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Última atualização: 27/08/2020

Prólogo

Fevereiro de 2010

— Eu vou sentir sua falta, murmurou contra meu pescoço. Estávamos tão enroscados em um abraço, que não pensei ser possível encontrar forças para soltá-la.
… — suspirei, e então pressionei meus lábios contra seus cabelos e, em seguida, inalei o cheiro doce que emanava deles.
Quando nos desvencilhamos, senti o frio tomar o lugar de e uma pontada forte em meu coração apareceu. Deus, será que todas as despedidas eram assim? Não me sentia forte o suficiente para continuar encarando o rosto vermelho e molhado de lágrimas da mulher a minha frente. Desviei o olhar. Qualquer coisa naquela sala seria o bastante para prender minha atenção.
O nó em minha garganta doía tanto que eu mal conseguia pensar em falar; e meus olhos, cheios de lágrimas, finalmente se renderam e as despejaram. Eu apenas pisquei uma vez e lágrimas gordas e pesadas escorreram por minhas bochechas.
Senti a mão delicada de tocar em meu queixo e puxar meu rosto, para que eu olhasse em sua direção. Seus traços faciais perfeitos, sempre tão alegres e destemidos, hoje aparentavam estar sem chão. Sua mão deixou meu rosto, descendo para meu peito e parando na altura de meu coração. Ela com certeza poderia sentir suas batidas velozes.
— Se eu pedisse… — começou a falar em tom baixo, tão baixo como se ela não quisesse que ninguém ouvisse, nem eu. — Se eu pedisse para você ficar, existiria alguma chance?
Olhei com tristeza em sua direção.
— Qual é, eu também posso ser egoísta às vezes — ela murmurou, soltando um riso breve. Suspirei, pegando suas mãos e beijando-as.
— Eu vou sentir sua falta todos os dias. E seguirei te amando pelo resto da minha vida — prometi. — Por favor, não se sinta culpada de seguir em fren…
— Eu não acredito que estou ouvindo isso! — respondeu, levemente atordoada — Eu não tenho olhos para ninguém. Não importo quanto tempo passe. Sou sua e vai ser sempre assim!
Suspirei. Quando recebi o comunicado que iríamos para o Haiti, não pensei que seria tão difícil deixar . No fundo, minha maior dor é não poder prometer uma data de volta, nem um meio de comunicação. Estou deixando-a no escuro. E estou deixando-a pelo escuro.
— Não se preocupe comigo, por favor — respondi, por fim. — Sei me cuidar. E pense que vou estar ajudando muitas pessoas.
assentiu, deixando mais algumas lágrimas rolarem.
— Meu herói — ela disse, antes de se jogar em mim para mais um daqueles abraços.
Não sei como irei conseguir ficar longe de você, eu queria dizer para ela. No entanto, pensei que era melhor ser - ou no mínimo aparentar ser - sua fortaleza, e não alguém com mais motivos para ficar do que para ir. Minha vida inteira ficaria no Rio de Janeiro, ao passo que eu estaria indo para o Haiti por tempo indefinido. Havia caos lá. Muito. E meu dever enquanto Engenheiro Militar era estar lá para amparar as pessoas. Partiríamos em breve e eu ainda não havia me acostumado com o frio sem o corpo de por perto.
— Por favor, se cuide — eu disse, segurando seu rosto com minhas mãos. Beijei a ponta de seu nariz e me afastei alguns centímetros para olhá-la novamente. — Eu tenho um milhão de coisas para te dizer. Talvez até mais. Mas não acho justo que terminemos assim, ou que sequer encaremos isso como uma despedida. Eu vou voltar e vou voltar vivo. Mas, por favor, não se prenda a isso. Se surgir qualquer outra oportunidade de vida, não se prenda a esperar por mim. Ainda assim, quero que saiba que estarei pensando em você em todos os segundos de todas as horas de todos os dias. Eu vou estar lá, com meus braços e minhas pernas. Minha cabeça, meus ouvidos e meus olhos. Todavia, peço para que cuide do meu coração, porque ele vai ficar com você.
— Por favor, , — murmurou —, por favor, não invente de morrer.


Capítulo I - That home¹

Agosto de 2016

Onde as janelas estão respirando luz,
onde os quartos são a coleção de nossas vidas…
Esse é um lugar onde eu não me sinto sozinho,
esse é um lugar que eu chamo de lar”²



— Mãe! — desabei em seu ombro. O rosto enfiado na curvatura de seu pescoço. Perto aos meus pés, estavam minha mala e uma mochila. Com os braços segurando o corpo pequeno de Marta, suspirei e me permiti chorar. Chorei igual uma criança. Igual às crianças que resgatei durante todos esses anos em que estive no Haiti. Sentir o perfume de minha mãe, poder tocar nela e encontrar aquela sensação de lar que há muito eu não sentia foi o ápice, me senti desconcertado ao mesmo tempo em que parecia que minha mãe juntava e colava todas as peças que perdi.
Seis anos haviam se passado sem que eu pudesse me comunicar com ninguém daqui. Fiquei sem saber de meus pais, de minha irmã, de meus amigos. Fiquei sem saber de .
Seis anos era tanto tempo que não cabia em oito letras. Mas parecia caber naquele abraço. Ali, foi como se nada tivesse mudado; como se eu ainda fosse aquele moleque de oito anos que corria para encontrar a mãe no portão de casa quando ela chegava do hospital - a única diferença era que, agora, eu era muito maior.
Nos soltamos, ainda que relutantes, e minha mãe segurou meu rosto com suas mãos. Acariciou minhas bochechas e secou minhas lágrimas, ainda que as dela insistissem em continuar caindo. Marta passou os dedos levemente pela cicatriz que adquiri no supercílio direito; contornou a barba que eu agora usava e algumas rugas que surgiram nesses seis anos longe.
— Meu filho — murmurou, enquanto me puxava para outro abraço. Com mais calma, analisamos um ao outro. Minha mãe havia mudado tanto! Estava mais velha, com mais rugas contornando seus olhos; havia ganhado peso e tinha madeixas embranquecidas no cabelo que, quando eu parti, era apenas loiro. Estava usando um vestido solto e sandálias. Marta desceu os olhos para meus ombros, analisou a camiseta preta de mangas curtas que eu usava; a calça com estampa militar e meus coturnos marrons. Pareceu perceber que eu havia ganhado músculos e algumas cicatrizes a mais nos braços. Seus olhos pareciam dizer tanto, mas tanto, que talvez não existissem mesmo palavras para descrevê-los. Eu queria apenas decifrar o que se passava em sua mente naquele momento.
Recolhi minhas malas do chão, enlaçando-as em meu tronco e segurei a mão de minha mãe para caminharmos em direção ao seu carro. Seus dedos já estava levemente enrugados e eu os acariciei por todo caminho.
Eu queria gritar que estava em casa. Queria gritar, chorar, correr para longe.
No tempo em que estive fora, não tive muitos momentos para realmente sentir a falta que minha família fazia. Estávamos sempre ocupados. Sempre. Havia tanto a ser feito, a ser reparado. Transformei minha tristeza em energia e a utilizei nas construções das quais participei, nos projetos que elaborei e nas vidas que salvei. Me doía ver minha mãe mais velha, diferente e com tantas histórias para contar que não envolviam minha presença, no entanto, não poderia ter feito nada de diferente. Seis anos transformaram minha vida para sempre e minha visão de mundo era outra agora.
— Mãe — eu disse, quando já estávamos dentro de seu carro. Ela terminava de colocar o cinto e levantou seu olhar em minha direção. — Sei que tenho muito a contar, e posso imaginar o quão estranho é me ver retornar assim, tão diferente de quando fui. Mas, agora, tudo o que preciso é te ouvir. Por favor, me conte de todos. Estão vivos? Saudáveis?
Marta sorriu levemente e deu partida no carro. Estávamos saindo do aeroporto Santos Dumont, a casa de meus pais deveria estar há uma hora de distância.
— Ó , você sempre tão altruísta — ela murmurou. — Sim, estão todos vivos e com muita saúde. Estão todos eufóricos para te ver. Muitas coisas mudaram nesses anos… Ãhn… Bom, vou falar apenas de nós. — estranhei seu comentário, de quem mais ela poderia falar? Meu coração palpitou ao pensar em . Minha mãe estava evitando mencioná-la? Senti minha respiração descompassar levemente. Havia algum tempo em que não pensava nela com tanta veemência, todavia, a simples menção implícita de sua vida me deixou agitado.
— Está me ouvindo? — Marta me perguntou, com um tom de estranhamento.
Pigarreei.
— Hum, desculpe, mãe, não estava ouvindo. Você está evitando falar dela? Digo… está evitando falar… Hum… De ?
E só o que obtive foi silêncio.
E mais silêncio.
Um dos silêncios mais ensurdecedores que já havia presenciado e meu coração vacilou por um segundo. Não que eu estivesse achando que ela me esperaria na porta do aeroporto com flores e um pedido de casamento. Eu nem sequer me dava o direito de achar nada, queria evitar o máximo de expectativas e poupar meu pobre coração da desilusão. No entanto, o silêncio de minha mãe me apavorou.
— Mãe?
— Sim, vou evitar mencioná-la… Você… Você terá que conversar diretamente com ela, tudo bem? Não quero entrar no assunto. Ela está bem, antes que pergunte. Está viva e com muita saúde. Terminou a pós-graduação e está com alguns projetos incríveis em andamento — Marta falou tudo tão rápido e de maneira tão embolada que eu quase não consegui absorver. Digo quase, porque tudo que envolve a me interessa de tal forma que seria impossível perder um único detalhe.
— Enfim, como eu estava dizendo — minha mãe continuou, menos nervosa agora —, seu pai conseguiu a aprovação do projeto e…
— Sério?! — a interrompi. Um sentimento incrível de felicidade percorreu meu corpo e me deixou eletrizado. Meu pai estava há anos elaborando um projeto de isolamento ecológico. Ele se formou em Engenharia Civil quando adolescente e, com o passar dos anos, foi ficando muito preocupado com a questão ambiental. Recentemente - ou nem tanto, porque já haviam, no mínimo, seis anos de sua conclusão -, ele começou uma pós-graduação em Engenharia Ambiental e elaborou seu projeto. Ele usava jeans reciclados, PET, papelão e alguns outros insumos para a elaboração.
— Sim — Marta sorriu orgulhosa —, ele conseguiu! Uma empresa relativamente grande comprou o projeto e ainda o contratou como supervisor de campo no setor ambiental. Foi muito bom. Estávamos passando dificuldades na época e mais um salário entrando na conta aliviou muito.
“Bom, além disso, eu deixei o hospital. Estava me cansando muito. Estou trabalhando em uma casa de partos agora, fiz uma especialização em enfermagem obstétrica. Me sinto mais feliz, tenho menos carga horária e ainda realizo um trabalho lindo junto com a Dra. Dora. Sua irmã também se formou, ela acabou trocando de curso e se graduou em Ciência da Computação. Está trabalhando Niterói e vem para cá nos finais de semana.”
— Uou! — mencionei. Era muita coisa para absorver. — Fico feliz por você, mãe. Pela casa de partos, quero dizer. É realmente algo muito bonito.
— É sim… Por favor, agora você me conte um pouco. Me despedi de um menino e vim buscar um homem. Eles te alimentaram direito?
Sorri fracamente, coçando a nuca.
— Posso dizer que comi da melhor forma que pude.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Não foi ruim, mãe. Não precisa se preocupar comigo.
— Sabe? Às vezes me sinto culpada de não ter te impedido. No momento em que você partiu, a frase que diz que criamos os filhos para o mundo ecoava em todos os lugares que eu ia. Eu sabia que você estava sendo nobre e corajoso e que salvaria muitas vidas. Todavia, pontadas de egoísmo me faziam crer que seria melhor ter te amarrado em casa. Nunca senti tanto medo de perder alguém.
Ficamos em silêncio.
— Eu também senti muito medo, mãe — respondi, por fim. — Tive muito medo de morrer, de não poder voltar e te ver mais uma vez. Tive medo que algo acontecesse com você, com o pai, com a Nanna e… E com a . Senti muito medo. Mas não quero pensar nisso agora. Eu estou aqui com vocês e não vou partir nunca mais.
Apenas percebi que eu estava chorando quando vi as lágrimas escorrerem pelo rosto de Marta. Acariciei seu ombro, tentando não distraí-la da estrada. Minha mãe soltou uma das mãos do volante e colocou-a em cima da minha. E então houve mais silêncio.
— Sobre — ela pigarreou —, quero que saiba que ela não deixou de acreditar que você estava vivo em nenhum momento. Nem um segundo, sequer. Ela sempre soube e jamais deixou que falassem o contrário de você. Logo vocês vão se encontrar e poderão conversar. Afinal, não são mais os mesmos de antes.
Não são mais os mesmos de antes. Um calafrio percorreu minha coluna vertebral ao mesmo tempo em que uma espécie de excitação se projetou em meu estômago. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo e do que estaria tão diferente assim a ponto de Marta não querer contar-me. Tudo que sabia era que meu coração palpitava da mesma forma ao ouvir seu nome.
Depois de tantos imaginando-a em meu contexto social, criando-a da forma que mais ajustava-se a mim, o nervosismo de encontrá-la realmente e de compreender o que, de fato, ela havia se tornado era indescritível.
Conversamos mais um pouco, minha mãe e eu, até que os vultos que se projetavam das árvores devido à velocidade do carro tomaram minha atenção e meus pensamentos fugiram para muito longe dali.

