Última atualização: 08/02/2019
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Prólogo

2010 – Brasil

andava a passos rápidos em direção a sala quatro, finalmente havia a encontrado. Tinha recebido instruções da funcionária da secretaria da escola, mas como sempre teve uma memória péssima, acabou não decorando as instruções, e por isso estava atrasado. Hoje seria seu primeiro dia de aula na escola nova no estado novo, era de Goiás e havia se mudado para o Rio Grande do Sul, pois jogaria na categoria de base do Grêmio. estava nervoso, querendo ou não conhecer pessoas novas lhe deixava cheio de expectativas, positivas ou não.
Enfim, chegou em frente a sala e pode verificar que ela estava com a porta fechada, para deixá-lo ainda mais desconfortável teria que interromper a aula. Bateu à porta fazendo uma leve careta, e logo a mesma foi aberta pelo professor.
– Oi, me desculpa o atraso, sou aluno novo e acabei me perdendo pelos corredores. – sentiu as bochechas esquentarem.
– Ah, claro, fiquei sabendo de sua chegada – o professor sorriu, trazendo confiança ao jovem – Seu nome é…?
– ele respondeu baixo.
– Certo, seja bem-vindo ao colégio, espero que se adapte aqui, qualquer coisa você pode procurar a mim, aos outros professores, ou a sua colega de turma , que é a representante de sala e lhe passará tudo para que não fique perdido. – acenou para o rapaz que abriu um sorriso tímido ao vê-la.
– Tudo bem, muito obrigado. – ele caminhou a passos rápidos para uma carteira vazia que avistou, consequentemente era atrás da representante. Ela se virou para trás, cumprimentando-o.
– Seja bem-vindo, , estou aqui para ajudá-lo no que for preciso, viu? Qualquer coisa pode me procurar. – ela abriu um lindo sorriso metálico. Além de ser muito simpática, a garota despojava de uma beleza que não passou despercebido por ele. Nota mental: se aproximar o máximo possível dela e tentar algo mais.
– Eu agradeço muito. – a garota se virou para frente, anotando as tarefas que o professor escrevia no quadro. Ele a imitou, abrindo a mochila e pegando seu caderno para que pudesse anotar tudo aquilo também.

***

O sinal para o intervalo tocou, ajeitou seu material, e virou-se para o rapaz.
– Como eu já havia acabado a tarefa de português antes do tempo previsto, aproveitei e fiz seu horário de aulas…
– Nossa, você é muito legal… Obrigado. – ele pegou o horário que ela estendia em sua direção. Estava todo customizado com canetas de várias cores para matérias diferentes.
– De nada, . – ela alisou o braço dele – Sou representante de turma, preciso recepcionar a todos os alunos de forma mais legal possível. – abriu seu característico sorriso.
– Mesmo assim, muito obrigado mais uma vez. – ele sorriu sem graça.
– Que isso, não foi nenhum trabalho. – deu de ombros. – Tem alguma matéria que você tenha dificuldade?
– Matemática, aqueles cálculos simplesmente não entram na minha cabeça. Minhas notas na outra escola eram péssimas nessa matéria. – ela riu.
– Se precisar de ajuda com a tão temida, pode me pedir, graças a Deus não tenho problemas com ela e…
– Oi, amor. – Jonathan apareceu na sala da moça a interrompendo. Lhe deu um selinho rápido.
– Oi, Johny. – sorriu para o namorado. – Esse é , começou hoje na escola, estava passando algumas coisas pra ele, por isso ainda não tinha ido ao intervalo.
– E ai, . – o rapaz estendeu a mão para ele, que rapidamente apertou.
, ele é Jonathan, mais conhecido como Johny, meu namorado.
– Prazer, Johny. – sorriu forçado para o moço.
Parece que seus planos futuros de tentar investir na garota bonita foram desfeitos com sucesso, também, a quem ele queria enganar? era muita areia pro seu caminhãozinho, teria que se contentar com a ajudinha singela dela em matemática e que já estava de bom tamanho.


Capítulo 1

Me perdi pelo caminho
Mas não paro, não
Já chorei mares e rios
Mas não afogo não
Sempre dou o meu jeitin
É bruto, mas é com carin
Porque Deus me fez assim
Dona de mim


(Iza – Dona de mim)

Atualmente – Espanha

suspirou, enquanto abria o portão da casa, estava tão esgotada, ao menos aquele dia não precisaria dormir com nenhum cliente, dormiria em sua cama. Entrou na casa, e na sala pode avistar mexendo no celular, completamente distraída, a amiga não havia precisado trabalhar, era seu dia de folga.
– Achei que você dormiria com cliente hoje. – negou, se jogando no sofá ao lado da amiga, tentando olhar o celular dela.
– Graças a Deus não, por Deus, estou morta de cansaço. Para ajudar era o senhor Denvers. – revirou os olhos. – Aquele velho não aguenta mais nada, mas tive que fazer vários strip tease para entretê-lo…
– O senhor Denvers é fogo, pelo menos você não precisou transar, tudo tem seu lado bom. – elas riram.
– Quando Inês me disse que era ele, fiquei mais tranquila, não estava afim, aliás, eu nunca estou afim. – ela suspirou fundo.
– Eu te disse que essa vida nunca foi fácil, , você me escutou? De jeito nenhum. – se aproximou mais da amiga, a abraçando de lado e dando um beijo na testa dela.
Chica, eu imaginava que era difícil, mas jamais imaginei que fosse tanto. – aninhou-se a amiga – Não tive escolha, ou era isso, ou voltar para o Brasil, e pra lá eu só volto com meu diploma no braço.
– Teimosa feito uma mula, você se lembra que eu tentei te convencer do contrário quando aconteceu tudo aquilo? – ela assentiu.
– Sim, você tentou, porém não rolou. Mas eu não me arrependo, ao menos estou estudando, e falta tão pouco, é nisso que eu me apego...

FLASHBACK – Alguns meses antes...

não sabia o que fazer andava sem rumo pelas ruas de Barcelona com sua mochila nas costas e empurrando sua mala de rodinhas, sentia-se completamente sem rumo, não tinha pra onde ir, tinha sido expulsa de onde morava de forma tão injusta. Não conseguia entender porque Lisa havia acreditado naquele homem tão sem escrúpulos que ela mal conhecia, se namoravam há dois meses era muito. Poxa, elas eram primas, se conheciam a vida toda… Era difícil digerir aquilo.
suspirou fundo, procurando o número de , sua melhor amiga, não tinha mais a quem recorrer se não ela. Discou e no terceiro toque foi atendida.
Hola, chiquita! – saudou de forma animada. Mas a resposta não vinha, somente uma respiração barulhenta do outro lado da linha – , o que houve?
, eu… – suspirou – Eu fui expulsa, não tenho pra onde ir…
– O quê? Como assim? Aonde você está? – já se levantava da cama ao qual estava deitada, vestindo uma calça as pressas. Rapidamente anotou o endereço e correu para encontrar a amiga – Tenta ficar calma, eu estou indo pra ai, ok? – com sua última fala desligou o celular.
pegou um táxi, não era adepta a esse meio de transporte, mas percebeu só pelo tom de voz da amiga que ela estava com graves problemas, o que fez com que ela ficasse com o coração apertado, queria chegar o mais rápido possível ali. Afinal, o que poderia ter acontecido para que ela não tivesse para onde ir?

