Prólogo
O vento gélido em pleno outono era um claro sinal de que o inverno seria rigoroso em Michigan. O clima ameno misturava-se com o cheiro das folhas amareladas espalhadas por toda a cidade e trazia um aroma especialmente agradável ao olfato.
Mesmo ainda distante do inverno, as pessoas já passavam com seus belos casacos, alguns até com cachecóis. sorria ao ver uma criança passando pela janela com um cachecol quase do seu tamanho. Ela amava crianças.
O som dos pratos da bateria invadiram seu implante coclear e lhe causou um arrepio no meio da coluna cervical. Apesar de tantos anos usando o aparelho, ainda estranhava barulhos extremamente altos.
Não que ela não gostasse ou se importasse muito, porém ainda havia um quê de sensibilidade na sua audição tecnológica, como ela mesma falava. Nick fez um aceno, no qual Tris retribuiu instantaneamente. Nate chegou também junto com Hazel e os cumprimentou, logo em seguida começou a afinar seu baixo.
Hazel caminhou em direção à Tris e passou os braços ao redor da amiga, abraçando-a calorosamente, como sempre fazia. sorriu largamente e depositou um beijo na bochecha da amiga.
— Eu amo quando você vem na garagem, . Sua companhia deixa nosso ensaio ainda mais alegre. – Hazel disse, fazendo a amiga sorrir novamente.
— Diga por você. – uma voz grave e rouca falou, aproximando-se. Era .
— Não começa, .
— Não entendo o motivo dessa garota sempre estar aqui, sendo que ela nem gosta. Aliás, o deus dela nem permite ela se misturar com os meros mortais pecadores. – o rapaz despejou as palavras de forma ácida. Apesar da grosseria, não sentia raiva de . Pelo menos, na maioria das vezes.
— É porque eu gosto de olhar para sua cara feia, . – a garota respondeu, fazendo os demais rirem.
— Eu acho que é bem o contrário, . Acho que você não consegue ficar longe de mim e que minha repulsão te atrai. – ele disse e seu corpo tremeu um pouco, arrepiando os pelos de seus braços. tentou esconder, mas a garota foi mais rápida e sorriu.
— Será mesmo, ?
— Vai se foder, .
Mesmo ainda distante do inverno, as pessoas já passavam com seus belos casacos, alguns até com cachecóis. sorria ao ver uma criança passando pela janela com um cachecol quase do seu tamanho. Ela amava crianças.
O som dos pratos da bateria invadiram seu implante coclear e lhe causou um arrepio no meio da coluna cervical. Apesar de tantos anos usando o aparelho, ainda estranhava barulhos extremamente altos.
Não que ela não gostasse ou se importasse muito, porém ainda havia um quê de sensibilidade na sua audição tecnológica, como ela mesma falava. Nick fez um aceno, no qual Tris retribuiu instantaneamente. Nate chegou também junto com Hazel e os cumprimentou, logo em seguida começou a afinar seu baixo.
Hazel caminhou em direção à Tris e passou os braços ao redor da amiga, abraçando-a calorosamente, como sempre fazia. sorriu largamente e depositou um beijo na bochecha da amiga.
— Eu amo quando você vem na garagem, . Sua companhia deixa nosso ensaio ainda mais alegre. – Hazel disse, fazendo a amiga sorrir novamente.
— Diga por você. – uma voz grave e rouca falou, aproximando-se. Era .
— Não começa, .
— Não entendo o motivo dessa garota sempre estar aqui, sendo que ela nem gosta. Aliás, o deus dela nem permite ela se misturar com os meros mortais pecadores. – o rapaz despejou as palavras de forma ácida. Apesar da grosseria, não sentia raiva de . Pelo menos, na maioria das vezes.
— É porque eu gosto de olhar para sua cara feia, . – a garota respondeu, fazendo os demais rirem.
— Eu acho que é bem o contrário, . Acho que você não consegue ficar longe de mim e que minha repulsão te atrai. – ele disse e seu corpo tremeu um pouco, arrepiando os pelos de seus braços. tentou esconder, mas a garota foi mais rápida e sorriu.
— Será mesmo, ?
— Vai se foder, .
Capítulo Um: Cidade Nova, Novos Encontros
Detroit, MI
Agosto, 2023.
Os últimos dias estavam sendo bem caóticos. Mudar de escola, de igreja, de país… Tudo isso não era nada fácil e rápido, como mostram nos filmes por aí. É extremamente exaustivo e muito burocrático. Exaustivo, pois havia dezenas de objetos para embrulhar, ter todo cuidado com objetos frágeis, decidir o que iria ser doado e o que levaríamos. Encaixotar, dispensar os caixotes para o caminhão de mudança. Encaixotar, dispensar para nossa igreja enviar para doação. Foi um ciclo que parecia sem fim, até realmente chegarmos ao fim.
Burocrático, pois eram muitas papeladas. Havia a papelada da minha escola, já que precisaríamos do meu histórico, de declarações… Era um assina aqui, assina acolá, cópia disso, cópia daquilo. Mamãe estava histérica, algo que parecia ser simples se tornara uma dor de cabeça.
Mamãe havia conseguido uma sociedade com um consultório até que rápido, contudo também havia uma série de documentos para serem vistos e anexados, principalmente o CCC-SLP¹, que mamãe teve que correr contra o tempo para conseguir e a autorização do ASHA² e graças a Deus esse segundo foi mais fácil e rápido, já que minha mãe era uma das fonoaudiólogas mais conhecidas de Vancouver. Acho que até do Canadá inteirinho.
Devido ao cargo importante que meu pai tem, não tivemos tanta dificuldade para conseguirmos o visto permanente, apesar de ter sido bem burocrático em relação às papeladas que foram entregues à embaixada americana no Canadá. Porém, não foi preciso de entrevistas e outros tipos de empecilhos e contratempos.
Fazia uma semana que tínhamos chegado e papai já estava alocado no trabalho, enquanto mamãe terminava os últimos ajustes para começar atender no novo consultório. Enquanto eu, estava terminando de me arrumar e ir conhecer um pouco Detroit.
Já havia viajado para os Estados Unidos, conheci a Disney quando criança e também uma viagem escolar há dois anos para New York. Mas, nunca havia colocado os pés em Detroit antes da mudança.
E por falar em mudança, não foi tão fácil “desapegar” de Vancouver e de tudo que ficou para trás. Apesar de não ter tantos amigos, eu gostava bastante da escola e de todos da minha antiga igreja. Sorri ao lembrar deles. Alguns dias antes, fizeram uma despedida muito linda para minha família e ali senti todo amor que cada um sente por nós. Com isso se tornou ainda mais difícil a despedida, o desapego.
Saí um pouco de meus pensamentos e voltei minha atenção para o que estava à minha frente. Detroit era uma cidade muito encantadora, com paisagens lindas e o que falar dos lagos? Parece até uma pintura!
Meu local favorito – até o momento – era a Belle Isle State Park, uma espécie de ilha dentro da cidade, com vários lagos e belíssimas árvores. Era para lá que eu estava indo no momento. Apesar de ser um pouco distante de casa e ter que pegar um metrô e um ônibus para chegar no local, eu tinha prazer em ir até o parque e passar horas e horas apenas admirando tudo.
Caminhava bem devagar, enquanto observava o que estava ao meu redor: passarinhos voando para lá e para cá, pessoas conversando, tirando fotos e… um rapaz tocando violão próximo à fonte. Parei e observei-o a dedilhar as cordas do violão em uma melodia bonita, porém ao mesmo tempo triste. Acredito que meu olhar deveria estar queimando suas costas, pois ele virou o rosto em minha direção e me encarou por uma fração de segundo e voltou sua atenção para o instrumento que carregava.
Tirei minha atenção dali e voltei a caminhar devagar e sentei-me em um banco em frente a um dos lagos, observando uma senhorinha alimentar os passarinhos. Inspirei lentamente, sentindo os aromas daquele local que tanto transmitia paz.
Suspirei fundo antes de abrir a porta do carro. Meu pai falara para eu ter cuidado e procurar ajuda na secretaria se tivesse dúvidas ou me sentisse perdida. Enquanto minha mãe falara para eu ser gentil e fazer novas amizades.
Essa preocupação dos meus pais às vezes era necessária, mas muitas vezes era exagerada. Entendo que eles querem o melhor para mim e isso faz com que eu os ame ainda mais, porém tem momentos que eles conseguem ser demais.
Comecei a caminhar em direção à porta principal e olhei ao redor. Garotos saindo de carros, grupos e mais grupos de garotas rindo e falando alto, professores caminhando apressadamente… era essa atmosfera que me cercava naquele momento e eu já me sentia completamente perdida.
Papai havia comentado que uma mulher chamada Susan Clark – diretora da escola – iria estar na porta principal me esperando. Continuei caminhando e realmente havia uma senhora parada na escadaria que havia em frente à porta. Seus cabelos eram curtos, batendo no pescoço e havia algumas mechas grisalhas, que a deixava com um ar sério e elegante ao mesmo tempo.
— Senhorita ? – a mulher perguntou e eu acenei com a cabeça. – Seja bem-vinda à nossa escola.
— Muito obrigada, mrs. Clark. – respondi com um sorriso.
— Me acompanhe. – ela disse e eu a segui. A escola era bem maior do que a que eu estudava em Vancouver. As cores vermelha e branca com certeza eram as cores do local e harmonizava muito com a energia que vinha dele.
