto daqui, era como estar dentro de um daqueles seriados de surfistas, pois só o que se avistava era sol iluminando todas as partes.
Já havia se passado quase meia hora desde que eu acordara na cama de Bella. Sim, aquele era o quarto dela e eu ficara uns bons momentos olhando cada coisa, encantada demais com o que via.
- você não quer tomar banho e trocar de roupa antes de irmos? Deve estar derretendo com esse suéter enorme. - Renée apareceu na janela da frente usando agora chapéu e óculos de sol.
Até ela mencionar eu não havia notado o quão realmente estava com calor.
- Claro nem havia pensado nisto. - Me levantei no mesmo momento, acompanhando-a para o interior da casa.
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Estávamos no carro, Renée e Phil - que era mais jovem do que eu pensava - na frente e eu no banco de trás aproveitando o vento morno de verão que entrava pelas janelas abertas.
Renée dissera que o aeroporto não era muito longe dali, por mais incrível que pudesse parecer eu tinha todos os documentos necessários em ordem, ela me disse que eu havia trazido-os comigo na véspera e, sinceramente, àquela altura eu não desconfiava mais de nada.
Comecei a me sentir ansiosa por ter de viajar sozinha até a Península Olympic, ainda era como se tudo fosse uma mistura bem estranha do verdadeiro e do surreal. Eu passara a última hora buscando uma razão para que aquilo estivesse acontecendo comigo. Se estivesse mesmo em coma o susto que levara ao perceber que me tornara estranhamente uma personagem de meu livro preferido com certeza teria sido suficiente para acordar até mesmo os demais pacientes do hospital.
Eu me sentia tola por não ter percebido antes a reviravolta que estava causando em minha própria vida ao trocá-la por aquele meu vício desenfreado, agora eu havia certamente atingido o nível mais alto que uma fã poderia atingir: literalmente viver a história.
Havia pensado em tudo o que era possível. Fiquei imaginando se poderia ser verdade que Bella estivesse mesmo em meu lugar - e me sentindo uma completa imbecil ao sequer cogitar que um personagem pudesse estar vivendo minha vida, mas eu não estava fazendo o mesmo com o mundo que era dela? Bem, então se ela estava lá eu com certeza não era a única com um grande problema para resolver.
- Estamos quase chegando - anunciou Phil enquanto pegava uma via alternativa para sair da rodovia.
Era um lugar enorme, eu havia entrado em um avião poucas vezes na vida, mas nunca vira um aeroporto tão grande quanto aquele. Senti um arrepio de excitação ao perceber mais uma vez a importância daquilo tudo, eu estava dividida entre a alegria que sentia e a preocupação de estar tão longe de casa.
Estacionamos o carro e subimos para o maior terminal: o quatro. Renée e Phil se sentaram comigo para esperar a partida do avião. Enquanto esperava uma idéia surgiu em minha cabeça. Eu vira um conjunto de lanchonetes enquanto vinha me sentar aqui - não havia comido praticamente nada aquela manhã - então decidi comprar algo para matar a fome e aproveitar para confirmar uma suspeita que surgira em meus pensamentos.
- Renée estou com um pouco de fome, você se importa se eu comer algo antes de partir? - Perguntei enquanto ela e Phil conversavam sobre o longo caminho que teriam de enfrentar até a Flórida.
- Claro que não querida. Quer que eu vá com você? Pode acabar se perdendo.
- Não, tudo bem. - Interrompi-a e logo me levantei completando baixinho para mim mesma - é capaz de eu conhecer este lugar melhor até do que você.
Andei por um ou dois minutos e encontrei o que queria: o banheiro feminino. Corri para ele e logo avistei a outra porta de que Bella falava no livro, saí por ela e pude ver a alguns metros dali os elevadores.
Percebi naquele momento que no fundo eu tinha sorte, não sabia o que poderia estar me esperando naquele lugar, mas iria aproveitar cada experiência que tivesse.
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O percurso de cinco horas era exatamente o que eu esperava: cansativo e sonolento. Eu me despedira de Renée e Phil e me doeu um pouco perceber que já havia me apegado a eles naquele curto período de tempo, principalmente da mãe de Bella que era tão simpática e sorridente. Agora eu já havia chegado a Port Angeles; chovia e eu achava hilária a diferença entre minha reação e a de Bella quanto aquilo. Para ela havia sido um momento depressivo, mas para mim era animador ter a prova mais incontestável de todas de que eu estava no lugar certo.
Avistei ao longe o carro de Charlie e ele encostado me esperando.
Respirei fundo e fui em sua direção sabendo que minha aventura estava apenas começando.
Capítulo 5 - Quase um déjà vu.
- Hmmm então Bells conseguiu se livrar de voltar para Forks não é? - Charlie perguntou enquanto dirigia pelas ruas encharcadas. Eu reprimi um sorriso ao ouvir ele chamá-la de ‘Bells’, dava pra ver o amor de pai mesmo em suas palavras.
- É sim... - Pensei antes de continuar para não dizer nada exagerado. - Ela só queria conhecer outro país e outra cultura sabe como é e coincidiu de eu querer o mesmo ao mesmo momento.
Charlie quase bateu o carro ao ouvir minha resposta então ao que parecia eu realmente tinha exagerado, só não sabia em quê.
- Outro país? Renée me disse que ela não sairia daqui, como ela pode ter ido para outro país?
Hmmm foi isso.
- Você conhece a Bella, Charlie ela é bem corajosa a ponto de sair daqui. E, por favor, não culpe Renée por não ter lhe contado antes, ela deveria estar evitando preocupações desnecessárias - pedi torcendo para que ele me ouvisse.
Charlie apenas rosnou um ‘vou tentar’ e continuou a dirigir agora mais cautelosamente.
O restante da viagem foi bem calmo. Eu obviamente sabia muito bem o quanto Charlie ‘gostava’ de conversar e não quis importuná-lo com mais nada com medo de que pudesse deixar escapar qualquer outra informação crucial; investi meu tempo em olhar para fora do carro e ver a notável diferença entre a paisagem à medida que nos aproximávamos cada vez mais de Forks.
Eu me sentia uma intrusa, não podia negar. Estava vivendo uma vida que nem era minha, mas me consolava em saber que não era minha culpa que eu tivesse acordado inesperadamente no lugar de Isabella Swan.
Chegamos finalmente a um lugar que já havia se tornado atração turística: a placa de boas-vindas de Forks. Senti uma raiva tremenda de que meu celular tivesse pifado de vez justo quando eu mais pecisava dele, deveria ter perguntado à Renée se ela teria uma câmera para me emprestar, mas na euforia do momento mal tinha pensado naquilo.
Charlie dirigia calado e pensativo, sempre acenando para um ou outro morador que olhava curioso o interior do carro. Percebi tardamente que não era exatamente Charlie que lhes chamava a atenção.
- Eles pensam que sou Bella não é?
Charlie me olhou por um minuto e respondeu meio sem-graça.
- Sim. Todos estão esperando que ela venha para cá, eu recebi a notícia da troca de vocês há pouco tempo e acho que você chamaria ainda mais atenção por não ser ela então deixei tudo como estava.
- Ótimo. Mais pessoas desapontadas por eu ser quem sou e não quem ela é - falei desanimada. Fiquei imaginando o que os leitores da saga poderiam pensar de uma coisa absurda como esta, mas logo afastei este pensamento para não ficar mais nervosa.
- Muitos deles não se lembram muito bem de Bella, acho que não é um problema tão grande assim - resmungou ele, mas percebi que estava sendo simpático.
Realmente Charlie tinha seu jeito próprio de se expressar, mas eu gostava dele como personagem e não previa grandes problemas em nosso relacionamento. Assim como Renée e Phil ele não era o Charlie conhecido mundialmente; não era como se eu estivesse contracenando com os autores do filme.
- Espero... - Respondi tentando sorrir.
Cerca de dez minutos depois havíamos chegado à sua casa e me vi ansiosa para conhecer logo o interior.
Charlie me ajudou a levar a pouca bagagem que tinha para o quarto que seria meu pelo tempo que estivesse ali. Eu passei pela porta de entrada e tive que conter a emoção que se apoderava lentamente de mim ao observar cada canto daquela tão conhecida casa.
Charlie me mostrou rapidamente cada um dos cômodos e depois colocou minha mala no chão do quarto de Bella, de meu quarto...
- Hmmm acho que Bella gostaria daqui. - Comentou olhando para a parede. - Se quiser que mude algo me fale - completou ainda sem olhar para mim.
- Está perfeito Charlie, eu sei que Bella teria gostado tanto quanto eu, obrigada por se importar comigo - sorri para ele que apenas acenou com a cabeça e saiu dali me dando um pouco de privacidade.
Sentei na cama e olhei à volta um pouco esgotada. Mesmo que já estivesse naquela nova vida há algumas horas, não deixava de ser algo diferente e completamente estranho para mim. O que eu iria fazer ali sendo que a personagem principal estava ausente? O que será que Bella estaria fazendo - se é que ela realmente estava - em minha casa? Eu, às vezes, não sabia bem o que pensar...
- - ouvi Charlie chamar do andar de baixo.
Desci para ver o que ele poderia querer comigo.
- Pode me chamar de , é mais fácil de pronunciar - comentei.
Ele me olhou de cima a baixo antes de responder.
- Está bem - murmurou e eu novamente percebi que ele estava sem graça. Fiquei esperando sem saber o que poderia ter acontecido desta vez. - Venha aqui - disse ele por fim, me levando para a entrada da casa.
Eu o segui até a lateral do terreno inicialmente confusa com seu ato, mas então vi do que se tratava.
Ali ao lado estacionada perto da floresta estava a caminhonete de Bella.
Eu não a vira porque tinha vindo pelo outro lado da rua com Charlie, mas agora podia admirá-la de perto.
Era enorme como os carros mais antigos costumavam ser, de um vermelho desbotado da maneira como haviam reproduzido no filme; fiquei sem fala enquanto a observava.
- Este era o presente de Bella, mas como ela não veio Renée disse que você já tem dezessete anos então já pode dirigi-la, de forma correta e cuidadosa é claro – Charlie parecia aparentemente preocupado que eu fosse alguma maluca que gostava de participar de corridas clandestinas ou alguma coisa do tipo - o que seria praticamente impossível com um veículo daqueles.
- Caramba! Charlie você vai me deixar usar um presente que deveria ser da Bella? Não, não posso fazer isto. - Mas não podia negar que estava morrendo de vontade de dirigi-la.
Meu pai sempre que podia me dava aulas de direção com o pretexto de que assim eu teria mais chances de passar nos exames da auto-escola da primeira vez que os fizesse e ele economizaria o dinheiro de qualquer outra possível prova. Não perguntei sobre a carteira de motorista, seria bem capaz que alguma tivesse sido conjurada para mim como parecia ser tudo mais ali.
- Ela está usando suas coisas, nada mais justo. - Ele pegou a chave no bolso de sua jaqueta e me entregou. - Só tome cuidado com o trânsito está bem?
Eu fiz que sim com a cabeça e agradeci eufórica antes de correr para a picape.
A maçaneta era um pouco mais dura do que as que eu estava acostumada - como as do carro de meus pais - mas consegui abrir depois de algum esforço. Me sentei e coloquei as mãos ao volante antecipando a emoção que sentiria ao dirigi-la pela primeira vez. Me surpreendi ao perceber que assim como Bella, eu não ligava que não fosse um dos carros mais novos que poderia existir; ao me sentar ali eu me senti ao controle de uma arma poderosa, possivelmente capaz de causar bastante destruição se quisesse. Talvez fosse isso que Charlie temesse: que eu me empolgasse demais e começasse a atropelar as caixas de correio da vizinhança. Ri baixinho com o pensamento.
Resolvi voltar para dentro pois estava usando apenas um casaco fino que havia pegado de Bella. Eu tinha muito sorte de nós usarmos praticamente o mesmo número em sapatos e roupas ou teria problemas com minha vestimenta. Mas depois pensei que nada deveria ser sorte, eu deveria estar ali por um propósito que ainda não sabia qual era, mas estava disposta a descobrir.
Charlie estava sentado na frente da televisão assistindo ao costumeiro jogo de basquete. Fui falar com ele antes de subir para guardar tudo o que havia trazido.
- Hmmm obrigada de verdade Charlie, mal vejo a hora de dirigi-la.
Ele se virou pra mim.
- Bom, pois isto será exatamente amanhã pela manhã quando for para a escola com ela.
O quê? Droga, cada pequena coisa ali parecia prender tanto minha atenção que eu mal tivera tempo para pensar no que mais prematuramente me esperava. No livro Bella chegava a Forks e ia para a escola no dia seguinte; sendo Charlie o chefe de polícia local - sempre exemplar para a população – por que eu deveria esperar que comigo fosse diferente?
- Ótimo. Escola... Bem que Jacob podia mesmo estudar lá - falei mais baixo. Eu tinha que admitir que eu às vezes ficava com raiva de seu comportamento rude, mas sabia que ele era uma peça essencial na história.
- Jake? - Charlie perguntou se virando novamente para mim.
Acho que não falei seu nome tão baixo como imaginava.
- É ele mesmo... Bella hmmm falou alguma coisa sobre La Pu... - Fingi gaguejar.
- La Push - Charlie completou por mim.
- É. Acho que era isto mesmo - disse animadamente.
Claro que eu sabia o nome da reserva, mas tinha que fazer parecer que Bella havia somente comentado comigo já que no livro ela não se lembra exatamente de Jacob até que ele mesmo se apresenta na praia.
- Foi do pai dele que comprei a picape - comentou Charlie voltando a olhar para a televisão. - Boa família, você se daria bem com o garoto.
Caramba Charlie, pensei, você não desiste mesmo de tentar supervisionar a vida amorosa das pessoas, está querendo jogar Jacob para mim?
- Acho que sim - respondi rápido demais e ele me olhou com um pouco de desconfiança por eu parecer ter tanta certeza do que dizia. Chegou a abrir a boca para falar, mas neste momento o narrador do jogo comentou algo que chamou sua atenção e ele pareceu se esquecer completamente que eu estava ali.
- Vou subir para arrumar minhas coisas - anunciei querendo sair dali antes que ele pudesse duvidar de algo mais. Como ele não disse mais nada eu corri para o quarto, Charlie não era mesmo nada bobo.
Parei por um segundo refletindo e decidi fazer o mesmo que Bella teria feito se estivesse aqui: guardei tudo em seu devido lugar e fui para o banheiro tomar um banho rápido. Eu pessoalmente não costumava ser uma garota muito pontual ou rápida em minhas tarefas, mas não estava disposta a ser a razão da conta de água vir mais cara ao final do mês.
Estava frio quando voltei para o quarto, resolvi vestir um suéter velho que encontrara entre as coisas de Bella e me deitei embaixo do cobertor disposta a descansar um pouco do dia de viagem.
Eu não havia trazido ‘Crepúsculo’ comigo, mas conhecia a história tão bem que duvidava que chegasse a precisar do livro em qualquer momento. Comecei a pensar em Bella e no que ela poderia estar fazendo naquele momento. Será que estava tão confusa quanto eu? Eu não conseguia imaginar ela respondendo às perguntas de minha mãe que era sempre tão curiosa e faladeira com as pessoas, imaginei que acabasse se dando melhor com meu pai que também tinha seus sermões sempre prontos, mas era mais fácil de lidar. Alguma coisa seria igual aos livros, pelo menos. Bella gostaria mais de seu pai do que de sua mãe ‘provisória’.
Mesmo que meus pais ganhassem o troféu por pegarem tanto no meu pé eu já sentia uma enorme falta deles, era estranho ter aquele silêncio à minha volta, estava acostumada a sempre ter que ouvir eles conversando sobre a vida, os negócios, meu futuro, etc., coisa de pai e mãe. Ao pensar nas pessoas das quais sentia falta acabei me lembrando de . Sabia que se não estivesse aqui eu estaria com ele agora, este era meu plano até que eu fora atropelada - pelo menos fora o que parecera - e acordara misteriosamente dentro de uma das histórias mais românticas que conhecia.
- Pois é, que conhecia. - Murmurei amargamente comigo mesma. – Por que sem Bella aqui, ‘Crepúsculo’ passará a ser uma trama fora dos eixos!
Depois de tanto refletir eu já estava cansada o bastante e acabei adormecendo em segundos.
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Acordei com alguém me cutucando, abri os olhos e me deparei com Charlie me olhando. Levei um segundo para me lembrar de que não estava mais em casa e de que não precisava surtar por ter um personagem de livro em meu quarto.
- Oi Charlie.
- Você não vai jantar? - Eu percebi que estava mesmo com fome, mas sabia muito bem da fama que Charlie tinha com a cozinha, talvez fosse melhor recusar... - Eu pedi pizza, venha comer - completou ele me livrando de passar fome até a manhã seguinte.
Charlie saiu do quarto e eu gemi logo em seguida. Ele havia pedido pizza, eu não havia lhe dito que era vegetariana então provavelmente haveria ingredientes que eu não comeria. Teria que me virar com qualquer outra coisa.
Dobrei o cobertor e desci para lhe encontrar. Ao chegar à cozinha pude ver aliviada o conteúdo de uma das embalagens abertas em cima da mesa.
- Esta aqui é de calabresa e esta outra é alguma mistura de queijo e esses outros ingredientes lights. Vocês mulheres tem essas frescuras de monitorar os quilos, pensei que talvez você preferisse algo assim.
Ele fez uma careta de nojo enquanto olhava para a pizza e eu tive que me segurar para não rir de sua expressão.
Eu nunca fora vaidosa para chegar aquele ponto de contar as calorias, mas daquela vez ficara feliz que ele tivesse acertado no pedido.
- Eu fico com esta mesmo Charlie, está ótimo! - Exclamei alegre e ele apenas assentiu enquanto se sentava para comer sua parte.
Não conversamos muito enquanto comíamos. Eu sabia que Charlie ficava mais tranquilo daquele jeito e tentei ficar calada o máximo que conseguia. Uma vez ou outra perguntava-lhe alguma coisa banal sobre o trabalho ou sua própria vida; depois de responder ele voltava a comer e eu lhe dava algum tempo antes de passar para as próximas questões.
Depois que terminamos estava tarde o suficiente para eu já poder ir dormir, mas como havia cochilado à tarde não me sentia nada cansada. Decidi ficar um tempo na sala assistindo televisão com Charlie. Ele perguntou se havia algum programa em especial que eu gostaria de ver, mas lhe assegurei que não tinha problema nenhum com os que ele costumava assistir. Não era muito fã de esportes nem nada disso, mas aquela era uma situação diferente; eu inexplicavelmente estava na casa de Charlie Swan, me sentia simplesmente feliz por poder compartilhar de seus passatempos.
Capítulo 6 - Os conheço mais que eles mesmos.
Acordei com o barulho fraco da chuva batendo continuamente no teto baixo do quarto. Olhei pensativa para a janela, naquele quesito em especial eu era parecida com Bella, não gostava muito da chuva, mas era melhor começar a me acostumar a ter meus sapatos sempre molhados.
Levantei-me e tomei banho antes de descer para o café. Antes de dormir eu havia arrumado as coisas para levar à escola, usaria a mesma mochila que havia trazido com as roupas de Bella na véspera, provavelmente a que ela também escolheria se estivesse em meu lugar.
Charlie já estava sentado à mesa tomando seu café. Eu dei bom-dia e ele me indicou o cereal e o leite para que eu me servisse. Acabei comendo algumas torradas também.
Logo estava na hora dele sair para o trabalho, me desejou boa sorte com a escola antes de fechar a porta - o mesmo que fazia com Bella no livro. Depois que pude ouvir o barulho da viatura se distanciando comecei a sentir o nervosismo no fundo de meu estômago.
- Eu poderia fingir estar passando mal e faltar hoje - falei pra mim mesma, mas depois ignorei a idéia.
Era ridículo que eu estivesse ansiosa de encontrar um monte de pessoas que até onde eu sabia deveriam ser de mentira, mas eu estava. Talvez fosse só o medo de não ser aceita como Bella era... Eu conhecia aquela história muito bem, poderia dar um jeito de ficar mais calma.
Lembrei o que Bella faria neste momento, ela ficaria vendo as fotos de seu pai em cima da lareira da sala, mas eu sabia que ficaria ainda mais triste que ela se tivesse que fazer isto; eu pensava que Charlie ficaria com Renée no final, depois percebi que era melhor do jeito que estava, mas não estava disposta a ir para a escola com cara de choro.
Resolvi subir para pegar minha mochila. Calcei as botas à prova d’água que Charlie havia comprado para Bella por pedido de Renée e dei uma última olhada no espelho. Era uma pena que Bella não fosse vaidosa a ponto de ter gloss labial ou delineador nem nada relacionado à maquiagem; eu mesma não era muito fã de viver embaixo de quilos e quilos de cosméticos, mas me sentiria melhor se tivesse pelo menos o mínimo daquilo. Eu usava blusa de manga longa e suéter de tricô - que se parecia muito com o que eu trouxera comigo, mas que agora estava na lavanderia - mas ainda teria que vestir a capa de chuva por cima de tudo. Estava ai uma das razões para eu não ser muito fã da chuva, não curtia muito ficar parecendo o boneco da Michelin de tanta coisa que se era obrigado a vestir por aqui...
Por fim já estava tarde o suficiente para que eu pudesse sair. Peguei as chaves em cima da mesinha do computador e parti para a porta da frente.
Tinha chegado a cogitar deixar a capa na casa, mas logo que abri a porta mudei de idéia: chovia o suficiente para ensopar meu cabelo em alguns minutos. Vesti-a então e sai aborrecida para a chuva.
Logo que cheguei à picape, porém voltei a ficar ansiosa e animada. Iria dirigir sozinha sem meu pai me dando ordens a cada minuto. O cheiro da caminhonete era mais agradável do que eu pensara ser possível; tabaco e gasolina em sua maioria.
Respirei fundo e girei a chave na ignição. O barulho ensurdecedor me fez pular no banco de susto, era a única coisa que eu gostaria de poder evitar. Chamava muita atenção, me senti ainda mais dirigindo uma arma de ataque e comecei a rir com a idéia. Depois tentei me acalmar para manobrar o carro em direção à rua.
- Vamos lá, você já fez isto um milhão de vezes com um carro menor e bem menos ruidoso é claro, mas mesmo assim não deixa de ser um carro...
A direção era mais dura do que a do carro de meu pai obviamente, mas preferi assim porque precisaria de atenção dobrada e eu teria menores chances de causar qualquer acidente.
Acabei pisando fundo no acelerador enquanto seguia pela rua molhada e passei de raspão pela caixa de correio de um de nossos vizinhos. Por sorte a rua estava vazia naquele momento e eu fiquei rezando para que ninguém fosse contar a Charlie que suas suspeitas com a minha forma de dirigir poderiam estar corretas.
Enquanto virava a esquina me dei conta de uma coisa crucial: eu não sabia onde ficava a escola.
- Droga! Vou dirigir até o infinito antes de acertar o caminho - resmunguei.
Avistei uma mulher vindo em minha direção na calçada, com um saco de compras nas mãos e resolvi lhe pedir alguma informação, afinal quem tem boca vai à Roma. Ela foi bastante simpática e tentou me explicar da melhor maneira que pôde, pelo que parecia não era muito difícil de encontrar, era só seguir a estrada principal. Agradeci e segui para a direção que ela indicara, desta vez acelerando um pouco mais com medo de acabar chegando atrasada em meu primeiro dia de aula.
De repente me lembrei da expressão que há pouco havia surgido em minha mente ‘quem tem boca vai à Roma’ e comecei a discutir mentalmente as vantagens e desvantagens de se ir para lá sendo que era o lar dos Volturi. Bem, no livro era, mas será que naquela realidade em que eu estava os Volturi existiam? Foi então que outro pensamento tirou minha atenção da estrada por um instante: será que os Cullen existiam?
Foi neste momento, enquanto estava concentrada em minha suspeita que quase bati em um carro que fazia a ultrapassagem, entrando à minha frente. Eu não havia notado ele passar rapidamente por mim e quando percebi já estava a centímetros de seu pára-choque traseiro. Freei bruscamente e afundei a mão na buzina sem querer chamando a atenção até mesmo dos pedestres à minha volta.
Só então olhei para a frente e notei o formato do carro, sua cor, e por último a marca: as letras formando a palavra Volvo podiam ser lidas enquanto brilhavam com o restante do chassi.
OH MEU DEUS, VOLVO?
Tive que colocar as duas mãos no volante segurando-o com força para continuar na estrada. Enquanto o carro se distanciava de mim atingindo uma velocidade que eu não podia alcançar com aquela picape eu pude ver alguém olhando rapidamente pelo espelho retrovisor do lado do passageiro; um par de olhos escuros que logo voltaram a focar a frente da estrada. Reconheci Emmett no mesmo instante e tive que respirar fundo para controlar minhas emoções. Seria praticamente impossível que houvesse outro carro daqueles em Forks, mas agora eu confirmara de quem se tratava e tive a resposta para minha pergunta: sim, os Cullen existiam ali também e agora deveriam me achar a humana mais desastrada do planeta.
Eu ainda podia avistar o carro ao longe e continuei dirigindo com mais cuidado ainda - se é que era possível - enquanto os seguia esperando que estivessem indo à escola como eu estava, assim eu não teria como errar o prédio.
Menos de cinco minutos depois eu já podia avistar uma construção grande e promissora. Enquanto desacelerava vi a placa de identificação e suspirei aliviada por ter chegado ao lugar certo.
Adentrei o estacionamento e parei o mais perto que pude da entrada da escola para que pudesse evitar me molhar desnecessariamente. Respirei fundo e peguei a mochila nervosa com o que ou com quem poderia me deparar naquele dia. Sai da picape trancando-a e avancei para debaixo do telhado mais próximo. Foi então que me lembrei que havia me esquecido de uma coisa.
- Droga! - Reclamei ao ver que teria de voltar o caminho todo que fizera em direção à secretaria para pegar meu horário escolar.
- Precisa de ajuda? - Ouvi alguém dizer e me virei para ver quem era.
Me deparei com um garoto loiro de olhos claros sorrindo para mim de forma simpática. Mike Newton? Senti uma vontade imensa de rir quando percebi que era mesmo ele, como era paquerador, caramba, eu nem era a Bella e mesmo assim ele já estava sorrindo para mim.
- Está tudo bem, obrigada - respondi sem conseguir evitar uma risadinha.
- Você é Isabella Swan não é?
- Só Bella - corrigi-o sem pensar, pelo costume de sempre ver Bella fazendo aquilo, mas logo me expliquei. - Na verdade não, meu nome é - sorri tentando parecer simpática, mas não muito já que não queria que Mike focasse suas atenções demais em mim.
- Não ouvi falar de você... - Comentou ele confuso.
- Acho que ninguém ouviu – respondi. - Mike tenho que ir agora, estou com um pouco de pressa.
- Como sabe meu nome? - Perguntou ele, me pegando de surpresa.
Simples, pensei, eu sei praticamente tudo sobre você e sobre qualquer outra pessoa desta cidade que tenha aparecido nos livros de Stephenie Meyer, eu sei mais sobre vocês do que vocês mesmos e agora estou aqui vivendo uma história que não é minha e quase batendo em um certo carro prateado e caro do qual eu pretendo manter distância a partir de agora...
- Hmmm... – E agora como eu sabia o nome dele? Ou como eu, pelo menos, poderia dizer que sabia de uma forma plausível? Avistei um grupo de alunos que olhava em nossa direção de forma curiosa e tive uma idéia que poderia ser convincente. - Eu ouvi quando seu colega lhe chamou assim - respondi torcendo para que ele acreditasse.