*

Todos estavam reunidos para o aniversário de oito anos de Pietra, a garotinha corria de um lado para o outro pelo local, era adorável ver o quão ela estava feliz com a comemoração que lhe era oferecida. suspirou fundo, tinha adiantado os estudos para ficar na festinha da priminha, mas tudo o que ela mais queria era se trancar em seu quarto e ficar por lá até que a festa acabasse. Tudo por causa daquele olhar que o novo namorado da sua prima Lisa lhe lançava. Tinha tanta luxúria que demasiava nojo a garota, estava vestida, mas era como se não o tivesse.
Aquela tortura tinha começado quando Lisa havia o levado sexta-feira passada até a residência da família para apresentá-lo como seu namorado. Ramon, não conseguiu esconder de Lisa que tinha achado sua prima brasileira muito bonita, e desde então, pelas três vezes que eles haviam se encontrado os olhares nunca paravam. De fato, ele não havia tentado nada com ela, mas sabia que era questão de tempo.
Ela respirou fundo, morava de favor na casa da tia para que pudesse realizar seu sonho que era estudar psicologia na Espanha, em uma das melhores universidades do país, a de Barcelona. Para que pudesse realizar seu sonho, precisou abrir mão de muitas coisas: de sua família, amigos, país e… Namorado. Tinha conseguido uma bolsa integral e durante esses quatro anos que morava ali com a tia e suas duas primas, nunca trabalhou, os pais não queriam, e ela nunca se opôs, afinal, queria se dedicar 100% aos estudos. Seus pais davam a tia uma ajuda de custo pequena, mas que auxiliava nas despesas da casa.
Ela suspirou fundo, levantando-se da mesa em que estava para que pudesse pegar um copo d’água, daria um beijo em Pietra e se trancaria no quarto, era a coisa mais sensata a se fazer, não queria problemas. Foi quando a voz que ela mais temia ouvir foi direcionada a si e para agravar a situação, estava sozinha no cômodo.
– Está quente, não? – se virou completamente surpresa com Ramon a sua frente.
– É. – ela jogou o resto da água que bebia na pia e estava pronta para sair quando o rapaz segurou o braço dela, a impedindo.
– Só por que eu cheguei você quer ir embora? – ele abriu um sorriso galanteador – Por favor, que isso.
– Me solta. – ela tentou se desvencilhar dele – Eu não quero problemas, você é namorado da minha prima.
– Sim, Lisa é linda, mas você… Você é maravilhosa, largaria sua prima em um piscar de olhos se você me desse um pouquinho de bola.
– Você está se escutando? Por Deus! – o olhava incrédula – Eu não quero nada com você, jamais! Agora você pode me soltar, por favor?
– Não, não posso… – ele se aproximou perigosamente. – Meu Deus, você emana algo surpreendente, eu não consigo olhar pra você e não querer te beijar. – ele a encarava fixamente, tinha o corpo próximo dela.
– Você deveria respeitar Lisa, ela realmente gosta de você. – conseguiu se soltar dele, agora caminhando para o mais longe possível do rapaz.
– Brasileirinha... – ele suspirou com um riso preso, rapidamente a alcançando. A puxou pra si, espalmou as mãos no peito dele, de olhos arregalados.
– Me solta, por favor! – ela dava socos no peito dele.
– Você é muito linda… – se aproximou dela, lhe beijando. Ela tentava se desvencilhar, mas não conseguia se soltar. Um grito estridente fez com que Ramon rapidamente soltasse . Ela lhe deu um tapa forte no rosto.
– O que está acontecendo aqui? – Lisa encarava a cena incrédula.
– Simples, seu namorado me beijou a força, esse porco imundo não te respeita, Lisa!
– É tudo mentira, essa garota está tentando me seduzir, estava dando em cima de mim desde que me conheceu.
– Você é muito nojento e mentiroso, jamais eu faria algo assim com a Lisa, ela é minha melhor amiga!
– Amiga, claro…
– Chega! – Lisa gritou assustando aos dois. – Eu tenho olhos e sei muito bem o que vi…

*

– Em quem você acha que ela acreditou? – secou os olhos, dando um sorriso forçado.
– Sua prima é uma tapada, sério. – encarava a amiga incrédula. – Como alguém escolhe um macho ao invés da própria família?
– Sinceramente, não sei. Eu estou tão decepcionada que não quero saber de ninguém daquela família, e mesmo que me implorassem de joelhos eu nunca mais voltaria a morar ali. – fungou – O fato é que eu não tenho pra onde ir, ! – a amiga abraçou de lado, lhe passando conforto.
Chica, hoje você não dorme na rua, mas você sabe que não pode ficar lá comigo, certo? – elas suspiraram fundo.
– Sim, e eu não sei o que fazer, estou me sentindo completamente perdida. – lhe deu um beijo na testa, tentando confortá-la.
– Já ligou pro seus pais? – negou.
– Provavelmente tia Flores deve ter ligado para eles e acabado com a minha raça, estou tão envergonhada. – tampou o rosto ao proferir a frase.
– Você não deve sentir vergonha por algo que não tem culpa. – ela alisou o braço da amiga – Deve ligar sim, e explicar sua versão dos fatos, duvido que seus pais deixem de acreditar em você, eles te conhecem, eles te criaram. – estendeu o celular a – Liga, você não perde nada… – a estudante de psicologia mordeu os lábios, procurando o número da mãe e discando.
– Mãe?! – ela falou assim que a mulher atendeu ao telefone.
Filha, já estou sabendo, sua tia me ligou e não consigo acreditar que você seja capaz de algo assim.
– Eu não fiz, mãe, eu juro! Mas tia Flores não quis acreditar em mim, preferiu acreditar na versão da filha dela, afinal de contas, eu sou a intrusa da casa. O que me dói e que moro com elas há quase quatro anos, elas preferem acreditar em um estranho. – sentiu que lágrimas voltavam a descer de sua face.
Tinha que ser irmã do seu pai, minha família jamais faria isso. – pode escutar um resmungo de seu pai. A mãe conseguiu arrancar um breve sorriso da filha. Era assim, ela sempre comparava as famílias – Acreditamos em você, ok? Fique tranquila.
– A senhora não tem noção do quão gratificante é saber disso, as pessoas mais importantes da minha vida acreditam em mim. – ela sorriu em meio as lágrimas.
Mas é claro que acreditamos, meu amor – suspirou fundo – Mas, diante das circunstâncias, achamos melhor que volte pra cá. – sentiu a garganta fechar, não podia voltar para o Brasil, não ainda.
– Mãe, por favor, falta apenas um ano para que eu me forme, não posso jogar tudo pela janela agora.
O fato é que com o dinheiro que mandamos, você não consegue se bancar ai, querida.
– E se eu arrumasse um emprego? Então eu conseguiria ficar, certo? – a mais velha suspirou fundo – Mãe, eu não posso jogar tudo fora, foram quatro anos de estudo, se eu voltar para o Brasil, nem sei se conseguiria reaver as coisas que aprendi, teria que começar tudo de novo, prestar vestibular… Por favor?
Filha, a única segurança que tínhamos, bem ou mal, era sua tia, agora, sem ela, você está sozinha em um país completamente diferente do Brasil.
– Mãe, por favor, me dê esse voto de confiança, eu posso arrumar um emprego, seria somente esse ano. Confie em mim. – a mãe sentiu pena da filha, era tão injusto que tão perto de se formar, as coisas desandassem daquele jeito.
Arrume um emprego primeiro, caso não consiga, você volta pra cá, combinado?
– Combinado. – ela deu um sorriso um pouco mais animado.
Onde vai ficar, meu amor? – perguntou curiosa. – Se eu pudesse pegaria o primeiro avião e iria para aí, mas você sabe, seu pai trocou de trabalho agora. – suspirou, preocupada. – E caso você não arrume o emprego, vai precisar voltar pro Rio Grande, é importante guardar o pouco de dinheiro que temos pra essa ocasião.
– Na casa de , a minha amiga que fiz aqui em Barcelona, sabe? As das fotos do instagram. E tudo o que eu mais queria era um abraço seu, mãe. – mordeu os lábios, tentando controlar o choro.
Meu amor, seja forte, e entrega tudo nas mãos de Deus, Ele sabe de tudo. – a mãe agora andava pela sala preocupada. Sua primogênita completamente sozinha ali estava matando-a. – Ah, eu sei quem é sim. Cuide-se, ok? Me mantenha informada. – a mãe tentou sorrir. – Filha, eu te criei bem, sei que jamais faria algo assim, em nenhum momento cogitei acreditar.
– Você não tem noção do quão importante pra mim é escutar isso. E pode deixar que confiarei em Deus sim – sua voz embargou ao fim da frase. Ela respirou fundo, se recuperando – Sim, vou te manter informada. Te amo muito.
Também te amo, meu amor! Se cuida, e qualquer coisa, independente do fuso horário me ligue, querida, sem hesitar.
– Sim, pode deixar. – suspirou, mandando beijinhos pelo telefone.
– Pelo pouco que entendi, ela quer que você volte? – concordou com a cabeça. – E o que pensa em fazer?
– Eu vou arrumar um emprego, ou eu não me chamo Darlozo! – comentou mais animada, limpando os resquícios de lágrimas da face – Eu vou dar a volta por cima.
– Sim, isso ai, gostei de ver. – a abraçou – Agora vamos pra casa, aproveitar que as meninas estão trabalhando, e ninguém vai te ver entrar lá, é melhor que não saibam, podem contar a Inês. – assentiu enquanto caminhavam em direção ao transporte público para que pudessem chegar ao destino.

