05. Faz

Última atualização: 18/04/2021

Parte I

Parte I

deixa de tentar se fazer, não vem com jogo de entreter…
te quero tanto,
tanto.


A água gelada fez com que todos os pelos do corpo de null se eriçassem com avidez, provocando-lhe uma tremedeira rápida. O barulho das pessoas ao seu redor fazia com que sua cabeça latejasse e, em seu cérebro, todos os sons se misturavam: os gritos enfurecidos da plateia, as palavras ferozes de Nikolai e as vozes internas de sua cabeça. Era como se uma banda de heavy metal ecoassem ao pé de seus ouvidos.
Ainda que sem acreditar ter forças para tal, null ergueu seu corpo cansado do pequeno e frágil - àquela altura, tudo parecia frágil perto de si - banco de maneira que ficava em um dos cantos do ringue. O menino caminhou até o centro, dando-se de cara com seu oponente e o juiz da luta; teve seu braço erguido após alguns segundos de fala. O movimento do juiz fez com que uma onda de aplausos, assobios e gritos furiosos viessem da plateia, fazendo com que null liberasse um pequeno sorriso de canto de boca. Aquela sensação. Se pudesse, viveria somente sob os efeitos da adrenalina.
null virou-se para seu adversário, apertou brevemente sua mão em forma de agradecimento e, então, mancou em direção a seu treinador, Nikolai.
O lutador não enxergava. Foi guiado por entre as pessoas pelo treinador, sentindo os tapas e os puxões dos amigos que ali o esperavam, ainda que não pudesse distingui-los, pois o suor havia chegado aos seus olhos e os fazia arder. Facilmente, null percebeu que o ardor se espalhara por todo seu corpo: os machucados ardiam pelo contato com o ar e pela fricção dos corpos, sua pele ardia pela alta temperatura e seus pulmões ardiam ainda buscando irremediavelmente por ar.
Expirou alto quando distanciou-se do público.
O vestiário masculino daquele ginásio era relativamente pequeno, chuveiros de um lado, privadas e armários do outro, um longo banco azul no meio. null despejou seu próprio corpo no banco central e permaneceu deitado de barriga para cima, com as costas na superfície fria. Nikolai, que vinha atrás do menino, entregou-lhe um pano molhado, para cobrir um dos ferimentos no rosto do lutador do qual saía sangue. Em seguida, abaixou-se perto dos pés de null, para desamarrar os tênis que ele usava. Depois, segurou cada uma de suas mãos, desamarrando as fitas que os dois haviam colocado por debaixo das luvas.
— Está conseguindo respirar, null? — Nikolai perguntou sério, voltando a abaixar-se próximo ao corpo do garoto. null virou seu rosto na direção do treinador; o pequeno movimento foi suficiente para que uma careta de dor habitasse seu rosto.
— Estou — sua voz soou fraca — Estou, agora.
— Seu uppercut foi excelente, sabe disso, não é?
Como resposta ao elogio manso de Nikolai, null limitou-se a sorrir.
— Estou dolorido — murmurou.
O treinador suspirou e assentiu, sabendo que pela frente viria uma rotina tensa de cuidados, para que o lutador voltasse a estar apto para continuar na competição.
— Passe uma água pelo corpo, vai ajudar — respondeu para null.
— Vai arder, tu quer dizer — o menino corrigiu, com um leve tom de diversão contornando suas palavras.
Nikolai deu um sorriso curto - aquele era o único sorriso do treinador que null conhecia - e caminhou até um dos armários, retornando com uma muda de roupas para o menino.
— Vou pegar o carro enquanto você se lava, me espere na saída do vestiário, volto para te buscar. Vamos para casa, te afundar em gelo!
O boxeador assentiu, obrigando-se a arrastar seu corpo do banco para um dos chuveiros. Uma vez sozinho, procurou pelo espelho mais próximo, assustando-se com o reflexo que o encarava. A imagem era feia, null sabia. Um de seus olhos estava inchado, o outro contava com um corte no supercílio. Seus lábios, machucados, contornados por sangue seco. Tudo isso sem mencionar uma pequena série de hematomas que começava a surgir em seu tronco.
O menino abaixou a cabeça, suspirando e lembrou-se das palavras do treinador a respeito do campeonato: vai ser difícil, eles são mais fortes e mais pesados. Mas você consegue, garoto. Treinamos para isso. Haviam treinado, de fato, mas, depois da luta que acabara minutos antes, null não se sentia mais tão confiante. Suas costelas doíam para respirar, seus joelhos doíam para mante-lo em pé.
Quase rastejando, o lutador dirigiu-se para um dos chuveiros, a fim de seguir as ordens de Nikolai. Enquanto tomava banho, refletia sobre os cuidados do treinador para consigo. Sem nenhuma referência masculina prévia, havia adotado Nikolai como uma espécie de pai, alguém que zelava e torcia por ele. Ainda assim, pouco sabia sobre o mestre vindo da Rússia. Sabia, apenas, que ele o encontrara na pequena e única academia de boxe presente em Cerro Grande; e que, com sua ajuda, agora estava enfrentando o maior campeonato de sua vida, já fazendo fama pelo Rio Grande do Sul.
Que eu não precisasse deixar essa água quente, desejou, e ao mesmo tempo desligou o chuveiro. Alguns minutos depois, caminhava, com a ajuda de Nikolai, para o carro - onde despencou-se quase relaxado no banco.



null estava deitado em sua cama. Habitava um singelo apartamento de um quarto, quase no centro da cidade. Logo quando mudara-se para Porto Alegre, havia ido morar com Nikolai. No entanto, com o passar dos anos, o treinador considerou que seria importante para o garoto ter o próprio espaço.
Sobre seu corpo, o lutador tinha uma sequência de sacos de gelos espalhos, bem como pequenas “bolas térmicas” congeladas. De vez em quando, mexia-se para que o gelo não começasse a queimar sua pele.
null apoiava o computador em uma almofada em seu lado e assistia a um episódio de Brooklyn Nine-Nine no Netflix. A fala de Terry foi interrompida por um mosaico de Ícaro, que sugeria um convite para uma videochamada.
— Fala, magrão ! — Ícaro soltou a frase no mesmo instante em que o amigo atendeu — Fiquei preocupado contigo, guri , percebi que tu não conseguia nem parar em pé após a luta.
null passou a língua pelos lábios, procurando não preocupar seu amigo em demasia.
— Eu um pouco esgualepado — murmurou, indicando o saco de gelo em seu ombro. — Mas vai ficar tudo certo, vou estar inteiro para a próxima.
— Claro que vai, seu jaguara ! — Ícaro o respondeu animado — Mal posso esperar pra ver tu descendo o pau naquele abobado do Ricardo. Bá, o teu uppercut de hoje foi de fuder!
null deixou uma risada nasalada escapar.
— Obrigado. Mas o jab que eu tomei deve ter sido bonito também — rebateu, um pouco pensativo — Escuta, tu vai amanhã? — o lutador perguntou, referindo-se a uma festa que ocorreria na Cidade Baixa ; festa, essa, que os amigos esperavam há meses.
— Vou, e tu também, nem começa.
— Ícaro, eu mal posso caminhar — reclamou —, será que consigo vender meu ingresso?
— Não consegue — o amigo respondeu, com o tom levemente mau humorado. — Não vem com arreganho pra cima de mim, entendeu? Tu vai ir comigo e com a Ella, sim, nem que a gente tenha que te carregar no colo.
Conversar com Ícaro era, basicamente, a mesma coisa do que assistir a algum show de stand-up. As bochechas de null latejaram suavemente pelas risadas excessivas que seu amigo o proporcionava.
Imagine Ella carregando-me em seu colo, pensou. As risadas cessaram quando o menino lembrou-se de seu treinador. null revirou os olhos para o amigo, que prontamente defendeu seu ponto mais uma vez:
null, pode parar. Tu precisando dobrar o cotovelo .
— Eu acho que o Nikolai nem vai me deixar sair, se tu quer saber. Tu vai ter que vir aqui implorar.
— Eu adoraria implorar outra coisa pro Nikolai — Ícaro o respondeu em tom malicioso, fazendo uma careta maldosa em seguida. null quase gritou, enquanto explodia em risadas calorosas. Ícaro sempre fazia questão de deixar claro que, no momento em que Nikolai quisesse, ele estaria à disposição. O problema era que esse momento nunca havia, de fato, chegado.
Conversaram sobre mais algumas coisas. Algo sobre o próximo GRENAL e, depois, sobre a faculdade de Ícaro, que cursava Medicina Veterinária. Em algum momento, estavam debatendo sobre Ella - o terceiro componente do trio embatível de amigos - e seu possível namoro. A verdade é que Ella nunca se decidia: se naquele dia estava namorando um, na próxima semana já havia trocado para outro. Nesse sentido, null diferia-se muito dos melhores amigos; era quieto e reservado. Um bagual que não deixa ninguém se aprochegar , dizia Ícaro em tom de piada ao apresentar null. E tu, um desabotinado carente, revidava para seu amigo.
A verdade era que as pessoas simplesmente lhe despertavam pouco interesse, num geral. Em compensação, entretanto, seus amigos o divertiam muito; e os treinos com Nikolai o mantinham ocupado durante todos os dias da semana; e a saudade que apertava de sua mãe apossara-de seu coração por completo. Como produto de tudo isso, não havia lá muito tempo para namorar.
As batidas na porta do apartamento de null o fizeram desligar a chamada com Ícaro. Caminhou, meio renga , até a porta para a abri-la, dando de cara com Nikolai.
O treinador adentrou o apartamento, dirigindo-se à pequena mesa central e depositando, ali, algumas sacolas.
— Farmácia — ele explicou, a voz grossa soando quase como um trovejo gentil. — Aqui tem analgésicos, antisséptico para as feridas e gaze; não sabia se você ainda tinha. O que está fazendo fora do gelo, garoto? — ralhou, olhando na direção de null.
— Eu estava no gelo, saí para abrir a porta pra ti — respondeu. — Valeu por isso, treinador. Me dê os analgésicos, já vou tomar agora.
Com o comprimido em mãos, caminhou até a cozinha - separada da mesa apenas por uma bancada -, e pegou um copo de água. Escorado na pia, o lutador voltou-se para Nikolai:
— O que mais tu trouxe?
— Algumas coisas para cozinhar, sei que nos últimos dias temos comido muita comida de restaurante e pensei que você gostaria de algo… Caseiro?
null sorriu, sentindo uma pontada de emoção surgir em seu peito. Segurou-a, no entanto. Acenou com a cabeça, de maneira a informar que ficara feliz com a sugestão do treinador.