Logo ao passarmos pela portaria principal, haviam três longos corredores: um no lado direito e um no esquerdo, o outro à frente, como uma reta. Haviam placas direcionando os locais e suspirei aliviada, pois talvez isso tornasse minha adaptação um pouco mais fácil.
A diretora Clark virou à esquerda e seguiu reto. Pelo que a placa mostrara na entrada, esse era o caminho para a diretoria e toda a parte docente, também era onde tinha a enfermaria. Gostei desse lugar, aparentemente é bem organizado, pensei. Mrs. Clark parou em frente à uma porta com uma placa escrito secretaria e abriu logo em seguida.
Haviam duas mesas à esquerda e uma maior a direita e em todas haviam mulheres sentadas. A diretora caminhou em direção a mesa à direita, onde uma mulher na casa dos quarenta anos estava digitando rapidamente em um computador.
— Com licença, senhorita Johnson. Essa é , nossa aluna transferida do Canadá. – anunciou a diretora, fazendo com que a outra tirasse os olhos da tela e me olhasse com curiosidade.
— Prazer, senhorita . Seja bem-vinda à Lincoln High School.
— O prazer é meu e obrigada! – respondi.
— Bom, . Lily te entregará sua grade de horários de acordo com as escolhas que seus pais nos passaram. – a diretora disse, enquanto Lily me entregava os horários.
Química II era o primeiro horário, também terei Literatura Inglesa I, Álgebra II e Economia e os dois últimos tempos é de Música, li com meus pensamentos.
— Obrigada, senhorita Lily. – eu falei.
A diretora fez um gesto e me chamou para sairmos. Me despedi de Lily e acompanhei Mrs. Clark, que agora caminhava em passos mais rápidos.
— Desculpa a pressa, . Tenho uma reunião daqui há pouco e o sinal já tocou, não quero que você perca aula. – ela começou a falar. – Lily também te entregou um folheto com um mapa, explicando cada sala que temos aqui. Espero que você goste do Lincoln, tenho certeza que terá um ano letivo proveitoso. – a mulher parou em frente à uma sala onde tinha uma placa escrito Química II. Bateu na porta e logo em seguida abriu.
Passei os olhos por toda a sala, um pouco nervosa, já que tudo era muito novo, incluindo todos os rostos que me encaravam de volta. Voltei minha atenção para a diretora, que agora falava com um homem, cuja idade deveria ser por volta dos cinquenta anos.
— Mr. James, essa é a aluna novata que falei na reunião. , da 11th grade.
— Seja muito bem-vinda, senhorita . – disse o professor e fez um gesto para que eu entrasse. A diretora Clark saiu, me deixando naquela sala cheia de estranhos. — Por favor, , apresente-se.
— Olá, bom dia à todos. – iniciei um pouco nervosa e com a voz um pouco trêmula. Pigarreei, tentando tirar o tremor e o nervosismo de minha voz. — Meu nome é e vim transferida do Canadá.
— Bem-vinda! – um coro uníssono respondeu e eu apenas sorri timidamente.
— Senhorita , pode sentar ao lado da senhorita Ross. Pode fazer dupla com ela durante as aulas de laboratório.
Mr. James apontou para uma garota loira de olhos esverdeados que sorria largamente enquanto eu caminhava em sua direção. Quando me aproximei, ela afastou seus pertences para que eu colocasse os meus ali.
— Olá! Prazer, sou Hazel Ross e a pessoa mais maneira desse lugar! – ela disse extremamente animada, me fazendo dar uma risada.
— Até a novata riu achando que é piada, Ross. – minha atenção desviou para a voz que falara com acidez e escárnio. Um garoto com cabelos escuros, desgrenhados e olhos tão escuros quanto os cabelos, sorria de lado e identifiquei como um sorriso totalmente irônico.
— Cala a boca, ! Não se mete onde não foi citado. – a garota retrucou, mas logo voltou a sua atenção para mim. – Então…
— Ah, desculpe! Meu nome é , como disse, mas pode me chamar de .
— Por que você veio morar aqui? – perguntou Hazel, claramente curiosa. Ela era bem direta e eu sorri, pois a garota parecia ser bem legal.
— Senhorita Ross, peço encarecidamente que você preste atenção na aula e deixe a novata prestar atenção também. – disse o professor e um coro de gritos ecoou na sala. – Silêncio! Prestem atenção!
— No intervalo quero saber tudo sobre você, tá? – Hazel sussurrou e eu assenti.
Nesse primeiro momento, tínhamos duas aulas seguidas de Química II, sendo que a primeira era voltada para teoria e a segunda era prática laboratorial. Apesar de não gostar muito dessa matéria, até que foi divertido, pois Hazel com certeza deixava as coisas melhores.
O sinal tocou, nos alertando que o fim da aula chegou e agora teríamos o intervalo do lanche. Apesar de saber que havia uma cantina, eu trouxera meu lanche de casa, pois não gosto muito de comidas industrializadas e eu sabia que boa parte do lanche oferecido era.
Estava caminhando em direção à porta quando uma mão puxou meu braço. Era Hazel, que agora tentava correr e me puxava ao mesmo tempo. Não sabia para onde a garota estava me levando, mas descobri assim que passamos pelas enormes portas do refeitório.
O local era bem grande, coberto de diversas mesas por todo o local. No lado esquerdo ficava a cantina – onde podíamos comprar – e do lado ficava o refeitório. Hazel continuou me puxando e percebi que era em direção à cantina.
— Não tem quem faça eu comer a comida daqui. Vem, vamos comprar algo! – a garota disse e a segui. Chegando no balcão, Hazel olhava avidamente para as opções. Seu olhar desviou para o meu e percebi sua testa franzir. – Você não vai escolher?
— Eu trouxe. – respondi e levantei minha bolsa térmica. Ela apenas balançou a cabeça e escolheu duas fatias de pizza e um copo de refrigerante.
Após pagar, Hazel me chamou e eu continuei em seu encalço. Ela parou em frente à uma mesa mais ao fundo, onde três garotos estavam sentados e eu pude reconhecer um deles.
— E aí, feiosos! – Hazel disse, sentando-se logo em seguida.
Eu continuei parada, mas a garota balançou a mão e indicou o lugar ao seu lado. Me sentei e percebi que estava de frente para o rosto não tão desconhecido.
— Essa é a , veio do Canadá.
— E aí! – dois dos três falaram uníssono.
— Por favor, não sejam esquisitos e assustem a garota no primeiro dia de aula dela. – Hazel falou, me fazendo soltar uma risada fraca. – Esses são Nicholas, meu irmão, Nathan e . Mas, o você conheceu já.
— Então, … – começou o garoto que eu acreditava ser Nicholas, já que era bastante parecido com Hazel.
— Quem disse que eu a conheci? – retrucou . – Só a vi na sala.
— Deixa de ser azedo, . – respondeu Hazel e revirou os olhos.
— Então, como eu ia dizendo, … O que a trouxe a esse fim de mundo? – perguntou Nicholas com curiosidade.
— Meu pai recebeu uma promoção e tivemos que nos mudar. – comecei. – Ah, pode me chamar de . Nicholas, né?
— Sim e já que é assim, pode me chamar de Nick e o meu amigo aqui, pode chamar de Nate.
— Você curte rock, ? – perguntou Nate.
— Na verdade, não.
— E o que você curte, então? – Perguntou Hazel. – Pop, kpop?
— Não. Vocês não entenderiam. – falei baixo. Senti um par de olhos me fitando. Era que me olhava com uma expressão que não pude descrever o que era.
— Tenta. – disse Nick. – Estamos perguntando, pois temos uma banda de rock chamada Wrath.
— Que bacana!
Eu estava sendo sincera. Apesar de tudo, música é uma das melhores coisas que existe.
— O que é isso no seu ouvido? Alguma espécie de fone novo? – perguntou ).
— Meu Deus! Era isso que eu tava falando quando falei para não serem esquisitos. – disse Hazel. – Vocês são da polícia ou jornalista para encherem a garota de perguntas?
— Tudo bem, Hazel. – falei e me virei, voltando meu olhar para . – Não, . Não é um fone moderno. É um implante coclear e eu uso, pois perdi boa parte da audição quando criança, ou seja, eu sou surda.
— Maneiro! – Nick e Nate disseram uníssono.
— Então, respondendo a outra pergunta… Eu prefiro músicas clássicas e gospel, pois sou cristã protestante. – falei sorrindo, passando os olhos pelos garotos, até que o olhar de me chamou a atenção. Dessa vez seus olhos não estavam indecifráveis, mas passava uma sensação ruim… Raiva? Ódio?
— Bem que notei algo ruim.
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¹CCC-SLP: Certificate of Clinical Competence in Speech-Language Pathology. É um certificado profissional concedida pela American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) para fonoaudiólogos nos Estados Unidos.
²ASHA: American Speech-Language-Hearing Association é a principal organização profissional para fonoaudiólogos e audiologistas nos Estados Unidos.
Capítulo Dois: Encontros Desagradáveis
Detroit, MI
Agosto, 2023.
Desde o momento em que o despertador, que fica ao lado da minha cama, tocou eu sabia que teria um dia de merda. Ainda grogue de sono, bati no objeto com intuito de desligar e parar com aquele barulho infernal, mas para o meu azar, minha mão bateu no meu celular, fazendo com que o mesmo caísse com a tela virada para o chão e eu sabia que havia trincado antes mesmo de apanhá-lo do chão.
