Prólogo
O vento estava tão gélido que fazia com que os pelos não parassem de arrepiar-se e rostos corarem. Não havia mais uma folha em qualquer árvore por toda a cidade, o que trazia um ar ainda mais melancólico para o momento. O outono foi embora, dando lugar ao escuro e frio inverno.
Alguns preferem o calor que o verão traz e com ele inúmeros piqueniques e parques repletos de pessoas indo e vindo, enquantos outros preferem o inverno, com pessoas agasalhadas, casais abraçados tentando se aquecer e flocos de neve grudados em todos os lugares possíveis.
Enquanto a primavera traz consigo doces aromas das incontáveis tipos de flores, pólen e tudo aquilo que a estação nos traz, o outono é marcado pelas cores laranja e marrom das folhas e flores que banham o chão.
Apesar da noite álgida, muitos veículos trafegavam de um lado para o outro, pessoas apressadas percorriam calçadas e ruas em direção aos seus destinos. O inverno mal chegara e já trazia as consequências para a cidade: acidente de carro, ponte interditada e trânsito congestionado.
Era um dia atípico na cidade e o clima não favorecia em nada. O fluxo de carros e pessoas estavam ao extremo e com certeza atrasaria o evento.
respirava fundo enquanto sorria. Apesar da maioria ter uma aversão ao inverno, gostava. Achava que tudo ficava mais favorável, já que o seu humor dependia disso e naquele momento seu humor estava extremamente agradável. Sentia que nada e nem ninguém tinha poder de mudar isso.
A música que tocava na rádio naquele momento era uma das favoritas do rapaz, que sorriu largamente. Até isso deixava seu humor mais mavioso. Encostou a cabeça no vidro do carro e observou a paisagem enquanto apreciava a música.
Após o término da música, lembrou que não havia avisado sobre seu atraso ao pai e então, tirou o celular do bolso e avisou.
No mesmo minuto, seu celular vibrou e era uma resposta do pai que dizia que não tinha problema desde que o atraso não fosse demais. Guardou o celular no bolso e voltou a contemplar a paisagem.
não entendia o porquê de tamanha importância que seu pai deu ao jantar que teriam naquela noite. Apesar de não ser nenhuma novidade, pois sua vida inteira foi marcada por jantares importantes com políticos e pessoas da realeza, não sendo nada surpreendente para o homem. Contudo, seu pai deu certa ênfase a esse em especial, porém não revelou quem estaria nesse jantar e muito menos qual seria o assunto.
Não seria a primeira vez que o pai fazia isso, pois o homem era carregado de mistério que nem mesmo sua mãe entendia bem, mas que apenas concordava. Quase sempre não revelava antes seus assuntos, entretanto sempre avisava quem seriam os convidados para que a família estivesse preparada e recebesse bem. Isso fez estranhar, mas seu pai disse que ele precisava confiar. E o rapaz confiava. Confiava cegamente, pois sabia que suas decisões e atos sempre eram os mais corretos e justos possíveis.
O rapaz havia perguntado à mãe a respeito do jantar e principalmente quem seriam os convidados, porém ela disse que não sabia. Isso o fez estranhar ainda mais, pois sua mãe não conseguia mentir e certamente estava naquele momento e o homem queria saber o porquê. Tentou de todas as formas para que a mais velha revelasse, contudo todas suas tentativas foram frustradas, só restou esperar que o motivo fosse revelado.
Olhou no relógio e percebeu que estava na hora. Voltou seu olhar para a janela do carro e notou que estava se aproximando de casa, fazendo o homem suspirar em alívio. ”Certamente chegarei em menos de dez minutos”, pensou o jovem. O trânsito naquela região começou a fluir melhor e mais uma vez, sorriu. Tudo estava conspirando a seu favor.
Como o cálculo mental que ele havia feito, realmente chegara em menos de dez minutos. Despediu-se do motorista e logo passou pela imensa porta de entrada. Seus ouvidos foram tomados por vários sons: uma música agradável ecoava baixo no ambiente, passos e mais passos e algumas vozes. Um dos empregados foi em sua direção e avisou que estavam à sua espera na principal sala de jantar. Franziu a testa. Só usavam esse cômodo casos extremamente especiais. Deu de ombros e caminhou até o local indicado anteriormente.
Começou a ouvir algumas vozes, algumas conhecidas por ele, como a de seus pais e sua irmã mais nova, Sophia, porém outras não conseguiu reconhecer. Quando chegou à porta, cumprimentou o porta-voz e esperou ser anunciado, entrando logo em seguida.
Na enorme mesa estavam sentados seis pessoas: seus pais e sua irmã no lado esquerdo; e outras três pessoas no lado direito. Endireitou o corpo e falou:
– Boa noite a todos. Peço perdão pelo atraso. – inclinou a cabeça rapidamente, em um gesto de perdão. O homem à frente sorriu. Passou os olhos rapidamente pelas pessoas ainda estranhas e sentou-se. Havia uma mulher e um homem mais velhos, provavelmente tendo a idade parecida de seus pais, e também uma jovem. Seu olhar pousou nela, analisando-a. A bela dama tinha cabelos que pareciam sedosos apenas ao olhar, olhos marcantes e lábios carnudos, que agora traziam um leve sorriso tímido. “Com certeza era muito linda aos olhos de qualquer pessoa”, pensou o rapaz.
– Tudo bem, filho. O importante é que não demorou. – o pai voltou os olhos para os convidados e continuou: – Alexander, esse aqui é meu querido filho , mas podem chamá-lo de . – o jovem moveu a cabeça rapidamente em direção ao pai. Jamais chamava-o de na frente de outras pessoas. Um calafrio percorreu rapidamente em sua espinha.
– Um rapaz muito educado, William. - respondeu o homem.
– Filho, esses são Alexander , sua esposa Amelia e sua adorável filha, . Alexander é rei de Lorien.
– Um prazer inenarrável conhecê-los, majestade. – respondeu .
– Não precisa me tratar assim, meu jovem. Afinal, somos quase uma família agora. – disse o rei de Lorien.
– Como assim? – O jovem perguntou sem entender.
– , esse jantar é um jantar especial, de noivado. – respondeu o rei.
– Não entendi, pai.
– Esse é o jantar do seu noivado, filho. – antes que o rapaz falasse, o mais velho continuou: – é sua noiva.
Alguns preferem o calor que o verão traz e com ele inúmeros piqueniques e parques repletos de pessoas indo e vindo, enquantos outros preferem o inverno, com pessoas agasalhadas, casais abraçados tentando se aquecer e flocos de neve grudados em todos os lugares possíveis.
Enquanto a primavera traz consigo doces aromas das incontáveis tipos de flores, pólen e tudo aquilo que a estação nos traz, o outono é marcado pelas cores laranja e marrom das folhas e flores que banham o chão.
Apesar da noite álgida, muitos veículos trafegavam de um lado para o outro, pessoas apressadas percorriam calçadas e ruas em direção aos seus destinos. O inverno mal chegara e já trazia as consequências para a cidade: acidente de carro, ponte interditada e trânsito congestionado.
Era um dia atípico na cidade e o clima não favorecia em nada. O fluxo de carros e pessoas estavam ao extremo e com certeza atrasaria o evento.
respirava fundo enquanto sorria. Apesar da maioria ter uma aversão ao inverno, gostava. Achava que tudo ficava mais favorável, já que o seu humor dependia disso e naquele momento seu humor estava extremamente agradável. Sentia que nada e nem ninguém tinha poder de mudar isso.
A música que tocava na rádio naquele momento era uma das favoritas do rapaz, que sorriu largamente. Até isso deixava seu humor mais mavioso. Encostou a cabeça no vidro do carro e observou a paisagem enquanto apreciava a música.
Após o término da música, lembrou que não havia avisado sobre seu atraso ao pai e então, tirou o celular do bolso e avisou.
No mesmo minuto, seu celular vibrou e era uma resposta do pai que dizia que não tinha problema desde que o atraso não fosse demais. Guardou o celular no bolso e voltou a contemplar a paisagem.
não entendia o porquê de tamanha importância que seu pai deu ao jantar que teriam naquela noite. Apesar de não ser nenhuma novidade, pois sua vida inteira foi marcada por jantares importantes com políticos e pessoas da realeza, não sendo nada surpreendente para o homem. Contudo, seu pai deu certa ênfase a esse em especial, porém não revelou quem estaria nesse jantar e muito menos qual seria o assunto.
Não seria a primeira vez que o pai fazia isso, pois o homem era carregado de mistério que nem mesmo sua mãe entendia bem, mas que apenas concordava. Quase sempre não revelava antes seus assuntos, entretanto sempre avisava quem seriam os convidados para que a família estivesse preparada e recebesse bem. Isso fez estranhar, mas seu pai disse que ele precisava confiar. E o rapaz confiava. Confiava cegamente, pois sabia que suas decisões e atos sempre eram os mais corretos e justos possíveis.
O rapaz havia perguntado à mãe a respeito do jantar e principalmente quem seriam os convidados, porém ela disse que não sabia. Isso o fez estranhar ainda mais, pois sua mãe não conseguia mentir e certamente estava naquele momento e o homem queria saber o porquê. Tentou de todas as formas para que a mais velha revelasse, contudo todas suas tentativas foram frustradas, só restou esperar que o motivo fosse revelado.
Olhou no relógio e percebeu que estava na hora. Voltou seu olhar para a janela do carro e notou que estava se aproximando de casa, fazendo o homem suspirar em alívio. ”Certamente chegarei em menos de dez minutos”, pensou o jovem. O trânsito naquela região começou a fluir melhor e mais uma vez, sorriu. Tudo estava conspirando a seu favor.
Como o cálculo mental que ele havia feito, realmente chegara em menos de dez minutos. Despediu-se do motorista e logo passou pela imensa porta de entrada. Seus ouvidos foram tomados por vários sons: uma música agradável ecoava baixo no ambiente, passos e mais passos e algumas vozes. Um dos empregados foi em sua direção e avisou que estavam à sua espera na principal sala de jantar. Franziu a testa. Só usavam esse cômodo casos extremamente especiais. Deu de ombros e caminhou até o local indicado anteriormente.
Começou a ouvir algumas vozes, algumas conhecidas por ele, como a de seus pais e sua irmã mais nova, Sophia, porém outras não conseguiu reconhecer. Quando chegou à porta, cumprimentou o porta-voz e esperou ser anunciado, entrando logo em seguida.
Na enorme mesa estavam sentados seis pessoas: seus pais e sua irmã no lado esquerdo; e outras três pessoas no lado direito. Endireitou o corpo e falou:
– Boa noite a todos. Peço perdão pelo atraso. – inclinou a cabeça rapidamente, em um gesto de perdão. O homem à frente sorriu. Passou os olhos rapidamente pelas pessoas ainda estranhas e sentou-se. Havia uma mulher e um homem mais velhos, provavelmente tendo a idade parecida de seus pais, e também uma jovem. Seu olhar pousou nela, analisando-a. A bela dama tinha cabelos que pareciam sedosos apenas ao olhar, olhos marcantes e lábios carnudos, que agora traziam um leve sorriso tímido. “Com certeza era muito linda aos olhos de qualquer pessoa”, pensou o rapaz.
– Tudo bem, filho. O importante é que não demorou. – o pai voltou os olhos para os convidados e continuou: – Alexander, esse aqui é meu querido filho , mas podem chamá-lo de . – o jovem moveu a cabeça rapidamente em direção ao pai. Jamais chamava-o de na frente de outras pessoas. Um calafrio percorreu rapidamente em sua espinha.
– Um rapaz muito educado, William. - respondeu o homem.
– Filho, esses são Alexander , sua esposa Amelia e sua adorável filha, . Alexander é rei de Lorien.
– Um prazer inenarrável conhecê-los, majestade. – respondeu .
– Não precisa me tratar assim, meu jovem. Afinal, somos quase uma família agora. – disse o rei de Lorien.
– Como assim? – O jovem perguntou sem entender.
– , esse jantar é um jantar especial, de noivado. – respondeu o rei.
– Não entendi, pai.
– Esse é o jantar do seu noivado, filho. – antes que o rapaz falasse, o mais velho continuou: – é sua noiva.
Capítulo Um: O Destino Selado
A chuva tamborilava contra as janelas do palácio de Lorien, lançando sombras tremeluzentes pelo salão iluminado apenas pelo fogo bruxuleante na lareira. O cheiro de madeira queimando misturava-se ao aroma dos lírios frescos dispostos em vasos de porcelana, um perfume normalmente reconfortante para . Mas, naquele momento, ela mal o notava.
Seus dedos estavam crispados ao redor da capa dura do livro que repousava em seu colo, as páginas esquecidas diante das palavras que ecoavam em sua mente. Palavras que haviam acabado de sair da boca de seu pai, o rei Alexander .
— Você será prometida a , príncipe herdeiro de Eldoria.
O choque percorreu seu corpo como um raio.
— Você quer que eu faça o quê? — A voz de saiu mais alta do que ela pretendia, carregada de incredulidade e pavor. Algo que jamais aconteceu, pois sempre falava de maneira doce e tranquila.
Ela sabia que, como princesa, seu casamento poderia ser decidido por interesses políticos. Sempre soube. Mas, no fundo, havia nutrido a esperança de que seu pai, apesar de rígido e pragmático, ao menos lhe concedesse a chance de escolher entre algumas opções, de conhecer a pessoa antes de ter sua vida vinculada a ela para sempre.