Ella vestia uma saia jeans justa e um cropped rosa-bebê. Seus cabelos descoloridos balançavam com o vento que delineava a noite da festa. Em seus olhos, um delineado preto era contornado por algumas pequenas purpurinas que combinavam com sua roupa. Nos pés, um par de sandálias pretas.
null, que caminhava devagar ao lado da amiga, apoiando-se em seus ombros quando necessário, sentia-se mais bonito do que no dia anterior. Estava usando uma calça jeans escura, que desembocavam em seus Vans Old Skool, e uma camisa de botões branca. Seus cabelos estavam dispersos, levemente bagunçados por Ella antes que todos deixassem a casa de Ícaro. Em seu supercílio direito, um pequeno curativo branco se fazia presente.
O terceiro amigo, por sua vez, saltitava na frente de ambos. Ansioso pelo evento, estava entediado com o ritmo do caminhar de null. Ícaro vestia uma camiseta escura de mangas curtas. Em sua cintura, havia amarrado uma camisa jeans que, de acordo com Ella, combinava com seus sapatos. Embaixo de seus olhos, estava a mesma purpurina que fazia o rosto da amiga brilhar.
— O Ícaro tá com o pé no estribo — murmurou Ella para null, que sorriu em sua direção. — Vamos no teu tempo — ela continuou, compreensiva.
— Eu ouvi, OK, Ella? — Ícaro rebateu, debochando e revirando os olhos. — Vamos no teu tempo, null. Mas se quiser andar um pouquinho mais rápido, eu não me importaria, sabe? Queria chegar antes de acabar a festa.
— Tu vai ter problemas com Nikolai se eu forçar os machucados, Ícaro — null falou baixo, com um tom divertido. Sabia exatamente o que o amigo responderia.
Amado?! É exatamente isso que eu quero!
Chegaram, enfim, em frente à casa de festa. Grande e oponente, possuía uma série de luzes variadas se sua fachada. Uma longa fila de pessoas decorava a parte da frente. As batidas abafadas da música já eram audíveis, fazendo com que Ícaro e Ella começassem a ensaiar alguns passos.
— Quanta gente, né? — Ella perguntou aos dois amigos. Ambos concordaram: Ícaro encantado, já procurando a primeira “vítima”; null, indiferente, disposto a tomar um trago .
Uma vez dentro da boate, o trio caminhou em direção ao bar.
Ella e Ícaro na frente, afobados pelo primeiro shot. null, no entanto, dispersou-se, tentando ao máximo disfarçar que estava machucado. No caminho, sentiu um corpo esbarrar ao seu e emitiu um pequeno gemido de dor.
— Desculpe — murmuram ao mesmo tempo.
Ao olhar para a dona da voz rouca e baixa, desejou que pudesse permanecer ali por mais tempo. Para sempre, pensou e, em seguida, sentiu-se um tanto quanto ridículo. A menina em sua frente o encarava com intensidade, como se estivesse presa em um transe ou algo semelhante. null quis puxar algum assunto, perguntar seu nome, pelo menos. No entanto, braços longos de uma outra menina envolveram a garota em sua frente, enquanto a dona dos membros gritava:
— VAMOS, ! ELES JÁ CHEGARAM.
null.
null encarou null, ainda que não soubesse que esse era seu nome, e emitiu um pequeno sorriso - uma pista para deixar claro que não havia acabado ali; ela o encontraria novamente. Para o garoto, no entanto, soou como um sorriso de desculpas e nada mais.
null balançou a cabeça, tentando espantar o rosto bonito de “null”. Ao chegar até seus amigos, percebeu que ambos o olhavam exasperados, com os pequenos copos de shot na mão. O lutador levantou as mãos em rendição, como se pedisse perdão pela demora.
De acordo com o que estava predito em sua tradição, os três amigos levaram os copos ao centro para fazer um brinde. Levantaram em direção ao alto, quando Ícaro gritou:
— É hoje que a gente capota o corsa! — e, então, todos beberam. Não foi preciso muitas doses para que Ella se esquecesse da promessa de permanecer “no tempo de null”; arrastou Ícaro para o meio da pista de dança com a jura de que voltaria logo. O boxeador sorriu enquanto balançava a cabeça em sinal de negação. Era óbvio que isso iria acontecer, constatou.
Sentado em uma das banquetas que contornavam o bar da boate, null escorou-se no balcão e pediu uma Heineken ao barman. As luzes e o cheiro o incomodavam um pouco. Em situações normais - naquelas em que ele não estaria machucado -, o garoto estaria com os amigos na pista de dança e, provavelmente, já teria encontrado alguém interessante. Do banco, no entanto, a festa lhe parecia um tanto quanto sem graça. Seus machucados ardiam e ele se sentia, sobretudo, entediado. Mais do entendido, estava começando a irritar-se.
Com essa irritação, decidiu que era hora de beber mais. Meu cotovelo ainda está reto, pensou e soltou uma risada fraca da própria piada. Ao se virar na direção do bar, null deu de cara com null, a menina em quem tinha esbarrado mais cedo. A garota já tinha seus olhos fixos no lutador e em sua boca pairava um sorriso divertido, o que fez com que null se sentisse levemente desnorteado.
null? — arriscou.
A cabeça da menina tombou para o lado em divertimento. A verdade é que null sentia-se nervosa, algo estava diferente das outras vezes em que conhecia alguém em uma festa.
— E você é…? — a voz rouca e trêmula expôs seu nervosismo, fazendo com que null desviasse os olhos do olhar magnético de null para sua garrafa de Budweiser. O menino, no entanto, não interpretou os sinais daquela forma: para ele, null o estava hipnotizando com a boca sugando o pequeno canudo que saía de dentro da garrafa. Ele sequer lembrava do próprio nome.
Balançou a cabeça, então, tentando se concentrar no diálogo que estavam estabelecendo, e não em outras coisas - como o toque dos lábios de null em si.
— Desculpe — murmurou, justificando a demora para responder —, me chamo null.
null… Sou null. — null sibilou, umedecendo os lábios em seguida propositalmente. O lutador, por consequência, perdeu completamente todo o esforço que estava fazendo para se concentrar. null balançou a cabeça, fazendo força para que seu sangue fosse para qualquer outro lugar de seu corpo; estava constrangido pelo ímpeto de ficar duro com o movimento, tão simples, feito pela menina em sua frente.
null alternou olhares entre os lábios do garoto e seus olhos, antes de desviar para algum canto aleatório da festa - tudo isso apenas para provocá-lo. null, entendendo o jogo que estava se formando e que, até então, estava em desvantagem, tentou contornar:
— Tu tem olhos bonitos — soprou.
Estavam sentados um em frente ao outro, nas banquetas do bar. null sentia um leve embrulho no estômago; uma excitação crescente para se entregar completamente ao garoto. null, por sua vez, sentia-se nervoso como nunca antes, de forma a fazê-lo imaginar que null poderia ser alguém especial.
flertando comigo, null? — sem nem saber de onde estava vindo aquela postura desafiadora, null respondeu ao elogio do lutador. Esse, estava preso na forma como a garota pronunciava seu nome - a maneira como ela poderia gemer seu nome.
— Talvez — respondeu, com um pequeno sorriso preso entre os lábios. — Tu gostaria que eu flertasse contigo?
null riu:
— Eu vou te ensinar a flertar, então.
A expressão de null estava impagável. null não fazia ideia de onde estava avindo tanta inspiração para continuar esse jogo, mas estava adorando. Sentia-se gostosa ao ver as reações que provocava no menino.
— Certo — murmurou o lutador, com as sobrancelhas levantadas em dúvida e surpresa. — E o que eu devo fazer para te impressionar, null?
Dito isso, a menina soltou sua cerveja na bancada, para percorrer a distância que os separava. Seu coração disparado parecia querer pular pelo decote da blusa que usava.
— Em primeiro lugar, tu vai pôr a mão aqui — null murmurou, colocando uma das mãos de null em sua cintura. No mesmo instante, o menino pressionou seus dedos ao sentir a pele que vazava no espaço entre a blusa e a saia que null usava. Em resposta à pressão, os pelos da região do corpo de null se arrepiaram, fazendo com que ela olhasse em surpresa para null. A garota guiou, então, a outra mão do lutador em direção à sua nuca, local onde ele depositou um carinho.
E foi como se não existisse música. Nem festa, nem outras pessoas.
null inclinou-se para beijá-la, ansiando aquele toque mais do que qualquer coisa. A garota, segurando a súbita vontade de agarrar aqueles lábios e se jogar nos braços do lutador, respirou fundo e voltou à banqueta, sorrindo com malícia. O menino passou a língua por entre os lábios, assentindo; um sorriso sapeca insistia em brotar por ali.
Poderia passar horas a admirando, pensou ao perceber que, quando a luz batia na face de null, seu delineador branco contrastava com o tom escuro de sua pele. Algumas manchinhas de sol circundavam seu olhar, null observou.
Com a ponta dos dedos - e foi como se toda festa parasse apenas para vê-lo tocá-la -, o lutador retirou alguns fios encurvados que insistiam em permanecer em frente ao olho esquerdo de null. Surpresa com a intensidade do olhar de null, a garota prendeu o ar e seus olhos se fecharam automaticamente. Entendendo isso como uma deixa, o menino se aproximou; roçou levemente a ponta de seu nariz no nariz de null, para, então, percorrer um caminho por sua bochecha, parando extremamente próximo à boca da garota. Nunca null havia experimentado um toque assim, como se null já a conhecesse há anos. Sem nem mesmo lembrar que estavam provocando um ao outro, inclinou-se para beijá-lo.
— Tu tava dizendo alguma coisa sobre flertar? — o garoto perguntou, irritante.
O sorriso vitorioso pendia nos lábios de null. null, então, sorriu e bebericou sua cerveja, que já estava quase ficando quente. A expressão quase angelical da menina gritava para que null não caísse em seu jogo. Ela era daquele tipo, sim, proibido; como se existisse uma grande placa fosforescente que a acompanhava, na qual o letreiro marcava: não se aproxime, vou te dar problema. O lutador se negou a deixar que o pensamento se concluísse, no entanto, em seu íntimo, as palavras piscantes eram substituídas por “cuidado, você vai se apaixonar”.
— Então, null — o nome saía provocativo mesmo que ela não tivesse a intenção —, o que aconteceu contigo?
— Ah, você quer dizer isso? — o garoto perguntou, apontando para seu supercílio. — Ou isso? — dessa vez, apontou para o olho contrário. — Sou lutador.
— MMA ? — ela perguntou.
— Boxe — null deu ombros, sacando um gole de sua Heineken.
null soltou uma risada e soprou:
— Parece que te arrebentaram.
— Tu me provocando, null. Cuidado, não vai querer me ver em ação.
Contrariando sua áurea de anjo, um sorriso safado estampou o rosto de null.
— Oh — exclamou, próxima ao rosto do lutador —, eu quero te ver em ação.
Inferno!, a palavra ecoou na cabeça de null. Ele a queria - e como a queria. null era uma gostosa e, inferno!, era a guria mais bonita com quem o lutador já cruzara na vida inteira.
— Cuidado para não te apaixonar — murmurou a garota. — Sabe o que dizem, não é? Olhar não tira pedaço, mas posso jurar que perdi uma parte de mim contigo me encarando desse jeito.
— Só para constar — null respondeu, achando graça —, eu não vou me apaixonar.
— Acho que tu não deveria prometer aquilo que sabe que não vai cumprir.
Decidido a provar o gosto dos lábios de null, aproximou-se: sua mão encostava no pescoço da menina, segurando-a de uma maneira firme e delicada, com medo de que qualquer movimento brusco a pudesse machucar. null acariciou a menina com um de seus polegares e null fechou seus olhos novamente - certa de que, dessa vez, não recuaria e, muito menos, deixaria o lutador escapar.
O corpo do menino latejou com o suspiro que escapou da boca de null no momento em que sua outra mão alcançou a cintura da garota. Suavemente, encostou seus lábios.
Por um segundo - ou talvez menos ainda - null se amaldiçoou, pois percebeu que poderia facilmente se apaixonar por aquele beijo. null, por sua vez, estava completamente arrepiada, sentindo a excitação constante percorrer seu corpo. Extasiada, a menina murmurou:
— Vamos só sair daqui.
Sem nem mesmo lembrar dos amigos que o acompanharam na vinda até a festa, null levantou-se da banqueta para seguir, com dificuldade, null.