***

Havia se passado um mês depois do fatídico dia, não havia conseguido nenhum trabalho e, aquilo estava a desesperando, pois o período letivo começaria em setembro, faltava ainda dois meses, mas a preocupava. Estava morando em um quartinho, a qual havia alugado com a ajuda de que havia juntado suas economias e a emprestado. O problema é que o dinheiro da amiga já estava acabando, e não podia recorrer aos pais.
Suspirou frustrada, enquanto esperava em uma cafeteria que chegasse. E isso não demorou a acontecer.
Chica! Tudo certo? – estava com o sobretudo preto de praxe, para esconder a roupa curta que usava. Sua maquiagem estava borrada, havia ido direto para a cafeteria.
– Mais ou menos, mas você está infinitamente pior que eu…
– Não quero nem me olhar no espelho, vim do motel direto pra cá. – bocejou longamente – Alguma novidade? – chamou com a mão a garçonete do local. Tudo o que ela mais precisava era tomar um café bem forte para renovar suas energias.
– Nada ainda, até para ser garçonete eles querem experiência, estou chocada com isso, porque é ridículo. Fiz algumas entrevistas, mas não coloco nenhuma expectativa. – suspirou – Eu não vejo outra solução senão me tornar g…
– Nem termina essa frase, nós não vamos voltar nesse assunto. Você não é pra isso, ! Eu já estou acostumada, mas você, não. – sempre que se sentia desesperada colocava o assunto em pauta, mas sempre a boicotava.
– Você também não teve um começo? – ela a questionou – Eu estou me vendo sem saída, e voltar para o Brasil não está nos meus planos.
– Não, eu já disse! – suspirou frustrada. – Vamos dar uma olhada, tem que ter algum bar precisando de garçonete, recepcionista, sei lá e então com a ajuda de custo de seus pais já dá pra continuar no quartinho.
, por que nunca tentou arrumar outra coisa? – amiga suspirou frustrada.
– Por que eu também me vi sem saída, e virar garota de programa me foi a única solução. – deu de ombros, como para afirmar que ela não poderia lhe julgar – , quando você entra nesse mundo, é difícil sair, entende? Eu estou devendo muito para Inês, é vestimenta, alimentação, convênio médico, enfim… É uma dívida alta, eu não tenho condições de pagar tudo isso a ela, não ainda. – enrugou a testa.
– E ainda suas economias você está gastando comigo – mordeu os lábios.
– Não é como se fosse me ajudar a sair dessa vida agora, é complicado… – torceu sua boca – A diferença é que eu não tenho ninguém, já você… – deu de ombros – É por isso que não quero que você se afunde nisso. – a garçonete lhe trouxe seu café puro.
– Sim, eu entendo. Mas você precisa concordar comigo que voltar para o Brasil sem um diploma nunca foi uma opção pra mim. Meus pais investiram tudo para que eu pudesse estudar e realizar meu sonho, sofreram comigo para que eu pudesse ganhar minha dupla cidadania, e olha que não foi nada fácil. – ela respirou fundo para retomar a fala. – Eu tenho três irmãs menores, e somente o meu pai trabalha em casa para sustentar todo mundo, e ainda me manda um pouco de grana aqui. Eu preciso dar esse orgulho a eles, eu preciso voltar psicóloga pra casa.
– Ai, … Tem certeza que quer isso mesmo? Não é fácil, vão ter caras que você vai ter que transar sentindo nojo, apesar de terem muita grana. É diferente de ter um namorado, quando você faz programa, o prazer é sempre do cliente.
– Eu imagino. Estou tentando arrumar outra coisa, mas já, já as aulas começam e eu continuo nessa, não dá, chiquita. Que seja o que Deus quiser, mas sim…. – respirou fundo, cansada, não ia mais tentar convencê-la do contrário, se queria, ela seria garota de programa. Ela tomou seu café de uma vez, e se levantou da mesa, assustando a amiga.
– Vamos lá, vamos conversar com Inês. – arregalou os olhos, surpresa.
– Assim no seco? – quis rir, mas se segurou.
– Mas você não quer virar garota de programa?
– Não é que eu quero, mas não tenho escolha. Minha tia não me deu opção e eu jamais a perdoarei por isso – suspirou fundo e se levantou da mesa. – Tudo bem, vamos lá.
pagou o café e as duas saíram do estabelecimento. Caminharam alguns quarteirões em completo silêncio, estava apreensiva. Tinha pensado e repensado sobre o assunto, havia feito tantas entrevistas, mas em nenhuma lhe chamaram, estava sem saída. Ela não podia abusar do dinheiro que estava lhe dando, era injusto com a amiga que havia juntado aquele dinheiro com o suor de seu trabalho. Não podia ser tão difícil assim, certo?
Chegaram em frente ao escritório da cafetina. segurou a mão da amiga, segurou fortemente, assentindo com a cabeça. Que Deus a ajudasse…