E seu pai havia dito que ela não iria casar tão cedo e que, se ela se apaixonasse por alguém até chegar o momento propício para casar, então ela poderia ter a chance de escolher e casar por amor.
Em vez disso, seu destino havia sido selado sem sequer uma consulta.
O rei suspirou pesadamente, como se já previsse aquela reação.
— Isso não é sobre você, . É sobre nosso reino, sobre o futuro de Lorien.
Aquelas palavras fizeram algo dentro dela se partir.
Não era sobre ela. Nunca era.
Seu dever. Sua responsabilidade. Seu papel como princesa. Toda sua vida havia girado em torno desses conceitos, dessas obrigações inescapáveis. Desde criança, aprendera que sua felicidade era um luxo secundário diante das necessidades do reino. Mas se casar com um completo estranho — não, pior, com — era uma sentença cruel demais para aceitar sem resistência.
Ela se levantou, largando o livro no sofá sem se importar quando ele escorregou para o chão.
— Isso é um erro. — Seus olhos, geralmente doces, agora faiscavam de frustração. — Eu nunca sequer falei com esse homem, e agora você quer que eu passe o resto da minha vida ao lado dele?
Ela já ouvira histórias sobre . O príncipe herdeiro de Eldoria, famoso por desafiar a realeza, desprezar os protocolos e agir como se seu título fosse um fardo insuportável. Um homem que fazia questão de mostrar ao mundo que não queria ser rei.
E agora, ele seria seu marido?
Seu coração batia forte, como se tentasse escapar da gaiola que acabava de se fechar ao seu redor.
— O tratado já foi assinado. O casamento acontecerá dentro de um mês.
Um mês.
sentiu um nó apertar sua garganta. Em um mês, ela deixaria tudo para trás. Sua casa. Seu povo. Sua liberdade.
Seu destino já estava escrito, e não importava o quanto protestasse, não havia escapatória.
Engolindo a bile que ameaçava subir, ela perguntou:
— E … ele sabe disso?
O rei hesitou por um breve momento antes de responder:
— Ele foi informado hoje.
Então, ele também havia sido obrigado.
Por um instante, imaginou a reação dele. Frustração? Raiva? Ou apenas indiferença?
De repente, um pensamento a atingiu como um golpe no estômago. Se ele já tivesse alguém? Se houvesse uma mulher que ele amasse, alguém que agora precisaria abandonar por causa desse casamento?
Um casamento arranjado já era ruim o suficiente, mas ser forçada a casar com alguém que talvez a odiasse antes mesmo de conhecê-la tornava tudo ainda pior.
— Ele concordou? — Ela perguntou, embora já soubesse a resposta.
O olhar de seu pai era impassível.
— Ele não tem escolha. Assim como você.
A indignação fervia em seu peito, mas sabia que era inútil continuar discutindo. Seu pai tomava decisões como quem move peças em um tabuleiro de xadrez — friamente, estrategicamente. Para ele, ela não era uma filha, mas um instrumento para fortalecer Lorien.
Ela respirou fundo, tentando controlar a tempestade dentro de si. Seu coração gritava em protesto, mas sua mente sabia que não adiantava insistir.
Quando voltou a falar, sua voz saiu baixa, mas firme:
— Então, que seja. Eu amo o senhor. Mas eu juro a você, pai… Eu nunca vou esquecer que fui forçada a isso.
E, sem esperar por uma resposta, virou-se e saiu do salão, sentindo o peso de um destino que não escolhera esmagar seus ombros.
Naquele momento, ela soube.
Sua vida nunca mais seria a mesma.
●●●
O estalo seco da porta se fechando ecoou pelo grande salão do Palácio de Eldoria, mas mal percebeu. Seu sangue fervia, as palavras de seu pai ainda reverberando em sua mente como uma sentença de morte.
— Isso é uma piada, certo? — Sua voz saiu ríspida, carregada de incredulidade e fúria contida.
O rei William não demonstrou qualquer emoção. Sentado em seu trono de ébano, com a postura impecável e a coroa reluzindo sob a luz do imenso lustre de cristal, ele encarava o filho como se estivesse diante de um mero subordinado, não do próprio herdeiro.
— Não há nada de engraçado nisso, . O tratado já foi assinado. Você se casará com dentro de um mês.
A bile subiu à garganta de , e ele cerrou os punhos ao lado do corpo.
— E em que momento eu fui consultado sobre isso?
Seu pai arqueou uma sobrancelha, como se a pergunta fosse absurda.
— Você não foi.
soltou uma risada amarga. Claro que não. Como se sua opinião importasse. Como se sua vida não fosse nada além de um peão em um jogo que nunca quis jogar.
— Isso é ridículo! — Ele deu um passo à frente, a raiva pulsando em suas veias. — Você quer que eu case com uma mulher que eu nunca vi na vida? Com uma princesa que provavelmente é tão submissa às vontades do pai quanto você quer que eu seja às suas?
O rei franziu o cenho, finalmente demonstrando impaciência.
— Controle-se, . Você é o príncipe herdeiro. Seu casamento fortalecerá Eldoria e garantirá que nossa aliança com Lorien seja inquebrável.
balançou a cabeça, incapaz de acreditar no que estava ouvindo.
— Ah, claro. Porque o poder de Eldoria é tudo o que importa, não é? Dane-se o que eu quero. Dane-se o que quer. O que importa é o maldito trono.
— Exatamente. — A resposta do rei veio sem hesitação, gélida e intransigente.
sentiu o ar escapar de seus pulmões. A raiva crescia dentro dele, sufocante, esmagadora. Mas, por trás da fúria, havia algo mais sombrio: desespero.
Ele pensou em Allison.
Os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro enquanto ela ria de algo bobo que ele dissera. O jeito como ela segurava sua mão sob a mesa nos jantares escondidos que tinham nos cafés de Eldoria. Os beijos roubados em becos escuros, onde ninguém poderia vê-los.
Ela era sua.
E agora, por ordem do rei, não seria mais.
— Eu amo outra pessoa. — A confissão escapou de seus lábios antes que ele pudesse se conter, sua voz carregada de um peso que ele raramente deixava transparecer diante do pai.
Mas William nem piscou.
— Isso não tem importância.
sentiu o peito apertar. Ele sabia que seu pai era frio, mas ouvir aquelas palavras com tamanha indiferença foi um golpe.
E pela resposta do pai, seu relacionamento secreto com Allison talvez não fosse tão secreto assim. O rei reagiu sem demonstrar surpresa alguma. Na verdade, quem foi pego de surpresa diante da reação do pai foi o próprio .
— Tem importância para mim!
O rei suspirou, levantando-se de seu trono. Caminhou até , parando diante dele com o olhar severo.
— Você pode brincar de amor enquanto não tem responsabilidades, . Mas você é o herdeiro de Eldoria. Sua obrigação é com esta coroa, não com seus caprichos juvenis.
Capricho.
sentiu as unhas cravarem em suas palmas. Como se seu amor por Allison fosse insignificante. Como se fosse algo passageiro, sem peso, sem significado.
— Eu não sou um boneco que você pode manipular! — Ele rosnou, sentindo a raiva transbordar. — Eu nunca quis essa droga de coroa! Nunca quis esse título! E com certeza não quero esse maldito casamento!
O rei permaneceu impassível.
— Mas você terá.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
sentiu um nó na garganta, seu peito subindo e descendo rapidamente, a respiração acelerada.
Então, ele riu.
Foi uma risada sem humor, amarga, repleta de ironia e resignação.
— Você sabe o que é pior, pai? — Sua voz saiu baixa, mas afiada como uma lâmina. — Você pode me obrigar a casar com essa garota. Pode me prender dentro desse palácio e me fazer usar essa coroa idiota. Mas você nunca vai me fazer amá-la.
Virou-se bruscamente e saiu do salão, as botas ecoando contra o mármore enquanto ele atravessava o corredor.
Por dentro, sentia-se sufocado.
Seu destino havia sido decidido. E ele odiava cada parte disso.
●●●
A noite estava fria quando estacionou sua moto nos fundos do pequeno café no centro de Eldoria. Era um lugar discreto, afastado dos olhares curiosos, onde ele e Allison costumavam se encontrar em segredo. O cheiro de café fresco misturava-se ao perfume adocicado das flores na entrada, mas, pela primeira vez, aquele aroma que sempre lhe trazia conforto não surtiu efeito.
Seu peito estava pesado. Ele não sabia exatamente como dizer a verdade sem destruir tudo.
Empurrou a porta lateral e encontrou Allison sentada em uma das mesas no canto mais escuro do salão. Seu longo cabelo escuro caía em ondas suaves sobre os ombros, e seus olhos cor de avelã estavam fixos na xícara entre as mãos.
Ela sabia.
Antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, percebeu pela tensão em sua postura, pelo jeito que seus dedos tamborilavam contra a cerâmica.
Foi então que lembrou. A prima de Allison é casada com um homem que trabalha na secretaria real. Agora tudo fazia sentido.
Ele se aproximou devagar e sentou-se à sua frente, sentindo um nó apertar sua garganta.
— Você está atrasado. — A voz dela era calma, mas sem emoção.
engoliu em seco.
— Allison…
Ela ergueu o olhar para ele, e o que viu ali o fez querer arrancar a própria pele. Não havia raiva explosiva, nem gritos. Apenas mágoa.
— Então é verdade.
Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado, impotente.
— Meu pai assinou um tratado com Lorien. O casamento foi arranjado sem que eu tivesse escolha.
Os olhos de Allison brilharam com lágrimas contidas.
— Você prometeu, . Você disse que encontraríamos um jeito. Que não importava o que acontecesse, você se casaria comigo.
sentiu o peito apertar ainda mais.
Ele lembrava. Deus, como lembrava. As madrugadas em que ficavam deitados lado a lado, sonhando com um futuro onde pudessem estar juntos sem medo. Ele havia segurado a mão dela e prometido que não importava o que seu pai fizesse, não importava a tradição ou a coroa, ele sempre escolheria Allison.
Mas agora estava ali, prestes a quebrar todas aquelas promessas.
— Eu não tive escolha. — Sua voz saiu quase um sussurro, carregada de frustração e culpa.
Allison soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.
— Não teve escolha? Você sempre tem escolha, . Você poderia ter recusado, poderia ter lutado. Mas, em vez disso, está aqui para me dizer que vai casar com outra mulher.
Ele apertou os punhos sobre a mesa.
— Eu nunca vou amá-la. — Ele disse, firme. — Esse casamento é só um jogo político ridículo. não significa nada para mim. Você é a única que eu amo.
Allison o encarou por um longo momento, o lábio inferior tremendo levemente.
— E o que isso muda? — Sua voz falhou. — Você vai se casar com ela de qualquer forma. Vai dormir ao lado dela. Vai compartilhar uma vida com ela.
sentiu um gosto amargo na boca. O que poderia dizer? Que nunca tocaria ? Que nunca olharia para ela como olhava para Allison? Que sempre, sempre amaria apenas a mulher à sua frente?
Ele abriu a boca, mas Allison ergueu a mão, interrompendo-o.
— Sabe qual é a pior parte? — Ela sussurrou, as lágrimas finalmente escapando e rolando por seu rosto. — Eu quero acreditar em você, . Quero acreditar que, não importa o que aconteça, sou eu quem você ama. Mas como eu posso? Como posso confiar nas suas promessas quando você já está quebrando todas elas?
Aquelas palavras foram um golpe certeiro.
sentiu sua garganta fechar, e, pela primeira vez, percebeu que, independentemente de suas juras, de sua raiva ou de seu desprezo pelo casamento arranjado, ele já estava perdendo Allison.
E talvez nunca pudesse tê-la de volta.
E isso o fazia odiar Lorien. Odiar Eldoria. Odiar seu pai.
Odiar .
Seus dedos estavam crispados ao redor da capa dura do livro que repousava em seu colo, as páginas esquecidas diante das palavras que ecoavam em sua mente. Palavras que haviam acabado de sair da boca de seu pai, o rei Alexander .
— Você será prometida a , príncipe herdeiro de Eldoria.
O choque percorreu seu corpo como um raio.
— Você quer que eu faça o quê? — A voz de saiu mais alta do que ela pretendia, carregada de incredulidade e pavor. Algo que jamais aconteceu, pois sempre falava de maneira doce e tranquila.
Ela sabia que, como princesa, seu casamento poderia ser decidido por interesses políticos. Sempre soube. Mas, no fundo, havia nutrido a esperança de que seu pai, apesar de rígido e pragmático, ao menos lhe concedesse a chance de escolher entre algumas opções, de conhecer a pessoa antes de ter sua vida vinculada a ela para sempre.
E seu pai havia dito que ela não iria casar tão cedo e que, se ela se apaixonasse por alguém até chegar o momento propício para casar, então ela poderia ter a chance de escolher e casar por amor.
Em vez disso, seu destino havia sido selado sem sequer uma consulta.
O rei suspirou pesadamente, como se já previsse aquela reação.
— Isso não é sobre você, . É sobre nosso reino, sobre o futuro de Lorien.
Aquelas palavras fizeram algo dentro dela se partir.
Não era sobre ela. Nunca era.
Seu dever. Sua responsabilidade. Seu papel como princesa. Toda sua vida havia girado em torno desses conceitos, dessas obrigações inescapáveis. Desde criança, aprendera que sua felicidade era um luxo secundário diante das necessidades do reino. Mas se casar com um completo estranho — não, pior, com — era uma sentença cruel demais para aceitar sem resistência.
