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Última atualização: 28/12/2023

Prólogo - Fantasmas do Passado

O sangue não jorrou quando a lâmina afiada atravessou por detrás do corpo do homem, mas a poça vermelha que crescia lentamente aos seus pés começaria a atrair olhares curiosos dentro de instantes.

Essa, porém, não era uma das preocupações da mulher.

Se fosse, ela não teria investido contra um dos soldados do mais alto escalão do reino em praça pública, em pleno sol do meio dia. Se fosse, teria escolhido um canto afastado ou um beco qualquer, numa das ruas escuras e esquecidas aos arredores do palácio. No cair da noite, provavelmente. Longe dos pescadores, das famílias e dos comerciantes. Aos olhos de taberneiros, bêbados e bardos, apenas, espalhados aqui e ali, servindo mesas, bebendo e dando palinhas de suas canções nos alaúdes bem afinados.

Não. Um bom espetáculo precisava contar com o público. Precisava de caos. E a pirata demorou tempo demais planejando cada segundo daquele momento para não ter a atenção de todos focada em si.

No momento certo, no entanto.

Por isso, foi um golpe rápido e limpo, entre as costelas e a coluna. Preciso o suficiente para matar, mas não sem antes proporcionar vários instantes de agonia intensa e silenciosa. Ele não conseguiria emitir qualquer som, lamentação ou pedido de socorro para alertar o povo à volta de forma imediata. E isso proporcionava tempo suficiente para observar e aproveitar cada centímetro do rosto expressivo dele. Da falta de reação momentânea ao ser atacado pelas costas até a compreensão do que aquilo se tratava, ao vê-la se exibir à sua frente, em toda sua glória. Então o choque, raiva, desespero e finalmente a dor. Explícita nos tremores involuntários do rosto e do corpo, nos olhos que perdiam o brilho de vida gradativamente e nos lábios finos, que se retorciam em palavras não ditas, impedidas de soarem pelo fluido que subia à garganta.

Mas ela queria ouví-las. Queria que ele implorasse pela sua vida, mesmo sabendo que não o faria.

— William — as sílabas dançaram em sua língua, lentas e prazerosas. — Tem noção do quanto esperei por isso?

O homem fez menção de tentar falar algo, mas a pirata rapidamente levou o dedo indicador aos seus lábios, silenciando-o. Um leve balançar de cabeça em gesto negativo foi seguido de uma risada baixa.

— Não gaste suas últimas palavras antes da hora, se é que tem alguma para isso — a chama dos olhos verdes da mulher estava cravada no azul opaco dos dele. Seu corpo sustentava o peso do outro, para que se mantivesse de pé enquanto ela falava. — Como é estar no lugar dele? Chegou a passar pela sua cabeça que um dia suas ações voltariam para te assombrar? Para te causar exatamente o que você causou no passado?

O monólogo foi brevemente interrompido pela tosse engasgada de William. Agora, sangue escorria de sua boca, trilhando um caminho pescoço abaixo até pingar no chão. Ele tinha poucos segundos de vida e ela, apenas alguns instantes para meter o pé dali.

— Você não conseguiu me matar naquele dia, soldado, por sua própria incompetência. Essa foi a sua ruína. Eu sou a sua ruína — uma pausa rápida se deu num suspiro. — Mas você conseguiu tirar tudo que eu tinha e amava. Tudo que importava para mim — pronunciada entredentes e de forma lenta, a frase era quase um rosnado. — Agora, eu vou retribuir o favor — diminuindo sua voz para um sussurro, ela se aproximou do ouvido dele: — Uma pena não estar mais aqui para testemunhar. Que meu rosto fique gravado como a última coisa que você viu em vida, .

Então, sem nenhum pesar ou hesitação, a pirata se colocou às costas do homem outra vez, como no início. Retirou num gesto bruto a lâmina cravada em seu corpo, fazendo com que o sangue esguichasse e pintasse todo o redor, incluindo suas vestes e rosto. E, sendo empurrado com um chute dela, William finalmente caiu de joelhos, se entregando ao destino que o esperava sem relutar. Ele ainda se agarrava a um último fio de vida, porém. Desperto o suficiente para ouvir as palavras finais de sua assassina.

Mas a atenção dele não era a única; o baque surdo de seu corpo caindo fez uma multidão apavorada e um alvoroço finalmente se formarem ao redor. Aquela era a atenção que queria, que esperava. Do povo.
Consequentemente, também, dos outros soldados que já corriam em sua direção para capturá-la.

Sessenta segundos.

— Isso foi um acerto de contas — a mulher gritou com calma para todos que tiveram coragem o suficiente de parar para ouví-la; o sorriso largo tingido com a cor do sangue do inimigo sendo exibido em vitória. — Mas foi só o início de algo bem maior. Não vou parar por aqui, tenham certeza.

Quarenta e cinco.

— Esse homem me deu um propósito, e eu não descansarei até cumprí-lo. Então, por ele, deixem que meu nome ecoe por Willhye.

Vinte segundos, se quisesse de fato escapar dali.

— Deixem que Syrena saiba que voltará. E que quando o fizer, será por ela.

Não havia mais tempo.

Eu sinto muito — antes de se lançar à multidão, pôde finalmente escutar as palavras daquele que caíra aos seus pés. E, se não soubesse que a sua própria vida estava em jogo e dependendo daquela fuga, teria congelado no lugar.

Teria parado para encarar os olhos dele, uma última vez. Ou para prestar atenção em quem estava berrando em cima do corpo sem vida, chorando como se uma parte de si tivesse morrido junto. Talvez até mesmo para rir dos gritos de “Peguem-na” “Não deixem-na escapar” “Fechem o porto e revistem os navios!”. Mas tudo parecia ecoar no vazio enquanto corria para longe.

Ao longo do tempo, tinha ouvido diversas últimas palavras de inimigos. Súplicas, barganhas, ofertas. Nenhuma delas tinha sido um pedido de desculpas. Nenhuma delas carregava sinceridade. Isso sequer passaria pela sua cabeça.

Tinha se preparado para muitas coisas que poderiam acontecer em seu momento triunfal, mas não para aquilo.

Não foi um impedimento de seguir com o plano até o fim, porém. Muito menos algo que fizesse com que ela se arrependesse de, finalmente, ter sua vingança.
Mas até estar longe o suficiente e diferente o suficiente para olhar para trás sem preocupação, o coração bateu forte no peito. William , o homem mau que havia sido palco de seus pesadelos por tantos anos, tinha lhe dito que “sentia muito” como último ato em vida.

Um delírio, talvez. Dele. Dela.

Podia ter imaginado, não é? Ou poderia ter de fato acontecido. Uma frase desesperada, fruto dos famosos trinta segundos de toda a vida que passam diante dos olhos, talvez. Um falso arrependimento, movido pelo medo de arcar com seus pecados lá embaixo, quem sabe.

Não importava, de fato. Era tarde demais para sentir muito.

Mas após agradecer com um sorriso simpático a liberação de um dos soldados para a partida de seu navio, depois uma longa revista e interrogatórios respondidos com: “Não vi para onde ela foi”, “Não passou por aqui”, “Vi uma mulher correndo para lá!” optou pelo silêncio, deixando de lado a comemoração de sua vitória junto à tripulação para manter seus pensamentos, dúvidas e raiva para si mesma e para a imensidão do oceano, que aguardava a próxima aventura.



Capítulo 1 - Mau Presságio

A taverna era pequena e simples; um cubículo marrom e mofado, com alguns lampiões de velas acesas nas vigas altas – falhando em sua única função de trazer claridade ao ambiente –, e mesinhas mancas aqui e ali, espalhadas pelo chão que rangia ao andar. Havia também uma estante isolada caindo aos pedaços ao fundo, onde poucas garrafas de bebidas diversas já pela metade se faziam presentes em suas prateleiras de madeira empenada e quebradiça.

Obviamente, a luta pela sua tomada foi patética. Se é que fosse possível chamar aquilo de luta.

Durou apenas alguns minutos e não sobrou muito além de alguns bêbados correndo para longe enquanto tropeçavam nos próprios pés, intimidados pela presença de e sua tripulação. Aquela definitivamente não seria das melhores histórias para se contar no futuro, mas, ao menos, a pouca adrenalina da invasão e batalha – por pior que essa tenha sido – nunca era demais.

— Três ilhas — a capitã suspirou, arrastando a ponta da espada no chão enquanto ia até a estante para pegar uma garrafa de rum. — Três ilhas e não teve um único homem ou mulher suficientemente capaz de me entreter em uma batalha. O nível das pessoas decaiu tanto... — com um balançar negativo de cabeça, a voz dela soou exageradamente dramática. — Estão rindo de que, idiotas?

A feição séria que imediatamente tomou conta de sua expressão por ouvir risadas dos marujos trouxe consigo uma lâmina afiada apontada em ameaça para o grupo, mas a marra logo se desmanchou em um sorriso suave que se rendeu à animação da tripulação. Eles não haviam parado de rir mesmo com a repreensão, é claro, mas ela não se importou.

— Certo, seus cães sarnentos, vocês estão perdendo todo o respeito e estão precisando de uma lição bem dada. Mas hoje eu vou deixar passar, afinal, estou de bom humor. Depois eu penso em punições adequadas — as botas já gastas pelo tempo deixaram de tocar o chão quando a mulher tomou um impulso para se sentar no balcão de madeira, que protestou com um estalo. Em seguida, guardando sua espada na bainha, deu um longo gole no álcool da garrafa. — Não ousem se acostumar com isso.

Continuando a beber do rum, se permitiu relaxar a postura e deixar sua atenção vagar para outras coisas além da comemoração dos piratas. Foi assim que, de rabo de olho, a capitã pôde notar uma de suas encarregadas adentrando o lugar pela porta dos fundos. Parecia meio hesitante, querendo passar despercebida, mas se aproximou por fim. E num contraste quase que palpável, na pouca iluminação dos tocos de velas da taverna, a garota definitivamente não detinha metade da animação dos demais. Seus olhos baixos e cenho franzido não combinavam com o rosto bonito e jovem, e, mais do que isso, indicavam apreensão. Medo, até. Foi suficiente para a expressão tranquila de ser substituída por desconfiança, à espera de más notícias.