Estavam os dois deitados. As roupas espalhavam-se pelo chão do quarto de null e o cheiro de suor e sexo percorria o quarto. O corpo de null, deitado ao lado do corpo do lutador, formava montanhas - e fazia com que null sentisse a mais profunda vontade de explorá-las mais uma vez. E então de novo. A garota apoiava a cabeça em seu braço esquerdo e direcionava o olhar para o menino, que pigarreou constrangido. null não estava acostumado a ser observado daquela maneira, pelo menos, não por olhos tão curiosos quanto os de null.
— O que aconteceu aqui? — a menina perguntou, apontando para a cicatriz que marcava um dos ombros do menino. Se null estava constrangido, null estava intrigada: era mesmo normal encontrar alguém que a tocasse de uma forma tão íntima ser ter nunca a conhecido? Sentia como se o lutador ao seu lado conhecesse todos os pontos de seu corpo. Queria, ao menos, conhecer alguma coisa da vida de null para equiparar o jogo. Não é possível se apaixonar com uma transa, reprimiu seu coração, que insistia em falhar quando o garoto olhava em seus olhos.
— Hum… Eu briguei com o meu padrasto — incerto sobre o que responder, null acabou deixando que a verdade escapasse de seus lábios. Sentiu, então, um súbito calor entornar suas bochechas pela vergonha de ter se exposto. Não esperava, entretanto, que os dedos de null fossem enrolar-se nos seus, entregando-lhe um carinho que até então, o menino nem sabia que existia.
null tossiu, nervoso.
— É… Só para deixar claro… Eu não sei… Digo, isso é só…
— É sexo, null — null o cortou, soltando suas mãos e ajeitando sua postura na cama. O clima de intimidade entre os dois havia se dissipado, para surgir, então, uma troca de olhares safados. — Tu tava esperando o quê? Que eu aparecesse em uma de suas lutas, vestida com uma foto sua? — null debochou.
— Não seria má ideia — o lutador murmurou, em tom de divertimento.
— Sem chance.
— É melhor não prometer, null, seria uma ótima visão.
1 - Golpe desferido de baixo para cima visando atingir o queixo do oponente. 15 - Artes Marciais Mistas.