FIM DO FLASHBACK

– Se perguntassem para a de alguns anos atrás, ela jamais se imaginaria nessa situação. – ela sorriu triste.
– Pensa que isso será por pouco tempo, você poupa muito sua parte do dinheiro que recebe dos programas, logo mais você paga o que deve a Inês e sai daqui. Eu digo sempre, isso aqui não é pra você, , não é!
– Pra você também não é, mas eu vou te devolver tudo o que gastou comigo, jamais esqueceria disso. – apertou a mão da amiga – Eu vou subir, tomar um banho, fiquei de ligar para os meus pais, e não quero fazer isso com as garotas por aqui, elas podem falar alguma merda e eu não quero nem imaginar se meus pais desconfiarem de algo.
– Vou subir também, preciso ver algumas coisas com Anny, e depois cama.

tinha uma toalha enrolada no cabelo e a outro no corpo, havia tomado um banho relaxante. Agora caminhava até o quarto para que pudesse trocar de roupa, colocar algo mais confortável, estava exausta e tudo o que precisava era dormir. Tomou um susto quando viu que Antonieta estava sentada em sua cama.
– O que você quer? – Antonieta também era garota de programa, mas tinha uma raiva enorme de , tudo porque, de acordo com ela, a novata estava muito metida.
– Pra quem você tá dando pra conseguir folgar duas sextas seguidas? – arregalou os olhos, surpresa.
– Como sabe que vou folgar nessa sexta? – Antonieta se levantou da cama, encarando-a.
– Eu tenho os meus contatos, e então, tá dando pra quem? – suspirou fundo, revirando os olhos.
– Meu Deus, você é deprimente. – riu incrédula – Eu não devo satisfação da minha vida pra você. Sai já do meu quarto. – Antonieta a encurralou no guarda-roupa.
– Fique você sabendo que esse seu jeitinho de menina ingênua não me engana, ok? Você é mansa demais, e eu ainda vou descobrir o que você esconde! – ela empurrou contra o objeto, saindo do quarto.
Ela passou as mãos no rosto, cansada. Além de ter que transar com várias caras em uma noite, ainda quando chegava em casa tinha que lidar com aquela garota. Tudo começara porque saiu com um cliente fixo de Antonieta, pois ela havia ficado doente. Depois daquilo, o homem não quis mais sair com outra pessoa se não . O cliente não era um qualquer, era Lance, um rapaz que era gay, mas que não assumia sua orientação sexual devido ao preconceito que poderia enfrentar da família e da empresa. O homem era diretor de uma multinacional famosa. O fato é que ele pagava para que conversassem apenas, e geralmente quando ele ligava era exclusividade, era somente algum jantar e depois conversas a noite inteira.
secava os cabelos, quando foi surpreendida mais uma vez por alguém que abria aquela porta, mas dessa vez era já trocada para dormir.
– Que cara é essa? – se deitou na cama, jogando um cobertor sobre si, se ajeitando por ali.
– Antonieta. – bufou, agora vestia a camisola e continuava secando os cabelos em frente ao espelho.
– Essa mulher não dá um tempo, morre de inveja de você, é só não dar trela…
– É tão difícil, não sei como ela descobriu que vou folgar na sexta, eu tenho culpa se a Inês fez a bendita da escala assim?
– Você é carne nova, obviamente que os clientes vão te procurar mais, por isso a Inês tá sendo mais camarada contigo. Mas tenha calma, isso vai passar e logo, logo ela esquece do Lance.
– Eu não vejo a hora, ela é tão insuportável, como se tudo o que eu quisesse na vida fosse ser a melhor garota de programa. – terminou de secar os cabelos, desligou a luz, e se deitou na cama.
– Sim, ela ficou de birra comigo quando o Dembélé a trocou por mim…
– Dembélé é o jogador do Barcelona que é francês? – assentiu.
– Agora ela já até esqueceu disso, mas passei pelas mesmas coisas que você está passando, relaxa. – sorriu tentando confortar a amiga.
– Mas algum jogador do Barcelona frequenta aqui? – ela a encarou curiosa.
– Sim, tem até um que é seu conterrâneo, o Rafinha – fez uma careta.
– Não faço ideia de quem seja. – se remexeu na cama. Foi impossível não se lembrar dos tempos da escola quando foi mencionado o time do Barcelona. – Me lembrei que estudei com um garoto que jogava futebol e que tinha como sonho ser jogador do Barcelona, se chamava
– Jura? Perdeu o contato com ele? – a encarou extremamente curiosa.
– Sim, nunca fomos amigos de fato, então nem sei se ele conseguiu virar profissional ou não, espero que sim, era um bom menino – deu de ombros.
Chica, não me leve a mal, mas estou morta de cansaço, preciso dormir. – a amiga se ajeitou na cama pronta para que pudesse de fato o fazê-lo.
– Não estou diferente. – abriu um sorrisinho. – Boa noite. – virou-se para o lado, acabando por adormecer rapidamente.


Capítulo 2

Se a falta aflorar e você vir como eu sou ruim
Ainda vai gostar de mim
É toda torta a sensação de que o caminho é
Se encontrar na perdição

(Pittty – Deixa ela entrar)