Conferi o estrago feito e me virei para tomar um banho e tentar tirar o peso do estresse, quando bati o mindinho no pé da cama, que me fez soltar um grunhido. Mas que porra!, pensei.
E tudo só piorou quando cheguei no inferno chamado Lincoln High School e tive que aguentar a aula chata de Química II, além do falatório incansável de Hazel Ross com a novata, transferida do Canadá.
E por falar nela, já não fui com a cara dela. Tá, sei que não sou lá a pessoa mais sociável e que devo odiar 99% das pessoas ao meu redor, porém algo no semblante de boa moça que emanava dela me enojava um pouco.
É que eu não aguento a hipocrisia das pessoas quando tentam, a todo custo, passar uma visão daquilo que elas não são, principalmente aqueles que querem demonstrar ser bons demais, amigáveis demais, simpatia demais.
E era isso que mais emanava. Doçura demais e uma grande máscara de garota boazinha demais.
O som do sinal, avisando que o intervalo chegara, tocou e eu corri para o refeitório para encontrar meus amigos e companheiros de banda. Comprei qualquer coisa na cantina, apenas para fazer com que meus dentes trabalhassem junto com a minha mandíbula e me sentei junto com Nate e Nick.
— Você viu Hazel? – Nick perguntou pela irmã caçula.
— Não, mas deve estar por aí com a nova mascote dela. – respondi dando de ombros. Nate e Nick se entreolharam e me encararam, mas antes que eu pudesse explicar, uma voz estridente soou nos meus ouvidos.
— E aí, feiosos! – a caçula da família Ross disse e sentou-se, enquanto a outra continuou em pé. Hazel fez um gesto para a garota sentar ao seu lado. – Essa é , veio do Canadá.
Enquanto os demais puxavam um papo com a garota, enquanto eu apenas observava tudo calado. Fitei a garota, que respondia às perguntas com um sorriso um tanto tímido. Ela afastou o cabelo dos olhos, colocando-o atrás da orelha e um objeto me chamou atenção.
— O que é isso no seu ouvido? Alguma espécie de fone novo? – perguntei, mas imaginava o que poderia ser.
— Meu Deus! Era isso que eu tava falando quando falei para não serem esquisitos. – disse Hazel. – Vocês são da polícia ou jornalista para encherem a garota de perguntas?
— Tudo bem, Hazel. – falei e me virei, voltando meu olhar para . – Não, . Não é um fone moderno. É um implante coclear e eu uso, pois perdi boa parte da audição quando criança, ou seja, eu sou surda.
O que saiu dos lábios dela a seguir não me agradou nenhum pouco e que me fez entender o motivo de não ter ido com a cara de :
— Então, respondendo a outra pergunta… Eu prefiro músicas clássicas e gospel, pois sou cristã protestante.
Senti um êmbolo na garganta se formando e parecia que eu vomitaria a qualquer momento. Como não notei isso, sendo que ela deu todas as características desde o início?, me perguntei.
— Bem que notei algo ruim. – as palavras saíram sem que eu percebesse e me olhou com uma cara sem entender nada. Sua boca se abriu e acredito que ela iria perguntar o que eu queria dizer com isso, mas antes que ela pudesse dizer algo, Hazel falou:
— Não começa, . – ela disse entredentes. Poucas vezes Hazel falava sem ironias e brincadeiras e eu sabia exatamente que esse era um desses momentos.
— Começar com o quê? – perguntei dando de ombros. – Saiu sem querer.
— Eu te conheço há mais de dez anos, . Não me trata como uma idiota.
— Porra, não comecem com isso aqui, não. – Disse Nate. Meus olhos foram de encontro aos dele, entretanto rapidamente voltei minha atenção para as duas sentadas à minha frente. continuava com a expressão de que não entendia nada.
— Por favor, e minha irmãzinha que não pode ver uma treta. Me ajudem. – Nick comentou.
— Gente, não estou entendendo nada. Alguém pode me explicar? – finalmente falou e era essa pergunta que eu esperava. Sorri de lado e pude ver a expressão de desgosto no rosto da pequena Ross, que sabia o que eu responderia.
— É que eu não suporto gente hipócrita que se esconde atrás de religião, baby.
— Você nem me conhece.
— E nem quero conhecer.
— , para! Seu showzinho já deu por hoje. – Hazel se intrometeu.
— Uau, Ross. Mal conhece a garota e já está defendendo? Ela já sabe? – perguntei. Hazel ficou em silêncio e isso bastava para mim.
— O que é que eu preciso saber? – perguntou , fazendo com que eu desviasse a atenção para ela.
— É que sua nova amiga…
— , não se meta! — Disse Hazel, firme, mas não dei atenção. Continuei olhando no fundo dos olhos de e disse suavemente:
— Hazel Ross é bi.
— Qual o problema? – perguntou, com uma expressão de dúvida no rosto.
— E você não se importa? – me olhou como se eu fosse um extraterrestre.
— Por qual motivo eu me importaria com quem outra pessoa se relaciona ou deixa de se relacionar? – ela questionou e antes que eu pudesse respondê-la, continuou: – Você é doido, é? – meus amigos riram. Exatamente isso que aconteceu.
Virei piada por parte dos meus amigos, enquanto essa crentezinha zomba de mim. Realmente, como diz esse povo, o mundo está se acabando, é o apocalipse. Respirei fundo. Passei os olhos por meus amigos até notar que Nick me encarava profundamente e eu conhecia aquele olhar. Sabia que era um pedido para cessar aquela discussão, pois ele sabia o que poderia vir a seguir.
Nicholas Ross era meu melhor amigo desde… sempre. A real é que, desde que eu me lembro, nós somos amigos e se existe alguém que me conhece melhor do que eu mesmo, esse alguém é ele. Nick sabia o que viria e seu olhar suplicava que eu não continuasse. Contudo, era mais forte do que eu. Não conseguiria parar até vê-la implorando para que assim eu fizesse.
Talvez possam pensar que eu estou exagerando já que não a conheço, não sabia nada além do seu nome e que era canadense. Que talvez eu seja um babaca sem noção e que estava pegando pesado com uma garota que, aparentemente, é educada, boa moça e gentil, mas eu posso ler entrelinhas. Posso ver além do que as aparências não transcendem.
Por trás desse lado mocinha, gentil e educada, que mostra como é reta e íntegra, que segue fielmente os caminhos de Deus, que em a bíblia como um mantra, tem sempre, sempre uma hipocrisia, egoísmo e preconceito disfarçados de: “por que a bíblia diz que é assim”, “ah, mas na bíblia isso é pecado”. Pessoas que fazem coisas que - para eles - são erradas e culpam o diabo por isso.
É exatamente por esses motivos que eu não sinto remorso ou qualquer tipo de arrependimento quando digo e tenho atitudes como as que eu estou tendo agora. É por isso que ignorei o olhar do meu melhor amigo e respondi:
— Uau, senhorita ! Pensei que seu livro de fantasia sagrado e o seu deus desaprovassem esse tipo de coisa. Acho que é a primeira vez que vejo uma crente não tão crente assim. – olhei para os meus amigos que me olhavam em desaprovação. – Vocês não, galera? – percebi pela visão periférica que Hazel estava com os punhos cerrados e o peito estufado, pronto para me dar uma resposta recheada das palavras mais horrendas possíveis. Sorri.
— Eu não sou Deus, . E nem você é o dono da verdade absoluta. Você é só um idiota metido a sabe tudo, mas não sabe de nada. – eu dei uma gargalhada. A garota levantou-se. – Tenho pena de você, . Você acha que me atinge falando mal de Deus para mim ou usando esse humor ácido, mas a única coisa que sinto é pena. – pegou a mochila e olhou para Hazel. – Hazel, estou indo. Não sou bem-vinda no seu grupo e, talvez, eu nem queira ser. Obrigada pelo almoço. Você tem meu número, me liga.
— Ei, gatinha! Volta aqui, estava tão divertido! – Disse rindo, mas meu corpo tremia de raiva.
Quem essa garota pensa que é para dizer que tem pena de mim? Dispenso a pena ou qualquer coisa que venha da corja da qual ela faz parte.
— , você passou dos limites. – Nathan disse.
— E desde quando ele conhece a palavra limites, Nate? – agora foi a Hazel. Qual é? Meus amigos ficaram contra mim mesmo?
— Você vacilou, bro. Sempre fico do seu lado, porque também não suporto a hipocrisia de cristãos como o santo Gabriel de Literatura Inglesa, mas você nem conhece a novata. – Nick começou o sermão dele, estava demorando. – Aliás, nenhum de nós conhecemos. A única pessoa que teve um contato maior com ela foi Hazel e ainda sim não pode falar do caráter da garota, ainda é cedo.
— Não preciso conhecer para saber. Sinto cheiro de gente hipócrita de longe. Vocês sabem como é esse tipo de gente.
— não é assim. – disse Hazel num sussurro.
— ?
— É, . . É o apelido dela. – deu de ombros e apenas acenei com a cabeça.
— Você não a conhece para dizer que ela não é assim, Ross.
— Você também não. Não pode chegar e simplesmente vomitar palavras estúpidas em cima de uma pessoa que você não trocou nem meia dúzia de palavras, . – Nick disse.
— Me dói dizer isso, do fundo da minha alma, mas meu irmão está certo. Você não pode viver de suposições e achar que é o dono da verdade, como ela disse agora a pouco. – Hazel respirou antes de continuar. – Todos aqui respeitam seus sentimentos e sua crença, ou melhor descrença. Porém, nem todo cristão é igual. Porra, tem muita gente canalha na minha religião, na verdade, em qualquer uma. Aliás, tem gente ruim, hipócrita em todos os lugares, incluindo no meio ateu.