Elas sempre vinham.

— O que foi, Gem? — O olhar atento para a mais nova procurava por algo ali escondido. — Não deveria estar bebendo e festejando com o resto da tripulação?

— Faz tempo que estamos longe de casa — não foi difícil perceber que aquela frase continha muito mais significado do que aparentava, principalmente por trazer consigo um suspiro contido.

— Bom, qual é o problema? Não é como se um dos comerciantes da nossa ilha fosse aguardar nossa volta com armas à postos. Se for, também, a gente dá conta — dando de ombros, a capitã forçou um tom bem-humorado para amenizar o clima pesado que o comentário trouxe, mas ela sabia que deveria ouvir o alerta.

Gemma nunca se enganava em suas intuições. Pelo contrário; elas já haviam salvado a tripulação mais vezes do que a mulher poderia contar.

— Eu só... estou com um mau pressentimento. E forte — os olhos cinzentos e firmes da garota sustentaram os de com determinação o suficiente para fazê-la ceder e escolher dar ouvidos ao seu alerta, mesmo que a contragosto.

— Certo. Partiremos de volta essa noite, então. Deixe os demais cientes — com a decisão tomada, foi nítido o peso que saiu dos ombros de Gemma, permitindo que ela enfim relaxasse um pouco. — Obrigada por me avisar.

Dando um pequeno sorriso satisfeito, a mais nova curvou levemente a cabeça em resposta à sua superior e então se afastou, juntando-se finalmente aos outros, que entornavam garrafas e mais garrafas de rum – e do que mais achavam pela frente –, enquanto cantavam, animadamente:

Yo, ho! Yo, ho, a vida pirata é assim;
ouro, mulheres, rum à vontade;
velas ao vento, tesouros e saques;
Yo, ho! Yo, ho, não há nada melhor para mim;
em alto mar, quem desafiar, na prancha vai andar!
E seu fim vai encontrar…
Yo, ho! Yo, ho...


Mas era impossível dizer que a breve conversa não acarretou em uma mudança significativa de humor. Primeiramente, da capitã, que foi quem recebeu as notícias. Depois, um a um, ela observou as caretas se formando nos piratas ali reunidos enquanto Gemma avisava-os sobre a partida. Então vieram os protestos, e, sem muito saco para aguentar reclamações ou debater sua decisão, decidiu se retirar, colocando-se em pé com precisão o suficiente para não fazer barulho enquanto saía de fininho da taverna.

Foi uma caminhada rápida. Não havia muito a se cruzar entre o estabelecimento e a orla, e, uma vez lá fora, um suspiro aliviado se fez.

O cheiro da praia lhe recebeu de maneira agradável e o vislumbre dos últimos raios de sol que brilhavam no horizonte foi suficiente para suavizar sua expressão. O mar cristalino contrastava iluminado numa tonalidade bonita de fim de tarde e espelhava as nuvens do céu como suas próprias ondas alaranjadas, trazendo também a brisa da maresia, que batia nos grandes cabelos trançados, – escuros como uma noite sem lua e envoltos por uma bandana carmesim –, e no rosto de pele negra da mulher, que se permitiu sorrir ao ver aquela paisagem paradisíaca.

Apesar de pequena, era uma boa ilha.

Boa, mas nem sequer parecida com aquela que chamava de lar.

A Ilha Roccia era sua verdadeira casa, ela sabia disso. Foi lá que encontrou sua família, seu lugar, e principalmente a si mesma depois de tanto tempo perdida. Não se recordava de outro local que um dia tinha sido capaz de fazer com que se sentisse assim. Tão bem. Tão... viva.

Exceto, talvez, o grande reino de Willhye, antes de tudo acontecer.

Quando ainda era sinônimo de segurança, de amor, de pertencimento. Quando ainda havia alguma coisa por lá para se agarrar. Num passado distante, obscuro e dolorido demais. Enterrado em memórias e aterrorizado por fantasmas que perseguem vez ou outra, sem nada de bom para trazer além de uma nostalgia incômoda e um nó na garganta.

Foi imersa nesses pensamentos que deixou seus olhos verdes vagarem e percorrerem cansados toda a extensão do lugar em que estava, desde a espuma branca que a água deixava na areia quente até a popa de seu navio ancorado mais ao longe, onde as letras douradas entalhadas na madeira e refletidas pelo sol quase posto exibiam o nome "Rogers’ Vengeance"; à dedo escolhido e muito significativo para a mulher. Era sempre difícil se deixar levar pelas lembranças que ele lhe fazia recordar, porque, mais do que qualquer coisa, significava uma promessa de retorno ao início.

Um início que, de tempos em tempos, parecia esquecido. Distante demais. Preso em um local amaldiçoado que sentenciou seu passado.

E por mais que fosse quase mais forte do que ela, não queria pensar naquilo agora.

Ainda havia muito para se desbravar naquelas águas selvagens e seu espírito aventureiro pedia por isso. Ilhas, conquistas, tesouros, batalhas. Ela não deixaria nada ficar em seu caminho; quando se cansasse da vida boêmia e decidisse voltar e cumprir com seu destino, o faria. Mas, por hora, não podia deixar de admitir que uma parte dela estava com saudades de casa.

Estavam no mar já há um tempo e o aviso de Gemma veio a calhar, bem ou mal.

Faria bem voltar. Seria uma pequena parada na Ilha Roccia, somente para checar como estavam as coisas desde que saíram... e então poderiam seguir viagem para o próximo destino tão esperado da extensa lista: La Maldita Isla Sangrienta, lugar onde nenhum pirata ousou pôr os pés até hoje, por medo da terrível maldição que a cerca.

Ao menos, nenhum pirata que detivesse um nome como Rogers .

E sua fama não era à toa. Foi ao menor sinal de passos sorrateiros atrás de si que a espada já estava desembainhada, empunhada e pressionada contra o pescoço do homem que havia ousado se aproximar.

— Lute comigo — a voz exibia um tom divertido e desafiador, o que fez com que os olhos de esmeralda da mulher se estreitassem ao analisar o sorriso despretensioso no rosto de seu imediato e adversário no momento.

— Não está planejando um motim, imagino — o tom de desdém se fez presente propositalmente ao responder seu pedido. — Acha que está à minha altura?

— Não — o sorriso se alargou ligeiramente. — E não, também. Mas ao menos posso te garantir mais diversão do que a que teve momentos antes, na taverna.

Agora, a capitã também exibia um pequeno sorriso.

— Pois bem — assim que as palavras foram pronunciadas pela mulher, Benny não perdeu tempo em sumir de sua frente e reaparecer às suas costas, a adaga que detinha em mãos agora pressionada contra as costelas de . — Se pretende usar magia para tornar a luta mais interessante, vou chegar à conclusão que quer me bajular. O que você está querendo?

Sem esperar resposta, entretanto, os pés da capitã, quase como em uma dança, se moveram estrategicamente em um giro para afastar o homem e sua adaga de perto de seu corpo, voltando a ficar frente a frente com ele em posição defensiva e à espera de outro ataque.

— Você nos prometeu La Maldita Isla Sangrienta, agora quer voltar para casa. Não pode esperar que os tripulantes fiquem felizes com a decisão.

Com a resposta, o feiticeiro investiu novamente contra a mulher, que se defendeu sem esforços, iniciando o confronto de lâminas que tilintavam a cada choque.

— Gemma disse que está com um mau pressentimento quanto à nossa ilha. Você sabe que as palavras dela são como profecias, Benny. Ela não erra, nunca errou.

Foi a vez da capitã de investir contra o homem, que se esquivou rapidamente do golpe de sua espada e pulou para trás no último segundo, a tempo de evitar a queda que certamente sofreria se tivesse acertado a rasteira que sucedeu seu ataque.

— Se for esse o caso, não me incomodo de virar, sei lá, uma gaivota, um corvo, uma arara azul ou qualquer outra coisa com penas e sobrevoar a nossa ilha para verificar se ela está, de alguma forma, sendo ameaçada. Evitamos dias de viagem de volta e assim podemos avançar para nosso próximo destino, o que me diz?

O tom manipulador quase fez com que a capitã soltasse uma risada, mas ela se conteve e manteve a atenção focada na luta.

— Ganhe de mim e eu acato seu pedido. Perca e sua punição por me desafiar será não velejar com a tripulação até a Isla Sangrienta — as palavras da pirata, apesar de suaves, eram sérias, soando como uma sentença final.

— Você não me deixaria para trás — o tom dele, por outro lado, era de dúvida, não de certeza.

— Não? — Foi a resposta final antes de se calar e se concentrar no que estava fazendo.

Se a capitã bem sabia, Benny não hesitaria em usar de seus atributos mágicos para ganhar aquela luta, ainda mais depois de sua ameaça. Era com isso, porém, que ela estava contando. havia passado anos lutando contra cada um de seus tripulantes, bem como observando-os lutar uns contra os outros também.

Dizer que sabia cada ponto fraco, forte e trunfo escondido de todos eles não era exagero. E foi exatamente por isso que, ao vê-lo tomar uma mínima distância e se aproximar logo em seguida, com velocidade suficiente para um ataque direto, ela se virou de costas.

Um movimento arriscado e que contava apenas com a sorte de ser um palpite correto.

Mas, como esperado, Benny havia sumido e reaparecido bem em sua frente outra vez, e assim, não foi difícil usar a espada para contra-atacar sua investida de adaga e tomar a dianteira da luta. Uma vez que a capitã cruzou as lâminas e aproveitou da proximidade para, dessa vez, dar uma rasteira bem sucedida, o corpo do feiticeiro caiu na areia e ficou suscetível a um último golpe, o qual ela interrompeu segundos antes de atingí-lo pra valer, deixando que o aço gelado da lâmina apenas encostasse gentilmente em seu pescoço.

— Achei que tivesse dito que seria mais divertido do que foi na taverna — a ironia presente na voz dela fez com que o homem endurecesse a expressão.

Usando o ombro para secar as poucas gotas de suor que escorriam de sua têmpora até o queixo, ela riu. E iria estender a mão para que ele usasse de apoio ao se levantar, mas preferiu se sentar na areia, ao seu lado, por uns instantes.