desembarcou em Barcelona, finalmente seu sonho estava mesmo sendo realizado, sua compra para o time já havia sido efetuada há um tempo, mas seria de fato realizada no começo de 2019, porém, com a saída de Iniesta, anteciparam sua vinda ao time, o deixando completamente entusiasmado. Sentia um frio na barriga, porque era um país novo, não teria seus pais ou amigos próximos dele.
Atendeu alguns fãs no aeroporto, – que mal sabia que tinha, ainda mais ali – em seguida entrou em um veículo que lhe aguardava e que o levaria até o clube. Já sabia que durante a viagem até lá, teria que responder algumas perguntas de cunho pessoal ou profissional a TV Barcelona.
– Olá, , me chamo Caroline, nós vamos fazer uma pequena entrevista com você, te informaram, certo? – a repórter abriu um grande sorriso para ele, arrastando-se no português, já que tinha conhecimento que ele não sabia muito espanhol. Havia um rapaz ao lado do banco passageiro que os filmaria e obviamente o motorista que dirigiria durante o trajeto pelas ruas da cidade até o clube.
– Oi, Caroline! Sim, me informaram, por mim já podem começar. – ele abriu um rápido sorriso. A mulher assentiu, se ajeitando no banco, assim como o cameraman ajeitou a câmera para filmá-los.
bem-vindo ao Barcelona, você está feliz? – a mulher tinha a voz extremamente animada.
– Obrigado, sim, estou muito feliz, muito feliz. – ele abriu um sorriso tímido, não ficava muito à vontade em frente as câmeras.
– Já havia estado em Barcelona antes? – ele negou com um aceno de cabeça. – Já tinham falado alguma coisa de Barcelona para você?
– Já, me disseram que as pessoas são bem parecidas com brasileiros, um povo mais carismático, mais acessível, então estou muito, muito feliz. – ele se ajeitou no banco, tentando achar uma posição mais confortável, enquanto o veículo andava pelas ruas da cidade.
– Vamos conhecer um pouquinho mais do ? Como é o fora dos gramados? – ele sorriu.
– Bom, eu fico mais em casa com a minha família, gosto de jogar videogame, assistir filme, sou mais caseiro. – a repórter assentiu, pronta para efetuar mais um questionamento.
– Um ídolo? – ele respondeu sem muito hesitar.
– Andres Iniesta. – ela sorriu com a menção de um dos maiores nomes do clube.
– Uma canção?
– Ainda Sou Tão Seu do Felipe Araújo. – ele sorriu. A repórter pediu que ele cantasse um trecho da música. – Ainda sou tão seu… Olha aqui quem não te esqueceu… – as bochechas do rapaz estavam fervendo de tão quentes. – Não sou muito bom na música, mas enfim... – os dois deram risada. – O Felipe é um grande amigo meu que eu desejo tudo de bom pra ele. Eu o conheço desde pequeno, ele teve uma grande ascensão meteórica na música sertaneja, então estou torcendo para ele.
– Muito bem, com 14 anos você foi para o Grêmio, onde também jogou o Ronaldinho, e você conquistou os torcedores do time. O que tem o para conquistar os torcedores do Barça?
– Fui aos 14 anos para o Grêmio, né? Muito jovem. Então foi um clube que me acolheu, que realmente me formou cidadão, não só um atleta, eu sou muito grato. E o Barcelona, é o melhor time do mundo e desde criança até antes mesmo de virar jogador profissional, eu sempre gostei de assistir aos jogos do Barcelona por causa do estilo do jogo e porque atuou grandes jogadores brasileiros. Então sempre acompanhava e tinha um desejo de jogar no Barça. Com certeza empenho e luta não vão me faltar. Meu foco é dar alegria aos torcedores, ganhando títulos e fazendo boas partidas. – Já estavam próximos da entrada do clube, inclusive o veículo estava parando, era a hora de terminar a pequena entrevista.
– Muita sorte e muitas felicidades vestindo a camisa do Barcelona, . – ela lhe deu um singelo abraço de despedida.
– Certo, muito obrigado. – ele sorriu e assim a câmera foi desligada.
Ele desceu do veículo e foi caminhando até a entrada do clube para fazer sua apresentação formal, deixou as malas no carro mesmo, já que haviam pedido para que fosse diretamente ao clube. Respirou fundo algumas vezes, nervoso e enfim entrou.

***

Finalmente o grande dia havia chegado, era a estreia dele vestindo a camisa 4 do Barcelona, em uma competição importante, era a Copa dos Campeões Internacionais. Havia ficado quieto durante sua estadia no vestiário, precisava de concentração, afinal tinha que fazer tudo certo para garantir sua vaga como titular. Terminou suas orações e foi até a saída do vestiário, recebeu um afago de Rafinha.
O adversário não era fraco, Tottenham, o time inglês tinha sua tradição. Segurou a mão da criancinha que iria acompanhá-lo, suspirou fundo mais uma vez naquele dia e começou a andar em direção a entrada do estádio.

havia dado alguns bons passes, roubado algumas bolas importantes no meio do campo, mas o Barcelona não havia marcado ainda. Até que nos primeiros 15 minutos de jogo Munir El Haddadi abriu o placar a favor do time espanhol. comemorou muito, afinal aquele gol era de extrema importância.
Próximo do ponteiro chegar aos 28 minutos, recebeu um passe de Rafinha, e de fora da área ele analisou, viu que daria e bateu a bola para o gol com o pé direito e fez o seu primeiro. Sim, tinha feito gol em sua estreia, correu em direção ao Rafinha e lhe abraçou ternamente. Enquanto comemorava agradecia em pensamentos a Deus por ter lhe agraciado com uma oportunidade daquelas.
O restante do primeiro tempo, efetuou boas roubadas e passes de bola, mas não voltou para o segundo tempo, fora substituído por Ramón Rodríguez Jiménez. Do banco viu quando o Tottenham diminuiu o placar aos 73 minutos com o camisa 7 Son Heung-min. Trancou o maxilar, o Barça tinha que segurar aquele resultado, caso não o jogo poderia ser levado a prorrogação e ainda se não fosse definido, aos pênaltis. nem bem piscou e o Tottenham empatou o jogo com o gol de Georges-Kévin N’Koudou, camisa 14, aos 75 minutos.
O Barcelona tentou efetuar gols para que não chegasse a prorrogação, mas o resultado fora inevitável. Na prorrogação, nada foi resolvido pelos times e o jogo chegou aos pênaltis. Aquela tensão chegou, torcia por aquela vitória, e vibrou muito quando Anthony Georgiou do Tottenham errou sua cobrança. Agora o Barça tinha que fazer sua parte, e não errar nenhuma cobrança. Riqui Puig havia conseguido acertar o ângulo, assim como o Davinson Sánchez do Tottenham. Agora a decisão estava nos pés de Malcom, ele tinha que fazer aquele gol. O jogador respirou fundo e bateu com maestria a bola e a converteu em gol.
Sim, estava muito feliz, sua estreia estava completa, havia feito um gol, e seu time havia ganhado o jogo, apesar do sufoco. Tinha mesmo que agradecer muito a Deus.