— Eu sei. – concordei baixo.
— Se sabe, deixa de ser babaca e não se iguale a esse povo. – já ia protestar, quando Hazel levantou a mão, impedindo. – É, , talvez seja difícil de perceber, mas agindo assim, você se iguala a esse tipo de gente que não respeita o outro.
O melhor momento da semana eram os dias em que tínhamos ensaio após as aulas, principalmente quando esse dia era sexta-feira. Infelizmente, não era sexta, mas tinha ensaio, então isso fazia com que o meu humor melhorasse 100%.
Apesar do que acontecera mais cedo no refeitório, minha mente logo lembrou que haveria ensaio e isso me deixou animado.
Nós teríamos um show no Millian Club daqui umas semanas e estávamos fazendo os últimos ajustes para que tudo ocorresse bem e da melhor maneira possível.
Dizer que a Wrath surgiu por acaso pode soar um tanto clichê, mas foi o que aconteceu. Eu sempre gostei de instrumentos musicais e todos que eu toco – piano, violão, baixo, bateria, saxofone e guitarra, o último sendo minha grande paixão –, aprendi sozinho, apenas com o desejo de tirar algum som.
Nate e Nick são meus maiores amigos, sendo que Nick é meu amigo desde que me entendo por gente. Nate morava na Califórnia e mudou-se para cá há uns anos e desde que nos trombamos, viramos amigos.
Ele aprendeu a tocar violão ainda quando usava fraldas – segundo ele –e, com isso e o estímulo de seu pai que é o maior fã de rock que eu conheço, ele aprendeu a tocar outros instrumentos até chegar no baixo, seu instrumento favorito.
Nick não era muito ligado a instrumentos, mas sempre gostou muito de música, mas entrou na minha onda porque sempre quis formar uma banda e juntei o útil ao agradável ao dizer para ele que bateristas eram conhecidos por pegar muitas gostosas por aí. Resultado: na semana seguinte meu amigo apareceu com uma bateria e um professor. Digo que ele nasceu para a bateria, já que em pouco tempo já estava mandando um som maneiro.
A única que realmente caiu de paraquedas foi Hazel. É a irmã mais nova de Nick e sempre convivi com ela, já que eu só andava grudado no meu amigo e a Ross mais nova sempre estava junto.
Porém, só trocávamos poucas ideias, até que em um feriado, nossas famílias se juntaram e viajamos. Enquanto dedilhava no meu violão uma música do Paramore, Hazel, apenas brincando, começou a cantar, o que surpreendeu a todos nós. Já tirávamos um som nós quatro, apenas por diversão, já que não tínhamos um vocal. Porém, naquele momento, minha mente se iluminou e pensei que daríamos uma banda maneira.
Por sorte, Hazel achou bacana fazer parte de uma banda e assim, começamos. A princípio, só era um som por diversão e por isso, não nos preocupamos com nomes. Mas então, Hazel gravou um story do nosso ensaio e apareceram pessoas querendo nos pagar para tocar em bares, pubs e então começamos a pensar em um nome, até chegamos ao Wrath, que significa ira, algo forte.
Então, começamos aos poucos e agora, quase todos os finais de semana estamos tocando e ganhando uma grana. E assim, tem sido há mais de um ano. E eu amo o que temos agora.
Capítulo Três: Um Convite Indesejado
Detroit, MI
Agosto, 2023.
O som melódico da flauta transversal adentrava nos meus tímpanos através do implante coclear, me fazendo sentir vibrações de calmaria, pois era exatamente isso que eu estava precisando, depois do que aconteceu mais cedo com .
Eu já havia passado por isso inúmeras vezes durante toda minha vida e sempre soube levar muito bem e sem dar muita importância, pois minha fé é muito maior e mais importante do que julgamentos e insultos alheios.
Porém, as palavras de começaram a ecoar nos meus ouvidos até chegar ao meu coração de tal forma que fui impulsiva e simplesmente, comecei a rebater. Senti raiva de mim por isso, porque responder, rebater sempre piora tudo e desde cedo aprendi que revidar é dar munição para quem está atacando.
Nunca havia acontecido isso e já havia passado por situações piores. Porém, algo no tom de voz ou foi a expressão irônica? Não sei dizer ao certo, mas algo naquele garoto me fez estremecer de tal forma que reagi.
Balancei a cabeça, tentando afastar da minha mente aquela cena de mais cedo e me concentrar na partitura que estava à minha frente. Eu amava seguir as partituras, mas também gostava de colocar minha personalidade e minhas emoções enquanto tocava. E assim, fechei os olhos enquanto tocava “In Christ Alone”, colocando escalas celtas para trazer um ar mais medieval a esse hino que tanto me trazia paz e conforto ao coração.
Após isso, continuei tocando por mais um tempo, até sentir que toda a tensão se esvaira do meu corpo e estava no meu humor natural de sempre. Precisava de um banho, mas antes disso, fui checar meu celular e havia uma notificação de Hazel, pedindo pata me seguir. A conta dela era aberta, então a segui de volta e fui checar seus storys.
Havia um recente, no qual mostrava seus amigos, incluindo . Franzi o cenho levemente ao ver que eles estavam com instrumentos, mas logo desfiz, pois lembrei que me falaram que eles tinham uma banda.
Hazel gravava a si mesma cantando e puxa, ela canta muito bem. Eles tocavam alguma música que era desconhecida por mim – como se eu fosse conhecer qualquer música tocada por eles – e percebi que eles estavam felizes, com certeza era uma válvula de escape, assim como minha flauta é para mim.
Olhei mais um pouco os destaques dela e guardei o celular, pois meu chuveiro me aguardava e eu estava precisando de um banho, depois de descarregar as más energias enquanto tocava.
O sinal da última aula antes do intervalo tocou e comecei a guardar meus materiais com calma, enquanto o restante da turma corria apressadamente em direção ao refeitório. Logo me vi em direção ao mesmo local que todos os demais seguiam, encontrando Hazel ao passar pela sala de Literatura Inglesa.
Hazel estava usando um vestido floral, que combinava bastante com o par de all star branco que ela calçava, mais ainda combinava com seu sorriso radiante.
— Bom dia, ! É um dia lindo, não? – soltei um riso. Algo havia a deixado com bom humor. Percebi o quão o rosto dela fica iluminado quando ela está alegre.
— Bom dia, Hazel! Você está alegre, né? – ela sorriu e deu um suspiro.
— Demais! Hoje recebi uma notícia maravilhosa.
— Posso saber que notícia foi essa?
— Te falei que faço parte de uma banda junto com os meninos, né? – ela esperou que eu falasse algo, então apenas assenti com a cabeça para que ela continuasse. – Acontece que recebi uma ligação agorinha do Rebel Sound Pub, que fica em Midtown, mas talvez você não conheça, já que chegou há pouco tempo e também não é muito sua vibe, né?
— Eu realmente não conheço. Como é lá? – perguntei, curiosa.
— Lá é muito legal! Tem mes… – Hazel começou a falar, mas parou abruptamente e me olhou. Franzi o cenho sem entender nada. – Por que você não tira sua dúvida pessoalmente?
— Ah, não sei, não. – só conseguia imaginar o cheiro forte de álcool misturado com o odor de cigarro. Pessoas suadas. Pessoas se esfregando e se entregando cada vez mais à promiscuidade.
— , não tem nada demais lá. Nunca vi um canto tão limpo! Prometo que não tem cheiro de bebida e cigarro. – disse ela, como se estivesse lendo meus pensamentos. Minha reação foi arregalar os olhos, totalmente surpresa. – O quê? Estava escrito na sua cara o horror.
— Desculpe, Hazel. Não foi minha intenção.
— Eu sei, amiga. E também sei que, se você vier, não vai se arrepender. – as duas empurraram as portas do refeitório e caminharam em direção à cantina. Hazel continuou: – Eu jamais te chamaria para um lugar que deixasse você desconfortável.
— Eu sei.
— Então?
—Tudo bem, eu vou. – respondi e Hazel me deu um abraço de urso.
— Te amo, te amo! – disse ela, beijando meu rosto. Fizemos nossos pedidos e começamos a caminhar em direção à mesa que estavam os colegas de banda de Hazel. – Vou te mandar o endereço por SMS. Vai começar às 19h, não vai demorar muito.
— Certo. – assenti com a cabeça. Nos sentamos e percebi que faltava uma pessoa. . Mas não seria eu que perguntaria por ele.
— Cadê o cabeção? – Hazel, como se lesse meus pensamentos mais uma vez, perguntou.
— Ele não disse. – Nate disse, dando de ombros. Nick soltou um riso, que atraiu os olhares de todos.
— E precisa ele dizer, galera? Não é óbvio? – Nick balançou a cabeça.
— Se fosse óbvio não estaríamos perguntando, idiota. – Hazel disse, bufando. – Ninguém aqui é da turma do Scooby-Doo para desvendar enigma, não. Conta logo!
— Não me chama de idiota não, tampinha. Eu deveria não falar nada, já que sempre sou tratad..
— Nicholas Ross, para de lenga-lenga e fala. Todo mundo aqui sabe que vocês são carne e unha, sabem tudo um do outro. – disse Hazel, interrompendo o irmão.
