Finalizada em: 16/01/2018
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1


Era a primeira vez que eu subiria ao palco completamente sóbria, mas já que ninguém tinha a coragem de ir primeiro que eu, que já sou quase patrimônio desse lugar, vamos lá.
A noite de karaokê hoje estava cheia, sempre estava, mas hoje parecia um dia anormal. Escolhi minha música e me posicionei no palco, sem beber parecia triste estar ali. Não parecia divertido e a vergonha me consumia inevitavelmente. Parei em frente ao pedestal e liguei o microfone enquanto ouvia a introdução de Total Eclipse Of The Heart começar, já que era pra ser a primeira, que fosse memorável.
Comecei a música com aplausos e logo na primeira nota os bêbados de plantão pareciam se animar, mesmo que aquela música não fosse nem um pouco animada. Mantinha meus olhos fixos na parede do fundo do bar e seguia a música com o coração, já que aquela parecia gravada em mim, por mais triste e bobo que isso parecesse.
Me identificava com a parte solitária daquela música, apesar de não acreditar que precisasse de ninguém já que nunca realmente alguém tinha passado pela minha vida e deixado sua marca. Minha vida se resumia em trabalhar a semana toda, e, às vezes aos fins de semana, ou nos dias em que não trabalhava ir ali, para aquele karaokê descontar minha frustração de vários dias. Já conhecia todos aqueles funcionários e todos já sabiam minha vida.
Não que eu sentasse no bar, gastasse todo meu salário em bebidas e ficasse resmungando... Só algumas vezes.
Quando a música terminou fui aplaudida e sorri envergonhada, deixando o palco e vendo uma senhora escolher I Will Always Love You e subir ao palco apontando para o marido que estava sentado na primeira mesa. Eles trocaram um olhar e sorrisos sinceros, algo extremamente fofo. Fiquei um tempo os observando e pude ver que ele parecia rir internamente enquanto ela tentava atingir notas altas e praticamente se engasgava, mas apenas levantava a mão e a apoiava.
Eles pareciam se divertir e fiquei imaginando se um dia teria algo assim.
Me sentei no bar e pedi um Martini para começar a noite. Eric, o barman, me cumprimentou e parabenizou pela música antes de preparar meu drink.
Fiquei sentada observando o ambiente enquanto minha bebida não chegava e pude notar muitas pessoas novas ali, mais do que havia percebido antes. Haviam grupinhos novos e também novos solitários, e haviam também os caras estranhos que me encaravam. Eric trouxe meu drink e quando me virei para pegá-lo esbarrei na taça e a derrubei, molhando tudo a minha volta, mas salvando meu vestido. Vi Meredith, uma senhora muito simpática que trabalhava nas noites dali para sustentar a família, rapidamente alcançar o lugar para limpá-lo. Antes que pudesse me prontificar a ajudá-la, senti uma mão tocar meu ombro.
- Está tudo bem? – me virei para encará-lo e pude ver aqueles olhos tão conhecidos pelo final de minha adolescência.
- ?
- , por favor – ele abaixou o tom de voz e sorriu torto em minha direção – uma fã? Pois tenho que dizer que o sentimento é mútuo... Que voz maravilhosa você tem. Mas estou em desvantagem, qual o seu nome?
- , mas pode chamar de . – sorri para ele enquanto sentia minhas mãos tremerem.
Muitas cenas começaram a surgir em minha mente, algumas letras de músicas, clipes, shows ao vivo, ele e o violão em acústicos, o dia em que pude conhecê-lo pessoalmente e tirar uma foto que está guardada até hoje... A febre e o desespero já haviam passado há algum tempo, mas era inevitável o sentimento que se alastrava em meu peito.
- Foi uma ótima escolha de música, . – ele se sentou no banco ao lado do qual eu estava encostada e pude perceber que Meredith já havia limpado e voltado para o que fazia anteriormente. apontou para o banco ao seu lado, indicando para que me sentasse. – Gosto muito dessa música, e Bonnie Tyler que me desculpe, gosto demais da sua voz cantando, é uma linda versão que fez com que me apaixonasse ainda mais por ela – sorri envergonhada, indecisa se deveria falar de seu trabalho ou não enquanto me lembrava do vídeo em que ele cantava aquela icônica música que ficava realmente boa na voz de poucos.
Foi com aquela música que ele havia sido lançado na mídia, um simples cover que lhe deu uma carreira. Isso fez com que eu me afeiçoasse na canção.
- Também gosto muito dela, e acredite, acho que minha versão preferida acaba de se tornar a sua. – ele piscou e se virou para o barman pedindo um refrigerante e questionando se eu queria algo, pedi apenas por uma água, pela primeira vez decidindo que seria melhor não ficar completamente bêbada. – você é cantora?
- Um hobbie, talvez, pra me distrair. – sacudi os ombros.
- Imaginei, você tem muito potencial. – ele sorriu olhando para o teto. – já pensou em correr atrás e tornar isso sua profissão? – balancei a cabeça repetidamente para dizer que não, e então percebi que nunca havia pensado nisso, mesmo sabendo que minha voz não era de todo ruim.
- Acho que o show business não é para mim.
- Não era para mim também, e mesmo assim eu estava lá. – o olhar parecia profundo, como se aquela conversa lhe deixasse pensativo. – sempre gostei muito quando jovem, mas chegou uma hora em que as coisas se tornaram repetitivas, agora prefiro me esconder na produção. – ele sacudiu os ombros e eu assenti, pois sabia que agora ele trabalhava internamente na gravadora, ainda que algumas vezes cantasse músicas novas e fizesse pequenos shows. – você conhece meu trabalho ou sou só um conhecido da mídia?
- Tenho uma foto com você na gaveta do meu criado mudo. – beberiquei minha água e me arrependi do que havia falado no momento em que vi gargalhar sem pudor algum.
- Então isso é a realização de um sonho, ou algo assim? – ele perguntou tentando parecer sério.
- Talvez... Você quer que eu comece a gritar e pedir fotos? – tirei o celular do bolso e apontei para ele com a lanterna ligada, ria descontroladamente e me fez abaixar o aparelho antes que chamássemos mais atenção do que já chamávamos.
- O que você faz da vida?
puxou conversa e em uma hora ele poderia contar minha vida de trás para frente, mas sempre que eu lhe perguntava algo, ele torcia o nariz.
- Por que você não me responde nada? – decidi questionar, pois já estava me irritando.
- Porque você provavelmente já sabe as respostas. – ele deu de ombros e sorriu triste. – estão em todos os lugares.
- Mas eu quero ouvir de você, até porque se eu fosse levar tudo da mídia a sério, eu estaria a uma distância bem grande porque sua namorada é ciumenta. – antes que eu pudesse continuar com minha reclamação ele me interrompeu.
- É falso. – falou animado. – não tem nada mais falso que a mídia divulgue que o meu namoro. Eu e Jenny somos muito amigos e sustentamos isso porque ficou cômodo, mas é falso. – arregalei os olhos e ele riu delicadamente. – você não tem ideia de como é bom poder falar isso pra alguém!
- Você não deveria sustentar algo porque ficou cômodo, isso não é normal.
- Essa vida de artista é maravilhosa , mas tem alguns pontos em que você tem que jogar, infelizmente. – ele olhou o relógio e sua boca formou um "O". – o tempo passou muito rápido, eu deveria ir.
- Você não vai nem cantar uma música? – sorri doce. – desculpa, tenho que fazer um pouco do meu papel de fã.
Ele se levantou rindo e andou em direção ao palco que estava vazio há algum tempo, o bar tocava música ambiente enquanto faltavam candidatos para performance. Ele conversou rapidamente com o responsável e se posicionou recebendo diversos olhares. Era possível ver que algumas pessoas o reconhecessem, mas muitos estavam bêbados demais para pensar naquilo.
A introdução de Dont You Want Me começou e eu fiquei apenas observando sua apresentação. Ele se divertia enquanto se fingia de bêbado e apontava para mim durante a canção, ele parecia tão diferente, tão natural. sempre foi lindo e sempre amei toda sua presença de palco, mas era tão incrível vê-lo ali sem a parte de ser inalcançável. Ele parecia só mais um em meio a tantos, alguém como eu.
desceu do palco e chegou em minha frente cheio de graça, me girando no lugar, como se fossemos conhecidos há muito tempo. Ele se aproximou e me abraçou, me fazendo fraquejar, surpresa com sua ação.
- Me dá seu número? – ele perguntou, pegando o celular. Afirmei com a cabeça e ele me entregou o telefone para que eu marcasse. – obrigado pela noite, . Vou te ligar para marcar algo, se você quiser – ele parecia com vergonha, o que me fez rir.
- Eu que agradeço, . Foi um prazer me divertir com você. – beijei sua bochecha e observei enquanto ele ia embora.


2


- Oi, ! - atendi meu telefone e antes que pudesse me questionar quanto à de quem seria aquele número, reconheci a voz que amei platonicamente por algum tempo.
Será que eu poderia me acostumar a ter como amigo?
- Oi, , que surpresa! – já se passavam três semanas desde o dia no bar, o dia em que ele pegara meu número e dissera que ligaria. Não estava esperando que ele realmente ligasse, achei que teria coisas muito melhores para fazer do que se lembrar de mim. Minha auto estima agradecia.
- Eu preciso falar com você, será que a gente pode se encontrar?
- Nossa, precisa?
- Sim, mas tem que ser pessoalmente! Pode ser no mesmo bar? Às dez? - estava saindo do trabalho, faltavam duas horas até as dez, dava tempo.
- Tudo bem, nos vemos lá!
Desligamos e me apressei no caminho para casa. Fiquei curiosa em relação ao modo como ele disse que precisava falar comigo, mas tentei não ficar ansiosa, senão apenas perderia mais tempo invés de me arrumar.

O bar ficava perto do meu apartamento, e me arrumei tão rápido que antes do horário já estava lá. Entrei cumprimentando todos os que conhecia dali, como sempre, e de longe avistei sentado no balcão, no mesmo lugar em que ficamos no dia em que nos conhecemos. Ele estava acompanhado de um rapaz que aparentava ter sua idade e eles conversavam animadamente quando me viu e acenou freneticamente.
- , como você está linda. – me fez corar quando segurou em minha mão e me fez girar no lugar. Ri nervosa e ele se virou para o colega. – Ed, essa é a , que eu falei. – o rapaz me cumprimentou com um aperto de mãos e eu não sabia como fugir dos olhares dos dois, porque havia falado de mim?
- Ouvi falar muito bem de você. – Ed piscou para mim e me mostrou um banco entre os dois, indicando para que eu me sentasse, perguntando se eu gostaria de beber algo em seguida.
Neguei, ficando um pouco assustada com toda aquela atenção.
- Agora vamos ao porquê te chamei aqui... Ed trabalha comigo, e eu comentei sobre você naquele dia que ficamos conversando aqui. Ele costuma ir a pubs para procurar talentos que nos interessem, mas acidentalmente eu vim parar aqui sem essa intenção e encontrei você em um karaokê. – ele sacudiu os ombros e me perdi um pouco na conversa, juntando os pedacinhos da história para tentar acreditar onde ele queria chegar.
- me falou muito bem de você, e disse que sua voz é incrível, e como confio nele, já que é crítico demais pra ver muito em pouca coisa, nós queríamos saber se você tem algum interesse em gravar uma demo.
- Como você disse que não pensava em fazer seriamente, eu não quis marcar uma reunião formal, só queria te encontrar e mostrar que o interesse é sério, e saber de você o que pensa. Sem pressão alguma, só acredito no seu potencial. – ele sorriu para mim e colocou a mão em meus ombros para dar suporte.
- Olha, eu nunca pensei nem um pouco a respeito disso, muito menos numa situação onde um dos poucos artistas que eu fui fanática estaria me convidando. – pareceu envergonhado com a referência.
- Você não precisa responder agora, você pode pensar, decidir se isso se encaixa na sua vida, se você seria feliz. – Ed falou como se pisasse em ovos, aparentemente ele e formavam uma ótima dupla, era possível vê-los completando as frases um do outro.
- Não me entendam mal, eu gosto muito de cantar, mas não sei se daria certo, não sou tão boa assim.
- Você não vai saber se não tentar, . – sorriu para mim, encorajando-me.
- Me falem um pouco mais sobre. – vi um brilho passar por seus olhos e eles começaram animadamente a me explicar.
Falaram sobre gravar a demo nos horários em que eu tivesse livre, independente dos horários, eles estariam disponíveis. Explicaram que tentariam divulgar aos poucos, revelar uma nova artista no estilo em que eu me sentisse mais confortável e a princípio cuidariam de tudo sozinhos, sem envolver terceiros com intenções maiores. Eles falaram sobre ainda não terem muita experiência, porém a influência e o entendimento a respeito do assunto os abriam portas sem fim.
– Eu prometo que vou pensar.
- Então é isso, pensa com carinho – Ed se levantou e fez o mesmo logo em seguida. – vamos?
- Pode ir, Ed. Vou ficar um pouco se a dama ainda quiser companhia. – apertou sua mão e Ed me cumprimentou com um aceno de cabeça, sem delongas, deixando o pub que começava a encher. Sorri para , agradecendo.
- Quer conversar sobre? – ele perguntou enquanto se sentava novamente ao meu lado.
- Sobre tudo menos isso. – falei de cabeça cheia e me virei para George, o barman do dia. – um licor, por favor. – ele assentiu e se virou para buscar. – Preciso me distrair um pouco, vai me acompanhar? – ele sorriu e pediu uma cerveja, dizendo que seria para esquentar.
Dessa vez, me falou mais sobre ele. Me contou sobre sua vida pessoal, coisas fora carreira, sobre família, amigos... Brincamos sobre desmentir coisas que eu sabia sobre a mídia e percebi que muito do que ele afirmava nem mesmo era verdade. Conheci uma garota na faculdade que pintou o quarto de azul porque era a cor preferida de , e agora estava rindo por descobrir que, na verdade, era roxo.
- Vamos dançar? – ele perguntou quando parecíamos bêbados, mas ainda mantínhamos a consciência.
- Vamos cantar? – apontei para o palco vazio, de onde saía uma moça que havia acabado de estourar nossos tímpanos cantando Spyce Girls.
riu sozinho e saiu correndo em minha frente para escolher a música. Subi no palco e ri quando reconheci a música escolhida.
Logo as caixas de som começaram a tocar Dont Go Breaking My Heart e na minha cabeça só passavam imagens da cena em Glee, comecei a rir e um dia talvez explicasse para o quanto aquela série havia me influenciado a cantar tanto em um karaokê para aliviar o estresse.
Eu e cantávamos em meio a risadas, ele parecia tão feliz que me fazia sentir despreocupada sobre tudo. me puxava, me girava, e passava o tempo todo tentando grudar em mim enquanto eu fugia, fazendo cena. Eu não conseguia olhar em seus olhos como sabia que ele fazia com os meus, ele tentava a todo custo me manter em sua visão, enquanto eu desviava, envergonhada.
Sei que ali já estávamos a um passo de uma amizade, ou que fosse apenas uma parceria musical em sua responsabilidade, sabia que teríamos um contato se eu aceitasse a proposta dele e de Ed, mas eu não conseguia deixar pra lá a ideia de que era o cara que eu passei anos gostando, o cara por quem me apaixonei fervorosamente mesmo que fosse platônico. Sei que eu deveria mudar essa visão, já que o homem que estava na foto, que não ficava mais em minha gaveta e sim em cima dela, nem mesmo parecia aquele ali comigo cantando.
Encerramos a música sob muitos aplausos e se agachou em minha frente me beijando o dorso da mão como um gesto de cavalheirismo. Ele se virou para todos e pediu mais aplausos para mim e eu saí do palco correndo, envergonhada.
- Você é incrível demais, . – ele passou a mão por meus cabelos quando me alcançou no bar. Sacudi a cabeça em negação e pedi algo forte para George, precisava esfriar mais ainda a cabeça. – Porque não acredita em mim?
- Não sei, , só me é estranho tudo isso que está acontecendo. Você pulou do artista na minha gaveta para um produtor me querendo como artista... Tem ideia do que é isso? – sorri para ele que entendeu que eu apenas estava nervosa com a proposta. Subir no palco com ele me fez notar o quanto gostava de estar ali cantando e como poderia fazer tudo isso o tempo todo sem problemas, por mais cansativo que fosse.
Mas e a mídia? Eu agüentaria a pressão? Agüentaria ser perseguida, perder minha liberdade, ver todos criando gostos e peculiaridades que não me pertenciam? Teria a coragem de deixar minha privacidade de lado? E se não desse certo e eu criasse expectativas em cima disso? Não sei...
- Você tem tempo pra pensar, . – foi então que percebi: Eu nem precisava pensar naquilo ainda. Era um teste, pra ver se daria certo, que mal poderia fazer?
Assenti para com um sorriso no rosto e continuamos a conversar até que nós dois estivéssemos completamente sem condições de manter um diálogo normal.
- Preciso ir embora, meio zonza, e cansada... – me apoiei nos ombros dele e senti que ele tentava segurar meu peso.
- Vou pedir um táxi para mim e peço que ele te deixe na sua casa, tudo bem? – afirmei com a cabeça sendo guiada para fora do pub e me despedindo dos funcionários. Estava sóbria ainda, mas as coisas pareciam mais engraçadas que o normal.
Entramos no táxi e dei meu endereço para o taxista, encostei minha cabeça no ombro de e ele acariciou minha mão, que se encontrava em seu colo, com o polegar.
Quando acordei, o táxi já estava parado em frente ao meu prédio e me sacudia.
- Vamos , te acompanho até lá em cima. – apenas afirmei com a cabeça, sonolenta, e vi pedindo para que o taxista o esperasse.
Morava no primeiro andar, então subimos apenas um lance de escadas e chegamos em frente ao meu apartamento. Virei-me de frente para e ele sorriu, acariciando minha bochecha com seus dedos. Aquele carinho parecia gostoso, mas engraçado, então fiz a última coisa que deveria e comecei a gargalhar desesperadamente deixando confuso, mas ele logo caiu na risada comigo.
- Você não existe, . – ele disse quando viu que eu havia recuperado o ar. Sorri para ele e deixei um beijo em sua bochecha, me virando para abrir a porta e entrar em meu apartamento. – obrigado pela companhia, mais uma vez. – ele deu um passo em direção às escadas novamente e eu segurei seu ombro.
- Eu quero tentar, tudo bem? – ele pareceu meio confuso, mas logo pareceu entender, ficando eufórico, mas parecendo um pouco receoso logo depois – eu estou sóbria, só um pouco estranha, mas sóbria. – sorri para ele.
- Amanhã te ligo pra confirmar se estava sóbria mesmo – ele se virou e desceu as escadas, acenando para mim.