O avião em que eu estava pousou no Haiti poucos dias depois que despedi-me de minha família. Éramos, em maioria, homens e estávamos experimento sentimentos conflitantes: medo, incerteza e ansiedade lutavam contra a excitação que crescia constantemente por estarmos enfrentando nossa primeira missão. Uma missão em nome da paz de uma Nação que estava sendo comendada pela ONU³. A participação do Brasil na Missão de paz para Estabilização do Haiti (MINUSTAH) havia começado anos antes, em 2004; nós éramos apenas mais uma leva de militares instruídos a fazer o que não estava sendo feito até então. Seguíamos compondo a CONTBRAS - Contigente Brasileiro - e estávamos divididos em duas grandes equipes: Batalhão de Infantaria de Força de Paz (BRABAT) e a Companhia de Engenharia Brasileira (BRAENGCOY).
Evidentemente, fazer parte da BRAENGCOY me deixava menos aflito, uma vez que eu, certamente, não estaria na linha de frente para o combate. Entretanto, o único comentário que ouvíamos é que a situação no Haiti estava crítica demais. Como se não bastasse a crise política, o país estava sofrendo gravemente pelos danos causados pelo terremoto que ocorreu em janeiro. A população carecia de praticamente tudo e, por isso, estávamos sendo enviados.
Suspirei fundo quando o último chacoalho causado pelo contato das rodas do avião com o asfalto do aeroporto cessou. Havíamos chegado. Soltei o cinto e recolhi a mochila que estivera em meus pés durante a viagem, esperando a equipe de bordo abrir as portas para que saíssemos da aeronave. Éramos tantos, tanta farda misturada marchando em conjunto, que minha visão se tornou levemente turva. Tudo era diferente aqui. Estávamos na capital do Haiti, Port-au-Prince*, e seguíamos para pequenas vans que nos deixariam em diversas cidades, dividindo o Contigente e ampliando nossa ação.
A construção inteira do Aeroporto possuía tons esbranquiçados, que contrastavam com as palavras “AEROPORT INTERNATIONAL TOUSSAINT LOUVERTURE”, escritas em azul na parte superior. A vista de onde eu estava dizia-me pouco sobre a cidade, eu praticamente não conseguia enxergar muito da urbe. Tudo que estava em minha frente eram campos vastos de grama verde e, em alguns lugares, amontoados de árvores perdidas. Ao longe, eu conseguia identificar a forma de um morro preenchido por inúmeras casas empilhadas. Imaginei que, no Brasil, facilmente identificaríamos isso como uma favela.


A confusão se espalhou por minha cabeça ao perceber a facilidade com que meu cérebro havia se distraído e remontado o cenário exato de minha chegada ao Haiti. Nem percebi em que momento as árvores se tornaram prédios, casas e lojas; nem mesmo notei que, ao invés de andarmos, estávamos parados no congestionamento habitual do Rio.
Cocei meus olhos e balancei a cabeça, olhando para o lado e encontrando minha mãe com uma expressão de dúvida.
— Você parecia concentrado — ela disse.
— Estamos chegando? — perguntei, tentando desconversar.
— Sim, mais algumas quadras, apenas. Eu só queria te avisar que… Hum, estão te esperando. Eu até pensei que você estaria cansado e preferiria descansar, mas se você ao menos imaginasse a euforia, o alívio, de todos ao saberem que você estava bem.
— Mãe…
— Eu e seu pai organizamos uma pequena recepção. Eles não queriam que eu contasse. Vão estar te esperando com balões e, acho eu, que vão gritar surpresa quando entrarmos. Por favor, não se assuste.
— Certo — respondi, suspirando logo em seguida e apoiando minha cabeça no banco do caroneiro. Pensar em rever minha família fez com que lágrimas se acumulassem em meus olhos e meu coração disparasse novamente.
Percorremos as quadras que Marta mencionou e entramos em nosso bairro. Nada havia mudado lá, aparentemente. Pude ver alguns lugares que eu costumava frequentar: a sorveteria da Ana, o foodtruck do Ito, o meu shopping preferido. Aparentemente tudo estava exatamente o mesmo e isso fez com que a sensação de intruso diminuísse em mim. Me senti como se nunca tivesse deixado a cidade.
Entramos no condomínio fechado que eu conhecia. Meus pais ainda moravam na mesma casa, no entanto, ela estava reformada. De azul claro ela havia passado para branco, com detalhes em mármore e tijolos à vista. O canteiro ainda se fazia presente na parte da frente, o verde vivo destoando com os tons cinzentos do mármore. Algumas roseiras coloriam a entrada, que era precedida por um caminho de pedrinhas amareladas.
Haviam alguns carros em frente à casa. Eu pude contabilizar cinco, o que indicava que haveria bastante gente e isso me deixou um pouco mais apreensivo. As noções de mudança e estática permaneciam em conflito e eu não sabia bem dizer se me sentia de volta ou como um intruso no ninho. Cherei a gola de minha camiseta, tentando descobrir se eu, pelo menos, estava cheirando bem.
Marta acionou o controle e o portão preto começou a subir. Em seguida, entrou com o carro e estacionou-o na garagem, que ficava a poucos metros da porta. Meu coração parecia querer explodir e eu senti vontade de chorar, pela milésima vez naquele dia. Senti minha mãe segurar minha mão, o calor da dela contrastou com o o suor frio presente na minha.
— Fique tranquilo. Estão todos te esperando com amor e com carinho. Eu pedi para não te esmagarem forte demais. Eles estão com saudades, seja compassivo.
Assenti e tirei o cinto. Estava saindo do carro quando Marta chamou baixo pelo meu nome. Sentei no banco novamente e olhei em seus olhos.
— Ela está aí, filho. está aí.

— Ela está ali — o garçom apontou para uma mesa encostada na parede bege do restaurante. Segui em passos vacilantes até o lugar indicado, com o coração batendo de forma que parecia que ele iria saltar para fora de mim no momento em que eu abrisse a boca. notou minha aproximação antes que eu estivesse preparado. Como se eu já não me sentisse nervoso o suficiente, o pouco de fôlego que me sobrava se se foi ao encarar seus olhos.
me olhava com um sorriso bobo brincando em seus lábios e ela parecia admirada comigo também. Seus cabelos estavam presos em um coque e apenas alguns fios insistiam em cair, moldando seu rosto. Os meus cabelos foram precisamente bagunçados com um pouco de gel e muito fixador.
Sentei-me em sua frente para finalmente dizer:
— Você está linda.
— E você está atrasado — ela soprou, sorrindo em seguida, ao passo em que eu levantei os ombros tentando uma rendição. — Estou brincando, você está lindo também.
— Eu não consegui achar estacionamento, tive que dar umas quatro voltas na quadra — contei —, nunca pensei que esse restaurante teria movimento até em uma terça-feira.
riu e me entregou o cardápio.
— O que você, de fato, não sabia, é que “terças-feiras” são para rodada-dupla!
O sorriso divertido e malicioso que pairava em seus lábios espelhou-se nos meus. Não havia nada que eu e gostássemos mais do que um bom restaurante em dia de rodada-dupla. Éramos os campões.
— Parece que a sorte está ao nosso favor, então — respondi a ela, enquanto abria o cardápio para escolher um prato. A frase poderia ter sido sobre as bebidas que tomaríamos, mas, no fundo, eu torcia para que a sorte estivesse a meu favor em uma questão que ia muito além daquela noite. Eu tinha plena consciência que estava completamente apaixonado por e por tudo que a envolvia. Tinha certeza de que a queria. Apenas não sabia como dizer a ela que me sentia daquela forma.

A lembrança de um dos nossos últimos encontros como “apenas amigos” invadiu-me em cheio após a fala de minha mãe e eu não consegui mexer-me para sair do carro. Marta tocou suavemente em meu ombro e minhas pernas automaticamente pularam para fora do veículo. estava lá.
Lembrar de seu rosto, de seu cheiro, de suas manias não costumava ser tão difícil para mim. No entanto, naquele momento, parecia que eu havia esquecido tudo. Eu não tive tempo de lembrar de tudo com precisão antes de chegarmos à porta da casa. Enquanto esperava minha mãe tirar a chave da bolsa e rodeá-la na fechadura, eu apenas tentava me lembrar de como voltar a respirar.
¹Música da banda britânica The Cinematic Orchestra.
²Trechos da música “That home” traduzidos para o português.
³Organização das Nações Unidas.
*Porto Príncipe, em português.



Capítulo II - Loving you¹

“Não há que eu possa fazer,
eu não chego a escolher.
Mesmo se eu pudesse reescrever a história,
está claro para ver que eu ainda estaria
amando você.”²