— Ele está pegando a Chloe. – Nick sussurrou, colocando uma das mãos próxima a boca, como se contasse um segredo super secreto.
— De novo? – exclamaram Nate e Hazel ao mesmo tempo. Eu não estava entendendo nada.
Não sabia quem era Chloe e nem o que ela significava para , muito menos o porquê do espanto dos demais. Eu esperava que Hazel pudesse falar algo e, como se ela pudesse ler meus pensamentos mais uma vez, olhou em minha direção, soltando um suspiro.
— Chloe Stewart é uma das patricinhas da Lincoln. É animadora de torcida e uma tremenda babaca. – disse ela, revirando os olhos.
— E tem algo com ela? É isso? – perguntei e Nate riu.
— Não é que tenha algo com ela. Ele só pega ela mesmo. Principalmente quando ela termina com Jake, o quarterback.
— É isso aí. E eu acho que ele não faz isso porque tem algum sentimento ou atração por Chloe. Acho que é só porque ela namora Jake e ele odeia Jake.
— Continuo sem entender. O que Jake fez para Daniel? – perguntei, confusa.
— É uma longa história, mas resumindo: Jake furou o olho de há uns anos e eles eram amigos na época. Basicamente é isso. – suspirou Hazel – Então, sempre que quer, pega Chloe. – minha amiga revirou os olhos e logo depois sorriu. – Vamos parar de falar neles. Vocês não sabem quem vai assistir nosso show hoje!
— Quem? – Nate perguntou e Hazel sorriu e apontou com as duas mãos para mim.
— !
— Sério!? – Nick e Nate exclamaram juntos. Franzi o cenho.
— Por que o espanto? – perguntei e eles se entreolharam.
— Ah, … – Nate começou a falar, mas parou.
— Você tinha dito que não curtia muito esse tipo de som que fazemos, então jamais imaginávamos… – disse Nick.
— Hazel me chamou.
— E você aceitou sem pensar? – perguntou Nate.
— Bom…
— Eu tive que convencê-la, isso sim! Mas ainda bem que deu certo e ela vai ver que o lugar não é tão ruim assim. – Nate e Nick se entreolharam, como se estivessem se comunicando, até que se viraram e me fitaram.
— O sabe disso?
— E o que tem haver? – Hazel questionou, franzindo o cenho.
Ela não entendia, mas eu, sim. Entendi perfeitamente o questionamento de Nick, pois não simpatizava muito comigo – como se eu me importasse com isso – e provavelmente iria surtar ao saber da minha presença no pub hoje.
— Ele vai surtar.
— O problema é único e exclusivo dele. O local é público e eu tenho direito de ir e vir. – falei, dando de ombros. Hazel, que esbanjava um sorriso radiante, me puxou e me abraçou, dando tapinhas em meu braço.
— Essa é minha garota! – disse ela.
— Gente, eu entendo o que vocês devem estar pensando, mas sinceramente? Não me importo com as ações infantis de , não. De verdade. Então, eu vou prestigiar vocês, sim! – disse, me levantando. Coloquei a mochila nas costas. – Estarei lá, tá? Agora, preciso ir, minha aula de História Americana vai já começar e o sr. Williams não aceita atraso.
O som da bateria reverberava no meu peito antes mesmo de eu entrar.
Parecia que cada batida fazia o chão vibrar sob meus pés, uma promessa da energia que me esperava do outro lado da porta. Inspirei fundo, ajustei a alça da bolsa no ombro e empurrei a madeira pesada, sentindo o ar quente e carregado do pub me envolver.
A iluminação era baixa, com lâmpadas âmbar pendendo do teto e lançando sombras suaves nas paredes de madeira escura. O cheiro de cerveja e couro envelhecido flutuava no ar, misturado à fumaça dispersa de algum cigarro eletrônico. Não era o tipo de ambiente que eu costumava frequentar, mas, para minha surpresa, também não era tão intimidador quanto imaginei.
Os primeiros acordes de guitarra cortaram o ar, seguidos pela voz inconfundível de Hazel Ross.
Eu a avistei no palco, o cabelo vermelho vibrante sob as luzes, a confiança esculpida em cada movimento. Nicholas, atrás da bateria, tocava com uma intensidade quase feroz. Nate, de cabeça baixa, dedilhava o baixo em perfeita sintonia. E então, havia ele.
.
A guitarra parecia uma extensão do seu corpo, e os dedos dele se moviam com precisão absurda sobre as cordas. Ele era o tipo de pessoa que fazia algo parecer fácil, quando claramente não era. O brilho das lâmpadas destacava o suor na linha de sua mandíbula e o olhar fechado, imerso na música.
Até que ele me viu.
Foi um instante. Um deslize na sua concentração que ninguém mais percebeu, mas eu sim. Os dedos erraram uma nota mínima, e ele se recompôs rápido demais, mas não antes de seu olhar encontrar o meu no meio da multidão.
Houve choque. Raiva.
A mandíbula travou, os olhos se estreitaram e, por um segundo, ele pareceu pronto para largar a guitarra e marchar até mim, como se minha simples presença fosse uma afronta pessoal.
O que era ridículo.
Minha reação foi automática: levantei o queixo e segui para um dos bancos mais próximos, fingindo que nem o tinha notado.
Mas eu tinha.
E ele sabia disso.
O show foi excelente, mas eu não estava ingênua o suficiente para achar que sairia dali sem um confronto.
— Você só pode estar brincando — a voz dele veio como um corte afiado assim que eu me virei para ir embora.
Olhei para cima e o encontrei ali, de braços cruzados, o corpo ainda tenso da apresentação. A camiseta preta estava levemente colada ao peito pelo suor, e a frustração nos olhos dele era quase cômica.
— Oi pra você também, .
— O que você está fazendo aqui, ?
— Prestigiando minha amiga. A Hazel. Você conhece? Canta bem, meio ruiva, zero paciência com seu drama?
— Ah, engraçadinha. Achei que esse tipo de lugar fosse contra os seus princípios.
— E eu achei que você soubesse tocar sem errar uma nota. Mas olha só, ambos estávamos errados hoje.
A expressão dele fechou ainda mais, e eu quase sorri.
— Isso não muda o fato de que você não pertence a esse lugar.
— E o que exatamente me desqualifica? — Cruzei os braços, espelhando sua postura. — O fato de eu acreditar em Deus ou o fato de que você não consegue lidar com isso?
Ele abriu a boca para rebater, mas nada saiu.
Eu me inclinei levemente para frente.
— Gostei do show, a propósito. Mas não se preocupe, . Eu prometo que não vou tentar te converter. Acho que Deus tem problemas mais urgentes para resolver.
Passei por ele antes que pudesse responder, sentindo seu olhar queimar minhas costas.
E pela primeira vez, eu sabia que o havia deixado sem palavras.
Capítulo Quatro: Sonho Indesejado
Detroit, MI
Agosto, 2023.
A luz âmbar piscava acima de mim, lançando sombras distorcidas pelo pub. O palco parecia maior do que deveria, como se eu estivesse tocando num espaço infinito, mas, de alguma forma, nada parecia fora do lugar. Meus dedos deslizavam pelas cordas da guitarra, precisos, automáticos. Nicholas e Nate estavam comigo, a música ecoando forte pelo ambiente.
Mas algo estava errado.
Não havia som de vozes, nenhum grito da plateia.
Eu ergui os olhos, e foi aí que percebi.
O pub estava vazio.
As mesas estavam lá, as cadeiras espalhadas, copos abandonados no balcão. Mas nenhuma pessoa. Nenhum vulto, nenhum ruído. Exceto um.
.
Lá, sentada no centro do pub deserto, como se aquele fosse o seu lugar o tempo todo.
Os braços cruzados sobre a mesa, olhar calmo e impassível.
Meu peito apertou de irritação.
— O que você tá fazendo aqui? — Minha própria voz soou estranha, mais grave, reverberando nas paredes vazias.
Ela apenas inclinou a cabeça levemente, como se eu tivesse dito algo engraçado. Mas não respondeu.
Meu punho se fechou contra o braço da guitarra. Tentei continuar tocando, mas os dedos travaram por um segundo, as notas soaram erradas.
Nicholas e Nate tocaram normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Como se não enxergassem ali.
— Você não deveria estar aqui.
Ela não disse nada. Nem se mexeu. Só continuou me olhando, os olhos fixos em mim.
A guitarra ficou mais pesada nas minhas mãos. O som começou a falhar, abafado, como se alguém estivesse diminuindo o volume do mundo ao meu redor.
Tentei compensar, apertando as cordas com mais força, mas tudo foi sumindo. As luzes. O palco. A música.
A única coisa que restou foi ela. Ela sorriu. E então, tudo desapareceu.
Abri os olhos de repente, meu quarto mergulhado na penumbra da madrugada. Meu coração batia forte no peito.
Piscando algumas vezes, tentei afastar a sensação estranha. O teto familiar acima de mim substituiu as lâmpadas piscantes do pub. O colchão era firme sob meu corpo, diferente do chão invisível onde eu estivera segundos atrás.
Mas a irritação continuava.
Passei a mão no rosto e soltei o ar com força. Que merda foi essa? Por que eu estava sonhando com ela?
Foi só porque a vi ontem. Sim, tinha que ser isso. Ela era uma aberração naquele lugar. Uma presença deslocada, errada. Só por isso minha mente tinha me pregado essa peça ridícula.
Bufei e virei para o lado, puxando o cobertor sobre a cabeça. Era só isso. E se não fosse, eu não queria saber.