Mike me olhou quieto por alguns segundos mas depois sorriu novamente e eu suspirei de alívio por ele ter caído nessa. Antes que pudesse falar mais alguma coisa eu acenei e fui correndo em direção à secretaria.
Era impossível ignorar que a recepcionista precisava urgentemente de um consultor de moda para lhe dizer que roxo não era uma das melhores cores para contrastar com seus cabelos ruivos e volumosos. Eu fui o mais breve que pude com ela - que me olhou com a mesma expressão de confusão que Mike fizera quando lhe disse que meu nome era e não Isabella. Senhorita Cope me entregou os papéis de que eu precisaria para aquele dia e eu voltei para o lugar onde falara com Mike há alguns minutos. Pude avistar um carro brilhante ali perto; eu havia realmente estacionado bem longe do famoso Volvo de Edward e fiquei feliz pela coincidência.
Meu horário me informou que minha primeira aula era no prédio três como eu já imaginava, pelo menos não tive muitos problemas para identificar o local já que haviam os famosos números indicando cada parte da escola.
Encontrei minha sala e segui decidida para ela. Sabia que ficar nervosa não me ajudaria em nada além de talvez pagar micos ou causar outro quase acidente.
Quando entrei percebi pela primeira vez como a sala era realmente muito menor do que as outras em que eu já havia estado. Tirei a capa de chuva e pendurei nos ganchos que ficavam ao lado da porta junto com as demais peças de roupa que haviam ali. Fui até o professor que me olhou interessado quando cheguei ao seu lado.
- Isabella Swan? – Indagou.
Quase toda a classe se virou interessada para o lugar em que eu estava.
Comecei a cogitar a idéia de andar com uma plaquinha de neón acima de minha cabeça onde estaria escrito: ‘oi, não sou a Bella!’.
- Não senhor. Meu nome é – respondi, já cansada daquilo.
Eu não pretendia explicar a ninguém a razão de eu não ser quem eles pensavam que eu era, imaginava que àquela altura Charlie já tivesse espalhado a notícia para os pais dos alunos que estavam ali então eles com certeza saberiam de tudo em breve.
O professor me fitou com uma cara de desconfiança por alguns segundos, mas logo me passou um papel com os livros que eu teria de ler para sua aula e me mandou escolher um lugar para sentar.
Agradeci a ele e a Deus por ainda haverem carteiras vazias no fundo da sala onde eu poderia evitar os mesmos olhares que Bella tinha enfrentado quando fora sua vez de curtir seu primeiro dia de aula.
Estava tranquila por já ter lido tudo o que Stephenie Meyer costumava citar em seus livros, não teria problemas com os autores que o professor sugeria naquela lista que me passara. Fiquei surpresa ao perceber que meu primeiro dia estava sendo mais parecido com o de Bella do que eu pensava.
Capítulo 7 - Aquele deveria ter sido o momento mais emocionante de minha vida.
A aula passou rápido para mim que estava realmente tentando me concentrar no que o professor dizia, as matérias por aqui eram diferentes das que eu tinha então não seria tão maçante - nem tão fácil - ter de aprendê-las.
O sinal soou e antes de me levantar eu fiquei parada esperando que a próxima coisa que Meyer descrevera acontecesse, mas para minha completa surpresa eu pude ver um garoto oriental se aproximar de mim nervoso e sair da sala ao contrário do que eu esperava.
Aquele só podia ser Eric, mas ele não veio falar comigo como deveria ser...
Me dei conta de uma coisa que até agora não havia assimilado completamente. Apesar de estar ali, de tudo ser muito parecido com o que eu lera eu não era Bella, as pessoas olhavam para mim e viam um rosto diferente dos que eu costumara ler nos livros por que aquele era o meu rosto e aquela garota sentada ali era eu. Além do mais eu já mudara bruscamente a história desde que surgira nela e fui piorando a situação enquanto me aprofundava. Enquanto saía da sala me vi desejando pela primeira vez estar em casa, no lugar ao qual eu pertencia ao invés de estar modificando totalmente minha história preferida.
Comecei a pensar naquilo enquanto me encaminhava para o prédio onde seria minha próxima aula. Algumas coisas eram mais exatas e outras totalmente aleatórias. O horário das aulas, por exemplo, parecia ser exatamente o mesmo que Bella recebia no livro, já meu não encontro com Eric devia-se ao fato de eu ser uma pessoa diferente e talvez ele tivesse se sentido intimidado ou apenas desinteressado comigo. No que dependia de mim as coisas tendiam a ser de outra forma já que eu tinha meu próprio temperamento e minha própria e peculiar visão de todo aquele universo do qual agora fazia parte. Era interessante...
Cheguei à sala e me lembrei de que aquela era a aula de trigonometria. Eu não era muito boa em matemática, mas sabia que se estudasse conseguiria notas razoáveis então nunca me preocupei muito com aquilo, agora também tinha coisas mais cruciais com que me preocupar, como as pessoas que começaram finalmente a criar coragem de perguntar diretamente pra mim suas curiosidades.
Uma garota que eu não reconhecia me fez lhe provar que eu não era mesmo Bella. Fui breve lhe mostrando meu RG antes que ela me deixasse louca com seu surto de detetive. Alguns outros vinham em dupla me perguntar de onde eu tinha vindo e se eu estava gostando de Forks. Decidi ser honesta na medida do possível ao lhes responder de modo que não tivesse problemas com mentiras ou com qualquer outra coisa do tipo mais tarde.
O Sr. Varner que dava aquela aula fez questão de que eu me apresentasse, mas pelo menos não exigiu que eu fosse à frente da sala e no fundo eu fiquei feliz com sua atitude: me poupava algumas perguntas a mais que muitos ali já pareciam ter elaborado para mim.
Uma garota em especial na sala chamou minha atenção enquanto olhava para mim a curtos intervalos de tempo; era bastante faladeira e gesticulativa enquanto fofocava com a garota à sua frente. Não tive dúvidas de que se tratava de Jessica Stanley que parecia ser ainda mais animada ao vivo.
Quando a aula acabou e eu sai em direção à próxima sala ela se aproximou de mim e se apresentou com vivacidade. Eu sabia que não demoraria muito para que aquilo acontecesse, afinal, mesmo que não fosse Bella eu parecia ser o mesmo tipo de atração que nunca se via naquela cidade.
Ela perguntou sobre todo o tipo de coisa enquanto tínhamos nossa aula de espanhol e eu me vi começando a ficar irritada com sua falação interminável, pois me lembrava minha mãe com seus discursos diários.
- Então o Brasil é mesmo assim? Sem tribos andando pelas ruas e todo o resto? - Perguntou ela a certa altura e eu me segurei para não ofendê-la com raiva da imagem que ela tinha de meu país.
- Sim é, mas mesmo que se trate de um país com tantas etnias eu poderia afirmar que lá as pessoas são bem mais normais do que parecem ser por aqui - respondi sem me conter esperando que ela não adivinhasse minha verdadeira intenção e acabasse trocando a palavra ‘normal’ por ‘suportável’ que era o que eu gostaria de ter dito.
- Ah entendo - respondeu ela, mas continuou com o falatório sem fim o que significava que na verdade não havia entendido no sentido que deveria.
Finalmente o sinal bateu anunciando o horário do almoço e eu me levantei com pressa de sair dali, torcendo para que Jessica tivesse me achado quieta demais ou sem graça para que me seguisse.
- Você sabe onde é o refeitório? - Indagou enquanto eu guardava as coisas de volta na mochila. Eu realmente não sabia, mas tinha certeza de que teria menos problemas de encontrá-lo do que havia tido com a escola.
- Não, mas eu dou um jeito de encontrar. – Fui me encaminhando para a porta enquanto preferia um milhão de vezes me sentar sozinha do que ao lado da filha que minha mãe nunca soubera que tivera.
- Espere vou com você - disse para meu desânimo.
- Está bem. - Tentei sorrir para não parecer sem educação.
Jessica continou falando enquanto eu ia com ela para o refeitório.
Caramba! Como aquela menina baixinha poderia ter tantas palavras dentro de seu cérebro?
Cruzamos a porta e ela me puxou para sentar ao seu lado na mesa que eu pude ver já estar ocupada por outros alunos. Ao presenciar aquela cena uma onda enorme de emoção tomou conta de mim. Os Cullen estavam em algum lugar do refeitório em que eu não olhara ainda. Me vi de repente nervosa demais para recusar o convite de Jessica e procurar outro lugar para ficar. Eu queria estar devidamente sentada e calma antes de olhar pela primeira vez para a mesa que eles estariam ocupando.
Muitas cabeças pareciam me seguir à medida que eu movimentava pelo grande salão e aquilo absolutamente não me ajudou a ficar mais calma. Assim que me sentei uma garota loira olhou para mim de uma maneira fingida e disse:
- , vamos comigo comprar algo para comer?
Não obrigada, eu quis responder, não pretendo ir a lugar algum com você, Lauren. Mas sabia que chamaria ainda mais atenção se dissesse aquilo então apenas fiz que sim com a cabeça e me levantei.
Jessica nos seguiu sem nem precisar de convite.
- Então você é a falsa Isabella Swan? - Perguntou Lauren com um risinho debochado.
- Ao que parece sim. – Não me preocupei em evitar o tom seco em minha voz. Eu não era Bella e se aquela garota começasse a me infernizar ela teria que arcar com as consequências.
- Você não parece ser muito de conversar não é mesmo? No Brasil as pessoas não sabem que é falta de educação ser indelicado com os outros? - Provocou descaradamente.
Quem ela pensava que era para começar a me insultar em menos de cinqüenta páginas de história?
Eu me virei para Lauren irritada e prestes a lhe responder da forma que merecia ouvir, mas no impulso não percebi que um garoto se virou com a bandeja para a direção em que eu estava e acabei esbarrando nele.
Foi tudo para o chão e para o meu suéter que ficou imundo por conta da comida que veio de encontro a mim.
Eu estava tão nervosa com Lauren que me virei para o garoto disposta a gritar com ele mesmo que a culpa de tudo fosse praticamente minha e foi então que vi quem era.
Fiquei imediatamente sem fala ao encarar seu rosto. A raiva sumiu imediatamente dando lugar à outros sentimentos: felicidade, incredibilidade e acima de tudo emoção por estar fitando sua face. Ele sempre estivera em meus pensamentos e agora eu o contemplava tão de perto... Meu Deus como ele era incrível e desconcertantemente lindo. Nunca em meus melhores sonhos eu chegara a ver sua face tão bem e perceber como Bella não exagerava ao falar de cada uma de suas singulares características.
Mas em meio ao meu momento de devaneio eu não notara a forma com que ele me olhava até que falou pela primeira vez.
- Você é desastrada demais até mesmo para uma humana não é? - Sua voz musical estava cheia de impaciência. Ele estava nervoso comigo porque eu conseguira lhe perturbar duas vezes em um único dia, o que mais eu poderia esperar?
- Ah me des-desculpe - gaguejei surpresa com seu tom de voz mau-humorado. Em minha imaginação ele costumava ser mais educado.
Antes que ele pudesse responder senti um movimento perto de onde eu estava, alguém passou e balançou com força a capa lançando uma brisa que ia da minha direção para a de Edward.
Eu não desviei o olhar do dele enquanto o observava se retesar estranhamente e sua expressão ficar furiosa, quase agressiva.
Compreendi tudo no mesmo instante. Eu não era mesmo Bella, mas entre as poucas coisas que tínhamos em comum aparentemente estava meu cheiro e eu era tão irresistível para Edward quanto ela seria.
Estávamos no meio de um lugar lotado de pessoas que nos observavam atentas, cochichando. Eu sabia que Edward estava enfrentado um pesadelo dentro de si, podia ver a força que fazia para se manter no lugar e não podia continuar ali esperando que algo mais acontecesse. Me virei rapidamente e corri para a porta do refeitório ignorando os olhares que me seguiam.
Eu havia visto um dos banheiros enquanto vinha com Jessica mais cedo e decidir ir limpar o que conseguia do suéter que usava. Sabia que agora tinha tarefas que nunca tive antes - como preparar a comida, lavar a louça e as roupas – então cuidaria melhor dele quando chegasse em casa. Joguei um pouco de água em cima do pano grosso, mas me arrependi logo que o fiz. Estava muito frio e agora eu congelava por conta da parte molhada.
- Ótimo, o que eu faço agora? - Choraminguei enquanto tirava o suéter e tentava ver a dimensão do estrago. A blusa fina que usava por baixo ao menos ainda estava seca.
Ouvi um barulho às minhas costas e me virei assustada.
- E-Edward? - Ele estava à minha frente me fitando com a expressão quase torturada.
Ele me seguira até aqui e estávamos sozinhos... Será que ele iria?... Não, eu não conseguia nem pensar naquilo, não podia ser; mas ele me olhava de uma forma tão perturbadora, será que eu deveria gritar? Será que alguém ouviria algo antes que ele me silenciasse?
Eu tremi enquanto o encarava.
Edward se aproximou um passo de mim e eu fiquei tensa onde estava. Eu iria morrer sem ao menos ter a chance de descobrir como fora parar ali? Não era justo...
Fechei os olhos e cobri o rosto com as mãos tentando juntar os pensamentos em minha cabeça. Os abri um segundo depois e o banheiro estava vazio. Olhei à minha volta cautelosamente, mas não havia sinal dele em nenhum lugar dali.
A porta do banheiro se abriu com um estrondo e eu pulei de susto, mas logo me recompus quando vi Jessica entrar acompanhada de outro menina, uma garota magra de cabelos pretos, com a expressão tímida. Reconheci Angela e sorri agradecida de que ela estivesse ali e não Lauren.
- você está bem? Estávamos te procurando... Achei que você estivesse chorando por causa do jeito que o Cullen falou com você. - Jessica estava aparentemente desapontada que meu rosto não revelasse nenhum vestígio de lágrimas apenas de surpresa por tudo o que havia passado esta manhã.
- Eu estou bem - tentei controlar minha voz. - Apenas sem saber o que fazer quanto a meu suéter, ele está completamente sujo e molhado.
- Eu tenho um em minha mochila - disse Angela. - Minha mãe sempre insiste que eu traga roupa reserva para o caso do tempo ficar pior, o que não acontece muito - completou sorrindo. Não precisa ser simpática comigo Angela, eu já gosto de você, pensei.
- Obrigada de verdade - respondi sorrindo de volta.
Angela trouxe o suéter para mim e se apresentou. Eu fingi não saber seu nome e fiquei conversando com ela e Jessica enquanto colocava a nova roupa e dava um jeito de secar o que podia da outra para que não molhasse demais minha mochila.
Depois nós voltamos ao refeitório e eu consegui comprar algo para comer sem muitos problemas. Enquanto voltava para a mesa olhei o mais disfarçadamente que pude para a extremidade do salão onde Bella sempre descrevia como sendo a mesa dos Cullen e pude ver que só havia quatro deles sentados ali. Edward claramente não voltara e eu fiquei imaginando se ele estaria à caminho do Alasca como fazia nesta parte do livro.
Não fora dessa forma que eu imaginara meu primeiro encontro com Edward Cullen. Na verdade nenhuma das formas que eu sonhara com este momento me envolviam presa dentro da história da forma tão real que eu parecia estar agora.
Capítulo 8 - Protagonistas de histórias diferentes.
A estrada estava mais seca do que da última vez que eu dirigira por ela, mas eu tinha tantas coisas indo e voltando em meus pensamentos que mantive a mesma atenção nas ruas.
Eu estava em Forks há pouco menos de dois dias e já me via com mais obrigações do que costumava ter em minha outra vida - se é que eu podia chamá-la assim.
Eu tinha de me acostumar com o hábito de lavar as roupas e fazer outros afazeres da casa; meus pais pagavam uma empregada para fazer tudo isso por nós, já que eles mal ficavam em casa. Eu passava alguma parte de meu tempo observando Miranda fazer as tarefas diárias e às vezes até pedia para lhe ajudar, pois não me sentia confortável de ficar parada enquanto ela limpava a bagunça que eu fizera. Minha mãe nunca soubera disso, é claro, mas agora eu ficava ainda mais feliz que tivesse aprendido algo, pois teria de me virar sozinha em boa parte das coisas daqui pra frente.
Esta era a parte fácil, por assim dizer. A outra parte se chamava ‘preparar as refeições’. Charlie não havia me pedido para cuidar daquilo - nem de nada ainda, para falar a verdade -, mas eu sabia muito bem que seria mais saudável se eu cozinhasse ao invés de comer o que ele poderia querer fazer. Além do mais eu poderia escolher ingredientes que eram compatíveis com minha dieta e até tentar convencer Charlie a consumir coisas diferentes das que ele estava não acostumado...
Quando estacionei a picape em frente a casa eu percebi que havia uma outra coisa rondando meus pensamentos da qual eu não poderia fugir por muito mais tempo.
Eu tivera uma manhã surreal para uma fã de Meyer como eu era, mas no fundo eu estava mais preocupada do que feliz. A pequena felicidade se devia lógicamente ao fato de eu ter visto todas aquelas pessoas que até agora eu só tivera a chance de imaginar... Cinco delas me animaram mais que as outras, na verdade. Pelo curto tempo que encarei a mesa dos Cullen eu ficara tão desconcertada com o que causara à Edward que mal pudera me deixar levar pelas outras emoções que apareceram ao fitar os rostos perfeitos que haviam ali.
Eu vira Emmett novamente, sentado ao lado de Rosalie. Eu tinha que admitir que ela era mesmo linda, mas sabia que no primeiro livro ela não costumava ser muito simpática então desviei meus olhos dela e pude ver Jasper fitando a bandeja de comida à sua frente enquanto ouvia o que sua parceira dizia. Alice fora a que mais me encantou, pois de todos ela era a que eu mais gostava e a que mais parecia ser tudo o que eu sempre imaginara.
O que será que me esperava agora que eu descobrira mais uma semelhança com Bella? Eu vira pessoalmente a feição de Edward enquanto ele lutava com o desejo e o controle na frente de tantas pessoas, aquilo significava que ele teria a mesma reação que eu lera nos livros tantas vezes? Mas o que será que me fazia ter aquele apelo para ele? Bella era a sua cantante - como Aro a chamava nos capítulos em que eles estavam na Itália - e não eu.
Ainda estava com todas aquelas dúvidas quando entrei na casa. Fora então que eu tivera uma idéia que parecia ser a mais promissora no momento; eu fui em direção à lavanderia e deixei o suéter ali decidida a lavá-lo mais tarde, depois subi rapidamente para o quarto e coloquei a mochila em cima da cama enquanto me virava para a mesinha com o computador que Charlie arranjara para Bella. Não importavam quais fossem as minhas dúvidas eu sempre encontrava uma resposta pelo menos parcial para todas elas na internet.
O computador não era dos mais rápidos, eu me vi entediada somente de esperar ele ficar razoavelmente pronto para o uso. Por fim eu pude abrir a telinha da internet e pesquisar o que queria.
Fui primeiro ao assunto mais crucial e que consumia mais minha atenção e curiosidade. Pensei em uma forma de poder encontrar o que queria e acabei digitando ‘diferenças no cheiro de sangue humano para vampiros’ porque não encontrara nenhuma forma mais curta de expressar minhas dúvidas. É claro que não surgiu nada coerente nas respostas. Decidi que tentaria descobrir aquilo depois e parti para um outro tipo de pesquisa.
Acabei encontrando ótimas receitas de pratos vegetarianos e não muito extravagantes e anotei-as rapidamente. Resolvi fazer a mais fácil de todas porque não estava a fim de sair à procura de um supermercado naquele momento. Desliguei o computador e desci para lavar as roupas até que pudesse atingir um horário aceitável para preparar o jantar.
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Charlie olhara desconfiado para a comida que eu lhe servira, mas pela sua cara ele acabara gostando e ficara feliz que eu fosse cuidar daquela parte em que ele não costumava ser dos melhores. Eu sorrira e dissera que era o mínimo que poderia fazer por ele ter me aceitado ali - e se não quisesse ter uma indigestão mais tarde, mas aquela razão, é claro, eu guardara para mim mesma.
Agora eu já estava de volta ao quarto, deitada na cama enquanto o sono não vinha. Ouvi então um barulho familiar vindo de dentro do guarda-roupa e levantei a cabeça curiosa. O mesmo ruído se repetiu baixinho e eu fui em direção a ele; assim que abri uma das portas de pinho pude ver meu celular piscando a luzinha de mensagem.
- Pensei que você não estivesse mais funcionando - comentei enquanto abria o teclado luminoso e selecionava a caixa de mensagens. Eu sempre as apagava e agora podia ver que haviam três novas que eu não notara antes, de um número desconhecido.
Abri a mais antiga e comecei a ler atenta.
‘ se você estiver lendo esta mensagem, por favor, me responda. Bella.’
Bella... Oh, caramba, BELLA?
Abri a outra mensagem rapidamente agora muito surpresa.
‘ eu sei que este é seu número, encontrei no celular de sua mãe, por favor, me responda. Eu preciso saber que você existe mesmo, não me lembro de ter lhe conhecido, mas todos aqui dizem que nós mudamos de casa por um tempo... É tão confuso. ME RESPONDA, por favor! Bella.’
Eu estava pasma acima de qualquer outra coisa. Não podia ser, Bella estava me mandando mensagens? Respirei fundo e abri a última que fora recebida há apenas alguns minutos.
‘ eu sei que você pode estar me ignorando, pode estar que eu sou mais uma invenção, já que tudo isto parece ser tão estranho e irreal, mas EU SOU DE VERDADE! Se estiver lendo esta mensagem, por favor, me responda... Se você sabe como eu vim parar aqui me diga porque eu mesma não entendo nada! Isabella Swan.’
Desta vez ela assinara seu nome completo com certeza tentando fazer sua mensagem parecer mais convincente. Meus dedos tremiam enquanto eu relia cada palavra que ela escrevera. Tive que me sentar e controlar minhas emoções antes de começar a digitar a resposta.
‘Bella - escrevi - eu estou aqui. Não respondi suas mensagens antes porque somente agora percebera que você as enviara. Meu celular não estava funcionando e estou surpresa que ele esteja bom agora. Eu estou tão confusa quanto você, acredite! - Eu tinha tanto mais para dizer a ela, além de tudo aquilo eu estava falando com Isabella Swan, uma de minhas personagens preferidas, mas deixei para enviar somente o que era necessário. - Me responda assim que puder, .’
Selecionei a opção ‘enviar’ e fechei os olhos torcendo para que a mensagem chegasse à ela.
Bella havia dito que pegara o número de meu celular com minha mãe o que significava que ela realmente estava em meu lugar, em minha vida... Me senti um pouco mais calma por descobrir que eu não era a única a passar por tantas coisas novas e inexplicáveis. Pelo tom de suas mensagens ela parecia ainda mais confusa do que eu estava no momento, mas não era pra ser diferente. Eu sabia tudo sobre ela, enquanto Bella nunca ouvira falar de mim em toda sua vida. Devia ter sido um choque muito maior para ela ter se visto de repente perdida em um país tão diferente do seu próprio.
Me vi pensando em lhe contar sobre ‘Crepúsculo’, tentar lhe dizer que ela era personagem de um livro, que não era real... Eu teria esperanças de que ela compreendesse, mas sabia que isto dificilmente aconteceria.
O barulho da mensagem voltou a soar e minha mão voou para o celular.
‘Então você realmente existe? Bem, isto talvez signifique que eu não estou louca... Mas porque então todos aqui agem como se fôssemos amigas e tivéssemos combinado de trocar de lugar? Eu não me lembro de nada disso! A última coisa de que me lembro é de estar voltando da escola e de começar a atravessar a rua no mesmo momento em que um carro vinha em minha direção. Depois disso acordei aqui... É informação demais para mim, é só o que posso dizer! B.’
Eu não acreditava. Bella passara pelo mesmo que eu, o mesmo tipo de acidente acontecera com ela...
- Acredite, eu estou tão confusa e surpresa quanto você - falei comigo mesma.
Ouvi uma batida na porta e escondi o celular entre as cobertas sem saber bem o porquê.
A cara de Charlie apareceu no portal e ele me encarou meio desconfiado.
- Está falando sozinha? - perguntou enquanto olhava ao redor do quarto procurando por outra pessoa.
- Eu faço isso às vezes - dei de ombros tentando parecer indiferente. Eu nunca poderia contar a Charlie que estava me comunicando com sua filha porque sabia que ele iria querer falar com ela também e naquela situação era melhor que isto não acontecesse. Já era difícil ter de falar com Bella, que vivia o mesmo drama que eu, imagine ter de contar a verdade absurda para seu pai que mal desconfiava da realidade?
- Hm... Está bem, boa noite.
- Boa noite, Charlie - respondi enquanto ele voltava a fechar a porta. Eu sabia que mais tarde ele voltaria sorrateiramente para ver se eu estava dormindo e se estava mesmo sozinha... Bella não exagerava quando dizia que Charlie era superprotetor demais às vezes.
Eu abri o celular pronta para mandar uma nova mensagem à Bella, mas logo que comecei a digitar o aparelho pifou novamente.
- Que droga - sussurrei -, porque você tem de inventar de falhar justo agora?
Fiquei ali por consideráveis minutos enquanto esperava que o sinal voltasse, mas nada aconteceu. Por fim eu já estava cansada o bastante para ir dormir e decidi tentar falar com Bella pela manhã.
Parecia que mesmo que conhecesse aquela história como ninguém eu sempre me surpreendia com o que via, agora eu sabia muito bem quão grande era a diferença entre imaginar e presenciar algo.
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Eu estava na festa de . Podia ver e ele em um canto conversando e todas as outras pessoas se divertindo na casa. Alguma coisa me impulsionava a sair dali e eu segui meus instintos. Abri a porta e disparei para a rua. Ventava muito e não parecia haver ninguém ao redor; avistei então um garoto de costas para mim e enquanto me aproximava ele começou a atravessar a rua devagar. Eu o segui sem saber ao certo o que estava fazendo e quando já estava no meio da rua pude ouvir o barulho de pneus cantando enquanto um carro se aproximava de mim à toda velocidade. A última coisa que pude ver foi o rosto do garoto à minha frente que se virara para me encarar. Era e ele estava assustado e triste enquanto nós dois olhávamos o carro vindo em minha direção...
Abri os olhos e encarei o teto baixo de meu novo quarto. Tinha sonhado com os últimos momentos que tivera no Brasil e com as pessoas de que sentia falta; podia até mesmo sentir meu coração batendo apertado em meu peito por conta de toda a saudade que já sentia de todos eles... O que significava tudo aquilo? Me vi perguntando outra vez, mas sem nenhuma resposta. Se fora a minha paixão pela história que me levara até ali tudo o que eu podia fazer era viver cada dia até que pudesse encontrar uma maneira de voltar para casa e trazer Bella de volta para o lugar ao qual ela pertencia.
- É, vou viver um dia de cada vez e não mudarei mais nada nesta trama. Terá de ser do jeito que Meyer escreveu... - exceto pelo fato de que sua protagonista não estava ali.
Levantei decidida e fui tomar um banho quente para me acalmar. Aproveitei para lavar meus cabelos que já estavam começando a ficar oleosos. Eu os mantinha sempre num corte não muito grande ou curto demais; eram médios, por assim dizer, e bastante lisos e pretos. Eu me parecia mais com meu pai nesta parte, já que minha mãe era completamente loira. Os olhos eu puxara dela, que eram de um azul profundo e claro.
Abri o guarda-roupa e peguei qualquer coisa para vestir por baixo, eu sabia que ficaria com o casaco de frio o dia todo. Quando desci Charlie já havia saído para o trabalho e percebi que não poderia demorar se não quisesse ficar atrasada para a escola. Comi cereais com leite, escovei os dentes e saí mais uma vez para a manhã fria.