***

A maioria das garotas estava em pé na sala da grande casa, enquanto a cafetina andava de um lado para o outro, sua expressão era indecifrável. Inês parou em frente a uma garota morena com o cenho franzido.
– Anny, por Deus esse seu cabelo está me dando aflição, cheio de pontas duplas! Procure Maria imediatamente. – Maria era a cabeleireira das meninas, Inês tinha uma espécie de convênio com ela. Toda a vez que era necessário acioná-la, 30% da renda do dia das meninas era retido para pagar os gastos com o serviço. Era justificável o porquê de elas não quererem usar, já que era bastante dinheiro.
, suas unhas estão cheias de cutículas! Vai na Carmem pra ontem… – Carmem era a manicure, a taxa era de 21% para o serviço.
– Mas, Inês… – tentou argumentar, mas fora em vão, a mulher estava irredutível.
– Sem mais! Você vai e ponto. A gente só atende cliente de alto nível, imagina se eu recebo reclamação que garota minha tá com a unha horrível! Se você não estiver satisfeita, cariño, tem outras casas de luxo que não se importam com isso... – engoliu seco para não respondê-la. Antes que a cafetina pudesse chamar a atenção de mais alguém, Antonieta, a última garota que faltava, descia as escadas sonolenta.
– Pronto? Estão todas aqui? – a cafetina olhava para conferir, e as meninas assentiram em confirmação. – Bom, vocês sabem quantos prostíbulos dão folgas, tirando os dias que você não trabalham devido à escassez de clientes? – ninguém se manifestou. – A resposta pra essa pergunta de 1.000,00 de euros é: nenhum! Eu sou um amor de chefe, não é? – ela abriu um falso sorriso. – Só que existe algo que eu detesto mais do que tudo nessa vida: reclamações.
– Inês... – Antonieta pedia a palavra, mas foi cruelmente interrompida pelo olhar da cafetina.
– Eu tenho recebido muitas: a fulana vai folgar na sexta de novo! Por quê? Ela não é melhor que eu! Isso é tão injusto... – ela revirou os olhos enquanto imitava. – Paciência tem limite, e vocês esgotaram a minha. A partir de hoje não tem mais folgas, vocês vão ficar em casa os dias que não tiverem programas, ou por ventura ficarem doentes! – com sua última fala um murmurinho se iniciou.
– Inês, por favor... – suplicava, a mulher negou.
estava estática, não escutava mais nada do que se falavam na sala, tudo o que vinha a sua mente eram as palavras de Inês. Por ser garota nova, sempre tinha programas para ela, quase nunca ficava em casa. A estudante de psicologia tinha as mãos trêmulas. Antonieta havia conseguido, tinha acabado com tudo por uma inveja tola. Não conseguindo frear suas pernas, se aproximou da garota que tinha o arrependimento no olhar. começou a bater palmas, a assustando e chamando a atenção das demais e de Inês que estava conversando com mais três meninas que tentavam reverter a decisão tomada. Todas de olhos arregalados, já que todo mundo sabia naquela sala que a culpa de terem tirado as folgas era grande parte de Antonieta.
– Parabéns, você conseguiu, satisfeita?! – Antonieta estava em choque enquanto a encarava.
suspirou fundo, deu um esbarrão forte no ombro da garota e subiu os primeiros degraus da escada, mordendo os lábios para não desmoronar na frente de todas.
! – Inês ralhou com ela. A mais nova a ignorou e se trancou no quarto e chorou de raiva. Parecia que a vida estava dançando Macarena sobre ela, quando achava que não podia piorar, sempre algo surgia.
Chica? – colocou a cabeça pra dentro do quarto, vendo se estava tudo bem com a amiga.
– Eu só tô muito puta, literalmente. – soltaram um risinho amargo. se sentou ao lado dela na cama.
– Confesso que nunca te vi com aquele olhar, achei que fosse bater na cara dela. – a encarava.
– Eu não ia bater nela, sabe? Não com Inês na sala, mas te juro que vontade não me faltou. – ela enxugou algumas lágrimas que ainda desciam do seu rosto. – É só que tudo só piora. – sentiu a voz embargar. – Carajo, semana passada eu só fiquei em casa no dia da folga mesmo, e ainda quase perdi a bendita da folga porque a Lauretta disse que tinha cliente me querendo, agora vai ser muito mais difícil de eu ficar em casa.
– Vai sim, mas eu acho que isso é coisa de momento da Inês, acho que ela volta atrás. – deu um abraço de lado na amiga.
– Tomara, de verdade, porque eu não sei o que vai ser de mim, se ao menos um dia, eu não tiver de descanso disso tudo. – chorou mais um pouco, sendo abraçada pela amiga.

– Eu juro por Deus que se eu pudesse, tiraria você dessa vida, você não merece viver nisso tudo. – ele pegou na mão da que estava livre, a acariciando.
– E eu agradeço muito sua intenção, mas só de saber que você ligou para Inês requisitando minha presença hoje, já é uma folga daquilo tudo. – eles sorriram. bebericou o vinho que estava disposto na mesa de jantar.
– E seus pais? Tentou falar com eles sobre... – ela gesticulou com as mãos. – Você sabe…
– Não, , meus pais não podem nem sonhar com isso. Infelizmente não posso contar que sou maricón* a eles, jamais aceitariam. Eu sou o único herdeiro daquilo tudo.
– Deve ser tão difícil esconder quem você é, né? – Lance abriu um sorriso triste.
– É terrível, e ainda tem um adendo, Daniels… – ele suspirou, passando a mão no rosto.
– Daniels é o estagiário gostosão? – ela entortou a cabeça levemente, com um pequeno sorriso brincando nos lábios
– Sim, é ele mesmo, quando ele me encara… Me sinto completamente despida. – gargalhou – Ri mesmo, corazón. – ele segurou a ponte do nariz, simulando um choro.
– Segura os trejeitos, pode ter alguém olhando. – ele rapidamente tirou a mão do local. – Você acha que ele sabe?
– Conhece aquela frase de que um gay conhece outro gay? Ela não é mito. Eu vou acabar sucumbindo…
– Se você quiser me levar pro motel pra disfarçar, eu me tranco no banheiro, e ainda adianto alguns relatórios de estágio da faculdade. – ela arqueou a sobrancelha, eles acabaram rindo.
– Proposta muito tentadora, viu? Vou me lembrar disso caso eu for precisar. – ele sorriu, agora terminando de comer a sobremesa. – Você sabe que eu só paguei hoje pela sua companhia no jantar. Não paguei pela noite inteira, não posso abusar muito nos gastos. – ela assentiu.
– Sim, eu sei, Inês me mandou já uma mensagem dizendo o endereço que eu devo encontrar o próximo cliente, e esse provavelmente vai querer o serviço completo. – abriu um sorriso forçado.
– Força, falta pouco pra isso tudo acabar, ok? – ela mordeu os lábios, concordando.

*
Maricón: Gay.