O barulho da frigideira chiando na cozinha era irritante. Tudo era irritante naquela manhã. O som da torneira aberta, o cheiro do café, até o barulho dos próprios passos no piso frio.
Mas nada era mais irritante do que o que ainda estava preso na minha cabeça.
A porra daquele sonho.
Sentei na cadeira da mesa da cozinha e apoiei os cotovelos no tampo de madeira, passando a mão pelo rosto. Eu só queria esquecer.
— Você tá com uma cara péssima.
Levantei a cabeça e vi Nicholas me encarando com a sobrancelha arqueada, enquanto virava a panqueca na frigideira. Ele estava só de moletom e com o cabelo bagunçado, claramente ainda meio sonolento.
— Obrigado pela observação, doutor.
Ele soltou uma risada nasal, se virando para pegar um prato.
— Algum motivo específico ou só o seu habitual mau humor matinal?
Cruzei os braços e encostei na cadeira, sem vontade de responder. Mas Nicholas nunca foi do tipo que se conforma com silêncio.
— Ah… entendi. — Ele pegou uma xícara e encheu de café antes de se virar para mim com um sorriso sacana. — Tá de ressaca emocional porque sua cristã favorita apareceu no show?
Trinquei os dentes.
— Não enche.
— Cara, cê viu a sua cara quando ela chegou? Parecia que tinha visto um fantasma.
— Foi quase isso. — Peguei a xícara de café que ele colocou na minha frente e bebi um gole, tentando ignorar o gosto amargo.
Nicholas se sentou na minha frente e começou a cortar a panqueca calmamente. Ele me conhecia bem o suficiente para saber que eu não ia simplesmente soltar o que estava me incomodando. Então, claro, ele foi na provocação.
— Engraçado… — Ele mastigou um pedaço, olhando para mim de canto. — Você fala que não suporta a , mas não para de agir como se ela tivesse pisado no seu território sagrado ou algo assim.
Revirei os olhos e larguei a xícara com mais força do que o necessário.
— Ela pisou no meu território sagrado.
Ele riu.
— Ah, claro. Porque o pub é um templo satânico e ela entrou com uma Bíblia, né?
— Metaforicamente, sim.
Nicholas soltou um suspiro exagerado e apoiou os cotovelos na mesa.
— Sério, cara… Qual o seu problema real com ela? Você age como se ela fosse o anticristo.
Fiquei em silêncio por um momento, girando a xícara entre os dedos. Eu sabia que minha raiva não fazia sentido, mas não significava que ela era menos real.
— Não suporto esse tipo de gente, Nick. — Minha voz saiu mais baixa, mas firme. — Os que bancam os santos, mas no fim são tão podres quanto qualquer um.
Nicholas suspirou.
— Você nem conhece ela.
Levantei um olhar afiado para ele.
— E você conhece?
Ele deu de ombros.
— O suficiente pra saber que você tá tirando conclusões baseado no seu próprio ranço, não nela.
Fiquei calado.
Ele terminou a panqueca em silêncio e empurrou o prato para o lado antes de me encarar novamente.
— Hazel gosta dela. Isso devia te dizer alguma coisa.
— Hazel também gosta de gente idiota às vezes.
Ele riu, mas logo ficou sério.
— Você fala como se ela tivesse feito algo pessoalmente contra você.
— Não fez. — Cruzei os braços. — E eu prefiro que continue assim.
Nicholas suspirou, como se tivesse desistido de tentar me convencer.
— Só não surta se ela aparecer de novo. Parece que ela gostou do pub.
Meu estômago revirou com essa possibilidade, mas me recusei a demonstrar qualquer reação.
— Tanto faz.
Peguei a xícara e terminei o café de um gole, ignorando a risada de Nicholas.
Era isso. Tanto fazia.
Mesmo que eu soubesse que era mentira.
As aulas pareciam mais longas do que o normal. Cada minuto no relógio se arrastava como se o tempo tivesse decidido brincar comigo. O professor falava sobre alguma coisa – química, talvez? –, mas as palavras entravam e saíam da minha cabeça sem deixar rastro.
Minha mente insistia em voltar para a noite passada.
Para o pub.
Para ela.
Eu odiava isso. Odiava o fato de que, de todas as coisas que podiam me incomodar, a presença de era o que mais grudava na minha cabeça. Como se minha própria mente estivesse rindo de mim.
Fiz força para me concentrar na aula, rabiscando qualquer coisa no caderno, mas meus olhos acabaram desviando para a janela da sala. O corredor do outro lado estava movimentado, alunos indo e vindo, conversas misturadas em um burburinho abafado.
E então, eu a vi.
caminhava entre os alunos, segurando alguns livros contra o peito. O cabelo castanho caía suavemente sobre os ombros, e o olhar dela estava tranquilo, focado em algo ou alguém à frente.
Ela não me viu.
Ou, se viu, ignorou completamente.
Apertei a unha contra a palma da mão antes que eu percebesse.
Ela estava agindo como se nada tivesse acontecido.
Como se a presença dela no pub não tivesse sido nada demais. Como se não tivesse cruzado um limite.
Como se o problema fosse só meu. O que, tecnicamente, era verdade.
Mas isso não tornava a sensação menos irritante.
Virei o rosto de volta para a minha mesa, apertando os dentes. Eu não queria olhar para ela. Não queria que nada nela chamasse minha atenção.
Mas o incômodo já estava ali.
E, de algum jeito, parecia não querer ir embora tão cedo.
Capítulo Cinco: Agora Tudo Faz Sentido
Detroit, MI
Agosto, 2023.
Quando entrei em casa, fechei a porta com cuidado, quase sem fazer barulho, como se o som de um simples clique pudesse me trair. A casa estava silenciosa, como sempre, mas, para mim, o silêncio parecia mais denso hoje. Aquele cheiro familiar do lar — madeira e flores — não era mais reconfortante, nem acolhedor. Era só... lá. Eu me senti deslocada, como se a sensação de estar em casa não fosse mais suficiente para me acalmar.
Subi as escadas devagar, quase sem querer. Cada passo parecia pesar mais do que o anterior. Tentei não pensar no que acontecera no pub, mas era impossível. Aquele ambiente lá fora, com a música baixa e as risadas, parecia distante, como um sonho que se desvanecia rapidamente. Eu queria ter ficado mais lá. Queria ter ignorado o que meus pais pensariam, ignorado as expectativas de quem me cercava, mas não podia. Não podia, porque eu sabia que, se eles soubessem, a reação seria horrível.
Eu não deveria ter ido lá, pensei, e a culpa me apertou o peito. Meus pais jamais poderiam saber disso. Eles não entenderiam.
Naquele momento, senti uma inquietação dentro de mim. Por um segundo, aquele lugar parecia... mais verdadeiro. As pessoas ali estavam livres, rindo sem se preocupar com nada. Eu, por outro lado, me sentia como se estivesse fora do lugar. Como se tivesse quebrado uma regra invisível, uma regra que eu mesma nem sabia que existia até agora. Tentei me concentrar em algo mais. Em como a casa estava impecável, como sempre. Mas nada parecia certo. O silêncio aqui dentro era opressor. Meu quarto, tão arrumado e bem organizado, parecia mais uma prisão do que um refúgio.
Joguei minha mochila de lado e me joguei na cama, olhando fixamente para o teto. Eu deveria estar me sentindo em casa, mas a culpa e a frustração não saíam de dentro de mim. Eu sabia o que meus pais pensariam se soubessem que eu tinha ido até lá. Eles não aceitariam. Era como se o peso de todas as suas expectativas estivesse sobre mim agora, como um peso extra que eu nunca conseguia largar. Tinha que ser perfeita para eles, sem exceções. E o que mais me assustava era que, por um momento, eu realmente me perguntei se eu mesma queria ser outra coisa.
Fechei os olhos, tentando afastar os pensamentos. Mas logo a imagem de invadiu minha mente, como uma tempestade que eu não sabia controlar. Lembrei-me de como ele me olhou quando me viu no pub, aquele olhar que parecia misturar desprezo com algo mais. Algo... difícil de identificar. O que ele pensou de mim naquele momento? Ele me julgou por estar ali, com aqueles adolescentes, fazendo algo que eu não deveria? Era difícil de suportar, mas não conseguia tirar aquele olhar da minha cabeça.
Ele me viu… Pensei, frustrada. Ele percebeu que não sou como os outros.
Aquela ideia me incomodava de uma forma que eu não conseguia explicar. Eu devia ignorar isso, mas não conseguia. Algo dentro de mim se rebelava. Eu sabia que deveria ser forte, focada. Mas, por algum motivo, tudo parecia confuso demais. Será que ele percebeu que eu... me senti fora do lugar ali?
E por que ele não gosta de mim? A pergunta parecia ecoar na minha mente. Eu nem o conheço. Por que ele me olha daquela maneira, com tanto julgamento, como se eu fosse...
Mas logo me corrigi. Não faz sentido tentar entender isso. Eu sabia que não deveria me importar com o que ele pensava, mas a sensação de rejeição me consumia. Eu não sabia o porquê, mas algo dentro de mim queria entender o motivo de ele me olhar daquela forma.
Com um suspiro, virei para o lado, tentando me afastar de tudo. Tentando, mas sem sucesso. Sentia um nó apertado no estômago e sabia que não ia conseguir descansar enquanto aquelas perguntas continuassem girando na minha cabeça.