— Comigo é sempre mais divertido — apesar do tom de flerte, a resposta não soou muito mais alta do que um resmungo contrariado, o que fez com que soltasse uma risada.

— Depois de uma derrota ridícula dessas, o mínimo é baixar a bola — cruzando as pernas, relaxou a postura, encarando-o de esgueio. — Aliás, você precisa, e muito, aprender a se virar melhor com a espada. Pode ser o feiticeiro que for e ter a magia que for, mas também é um pirata. Piratas sabem lutar com espadas. Você não sabe. Ainda vai acabar morrendo por isso.

— Tenho certeza que te teria chorando por mim — ele sorriu, mas tinha levado o conselho a sério.

— Tenho certeza que sonha com isso todas as noites — ela rebateu, revirando os olhos de forma teatral.

Então os dois se mantiveram em silêncio, apenas apreciando a companhia um do outro e a imensidão do mar à frente, — que já começava a se misturar com a cor do céu, — por vários instantes.

Até soltar um suspiro.

— O que está passando pela sua cabeça? — Benny perguntou sem nenhuma cerimônia. — E não adianta falar que não é nada. Vou encher o saco até me dizer.

— Nada — ela respondeu prontamente, mais para contrariar do que qualquer outra coisa.

— foi só o que ele precisou dizer antes que ela se rendesse.

— Eu já deveria ter voltado — falou por fim, com quatro palavras que tinham muito mais significado do que aparentavam.

Ele sabia que sim.

— Um propósito não deixa de ser um propósito só porque o tempo passou, se é o que te preocupa — o homem ofereceu um sorriso. — Willhye vai continuar lá quando decidir voltar e cumprir o que prometeu. Nada te impede de viver antes e ter outros objetivos além do principal.

— Eu devo isso à ele — rebateu de pronte.

— Eu nunca disse o contrário — Benny levantou as mãos em sinal de paz, rindo de leve para amenizar o clima. — Mas é a sua vida. E ele iria querer que vivesse. Que fosse muito mais do que só uma busca incansável por vingança.

— E você é o que, agora? — Perguntou, o cenho franzido em claro sinal de desconforto. — Alguém que fala pelos mortos?

— Não aprendi necromancia ainda, mas eu tenho quase duzentos anos — Benny conhecia bem a mulher à frente e sabia quando era a hora de encerrar o assunto. — A gente acumula mais do que só burrice e experiência ruim ao longo do tempo. Está escurecendo.

— Trace o curso para a Ilha Roccia. Vou reunir o resto da tripulação.

Enquanto a pirata caminhou de volta à taverna, – onde apesar de qualquer revolta em voltar para casa, a comemoração e bebedeira ainda era ouvida muitos passos antes de chegar de fato ao local –, o feiticeiro se levantou e bateu as mãos em suas roupas para tirar o excesso de areia grudada depois da queda, seguindo até o navio. Como ordenado, começou os preparativos para partirem, mas não havia muito a ser feito além de selos de proteção e organização básica. Por esse motivo, Benny apenas aguardou a chegada dos outros, recostando seu corpo na proa e observando as águas escuras do mar iluminadas pela luz da lua e estrelas com a chegada da noite.

E não demorou até que o resto da tripulação abordasse e estivesse pronta para partir. No convés, todos olharam para a capitã, esperando que ela desse as ordens.

— Eu realmente preciso dizer o que cada um tem que fazer depois de todos esses anos?! Vocês são patéticos. Péssimos. Horríveis. Uma decepção — ela os encarou desacreditada. — Vamos logo! Levantar âncora, içar velas, a todo pano para a ilha Roccia, blá blá blá — um gesto de mãos dispensou os marujos, que foram logo à postos.

E uma vez estando todos em suas devidas posições, se destinou à sua própria e tomou o timão, começando a navegar para casa. A ilha Roccia tinha sido escolhida para ser sua morada, dentre muitos fatores, pelo difícil acesso; o mar era agitado e perigoso, e a viagem, longa. Por isso, tinham muitas e muitas horas pela frente, mas se o vento estivesse a seu favor, de onde estavam, conseguiriam atracar em menos de dois dias. E, não diferente do habitual, visto que todas as viagens a bordo do Rogers’ Vengeance eram barulhentas e animadas, – essa um pouco mais devido ao nível alcoólico em que todos se encontravam – as primeiras horas se passaram sem que percebessem, entre conversas e brincadeiras.



Assim se seguiu.

Mais para o meio da madrugada, os piratas se organizaram em turnos para vigília. não saiu do timão e Benny seguia ao seu lado, atento a qualquer coisa que fugisse do controle durante a volta para casa. Connor tinha um alaúde pequeno em mãos, com o qual embalava a tripulação em uma melodia, e Nasher estava firme no alto da plataforma do Ninho do Corvo, os olhos focados no horizonte. Anne Marie se recostava em um dos mastros, intercalando sua atenção na bússola, – preocupada em mantê-los na direção certa –, e na música. Damien caminhava para lá e pra cá com barris e baús, armazenando os saques e mantimentos no porão.

Os demais cumpriam suas funções enquanto alguns se deslocavam para o alojamento, para finalmente descansar um pouco. Entre eles, estava Gemma.

A mais nova se deitou em uma das redes à contragosto; sua mente estava barulhenta demais para se entregar logo ao sono. Todas as vezes em que a sensação de que algo ruim estava por vir chegava, ela não conseguia relaxar até que finalmente se visse imersa na situação. Até enfim ter respostas.

E o que mais incomodava a garota dessa vez era que, mais do que todas as outras vezes, nada estava claro. Era somente uma pontada no estômago, um nó na garganta, uma angústia crescente que avisava e insistia que algo estava errado. Que algo grande viria a acontecer, e que talvez não estivessem preparados para isso. Mas ela não tinha visto nada. Não tinha ouvido, como antes. Sussurros no vento, palavras soltas em cartas pintadas à mão, melodias cantadas ou conversas aqui e ali que a levavam até uma resposta.



Nada. Era apenas uma maldita sensação incômoda e incansável, que, em determinado momento, acabou sendo vencida pelo cansaço do dia.

Então, se transformou em imagens, num sonho turbulento.

O cenário era embaçado, como se houvesse fumaça por toda parte. Talvez de canhões, afinal, havia marrom por ali. Eram muitas cores para processar, de qualquer forma. Tinha o azul do mar e a mistura dele com o tom mais claro de uniformes que, em certas partes, brilhavam em dourado. Aliás, o dourado também estava presente nos grandes pilares enfeitados com gárgulas cinzas e rachadas, no topo. Algo como seda em tom vinho se misturava com o bege envelhecido de mapas. Roxo, prateado e laranja apareciam em flashes muito rápidos. E havia também o vermelho, que manchava o solo que ela pisava. Esse, ora de areia, ora verde. Mas não era somente abaixo de seus pés que essa cor estava.

O vermelho também criava contraste ao se misturar com um tom escuro de pele.

Foi o suficiente para os olhos se abrirem muito mais rápido do que se fecharam, horas atrás. E para os passos barulhentos percorrerem em segundos o caminho do alojamento à cabine principal, a qual Gemma não se deu ao trabalho de bater antes de entrar.

— Syrena irá mandar tropas para invadirem e tomarem a ilha — recebeu a mensagem entre uma piscada pesada e outra, o olhar se tornando atento e a postura se endireitando à medida em que as palavras eram ditas pela mais nova.

Elas soavam distantes aos ouvidos de ambas. Quase irreais.

— Que bom que estamos voltando, então — foi a resposta, que ecoou depois de um longo período de silêncio. — Chegaremos muito antes deles e teremos tempo para nos preparar — a capitã prosseguiu, sem apresentar em sua expressão qualquer preocupação, apesar de a notícia tê-la pego de surpresa. — Mas você sabe disso. Então, por que seu corpo está tremendo por inteiro?

Gemma sempre fora centrada e calma; era preciso um baque enorme para desestabilizá-la daquele jeito. A notícia de que uma possível invasão e batalha estava para acontecer não era grande coisa. Não para deixá-la ofegante, suando, e com o rosto brilhando em lágrimas as quais a pirata fazia esforço para não derramar. Não para não conseguir encarar a mulher à frente ao forçar a voz a soar mais alta do que um sussurro.

— Você acaba morta, .



Capítulo 2 - As Ordens da Rainha

O sol do meio dia estava alto no céu. Seus raios fortes, quentes e brilhantes irradiavam de forma imponente toda Willhye, fazendo de seu antro, o grande palácio, – com suas altas torres e paredes esculpidas em desenhos que já marcavam gerações – uma visão de tirar o fôlego. O ouro dos adornos e das esculturas nos pilares era tão resplandecente quanto aquele que brilhava acima, mas, embaixo de tudo aquilo, a terra era fina.

E alguns esqueletos soterrados há tempos estavam para ser desenterrados.

Dentro da morada da realeza, os passos apressados e barulhentos que preenchiam o que na visão de era um inacabável corredor, somados à feição séria e ao maxilar tensionado que exibia em seu rosto, denunciavam seu nervosismo ao se aproximar da maior e mais importante sala do deslumbrante palácio. Era a primeira vez, desde que havia conseguido um cargo alto na corte, em que sua presença era solicitada repentinamente por Sua Majestade. E ele não sabia o que esperar com isso.

Teria cometido algum erro? Esquecido alguma tarefa? Ela pediria sua cabeça como punição?

Ninguém era chamado em presença da mulher há muito tempo. As ordens delegadas aos soldados eram passadas por superiores na grande hierarquia presente no reino, tornando desnecessária a participação direta da soberana. Então por que ele, sendo tão invisível em meio à tantos outros mais importantes naquele lugar, estaria sendo convocado?

As dúvidas que rondavam sua mente não o deixavam em paz. E elas só aumentaram ao finalmente estar em frente à grande porta de madeira maciça, onde deixou duas batidas para anunciar sua presença antes de adentrar o aposento.

— Com licença — a voz grossa e firme, apesar de tudo, não falhou em se fazer presente no ambiente. — Mandou me chamar, Majestade?