– Eu com certeza te requisitarei mais vezes, você é muito caliente! – o homem com seus mais de 50 anos abotoava as calças, enquanto colocava as botas de cano alto, com um sorrisinho forçado. Terminou de fechar o zíper e se aproximou do homem.
– Hum, eu vou amar. – deu um selinho no empresário, fazendo uma voz sensual ou como ela mesma dizia: sua voz de guerra.
– Não me faça querer mais, preciso trabalhar. – ele abriu um sorriso malicioso. o abraçou de lado e eles saíram do quarto de motel juntos, naquela manhã de quinta-feira.
Se separaram no saguão, ele para a garagem do motel e ela para a saída da porta da frente do estabelecimento.
Já era setembro, hoje seria o primeiro dia de suas aulas na faculdade, pois é, o tempo estava passando rápido. Ela estava muito feliz, sinal de que em pouco tempo estaria formada, e consequentemente sairia da situação que estava em breve. Mesmo sendo verão, uma manhã fria se instaurava, sinal de que em breve a estação daria tchau e se iniciaria o outono. vestia uma mini blusa, uma saia curta, e meia calça rede. Apertou o sobretudo no corpo para ver se aliviava o vento gelado que batia em seu corpo. Nem para Inês lhe avisar que aquele homem pagou pela noite inteira, havia saído de casa completamente despreparada, sem a habitual troca de roupa para que pudesse ir a faculdade.
Olhou as horas no relógio e não passavam das 06h17min. Tinha que esperar até umas 06:30min para que pudesse ligar para lhe levar uma muda de roupa descente. O motel que tinha passado a noite era próximo do campi Plaça de la Universitat, então ela iria caminhando até lá. Tentou puxar mais o zíper até a gola, mas quase surtou quando ele emperrou e começou a abrir o sobretudo. Negou com a cabeça, o dia tinha começado bem... O fechou com as mãos e andou depressa. Rapidamente chegou em frente a cafeteria próxima ao campus e entrou, deu um suspiro quando percebeu que o ar estava quentinho no local. Sacou o celular do bolso e viu que era 06h33min, era hora de ligar para a melhor amiga.
Chica! Oi! – murmurou sonolenta um cumprimento – Inês não me avisou nada que eu teria que dormir com cliente essa noite, você poderia trazer uma muda de roupa pra mim?
Levo sim, quer mais alguma coisa? coçava os olhos, separando as roupas para que pudesse tomar um banho e despertar de uma vez.
– Sim, pega também minha pasta e o caderno. – tinha a unha do dedo mindinho na boca, se segurando para não roer, Inês lhe falaria blasfêmias se ela o fizesse.
Certo, te encontro na cafeteria de sempre, ok? concordou e ambas desligaram seus telefones. se aproximou do balcão, fez o seu pedido e pegou sua grande caneca de cappuccino. Quando ia se virar para sentar nas mesas que eram dispostas ali, se chocou fortemente com alguém, fazendo com que ela se desequilibrasse e quase caísse no chão, seu cappuccino não tivera a mesma sorte. Ela mordeu os lábios fortemente, era só o que faltava mesmo.
– Opa, cuidado! – ele segurou nos braços dela, a amparando. Ela levantou o olhar pronta para xingar quem quer que fosse o brasileiro que tivesse esbarrado nela, mas empalideceu. Ela conhecia muito bem quem ele era, e assim que ele a encarou rapidamente a reconheceu também, mas apenas ela conseguiu proferir alguma coisa.
? – ela prendeu o ar, o encarando petrificada. O jogador a encarou da cabeça aos pés, demorando seu olhar, já que devido ao encontrão o sobretudo dela havia aberto por completo, revelando a roupa curtíssima que ela usava.
! Que surpresa! – ele não conseguiu segurar a expressão, não tirando os olhos do corpo dela. percebendo aonde o olhar dele estava, rapidamente segurou o sobretudo contra o corpo, fechando-o.
– Voltando de uma balada, sabe como é, né? – quis justificar o porquê estava com aquela roupa, coisa que ela não precisava.
– Hãn, claro. – ele passou a mão nos cabelos, nervoso, finalmente soltando o braço direito dela. Estava embasbacado. – Me desculpa por sua bebida, eu pagarei outra. – ela concordou. – O que você iria tomar?
– Tá tudo bem. E bom, era um cappuccino. – ele assentiu, caminhando até o balcão para que pudesse pedir a bebida dela e o seu café da manhã. caminhou até uma mesa discreta no canto da cafeteria para esperar que o rapaz trouxesse sua nova bebida. Ela não se faria de rogada, ele derrubou, ele quem pagasse uma nova. Não demorou muito e já chegava com os pedidos de ambos, se sentado em frente a ela, entregando uma nova caneca de cappuccino a .
– Muito obrigada. – ela sorriu, dando uma longa golada na bebida. Estava maravilhosa, como sempre.
– Mas o que faz aqui? – suspirou, fazia muito tempo que não escutava alguém falar em português com ela.
– Eu estudo aqui, e você? Está a passeio? – abriu um pequeno sorriso, curiosa.
– Não, eu finalmente consegui realizar meu sonho, estou jogando no Barcelona. – ela o encarou, visivelmente surpresa, então ele havia conseguido mesmo...
– Meus parabéns, estou contente por você! – ela respondeu com uma falsa animação.
– Obrigado. Eu estou muito feliz, , você não tem noção. – ele abriu um grande sorriso.
– Sim, estaria muito feliz mesmo se estivesse no seu lugar. – bebericou mais uma vez sua bebida. Ele empurrou os pãezinhos em direção a ela, que negou. Não conseguia comer logo cedo.
– Mas me conta, você estuda o quê? Me lembro que você gostava de engenharia… – ela o encarou surpresa, como ele se lembrava daquilo?
– Não, definitivamente. – a boca dela se curvou em um pequeno sorriso. – Eu faço faculdade de psicologia. – ele bebericou seu café. – Meu pai é espanhol, então eu tenho dupla cidadania, fiz uns esforços aqui, outros acolá e consegui estudar em Barcelona.
– Então você também realizou seu sonho... – concluiu, com os pensamentos inundados por lembranças. – Você sempre teve vontade de sair do país para estudar. – comentou, comendo agora um pedaço de pão.
– Que memória, ! – ela mordeu os lábios – Em partes, né? – ela comentou se referindo a realização do sonho. – Ainda não estou formada.
– E o Jonathan? Como reagiu a isso tudo? – comentou como quem não queria nada, curioso para saber se ainda estavam juntos.
– Nossa, Jonathan, faz tanto tempo que não escuto alguém falar dele. – suspirou desconfortável. – Ele reagiu mal, mas acabou aceitando por fim. Eu não ficaria no Brasil por causa dele.
Outch. – ele fingiu uma dor, abrindo um sorriso contagiante, fazendo com que ela sorrisse também.
– Priorizo meus sonhos em primeiro lugar, , sou egoísta nesse ponto. – ela deu de ombros.
– E você tem toda a razão, só achei engraçado o jeito que você falou. – ele quis consertar qualquer má impressão que pudesse ter ficado por ali.
– Não, tudo bem. – o examinou, por fim continuando a contar a história. – Namoramos um tempo a distância, mas é complicado… – mordeu os lábios – Terminamos há um ano e meio.
– Namoro a distância é complicado mesmo, acabei terminando exatamente por isso, incompatibilidade de agendas, minha ex era modelo. – ela assentiu. – É tão bom ver um rosto amigo aqui, você não tem noção do que é viver em um país completamente diferente.
– No final você se enturma. – sorriu, tentando lhe passar conforto. – Já conseguiu vestir a amarelinha? – perguntou se referindo a seleção brasileira.
– Sim, não consegui jogar a Copa do Mundo, mas fui convocado para a disputa das duas últimas partidas das Eliminatórias da Copa, contra a Bolívia e o Chile. E agora também fui convocado para os amistosos do dia 07 e 11 de setembro. Tenho que me apresentar amanhã a seleção. – ela deu um longo gole no café.
– Nossa, você está no auge da sua carreira mesmo, meus parabéns. – forçou um sorriso. O sentimento que passava em sua cabeça era horrível, e ela queria se controlar, mas era impossível que ele não viesse com força. – Fico feliz!