Encontrei a escola com muito mais facilidade; estacionei na primeira vaga que avistei e segui para a escola depois de avistar o Volvo estacionado há uma boa distância de onde eu havia parado. Aquilo não significava que Edward estivesse ali, pois no livro ele usava o Mercedes de Carlisle para ir ao Alasca e deixava o Volvo disponível para seus irmãos. Eu não sabia dizer se preferia que fosse ele o motorista aquela manhã, não sabia se teria coragem de sentar ao seu lado na aula de biologia que teria aquele dia.
Eu havia checado o horário antes de sair, pois não queria ter de ficar consultando o papelzinho que a secretária me dera a cada final de aula. Me encaminhei para a aula de Inglês e percebi que as pessoas me encaravam tanto quanto haviam feito ontem. Eu não começara nada bem; já chamava atenção por ser nova na cidade, ainda tinha o fator que todos ali estavam roendo as unhas para tentar entender a razão de eu não ser Bella Swan, provavelmente imaginando um milhão de coisas horríveis com relação ao pobre do Charlie... Acima de tudo isso então estava o showzinho que eu lhes providenciara com um dos alunos mais lindos da escola. Estava me achando boba por sequer imaginar que àquela altura as pessoas já tivessem se cansado de me encarar já que elas agora deveriam estar me achando ainda mais interessante de se observar...
Entrei na sala de cara fechada enquanto os alunos acompanhavam cada um de meus movimentos. Eles tinham sorte de que eu tivesse prometido a mim mesma que me esforçaria para acompanhar a história, caso contrário já teria mandado todos para o espaço por serem tão indelicados com sua curiosidade irritante.
E por falar em irritante...
- Olá - ouvi alguém dizer e não precisei me virar para ver quem era, eu não me esquecera que Mike tinha aula de inglês com Bella e consequentemente, comigo.
- Olá Mike - tentei parecer simpática e ao mesmo tempo breve em meu cumprimento.
- Você não se importa se eu lhe chamar assim não é? Ouvi falar que você corrigiu aqueles que lhe chamaram pelo seu nome completo...
Aquilo era verdade, eu dissera para Jessica e Angela que preferia ser chamada de , era mais curto e fácil de pronunciar.
- Não, tudo bem, eu prefiro - respondi num tom leve. Eu não tinha nada contra Mike, apenas não queria parecer amigável demais e acabar ganhando um admirador indesejável. Sabia que poderia estar parecendo convencida ou qualquer coisa do tipo, mas depois que ele viera falar comigo duas vezes eu já me achava no direito de me preocupar com aquilo.
- Você parece estar muito bem, imaginei que não fosse aparecer na escola por uns dias depois do Cullen ter falado com você daquela forma no meio do refeitório - disse ele procurando puxar assunto, imaginei.
Então eu não estava errada, as pessoas realmente haviam visto tudo e deviam estar com o mesmo pensamento de Mike. As notícias nesta escola pareciam se espalhar rapidamente então decidi responder de uma maneira que servisse para Mike e para as demais pessoas com quem ele resolvesse compartilhar nossa conversinha.
- Não vejo porque, não é uma cara feia ou uma troca de palavras mal-educadas que me farão desistir de vir à escola, é preciso muito mais que isso para me assustar - falei e sorri em seguida esperando que depois disso ele e quem mais fosse parasse de me me julgar de uma forma tão simples e errônea.
Depois disso o professor começou a aula e Mike não teve mais chance de falar qualquer coisa comigo.
Capítulo 9 - Tão semelhante e tão diferente.
As demais aulas passaram rapidamente, mas eu também pouco prestava atenção nelas, tinha coisas mais urgentes em minha cabeça. De manhã eu correra para checar meu celular, mas ele ainda insistia em continuar fora de área e sem executar qualquer ação, depois disso então eu ficara imaginando o que Bella poderia estar fazendo em minha casa e se ela estaria se saindo bem em seus dias. Concluí que da mesma maneira que havia sido mais difícil para ela ter de assimilar tudo aquilo, ao mesmo tempo era também mais fácil. Ela não precisava se preocupar em seguir nenhum tipo de esquema ou qualquer coisa do tipo e podia ter suas próprias opiniões sobre as pessoas ao invés de já ter uma idéia de como cada um ali era.
Imaginava que se ela também tivesse sido obrigada a ir à escola já devia ter feito alguma amizade e torcia por aquilo; não sabia quanto tempo poderíamos ficar em vidas que não nos pertenciam, mas desejava que ela fosse o mais feliz que pudesse pelo tempo que estivesse em meu lugar.
Enquanto ia para o refeitório - desta vez acompanhada por Eric que finalmente se aproximara para puxar papo comigo - eu observava Jessica se sentar ao lado de Lauren e me perguntei como Bella estaria se saindo com minha mãe que costumava ser tão parecida com aquela sua amiga mais comunicativa e foi então que me dei conta de outra coisa que deixara passar. Se eu estava vivendo o começo da história então podia afirmar que Bella ainda não havia vindo para Forks certo? Ela ainda não conhecia Jessica ou Mike ou Angela... ela ainda não conhecera Edward!
Eu devia ter ficado bastante impressionada ao constatar aquilo, porque tinha me esquecido até mesmo da ansiedade que estava para checar a mesa dos Cullen.
- Edward está olhando para você - cochichou Jessica me tirando bruscamente de meus pensamentos. Edward estava olhando para mim?
Pensei ter entendido errôneamente suas palavras e me virei num átimo para a mesa em que ele estaria, sem acreditar que ele realmente pudesse estar ali e não no Alasca como eu imaginara.
Como Jessica havia dito, assim que virei o rosto pude ver os olhos dele seguindo cada movimento que eu fazia. Será que ele sabia o quanto eu estava com medo dele? Eu não era nenhuma suicida, não iria apostar com a sorte esperando que - como era com Bella - ele controlasse seus instintos e nunca chegasse a me atacar... Ontem enquanto estávamos no banheiro eu realmente sentira que poderia morrer facilmente, bastava ele se render a si mesmo.
Continuei a lhe encarar e de repente me lembrei que ele, mais do que ninguém, deveria saber o que eu pensava. Edward lia mentes e eu não sabia se comigo era diferente; nada aqui parecia seguir um padrão, apenas acontecia. Do mesmo jeito que eu parecia ser sedutora para ele como era Bella eu poderia ser fácil de interpretar e deixá-la sendo a única exceção àquela regra.
Voltei meu olhar para a bandeja a minha frente e tentei controlar minhas suspeitas para que Jessica não tivesse mais coisas para fofocar sobre mim.
- Você é corajosa de encará-lo depois do que aconteceu ontem - disse ela sem conseguir segurar seus comentários por muito mais tempo - eu mesma não sei nem se conseguiria voltar a ficar no mesmo ambiente em que ele estivesse.
Eu queria dizer a ela o mesmo que havia dito a Mike mais cedo, mas acabei tendo uma idéia que queria colocar logo em prática.
- Hm - disse e parti logo para o ataque. - Jess, eu sei tão pouco sobre você, me conte mais sobre sua vida - sorri tentanto parecer interessada.
Ela não precisou de um convite maior que aquele para começar a discurssar sobre seus hábitos, passatempos e etc. Eu esperava que aquilo fosse suficiente para Edward se entediar e parar de prestar atenção ao que conversávamos.
Esperei alguns consideráveis minutos, fingindo estar entretida em nosso papo e arrisquei um rápido olhar para a mesa em que ele se sentava. Ao que parecia meu plano tinha dado certo, Edward agora conversava com Emmett e eu me preparei para continuar com minha estratégia.
Se ele pudesse ler meus pensamentos, com certeza ouviria o que eu pensaria com força agora.
EDWARD, gritei em pensamento enquanto olhava para ele disfarçadamente.
Ele nem se moveu, continuou conversando com Emmett como se não tivesse ouvido nada. Tentei de novo, desta vez pronunciando seu nome inteiro em minha mente e nada, ele nem mesmo parecia hesitar enquanto ouvia o que Emmett lhe falava.
Bem, ao que parecia eu também era imune ao seu dom peculiar. Ainda não sabia se aquilo me deixava feliz ou triste, continuava a encará-lo e de repente ele se virou para o lugar onde eu estava. Encarou Jessica por um segundo e depois seu olhar caiu sobre mim.
Eu poderia ser mentalmente muda para ele, mas Jessica parecia ser tão fácil de ler como era no livro. Ela devia ter visto que eu não prestava a mínima atenção ao que dizia e seguiu meu olhar, pensando em Edward em seguida.
Dessa vez eu desviei os olhos dos dele e olhei para Jessica com uma expressão de desculpas. Ela não parecia muito feliz então perguntei-lhe mais alguma coisa sobre sua família e em questão de minutos seu humor voltou a ficar insuportávelmente esfuziante.
Foi assim pelo restante do horário de almoço. Jessica de um lado, Lauren me irritando do outro, Angela me lançando alguns olhares de desculpas pelo comportamento das amigas... Eu estava equivocada com muita coisa, mas me sentia mais calma do que estivera ontem.
Quando o sinal bateu eu fui para minha sala, batendo um papo agradável com Mike; quando não tentava me passar cantadas sem-graça ele era bastante simpático e fácil de conversar.
- Então você nunca tinha vindo para Forks? - perguntou ele a certa altura.
- Na verdade não, mas ouvi falar tanto daqui que sinto como se já conhecesse toda a cidade...
- Que legal. E onde você morava havia mesmo tantas praias como dizem?
- Muitas delas, uma mais linda que a outra! Eu fui poucas vezes, preferia mesmo ficar em casa, porque me queimo muito facilmente, mas acho que não existe nada mais magnífico que o mar... - disse, lembrando exatamente da imagem do sol esquentando a areia, da água fresca, das pessoas se divertindo à volta, como se a vida não fosse nada além daquilo.
- Você parece sentir muitas saudades - comentou Mike provavelmente percebendo minha expressão realmente saudosista.
Nós já havíamos chegado à sala, lhe respondi enquanto passávamos pela porta.
- E sinto - concordei. Meu olhar então recaiu inevitávelmente sobre um garoto de cabelos cor de bronze, sentado ao lado de uma cadeira vazia. Edward. Eu havia me esquecido completamente de que tínhamos biologia juntos. - Mas aqui as coisas às vezes são tão interessantes e estranhas que acabo me esquecendo de lá - completei enquanto o observava.
Olhei para Mike, feliz por perceber que ele parecia não entender nada de que eu falava; sorri para ele e me encaminhei para a mesa do professor, disposta a me apresentar.
O sr. Banner me deu as boas-vindas à sua sala e eu agradeci. Ele me passou o livro que usaríamos em classe e depois me mandou sentar. Eu me vi implorando para que alguém tivesse faltado aquele dia, sabia que não conseguiria ficar calma se tivesse que ficar ao lado daquela certa pessoa.
Me virei e por algum milagre havia uma cadeira vazia no fundo da sala. Já fazia algum tempo que o sinal tinha soado então provavelmente ninguém mais chegaria para ocupá-la. Fui andando decidida para lá quando o professor chamou minha atenção.
- , sente-se aqui ao lado de Edward, será mais fácil para você se atualizar se ficar na frente. - disse ele.
Droga, droga, droga professor, porque o senhor não podia simplesmente ter me deixado sentar onde eu queria?
Eu me virei devagar e voltei para a carteira onde ele estava sentado. Ocupei meu lugar e peguei minhas coisas disposta a fazer o que o professor dissera ‘me atualizar na aula’.
O sr. Banner iniciou a aula dando uma grande explicação sobre Mitose, que seria a próxima matéria que estudaríamos. Eu anotava quando necessário, já havia estudado aquilo antes, mas não custava nada relembrar - e evitar ao máximo me lembrar de quem estava ao meu lado.
Depois de quase vinte minutos discursando ele nos passou uma série de exercícios do livro para fazermos e entregarmos na próxima aula e se sentou em sua mesa ocupado com alguns papéis que estavam ali.
Eu comecei a escrever meu nome em uma folha à parte onde colocaria as respostas das questões e sem querer acabei borrando meu sobrenome. Procurei pelo corretivo em meu estojo, mas antes que pudesse encontrá-lo uma mão muito branca me estendeu o que eu queria.
- Use - foi só o que Edward falou enquanto colocava o frasquinho do meu lado da mesa.
Eu peguei o objeto devagar, esperando que não desse para notar meu iminente nervosismo e o usei rapidamente.
- Obrigada - falei enquanto o devolvia para Edward.
Ele não respondeu, apenas continuou a resolver seus exercícios em silêncio. Eu fiz o mesmo, agora porém sem conseguir evitar meus pensamentos que me alertavam de sua presença a cada cinco minutos. Ele estava sentado na extremidade de nossa carteira, como fizera com Bella, percebi; eu estava confusa e frustrada por não entender a razão que o fizera continuar em Forks. Será que eu havia interpretado mal suas atitudes ontem? E se não tivesse, como ele poderia estar ao meu lado agora, sem se afastar de meu cheiro?
O sinal então bateu, cedo demais, e eu comecei a guardar minhas coisas sem ver ao certo o que fazia. A próxima aula seria educação física; eu não gostava particularmente daquela matéria, mas sabia que se me esforçasse conseguiria notas boas o suficiente para fechar o semestre.
Lembrei de como Bella tinha pavor daquele último horário e me solidarizei novamente com ela, feliz porque no Brasil, na escola em que eu estudava, a educação física era considerada ‘aula livre’ já que os professores raramente nos obrigavam a fazer algo.
Estava pronta para ir, me virei em direção à porta e estanquei onde estava.
Edward ainda estava ali, ao lado da entrada. Eu não percebera até que olhei em sua direção. A sala estava vazia exceto por nós dois.
Eu o encarei, seus olhos estavam claros, de um dourado atraente, mas que me deu arrepios; ele estava bem na frente da porta me olhando... Senti um calafrio enquanto imaginava o porque de ele ainda estar ali, mas eu tinha que me lembrar de que não deveria saber de seu segredo, teria de agir como uma humana normal e sair da sala; ou pelo menos tentar sair.
Coloquei a mochila nas costas e olhei para baixo enquanto andava em sua direção; eu não tinha coragem suficiente para continuar olhando-o e sabia que se o fizesse não conseguiria acertar os passos.
Fui chegando ao portal, esperando que em algum momento ele desaparecesse como fizera na véspera, mas ele continou parado onde estava.
Ótimo, agora sim eu morro, mas pelo menos pude ter a chance de vivenciar esta experiência maluca e irreal, pensei numa alegria sem sentido.
Por fim eu já estava há menos de um metro dele que continuava parado onde estava.
Respirei fundo o mais disfarçadamente que pude e levantei minha cabeça para olhá-lo.
Tente parecer normal, falei para mim mesma, faça o que uma aluna qualquer faria.
- Com licença? - falei sentindo minha garganta seca.
Ele continuava a me olhar e pude ver sua expressão se suavizar à medida que os segundos passavam. Finalmente então ele falou e eu me arrepiei ao ouvir sua voz novamente.
- Você tem medo de mim? - perguntou ele.
Eu fiquei muda, completamente dura onde estava. Não conseguia encontrar as palavras para lhe responder. Porque ele estava me perguntando aquilo de uma forma tão calma? Era como se ele tivesse descoberto tudo o que eu pensara e sentira nos últimos minutos, mas eu pensava que ele não conseguia ler meus pensamentos...
Fiquei quieta onde estava, sem conseguir desviar o olhar de seu rosto. Edward se aproximou de mim inesperadamente e eu senti uma vontade incontrolável de gritar por ajuda, pois só o que conseguia imaginar era que ele estava prestes a me matar. Qual seria a outra explicação para ele agir daquela forma com uma pessoa que mal conhecia e que poderia muito bem espalhar para todos o relato sobre sua atitude estranha?
- O que você tanto teme? - perguntou, agora a poucos centímetros de mim.
Eu me vi presa de seu olhar hipnotizante e falei sem pensar.
- E-Eu não... Você vai me matar? - perguntei por fim sem conseguir esconder meu terror.
Ele me encarou em silêncio por um breve segundo.
- Por que eu faria isso? - disse ele se aproximando ainda mais.
- Vo-você sabe - gaguejei tentanto clarear meus pensamentos. Eu estava tremendo agora, sabia que ele podia ouvir meu coração batendo acelerado.
Edward ainda me olhava com intensidade. Eu queria desesperadamente que alguém aparecesse ali, mas sabia que se ele quisesse mesmo beber meu sangue aquilo seria inútil; ele sozinho poderia dar conta de até dez pessoas sem fazer um único ruído.
Eu senti todos os meus pensamentos surgindo em minha mente enquanto eu sentia o perigo daquela situação. O mais predominante deles me dizia que eu havia me iludido todos esses anos que sonhara com ele. Edward, acima de tudo, ainda era um vampiro. Seu controle quase impecável quando estava ao lado de Bella se devia ao fato de ele a amar perdidamente, aquilo o fazia ser forte, aquilo o fizera se conter desde a primeira vez que a vira... Mas eu era apenas uma humana qualquer com a aparente má sorte de ter um sangue tão delicioso quanto deveria ser o dela e ele não me amava, ele não tinha porque se privar daquele prazer que estava agora tão perto de seu alcance.
De repente então ele se aproximou mais uma vez de mim e eu desejei poder encontrar minha voz para lhe pedir que não fizesse aquilo; eu sempre achara ridículo o fato das pessoas implorarem por suas vidas, mas agora eu percebia como aquilo parecia ser a última coisa a se fazer.
- Você sabe o que sou? - perguntou ele enquanto nossos rostos ficavam centimetros e centímetros mais perto um do outro.
Eu estava tonta com sua atitude e com suas perguntas. O que ele queria dizer com aquilo? Será que esperava que sua forma de agir e de me olhar tivessem sido suficientes para eu descobrir seu segredo obscuro? Como ele podia pensar algo assim? Seria preciso muito mais do que apenas aquilo para que alguém sequer desconfiasse da verdadeira natureza que os Cullen escondiam com tanto ardor.
Foi então que - num surto de adrenalina que assaltou meu corpo com a emoção do momento - eu percebi o que ele queria com aquele seu joguinho.
Respondi num sussurro.
- S-sei - não consegui impedir minha voz de falhar mesmo no tom baixo em que a mantive.
Foi o bastante para ele se curvar para mim, sua boca indo na direção de meu pescoço. Eu queria chorar, mas todas as minhas emoções pareciam presas por uma maior: o medo que eu sentia agora que percebia que seria o fim.
Em um último segundo eu decidi que já que iria morrer ali - sem nunca descobrir a razão para estar no lugar de Bella, sem poder aproveitar nenhum minuto a mais que fosse naquela cidade, sem poder ter a chance de dizer a Edward tudo o que ele me fizera sentir em todas as vezes que eu lera sobre ele em meu livro favorito - eu, ao menos, lhe faria saber que eu conhecia a verdade que ele tanto escondera.
- Você é um vampiro... - falei da forma mais clara que pude.
E então Edward se afastou de mim, seus olhos voltaram a prender os meus enquanto ele me observava com uma expressão que revelava surpresa e mais outra coisa que eu não pudera identificar.
Capítulo 10 - A última coisa que eu esperava.
- Como você pode saber? - perguntou então ele.
Eu estava pasma, apavorada e ainda mais surpresa que ele. Ele se afastara somente porque eu dissera aquilo? Mas aquela não deveria ser a maior razão para que eu fosse morta o mais rápido possível, para que não compartilhasse o que sabia com ninguém?
E agora como eu poderia sequer pensar em explicar a ele o motivo de eu saber aquilo?
- Eu apenas sei... - respondi com uma voz fraca.
- Mas como pode saber, nós nunca lhe vimos antes e de alguma forma você já sabia de tudo antes mesmo de chegarmos a nos encontrar pela primeira vez.
A voz dele era amargurada enquanto ele tentava encontrar a resposta. Ele dissera que eles nunca haviam me visto antes, provavelmente se referia ao restante de sua família... Mas como eles podiam ter descoberto que eu sabia tão rapidamente?
Edward me deu a resposta mesmo que eu não tenha lhe pedido.
- Inacreditável! - falou enquanto se apoiava na parede ao lado da porta - Alice estava certa sobre você, não pode ser...
Era óbvio, eu me esquecera completamente de Alice; ela com certeza me vira chegar à cidade e suas visões deviam ter lhe dado uma razão para desconfiar que eu - ao que parecia, apenas mais uma humana ingênua e cética - sabia do segredo de sua família, como eu não pensara naquilo?
Eu olhava para um ponto qualquer da sala enquanto compreendia o que havia deixado passar mais uma vez e vi exatamente quando Edward se moveu da posição em que estava. Ele voltara a me olhar, mas agora sua expressão estava de uma forma que eu nunca vira antes; dilacerada, como se ele estivesse sofrendo imensamente por dentro.
- Eu... - ele parou por um minuto e eu podia ver que ele lutava para encontrar as palavras certas - Eu não sei o que fazer - admitiu por fim.
Encarei-o sem entender, mas aos poucos as repostas iam surgindo em minha mente.
Os Cullen á essa altura já deveriam saber que alguém havia desmascarado seu disfarce que fora tão bem mantido há anos. Eles deviam estar aterrorizados, temerosos que eu pudesse contar a mais alguém o que sabia, mas eu nunca faria aquilo. Eles deviam ter confirmado a teoria de Alice quando eu ficara tão apreensiva na frente de Edward no refeitório. Agora tudo se encaixava de uma forma absurda em minha mente. Edward poderia ter facilmente desviado de mim, mas preferira ter me acertado com a bandeja para descobrir minha reação. Eu estivera prestes a gritar com a pessoa à minha frente quando vira quem era; eles deviam ter interpretado minha surpresa como medo de Edward e não emoção por finalmente estar à sua frente...
Depois disso ele me seguira até o banheiro, mas aparentemente escutara o barulho dos passos de Jessica e Angela e saíra dali sem conseguir falar comigo. Ele não queria me matar... ainda. Só queria descobrir se o que Alice prevera era verdade e somente agora tivera esta chance. Ele devia ter se visto obrigado a utilizar aquela conversa que tivemos como último recurso; se eu não dissesse nada a tempo ele teria de me matar para que eu não saísse por ai contando que fora atacada por Edward Cullen - comprometendo então toda sua família - mas no último segundo eu reagira e ele acabara ficando no estado em que estava agora; ao que eu podia ver, com uma insegurança que nunca o assolara antes.
No entanto eu ainda não entendia porque ele dissera que não sabia o que fazer. As alternativas pareciam ser limitadas, mas somente para mim. Agora que não havia mais dúvidas de que eu sabia mais do que deveria só parecia haver uma saída que ele ou qualquer outra pessoa de sua família poderia querer tomar: eu teria de ser eliminada o mais breve possível. Eu sabia que aquela era a única forma deles poderem lidar com aquilo... Era terrivelmente assustadora para mim, mas que outra escolha os Cullen poderiam pensar ter naquele momento? Eles não me conheciam, Edward ao que parecia realmente não conseguia ler meus pensamentos, como poderiam me deixar continuar vivendo sendo que a qualquer momento eu poderia simplesmente surtar e compartilhar com o mundo o que sabia - e que agora com seus atos, Edward tornara verdadeiro para mim?
Me parecia o mais esperado então, que agora sim Edward me matasse... Eu estava mais do que feliz por continuar viva, mas não conseguia descobrir porque ele ainda não acabara com aquilo. Eu agora sentia o medo que se ausentara por alguns segundos voltar a crescer dentro de mim; a qualquer momento poderia ser tarde demais para mim, eu nem mesmo sentiria se Edward de repente decidisse me destruir.
Ele ainda me olhava com sua feição torturada e eu simplesmente não sabia o que lhe dizer. O que eu poderia dizer, afinal? Que entendia seu lado e que se ele quisesse me matar eu seria boazinha porque sabia a aflição que sua família deveria estar enfrentando? Mesmo que eu gostasse demais de cada um dos Cullen eu não podia oferecer minha vida em troca de sua segurança, uma coisa daquelas poderia ser facilmente tida como suicídio e eu queria viver. Agora eu percebera o quanto estava gostando daquela vida que ganhara, pois sentia que poderia perdê-la a qualquer instante.
Antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais uma palavra que fosse, Edward ficou alerta, me olhou por mais um interminável segundo e simplesmente desapareceu de minha visão, tão rápido que eu precisei piscar para contemplar o lugar vazio que ele deixara.
Apenas um momento depois eu pude ouvir passos se aproximando e logo a cara redonda de Mike surgiu à porta:
- Aqui está você... Achei que tivesse se perdido ou qualquer coisa do tipo! Nós ainda temos a aula de educação física, vamos senão o professor vai implicar com você.
Eu ainda me sentia em choque por tudo o que acontecera nos últimos minutos; não ajudava que Edward sumisse como um fantasma sem me avisar que alguém estava vindo me procurar... Segui Mike até a quadra sem ouvir nada do que ele dizia, mas fingindo estar prestando atenção. O professor estava com uma cara mau-humorada por eu ter chegado tão atrasada e me obrigou a jogar a última partida de vôlei. Eu fazia tudo no piloto automático porque minha concentração estava apenas em meus pensamentos...
O que aconteceria comigo agora? Será que eu deveria alertar Charlie que alguém estava me ameaçando de morte ou algo do tipo? Não, aquilo seria exagero.
Eu me via em cima do muro. De um lado estava minha vontade de ajudar os Cullen, de fazê-los acreditar que eu nunca pensara em contar o que sabia, até porque duvidava muito que alguém fosse acreditar. Do outro, porém, estava minha vontade de fugir dali o mais rápido que pudesse, sem me dignar a ficar esperando que eles decidissem o que fazer quanto à mim. Nunca imaginei que fosse ficar numa situação dessas, mas para falar a verdade eu nunca imaginara muito coisa que agora via acontecendo comigo então concluí que não fazia diferença o que eu pensava.
O sinal soou alto me tirando de meus pensamentos desconexos.
Eu sabia que tinha de decidir logo qual das duas opções escolheria antes que fosse tarde demais para mim.
Fui para a picape com passos vagarosos. Pela primeira vez em minha vida percebi que eu queria ficar a maioria do tempo que pudesse cercada de pessoas - testemunhas - e que tinha medo de voltar para a casa vazia.
- O que Bella faz nessa parte do livro? - perguntei à mim mesma enquanto entrava no carro. Precisei me concentrar mais do que pensava, ainda havia um monte de ‘Cullen e Edward’ bloqueando minha mente, mas logo me lembrei do que queria.
Tentei clarear meus pensamentos antes de sair pela cidade dirigindo aquela picape que sempre causava estrago quando eu não prestava atenção ao trânsito.
- Okay - falei, procurando alguma normalidade em meu dia - Bella percebe a falta de habilidade de Charlie na cozinha e decide ir ao supermercado... É uma boa idéia, já que eu realmente estava marcando de ir lá e posso enrolar o tempo que quiser até achar seguro voltar para casa. - Eu não me enganei com aquelas últimas palavras; sabia que se tivesse mesmo que morrer pelas mãos de qualquer pessoa daquela família eu não conseguiria evitar nem me esconder, mas não iria ficar sentada esperando que aquilo acontecesse.
Dei a partida na picape enquanto ainda discursava mentalmente minhas alternativas e foi então que vi pelo canto do olho um reflexo brilhante que começava a se movimentar. O estacionamento estava quase vazio e eles ainda não haviam ido embora. Será que estavam planejando me matar e fazer parecer acidente? Eu também não teria chances se sua escolha fosse aquela...
Eu saí do estacionamento antes deles e tive que me segurar para não olhar em sua direção. Agora eu estava surpresa comigo mesma, a raiva começou a tomar conta de mim; era tão mesquinho da parte deles sequer pensarem em fazer algo comigo. Não era justo, eu não tinha culpa de saber a verdade e mesmo que me comprometesse a ficar calada eles me matariam?