— por estar de costas, a reverência em respeito foi vista pelo reflexo dos vidros límpidos de uma das janelas. A mulher não se preocupou em encará-lo diretamente, apesar disso; seus olhos se mantiveram perdidos no mar agitado. — Sim, mandei. Tenho uma tarefa importante a solicitar, e depois de muito ponderar, creio que talvez você seja a pessoa certa para cumprí-la.

Os segundos que se passaram em silêncio após aquelas simples palavras, para ele, pareceram horas.

Claro, podia soltar um suspiro aliviado por não ser algo ruim como previa, mas toda a tensão anterior foi transformada num choque nada sutil. Nem em seus sonhos mais profundos esperava receber uma proposta importante tão cedo; afinal, mesmo seu irmão, sendo um dos homens mais requisitados para missões da corte em sua época, havia levado anos para conquistar confiança e servir diretamente a uma ordem superior. Estar recebendo uma proposta dessas tão cedo quase parecia errado. Nem sequer fazia um ano de sua promoção.

Mas não se recusa uma oportunidade, e por isso, as sobrancelhas grossas erguidas em surpresa voltaram para seu natural tão logo quanto se puseram acima uma vez que o homem se propôs a responder àquilo. Positivamente, é claro, apesar de toda estranheza.

Ele não conseguiu, no entanto. Antes de qualquer palavra poder ser pronunciada, a rainha se virou para encará-lo, e isso travou seus lábios e postura.

O rosto de traços finos e bem desenhados de Syrena era emoldurado por cabelos loiros que caíam em cascata pelos ombros. Sua expressão, apesar de séria, tinha em destaque olhos gentis de um azul tão vibrante que quase pareciam uma parte capturada do oceano lá fora. As vestes, como sempre muito bem feitas e bonitas, – moldadas e costuradas sob medida para ela pelas modistas da corte –, estavam no momento compostas por um vestido seda vinho adornado por detalhes rendados em tom cru na cintura. não deixou de notar também que rubis tão vívidos e brilhantes quanto a cor do tecido finalizavam o caimento do mesmo, contrastando e realçando a pele bem clara da mulher.

Ela era bonita; um tipo de beleza dificilmente igualada além de incomum, que conseguia fazer até mesmo olhos atentos se perderem para poder encontrá-la. E, de certo, essa poderia ser sua maior característica, não fosse pelo fato de uma única coisa ser capaz de atrair ainda mais atenção para si: sua idade. A rainha Syrena parecia uma moça em muitos aspectos, o que por si só era uma arma e um lembrete. Nenhuma vez, em toda a história de Willhye, a coroa havia descansado sob uma cabeça tão jovem.

Muito menos permanecido nela por tanto tempo.

A jóia ancestral, porém, estava há tantos anos adornando seus cabelos claros e impondo-se acima de todos que parecia apenas algo certo, feito para ela, como se fosse uma parte de seu corpo. Era uma sorte que a mulher houvesse se adaptado tão bem ao trono, especialmente depois da morte do rei, seu marido, antes mesmo que completassem um ano de união.

A doença que surgiu de forma súbita levou-o à morte às pressas, fazendo com que o fato ficasse marcado como uma terrível tragédia por todo o reino.

— Ficarei honrado em serví-la, Majestade — encontrou sua voz novamente depois de vários instantes, mas as palavras soaram mais convictas do que quando ele adentrou o local. Fruto, talvez, da expectativa já criada antes mesmo de saber qual seria sua tarefa.

— Acredito que esteja muito bem familiarizado com o nome — Sem cerimônias, Syrena se pôs a andar de um lado para o outro. Aquele simples nome, ela sabia, seria capaz de desconcertar o homem à sua frente.

E assim como imaginou, não tardou a ver a reação. A mão direita do soldado se fechou em punho e sua feição séria se tornou enraivecida, com linhas de expressão se franzindo em claro desprezo. Ele deveria estar surpreso por ouvir aquele nome ser pronunciado tantos anos depois do ocorrido. Deveria até mesmo estar feliz ante a perspectiva do que estava por vir com aquela introdução às ordens que se seguiriam.

Mas o único sentimento a surgir dentro de si foi o ódio.

E, mais do que ele, a vingança.

Vingança a qual o homem alimentava desde que viu seu irmão ser assassinado pela mulher.

— Não poderia esquecer esse nome nem se tentasse, Majestade — apesar do que sentia por dentro, ele desfez a expressão enraivecida brevemente exibida e se pôs sério e impassível outra vez, esperando o desenrolar da conversa.

— Essa mulher é uma criminosa procurada pelo reino desde que desapareceu seis anos atrás, como imagino que bem se lembre — Syrena não pôde deixar de colocar um tom de pesar em sua frase em respeito à , mesmo que não se importasse de fato com o ocorrido.

Claro, havia perdido um de seus melhores homens, mas não gastaria seu tempo lamentando por isso uma vez que o relógio estava correndo e a oportunidade de fazer a culpada pagar por aquilo finalmente surgia à sua frente. Então, ela prosseguiu:

— O assassinato de seu irmão foi uma perda muito grande para Willhye. Foi, também, o primeiro dos crimes de . Desde então, ela é uma desertora. Pirata — a última palavra foi pronunciada com nojo perceptível na voz da rainha.

— Estou ciente — ainda sem demonstrar emoção, por mais que o ódio que sentisse o corroesse, esperou que a mulher finalizasse seu monólogo e fosse direto ao ponto antes de dizer qualquer outra coisa.

— Para sua felicidade… ou assim suponho, sua localização finalmente foi reconhecida. E este é o motivo de ter lhe chamado — um longo suspiro escapou de seus lábios rosados. — Tenho conversado muito com meus conselheiros a respeito disso e voluntários para essa missão não faltaram. Mas acredito que, por ter uma rixa pessoal e sentimento de vingança dentro de si, talvez você seja a pessoa ideal para liderar essa missão.

A mulher andou novamente pela sala, os passos, dessa vez, em direção à , diminuindo a distância estabelecida entre os dois no início da pequena reunião. A diferença de altura entre eles era perceptível, uma vez que o homem, com seu porte militar, – resultado de longos anos de treinamento intenso, – era muito mais alto e corpulento do que ela. Essas características, porém, se tornavam quase insignificantes se comparadas à imponente presença e poder que Syrena exalava.

Com o silêncio do soldado perante suas palavras, ela continuou:

— Não posso deixar de ter a preocupação, porém, de que o sentimento que te motive a cumprir essa tarefa com afinco seja o mesmo a lhe tirar o sucesso, se deixar suas emoções superarem o profissionalismo. Veja, estou lhe oferecendo essa oportunidade porque preciso de alguém para assumir o lugar que Willian deixou, e também porque sei o quanto almeja encontrar aquela que o tirou a vida — apenas assentiu minimamente com a cabeça ao ouvir isso. — Mas quero que tenha em mente que a punição adequada será decidida e executada por mim, e assim sendo, suas ordens são apenas para contê-la e trazê-la de volta para o reino como prisioneira. Os que a seguem não me importam, fica a seu critério o que fazer.

O silêncio que se seguiu por vários instantes depois disso seria absoluto se não fosse pela respiração pesada do homem, que não falhava em denunciar seu descontentamento com as condições da missão proferidas pela rainha. Ele sabia que aquela era uma oportunidade única e não iria recusá-la, mas esperava poder ter a sua vingança uma vez que a encontrasse. Esperava poder fazer, com suas próprias mãos, a culpada por ter destruído sua família pagar pelos seus atos com a vida.

Em vez disso, teria que encarar a assassina de Willian frente a frente, quase que de mãos atadas, apenas seguindo ordens de capturá-la.

— Mas — os olhos do soldado, uma vez opacos ante à decepção, voltaram a encarar Syrena com certo brilho de expectativa. — Minha única exigência é que faça dela sua prisioneira. O que precisa fazer para conseguir isso e até mesmo o estado em que ela se encontrará ao chegar aqui é… irrelevante — o tom divertido e ao mesmo tempo cruel que permeava suas palavras abria uma grande brecha para interpretações variadas, e foi nisso que se agarrou, os lábios se curvando de maneira quase imperceptível em um sorriso. — Não falharei, Majestade. Não deixarei que meus sentimentos atrapalhem meu sucesso — foi com imponência que, depois de muito tempo sem falar, o homem fez sua convicção ser demonstrada naquelas palavras.

— É o mínimo esperado — Syrena voltou a se afastar, caminhando outra vez em direção à janela que observava antes de a conversa começar. Ela deixou seu olhar se perder ali por uns segundos, como se buscasse por algo. — está na Ilha Roccia. Um dos comerciantes do lugar aproveitou seu período de ausência para fugir e comunicar isso à corte — um pequeno sorriso curvou o canto dos lábios da rainha por uns instantes. Ele logo sumiu, no entanto, e ficou se perguntando se teria imaginado. — Ao que parece, ela vem querendo aumentar o que julga serem suas ”posses”; pequenas ilhas pouco habitadas e derivados, possíveis rotas de fuga e esconderijos. Mas sua localização fixa é lá, desde o começo. Um lugar quase fora dos mapas. É fácil de entender o motivo de conseguir passar despercebida por todos esses anos.

Havia raiva na última frase, e a inquietação da mulher perante toda a situação ficou clara quando, mais uma vez, o barulho de seus saltos foi ouvido ecoando pelo ambiente enquanto ela caminhava. Dessa vez, seu destino foi a mesa central de sua sala, onde um mapa aberto continha uma tachinha amarela indicando a localização do destino almejado.

— Além de longe, a rota até lá é extremamente difícil. O mar é traiçoeiro e as rochas enormes e pontudas que circundam o local são famosas por afundar navios. Você levará ao menos seis dias para chegar até lá, sendo otimista. Para cumprir suas ordens, acredito que precise de menos do que isso, o que te dá um total de quinze dias ao todo, entre ida e volta — seu dedo indicador deslizou pela parte azul do papel, demonstrando a rota marítima a ser seguida. Segundos depois, as unhas começaram a tamborilar pela madeira. — Dezesseis, se for necessário contar imprevistos na rota ou na execução da tarefa, o que acredito não ser. É um homem cético, ?