Meu celular vibrou e logo em seguida começou a tocar, me alertando sobre uma ligação. Olhei a tela.
Hazel.
Franzi o cenho. Eu acabara de sair do pub. Então, me dei conta que saí sem me despedir.
— Oi, ! — A voz de Hazel soava animada, mas eu podia perceber uma pontinha de curiosidade na forma como ela falava. — Vi você indo embora do pub. Por que não se juntou à gente depois? Fiquei achando que tinha rolado alguma coisa…
Eu suspirei, ajeitando o celular na orelha e pensando por um momento sobre como dizer a ela. Não queria exagerar, mas não podia esconder o que aconteceu.
— Ah, Hazel... — Comecei devagar. — Eu... eu tive uma discussão com o . Eu não sei bem como explicar, mas ele ficou me questionando no pub, sabe? Ele ficou me olhando como se eu fosse um... um problema. Ele queria saber o que eu estava fazendo lá, sendo cristã, e eu não consegui me controlar. Rebati e ele ficou mais irritado. Eu também sabia que vocês iriam sair e não queria deixar o clima ainda mais pesado. Desculpa.
Eu podia ouvir o silêncio do outro lado da linha, e Hazel, que geralmente era tão expressiva, parecia estar processando o que eu acabara de contar. Depois de alguns segundos, ela falou com uma risada nervosa.
— O quê? O ? — Ela soltou uma risada curta, mas não era uma risada divertida. Era mais como se tentasse controlar uma reação negativa. — Que babaca! Eu não acredito que ele fez isso de novo. Até quando ele vai tratar os outros assim?
Eu fechei os olhos, sentindo o peso das palavras que ela havia falado. Não que eu não concordasse, mas... eu ainda não conseguia entender. Ele realmente parecia me odiar sem nem ao menos me conhecer.
— Eu não entendo, Hazel... — Eu falei, minha voz mais baixa. — Mesmo que tenhamos opiniões religiosas diferentes, eu não fiz nada para ele. Não deveria ser assim. Ele não deveria me tratar dessa forma. Ele nem sabe quem eu sou, e mesmo assim, me julga. Por que ele teria tanta raiva de mim só por causa disso?
Hazel suspirou do outro lado da linha, sua voz agora mais grave, como se ela estivesse prestes a contar algo importante.
— , eu sei que não faz sentido. Mas... tem algo que você precisa saber sobre o . Ele é assim com os cristãos por uma razão. — A voz dela soou mais séria. — O motivo de ele ser tão, sei lá, revoltado com você e com todo mundo que tem fé... tem a ver com a mãe dele.
Eu me encolhi um pouco, curiosa, mas também apreensiva. O que Hazel queria dizer?
— O que aconteceu com a mãe dele? — Perguntei, tentando esconder a ansiedade na minha voz.
Hazel respirou fundo antes de continuar, como se fosse uma revelação pesada.
— A mãe dele morreu no parto, . — Ela fez uma pausa, e as palavras caíram pesadas sobre mim. Eu engoli em seco. — Ela morreu dando à luz a ele. E o pior é que a morte dela poderia ter sido evitada.
Eu fiquei em silêncio, as palavras de Hazel me atingindo como um soco no estômago. Nunca imaginei que tivesse passado por algo assim. Mas ainda assim, eu não conseguia entender por que ele me tratava com tanto ódio.
Hazel continuou, o tom de sua voz ficando mais tenso.
— O médico que fez o parto era cristão, . E ele se recusou a fazer o parto cesariano, mesmo sabendo que a mãe do tinha uma pré-eclâmpsia grave. Ele achava que deveria ser natural, que Deus cuidaria. E, por causa dessa escolha, a mãe do morreu. Ele nasceu prematuro e ela teve uma parada cardíaca durante o parto. Ele ficou sem mãe, , por causa de uma decisão irresponsável de um médico cristão.
Eu fiquei chocada. Uma onda de tristeza me invadiu ao ouvir aquilo, mas ao mesmo tempo, a raiva de fez mais sentido agora. A dor que ele carregava era imensa, mais do que eu poderia imaginar. No entanto, eu ainda sentia uma dor em meu peito, como se a explicação não fosse suficiente para justificar o comportamento dele.
— Meu Deus, Hazel... Eu... não sabia disso. — Minha voz falhou um pouco enquanto eu tentava processar as palavras dela. — Eu sinto tanto por ele. Não consigo imaginar o que ele passou... perder a mãe assim, de uma maneira tão cruel... isso é terrível.
Hazel respirou fundo, e eu senti a tensão diminuir um pouco. Eu não sabia como me sentir, mas queria entender o , queria ajudar de alguma forma.
Eu fiquei em silêncio, meu coração pesado. Agora, com essa nova perspectiva, eu sentia muito por ele. Mas, por outro lado, sentia que ele ainda precisava aprender que não podia culpar todos os cristãos pela tragédia que aconteceu em sua vida. O mundo não era tão simples assim.
— Eu sei, . Eu sei que é difícil. E não estou dizendo que ele está certo em fazer o que faz. Ele carrega muita raiva, mas não é culpa sua. Ele tem que entender que nem todos os cristãos são como o médico que estava com a mãe dele. — Hazel fez uma pausa antes de continuar. — Mas isso vai levar tempo, . O não vai mudar da noite para o dia. E a real é que talvez nunca mude. – minha amiga suspirou antes de continuar – Além disso, ele faz de tudo para provar que os cristãos são hipócritas.
Franzi o cenho sem entender o que ela quis dizer.
— Como assim?
— Havia uma garota. Lily. Ela também havia sido transferida. Também era cristã, como você, mas…
— Mas? – instiguei para que ela continuasse.
— Não sei, . Ela era diferente de você.
Soltei uma risada frouxa.
— Todas as pessoas são diferentes umas das outras, amiga. Não é porque é cristão que é igual.
— Eu sei, não é disso que tô falando. Você tem uma doçura, uma gentileza que eu sei que vem de Deus. Não é algo que é forçado, sabe? – ela faz uma pausa antes de continuar. – Mas Lily não tinha isso. Na verdade, parando para pensar, ela tinha algo obscuro no olhar.
— Não tô entendendo.
— Pode ser que seja porque eu já sei o que aconteceu, mas é isso que eu percebo agora.
— Posso saber o que aconteceu?
— Desculpa, me perdi aqui. Bom, ela aparentava gentileza, sabe? Mas então, descobrimos que ela colou em uma prova. – Hazel soltou uma risada sem graça. – Para nós, isso é besteira, né? Mas o peso parece que se torna maior quando é uma pessoa cristã.
— Como se os cristãos fossem santos e imunes ao pecado? – fiz uma pergunta retórica. – É, eu sei como é isso.
— Isso foi como combustível para . Ele debochou tanto e disse que iria desmascará-la.
Eu senti um leve arrepio na coluna. Percebi que essa história não terminaria nada bem, mas não pude conter minha curiosidade.
— E o que ele fez?
— , quando quer se torna o maior galanteador e ele parece ter armas, truques… Não sei bem qual palavra definir, mas até hoje, nunca vi querer alguém e não conseguir. Ele tem o molho, sabe?
Soltei uma risada fraca. Não, eu não sabia.
— Não sei porque eu não percebo isso, só levo patada.
— Então, ele conseguiu. Pior do que simplesmente dar mole ou uns beijinhos debaixo da escada da quadra. Ele transou com ela e espalhou para o colégio inteiro. A garota precisou mudar de cidade. Até hoje sinto raiva dele por ter espalhado, não precisava disso tudo.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Não, não precisava.
— Como eu disse, nada justifica o jeito que ele te trata, mas achei que seria bom que você soubesse.
— Obrigada por contar.
Ficamos em silêncio por um tempo, até eu quebrar.
— Eu... entendo, Hazel. Eu sinto muito por ele, de verdade. Mas isso ainda não justifica ele me tratar assim e muito menos achar, pensar que eu sou igual a essa Lily. — Suspirei, sentindo a frustração voltar. — Eu só não consigo entender como ele pode ser tão cruel com alguém que nem conhece. Isso não é justo.
Hazel respondeu suavemente, mas com uma firmeza que me fez sentir um pouco mais calma.
— Eu sei, . Você tem razão. Mas, talvez,com o tempo, ele consiga ver que o mundo não é dividido entre os que têm fé e os que não têm. E, quem sabe, ele possa ver que nem todos os cristãos são como o médico que cometeu aquele erro ou Lily que não seguiu os próprios princípios. E se ele não ver também, problema é dele. Não se deixe abalar pela babaquice dele.
Eu fechei os olhos, sentindo um nó na garganta. Não sabia o que o futuro reservava para mim e para , mas algo dentro de mim me dizia que essa história estava longe de acabar. E talvez, com o tempo, eu conseguisse ajudá-lo a ver as coisas de uma forma diferente. Mas, por agora, eu só precisava dar um passo de cada vez.
— Obrigada mais uma vez, Hazel. Por me contar isso. Eu não sabia e... isso muda tudo, de certa forma. — A voz me saiu mais suave agora, embora ainda carregasse uma preocupação no fundo. — Mas, por enquanto, eu só quero tentar entender como lidar com tudo isso.
Acho que Hazel sorriu do outro lado da linha, pois eu pude sentir a suavidade em sua voz.
— Eu sei, . Eu sei. E eu estou aqui para você, sempre.
Capítulo Seis: A Discussão com Hazel
Detroit, MI
Agosto, 2023.