Parte II

Parte II
tudo eu adoro em você, do seu defeito ao seu prazer… te quero tanto, tanto.


— O null tão…
— Não diga “gay”.
— Eu não ia dizer “gay”! — Ícaro se defendeu da repressão de Ella — Talles é gay e ele não é…
— Não é o que, porra?! Não sou o que? — null rebateu, estressado com o diálogo dos amigos, que falavam dele, mas não o incluíam.
— Talles não é mesmo — Ella concordou. — Mas, sim, null está…
— Faz uns dias — Ícaro complementou a fala da amiga.
— Ah sim, faz mesmo. Eu diria…
— Não, acho que não é bem isso.
— Isso o que, caralho?
Ícaro e Antonella continuavam a dialogar em busca da definição perfeita para o lutador, que estava extremamente irritado com a brincadeira dos amigos.
— Afetuoso! — Ella gritou, soltando um sorriso em seguida.
— Afetuoso, é isso mesmo — Ícaro concordou, batendo palmas em seguida. — Tu afetuoso, seu aspa-torta !
— Em primeiro lugar — o lutador se defendeu —, eu não sou um aspa-torta. E, em segundo, eu sempre fui afetuoso com vocês.
— Não, não — murmurou o amigo — é diferente, meu velho amigo. Tu afetuoso com a vida.
Faceiro — Ella complementou. Os dois amigos de null estampavam sorrisos sapecas em seus rostos, divertindo-se com o aborrecimento do terceiro integrante do grupo.
— Eu não estou faceiro, estou normal! — null defendeu-se mais uma vez, levantando da cadeira que sentava e indo para a frente do espelho que ficava pendurado na sala do apartamento de Ella. Aquela era a quinta vez que null fazia isso, Antonella estava contando. — Vocês podem parar de inticar comigo? Por favor?
A dupla caiu na gargalhada. É claro que o estavam provocando, vinham fazendo isso há exatos trinta dias; desde o primeiro encontro que null tivera com null. A verdade é que Ícaro e Ella conseguiam perceber que o amigo estava, sim, diferente, ainda que não pudesse - ou quisesse - admitir.
— Perdão — Ícaro murmurou, debochando. — Eu prometo parar…
null desviou o olhar de seu próprio reflexo no espelho para mirar o amigo.
— Se o quê?
— Se tu me contar o que te deixando ansioso desse jeito. É a oitava vez que tu te levanta pra te olhar no espelho.
— Isso não é verdade — o lutador respondeu, contrariado, voltando ao seu lugar na mesa.
— Na verdade, essa foi a quinta — Ella murmurou divertida.
Chora as pitangas , meu amor — Ícaro cantarolou.
— Tu consegue parar de me debochar? — null respondeu, fechando os olhos com força para conter a irritação.
— Sinceramente? — Ícaro rebateu, mordendo a ponta da língua com os dentes, para conter uma risada que insistia em querer escapar. O lutador bufou.
— Elavaiestarlá — falou rápido, entredentes, e sem olhar para os amigos.
— O que foi? — Ella provocou — Eu não consegui ouvir.
Revirando os olhos, mais uma bufada escapou do peito de null.
— Ela vai estar lá, OK? null vai estar na festa hoje, e eu só… Só quero estar com uma boa aparência.
Ícaro e Ella se entreolharam, sorrindo.
— Afetuoso — Ícaro murmurou.
— Afetuoso — Ella concordou.




As luzes coloridas vibravam no ritmo da música, construindo um ar tanto quanto psicodélico na casa de sei-lá-quem que estava sediando a festa. Algumas pessoas paravam para cumprimentar null e pediam fotos com o lutador - isso o fazia sentir ligeiramente empolgado, como se ele estivesse começando uma espécie de legado.
Ícaro e Antonella haviam arrastado o amigo para o centro da pista de dança improvisada e os três encontravam-se balançando seus corpos ao ritmo da música eletrônica.
Algum tempo desde que chegaram se passara: já tinham experimentado todas as bebidas, se balançado - porque Ícaro recusava-se em chamar os movimentos de null de dança - ao som de todos os tipos musicais, e flertado com uma porção de pessoas, todos os três. Aquela poderia estar sendo a festa perfeita. Entretanto, uma pequena pontada no peito de null não o deixava descansar e, constantemente, pegava-se varrendo o local com os olhos à procura de null.
— Vou ao banheiro! — gritou em direção aos amigos.
— De novo? — Ícaro respondeu, fazendo piada. Estava claro para ele e para Ella que null apenas queria checar os outros cômodos para ver se encontrava a garota.
Os passos do lutador eram certeiros e sua visão vasculhava entre todas as pessoas presentes, procurando por uma certa cascata de cabelos pretos. Seus olhos, no entanto, arrependeram-se no exato momento em que encontrou null. Que merda é essa?!, sentiu a fúria entrar em sua corrente sanguínea. A sensação de queimação invadiu sua garganta e em sua boca residia um gosto ruim. Deu meia volta e, com passos muito mais certeiros, praticamente correu para dentro da casa novamente.
Do lado de fora, null estava escorada em um carro, segurando uma garrafa de Budweiser assim como no dia em que a havia conhecido e estava tão linda quanto null se lembrava - ou até mais, constatou. Todavia, o que não fazia parte do pacote “null” era o jaguara que se posicionava ao lado da menina, tocando em sua cintura e a trazendo para perto dele.
null não conseguia nem lembrar, não. Sua visão embaçava e sentia-se cegado por… Ele nem mesmo queria descrever o sentimento. Só queria voltar lá e tirar null dos braços do menino, tomando-a para si. O lutador sequer percebeu quando topou com os amigos:
— Tirou a água do joelho? — perguntou Ícaro, mas logo percebeu que o amigo não estava bem. — O que aconteceu, tchê?
— Eu sou um idiota — null respondeu, quase murmurando. — Ela estava lá fora com outro cara!
— Ai meu Deus! — Ella exclamou, apertando com força as bochechas de null — Nosso menino está com ciúmes!
— Eu não com ciúmes! — o tom agudo escapou em defesa. — Na verdade, eu não me importo. Não faz diferença, eu só me sinto otário por estar aqui esperando e…
— Mente, palhaço — Ícaro respondeu, rindo. — Mente mais que eu gostando.
— Vocês são meus amigos ou o que, porra?
Ícaro e Ella riam. Divertiam-se como nunca ao enxergar o amigo vivenciando aquela situação.
— Tu mesmo estava te agarrando com outra guria antes de null chegar, o que quer cobrar dela, mano?
— É diferente — null respondeu, irritado —, não significou nada pra mim.
— Ei, calma lá, valentão. Talvez não tenha significado nada pra ela também, já considerou isso? — Ícaro contrapôs.
— E outra — Ella complementou o amigo —, null nem mesmo sabe que tu quer ela desse jeito, já pensou nisso?
— Que jeito? — o lutador respondeu, assustado. Claro que ele sabia a resposta: queria a garota desde o primeiro momento em que colocou seus olhos nela. Aqueles malditos olhos castanhos, que o faziam sentir à flor da pele. O faziam sentir como se fosse capaz de conquistar o mundo com null ao seu lado. Entretanto, null não sabia sentir aquilo; não lembrava nem mesmo como pronunciar a palavra com “a”.
Por perceberem que estavam entrando em um território delicado, Ícaro e Ella relaxaram suas posturas e sorriram. A menina utilizou uma de suas mãos para acariciar o rosto de null.
— Só não desiste ainda — murmurou, em resposta. — Tu não é lutador? Não aprendeu a lutar pelo que quer? na hora de pôr em prática, boxeador.
null sentiu-se mais calmo em resposta: sua respiração desacelerou, seu coração diminuiu o ritmo e aquele gosto ácido do ciúmes foi levemente deixando seu paladar. Refletiu sobre as palavras da amiga, que tocaram seu coração.
Talvez eu esteja mesmo afetuoso, ponderou, ou ficando maluco.