3


Levantei assustada do sofá, ouvindo batidas na porta.
Eram dez horas da noite, não tinha como não ficar assustada se não esperava por ninguém. Olhei através do olho mágico e pude ver um eufórico batendo impacientemente na madeira que estava entre nós. Abri a porta e ele me tirou do chão em um abraço apertado.
- Você conseguiu, ! Eles querem você!
começou a girar comigo pelo apartamento, ele parecia mais feliz que o normal e isso era completamente engraçado. Não soube o que pensar quando ele disse “eles querem você”, me diverti muito gravando a demo com a equipe, a música era bem legal, mas nunca imaginei que realmente pudesse dar certo, tanto que foi por esse motivo que decidi gravar, eu realmente queria aquilo?
- Você não tá feliz? – perguntou quando me colocou no chão e percebeu meu olhar perdido. Me sentei no sofá com as pernas cruzadas e apontei para o lado pra que ele se sentasse também.
- Eu não sei, eu não imaginava que realmente pudesse dar certo. – sacudi os ombros. – Não pensei no que seria da minha vida se desse certo, porque achei que era algo muito absurdo... Eu não sou uma artista.
- , – ele segurou minha mão entre as suas. – você sobe no palco de um karaokê e dá um show pra todos ali, como você não é uma artista?
- Você me viu no palco duas vezes, . – rolei os olhos e ele riu balançando a cabeça negativamente.
- Eu vi o quanto você conhecia as pessoas ali, então decidi perguntar, e me contaram que você está ali há um bom tempo, sempre cantando, mesmo que fosse bêbada. – abaixei a cabeça, indignada, me lembraria de matar quem quer que tivesse dedurado. – Eu sei que tudo parece assustador, e você tem o direito de dizer não, mas se você topar, eu não vou te deixar por um segundo, eu vou te ajudar e te apoiar em tudo que você precisar fazer, vou me dedicar completamente à sua carreira até você se sentir segura de fazer tudo sozinha.
- Mas e a parte da mídia, ? Você mesmo disse que é assustador, eu não quero passar por isso.
- Mas lembra que eu disse que tem a parte boa também? O retorno que você tem dos fãs compensa por tudo. – ele apontou pra mim, como exemplo, e senti meu rosto corar.
- E se ninguém gostar de mim?
- Não tem como ninguém gostar de você, eu gosto. – ele sorriu e passou a mão em meus cabelos. – Quer que eu te explique como tudo vai acontecer? Até mesmo toda a parte burocrática? – afirmei com a cabeça. – Você confia em mim? É o primeiro passo.
Afirmei com a cabeça, mas por um segundo tive medo de estar me deixando levar por paixões do passado, sabia que em poucos encontros eu já conhecia aquele homem muito bem... Mas será que eu não estava me envolvendo em uma furada só porque era ali na minha frente?
começou a explicar que gravaríamos um vídeo e jogaríamos no youtube com muita divulgação em cima, pra ver qual era o retorno das pessoas. A música seria a da demo, e acreditávamos que seria um sucesso por conta da melancolia da letra, já que letras sobre amor não correspondido sempre atingem um grande público. disse que faria aparições comigo em alguns lugares para chamar atenção, se eu não me importasse, entendi que aquilo seria um bom marketing mas perguntei se não sairiam matérias tendenciosas sobre seu falso namoro, como ele estar traindo, ele apenas sacudiu os ombros e disse que já estava mesmo cansado dessa história, uma hora desmentiria por fim.
Ele me explicou como funcionaria questões de contrato e pagamentos e foi ali que comecei a perceber a dimensão da situação, a princípio já era muito dinheiro, e se tudo desse certo, triplicaria. percebeu que me assustei com essa parte e então me tranqüilizou dizendo que me ajudaria a administrar e me ensinaria como fazer as coisas e não se perder nesse meio.
- Quando isso começa? – perguntei, receosa.
- Assim que você assinar o contrato com a gravadora e deixar seu emprego. – afirmei mais uma vez sem dizer nada, ainda nem sabia como contar a minha chefe que deixaria o emprego pra me tornar uma artista, mas sabia que ficaria tudo bem. – agora... Cadê aquela foto que eu tanto quero ver? – ele sorriu procurando com os olhos pela sala.
- Ah , não quero que você me veja no meu momento fangirl!
- Por favor. – ele fez bico e eu levantei rindo e lhe apertando a bochecha antes de passar em direção ao quarto e pegar a foto de cima da cômoda. Levei até a sala e entreguei em sua mão.
- Não ri!
- Nossa, eu tô horrível nessa foto! Como você pode ter guardado isso, ? – ele parecia indignado. Na foto ele estava me abraçando por trás com a cabeça em meu ombro, eu usava uma camiseta com a frase de uma das suas músicas e ele apontava para essa camiseta. – será que todas as fotos das minhas fãs estão feias assim?
- Você não está feio, , para de graça, não venha desmerecer a foto do meu momento feliz. – rolei os olhos e ele se levantou rindo.
- Vou pegar uma coisa no carro, espera.
Depois de poucos minutos, ele entrou um pouco molhado no apartamento, já que chovia lá fora. Em sua mão carregava uma câmera polaroid, mas parecia incerto de se aproximar por estar molhado. Disse pra ele que tudo bem e ele se sentou novamente ao meu lado no sofá.
- Vamos tirar uma foto pro seu novo momento feliz. – ele posicionou a câmera e soltei um grunhido olhando pra ele e apontando para o meu rosto, querendo dizer que estava horrível para fotos, ele mostrou a língua e tirou a foto sem que eu olhasse para câmera. Estapeei seu ombro e ele puxou o papel que revelava a foto. Estava horrível, mas ele parecia ter gostado. – Agora eu tenho minha foto como seu primeiro fã. – ele estalou um beijo em minha bochecha e posicionou a câmera novamente.
Dessa vez, juntei meu rosto ao seu e senti seu cabelo molhado pingar em meu ombro. Me senti feliz naquele momento, e então sorri e pude ver me observar antes de fazer o mesmo e tirar a foto. Ele puxou o papel depois de alguns segundos e dessa vez me entregou.
- Agora você tem uma nova.
- Obrigada. – sorri para ele e coloquei a antiga e a nova na mesa de centro.
- Agora vou te deixar ter seu sono de beleza, aproveite a vida do anonimato enquanto pode. – ele se levantou e piscou para mim. – Te ligo assim que o contrato estiver pronto e tivermos tudo ajeitado para o vídeo. – assenti e ele me deu um meio abraço, andou em direção a porta e acenou para mim antes de fechá-la.
Fiquei algum tempo olhando as duas fotos e me perguntando como o mundo dele havia me encontrado, e como agora eu faria parte disso. Preocupações rondavam minha mente, mas eu me sentia segura ao seu lado. Sabia que se tudo desse certo, independente do que acontecesse, me daria forças pra continuar.


4


- Vocês já conhecem ela da internet, sem dúvida alguma, mas agora ela está aqui para fazer sua primeira apresentação ao vivo, minha amiga, . –Ouvi me apresentar e pude sentir meu corpo todo tremer, era a primeira vez que eu cantaria para as pessoas depois do contrato, e apesar de achar que estaria vazio, sabia que tinha pelo menos 300 pessoas ali. Muitas poderiam ser fãs de que vieram por conta da divulgação em suas redes sociais, mas ainda assim eram pessoas para somar.
O primeiro vídeo que fizemos havia atingido números muito altos de visualizações, eu não sabia como tudo estava acontecendo tão rápido, mas ali estava eu.
- Oi, pessoal. – acenei um pouco tímida e ouvi alguns gritos em resposta. – Obrigada por terem vindo, não me adaptei a tudo isso ainda. – apontei para os instrumentos e para a platéia. – Mas vamos lá.
Procurei por quem tocaria violão para mim, já que ainda estava aprendendo. Era um evento de uma grande rádio, e havia uma grande produção por trás de tudo, olhei para o corredor de onde tinha saído e comecei a me sentir nervosa porque não tinha ninguém em meu campo de visão, e me avisaram para me apresentar que alguém já subiria.
- Aparentemente tivemos um pequeno probleminha... – congelei em frente a todas aquelas pessoas, mas algumas tentavam me apoiar mesmo dali.
Notei a euforia no público e logo estava se sentando no banco um pouco atrás de mim com um violão em mãos. Olhei para ele sem entender e ele apenas deu de ombros sorrindo e sussurrando um "vai lá" apontando para o microfone.
Escutei os primeiros acordes e tentei parar de tremer. Dividia meu olhar entre e a platéia, ele me encorajava todo segundo e tê-lo ali do lado parecia decisivo. Ele me mostrava que eu podia, e desde o início me fazia tentar acreditar em mim mesma. Eu lhe devia tudo que já havia conquistado em tão pouco tempo, e tudo que ainda sabia que conquistaria, pois eu sabia que estava longe de acabar, eu já não conseguia ver um fim naquilo. Eu estava feliz.
- , você foi incrível. – me abraçou quando voltamos aos bastidores, sentia mãos passando por meus ombros, pessoas aplaudindo e me desejando parabéns e não sabia onde me esconder.
Esperava que algum dia aquela vergonha toda passasse, precisava passar.
- Obrigada, , por tudo – abracei-o e sussurrei em seu ouvido. Vi os pelos de sua nuca se eriçar, e deixei um carinho. Não tínhamos esse tipo de intimidade, éramos apenas amigos, mas pareceu certo.
- Eu que devia agradecer, vamos comemorar? – assenti com a cabeça e ele me puxou pela mão por entre as pessoas. Estávamos dispensados dali, e não acho que uma comemoração fosse má ideia, minhas pernas ainda pareciam amolecidas. – que tipo de comemoração você quer?
- Sinceramente? Preciso beber como não faço há algum tempo.
- Prefere um pub ou podemos ir pra minha casa e consumir tudo que tem no bar de lá? – me lembrei do bar que tinha em sua casa e optei rapidamente pela segunda opção - casa? – ele perguntou quando lhe mostrei o número dois com os dedos, já dentro do carro.
- Melhor, até porque é mais seguro, tanto em relação ao quanto estou precisando beber e a voltar pra casa, sempre tem alguém com uma câmera te procurando, principalmente agora que você está aparecendo novamente.
- E agora vão ter pessoas atrás de você também, não se esqueça. – ele piscou para mim enquanto ligava o carro e já começava o caminho para sua casa.

Quando chegamos, Jenny estava no sofá esperando por . Ela o cumprimentou e a mim também, mesmo que não esperasse por minha presença, pareceu ficar extremamente feliz.
- Que bom que você está aqui, ! Só passei pra dizer que gostei muito da apresentação, tem vários vídeos na internet e sinceramente , eu acho que está na hora de começar a desmentir certas coisas por aí, já que vocês são o novo casal da internet e vão começar a perguntar se sou um unicórnio por conta do chifre que está crescendo. – ela riu enquanto me mostrava seu celular que estava em uma página recheada de comentários sobre nós dois. Como sempre, algumas pessoas defendiam Jenny com garras, e se perguntavam como alguém poderia fazer isso com ela.
- Também acho que está na hora, mas nem sei como fazer.
- Tem que ser logo, . Qualquer coisa assim pode fazer com que a carreira dela nem comece. Quer soltar uma nota formal? – ele negou com a cabeça e tirou o celular do bolso.
- Que tal informal?
se posicionou entre nós duas e abriu o instagram, se preparando para tirar uma foto. Depois de tirar a foto, ele se sentou no sofá e começou a escrever, apagar, reescrever e fazer caretas pro celular.
Eu e Jenny apenas esperamos.
"Três pessoas, nenhum relacionamento além da amizade" essa era a legenda. Ele marcara nós duas e logo vi minhas notificações enlouquecerem de pessoas me seguindo, recomendou que eu desligasse as notificações e então percebi que seria necessário.
Jenny avisou que estava saindo com um rapaz e ele estava esperando em sua casa, no condomínio ao lado, ela se despediu e saiu animada por finalmente terem colocado um fim naquele relacionamento que nunca existira. Eles nunca haviam declarado publicamente que namoravam, mas também nunca tinha negado, e foi isso que gerou a bola de neve em que eles se encontravam.
Enquanto pegava as bebidas no bar, contou que soltaria sim uma nota formal depois, explicando como o namoro nunca acontecera, pois a maior parte dos comentários perguntavam se eles tinham terminado. Nos desligamos de redes sociais e serviu o primeiro copo para nós.
- Brindemos? – bati meu copo no seu e viramos toda a bebida ao mesmo tempo. – quer jogar alguma coisa? – neguei com a cabeça, me servindo novamente. – Só beber? – afirmei. – Tudo bem.