O barulho no corredor do colégio era insuportável. Risadas, passos apressados, vozes se misturando em conversas que eu não tinha paciência para ouvir. Tudo me irritava. O som, a luz forte demais, o peso da mochila nas costas.
Mas nada me irritava mais do que o fato de que, por mais que eu tentasse ignorar, ainda estava na minha cabeça.
Não importava quantas vezes eu dissesse a mim mesmo que tanto fazia, que a presença dela no pub era irrelevante. Eu ainda podia vê-la lá, no meio do público, deslocada e tranquila ao mesmo tempo. Como se aquele fosse o lugar dela o tempo todo.
Mas o pior de tudo era que, hoje, no colégio, ela estava normal. Como se a noite passada nem tivesse existido. Como se aquilo não tivesse significado nada.
Eu odiava isso.
E por que diabos isso me incomodava tanto?
Antes que eu pudesse me perder mais nesses pensamentos irritantes, uma voz conhecida soou ao meu lado.
— Você vai continuar bancando o idiota ou vai admitir logo?
Olhei para ela de canto, sem diminuir o passo.
— Admitir o quê, exatamente?
— Que tá agindo como um babaca desde ontem, porque viu a no show e não sabe lidar com isso.
Soltei uma risada curta, sarcástica.
— Não sei lidar? Hazel, a garota entrou num lugar onde não pertence e eu sou o problema? Além do mais, por qual motivo você a chamou? – Hazel franziu o cenho, me fazendo sentir mais raiva. – Eu sei que você a chamou.
Bufei e continuei andando, mas Hazel me seguiu, obviamente decidida a não me deixar em paz.
Ela bufou, revirando os olhos como se eu fosse um caso perdido.
— Ai, pelo amor de Deus, ! Ela só foi assistir um show, não invadiu um ritual satânico. – ela voltou a cruzar os braços. – E eu chamo quem eu quiser.
— É, mas aposto que saiu de lá correndo pra rezar dez Ave-Marias depois.
Hazel parou abruptamente no meio do corredor, me obrigando a fazer o mesmo. Quando olhei para ela, seu rosto estava fechado, o olhar duro.
— Cê nem percebe o quão ridículo tá sendo, né?
Levantei as mãos em um gesto impaciente.
— Me desculpa se eu não sou igual a você, que se encanta com qualquer pessoa que apareça sorrindo e bancando a boazinha.
— Ah, claro, porque ser minimamente educada significa ser falsa, né?
— Quando se trata dela? Sim.
Hazel me olhou por um segundo, como se estivesse decidindo se valia a pena continuar. Então, cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado.
— Você se escora tanto nesse seu discurso de “cristãos são todos hipócritas” que nem se dá ao trabalho de perceber quando tá sendo exatamente o que diz que odeia.
Minha mandíbula travou.
— Qual é o seu ponto, Hazel?
— Que você não conhece a , mas já decidiu que ela é seu inimigo mortal só porque acredita em algo que você não acredita.
Trinquei os dentes, sentindo a irritação ferver sob minha pele.
— Eu conheço o suficiente pra saber que todos eles são iguais.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Não. Você acha que conhece.
Nós nos encaramos por um instante. Eu podia ver que ela estava falando sério, que realmente acreditava que eu estava sendo irracional.
E talvez estivesse. Mas eu não ia admitir isso.
— Ela não pertence àquele lugar.
— E quem decide isso? Você?
— Ela não tem nada a ver com a gente, Hazel. Ela não é como nós.
Ela soltou uma risada sarcástica.
— Nós? E o que exatamente a gente é, ? Um culto anticristão?
Fiquei calado.
— Se enxerga, cara. Você tá inventando um problema onde não tem.
Me virei para encará-la, cruzando os braços.
— E você tá muito preocupada com ela.
— Porque eu sou amiga dela.
— O que é uma grande perda de tempo.
Hazel estreitou os olhos.
— Você tem algum motivo real para odiar tanto a , ou só projetou todas as suas merdas nela porque ela acredita em Deus?
Minha mandíbula travou.
Ela suspirou, balançando a cabeça.
— Se ao menos você se desse o trabalho de conhecer a garota…
Soltei uma risada seca.
— Conhecer pra quê? Pra ouvir discursos sobre como eu deveria me converter e aceitar Jesus no coração? Tô fora.
Hazel bufou e cruzou os braços.
— Sabe o que é engraçado? Você odeia tanto a ideia de ser julgado por ela, mas quem tá julgando antes mesmo de conhecer é você.
A frase ficou no ar, pesada. Eu sabia que Hazel estava esperando que eu dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas não havia nada a dizer.
Porque, no fundo, parte de mim sabia que ela estava certa. Mas eu jamais admitiria isso.
Bufei, desviando o olhar e passando a mão pelo cabelo.
— Quer saber? Eu tenho coisa melhor pra fazer do que discutir sobre a sua nova melhor amiga.
Hazel apenas balançou a cabeça, como se estivesse cansada.
— Continua se enganando, . No fim, isso só afeta você.
Ela saiu andando antes que eu pudesse responder, me deixando ali, sozinho, no meio do corredor lotado.
E irritado. Muito irritado.
A sala de música estava vazia.
Era um dos poucos lugares no colégio onde eu podia ficar sozinho sem ter que lidar com o barulho insuportável do resto do mundo. Fechei a porta atrás de mim, soltando um suspiro pesado enquanto jogava a mochila no chão e pegava uma das guitarras encostadas na parede.
Eu precisava tocar. Nada esvaziava minha cabeça como música. O peso da guitarra nos meus braços, os dedos se movendo automaticamente sobre as cordas, a vibração do som preenchendo o espaço. Era a única coisa que funcionava quando eu estava puto assim.
Mas hoje… nada parecia certo. Toquei um acorde. Soou fraco. Errado. Mudei para outro. Outra vez, nada.
Fechei os olhos, inspirando fundo antes de tentar de novo. Mas a melodia não fluía. Os acordes saíam truncados, sem força, sem vida. Como se eu estivesse tocando uma música que não queria ser tocada.
Soltei um palavrão e larguei a palheta em cima do amplificador.
Minha mente estava uma bagunça. E, no meio de tudo, ela ainda estava lá.
.
Eu não queria pensar nela. Não queria lembrar que ela tinha aparecido no pub como se pertencesse àquele mundo. Como se aquilo fosse normal.
Mas não era normal.
Ela não pertencia àquilo.
E, no entanto, ela estava lá. E hoje, no colégio, andava como se nada tivesse acontecido. Como se a noite anterior não tivesse sido um choque de realidade. Como se eu não existisse.
Cerrei os dentes, minha mão involuntariamente fechando com mais força em torno do braço da guitarra.
Era irritante. Tudo isso era irritante.
Por que diabos eu estava gastando meu tempo com isso? Com ela?
Soltei um suspiro frustrado e voltei a pegar a palheta. Não importava. Eu só precisava me concentrar.
Então toquei de novo.
Dessa vez, com mais força. Como se pudesse arrancar aquela sensação irritante do meu peito a cada acorde.
O som dos meus passos ecoava pelo estacionamento vazio enquanto eu caminhava para o carro. A guitarra estava pesando nas minhas costas, e eu já não aguentava mais a frustração de não conseguir tocar direito. O calor do final da tarde parecia mais intenso do que o normal, mas o que realmente estava me incomodando não era o calor.
Era a presença dela. .
Aquela maldita garota estava em todos os meus pensamentos. Eu tentei, o dia inteiro, focar em outra coisa — a banda, a escola, até as brigas com Hazel — mas, no fundo, o que estava me irritando mais era o fato de que parecia ter se colado à minha mente, como uma mancha que eu não conseguia tirar.
Ela estava no meu sangue agora.
Parei de repente, sentindo uma raiva crescente no peito. Eu não tinha nada para provar, nada que fosse me fazer perder tempo com ela.
Mas o celular estava ali, na minha mão.
Eu o peguei automaticamente, sentindo a tela fria sob os dedos. Não tinha razão alguma para abrir o Instagram dela, mas, em algum lugar no fundo da minha cabeça, a ideia se enraizou: “Só para confirmar. Só para ver se ela realmente se encaixa naquele tipo de lugar.”
Fui até o perfil dela, os dedos movendo-se quase sem pensar, e comecei a rolar pelas fotos. Imagens de viagens, festas de família, algo sempre tão... limpo. Perfeito, quase artificial.
Nada ali se encaixava no pub.
Ela não devia estar lá. Não pertencia àquele ambiente. Tudo o que ela era parecia... tão fora de lugar naquele tipo de noite.
Mas então, eu parei.
Porra. Que merda eu estava fazendo?
Fechei o celular abruptamente, o estômago se apertando de raiva. Por que diabos eu estava me importando com isso? Eu não tinha nada a ver com ela. Não tinha.
Com um movimento rápido, travei o celular e enfiei no bolso da jaqueta, forçando uma respiração profunda para acalmar os nervos.
Mas nada parecia acalmar. A raiva não ia embora.
Eu olhei para o horizonte, tentando focar em algo – qualquer coisa que não fosse ela. A sensação de frustração estava crescendo como um nó no meu peito, e eu não sabia o que era pior: a presença dela no pub, a discussão com Hazel, ou o fato de que, de alguma forma, havia se tornado impossível de ignorar.
Continua...
Nota da autora: Oi, gente! MIL perdões pela demora! Estava uma correria! Para compensar, trouxe uma att dupla! Me contem aqui nos comentários o que estão achando até agora! Beijos!
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