null?
null? Meu Deus, eu tava te procurando!
O lutador sorriu. Percebeu que já era rotina sentir seu coração disparar quando ouvia a voz de null, quando olhava em seus olhos.
Sentiu vontade de perguntar se a menina não estivera muito ocupada até então para procurá-lo, mas achou que soaria carente demais. Bom, ele realmente estava carente demais.
— Eu também — null coçou a nuca e desviou o olhar ao falar. — Também estava te procurando.
Houve, então, aquele breve momento em que ambos viajavam para um mundo só deles. Os breves segundos em que se encaravam antes de suas bocas estarem vorazmente coladas uma na outra. Aquele mísero espaço de tempo em que para null, não era difícil e muito menos ruim admitir que sentia-se afetuoso quando estava com null; e em que para null, era fácil entregar-se para os braços de um homem, sem sentir medo ou desconfiança.
O breve momento de amor etéreo.
Passados os segundos, então, o casal encontrava-se em um dos cantos da casa. As mãos de null pousavam sobre a cintura de null, por debaixo do pano amarelo que a cobria. Seus dedos desenhavam pequenos círculos e deixavam a pele de null arrepiada.
Desenhar sobre uma obra de arte, o pensamento inundou a mente do lutador, era mesmo contraditório.
null, em contrapartida, acariciava a nuca do menino a sua frente. Estava com o pescoço arqueado, o que soava como um convite extremamente excitante aos olhos do lutador. Seus lábios, quase que sem comando, atracaram a pele da menina, elaborando uma trilha suave de beijos.
— Estou com fome — a garota murmurou, algum tempo depois de terem encontrado o canto perfeito da casa.
— Eu também — null respondeu, soltando um leve sorriso —, o que te vontade de comer?
— Hum — null pensou, tombando a cabeça para trás e voltando seu olhar a null com um tom sapeca. — Quero hambúrguer.
O sorriso cúmplice os fazia sentir como se se conhecessem a vida inteira. Sem nem pensar duas vezes, null segurou a mão de null - que, prontamente entrelaçou seus dedos nos dedos do lutador - e saiu correndo casa à fora. As gargalhadas faziam com que suas barrigas doessem, mas pouco se importavam. Estavam juntos e poderiam conquistar o mundo.

— Obrigada, Maurice McDonald — null murmurou, segundos antes de abocanhar o sanduíche que segurava. Era o segundo Big Mc que comia naquela noite. Entre mordidas, ingeria algumas batatinhas salgadas e tomava um pouco da Coca que havia pedido.
null a olhava intrigado. Mastigava o último pedaço de seu Cheeseburguer e segurava a risada quando pensava no quanto a menina em sua frente comia. Não que o lutador tivesse muita referência do quanto garotas comiam; a única menina com quem conviva era Ella.
— Estava bom? — perguntou para null, ao passo que molhava uma das batatinhas no ketchup.
— Magnífico — null murmurou. — Tu não ficou com fome? Comeu tão pouquinho…
null olhou em sua direção, preparado para responder, no entanto, caiu na gargalhada quando percebeu o olhar que null direcionava a ele. Ambos estavam se finando de rir.
— Estou um pouco à meia guampa ainda — o menino disse.
— Sabe o que isso quer dizer, não é? — a forma entusiasmada como null proferir aquelas palavras fez com que um frio subisse pela barriga de null. Quando foi a última vez que havia se sentido assim, entusiasmado?
Negou com a cabeça, ansioso por saber o que, de fato, aquilo queria dizer.
— Hora do McFlurry! Tu prefere Ovomaltine ou Oreo?

Estavam um ao lado do outro, envolvidos pelo vento agradável que os havia tomado quando fora do Mc Donalds. O céu estrelado os enquadrava como um daqueles casais poéticos, que percorriam a Paris dos anos 20 e trilhavam uma verdadeira história de amor.
Sem perceber em que momento passara a observar as estrelas do céu, null sentiu-se um pouco patético por estar tão romântico assim. Lembrou-se, então, da conversa que tivera com null no dia em que estiveram juntos pela primeira vez.
Somente sexo, um suspiro escapou de seus lábios quando o pensamento o envolveu. Maneou a cabeça em resposta e frustração.
Caminhavam em direção ao apartamento de null, quando um pequeno choque percorreu o corpo de ambos, e, em questão de segundos, os dois corações estavam descompassados: o dedo mínimo do lutador havia raspado com o de null.
Parado no meio do caminho, null direcionou seu olhar assustado para a garota, que o encarava constrangida.
Sem saber o que estava fazendo ao certo - contrariado por nunca ter vivido a sensação de querer segurar a mão de alguém -, o lutador entrelaçou os dedos de null nos seus e olhou para frente, voltando a caminhar e segurando um sorriso.
null tampouco disse alguma coisa. Ainda assim, seus dedos agarram a mão de null como quem fazia questão de não deixá-lo soltar. O garoto, então, teve que virar um pouco sua cabeça para o lado oposto, apenas para soltar o sorriso insuportável que insistia em brotar em seus lábios.
Menos de duas quadras depois - distância na qual não fora trocada nenhuma palavra pelo casal -, estavam em frente ao prédio de null. null sentia necessidade de observar tudo, todos os detalhes que encontrava no apartamento. E tudo ali parecia gritar o quanto aquele espaço era exatamente como null: aconchegante.
— Eu não acredito! — o lutador exclamou ao olhar a bancada da cozinha. — Tu faz gastronomia?
— Bom… Sim — null sorriu, sentindo suas bochechas esquentarem. Numa levara nenhum garoto em sua casa, sequer havia sentido vontade de deixar-se tão à mostra para outra pessoa.
Enquanto a menina ponderava sobre o quanto null a fazia sentir vontade de viver, o lutador percebia aquele gosto ácido voltar para sua boca. Para quem ela cozinha?, se perguntou, imaginando null divertindo-se com o garoto que a acompanhava no início da festa. null nem mesmo sabia se a imagem que criara em sua cabeça dos dois cozinhando juntos era real, entretanto, isso não parou seu coração de se espremer.
Queria estar no lugar do menino, era o que sua imaginação gritava. Imaginar-se assando bolos com null foi a única coisa que fez com que seu coração batesse normalmente, e isso o irritou profundamente. As vozes de Ícaro e de Ella o chamando de afetuoso ecoaram em sua cabeça.
null? — null chamou.
— Ah, oi! Desculpa, me distraí — murmurou, espantando todos os pensamentos que o rondavam. — É uma linda cozinha.
— Posso fazer uma janta pra nós, algum dia desses.
O sorriso cúmplice que surgiu no rosto dos dois, dissipou todas as inseguranças que os incomodavam, e incentivou null a se aproximar da menina.
— Pode ser — murmurou.
— Por enquanto, tu vai precisar se contentar em comer outra coisa — o tom safado que escapou da garganta de null fez com que os olhos de null a olhassem arregalados. Ele nunca se acostumaria com aquela personalidade de null, ainda que a adorasse. A expressão angelical, marcada somente pela safadeza presente no olhar da garota, fez com que seu corpo latejasse em sinal de vida no mesmo instante. O garoto logo recompôs sua postura, pousando suas mãos na cintura de null e a puxando para perto de si.
— Oh, sim — murmurou —, tenho algo em mente… Uma coisa bem gostosa.