Muitas bebidas depois, começara a tagarelar, ele parecia precisar conversar, como se estivesse guardando seus problemas e quisesse soltar. Tentei me manter séria, mas era difícil, o álcool brincava em meu sangue como se fizesse cócegas.
- Eu quero casar, . – ele dissera enrolado em suas palavras.
- Casar?
- É, conhecer uma mulher, casar na igreja, ter filhos, uma casa com balanço no quintal e tudo mais de contos de fadas que for possível. – fiquei em silêncio, não sabia exatamente o que responder e agradeci por provavelmente ele estar bêbado o suficiente para não lembrar disso amanhã. – mas eu sei que não posso fazer isso sabe? É meu sonho, eu tenho 28 anos e não vou poder aproveitar ele da forma que deveria ser, eu nem mesmo consigo encontrar alguém. – ele encostou sua cabeça no braço do sofá e eu só coloquei minha mão sobre a sua para dar apoio.
- Por que você diz que não pode? – perguntei depois de algum tempo.
- É difícil encontrar alguém nesse meio que valha a pena tentar. E as pessoas que não estão no meio, muitas vezes têm segundas intenções, só querem se aproveitar, não posso por esse básico problema que todo mundo sempre soube. Eu gosto muito da minha vida, mas não sei quando vou poder realizar esse sonho por causa dela.
Não vou negar que pensara nisso antes de aceitar a proposta de . Eu havia pensado e muito, mas sabia que esse sonho poderia esperar, no momento meu sonho era fazer música, me apresentar para as pessoas... Nos meus pensamentos nunca tinha a parte em que eu poderia ficar presa nisso e só isso.
Era difícil encontrar alguém? Era, mas não era impossível.
- , você vai encontrar alguém, por mais difícil que seja, e nunca é tarde pra realizar algo que você queira, olha onde eu cheguei, e isso nem mesmo era um sonho pra mim. – acariciei seus cabelos e ele apenas acenou com a cabeça.


5


06 meses depois...
- , ela é incrível, nem dá pra acreditar que talvez eu tenha finalmente conhecido a pessoa certa.
Havia acabado de terminar a última gravação para o meu primeiro álbum. estava saindo com uma garota que conhecera no mesmo bar em que nos conhecemos em um dia que voltamos lá e não parava de falar nela por um segundo sequer. Sou uma ótima amiga, mas Deus do céu, como ele falava!
- , você saiu com ela duas vezes! – falei me jogando no sofá ao seu lado enquanto Ed editava algumas partes da música para ver se precisaria gravar novamente.
- Mas a gente tem as mesmas idéias, para de estragar . – ele deu um tapa em minha cabeça e em segundos estávamos lutando no sofá em meio a risadas.
- As crianças podem parar, por favor? – nos sentamos direito no sofá e joguei minhas pernas por cima das de , ele sorriu e esperamos para ouvir o que Ed tinha pra falar. – por incrível que pareça, acredito que está tudo certo e você acaba de gravar seu primeiro álbum, senhorita .
e Ed se jogaram em cima de mim no sofá como em um montinho.
Havíamos nos tornado muito próximos entre vídeos, aparições públicas em festas, gravações do álbum e qualquer tipo de divulgação minha, eles me mantinham sobrevivendo nesse mundo novo que eu estava e eu só tinha que agradecer aqueles dois, não sei o que faria sem eles, me lembraria quando fosse agradecer o Grammy, como eles diziam.
- A gente vai comemorar? – Ed perguntou.
- Às vezes acho que a gente comemora demais – falei rindo.
- Posso levar a Amy? – perguntou e eu e Ed apenas assentimos - Vocês vão adorar ela.

- Quero dançar, alguém? - perguntei olhando para todos que estavam na mesa. sussurrou algo para Amy e se levantou para me acompanhar. A garota era realmente muito legal e em pouco tempo sabia que ela e formariam um ótimo casal. Ela conversava animadamente com todos e parecia feliz de estar ali.
- Gostou dela? – perguntou inseguro quando estávamos frente a frente no meio da pista e alguma música eletrônica irreconhecível começara a tocar.
- Ela é muito linda, e simpática, acho que seu medo de não poder realizar seus sonhos pode ir embora, ela pode ser a certa – falei sincera, sabia que ele consideraria muito minha opinião e depois a de Ed também. Jenny torcera o nariz quando soube de Amy, mas brigou com ela pois não pôde dar palpite quando a garota começou a sair com Ethan, então ela não palpitaria em seu relacionamento também.
- Hoje ela vai embora comigo, tudo bem? – afirmei com a cabeça e seguimos dançando juntos até nos tornarmos uma rodinha já que todos que estavam na mesa se juntaram a nós.
Eu e costumávamos ir embora juntos sempre que saíamos e eu ficava em sua casa, eu estava em processo de mudança para um condomínio novo que ficava mais próximo a locais de trabalho, mas acabara me enrolando, pois não queria deixar meu apartamento. Só me restava decidir se hoje iria até meu apartamento ou para a casa nova.
e Amy se despediram de todos e foram embora, seguidos por Ed e a namorada, Alexis. Decidi que também iria, então entrei no táxi e optei por ir até meu apartamento, ainda tinham algumas coisas que eu precisava decidir se jogaria fora ou levaria para minha casa antes de finalmente vender. Eu achava que poderia dormir no sofá por uma noite.
Quando o taxista estacionou notamos uma grande movimentação por ali, mas parecia impossível saber o que tinha acontecido. Paguei pela viagem e desci, foi então que notei que o tumulto carregava câmeras, muitas delas. Fazia algum tempo que alguns poucos paparazzi me seguiam, mas nunca algo daquele nível, e ainda assim me recomendara a mudança por conta da segurança que eu teria por morar em um condomínio. Ele sempre dizia que sabia que aquelas pessoas estavam apenas fazendo seu trabalho, mas existiam alguns abusados que perdiam os limites e iam além.
Eu não tinha ideia de como haviam descoberto que era ali que eu morava.
Como eles poderiam saber?
Quando me viram chegar, todos viraram suas câmeras para mim e sem o mínimo respeito entraram na minha frente, fechando meu caminho até a porta. Ouvia todos falarem meu nome e soltarem muitas perguntas, mas não conseguia entender nenhuma delas, comecei a me sentir claustrofóbica no meio de todas aquelas pessoas e luzes de câmeras, parecia impossível sair.
- Eu não estou passando bem, saiam! – comecei a gritar pedindo que saíssem e pude ver alguns se distanciarem aos poucos, mas parecia que outros não queriam ouvir e se aproximavam cada vez mais, fazendo com que eu não visse nem mesmo minha própria mão. Senti as lágrimas começarem a escorrer por meu rosto e mais flashes seguiam sendo tirados, enquanto eu chorava e implorava para que se retirassem e me deixassem entrar em casa. – sumam daqui! Vocês não têm vida? – gritei entre lágrimas quando consegui alcançar a porta.
Estava próxima de fechá-la e acabar com meu primeiro pesadelo quando um pé se colocou entre a porta e a fechadura, para que ela se mantivesse aberta. Não podia ver direito o rosto da pessoa que estava mais do que invadindo minha privacidade e bati a mão em sua câmera, fazendo com que ela caísse no chão. Enxerguei então um rosto de uma mulher de aproximadamente 30 anos e antes que pudesse pensar em algo, lhe empurrei com toda força e consegui fechar minha porta.
Quando entrei em meu apartamento me joguei no sofá e chorei como nunca havia chorado.
Como podiam existir pessoas tão exageradas assim? Eu não era nenhuma Beyoncé, nenhuma Britney Spears, o que eles queriam comigo? Era apenas meu começo de carreira, e já procuravam formas de me detonar? Não conseguia nem imaginar o que aconteceria no dia seguinte, quando tudo aquilo alcançasse a mídia de todas as formas. Eu começaria minha carreira com o pé esquerdo, aparentemente.

" , mal começou e já passa por crise de estrelismo."
"Cantora trata agressivamente paparazzi"
" não ensinou princípios de educação para sua aprendiz."


Essas foram as primeiras matérias que encontrei ao pegar meu telefone no outro dia. Oito ligações de Ed, doze de , pelo menos cem mensagens. Joguei o celular de lado e entrei no banheiro para um banho quente. Ouvi o telefone tocar mais três vezes e pude apostar que era .
Encontrei alguns arranhões em meus braços e um roxo em minha barriga. Não doía, mas lembrar do sufoco me fazia mal.
Sai do banho e ouvi que meu celular tocava novamente, corri para atender, mas no meio do caminho o som parou. Voltei ao quarto para me vestir e enquanto penteava meus cabelos molhados ouvi a campainha tocar.
- , você está louca? O que você fez? - invadiu meu apartamento a passos largos. Calmamente fechei a porta e me virei para ele, mostrando os arranhões em meu braço – O que aconteceu? – ele se aproximou, abaixando o tom de voz e segurando meu braço, tentando ver os machucados.
- O que dizia nas matérias? – perguntei já sentindo as lágrimas voltarem a se acumular.
- Que você agrediu um dos paparazzi que estavam em frente à sua casa, e tem vídeos gravado por outros onde dá pra ver você empurrando a pessoa. – ele me puxou até o sofá e nos sentamos lado a lado.
- A mídia realmente manipula apenas o que quer, . – expliquei pra ele toda a situação e falei o quanto havia sido difícil fazer o pequeno caminho do táxi até a entrada de casa. As lágrimas corriam livremente e apenas me embalou em seu abraço até que tudo parecesse mais calmo.
- Sei o quão difícil é, . Mas a gente vai resolver, precisamos soltar algo contando a real situação. Você não precisa se preocupar, eu posso fazer isso.
- Não, eu vou fazer. Pode ficar tranqüilo. Desculpa por preocupar vocês, acordei com várias ligações suas e do Ed.
- , me desculpa por não ter ido embora com você. – ele me abraçou e senti que ele estava se culpando.
- Eu deveria ter ido pro condomínio, , está tudo bem. – sorri para ele e ficamos por alguns minutos apenas abraçados, esperando o momento passar.
- Quer ir comer? Fazer alguma coisa?
- Não quero sair daqui, pode ir aproveitar seu dia , eu vou ficar bem.
- Não vou sair, se você vai ficar aqui, vou pedir algo pra comermos e vou ficar com você. Eu falei que não te deixaria e fiz isso, não pretendo fazer de novo. – ele pegou o celular. – O que quer comer?
- Italiana. – ele riu porque já sabia a resposta, era sempre o que eu queria.

"Gostaria de responder diretamente nesse vídeo a tudo que vem sendo dito ao meu respeito. Algumas matérias tendenciosas me apontaram como uma nova artista descontrolada. Algumas fotos tiradas do ângulo certo, no momento certo, me mostraram agredindo fisicamente uma pessoa, mas foram as únicas publicadas. As que mostrariam as agressões pelas quais passei segundos antes, e estou lhes mostrando, foram deletadas, não era importante mostrar um momento de vulnerabilidade de alguém, não? Só é importante mostrar aquilo que vai destruir uma carreira prestes a se consolidar. Algo que posso deixar claro aqui sobre minha carreira, é que meu coração sempre vai estar à mostra pra vocês, sempre vou tentar ser o mais transparente possível.
Peço desculpas publicamente à mulher que empurrei, sim, eu o fiz. Mas a pessoa em questão me impedia de entrar em minha casa enquanto, em meio a lágrimas, eu só queria me livrar daquela multidão. Sei que o acesso à fama é assim, mas não imaginava que era por meio a assédio moral e agressões físicas, mesmo que não intencionais.”


6


- Qual vai ser a última cidade? Detroit ou Michigan? – Ed me perguntou.
- Pode ser Michigan. – dei de ombros.
Já passava da uma da manhã e ainda estávamos em um grande grupo decidindo os últimos detalhes da minha primeira turnê, pelos Estados Unidos. Eu estava animada, claro, três meses depois do incidente com os paparazzi tudo já voltara ao normal e eu podia seguir quase tranqüila.
Agora tomava todo cuidado do mundo, mesmo que não achasse necessário seguranças ou algo assim, eu tinha uma grande massa de fãs, mas não era um assédio gigante e a maior parte das vezes que saia em público, estava acompanhada.
- Acho que isso fecha todas as datas. Estou ansioso por isso. – Ed falou, animado.
- Eu também, nunca viajei muito, vai ser incrível. Tô recebendo tanta coisa de fãs, pedindo pra ir pra tal cidade, fazer tal coisa, é demais. – me sentia maravilhada em ter pessoas que poderia chamar de minhas fãs, que queriam me conhecer, me ver, me achavam a melhor cantora do mundo, era muito engraçado.
Era uma sensação diferente ver tudo aquilo, e ainda mais porque eu sabia o que era ser fã e como aquele sentimento era forte, puro e sincero. Vinha me sentindo a pessoa mais sortuda do planeta.
- O bom é que a gente só viaja junto, a parte mais complicada é você que faz. – Ed piscou pra mim e deu um tapa nas costas de , rindo.
- Eu ia conversar isso só com a , mas acho justo conversar com todos já que estamos aqui discutindo detalhes. – ele se sentou de frente para mim. – Eu não quero ir, e queria saber se tem algum problema pra vocês. – ele olhou diretamente para mim, enquanto eu apenas abria e fechava minha boca procurando algo para falar.
Ele me colocou aqui, disse que estaria sempre comigo, reafirmou, e não iria comigo na minha primeira turnê?
- ? Por que você não quer ir? Eu achei que você tivesse animado assim como todos nós – Alexis, namorada de Ed, perguntou. Ela nos auxiliava em todos os trabalhos apesar de ter seu próprio emprego, uma loja online que vendia diversas coisas.
- São seis meses, eu queria poder aproveitar eles com a Amy, ver se isso é mesmo o que quero... Ela também pensa o mesmo, conversamos sobre isso. – ele falava para todos, mas não tirava seus olhos dos meus, esperando pela minha resposta. Apenas afirmei com a cabeça e me levantei de onde estava, dizendo que iria beber algo.
Andei até a cozinha sem nem olhar para trás, mas pude ouvir que vinha atrás de mim.
Ele não desistiria de ouvir o que eu tinha pra falar, ele estava preocupado e eu sabia, mas o que eu poderia fazer?
- , está tudo bem, eu sei que você tem seus sonhos e está na hora de realizar eles, sei que você tem seus medos em relação a algum momento ser muito tarde, não vou deixar de ser sua amiga por isso, muito menos sua fã. – falei rindo, pois sempre brincávamos com isso. – Eu sei me cuidar sozinha. – segurei sua mão e percebi que ele parecia mais preocupado do que eu imaginava.
Ele parecia querer que eu brigasse, dissesse não.
- Eu sei que você nem mesmo vai estar sozinha, , mas eu entrei com você nessa, não queria deixar de participar dessa turnê com você, ainda mais depois do que aconteceu quando te deixei sozinha. – passou três meses falando sobre o incidente, não só falando, se culpando por tudo aquilo mesmo eu dizendo que ele não podia prever.
A resposta era sempre a mesma: "Podia ter evitado".
- Está tudo bem, , mesmo. O pessoal vai estar sempre comigo, sei que posso contar com eles. Espero que você e a Amy dêem certo, e que você possa realizar todos os seus sonhos assim como realizou os meus que eu nem sabia que existiam. – sorri para ele, que pareceu se acalmar um pouco.
- Não fale como se não fossemos nunca mais nos ver. – ele me abraçou. – Só vamos nos separar por um tempinho, e vou sempre estar atrás de você, para saber como você está e te encher muito o saco. Sou seu fã, você sabe. – ele beijou minha bochecha e voltamos para a sala, vendo que todos já se despediam.