Ela se levantou, largando o livro no sofá sem se importar quando ele escorregou para o chão.
— Isso é um erro. — Seus olhos, geralmente doces, agora faiscavam de frustração. — Eu nunca sequer falei com esse homem, e agora você quer que eu passe o resto da minha vida ao lado dele?
Ela já ouvira histórias sobre . O príncipe herdeiro de Eldoria, famoso por desafiar a realeza, desprezar os protocolos e agir como se seu título fosse um fardo insuportável. Um homem que fazia questão de mostrar ao mundo que não queria ser rei.
E agora, ele seria seu marido?
Seu coração batia forte, como se tentasse escapar da gaiola que acabava de se fechar ao seu redor.
— O tratado já foi assinado. O casamento acontecerá dentro de um mês.
Um mês.
sentiu um nó apertar sua garganta. Em um mês, ela deixaria tudo para trás. Sua casa. Seu povo. Sua liberdade.
Seu destino já estava escrito, e não importava o quanto protestasse, não havia escapatória.
Engolindo a bile que ameaçava subir, ela perguntou:
— E … ele sabe disso?
O rei hesitou por um breve momento antes de responder:
— Ele foi informado hoje.
Então, ele também havia sido obrigado.
Por um instante, imaginou a reação dele. Frustração? Raiva? Ou apenas indiferença?
De repente, um pensamento a atingiu como um golpe no estômago. Se ele já tivesse alguém? Se houvesse uma mulher que ele amasse, alguém que agora precisaria abandonar por causa desse casamento?
Um casamento arranjado já era ruim o suficiente, mas ser forçada a casar com alguém que talvez a odiasse antes mesmo de conhecê-la tornava tudo ainda pior.
— Ele concordou? — Ela perguntou, embora já soubesse a resposta.
O olhar de seu pai era impassível.
— Ele não tem escolha. Assim como você.
A indignação fervia em seu peito, mas sabia que era inútil continuar discutindo. Seu pai tomava decisões como quem move peças em um tabuleiro de xadrez — friamente, estrategicamente. Para ele, ela não era uma filha, mas um instrumento para fortalecer Lorien.
Ela respirou fundo, tentando controlar a tempestade dentro de si. Seu coração gritava em protesto, mas sua mente sabia que não adiantava insistir.
Quando voltou a falar, sua voz saiu baixa, mas firme:
— Então, que seja. Eu amo o senhor. Mas eu juro a você, pai… Eu nunca vou esquecer que fui forçada a isso.
E, sem esperar por uma resposta, virou-se e saiu do salão, sentindo o peso de um destino que não escolhera esmagar seus ombros.
Naquele momento, ela soube.
Sua vida nunca mais seria a mesma.
O estalo seco da porta se fechando ecoou pelo grande salão do Palácio de Eldoria, mas mal percebeu. Seu sangue fervia, as palavras de seu pai ainda reverberando em sua mente como uma sentença de morte.
— Isso é uma piada, certo? — Sua voz saiu ríspida, carregada de incredulidade e fúria contida.
O rei William não demonstrou qualquer emoção. Sentado em seu trono de ébano, com a postura impecável e a coroa reluzindo sob a luz do imenso lustre de cristal, ele encarava o filho como se estivesse diante de um mero subordinado, não do próprio herdeiro.
— Não há nada de engraçado nisso, . O tratado já foi assinado. Você se casará com dentro de um mês.
A bile subiu à garganta de , e ele cerrou os punhos ao lado do corpo.
— E em que momento eu fui consultado sobre isso?
Seu pai arqueou uma sobrancelha, como se a pergunta fosse absurda.
— Você não foi.
soltou uma risada amarga. Claro que não. Como se sua opinião importasse. Como se sua vida não fosse nada além de um peão em um jogo que nunca quis jogar.
— Isso é ridículo! — Ele deu um passo à frente, a raiva pulsando em suas veias. — Você quer que eu case com uma mulher que eu nunca vi na vida? Com uma princesa que provavelmente é tão submissa às vontades do pai quanto você quer que eu seja às suas?
O rei franziu o cenho, finalmente demonstrando impaciência.
— Controle-se, . Você é o príncipe herdeiro. Seu casamento fortalecerá Eldoria e garantirá que nossa aliança com Lorien seja inquebrável.
balançou a cabeça, incapaz de acreditar no que estava ouvindo.
— Ah, claro. Porque o poder de Eldoria é tudo o que importa, não é? Dane-se o que eu quero. Dane-se o que quer. O que importa é o maldito trono.
— Exatamente. — A resposta do rei veio sem hesitação, gélida e intransigente.
sentiu o ar escapar de seus pulmões. A raiva crescia dentro dele, sufocante, esmagadora. Mas, por trás da fúria, havia algo mais sombrio: desespero.
Ele pensou em Allison.
Os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro enquanto ela ria de algo bobo que ele dissera. O jeito como ela segurava sua mão sob a mesa nos jantares escondidos que tinham nos cafés de Eldoria. Os beijos roubados em becos escuros, onde ninguém poderia vê-los.
Ela era sua.
E agora, por ordem do rei, não seria mais.
— Eu amo outra pessoa. — A confissão escapou de seus lábios antes que ele pudesse se conter, sua voz carregada de um peso que ele raramente deixava transparecer diante do pai.
Mas William nem piscou.
— Isso não tem importância.
sentiu o peito apertar. Ele sabia que seu pai era frio, mas ouvir aquelas palavras com tamanha indiferença foi um golpe.
E pela resposta do pai, seu relacionamento secreto com Allison talvez não fosse tão secreto assim. O rei reagiu sem demonstrar surpresa alguma. Na verdade, quem foi pego de surpresa diante da reação do pai foi o próprio .
— Tem importância para mim!
O rei suspirou, levantando-se de seu trono. Caminhou até , parando diante dele com o olhar severo.
— Você pode brincar de amor enquanto não tem responsabilidades, . Mas você é o herdeiro de Eldoria. Sua obrigação é com esta coroa, não com seus caprichos juvenis.
Capricho.
sentiu as unhas cravarem em suas palmas. Como se seu amor por Allison fosse insignificante. Como se fosse algo passageiro, sem peso, sem significado.
— Eu não sou um boneco que você pode manipular! — Ele rosnou, sentindo a raiva transbordar. — Eu nunca quis essa droga de coroa! Nunca quis esse título! E com certeza não quero esse maldito casamento!
O rei permaneceu impassível.
— Mas você terá.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
sentiu um nó na garganta, seu peito subindo e descendo rapidamente, a respiração acelerada.
Então, ele riu.
Foi uma risada sem humor, amarga, repleta de ironia e resignação.
— Você sabe o que é pior, pai? — Sua voz saiu baixa, mas afiada como uma lâmina. — Você pode me obrigar a casar com essa garota. Pode me prender dentro desse palácio e me fazer usar essa coroa idiota. Mas você nunca vai me fazer amá-la.
Virou-se bruscamente e saiu do salão, as botas ecoando contra o mármore enquanto ele atravessava o corredor.
Por dentro, sentia-se sufocado.
Seu destino havia sido decidido. E ele odiava cada parte disso.
A noite estava fria quando estacionou sua moto nos fundos do pequeno café no centro de Eldoria. Era um lugar discreto, afastado dos olhares curiosos, onde ele e Allison costumavam se encontrar em segredo. O cheiro de café fresco misturava-se ao perfume adocicado das flores na entrada, mas, pela primeira vez, aquele aroma que sempre lhe trazia conforto não surtiu efeito.
Seu peito estava pesado. Ele não sabia exatamente como dizer a verdade sem destruir tudo.
Empurrou a porta lateral e encontrou Allison sentada em uma das mesas no canto mais escuro do salão. Seu longo cabelo escuro caía em ondas suaves sobre os ombros, e seus olhos cor de avelã estavam fixos na xícara entre as mãos.
Ela sabia.
Antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, percebeu pela tensão em sua postura, pelo jeito que seus dedos tamborilavam contra a cerâmica.
Foi então que lembrou. A prima de Allison é casada com um homem que trabalha na secretaria real. Agora tudo fazia sentido.
Ele se aproximou devagar e sentou-se à sua frente, sentindo um nó apertar sua garganta.
— Você está atrasado. — A voz dela era calma, mas sem emoção.
engoliu em seco.
— Allison…
Ela ergueu o olhar para ele, e o que viu ali o fez querer arrancar a própria pele. Não havia raiva explosiva, nem gritos. Apenas mágoa.
— Então é verdade.
Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado, impotente.
— Meu pai assinou um tratado com Lorien. O casamento foi arranjado sem que eu tivesse escolha.
Os olhos de Allison brilharam com lágrimas contidas.
— Você prometeu, . Você disse que encontraríamos um jeito. Que não importava o que acontecesse, você se casaria comigo.
sentiu o peito apertar ainda mais.
Ele lembrava. Deus, como lembrava. As madrugadas em que ficavam deitados lado a lado, sonhando com um futuro onde pudessem estar juntos sem medo. Ele havia segurado a mão dela e prometido que não importava o que seu pai fizesse, não importava a tradição ou a coroa, ele sempre escolheria Allison.
Mas agora estava ali, prestes a quebrar todas aquelas promessas.
— Eu não tive escolha. — Sua voz saiu quase um sussurro, carregada de frustração e culpa.
Allison soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.
— Não teve escolha? Você sempre tem escolha, . Você poderia ter recusado, poderia ter lutado. Mas, em vez disso, está aqui para me dizer que vai casar com outra mulher.
Ele apertou os punhos sobre a mesa.
— Eu nunca vou amá-la. — Ele disse, firme. — Esse casamento é só um jogo político ridículo. não significa nada para mim. Você é a única que eu amo.
Allison o encarou por um longo momento, o lábio inferior tremendo levemente.
— E o que isso muda? — Sua voz falhou. — Você vai se casar com ela de qualquer forma. Vai dormir ao lado dela. Vai compartilhar uma vida com ela.
sentiu um gosto amargo na boca. O que poderia dizer? Que nunca tocaria ? Que nunca olharia para ela como olhava para Allison? Que sempre, sempre amaria apenas a mulher à sua frente?
Ele abriu a boca, mas Allison ergueu a mão, interrompendo-o.
— Sabe qual é a pior parte? — Ela sussurrou, as lágrimas finalmente escapando e rolando por seu rosto. — Eu quero acreditar em você, . Quero acreditar que, não importa o que aconteça, sou eu quem você ama. Mas como eu posso? Como posso confiar nas suas promessas quando você já está quebrando todas elas?
Aquelas palavras foram um golpe certeiro.
sentiu sua garganta fechar, e, pela primeira vez, percebeu que, independentemente de suas juras, de sua raiva ou de seu desprezo pelo casamento arranjado, ele já estava perdendo Allison.
E talvez nunca pudesse tê-la de volta.
E isso o fazia odiar Lorien. Odiar Eldoria. Odiar seu pai.
Odiar .
Capítulo Dois: Primeiro Encontro
O grande portão do Palácio Real de Eldoria se abriu lentamente, revelando uma entrada imponente ladeada por colunas de mármore e estátuas de antigos monarcas. A carruagem dourada da princesa avançou em direção ao pátio principal, onde uma comitiva real a aguardava. Entre os membros da realeza, no topo da escadaria principal, estava , o herdeiro do trono e seu futuro marido.
manteve a compostura, o rosto impassível, mas por dentro sentia o peso de sua nova realidade. Desde o momento em que seu pai lhe informara sobre o casamento arranjado, ela sabia que não teria escolha. Ainda assim, encarar o homem que se tornaria seu marido lhe provocava um frio na espinha. Tudo que sabia sobre vinha de boatos e relatos de outras cortes: arrogante, insubordinado e completamente avesso às responsabilidades que o título exigia.
, por sua vez, observava a carruagem com um olhar gélido. A ideia de se casar por dever real o repugnava. Ele havia se esforçado tanto para escapar das garras sufocantes da realeza, para ter ao menos um fragmento de liberdade, e agora se via enredado por essa armadilha política. Quando desceu da carruagem, seus olhos encontraram os dele pela primeira vez. Havia algo de refinado nela, uma postura digna e uma beleza clássica, mas só conseguia enxergar um rosto que simbolizava sua prisão.
A jovem princesa caminhou com graciosidade até o pé da escadaria, onde o rei William e a rainha Eleanor a esperavam para recebê-la. Seu vestido azul celeste tremulava levemente com a brisa, e mesmo que seu coração estivesse acelerado, ela se recusava a demonstrar qualquer hesitação.
— Alteza — curvou-se respeitosamente para os monarcas antes de voltar sua atenção para . — Príncipe .
inclinou levemente a cabeça, o gesto mínimo e forçado. Seus olhos azuis analisavam a jovem à sua frente, procurando qualquer sinal de fraqueza. o fitou de volta, mantendo a expressão serena. Ele percebeu, irritado, que ela não demonstrava a submissão que esperava de alguém em sua posição.
— Princesa . — Sua voz saiu cortante, sem qualquer traço de cordialidade.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Os reis continuaram a falar sobre a união iminente, exaltando os benefícios políticos do casamento, mas tanto quanto estavam absorvidos em seus próprios pensamentos.