Cheguei à rua e acelerei o máximo que pude. O motor rugiu e eu saí chamando exageradamente a atenção para mim, mas não pude me controlar. Dirigi daquela maneira até que finalmente cheguei à casa de Charlie que claramente estava vazia e sombria naquele momento. Respirei fundo algumas vezes e saí em direção à porta de entrada. Eu sempre dissera à mim mesma que tinha o bônus adicional de saber quase tudo sobre as pessoas daquela cidade, agora mais do que nunca eu tinha que usar aquilo a meu favor.
Abri a porta e entrei sem conseguir evitar as batidas aceleradas de meu coração.
Subi para pegar a carteira que trouxera junto com as coisas de Bella e desci para pegar o dinheiro que Charlie reservava para a comida. Estava desapontada comigo mesma, eu costumava ser sempre alegre; eu adorava fazer compras com minha mãe, agora eu tinha a oportunidade de fazer aquilo sozinha e sem supervisão, deveria ser algo divertido.
Fiquei ali com a mão no pote de dinheiro e prometi algo para mim mesma. Eu não iria me torturar mais por aquilo, de qualquer forma se eu chegasse a morrer não seria minha culpa, esperava que Deus concordasse com aquilo... Quem sabe eu não me tornasse uma assombração e voltasse para assombrar aquele bando de vampiros egoístas? É, fiquei mais calma com essa idéia e voltei a sair, disposta a curtir ao máximo meu dia.
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Enquanto escolhia os produtos minuciosamente e com calma pude pensar com mais clareza em toda aquela história que tanto havia tomado minha atenção pela manhã. Agora eu via que tinha exagerado em minhas idéias, eu havia me esquecido completamente de Carlisle e de como ele era contra a morte de qualquer pessoa, ainda mais se fossem pelas mãos de qualquer membro de sua família. Esperava que ele, ao menos, pudesse ser suficiente para desviar os outros daquele caminho.
Também percebi que havia desejado demais para meu dia; eu ainda estava em Forks, a cidadezinha mais pacata que eu conhecia e não encontrava maneira alguma de me distrair... Ao que parecia aquela pequena e insignificante sessão de compras seria o máximo que eu teria para me divertir.
Paguei pelas compras e fui para a chuva que - para minha decepção - voltara a cair.
Bem, afinal eu teria apenas que me acostumar com a umidade que sempre encontrava por aqui.
Fui dirigindo devagar ouvindo o rádio que eu nem lembrava que existia, ficava sempre ali ao fundo, mas agora que eu o ligara percebia como era monótono dirigir sem ele. Eu cantava junto com música conhecida que tocava.
- ‘Holding my last breath, safe inside myself are all my thoughts of you, sweet raptured light, it ends here tonight’... - Estava animada enquanto seguia pelas ruas molhadas, mas logo me lembrei da tradução deste trecho e um arrepio involuntário perpassou meu corpo me obrigando a desligar o rádio no mesmo momento. - A última coisa que preciso é pensar em coisas relacionadas à morte e derivados - me queixei, embora amasse aquela banda.
Cheguei à casa de Charlie algum tempo depois e guardei as compras no armário da cozinha. Subi as escadas disposta a lavar minhas mãos no banheiro e descer para começar a preparar o jantar quando ouvi um ruído conhecido. Nem mesmo hesitei, fui correndo para meu quarto, escancarando a porta do guarda-roupa à procura do que queria.
E lá estava meu celular anunciando que eu recebera uma nova mensagem.
- Você é de lua mesmo - falei para o aparelho me sentindo uma completa maluca.
Li a mensagem em segundos.
‘, eu sei que você não respondeu minha última mensagem, mas não lhe culpo. Meu celular só funciona quando quer, imagino então que o seu esteja da mesma maneira... De qualquer forma, preciso que me responda assim que vir esta mensagem. Eu estou com tantas saudades de minha mãe, se você está em meu lugar assim como estou no seu deve estar com ela. Mas não lhe diga que estou falando com você, tenho certeza de que ela não entenderia tudo o que aconteceu, apenas me prometa que ficará de olho nela por mim está bem? Bella’.
Bella era mais observadora do que eu imaginava. A história do celular parecia bem lógica, ambos os nossos aparelhos tinham vontade própria e não deveria ser por acaso...
Resolvi responder-lhe antes que o meu falhasse de novo.
‘Bella, você conjecturou certo, meu celular também não funciona nada bem aqui, é algo que temos em comum. Agora tenho que lhe dizer a verdade. Eu conheci sua mãe, mas agora estou morando com Charlie em Forks. Ela me mandou para cá porque precisava viajar a negócios com Phil. Ela é uma ótima pessoa e acredito que esteja bem; eu também sinto saudades de minha mãe, assim como de todos por aí, mas acho que teremos que aguentar até conseguirmos voltar à nossas respectivas vidas. Espero que você esteja se saindo bem - melhor do que eu ela deveria estar, duvidava muito que temesse ser assassinada naquela cidade sem graça -, se cuide. ’.
Mandei a mensagem e apenas um segundo depois o celular voltou a sair de funcionamento. Estava acostumada demais com aquilo para me estressar, pelo menos já havia respondido a mensagem de Bella, não queria fazê-la pensar que eu não me importava com o que ela me dizia. Eu queria que ela estivesse ali comigo, poderia usar ela como escudo de possíveis ataques vampíricos...
Desci para preparar o jantar e acabei ficando bastante ocupada com a macarronada que fazia. Decidi usar proteína de soja no molho, mas não contaria aquilo a Charlie; duvidava muito que ele descobrisse que não se tratava de carne de verdade.
Eu já havia desligado o fogão há alguns minutos quando o barulho da viatura chegou até mim. Eu estava sentada na mesa da cozinha olhando despreocupadamente pela vidraça quando ele entrou em casa.
- A comida está com um cheiro muito bom - comentou ele ainda da entrada.
- Obrigada - respondi rindo internamente ao perceber que talvez meu plano de fazer Charlie se alimentar melhor desse realmente certo.
Eu não sabia exatamente se Charlie iria querer começar a conversar agora, mas esperava que não. Não estava com fome, havia feito o jantar somente para ele então decidi subir mais cedo para meu quarto.
- Charlie, não estou muito bem hoje, se importa se eu subir agora?
- É alguma coisa grave? Quer que eu a leve no hospital? - Ele parecia meio apavorado. Imaginei que se devesse ao fato de que estava cuidando de uma filha que não era sua e qualquer coisa que pudesse acontecer estaria sobre sua responsabilidade.
- Não, não é nada disso, apenas estou sem fome, obrigada por se preocupar. - Não esperei para saber se ele acreditara ou não em minhas palavras e fui em direção à escada.
- Tudo bem, boa-noite. - respondeu ele às minhas costas.
- Boa noite Charlie.
Quando cheguei ao quarto e olhei à minha volta me senti uma tola. Eu estava me preocupando por nada, eu sabia que costumava fazer tempestades por coisas insignificantes e agora que eu admirava cada parte daquele cômodo eu via o que perdia com meus sentimentos exagerados.
- Como fui boba hoje - disse para mim mesma.
Eu ainda estava inexplicavelmente dentro da história que amava, não deveria me sentir tão alheia aos fatos. Ainda eram os Cullen, ainda era Edward.
Agora que me permitira pensar nele eu não conseguia me concentrar em nada mais.
Não fosse todo o medo que sentira com sua atitude eu sabia que teria tido um ataque cardíaco só de estar tão perto dele. Meu corpo me impedira de aproveitar o momento, mas agora que estava perfeitamente calma podia libertar a pequena parcela de mim que se encantara novamente com suas feições perfeitas.
Ele era enormemente desconcertante de se observar, ‘tudo nele era atrativo’ como o próprio Edward citava num trecho do livro.
- Ah, deixa disso, ! - me alertei à meia-voz.
Era perfeitamente aceitável que eu estivesse atraída por ele, seria incomum se aquilo não tivesse acontecido, mas mesmo assim não era algo que eu recomendaria para qualquer pessoa. Edward já tinha a quem amar, a mulher de sua vida estava há quilômetros dali, mas não deixava de ser a única pessoa com quem eu conseguia lhe imaginar.
Me deitei na cama por cima do edredom que usava para dormir e minha mente foi invadida por todas as doces lembranças que tinha dos momentos em que ficava sozinha no meu quarto relendo aquela história sem nunca me cansar.
Eu sabia o quanto havia sacrificado de minha própria vida para viver a vida de Bella, mas mesmo que em partes eu estivesse arrependida, não podia ignorar que era naqueles momentos que eu era mais feliz. Eu sempre ficava impressionada com a força do amor de Edward por ela, eu me via inutilmente desejando que pudesse ser assim comigo, mas um dia percebi que era pedir demais ao destino.
Eu entendia agora porque meus pais e amigos sempre estranhavam minha paixão por Crepúsculo, eles nunca a entenderiam porque nunca haviam lido o livro; eu sentia como se tudo o que estivesse escrito ali fosse possível e aplicava aquilo à minha própria realidade. Então o mundo real me desapontava por não ser tão maravilhoso como eu queria e eu voltava a me refugiar naquelas conhecidas páginas.
- É - falei desanimada - acho melhor parar de procurar pelo meu príncipe no cavalo branco... - e me virei para olhar a noite clara que adentrava minha janela.
Capítulo 11 - Um dia para se confrontar a verdade.
Acordei cansada aquela manhã, mas de certa forma também estava mais serena. Havia sonhado à noite com imagens difusas; era algo que acontecia às vezes comigo, quando eu tinha alguma espécie de problema paa resolver, alguma coisa que me preocupava acabava pensando tanto naquilo que se manifestava em meu subconsciente. A parte boa era que eu sentia como se já tivesse superado toda aquela má vibração e agora tudo parecia estar da maneira que estava quando eu chegara aqui.
Fiquei surpresa ao perceber que meu humor estava melhor do que pensava, cheguei até mesmo a cantar enquanto tomava meu banho e a contagiar Charlie quando o cumprimentei com um ‘bom-dia’ animado. No caminho para a escola liguei o rádio e quando cheguei senti que queria ficar ali ouvindo música o dia inteiro, eu me sentia bem daquela forma, era algo conhecido e familiar. Por fim o estacionamento começou a se esvaziar e eu fui obrigada a ir para a aula como todos os outros alunos.
Cheguei aos corredores da escola que estavam vazios. Eu tinha me estendido mais do que pensava no carro e agora acabaria levando uma bronca pelo atraso. Tudo bem, pensei, valeu a pena ter ficado lá mais um tempo.
Estava andando em direção a minha sala quando senti alguma coisa me pegando rapidamente. Mal tive tempo de protestar, quando pisquei novamente eu já estava em um local totalmente diferente, dentro de um carro que não era o meu.
Percebi algo pelo canto do olho esquerdo e me virei assustada. Edward me observava atentamente enquanto eu o encarava pasma.
- O que...? - comecei a perguntar, mas ele me interrompeu.
- Você realmente precisa assistir as aulas hoje?
Eu o olhei prestes a responder que sim e que queria que ele me levasse imediatamente de volta, mas algo em sua expressão me impediu de dizer aquilo.
- Não - disse por fim.
Ele não disse mais nada, apenas ligou o motor de seu carro e acelerou pela estrada. Não estávamos perto da escola, eu nem mesmo conhecia aquela rua pela qual seguíamos agora. Pensar naquilo me fez lembrar de uma coisa.
- Minha picape... Você está com seu carro, mas se Charlie souber... - novamente ele me interrompeu no meio de minha frase.
- Está tudo bem, ela estará na sua casa quando você voltar.
Suas palavras me fizeram ficar inquieta, para onde estávamos indo? Eu devia ter tentado descobrir antes de topar dar um pequeno passeio com ele depois de tudo o que acontecera conosco no dia anterior.
Ele me observava enquanto eu tentava descobrir suas razões.
- No que está pensando? - perguntou ele de forma casual, mas eu sabia muito bem que por dentro ele deveria estar angustiado por não saber.
- Estou pensando no que Charlie poderia dizer se eu não voltasse para casa hoje e pelos próximos dias, sabe como é, caso você esteja me levando para uma emboscada ou qualquer coisa do tipo - eu mesma estava surpresa com minhas palavras, não me imaginaria dizendo aquilo para ele dessa forma, mas tinha que me preparar para o que quer que estivesse me esperando.
Edward me olhou antes de responder e eu pude ver que não estava completamente errada em minhas palavras.
- Você não irá morrer pelas minhas mãos nem pelas mãos de ninguém de minha família, .
Ele fora tão intenso em sua resposta que eu mal pude duvidar de suas palavras. Além disso, era a primeira vez que o ouvia falar meu nome o que me fez ter alguns arrepios involuntários.
Eu não consegui pensar em mais nada para dizer depois daquilo. Não fazia a mínima idéia de para onde estávamos indo, mas por alguma razão eu me sentia mais confiante do que estivera na véspera.
Edward havia ligado o rádio e ele tocava músicas que eu não conhecia, mas que acabara gostando; eram todas clássicas, com melodias tão lindas que ajudaram a amenizar o clima tenso que parecia predominar entre nós enquanto o tempo avançava. Ele dirigia calado, sempre indo rápido demais. Eu pensei em lhe pedir para desacelerar algumas vezes, mas não tive coragem suficiente para formular as palavras.
Comecei a ficar um pouco tensa quando ele adentrou a floresta por uma estrada pequena e bastante acidentada, mas ele continuou a olhar para a frente, sério. Por fim pude perceber que a estrada acabava alguns metros a frente e foi o que fez ele finalmente parar. Estávamos em um lugar completamente vazio, não havia nada à nossa volta além de árvores e arbustos. Disse a mim mesma para ficar calma e arrisquei um olhar para seu rosto.
Edward me observava ainda calado, a expressão indecifrável para mim. Naquele momento eu desejei poder ler seus pensamentos, seria mais fácil e menos embaraçoso do que ter de lhe perguntar algo, mas como não podia...
- O que estamos fazendo aqui? - Fiz a pergunta mais óbvia.
Ele continuou a me olhar por alguns segundos e depois olhou para a frente com a mesma expressão de seriedade. Porém quando falou sua voz transparecia algum tipo de insegurança.
- Como você sabe? - Foi só o que ele disse, mas era bastante para que eu soubesse ao que ele se referia.
- É difícil - respondi tentando ser sincera.
- Você chegou à cidade há apenas alguns dias, nunca ninguém chegou tão perto da verdade em tão pouco tempo.
- Já pensou que eu posso apenas ter chutado corretamente? - tentei ser evasiva.
Seus olhos faiscaram para meu rosto logo voltando à posição que estavam.
- Sim - respondeu seco. - Mas não foi o que aconteceu; acha mesmo que eu estaria aqui e agora falando com você tão abertamente se não tivesse certeza de que você sabe a verdade sobre mim e minha família?
Seu rosto assumia uma expressão de dor que eu não compreeendia à medida que ele falava.
- Eu te disse o que você queria, também tenho o direito de saber. - Lhe avisei antes de fazer a próxima pergunta - O que você teme?
Edward voltou seus olhos dourados para mim e eles eram intensos enquanto ele me fitava. Eu me senti esquisita, um sentimento que não podia explicar tomou conta de mim enquanto eu o encarava de volta.
- Eu temo que eu esteja enganado sobre você, temo que tudo o que penso esteja errado e que eu pague por isso mais tarde. - Eu ouvi cada palavra do que ele disse, mas não conseguia encontrar o significado naquilo.
- Edward - dizer seu nome com ele ali pela primeira vez voltou a me trazer arrepios, eu ainda estava extasiada por estar naquela realidade totalmente incomum. - Eu nunca... Eu não direi nada a ninguém - lutei para encontrar as palavras certas para expressar o que sentia, queria que ele acreditasse em mim naquele aspecto, queria que não tivesse dúvidas de que eu falava sério, minha vida poderia depender apenas dele confiar em minhas palavras. - Quem iria acreditar em mim, de qualquer forma? Eu mesma não sei mais se ainda acredito em alguma coisa...
Eu o olhava fixamente a cada palavra que dizia, esperando que se o que falava não fosse suficiente ele pudesse de alguma forma encontrar a verdade em minha expressão franca.
- Eu queria poder acreditar que isto seria o bastante, que eu saberia o tempo todo da lealdade em suas palavras e que isto seria suficiente para que voltássemos à nossas vidas simplórias, mas temo que não seja o suficiente, é isto que temo. - Ele falava como se quisesse me dizer algo que não podia exatamente ser colocado em palavras, como se houvesse algo a mais além de apenas medo e insegurança, mas eu não compreendia suas intenções.
Neste exato momento uma rajada violenta de vento agitou o ar à volta do Volvo, balançando até mesmo as árvores na floresta e adentrando as janelas abertas do carro, chegando a jogar meus cabelos soltos em meu rosto.
Eu passei a mão em minha cabeça, tentando ajeitar a bagunça e então senti um aperto firme em volta de meu pulso esquerdo.
- Saia daqui, - disse Edward. Seus olhos estavam fechados e seu queixo trincado com o esforço que ele parecia fazer. Eu senti o sangue sumir de meu rosto e pulsar mais rápido em meu coração e logo percebi que aquilo não me ajudava em nada. O vento tinha levado meu cheiro inesperadamente em sua direção e ele agora lutava contra a sede.
Eu coloquei uma das mãos na porta, prestes a sair dali, mas ele apertou mais meu braço, chamando minha atenção.
- Não, vá com o carro.
- Mas... - tentei argumentar, dizendo que teria grandes problemas se alguém me visse dirigindo um carro que não era meu, mas ele me interrompeu, enérgico.
- Pegue o carro e vá. - Ele abriu os olhos devagar e me olhou; sua face estava dividida entre a fúria e a força que ele investia contra ela. - Vá!
Foi a última coisa que disse e então eu estava sozinha. Havia apenas o zumbido repetitivo do vento chacoalhando a copa das árvores. Senti um calafrio de repente e me concentrei antes de girar a chave na ignição. O motor roncou suavemente, era um barulho completamente diferente de minha picape, completamente diferente da maioria dos carros em que já andara; era agradável e me fez sentir um estranho surto de poder. Dei a ré e manobrei o carro até ficar de frente para a estrada por onde havíamos vindo.
Alcancei a rodovia em cerca de alguns minutos e acelerei enquanto seguia de volta; eu não havia prestado muita atenção no caminho, mas sabia que conseguiria chegar em casa se seguisse as placas de trânsito.
Era estupidez minha dirigir àquela velocidade - o velocímetro quase chegava aos cento e vinte, um número elevado para uma pessoa que costumava dirigir um carro que costumava ficar nos cinqüenta por hora -, mas tudo ali parecia ainda mais surreal do que da primeira vez. Eu estava no carro de Edward; eu dirigia seu tão famoso e cobiçado Volvo prateado e podia sentir a potência que Bella sempre descrevia nos livros... Eu nunca percebera o quanto gostava da velocidade até agora que podia senti-la tão perto de mim.
Uma placa na beira da estrada me informava que havia uma curva perigosa à frente e pude sentir a parte lógica de meu cérebro voltando a controlar a emotiva; por mais que estivesse fascinada com aquela experiência era tolice me arriscar. Diminuí rapidamente enquanto iniciava a curva fechada. Era menos divertido dirigir assim, obviamente, mas também mais seguro, ainda mais para mim que tinha pouco tempo de prática ao volante.
Eu seguia em minha parte da estrada e olhava à frente quando um carro que vinha na direção contrária à minha desviou de seu caminho entrando na contra-mão. Não tive tempo para nada além de tentar desviar do veículo desgovernado à minha frente. O carro cantou pneu pela pista no momento em que freiei, virando bruscamente e indo parar fora da estrada; derrapou alguns metros na areia que havia ali me fazendo ficar tonta e parou batendo de lado nas árvores que contornavam toda a estrada.
Eu pude sentir algo quente descendo por minha testa, mas não tive força para levantar minha mão e descobrir o que era. Tudo começou a ficar escuro à minha volta e a última coisa que pude ouvir foi a voz de alguém que gritava furiosamente.
- Não... Não, ! ROSALIE, O QUE VOCÊ FEZ?
E depois disso fui puxada fortemente para a inconsciência.
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Eu queria abrir meus olhos, mas não conseguia, o sonho que me prendia era forte demais para que eu pudesse lutar contra ele então eu apenas prestava atenção a cada parte enquanto tentava acordar. Eu poderia dizer que estava naquele estado por horas, mas não sabia ao certo, apenas sabia que diversas pessoas haviam aparecido em minha mente confusa. Uma delas fora Charlie.
- O que aconteceu com ela? Ela está bem? - ele parecera muito preocupado enquanto fazia perguntas repetidas sobre alguém que eu não sabia quem era. - Carlisle! - ouvira ele exclamar e uma emoção forte tomara conta de mim. Eu não sabia onde estava, estava tudo muito embaralhado em minha cabeça, mas eu me lembrava daquele nome.
Naquele momento um ruído estranho como o barulho repetitivo de um bipe surgira ao fundo e Charlie parecera ter ficado em pânico.
- O que está acontecendo Carlisle? - ouvira ele perguntar agoniado.
- Não é nada, Charlie, ela deve estar tendo pesadelos ou qualquer coisa do tipo - uma voz agradável e contida lhe informara. - Vou medicá-la e ela dormirá ainda por algumas horas até que esteja pronta para acordar - dissera a voz de forma calma, mas eu pude ouvir algo escondido por trás da fachada de serenidade; temor ou preocupação talvez.
Depois disso eu voltara a mergulhar em um sono profundo e sem sonhos, de vez em quando imagens difusas tomavam conta de meus pensamentos, juntamente com barulhos e vozes que eu não conhecia e eu estivera assim até agora que podia sentir as coisas mais claras em minha cabeça.
Não havia qualquer som no lugar onde eu estava além de algo que eu identificara como o tique-taque de um relógio, e o mesmo barulho do bipe só que agora mais controlado. Eu continuava presa ali quando pude ouvir o ruído leve de uma porta sendo aberta seguido de passos leves que se aproximavam de mim.
Houve silêncio por um momento e então uma voz adorável invadiu meus pensamentos, conseguindo quebrar até mesmo as barreiras que meu sonho parecia impor contra mim.
- - disse a voz e eu pude sentir que a pessoa estava amargurada, triste... Algo no fundo de minha mente me dizia que eu conhecia o dono daquela voz doce, mas parecia muito difícil de associar minhas lembranças com a realidade, apenas era impossível demais para ser verdade.
Outra pausa e então a pessoa continuou, dessa vez mais perto de meu rosto.
- Me desculpe. - pediu. Aquela era a voz de Edward, eu sabia que era, mas como poderia ser? Edward era apenas um personagem do livro que eu mais gostava, não havia como estar ali realmente ao meu lado; concluí então que tudo deveria ser parte de meu sonho e me concentrei em suas palavras, sem querer perder qualquer uma delas. - Foi minha culpa, eu... - ele parou por outro instante e quando voltou a falar seu tom era ainda mais tristonho - Eu disse a eles que não deveriam lhe machucar, mas não foi o bastante. Me desculpe por isso - Pediu e eu podia perceber a culpa que lhe assolava.
Eu me lembrava de várias coisas incompletas, mas não conseguia dizer quais eram sonho e quais eram verdade.
Senti então um toque muito leve e frio em minha mão esquerda e concluí que já estava sonhando há tanto tempo que podia até mesmo conjurar sensações como aquela. Me concentrei em voltar a abrir meus olhos e sair daquela ilusão, por mais encantadora que pudesse ser. Foi difícil, mas consegui aos poucos visualizar as imagens à minha volta.
Eu estava em um quarto muito branco; cortinas, poltronas e demais objetos eram de cores claras. Um hospital; agora eu entendia a natureza dos ruídos que ouvia. Voltei meu olhar então para o rapaz à minha frente. Ele estava de cabeça abaixada e eu só podia contemplar seus cabelos de um bronze brilhoso e de aparência muito sedosa e a pele branca de sua mão que repousava em cima da minha.
Havia algo entre nossas peles, percebi um tubo transparente que ia da parte superior de minha mão até o saquinho de soro pendurado ao meu lado. Tentei mover meus dedos e descobrir se a agulha enfiada em mim me faria sentir dor demais, mas logo que o fiz o rapaz levantou a cabeça e eu pude, pela primeira vez desde que acordara, visualizar sua face.
Meu coração palpitou em resposta quando contemplei seu rosto tão lindo. Era Edward, o Edward de minhas lembranças, o Edward que aparecia em minha história favorita, mas como ele poderia estar ali se não passava de um personagem, de uma criação de minha imaginação?
- - ele falou e sua voz era inexplicável como eu me lembrava, como a que eu ouvira há poucos minutos. - Acalme-se - disse ele acariciando minha pele. - Shhh, está tudo bem, está tudo bem...
Seus olhos estavam cheios de uma tristeza que eu não entendia, mas acima de tudo não compreendia como ele poderia estar ali na minha frente. Fechei meus olhos tentando ordenar os fatos e de repente tudo se tornou claro em minha mente...
- Edward? - perguntei enquanto assimilava tudo aquilo.
- Sim, sou eu. Me desculpe, .
Agora eu me lembrava, eu havia sofrido um acidente; uma curva perigosa, um carro vindo na contra-mão.
- O que aconteceu? - sussurrei enquanto me recordava. - Eu estava dirigindo rápido, mas me lembro de ter desacelerado, então um carro entrou na pista contrária e... - Edward me interrompeu.
- Não foi sua culpa - disse ele, uma fúria selvagem tomando momentaneamente conta de seu rosto.
Me lembrei então dos gritos que ouvira pouco antes de desmaiar e meu coração começou a bater rápido com a preocupação que tomou conta de mim.
- Ro-Rosalie - gaguejei -, eu ouvi você gritar o nome dela...
Ele ainda me observava e pude ver seu rosto desmoronando quando eu disse aquilo. Juntei então suas palavras em minha cabeça e percebi o que havia acontecido. Edward confirmou minhas suspeitas.
- Ela desconfiou que eu pudesse estar com você e nos seguiu logo depois, quando estava perto de nos alcançar você já estava voltando em meu carro, ela, é claro, lhe viu nele e ficou descontrolada, fez aquilo sem pensar, ela estava com medo de que você pudesse destruir nossa família...
- Então não a culpo por isso - concluí.
Ele se calou e voltou a olhar para baixo.
Ouvi o barulho de passos se aproximando da porta, Edward me lançou um último olhar de desculpas e desapareceu como sempre fazia.
Fiquei ali sentindo o vazio no lugar onde antes estivera sua mão fria quando a porta se abriu.
- Ah garota, você está acordada. - Charlie parecia muito cansado e perturbado, eu não imaginara errado ao pensar que ele teria muito mais dificuldade de lidar com aquilo por se tratar de uma pessoa que estava sob sua responsabilidade.
- Sim e estou bem, Charlie. Você não precisa ficar preocupado. Na verdade, qual foi a extensão dos danos? - perguntei enquanto flexionava os dedos das mãos e pés procurando por alguma fratura ou algo do tipo.
- Você apenas bateu forte com a cabeça e o doutor Cullen lhe sedou por um tempo enquanto fazia os exames. Você está aqui há quase cinco horas, mas acho que logo poderá voltar para casa. - respondeu ele mais calmo.
- Ótimo - sorri, realmente feliz por poder sair dali, não era muito fã de hospitais.
Charlie saiu da sala, com o pretexto de ir encontrar o doutor e resolver os detalhes de minha saída dali. No momento em que fiquei sozinha uma questão crucial cruzou minha mente: Charlie sabia o que havia realmente acontecido?