7


7.1

"- Como foi ontem, ?
- Foi incrível! Teve um menino que tentou subir no palco e acabou caindo em cima de várias pessoas, foi muito engraçado, porque todo mundo começou a rir quando perceberam que ninguém se machucou.
- Por isso você foi até lá embaixo?
- Sim, conversei um pouco com eles, foi um alvoroço, mas foi bem divertido. Saiu nas notícias?
- Sim, vi hoje de manhã, todos os sites estão falando muito bem de você, você vai longe.
- Vamos, ! Nós todos!”


7.2

- Você está bem, ?
- Estou sim, , porquê?
- Eu vi que você caiu no palco, o vídeo tá em todos os lugares, uma menina estava gravando ao vivo.
- Ah, não foi nada! Eu pisei em um pedaço de cabo perdido e escorreguei, mas não machucou, nem um arranhão!
- Mas alguém olhou seu pé? Não torceu nem nada?
- Olharam sim, agora a pouco. Está tudo bem mesmo, não se preocupa.


7.3

- Queria que você tivesse aqui pra se divertir comigo, .
- Está tudo bem?
- Está sim, só sinto sua falta. Hoje fomos almoçar naquele lugar que você recomendou, assim que entrei pude ver por que você gosta tanto, lembra muito você.
- Estão cuidando bem de você? O Ed, a Alexis?
- Claro, eles ficam comigo o tempo todo, estou me sentindo até a filha do casal.
- E você está se comportando?
- Sim senhor, sem estrelismo e sem sumiços, como combinamos.
- Assim que gosto!


7.4

"Esse número não está disponível para receber chamadas."
Continuei sentada em minha cama, tentando ligar mais algumas vezes e nada.
Nem sinal do .
Aquele seria apenas mais um dia me sentindo sozinha, por mais pessoas que tivessem ao meu redor, por mais bem que me tratassem, eu não me sentia à vontade com ninguém. Eu sentia saudade até mesmo das minhas coisas materiais, das minhas almofadas, saudades de ficar sozinha, de sair sozinha. Realmente a mídia te priva disso. Sou feliz no que escolhi, mesmo tendo sido tudo tão rápido, mas me sentia vazia, tinha medo de tudo e de todos.

7.5

"Esse número encontra-se ocupado"
Eu sabia que ele deveria estar ocupado, mas havia visto uma foto dele com Amy em um post no Instagram, não entendia porque ele não atendia, não retornava, não aparecia.
Precisava dele, por mais que amasse ficar com Alexis e Ed, eu sentia falta do que me proporcionou durante todo o tempo que a gente passou junto desde o karaokê. Tivemos uma amizade relâmpago que se tornou aquelas amizades de melhores amigos dignas de filmes de Hollywood. Nossa relação parecia um sonho, me tornei amiga do meu ídolo, ele me trouxe para o mundo da música, que eu nem sonhava em estar, e eu tinha uma gratidão imensa a ele por isso. Eu sentia sua falta, eu não imaginei que em tão pouco tempo uma relação pudesse se tornar tão forte, e não imaginei que seria tão difícil passar por toda a turnê sem ele. Eu não confiava em ninguém, ele me colocara ali, ele me avisara dos males que essa vida perfeita tinha, e agora eu queria que ele estivesse ali pra enfrentar comigo.
Eu sentia falta dele mais do que podia colocar em palavras.

7.6

"O número que você ligou se encontra fora da área de cobertura ou desligado. Por favor, deixe sua mensagem após o sinal.”
- Oi, , tá tudo bem? Estou um pouco preocupada com seu sumiço, o telefone da sua casa também não atende, aconteceu algo? Só não estou surtando por que vi uma foto sua e da Amy em um site ontem, espero que não tenha nada de grave acontecendo, beijos.


Decidi deixar uma mensagem. Quem sabe os telefones não tivessem com problemas. Queria muito que ele me atendesse ou ao menos deixasse uma mensagem falando que estava tudo bem. As coisas ficavam cada vez piores, eu me sentia cada vez mais deslocada.
Eu via as pessoas, eu conversava, me misturava, mas sempre parecia que estava assistindo tudo de longe. Todos me dizem “agora vamos fazer isso”, “, faz isso”, “, faz aquilo” "um programa aqui" "um acústico ali", e eu nunca sabia como agir.
Já se passaram meses desde que tudo começou e eu ainda me sentia despreparada para a proporção das coisas que aconteciam, todos esperavam de mim, mais do que eu mesma sabia que podia esperar.
Eu tinha medo de tudo aquilo, e eu queria apenas alguém com quem contar naquele mundo. Eu me sentia perdida, e nesse pouco que faltava para ir pra casa, minha única força era pensar em chegar lá e torcer pra que estivesse me esperando para me dar um colo pra chorar. Eu não tinha mais ninguém, eu sempre fui sozinha, e agora me sentia mais sozinha que nunca. Eu sabia que tinha um amigo em , mas começava a me sentir pior ao acreditar que talvez as coisas fossem diferentes para ele e o significado da nossa amizade não fosse como eu sempre pensei.
Talvez ele não torcesse tanto pelos meus sonhos, como eu torcia pelos dele. Mas eu sobreviveria, firme e forte.

7.7

- , telefone – Ed me entregou seu celular. – É o , falei que não dava pra falar agora porquê você só estava fazendo uma pausa pra se trocar e ele insistiu!
- ! Está tudo bem? O que aconteceu com você?
- Eu vou me casar, ! Eu pedi pra Amy, e ela aceitou!


7.8

"A turnê de chega ao seu encerramento nessa noite, depois disso, a cantora afirma que fará uma pausa, mas se os fãs pedirem, um segundo álbum vem por aí!"

7.9

" já está de volta à sua casa. Ela desembarcou pela manhã na cidade e atendeu todos os fãs que a esperavam enlouquecidos ao ver que também estava ali à espera da amiga. E a maior novidade? Com uma aliança em seu dedo, nosso crush que nunca envelhece está realmente amarrado? Poxa , e a ? E o nosso ship?"


8


- ! Que saudade! – me abraçou forte em meio a todos no aeroporto.
- Também senti sua falta. – me afastei dele rapidamente e pedi um minuto para dar atenção aos fãs que estavam em volta.
Conversei um pouco com eles e tirava as fotos, muitas vezes até participava delas, já que dividíamos muitos fãs, talvez pela minha chegada ao "topo" com ele sempre mexendo os pauzinhos atrás e me acompanhando em tudo. Haviam alguns paparazzis por ali que tiraram fotos também, mas de longe. Estavam respeitando nosso espaço enquanto atendíamos a todos.
Quando nos despedimos, pegou minha bolsa e o acompanhei até seu carro. Ele parecia animado em finalmente nos encontrarmos, e eu sabia que ele queria contar as novidades propriamente.
- Como estão as coisas? – perguntei.
- Incríveis, ! A gente tá bem ocupado, escolhendo tudo, fazendo as coisas, decidindo isso e resolvendo aquilo. Eu estou tão animado, a Amy é demais! Parece que foi tudo tão rápido sabe? E foi, eu sei que foi, mas parece que não tenho nada a perder, não quero perder mais tempo.
- Fico muito feliz por você, . – sorri para ele, que ligou o rádio e ficou em silêncio. Ele não me perguntou nada sobre a turnê, ou como eu estava, parecia perdido em seus próprios pensamentos.
Chegamos na entrada do meu condomínio e cumprimentei o porteiro de dentro do carro, que me cumprimentou com um aceno de cabeça e um "Bom ter você de volta, senhorita ".
Me sentia animada por estar em casa novamente, poder deitar na minha cama e ficar pelo menos algum tempo sem fazer nada.
- Está entregue, madame. – sorriu para mim quando estacionou em frente à minha porta.
- Não quer descer? Comer alguma coisa?
- Amy está me esperando pra terminar de fazer a lista de presentes. – ele comentou animado. – Depois, se quiser, vai lá em casa e a gente faz alguma coisa, nós três.
- Quero ficar um pouco em casa, mas obrigada pelo convite.... Boa sorte. – sorri amarelo em sua direção e, pegando rapidamente minhas coisas no porta malas, atravessei o jardim e acenei para ele.
Ao abrir a porta, senti minhas pernas serem agarradas por pequenos braços e me assustei, soltando as malas no chão.
Ouvi a porta de bater e ele estava ao meu lado em questão de segundos.
- Senhorita ! Desculpe! Eu te falei para não fazer isso, Violet! – Meredith puxou a menina de minhas pernas para que eu pudesse me mexer e a pegou no colo.
Eu havia contratado Meredith assim que me mudei para o condomínio, eu a conhecia do pub, e sabia que ela era uma ótima pessoa e precisava de um bom trabalho, então mesmo com seu receio, a contratei pagando um salário acima do normal, assim ela poderia dar tudo que seus quatro filhos precisassem.
Ela me ajudou em horas extremas quando eu visitava o pub semanalmente, e, se eu podia recompensá-la, eu o faria.
- O que houve, ? Está tudo bem? – ele se virou para Meredith que o olhava assustado. – Você é a empregada dela? – ele perguntou, ríspido. – porque tem uma criança com você?
- Ela queria ver a . – Violet olhava para mim, encostada entre o pescoço e o ombro da mãe.
- Mas isso não pode acontecer – abanei minha mão no ar em frente ao corpo dele, para que ele parasse de falar. Abri meus braços para a garotinha, que se jogou em meu colo e abraçou meu pescoço.
- , ela tem todo o direito, desde o momento em que eu o dei, eu conheço Meredith como uma amiga, e Violet é como uma sobrinha para mim, está tudo bem. Tenha mais respeito quando não sabe ao menos o que está acontecendo.
murmurou desculpas para Meredith e contrariado, acenou para mim e nos deixou. Eu não acreditava que ele tinha tomado essa posição, na frente de uma criança que apenas estava animada, tratando Meredith mal por se tratar de uma trabalhadora.
Esse não era seu perfil, mas eu podia ver que as coisas estavam mudando, isso era apenas outra terrível novidade. Talvez fosse apenas um surto pré-casamento, preferia acreditar nisso.


9


- Antes de qualquer coisa, queria pedir mesmo desculpa por aquele dia, . E obrigado por vir me encontrar. – depois de um mês, estava me encontrando com novamente.
Infelizmente, durante minha turnê as coisas tinham mudado drasticamente, e agora esporadicamente nos falávamos, era mais quando ele precisava de mim, como agora.
- Tudo bem, , já passou. – sorri e beijei sua bochecha para cumprimentá-lo.
Estávamos em frente ao local onde ele compraria seu terno de casamento, que se aproximava mais rápido que eu podia ver, faltavam duas semanas e estava radiante.
Ele me pediu que o ajudasse a escolher, não que muito tivesse o que escolher, já que Amy com certeza havia lhe falado o modelo. Ele poderia chamar Ed, mas disse que precisava de uma ideia feminina naquilo.
- Esá ansioso? - perguntei de fora da cabine, enquanto ele se vestia.
- Muito, a decoração está linda, a igreja, as madrinhas, os padrinhos, está tudo incrível! Minha família tá muito feliz, menos meu pai, que pareceu não curtir tanto a ideia e como foi rápido. Ele ainda acha que é preciso anos para decidir casar. – ele deu de ombros, saindo da cabine e se posicionando no degrau onde a costureira faria os ajustes.
Fiquei algum tempo apenas observando enquanto a costureira ajustava suas mangas, apertava um pouco a calça pra que ficasse com o caimento que ele gostava, pregava um botão que ficasse mais bonito que o anterior e o deixasse cada vez mais de tirar o fôlego.
Eu não podia negar, era lindo, e há anos eu tinha essa certeza. Quando o conheci naquele Meet&Greet eu tive certeza, e nunca me esqueceria do primeiro pensamento "caramba, ele consegue ser ainda melhor".
Por um segundo, me peguei pensando que, se nossos mundos não tivessem se encontrado, eu estaria surtando desde a notícia de que ele se casaria. ainda era muito influente em tudo, então mesmo com a carreira parada e a dedicação ao mundo da produção, ele tinha um assessor, que havia liberado uma nota contando às fãs que ele subiria ao altar com Amy Eudor, futura Amy .
Eu sabia que já nem tinha idade para surtar por algo assim, mas aquele homem foi minha primeira paixão adolescente, eu via meninas tendo diversas paixões platônicas sem entender, até que apareceu com seu primeiro single e roubou meu coração iludido. Agora, eu estava ali o ajudando a escolher seu terno. Ele havia me trazido até ali e me mostrado tudo que me faltava e eu nem sabia como procurar.
- Ficou legal? – ele se virou de frente para mim quando a costureira se afastou para que ele avaliasse. – a gravata vai ser num tom claro de vermelho, não sei explicar, mas foi a Amy que escolheu porque combinaria com alguma coisa que ela queria – ele disse com um sorriso no rosto.
- Ficou ótimo, , você vai ser um noivo lindo. – sorri para ele, que pareceu se surpreender com meu comentário.
- Sinto sua falta. – ele falou baixo, sorrindo amarelo, e entrou novamente na cabine para voltar a colocar seus jeans. – quer dar uma volta? - ele perguntou, saindo da cabine e devolvendo a peça completa para a senhora, que o avisou que deveria buscar um dia antes do grande dia.
- Pode ser.
Saímos da loja e andamos por alguns metros até uma pequena lanchonete que tinha ali. Estávamos em um bairro pouco movimentado, onde algumas pessoas nos viam e apenas acenavam, sem nenhum surto de fãs ou assédio de paparazzis. se sentou de frente para mim e pediu dois refrigerantes para nós, ele parecia animado em passarmos um tempo juntos, o que achei engraçado, já que ele quem passara meses estranho comigo.
- Eu te fiz alguma coisa, ? – meus pensamentos divagavam e antes que pudesse perceber, as palavras saltaram de minha boca.
- Como assim? – ele perguntou, desviando seus olhos para a garçonete, fingindo interesse na lata que era colocada em nossa mesa.
- Você desapareceu durante a turnê, me buscou no aeroporto, foi rude com a Meredith, e sumiu por mais um mês, eu só queria saber se aconteceu algo que fez você me tratar assim. Desculpe, mas você disse que sente minha falta, quando na verdade foi você que fez com que esse sentimento aparecesse. – despejei tudo que pensava ali, sabia que pareceria um casal discutindo a relação, mas eu não gostava de coisas simplesmente deixadas para trás.
- ... – ele começou e fez silêncio, parecendo ponderar motivos ou coisas para falar. – você não fez nada, eu só, sei lá... Eu e a Amy viajamos, nós ficamos tão ocupados, eu estava aproveitando tudo que era possível depois de tanto tempo só trabalhando, a gente estava se conhecendo, conhecendo famílias... Quando eu ia te ligar, era hora de show, ou eu pensava que você deveria estar descansando, ou curtindo, e não queria ser atrapalhada. Eu sabia que você estava bem, eu acompanhei as notícias, eu e Amy sempre olhávamos tudo juntos, até mesmo vídeos dos shows, mas não queria atrapalhar seu momento.
- Porque você atrapalharia, ? Eu passei dias te procurando, você sabe que se tornou meu melhor amigo em tantos meses em que passamos juntos com você me ensinando tudo sobre essa vida, esse mundo, sobre música. Eu me senti sozinha, eu fiquei com medo, do nada você parou de me apoiar, e eu só queria voltar pra casa. E quando voltei, você estava diferente, está ainda... é complicado. – dei de ombros, sentindo meus olhos se encherem de água ao sentir novamente aquela agonia que me acompanhara durante alguns dos meses da turnê.
- Me desculpa, , eu não pensei assim. – ele colocou sua mão sobre a minha por cima da mesa, tentando me dar forças, como sempre fazia. – Eu estava tão ocupado vivendo meus sonhos, que me esqueci que prometi te acompanhar nos seus. – ele parecia arrependido, suas palavras soavam magoadas consigo mesmo. – Espero que você ainda possa me perdoar e manter nossa amizade intacta. – ele deu de ombros. – afinal, ainda temos uma grande carreira sua pela frente, e quem sabe daqui uns anos, não volto para a minha também.
Sorri para ele que se levantou e me abraçou, dizendo ser um abraço de reconciliação. Disse que lhe perdoava, mas que, por favor, não fizesse mais aquilo comigo, pois eu ficava perdida entre tantas pessoas, multidões, e dinheiro, sem ele. Claro que eu poderia sobreviver sozinha, mas ter alguém que te dá forças deixa tudo incrivelmente melhor, acredito que ele se sentia assim com Amy, vivendo seus sonhos. E eu me sentia assim com ele, vivendo os meus.