Para , era exatamente como imaginara: frio, hostil, e sem qualquer desejo de tornar aquilo minimamente suportável. Ele a olhava como se ela fosse um fardo, algo imposto a ele contra sua vontade. Aquilo a irritava. Ela também não escolhera aquele destino, mas ao menos tinha a decência de manter a compostura.
Para , não passava de mais uma peça do jogo de seu pai. Por mais bela e refinada que fosse, ele via nela apenas um símbolo do controle que a monarquia ainda exercia sobre sua vida. Ele se perguntou se havia alguma fragilidade por trás daquela postura impecável, algo que pudesse lhe dar uma vantagem nesse casamento forçado.
— Esperamos que sua estadia em Eldoria seja confortável, princesa. — A rainha Eleanor sorriu de maneira ensaiada.
— Tenho certeza de que será, Vossa Majestade — respondeu, com a mesma polidez calculada.
O olhar de permaneceu fixo nela por mais alguns segundos antes que ele simplesmente desviasse, como se já estivesse cansado daquela farsa. , por outro lado, manteve a postura, mas internamente sabia que seu noivado com seria uma batalha muito mais árdua do que imaginara.
●●●
Mais tarde, passeava pelo jardim do palácio, permitindo-se um raro momento de contemplação. O sol poente lançava tons dourados sobre as flores exuberantes, e a brisa suave trazia consigo um perfume delicado. Ela apreciava a beleza do lugar, mesmo que ainda se sentisse uma estranha ali.
— É um belo fim de tarde, não acha? — A voz calma da rainha Eleanor soou atrás dela.
se virou e fez uma leve reverência.
— Sem dúvida, Vossa Majestade. Seu jardim é encantador.
Eleanor sorriu de maneira discreta e caminhou ao lado da jovem.
— Fico feliz que tenha gostado. Passo muito tempo aqui. É um dos poucos lugares onde se pode respirar sem sentir o peso da coroa.
— Imagino que a realeza traga muitos fardos. — comentou, com uma compreensão genuína no olhar. A rainha estudou a futura nora por um momento, avaliando-a cuidadosamente. tinha uma postura impecável, mas suas palavras não pareciam vazias. Havia sinceridade em sua voz.
— Você entende a responsabilidade que carrega ao se casar com ? — Eleanor perguntou, sem rodeios.
manteve o olhar firme.
— Entendo que o dever vem antes dos desejos pessoais, mas também acredito que o casamento não precisa ser um castigo. Se há algo que posso fazer para ajudá-lo a carregar o fardo da coroa, eu o farei.
A resposta surpreendeu Eleanor. Ela esperava uma jovem mimada ou ambiciosa, mas encontrou uma mulher ponderada e altruísta. Um brilho de aprovação passou por seus olhos.
— Você tem um bom coração, . Espero que perceba isso um dia. — A rainha suspirou. — Ele é... teimoso. Mas precisa de alguém ao lado dele que o compreenda.
sorriu suavemente.
— Então terei paciência, Vossa Majestade. Nenhuma muralha se mantém intacta para sempre.
Do outro lado do jardim, observava a conversa com a mandíbula travada. estava conseguindo exatamente o que queria: enfeitiçar sua mãe com sua atitude perfeita e palavras bem escolhidas. Ele não podia acreditar no quão facilmente Eleanor parecia encantada por aquela mulher. Como se fosse algum tipo de salvadora.
A frustração crescia dentro dele. Agora, além de estar preso nesse casamento, ainda teria que lidar com sua própria mãe defendendo ?
Ele apertou os punhos. Aquela mulher não o enganaria. Não importava o quão doce e compreensiva ela parecesse, ele sabia que tudo não passava de um jogo.
●●●
O jantar no Palácio Real de Eldoria era um evento impecável, como tudo que envolvia a realeza. A mesa, adornada com talheres de prata e taças de cristal, refletia o brilho dos lustres dourados que pendiam do teto. manteve-se serena, mesmo sentindo o peso dos olhares sobre si. Desde a sua chegada, todos pareciam avaliá-la, e agora, diante do rei, a atenção sobre ela se intensificava.
— Diga-me, princesa . — iniciou o rei William, a voz firme mas curiosa. — Como se sente em nossa casa?
ergueu os olhos e sorriu com suavidade.
— Sinto-me honrada por estar aqui, Vossa Majestade. Eldoria é um reino belo e imponente.
— Espero que não tenha se sentido desconfortável com a recepção. — comentou Eleanor, com um olhar gentil. — Sei que adaptações podem ser difíceis.
— Vocês foram muito acolhedores, Vossa Majestade. Estou disposta a aprender e a me adaptar.
William assentiu, satisfeito com a resposta.
— Seu pai falou muito bem de você. Disse que é uma jovem sensata e bondosa. Vejo que não exagerou.
Ao lado de William, Eleanor observava com um olhar afetuoso. Já havia sentido empatia pela jovem quando conversaram no jardim, e agora, ao vê-la lidar com a pressão do jantar, sua admiração crescia.
, por outro lado, apertou os talheres com força ao ouvir os elogios. Era irritante como encantava todos tão facilmente. Seu pai e sua mãe mal a conheciam, e já estavam rendidos ao seu charme. Ele bufou, não contendo a irritação.
— Sensata? Bondosa? — ele resmungou, a voz carregada de sarcasmo. — Ou apenas sabe dizer o que querem ouvir?
O silêncio se espalhou pela mesa. piscou, surpresa com o tom hostil, mas se recompôs rápido. Olhou para , sua expressão permanecendo serena.
— Se é isso que pensa de mim, príncipe, nada que eu diga o fará mudar de opinião. Mas posso lhe garantir que sou sincera em minhas palavras.
— Sinceridade não significa nada quando você está acostumada a viver em um castelo, cercada de protocolos e formalidades. — rebateu, cruzando os braços.
— Assim como você, presumo. — respondeu com doçura, sem alterar o tom.
Seu tom era calmo, sem traços de ofensa ou ressentimento. sentiu-se ainda mais irritado. Era como se sua frieza não a atingisse, e isso o incomodava profundamente. Antes que ele pudesse retrucar, a voz do rei ecoou na sala.
— , controle-se! — William o repreendeu, a expressão severa. — Está envergonhando nossa família.
Eleanor também interveio, desapontada.
— é nossa convidada, . Comporte-se como tal.
— Eu apenas estou sendo sincero, não é isso que todos querem? — retrucou, sarcástico.
— Não confunda sinceridade com grosseria! — Eleanor rebateu com firmeza.
fechou os punhos, desviando o olhar. Seu apetite havia desaparecido. , apesar de manter a postura impecável, sentia um incômodo crescente no peito. Desde sua chegada, não fazia questão de esconder sua hostilidade, mas ela se recusava a demonstrar fragilidade diante dele.
No fundo do salão, Charles observava a cena com um sorriso discreto. Ele não precisava se esforçar muito para entender a dinâmica entre os noivos arranjados. não aceitava o casamento, e sua arrogância apenas tornava as coisas mais fáceis para seus planos.
“Isso vai ser mais simples do que eu imaginava,” pensou Charles, levando a taça aos lábios. “Se continuar desse jeito, nunca irá suportá-lo. E quando isso acontecer, tudo o que preciso fazer é garantir que esse casamento seja dissolvido antes mesmo de acontecer.”
Satisfeito com a ideia, Charles continuou a comer, observando de soslaio os protagonistas de sua conspiração sem que suspeitassem de nada.
●●●
A noite envolvia o Palácio Real de Eldoria em um silêncio solene, interrompido apenas pelo som ocasional do vento contra as janelas. No interior, estava em seu quarto, sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar fixo no vazio.
O jantar ainda ecoava em sua mente. A maneira como seus pais olhavam para , como se ela fosse a pessoa mais encantadora do mundo, o irritava profundamente. Como podiam aceitá-la tão facilmente? Como podiam esperar que ele simplesmente aceitasse tudo aquilo sem questionar? Seu punho se fechou involuntariamente.
Mas, por mais que tentasse direcionar sua raiva para , uma outra imagem insistia em aparecer em sua mente: Allison. Seu coração apertou ao lembrar dos momentos que haviam compartilhado, os sorrisos roubados, os toques proibidos. Ela era sua verdadeira escolha. Ela era quem ele amava. E agora, ele era forçado a se casar com outra.
O peso de tudo o atingiu de uma vez. Os pais que nunca o ouviram, o casamento arranjado, o amor que perdera... enterrou o rosto nas mãos, tentando conter a dor que crescia dentro dele. Mas foi em vão. Um soluço escapou de seus lábios, e ele permitiu que as lágrimas caíssem. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentiu impotente.
Enquanto isso, do outro lado do palácio, estava em seu quarto de hóspedes. Sentada na beira da cama, ela abraçava os próprios joelhos, o olhar perdido na penumbra do quarto. Tudo estava acontecendo rápido demais. A viagem para Eldoria, o casamento que se aproximava, os olhares avaliadores da realeza... e, principalmente, .
Ele a tratava com desprezo desde o primeiro momento. Ela sabia que ele também não queria aquele casamento, então por que agia como se ela fosse a vilã? Por que a culpa era jogada sobre ela? apertou os olhos, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
Ela nunca quis aquilo. Nunca desejou ser um peso na vida de ninguém. Mas agora estava presa a uma situação que não podia controlar, com um homem que a desprezava. E se fosse pior do que ela imaginava? E se o casamento realmente acontecesse e ela ficasse presa a uma vida de frieza e desprezo? O pensamento a esmagava por dentro.
Uma lágrima escorreu por seu rosto. Depois outra. Até que não conseguiu mais segurar. Chorou em silêncio, sem saber se teria forças para suportar tudo aquilo. Sem saber se, um dia, aquela dor passaria.
manteve a compostura, o rosto impassível, mas por dentro sentia o peso de sua nova realidade. Desde o momento em que seu pai lhe informara sobre o casamento arranjado, ela sabia que não teria escolha. Ainda assim, encarar o homem que se tornaria seu marido lhe provocava um frio na espinha. Tudo que sabia sobre vinha de boatos e relatos de outras cortes: arrogante, insubordinado e completamente avesso às responsabilidades que o título exigia.
, por sua vez, observava a carruagem com um olhar gélido. A ideia de se casar por dever real o repugnava. Ele havia se esforçado tanto para escapar das garras sufocantes da realeza, para ter ao menos um fragmento de liberdade, e agora se via enredado por essa armadilha política. Quando desceu da carruagem, seus olhos encontraram os dele pela primeira vez. Havia algo de refinado nela, uma postura digna e uma beleza clássica, mas só conseguia enxergar um rosto que simbolizava sua prisão.
A jovem princesa caminhou com graciosidade até o pé da escadaria, onde o rei William e a rainha Eleanor a esperavam para recebê-la. Seu vestido azul celeste tremulava levemente com a brisa, e mesmo que seu coração estivesse acelerado, ela se recusava a demonstrar qualquer hesitação.
— Alteza — curvou-se respeitosamente para os monarcas antes de voltar sua atenção para . — Príncipe .
inclinou levemente a cabeça, o gesto mínimo e forçado. Seus olhos azuis analisavam a jovem à sua frente, procurando qualquer sinal de fraqueza. o fitou de volta, mantendo a expressão serena. Ele percebeu, irritado, que ela não demonstrava a submissão que esperava de alguém em sua posição.
— Princesa . — Sua voz saiu cortante, sem qualquer traço de cordialidade.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Os reis continuaram a falar sobre a união iminente, exaltando os benefícios políticos do casamento, mas tanto quanto estavam absorvidos em seus próprios pensamentos.
Para , era exatamente como imaginara: frio, hostil, e sem qualquer desejo de tornar aquilo minimamente suportável. Ele a olhava como se ela fosse um fardo, algo imposto a ele contra sua vontade. Aquilo a irritava. Ela também não escolhera aquele destino, mas ao menos tinha a decência de manter a compostura.
Para , não passava de mais uma peça do jogo de seu pai. Por mais bela e refinada que fosse, ele via nela apenas um símbolo do controle que a monarquia ainda exercia sobre sua vida. Ele se perguntou se havia alguma fragilidade por trás daquela postura impecável, algo que pudesse lhe dar uma vantagem nesse casamento forçado.
— Esperamos que sua estadia em Eldoria seja confortável, princesa. — A rainha Eleanor sorriu de maneira ensaiada.
— Tenho certeza de que será, Vossa Majestade — respondeu, com a mesma polidez calculada.
O olhar de permaneceu fixo nela por mais alguns segundos antes que ele simplesmente desviasse, como se já estivesse cansado daquela farsa. , por outro lado, manteve a postura, mas internamente sabia que seu noivado com seria uma batalha muito mais árdua do que imaginara.
Mais tarde, passeava pelo jardim do palácio, permitindo-se um raro momento de contemplação. O sol poente lançava tons dourados sobre as flores exuberantes, e a brisa suave trazia consigo um perfume delicado. Ela apreciava a beleza do lugar, mesmo que ainda se sentisse uma estranha ali.
— É um belo fim de tarde, não acha? — A voz calma da rainha Eleanor soou atrás dela.
se virou e fez uma leve reverência.
— Sem dúvida, Vossa Majestade. Seu jardim é encantador.
Eleanor sorriu de maneira discreta e caminhou ao lado da jovem.
— Fico feliz que tenha gostado. Passo muito tempo aqui. É um dos poucos lugares onde se pode respirar sem sentir o peso da coroa.