Ele estava sendo legal comigo porque eu ainda estava me recuperando do acidente, mas sabia que assim que saísse dali estaria encrencada. Eu matei aula, sumi sem dar explicações e ainda bati um carro que nem ao menos era meu... Será que Edward teria dado um jeito de ficar fora da história, me deixando levar toda culpa sozinha?
Não tive muito mais tempo para pensar naquilo, pois a porta voltou a ser aberta e um homem alto e loiro adentrou o pequeno quarto. Fiquei sem fala enquanto contemplava o pai de Edward, Carlisle Cullen. Ele era ainda mais surpreendentemente lindo e jovem do que eu poderia pensar ser possível...
- Bem , Charlie veio me pedir que lhe dê alta para você voltar à sua casa. Fico feliz em anunciar que já fizemos todos os exames necessários e não houve nenhum dano grave, apenas alguns arranhões em sua testa, mas lhe indicarei o que usar para que se cure logo.
Além de tudo ele era extremamente educado e agradável, mas seu olhar revelava algo a mais que ele procurava esconder. Concluí que deveria apenas ser a mesma preocupação que assolava o resto de sua família, o medo de que eu dissesse qualquer coisa a alguém. Decidi que como não poderia dizer a cada um deles para que ficassem calmos, eu iria fazer melhor que isto: iria lhes mostrar que não me interessava nenhum pouco divulgar sua verdadeira identidade.
- Obrigada doutor - respondi dando-lhe um sorriso de agradecimento e felicidade por estar ali à sua frente; mesmo que já se fizessem dias que eu estava perdida naquela história eu nunca me cansava de me surpreender com o que ou quem via. Percebi então o quanto as coisas estavam fora de meu controle, tornando-se diferentes daquela trama à qual eu estava acostumada e sabia que aquilo se devia unicamente à mim.
Capítulo 12 - Mesma história, rumos diferentes.
Entrei na viatura de Charlie em silêncio esperando pela bronca que ele deveria estar guardando para mim. Esperei alguns minutos, ficando mais apreensiva a cada um deles quando ele finalmente falou.
- Não precisa se preocupar com sua caminhonete, eu tentei levá-la para o conserto, mas o filho mais novo do doutor Cullen, Edward, disse que tudo ficaria sob sua responsabilidade... - começou ele, mas eu o interrompi, confusa.
- Minha caminhonete? Como assim? O que Edward tem a ver com isso?
Charlie virou a cabeça em minha direção me analisando por um instante antes de responder.
- O dr. Cullen disse que isto poderia acontecer - refletiu ele -, a perda de memória... Se você não se lembra, você veio para a aula, alguns alunos lhe viram no carro, mas ninguém a viu entrar na escola. Ao que parece você estava voltando para casa, deve ter se esquecido de algo não é? - perguntou ele e eu fiz vagamente que sim com a cabeça já compreendendo do que aquilo se tratava. - De qualquer forma, Edward estava vindo rapidamente, porque estava atrasado, ele se descuidou por um breve segundo e quando viu já tinha batido em seu carro, lhe fazendo sair da pista... Você foi trazida ao hospital por ele mesmo e Carlisle fez questão de arcar com todas as despesas de sua breve estadia. Eu fiquei muito nervoso à princípio, mas a família Cullen foi tão atenciosa com você que logo percebi que não havia sido por mal, afinal acidentes acontecem não é? - completou ele.
Eu estava surpresa demais com o que ouvira para sequer conseguir responder. Eu fora muito injusta com Edward, achava que ele daria um jeito de se safar, mas no final inventou uma história onde eu saía totalmente incólume, enquanto ele assumia toda responsabilidade. Podia sentir a gratidão crescendo em meu peito e a culpa pesando em minha mente por ter pensado tão mal dos Cullen há algum tempo.
Chegamos em casa e Charlie me perguntou se eu estava com fome. Disse que sim e ele resolveu pedir uma pizza aquela noite. Enquanto comíamos resolvi lhe perguntar o que mais sabia sobre o incidente, ainda lisonjeada com a atitude nobre de Edward de se nomear o único responsável.
- Ele arranjou um tempo para vir aqui e levar seu carro à oficina. Disse que ficaria pronto em dois ou três dias, apenas um amassado na lateral e alguns faróis quebrados.
- Hm... - eu não conseguia concordar com aquilo. Sabia que não poderia dizer a total verdade a Charlie, mas poderia dar um jeito de assumir minha parte. - Edward está sendo mesmo um cavalheiro, mas a culpa também foi minha Charlie. Eu estava com pressa como disse, se não estivesse correndo daquela forma talvez pudesse ter impedido isto. - Aquela era parte da verdade, estava distorcida, mas ainda assim me colocava de volta na equação.
- Bem, você também estava errada em dirigir desta forma, tente ser mais cuidadosa quando receber sua picape de volta está bem?
Só isso?, pensei, nenhum castigo, bronca ou nada do tipo? Ainda não era suficiente, tentei me envolver ainda mais.
- Mas o carro não é meu, Charlie! É de Bella, pode me castigar por ter sido tão descuidada, eu mereço, dê a punição que quiser que eu aceitarei - sabia que aquilo não conseguiria eliminar tudo o que me sentia agora devendo a Edward, mas pelo menos eu ficaria com a consciência mais leve por estar sofrendo as consequências.
Charlie mastigou lentamente um pedaço de pizza e me respondeu, olhando-me seriamente.
- Você está sob minha responsabilidade, . Essas horas que você ficou desacordada foram muito difíceis para mim, me fizeram questionar meu desempenho como pai... Sei que não é minha filha, mas já que Bella não está aqui é de você que tenho de cuidar. Está tudo bem, não há mais nada pendente, vamos esquecer este assunto está bem? - pediu ele e eu não pude fazer nada mais a não ser obedecê-lo.
Não me sentia melhor de forma alguma, mas podia fazer uma última coisa para fazer Charlie sentir-se melhor.
- Você é um ótimo pai, Charlie. Bella sempre foi independente, sei que está chateado por ela não estar aqui, mas acredite, se estivesse ela lhe diria o mesmo que lhe digo agora: você é um ótimo pai - reafirmei para ele e milagrosamente Charlie sorriu, algo que eu poucas vezes o vira fazer.
- Está bem, vamos parar com o sentimentalismo por aqui - disse ele tentando parecer autoritário, mas seu tom me fez rir. Ele ficou de cara fechada enquanto eu ainda ria, mas eu sabia que no fundo ele estava se segurando para não me acompanhar na gargalhada.
Terminamos de comer e eu fiz questão de lavar e guardar os pratos. Mandei Charlie ir descansar e ele foi ver um pouco de televisão antes de dormir.
Subi para meu quarto exausta com o dia longo que havia tido, ainda me sentindo meio estranha, mas dessa vez por uma razão desconhecida, concluí que deveria ser apenas as emoções à que fora submetida nas últimas horas. Tomei um banho rápido e assim que me deitei caí em um sono profundo e sem sonhos.
~
Caía uma chuva fininha lá fora quando acordei, eu fiquei alguns minutos observando o céu nublado até ouvir o barulho do carro de Charlie enquanto ele saía para o trabalho. Me levantei imediatamente, e corri para arrumar minhas coisas. Acabara me atrasando para ir à escola, mas quando desci percebi que não poderia ir de qualquer maneira.
- Droga - resmunguei - esqueci que a picape está na oficina e não vou conseguir chegar a tempo se for a pé.
Estava me perguntando porque Charlie também não percebera aquilo e me acordara mais cedo ou me oferecera uma carona quando notei um bilhete preso na geladeira com um ímã.
‘, se arrume para ir à escola, Edward ligou dizendo que lhe dará uma carona e como estou tendo bastante trabalho ultimamente concordei com isto. Charlie’
Eu estava comendo uma barrinha de cereal quando terminei de ler o bilhete e quase engasguei, mal tive tempo para respirar quando ouvi a campainha tocar.
Fiquei parada no meio da cozinha sem saber exatamente o que fazer, mas logo me lembrei que estava chovendo e corri para abrir a porta.
Edward estava embaixo do telhado da entrada e sorriu suavemente ao me ver. Eu ainda não conseguia falar nada então apenas fiz sinal para que ele entrasse.
- Bom dia - disse ele enquanto adentrava a casa.
- Er, bom dia - eu estava muito sem graça, mais uma vez Edward estava presente me livrando de meus problemas, eu lera várias vezes sobre suas comuns gentilezas com Bella, mas ainda assim não deixava de ficar impressionada.
Continuei parada na entrada com cara de boba e após alguns segundos ele voltou a falar.
- Já está pronta para irmos?
- Ahn, não... Quer dizer, estou quase, já venho. - respondi e subi correndo as escadas disposta a escovar meus dentes e pegar minha mochila.
Me demorei mais do que estava acostumada porque fiquei alguns consideráveis minutos olhando meu rosto meio pálido no espelho. Eu sabia que Bella não curtia maquiagem ou coisas do tipo, mas eu realmente precisava, ao menos, de um gloss labial para me sentir bem. Disse a mim mesma que iria atrás de cosméticos necessários na primeira oportunidade que tivesse e desci as escadas tentando não pensar em Edward parado me esperando para que não perdesse a coragem de ir à escola aquele dia; ontem quando eu ainda tinha dúvidas sobre o comportamente dele e de sua família conseguira ficar quase bem em seu carro, mas hoje, depois de tudo o que ele fizera por mim eu podia sentir um leve rubor tocar minhas bochechas só de pensar no tempo que passaríamos sozinhos.
Ele olhava distraído um ponto qualquer da entrada quando cheguei a seu lado.
- Me desculpe pela demora, estou pronta para irmos agora.
Ele se virou devagar para me olhar.
- Como você está se sentindo? - perguntou.
- Bem - respondi. Era verdade, eu me sentia completamente normal fisicamente, o corte em minha testa estava devidamente protegido pelo curativo que Carlisle havia feito antes de eu sair do hospital e o cansaço que sentira na véspera já havia desaparecido com a noite de sono.
- A chuva aumentou, se importa se eu a levar até o carro para que se molhe menos? - perguntou ele e pude perceber que seu tom estava mais leve e brincalhão como eu nunca vira antes.
Não entendi bem o que ele quis dizer com aquilo, mas concordei sem querer enfrentar o aguaceiro que parecia cair lá fora agora.
Foi tudo muito rápido. Em um segundo eu estava dentro da casa e no outro já me vi dentro de seu carro, Edward ao meu lado já dando a partida. Sabia que tínhamos pouco tempo juntos até chegarmos a escola então resolvi lhe perguntar o porque dele estar sendo tão bondoso comigo.
- Edward, porque está aqui comigo agora? Quer dizer, eu não poderia estar mais grata por tudo o que você andou fazendo por mim, não sei se um dia poderei mesmo lhe agradecer, mas porque ficou com toda a responsabilidade pelo acidente? Você sabe que não foi culpa sua, eu estava sendo imprudente aquele dia, eu deveria ter ficado com a minha parte das broncas de Charlie.
- No que você tem culpa ? Em saber demais sobre minha família, saber algo obscuro e temeroso sobre nós e mesmo assim guardar segredo, nunca sequer mencionar nada com qualquer pessoa desta cidade? Em estar fugindo, porque eu lhe mandei fazer isto e mesmo assim ser atacada de outra forma em outro lugar? Por favor, não queria amenizar o sentimento que sinto, porque eu o mereço...
- Isto não é verdade, Edward. Eu pensei coisas horríveis sobre você e sua família e agora vocês fazem tantos sacrifícios por mim sem eu ao menos merecer, eu já lhe disse que não culpo Rosalie, eu a entendo, e estou bem agora acho que é isso o que importa.
Já estávamos na escola àquela altura, ele estacionou na vaga de costume e antes de sair do carro disse tão baixo que eu não sabia se estava falando consigo mesmo.
- Sim, é somente o que importa.
Edward abriu a porta para mim e me acompanhou até o interior da escola, tínhamos a primeira aula em salas diferentes e ele seguiu para a sua com o mesmo olhar preocupado que eu via predominar em seu rosto nos últimos dias.
Mal prestei atenção às aulas aquele dia, meu pensamento estava completamente em Edward e em sua expressão sempre abatida quando ele estava comigo. Eu não entendia a razão daquilo, mas não me sentia nada bem sabendo que a causa deveria ser eu. Estaria ele agoniado e com medo ainda por conta de que eu pudesse surtar e espalhar seu segredo pela escola? Não, eu não acreditava naquilo, não depois das últimas conversas que havíamos tido, eu lhe prometera que não diria nada, mas então o que poderia ser?
Estava disposta a confrontá-lo e lhe pedir que me desse algumas respostas e faria isto hoje enquanto estivéssemos voltando da escola.
Quando chegou o horário de almoço eu desejei simplesmente poder sumir dali, além de Mike, Jessica e Eric sempre me enchendo de perguntas e atenções exageradas estava mais uma porção de alunos que eu mal conhecia, mas que agora abarrotava nossa mesa. Todos queriam saber o que havia acontecido na manhã anterior, o que eu sentira no momento em que vi que iria bater o carro. Eu respondia a cada uma das perguntas com paciência e da maneira mais convicente que podia, mas houve um momento que não consegui me controlar.
Lauren que estava ali de plano de fundo observando tudo com uma cara de desprezo resolver finalmente se manifestar.
- Que sorte a sua não é que Edward tenha se oferecido para pagar os estragos em sua caminhonete, se bem que não deve sair nada caro, ele conseguiria encontrar as peças em um ferro-velho qualquer.
Vaca intrometida, pensei. Estava começando realmente a achar que as loiras deste colégio não me davam uma pausa mesmo.
- Pois é Lauren, Edward tem sido um completo cavalheiro, é uma pena que seja eu a dona de todas as atenções e não você que como posso ver está se mordendo de inveja de tudo isso - retruquei sem conseguir conter minha raiva.
A maioria das pessoas na mesa começou a rir da cara de Lauren e eu pude ver seu rosto muito vermelho enquanto ela me fuzilava com os olhos. Eu disse, não sou Bella e não vou engolir qualquer desaforo vindo dela ou de qualquer outra pessoa.
Mike teve de conseguir sua cota de minha raiva também.
- O Cullen não saiu com nenhum arranhão, somente você que acabou se dando mal, não acho nada justo já que foi ele quem se descuidou - falou de forma petulante.
Eu não estava disposta a perder as estribeiras no meio do refeitório e tentei ser o mais educada possível em minha resposta.
- Você não sabe do que está falando, Mike. - lhe repreendi enquanto me levantava para pegar algo para comer e tentava fugir de toda aquela aglomeração à minha volta.
Cruzei o salão rapidamente sem ousar qualquer olhar para a mesa dos Cullen, sabia que eles deveriam estar ter ouvido cada palavra que eu dissera às pessoas curiosas e não estava disposta a ter que lidar com qualquer tipo de olhar repreensivo.
Acabei comprando apenas uma maçã e um suco natural e voltando relutantemente para a mesa em que estava mais rápido do que desejava.
Aguentei o restante do intervalo com o máximo de calma que pude, estava muito decepcionada com as pessoas daquela escola, quando de tratava de qualquer tipo de fofoca elas se tornavam imensamente desagradáveis, mas então percebi que não seria somente ali que eu estaria rodeada, não poderia mentir que mesmo na cidade em que morava eu acabaria sendo o centro das atenções por alguns dias.
O sinal então finalmente bateu e eu me levantei ansiosa para ir para a sala e estudar, ocupar minha mente com coisas úteis e bem mais fáceis de lidar do que minha própria vida estava sendo. Entrei e me sentei em minha carteira sem nem mesmo prestar atenção na sala em que estava, foi somente quando ouvi o ruído quase imperceptível de alguém sentando-se ao meu lado que percebi que estava na classe de biologia.
Edward olhava pra frente com uma expressão vazia e eu me sentia tão mentalmente esgotada aquela manhã que nem mesmo me forcei a lhe dizer um oi ou lhe perguntar qualquer coisa; ele parecia não ter vontade de conversar então basicamente ficamos prestando atenção no que o sr. Banner dizia como se não estivéssemos tão perto um do outro.
Quando a aula acabou Edward se levantou e saiu da sala rapidamente e eu fiquei me perguntando o teria acontecido para ele estar tão alheio à minha presença. Não tive muito tempo para curtir minhas dúvidas, logo que me dirigi à porta, Mike veio para perto de mim.
- Hey , me desculpe se ofendi seu namorado hoje.
Se aquele era um pedido de desculpas não estava parecendo.
- Se você se refere a quem eu imagino que se refere, não se preocupe Mike, ele não é meu namorado nem qualquer coisa parecida.
- É o que você diz, mas vocês dois andam muito juntos ultimamente... - começou ele.
- Ele não é, Mike, está bem? - o interrompi nervosa, mas logo percebi que estava descontando meu desapontamento com Edward na pessoa errada. - Olhe, será que tenho de lhe provar que não há nada entre a gente? - Talvez fosse a melhor coisa a se fazer, talvez Edward estivesse aborrecido por ter de ficar tanto tempo comigo em público então era melhor deixar toda a escola sabendo logo que não havia nada para se especular.
- Se quiser, você não saiu nenhuma vez desde que chegou aqui, não é? Quer ir ao cinema hoje comigo e esquecer um pouco as preocupações?
Eu parei no meio do corredor, pega de surpresa por suas palavras. Minha primeira intenção era falar ‘não’, mas algo em sua expressão me impediu de lhe dar uma negativa. Eu me lembrava de sempre ficar com um pouco de dó de Mike e Eric por ambos investirem suas cantadas em uma garota que já estava apaixonada, mas nunca culpara Bella. Agora eu tinha a oportunidade de fazer algo bom por Mike e por mim mesma; não estava exatamente animada com a idéia, mas algo me dizia que eu tinha que aproveitar cada minuto que poderia ter ali.
Mike já estava com a expressão meio tristonha pela minha demora na resposta então o poupei de mais indecisão.
- Claro Mike, acho que preciso mesmo espairecer um pouco - respondi e fiquei feliz de ver o grande sorriso que se abriu em seu rosto quando ele ouviu minha afirmativa.
Fomos juntos para a educação física, o professor não me deixou jogar com medo de que eu pudesse ter algum problema por conta do acidente. Tentei lhe dizer que estava bem, mas no final acabei ficando sentada na arquibancada observando meus colegas de turma durante toda a última aula.
Quando estava prestes a tocar o sinal anunciando a saída porém, eu me senti estranhamente nervosa. Tinha me esquecido completamente que havia vindo de carona com Edward e depois de sua atitude fria na aula anterior não tinha muita certeza se acabaria tendo de ir embora a pé. Eu não me importava com aquilo, iria sem problemas, não fosse a chuva que não havia cedido um minuto sequer do dia.
Estava pensando em minhas possibilidades quando alguém me chamou.
- , não vai embora? O sinal já bateu.
Era Mike que vinha do vestiário em minha direção, eu estava tão distraída que mal percebera que a quadra estava quase vazia, me levantei e peguei minha mochila sem muita animação para provavelmente ter de enfrentar a chuva.
- Então, eu passo na sua casa hoje por volta das sete, pode ser?
- Ahn? - eu ainda estava preocupada com a história toda de ir embora sozinha. - Ah sim, claro, às sete está bom.
- Você não parece muito animada... - comentou ele.
- Não, não é nada disso, Mike, só estou um pouco preocupada com a chuva - respondi.
- Quer que eu lhe dê uma carona até sua casa?
Eu não sabia muito bem se deveria recusar seu convite, mas naquele exato minuto chegamos à porta da quadra e eu vi Edward encostado na parede do lado de fora me olhando fixamente.
- É, eu... - não sabia o que responder quando o vi ali, talvez só estivesse querendo me avisar que seria melhor eu aceitar o convite de Mike.
Foi o próprio Edward quem respondeu por mim.
- Está tudo bem Newton, eu a trouxe, eu a levo. - disse Edward aparecendo ao lado de Mike que o olhou com raiva. Eu fiquei calada, sem entender a atitude de Edward novamente, ele era sempre misterioso e difícil demais de se interpretar, me deixava facilmente confusa.
- Te vejo mais tarde, ! - gritou Mike para mim enquanto eu já me afastava, seguindo Edward. Eu acenei para ele enquanto virava o corredor indo na direção do estacionamento.
Capítulo 13 - Escolha uma das realidades.
Edward ficou em silêncio por todo o caminho até seu carro. Abriu a porta para mim e entrou sem dizer uma só palavra. Eu me sentia extremamente idiota naquela situação; ele parecia aborrecido comigo e mesmo assim estava me levando para casa, o que ele estava pensando?
- Edward - falei sem conseguir conter a curiosidade e irritação que começavam a me assaltar. - Porque você sempre fica tão estranho na minha presença? Eu não entendo suas reações, já lhe disse que não diria nada sobre sua família, você não confia em mim?
Ele dirigia rapidamente pelas ruas molhadas e não respondeu minhas perguntas.
- Estamos brigados agora, é isto? - Continuei a lhe pressionar sem conseguir conter meu aborrecimento. Caramba, em meus sonhos você costumava ser mais agradável, Edward Cullen, pensei desanimada.
Ainda nenhuma única palavra. Eu sentia meu cabelo molhado pingando no banco de seu carro e tive vontade de sair dali, de parar de depender dele. Não gostava daquilo, nunca quisera alguém para me mimar, já tinha meus pais me dizendo todos os dias que eu merecia casar com uma pessoa que fizesse minhas vontades, mas onde o amor ficava em todo esse joguinho de aparências? Preferia ser tratada como qualquer ser humano comum, sem nenhum tipo de atenção especial e aquilo não acontecia há dias.
Ele estacionou então, chovia demais para eu poder sequer enxergar a casa de Charlie à distância. Pela primeira vez não me importei em me molhar, coloquei a mão na tranca querendo sair logo dali, mas Edward travou a porta antes que eu pudesse sequer forçá-la a se abrir.
Respirei fundo para não brigar com ele, sabia que não tinha esse direito, não depois de tudo o que ele me fizera, mas pensar nisso apenas me deu ainda mais raiva. Eu queria poder dizer o que pensava, mas lhe devia tanto que contive minhas palavras.
- Não vai me deixar sair?
- Ainda não - respondeu ele, com um ar decidido.
Me virei então para olhá-lo e pude ver seus olhos dourados e intensos me contemplando. Senti meu coração acelerar somente de encontrar seu olhar e disse a mim mesma para ficar calma, eu não podia me encantar por sua face, por seu jeito, por ele... Porque Edward não me pertencia.
- Por favor, Edward - pedi sabendo que não ajudava em nada que eu estivesse ali sozinha com ele. - Eu não posso ficar aqui com você. - disse sem pensar, mas logo me arrependi.
Sua expressão ficou primeiro pensativa, mas logo voltou àquela velha máscara de tristeza que eu conhecia.
- Eu entendo - respondeu ele e eu sabia que ele não entendia realmente, estava pensando nas explicações erradas para minhas palavras.
Por um momento pensei em lhe explicar, sem conseguir mentir ou esconder nada dele, mas depois uma certeza dolorosa invadiu minha mente; seria melhor se ele pensasse que eu tinha medo dele, assim ficaria longe de mim e poderia ter seu relacionamento com Bella um dia. Eu não sabia quanto tempo isto poderia demorar, não sabia quanto tempo ficaria presa naquela realidade alternativa à minha, mas uma hora eu teria de encontrar uma maneira de voltar e quando isto acontecesse eu não poderia me dar ao luxo de ter nada me prendendo à Forks. Edward era então uma das coisas que eu mais precisava evitar, pois mesmo agora não conseguia pensar em deixá-lo. Ele era perfeito demais, bondoso e maravilhoso em excesso para que eu pudesse conseguir viver sem ele...
Até agora não percebera o quanto estava ligada aquela história. Eu pensava que estivesse mais distante depois que percebera tudo o que abrira mão por causa dela, mas estava enganada.
Enquanto encarava Edward pude sentir lágrimas se formando nos cantos de meus olhos e era tarde demais para que eu pudesse contê-las. Não tive ao menos força para fazer aquilo, porque tinha sido tomada por uma verdade aterradora que me sufocava.
- Você está chorando? - perguntou ele com a voz arrasada. - Por favor, não chore , não é sua culpa. Você está certa em querer se distanciar de mim, é o mais seguro a se fazer.
Não consegui responder, coloquei as mãos no rosto tentando fugir dos fatos que enxergava agora. Eu sentia imensas saudades de meus pais e amigos e queria voltar a vê-los o mais breve possível, mas aquilo significava não ver Edward nunca mais. Como eu poderia sequer conviver com aquilo?
Desde a primeira vez que o imaginara ficara perdidamente encantada por ele. Eu sonhava noites seguidas com a doce ilusão de um dia chegar a vê-lo mas sabia o quanto aquilo era impossível. Eu entendia agora a verdadeira razão de ter trocado tudo o que conhecia pelos dias que passava lendo Crepúsculo: eu amava Edward. Eu não via graça em nada mais além dele, mas não reconhecia aquilo. Agora eu o tinha bem em frente a meus olhos ainda incrédulos e teria de me conformar em perdê-lo um dia e voltar somente a imaginar como seria estar a seu lado.
Eu ainda chorava desesperadamente, sentia a dor em meu peito, a dor do que me aguardava no futuro; eu nem mesmo sabia se seria logo ou não, a qualquer momento eu poderia fechar meus olhos e voltar à minha antiga vida, mas eu queria tanto ficar com ele. Aquilo não era justo, era crueldade, sabia que nem mesmo eu que tinha errado tantas vezes merecia passar por aquilo.
- , por favor, não chore. Por favor, você não sabe como me dói te ver assim. - A voz de Edward estava quase sem vida. Ele estava triste de me ver chorando, sendo que mal me conhecia... Nada nele me ajudava a superar aquilo, porque tudo que o envolvia era mágico e perfeito.
Mas eu não tinha outra escolha, eu amava alguém que não pertencia, amava alguém que poderia ser arrancado de minha vida a qualquer instante e não tinha forças para me acostumar com aquilo.
Destravei a porta do carro e corri para a chuva que caía fortemente.
Edward estava em minha frente em apenas um segundo.
- , o que houve? - Mesmo sem poder ler meus pensamentos ele percebera o quanto eu sofria. Queria lhe dizer que era por sua causa, que era porque o amava muito, mas não podia... Não havia como lhe explicar a minha história.
- Por favor, Edward, me deixe ir enquanto ainda há tempo. - pedi entre soluços.
- Eu não posso te deixar sozinha no estado em que você está. O que aconteceu, por favor me fale! Foi algo que eu disse? Me desculpe por te magoar, . - Seu rosto estava dilacerado enquanto ele falava, seus olhos estavam vermelhos como se ele também estivesse chorando, mas eu sabia que ele não podia. - Me desculpe se lhe fiz sofrer. Eu fui egoísta e covarde, desde o começo tinha de ficar longe de você, mas não podia conviver com o medo de lhe perder. Toda minha família me disse para me afastar, mas eu não consegui, cada vez que a olhava me sentia preso à você de uma forma que eu não sabia explicar. Mas eu só tenho trazido tristeza à sua vida e isso tem que acabar. Prometo que não lhe impedirei mais de ser feliz... - ele dizia aquilo como se estivesse prestes a me deixar. Não, pensei, ele não podia me abandonar, não ainda... Sabia que agora eu estava sendo egoísta, mas não estava pronta para lhe dizer adeus ainda.
- Edward, por favor, não me deixe...
Foi a última coisa que falei e então meu corpo ficou fraco e minha cabeça começou a doer. Eu pude sentir seus braços me pegando antes que eu chegasse a atingir o chão, mas depois disso tudo desapareceu à minha volta e eu não pude mais ver sua face.