"Nosso OTP não está morto! e saíram juntos ontem pela tarde, conversaram por bastante tempo e rolou até um aconchego de mãos, com direito a abraço. estava vindo da sua aparente prova de roupa para o grande dia, mas sonhar nunca é demais, certo?"


10


Estava sentada na cama, pronta para encarar o grande dia de .
Algo me dizia que ficar em casa era uma ótima opção, mesmo sabendo que ele provavelmente me mataria por aquilo. Mas quem me mataria com menos piedade, ele ou Amy? Que parecia irritada com as notícias tendenciosas que saíram à nosso respeito no dia de sua prova de roupa.
me ligou avisando que haviam notícias e fotos nossas espalhadas em diversos sites, eu pedi desculpa, mas claro que nada era culpa nossa ali, só estávamos conversando. Porém, eu ouvi Amy resmungando no fundo, e pedindo calma para ela enquanto desligava o telefone. Não estava gostando dessa situação, mas estaria lá para apoiá-los.

Cheguei na igreja notando a quantidade de câmeras pelas quais teria que passar para chegar até a parte interna, estacionei o carro e andei rapidamente por entre aquele corredor de gente, ouvindo perguntas como "você está chateada?", "você apoia o ?" "como você pôde vir a esse casamento?". Ignorei todos com a minha melhor expressão de paisagem e cheguei lá dentro, reconhecendo inúmeros rostos.
Os pais de foram os primeiros a me encontrar, parando para me cumprimentar e perguntar se eu estava bem e as novidades, como havia sido a turnê... Troquei algumas palavras com eles e decidi me sentar ali entre os últimos bancos.
Acenei para mais alguns familiares de que conhecia, e seus amigos. Vi Alexis sentada no primeiro banco, entre amigos em comum, mas preferi continuar onde estava.
Observei o lado contrário da fileira de bancos onde me sentei, e queria não ter feito, nunca havia visto tantos tons de pastel na minha vida, parecia que a família da noiva havia combinado aquilo, era esquisito.
Vi entrar pela porta da lateral e todos o encararem, ele sorriu timidamente e o vi ser escondido por uma multidão que queria falar com ele. Ele respondeu a todos rapidamente, e antes que mais alguém o atrapalhasse, correu até mim.
- Me ajuda, por favor! – ele segurou meu braço e me arrastou para o fundo do salão da igreja aos tropeços.
- Ai, , o que aconteceu? – falei, reclamando do modo como ele me puxou até ali.
- Desculpa, . Eu não sei o que aconteceu, eu estou desesperado, será que isso está certo? – ele estava em pânico e eu me assustei. Como alguém que há dias parecia tão decidido, ele parecia questionar tudo, e eu não sabia o que fazer em uma crise daquela.
- Sai correndo que eu te encontro na porta dos fundos – falei para ele, rindo. Por alguns segundos ele pareceu surpreso, e até mesmo assustado, sem entender.
Então ele bateu na cabeça e começou a rir também, aliviando a tensão.
- Aí a gente foge pra outro país e casa, tem dois filhos e um cachorro e fica tudo certo.
- Não falei nada sobre casar com você, só ia te ajudar a fugir, essa parte é por sua conta. – dei de ombros. – você não deveria falar com a sua mãe? Eu não sei como te ajudar, . Você estava muito bem decidido há dias e dias.
- Eu sei que eu estava, mas a Amy ficou tão estranha esses últimos dias, parece que as coisas desandaram, e ainda teve todo aquele problema com a mídia, ela se sentiu mal... , ela me perguntou um milhão de vezes se eu realmente não queria terminar e ficar com você. – arregalei meus olhos diante aquela revelação, como ela poderia fazer isso com ele? nunca dera motivos para que ela duvidasse, éramos amigos e apenas isso.
- É só o estresse do casamento, ela se sentiu ameaçada por notícias, nada mais normal. Vocês vão ficar bem depois que tudo isso passar, você vai ver.
A mãe de apareceu nos procurando, dizendo que estava na hora dele ficar preparado no altar. Ele me abraçou rapidamente e seguiu a Sra. até o centro de todos novamente.
Aproveitei que estava ali para usar o banheiro, que era um pouco à frente no corredor. Enquanto lavava minhas mãos, ouvi a voz de Amy gritando com alguém, provavelmente alguma de suas madrinhas, falando que o vestido não estava "bufante" como deveria estar, que mataria a estilista que o havia feito, sendo que no dia da prova estava lindo. Todos diziam que noivas ficam loucas no dia do casamento e agora ela poderia atestar que sim.
Sai do banheiro e antes que pudesse seguir meu caminho, ouvi a conversa, agora em tom mais baixo, de Amy e a garota, que estava com ela.
- Mas você acha que ele fez o que, te traiu? – ouvi a amiga perguntando.
- Claro que não, Bridget! nunca faria isso, ele tem caráter. Mas eu não sei, ele fica estranho quando fala da . Eu sei que ele me ama, mas todo mundo sabe que você pode amar mais de uma pessoa.
- Mas e ela? Você sabe se ela sente alguma coisa por ele?
- Realmente não sei Brid, a sempre nos apoiou bastante e incentivou o , talvez ele sinta mais que ela e nunca nem percebeu. Já te contei que ela tem uma foto de um meet dele guardada? Ela era fã dele. – percebi que ela ria contando aquilo. – Ela é bem fofa, mas estou meio ressentida, não sei bem o que fazer. Mas agora não tenho muito que pensar, está na nossa hora – quando notei que ela se aproximava da porta, entrei novamente no banheiro e esperei até que ouvisse sua voz longe para poder retornar à igreja.
De onde ela havia tirado essa ideia, eu não sabia. Como ela sabia sobre minha foto com , eu não sabia.
Ao menos uma coisa nós duas sabíamos, tinha caráter suficiente para nunca fazer nada errado com ela ou com qualquer um. Isso já aliviava minha mente, ela sabia que não tínhamos envolvimento. Mesmo que em sua mente passasse algo sobre sentimentos que eu conversaria seriamente com ela em outro momento.
Sentei novamente no banco que havia escolhido, olhei para no altar e pude ver nossos olhares se encontrarem. Meu ídolo, meu amigo, estava se casando, eu mal podia acreditar.
Puxei todo meu ar, soltei lentamente e sorri para ele que sorriu para mim também.
Os padrinhos já estavam entrando e se posicionando em seus lugares, e ao final dessa entrada, tudo ficou em silêncio.
parecia nervoso, e então vi gestos estranhos serem trocados entre a banda e as organizadoras que abririam as portas para que a noiva entrasse. A música então tocou, e não era a música tradicional, parecia-se mais com algo fúnebre, ri sozinha e acompanhei Amy, que entrava sorrindo para todos e acenando como a rainha da Inglaterra.
Enquanto todos olhavam para a noiva, que era o centro das atenções, claro, eu desviei meu olhar para . Me surpreendi ao ver que ele olhava para mim, invés de manter os olhos focados em Amy.
Ela tampouco o encarava, estava ocupada olhando para todos que a elogiavam, com seu vestido de cor champagne e o grande laço nas costas. Por alguns segundos, nossos olhares se perderam e apenas sorri torto o encorajando, enquanto ele sorria amarelo e olhava novamente para sua noiva, que agora estava há alguns passos dele.
Após toda a parte religiosa do casamento, pudemos ouvir os votos provavelmente ensaiados por dias de Amy, e os votos improvisados de , que dissera não conseguir escolher palavras para escrever e gostaria mais de ser sincero dizendo o que sentia ali naquele momento. O padre os ouviu pacientemente, e então deixou no ar a famosa frase, "se alguém tem algo contra essa união, fale agora ou para sempre guarde com você", foram suas palavras.
A igreja se manteve toda em silêncio, olhei para baixo como todos faziam esperando aquele momento passar, e quando o padre voltou a falar para abençoar os noivos antes de os pronunciar oficialmente marido e mulher, olhei para o altar e pela, não sei, terceira vez consecutiva, pude encontrar os olhos de sobre mim.

Estava sentada em uma mesa junto aos amigos de da gravadora, que eram meus amigos também, claro. Todos conversavam animados depois de algumas bebidas. e a, agora esposa, já haviam tirado um milhão de fotos externamente e agora passavam nas mesas para as fotos com convidados, para então poder se sentar, comer a aproveitar o casamento. Amy parecia adorar toda a atenção, mas o homem já estava cansado e demonstrava grande interesse em se esconder e poder comer um pouco de tudo ali, em paz.
Ri vendo sua situação e como lhe incomodava, e comentei com ele quando ele se aproximou de nossa mesa e todos estavam preocupados em primeiramente o parabenizar.
- Já deu né? – falei quando o abracei, como todos estavam fazendo. Ele afirmou com a cabeça, fazendo a mais dramática expressão de cansado que eu já havia visto – Parabéns senhor , o mais novo maridão – gargalhei quando vi a expressão em seu rosto e ele então me abraçou novamente, da forma aconchegante de sempre, apenas retribui e pude ver ele se retirando para a próxima mesa.
Abracei Amy e a parabenizei pelo casamento, pela cerimônia e por seu vestido. Ela agradeceu rapidamente e seguiu o marido até a próxima mesa, apesar de gostar de toda a atenção, os sapatos pareciam estar querendo pular de seus pés. Me sentei novamente entre meus amigos e engatamos uma conversa sobre política, completamente aleatória, mas de uma forma cômica.

Me aproximei de , que estava na pista de dança rodeado de algumas crianças que acreditava serem da família de Amy, cutuquei seu ombro e ele virou-se para mim ainda rindo de alguns passos que os pequenos faziam. Todos ali na pista já estavam alterados, cantavam a plenos pulmões qualquer música que tocasse, dançavam desajeitados qualquer toque que passasse por seus ouvidos.
- Estou indo embora. – falei alto em seu ouvido para que ele conseguisse entender mesmo com o volume da música, e apontei para o lado de fora, para o caso de ele não entendesse o que eu havia dito.
- Mas já? – afirmei com a cabeça, assumindo estar cansada. – eu te acompanho até lá fora. – ele puxou meu braço e falou para as crianças o esperassem que ele já estaria de volta.
- Não precisa, . – ele insistiu, e eu sabia que ele não me deixaria ir sem sua companhia, então apontei para a porta lateral, lhe dizendo que meu carro estava ali. – Obrigada. – falei quando encostei em meu automóvel.
ficou parado em minha frente, podíamos ouvir a música soando alta de dentro do salão e pela beirada da porta, era possível ver que todos se juntavam cada vez mais para dançar.
Todos se divertiam, e e Amy pareciam felizes em ver que o casamento estava sendo tão bom.
- Parabéns pela festa, estava tudo maravilhoso. – coloquei a mão em seu ombro e ele encostou sua cabeça ali, parecendo um gato quando pede por carinho. – Está feliz?
- Estou, mas falta uma coisa, você não dançou comigo no meu casamento. – ele fez bico e eu ri quando ele me puxou próxima a ele e juntou nossos corpos para nos embalar ao som de uma balada qualquer que tocava mais baixa para nós do lado de fora. – , eu fiz o certo? – ele olhou em meus olhos enquanto ainda balançávamos de um lado para o outro.
- Não sei, . Você sente que fez? Achei que já tivesse se decidido antes de realmente se posicionar naquele altar.
- Eu tinha, mas não sei, estou feliz e ao mesmo tempo aquela agonia não passou ainda. – ele deu de ombros e me abraçou, deixando um beijo em minha bochecha e se afastando. – Manda uma mensagem quando chegar em casa, tudo bem?
Assenti e acenei para ele, o estranhando.
Entrei no carro e fui para casa ainda tentando entender suas atitudes repentinas.


11


- ! – pulei em seus braços quando o vi passar pela porta. – Que saudade, como foi à lua de mel? Férias, sei lá como você chamou!
- Acho que boas... – ele riu, provavelmente da minha animação. – Vida de casado não é fácil. – Ele deu de ombros. Aparentemente não queria ser o foco da conversa – Me digam, como estão as coisas por aqui? – ele perguntou, apertando a mão de Ed.
Desde o casamento eu estava em casa, tentando criar a habilidade de compor músicas. Ed estava me ajudando, mas estávamos aproveitando um pouco de férias também. Durante esse período, saí algumas vezes para ir até o pub de sempre, conheci pessoas novas e a mídia fez todos acreditarem que até mesmo tinha um romance.
Fazia apenas uma semana que Ed e eu estávamos juntos no estúdio, indo e voltando para casa, escrevendo até mesmo no meio do percurso. Passávamos o dia todo apenas com papel e caneta, pensando, tentando tirar inspiração de onde fosse, passando a limpo e alugando o pessoal da banda para criar melodias algumas vezes. Não tínhamos pressa para o álbum sair, mas estávamos insanamente animados. era um compositor incrível, então sua volta apenas nos animava mais.
- Precisa de mais um dia pra organizar suas coisas e sua cabeça ou já está pronto para colocar a mente e as mãos em sincronia? – perguntei e vi ele se jogar no sofá onde eu estava anteriormente.
- Tudo pronto, vamos produzir um álbum!

- Você melhorou demais em escrever, ! – disse enquanto saímos da gravadora, já tarde da noite.
- Durante a turnê eu tive bastante tempo para aprender. – sorri amarelo para ele. – eEtou gostando do que escrevo.
- Eu também, aquela primeira música ficou incrível. Estou orgulhoso. – Ele sorriu. – sabe o que eu tava pensando? Não quer ir até o pub?
- Pode ser. – dei de ombros, não tinha nada para fazer, fazia algum tempo que não saia de casa e sentia saudades do pessoal de lá. – Podemos deixar meu carro em casa e ir com o seu?
- Se você prometer que não está pedindo isso pra poder ficar bêbada e me fazer de motorista da rodada. – ele cerrou os olhos para me encarar e eu gargalhei afirmando - só vou deixar porque estou com saudade. – ele piscou e andou até seu carro, que estava do lado contrário ao meu.