— Cético? — As sobrancelhas se franziram por uns instantes ao ser pego de surpresa por aquela questão: — Não estou certo ao que se refere nessa pergunta, Majestade.

— Sereias — os olhos azuis da mulher voltaram a encarar os dele; o tom quase de mesma cor, mas não de mesma profundidade, se cruzando. Havia um brilho diferente ali, que quase tão logo quanto apareceu, se foi. — Há uma baía tomada por elas no meio do caminho. Sereias são criaturas difíceis de se lidar, já que fazem questão de afogar marinheiros que cruzam seu caminho, hipnotizando-os com seu canto e beleza surreal.

— Eu não... — o soldado não sabia bem o que responder perante àquela pergunta e as informações que a seguiram, por isso, a mulher fingiu não perceber suas palavras, retomando sua fala quase a ponto de interrompê-lo em suas dúvidas.

— Ao mesmo tempo em que são um perigo mortal para você, podem servir como trunfo, se souber como usá-las a seu favor — o canto esquerdo dos lábios de Syrena se curvou outra vez em um pequeno sorriso enquanto sua mão direita se dirigiu até uma das gavetas acopladas à mesa, tirando dali um colar de pérolas negras. — Sereias, muito além de sua beleza, têm poderes incríveis. Pode imaginar como isso atrai as mais variadas pessoas, principalmente aqueles… ratos do mar. Esse colar pertenceu a uma delas. Ela foi capturada por piratas, e meus homens entraram em um embate com os mesmos para soltá-la e devolvê-la ao mar. Infelizmente, a criatura não sobreviveu, mas em retribuição e agradecimento, nos seus últimos minutos, nos deixou isso.

Finalizando a história, a rainha entregou a jóia para , que segurou-a e analisou cada uma das pérolas ali presentes. Por mais que fosse uma narrativa fascinante, a resposta para a pergunta anterior da mulher era "sim"; ele era cético. Criaturas marinhas místicas estavam muito além do que um dia ele ousou acreditar, uma vez que, tendo velejado algumas vezes, nenhuma delas cruzou seu caminho.

No entanto, não iria recusar algo que talvez, apenas talvez... pudesse ajudá-lo em sua viagem.

— O nome dela era Ella. Lembre-se disso. Use isso — era nítido que a conversa agora já se encaminhava para o final. — Quero que parta amanhã cedo, portanto tem o resto do dia de hoje para se preparar. Reuni uma tripulação altamente treinada e preparada para lhe acompanhar nessa missão, porém não tenho como disponibilizar a quantidade necessária de homens para compor o todo. Irei deixar que complete as lacunas com pessoas que sejam de sua confiança, então escolha sabiamente. Está dispensado.

Ainda sem acreditar em tudo que havia ouvido nos breves instantes de conversa com Syrena, com uma reverência em respeito e agradecimento, o homem deixou os aposentos.

O fato de ter liberdade para escolher algumas pessoas de fora para compor sua tripulação, não se limitando apenas aos soldados da corte, – o que o homem sabia ser nada além do que um teste de sua capacidade de liderança e lealdade à coroa – deu a alguns trunfos. Ele tinha muitos contatos em vários lugares e sabia de pessoas que adorariam a oportunidade de sair para uma boa caça aos piratas.

Entre eles, um alguém em particular, muito peculiar, que lhe devia um favor. Mas este seria o último a ser chamado. Primeiro, ele começaria por um amigo de anos, o qual sabia que bastaria pronunciar a palavra chave para fazê-lo topar a aventura.

Filho de falecidos marinheiros, – estes, assim como seu irmão, assassinados por piratas – Frank, de certo, conhecia muitas histórias de pescador. Por esse motivo, não duvidava que ele acreditasse em sereias e demais criaturas, o que ajudaria na possível parte da missão em que, eventualmente, cruzariam com elas. Além do mais, o homem poderia facilmente ser definido como um "pau para toda obra", já que também tinha habilidades em luta corporal e perícia em algumas armas.

Seria bom, de várias formas, tê-lo ao seu lado nessa tarefa.

E com o tempo correndo, foi pensando nisso que seus passos o levaram para fora do grande palácio. Sabia exatamente onde procurá-lo e, enquanto o fazia, caminhando pelas ruas calmas de Willhye, o soldado deixou seus pensamentos vagarem até aquele dia em que sua vida havia mudado drasticamente.

Willian sempre havia sido, para , um exemplo a ser seguido. O mais velho parecia invencível aos seus olhos; voltava vitorioso de todas as missões que recebia e cumpria seus deveres com excelência. Tinha também a total confiança da rainha, e isso, de fato, era o mais notável, uma vez que o mérito era quase impossível de ser alcançado. Ele havia construído sua imagem e feito com que o nome de sua família fosse conhecido e respeitado por todos no reino, se tornando, assim, alguém quase intocável.

Um soldado perfeito.

Talvez, por isso, ninguém imaginasse que sua vida seria tirada tão facilmente e de forma tão abrupta, em praça pública e em plena luz do dia. havia visto acontecer. E ele se lembrava de cada detalhe.

Da vívida imagem da espada afiada atravessando seu peito enquanto o mais velho caía de joelhos numa poça de seu próprio sangue, a vida se esvaindo dos olhos arregalados em surpresa;

De como a assassina se vangloriou do ato e riu em cima do corpo, dizendo algumas palavras sobre a rainha que não fez questão de prestar atenção, estando mais preocupado em gravar seu nome, seu rosto e correr em sua direção junto aos soldados que a cercavam;

Da tristeza e do ódio que sentiu, entre gritos desesperados e um choro incessante, implorando para que seu irmão continuasse vivo, para que voltasse para ele;

Sobretudo, do jeito que a mulher desapareceu como se nunca, de fato, tivesse estado por ali. Ela era como um fantasma, um anjo da morte, que tão logo quanto veio e cumpriu seu objetivo, se foi sem deixar rastros.

— Você tá um caco — a voz tão bem conhecida fez tudo aquilo desaparecer, trazendo o homem antes perdido em pensamentos de volta ao mundo real. — Perdeu o rumo de casa? Acho que nunca te vi tão avoado.

— Frank — franziu o cenho, olhando rapidamente ao redor e se dando conta de que já há um tempo havia deixado as ruas nobres para trás, estando agora na parte mais esquecida e pouco frequentada da cidade. — Ah, eu estava procurando por você.

— Por mim? A que devo a honra desse nobre soldado visitar a ralé? — A ironia em sua voz era carregada, bem como o sorriso que apareceu, indicando a brincadeira. — Pensei que havia se esquecido daqueles menos afortunados.

— Isso tudo é saudade? — O soldado devolveu, balançando a cabeça. — Andou se metendo em confusão de novo, hm? — O motivo da alfinetada era claro, visto que haviam alguns hematomas aqui e ali no rosto do amigo, bem como vários rasgos em suas roupas simples, as quais fez questão de apontar, olhando-o de cima a baixo.

A diferença entre eles se dava apenas nesses quesitos, porém. Os dois tinham a mesma estatura, Frank perdendo apenas por alguns centímetros. O porte físico também não ficava muito atrás, visto que da mesma forma que treinava como soldado, nas estalagens do reino, seu amigo o fazia por conta própria, em brigas de rua e coisas do tipo.

— Como se esse não fosse meu jeito de ganhar a vida, meu amigo. Sabe, nem todos têm privilégios de ser da alta classe, andar por aí com roupas de luxo e encher o bucho num palácio como você — a expressão forçada de tristeza que Frank colocou em seu rosto fez rir.

— Ah, para com isso, você não tem essa vida porque não quer. Já lhe foi oferecido um cargo na corte como soldado. Você recusou — com essas palavras, Frank acabou dando de ombros e rindo também.

— Claro, imagina só ser um engomadinho como você. Tô fora — o desdém fez revirar os olhos e começar a andar, indicando ao outro para que lhe acompanhasse. — Por que veio aqui? — Vou te explicar. Tem alguma taverna por aqui para bebermos enquanto isso? O assunto é longo.

Com um aceno breve de cabeça, Frank começou a guiar o caminho, cumprimentando algumas pessoas pelas ruas em que passavam. , por sua vez, não deixou de notar que aquela região era realmente diferente dos arredores do palácio com os quais estava acostumado; enquanto por lá passavam mulheres bonitas, bem vestidas e educadas, acompanhadas por homens nobres e quase sempre algumas crianças, ali, a grande maioria se resumia a miseráveis e causadores de confusão puxando uma briga a cada esquina.

— Ah, não pareça tão surpreso. Faz muito tempo que você não vem pra esses lados, mas as coisas continuam como da última vez. Chegamos — a voz de Frank se fez presente para tirar de seus devaneios outra vez. Agora, os dois estavam em frente a uma pequena taverna, onde não hesitaram em entrar e buscar uma mesa mais afastada. — Então? Qual é o assunto tão importante? — Eu vim te recrutar para uma missão — a expressão curiosa do homem se transformou em desconfiança ao ouvir aquelas palavras, mas o soldado continuou antes de poder ser interrompido: — A rainha Syrena encontrou o paradeiro da assassina de Willian e me deu a incumbência de ir até ela.

Frank ficou alguns instantes em silêncio até conseguir processar a informação e recuperar a fala. Ele conhecia a história, assim como todos no reino. Havia cartazes de procurado com o rosto da mulher por todo o canto e o mistério de seu sumiço era comentado até os dias atuais, quase sendo uma lenda passada de pai para filho.

— Estou ouvindo — com um gesto para que ele prosseguisse, o homem se pôs atento a cada palavra.

O fato de a taverna estar cheia de pessoas cantando, brigando e rindo alto facilitou a conversa dos dois a passar despercebida. A última coisa de que precisavam era mais atenção atraída para eles, não fossem as roupas da corte que usava mais do que suficientes para isto. O soldado então contou todos os detalhes da missão e explicou o porquê de querer Frank nela, não deixando de notar a animação surgir nos olhos dele em partes específicas da narrativa.