Parte III

Parte III
não precisa cena erótica,
gosto de você neurótica


null sentia-se exausto. Havia desistido de contar os movimentos depois de repetir seu ciclo de exercícios pela vigésima vez.
— MAIS TRINTA, GAROTO! — incentivou Nikolai. — Vamos lá!
O treinador cronometrava o tempo para as flexões de braço. Ele era responsável pela esfera esportiva da vida de null e não falhava um dia sequer. Todas as manhãs, os treinos eram diferentes e estimulavam uma parte do corpo: ora braço, ora perna; às vezes, as manhãs eram aeróbicas e às vezes não. Durante a tarde, Nikolai treinava boxe propriamente dito com null. O garoto não sentia-se capaz de reclamar, uma vez que tudo aquilo vinha mostrando resultado. No entanto, com o passar dos anos, a rotina de exercícios ficara um pouco mais… Mortal. E isso o deixava exausto.
Aqui é tempo ruim o tempo todo. Aqui é tempo ruim o tempo todo . O rap ecoava pela caixa de som da academia e outras pessoas treinavam lá com seus próprios treinadores, alguns com Nikolai, inclusive. null sentia suas veias prestes a saltarem de seu rosto, de seus braços, de suas pernas. O ar saía e voltava tão rapidamente que o garoto duvidava que ele fosse capaz de abastecer seus pulmões - era como se ele estivesse funcionando na base de ácido lático - e de dor, nesse caso.
— Pode descansar — o treinador murmurou, largando o cronômetro que estava em sua mão, deixando que o aparelho ficasse pendurado apenas pelo cordão que o prendia ao seu pescoço.
null praticamente jogou-se em direção ao chão, sentindo o prazer inundar seu corpo pelo contato com a superfície gelada. Sua respiração era rápida e pesada ao mesmo tempo, marcando uma busca incansável por ar. Por um segundo, pensou que, tirando boxe, a única coisa que o deixava sem ar desse jeito era o corpo nu de null.
Martirizou-se imediatamente.
Era preciso parar de pensar nela. Parar de pensar nas suas curvas, no cheiro de sua pele, na sua barriga que - quando ela sentava - caía para fora como uma “pochete”. Precisava parar de pensar em seus lábios e no gosto de sua boca, no gosto de sua boceta, no jeito em que ela o olhava enquanto ele beijava seu corpo.
Respirou fundo novamente.
Foco.
O lutador percebeu a movimentação de Nikolai e virou-se de barriga para cima, ainda deitado no chão. O treinador o encarava, divertindo-se com a visão cansada que tinha de seu aluno. Estendeu uma de suas mãos para null, que, relutante, aceitou a ajuda.
— Sem dor — Nikolai disse.
— Sem ganho — o garoto completou, revirando completamente os olhos.
Uma vez em pé, null sentiu suas panturrilhas reclamando dos efeitos da gravidade e uma porção de gotas de suor caíram em direção ao chão.
Ele e Nikolai despediram-se em conjunto de pessoas da academia e o treinador o levou para casa. Durante o caminho, conversaram, sem pretensão, sobre uma nova marca de esportes que queria patrocinar o lutador. Mencionaram, ainda, algumas expectativas sobre a próxima luta de null.
— Olha, garoto… — Nikolai começou o assunto constrangido, e sua voz saiu um pouco estranha. Estavam parados em frente ao prédio e o treinador não fazia ideia de como ter aquela conversa. — Hum… Eu tenho achado você um pouco distraído nos treinos. Então presumi que talvez… — ele coçou a garganta — Talvez pudesse ter a ver com aquela camiseta feminina que encontrei no apartamento?
null sentiu seu rosto ferver. Nunca na vida havia se sentido tão constrangido quanto naquele momento. Não foi capaz de emitir um som sequer em resposta ao treinador, que continuou sua fala:
— Digo, o sentimento de paixão é realmente… Distraidor.
Distrativonull o corrigiu irritado. Às vezes, Nikolai ainda sentia dificuldade com algumas palavras da língua portuguesa — E eu não estou apaixonado. Muito menos distraído!
Dito isso, o menino desceu do carro e encostou a porta com mais força do que o necessário. Em sua cabeça, uma única lembrança se fazia presente:

Um sorriso breve formava-se em seu rosto. A notificação que recebera de null era referente a um sorteio da Bella Morano . Entusiasmado, null selecionou o post e o encaminhou para a garota por direct:
“Se tu ganhar, já sabe: metade é minha”.
“Sonhar é de graça mesmo”, null respondeu rapidamente.
O lutador bloqueou o celular sem perceber o sorriso que pendurava-se em seus lábios. null era engraçada. Notou, então, que Nicolai o esperava para fechar a academia. Balançou a cabeça e concentrou-se em pegar suas coisas; pendurou a toalha que segurava em uma das mãos em seu ombro direito e guardou seu celular na mochila.
— O que é engraçado? — o treinador perguntou no caminho — Encontrou mais um vídeo do pessoal apagando?
null engoliu em seco ao perceber que seu divertimento estava ficando nítido para as pessoas “de fora”. Nikolai achava que o garoto divertia-se com coisas do boxe, e ele estava, na verdade, pensando em null. Constrangido, respondeu:
— Hum… É — titubeou. — Tipo isso.
Ao chegar seu seu apartamento, estava prestes a entrar no chuveiro quando seu celular apitou novamente:
“Pensei melhor e talvez uma pizza inteira seja muito pra mim, estou disposta a negociar uma fatia”.
O coração do lutador fez menção de acelerar e um leve arrepio subiu pelo seu corpo até chegar no sorriso que se insistia em se formar em seus lábios toda vez que null surgia em seus pensamentos.
“Estou aberto para negócios”, digitou, enquanto gastava duas vezes mais energia para se convencer de que a excitação em receber mensagens de null estava relacionada exclusiva e unicamente com o sexo que ambos faziam.

De qualquer forma, naquele dia os dois comeram a pizza. E fizeram sexo.
Enquanto se banhava, null lembrava de Ícaro o arriando , dizendo que isso era programa de casal e que ele logo estaria “na coleira”. Culpou-se, então, no próximo segundo, quando uma voz surgiu em sua mente dizendo que “estar na coleira” não era, de fato, ruim. O pensamento o deixou nervoso, fazendo com que seus olhos se abrissem assustados e uma quantidade considerável de shampoo escorregasse para dentro das órbitas.
— Merda! — exclamou.
Uma vez que estava seco e longe da ameaça dos olhos ardendo por causa do shampoo, null pegou seu celular e encontrou a mensagem de Ícaro vibrando em sua tela:
“Tudo certo para amanhã?”
“Sim”.
“Ela vai?”, o amigo respondeu à resposta do lutador em questão de segundos. null revirou os olhos em frente à tela.
“Sim”.
“Ah, moleque! Tu não perde tempo, né”
“Sem comentários”, respondeu. E acrescentou, divertido: “Sossega o facho, meu ”.
Os garotos conversaram por mais algum tempo sobre qualquer coisa que não null. Que não o fato de null estar saindo há quase três meses com a mesma guria - não que ele estivesse contando.
Antes de virar-se para o lado para dormir, null entrou na conversa de null, apenas para checar se ela estava online. A resposta o desanimou.
Offline. O que será que ela estaria fazendo?
null não sabia em que momento a taquicardia havia se tornado rotina. No entanto, já estava acostumado: bastava que alguém mencionasse null para que seu coração perdesse o compasso. Será que ela está com alguém?, sentiu-se inseguro.
Irritado consigo mesmo, o lutador virou para o lado e tapou a cabeça com um segundo travesseiro. Não queria mais pensar e, para isso, iria dormir.