— SURPRESA! — eles gritaram em conjunto. A luz se ascendeu rapidamente e revelou todos aqueles por quem eu sentia meu coração derreter enquanto estava fora. Estavam lá, lado a lado, com sorrisos misturados a lágrimas: meu pai, minha irmã Nanna, , meus avós e, por fim, .
Eu queria ter focado em alguma outra coisa. Queria ter observado a decoração nova da casa ou a faixa pendurada que continha dizeres para mim; queria ter reparado nos chapéus engraçados que usavam e na música que tocava. Mas não pude. Foquei em seus olhos e nada mais. Aqueles olhos que me seguiram durante todos esses anos, que preencheram meus sonhos noite após noite. estava parada, segurava um pequeno balão lilás e eu pude perceber que tremia. Ela estava completamente diferente. Seu cabelo, que antes era curto e repicado, agora estava longo e descia em grandes ondas pelo colo. Seus traços que antes eram tão infantis e apontavam uma beleza ingênua, agora eram firmes, seguros de si e traziam uma maturidade que eu não conhecia. E nunca estivera tão linda. Ela usava um batom claro, quase imperceptível, e tinha um colar com um pequeno pingente pendurado no pescoço. Sustentei o olhar que ela me lançava, tentando demonstrar o quanto havia sentido sua falta e, então, percebi que ela chorava.
Ninguém pareceu perceber meu pequeno transe. Vieram, um a um, em minha direção para abraços. E então estávamos todos chorando.
— Nanna — sussurrei quando minha irmã passou seus braços por meu pescoço. Ela também estava mais velha, não se parecia mais com aquela pirralha de quem eu me despedi quando fui embora. Seus cabelos agora eram coloridos, em um tom rosa bebê e ela usava um piercing no septo. Nos abraçamos de uma forma muito fraternal e eu pude realmente sentir que estava em casa. Mesmo com os olhos fechados, percebi que meu ombro direito agora estava molhado pelas lágrimas de minha irmã.
Após abraçá-la, recebi meu pai. Seu cabelo agora grisalho contrastava com os olhos escuros. Meu pai tinha algumas rugas a mais e não usava mais barba; estava com os olhos lacrimejados, mas parecia se segurar ao máximo para manter uma postura firme. Seu sorriso, os lábios puxados mais para a esquerda do que para direita, aqueceu meu coração. E só agora percebi como ele estava frio desde minha partida.
— Meu filho — Robert disse ao me abraçar. Nosso abraço foi mais curto, mas com mais cumplicidade. Ele disse, então, ao me soltar:
— Por favor, nunca mais me deixe orgulhoso desse jeito.
Soltei um riso fraco e pude ouvir algumas pessoas rindo atrás dele.
Abracei meus avós com a maior delicadeza que consegui. Gostaria de abraçá-los com força, a fim de demonstrar a saudade que eu havia sentido, entretanto, eles não eram mais aqueles adultos cheios de motivação que me carregavam no colo quando eu era menor. Estavam mais magros e, eu arriscaria dizer, até um pouco menores. Meu avô, ao me abraçar, me permitiu viver o momento mais íntimo que já tive com ele em toda minha vida. Após secar uma lágrima que insistiu em correr por sua bochecha, ele me olhou de uma maneira que me fez ter certeza que ele entendia exatamente como eu me sentia. Afinal, já havia vivenciado tudo isso, anos atrás, quando fazia parte do exército.
Abracei - meu amigo desde o ensino fundamental - e percebi o quanto eu havia sentido falta dos momentos em que estávamos juntos. Sempre nos divertimos muito e nunca havíamos ficado separados, não por tanto tempo, não em uma situação como aquela.
Finalmente, foi o que pensei quando percebi caminhando em minha direção. Ela não segurava mais o balão e, mesmo estando a alguns metros de mim, eu já podia sentir seu cheiro. Era o mesmo cheiro de anos atrás, um cheiro único que não era de nenhum perfume. Era de mesmo. Ela insistia em dizer que era apenas o cheiro do Egeo Red que usava, mas eu sabia que emanava da pele dela antes mesmo de ela aplicar o produto. E era o melhor cheiro do mundo.
estava tão sem jeito que eu, automaticamente, fiquei duas vezes mais constrangido. Quando senti seus braços contornarem meu abdome, a envolvi com voracidade para um abraço repleto de saudade. Cheirei seus cabelos, como eu costumava fazer quando éramos mais novos, e a senti fungar contra meu peito. Eu estava no céu. A apertei mais ainda e beijei sua cabeça. Eu vagamente lembrava da sensação de querer chorar, todavia, ao perceber que realmente a tinha em meus braços - e isso não era mais um sonho - eu só tinha vontade de rodopiá-la no ar e beijá-la tantas vezes até que meus lábios ficassem dormentes. Me contive, no entanto, quando senti seus braços afrouxando nosso abraço.
se manteve quieta e eu também. Ela parecia um pouco incrédula, como se custasse para acreditar que aquilo finalmente era real. Eu mal podia esperar para ter algum momento a sós para nós.
Estávamos enfrentando um momento um tanto constrangedor, no qual eu não fazia ideia do que falar. parecia ter muito a dizer e seus olhos, sempre tão transparentes a mim, estavam carregados de informações que eu não mais sabia como decifrar. Percebi que as pessoas ao nosso redor também estavam constrangidas e isso me fez olhar para eles. Se eu tivesse que descrever com apenas uma palavra a cena que vi, diria que todos os meus familiares e estavam apreensivos. A interrogação deve ter ficado explícita em meu semblante, pois meu pai pigarreou e todos pareceram olhar para outro lugar que não para mim.
, adivinha o que fizemos para a janta? — Nanna perguntou, tentando amenizar o clima tenso que havia se instaurado e eu finalmente deixei de encarar as pessoas para olhar a casa. Tudo estava diferente, ainda que fossem os mesmos móveis que eu conhecia. A casa reformada era maior e mais chique e, com a decoração que eles haviam feito, ela estava muito mais feliz do que eu me lembrava.
— Não — eu disse, quando observei com atenção a expressão facial de Nanna. — Não! Não me diz que vocês fizeram massa com strogonoff de brócolis e batata frita?!
Aquele era meu prato preferido desde sempre. Só de pensar que estaria sentindo o gosto da comida de meus pais novamente, eu ficava com os olhos marejados. Durante muitos dias, enquanto estávamos no Haiti , comíamos o que havia. E o que havia, na maioria das vezes, não era bom nem saboroso. Mas ainda assim dávamos graças por ter o que comer e por estarmos vivos, todos os dias, em todas as refeições.
Senti minha boca salivar enquanto íamos em direção à mesa. O cheiro e a aparência dos pratos trazidos por minha mãe estavam maravilhosos. Sentamos todos, eu em uma ponta, minha irmã em outra. acabou ficando longe de mim, praticamente em uma diagonal. Eu me sentia confuso: ao mesmo tempo em que não conseguia parar de prestar atenção nela, havia tanto acontecendo que eu quase esquecia que ela estava ali.
— Família — eu disse, antes que começássemos a comer —, eu gostaria de agradecer. Eu não tinha ideia do que iria enfrentar quando sai daqui seis anos atrás. Não sabia o que me esperava e, pensando hoje, acho que eu jamais seria capaz de supor. Apesar de tudo o que vi e vivi lá, ainda estou tendo a chance de me reunir com vocês e, para mim, não existe nada além disso. Nada além da família. Obrigado por me aceitarem de volta. Não teve um dia sequer que fiquei sem pensar em vocês.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo sobre o quanto haviam sentido minha falta. Todos menos . A mulher que costumava ser minha namorada - doía pensar dessa forma - apenas sorriu em minha direção. Um sorriso limitado, sem dentes. Apenas uma linha fina de lábios espremidos que foram acompanhados por uma lágrima solitária que escorreu no lado esquerdo de sua face.
Não havia mais resquícios do momento tenso de antes e todos comíamos com felicidade e graça. Eu não conseguia parar de dizer o quanto tudo estava delicioso. Aos poucos, entre recolhermos os pratos, servirmos a sobremesa e, por fim, tomarmos um chá pós-refeição, meus familiares e foram me contando sobre tudo que havia acontecido aqui. , no entanto, mais uma vez se manteve quieta e as pessoas tampouco mencionaram algo relacionado a ela; era como se tivessem feito um acordo prévio de não tocar no assunto.
Evitei ao máximo o assunto Haiti e todos pareceram entender meu silêncio. Ainda assim, não tivemos um segundo sem que alguma voz ecoasse pela casa, principalmente a de Nanna, que falava sem parar um segundo.
— Foi muito desafiador no início, meus colegas me tratavam como se eu não tivesse um conhecimento básico, sendo que eu era, literalmente, a melhor da turma — minha irmã desabafava. Estávamos espalhados pela sala ao redor da lareira, que contribuía para a conversa com alguns pequenos estalos da madeira queimando.
— Ainda é difícil e olha que agora já estamos falando a nível de mercado de trabalho. Querendo ou não, ainda existem profissões que são consideradas “masculinas” e é difícil de se vencer crenças enraizadas. Eu continuo sendo a melhor dentro da empresa e ainda assim preciso trabalhar o dobro do que meu colega de sala, se quiser realmente manter meu emprego.
Fiquei triste por saber disso. Ficamos todos em silêncio, uma espécie de luto por sabermos que situações desse tipo eram muito mais comuns do que deveriam ser. Não havia nada que eu, meu pai, meu avô e pudéssemos falar, apenas sentíamos muito.
De vez em quando, do nada, eu só sentia uma gratidão enorme por estar em casa e tudo parecia valioso: o toque do sofá fofo, o barulho dos meus sapatos contra o piso, o eco das risadas pela sala. E, sem dúvidas, a presença de . Eu tentava disfarçar, pois sabia que não éramos mais os mesmos de antes. Éramos, na verdade, dois completos estranhos e, exatamente por isso, eu não podia rodopiá-la e beijá-la como queria. No entanto, todas as vezes em que me pegava a olhando escondido, me fitava de volta. Ainda que seus olhos possuíssem o mesmo tom esverdeado de antigamente, era como se houvesse uma muralha o seu olhar e o meu. Seus olhos estavam repletos de vivências que eu jamais decifraria sozinho. No fundo, eu apenas que ela me fizesse parte de sua vida novamente.

— Eu não acredito que você conseguiu esconder isso de mim! — eu dizia, entoando incredibilidade. soltou uma gargalhada alta.
— Confesso que eu me segurei muito para não falar nada, acho que foi a coisa mais difícil que já fiz.
Estávamos sentados nos balanços feitos de madeira que ficavam no jardim nos fundos de minha casa. Lá dentro estava cheio de pessoas que tinham vindo comemorar meu aniversário e tudo que eu queria era escapar com para ter um momento sozinho com ela. Não passaria daquele aniversário, eu estava decidido.
Assim que entrei na casa e todos começaram a gritar e cantar parabéns - somados a balões estourando, confete voando pelos ares e minha mãe vindo em minha direção com um bolo e velas acessas -, confesso que fiquei meio puto. Eu não era lá o maior fã de surpresas. Mas assim que eu soube que a ideia havia vindo de , inspirei com força e soltei o sorriso mais feliz que consegui. Seus olhos transbordavam empolgação e ela dava pequenos pulinhos enquanto cantava para mim.
Olhei em sua direção, nossos balanços estavam em ritmos diferentes. É verdade que já estávamos grandes demais, mas ainda assim, sempre que íamos lá em casa, nos embalávamos como crianças. Aos poucos, fui parando o meu balanço e fiquei apenas a encarando. Eu era um menino com 18 anos, um homem! Não poderia ter tanto medo assim de algumas palavras. Era só dizer…
pareceu perceber que eu queria conversar e parou seu balanço também. Estávamos pouco distantes um do outro e eu soltei uma das mãos das correntes para apoiá-la em minha perna com a palma para cima. Sinal que deveria entender. Eu amava quando nos dávamos as mãos, era o encaixe perfeito. Ela, devagarinho, deslizou seus dedos em minha direção e os entrelaçou aos meus. O metro que separava os dois balanços nunca havia parecido tão distante.
Nós sempre entrelaçávamos nossos dedos, sempre que podíamos, pelo menos. Era um hobby. No entanto, essa vez foi diferente. Meu coração batia descompassado contra minha caixa torácica e eu estava a ponto de explodir. Levantei o olhar em sua direção e parecia estar vivendo o mesmo. Seu rosto estava sério, tão sério como nunca antes. As sobrancelhas levemente unidas e seus olhos miravam meus lábios.
Prendi a respiração quando decidi me aproximar. Nos conhecíamos há pouco menos de meio ano e eu tinha certeza que estava perdidamente apaixonado pela mulher a minha frente. fechou os olhos e isso fez com que uma corrente elétrica percorresse meu corpo. O momento mais esperado desde o primeiro dia em que a vi.
Eu estava próximo o suficiente para sentir sua respiração e decidi, então, soltar a minha lentamente. Nossos narizes se roçaram e os dedos de apertaram minha mão com mais força.
— Vocês estão aí! — apareceu gritando na varanda. Eu tomei um susto tão grande que me desequilibrei do balanço, caindo com as costas no chão. Rapidamente, me ajudou a levantar e me olhou com preocupação e timidez. Suas bochechas estavam coradas e ela evitava olhar em meus olhos. Um sorriso brincalhão se pendurava em seus lábios.
— Você está bem? — perguntou ao se aproximar — Cara, desculpa, não imaginei que você estivesse tão concentrado — ele completou, fazendo com que eu me sentisse mais constrangido ainda, como se tivesse voltado para os meus quinze anos ou algo do tipo.

A memória me pegou em cheio. Tanto que nem percebi a movimentação em minha frente: meus avós estavam indo embora. Me desculpei pela falta de atenção e eles apenas sorriram compreensivos, combinando que nos encontraríamos outro dia. Meu pai pegou as chaves do carro e foi levá-los em casa.
Retornou a tempo para se despedir de . De repente, quando estávamos apenas os cinco, um silêncio desconfortável e constrangedor nos atingiu novamente. Meu pai, minha mãe, Nanna e ficavam trocando olhares cheios de significados, enquanto eu permanecia ali sem entender absolutamente nada.
— Acho que vamos deixá-los sozinhos para que possam conversar — Marta disse, finalmente se levantando e seguindo para outro cômodo. Robert e Nanna a seguiram e o constrangimento se multiplicou por mil. se levantou da poltrona onde estava para se sentar ao meu lado no sofá e eu temi que ela pudesse ouvir as batidas de meu coração, de tão forte que eram. A lembrança do nosso quase-primeiro-beijo ainda estava fresca em minha memória, e eu me perguntava se o nervosismo dela agora era o mesmo daquela época. Porque o meu era.
— Oi — ela sussurrou para mim. Sorri. E, ao mesmo tempo, tranquei a garganta com toda a força do mundo, pois tive muita vontade de chorar.
— Oi — soprei em sua direção. Estendi meu braço e toquei levemente em seu rosto, acariciando sua bochecha com meu dedo indicador. fechou os olhos e seus lábios se curvaram em um sorriso tímido.
— Você está mais linda do que eu poderia me lembrar — disse, enquanto recolhia meu braço. Suas bochechas coraram e eu quase não pude acreditar que ela ainda sentia vergonha dos meus elogios.
— Eu… — começou a falar, mas se calou. Sua expressão mudou rapidamente e o sorriso tímido deu lugar a sobrancelhas unidas e lábios pressionados um contra o outro, formando uma pequena linha reta. — Eu senti muito sua falta, .
Engoli a vontade de chorar. Ela continuou:
— Mas eu sempre soube. Sempre soube que estava vivo e que voltaria para nós.
Ficamos abraçados por algum tempo. Sua pele era tão macia que eu não conseguia parar de acariciar e, pela primeira vez em seis anos, e senti o amor que conhecia tão bem. E que me fazia tanta falta. Eu podia sentir o nervosismo de e me perguntava se isso era somente por estar me vendo de novo.
pareceu se recompor do nosso momento terno e assumiu uma postura um tanto mais ereta. Eu poderia dizer que ela estava estranha desde o início da noite, mas não me sentia no lugar de fazer suposições. Estávamos há seis anos sem nos vermos, é evidente que ela poderia ter mudado. Seu comportamento, no entanto, me dizia para não abandonas minhas suspeitas.
… Eu… — parecia relutante e nervosa. Percebi que pequenas gotículas de suor começaram a se formar em sua testa e ela começou a esfregar as mãos repetidamente. — Eu…
— Ei, calma — falei, estendendo minha mão para tocar a sua. Estava fria e molhada. desfez meu entrelaço para levar as mãos à cabeça a fim de massagear as têmporas. Sua respiração estava levemente entrecortada e eu comecei a ficar preocupado.
Eles dizem que é possível identificar o estado de choque chegando - reação aguda ao estresse, eles chamam -, nós aprendemos a entender os sinais em alguns cursos que fizemos pré-operação. A reação aguda ao estresse refere-se a uma resposta não adaptativa a uma situação de carga emocional muito forte e ela pode apresentar alguns sintomas prévios, como atordoamento, confusão mental, conflito entre memórias e emoções e, por fim, estupor dissociativo - mais conhecido como paralisia psicológica. É um quadro reversível na maioria das vezes. Eu havia sido muito bem treinado, tinha certeza. Havia sido muito bem treinado para uma situação de guerra, não para uma situação como essa que estava para viver. E por esse motivo, eu não previ o choque chegando.
estava respirando com alguma dificuldade e eu comecei a ficar preocupado. Lembrei-me do dia em que a deixei, antes de partir para a Missão e meu coração se contorceu, causando-me uma espécie de dor física forte. Ver ela nervosa assim me deixava confuso, o que estava acontecendo? Ela estava com dor?
— a chamei. Seus olhos, ainda me evitando, logo se encheram de lágrimas. Por que, diabos, ela estava chorando? — O que está acontecendo? Por favor, fala comigo.
Mesmo sem entender, eu simplesmente sentia que algo grande estava por vir. Me sentia confuso em demasia. Eu até poderia ter usado a palavra “atordoado”, se eu tivesse me lembrado dos sintomas na hora.
, eu… Eu preciso… , eu preciso lhe contar uma coisa séria, muito séria.
Assenti. E quando achei que meu coração não poderia bater mais rápido, lá estava ele contrariando expectativas. Minha respiração estava levemente acelerada e eu não conseguia distinguir exatamente o que estava sentindo. Ansiedade? Pavor? Saudade? Alívio? Me sentia em conflito, sim, essa seria a palavra certa. Conflito emocional, para classificar bem.
— Ao ir embora, você me disse que deixaria seu coração comigo — falava baixo, sem olhar em meus olhos ainda —, você não sabia, mas, de fato, deixou.
O quê?
Eu até inspirei o ar para lhe perguntar. Eu até abri os lábios para que o ar saísse e desse som a minha voz. Contudo, os olhos de subiram rapidamente na altura dos meus e ela disse:
— Eu estava grávida, . Quando você foi embora, eu estava esperando um filho seu.
E lá estava o estupor dissociativo.