Quando finalmente terminou, esperou por uma resposta.
A mesma veio quase que de imediato, sem hesitações:

— Piratas e sereias. Que tipo de homem eu seria se recusasse uma aventura dessas? Você sabe que eu topo — os dois sorriram ao mesmo tempo com isso. — Você disse que a rainha te deixou escolher sua própria tripulação, por isso veio até mim. Sou exclusivo ou tem mais alguém em mente? — Além de você, vou chamar Blanche, a caçadora de recompensas, e um... amigo, digamos assim. Por que? — achou sua resposta antes que ela fosse pronunciada, acompanhando o olhar de Frank até uma das serventes da taverna.

— Bom, se estiver disposto a aceitar sugestões... aquela é a Mia. Ela e sua irmã, Amália, costumam ganhar todas as brigas em que entram. Além disso, enquanto uma é especialista em explosivos e boa navegadora, a outra é uma arqueira incrível. Ambas têm suas desavenças com piratas. Talvez sejam de grande ajuda.

— Interessante. Faça a oferta e veja o que elas têm a dizer. Meu tempo está acabando e eu preciso falar com os outros. Estejam no porto ao amanhecer — o soldado finalizou, se levantando e deixando alguns trocados em cima da mesa pelo que havia consumido.

Sem esperar alguma resposta de Frank, com um aceno, ele saiu do local às pressas e recomeçou a caminhar pelas ruas, agora mais escuras com a chegada do crepúsculo.

sabia que seria uma tarefa um pouco mais difícil chegar até Blanche, então, tomou seu caminho até uma pequena casa, ainda mais afastada e esquecida aos olhos do reino, onde sabia que encontraria aquele que pretendia chamar desde o começo.

Com três batidas, ele esperou até que a porta se abrisse, e quando ela o fez, o soldado sorriu para o homem que ali apareceu.

— Veio cobrar seu favor, imagino — a voz soou sem muita emoção, mas era possível distinguir uma pontinha de curiosidade em meio ao desinteresse.

— Você pode recusar se quiser, mas imagino que não irá, uma vez que ouvir a proposta — diferente de Pogue, homem o qual analisava cada expressão do soldado que bateu à sua porta, demonstrava sua animação nas palavras.

— Não preciso, as notícias correm rápido por aqui. Eu sei do que se trata. E sei que a rainha não ficará feliz se souber que me chamou — o homem não evitou uma risada amarga. — Então, estarei no navio antes do amanhecer para lhe evitar problemas. Espero que esteja certo de que é isto que quer em retribuição ao que fez por mim.

Deixando de lado a surpresa com o fato de não precisar pronunciar uma sequer palavra para que o feiticeiro à sua frente soubesse do que o assunto se tratava, o soldado balançou a cabeça em afirmativo.

— Estou certo — respondeu firme enquanto o encarava. Não havia sequer uma ponta de dúvida ou hesitação em sua voz.

— Que assim seja, então — a porta estava para se fechar outra vez, mas Pogue pronunciou uma última frase antes disso: — Imagino que tenha muito o que fazer, então não perca seu tempo em uma busca pela caçadora de recompensas. Ela estará lá também. Vou me encarregar disso.

Com a porta se fechando em sua frente, , com o cenho franzido em algumas questões não pronunciadas, assentiu em agradecimento e deu as costas, começando a caminhar de volta ao palácio. As horas restantes até o nascer do sol seriam de grande ansiedade para o início da missão mais importante de sua vida.



Capítulo 3 - Guerra Declarada

Sentir a areia macia e a espuma das águas geladas do mar tocando seus pés descalços sempre havia sido algo relaxante para a , mas naquele momento, nem mesmo a melhor das sensações conseguiria calar os pensamentos que insistiam em rondar sua mente ou acalmar seu coração, que batia no mesmo ritmo das ondas que quebravam firmes nos rochedos.

Desde que havia sido acordada no meio da noite anterior para receber o aviso de Gemma, o sono e o cansaço deram lugar à inquietação e êxtase, e por esse motivo, assim que atracaram, a mulher deixou ordens para uma revista completa na ilha – mesmo sabendo que sua tripulação nada encontraria –, e rumou ainda na madrugada para se sentar na orla da praia, observando o horizonte escuro enquanto processava as informações repentinas. A chuva fina que caía não a incomodava; estava imersa demais em seu próprio mundo para notar qualquer coisa além de suas lembranças.

Se anteriormente havia qualquer dúvida sobre retornar ao início, agora não mais.

A menção de Gemma à rainha, da qual há muito não ouviam falar, fez tudo voltar à tona: tudo o que perdeu, tudo o que havia passado. Todas as memórias de sua infância roubada e arruinada pela soberana; sua casa, sua felicidade, sua família.

não havia se esquecido de sua promessa, ela não poderia.

Havia jurado para si mesma desde os treze anos de idade que faria aquela mulher cair, que faria com que ela pagasse por tudo. Havia baseado sua vida nisso, lutando e se fortalecendo dia após dia para cumprir com sua palavra. Todas as coisas que tinha aprendido sozinha em seu longo e difícil caminho serviram de motivação e agora seriam postas à prova. Ela estava prestes a entrar em uma batalha para defender sua ilha, sua tripulação, e sua vida.

Mas era exatamente esse o motivo do sorriso que estampava seus lábios naquele momento.

Não planejava que as coisas acontecessem dessa maneira, mas um presente a estava sendo entregue de bandeja: tropas reais estavam indo à seu encontro. Ela não precisaria voltar ao palácio para poder dar continuidade ao que havia começado seis anos atrás. Pelo menos, não por agora. Aquele seria seu segundo aviso à Syrena, e sabia que a mulher o receberia e entenderia: se a quisesse morta, teria que pegá-la pessoalmente, e não mandar encarregados fazerem o seu trabalho sujo.

Essa guerra estava declarada há muito tempo, e a pirata estava um passo à frente.

Sempre esteve.

Ela devia isso ao seu pai. E cumpriria com sua palavra, independente de qual fosse o custo.

Com uma chama de determinação surgindo – mesmo que ainda imersa nessa maré de memórias –, só se deu conta de que o sol já se fazia presente quando os olhos de esmeralda puderam vasculhar claramente cada canto do horizonte, em busca de um navio ao qual sabia precisamente quanto tempo demoraria a chegar. Se chegasse. Tinham tempo suficiente para se preparar. E o canto dos pássaros da ilha dando lugar ao som do tilintar de espadas se cruzando foi sua deixa para se levantar, tirar a areia das roupas, calçar suas botas e caminhar de volta ao navio para reunir sua tripulação. Tinha um aviso a dar e nenhum segundo a perder.

— Capitã, agora que já passamos uma noite inteira sem sinal de problemas por aqui e seu bom humor voltou, a julgar pelo sorriso no rosto, devo presumir que podemos traçar o curso para La Maldita Isla Sangrienta, certo? Obviamente, devo também presumir que poderei acompanhá-la, já que, mesmo eu tendo perdido aquela luta, você é uma capitã extremamente benevolente, não é? — A voz sugestiva de Benny se fez presente tão logo a mulher se juntou ao local onde seus marujos lutavam.

— Muito pelo contrário — o homem quase engasgou ao ouvir essas palavras, mas antes que pudesse protestar, continuou: — Meu bom humor se dá pelo fato de que a rainha Syrena pretende invadir nossa ilha.

E a pirata teve que se segurar para não rir dos olhares confusos direcionados à ela depois daquela afirmação. Todos a encaravam sem entender o significado de suas palavras, uma vez que a mulher tinha dito aquilo com a tranquilidade de alguém que comentava sobre o clima.

— Ela ficou louca? — A pergunta veio de Celeste, que treinava com Nasher num pequeno confronto de espadas. O mesmo deu de ombros, mas o cenho franzido indicava uma resposta positiva.

— Talvez eu tenha bebido demais noite passada e acabei ouvindo errado. Ou não devo ter acordado direito ainda — Connor levou sua mão direita até a altura da cabeça, usando o dedo indicador para cutucar o ouvido.

— É uma ótima brincadeira, capitã. Sério, eu estaria rindo se você também estivesse, mas agora estou começando a me preocupar com a sua saúde — o feiticeiro voltou a falar em tom divertido, mas mudou sua expressão ao perceber que depois desses comentários, não mantinha mais a leveza em seu rosto.

— Agora escutem aqui todos vocês — a voz séria ecoou, fazendo os cochichos se calarem e toda a atenção se voltar para suas palavras: — Na madrugada de ontem, enquanto roncavam como porcos e curavam a ressaca com uma bela noite de sono, Gemma veio até mim e alertou que tropas reais estão sendo enviadas para cá. Eu não sei como aquela mulher descobriu nossa localização, mas de qualquer forma, temos seis dias até que os soldados cheguem. Essa é a distância de Willhye até aqui.

A informação foi como um balde de água fria.

O clima descontraído de segundos atrás havia mudado completamente ao perceberem que aquilo realmente não se tratava de uma brincadeira. E não demorou, também, para que os cochichos recomeçassem. Dessa vez, porém, a surpresa e preocupação eram explícitas nos mesmos.

Ignorando-os, retomou a fala e fez com que a tripulação se calasse outra vez:

— Eu não vou mentir, nós teremos uma batalha dura pela frente. Aquela mulher não brinca em serviço e também não poupa esforços para atingir seus objetivos. Estejam avisados que "piedade" e "misericórdia" são palavras que não existem em seu vocabulário — a postura firme da capitã fazia dela uma verdadeira líder. Ela mantinha o foco de visão se alternando entre cada um dos presentes enquanto falava: — Eu sou o alvo dela, não vocês. Mas de qualquer forma, eu não duvido que os soldados tenham ordens para abrir fogo contra qualquer um que entrar em seu caminho até conseguirem chegar a mim.

— Não espera que fiquemos fora de cena enquanto você luta sozinha, espera? Porque não vai acontecer — a forma que Celeste se impôs antes mesmo de terminar de ouvir suas ordens fez dar um meio sorriso.

— Não, nós vamos lutar como uma tripulação, como a família que somos. Eu sei que nada do que eu diga vai impedir vocês, e não era isso que eu pretendia, para começo de conversa — uma sobrancelha se ergueu ao encarar a menina, que acabou relaxando os ombros ao ouvir aquilo. — Mas não vou aceitar que contestem a ordem de que, se eu for abatida e capturada, não devem tentar me salvar. Devem abandonar a batalha e fugir, porque a vida de vocês vale mais do que a minha — fazendo uma pausa dramática, ela encarou os marujos. — Assim podem dar continuidade ao meu legado — completou de maneira convencida e com uma piscadinha, tentando amenizar o clima.