Todos os quatro estavam reunidos na casa de Ícaro: null, null, Antonella e o próprio anfitrião. null não conseguia parar de olhar na direção de null, a garota usava um batom framboesa que fazia com que seus lábios se tornassem ainda mais atrativos.
A noite estava boa e divertida; haviam comido o espaguete tradicional de Ícaro e estavam bebendo um pouco de tudo. No entanto, quando null cochichou para null que ela iria para sua casa após a janta, o lutador perdeu tudo. Não conseguia mais manter o foco em nenhuma conversa. Pegava-se constantemente imaginando como seria estar sozinho com a menina.
— Bá, tu não contando certo — Ícaro reclamou de Ella com um punhado de massa dentro da boca. — Em primeiro, não havíamos sido expulsos, mas convidados a se retirar.
— Vulgo, expulsos — comentou Ella, fazendo com que o amigo revirasse os olhos.
— Quando a gente tava saindo do lugar, o senhor “bonitão” aqui — Ícaro apontou para null — lembrou que havia deixado a identidade em cima do bar. Ou seja, pega a cena , null: a gente precisou voltar lá pra dentro e o balaqueiro , mais conhecido como null, precisou fazer uma cena, né. Ele meteu um direito no segurança e depois a gente deitou o cabelo . Foi assim que aconteceu, Ella.
Ícaro estava há um tempo incontável colocando em pauta todas as aventuras vividas pelo trio até então. Suas histórias contavam com o bônus de Ella o interrompendo a cada três palavras, para fazer alguma correção.
Um sorriso simples pairava no rosto de null. A menina sentia-se inclusa e à vontade com os amigos de null. Desejava, em seu íntimo, fazer parte daquela roda para sempre. O que mais a agradava, mesmo que detestasse admitir, era que os amigos a tratavam como namorada de null; e contavam a ela uma série de história que o próprio lutador nunca mencionara. null estava amando conhecer aquele lado de null.
Os quatro amigos migraram, em determinado ponto, para a sala: Ícaro e Ella em frente ao casal, e null e null um do lado outro. As pernas de null repousavam sobre o colo do lutador, que começou, quase que despretensiosamente, a delinear um carinho na canela da menina. Sem que ficasse aparente, null subiu sua outra mão e a pousou sobre a coxa de null, sentindo os pelos da perna da menina se eriçarem.
Que estivéssemos em casa sozinhos, os dois imploraram em suas mentes.
— Talvez a gente devesse jogar um jogo — sugeriu Ella. — É isso que amigos fazem, não é?
— Mas com certeza! — Ícaro levantou-se animado, cambaleando por conta da bebida, para pegar alguma garrafa. — Vamos jogar verdade ou consequência, baby Ella.
Era certeira a intenção de constranger o casal e a possibilidade de o fazer com um jogo deixou Ella e Ícaro extremamente animados. Além disso, ambos adoravam um bom jogo que misturasse bebidas, sexo e verdades.
— OK, vamos lá — Ella murmurou enquanto girava a garrafa, que apontou para ela e null.
— Verdade ou consequência? — perguntou-lhe null.
— Consequência.
Depois de pensar por alguns segundos, a quarta integrante da roda de amigos sentiu um sorriso malicioso se formar em seus lábios. Já eram amigas, certo? Ela poderia soltar esse desafio.
— Eu te desafio a mandar uma mensagem para alguém com teor sexual.
Ícaro revirou os olhos, intervindo com tédio:
— Isso é muito fácil, ela faz todo dia.
— Hum… Eu não sei algo mais difícil — respondeu null, em dúvida por não saber quais eram os limites da brincadeira.
— Então — rebateu Ícaro, animado —, eu te desafio a bater na porta do vizinho guapo e perguntar se ele tem camisinhas.
null e null reagiram olhando um para o outro, assustados. null, no entanto, perdeu todas as linhas de raciocínio que fazia ao ver a menina com aquela expressão. Fofa, a palavra surgiu e, em resposta, seu corpo se contraiu, envergonhado. Sentia vontade de segurar o rosto de null entre as mãos e beijar-lhe diversas vezes. Ridículo, reprimiu-se. A autopunição, no entanto, acabou logo, porque uma Ella que gargalhava alto voltava correndo porta a dentro.
— EU NÃO ACREDITO! — gritou Ícaro. O menino se finava de rir e batia palmas ao mesmo tempo.
— Não só isso — respondeu Ella, enquanto sentava na pequena roda novamente —, mas também isso. — e mostrou um pequeno post it com um número de telefone. Estavam todos rindo muito, com suas barrigas doendo de tanta risada.
O jogo continuou e todos se divertiam:
null respondeu a verdade quando contou que havia namorado apenas uma vez, com o primeiro menino que conhecera.
Ícaro cumpriu o desafio e ligou para o ex-namorado, passando um trote antiquado.
Ella negou-se a responder a pergunta de null, deixando todos curiosos acerca do que ela tinha feito na sexta-feira passada. Após muita insistência, no entanto, revelou: estava com um de seus colegas de trabalho.
null, rindo, fez valer a pena o desafio que havia recebido: estava com ambos os olhos maquiados por Ícaro e por null. A risada, contudo, cessou quando o gargalo da garrafa de Eisenbahn apontou para ele mais uma vez.
— Verdade — respondeu contrariado e Ella sorriu um tanto quanto maligna.
— Quem foi sua melhor?
— Melhor o quê?
— Melhor transa, né, tonto.
E então houve silêncio.
null teria respondido de primeira se ao menos se lembrasse como falar. O garoto poderia jurar que seu sangue havia congelado no momento em que a amiga proferiu a pergunta.
null, era óbvio. null era de longe a menina mais encantadora que null havia conhecido - e ele já estivera com uma quantidade considerável de garotas.
A roda esperava a resposta com expectativas diferentes, apenas o rosto de null estava marcado por apreensão. null, sentindo-se obrigado a revelar a verdade, coçou a garganta com uma tosse leve:
— Isso é uma coisa íntima, sabe? — murmurou, tentando escapar de confessar em voz alta. Todos reviraram os olhos e o cochicho escapou dos lábios do lutador:
null. Minha melhor transa foi com a null.



Já no apartamento de null, o casal repousava sobre o sofá. Nas mãos de cada um, um prato vazio de bolo de aipim feito por null minutos antes.
— Então por trás do lutador monstro existe um menino apaixonado por doces. É isso mesmo, null?
Com a colher na boca, o garoto assentiu constrangido.
Não conseguia encontrar em nenhum lugar de sua mente um momento em que estivera assim com alguma garota. Assim, à vontade. Quando na casa de Ícaro, null achava que não fosse aguentar a noite acabar para tirar o vestido de null de seu corpo. Para tê-la novamente. No entanto, agora, olhando-a com os cantos da boca sujos de leite condensado e contando-lhe sobre uma de suas aulas de natação, o lutador apenas desejava que o mundo parasse. Parasse por completo, para que ele pudesse, ao menos, tentar ter null para si por tempo o suficiente. Nunca parecia suficiente.
Como se uma luz acendesse em sua mente, percebeu, naquele momento, que não queria tê-la pelada. Estivera enganado esse tempo todo. Queria fazer parte da história de null; queria estar em sua vida.
— E então, lutador, como tu te sente em relação à pressão das competições?
— Eu acho que ninguém nunca me perguntou isso — null pigarreou em resposta. — No início era pior, eu não tinha nada e dependia do dinheiro das lutas pra poder sustentar minha mãe em Cerro Grande. Agora é mais… Bem, é uma pressão mais relacionada a construir uma carreira.
O garoto sentiu-se estranho ao enxergar-se tão vulnerável em frente de outra pessoa que não seus habituais amigos. Remexeu-se, então, um pouco desconfortável. E, sem saber o porquê, continuou falando:
— Nicolai foi como um pai pra mim, não que eu tivesse alguma referência. Eu era um piá quando cheguei e agora…
— É um dos melhores do estado — null completou, largando seu prato no braço do sofá para deitar ao lado do menino e acariciar seus cabelos. null revirou os olhos, com vergonha. — Quando é tua próxima luta?
— Sexta. É tudo ou nada, praticamente, null. Se ganhar, estou no Brasileiro e se perder… Não quero nem pensar nisso. Meu relógio contando.
— Ei, ei, calma. Vai dar tudo certo, tudo bem? Não surta antes da hora… Bandido bom não perde o foco no assalto, né?
— Tu não citando isso — null murmurou, achando graça de null, que havia lembrado de um dos vídeos de adolescente do menino, no qual ele cantava uma das músicas da ConeCrew.
Ambos estavam rindo quando o lutador olhou em direção à garota:
— E tu? — perguntou.
— Eu o quê?
— Não sei, qualquer coisa. Quero te conhecer.
— Mas tu já me conhece — null soprou em um tom que beirava provocação.
— Sim — null respondeu, aproximando seu rosto do rosto de null. — Conheço teu corpo, tuas pintas e tua mancha de nascença nas costas. Já decorei tuas curvas, tuas estrias, teus lugares secretos. E, ainda assim, sinto como se não soubesse nada a teu respeito.
Enquanto falava, o garoto depositava pequenos beijos no rosto da menina e massageava suas coxas com as mãos.
— Pergunta — null respondeu contra os lábios do lutador, que afastou-se.
— Cor preferida?
— Roxo.
— Lilás ou violeta? — brincou.
— Violeta.
Iniciaram, então, um jogo de perguntas. Ora null perguntava, ora null o fazia. O lutador descobriu que ela preferia Coca a guaraná e que nunca tomava Pepsi. Além disso, tomou posse do conhecimento de que null detestava pintar as unhas e preferia comer couve-flor pelo resto da vida a ter que acrescentar uvas passas em todas as refeições.
null contou que não tinha uma banda preferida e que apenas seu pai era vivo. Sua irmã mais velha havia deixado a cidade para construir uma carreira de modelo no Rio e seu irmão mais novo sonhava em ser nadador profissional.
Conversaram sobre as lembranças do Ensino Médio. Assistiram a algum clipe no Youtube. Em algum ponto, deitados espremidos e sem espaço no sofá, acabaram por adormecer. O corpo pesado de null pairava sobre o corpo de null, fazendo com que uma espécie de quentinho se instaurasse no peito do lutador.
O garoto estava com os olhos fechados há tempo, incapaz até mesmo de controlar os próprios pensamentos, quando escutou um cochicho vindo de null:
— Tu também é o meu melhor.