¹Canção do grupo musical britânico “Seafret”.
²Trechos da música “Loving you” traduzidos para o português.




Capítulo III - Breathe¹

“Eu preciso respirar,
nunca segurei um coração antes.
Não importa o quão longe eu estou,
você sempre será o meu lugar.”²



— De quem é essa criança?! — eu repetia aquela frase, me sentindo desesperado. O barulho alto da manifestação que estava a alguns quilômetros de mim era ensurdecedor. Eu podia ouvir gritos ensaiados pela população haitiana e também gritos de terror. Ouvia o medo e podia, mesmo estando longe, sentir a brutalidade.
Os olhos assustados das pessoas ao meu redor indicavam omissão e imploravam para que eu parasse com o questionamento. Meu sangue fervia e eu sentia as gotas de suor voarem de minha testa para o chão. Em meus braços, carregava um recém-nascido. Um menino muito pequeno que não parava de chorar. Ele estava enrolado em uma toalha de banho áspera e um pouco suja. Os gritos manhosos da criança em meu colo, o barulho do caos da manifestação e o pavor das pessoas ao meu redor estavam me deixando zonzo. Havia um leve ruído atrás de tudo que eu escutava.
— De quem é essa criança?! — eu continuava repetindo a mesma pergunta. E para a mesma abordagem, se recebe as mesmas respostas. A falta delas, no meu caso. Eu não sabia dizer se as pessoas não estavam me escutando ou se elas simplesmente não ligavam. Eu chegava a sentir ânsia de vômito de tão nervoso.
Em frente à falta de interesse das pessoas para com o bebê, apertei-o contra meu peito e beijei-lhe a cabeça. Eu estava suado, sujo e cansado demais. E o bebê não tinha culpa nenhuma. Sem olhar para as pessoas que, das janelas de suas casas, admiravam meu desalento, comecei a marchar em direção a nossa moradia. Segurei a criança ainda mais firme, queria passar-lhe segurança. Ao passo em que comecei a caminhar e, consequentemente, balançá-lo, ele foi cessando seu choro. Olhei em sua direção para checar se ele ainda estava vivo e encontrei um par de olhos grandes, quase arregalados em minha direção. Seu olhar me dizia que ele estava com medo e, se eu entendesse qualquer coisa sobre bebês, diria que estava com fome, com frio e sujo de cocô também. Ele ameaçou voltar a chorar e, nisso, eu parei de caminhar. Foquei meu olhar diretamente no seu e sussurrei:
— Vou cuidar de você, eu prometo.

Eu não lembrava de ter abertos os olhos. Ou sequer de tê-los fechado, para ser sincero. Não me lembrava de ter começado a pensar em Akin. Na verdade, não me lembrava de nada. Senti meus músculos todos tencionados à medida que fui retomando a consciência. A claridade ardeu em meus olhos. Minha atenção estava completamente focada no movimento de minha garganta em engolir a saliva. Mesmo sem conseguir me mexer, pude reconhecer vozes ao meu redor.
— Eu deveria ter esperado alguns dias para contar!
— Não, era o tempo certo de ele descobrir e tinha de ser por você!
— O que fazemos, Marta?
— Ó meu Deus…
— Ele não morreu em seis anos de guerra, não é agora que vai morrer.
— Eu não deveria ter falado nada ainda…
— Ele não precisa de nada, só tempo. Não está tendo nada físico, é um choque emocional.
Aos poucos algumas imagens foram se concretizando em minha mente e eu atentei-me a isso. Voltei a respirar e engolir e piscar inconscientemente. Tudo que eu enxergava ainda estava borrado e ligeiramente sem nexo. Eu estava molhado de suor. Soltei um suspiro alto, ainda sem entender o que acontecia. Dei-me conta, então, de que acima de mim estava o teto branco e meu corpo repousava no sofá. Eu havia deitado?
Com movimentos calmos, forcei minhas pernas a se mexerem e levantei o tronco para sentar-me. Voltei a enxergar com mais nitidez. Estavam todos olhando para mim com preocupação. Queria falar alguma coisa, mas nenhum som saía de minha garganta.
, o que está sentindo? — Marta perguntou, vindo em minha direção com um copo de água. Aceitei a água e a bebi devagar, quase com uma lentidão exarcebada.
Focalizei Nanna, Robert e, por fim, ; todos continuavam me encarando. Eles expressavam dúvida e apreensão.
— Estou confuso — murmurei. — Minha cabeça está estranha.
— Está tudo bem — minha mãe respondeu com calma —, você se assustou, não foi nada grave, está seguro aqui. Lembra do que aconteceu?
Deixei minha mente vasculhar as lembranças. Não que eu estivesse contando, mas demorei exatos seis segundos para escutar a frase de . Sei que, na verdade, eu apenas pensei ela. No entanto, meu pensamento soou tão alto que eu duvidei se ela não havia repetido as mesmas palavras.
Eu estava grávida, . Quando você foi embora, eu estava esperando um filho seu.
Meu coração se acelerou de novo e o ar faltou mais uma vez. Inspirei e expirei profundamente.
— Lembro — minha voz saiu em um fio. Devo ter feito uma expressão muito assustada. Meus familiares apenas se retiraram, dizendo que nos deixariam sozinhos de novo.
E então estávamos sentados frente a frente, mais uma vez. estava mais agora.
Eu queria perguntar-lhe tanto. Queria lhe perguntar tudo. Em vez disso, apenas fiquei parado, a olhando com olhos esbugalhados.
? — soprou em minha direção — Está se sentindo bem?
Considerando que ela havia repetido a pergunta de minha mãe e nada havia mudado desde que Marta proferiu aquelas mesmas palavras, julguei ajustado responder a mesma coisa.
— Estou confuso.
— Sim — ela suspirou —, eu posso imaginar. Por favor, deixe-me contar como tudo aconteceu.
— Estou ouvindo — respondi, apenas. Eu costumava ser um cara de muitas palavras na época da faculdade. Sempre com algum comentário na ponta da língua, uma correção, uma brincadeira. fui advertido uma porção de vezes por não saber simplesmente ficar quieto. E agora eu somente sentia que todas as palavras já inventadas pela humanidade haviam sumido. Evaporado completamente. Sequer me lembrava de como soletrar meu nome.
suspirou e rodou os olhos, como se estivesse procurando, realmente, a lembrança, aparentando estar mais tranquila.
Eu estava o oposto.
— Eu… Hum… Eu descobri a gravidez duas semanas depois de você ter ido embora. Eu tentei, de verdade que tentei, te contatar. Era impossível, como se você não estivesse em nenhum lugar. Foi… Foi realmente impactante no início, você sabe. Mas… Mas eu, no fundo, sempre soube que você voltaria — explicou lentamente, concentrada em usar as palavras certas.
Meu maxilar se contraiu involuntariamente e eu senti uma fisgada em meu peito. Respirar nunca doeu tanto. Duas semanas eram basicamente nada. Um tempo de nada, se considerarmos que eu estava com quase 33 anos de vida.
A vida era, de fato, muito circunstancial.
Não saberia dizer quando comecei a chorar. Realmente não me lembro se foi quando ela mencionou a palavra gravidez novamente ou se foi quando contou que apenas 14 dias me separaram de um filho por seis anos. Estava com raiva, sim. Estava fodido de raiva. Eu me senti perdido e a lembrança do dia em que resgatei Akin surgiu novamente para mim. Me sentia com tanta raiva quanto senti naquele dia, ao segurar uma vida inocente em minhas mãos. Contudo, naquela época eu tinha raiva dos outros e agora eu sentia raiva apenas de mim.
Ao olhar os olhos apavorados de , pensei em tudo que ela deveria estar sentido. O modo como me encarava denunciavam muito medo. Eu não tinha a intenção de assustá-la mais ainda, só não conseguia parar de soluçar como uma criança.
não chorou como eu, apenas estendeu sua mão na direção da minha e entrelaçou nossos dedos. Por um segundo nada mais importou. O encaixe perfeito de nossas mãos vibrou em todo meu corpo, me fazendo lembrar de tantas coisas; de tantos sentimentos. Foi como se eu finalmente tivesse encontrado aquela peça que tinha feito tanta falta nesses últimos seis anos.
Tomei coragem para parar de chorar e fui me recompondo aos poucos.
— Eu tenho muitas perguntas — falei baixo, tão baixo que se inclinou em minha direção para escutar. Por favor, não me entenda mal. Não estou… Não estou triste com a notícia, só estou confuso demais.
assentiu, seus lábios se comprimiram em uma linha fina e ela apertou um pouco as sobrancelhas.
— Vou responder a todas as suas dúvidas — ela me disse com franqueza.
— Você… — eu comecei alguma pergunta. Não fui capaz de terminá-la, no entanto. Existia um ser humano por aí que era parte de mim. Que era fruto de um amor verdadeiro. A emoção comeu minha voz. As lágrimas se acumularam novamente em meus olhos e eu me segurei demais para não deixá-las cair. Soltei os dedosdo enlaço de e levei as duas mãos à cabeça, esfreguei os cabelos lentamente e, em seguida, passei as mãos por minha barba.
, sei que é muita coisa para se pensar, mas…
A voz de morreu ao longo da frase, no entanto, eu sentia que mesmo que ela tivesse continuado eu provavelmente não teria ouvido.
Então eu tinha um filho?
As imagens destruidoras dos últimos anos se misturam com a alegria de estar em casa e, de repente, senti preguiça de sentir raiva. Senti medo de sentir raiva. A vida foi tão curta para tantos que conheci e, durante os anos que passaram, vi tantas crianças sem família que apenas imaginei a raiva como um sentimento indigno.
Eu estava encarando a mulher da minha vida na minha frente, a única pessoa que tinha meu coração e ela estava me contando que temos um filho?
Soltei uma risada. Ela saiu alta, nervosa e desengonçada.
— Nós temos um filho? — perguntei, não conseguindo conter o sorriso enorme que se formou em meu rosto. — Nós temos um filho! — repeti, ainda sem acreditar. Eu estava rindo e chorando ao mesmo tempo. As mãos esfregando o rosto mais uma vez, minha perna balançando contra o chão e o coração acelerado. me olhava com uma cara engraçada.
— Na verdade — ela disse —, nós temos uma filha.
Meu coração cambalhotou e seguiu batendo em um ritmo que eu jamais pensei que ele fosse capaz de bater e continuar vivo. Segurei as mãos de , que repousavam em seu colo, e beijei-as demoradamente. Eu simplesmente não conseguia parar de chorar. também estava demasiadamente emocionada, mas pareceu se recompor para continuar a conversa.
— Nós temos uma filha, sim. Ela se chama Helena — o nome ecoou em meu coração e nada nunca havia soado tão bonito — e está louca para te conhecer desde… Bom, desde sempre.
A realidade me atingiu como um soco no meio do rosto e meu estômago pareceu despencar.
Minha filha está louca para conhecer-me. Conhecer. Ela tinha seis anos e queria me conhecer. Eu estava sendo, literalmente, a última pessoa a saber de seu nascimento. Eu não estava iniciando uma jornada junto com , eu estava caindo de paraquedas em algo que já existe há seis anos sem mim. Voltei a sentir raiva de mim mesmo.
— Não — disse —, não faça isso. Não vá para esse lugar, . — Sua expressão era calma e denotava a facilidade que ela tinha em me ler.
— Você não sabe o que estou pensando — retruquei infantil e com a voz completamente embargada. Minha vontade de chorar era a raiva pura que corria por minha corrente sanguínea. Como pude deixar isso acontecer?
A sobrancelha esquerda de se arqueou em resposta a minha birra e seus olhos fixaram-se nos meus.
— Você está se culpando — respondeu, suspirando. Sua voz estava tranquila e parecia querer cuidar de mim. — Não faça isso. Você não sabia. Eu não sabia. Não tínhamos como prever.
— Eu nunca deveria ter partido.
Por um segundo, ou menos tempo do que isso, pude ver na expressão de que ela concordava comigo. Que falar de minha ida lhe causava dor.
— Você não tem como saber, . As coisas aconteceram assim e não há como mudar — ela disse. Agora, aparentava estar mais confiante do que dizia, ainda que suas palavras não surtissem o menor efeito em mim. Imagens do dia em que me despedi de estavam flutuando em meus pensamentos, misturando todas as minhas emoções.
— Não… — murmurei, sentindo minha escolha pesar mais ainda — Não consigo entender. Durante todos esses anos, eu cuidei de crianças desconhecidas e… Você… Enquanto você estava aqui, precisando de mim, . Não entendo como a vida nos organizou assim.
A lágrima que pulou para fora do olho de não teve tempo nem de alcançar a altura do nariz, logo levantou a mão e a limpou com certa voracidade. Seus suspiro soou alto e eu novamente percebi que doía para ela falar disso.
— Por favor, não veja as coisas assim, . Você não perdeu nada, na verdade, ganhou muito. Ganhou experiências incontáveis e ajudou vidas de uma forma que não existem palavras para descrever. Você é, pra mim, um grande motivo de orgulho — respondeu mostrando-se confiante no que dizia, e completou: — E para Helena também.
Eu abri a boca para responder, mas abanou as mãos em minha direção como se pedisse para que eu deixasse ela terminar de falar.
— Vou te fazer um pedido, . Sei que não somos mais as mesmas pessoas, na verdade, para mim, você é um completo estranho. Não tenho ideia do que aconteceu nos últimos anos da sua vida e sei que também se sente assim em relação a mim. Nesse tempo todo, eu aprendi sobre maturidade; sobre de quantas coisas devemos abrir mão para sermos maduros. Tive muita ajuda, sim, mas me virei de todas as formas que pude para criar Helena durante esses anos. E agora te peço para não fazer as coisas sobre você. Sei que pode pensar que perdeu seis anos da vida de Hels, mas, por favor, não se prenda nisso. Nesse exato momento, você está ganhando uns 70 anos da vida da nossa filha. Está ganhando uma porção de “primeiras vezes”. Todos os dias com ela são únicos, e você está ganhando um pacote enorme deles. Não se prenda ao que passou. Por mim e por ela.
Não haviam palavras. Engoli em seco o drama e o vitimismo; a raiva passou rasgando minha garganta inteira. Olhei intensamente para e, por mais que eu não soubesse o que responder, queria que ela tivesse certeza que eu havia entendido o recado. Queria que ela soubesse que meu maior desejo era fazer parte de tudo daqui para frente. Saber de tudo. Vivenciar tudo. Queria que ela tivesse consciência de que a existência de Helena me emocionava mais do que qualquer outra coisa que eu já presenciara. Se me perguntassem, eu diria que ela entendeu tudo que eu não disse.
— Nesses seis anos, desde o início, fiz questão que Helena soubesse quem era seu pai, quem era você. Ela sabe de tudo, sabe onde você estava, , o que estava fazendo e, para ela, você é um herói da vida real.
— Posso vê-la? — murmurei com o coração novamente acelerado. tateou o sofá e pegou seu telefone. Antes de virar a tela para mim, ela respondeu:
— Ela é você, , sem tirar nem pôr.
Acho que meu coração nunca havia trabalhado tanto assim em uma noite só. Minhas mãos tremiam e eu estava com a garganta trancada pela vontade de chorar. É verdade que nunca acreditei em amor à primeira vista, nem mesmo com . Conhecemo-nos no Ensino Médio e só fui me apaixonar por ela quando entramos na faculdade. Amor é tempo e convívio, é conhecer e ser conhecido. Eu pensava, pelo menos. Sendo mais franco, eu tinha certeza. Tinha. Bastou eu colocar os olhos na tela do celular de e enxergar Helena que tudo que eu conhecia foi por água abaixo. Eu desaprendi tudo que sabia, por segundos, e reaprendi a olhando. Nada era mais importante do que aquele pequeno ser que encarava a câmera do celular quando a foto havia sido tirada. Seus olhos eram, realmente, iguais aos meus. O nariz, ainda assim - e sorte dela -, era idêntico ao de . Helena era a materialização de um amor infinito.
— Não… Não tenho palavras. Ela é… Eu nunca vi nada tão bonito — respondi, ainda encarando o telefone de . — Você disse que ela é como eu, mas Helena é totalmente como você! Meu Deus, ela é a sua cara! E é linda como você, . Em todos esses anos, quero que saiba que você nunca saiu de dentro do meu peito, meu coração realmente ficou aqui e eu só percebi ao chegar. Eu estou completamente confuso e estou assustado em demasia. Tenho muito medo que Helena não goste de mim ou que eu não saiba como ser um pai, mas saber de sua existência foi a melhor coisa que já aconteceu para mim, de tudo.
sorriu em minha direção um sorriso emocionado, que eu prontamente retribuí. Ela me explicou que queria que marcássemos um dia para conversar sobre a vida de Helena.
— Ela sabe tudo que pode a seu respeito — dizia —, acho justo que você a conheça previamente também.
Eu queria saber logo quando poderíamos nos encontrar, estava ansioso pelas fotos e pelos vídeos que ela prometeu me mostrar; pelas histórias que prometeu contar. Entretanto, limitou-se a dizer que entraria em contato comigo durante a semana para combinarmos.
Estiquei minha mão e toquei em seu rosto. Acariciei suas bochechas e coloquei alguns fios de cabelo que pendiam atrás de sua orelha. Me aproximei.
sussurrou —, por favor, não.
Olhei-a com dúvida. Meu coração martelava em meu peito e em meu estômago a ansiedade pesava.
— Não vamos confundir as coisas — ela umedeceu os lábios —, nossa prioridade é Helena agora. Não vamos… Não vamos confundir as coisas, não somos mais as mesmas pessoas.
Assenti e temi que a decepção ficasse tão clara em meu rosto. Recuperei o fôlego e recolhi meu braço. Permanecemos em um silêncio desconfortável até que decidiu se despedir de mim. Expliquei a ela que eu ainda não tinha um telefone e ela me disse que mandaria mensagem para minha mãe.
Nosso abraço de despedida foi curto e eu percebi que, assim que minhas mãos tocaram sua cintura, ficou tensa e rígida. Ela praticamente evaporou para fora da casa. Senti meu coração um pouco quebrado, eu estava triste com nosso pouco contato.
Foi no meio da pergunta de minha mãe sobre como eu me sentia que a ideia me atingiu, rápida como um feixe de luz e amarga como gotas puras de limão. Meu rosto inteiro se contorceu e um sabor azedo se fez presente.
— Mãe? — perguntei, ignorando completamente sua fala. Ela mirou em mim, indicando que estava me ouvindo e prestando atenção. As palavras escaparam ácidas de minha boca e eu detestei pronunciá-las, mas meu coração ansiava pela resposta.
— A se apaixonou por outra pessoa?