~
Acordei em meu quarto, chovia fracamente do lado de fora; a luz estava apagada, e o cômodo estava bastante escuro. Eu sentia minha cabeça um pouco dolorida, mas nada que não pudesse aguentar. Tentei me lembrar de como tinha ido parar ali, mas quando consegui me recordar desejei não ter feito.
Eu desmaiara outra vez? Já estava ficando frequente que eu fosse a donzela indefesa, não gostava daquele papel. De qualquer forma, eu me lembrava de estar na chuva com Edward e do que ele me disse pouco antes de eu ceder. Ele disse que iria se afastar de mim, e justo neste instante eu caí, não aguentei a dor e acabei ficando tonta... Droga, pensei, eu não tivera tempo de lhe pedir que desistisse daquela idéia, eu vira a decisão em seus olhos.
Eu já estava chorando novamente, nunca pensara que amar alguém pudesse ser assim tão difícil e doloroso, mas aquele era o preço que eu pagava simplesmente por ter me entregado demais à minha história preferida, era tudo culpa minha...
- Não pode continuar chorando, eu não aguento isso.
Me virei para a direção em que ouvi sua voz e percebi que ele estava ali, sentado na cadeira de balanço do quarto de Bella me observando. Edward não tinha ido embora como dissera, ainda não.
- Edward! - exclamei.
- Shhh - disse ele se aproximando da cama - você bateu forte com a cabeça se lembra? Não pode ficar se expondo a emoções muito fortes, por isto demaiou mais cedo.
- Há quanto tempo estou aqui?
- Bem, a cerca de uma hora. Me desculpe por ter entrado sem permissão, mas eu tinha que te fazer descansar...
- Tudo bem - respondi. Só continuei olhando sua face sem dizer mais nenhuma palavra, não havia nada que me fizesse mais bem que estar com ele, agora eu sabia disso e sentia em cada parte de meu ser.
Edward também me contemplava calado, seu rosto estava calmo como eu pouca vezes o via, mas seus olhos continuavam de certa forma perturbados.
- Acho melhor eu ir - disse ele por fim. - Você tem que tomar um banho e trocar suas roupas molhadas e Charlie já deve estar chegando...
Eu não queria que ele fosse, mas novamente me lembrei que aquilo era o melhor, eu tinha de me afastar dele de alguma forma. Eu estava apaixonada por uma pessoa que não me amava, por alguém que estava predestinado a ficar com outra garota e não comigo e por mais que quisesse não podia fugir daquela realidade.
- Está bem - respondi contendo as lágrimas. Eu tinha que ser forte, sabia que já estava envolvida demais, mas tinha que fugir daquilo, não me restava outra escolha. - Obrigada por ficar comigo hoje - disse tentando parecer mais calma e casual.
Edward me olhou por um instante, seus olhos sondando minha expressão e então inesperadamente ele se aproximou de mim e beijou minha testa.
- Adeus.
Foi a última coisa que disse antes de desaparecer por minha porta. Menos de um segundo depois eu já podia ouvir o barulho de seu carro lá embaixo na rua, enquanto ele se afastava de minha casa, enquanto ele se afastava de mim...
Eu agora chorava de forma lamentável e odiava isso. Não era comum que eu me rendesse à tristeza, sempre encontrava uma forma de solucionar qualquer que fosse o problema que me afligisse, mas agora me sentia totalmente perdida. Era natural, afinal quem já passou pelo que eu estava passando agora? Eu estava presa em algo que eu mesma causara, deveria ter me contido, deveria ter percebido a influência que aquela história causara sobre mim, mas agora era tarde demais para esquecer...
- Sim é - falei entre lágrimas e mais lágrimas que insistiam em molhar meu rosto e o travesseiro abaixo de mim. - É tarde demais para me envolver, mas ainda há tempo suficiente para salvar esta história e eu tenho que me focar nisto - por mais que me mate por dentro, completei em pensamentos.
Fiquei ali deitada por um tempo interminável, até que ouvi o telefone tocar.
Desci sem vontade para atender.
- Alô - disse, tentando disfarçar a tristeza em minha voz, poderia ser Charlie do outro lado da linha.
- ? Oi, é o Mike.
Demorei um segundo para responder, havia me esquecido completamente do encontro que marcara com Mike, será que já havia perdido a hora?
- Ah, oi Mike, tudo bem?
- Sim, e você?
- Bem - foi só o que consegui responder.
- , eu sei que marcamos de sair hoje, mas eu acabei ficando ocupado com algumas coisas na loja de meus pais e vou ter que cancelar, me desculpe, mas podemos ir amanhã...
Eu não poderia dizer o quanto ficara aliviada de ouvir aquilo, agora mais do que nunca eu não me sentia nenhum pouco a fim de sair e muito menos de ter que tentar parecer alegre perto de Mike.
- Está tudo bem Mike, te ligo amanhã se estiver livre okay?
- Tudo bem então, me desculpe novamente, tchau.
- Tchau - respondi e coloquei o telefone de volta no gancho.
Aquele telefonema de Mike deveria ter sido simples e insignificante para mim, mas a verdade é que me deu uma injeção de realidade da qual eu precisava. Eu também tinha de alguma forma minha vida para viver e não podia desperdiçá-la me lamentando pelos cantos. Eu já decidira o que faria, aquela história não era minha e eu não podia me esquecer disso. Não me permitiria mais pensar em Edward, iria encontrar maneiras de seguir meus dias sem ele, seria o melhor, tinha de ser o melhor...
Dei uma rápida olhada no relógio, estava quase na hora de Charlie chegar do trabalho e eu tinha que preparar seu jantar. Fiquei ocupada na cozinha o restante do tempo até sua chegada. Eu o servi e comi minha parte calada. Charlie pareceu perceber minha anormal inquietação aquela noite.
- Algo está perturbando você, não sei o que é, mas não pode perder seu tempo com tristeza, a vida é curta demais, acredite em mim .
Deveria ser algo de família, o fato de Charlie e Bella serem tão observadores como eram. Ele dissera as melhores palavras para me consolar, fiquei um pouco mais feliz de ouvi-las.
- Não vou mentir que estou bem, mas sei que não passará desta noite, obrigada por se importar Charlie. - Respondi enquanto levava meu prato para a pia.
- Espero, você é muito jovem para cultivar tristezas - resmungou ele daquele seu jeito evasivo quando se tratava de assuntos sentimentais, mas eu fiquei mais calma com o que ele dissera, sabendo que ele estava certo em suas conjecturações.
Capítulo 14 - É o certo a se fazer... não é?
Fui dormir tarde demais aquela noite, pois sabia que assim que estivesse sozinha novamente em meu quarto meus pensamentos seriam inevitávelmente apenas Edward. Não ajudava em nada que eu ficasse relembrando os minutos em que ele estivera em meu quarto, nem mesmo o beijo que ele me dera, tão doce, tão triste...
Fiquei assistindo TV com Charlie até que já estava tão tarde que meus olhos ardiam de sono. Eu tinha tomado banho e trocado a roupa de cama no intervalo que tinha enquanto o macarrão que fazia para o jantar cozinhava então assim que me deitei adormeci vencida pelo cansaço.
Eu fora tola de pensar que dormindo poderia fugir de meus sentimentos porque eles se manifestaram da maneira mais vívida em meus sonhos.
Imagens aleatórias de tudo o que presenciara desde o dia em que chegara aqui invadiam minha mente, e cada vez que uma dessas imagens era Edward, mesmo dormindo, eu me sentia sofrendo.
Acordei para uma manhã totalmente nublada, sem chuva, mas escura. Senti algo gelado em meu travesseiro e logo percebi que havia chorado enquanto dormia, molhando a fronha limpa. Eu me vi preferindo não ter coração, se isso significasse que eu não sofreria da forma que sofrera nas últimas horas.
Me levantei e olhei no relógio, ainda estava bastante cedo, mas eu não conseguiria voltar a dormir mais e nem mesmo queria, parecia que acordada eu conseguia controlar melhor minhas lembranças. Fui em direção ao banheiro disposta a tomar um banho frio que pudesse me despertar de toda as cenas melancólicas que me ainda me assaltavam.
- Você está fazendo tempestade em um copo d’água, - eu ficava repetindo para mim mesma tentando mudar o teor de meus pensamentos. Por fim eu já estava vestida e sem vontade alguma de fazer qualquer coisa.
Ouvi o barulho de panelas batendo lá embaixo na cozinha e concluí que Charlie já estava acordado. Enquanto descia as escadas não suportando mais ficar sozinha no quarto me lembrei que ele costumava ir pescar com os amigos aos finais de semana.
- Bom dia. - disse ele me observando atentamente, provavelmente tentando desvendar meu humor aquela manhã. Decidi que já o havia preocupado demais e resolvi ser o mais alegre possível em minha resposta.
- Bom dia Charlie, como está? - perguntei sorrindo.
- Bem - respondeu ele um pouco mais calmo após ouvir minha voz animada. - , eu combinei de ir à pescaria hoje com alguns colegas de trabalho, você se importa de ficar sozinha aqui? Se quiser eu posso cancelar e lhe fazer compainha - sugeriu ele.
- Não Charlie, estou bem, pode ir se divertir. - sorri para ele.
Ele continuou me observando então fui na direção da geladeira e enchi um copo com leite e tomei enquanto tentava desviar de seu olhar especulativo.
- Já tem planos para hoje? - perguntou ele tentando parecer desinteressado, mas eu sabia que ele queria mesmo era saber se eu não aprontaria nada em sua ausência. Decidi ser verdadeira em minha resposta.
- Mike Newton me convidou para ir ao cinema, eu ainda não lhe disse se iria, mas se houver algum problema eu desmarco.
- Mike Newton? Não, não há problema algum, . - Claro que não havia, eu sabia que ele conhecia muito bem os Newton - assim como conhecia todas as outras pessoas desta cidade - e que com certeza apoiaria qualquer tipo de relacionamento que eu quisesse ter com ele.
- Então acho que irei - disse enquanto terminava de tomar o leite.
- Sim, será bom pra você, vá se divertir... A que horas vocês vão a propósito? - Charlie, você não consegue fingir desinteresse nestas situações, pensei.
- Acho que por volta das sete.
- Hm está bem então.
Charlie terminara de tomar seu café e se encaminhava para a pia a fim de lavar o que sujara.
- Pode ir Charlie, eu fico com isso.
- Está bem então, obrigado.
Foi em direção da porta, pegando as coisas que precisaria para aquele dia e gritou um ‘se cuide’ enquanto saía.
Assim que Charlie saiu, me deixando sozinha e vulnerável aos meus pensamentos indesejáveis eu pensei logo em algo para fazer durante o dia, para matar o tempo e me esquecer de tudo o mais que me entristecia.
A resposta me veio imediatamente. Eu não tinha reservado nenhum tempo ainda para me concentrar nos estudos e podia fazer isto agora. Assim que terminei de lavar e guardar as louças então eu voltei para o quarto e tirei o material da mochila. Comecei pelas coisas mais simples como alguns exercícios ainda pendentes e fiquei nisso até quase a hora do almoço, porque aproveitara também para reler e estudar as matérias que havia tido na semana. Por fim já estava com meu estômago roncando de fome e desci para preparar algo para comer.
Encontrei alguns pacotes de macarrão instantâneo na dispensa e optei por um de legumes, não era o mais recomendado para se comer no almoço, mas eu não me sentia tão faminta a ponto de ter que preparar uma super refeição; se caso ficasse com fome mais tarde eu comeria alguma outra coisa.
Fiquei olhando pela janela a chuva que recomeçara a cair fininho e notando pela primeira o quanto Forks era extremamente melancólica quando queria. Tinha certeza de que se estivesse um dia de sol eu não conseguiria ficar deprimida por um minuto que fosse, pois sempre fora facilmente influenciável pelo clima ou por qualquer coisa simples como uma programa de TV bem humorado ou uma música agradável... Eu sempre fora meio alheia às coisas, antes mesmo de conhecer Crepúsculo eu poderia dizer que já não era o tipo de garota extremamente comum, apenas por me concentrar em coisas bobas.
O ruído da água já fervendo chamou minha atenção e eu terminei de preparar o macarrão rapidamente. Decidi comer na sala enquanto assistia televisão, pois não estava a fim de ter qualquer espécie de tempo livre para liberar meus pensamentos. Zapeei pelos canais sem encontrar qualquer coisa que me agradasse; a verdade era que que eu não estava com humor para assistir nada, mas acabei parando em um seriado que costumava assistir em alguns finais de semana em que estava em casa.
Depois que terminei de comer lavei tudo o que usara e subi de volta para meu quarto. Quando decidi retomar os estudos percebi que já havia revisto e resolvido tudo o que era possível, mas que ainda tinha um trabalho para entregar. Sabia que Bella deveria ter o livro que era solicitado para a pesquisa, mas ele estaria ainda em Phoenix a quilômetros daqui... Pensei então em ligar o computador e fazer o download da história, mas uma outra idéia me surgiu neste meio tempo: eu poderia ir à biblioteca. Logo me lembrei que estava sem o carro e comecei a me desanimar até olhar pela janela. A chuva havia parado e mesmo que voltasse estava fraca, eu não ficaria seca como gostaria, mas com certeza poderia ir andando até o centro que não era muito longe daqui.
Antes que desanimasse desse pensamento calcei as botas de chuva de Bella e peguei a capa que estava pendurada dentro do guarda-roupa descendo rapidamente as escadas. Pensei em deixar algum bilhete para Charlie, mas logo vi que seria bobeira, não pretendia demorar demais por lá. Saí então para o tempo nublado e fui seguindo na direção em que ia para a escola; não tinha idéia de onde poderia ficar a biblioteca, mas fui perguntando para algumas que encontrava no caminho e logo encontrei o prédio antigo e não muito bem conservado que ficava na parte mais movimentada da cidade.
Entrei e conversei com a recepcionista que estava ali e ela me disse que tinha o livro que eu queria, mas que se quisesse ter alcance a ele eu teria de fazer minha carteirinha de sócio. Bem, não tenho nada a perder, pensei enquanto lhe perguntava o que era preciso para o cadastro. Cerca de alguns minutos depois eu já estava na parte onde ficavam os livros, andando pelas fileiras à procura do autor que queria.
Fui passando os dedos pelos volumes antigos que haviam ali e acabei encontrando um que chamou minha atenção; não era o que eu precisava no momento, mas mesmo assim não pude deixar de notar o pequeno livro de aparência bastante surrada que estava escondido no meio de outros não muito mais novos que ele.
- Orgulho e Preconceito - li o nome em voz alta demonstrando minha alegria por tê-lo encontrado ali. Eu amava aquela história, era um dos livros que eu mais costumava ler, depois de Crepúsculo. Decidi que o levaria, pois ele me trouxera uma sensação familiar e isto me fazia bem. Era bom sentir de vez em quando que eu, apesar de tudo, pertencia a um lugar, ao meu outro mundo.
Depois de mais alguns minutos procurando finalmente encontrei o exemplar que queria e pude voltar para casa.
Enquanto caminhava pelas ruas pouco movimentadas percebi que Forks era mais intrigante do que eu pensava. Há pouco eu chamara a cidade de melancólica, alegando que suas sombras tiravam o bom humor de qualquer pessoa, mas agora enquanto admirava a paisagem meio rústica me sentia incontestávelmente em um lugar tão sereno e de aparência misteriosa. Fiquei feliz de perceber que eu me sentia mais calma, o bastante para sorrir interiormente com cada coisinha boba que observava pelo caminho; as gotas de chuva que ainda estavam presas nas folhas das àrvores à volta, o brilho enevoado de um dia chuvoso, o vento que às vezes me pegava de fininho...
Cheguei à casa de Charlie e mesmo que não tivesse enfrentado nenhum temporal no caminho fiquei feliz de estar naquele local quente e confortável.
Dei uma olhada rápida no relógio da cozinha antes de subir de volta a meu quarto. Eram quase três horas. Fiquei em pé ali enquanto decidia se ligaria para Mike ou não, ainda lhe devia a resposta sobre o passeio que havíamos adiado para hoje. Por fim decidi que Charlie estava certo: seria bom para mim me divertir, sair um pouco...
Subi para pegar meu caderno, eu mesma não fizera questão de anotar o número de ninguém da escola, - sabia que raramente apareceria uma ocasião em que precisasse lhes fazer uma ligação e caso aparecesse, Charlie com certeza deveria ter o número de todos ali - mas Mike e alguns outros tinham feito isto por mim. Encontrei a folha com a letra meio garranchosa dele e voltei a descer indo na direção do telefone.
Dois toques depois uma voz de mulher atendeu.
- Alô?
- Alô, por favor será que poderia falar com Mike? Aqui quem fala é .
Ouve silêncio por um breve instante do outro lado da linha e então a voz voltou a falar um pouco animada.
- Ah, claro, vou passar para ele.
Ouvi enquanto a mulher gritava o nome dele e concluí que aquela deveria ser sua mãe; menos de um minuto depois Mike já havia chegado ao telefone.
- Alô ?
- Sim, sou eu - respondi -, como está Mike?
- Bem e você?
- Um pouco animada, por isto mesmo estou te ligando, a nossa ida ao cinema ainda está de pé? - Eu estava feliz que iria respirar um pouco de ar fresco e dar mais calma à Charlie quanto ao meu estado de humor. Enquanto esperava a resposta de Mike, porém, me vi desejando ter marcado aquele passeio com uma outra pessoa, mas logo afastei aqueles pensamentos.
- Claro! - respondeu e eu podia ouvir a animação instantânea que tomou conta dele ao ouvir minhas palavras. - A que horas quer que eu passe ai?
- Bem, pode ser a mesma que marcamos para ontem? Sete estaria ótimo para mim.
- Tudo bem, te pego às sete então. Até mais! - Animado como sempre.
- Até Mike - me despedi e desliguei o telefone.
Eu não era estúpida a ponto de não perceber o interesse de Mike por mim, na verdade eu costumava ser bem alheia a este tipo de coisa, sempre me espantava quando vinha me dizer que certo garoto estava interessado em mim porque eu mesma nunca notava, mas no caso de Mike eu podia ter certeza do que ele sentia. De qualquer forma em nenhum momento eu marcara aquele encontro com segundas intenções; como já dissera, Mike era um bom amigo quando queria e se eu o convecesse de que não queria nada a mais que amizade quem sabe não poderíamos mesmo nos divertir aquela noite?
Subi novamente para meu quarto disposta a começar o trabalho que deveria ser entregue dali há alguns dias. Fiquei concentrada no que escrevia por horas e quando notei já havia escurecido. Corri para me arrumar; tomei banho e lavei meus cabelos que estavam um pouco oleosos por causa da umidade que sempre recebiam por aqui e vesti uma calça jeans de Bella que ainda não usara, um suéter rosinha e tênis. Sequei meus cabelos e resolvi usar um arquinho para prender minha franja longa.
Ouvi o barulho do carro de Charlie estacionando na entrada e desci para preparar seu jantar antes de ir. Quando viera para Forks Renée me dera dinheiro suficiente para sobreviver por um tempo e Charlie sempre deixava algumas notas em cima da mesinha do computador alegando que era seu dever cuidar de mim até mesmo naquele quesito, já que Bella também estava sob cuidado de meus pais no Brasil. Eu quase sempre tentava recusar, sem sucesso, mas dessa vez estava feliz por ter economizado assim não teria problemas com os gastos do cinema.
Charlie entrou e deixou suas coisas no hall de entrada antes de vir para a cozinha. Percebi que ele notara minha pequena produção e pude ver a sombra de um sorriso em seu rosto.
- Então Mike conseguiu convencê-la a dar umas voltas? - disse ele ainda animado pelo dia de pescaria imaginei.
Eu ri com sua maneira de dizer aquilo e me surpreendi comigo mesma, eu estava num humor melhor do que pensara.
- Pois é, não se preocupe que eu não pretendo voltar tarde, Charlie.
- Tudo bem - respondeu ele -, os Newton são boa gente.
Ficamos conversando por todo o tempo em que eu preparava e servia seu jantar, decidi não acompanhá-lo porque provavelmente iria comer fora e não queria perder meu apetite. Fomos interrompidos então pelo ruído de uma buzina que soou à frente da casa. Me despedi de Charlie lhe assegurando novamente que não pretendia aprontar nada, apenas ver um bom filme para espairecer e fui ao encontro de Mike.
Enquanto caminhava para seu carro - o qual eu não conhecia a marca, mas sabia que não era o que Bella comentava no livro, pois este era menor do que o de sua descrição - eu percebia o quão incomum aquilo era. Bella só topava sair com Mike no segundo livro e mesmo assim não ia sozinha; tentei não pensar nele como o paquerador que sempre me aborrecia e sim como o garoto divertido que às vezes era uma boa compainha para conversas.
- Olá ! - cumprimentou Mike de dentro do carro. Por um momento o fato de ele não ter saído para abrir a porta para mim me pegou de surpresa, mas depois me lembrei que os garotos atuais não costumam ter esses pequenos gestos de cavalheirismo que eu sempre observava em Edward. Droga, eu não conseguia mesmo ficar um dia inteiro sem pensar nele...
- Olá Mike - acenei e como ele não disse nada abri a porta para me sentar a seu lado.
- Animada para a noite de hoje? - perguntou ele me lançando um olhar que me deixou um pouco desconfortável. Resolvi que seria mais fácil se já abrisse o jogo agora do que quando estivéssemos longe da casa da Charlie.
- Sim, havia tempos que não saía para me divertir com um amigo, da próxima vez podemos convidar o resto do pessoal para nos acompanhar - respondi com um sorriso.
Minha resposta teve o resultado que eu esperava, o sorriso de Mike despencou um pouquinho, fiquei esperando que ele se irritasse e me mandasse sair do carro, mas sabia que era exagero de minha parte. Ele apenas mudou de assunto e eu o acompanhei com esperanças de que ele tivesse entendido minhas intenções e estivesse disposto a curtir a noite sem suas investidas embaraçosas.
Fomos para Port Angeles, eu me empenhava em sempre ter assunto para conversar no caminho de modo que não desse chance de surgir entre nós aquele silêncio desconfortável que sempre me deixava sem graça. Quando finalmente chegamos eu estava me sentindo muito bem e de uma forma que há tempos não me sentia; Port Angeles era bastante movimentada, me lembrava minha cidade e eu fiquei calma de estar ali, vendo as luzes que vinham de lojas, prédios e do estacionamento do cinema em que paramos.
- Você está muito bonita hoje - disse Mike.
Eu lhe dei um sorriso que agradecia pelo seu elogio, mas que ao mesmo tempo lhe alertava sobre a história do ‘somente amigos’.
Caminhamos em silêncio até a entrada, mas logo começamos a comentar sobre o filme que escolheríamos. A sugestão de Mike, porém, me alertou que ele ainda não entendera meu recado.
- Que tal assistirmos ‘Vidas que se encontram’? Ouvi dizer que é bastante romântico, você vai gostar... - Aham, pensei, e você também porque eu estarei toda emotiva e isso facilitaria as coisas pra você né senhor Newton?
Olhei para um outro cartaz que chamou minha atenção.
- Hm não sei, não estou a fim de chorar nem nada disso, que tal assistirmos este, ‘A ilha das cinco mortes’? Parece interessante! - Na verdade eu não achara muito convincente, parecia ser um filme daqueles de terror ruim, mas eu sabia que se pegasse algo mais pesado era capaz de Mike passar mal como eu lera em um dos capítulos do segundo livro de Meyer.
Ele pareceu hesitar, mas ao topar com meu olhar deu uma de corajoso e resolveu assistir aquele mesmo. Eu segurei a risada enquanto comprávamos as entradas e nos encaminhávamos para nossa sala.
Assim como eu pensava o filme era cheio de cenas fracas que apenas me faziam rir. Fiquei mais calma ao ver que Mike parecia bem enquanto assistíamos o longa e nós dois ríamos juntos das coisas bobas que ficavam passando na tela. Quando o filme acabou eu disse a Mike que o encontraria no carro e dei uma passada rápida no banheiro; eu já estava pronta para ir embora, mas ele insistiu em me levar para comer alguma coisa antes de irmos.
Olhei meu rosto no espelho e percebi que estava mais branca do que costumava ser. Forks me modificara em apenas uma semana... Percebi então que não eram somente físicas as diferenças, mas não estava disposta a pensar em assuntos que me entristeciam agora que estava me sentindo tão bem; Mike era um garoto e às vezes eu tinha que ser severa quanto às suas atitudes, mas fora ao todo uma noite agradável, algo de que eu precisava, pois me ajudou a esquecer o que me aborrecia.
Saí do banheiro e fui andando em direção à saída do cinema. Estava menos movimentado lá fora e eu tinha que andar um pequeno trecho até o estacionamento. Segui rapidamente pela calçada, mas algo chamou minha atenção. Olhei em volta, mas não havia ninguém ali no momento; estranho, pensei, eu tivera a nítida impressão de estar sendo seguida...
Continuei meu caminho e a mesma suspeita ainda me assaltava, de estar sendo observada enquanto caminhava. Cheguei finalmente ao estacionamento e avistei o carro de Mike há alguns metros de onde eu estava. Quase corri ao se encontro entrando rapidamente e sentando-me a seu lado.
- O que foi, você parece assustada... - comentou Mike preocupado.
- Não é nada - respondi rapidamente, tentando fugir daquele assunto. - Vamos comer? - perguntei dando-lhe um sorriso falsamente animado.
Mike pareceu se convencer e ligou o carro indo na direção de uma lanchonete ali perto. Eu olhava disfarçadamente para fora sem conseguir me livrar do pensamento que me alertava que eu não estava sozinha com Mike, eu ainda sentia alguém me observando, mas decidi que deveria estar paranóica e mandei aquela impressão para longe.
A lanchonete em que Mike me levara era de uma aparência bastante animada, estava cheia de adolescentes curtindo a noite de sábado, turistas em sua maioria, imaginei. Eu teria gostado muito do lugar, não fosse o pequeno fato de que havia vários casais espalhados pelas mesas que haviam ali. Suspirei ao me sentar com Mike sabendo que ele não escolhera aquele lugar por acaso. Eu gostava de Mike como amigo, não queria mesmo magoá-lo, mas se ele continuasse insistindo em não ouvir meus avisos eu teria de ser um pouco mais grossa com ele.
O garçom apareceu à nossa mesa e nos deu o cardápio. Escolhi uma porção de batatas fritas o que fez Mike ficar curioso.
- Não vai pedir um hamburguer ou nada do tipo? As coisas daqui são muito boas - comentou, confirmando minhas suspeitas de que ele já havia ido ali antes.
- Na verdade estou bem só com as batatinhas - respondi.
- Mesmo assim, tem certeza de que não quer lingüiça defumada de acompanhamento ou um cachorro-quente?
Não estava a fim de lhe dizer que nunca comera aquele tipo de coisa, mas parecia que seria mais fácil de ele aceitar minha escolha se soubesse de minha dieta.
- Não, está tudo bem Mike, não como nada disso, sou vegetariana - lhe disse com um breve sorriso. Esperava que ele não se impressionasse demais com aquilo, mas era uma espera vã.
- Sério?! - Exclamou ele aparentemente muito surpreso. - Uau! Quer dizer que você nunca comeu carne em sua vida toda, nem experimentou ao menos?
- Não, nunca - respondi com um suspiro, já me arrependendo de ter dito-lhe a verdade. Estava prestes a continuar o que dizia quando algo voltou a chamar minha atenção como acontecera há alguns minutos. Olhei para fora pela janela ao nosso lado, mas outra vez não avistei nada de suspeito na rua, estava perfeitamente normal para uma noite de sábado.
- O que foi? - Perguntou Mike olhando na mesma direção que eu.
Eu podia jurar que vira alguém nos observando, mas assim que me virei para olhar não havia mais nada ali. Mike já estava achando estranhas minhas atitudes então tive que acalmá-lo rapidamente.