Mas é claro que não deu certo, já que uma série de protestos indignados se iniciou automaticamente, vindo de quase todos ali presentes. já esperava. Benny e Gemma, inclusive, eram os que mais gritavam; os dois se alteraram rapidamente ao ouvir aquela recomendação.

— Calem a boca! — O grito da capitã se sobrepôs à todas as vozes, fazendo-as silenciarem de imediato. — Eu disse que não aceitaria contestações. Essas são as suas ordens e quero que as cumpram, estejam satisfeitos ou não com elas. Uma vez que eu estiver fora de cena, presumo que eles não irão mais atrás de vocês, então não testem a sua sorte tentando bancar os heróis e fujam — depois de passear seus olhos sobre todas as caretas ali exibidas, ela prosseguiu: — Eu não pretendo me render e muito menos ser abatida facilmente. Pelo contrário, tenho certeza que podemos ganhar essa batalha, porque nós temos a vantagem. Eles estarão em território desconhecido, mas nós conhecemos essa ilha como a palma de nossas mãos, o que faz com que nossa posição e plano de ataque sejam extremamente superiores. Temos também o elemento surpresa, afinal, eles não sabem que nós sabemos de sua vinda.

A expressão fechada que detinha em seu rosto foi se abrindo em um novo sorriso à medida em que ela viu seus marujos, mesmo contrariados, aceitarem suas recomendações sem mais protestos. Com isso, a mulher começou a caminhar e diminuir a distância entre ela e sua tripulação.

Estando cara a cara com o feiticeiro, – que ainda mantinha em seus traços bonitos uma feição emburrada –, ela recomeçou a falar:

— Além disso, a magia está do nosso lado — Benny acabou por retribuir o sorriso de sua superior ao ouvir isso, fazendo uma pequena reverência. — Cada um de vocês é especialista em alguma coisa, e eu digo isso com propriedade, porque em nossos treinos, vencer não foi tarefa fácil. Gemma, assim como suas previsões, eu nunca vi você errar um alvo com suas flechas — a pirata abaixou a cabeça, um pouco envergonhada com o elogio. — Celeste, posso dizer de maneira agradecida que aprimorei meu combate corpo a corpo graças a você. Connor, você... bom, você consegue fazer muitas coisas explodirem. E também é ótimo com armadilhas — o clima começou a se amenizar entre a tripulação, que agora ria e se encorajava com os comentários de . — Nash, você luta muito bem com espadas, mas sua especialidade em ervas e pomadas para curar ferimentos é incrível. Isso vai ajudar a todos. Você é uma parte importantíssima nessa batalha, todos vocês são. Tenham isso em mente — um a um, todos foram sendo citados, e isso fez com que a determinação estampasse seus rostos. — Nós vamos ganhar. Agora, seus inúteis, parem de perder tempo e comecem a se preparar! Não estou vendo seus corpos suados de esforço e muito menos sentindo o cheiro desagradável que isso traz. Ao trabalho!

Uma vez que os marujos – agora animados e ansiosos pelo confronto –, se dispersaram entre treinamentos e preparativos, a capitã deu as costas e adentrou à cabine de seu navio, caminhando até um dos cantos e sentando-se no chão de madeira. Sozinha, ela desembainhou sua espada e a apoiou em seu colo, correndo rapidamente o olhar por toda a extensão da lâmina de aço até por fim se demorar no cabo. Ali, incrustradas na madeira, se encontravam três pérolas; duas delas da cor natural – as quais o poder já havia sido utilizado anteriormente –, e uma completamente negra e brilhante, símbolo da magia que ainda continha. Era engraçado como, os olhos de qualquer um, elas pareciam apenas uma decoração desnecessária para uma arma. Para , porém, o significado ia muito além.

Com um sorriso melancólico, a mulher deixou seus pensamentos à levarem para anos atrás, quando ainda era uma garotinha. Mesmo crescendo na corte, ser uma das nobres donzelas que exibiam seus vestidos bem feitos e bons modos pelos corredores do palácio em busca de cortejos dos soldados nunca foi seu forte: ela sempre se interessou muito mais por armas e batalhas do que pelos bailes e banquetes que Syrena promovia, motivo pelo qual insistia todos os dias para seu pai ensiná-la a lutar.

E era difícil para ele resistir ao sorriso pidão e divertido da pequena, motivo pelo qual ela ganhou sua primeira espada. Os dois trabalharam juntos na mesma, pois, além de um grande soldado, Rogers era um excelente ferreiro.

"Você não vai conseguir levantar essa espada tão cedo, . Já olhou para o tamanho dos seus bracinhos? Vai precisar treinar muito duro se quiser fazer isso." As palavras tão distantes pareciam ter sido ditas ontem.

quase podia escutar as batidas do martelo em cima do aço quente da lâmina enquanto se lembrava dessa conversa.

"Por favor, papai, me ensina! Você vai ver, um dia eu ainda vou conseguir te derrotar!" Era motivo de felicidade, para o homem, notar a determinação que transbordava dos olhos verdes de sua filha.

"Por que você quer tanto aprender a usar uma espada? Brincar com as crianças da sua idade não é mais divertido?" Rogers perguntava levando uma mão ao ombro de , mesmo já sabendo a resposta.

"Claro que não, eu quero ser como você, papai. Eu quero ser poderosa e fazer você se orgulhar."

"Você já é o meu orgulho."

Soltando um suspiro enquanto encarava o vazio, a capitã sentiu uma lágrima quente escorrer pela sua bochecha.

— Ah, pai, se pudesse me ver agora — a mão direita subiu ao rosto para secá-lo. — O que será que pensaria?

Foram os passos que soaram pela escada de madeira, se aproximando cada vez mais da cabine, que fizeram a mulher se recompor e levantar rapidamente, guardando a arma na bainha presa à cintura outra vez.

— Atrapalho? — A pergunta suave veio de Gemma, que detinha uma expressão tão leve quanto sua voz.

— Não. Eu só estava pensando em algumas coisas — respondeu se aproximando. — Algum problema?

— Nenhum. Tem um minuto para conversarmos? — Com o aceno positivo da capitã, a menina sorriu e indicou a saída do navio. — Quero te mostrar uma coisa.

As duas então começaram a caminhar pela ilha. O tempo já havia melhorado; a chuva rala que antes caía deu lugar ao sol, que agora se fazia presente em todo seu brilho e calor.

— Então? O que quer conversar? E o que quer que eu veja? — perguntou depois de uns instantes em silêncio, olhando de relance para a pirata ao seu lado.

— Você está nervosa com a batalha? — Sem parar de andar para encarar sua superior, Gemma iniciou o assunto. — Sabe que não precisa, e nem consegue, mentir pra mim.

— Nervosa não é a palavra — a resposta veio rápida, sem precisar ser elaborada. — Eu estou ansiosa. Mas de qualquer forma, não é Syrena que vem para lutar comigo, são seus soldadinhos. Isso estraga um pouco a expectativa — as duas riram juntas com o comentário.

— Não importa, quando nenhum deles retornar, ela vai entender o recado. E então, quem sabe, ela não resolva vir pessoalmente — Gemma sorriu, agora encarando diretamente a mais velha. A paisagem à frente das duas começou a se fechar entre árvores e arbustos mais robustos, o que fez a capitã franzir um pouco o cenho. — Você disse que conhecíamos a ilha como as palmas de nossas mãos, sim? Descobri esse lugar recentemente. E, bom, aqui há um pequeno truque que podemos usar a nosso favor.

Se embrenhando no meio de toda aquela vegetação, elas acabaram, depois de uma certa dificuldade, chegando até um pequeno lago bem escondido. Não havia muita iluminação ali, afinal, as copas das árvores eram grandes a ponto de não deixar os raios de sol penetrarem no lugar. A capitã nunca havia estado ali antes e tampouco entendia a razão de estar agora, o que resultou em um olhar confuso lançado para a mais nova. Isso fez com que ela soltasse uma risada e tirasse de um dos bolsos um par de luvas de couro, as quais vestiu logo em seguida.

— Quer me explicar o que está fazendo? — perguntou impaciente ao ver Gemma pegar uma das várias flechas guardadas na aljava que sempre carregava nas costas. Sem responder, a garota caminhou até a beira do lago e tirou de lá um sapo, deslizando a ponta e todo o resto da extensão de madeira da flecha pelas costas do anfíbio.

— Eu descobri esse lugar com o Nash — as bochechas ficaram rosadas por uns segundos. — E, bom, acontece que ele não entende só de plantas. Esses sapos têm um veneno paralisante. Ele não mata, mas a pessoa atingida não consegue se mover por uns bons minutos, talvez até mesmo por uma hora completa — percebendo que a capitã não havia falado nada depois da explicação, a menina se virou e deu de cara com uma expressão surpresa, e talvez até mesmo orgulhosa, de sua superior. — O que foi?

— É difícil de acreditar que aquela garotinha que veio me pedir abrigo quando nem eu mesma tinha para onde ir cresceu tanto assim — o comentário veio com uma risada.

— Ah, corta essa, . Eu cresci graças à você, que mesmo “não tendo para onde ir", me levou junto — era possível sentir a sinceridade nas palavras de Gemma, mesmo a garota estando envergonhada quanto ao comentário.

— Não poderia deixar você passar pelas mesmas coisas que eu passei — deu de ombros. — Sabe, viver como pirata, roubar e fugir de homens e inimigos é.. bem melhor do que servir e vender seu corpo para eles em troca de umas moedas para conseguir sobreviver.

— Você é uma sobrevivente, . Uma guerreira. Além do mais, é a mulher mais incrível que eu já conheci — Gemma voltou a se aproximar da mais velha depois de guardar as flechas embebidas em veneno novamente em sua aljava. — Mesmo chegando depois de muita coisa, eu trilhei boa parte do seu caminho junto com você, então posso dizer isso com propriedade. Não foi à toa que depois de treinar completamente sozinha e se destacar em vários navios você conquistou o seu próprio, bem como sua tripulação e seu título de capitã. Todos que te seguem fazem isso porque gostam de você, porque são leais a você. Não porque tem uma dívida ou foram obrigados, com suas cabeças ameaçadas, caso não o fizessem.