¹Música do grupo musical britânico Seafret.
²Trechos da música “Breathe” traduzidos para o português.




Capítulo IV - Venus¹

“O céu à noite costumava dominar minha imaginação,
agora eu mudo os discos cuidadosamente.
Depois de algum tempo,
eu pensava que nunca te encontraria.
Eu convenci a mim mesma
que não te encontraria…
Quando, de repente, eu te vi”²




— Espera! Ei! — uma voz surgiu vaga atrás da música que saía de meus fones de ouvido. Eu caminhava em direção ao meu apartamento para almoçar. — Espera!
Senti a aproximação repentina de alguém e virei-me bruscamente para trás. Encontrei um menino que, assustado com minha virada, parou próximo a mim e apoiou as mãos nos joelhos. Ele parecia cansado e estava ofegante. Permaneci olhando em sua direção com dúvida e tirei os fones de ouvido para lhe ouvir dizer:
— Você deixou cair — ele me estendeu dois ingressos de alguma coisa que eu não consegui decifrar. Olhei os ingressos e depois para o seu rosto e então para os ingressos de novo.
— Não são meus — respondi em meio a um sorriso engraçado, tentando soar gentil. Minha resposta pareceu ter causado bastante impacto no menino a minha frente, visto que ele arregalou os olhos e murmurou um “não acredito”.
— Como assim não são seus?! Eu estou correndo atrás de você desde a saída da UFRJ³!
Essa foi a minha vez de arregalar os olhos enquanto um pequeno riso escapava por meus lábios. Olhei na direção do portão da Universidade e então me dei conta que os gritos vagos eram dele.
— Desculpe — eu disse, ainda segurando a risada —, não são meus.
O menino ficou me olhando por um tempo e sua expressão era engraçada.
— Então… Então quer dizer que eu impossibilitei que o dono verdadeiro desses ingressos os tivessem? — depois de falar, seus lábios proferiram uma risada culpada.
— É — respondi —, parece que agora são seus.
Nos encaramos por algum tempo. Eu estava com um sorriso preso e mordia o lábio inferior. O menino apenas sorria sem mostrar os dentes. Ele coçou a nuca e pigarreou:
— Me chamo .
— respondi e tive a sensação que estávamos flertando. Seus olhos intensos pairavam sobre mim com leveza e interesse. Eu continuei sorrindo por estar achando tudo engraçado. Desviei meu olhar para a rua e observei um carro passar. continuava a me encarar quando pousei meus olhos nele novamente.
— Já que são meus — ele disse —, quero dar um para você — e me estendeu um dos ingressos. Antes de pegar, soltei uma risada. Agora, eu estava rindo da expressão maliciosa que repousava em sua face.
— O que é isso, afinal? — perguntei, ainda sem aceitar o ingresso. prontamente olhou para os papeis na sua mão e soltou uma risada desacreditada.
— Parece que a Orquestra Filarmônica da Zona Sul vai fazer uma interpretação da trilha sonora de todos os filmes da Disney.

Roubei um ingresso de sua mão enquanto soltava o riso que prendi desde o primeiro momento em que nos vimos.
— Não está escrito aqui — ele continuou, agora com o tom malandro presente em sua voz —, mas, parece que depois da apresentação, a Orquestra continua em um bar que existe ali do lado.
Olhei em sua direção com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorriso malicioso pendurado na boca. me fitava com a mesma intensidade de antes e com um brilho de divertimento no olhar.
— Obrigada — eu disse. — Talvez eu apareça lá.
— Certo — ele respondeu. — Então talvez eu esteja te esperando.