- Nada. Eu achei que conhecesse aquela loja do outro lado da rua, mas confundi o nome - respondi casualmente esperando que ele também engolisse aquela.
Mike não parecera muito convencido, mas o assunto que discutíamos antes da pequena interrupção fora suficiente para voltar a prender sua atenção em mim.
Capítulo 15 - Em um minuto tudo pode mudar.
O tempo que passamos lanchando na movimentada lanchonete foi mais difícil de lidar do que eu pensava. De minutos em minutos Mike me lançava cantadas baratas que só me davam uma enorme vontade de rir, mas que eu respondia da maneira mais desinteressada que podia sem querer magoá-lo. Por fim ele pareceu cansado das investidas e nós começamos a falar sobre coisas banais como a escola, o clima de Forks etc.
Ao final da noite eu percebera que havia contado um pouco demais sobre mim à ele e me senti meio preocupada que ele pudesse espalhar o que eu dissera para nossos colegas, mas quis acreditar na parte de mim que me dizia que eu não era tão interessante a ponto de me tornar assunto de discussão em uma mesa de refeitório.
Pedi um sorvete antes de ir embora, pois fazia tempos que eu não tomava um. Não fora uma escolha muito inteligente levando em conta o frio que fazia lá fora, mas eu não me arrependia, estava gostoso demais para que eu resistisse.
Cada um cuidara dos próprios gastos, Mike não se oferecera para pagar minha conta, mas eu não me preocupava com aquilo. Era assim que os garotos costumavam ser e como eu já dissera não gostava de ser tratada com atenção demais, como se ficasse devendo algo a pessoa depois...
Caminhamos devagar na direção do carro ainda conversando. Eu estava tranquila, acreditava que a noite havia seguido sem muitos acidentes e que àquela altura já tinha tudo sob controle. Sem querer então quando fui fazer um gesto para explicar o que dizia à Mike acabei derrubando meu sorvete todo no chão.
- Ah não! - lamentei vendo a bagunça doce que melecava o chão. Só porque fazia séculos que eu não tomava um daqueles, pensei desanimada.
Olhei para Mike só para ver que ele estava vermelho de tanto segurar o riso. Minha expressão de desapontamento deve ter sido demais para ele porque assim que a viu ele não aguentou e soltou uma gargalhada estrondosa. Eu estava realmente chateada, fiquei nervosa de ver ele rindo, mas logo comecei a analisar a situação e ver como era realmente hilária.
Ficamos rindo por um tempo até que a graça do acontecimento foi passando aos poucos. Mike se aproximara de mim enquanto ríamos, mas eu não me importara porque estava ocupada demais aproveitando o som de minha risada, havia tempos que não me divertia daquela maneira. Então assim que recobrei o fôlego e levantei a cabeça para olhá-lo vi que ele me analisava com uma expressão estranha. Não entendia sua feição e assim que estava prestes a abrir a boca para lhe dizer que estava ficando sem graça com aquilo ele agiu. Foi rápido demais para que eu sequer pudesse evitar, Mike se aproximou de mim e me beijou, segurando meu rosto contra o dele.
Eu ficara tão surpresa com sua atitude que mal soubera o que fazer, levantei minhas mãos para empurrá-lo para longe de mim e neste minuto um barulho ensurdecedor soou de algum lugar perto de nós assustando a ambos. Parecia algo metálico sendo lançado com muita força contra uma parede... Mike me soltou no mesmo minuto encarando o lugar de onde viera o ruído. Eu também me exaltara, mas estava nervosa demais com Mike para sequer me dignar a prestar atenção no que havia acontecido.
- Mike, o que foi isso?! - exclamei quase explodindo de raiva.
- Ahn? - Ele voltou o olhar para meu rosto ainda assustado com o barulho que nos surpreendera.
- Porque você fez isso? A noite inteira eu tentei lhe dizer da maneira mais educada possível que este era um passeio entre amigos e quando estava tudo correndo muito bem você vem e estraga com suas investidas intermináveis! - Eu gesticulava enquanto falava com ele, estava realmente aborrecida e irritada com sua atitude e Mike apenas me encarava confuso.
- Eu pensei que você quisesse... - começou ele, o rosto sem revelar um pingo de arrependimento. Aquilo era demais para mim, como podia ser tão tapado? Ou tão cara-de-pau a ponto de ignorar todos os meus alertas?
- Ah, me poupe Mike! - ralhei com ele e sem saber exatamente o que estava fazendo comecei a me afastar indo na direção em que o som ensurdecedor viera há alguns minutos.
- , aonde você vai? - perguntou ele enquanto eu me afastava, mas eu sequer me preocupei em responder, estava irada demais para isso. - ! - berrou ele quando eu já alcançara uma boa distância do lugar em que ele estava.
- ME DEIXE EM PAZ, MIKE! - gritei olhando para trás pela última vez antes de virar a esquina e o perder de vista.
Continuei andando decidida, cada passo parecia querer rachar o chão de tão nervosa que eu me sentia. Apenas alguns minutos depois, porém, foi que me dei conta que exagerara um pouco em minha revolta. Eu estava sozinha, no meio de uma cidade que mal conhecia e sem carona para voltar pra casa. Tentei raciocinar enquanto continuava andando sem rumo pelas ruas quase vazias agora. Pensei em ligar para Charlie, mas não queria ter um motivo para que ele me proíbisse de sair novamente ou para lhe preocupar àquela hora, decidi por fim que o melhor a fazer era procurar um ponto de táxi; movimentada como era aquela cidade, com certeza deveria haver algum por ali.
Estava prestes a me virar para voltar para a área mais movimentada de Port Angeles à procura do que queria quando ouvi o barulho de pneus acelerando no asfalto e pude avistar os faróis muito claros de um carro que se aproximava rapidamente em minha direção. Ignorei, pensando que poderia ser alguém querendo bancar o dono da rua ou apenas uma pessoa que poderia estar com muita pressa e continuei meu caminho - agora na direção contrária - até que o carro parou suavemente ao meu lado, me surpreendendo.
Olhei na direção do veículo, por um segundo realmente espantada e cogitando se deveria sair correndo caso fosse algum maluco, mas logo reconheci a cor e o modelo do carro ao meu lado.
Fiquei sem fala então ao olhar para o banco do motorista e ver Edward me encarando com um olhar mau-humorado. O que diabos ele estava fazendo ali?
Pensei por um minuto e decidi que o melhor a fazer era ignorá-lo, se fosse falar com ele agora acabaria descontando minha ira na pessoa errada. Continuei andando rapidamente esperando que ele entendesse minha atitude e fosse embora; por alguns segundos não ouvi barulho nenhum perto de mim, mas logo seu Volvo estava ao meu lado novamente me acompanhando enquanto eu voltava pela rua.
- Entre no carro - ordenou ele com uma voz firme.
Eu me virei exasperada para olhá-lo.
- O que? Não vou entrar em lugar algum Edward, vou pegar um táxi para ir embora, não se preocupe.
Ele continuava imperturbável.
- Não vai encontrar nenhum que seja de confiança à essa hora.
- Não importa, darei um jeito de voltar pra casa. - respondi enquanto acelerava o passo. A rua à nossa volta estava completamente vazia, todos os comércios que se viam ali já haviam fechado suas portas, deveria mesmo ser bem tarde.
Ouvi o barulho do carro acelerando e observei enquanto ele avançava pela rua, sumindo de vista. Achava que Edward fosse mais difícil de convencer e percebi que geralmente ele era, quando o assunto envolvia Bella e não à mim...
Continuei voltando indo na direção da lanchonete que havia ido com Mike a fim de pedir alguma informação para os atendentes. Pelo canto do olho pude ver que estava passando em frente a um beco escuro, mas não liguei, continuando meu caminho, até que senti alguém me puxando para lá rapidamente.
- O que...? - comecei a dizer, mas me calei ao ver seus olhos dourados me fitando. - Pensei que você tivesse ido embora - comentei indiferente.
Edward continuava com a expressão de poucos amigos e eu não entendia o porquê.
- Não iria deixar você aqui sozinha como aparentemente foi o que aquele imbecil do Newton fez! Do jeito que você é seria capaz de aceitar a carona de um estranho só para não ter que admitir que não teria como ir embora; já que não iria vir comigo por vontade própria tive que vir buscá-la, mas sem chamar a atenção - disse ele friamente.
- Eu sei me cuidar, Edward - respondi tentando manter o mesmo nível de raiva que ele, eu realmente ainda estava bastante exasperada pelo que Mike fizera e agora ele vinha querendo me repreender? Isto não daria certo. Foi então que me foquei no que ele falara e uma suspeita surgiu em minha mente - Espera, o que você está fazendo aqui em Port Angeles? - perguntei desconfiada.
Ele me encarou por um segundo e então se virou, adentrando o beco; fiquei olhando ele se afastar enquanto decidia se deveria segui-lo ou não, mas por fim minha curiosidade venceu.
- Não vai me dizer o que fazia aqui sozinho e à noite? - perguntei me esforçando para ficar a seu lado, ele andava rápido demais.
- Porque você não me diz primeiro - sugeriu ele de maneira sarcástica.
Eu tinha uma leve desconfiança de que ele estivesse ali por minha causa, isto explicaria as sensações que eu sentira mais cedo de alguém me seguindo e observando, mas queria fazê-lo confessar.
- Eu não tenho o que esconder, fui ao cinema com Mike - não estava a fim de dizer que preferiria não ter vindo nunca e que se o encontrasse em minha frente novamente era capaz de arrancar sua língua; não iria confessar à Edward que o encontro havia sido um desastre.
- Hm - foi só o que ele disse.
Eu não podia ver sua expressão como queria com ele andando decidido daquela forma, mas sabia que ele ainda estava nervoso, só não entendia a razão.
- O que foi Edward, porque está emburrado assim, foi algo que eu fiz? - Eu não me lembrava de tê-lo ofendido, a última vez em que havíamos nos visto fora ele que me deixara sozinha desaparecendo daquele seu jeito surpreendente. Se alguém tivesse que estar com raiva essa pessoa era eu.
- Acho que você anda fazendo um punhado de coisas ultimamente, mas a vida é sua não é mesmo? Aproveite-a da forma que quiser.
O que? Não entendia bulhufas do que ele queria dizer com aquilo e já estava ficando realmente irritada. Corri para alcançá-lo e segurei seu braço com força. Mesmo por cima do suéter que ele usava eu podia sentir seus músculos definidos, mas ele se desvencilhou de meu aperto bruscamente como se tivesse levado um choque quando o toquei.
- Quer parar de ficar falando dessa forma enigmática eu não estou entendendo nada do que você diz Edward, me explique! - exigi com firmeza.
Ele parou e me fitou antes de responder. Seu olhar de repente ficou feroz, eu podia ver que ele estava mesmo com muita raiva e não pude deixar de me encolher um pouco com isso.
- Eu não preciso lhe explicar nada, não sou eu quem a namora... - foi só o que ele disse antes de voltar a andar da forma como antes.
Eu continuei parada onde estava tentando interpretar suas palavras; demorou tempo suficiente para que ele estivesse tão longe que eu mal conseguia enxergá-lo naquele local escuro, mas finalmente compreendi a razão de sua raiva e não podia acreditar que realmente fosse aquilo que eu pensava. Edward falara de Mike várias vezes e de um jeito tão depreciativo; ele realmente nos observara em nosso encontro, ele vira o momento em que Mike me beijara e... fora ele quem lançara aquela lixeira ao encontro da parede enquanto eu tentava me desvencilhar do aperto de Mike? Edward estava com cíumes de mim?
A idéia era absurda demais para que eu gastasse mais tempo nela. Um barulho estranho de algo se movendo perto do lugar onde eu estava me despertou de meus devaneios e eu percebi que estava sozinha ali, não conseguia mais avistar Edward. Recomecei a andar, querendo sair logo dali e na pressa acabei tropeçando em alguma coisa jogada no chão. Ia caindo de joelhos quando coloquei as mãos na frente do corpo para amortecer a queda e desejei não tê-lo feito. Senti a dor latejante subir por meu braço direito quando alguma coisa pontiaguda fez um corte fundo em minha pele fazendo o sangue jorrar e ensopar a manga do suéter que usava.
- Droga - murmurei enquanto tentava me levantar com dificuldade.
Ouvi então o barulho de passos e percebi Edward há apenas alguns centímetros de mim. A lua lançava uma fraca luz sobre o lugar onde estávamos e eu pude ver assustada a expressão feroz em seu rosto e o desejo explícito em seus olhos; a sede.
- Edward - sussurrei. - Saia daqui, vá embora... - lhe pedi. Eu podia ver a força com que ele lutava contra seus instintos e não queria vê-lo sofrer. - Vá embora Edward! - gritei.
Senti minha cabeça girar com o esforço, a dor da ferida me tirava o fôlego, ardendo por baixo de minha roupa. Eu me apoei na parede suja a meu lado para que não caísse e no mesmo segundo Edward estava a meu lado, me firmando.
- Não, Edward, não faça isso, vá embora - eu tentava ignorar sem sucesso a dor lascinante em meu braço.
Ele não falou nada, apenas me pegou nos braços e só o que pude sentir em seguida foi o vento passando rapidamente por nós enquanto ele corria; quando chegamos a seu carro ele abriu a porta com dificuldade e percebi que era porque estava se controlando para não perder a concentração e me fazer algum mal. Me doía demais vê-lo desse jeito. Edward poderia ter me deixado ali sozinha, mas ele abriu mão de todo cuidado para que eu ficasse segura...
Ele se agachou ao meu lado perto do banco do carro e colocou as mãos na frente do rosto, para que eu não pudesse vê-lo.
- Edward - eu disse, tentando fazer com que ele parasse com aquilo. Puxei suas mãos com o braço que não estava machucado, mas mal consegui fazer com que ele se movesse. - Por favor, não se esconda de mim - pedi com a voz entrecortada.
- Você não sabe - disse ele com a voz abafada - como é ser um ser tão desprezível como sou, mesmo agora eu ainda não consigo ter total controle sobre mim, uma parte obscura de meu ser - a parte mais repugnante - tem sede... sede pelo seu sangue. - Seu tom era tenso, eu via o quanto ele sacrificava de si mesmo para estar ali comigo. - E eu cheguei a cogitar me render à essa parte...
Eu compreendia devagar o que ele queria dizer com aquilo. Agora mesmo ele estava tentando se conter por isso evitava olhar para mim; eu senti um arrepio ao perceber que a qualquer momento poderia ser tarde demais para mim, mas no fundo eu não parecia me importar. Não que eu fosse suicida nem nada disso, mas sabia que se quisesse ficar a salvo teria de ficar longe dele e mal podia pensar naquilo...
Por outro lado, ele sofria por minha causa. Não era justo com Edward, ele se envolvera com Bella e abrira mão de toda sua existência apenas para ficar ao lado dela; fora o ato de amor mais lindo que eu jamais presenciei, mas eu entendia seu lado. Ele a amava e se a machucasse nunca poderia conviver consigo mesmo, mas não havia porque Edward sofrer daquela forma comigo, eu podia me afastar dele se aquilo significasse que ele fosse ficar em paz.
- Edward, me deixe ligar para Charlie, ele pode vir me buscar e você ficará livre dessa agonia que causo em você - pedi. Eu apertava meu braço com força contra meu corpo, tentando estancar o sangue para amenizar o cheiro, mas sabia que não estava funcionando. A dor que eu sentia de volta era excruciante, mas eu não me preocupei em reclamar, eu aguentaria aquilo por Edward porque sabia que de alguma forma a dor que ele enfrentava era muito pior.
Eu respirava rapidamente tentando ocupar minha cabeça com coisas banais que me fizessem ignorar o latejar em meu braço. Edward finalmente levantou a cabeça e seus olhos encontraram os meus. Ele me encarou por um momento interminável e algo em minha expressão o fez mudar a dele para a feição de pedra que costumava habitar seu rosto quando ele estava comigo. Eu tive um pressentimento ruim ao fitar seus olhos dourados, mas ele os desviou antes que eu pudesse ler a decisão por trás deles.
Edward fechou a porta do carona então e em menos de um segundo já estava no banco do motorista, dando a partida no motor do carro.
- Pra onde estamos indo? - perguntei com a voz fraca, estava mais difícil de ignorar a dor com o carro em movimento e eu perdera muito sangue, começava a me sentir tonta.
- Vou levá-la ao hospital local - respondeu ele com a voz fria.
Ele estava perturbado com algo, mas eu sabia que não era exatamente de mim que ele tinha raiva. Mesmo assim não suportava falar com aquele Edward que não demonstrava emoção qualquer em seu olhar. Eu pensei em lhe perguntar o que havia acontecido para de repente ele ter ficado tão distante, mas só o que queria fazer era tentar descansar. Eu observava as luzes da rua passarem rapidamente por nós e em algum momento daquele exercício acabei cedendo ao torpor.
Capítulo 16 - Adeus.
Eu podia ouvir aos poucos os ruídos que vinham de fora de minha cabeça. Pessoas conversando, aparelhos zunindo, mas assim como da última vez que estivera em uma situação assim não conseguia abrir os olhos. Eu estava feliz para falar a verdade, por estar naquele estado alheio à tudo, porque não sentia mais a dor que me torturara tanto enquanto estava acordada. Aos poucos tudo foi ficando quieto à minha volta, imaginei que tivessem se passado vários minutos desde que eu percebera que estava mais consciente.
Percebi então no silêncio que não notara um som baixo que vinha de algum lugar perto de mim. Parecia alguém respirando, eu estava cansada demais para abrir meus olhos e ver quem era, mas senti um toque frio em minha pele e não precisei de confirmação maior que esta. Edward estava ali comigo mais uma vez enquanto eu me recuperava de outro incidente. Eu não precisava de remédio nenhum, de intervenção nenhuma quando o sentia assim tão perto de mim... Doía que eu não pudesse lhe dizer a influência que ele causava em minha vida, que eu não pudesse lhe falar que cada dia que era obrigada a passar ali só era válido quando eu passava a seu lado, mesmo que ele ignorasse minha presença.
Mas o que eu ganhara escondendo meus sentimentos? Já era a segunda vez que me acidentava fazendo com que ele fosse obrigado a cuidar de mim, uma hora ele poderia se cansar de bancar o super-herói e simplesmente se afastar de mim... E eu teria de conviver com a angústia de nunca ter lhe dito o quanto o amava, o quanto o amara antes mesmo de chegar a conhecê-lo pessoalmente.
Por alguma razão eu agora sentia uma necessidade inexplicável de me livrar de todo aquele peso que ofuscava meus dias em Forks. Edward estava perto o suficiente para que eu pudesse sentir o toque suave de sua pele contra minha, para que eu aspirasse a fragância que parecia contagiar o ar em volta dele, e ainda assim uma distância colossal nos separava...
Forcei meus olhos a se abrirem e vagarosamente pude focar seu rosto enquanto ele me observava calado. Estávamos em outro quarto de hospital que eu novamente não reconhecia, mas não me importei com aquilo.
Eu fiquei calada lhe observando e de repente pude sentir as lágrimas caindo devagar por meus olhos. Eu percebi naquele momento que não importava que Edward não me amasse de volta, eu já me sentia a pessoa mais feliz do mundo por ter passado os momentos que passara com ele; não ligava que minha confissão pudesse afastá-lo, pois eu levaria pra sempre sua lembrança viva da forma mais linda em minha memória e a certeza irrevogável de ter me apaixonado pelo ser mais inexplicável e perfeito que já conhecera.
Eu ainda sabia, porém, que amava a única pessoa que não podia ter e aquilo me mataria por dentro a cada dia que fosse obrigada a viver sem ele...
Pensei que o estivesse aborrecendo novamente com meu choro silencioso, mas enquanto me olhava Edward sorriu para mim da forma mais doce e encantadora que eu poderia imaginar.
- Pensei que você fosse dormir para sempre, mas não me importaria de ficar anos aqui a seu lado esperando o momento em que você resolvesse acordar porque é somente quando você me olha que eu consigo me sentir vivo...
O olhei por um curto segundo após ele ter dito aquilo e então pude sentir meu coração começando a bater aceleradamente em meu peito enquanto eu revirava suas palavras em minha cabeça.
- Edward, o que...? - comecei a perguntar o que ele queria exatamente dizer com aquilo, mas ele me interrompeu colocando o dedo indicador com leveza em cima de meus lábios.
- Eu tenho sido evasivo quando estou com você e vejo a dor em seus olhos por pensar que é sua culpa que eu me sinta sempre tão distante. , eu tentei, pelo tempo que pude, ficar o mais longe possível de você, mas falhei em todas as vezes, porque o que eu realmente queria era estar a seu lado. Me desculpe por ter sido tão frio e indiferente, mas fora a maneira que encontrei para tentar conter meus sentimentos. Eu lutei dia após dia desde que lhe vi pela primeira vez, lutei para manter meus pensamentos alheios à você, para manter um espaço seguro entre nós, mas - ele se aproximou de mim olhando fundo em meus olhos e eu só conseguia ficar calada enquanto suas palavras invadiam meus pensamentos - eu estou cansado disso...
Ele passou a mão macia e fria com cuidado pela pele de meu pescoço antes de continuar.
- Sou uma criatura fraca o bastante para me render ao destino e estou aqui agora à sua frente lhe confessando da maneira que posso que estou apaixonado por você. - A voz dele foi se tornando um sussurro urgente à medida que ele falava comigo. - Me perdoe por não ter lhe dito antes e lhe poupado de passar momentos tão agoniantes comigo, mas eu agora percebo o quanto fora inútil de minha parte tentar me afastar, meu coração mesmo morto só conseguia enxergar um fio de esperança quando você estava por perto e eu apenas ignorava o que sentia, me perdoe, por ser tão fraco, me perdoe por não conseguir mais fugir...
Edward sustentava meu olhar inexpressivo com cuidado. Eu o fitava sem conseguir dizer uma só palavra. Eu sentia meu coração batendo com tanta força em meu peito que quase doía. Aos poucos assimilava cada uma de suas frases e podia perceber a mudança irreversível que causavam em mim. Edward me amava. Todo esse tempo em que eu me condenara por gostar de alguém que não me pertencia eu não tivera como perceber que o sentimento entre nós ficava forte e difícil de lidar até mesmo para ele e agora tinha a certeza de que não fora a única que sofrera por se entregar aos poucos a um amor tão impossível.
As lágrimas continuavam a molhar meu rosto e eu lutava contra elas querendo ver sua face na luz fraca que iluminava o quarto.
- Edward - sussurrei seu nome enquanto levantava a mão para tocar seu rosto há poucos centímetros do meu. Assim que o fiz me arrependi, era a mão que eu machucara e as ataduras que cobriam o longo corte estavam sujas pelo sangue que ainda escapava. Edward fechou os olhos e se afastou de mim prendendo a respiração.
Eu tive ódio de mim mesma por mais uma vez tê-lo distanciado de mim.
Estava prestes a lhe pedir desculpas quando ele abriu os olhos e pude ver que eles estavam vazios... quando falou Edward tinha na voz um tom morto que não expressava qualquer emoção.
- Eu não sou bom pra você, , nem nunca serei. Nunca poderia conviver comigo mesmo se a ferisse e em tão pouco tempo já estive muito perto de fazer isso inúmeras vezes. Enquanto a observava dormir tão frágil, tão pura como você é eu tomei minha decisão.
- Decisão? Como assim Edward, o que quer dizer com isso? - comecei a sentir um medo que me tirou o fôlego, a suspeita do que aquilo significava começava a surgir devagar no fundo de minha mente.
Ele sorriu, mas seus olhos continuavam com a mesma expressão fria.
- Não podia, porém, conviver com o fato de nunca ter chegado a lhe dizer o que sinto e agora estou mais calmo por saber que você pode entender minhas atitudes, mesmo que nunca chegue a perdoá-las - Edward fez uma longa pausa enquanto acariciava devagar a parte boa de meu braço, eu sentia um arrepio em cada centímetro que ele tocava prevendo o que viria a seguir. - Eu vou embora, - completou ele sem ousar me encarar - para que você possa seguir sua vida em segurança e sem minha interferência - completou ele.
Eu senti todo o ar ser sugado de meus pulmões, minha cabeça girou ao ouvir suas palavras e elas fizeram um rasgo em meu peito me tirando o a única coisa que eu mais queria na vida.
- O quê? - gritei com ele, não podia me conter, não podia deixá-lo pensar que aquilo era o melhor a fazer. Eu suportaria que Edward não me amasse contando que ainda pudesse vê-lo todos os dias na escola e pudesse apenas desejar que fôssemos felizes juntos, mas não admitiria que ele fosse para longe de mim. - Não pode Edward, não pode fazer isso, você está exagerando, eu nunca me machuquei por sua causa, a única pessoa que foi culpada pelas vezes em que me acidentei fui eu mesma, não pode querer se responsabilizar por isso, não pode... - eu chorava enquanto atropelava as palavras tentando fazer com que ele ficasse comigo, mas nada do que dizia parecia mudar sua opinião.
- Shhh - disse ele tentando me acalmar. - Não pode se exaltar dessa maneira, não faz bem a você.
- Não me importo, não ligo para a dor, não ligo para nada, Edward você tem que ficar comigo! - lhe pedi com a voz embargada.
Ele me olhou por mais um imensurável momento me fazendo ficar calma apenas por estar admirando seu rosto; pensei que ele estivesse ponderando, considerando minhas palavras, mas estava enganada.
- É o melhor para você , me desculpe.
Ele então se aproximou de mim e me beijou pela primeira vez.
Eu fechei meus olhos, sentindo todas as minhas forças serem entregues à ele, sentindo todo o universo preso apenas por aquele segundo em que seus lábios tocaram os meus e então, cedo demais, ele se foi, sussurrando um último ‘adeus’ antes que eu sequer pudesse voltar a abrir meus olhos.
Eu fiquei ali sozinha sentindo o vazio que ele deixara com sua partida. Ele se foi e eu nem mesmo tive chance de lhe dizer o que sentia...
Como fora cega de não ter percebido seus sentimentos antes, pensei, entre lágrimas. Em um segundo eu fui a pessoa mais feliz do mundo e logo depois meu céu desabou sobre mim. Meu Deus porque não poderia ser mais fácil?
Eu ficara imensamente feliz ao ouvir ele dizer que me amava, mas agora que a escuridão daquele pequeno cômodo se curvava sobre mim eu podia ver o quão errado aquilo era. Edward não podia me amar. Eu nunca pensara que essa hipótese fosse sequer possível, mas ela só significava que eu falhara ao tentar colocar aquela história nos eixos. Era a Bella que ele amava, ela era seu grande amor, era com ela que ele deveria passar o resto da eternidade. E eu modificara toda sua história.
Minhas lágrimas continuavam a cair, mas agora eu podia sentir a raiva crescendo em meu peito. Eu destruira a mais linda história de amor que já conhecera, eu interferira em um destino que não era meu.
- Mas eu o amo - sussurrei sentindo a dor em meu peito.
Aquilo era verdade, era a minha verdade. Eu amava Edward e agora sabia que meus sentimentos por ele eram profundos demais para serem esquecidos. Porque aquilo estava acontecendo comigo?
Eu percebia agora o preço alto que estava sendo obrigada a pagar em troca daquela fantasia tão inacreditável que vivia. Tantas pessoas ao redor do mundo desejariam ter a chance que eu tinha, mas elas mal desconfiavam que não fosse nada fácil lidar com aquilo.
Porque Edward tinha de ser tão perfeito do jeito que era? Ele se fora porque era altruísta o suficiente para sacrificar sua felicidade à favor de minha segurança, o que eu faria agora sem ele?
Eu não compreendia o significado de tudo o que acontecera comigo, será que eu fora mandada ali apenas para sofrer? Não, não podia ser, não era justo...