— Ah, cala a boca — apesar da repreensão, um sorriso se abriu no rosto de . — Estamos prestes a entrar em uma batalha épica e você me vem com sentimentalismo? Preciso de uma garrafa de rum — as duas então começaram a trilhar o caminho de volta para o navio, rindo do comentário. — Gemma... você se lembra da história das pérolas? — a mais velha voltou a perguntar depois de uns instantes em silêncio.

— Claro que sim. O que tem? — o olhar curioso encarava a expressão pensativa que estampava o semblante de .

— Acha que conseguiríamos o apoio das sereias? Sabe, elas podem ser de grande ajuda nessa batalha — a capitã parou de andar, encarando-a em expectativa.

Gemma demorou uns instantes para considerar a pergunta, como se estivesse analisando a situação como um todo antes de respondê-la.

— É algo difícil de responder. São criaturas muito complexas e ao meu ver, não há motivos para entrarem em uma batalha para nos ajudar. Não sabemos quantas delas existem, se há algum lugar específico do oceano em que se concentram e muito menos se existe uma hierarquia, um reino, ou algo assim entre elas. Mas... se tiver a sorte de achar uma, o que por si só já é uma tarefa muito difícil, e conseguir contar a sua história, fazendo com que ela acredite em você, talvez haja uma possibilidade de ficarem do nosso lado. Afinal, é uma escolha óbvia — a garota olhou para a espada da mulher. — Você tem algo para provar que o que diz é verdade.

assentiu em um gesto simples e então voltou a focar seu olhar na trilha à frente, movendo seus pés outra vez. O resto do caminho foi silencioso; as duas estavam muito absortas em suas próprias questões para conversarem entre si. E não muito tempo depois, já de volta à frente do navio, Gemma acenou em despedida e partiu para o meio da ilha, visando os próximos preparativos para a batalha. , por sua vez, ao ver todo o resto da tripulação concentrada em seus próprios afazeres, se afastou, dirigindo-se até a orla da praia – onde esteve mais cedo – e escalou uma das grandes pedras que cercavam a extensão do lugar. Por sua localização precisa e alta, de cima da mesma, a mulher tinha um grande campo de visão do vasto oceano à frente.

— Ótimo. Agora, como é que eu vou contatar uma sereia?! — A pergunta baixa para si mesma foi acompanhada de um suspiro; não havia uma resposta para aquela dúvida, então, sua única opção foi sentar e esperar.

nunca havia tido contato direto com uma das criaturas, o que dificultava ainda mais o seu plano que, àquela altura, já começava a parecer impossível, para além de maluco. A única coisa que a capitã sabia sobre elas é que eram donas de grande beleza e de grande poder. Seu pouco conhecimento vinha das histórias de seu pai. E ele sempre as contava com entusiasmo, afinal, não era só pelo mar que tinha um grande fascínio, era também por todos os seres que nele viviam, principalmente os mágicos.

Saber que sua maior paixão tinha sido o motivo de sua ruína fazia o sangue da mulher ferver.

Soltando mais um suspiro, não pôde evitar de deixar os pensamentos vagarem, outra vez naquele dia, para sua infância. Gemma tinha razão, ela tinha algo para provar que sua história era verdadeira.

"Eu tenho uma surpresa para você" A menina, um tanto mais velha, parou de treinar com sua espada e correu para os braços de seu pai com um grande sorriso.

O homem, porém, apesar de feliz por ver a filha depois de quatro dias fora em uma missão real, mantinha uma expressão um tanto avoada no rosto.

"Papai, que bom que você voltou! Um presente? O que é?" tentou pular para alcançar a mão fechada que pairava bem acima de sua cabeça, cruzando os braços com uma careta emburrada ao não conseguir.

"É algo muito especial" O canto dos lábios de Rogers se curvou em um sorriso um tanto triste. "E importante".

Os joelhos do pai então foram ao chão, onde ele se sentou logo em seguida, de pernas cruzadas, esperando que fizesse o mesmo. Quando ela o fez, a mão antes fechada em punho se abriu em sua frente, revelando ali três pérolas completamente negras e brilhantes.

"Pérolas?! São bonitas... diferentes. Onde conseguiu?" O dedo indicador da garota rolou-as na palma do homem, os olhos de esmeralda analisando-as em curiosidade.

"Foi um presente de uma sereia. Elas são mágicas." A curiosidade então se transformou em surpresa e entusiasmo. "Escute, , as coisas na missão não correram muito bem, e por isso eu quero que fique com essas pérolas. Estamos correndo perigo agora, e estou certo de que elas vão te proteger quando chegar o momento."

O tom empregado nessas palavras fez outra careta aparecer no rosto da garota. Essa, porém, demonstrava sua preocupação no cenho franzido e olhos semicerrados.

"O que aconteceu, papai? Por que estamos em perigo?"

"A rainha Syrena não aceita falhas, , você sabe. E eu... acabei falhando de propósito nessa missão. Não poderia cumprir uma ordem que fosse contra meus propósitos. Mas isso vai trazer consequências, é uma questão de tempo até que..."

— Atrapalho? — A pergunta, dessa vez vinda de Benny, fez os devaneios sumirem, trazendo a mulher de volta à realidade em um sobressalto. — Oh, eu não queria te assustar. Está tudo bem?

— Não — a resposta simples veio acompanhada de um pigarreio. — Quer dizer, não, não atrapalha e sim, está tudo bem.

— Não estava planejando se jogar, espero. Eu já estava achando que você não estava em plena consciência ao estar feliz pela invasão na ilha... o olhar de peixe morto em cima de um penhasco, agora, me preocupa ainda mais — o tom descontraído fez a capitã rir de leve e negar com a cabeça.

— E eu estava reconsiderando te levar para La Maldita Isla Sangrienta quando tudo isso acabasse, mas vejo que vou ter mesmo que te deixar por aqui — uma sobrancelha foi ao alto com a provocação. Então se levantou, tirando a areia das vestes e encarando o feiticeiro. — A não ser... não saberia, por acaso, como chamar uma sereia, não é?

— Por acaso, eu saberia sim — o tom de desdém ao encarar a superior com um sorriso malandro se fez presente na frase. — Há pouquíssimas coisas que um mago de quase duzentos anos não saiba fazer.

— Então eu ficarei honrada de ter sua ilustre companhia em nossa próxima aventura — a capitã lançou uma piscadinha para o homem à sua frente, seguida de uma reverência e uma risada. — Certo, então, como eu faço isso?

— Ah, você não faz — o sorriso da mulher se transformou em uma careta, mas Benny logo tratou de continuar a frase: — Só há duas maneiras de chamar uma criatura dessas, e as duas envolvem magia. Uma delas é por meio de uma canção, que deve ser entoada por uma bruxa. A outra é por meio do sangue de outro ser mágico, que, para sua sorte, está bem aqui em sua frente.

E com toda pose e alguns passos para ficar à beira da grande pedra, o feiticeiro tirou de sua bota uma adaga, fazendo um corte na palma da mão e deixando que as gotas de sangue escorressem e pingassem abaixo, se misturando às águas escuras e agitadas que se chocavam contra os rochedos.

— Só isso? Não precisa dizer nada do tipo "Ó, ilustres e lindas criaturas, eu as invoco com esse sacrifício de sangue"? — O olhar que Benny lançou para a fez rir outra vez, dessa, com mais vontade. — Poxa, estou decepcionada, achei que teria todo um ritual...

— Vou deixar você sozinha, capitã "rituais de invocação". Elas logo vão aparecer. Boa sorte — o sorriso ladino que apareceu uma última vez no rosto do homem foi retribuído por sua superior, que se adiantou até o extremo da pedra, ansiosa para o que veria em seguida.

E, assim como o feiticeiro havia dito, não muito tempo depois do chamado um brilho prateado ladeou as ondas, uma, duas, três vezes, até sumir. Por uns instantes, as águas ficaram calmas, como se aquilo não tivesse passado de um reflexo da lua que agora estava alta no céu.

O que veio a seguir, porém, foi de surpreender: da superfície, algo começou a emergir.

Os cabelos pretos, cheios e volumosos, esculpiam e emolduravam o – agora totalmente visível em meio ao véu escuro das águas –, rosto de pele muito branca da criatura. Seus olhos, de um violeta nunca antes visto pela capitã, – e ela duvidava que por qualquer outra pessoa no mundo –, contrastavam com todo o resto, deixando óbvio e explícito o fato de que não pertenciam a alguém comum. não pôde ver muito mais do que isso, uma vez que o resto do seu corpo estava submerso no mar. Mas o reflexo prateado que aparecera anteriormente se dava pela majestosa cauda que balançava de um lado para o outro. Ela exibia um brilho ao qual era possível distinguir mesmo em meio à total escuridão.

Era, de fato, uma beleza surreal.

— Você é humana. Mortal. Como conseguiu me chamar? — A voz melodiosa da criatura soava como um cântico, que chamava, atraía. Era quase impossível de resistir à vontade de chegar mais perto. — O que quer comigo?

— Eu... — balançou a cabeça algumas vezes para voltar à realidade, focando sua atenção em seu propósito e ignorando as primeiras perguntas da sereia para ir direto ao ponto, respondendo apenas a última: — Quero conversar sobre uma sereia chamada Ella.



Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Sei que dei uma sumida, e espero que não tenham desanimado ou desistido da história por isso. Esse fim de ano foi uma loucura pra mim, fiquei atolada de trabalho e faculdade e acabei deixando a escrita de lado por um tempinho. Mas vim aqui antes de 2023 acabar com um capítulo fresquinho e mágico pra vocês! Prometo que os próximos não vão demorar tanto, até porque, agora estou de fériassssssss! Então, junto com esse capítulo, queria desejar uma virada de ano incrível e um 2024 excelente! Que vocês continuem embarcando comigo nessa aventura pirata e gostem cada vez mais. Não deixem de comentar o que estão achando!! Beijinhos e até a próxima <3





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