Entramos no pub e todos os funcionários vinham rapidamente ao meu encontro, me abraçando, perguntando como estava e me contando que estavam acompanhando tudo que eu fazia na carreira e que torciam imensamente por mim. Recebi carinho de cada um ali e me senti em casa, não havia percebido quanta falta me fazia.
Todos parabenizaram pelo casamento e perguntavam se teria álbum novo e como as coisas estavam.
Sentei no bar com e meus sentimentos ali se intensificaram. Me lembrei de todas as noites que passava ali bebendo e cantando, e da noite em que havíamos nos conhecido... Quem diria que em dois anos ele estaria casado e eu seria uma artista, sendo que, no que parecia tão pouco, ele estava ali me convidando para fazer uma demo.
- Acredito que estamos pensando no mesmo. – ele sorriu, pedindo nossas bebidas. – parece que foi ontem né? E olha onde estamos agora.
- Me desculpe perguntar, ... Mas a Amy não vai se importar? – ele fez uma careta, que estranhei, mas fingi não ter visto.
- Não, tá tudo bem. Ela iria sair com algumas amigas também e disse que seria bom eu sair um pouco... Sabe como é, ficamos muito tempo grudados nesses últimos meses. – ele deu de ombros. – E ai? Fez algo diferente durante esse tempo? Como está Meredith? Ainda me sinto mal por aquele episódio, eu não estava nos meus melhores dias, desculpa de novo.
- Está tudo bem, ela ficou assustada, mas conversamos e ela esqueceu, ela gosta muito de você. Passei esse tempo compondo, deitada na cama, cantando no chuveiro, jogando joguinhos no celular, saindo poucas vezes... Nada de interessante, só queria aproveitar minha casa antes de ter o que fazer. Bom, ainda que de férias participei de alguns programas de TV, mas coisas rápidas...
- Eu sei, eu assisti. – ele me interrompeu para adicionar a informação, olhando fixamente para qualquer coisa que estava no bar em nossa frente.
- Ah, achei que você não estivesse acompanhando nada. – falei.
- Vi algumas coisas. – ele desviou sua atenção para o barman que trazia nossas bebidas, agradecendo. – Você não me contou que queria um cachorro. – ele olhou para mim.
- Como você sabe?
- Vi suas fotos saindo do pet shop... Gostei do nome, condiz com a viciada que você é. – ele piscou em minha direção, rindo e me fazendo o acompanhar. Havia pego um vira-lata para cuidar, mais ou menos um mês atrás. Seu nome era Barry Queen, devido ao meu vício em The Flash e Arrow, e ainda demorei dois dias pra me decidir entre Oliver Allen e Barry Queen. Ele provavelmente vira meu post no instagram e por conta disso já conhecia meu bichinho pelo nome.
- Passou suas férias me stalkeando? – perguntei ainda rindo.
- Só me preocupo. – ele deu de ombros e encarou mais uma vez o bar em sua frente, nos deixando em silêncio.

- , tá tudo bem? – perguntei depois de muitas bebidas e pouca conversa, estava lhe estranhando demais.
- Está sim, por que não estaria?
- Não sei, a intenção era você me levar carregada para casa, e não o contrário. – ele apenas soltou um rosnado e olhou para baixo, parecendo perdido.
- Faz tempo que não canto, sabia? Saudade. – ele virou sua bebida em um único gole e então se levantou, andando em direção ao palco. Balancei a cabeça negativamente, rindo com Eric, o barman.
Vi conversar algo com o responsável pelo karaokê, que hoje estava parado. Me sentei em um banco próximo ao palco e pude ver que nos fundos, alguém entregava um violão nas mãos do cantor. Estranhei ao vê-lo montar o cenário com um banco, o pedestal e o microfone. Muitos em nossa volta já haviam o reconhecido e esperavam para ver o que ele faria.
Eu estava, no mínimo, curiosa.
- Boa noite. – ele sorriu, levantando as mãos em um aceno. – Muitos aqui me conhecem, eu sou , mas aqui sou só o . – ele deu de ombros enquanto ajeitava o violão em seu colo. – faz algum tempo que não faço isso, mas vamos lá, estava com saudades. – ele falava um pouco enrolado devido aos drinks que havia ingerido, era engraçado.
iniciou os primeiros acordes da música música, que iniciavam animados e então se tornavam lentos. Era algo inédito, pois como fã, não reconhecia aquela melodia.

You took my heart-shaped hourglass [Você levou a minha ampulheta em forma de coração]
And turned it over, over [E virou-a, e virou-a]
The further that I’m falling bac [Quanto mais eu estou recuando]
You bring me closer, closer [Você me traz para perto]
Cause I lost my way inside the truth [Porque eu perdi o meu caminho dentro da verdade]
Watching moments slipping through [Assistindo momentos deslizando[
My hands kept getting emptier each Day [Minhas mãos ficaram cada vez mais vazias a cada dia]


Quando sua voz invadiu meus ouvidos, me senti uma fã apaixonada novamente. Era como se eu voltasse à minha época fanática.
Me senti extasiada, e meu corpo teve todas as reações que poderia ter ao sentir aquela emoção que já não me era normal há algum tempo.

You lit the match, shook me awake [Você deu partida, sacudiu-me acordado]
The fire grew, you fanned the flames [O fogo aumentou, você acendeu as chamas]
It burned until the walls let in the light [Queimou até que as paredes deixassem entrar a luz]
We’re all passing time [Estamos deixando o tempo passar]
Looking for the rush that makes us feel alive [Procurando pela adrenalina que nos faz sentir vivos]
Living through the moments [Vivendo entre os momentos]
Trapped inside a lie [Presos dentro de uma mentira]
I need you here tonight [Eu preciso de você aqui esta noite]
Show me there’s more to life [Mostre-me que há mais na vida)
And we’re not passing time [E não estamos perdendo o tempo]


cantava as palavras com todo o sentimento que podia, ele fechava os olhos e sentia aquela melodia. Ele dividia seus olhares entre seu violão e eu, me fazendo corar com a intensidade do momento.

You took the armor on my chest [Você tirou a armadura no meu peito]
And tore it open, open [E abriu-a, abriu-a]
You saw my heart inside the mess [Você viu meu coração dentro da bagunça]
Said it’s not broken, broken[Disse que não está quebrado, quebrado]
Cause I lost my way inside the truth [Porque eu perdi o meu caminho dentro da verdade]
Watching moments slipping through [Assistindo momentos deslizando]
My hands kept getting emptier each Day [Minhas mãos ficaram cada vez mais vazias a cada dia]
You lit the match, shook me awake [Você deu partida, sacudiu-me acordado]
The fire grew, you fanned the flames [O fogo aumentou, você acendeu as chamas]
It burned until the walls let in the light [Queimou até que as paredes deixassem entrar a luz]
We’re all passing time [Estamos deixando o tempo passar]
Looking for the rush that makes us feel alive [Procurando pela adrenalina que nos faz sentir vivos]

Living through the moments [Vivendo entre os momentos]
Trapped inside a lie [Presos dentro de uma mentira]
I need you here tonight [Eu preciso de você aqui esta noite]
Show me there’s more to life [Mostre-me que há mais na vida]
And we’re not passing time [ não estamos perdendo o tempo]


Durante o final da música, se levantou e caminhou até a frente do cenário, onde eu estava, apenas com o microfone em mãos.
E ele sentou na beirada do palco e cantou todo o último refrão a capela, fazendo com que as mãos de todos ali balançassem de um lado para o outro quase automaticamente.
sorriu torto em minha direção no final da música, agradecendo a todos por aquele momento e pôr deixarem que ele tocasse ali. Ele foi muito aplaudido, e parecia ter se recuperado de qualquer bebida que tivesse tomado anteriormente, devido à euforia que tomava conta dele.
- Parabéns. – o abracei fortemente. – Quanto tempo que eu não via um show seu. – falei rindo e senti-o apertar seus braços em minha cintura, me levantando ligeiramente do chão.
- A gente pode ir embora? – ele perguntou repentinamente quando nos separamos.
- Claro. – respondi, já que estava de carona com ele e ele parecia incomodado com ainda ficar ali.
O caminho até minha casa foi silencioso, parecia pensativo e preferi o dar o espaço para o que estivesse sentindo ou pensando. Ele parecia preocupado, e apesar de querer perguntar o que estava acontecendo, preferi me abster.
- Tá tudo bem, . – ele disse, parecendo ler meus pensamentos. – Só estou pensando em algumas coisas. – ele estacionou o carro em frente minha casa e destravou as portas – Amanhã já vou estar bem, preciso dormir. – desci do carro e apenas afirmei com a cabeça, sorrindo para ele.
Acenei e me afastei do carro, esperando que ele fosse embora. Ele passou algum tempo me encarando antes de finalmente arrancar com o carro.


12


- Oi, disse quando abri a porta de minha casa.
Era domingo à tarde, e eu não tinha ideia que ele apareceria ali, como sempre. Ele percebeu minha expressão surpresa, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, lhe dei passagem para que entrasse.
- Está tudo bem? – seu rosto parecia um pouco vermelho, e apesar de achar que ele não precisasse de alguém questionando, minha língua era mais rápida que meu cérebro.
- Posso só ficar aqui um pouco? Precisava sair de casa. – ele deu de ombros e sentou no sofá.
- Claro, ! Quer alguma coisa? Água, refrigerante? – ele negou com a cabeça – Alguém pra conversar? – ele negou com a cabeça novamente.
- Só preciso ficar quieto e longe de tudo um pouco. Pode fazer o que você tiver pra fazer, juro que não vou te atrapalhar. – ele falou cruzando os dedos como uma criança.
- Vai pra lá. - o cutuquei para que ele fosse para o lado no sofá, para me sentar ao lado dele.
Peguei meu celular e me sentei, cruzando as pernas uma por cima da outra. tirou os sapatos e se esticou no sofá, deitando sua cabeça em meu colo e fechando os olhos.
Coloquei meus fones de ouvido e enquanto mexia em meu celular com uma mão, ele levou minha outra mão até seus cabelos, pedindo silenciosamente por carinho. Não era como se não fosse normal, mas fazia algum tempo que não curtíamos um domingo juntos daquele jeito.
ressonava em meu colo quando parei de mexer em seus cabelos. Estava procurando algo para fazer quando decidi ver um clipe de um artista que eu gostava e sabia que havia sido lançado no dia anterior. Antes que pudesse procurar por esse, um vídeo saltou sob meus olhos, na área de mais acessados.
Fiquei desacreditada ao abrir um vídeo de , cantando no pub dois dias atrás. Eu não sabia que alguém gravava, e muito menos que aquilo pudesse chegar até a internet. Rolando a página para ler os comentários, não poderia nem dizer que me surpreendi. Em sua maioria, todos diziam o mesmo, todos eram direcionados a mim.
Alguns perguntavam sobre o casamento de , e o porquê de ele estar se declarando para mim, enquanto outros apenas agradeciam que finalmente tudo voltara aos eixos e o "ship" estava mais vivo que nunca.
Enquanto eu assistia o vídeo novamente, foi que finalmente entendi por que estava ali. Eu não era a única que vira aquilo, Amy provavelmente estava magoada com os comentários e brigara com ele. como a manteiga derretida que fingia não ser, deve ter saído de casa chorando para não discutir. Ele esperaria a esposa se acalmar antes de conversar e resolver as coisas, mas por alguns minutos me questionei se o certo era ter vindo diretamente até minha casa.

Acordei assustada no meio da noite chamando por .
Eu não sabia no que meu subconsciente estava pensando, e muito menos sobre o que era o sonho que eu tivera, mas assim, no meio da noite, entre mil pensamentos que tive após todos os comentários que li sobre cantando e nossa relação vista de fora, uma letra nova estava surgindo em minha mente. Acendi o display do celular que me mostrava que eram 4h13 da madrugada e piscava com uma mensagem de às 2h17 avisando que chegara em casa.
Havia dormido antes que pudesse ler a mensagem.
Andei até a cozinha para abrir uma garrafa de refrigerante que estava guardada na geladeira e me sentei nas banquetas posicionadas no balcão em U que tinha ali. Meu caderno e caneta estavam posicionados, e a letra fluíra por minhas mãos, ao menos, algumas partes. Sabia que e Ed poderiam me ajudar depois.
A música era claramente sobre mim, eu não sabia o que tinha sonhado, ou como minha mente estava trabalhando tão rápido em algo que eu não estava acostumada, mas eu estava retratando a mudança na minha vida, e como eu chegara ali. Juntei um pouco do que tinha escrito ali, e juntei com algumas frases que tinha de outros dias escrevendo durante o primeiro mês pós turnê. Com uma melodia calma, aquela música poderia não ser um hit, mas eu sei que seria a maior fã dela.

- Eu preciso de ajuda – falei entrando no estúdio no outro dia a tarde e dando de cara com e Ed conversando seriamente no "sofá da criatividade" como havíamos apelidado.
- Oi, – Ed falou e apenas sorriu para mim, me dando um espaço no sofá e tentando não parecer mais tão sério.
- O que precisa? – ele perguntou.
- Uma música surgiu no meio da noite, preciso de ajuda pra terminar, falta pouco! Vou mostrar o que tenho.
- Tá acelerada, hein? – Ed falou, rindo – mas espero que possa te ajudar, porque tenho que... – ele riu e fingiu estar pensando. – Levar Alexis no médico. – Plhei para ele com as sobrancelhas arqueadas e vi revirar os olhos. - Tchau. – ele acenou e nos deixou ali, sem entender nada.
Me sentei ao lado de e puxei as folhas de minha bolsa, lhe mostrando a primeira parte que já tinha completa.

She was given the world [O mundo foi dado a ela]
So much that she couldn't see [Tanto que ela não podia ver]
And she needed someone to show her who she could be [E ela ainda precisava de alguém para lhe mostrar quem ela poderia ser]
And she tried to survive [E ela tentava sobreviver]
Wearing her heart on her sleeve [Demonstrando os sentimentos abertamente]
But I needed you to believe [Mas eu precisava que você acreditasse]

- É sobre você? – ele perguntou, encarando as folhas.
- E você. – dei de ombros e ele ficou alguns minutos me encarando em silêncio. Ele dividia seus olhos entre os meus e as folhas que estavam em suas mãos. – Tem outra parte pronta.

And she tried to survive [E ela tentou sobreviver]
Living a life on her own [Viver a vida à sua maneira]
Always afraid of the throne [Sempre com medo do que ia acontecer]

Duas horas haviam se passado quando vi finalmente pegar uma folha e rascunhar algo. Eu havia escrito algumas frases, mas não sabia se ficara bom, esperaria que ele mostrasse algo, para ver se encaixaria. Ele rabiscava a folha ao mesmo tempo em que sorria para ela.

You had your dreams, I had mine [Você teve os seus sonhos, eu tive os meus]
You had your fears, I was fine [Você tinha seus medos, eu estava bem]
Showed me what I couldn't find [Me mostrou o que eu não poderia encontrar]
When two different worlds collide [Quando dois mundos diferentes colidem]

Ele cantara a música em um tom baixo, numa melodia que provavelmente lhe viera aleatoriamente na cabeça. Eu estava arrepiada, e eu não sabia o que falar sobre aquele trecho. Pela primeira vez eu entendi o que estava acontecendo, ele parecia me pedir desculpas, mas tinha algo mais. Antes que pudesse pensar em algo para dizer, ele soltou sua voz novamente.

She was scared of it all, watching from far away[Ela estava com medo de tudo, olhando de longe]
She was given a role, never knew just when to play [Lhe deram as regras, nunca soube quando apenas jogar]


- Depois a gente encaixa nos lugares, mas acho que fica bom... E depois de "always afraid of the throne"...
- "You've given me strength to find home" - falei aleatoriamente, o cortando – Desculpa.
- Ficou melhor do que o que eu ia falar. – ele disse, sorrindo e olhando para baixo. – ... Aconteceu alguma coisa durante a turnê, que você não me falou? – ele perguntou.