A lembrança do primeiro contato que tive com me pegou desprevenida enquanto dirigia rumo à casa de . Eu já havia passado algumas ruas de onde deveria ter dobrado a esquerda e seguia dirigindo, porque as músicas da Orquestra a que assistimos e os shots que tomamos no bar ao lado estavam tomando toda minha concentração. Meu coração martelava confuso e apertado. Tudo se misturava com as imagens da noite anterior e minha boca repuxava ao lembrar. estava tão diferente, usando barba e maior. Parecia mais corajoso e bravo, ao mesmo tempo em que eu tinha a impressão que ele desmoronaria a qualquer segundo.
Senti vontade de cuidá-lo. De pegá-lo para mim e lhe acariciar como eu já havia feito tantas vezes anteriormente. Eu quis passar a mão por suas cicatrizes novas e ouvir a história de cada uma. Entretanto, ainda sentia que, por mais que esse tivesse sido o mais perto que estivemos nos últimos seis anos, estávamos mais longe do que nunca. E nossa prioridade, por fim, era Helena.
Meu celular tocou e eu quase tremi de susto. Não poderia perceber que estava tão absorta em meus pensamentos. Reconheci o toque eu havia escolhido para e apenas deixei que tocasse. Eu já estava percorrendo a terceira quadra para corrigir minha falta de atenção e chegar até o prédio de .
— Ei, meu docinho de caramelo! — murmurei ao levantar Hels em meu colo, que veio correndo em minha direção assim que abriu a porta. Eu havia conseguido um estacionamento praticamente na frente do edifício, então pude subir rapidamente ao sétimo andar e encontrar as duas com caras de quem havia aprontado a noite inteira. Com direito a mais brincadeiras pela manhã.
— Como estava a noite na casa da dinda? — perguntei, enquanto coloca Helena no chão e desviava meu olhar para . Nos abraçamos rapidamente e seguimos as três em direção à sala.
— ‘Tava muito legal, mãe, muito mesmo! A gente comeu lasanha ontem.
— Ah, é? E o que almoçaram hoje?— perguntei.
— Eu fiz uma alaminuta respondeu.
Minha filha estava com aquele sorriso sapeca que eu conhecia muito bem, soltei o ar lentamente, esperando pela bomba — Teve uma parte que eu mais gostei, mãe…
Virei meu olhar para , checando se eu realmente deveria querer saber qual parte Hels havia mais gostado. Apesar de já suspeitar o que viria.
— Qual, meu amor?
— O Gordo dormiu comigo a noite todinha, eu cuidei tãããããão bem dele…
soltou uma gargalhada ao olhar o beiço de “pedir coisas” que Helena fazia em minha direção. Com certeza as duas haviam ensaiado essa conversa, pois Hels olhou na direção da dinda, que levantou os braços em rendição.
— É verdade, , a Hels arrasou com o Gordo. Ele nem lembrava mais de mim.
— Mãe, eu posso ter um cachorrinho? — Helena começou a saltitar pela sala enquanto repetia “por favor”, intercalando com “por favorzinho”. estava chorando de rir enquanto murmurou “essa é a minha garota!”.
— Não, filha — respondi, tentando fazer uma careta engraçada para diminuir o impacto da negativa.
— Todos os meus colegas têm bichinhos, mãe. Eu sou a única que não tem.
— Hels, a resposta é não, já conversamos sobre isso. Quem sabe quando você ficar maior.
Pude perceber que Helena insistiria no assunto, que nos renderia a nada, uma vez que já havíamos conversado uma centena de vezes sobre o assunto.
— Filha, por que você não pega sua mochila para irmos para a escola? — perguntei delicada — Hoje é dia de parque, lembra?
A euforia rapidamente ressurgiu no rosto de Hels, de modo que ela foi praticamente correndo para o quarto de hóspedes pegar sua mochila.
No silêncio dos passos de minha filha, olhei na direção de e perguntei, praticamente sussurrando:
— Posso passar aqui depois?
— Claro — ela disse suave —, estarei te esperando.
Helena voltou e ela e se despediram com um abraço longo. E com Hels dizendo que iria bolar um novo plano - dessa vez seria infalível, palavras dela - para que eu dissesse “sim” ao cachorrinho.
Minha filha segurou em minha mão para caminharmos até o carro. Percurso no qual ela foi saltitando e planejando tudo que poderia fazer quando a turma dela chegasse ao parque: andar de balanço, colher amoras, brincar de “parque mal-assombrado”… Ao entrarmos no carro, sua playlist da Moana começou a tocar e ela seguiu cantando, enquanto atravessávamos a cidade em direção ao seu colégio.
Nos despedimos com um de seus “abraços de urso”.
— Eu te amo, minha florzinha.
— Também te amo, mamãe.
Soltei o ar, então, e deixei-me abater novamente por memórias confusas de mim e de . Não fazia ideia de como seria para Helena descobrir que seu pai havia finalmente chegado.
Deixei que minha cabeça caísse no volante e fiquei parada, apenas tentando não chorar. Eu sabia que estar de volta era uma notícia boa, algo pelo qual eu esperava há anos. Eu só não esperava que fosse doer tanto vê-lo novamente. Suspirei e liguei o carro para sair do estacionamento do colégio. Dirigi com calma até a casa de pela segunda vez naquele dia. Estava tão concentrada em não me distrair nas ruas que nem percebi que as músicas de Hels me acompanharam pelo percurso.
— Ei — sorri fraco para minha amiga quando ela abriu a porta.
— Você já é tão de casa que o porteiro nem mais me interfona para avisar que está subindo — ela disse rindo atrás de mim enquanto fechava a porta de entrada. Seguimos para a sala, onde me atirei no sofá e a olhei com clemência.
— O que houve? — perguntou, dirigindo-se em direção à cozinha.
Suspirei sem saber o que lhe dizer. Percebi que ela voltava para a sala e me endireitei no sofá. estendeu para mim uma das duas xícaras que segurava. A olhei em dúvida.
— Você parecia péssima hoje no início da manhã, fiz nosso chá secreto.
Sorri em agradecimento e senti vontade de chorar mais uma vez. Usei a língua para umedecer meus lábios enquanto pensava como dar-lhe a notícia.
voltou.
cuspiu em minha direção todo o chá que estava em sua boca, molhando não somente a mim, mas também ao sofá. O líquido quente fez meu rosto se contrair, mas abri meus olhos novamente quando percebi que minha amiga estava engasgada. não parava de tossir e ela me olhava com os olhos arregalados.
— Me dá a xícara e levanta os braços — eu disse. Seu rosto já estava vermelho e seus olhos começaram a lacrimejar quando a tosse se intensificou.
Aos poucos, tudo se normalizou e ela pediu a xícara de volta. Minha amiga pouco se importou com o sofá sujo com algumas gotas de chá, estendeu sua mão em direção a minha e me olhou.
— Da próxima vez, me avisa, por favor — ela murmurou, fazendo graça. — Ao menos se certifique de que não estou bebendo nada.
Sorri sem mostrar os dentes.
— Brincadeira — suspirou —, como assim “ele voltou”, ?
— Voltando — respondi. — Eu entrei em pânico quando Marta me ligou para dar a notícia. Entendo sua reação.
— E vocês…?
— A gente se viu ontem. A Marta e o Robert organizaram um jantar em família e convidaram a mim e ao . Pensaram que mais pessoas seria muito impacto para ele.
Beberiquei meu chá e desviei meu olhar para a coleção de globos de neve que expunha embaixo de sua televisão. Um de cada viagem que já havia feito. Distrai-me ao enxergar o globo de neve chileno e lembrar de como percorremos Santiago inteira atrás daquele pequeno objeto.
? — chamou minha atenção. Voltei a olhá-la.
— Hum?
— Perguntei como foi a janta. Disse, também, que sabia que seu compromisso era sério quando pediu para que Hels dormisse aqui, entretanto, nunca eu teria imaginado isso.
— Estranha demais. Não posso imaginar tudo que aconteceu com nesses seis anos. Só sei que nós ficamos perdidos em algum lugar e que as coisas parecem não se encaixar agora.
assentiu e me analisou. Fitei-a de volta, tentando me mostrar confiante.
— Como não se encaixam? — ela rebateu — Você chegou a ter gastrite de tão nervosa que ficava quando alguém mencionava uma possível morte de e agora está dizendo que ele estar vivo “não se encaixa”?
— Eu estava nervosa com outras coisas naquela época, ok? — revirei os olhos — A abertura da farmácia, por exemplo.
olhou para mim com uma expressão que gritava um “não acredito em você” e tomou um gole da bebida que havia preparado.
— Eu queria estar tomando cachaça, não chá — falei pra ela.
, amiga, me desculpa, mas não consigo entender. Hels vive perguntan… Ai meu Deus! Você contou?!
Fiz que sim com a cabeça. largou o chá em cima da mesa de centro da sala para levar as duas mãos em direção à boca, incrédula.
— E o que ele disse?
Fechei os olhos por alguns segundos para lembrar-me com nitidez da expressão de choque de . Em seguida, substitui a lembrança pela emoção que saltou de seus olhos quando viu a foto de Helena.
— Surtou. Primeiro de susto, eu acho. E depois de emoção. Ele reagiu bem.
— Amiga…
— Talvez eu devesse ter esperado mais algum tempo, é só que, para todos nós, essa é a vida. Helena é nossa vida. E estávamos todos tão ansioso para que ele soubesse, acho que, de qualquer forma, não teria aguentado por muito tempo.
assentiu e segurou meu rosto com suas mãos. A olhei estranho por alguns segundos, enquanto ela analisava meus traços.
— Não perca tempo imaginando o que teria sido— respondeu, apenas.
— Foi o que eu lhe disse — falei —, disse a ele que não se culpasse e que teria uma porção de anos com Hels, que não desperdiçasse esse tempo.
— E ele? — já havia retirado suas mãos de mim e estava de volta com o chá. Quando inalei o ar para responder-lhe, meu celular começou a tocar. E eu sabia bem que toque era aquele. Deixei que tocasse até parar.
— Quem é? — ela perguntou — Por que não atende?
Mordi os lábios — É o .
— E por você não atend… Ó, é claro! Tudo faz sentido agora, você está fugindo.
— O que? Não estou fugindo — respondi com a voz levemente afetada. — Nem sei do que eu estaria fugindo.
arqueou uma das sobrancelhas e um pequeno divertimento se espalhou por sua face.
— Agora eu entendo. Você não quis se referir à Helena, é entre você e que não se encaixa. Por isso está fugindo.
Abri a boca e um som agudo escapou por meus lábios. Uni as sobrancelhas e tentei proferir alguma coisa para contestá-la, no entanto apenas ar esvaiu de minha boca.
— Não estou… Não estou fugindo — murmurei, por fim.
O olhar contestador de fez com que eu me retraísse e suspirasse em rendição.
— Ok, eu estou fugindo.
— Ele sabe? Digo, sabe?
Maneei a cabeça em sinal de negação.
— Isso aconteceu ontem, . Não tive tempo nem de processar.
Minha amiga olhava-me com compaixão.
— Se eu soubesse que era isso, tinha feito um litro inteiro de chá.
— Para você cuspir em minha cara? — perguntei e ela me mostrou a língua.
Ficamos em silêncio e aos poucos nossa fisionomia abandonou os sorrisos que se formaram pela brincadeira.
— Combinei com que lhe mostraria as coisas de Helena antes de ele conhecê-la — eu contei, de modo a subentender que queria a opinião de a respeito.
— Acho que é o melhor a se fazer mesmo — ela deu de ombros, mas suas palavras me reconfortaram por um segundo. — Parece doloroso pra você.
— O quê? — questionei-a com dúvida.
— Falar nele.
Suspirei e senti o peso de suas palavras. Um nó se formou em minha garganta e eu percebi o quanto realmente era doloroso falar nele.
— Acho que fiquei muito magoada quando ele foi embora — respondi incerta. — Quero dizer, acho que me senti com o coração partido e logo depois descobri a gravidez. Eu nunca vou deixar de ser grata a , porque ele me deu a Hels e ela é uma das melhores coisas desse mundo todo, mas acho que não estava preparada para a sua volta.
— Tenho a impressão que você se dedicou muito em superá-lo como pai de sua filha e esqueceu que ele era quem tinha seu coração — sugeriu, com a voz cautelosa, com medo de tocar em alguma ferida aberta. Mal ela sabia que essa ferida estava sangrando desde o momento em que dirigi para a casa dos pais de ontem à noite.
O som do toque do meu celular varreu o silêncio que havia se instaurado de forma agressiva e eu suspirei mais uma vez. Poderia suspirar centenas de vezes seguidas e o ar ainda faltava em meus pulmões. Já estava até cogitando em usar a bombinha de Helena para asma.
— É ele? — perguntou e eu apenas assenti em resposta. Seu olhar disse-me tudo. Mais do que isso, encorajou-me.
— Acho que eu deveria atender — praticamente sussurrei.
— Ele parece ter algo importante para falar, pelo menos — ela sorriu em minha direção quando terminou sua fala.
Larguei minha xícara na mesa para tatear o bolso de trás de minha calça e segurar o celular com a ponta dos dedos. Meu coração estava a ponto de explodir de tão nervoso. Senti uma súbita falta de ar e uma perda da noção de como falar, como se minha língua apenas se enrolasse sem eu ter consciência de que movimento fazer para conversar.
— Alô? — eu disse, tentando soar casual.
, ei! Eu tenho tentado falar com você… Está tudo bem? — respondeu, parecia estar alegre. Eu podia ouvir o barulho do vento no microfone de seu celular e imaginei que ele estivesse em uma de suas sessões ao ar livre.
— Hum… Pois é… Mais ou menos. Podemos conversar hoje à noite?
Senti que pigarreou do outro lado da linha, parecendo preocupado.
— Claro, quando quiser. Nossa noite da pizza está de pé?
— Sim — respondi —, Hels está bastante animada para o supermercado. Você sabe o quanto ela gosta de comprar alimentos.
riu e respondeu algo como “Claro, claro”.
— É algo grave? — ele perguntou em tom baixo. Eu já o conhecia tão bem que poderia descrever como suas sobrancelhas deveriam estar nesse exato momento.
— Nada que você precise perder tempo pensando. Conversaremos hoje à noite, ok?
— Certo — ele respondeu. — Até depois.
Despedimo-nos e eu guardei o celular novamente. Olhei na direção de , que mirava-me com um sorriso.
— Prometo arrumar aquela cachaça que você pediu. Ao que parece, as coisas vão ficar interessantes.
— Você é debochada assim sempre? — perguntei, revirando os olhos. — Nada vai ficar interessante, porque não existe nada “para ficar”.
soltou uma gargalhada do meu súbito mau humor. Ainda que o sorriso tivesse ficado pendurado em seus lábios, ela assumiu uma postura mais ereta e me olhou com veracidade.
— Eu queria ter mais para dizer, amiga.
— Se é que existe algo a mais para dizer, — respondi, mordendo o lábio inferior. Meus olhos se perderam em lembranças misturas de mim e de e, então, de mim e de , e no meio de tudo surgiu Helena.
— Talvez existam coisas demais — ela sugeriu.
Suspirei, me sentindo um pouco derrotada.
— É, talvez existam coisas demais.

¹Canção do grupo musical Sleeping At last.
²Trechos da música “Venus” traduzidos para o português.
³Universidade Federal do Rio de Janeiro.




Capítulo V - The broken hearts club¹

“Somos os mais novos membros
do clube dos corações partidos.
Ainda nos sentimos sozinhos e
desejemos que fosse diferente, mas
somos os mais novos membros
do clube dos corações partidos²”



— Mãe, foi muito legal! Eu aprendi a virar estralinha, você quer ver? — Hels conversava comigo animadamente do banco de trás do carro. Estávamos paradas em um engarrafamento usual para nosso caminho para casa. Helena estava tão animada que parecia inquieta de ter de permanecer sentada. Seus cabelos - que quando a deixei estavam soltos - se encontravam presos em um rabo de cavalo, que, de acordo com Hels, fora feito pela sua “prof. preferida”. Suas maçãs do rosto estavam vermelhas e algumas gotículas de suor ainda percorriam sua testa e sua nuca.
— Claro que sim, meu amor! Você aprendeu a virar o que mesmo?
Estralinha, mãe — o tom usado por minha filha foi de obviedade e eu reprimi um sorriso.
— Se fala “estrelinha”, filha.
— Es… Estrelinha — ela repetiu, se acostumando com a nova palavra. — Eu aprendi a virar estrelinha, mãe!
Hels era muito perfeccionista em praticamente tudo que fazia. E, agora, como estava aprendendo a ler, Helena estava dez vezes mais rígida consigo mesma para falar tudo certo. Assim que começamos a andar lentamente - e eu sabia que demoraríamos muito mais do que eu planejava -, pedi à Hels para que brincássemos de um de seus jogos preferidos: leitura em movimento.
Nós íamos andando e, conforme ela enxergasse placas, outdoors, vitrines, com palavras, deveria tentar lê-las para mim. Era um jeito, pelo menos, de tentar distraí-la do tédio do trânsito.
Divertimo-nos muito até chegarmos em casa e ela esqueceu por algum tempo sua inquietação. Estacionei o carro na garagem do condomínio e caminhamos juntas até a entrada de nosso prédio. Eu carregava sua mochila em uma de minhas mãos e segurava a mão pequena de Hels na outra.
Mal tive tempo para abrir um espaço suficientemente grande para que ela passasse pela porta; Helena se espremeu pela fresta e correu em direção ao tapete da sala.
— Posso mostrar, mãe? Você ‘tá olhando? Fica olhando, tá, mãe?!
Fechei a porta atrás de mim e larguei sua mochila em cima da mesa, a fim de olhá-la com toda a atenção do mundo. E lá se foi minha filha em uma cambalhota desengonçada, que eu prontamente aplaudi com muito louvor.
— Uau! Eu tenho uma ginasta em casa! — fui em sua direção enquanto proferia tais palavras. Com uma expressão de surpresa e admiração, sentei ao seu lado no tapete da sala ao passo que tirei minhas sandálias.
— O que é ginasta? — Hels perguntou, franzindo as sobrancelhas e curvando os lábios. Sua expressão lembrou-me ligeiramente de , o que era comum em nossa rotina. Helena era uma cópia - talvez a mistura perfeita de nós dois - de , em todos os seus jeitos e suas manias. Respirei fundo para não deixar-me abater.
Minha filha continuava me encarando com os olhos esbugalhados de dúvida, como se o fato de ainda existir uma palavra que ela não conhecesse a irritasse profundamente.
— Ginasta é uma pessoa que faz ginástica, como você acabou de fazer. Geralmente, com muitas piruetas e estralinhas — falei o termo para provocá-la e Hels enrugou sua testa em um segundo.
— É estrelinha, mãe.
Soltei uma risada e a abracei, pegando-a em meu colo para fazer cosquinhas em sua barriga. Helena gargalhava e pedia para eu parar, mas eu sabia que ela estava se divertindo. Os fios dourados de seu cabelo se espalhavam pelo seu rosto e o sorriso que ela direcionava a mim fazia meu peito se aquecer. Hels era meu maior motivo de orgulho.
Fui parando com as cócegas e minha filha se sentou, ainda rindo, enquanto recuperava o ar.
— Filha, você lembra o que tínhamos combinado para hoje? — perguntei. O sorriso que recebi em resposta já entregou uma afirmativa.
— Noite de pizza! — Helena exclamou em um tom alto e animado, enquanto bateu algumas palmas de empolgação. A convidei para ir pro banho, a fim de arrumarmo-nos antes de chegar para irmos ao supermercado. Hels geralmente enrolava o máximo que podia para banhar-se, entretanto, com a simples menção da palavra “mercado”, a menina praticamente correu em direção ao banheiro.