— Imagino que a realeza traga muitos fardos. — comentou, com uma compreensão genuína no olhar. A rainha estudou a futura nora por um momento, avaliando-a cuidadosamente. tinha uma postura impecável, mas suas palavras não pareciam vazias. Havia sinceridade em sua voz.
— Você entende a responsabilidade que carrega ao se casar com ? — Eleanor perguntou, sem rodeios.
manteve o olhar firme.
— Entendo que o dever vem antes dos desejos pessoais, mas também acredito que o casamento não precisa ser um castigo. Se há algo que posso fazer para ajudá-lo a carregar o fardo da coroa, eu o farei.
A resposta surpreendeu Eleanor. Ela esperava uma jovem mimada ou ambiciosa, mas encontrou uma mulher ponderada e altruísta. Um brilho de aprovação passou por seus olhos.
— Você tem um bom coração, . Espero que perceba isso um dia. — A rainha suspirou. — Ele é... teimoso. Mas precisa de alguém ao lado dele que o compreenda.
sorriu suavemente.
— Então terei paciência, Vossa Majestade. Nenhuma muralha se mantém intacta para sempre.
Do outro lado do jardim, observava a conversa com a mandíbula travada. estava conseguindo exatamente o que queria: enfeitiçar sua mãe com sua atitude perfeita e palavras bem escolhidas. Ele não podia acreditar no quão facilmente Eleanor parecia encantada por aquela mulher. Como se fosse algum tipo de salvadora.
A frustração crescia dentro dele. Agora, além de estar preso nesse casamento, ainda teria que lidar com sua própria mãe defendendo ?
Ele apertou os punhos. Aquela mulher não o enganaria. Não importava o quão doce e compreensiva ela parecesse, ele sabia que tudo não passava de um jogo.
O jantar no Palácio Real de Eldoria era um evento impecável, como tudo que envolvia a realeza. A mesa, adornada com talheres de prata e taças de cristal, refletia o brilho dos lustres dourados que pendiam do teto. manteve-se serena, mesmo sentindo o peso dos olhares sobre si. Desde a sua chegada, todos pareciam avaliá-la, e agora, diante do rei, a atenção sobre ela se intensificava.
— Diga-me, princesa . — iniciou o rei William, a voz firme mas curiosa. — Como se sente em nossa casa?
ergueu os olhos e sorriu com suavidade.
— Sinto-me honrada por estar aqui, Vossa Majestade. Eldoria é um reino belo e imponente.
— Espero que não tenha se sentido desconfortável com a recepção. — comentou Eleanor, com um olhar gentil. — Sei que adaptações podem ser difíceis.
— Vocês foram muito acolhedores, Vossa Majestade. Estou disposta a aprender e a me adaptar.
William assentiu, satisfeito com a resposta.
— Seu pai falou muito bem de você. Disse que é uma jovem sensata e bondosa. Vejo que não exagerou.
Ao lado de William, Eleanor observava com um olhar afetuoso. Já havia sentido empatia pela jovem quando conversaram no jardim, e agora, ao vê-la lidar com a pressão do jantar, sua admiração crescia.
, por outro lado, apertou os talheres com força ao ouvir os elogios. Era irritante como encantava todos tão facilmente. Seu pai e sua mãe mal a conheciam, e já estavam rendidos ao seu charme. Ele bufou, não contendo a irritação.
— Sensata? Bondosa? — ele resmungou, a voz carregada de sarcasmo. — Ou apenas sabe dizer o que querem ouvir?
O silêncio se espalhou pela mesa. piscou, surpresa com o tom hostil, mas se recompôs rápido. Olhou para , sua expressão permanecendo serena.
— Se é isso que pensa de mim, príncipe, nada que eu diga o fará mudar de opinião. Mas posso lhe garantir que sou sincera em minhas palavras.
— Sinceridade não significa nada quando você está acostumada a viver em um castelo, cercada de protocolos e formalidades. — rebateu, cruzando os braços.
— Assim como você, presumo. — respondeu com doçura, sem alterar o tom.
Seu tom era calmo, sem traços de ofensa ou ressentimento. sentiu-se ainda mais irritado. Era como se sua frieza não a atingisse, e isso o incomodava profundamente. Antes que ele pudesse retrucar, a voz do rei ecoou na sala.
— , controle-se! — William o repreendeu, a expressão severa. — Está envergonhando nossa família.
Eleanor também interveio, desapontada.
— é nossa convidada, . Comporte-se como tal.
— Eu apenas estou sendo sincero, não é isso que todos querem? — retrucou, sarcástico.
— Não confunda sinceridade com grosseria! — Eleanor rebateu com firmeza.
fechou os punhos, desviando o olhar. Seu apetite havia desaparecido. , apesar de manter a postura impecável, sentia um incômodo crescente no peito. Desde sua chegada, não fazia questão de esconder sua hostilidade, mas ela se recusava a demonstrar fragilidade diante dele.
No fundo do salão, Charles observava a cena com um sorriso discreto. Ele não precisava se esforçar muito para entender a dinâmica entre os noivos arranjados. não aceitava o casamento, e sua arrogância apenas tornava as coisas mais fáceis para seus planos.
“Isso vai ser mais simples do que eu imaginava,” pensou Charles, levando a taça aos lábios. “Se continuar desse jeito, nunca irá suportá-lo. E quando isso acontecer, tudo o que preciso fazer é garantir que esse casamento seja dissolvido antes mesmo de acontecer.”
Satisfeito com a ideia, Charles continuou a comer, observando de soslaio os protagonistas de sua conspiração sem que suspeitassem de nada.
A noite envolvia o Palácio Real de Eldoria em um silêncio solene, interrompido apenas pelo som ocasional do vento contra as janelas. No interior, estava em seu quarto, sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar fixo no vazio.
O jantar ainda ecoava em sua mente. A maneira como seus pais olhavam para , como se ela fosse a pessoa mais encantadora do mundo, o irritava profundamente. Como podiam aceitá-la tão facilmente? Como podiam esperar que ele simplesmente aceitasse tudo aquilo sem questionar? Seu punho se fechou involuntariamente.
Mas, por mais que tentasse direcionar sua raiva para , uma outra imagem insistia em aparecer em sua mente: Allison. Seu coração apertou ao lembrar dos momentos que haviam compartilhado, os sorrisos roubados, os toques proibidos. Ela era sua verdadeira escolha. Ela era quem ele amava. E agora, ele era forçado a se casar com outra.
O peso de tudo o atingiu de uma vez. Os pais que nunca o ouviram, o casamento arranjado, o amor que perdera... enterrou o rosto nas mãos, tentando conter a dor que crescia dentro dele. Mas foi em vão. Um soluço escapou de seus lábios, e ele permitiu que as lágrimas caíssem. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentiu impotente.
Enquanto isso, do outro lado do palácio, estava em seu quarto de hóspedes. Sentada na beira da cama, ela abraçava os próprios joelhos, o olhar perdido na penumbra do quarto. Tudo estava acontecendo rápido demais. A viagem para Eldoria, o casamento que se aproximava, os olhares avaliadores da realeza... e, principalmente, .
Ele a tratava com desprezo desde o primeiro momento. Ela sabia que ele também não queria aquele casamento, então por que agia como se ela fosse a vilã? Por que a culpa era jogada sobre ela? apertou os olhos, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
Ela nunca quis aquilo. Nunca desejou ser um peso na vida de ninguém. Mas agora estava presa a uma situação que não podia controlar, com um homem que a desprezava. E se fosse pior do que ela imaginava? E se o casamento realmente acontecesse e ela ficasse presa a uma vida de frieza e desprezo? O pensamento a esmagava por dentro.
Uma lágrima escorreu por seu rosto. Depois outra. Até que não conseguiu mais segurar. Chorou em silêncio, sem saber se teria forças para suportar tudo aquilo. Sem saber se, um dia, aquela dor passaria.
Capítulo Três: Espinhos no Jardim
O sol da tarde dourava o jardim real com uma delicadeza quase irônica. ajoelhava-se entre as roseiras, com as luvas brancas já sujas de terra. O aroma das flores era suave, mas não o suficiente para acalmar a tempestade que se formava dentro dela. O casamento se aproximava, e com ele, a certeza de que estava sendo jogada em uma vida que jamais escolheria por si mesma.
Ela cortava com cuidado um galho seco quando ouviu passos no cascalho atrás de si.
— Não imaginava encontrar a futura rainha ajoelhada na terra. — A voz de Charles soou com um tom leve, quase divertido.
ergueu os olhos, forçando um sorriso.
— As flores são mais honestas do que muitas pessoas na corte. Pelo menos, quando ferem, não fingem.
Charles riu, agachando-se ao lado dela, elegante demais para aquele cenário rústico. Observou-a por alguns segundos, como quem estuda um quadro valioso.
— Deve ser difícil... — murmurou, a voz mais baixa. — Ser forçada a casar com alguém que não te quer. Deve parecer um pesadelo.
Ela franziu o cenho, voltando ao trabalho.
— Não é forçado quando se tem um dever.
— Palavras lindas para alguém que está prestes a ser oferecida como uma peça de xadrez. — Ele fez uma pausa, inclinando-se um pouco mais. — Se eu fosse seu noivo, faria questão de te conquistar todos os dias. Não te desprezar.
travou. Aquilo era... sutil, mas claro. Ela se afastou levemente, o rosto corando.
— Charles...
— Me desculpe. Só acho injusto que alguém como você seja jogada aos pés de um homem que só sabe cuspir veneno. — Ele sorriu, mas seus olhos pareciam calcular cada palavra. — Você merece ser amada, .
Antes que ela pudesse responder, uma voz cortou o ar, firme como uma lâmina:
— E você deveria aprender a manter distância do que não é seu.
Charles se virou lentamente, sem surpresa, ao ver de pé, os olhos fulminando. levantou-se às pressas, sentindo o coração acelerar.
— ... — ela murmurou.
— Vejo que sua especialidade continua sendo se meter onde não é chamado, Charles. — disparou , avançando alguns passos.
— Só vim conversar com a futura rainha. Alguém precisa fazê-la se sentir acolhida, já que o noivo não parece interessado nisso. — respondeu Charles, com um sorriso provocador.
— Não se esconda atrás de palavras bonitas. Sei muito bem quais são seus jogos. — agora estava frente a frente com o primo, o tom baixo e ameaçador. — Se eu te pegar de novo perto dela com esse olhar de predador, juro que o rei Alexander vai saber por que você deveria ser exilado de Eldoria.
Charles ergueu as mãos, como se se rendesse.
— Só estou preocupado com ela. Mas se o noivo ciumento prefere gritar a cuidar...
— Saia daqui, Charles. Agora.
O príncipe recuou com um aceno teatral, e se afastou pelo jardim como se tivesse vencido, não perdido. Quando o silêncio retornou, virou-se para , ainda com a expressão tensa.
— Você não devia ouvi-lo. Ele é traiçoeiro, manipulador. E você é ingênua demais pra perceber.
Ela deu um passo atrás, magoada.
— Eu sei muito bem com quem estou lidando, . Você não precisa me tratar como uma criança.
— Então aja como uma futura rainha, e não como uma donzela encantada pelas palavras de um canalha.
sentiu as palavras como um tapa. Ele virou as costas e foi embora sem mais uma palavra, deixando-a sozinha entre as rosas, o coração apertado, as mãos ainda sujas de terra — e agora também de mágoa.
👑👑👑
Ela permaneceu ali por alguns minutos, estática. O som dos passos de desaparecendo ecoava na sua mente como um julgamento. Apertou os olhos, tentando conter as lágrimas.
“Por que ele sempre fala como se eu fosse um fardo? Como se eu fosse o problema? Ela olhou para as roseiras à sua frente, agora borradas pela umidade em seus olhos. Eu não pedi esse casamento. Mas estou tentando. Só queria um pouco de respeito. Um pouco de... humanidade.”, pensou ela.
Charles havia sido gentil — ainda que um pouco insinuante demais. Mas pelo menos, por um breve momento, ela se sentiu vista. Compreendida.
Será que é errado querer que alguém se importe? Mesmo que não seja quem deveria?
Ela tirou as luvas sujas, respirou fundo e se levantou.
“Não posso fraquejar agora. Se for para viver esse casamento, não serei uma vítima. Serei forte, mesmo que ele me despreze.”
👑👑👑
Ele andava rápido pelo corredor de mármore, os passos ecoando como marteladas.
Ela realmente estava ali, com ele. Sorrindo pra ele.
A raiva ardia mais do que gostaria de admitir. Mas havia também algo pior: o incômodo.
Charles não é só um idiota. Ele é perigoso. E ela... tão inocente. Tão fácil de manipular.
A imagem de , ajoelhada entre as flores, com aquele olhar confuso e vulnerável, grudava na mente dele como um espinho.
“Por que isso me afeta tanto? Não ligo pra ela. Não devia ligar. É só um acordo político... nada mais.”, indagou ele.
Mas no fundo, algo dentro dele o corroía.
Ela não deveria ouvir Charles. Mas talvez o problema não seja só Charles... talvez seja o fato de que ela começa a me ver como ele vê: um monstro incapaz de amar.
fechou os punhos.
“Ela não pode se apaixonar pelo homem errado. Mesmo que eu nunca vá ser o certo.”
👑👑👑
Charles
Escondido pela sombra de uma coluna, Charles observava discretamente a fúria de ao se afastar e o semblante despedaçado de .
Um sorriso lento e satisfeito curvou seus lábios.
“Tão previsíveis. Ele não consegue controlar o temperamento. Ela, o coração.”