She was scared, unprepared [Ela estava assustada, despreparada]
Lost in the dark [Perdida no escuro]
Falling apart [Desmoronando]

- Por que você não falou comigo? - ele perguntou, segurando minha mão.
- Eu tentei, , mas você desapareceu, lembra? Foi meio difícil, eu queria que você estivesse comigo, você me mostrou tudo, me ensinou, se tornou meu amigo, e quando eu queria conversar, não tinha com quem. Mas eu entendo, "you had your dreams, I had mine", está tudo bem, eu fiquei bem.
se levantou repentinamente, deixando todos os papéis que estavam entre nós, caírem no chão. Ele andou de um lado para o outro, passando as mãos pelos cabelos, parecendo procurar o que falar.
Depois de um tempo, fingindo olhar os papéis, eu o vi se ajoelhar em minha frente, segurando minhas mãos. Seus olhos procuravam os meus com desespero.
- Eu sou apaixonado por você, . Eu tinha meus sonhos e você os seus, mas acredito que no fundo o que eu sempre quis foi juntar os dois.
Minha boca automaticamente se abriu em um "O", pois eu sabia ao que ele se referia, ele estava confirmando tudo que eu estava entendendo aos poucos, por mais que minha cabeça preferisse negar. Aquilo que todos viam, e eu não, pois sempre achei que não poderia acontecer. A música no pub, a ida até a minha casa de olhos vermelhos. estava perdido, perdido porquê havia se apaixonado por mim. Era estranho pensar nisso, ainda mais quando parecia algo tão repentino. Ali naquele momento, eu não conseguia ver , o ídolo que eu amei durante um longo período.
Ali estava , o único amigo que eu já tivera de verdade, me contando seus sentimentos. Tudo parecia repentino, mas na verdade eu sabia que não era, sua insegurança com o casamento, a volta da viagem não querendo falar sobre Amy, ele estava sofrendo, e eu nem ao menos percebi.
- , eu...
- Você não precisa responder nada, . Eu só não podia mais aguentar isso. – ele acariciou lentamente meu rosto com os dedos e beijou minha testa após se levantar aos poucos. – Eu preciso resolver minha vida, independente do que você sinta, eu sei do que eu sinto, e eu não posso deixar outra pessoa no meio da minha confusão.
- , eu acho que ela já sabia antes mesmo de você. – falei baixo, me lembrando da conversa dela com Bridgit no dia do casamento.
- É, eu também acho. – ele falou, já na porta. – Eu gostei muito da música, , parabéns. – Vi seu corpo deixar a sala, como se não tivesse decidido ou dito nada nos últimos dois minutos que se passaram. Ri sozinha e percebi que apesar de no fundo saber o que aconteceria, tinha muito para pensar.


13


Eram nove horas da noite quando a campainha tocou. Sai pulando do quarto até a sala para abrir a porta, por mais que não esperasse ninguém e apenas sempre aparecesse de surpresa.
- , será que a gente pode conversar? - uma Amy de cabelos emaranhados e olhos ainda cheios de água apareceu em minha visão.
Meu coração ficou apertado, e eu apenas dei espaço pra que ela passasse. Fechei a porta e a acompanhei até o sofá, estranhando quando ela se recostou em meu ombro e liberou lágrimas que ainda estavam ali.
- Amy, me desculpa, eu não sei o que te falar. – falei quando senti meus olhos marejarem com sua situação. Eu sabia que eu não tinha culpa alguma, mas era horrível saber que tinha qualquer envolvimento com deixar uma pessoa naquela situação. – Eu não sabia, Amy.
- Eu sei que não, . – Ela disse, se levantando e pronunciando as palavras entre grandes suspiros para recuperar o ar. – Apesar de acreditar que apenas vocês dois não sabiam.
- Eu ouvi sua conversa com a sua madrinha de casamento naquele dia, que você disse que achava que ele sentia algo por mim, mas eu fui cega e nunca consegui ver que poderia ser verdade. – Me levantei e servi um copo de água para ela, para que ela se acalmasse um pouco mais e pudesse conversar normalmente, como parecia querer.
- Obrigada. – ela disse, me devolvendo o copo vazio. – Ele nunca percebeu, estava muito focado em conhecer alguém com os mesmos objetivos que ele.
- Sim, quando ele me contou de você ele estava tão feliz... Eu nunca ia imaginar que ele pudesse acabar tendo outros sentimentos no meio do caminho.
- , no fundo ele sabia, mas ele com certeza não queria trocar ter as coisas que ele desejava, abandonar os novos sonhos, já que você estava apenas iniciando os seus. Ele estava deslumbrado, ele me falava que se sente velho, e eu sei que ele está preocupado, mas ele me disse que preferia ser sincero comigo do que se iludir e me iludir também. Eu estou muito triste, mas pelo menos sei que ele está sendo uma boa pessoa, como sempre foi.
- Fico triste com toda essa situação. – antes que pudesse falar mais, Amy me interrompeu.
- Triste? Você deveria ficar feliz, você tem um homem maravilhoso pronto pra ser seu, . Você pode tentar dizer que não quer, mas qualquer um pode ver que seus olhos brilham em falar da amizade de vocês.
- Mas Amy...
- Sem "mas", sei que você precisa se encontrar, e digerir tudo isso, mas eu sei que no fundo você vai perceber que de onde tem uma amizade tão bonita, pode sim aparecer algo que talvez até já esteja aí - ela sorriu - não se preocupe comigo, eu vou ficar bem – ela juntou nossas mãos em meu colo, ficando de frente para mim. – Eu não estou aqui só pra chorar minhas lamentações pra você, eu estou aqui pra te pedir que cuide dele e o trate com carinho como eu sempre quis e como fiz durante esse tempo. O é um homem incrível, e eu sei que você sabe disso, mas espero que você dê importância aos sentimentos dele sem o magoar. Não te peço que sinta o mesmo, se não for o caso, mas trate a situação com carinho, ele merece. Ele também está triste, e mal, sei que ele vai passar muito tempo se culpando por ter feito isso, mas como acho que eu no fundo sempre soube, eu aproveitei minha experiência com ele ao máximo, e não o culpo por se perder no meio do caminho. – ela se levantou e me puxou com ela até a porta.
- Amy, eu nem sei o que te falar, você está sendo uma pessoa tão adorável, eu nunca esperaria isso de ninguém. Eu tenho certeza que você vai encontrar alguém perfeito pra você, você merece demais. – a abracei, pegando-a de surpresa.– Obrigada por tudo.
- Eu não tenho porquê ser uma megera se, nem que seja por um segundo, fui eu quem ficou no meio de uma história como a de vocês. Não temos porquê brigar, sempre que precisar, só me procurar, . E se algum dia alguém pensar em escrever a história de vocês, não deixe que não seja eu – ela beijou minha bochecha e acenou para mim de longe, ao entrar em seu carro.
Acenei para ela também e fiquei parada encarando o nada até o carro dela sumir ao longe.


14


havia desaparecido.
Estava há uma semana sem notícias dele. Decidi que não mandaria mensagem, não questionaria, ele provavelmente estava resolvendo tudo que deveria a respeito de divórcio, mudança de casa, e seja lá o que mais ele teria que fazer por se separar. Estava há uma semana sem notícias dele quando vi um caminhão buzinando em minha porta e através da janela pude ver que o próprio acenava para mim do banco do passageiro.
Quando sai pela porta ele já havia seguido em frente, e virado na próxima rua. Tranquei rapidamente a casa e fui andando à procura do caminhão, não demorando muito ao o encontrar na segunda casa da esquina em que ele tinha virado. abriu a porta e desceu em um pulo, me encontrando à sua espera.
- Oi, . – ele beijou minha testa. – Como vai?
- Bem, e você? – questionei de sobrancelhas arqueadas.
- Estou bem. – ele sorriu e virou-se de costas para mim, enquanto o senhor que dirigia o caminhão, abria a traseira. Ali estavam diversos móveis, eletrodomésticos, roupas... E enquanto eu encarava sua provável mudança, abrira a porta e estava admirando o cômodo – você vai me ajudar? – ele perguntou, colocando a cabeça para fora. Apenas ri e entrei em sua nova casa, que tinha o mesmo padrão da minha e de todas as outras do condomínio.
- Você realmente vai morar aqui? – perguntei, olhando para ele.
- Claro, eu recomendei esse lugar pra você porquê acreditava ser o melhor, quero o melhor para mim também. – ele deu de ombros, sorrindo. – E além do mais, – ele se aproximou de mim, colocando uma mão em meu ombro. – Fiquei sabendo que tem uma menina linda que mora nesse condomínio, quem sabe eu não consigo fazer com que ela também ache isso de mim, vai que consigo uma chance... Só espero que ela saiba que sou recém-divorciado, e isso não a incomode... – ele sorriu e eu apenas abaixei a cabeça, corando. – Okay, sem resposta ainda. Vai me ajudar a colocar as coisas no lugar?
- Claro!

- Cansei, . – falei, me jogando no sofá. Estava pingando suor, já tínhamos arrumado quase tudo, só faltava o quarto dele, que ele poderia muito bem ajeitar depois, já que só faltavam às roupas serem colocadas nos armários.
- Você é muito morta, . – ele rolou os olhos e se jogou em cima de mim, colocando todo seu peso.
- Louco, sai de cima – falei entre risadas e com a voz sufocada por seu peso.
- Nossa, não sabia que tinha comprado um sofá tão confortável assim. – ele se mexia de um lado para o outro por cima do meu corpo, se equilibrando.
- , você vai me matar. – comecei a falar entrecortado e ele se moveu lentamente até a ponta do sofá, esticando minhas pernas por cima de seu colo.
- Ah, te achei, você tava ai! – ele bateu na própria testa, fazendo graça, enquanto eu recuperava o ar. – Quer comida? – olhei para minha barriga fingindo que a ouvia roncar e afirmei com a cabeça diversas vezes seguidas. – Com uma condição.
- Lá vem – ele esticou a mão e me puxou para me sentar ao seu lado. Cruzei as pernas uma por cima da outra e fiquei de frente para ele.
- Você vai até sua casa, se arruma, e a gente vai sair pra jantar, decentemente – ele falou sério.
- Das outras vezes não eram decentemente? – perguntei, rindo.
- Um encontro, . – ele deu de ombros, parecendo ficar tímido, ignorando meu comentário.
Me calei por alguns segundos, ponderando suas palavras. queria um encontro comigo, e com uma semana separados, eu ainda não havia conseguido colocar minha mente para pensar a respeito de nós dois.
- É só um encontro, já saímos tantas vezes juntos, dar um nome a isso te assusta? – ele perguntou, parecendo chateado.
- Não, . É só que ainda não consegui pensar em tudo que tá acontecendo.
- Então me deixa te ajudar. – ele deu de ombros, quase imperceptivelmente. Ele parecia completamente tímido naquele momento, e eu não poderia achar uma atitude mais fofa e gentil.
- Tudo bem. – falei, me levantando do sofá.
- Uma hora é o suficiente? – ele perguntou enquanto eu andava até a porta.
- É sim.
- Te pego às nove. – ele piscou e se deitou no sofá enquanto eu batia a porta e fazia meu caminho até em casa.

Quarenta minutos haviam sido suficientes para tomar um banho e me arrumar, conhecia meu estilo, e provavelmente a maior parte das minhas peças de roupas e combinações. Não era como se eu tivesse tempo para ir comprar uma roupa nova.
Me sentei no sofá e comecei a bater os pés ansiosamente, não tinha como não ficar. Era , eu não sei de quantas formas diferentes poderiam ser, mas eu amava aquele homem. Havia o amado como ídolo, o amei como amigo e agora me perguntava se não o amava também como um homem, se não o desejava dessa forma. Meus sentimentos eram intensos, disso nunca tive dúvida, mas será que eu teria deixado passar que me apaixonei por ele? Será que guardei isso numa caixinha no fundo dos meus pensamentos e só eu não havia percebido? Por que, claro, além de Amy e o mundo todo, Ed havia me importunado durante a semana querendo saber de minha parte o que estava acontecendo e me contando que eu era muito cega.
Eu apenas ria e desligava em sua cara, odiava essa pressão.
Vi um vulto parado em minha janela, e logo em seguida, um vulto andando de um lado para o outro. Ri sozinha e decidi andar até a porta para encontrá-lo.
- Olá, . – falei enquanto trancava a porta, o assustando. Ele se virou em minha direção e pude ver um botão de rosa em sua mão. Sorri para ele, surpresa.
- Oi, . – ele sorriu, me entregando a flor. – Desculpa estar adiantado, você está linda.
- Obrigada pela rosa, e pelo elogio. – falei, corando. – Você parecia nervoso andando de um lado para o outro... Eu já estava pronta. – dei de ombros.
- Vamos?
- Claro, para onde vamos?
- Um restaurante italiano, claro. – ele falou rindo, como se fosse óbvio, enquanto abria a porta do passageiro para mim.
- Ainda bem que você sempre sabe como me agradar.
- E você querendo fugir de mim, olha o partidão que vai estar perdendo. – ele piscou para mim e eu ri, olhando para baixo. – Okay, sem mais piadas sobre isso – ele usou as mãos para fingir que passava um zíper em sua boca, algo que era comum entre crianças.
- Só não sei o que dizer, , está tudo bem.
Ele deu partida no carro e eu aproveitei para ligar o som, que coincidentemente tocava uma música de , ou seja, eu. Estiquei os dedos para trocar de estação e senti bater em minha mão.
- Eu amo essa música, não tira. – ele falou de forma engraçada, como se fosse um fã paranóico, logo em seguida começando a cantar a plenos pulmões. Eu ria de sua forma exagerada e não podia acreditar que ele nem ao menos bêbado estava. Me juntei a ele, cantando também alto. – Nossa, sua voz é muito parecida com a dela. – ele disse, fingindo indignação.
- Aí, que honra.
O caminho até o restaurante era curto e foi preenchido por cantorias e mais cantorias. Desde a minha música até as famosas do momento. Estacionamos em frente a um restaurante que sempre costumávamos ir, era aconchegante e ao mesmo tempo um pouco chique. Sempre nos sentíamos bem ali, então acredito que era o motivo de tê-lo escolhido. E também por ser um restaurante em que não precisaríamos de reserva, devido à sua grande disponibilidade de mesas.
desceu do carro e deu a volta no mesmo para me ajudar a descer. Não que eu precisasse de ajuda, mas era engraçada toda sua vontade de ser cavalheiro. Ele sempre fora, mas agora parecia preocupado em ser, e isso o deixava com as mãos suando.
- – ele parou em frente ao carro, antes de andarmos até a entrada do restaurante. – Você se importa? – ele juntou sua mão à minha, delicadamente.
Eu neguei com a cabeça e ele então apontou para alguns fotógrafos que tinham ali em volta e eu entendi o porquê da pergunta. Sempre havia fotógrafos em diversos restaurantes pela cidade, sempre na espera de alguém aparecer. Imaginava como deveria ser uma vida difícil, passar horas ali pela oportunidade de uma foto.
- Está tudo bem, . – ele sorriu como uma criança, feliz com a minha resposta.
Andamos juntos até a entrada sentindo alguns flashs em nossa direção. Já imaginava as notícias que sairiam no outro dia, que mal ele havia terminado o casamento e já estávamos juntos. Não iria me importar, ficava ressentida por Amy, mas sabia o que estava fazendo, eles pareciam ter conversado sobre tudo, eu apenas confiaria nele.
- Do que está rindo? – ele perguntou quando nos sentamos à mesa, e eu ria sozinha.
- Obrigada. – agradeci o garçom que havia nos entregado o cardápio. – Eu estou imaginando quais serão os títulos das matérias de amanhã. – dei de ombros, ainda rindo.
- garanhão, provavelmente será uma delas.
- Imagino que alguma vá falar algo sobre eu não ter vergonha na cara.
- E imagina quantas não vão ter falando sobre termos um caso, e o meu casamento ter sido uma farsa pra esconder sua gravidez?
Pedimos nossa comida, que por acaso era a mesma de sempre. Nem mesmo precisávamos mais do cardápio, e então um silêncio se manteve por alguns minutos, até o garçom trazer à mesa o nosso vinho escolhido. realmente queria que aquele fosse um clássico primeiro encontro, flor, restaurante, massa, vinho... Eu estava amando, e percebia isso a cada segundo que passava ao seu lado.