Eu percebi então que se não voltasse a ver Edward era isso que seria de meus dias: apenas tristeza. Eu não via significado em passar mais um minuto que fosse naquela universo sem a sua presença, mas o que eu faria então? Tudo o que eu mais queria era dizer a ele o que sentia, mas sabia que se fizesse aquilo mudaria para sempre o rumo da história e seria odiada por anos pelos fãs de Crepúsculo. Como eu poderia conviver com o pensamento de que estava roubando o amor de Bella enquanto ela passava seus dias em presa em minha vida sem nem mesmo imaginar o que havia para ela aqui?
Olhei desanimada para o relógio na parede à minha frente. Ele dizia que já eram quase seis horas da manhã. Eu me sentia sonolenta enquanto pensava, mas sabia que aquilo era apenas o desespero e o cansaço pelas emoções que tomavam conta de mim. Aos poucos enquanto chorava comecei a entrar na inconsciência e não lutei para ficar acordada...
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Eu pensava que ali em meu inconsciente fosse estar livre da dor, mas ela apenas se manifestou como sempre fazia em meus sonhos.
Sonhei que estava em vários lugares diferentes: na escola, em meu quarto na casa de Charlie, sentada perto das árvores naquele lugar em que Edward me levara quando quis que eu lhe dissesse a verdade... Mas em cada cena eu estava sozinha olhando o vazio que ele deixou por não estar comigo. E eu sofria, sofria como nunca sofrera na vida quando percebia que era apenas eu e meu coração que batia sem vontade na sua ausência.
Abri os olhos e olhei o quarto em volta. Vazio.
Eu não saíra dali ainda, mas já sentia o gosto da solidão sem Edward. Eu suportara a chuva, a saudade, o medo e a ansiedade enquanto estive aqui simplesmente porque sabia que quando o via tudo ao meu redor perdia a importância. Como era quando eu lia Crepúsculo e me sentia tão perto dele que me esquecia completamente de meus problemas. Mas não queria e não iria viver ali se não tivesse a chance de ao menos poder vê-lo, mesmo que fosse de longe, mesmo que tivéssemos de ficar separados, porque Edward era meu sol particular naquela vida sem sentido que eu presenciava agora.
Eu ainda estava presa ao fato de saber que ali não era meu lugar e sabia a dor que teria de aguentar agora, mas traria Edward de volta, ele estaria aqui esperando por Bella quando o destino resolvesse colocar as coisas no lugar...
A porta foi aberta e eu pude ver a cabeça de Charlie adentrando o quarto enquanto ele provavelmente viera ver como eu estava. Imaginei que a notícia de meu acidente não fosse demorar mesmo para chegar a seus ouvidos. Charlie sorriu ao ver que eu estava acordada.
- , está se sentindo bem?
Olhei para ele ainda perdida em meus pensamentos e ponderei antes de responder sua pergunta. Eu não estava bem, faltava o essencial para que eu estivesse bem, mas fisicamente eu já me sentia melhor. Percebi que não queria mais ficar ali, eu não ficaria deitada numa cama estúpida me fazendo de vítima enquanto Edward estava sabe-se lá onde se martirizando apenas por existir; minha cabeça estava a mil, mas me concentrei em manter minha expressão serena ao responder Charlie.
- Sim Charlie, estou. Quando poderei ir embora? Não quero mais ficar aqui... - pedi.
- Bem, vou falar com sua enfermeira, mas acho que não tem mais nada que você possa fazer aqui - disse ele com outro sorriso e saiu fechando a porta ao passar.
Respirei fundo. Eu nunca deveria ter deixado Edward ir, mas ignorei aquele pensamento. Eu tinha que ser forte agora e não podia me lamentar...
Percebi com uma pontada de surpresa como conseguira fazer com que a história do primeiro livro ficasse tão parecida com a do segundo, mas foi exatamente isso que me deu forças. Eu ainda me lembrava muito bem de tudo, eu não era Bella e não estava pensando que Edward tinha ido embora porque não me amava. Justamente o contrário, eu sabia que ele fora embora porque queria que eu ficasse bem e se era somente esta a razão eu não perderia nenhum segundo que fosse até que conseguisse encontrá-lo. Eu nem mesmo poderia cogitar ficar sem ele ou tentar reviver a dor de Bella porque somente este pensamento me tirava o fôlego. Ela sofreu quando Edward a deixou, mas somente porque ele a fizera pensar que era indesejável, que o amor deles havia acabado. Mas eu tinha a chance que Bella não tivera e sabia que se ela estivesse em meu lugar também não haveria forte em céu o terra que a impedissem de voltar a encontrá-lo.
Charlie voltou alguns minutos depois acompanhado de um médico. Ele me explicou rapidamente que eu estava ali porque caíra e me machucara gravemente. Fiquei surpresa ao perceber que Edward não inventara uma desculpa para o acontecido, mas imaginei que ele estivesse tão decepcionado consigo mesmo que só o que queria era que a culpa fosse colocada inteiramente nele. Como eu o odiava às vezes por ser tão bom - e também o amava por isso, entre tantas outras razões.
Fui aconselhada a descansar quando chegasse em casa e me alimentasse bem para que meu corpo voltasse a seu funcionamento normal. Eu perdera algum sangue e recebera uma pequena transfusão, mas tinha que fazer minha parte. Assenti com a cabeça enquanto médico falava, fingindo estar ouvindo suas recomendações para que pudesse sair logo dali. Estava impaciente para acabar logo com aquela ansiedade que sempre me assaltava quando não Edward não estava comigo.
Finalmente então eu estava na viatura com Charlie voltando à Forks e me senti mais calma e até mesmo feliz por estar a caminho do que eu agora conhecia como minha casa.
Capítulo 17 - O seu lugar é comigo.
Eu olhava a paisagem que passava rapidamente por nós enquanto Charlie dirigia e percebia a diferença notável entre esta e a última vez que viera de Port Angeles à Forks com ele.
Tanta coisa mudara em apenas uma semana.
Eu passara da fase em que pensava estar louca para o momento em que percebi que tudo fazia mais sentido do que eu poderia sequer desconfiar. Eu conhecera e me encantara com cada um dos personagens de meu livro favorito, eu os vira de perto, percebera eu mesma sua forma de pensar e agir... E eu finalmente conhecera Edward. Não podia negar que ele era a parte mais doce de minha vida, a pessoa que eu mais sonhara em poder tocar.
Agora eu estava tão envolvida nesse universo que já podia sentir sua influência pesada sobre mim, mas eu ainda era a mesma e eu nunca fora de conviver com a tristeza.
Era uma questão de tempo para que eu encontrasse Edward e o trouxesse de volta. Percebi que aquilo não seria fácil, havia um milhão de lugares em que ele poderia se esconder de mim, eu não sabia nem mesmo se ele sairia de Forks.
Então percebi algo que me deixou aterrorizada e eu não prestava mais atenção à paisagem, aos fatos ou nada disso, apenas em meu pensamento assolador. Edward dissera que iria embora, mas ele ousaria fazer com que sua família o seguisse para que assim eu realmente nunca pudesse chegar a encontrá-lo? Mas aquilo era loucura. Eu ainda não conversara com nenhum de seus irmãos, não tivera a oportunidade de me apegar à eles da maneira que sabia que me apagaria assim que tivesse a chance de conhecê-los então Edward não teria porque impor sua família a uma mudança tão drástica.
Eu comecei a respirar mais rápido desejando chegar logo à Forks, mesmo que ainda não fizesse a menor idéia de onde começar.
Charlie provavelmente interpretou minha expressão de angústia como dor pela ferida ou alguma coisa assim.
- Como está seu braço? - perguntou ele.
- Muito bem, não se preocupe comigo Charlie, por favor, eu estou bem. - Na verdade meu braço ardia muito, mas eu não iria fazer um drama por aquilo, tinha coisas mais urgentes com que me preocupar.
- Você tem sorte de que Edward pareça estar sempre com você quando algo ruim lhe acontece, porque ele não perde tempo em trazê-la para o hospital.
Mesmo que eu dissesse para mim mesma que Edward me deixara por razões bobas e que soubesse que faria todo o possível para encontrá-lo era difícil para mim pensar nele.
- Sim - foi apenas o que conseguir respondi para que Charlie não percebesse a tristeza em minha voz.
Ele me olhou de esguela antes de continuar com a conversa e eu percebi que ele estava medindo meu estado antes de vir com algo mais sério.
- , não posso deixar de perguntar: porque foi Edward quem lhe trouxe ao hospital se o seu encontro foi com o Mike Newton?
Ih, droga. Pensei que Charlie já tivesse sido enganado sobre aquilo, mas ao que parecia eu teria que inventar uma ótima explicação. Olhei para a frente enquanto pensava e notei que não havia porque mentir. Charlie já parecia ter esperanças que eu tivesse algum relacionamento com Mike, seria mais fácil se ele soubesse que essa hipótese sempre esteve completamente fora de meus planos.
Contei a ele tudo o que acontecera - exceto a parte de Edward ter ficado nos observando enquanto andávamos por Port Angeles, disse-lhe apenas que encontrara com ele depois que fugira de Mike - e pude ver a expressão severa de Charlie enquanto ele me ouvia. Tentei ser o menos dramática possível em minha história, apesar de tudo não queria causar problemas à Mike e Charlie discursou como eu nunca vira sobre os cuidados que eu tinha de tomar quando o assunto era ‘garotos’.
Finalmente então chegamos à placa de boas-vindas de Forks e eu me vi novamente ansiosa pelo que iria começar a enfrentar agora.
Em menos de minutos eu já estava de volta à casa de Charlie. Ele me disse que dormira no hospital e que não se sentia muito cansado e me perguntou se eu me importava de ficar sozinha novamente, porque ele marcara de ir à pescaria hoje de novo.
- Não Charlie, fique sossegado, eu pretendo descansar a maior parte do dia - menti.
Não me agradava ter que esconder a verdade dele, mas sabia que ele não concordaria com o fato de que eu não pretendia ficar em casa como deveria.
Depois que entramos eu preparei o café da manhã - com vários protestos de Charlie me dizendo que eu não precisava fazer aquilo, mas a verdade é que não me sentia cansada para voltar a dormir - e fiquei esperando calmamente enquanto Charlie comia. Depois que terminou ele me ajudou a lavar e guardar as louças e finalmente saiu para se encontrar com seus colegas.
Assim que ouvi o barulho do carro de Charlie se afastando eu senti o peso da realidade voltando a cair sobre mim. Era mais difícil ignorar tudo o que acontecera quando eu estava ali sozinha.
Me sentei na cadeira mais próxima de mim deixando que as ondas de culpa e preocupação tomassem conta de mim por um tempo enquanto tentava encontrar uma pequena inspiração para começar a agir.
- Está bem - falei tentando colocar meus pensamentos em ordem. - como posso saber para onde Edward foi?
Senti então algo puxando minha pele e levantei o braço machucado. Era a fita que segurava o esparadrapo, estava quase arrancando meus pelos. Tirei-a dali e a recoloquei com cuidado reclamando por um momento pelo fato de o médico de Port Angeles não ser tão delicado quanto Carlisle fora comigo na última vez que eu me acidentara.
E então a centelha de inspiração que eu procurava surgiu como uma luz em minha cabeça. Como não pensara nisso antes? Se Edward tinha mesmo saído de Forks não poderia ter feito isso sem antes avisar sua família; e eles teriam de me dizer onde ele estava, por mais que ele tivesse lhes dito para não fazê-lo.
Refleti por um instante. Inicialmente eu pensara em ir até o hospital falar com Carlisle, mas era domingo e eu não tinha certeza de que ele estivesse trabalhando hoje; também não queria perder tempo com viagens desnecessárias então só havia um lugar onde eu podia encontrar os Cullen...
Subi as escadas rapidamente disposta a tomar um banho rápido. Se ia encontrar um bando de vampiros não era aconselhável que eu ainda estivesse com meu suéter coberto de sangue. Eu colocaria uma roupa fechada esperando que fosse suficiente para, ao menos, diminuir o cheiro e depois partiria.
Enquanto me arrumava tentava me lembrar de cada detalhe que pudesse me ajudar a encontrar a casa dos Cullen, sabendo que seria algo bastante difícil. Recorri à lista telefônica e por sorte ou por qualquer outra coisa, lá estava o endereço deles. Marquei num papel e saí comendo uma barra de granola enquanto ia para a picape.
Assim que chegara do hospital com Charlie e avistei o carro ele me disse que o mesmo havia chegado na véspera enquanto eu estava fora.
Eu estava particularmente feliz de ter a picape novamente à minha disposição sabendo que agora mais do que nunca eu precisaria dela tanto para andar pela cidade quanto para ir para a escola no dia seguinte.
Dei a partida no motor que me fez pular com o barulho, mas não perdi tempo me recompondo, arranquei, indo na direção do centro da cidade.
Eu me recordava de Bella prestando atenção no caminho que levava para a casa de Edward e pensei estar no caminho certo quando passei por uma ponte e continuei seguindo para o norte. Essa, porém, era a parte fácil. O que me preocupava era encontrar o pequeno desvio que me levaria à grande mansão dos Cullen.
Dirigia com calma, prestando atenção em cada entrada da floresta, mas todas pareciam ser pequenas demais para uma estrada. Alguns consideráveis minutos então eu pude avistar uma pequena clareira na beira da estrada que dava para um caminho não pavimentado. Diminuí e virei ali, esperando que fosse a direção certa.
Eu tive que dirigir com ainda mais cuidado porque o caminho era completamente ladeado pelas árvores da floresta e eu conseguia ver apenas alguns metros à frente enquanto a estrada serpenteava sem fim.
Eu não conseguia deixar de ficar nervosa sempre que pensava no que estava disposta a fazer, afinal, sabia que os Cullen não eram acostumados a receber visitas e talvez não ficassem nada felizes com a presença de uma humana que mal conheciam em sua casa. Já estava começando a achar que estava no caminho errado quando olhei para o lado por entre as árvores para um brilho fraco que chamou minha atenção e pude perceber que parecia ser uma construção bastante escondida no meio da floresta. Eu encontrara a casa de Edward e isso me deixou muito feliz, mas foi uma felicidade instantânea, pois logo a ansiedade e a tristeza tomaram conta de mim novamente.
Quando finalmente cheguei perto o bastante para que pudesse ver totalmente a construção não pude deixar de ficar maravilhada.
Era enorme, é claro, como Bella mesmo tantas vezes já comentara. E linda... nunca vira algo parecido. Esme realmente levava jeito para reformas, mesmo que tivesse cem anos de idade, a casa era atemporal, com um leve ar de mistério. Nada que combinasse mais com eles, pensei.
Desliguei o motor da caminhonete e hesitei por alguns segundos. Eu estava tão nervosa que sentia minhas mãos tremerem, mas então enquanto pensava que a idéia era uma completa loucura o rosto de Edward apareceu em meus pensamentos, glorioso e de tirar o fôlego como ele sempre era e eu percebi que tinha coragem suficiente para enfrentar quantos vampiros fossem só para conseguir ver sua face de novo.
Saí do carro ainda um pouco hesitante e comecei a andar pelo gramado bem cuidado. Vários passos a frente eu alcancei a entrada da casa e caminhei devagar, medindo cada movimento até chegar à porta principal.
Respirei fundo e bati duas vezes na madeira de aparência grossa anunciando formalmente minha chegada já que sabia que se houvesse alguém ali, a minha presença já teria sido notada há vários minutos atrás.
Eu não ouvi barulho nenhum vindo do outro lado da porta então me exaltei um pouco quando ela foi aberta e longos cabelos loiros apareceram à minha frente.
Rosalie.
Era incrível, com tantas pessoas que moravam ali porque eu tinha que dar de cara justamente com a última pessoa que desejava conhecer?
Eu a olhei quieta por um instante, comprovando o quanto era realmente bonita, mas não tinha tempo para me emocionar por estar vendo mais um dos personagens tão de perto. Quis respirar fundo, mas sabia que aquilo apenas demonstraria ainda mais a insegurança que eu estava sentindo pela forma como ela me olhava.
- Ahn, por favor, Edward está? - que bela idiotice. Eu não soubera o que dizer, dava para ver na cara de Rosalie que ela não estava nada feliz de que eu estivesse ali, como poderia sequer contar com sua ajuda para encontrar seu irmão então? Provavelmente ela deve ter sido a primeira a ficar feliz com a decisão de Edward, já que nunca concordara com seu relacionamento com Bella e imagino muito menos com o meu.
- Não. - foi só o que ela respondeu com sua voz melodiosa e musical, mas bastante fria.
Eu vacilei. O que faria agora? Iria embora derrotada e tentaria abordar Carlisle ou qualquer outro mais tarde? Não, por mais que temesse que Rosalie pudesse estar nervosa o bastante para me machucar eu não me renderia dessa forma.
- Já imaginava - murmurei. - Por favor, pode me dizer aonde ele foi?
- Meu irmão saiu da cidade e não disse para onde ia, não imagino que vá voltar tão cedo - respondeu ela com indiferença.
Sua loira aguada e convencida, pensei com raiva. Eu gostava muito de Rosalie, como costumava gostar de todos os outros personagens da história, até os mais insuportáveis, mas não podia negar que ela era bastante difícil de lidar. Por um fugaz momento me senti feliz que Edward a culpasse pelo seu quase suícidio quando ele vai à Volterra no segundo livro, ela precisava mesmo de alguém que lhe dissesse para ser mais compreensiva com as pessoas.
Ela ainda me olhava como se eu fosse uma espécie de intrusa atrapalhando sua vida, mas eu ignorei suas palavras.
- Eu preciso falar com ele, Edward foi embora por minha culpa... - lhe disse quase suplicando para que ela pudesse ter um pingo de compaixão que lhe restasse e cooperasse comigo, mas logo percebi que não abalara em nada sua resolução.
- Sinto muito, o que Edward faz de sua vida é somente de seu próprio interesse e de sua família, seja qual for a razão que te trouxe até nossa casa para nos importunar eu sei que não é relevante suficiente para que a faça voltar aqui. - disse ela e fechou a porta na minha cara quase me acertando com a madeira escura.
Eu já lera várias coisas ultrajantes sobre Rosalie, mas nunca sentira tanta raiva dela na vida.
Ainda bem que você tem o que merece em Lua Nova sua garota egoísta e irritante, pensei desanimada enquanto me virava para ir embora.
Voltei para a picape, mas não a liguei enquanto ainda olhava a grande casa branca. Por que nenhum outro Cullen aparecera? Será que nenhum deles estava a fim de ter que lidar comigo e por isso mandaram a única pessoa capaz de expulsar qualquer um para nunca mais voltar? Ou será que só havia Rosalie ali?
Estava refletindo sobre isso, olhando para um ponto qualquer da mansão, quando inesperadamente um vulto de cabelos pretos surgiu ao lado de minha janela. Me virei assustada e me deparei com Alice me encarando. Ela sorriu assim que nossos olhares se encontraram.
- Olá ! - me cumprimentou enquanto abria a porta da picape sem nem mesmo pedir minha permissão e me dava um abraço apertado. - Já estava na hora de você aparecer, cheguei a achar que minha visão estava errada - comentou ela animadamente enquanto me puxava para fora da picape.
Eu estava em choque com sua atitude. Alice falava comigo normalmente como se fôssemos colegas de longa data.
Me senti uma tola enquanto a olhava; estava tão ansiosa com a visita inesperada que iria lhes fazer que me esquecera que, com Alice por perto, raramente os Cullen eram pegos de surpresa.
Alice devia ter visto o que eu pretendia no mesmo momento em que me decidira e sabia que era uma questão de tempo para que eu aparecesse em sua casa.
Mas porque então ela deixara sua irmã me recepcionar? Será que Alice não sabia da aversão que Rosalie tinha por mim?
Foi a própria Alice quem me respondeu.
- Me desculpe por Rose - disse ela -, eu ouvi o que vocês conversavam e mesmo não concordando com a forma pouco amigável que ela costuma tratar algumas pessoas achei melhor não lhe dar mais uma razão para nos aborrecer mais tarde e decidi vir falar com você aqui.
Alice então pegou minha mão e começou a me puxar de volta para a casa. Mesmo sabendo o que Alice era, eu não pude deixar de me surpreender com a proximidade que ela mantinha comigo. Não me incomodava, só estava surpresa que ela pudesse ser ainda mais esperta e simpática do que eu pensava.
Enquanto andávamos eu falei então pela primeira vez desde que a vira, mais calma agora, depois de sua abordagem inesperada.
- Alice, não acho que eu deva voltar - comecei a dizer, mas ela chacoalhou a mão livre fazendo sinal para que eu não me preocupasse.
- Está tudo bem, Carlisle e Esme já estão em casa, Rosalie se comporta melhor quando está perto deles. Estávamos em uma excursão de caça quando vi que você resolveu nos visitar e vim a seu encontro o mais rápido que pude - explicou ela.
Saber que toda a família estava ali esperando por mim não me deixou mais calma. Tinha certeza que Alice fora a mais fácil de lidar, porque mesmo que tivesse insegurança sobre algo ela sempre conseguia avistar o futuro e saber da verdade.
Mas e quanto aos demais Cullen? Como poderia saber sua opinião sobre a partida de Edward? E se eles de algum modo pensassem o mesmo que Rosalie? Que eu era apenas uma intrusa e que suas atitudes não eram de minha conta?
Não fosse a dor que eu sentia a cada minuto que sabia que Edward tinha ido embora por minha causa - e a enorme vontade que eu tinha de revê-lo - eu duvidada muito que teria continuado a seguir Alice enquanto ela me conduzia ao encontro de sua família.
Me surpreendi, porém, quando ela parou logo quando estávamos em frente à porta que a pouco Rosalie fechara contra mim.
Uma brisa leve movimentava o ar em volta da casa e eu senti um arrepio quando percebi que tipo de fragrância deveria ter sido levada à Alice. Ela segurava justamente meu braço machucado, deixando-o ainda mais perto de seu olfato aguçado.
Alice se voltou devagar para mim, eu tremi com seu movimento prevendo que o pior pudesse acontecer, mas ela sorriu ao ver minha expressão.
- Você tem mesmo um cheiro delicioso - disse. Eu congelei onde estava, mas Alice riu. - Mas tenho bastante tempo de prática para que acabe atacando-a sem pensar, então fique calma.
Eu sorri de volta, tentando demonstrar alguma serenidade, mas a verdade era que ela me fizera ficar ainda mais ansiosa para encontrar os cinco vampiros que nos aguardavam lá dentro.
Não tive tempo para me acalmar. Alice abriu a porta em seguida e me rebocou junto com ela.
Estavam todos ali como eu temia, nos esperando na grande sala de estar. Eu fiquei impressionada com a elegância do lugar, era espetacular. Eu já lera sobre a grande casa dos Cullen, mas estar dentro dela era uma experiência surreal.
Deixei meus devaneios de lado ao perceber que todos me olhavam esperando alguma reação minha.
Eu sorri, meio sem graça.
- Ahn, oi - levantei a mão acenando minimamente.
A maioria deles respondeu, houveram alguns ‘olás’ e sorrisos tão sem graça quanto deveria estar o meu; apenas Rosalie não demonstrou nada em resposta, a não ser talvez, mais desprezo.
Se eu pudesse escolher como teria sido aquele momento, definitivamente Edward estaria ali segurando minha mão, mas fiquei feliz que Alice fizesse isso.
- Bem, não temos tempo para ficar aqui com essas expressões embaraçosas, vamos logo ao que interessa. - disse ela se virando para me olhar - diga a eles porque está aqui.
Eu fiquei surpresa com sua investida e hesitei um pouco tentando escolher as palavras.
- É, eu, ahn... - não sabia o que falar, estava nervosa de ter todos eles me encarando daquela maneira.
Alice apertou minha mão suavemente tentando me acalmar. Eu estava feliz que ela parecesse estar me apoiando, mas ainda estranhava sua intimidade comigo, não conseguia manter o mesmo nível de calma que ela expressava.
Rosalie finalmente se expressou.
- Estão vendo? Ela nem sabe a que veio, só está querendo nos fazer perder nosso tempo!
Eu a olhei com raiva, Rosalie parecia que pedia para que eu a odiasse. Mas Carlisle interviu antes que eu pudesse dizer a ela algo de que me arrependesse.
- Rose, tenha calma, ela está nervosa, tenho certeza de que tem algo importante para nos dizer ou não teria ocupado seu tempo vindo até nós.
Ele me olhou e sorriu me encorajando.
Eu respirei fundo e falei rapidamente.
- Eu preciso saber onde Edward está, ele foi embora por minha causa e tenho que trazê-lo de volta.
Esme foi quem primeiro deu sua opinião.
- Não se culpe, querida. Edward tinha as razões dele, mas também não gosto que ele fique longe de casa - falou com doçura. Eu sorri para ela que retribuiu o gesto. Pude ver o quanto Esme amava o filho, sua expressão estava contida, mas havia amargura em seus olhos.
- Sim - disse Alice -, Edward é bastante cabeça-dura, não tinha porque ele se afastar daqui, eu lhe disse inúmeras vezes que ele não faria mal à , mas ele tem sempre que bancar o herói.
Alice não parecia preocupada, apenas entediada com a atitude do irmão. Fiquei calma ao ver sua expressão, pois sabia que se a partida de Edward tivesse sido algo muito grave ela com certeza já teria descoberto.
- Você sabe onde ele está afinal? - Emmett entrou na conversa. Sua voz era bastante grave, combinava perfeitamente com seu físico assustador.
- Você sabe que não - respondeu Alice. - Ele não é bobo, está em algum lugar escuro e quieto demais para que eu descubra - resmungou ela.
- Tipo uma caverna? - perguntou Emmett. - Tomara que haja ursos lá e que estejam atazanando ele o tempo todo.
A gargalhada de Emmett trovejou pela sala. Eu me encolhi um pouco com o som estrondoso, mas logo me recompus.
- Não - respondeu Alice. - Não há nada lá, nada que possa servir de pista para que eu o encontre. Edward vai ouvir umas boas quando voltar pra cá, ele sabe o quanto odeio não saber o que está acontecendo - grunhiu ela.
- Bem - falou Jasper, sua voz era calma e enquanto ele se expressava uma onda de serenidade se apoderou de mim. Seu dom era mais sutil e surpreendente do que eu imaginara - não ajuda muito que ele não possa ouvir seus pensamentos - fiquei surpresa ao ver que ele estava falando comigo -, se você foi a razão para ele ter ido, inevitávelmente também deve ser a única capaz de trazê-lo de volta.
As palavras de Jasper foram as que mais pareceram ter sentido em meio à toda a incerteza que atingia todos na casa, inclusive eu.
Assenti vagamente para ele, sentindo novamente raiva de mim mesma por tê-lo deixado ir.
Alice soltou minha mão por um instante e foi se colocar ao lado do parceiro. Ficou junto dele por alguns segundos e logo voltou para meu lado.
- Pelo que vejo, Edward não está muito feliz consigo mesmo. Nunca algo o influenciara tanto quanto você, . Eu sei que deve ser difícil para você, mas só o que nos resta é esperar que ele deixe transparecer alguma pista de onde pode estar - falou ela, pela primeira vez um pouco desanimada.
Não era aquilo que eu queria ouvir, não acreditava que minha viagem até ali acabara não fazendo quase nenhuma diferença em minha situação.
Fechei os olhos por um instante e desejei mais do que nunca que Edward pudesse ler meus pensamentos, mesmo sabendo que era impossível, porque se tivesse a chance de falar com ele agora só havia uma coisa que eu iria lhe dizer, sem pensar em mais nada que pudesse estar entre nós: ‘o seu lugar é comigo’.
CONTINUA...
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