Charles ajeitou o colarinho do paletó com elegância.
“Se continuar assim, vai acabar fugindo direto para os meus braços... ou pelo menos, vai desejar isso. E esse casamento não vai durar nem até a coroa tocar suas cabeças.”, ele sorriu com o pensamento.
Ele caminhou lentamente de volta ao palácio, satisfeito com a pequena semente plantada.
“Tudo o que preciso fazer é regar com palavras doces... e esperar o momento certo para cortar as raízes do trono deles.”
👑👑👑
Rei William
Do alto de sua sacada privada, com vista para os jardins imperiais de Eldoria, o rei William observava a movimentação lá embaixo como quem assiste a uma partida de xadrez. , ajoelhada entre as flores. Charles se aproximando como uma sombra sutil. surgindo, tenso, como sempre.
William ergueu uma sobrancelha.
— Tolo.
Não estava claro a quem se referia — poderia ser ao filho, ao sobrinho... ou a ambos. Serviu-se de uma dose de conhaque envelhecido e caminhou até sua escrivaninha, os passos lentos, mas firmes. Seus olhos, duros como pedra, não vacilaram ao examinar os documentos do casamento.
— Isso vai acontecer, queira ele ou não.
A união entre e era a jogada mais inteligente que Eldoria fizera em décadas. Um trono consolidado. Uma aliança com a casa . O fim das tensões nas fronteiras. Não era apenas casamento — era estratégia.
— é fraco demais para entender isso. Romântico demais. Como a mãe.
Havia uma ponta de desprezo em sua voz, quase imperceptível. Ele sempre quis moldar o filho à altura do trono, mas insistia em sonhar, em sentir, em desafiar.
E Charles... Charles era ambicioso, o bastante para se tornar uma ameaça. — Mas também útil, se controlado.
Chamou um conselheiro de confiança com um gesto seco.
— Mantenha Charles sob vigilância. Se ele ameaçar a integridade do casamento, quero que saibamos antes mesmo que ele respire. E ... — ele virou-se lentamente — mande lembrá-lo do que está em jogo. Que a coroa exige sacrifícios. Que sentimentos não constroem impérios.
O conselheiro assentiu e se retirou.
William voltou a encarar os jardins.
“Eles pensam que têm escolha. Mas aqui, só o dever decide o futuro.”
👑👑👑
Allison
O sussurro das páginas sendo viradas preenchia a pequena biblioteca da ala oeste do palácio. Allison estava sentada junto à janela, fingindo ler, mas os olhos estavam fixos num ponto distante, perdidos em lembranças.
.
Ela ainda se lembrava do jeito como ele sussurrava seu nome, das noites escondidas, dos beijos desesperados como se o mundo inteiro estivesse contra eles.
E agora... ele ia se casar.
“Com aquela princesa perfeita. Intocável. Obediente.”, pensou ela.
Ela não conseguia odiar — o que era pior. A garota parecia genuinamente boa. Mas isso só tornava tudo mais cruel.
Fechou o livro com força, o som quebrando o silêncio da biblioteca.
“Ele me prometeu. Disse que lutaria por nós. Disse que o título não importava. Que o amor bastava…”
Mas ele havia recuado. Havia escolhido o trono.
Ou ao menos era o que ela dizia a si mesma. No fundo, parte dela ainda se perguntava: “E se ele está apenas tentando proteger todos nós? E se ainda me ama?”
Um súdito entrou discretamente na biblioteca, entregando um envelope. Allison o abriu com dedos trêmulos.
Era um convite. O convite oficial do casamento real.
Ela encarou o papel, os nomes gravados em dourado.
Príncipe & Princesa
Por um segundo, tudo ao seu redor ficou em silêncio.
Depois, ela levantou-se, olhos fixos no horizonte.
— Então é assim que vai ser...
Mas seu coração dizia algo diferente:
Ainda não acabou.
👑👑👑
O sol da tarde atravessava os vitrais do corredor oeste do palácio, tingindo o mármore de tons alaranjados e vermelhos. caminhava em silêncio, os passos leves e distraídos. Tinha ido até a biblioteca buscar um livro de botânica, mas não conseguia se concentrar em mais nada desde a discussão entre e Charles no jardim.
“Você é ingênua demais, .”
As palavras dele ainda ecoavam em sua mente. Doíam mais do que deveriam. Ela não queria se importar. Não queria que aquilo afetasse seu peito. Mas afetava.
Ao dobrar um corredor mais afastado, parou subitamente. Vozes abafadas vinham de uma porta entreaberta. Reconheceu uma delas de imediato: o rei William.
Por um instante, ela hesitou. Não deveria ouvir. Mas então ouviu seu próprio nome.
— … é apenas uma peça. vai se casar, queira ele ou não. — disse o rei, com frieza calculada. — Sentimentos são fraqueza. E fraqueza... não tem lugar no trono.
— E se ele resistir? — perguntou o conselheiro.
— Então Charles será moldado como plano B. Mas cumprirá seu papel. Ou perderá tudo.
sentiu o sangue gelar. Deu um passo para trás, o coração martelando no peito. Estava claro: ela não era mais do que um símbolo. Um acordo vivo.
E … não era livre.
Saiu dali antes que alguém a visse. Entrou na biblioteca como uma fugitiva, tentando acalmar a respiração. Os olhos ardiam, mas ela os manteve secos.
Enquanto caminhava pelos corredores, algo no chão chamou sua atenção — um envelope, caído bo tapete próximo à janela. Ela o pegou, reconhecendo o brasão do palácio. Mas o que realmente a paralisou foi o nome no canto:
“Para ”
Em uma caligrafia feminina e cuidadosa.
Por um instante, tudo dentro dela gritou para não abrir. Mas suas mãos já estavam rompendo o lacre.
“Ainda penso em você todas as noites. Você disse que lutaria por nós. Mas agora está se casando. Por que, ? Por que com ela? Se há alguma parte sua que ainda me ama… fuja. Ainda dá tempo.”
fechou a carta devagar, como se o papel queimasse.
Ela.
Ela era ela.
Tudo fez sentido de forma dolorosa: os olhares distantes de , a frieza repentina, a rejeição. Havia outra. Alguém que ele deixara para trás — ou pior, que talvez ainda vivesse em seu coração.
A carta caiu de suas mãos. Ela não sabia o que doía mais: ser tratada como uma peça de xadrez ou descobrir que, mesmo nessa prisão dourada, ainda estava acorrentado a outra pessoa.
Sozinha, no silêncio da biblioteca, finalmente deixou uma lágrima cair.
Ela cortava com cuidado um galho seco quando ouviu passos no cascalho atrás de si.
— Não imaginava encontrar a futura rainha ajoelhada na terra. — A voz de Charles soou com um tom leve, quase divertido.
ergueu os olhos, forçando um sorriso.
— As flores são mais honestas do que muitas pessoas na corte. Pelo menos, quando ferem, não fingem.
Charles riu, agachando-se ao lado dela, elegante demais para aquele cenário rústico. Observou-a por alguns segundos, como quem estuda um quadro valioso.
— Deve ser difícil... — murmurou, a voz mais baixa. — Ser forçada a casar com alguém que não te quer. Deve parecer um pesadelo.
Ela franziu o cenho, voltando ao trabalho.
— Não é forçado quando se tem um dever.
— Palavras lindas para alguém que está prestes a ser oferecida como uma peça de xadrez. — Ele fez uma pausa, inclinando-se um pouco mais. — Se eu fosse seu noivo, faria questão de te conquistar todos os dias. Não te desprezar.
travou. Aquilo era... sutil, mas claro. Ela se afastou levemente, o rosto corando.
— Charles...
— Me desculpe. Só acho injusto que alguém como você seja jogada aos pés de um homem que só sabe cuspir veneno. — Ele sorriu, mas seus olhos pareciam calcular cada palavra. — Você merece ser amada, .
Antes que ela pudesse responder, uma voz cortou o ar, firme como uma lâmina:
— E você deveria aprender a manter distância do que não é seu.
Charles se virou lentamente, sem surpresa, ao ver de pé, os olhos fulminando. levantou-se às pressas, sentindo o coração acelerar.
— ... — ela murmurou.
— Vejo que sua especialidade continua sendo se meter onde não é chamado, Charles. — disparou , avançando alguns passos.
— Só vim conversar com a futura rainha. Alguém precisa fazê-la se sentir acolhida, já que o noivo não parece interessado nisso. — respondeu Charles, com um sorriso provocador.
— Não se esconda atrás de palavras bonitas. Sei muito bem quais são seus jogos. — agora estava frente a frente com o primo, o tom baixo e ameaçador. — Se eu te pegar de novo perto dela com esse olhar de predador, juro que o rei Alexander vai saber por que você deveria ser exilado de Eldoria.
Charles ergueu as mãos, como se se rendesse.
— Só estou preocupado com ela. Mas se o noivo ciumento prefere gritar a cuidar...
— Saia daqui, Charles. Agora.
O príncipe recuou com um aceno teatral, e se afastou pelo jardim como se tivesse vencido, não perdido. Quando o silêncio retornou, virou-se para , ainda com a expressão tensa.
— Você não devia ouvi-lo. Ele é traiçoeiro, manipulador. E você é ingênua demais pra perceber.
Ela deu um passo atrás, magoada.
— Eu sei muito bem com quem estou lidando, . Você não precisa me tratar como uma criança.
— Então aja como uma futura rainha, e não como uma donzela encantada pelas palavras de um canalha.
sentiu as palavras como um tapa. Ele virou as costas e foi embora sem mais uma palavra, deixando-a sozinha entre as rosas, o coração apertado, as mãos ainda sujas de terra — e agora também de mágoa.
Ela permaneceu ali por alguns minutos, estática. O som dos passos de desaparecendo ecoava na sua mente como um julgamento. Apertou os olhos, tentando conter as lágrimas.
“Por que ele sempre fala como se eu fosse um fardo? Como se eu fosse o problema? Ela olhou para as roseiras à sua frente, agora borradas pela umidade em seus olhos. Eu não pedi esse casamento. Mas estou tentando. Só queria um pouco de respeito. Um pouco de... humanidade.”, pensou ela.
Charles havia sido gentil — ainda que um pouco insinuante demais. Mas pelo menos, por um breve momento, ela se sentiu vista. Compreendida.
Será que é errado querer que alguém se importe? Mesmo que não seja quem deveria?
Ela tirou as luvas sujas, respirou fundo e se levantou.
“Não posso fraquejar agora. Se for para viver esse casamento, não serei uma vítima. Serei forte, mesmo que ele me despreze.”
Ele andava rápido pelo corredor de mármore, os passos ecoando como marteladas.
Ela realmente estava ali, com ele. Sorrindo pra ele.
A raiva ardia mais do que gostaria de admitir. Mas havia também algo pior: o incômodo.
Charles não é só um idiota. Ele é perigoso. E ela... tão inocente. Tão fácil de manipular.
A imagem de , ajoelhada entre as flores, com aquele olhar confuso e vulnerável, grudava na mente dele como um espinho.
“Por que isso me afeta tanto? Não ligo pra ela. Não devia ligar. É só um acordo político... nada mais.”, indagou ele.
Mas no fundo, algo dentro dele o corroía.
Ela não deveria ouvir Charles. Mas talvez o problema não seja só Charles... talvez seja o fato de que ela começa a me ver como ele vê: um monstro incapaz de amar.
fechou os punhos.
“Ela não pode se apaixonar pelo homem errado. Mesmo que eu nunca vá ser o certo.”
Charles
Escondido pela sombra de uma coluna, Charles observava discretamente a fúria de ao se afastar e o semblante despedaçado de .
Um sorriso lento e satisfeito curvou seus lábios.
“Tão previsíveis. Ele não consegue controlar o temperamento. Ela, o coração.”
Charles ajeitou o colarinho do paletó com elegância.
“Se continuar assim, vai acabar fugindo direto para os meus braços... ou pelo menos, vai desejar isso. E esse casamento não vai durar nem até a coroa tocar suas cabeças.”, ele sorriu com o pensamento.
Ele caminhou lentamente de volta ao palácio, satisfeito com a pequena semente plantada.
“Tudo o que preciso fazer é regar com palavras doces... e esperar o momento certo para cortar as raízes do trono deles.”
Rei William
Do alto de sua sacada privada, com vista para os jardins imperiais de Eldoria, o rei William observava a movimentação lá embaixo como quem assiste a uma partida de xadrez. , ajoelhada entre as flores. Charles se aproximando como uma sombra sutil. surgindo, tenso, como sempre.
William ergueu uma sobrancelha.
— Tolo.
Não estava claro a quem se referia — poderia ser ao filho, ao sobrinho... ou a ambos. Serviu-se de uma dose de conhaque envelhecido e caminhou até sua escrivaninha, os passos lentos, mas firmes. Seus olhos, duros como pedra, não vacilaram ao examinar os documentos do casamento.
— Isso vai acontecer, queira ele ou não.
A união entre e era a jogada mais inteligente que Eldoria fizera em décadas. Um trono consolidado. Uma aliança com a casa . O fim das tensões nas fronteiras. Não era apenas casamento — era estratégia.
— é fraco demais para entender isso. Romântico demais. Como a mãe.
Havia uma ponta de desprezo em sua voz, quase imperceptível. Ele sempre quis moldar o filho à altura do trono, mas insistia em sonhar, em sentir, em desafiar.