- Me conta o que você estava pensando enquanto comia. – sai de meus devaneios ao ouvir sua voz e vi que ele me encarava.
- É bobeira.
- Não me importo – ele deu de ombros.
Eu não estava pensando nada além do que pensei durante todo o tempo desde que nos conhecemos, como eu havia chegado até ali.
- Eu só to me perguntando como tudo chegou até aqui. Eu estou feliz, mas nunca paro de pensar nisso. Caramba, , você era um cara da TV que eu curtia. Ou no máximo, o cara da foto na minha gaveta. – falei rindo. – É estranho como tudo mudou dessa forma.
- Por mais que eu ame isso, eu acho que tá na hora de você parar de pensar assim, . – ele segurou minha mão por cima da mesa. – Eu sei que você gosta de lembrar disso, mas você se fecha nesses pensamentos ao invés de aproveitar isso tudo que aconteceu. Eu estou aqui, tentando mudar as coisas entre nós, depois de mil trapalhadas que eu mesmo fiz, e você ainda não desapegou desse pensamento. – ele falou, sério.
Me perdi em quanto tempo havia ficado em silêncio pensando em suas palavras. Elas haviam sido duras ou apenas me afetaram demais ao ponto de me fazer pensar isso?
-Você pode tentar? – seu olhar brilhava.
Acenei com a cabeça, afirmando. Eu entendi o que ele queria dizer, eu o via como meu ídolo, não como um amigo apaixonado. Eu ainda não havia saído do transe da música que escrevemos. Eu ainda não havia superado essa colisão entre minha vida e a dele, e acho que estava mais do que na hora de acreditar quando ele me falara isso. E mesmo que eu pensasse assim, nele como um ídolo... Eu não devia estar mais preocupada em pensar no quanto gosto dele invés de como ele gostava de mim?
Percebi que estava sendo cega há muito tempo, tanto para perceber seus sentimentos, quanto os meus.
Vi estalar os dedos em minha frente, mas não conseguia sair daquele transe. Momentos começaram a vir em minha mente. A primeira vez que nos vimos, a primeira vez que saímos, a gravação do meu primeiro vídeo, o lançamento do primeiro álbum, a falta que senti de tudo isso durante a turnê, os sentimentos de repreensão que eu tinha em relação ao casamento, os quais eu mesma escondi de mim. A dor que eu sentira ao ouvir que ele sentira minha falta, naquele dia da prova do terno, era algo que eu deveria ter notado, talvez eu não tivesse o incentivado a se casar... Eu não sei, talvez durante dois anos muitas coisas tenham realmente passado batido, mas isso não significava que eu deveria prolongar por mais tempo isso. Não é uma hora para “e se” ou “talvez” se ele estava ali me esperando. Eu deveria não só dar uma chance à , eu deveria ME dar uma chance com alguém que eu goste tanto quanto gosto desse homem.
- , tá tudo bem? – ele estalou os dedos mais uma vez.
- Tá sim. – sorri para ele. – Mesma sobremesa de sempre?
- Desde que eu possa roubar um pouco da sua.
- Sempre pode. – falei rindo e chamei o garçom.

- Onde você pensa que vai com essa carteira aí? – colocou a mão sobre a minha que tirava a carteira da bolsa, fazendo com que ela caísse jogada novamente.
- , a gente vai dividir, por favor. – falei, puxando a carteira mais uma vez, o garçom que nos atendia apenas ria discretamente da cena.
- A gente não vai dividir, , eu te convidei!
- E daí? – perguntei, brava.
- Por favor. – ele fez bico – Da próxima vez a gente finge que eu deixo você pagar, pode ser? – comecei a rir de sua cara de pau e desisti da briga, acharia um jeito depois, não é como se eu não tivesse o número de sua conta. passou o cartão e então deu seu braço para que eu entrelaçasse o meu. – Vamos, my lady?
- Ó, que cavalheiro. – falei, entrando na brincadeira.
- Preparada? – ele perguntou quando olhou para fora e viu a quantidade de paparazzi que estavam ali, já que àquela hora todos já sabiam que estávamos ali. Afirmei com a cabeça e saímos de dentro do restaurante, regados por uma tempestade de luzes.
guiou nossos passos o mais rápido possível, e dessa vez entrei por minha conta no carro, sem tempo para cavalheirismos, pois as câmeras estavam nos perseguindo. Fizemos todo o percurso rindo, até mesmo depois de entrar no carro e sofrer para sair do lugar com ele.
- Até mesmo sofrer com os paparazzi é mais divertido com você. – ele falou me olhando de lado depois de conseguirmos desviar da bagunça de pessoas e pegar o caminho de casa. Concordei com ele, pois sempre nos divertíamos até mesmo nesses momentos, de certa forma, constrangedores. – Me fala o caminho da sua casa. – ele falou sério e eu olhei para ele, tentando entender. – Vai que é muito longe da minha. – ele deu de ombros e explodimos em risadas.

estacionou em frente minha casa, descendo rapidamente antes que eu abrisse a porta. Aquilo já estava engraçado demais, ele ainda parecia nervoso se esforçando para fazer tudo perfeito.
Antes de descer, peguei meu botão de rosa que havia deixado em cima do painel. Ele me acompanhou até a porta, parando de frente para mim e deixando nossas mãos grudadas.
- Espero que você tenha gostado tanto quanto eu. – ele disse, nervoso. – Desculpa se tinha algo errado, não sei. – ele deu de ombros.
- , foi tudo maravilhoso... Eu nunca tive um primeiro encontro. – sorri para ele, ficando tímida também.
- Então, eu fui seu primeiro encontro? – ele tomou seu perfil de volta me fazendo rir.
- Foi. – levei minha mão ao seu rosto, fazendo um carinho leve. – Obrigada por essa noite.
- Eu que agradeço, . Obrigado por aceitar meu convite...
Ele colocou uma de suas mãos em minha cintura e aproximou nossos corpos gradualmente e fez parecer como a cena de um filme. Acredito que sempre pareça uma cena de filme.
olhou em meus olhos como se pedisse permissão e eu me perdi em seu olhar, aproximando-me cada vez mais de seus lábios que nunca me pareceram tão convidativos.
O que parecia uma cena lenta se tornou um flash quando nossas bocas se chocaram, primeiro em um selinho desajeitado, que foi se transformado em um grande primeiro beijo quando tomou controle e fez com que nossos corpos entrassem na dança. Suas mãos pararam em minha cintura, segurando nossos corpos colados, e minhas mãos ditavam o ritmo do beijo em sua nuca. O que poderia ser um grande e longo beijo apaixonado se tornou um momento desesperado, onde nossas línguas brincavam, se conhecendo, e parecíamos ansiar por mais a cada nova sensação que era passada ali.
- Acho que eu também sou apaixonada por você. – sorri para ele quando finalizamos o beijo com diversos selinhos.
O sorriso de não poderia ser descrito nem em um milhão de belas palavras, por mais que várias delas estivessem passando pela minha cabeça. Ele tinha um sorriso inocente, um sorriso que me inspirava. E eu sabia que a partir dali, inspiraria por muito tempo. Eu era louca por aquele homem, só demorei demais para perceber.


Epilógo


Por .

Estava ali há vinte minutos, parado no altar. Eu não sabia quanto tempo demoraria até tudo começar, eu estava ansioso e não conseguia parar de balançar meu corpo de um lado para o outro. Ed já viera falar comigo, me avisara que não fugiria, pois ela estava linda, vestida de noiva a algumas paredes de distância, e estava tão ansiosa quanto eu para tudo acontecer logo.
Sabia que ela ficaria ansiosa, assim como ficou 01 ano atrás, quando divulgaríamos nossa primeira parceria na música. No mesmo dia em que a surpreendi.

Flashback
-, eu quero muito gravar logo esse vídeo – disse ansiosa, enquanto chegávamos ao estúdio em que supostamente faríamos a filmagem do videoclipe de nossa primeira parceria. Eu havia retomado minha carreira após um ano juntos, com o incentivo dela, e agora um ano depois de retomar, gravaríamos nosso primeiro clipe, de uma música que escrevemos juntos.
- Eu também quero, – dei um selinho nela e entramos no estúdio, onde todos já estavam preparados para o que aconteceria.
Eu havia preparado uma surpresa para , e eu não poderia estar mais nervoso que naquele momento. Todos ali sabiam o que estava planejado, cada um tinha um passo a dar, e ela sem dúvida nem sonhava com toda a produção que eu havia feito.
- , , vocês não têm ideia do que aconteceu – Ed chegou desesperado, nos contando o que já havíamos combinado – foi postado um vídeo amador da música de vocês há quinze minutos, e ele já tem milhões de visualizações!
- Como assim, Ed? – perguntou.
- Eu não sei, . Mas eu acho que podemos ver até de torná-lo oficial, não sei! Tava tudo preparado pra gravar, acho que a pessoa sabia e fez de propósito. Nós não sabemos como aconteceu, é completamente amador, mas encantou os fãs de vocês – ele deu de ombros – estamos tentando descobrir como aconteceu.
- Cadê? Quero assistir – me olhou, perdida. Ela estava decepcionada, eu sabia disso. Ela estava ansiosa com aquela gravação, me sentia até um pouco mal, mas sabia que ela seria compensada.
Ed apontou para que nos sentássemos no chão, em frente a uma grande tv que havia ali. Tudo estava pronto para rodar o clipe, que realmente havia sido postado no youtube. Ela odiaria saber que o mundo havia visto antes dela.
- Solta logo isso aí, Alexis – falou, brava.
O clipe era todo em preto e branco, feito com uma câmera de ótima qualidade, mas ainda assim era claro de ser amador. Era feito com a nossa câmera. E durante todo momento que nossas vozes soavam naquela música, as imagens que passavam eram imagens de . Vídeos nossos na casa dela, na minha. Vídeos dela na cozinha, vídeos dela assistindo televisão, alguns até mesmo dela dormindo. Todos que eu havia gravado durante meses. A música falava sobre nós dois, sobre a nossa história, o nosso amor, e eu não achava nada mais justo que mostrar ele da forma mais pura, mostrando o nosso dia a dia.
Ela me encarava, indignada, sabendo que só eu poderia ter gravado aqueles nossos momentos. Eram momentos só nossos, coisas simples que nos representavam, fosse em casa ou fosse em nossos passeios quando queríamos apenas andar um pouco. Foram meses de preparo, e ela nunca nem ao menos notou uma câmera ligada em cima do balcão de sua própria cozinha. Ela ser desligada talvez tenha me ajudado de uma forma inimaginável. me deu um tapa no ombro, irritada com tantas imagens suas, quando a mandei olhar bem e prestar atenção no final. Ela rolou os olhos, mas se virou para frente de novo.
Eu e estávamos brigando na cozinha da minha casa, por algo que eu mesmo havia provocado, eu queria que brigássemos, para que ela pudesse se lembrar disso quando assistisse. Quando ela viu de onde era o vídeo ela me olhou, brava, seu rosto havia tomado um tom de vermelho quase que instantaneamente, apenas coloquei meu indicador em meus lábios, sinalizando para que ela fizesse silêncio e olhasse para a tela. No vídeo, estava muito irritada, e então ela fez o que sempre fazia e eu havia me acostumado. Ela se virou de costas, e naquele momento eu apenas rezei para que ela durasse alguns segundos assim, já que ela sempre só se virava novamente para mim quando eu pedia desculpas. Quando ela se virou e ficou parada, com o olhar para cima, sem nenhuma paciência, eu me virei para a câmera que nos gravava e acenei, fazendo com que ela risse ao meu lado. Ali, invés de olhar a cena, eu encarei minha namorada assistindo. Sua reação estava sendo gravada, mas eu não perderia aquilo por nada, minha ansiedade foi a mil. Seus olhos começaram a lacrimejar e então soube que a parte principal do vídeo já passara. Depois de acenar para a câmera, eu puxei uma pequena caixinha de veludo do bolso de minha calça e ajoelhei para uma de costas, abrindo a caixinha que mostrava um anel de noivado. Fiquei por poucos segundos ali, com medo de que ela se virasse, e então me levantei, guardando a caixinha e lançando um olhar para a câmera antes de me aproximar de e pedir desculpas em seu ouvido, fazendo com que ela me abraçasse.
Vi seus olhos derramarem inúmeras lágrimas ao meu lado enquanto a tela escurecia aos poucos, indicando o fim do vídeo. Ela deixara seu olhar perdido na televisão, enquanto todos em volta nos olhavam. Lágrimas não paravam de escorrer em seu rosto, então me ajoelhei em sua frente, limpando as gotas que caiam ali e puxei novamente a caixinha de veludo do bolso como fizera no vídeo que ela vira segundos atrás.
- Eu te amo, – ela se jogou em cima de mim, me derrubando e nos fazendo rolar no chão. Todos em nossa volta riam enquanto tudo era gravado, e eu sabia que aquele seria meu vídeo preferido na vida, ela dissera sim, sem nem mesmo me deixar fazer a pergunta propriamente.


Meus olhos marejavam já com lembranças, eu mal podia esperar como seria em alguns minutos. Ouvi a música da entrada dos padrinhos tocar e meu coração acelerou de uma forma que acreditava que não podia acontecer. Eu não prestava nem mesmo atenção nas pessoas que se posicionavam em meus dois lados, vi vultos de vestidos lilás escolhidos por para as madrinhas, e dos rapazes com suas flores no bolso do terno. Quando a música parou, olhei para os lados desesperado, esperando que a música escolhida para a entrada de minha futura esposa começasse a soar logo pelos alto-falantes.
Todos riam de minha ansiedade e meu olhar perdido no fundo da igreja, foi então que vi Ed sair do meu lado, e me lembrei que para a entrada de , isso seria necessário. Ali soube que estava chegando o momento, e me aliviei em saber que tudo estava realmente acontecendo.
A marcha nupcial soou, e as portas da igreja foram abertas pelas duas senhoras que esperavam pelo sinal. não tinha família, Ed era o mais próximo de um irmão que a mulher tinha, então havia pedido para que ele entrasse com ela naquele momento tão especial, já que não queria atravessar a igreja sozinha em seu casamento. Ele chorou sem vergonha alguma ao ouvir o pedido da garota, claro.
E agora ali estava Ed, trazendo minha mulher para o altar, para me entregá-la e para deixar com que nos tornássemos marido e mulher.


FIM



Nota da autora:Eu já li milhões de vezes e ainda não "desapaixonei" desse epílogo!
Sofri muito pra escrever essa história, porque não foi fácil fazer meu próprio nenê se casar com outra, por mais amorzinho que ela fosse hahahaha
Queria agradecer a Tatiane M., que deixou a ideia da moça no karaokê que é aplaudida pelo ídolo dela, no classiffobs, quando vi essa ideia e peguei essa música tudo ficou claro na minha mente. Obrigada pela ideia maravilhosa e espero que tenha ficado feliz com toda a história!
Obrigada Viih, que fez minha capa maravilhosa, pela paciência comigo hahaha E obrigada a você que tá aqui lendo, espero muito que tenha se apaixonado por esses personagens assim como eu, e deixe um comentáriozinho pra me fazer feliz!
Se quiser conhecer meus outros dois Logan's, já que originalmente meus pps sempre são Logan's hahaha.



Outras Fanfics:
04. She Will Be Loved [Ficstape/Shortfic]
Uma Criança com Seu Olhar [Mixtape Brasil 2000/Shortfic]


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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