Nós duas estávamos sentadas na mesa da sala, Hels tentava ler um de seus livros da Patrulha Canina e eu terminava a revisão de mais um artigo para publicar na Revista Saúde em Foco. E lá estava eu, mais uma vez, tentando provar à sociedade os malefícios do consumo de anticoncepcionais com hormônios.
Mami? — Helena me chamou com a voz mansa, sem retirar os olhos do livro.
— O que foi, meu amor?
— Quem você quer ser da Patlulha… Patlu… Patrulha? Não pode escolher o Ryder.
Pensei por alguns segundos, o tempo suficiente para que Hels tirasse os olhos das páginas coloridas e olhasse para mim curiosa.
— Hum… O Chase?
— Pode ser — Hels respondeu —, eu sabia que você escolheria ele. Eu vou ser a Skye, porque não tenho medo de altura. Vamos voar para o céu! — ela continuou sua fala animada, finalizando com as palavras comumente ditas pela personagem escolhida.
— E a dinda ? — perguntei — Quem ela vai ser?
— O Rubble, claro, né, mãe! — Helena rolou as pequenas bolotinhas azuis que tinha em seus olhos, como se aquela fosse a pergunta mais óbvia do mundo.
— Por quê?
— Ela tem cara de braba, igualzinho a ele! — rindo, continuou a explicação — Mas é só a cara, né, mãe?
Concordei com um aceno de cabeça e sorri em sua direção. Hels olhou para o livro mais uma vez e, então, para mim; seu rosto assumiu uma feição mais séria, ainda que o brilho sonhador e feliz tivesse permanecido em seu olhar.
— O papai vai ser o Zuma, porque ele adora salvar vidas, igual ao meu pai. Mami, você acha que o papai tem aquele barco do Zuma? Porque, se ele tiver, nós vamos poder andar juntos nele, né? A gente pode usar aquele colete engraçado — Hels levantou da cadeira e ficou de pé em minha frente, sorrindo de suas palavras —, preparar, apontar, se molhar!
Ela fez alguns gestos engraçados e imitou a voz do labrador do desenho a que se referia enquanto proferia seu bordão. Meu coração ainda estava apertado pela menção de e eu prendia a parte interna da bochecha com os dentes. A força aplicada fez com que a dor desviasse a atenção do choro preso em minha garganta. Sorri da melhor forma que pude para Helena, ao passo que a observei rodopiar pela sala, cantarolando planos relacionados a andar de barco com .
Suspirei.
— Mãe?
— Sim, minha florzinha.
— Você acha que o papai vai querer andar de barco comigo?
Engolir as lágrimas. Encontrar uma forma de fazer o ar passar pela minha traqueia mesmo com o imenso nó que havia se formado ali. Engolir as lágrimas.
— Eu acho que… Acho que ele vai amar andar de barco com você.
O sorriso de Helena iluminou a sala por completo e meu coração se aqueceu - em contraste com a dor provocada pelo choro contido -, por lembrar que, agora, essa ideia era realmente uma possibilidade. Olhei na direção de meu computador, que estava em cima da mesa, tentando calcular quantos minutos eu levaria para terminar a revisão das considerações finais de meu artigo. Entretanto, no mesmo momento, recebi um SMS de , avisando-me que nos esperava do lado de fora do condomínio. Convidei Hels para irmos e ela correu em direção à porta, em meio a pequenos saltos e uma euforia.
— Boa noite, senhor Rodrigo! — cumprimentei o porteiro enquanto eu e Helena atravessávamos o portão de pedestres. Recebi um boa noite amigável de volta e apertei levemente mais forte a mão de Hels para que ela lhe respondesse a saudação.
Caminhamos até o carro de , que nos esperava com as duas portas abertas, tanto a do caroneiro quanto a do banco de trás.
— Oi, meninas — ele nos recebeu feliz, intercalando seu olhar entre mim e Helena. — Como vocês estão cheirosas!
— Oi tio — Hels respondeu enquanto colocava o sinto de segurança —, a gente tomou banho, né, mami?
Ri baixinho da simplicidade de minha filha e concordei com suas palavras, finalmente direcionando meu olhar a . Trocamos um breve olhar, antes de ele engatar a primeira marcha e arrancar o carro rumo ao supermercado. Hels começou a falar sobre o que deveríamos comprar para a noite da pizza, tradição que havíamos criado na primeira noite em que jantamos os três juntos.
Para Helena, era apenas um amigo meu, assim como . Um melhor amigo meu. Ela o chamava de tio - às vezes, até confundia-se e o chamava de “dindo” - e se divertia com sua presença. fazia de tudo para que Hels se sentisse confortável e animada, sempre estimulando suas brincadeiras e a entretendo com novas piadas.
Ainda que não parecesse se importar com as inúmeras menções ao pai que Helena fazia, eu não conseguia imaginar a reação que ele teria quando eu contasse que estava de volta. Eu nem mesmo sabia como contar. Eu sabia, sim, que isso afetaria tudo; que mudaria tudo. Sabia que eu e não havíamos tido um “fim” e, sinceramente, sentia-me completamente distante de qualquer possibilidade de ele acontecer. Contudo, eu também sabia que tinha razão ao dizer que, entre mim e , não se encaixava. O que martelava em meu cérebro e fazia meu coração se contorcer confuso era que a opção mais correta poderia ser, na verdade, não se encaixando entre mim e . E era exatamente isso que me deixava sem palavras para . Como terminar algo que estava apenas começando? Algo que não tinha rótulo, mas tinha história, perspectiva e felicidade?
Fui obrigada a controlar o rumo de meus pensamentos quando senti aquele conhecido “frio na espinha”, causado pela ansiedade em demasia. Procurei focar na voz suave de Helena.
— E queijo, vamos precisar de muuuuuuuuito queijo!
e eu rimos da forma exagerada com a qual ela pronunciou a palavra “muito”. Novamente, senti um olhar rápido de em minha direção. No entanto, fingi não perceber e virei o rosto para Hels:
— Filha, então vamos recapitular: queijo e o que mais?
— Vamos o quê? — ela perguntou, contorcendo seus lábios e fazendo uma careta de desaprovação.
— Recapitular — eu disse devagar, tentando fazer com a palavra saísse o menos complicada possível. — Quer dizer “lembrar” o que foi dito — fiz sinais de aspas com os dedos.
Hels pareceu assimilar o que eu estava dizendo e fez a mesma expressão que fazia sempre que ouvia uma nova palavra: rolou os olhos para cima, como se estivesse fazendo algum tipo de nota em um dicionário mental. Seus lábios pareceram murmurar a nova palavra.
— Eu me lembro de ter ouvido a palavra tomate — disse e sorriu, olhando na direção de Hels pelo retrovisor. A pizza preferida de Helena era marguerita; seu rosto iluminou-se em um segundo e ela recomeçou.
— Podemos fazer bordas recheadas? Por favor, por favor, por favor!
Fomos nos divertindo e montando o cardápio até chegarmos ao estacionamento do supermercado. Desci do carro para abrir a porta para minha filha, mas agora ela estava em uma onda “independente” e praticamente não precisava mais de minha ajuda para nada. Tão independente, que pegou um dos carrinhos pequenos para crianças e saiu andando alguns passos em nossa frente.
Combinei com Helena que ela poderia fazer as suas compras e que nos encontraríamos na hora do caixa. sabia que eu e ele estaríamos seguindo os passos de Hels, mas deixei que ela acreditasse que sua independência havia chegado ao ápice.
— Então… — ele disse assim que Helena se afastou. — Está tudo bem?
Suspirei, sentindo-me sem saída.
E quando fui falar, suspirei mais uma vez. Eu estava sem saída.
— Não sei o que fazer. Se te falo agora, sei que você vai ficar chocado e, se não te falo, vai ficar angustiado até que possamos conversar — desabafei.
Os olhos atentos de indicavam que ele estava segurando-se ao máximo para não surtar. Uma pequena ruga marcava a metade exata de sua testa e indicava uma curiosidade exacerbada.
— Não vou surtar se quiser conversar depois, posso esperar — ele disse, mas seu tom não era convincente. Levantei uma de minhas sobrancelhas e olhei em sua direção. — Mas se você quiser conversar agora, não vou ficar chocado, eu juro!
Sorri e voltei a olhar para Hels caminhando em nossa frente. Suspirei mais uma vez.
— Eu prefiro conversar depois.
Dei de ombros enquanto mordia o lábio inferior, contendo o quarto suspiro que sairia em menos de cinco minutos. Todavia, senti meu corpo inteiro estremecer quando a mão de encobriu a minha, que repousava na barra do carrinho. Seus dedos quentes agarraram os meus, tão diferentes dos dedos gelados e suados do . Odiei-me por meio segundo pela comparação, mas não pude freiá-la: a mão de era maior, mais forte; ao passo que tinha dedos delicados, de pele lisa e suave. Ontem, a mão de estava gélida e assustada, traduzindo os sentimentos de nossos corações; hoje, a mão de era quente e aconchegante, assim como seu corpo inteiro desde o primeiro momento em que havíamos estado juntos. A mão de encaixava-se perfeitamente com a minha, construindo a simetria sem falhas que irradiava de nossos corpos. A mão de , entretanto, deixava que meu minguinho escorregasse para fora, como se dissesse que parte de mim nunca estaria inteiramente presente para ele. A confusão se intensificou quando a lembrança de um dos nossos primeiro encontros ecoou em meu cérebro.

— Eu não… Não estou procurando um namorado — eu disse de repente. Sentindo culpa por estar me divertindo com outra pessoa e, acima de tudo, sentindo a confusão criada pelo vinho que agora percorria minhas veias. sorriu sem graça em minha direção.
— Não procuro uma namorada também — ele respondeu simples e eu o olhei com curiosidade. Ainda que um sorriso constrangido perdurasse em sua face, seus olhos me diziam que havia muito mais dor do que motivos para sorrir.
— Está machucado? — eu perguntei, quase sibilando as palavras. olhou profundamente em meus olhos e eu mantive nosso encontro.
— Muito — ele me disse. Sua voz estava mais rouca do que nunca e soava dolorida. Seus olhos me diziam a verdade e, em questão de segundos, eu estava enxergando o meu próprio reflexo em seu olhar: um coração partido. — E você?
— Também — respondi.
Ainda nos olhávamos, tão sérios quanto os assuntos que nos doíam por dentro. foi o primeiro a desviar, seus olhos seguiram para a taça de vinho em sua frente e ele a segurou com as pontas dos dedos.
— Aos machucados, então — disse-me, sorrindo fracamente e estendendo em minha direção sua taça.
Mordi meu lábio inferior para reprimir a vontade de rir que senti e brindei com ele.
— Aos machucados.