E Charles... Charles era ambicioso, o bastante para se tornar uma ameaça. — Mas também útil, se controlado.
Chamou um conselheiro de confiança com um gesto seco.
— Mantenha Charles sob vigilância. Se ele ameaçar a integridade do casamento, quero que saibamos antes mesmo que ele respire. E ... — ele virou-se lentamente — mande lembrá-lo do que está em jogo. Que a coroa exige sacrifícios. Que sentimentos não constroem impérios.
O conselheiro assentiu e se retirou.
William voltou a encarar os jardins.
“Eles pensam que têm escolha. Mas aqui, só o dever decide o futuro.”
Allison
O sussurro das páginas sendo viradas preenchia a pequena biblioteca da ala oeste do palácio. Allison estava sentada junto à janela, fingindo ler, mas os olhos estavam fixos num ponto distante, perdidos em lembranças.
.
Ela ainda se lembrava do jeito como ele sussurrava seu nome, das noites escondidas, dos beijos desesperados como se o mundo inteiro estivesse contra eles.
E agora... ele ia se casar.
“Com aquela princesa perfeita. Intocável. Obediente.”, pensou ela.
Ela não conseguia odiar — o que era pior. A garota parecia genuinamente boa. Mas isso só tornava tudo mais cruel.
Fechou o livro com força, o som quebrando o silêncio da biblioteca.
“Ele me prometeu. Disse que lutaria por nós. Disse que o título não importava. Que o amor bastava…”
Mas ele havia recuado. Havia escolhido o trono.
Ou ao menos era o que ela dizia a si mesma. No fundo, parte dela ainda se perguntava: “E se ele está apenas tentando proteger todos nós? E se ainda me ama?”
Um súdito entrou discretamente na biblioteca, entregando um envelope. Allison o abriu com dedos trêmulos.
Era um convite. O convite oficial do casamento real.
Ela encarou o papel, os nomes gravados em dourado.
Príncipe & Princesa
Por um segundo, tudo ao seu redor ficou em silêncio.
Depois, ela levantou-se, olhos fixos no horizonte.
— Então é assim que vai ser...
Mas seu coração dizia algo diferente:
Ainda não acabou.
O sol da tarde atravessava os vitrais do corredor oeste do palácio, tingindo o mármore de tons alaranjados e vermelhos. caminhava em silêncio, os passos leves e distraídos. Tinha ido até a biblioteca buscar um livro de botânica, mas não conseguia se concentrar em mais nada desde a discussão entre e Charles no jardim.
“Você é ingênua demais, .”
As palavras dele ainda ecoavam em sua mente. Doíam mais do que deveriam. Ela não queria se importar. Não queria que aquilo afetasse seu peito. Mas afetava.
Ao dobrar um corredor mais afastado, parou subitamente. Vozes abafadas vinham de uma porta entreaberta. Reconheceu uma delas de imediato: o rei William.
Por um instante, ela hesitou. Não deveria ouvir. Mas então ouviu seu próprio nome.
— … é apenas uma peça. vai se casar, queira ele ou não. — disse o rei, com frieza calculada. — Sentimentos são fraqueza. E fraqueza... não tem lugar no trono.
— E se ele resistir? — perguntou o conselheiro.
— Então Charles será moldado como plano B. Mas cumprirá seu papel. Ou perderá tudo.
sentiu o sangue gelar. Deu um passo para trás, o coração martelando no peito. Estava claro: ela não era mais do que um símbolo. Um acordo vivo.
E … não era livre.
Saiu dali antes que alguém a visse. Entrou na biblioteca como uma fugitiva, tentando acalmar a respiração. Os olhos ardiam, mas ela os manteve secos.
Enquanto caminhava pelos corredores, algo no chão chamou sua atenção — um envelope, caído bo tapete próximo à janela. Ela o pegou, reconhecendo o brasão do palácio. Mas o que realmente a paralisou foi o nome no canto:
“Para ”
Em uma caligrafia feminina e cuidadosa.
Por um instante, tudo dentro dela gritou para não abrir. Mas suas mãos já estavam rompendo o lacre.
“Ainda penso em você todas as noites. Você disse que lutaria por nós. Mas agora está se casando. Por que, ? Por que com ela? Se há alguma parte sua que ainda me ama… fuja. Ainda dá tempo.”
fechou a carta devagar, como se o papel queimasse.
Ela.
Ela era ela.
Tudo fez sentido de forma dolorosa: os olhares distantes de , a frieza repentina, a rejeição. Havia outra. Alguém que ele deixara para trás — ou pior, que talvez ainda vivesse em seu coração.
A carta caiu de suas mãos. Ela não sabia o que doía mais: ser tratada como uma peça de xadrez ou descobrir que, mesmo nessa prisão dourada, ainda estava acorrentado a outra pessoa.
Sozinha, no silêncio da biblioteca, finalmente deixou uma lágrima cair.
Capítulo Quatro: Fragmnetos da Verdade
O frio da noite se misturava ao nervosismo que tomava conta de seus movimentos. Allison apertava o capuz sobre a cabeça enquanto caminhava entre as sombras do pátio externo, o coração batendo como tambores de guerra dentro do peito. Não era a primeira vez que se infiltrava no palácio de Eldoria… mas com o casamento se aproximando, a segurança estava mais rígida do que nunca.
Ela deslizou por uma porta lateral, uma entrada de serviço que costumava ser negligenciada à noite. Conhecia os horários, os pontos cegos. havia lhe contado tudo — quando ainda sussurrava promessas de fugir, de recomeçar, de não se curvar à vontade de seu pai.
Agora, tudo que restava era aquela carta.
A última tentativa.
Allison caminhou pelos corredores com passos silenciosos. O envelope estava bem guardado em sua capa, pressionado contra o peito. Tudo que ela precisava era deixá-lo na biblioteca, o lugar que sempre usava para respirar quando o mundo o sufocava. Mas então… vozes. Passos.
Guardas.
Ela congelou.
Com um movimento instintivo, correu para a janela mais próxima e se escondeu atrás das cortinas pesadas. Seu corpo tremia. O coração parecia querer fugir antes dela.
Os passos passaram. A conversa entre os guardas se afastou.
Mas Allison ainda tremia — e nem percebeu quando o envelope escorregou da dobra de sua capa e caiu silenciosamente no chão de mármore.
Ela saiu do esconderijo assim que pôde e correu, os olhos atentos a qualquer movimentação. Entrou no primeiro cômodo vazio que encontrou — uma antiga sala de mapas. Fechou a porta com cuidado e encostou a testa nela, tentando recuperar o fôlego.
E então percebeu.
— A carta… — sussurrou, os olhos arregalados.
Revistou os bolsos, a capa, as mangas. Nada. O envelope havia sumido. O pânico subiu à garganta como uma onda prestes a engoli-la. Não, não, não... Aquilo era tudo que ela tinha. Tudo que restava do que um dia fora amor.
Saiu da sala em disparada, voltando pelo caminho por onde viera. Os corredores agora pareciam ainda mais longos, ainda mais traiçoeiros.
Quando chegou ao ponto onde se escondera… parou.
E congelou.
Ali estava ela. A princesa. Sentada no chão de mármore, de costas para a cortina. O envelope aberto em suas mãos. Os olhos marejados.
.
Allison se escondeu novamente atrás das colunas, o mais silenciosamente possível, o coração martelando.
Ela a viu abrir a carta. Ler cada linha. E, por fim, chorar.
Chorar.
“ chora por ele? Ela sente algo por …? Ou será apenas a dor de saber que está em um casamento forçado?”, Allison se indagava.
Allison recuou alguns passos, engolindo o nó na garganta. A culpa pesou como uma âncora em seus ombros. Parte dela queria sair correndo, pegar de volta a carta. Gritar. Brigar. Mas tudo que fez foi observar.
E, pela primeira vez, sentiu-se… deslocada. Como se já estivesse do lado de fora da história.
Como se já estivesse perdido para ela.
estava procurando por paz — e, como sempre, buscou refúgio na biblioteca.
A discussão com Charles ainda queimava em sua mente. A forma como o olhara… como se ele fosse o vilão da história. Talvez fosse.
Mas ele nunca teve escolha.
Ao entrar no salão silencioso, seus olhos captaram a presença inesperada.
.
Sentada no chão entre as estantes, o vestido esparramado ao redor das pernas como uma névoa branca. As costas levemente curvadas, os ombros tensos. Ela não o viu chegar.
Mas ele viu o papel em suas mãos.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, a voz baixa, mas firme.
ergueu o olhar. Os olhos estavam vermelhos, e havia algo neles que ele ainda não tinha visto: mágoa profunda.
Raiva contida.
Ela se levantou com lentidão. A carta ainda nas mãos.
— Deveria estar me perguntando isso, Alteza? — disse, com sarcasmo suave, porém afiado.
franziu o cenho e caminhou até ela.
— O que é isso? — perguntou, olhando para o envelope. Mas, no fundo, ele já sabia. A caligrafia era inconfundível.
— Achei no chão, nos corredores. Parece que alguém perdeu algo importante. — respondeu , estendendo a carta. Ele não pegou.
— Você leu?
— Sim. Toda.
— Não devia.
— Ah, me perdoe. Achei que fosse apenas uma peça nesse jogo político. Não sabia que também estava no meio de um triângulo amoroso mal resolvido.
fechou os olhos por um breve momento.
— Não é o que parece.
— Sempre dizem isso. — Ela cruzou os braços. — Ela esteve aqui hoje, não esteve?
— …
— Você a amou?
Silêncio.
— Ainda ama?
Mais silêncio. olhou para ela com os olhos carregados de algo que ele mesmo não sabia nomear.
— Não importa.
— Importa pra mim! — a voz dela tremeu. — Porque estou prestes a me casar com um homem que mal me olha nos olhos, que me chama de ingênua, e que, agora eu sei, deixou o coração com outra. E sabe o que é pior? — deu um passo à frente — Eu comecei a me importar. Contra tudo que imaginei, comecei a desejar que fosse real. Que esse casamento, por mais arranjado e absurdo que fosse, tivesse uma chance. Mas não tem, não é? — Ele abaixou a cabeça, a respiração pesada.
— Você não sabe o que está dizendo.
— Ah, eu sei. Eu só não sei por que ainda estou aqui.
, por fim, pegou a carta das mãos dela. Dobrou devagar, sem encará-la.
— Ela não significa mais o que já significou. — disse, baixo. — Mas isso não muda o que sou. Nem o que esperam de mim.
— Pois talvez devêssemos parar de viver só pelo que esperam da gente.
Ela saiu da biblioteca com passos firmes, deixando-o sozinho.
observou a porta se fechar. E pela primeira vez, se perguntou se não tinha acabado de perder a única coisa que poderia salvá-lo de si mesmo.
ficou parado no centro da biblioteca por longos minutos, a carta entre os dedos, como se o papel queimasse sua pele.
Mentira.
Mentira.
A palavra ecoava como um tambor em sua mente. Por que ele mentiu?
“ perguntou se eu ainda amava Allison… e eu disse que não importava.
Mas importava.”, pensou ele.
E a verdade era: sim, ele ainda a amava.
Então por que negar?
Por que aquele impulso de apagar a verdade?
Foi para se enganar? Para fingir que já era outra pessoa?
Foi para proteger — poupá-la de um peso que não pediu para carregar?
Ou seria, no fundo, para proteger Allison, a única lembrança de liberdade em um mundo de correntes?
Ou, talvez, porque amar Allison doía demais. E confessar isso seria como mantê-la viva. Como manter a ferida aberta.
Ele se afundou na poltrona próxima à lareira e esfregou o rosto com as mãos. Sentia-se despedaçado entre o que foi, o que é, e o que esperam que seja.
E …
Ela não merecia aquela dor. Ela era uma vítima e apenas uma peça nesse jogo.
Mas agora talvez fosse tarde demais.
Charles
Do alto da sacada oeste, Charles observava tudo.
Viu entrar na biblioteca com uma carta nas mãos, viu entrar e depois sair da biblioteca às pressas, com o rosto ruborizado e os olhos marejados.
Viu, minutos depois, emergir por outra porta, pálido, os punhos cerrados.
Nenhum dos dois possuía nada nas mãos.
E soube.
Algo entre eles havia se rompido.
Um sorriso discreto curvou seus lábios.
Charles virou-se e caminhou pelo corredor, assobiando levemente. Sabia exatamente o que fazer.
Mais tarde, naquele mesmo dia, interceptou um dos ajudantes da biblioteca — um rapaz de confiança, novo o suficiente para ainda desejar ser notado.
— Preciso de um favor — disse Charles, com a voz envolvente e olhar condescendente. — Há uma carta desaparecida… de extremo interesse para o bem-estar do reino. Foi deixada na biblioteca, e acho que você saberá encontrá-la.
O rapaz assentiu, nervoso.
Charles se afastou, satisfeito. Já havia espalhado discretamente entre os criados rumores sobre uma “carta comprometida”, sem nunca citar nomes. Sabia que uma informação plantada no lugar certo germinava como erva daninha.
Se tudo corresse como planejava, não demoraria até que William — ou até mesmo — começasse a desconfiar do conteúdo.
Mas ele não pararia por aí.
Mais tarde, em seus aposentos, Charles começou a escrever uma carta anônima. A destinatária?
Lady Victoria de Vervaine — uma jovem da nobreza conhecida por ser próxima de e por nutrir ambições de se tornar rainha, mesmo que secretamente.
Charles não precisava que a verdade viesse à tona.