— VOCÊS O QUÊ?
— Ícaro, fala baixo, meu!
Os dois amigos estavam em uma loja de games para retirar o PS4 de Ícaro, que estava para arrumar.
— Não, não, não — o amigo estava parado em frente a uma das prateleiras da loja e segurava, em cada mão, CDs de jogos diferentes. — Ela dormiu na tua casa e vocês não transaram? Agora me caiu os “butiá” do bolso .
— Pare de agir como se fosse grande coisa — null murmurou irritado, enquanto retirava da prateleira uma das versões de GTA.
— Mas é claro que é grande coisa! Vocês estão namorando, real. Ai meu Deus, Ella não vai nem acreditar quando eu contar! Ontem, eu e ela ficamos tentando adivinhar em quais posições vocês…
— Ícaro! — o lutador reclamou, enquanto devolvia o jogo à estante.
Capaz , cupincha! Tô te arriando . Quer dizer, é verdade, mas, enfim — Ícaro sorriu debochado —, o coração de pedra derreteu?
— Pelo amor de Deus — null reclamou pela segunda vez. — Eu não sei o que acontecendo, bom? Eu só… Sei lá.
— Tu sabe o que tá acontecendo, sim, não vai te acovardar agora.
Os amigos ficaram em silêncio.
— Eu só… Sei lá. Eu não consigo nem dizer a palavra.
— Que palavra? — Ícaro questionou, sorrindo maliciosamente.
— Idiota — null revirou os olhos. — Tu sabe qual palavra. É só… Tão difícil. Eu não acostumado.
— O que tu diria? Se eu fosse ela…
— Nós não fazemos fazer isso, Ícaro.
— Por favor… — o amigo implorou. — Nós estamos fazendo isso. Oi null.
— Oi Ícaro — null respondeu e recebeu um olhar bravo do amigo. Revirando os olhos, corrigiu sua fala. — null.
— Eu tão feliz em te ver. Tu fica tão forte com essa camiseta.
— OK, isso não funcionando — o lutador falou com irritação e divertimento. — Ela nunca diria isso, tchê.
— Bom, mas eu acho que tu fica forte com essa camiseta mesmo — Ícaro respondeu o amigo, passando a mão pelos bíceps braquiais de null, que revirou, mais uma vez, os olhos.
— Vamos só deixar pra lá, tá bom?
— Deixar pra lá o quê?
— Ícaro, pelo amor de Deus, eu não sei como dizer que eu apaixonado por ela, tá bom?! — null vociferou, sacudindo os braços em desespero e frustração. O amigo lhe respondeu:
— Acho que tu poderia falar bem assim… Se fosse necessário repetir.
Se em todas as outras vezes que null encontrava null seu coração falhava, dessa vez ele parou totalmente. Foi como se não houvesse nem mesmo oxigênio ao seu redor para preencher seus pulmões.
Parada na porta de entrada da conveniência, estava null, segurando seu computador quebrado. Os olhos arregalados e a boca levemente aberta nunca deixariam a memória do lutador, disso ele tinha certeza. Ele não lembraria de como se mexer, se não fosse por null dando as costas para loja e caminhando apressadamente por entre as pessoas.
Os olhos da menina pingavam lágrimas grossas pela camiseta e seu coração parecia estar percorrendo uma maratona: estaria mesmo null apaixonado por ela? Seu desejo era voltar correndo, lhe abraçar e dizer que, sim, ela estava perdidamente apaixonada por ele. Entretanto, sentia-se pouco capaz de fazê-lo, o medo se apossara de seu corpo por completo: a única referência que conhecia do amor era perdendo-o.
— Espera! — null sentiu as mãos fortes de null a alcançarem e fechou os olhos com o toque. — O que aconteceu? Quer dizer, eu sei que… Bom, eu sei o que aconteceu, eu só… Eu não entendo, tu brava?
Sem lembrar como responder, null apenas recolheu suas lágrimas e virou-se para ir embora.
null, tu não pode me culpar por me apaixonar! — o grito de null foi a última coisa que a garota ouviu antes de dobrar a esquina.

Parte IV

Parte III
faz o que tu faz comigo…
ninguém mais faz
ninguém mais faz o que tu faz comigo



Os arredores do ringue estavam cheios, completamente lotados de pessoas. Ainda assim, diferente de todas as outras vezes, aquilo não motivava null - nada o tinha motivado nos últimos dias. Ícaro e Ella o incentivavam a procurar null, mas o lutador não tinha coragem. Um verdadeiro covarde, era o que dizia para si mesmo toda vez que pensava no assunto.
Fazia apenas uma semana do incidente, contudo, null sentia como se fossem anos; e as lembranças divertidas que tinha com null eram todas borradas pela expressão aterrorizada que ele tinha visto na loja alguns dias antes.
Caminhou sem ânimo para dentro do ringue, sentindo os entusiasmados toques de Nikolai que o desejavam força. Colocou o protetor bucal, estralou os ossos do pescoço e fechou os olhos com força. Não pode nem mesmo contar os segundos entre o sinal de início e o soco que levou em seu nariz.
— Vamos lá, garoto! — ouvia o treinador gritar.
— Bota pra fuder, meu! — Ícaro o apoiava.
— Tu consegue, null! — Ella proferia.
null distraiu-se, então, com os sons vindos da plateia e não mediu a força do golpe que estava vindo: cambaleou para traz com o jab que tomou. Sentia-se zonzo. Seria possível tudo isso ser efeito colateral da paixão? Por que essa bosta não vinha com uma bula, então?, xingou.
Estava apanhando muito e sequer conseguia lembrar das palavras de null, que tempos atrás o acalmaram. Doía pensar em seu rosto, mas era tudo que o lutador tinha feito nos últimos dias. Ninguém, em toda sua vida, o fizera sentir assim.
Sem grandes arrependimentos, null deixou-se perder o primeiro tempo, quase apagando no chão do ringue. O treinador o colocou sentado no banco, jogando-lhe água no rosto.
— Acorde, pelo amor de Deus!
— Ei, mano — Ícaro enfiou a cabeça por entre as cordas que os separavam —, o que tu fazendo? Virou boca aberta agora? Acorda, Mohamad Ali!
null suspirou, fechando os olhos mais uma vez enquanto as mãos do amigo o chacoalhavam. Tão absorto nos próprios pensamentos, não percebeu os sussurros que os rondavam.
— Saia daí, Ícaro, chega pra lá — Ella pedia. — null, olha pra mim. — a amiga não obteve resposta — Olha pra mim, null.
Nada fazia o lutador ter vontade de se mexer.
Nikolai já estava desesperado, passava as mãos repetidamente pela barba e tinha vontade de bater em sua própria cara. O tempo do intervalo concedido estava acabando e null não queria nem parar de sonhar.
— Lutador?
Os olhos de null abriram-se imediatamente. Estava sonhando, só poderia ser isso. Sentiu uma espécie de felicidade descabida ao ouvir aquela voz rouca ao pé de seu ouvido.
— Olha pra mim, lutador — em resposta, o garoto virou o rosto com calma, torcendo para que não fosse mais uma de suas alucinações. Sentiu seu coração voltar a viver, por fim. null o encarava próxima às cordas; tinha os cabelos presos em um coque no topo da cabeça e um sorriso tranquilo pendurado nos lábios. Com diversão, a menina estendeu os braços segurando a barra da camiseta que usava, para mostrar ao boxeador - esse, não pode controlar uma lágrima que insistiu em cair de seu olho direito: null usava uma camiseta branca, estampada com uma foto de null que ela mesma havia tirado.
— Eu disse que a gente não deve prometer aquilo que não pode cumprir — null murmurou.
— Eu sabia que seria uma ótima visão — o garoto sorriu, levantando-se do banco. — null…
— Sim, null. Eu também. Mas não agora. Agora tu vai passar o carro por cima desse arrombado, entendeu? — null soltou uma gargalhada divertida quando null forçou a voz para imitar Ícaro. — Eu te amo, lutador.
Sem saber como agradecer aos céus, null escutou o sinal que indicava o início do segundo tempo. Um sorriso malicioso marcava seu rosto já ensanguentado. A vontade de vingança estampava seu peito e sentia-se recarregado; era, por fim, um lutador e iria lutar por aquilo que queria.



Fim!



Nota da autora: Ai gente, espero que vocês gostem! Esse foi o primeiro ficstape do qual participei e confesso que tive um pouco de dificuldade para decidir o que escrever! Ainda assim, tentei transpassar através das palavras o que a música me fez sentir: esse clima de “não existe vida após o amor” com uma mistura de tesão AHAHA. Sintam-se super à vontade para comentar, críticas e elogios são sempre bem-vindos! Obrigada pela leitura!

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