? — ouvi sua voz em um tom suave e focalizei seus olhos. Sua expressão denotava confusão e um pouco de dúvida e preocupação.
— Ah, sim, oi. Me distraí.
já havia soltado minha mão e estava contornando o carrinho para pegar algumas massas de pizza na prateleira.
— Eu disse que estou do seu lado nessa.
— Teoricamente, você está na minha frente agora.
sorriu para mim e eu coloquei as pizzas dentro do carrinho, antes de virar-me, a fim de localizar Helena. Ela estava parada em frente à prateleira de iogurtes, apoiando as duas mãos na cintura e balançando levemente o pé direito; de forma a indicar que debatia internamente sobre o sabor que teríamos para o café da manhã da semana.
Suspirei mais uma vez, enquanto mirava minha filha. Desviei o olhar para o chão, tentando evitar qualquer pensamento que surgisse em minha cabeça.
— Como foi seu dia, ? — perguntei.
E, então, essa foi a vez de suspirar.
— Bom — ele respondeu completamente sem convicção e eu, em resposta, o olhei com uma das sobrancelhas arqueadas. — Quase bom, pra ser sincero.
Permiti que um protótipo de sorriso se formasse em meus lábios e o indaguei o motivo.
— Você lembra de um cliente russo que mencionei? Ele veio atrás de um book para o casamento…
— Acho que lembro — falei assentindo com a cabeça, como se eu quisesse encorajar a continuar a história.
— Acontece que o cara é um pé no saco. Basicamente, estamos no quinto ensaio fotográfico, porque nenhum até agora foi bom o bastante. Hoje, eu e o Sam passamos a tarde inteira sob o sol, nesse calor, tentando encontrar, pelo menos, um cenário que o agrade — bufou, revirando os olhos, explicitando o quanto a situação o desagradava.
— Esses são os contras de ser o melhor fotógrafo do mundo — respondi enquanto empurrávamos o caminho em direção à sessão de hortifruti. — Você não construiu sua reputação em cima de clientes fáceis, não foi?
soltou uma risada um pouco frustrada, dando a entender que concordava comigo, mesmo que o fato de estarmos em concordância não mudasse absolutamente nada em sua frustração.
— E o seu dia? Chegou a terminar a revisão, ?
Formei um biquinho com os lábios e pensei por um momento.
— Foi bom, acho. Dentro das expectativas, que eram baixas. Passei a manhã na farmácia e busquei Hels depois do almoço para levá-la à escola.
, dona Carmen ou Marta? — perguntou, referindo-se às possibilidades que Helena tinha para dormir fora de casa.
— respondi. — À tarde, tive uma reunião com o Skeeter sobre a não sincronização da ovulação com o espessamento do endométrio e a melhor forma de defender nosso anticoncepcional sem hormônios; mas seguimos procurando. Sabe como a comunidade médica tem preconceito, né?
assentiu.
— Sobre a revisão — continuei, — não terminei.
E, então rimos.
— Qual é, , faz uma semana já! Isso, pra mim, é autossabotagem. O artigo está ótimo, você está com medo, isso sim.
Levantei as mãos em rendição, ao passo em que comecei a rir.
— Você está me perguntando se eu tenho medo de publicar um artigo em uma das maiores revistas do Rio, contrariando a maior parte da comunidade acadêmica? Pois é, eu tenho um pouco.
Ele parou de rir e olhou-me sério, paramos até mesmo de andar com o carrinho.
— Não há necessidade. Você é a pessoa mais inteligente que já cruzou pelo planeta, . E outra, faz muito tempo que a medicina precisa se reinventar, você está sendo, tipo, Einstein do século vinte e um.
— Eu prefiro ser a Mary Fairfax Somerville³ do século vinte e um — respondi, dando de ombros.
riu de minha fala e concordou com a cabeça. Seguimos pelo supermercado até estarmos com o carrinho repleto de tudo que nos seria necessário para uma noite divertida de pizzas. Encontramos com Hels - isto é, diminuímos a distância que mantivemos dela a ponto de estarmos perto o suficiente para checar suas compras - e surpreendemo-nos com os itens escolhidos. Helena tinha em seu carrinho um iogurte grande de morango, um pacote de salgadinho Ruffles, um cacho de bananas e quatro barras de chocolate.
— Filha, quanto chocolate, o que é isso tudo? — perguntei, com as sobrancelhas levemente levantadas e um tom curioso marcando minha fala.
Mami, eu aprendi na escola hoje que chocolate é feito de cacau e cacau é uma fruta, sabia? Eu vou levar muito chocolate no dia da fruta amanhã!
Eu fiz força para segurar a risada. Ouvi um som abafado vindo de e olhei em sua direção, sorrindo. Seu olhar praticamente gritava que ele não iria me ajudar nessa.
— Hels… — comecei, ainda reprimindo uma forte risada — Hum… Chocolate é, sim, feito de cacau, mas tem muitas outras coisas além da fruta. Por acaso, você levaria um bolo de laranja no dia da fruta? Ao invés da laranja?
Eu pude ver um lapso de decepção cruzar o olhar de Helena.
— E se fizermos assim — continuei, mais animada —, vamos escolher uma barra de chocolate; você pode escolher a que gostar mais. E amanhã de manhã, eu e você vamos naquela feira do Mercado Municipal para procurarmos cacau de verdade, o que acha?
— Cacau de verdade? — ela repetiu, e a emoção voltou a habitar seu olhar — Eu vou poder levar cacau na aula?
— Claro que sim, meu amor! Lembra de quando levamos graviola? — perguntei, rindo e minha filha assentiu. Eu e Hels tínhamos uma espécie de ritual com o dia da fruta da escola; depois que encontramos uma tenda de frutas exóticas no Mercadão, sempre íamos lá no dia anterior e escolhíamos frutas completamente diferentes daquelas que habitavam nosso dia-a-dia: frutas do norte, do sul, de outros países… Ela fazia o maior sucesso na turma.


— Mãe, você começa — Hels dizia. Já havíamos jantado e Helena já estava de banho tomado e com os dentes escovados, usando um de seus pijamas de girafas. Estávamos os três sentados no chão da sala, em cima do tapete fofinho. Todos sem sapatos, Hels em pé e eu e sentados.
Assenti para minha filha, sorrindo com sua empolgação. Ela queria encenar para nossa apresentação imitando o Mike Wazowski, em Monstros S.A.
— Pom, pom, pom, pom — eu comecei a cantarolar, da mesma forma em que o Sulley fazia no filme.
— Manda esse treco de volta se não o bicho pega — Hels tentava pronunciar as palavras, enquanto segurava um possível ataque de riso. Ela balançava as pernas e os braços e rodopiava pelo tapete. — Manda esse treco de volta se não o bicho pega!
soltou uma risada genuína e nós a aplaudimos com felicidade. Helena fez uma reverência que ela havia aprendido nas aulas de ballet que frequentara no ano passado. Eu podia ver que ela estava com sono, mas que não queria dizer, porque, como sempre, queria permanecer junto a o máximo que pudesse. Sentamo-nos, então, no sofá para assistir a algum episódio de Patrulha Canina e, em questão de minutos, Hels adormeceu com a cabeça em meu colo e os pés em cima das pernas de . Levei-a com cuidado para o seu quarto, colocando-a na cama e a cobrindo com o lençol que combinava com seu pijama. Fechei a porta de seu quarto com calma, garantindo que o barulho não a acordasse.
Voltei em passos leves para a sala, sentindo um nó se formar em minha garganta. Com o coração acelerado, sentei-me no sofá novamente, dessa vez muito mais perto de .
Em outra ocasião, comentaríamos sobre o quanto Helena é divertida e desinibida e sobre o quanto ela é talentosa e inteligente. Passaríamos longos minutos procurando algum filme para ver, até desistirmos da TV e iniciarmos alguma conversa sobre um dos clientes de ou sobre minha pesquisa ou sobre a farmácia. Nos beijaríamos por longos minutos, trocaríamos carinho e esqueceríamos da correria que era nossa vida.
Em qualquer outra ocasião, sim. Hoje, no entanto, não.
Ele me encarava sério, com os olhos aflitos e curiosos. Eu o encarava sem coragem, com os olhos assustados e ansiosos.
— Então, … — comecei — Imagino que você ainda queira saber.
riu, ainda que eu pudesse perceber que ele não estava, de fato, achando graça.
— Claro que sim, .
Respirei fundo, procurando retirar de algum lugar a coragem que me faltava. Ou apenas encontrar as palavras certas; as mais apropriadas.
— Eu não sei, realmente não sei como falar, como contar. Vou dizer de uma vez e você vai respirar junto comigo. É chocante e… Chocante. Não sei se consigo encontrar outra palavra. Enfim, eu estou enrolando… O… O voltou.
Chocante era, sem dúvidas, a melhor palavra. Eu entrei em choque ao receber a ligação de Marta, minhas pernas amoleceram e minha visão escureceu completamente. havia entrado em choque, cuspido seu chá e se engasgado. , entretanto, havia entrado em choque ao não esboçar reação nenhuma. Nem mesmo um milímetro de seu rosto se mexeu.
Permanecemos em completo silêncio por um bom tempo. Talvez porque a volta de nos expusesse às vísceras de nosso estranho relacionamento e nos obrigasse a rotular; ou, ao menos, a conversar sobre o assunto. Ou, ainda, talvez por que a notícia era simplesmente capaz de chocar por si só.
— O voltou — repetiu em um murmúrio confuso. — Uau! Isso é… Uau! Realmente, chocante. Boas notícias, não é?
Ele parecia fazer esforço para assimilar e eu fazia esforço para não chorar ou gritar ou sair correndo. Eu fazia esforço até mesmo para lembrar de respirar.
— Eu vi ele ontem — contei e tudo ao nosso redor ficou, pelo menos, umas três vezes mais estranho. Cocei a garganta — Marta me ligou para contar e me convidou para um pequeno jantar de boas vindas e, pois é, ele estava lá. Estava lá de verdade; vivo.
— Imagino que você tenha contado sobre a Helena…
— Contei e ele surtou. Bom, não que eu esperasse outra reação, eu só… Ele surtou de susto primeiro e depois de felicidade. Eu não sei… Eu não faço ideia de como as coisas… De como vai ser com a Helena, com a gente. Eu me sinto… Pois é, eu acho que a gente deveria conversar sobre… Sobre… Nós.
Eu falei tudo tão rápido e de maneira tão embolada que a única palavra passível de entendimento foi “nós” e ela flutuou pesada pelo espaço. Quando nos conhecemos, não mensuramos a proporção de uma relação em nenhum momento; costumávamos brincar que éramos nossa própria sala de espera, como se fôssemos apenas uma etapa de um longo caminho. Ambos tão quebrados, dispostos a se reconstruir, mas não a substituir o motivo um do outro. havia saído traumatizado de um casamento conturbado que durara oito anos; sua esposa, portadora de Transtorno Bipolar, recusava-se a assinar os papéis de divórcio e fugia, escondia-se pelo mundo há meses quando o conheci. Eu havia saído traumatizada de um relacionamento sem fim, com rompimento abrupto e aguardava um desfecho ao meu coração, um desfecho para Hels. Nós não mensuramos a proporção e muito menos o impacto de construir uma relação. Pelo menos, não até ela estar completamente ameaçada pelo retorno de .
Fechei os olhos com força. Abri-os novamente, esperando encontrar uma nova realidade.
? — me chamou. Seu tom era firme e seguro, diferente do que o que eu estava acostumada a receber. Assenti e apertei meus lábios um contra o outro. Podia sentir o suor se formando nas palmas de minhas mãos e meu coração acelerado era perceptível para o homem a minha frente. Sentia-me esmagada em meio ao caos, ainda que a sala estivesse completamente silenciosa.
— Eu não vou a lugar algum, ficarei aqui com você. Por você.
— Não posso te pedir isso — respondi, com a voz falha e os olhos molhados. — Não posso pedir para que fique; não tenho como garantir um reembolso para essa passagem perdida.
A menção de nossa brincadeira boba fez com que o rosto de se contorcesse em uma careta simples.
— Não preciso da sua garantia e nem a quero. Vou ficar.
— Por quê? — perguntei, forçando uma sobrancelha contra a outra em confusão.
tocou em meu rosto e me fazer olhá-lo. Sentia minha pele quente sob seus dedos e mirar seus olhos fez com que a lágrima que eu segurava finalmente percorresse seu caminho pela minha bochecha até chegar em meu queixo. A maneira intensa como encarava-me fez minha respiração falhar.
— Não responda — eu supliquei e ele sorriu.
— Vou ficar, porque eu te amo.
E naquele momento, eu só consegui pensar em quanto eu odiava ser responsável. Ou em quanto eu odiava o compromisso ético que tinha comigo mesma. Eu apenas quis sair correndo e gritando e chorando e pedir a todos que deixassem-me em paz. No entanto, assim como quando Helena nasceu, engoli em seco o caos formando em meu coração; controlei minhas pernas para que não saíssem dali e não pedi nada. Envolvi a mão de que segurava meu rosto e a retirei dali, segurando-a em meu colo.
— Não quero que diga nada — ele disse, antecipando qualquer palavra minha. — Não se preocupe com isso, eu apenas queria que você soubesse. Eu não vou a lugar nenhum, não agora e não sem você pedir.
Assenti.
De repente, um lapso de memória cruzou minha imaginação e eu suspirei, sem saída.
, você lembra o que minha mãe disse quando o conheceu? — murmurei.
— Disse que era para eu te dar um bom sexo — ele sussurrou a última palavra. Soltei um breve sorriso, antes de morder a parte interna de minhas bochechas.
— Era o que eu podia oferecer na época — confessei em meio a um suspiro e —, e é o que posso oferecer atualmente. Não… Não posso, não estou preparada para… Para te amar como deveria. Preciso que saiba disso.
— Sei disso, . Sei e assumo as consequências. Não tenho medo de me arriscar pelo amor.
Alguns segundos se passaram e então, naquele momento, tomamos uma decisão difícil, que custaria uma cota de sentimentos para nós dois, que desafiaria e que adiaria nosso fim. Uma decisão incerta e sem futuro, mas com coragem e cumplicidade. Para selar nosso acordo implícito, levei a mão de que eu segurava até meu rosto e a beijei. Ele repetiu o ato, beijando minha mão e sorrimos, de alguma forma, um para o outro.


¹Canção do cantor Gnash.
²Trechos da música “the broken hearts club” traduzidos para o português.
³Importante cientista escocesa do século XIX, que realizou experimentos na área do magnetismo, responsabilizando-se pela publicação do artigo “As propriedades Magnéticas dos Raios Violetas do Espectro Solar”.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.


Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script.
Qualquer erro no layoult ou no script dessa fanfic, somente no e-mail.


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