Só precisava que dúvidas começassem a nascer.
E, no caos, ele cresceria.
O silêncio do corredor parecia gritar.
andava sem rumo, como se seus pés conhecessem o caminho mesmo quando sua mente era um labirinto. A carta ainda pesava em sua memória, como se estivesse costurada à pele. A conversa — se é que podia chamar aquilo de conversa — ecoava nos ouvidos como um sussurro cruel.
havia mentido.
Ela viu nos olhos dele. Aquela hesitação. A maneira como desviou o olhar. Ele ainda amava Allison — e, por algum motivo, achou que mentir a protegeria.
Mas a mentira a feriu mais do que a verdade.
Quando chegou aos jardins internos, seus joelhos cederam. Sentou-se no banco de pedra sob a árvore de glicínias, as flores pendendo sobre seus ombros como fantasmas violetas.
Ela passou os dedos pelo tecido do vestido, agora umedecido pelas lágrimas que não conseguia mais conter. Tentou respirar fundo, conter o nó que se formava em sua garganta, mas a dor vinha em ondas — como se, por fim, seu coração estivesse permitindo sentir o que antes era só pressentido.
— Eu fui uma tola… — sussurrou para si mesma, a voz embargada.
Tentou se lembrar do motivo pelo qual havia aceitado aquele casamento. Paz. Dever. Família. Aquilo deveria ser suficiente. Mas o peso da responsabilidade pesava mais do que qualquer ideal de amor.
O casamento seria difícil. Sabia disso. Casar-se com um homem que amava outra não era fácil — e ela não teria o privilégio de poder escolher seu coração. Mas ela tinha um dever para com seu povo. Para com sua família. A aliança com a casa fortaleceria seu reino. Era isso que importava.
Não o que ela sentia.
— Alteza? — Uma voz suave a chamou.
Era Elise, sua dama de companhia mais leal, parada a poucos passos, com o semblante preocupado.
— Está tudo bem?
sorriu, mas o gesto não alcançou os olhos.
— Tudo está exatamente como deveria estar em um castelo onde mentiras vestem coroas, Elise.
A jovem se aproximou e sentou-se ao lado dela, em silêncio.
— Ele disse que não importa. — continuou , a voz trêmula —. Mas importa. Ele ainda ama outra. E eu… estou prestes a me casar com ele. E, embora eu saiba que isso não será fácil, vou seguir em frente. Porque é o meu dever. Porque é o que meu reino precisa.
Elise não disse nada, mas apertou sua mão com delicadeza, como se soubesse que às vezes não havia palavras suficientes para aliviar o peso do que carregava.
— Você é forte, alteza. — disse, por fim. — E está fazendo o que é necessário.
balançou a cabeça, a sensação de desânimo ainda dominando seu peito. Ela sabia o que precisava ser feito. Sabia que seu dever sempre teria precedência, mas o peso do sacrifício era imenso.
A dama de companhia permaneceu ao seu lado, silenciosa, como um lembrete de que, mesmo em seus momentos mais solitários, não estava sozinha.
A noite começou a cair, e o som do sino distante ecoou pelo castelo. ergueu o olhar para o céu, os olhos vermelhos, e se questionou como seria sua vida a partir daquele momento. Mas, ao olhar para o horizonte, ela sabia que não havia mais volta.
Ela seguiria seu dever. Mesmo que isso significasse abrir mão de seus próprios sentimentos.
Capítulo Cinco: O Peso do Dever
A luz suave da manhã invadia os aposentos de , refletindo nos dourados do mobiliário e nos detalhes finos de seu vestido de noiva. A antecipação do casamento pairava no ar, uma mistura de emoção e tensão, como se o castelo inteiro estivesse aguardando o momento fatídico. Embora tivesse se preparado para este dia por anos, nada poderia ter a preparado para o peso real que sentia em seu peito.
A porta se abriu, e a rainha Eleanor entrou, sua postura ereta, como sempre. Ela carregava consigo a aura de alguém que governava com a força da experiência. Seu olhar se suavizou ao ver diante do espelho, ajustando o véu.
— Está radiante, minha querida. — disse a rainha com um sorriso caloroso, embora seus olhos parecessem carregados de uma sabedoria que ainda não possuía.
olhou para o reflexo no espelho, observando o vestido elaborado, as jóias que brilhavam sob a luz suave e o peso de seu próprio reflexo. Ela não se via. Ela se via como parte de uma estratégia, como uma peça no tabuleiro real.
— Obrigada, sua majestade. — respondeu ela, embora a palavra "obrigada" soasse vazia em seus lábios. A saudade e a ansiedade a apertavam o peito, e ela sentia que a visão que tinha de si mesma estava desvanecendo, se tornando algo que não podia mais identificar.
Eleanor se aproximou e tocou o ombro de com uma mão suave, mas firme.
— Sei que você está pensando em tudo o que este casamento representa. Não é fácil, eu sei. — disse a rainha, sua voz suave, mas carregada de entendimento. — Quando me casei com o rei William, eu também não o amava. Era uma união por dever, e por muitos anos, o amor que existe entre nós não estava lá. Mas, com o tempo, eu aprendi a amá-lo. Às vezes, o que começa como uma obrigação pode se transformar em algo mais. Talvez isso aconteça com você e .
olhou para Eleanor, um olhar vazio e triste em seus olhos. Ela queria acreditar que isso fosse possível, que o tempo poderia curar todas as feridas, que o dever poderia florescer em algo mais.
— Não quero pensar nisso, senhora. — disse , interrompendo o pensamento que se formava. — Quero focar no meu dever. Este casamento não é sobre sentimentos. É sobre o que é necessário para Eldoria. Eu sei disso, e é por isso que estou fazendo o que me é pedido.
Eleanor não respondeu imediatamente, mas as palavras de foram suficientes para ela entender que a jovem princesa estava disposta a se sacrificar em nome do dever. A rainha sorriu levemente, tocando o rosto de com ternura.
— Você é forte, minha querida. Isso é algo que jamais poderá ser tirado de você. O dever exige sacrifícios, mas lembre-se: você não estará sozinha. Terá o apoio de todos nós, da nossa família.
olhou para o reflexo no espelho, finalmente absorvendo as palavras de Eleanor.
Ela não sabia se acreditava nelas, mas sabia que não tinha escolha. Sua vida seria moldada pelas decisões de outros, e o peso do dever era algo que ela teria que carregar sozinha.
Um vento gelado percorreu o corredor de pedra enquanto avançava em direção ao salão de audiências. As tochas lançavam sombras dançantes pelas paredes, refletindo seu turbilhão interior. À sua espera, encostado num capitel, estava Charles, o queixo erguido e um sorriso frio nos lábios.
— Bom te ver, irmão. — disse Charles, num tom tão gentil que fazia doer. — Imagino como deva ser complicado escolher entre a plebeia apaixonada e a princesa de Eldoria.
parou a alguns passos de distância.
— Não chamo isso de escolha, Charles. Isto é… dever.
Charles deu de ombros, fingindo não ligar.
— Dever? É bonito ouvir que você se sente tão honrado pelo seu dever. Mas, veja bem, o tempo corre. espera um consorte que a aceite, não um príncipe dividido. E digo mais: caso não tome uma decisão, não vejo problema em eu vestir aquele manto ao seu lado.
O riso contido de Charles soou como lâminas.
— Você saberia desempenhar esse papel, não saberia? Afinal, sempre foi o filho obediente, o favorito.
sentiu o sangue ferver.
— Não serei eu a abrir mão da coroa para você, Charles. Jamais.
Charles recostou-se, os olhos faiscando:
— Então decida-se, . Por Allison, e viva um amor que te condena ao exílio político ou por , e abrace seu destino. Mas não me faça esperar muito.
Com essas palavras, Charles se afastou, deixando sozinho no corredor escuro, ecoando os passos do primo e martelando sua insegurança.
Os ecos da conversa ainda reverberavam em sua mente. Em seu solar, jogou-se contra o encosto da poltrona, afundando as mãos nos cabelos.
“Escolher…” pensou. “Por que tudo em minha vida depende de escolher?”Ele lembrou-se do toque suave de Allison, do calor dos olhos dela, da promessa de um futuro longe de insígnias e intrigas. Mas também sentiu o peso do manto real, do juramento feito ao reino, do rosto de — tão serena, tão impassível — esperando um consorte digno.
Ele estava dividido entre a paixão que o consumia e o dever que o consumava. Não havia saída fácil. Se cedesse ao coração, arriscaria não só o trono, mas o equilíbrio político que garantira paz aos dois reinos. Se escolhesse o dever, sacrificaria a última fagulha de liberdade que ainda lhe restava.
“Será que alguém neste jogo realmente é livre?”, pensou ele.
A cada suspiro, a convicção de que não podia mais fugir crescia. Ele precisava decidir — antes que Charles o forçasse a sair do tabuleiro de vez.
Charles
No gabinete de estudos, Charles passou os olhos por antigos mapas e registros de aliança enquanto traçava mentalmente o próximo passo. Cada pedaço de notícia sobre Allison tornava o labirinto de mais estreito — e seu próprio caminho, mais claro.
Ele incluiu no plano um criado da biblioteca, um mensageiro de confiança e um fragmento da carta de Allison, pronto para ser usado como prova do “escândalo” que destruiria o prestígio de . A trama avançava pelas sombras, silenciosa como veneno.
Quando soube que o rei desejava conversar novamente com seu filho, Charles foi ao encontro de William nos salões mais altos do castelo. O velho tronava diante de uma lareira, o rosto grave.
— Majestade — disse Charles, ajoelhando-se ligeiramente —, sei que pondera o futuro de Eldoria com peso no coração. Se hesita, estou pronto para assumir o papel que o reino exige.
O rei ergueu o olhar, interessado.
— Você seria um bom consorte para ?
Charles inclinou-se novamente, com deferência.
— Majestade, servi o reino em silêncio por anos. Conheço os deveres, entendo as alianças. Minha lealdade nunca vacilou. Quando precisar de um homem que a respeite e defenda Eldoria, eu estarei a seu lado, sem sombras do passado.
William estranhou a convicção na voz do sobrinho, mas sorriu de leve:
— Então esteja preparado. Se continuar a se recusar, juro que sua promessa será posta à prova.
Charles ergueu-se, confiante.
— Que assim seja. Falarei com em breve. Ela encontrará em mim não só um consorte, mas um herdeiro verdadeiramente comprometido.
Saindo do salão, Charles carregava a certeza de que o trono estava cada vez mais perto de sua cabeça — bastava esperar que as peças se mexessem exatamente como previra.
estava sentado perto da janela, olhando para o horizonte, seu olhar perdido. A carta de Allison ainda estava em seu bolso, mas ele a mantinha longe dos olhos de todos. Não sabia mais o que fazer com aquele amor proibido, aquele laço que parecia impossível de quebrar, apesar das tentativas.
A porta se abriu com um estrondo. O rei William entrou com uma expressão severa no rosto. O ar entre os dois se encheu de tensão, e se levantou imediatamente.
— . — disse o rei, sua voz cortante, sem preâmbulos. — O que é isso que estou ouvindo sobre Allison? Ela esteve no castelo, e eu não soube de nada?
sentiu um nó se formar em seu estômago. Ele sabia que não poderia mentir para o rei, mas também sabia que essa conversa não seria fácil.
— Ela... não deveria ter vindo — disse com uma voz baixa, tentando controlar sua reação. — Eu mandei que ela se afastasse, pai. Eu sei o que está em jogo.
O rei William caminhou até ele com passos pesados, seus olhos fixos nos do filho, que sentia a pressão de cada palavra.
— Eu sei que você não pode simplesmente apagar sentimentos, , mas você não pode continuar com essa indecisão. O reino precisa de estabilidade, e essa estabilidade vem com o casamento com . E agora, você tem duas opções: ou você coloca fim a essa história com Allison, ou então vou tomar medidas mais drásticas.
olhou para o pai, seus olhos queimando de frustração. Ele sabia o que aquilo significava.
— Não posso fazer isso — disse ele, sua voz grave. — Eu não posso simplesmente virar as costas para aquilo que sinto. Eu sei o que você quer que eu faça, mas eu não posso.
O rei William parou diante dele, seu olhar feroz e determinado.
— Se você não se decidir, , casarei com Charles. E, se isso acontecer, vou garantir que a coroa seja passada para ele. Charles está pronto para governar. Você... você não tem mais a opção de continuar a viver na dúvida.
A tensão no ar era palpável. sentiu a força das palavras do rei. Ele estava sendo empurrado para uma decisão que não queria tomar, mas que poderia mudar tudo.
Por um momento, o silêncio pairou na sala. O olhar de encontrou o do pai, e, finalmente, com uma expressão de desprezo, ele falou:
— Jamais deixarei o reino nas mãos de um canalha como Charles. Se for necessário, sacrificarei tudo, mas não permitirei que ele tome o que é meu. Ele não tem a honra que Eldoria merece.
O rei William franziu a testa, claramente insatisfeito com a resposta, mas sabia que não poderia mais empurrar . A decisão estava tomada.
Com um último olhar para o filho, o rei se virou e saiu da sala, deixando sozinho com seus próprios pensamentos turbulentos.
Continua...
Nota da autora: Peço perdão pela demora! Estava muito corrido e, por isso, trago uma att dupla pra vocês! Obrigada pelo carinho com BBTC! Até a próxima!
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Um Verão Inesquecível
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