– Obrigado, de verdade. – ele não percebera que a animação na voz dela era falsa. – Parece um sonho ainda pra mim. – deu mais uma mordida grande no alimento disposto a sua frente.
– Eu imagino. – olhava para a porta disfarçadamente a todo momento, por que não chegava logo?
– Mas como é sua vida aqui? Você só estuda? – ele simplesmente não podia ficar quieto? Ele esfregar aquele sorriso, com aqueles lindos olhos explodindo felicidade estavam-na deixando extremamente irritadiça.
– Não, eu trabalho também. – se limitou apenas responder isso, mas era bem curioso, obviamente que ele perguntaria mais coisas sobre o assunto.
– Trabalha com o quê? – ela suspirou fundo, se remexendo na cadeira desconfortável.
– Eu trabalho em um bar, como bartender, não é todo mundo que tem a mesma sorte que você, sabe? – ela arqueou a sobrancelha, dando uma sutil alfinetada no rapaz. Quando ele ia responder, um furacão moreno entrou pela cafeteria.
, trouxe suas coisas, vim o mais rápido possível, Inês questionou o porquê você... – ela foi vomitando as palavras, recebeu um leve chute na perna. – E você não está sozinha. – sorriu sapeca.
, esse é , estudou comigo no Brasil. – colocou a mão sobre a boca, surpresa. – , essa , minha melhor amiga aqui na Espanha.
– Muito prazer – ele a cumprimentou em português. – Estou aprendendo ainda a falar espanhol. – comentou sem graça.
– Claro, eu consigo entender algumas coisas de português, não sou expert, mas ok. – abriu um sorriso singelo a ele. – Veio passear por aqui? Barcelona é muito linda… – suspirou encantada.
– Ah, não, eu vim trabalhar mesmo. Estou defendendo a camisa do Barcelona. – encarou a amiga, prendendo o ar.
– Uau, que bom, meus parabéns. – ela deu grande sorriso para ele. – Então era de você que o Dembele estava falando… – ele a encarou curioso.
– Você conhece o Dembele? – arregalou os olhos. Sua amiga era completamente indiscreta, por que não conseguia segurar a porcaria da língua na boca?
– Sim, eu conheço. – suspirou, tentando raciocinar rapidamente. – Somos amigos.
– Que coincidência, ele não vai acreditar quando contar que você é amiga da minha amiga então… – ele concluiu pensativo. – Que mundo pequeno.
, você não pode contar ao Dembele que encontrou ! – o encarava de olhos arregalados.
– Mas por que eu não posso contar? Há alguma coisa de errado? – ele tinha o olhar curioso para as duas moças.
– Sim, é que eles estão brigados é… – suspirou. – Não acho que seja legal que você fale dela, o Dembele está morrendo de raiva.
– Sim, eu o irritei quando disse algumas coisas a ele. – assentiu com o cenho franzido, que coisa estranha. Mas preferiu concordar, sem maiores questionamentos.
– Bom, tá na hora de a gente ir, né, ? – comentou antes que ele pudesse puxar mais papo e as colocá-las em uma situação pior. – Tenho que trocar de roupa, sabe como é, né?
– Claro, mas antes de ir, me passa seu celular. – mordeu os lábios, nervosa.
– Anota ai. – informou o número, passando-o errado, tudo o que ela não precisava era dele em sua cola.
– Vou dar um toque no seu celular, então você já salva o meu. – ele já discava. gelou. – Ué, por que seu celular não está tocando? – ele encarava o aparelho dela com o cenho franzido.
– Acho que você anotou o meu número errado. – ela abriu um sorriso amarelo. – Repete os números? – assim ele o fez. – Olha que doido, é 7 ao invés de 3.
– Mas foi você quem passou esse número, tenho certeza que não anotei errado. – ele afirmou convicto.
– Perdão, é… – gaguejou, suspirando fundo. – Esse número é novo, acabei trocando recentemente, mas pode ligar agora. – ele o fez e apareceu no visor que uma chamada era recebida. – Prontinho.
– Certo, vou te ligar, é bom ver um rosto amigo aqui… – ele sorriu, e a abraçou rapidamente dando dois beijinhos na bochecha dela, fazendo o mesmo com . – Foi muito bom te rever, espero que não percamos o contato.
– Jamais, agora você tem meu número. – sorriu forçadamente, puxando para a saída da cafeteria.
– Ei, ei, ei, chica! – segurou no braço da amiga, agora na calçada da cafeteria. – Por que passou seu número errado pra ele? E não me venha com essa que você trocou de número porque você tem essa mesma linha há quase quatro anos.
– É que eu não quero ter contato com ele. – bufou, voltando a andar, apertou os passos para alcançá-la.
– Por quê? Carajo, o cara é lindo demais. Fiquei encantada com aqueles olhos azuis… E aquele sorriso?
– Simples, em primeiro ligar: eu não quero ter alguém com a mesma idade que eu, que ganha o triplo, se bobear o quádruplo do que eu ganho esfregando sua felicidade o tempo todo na minha cara. E ainda tem mais, na escola, eu o ajudei passar de ano muitas vezes… – vomitou aquelas palavras com raiva. – E você ainda me comete a gafe de falar do Dembele, ele não sabe o que eu faço pra viver aqui, , eu jamais contaria, não posso sair por baixo.
– Você não contou? , eu não acredito que estou escutando essas palavras da sua boca. – a encarava desacreditada. – Você está morrendo de inveja dele!
– Você não entende, eu jamais contaria para ele a situação que estou vivendo, por Deus! – suspirou. – E bom, ver outras pessoas felizes e eu nessa merda de vida me deixa extremamente irritada e frustrada. Sim, eu estou morrendo de inveja, porque eu era a melhor aluna daquela escola e ele um dos piores e olha onde ele tá? Isso é muito injusto mesmo, deprimente!
, esse tipo de sentimento não é bom ter no coração, ele não tem culpa de ter alcançado coisas boas na vida, para já com isso! – ela ralhou com a amiga. – Com certeza ele lutou muito para estar onde está, não o desmereça. – engoliu seco com a fala da amiga.
– Você tem razão. – abaixou os ombros. – Sou um ser humano e não consigo ser perfeita. – bufou audivelmente. – Ele é rico somente com o ensino médio e eu tendo que me tornar prostituta para terminar minha faculdade de psicologia… Enfim, eu não o quero perto de mim, ele joga no Barcelona, e você sabe, temos clientes de lá.
– Sim, eu sei, é perigoso e nem um pouco saudável, já que você não contou nada para ele. Só tenha cuidado, ele ficou mesmo feliz de ter te visto, ele vai te procurar! – a moça prendeu a risada – Vocês dois na época da escola já… – abriu um sorrisinho malicioso.
– Não, jamais! – negou freneticamente. – Eu namorei desde o final do fundamental, a qual foi quando conheci , até o fim do ensino médio. Nunca olhei para ele com esses olhos… – ela bateu os cílios rapidamente.
– Deveria, porque ele é um deus grego mesmo. – acabou rindo da careta que fazia.
– A escola toda babava por ele mesmo, mas eu nunca o vi dessa forma, só tinha olhos para Jonathan. – chegaram na faculdade, e agora estavam em frente ao banheiro feminino.
– Um cafajeste que te traía com o Brasil inteiro. – bufou. – Que seja, perdeu uma ótima oportunidade. – revirou os olhos indo para a cabine para que pudesse trocar de roupa.
– Não perdi nada, as coisas aconteceram do jeito que tinham que acontecer! – suspirou, enquanto se despia, agora vestindo a roupa que a amiga trouxera.
– Será mesmo? – deu de ombros, agora saindo do banheiro e caminhando com a amiga para as suas respectivas salas. Se ela tivesse tido algo com sua vida teria sido completamente diferente mesmo... Sacudiu a cabeça, ignorando aqueles pensamentos.


Capítulo 3

I'm never gonna let you close to me
Eu nunca vou te deixar perto de mim
Even though you mean the most to me
Mesmo que você signifique tudo para mim
'Cause every time I open up, it hurts
Porque toda vez que eu me abro, dói
So I'm never gonna get too close to you
Então, eu nunca vou ficar muito perto de você
Even when I mean the most to you
Mesmo que eu signifique tudo para você

(Too Good At Goodbyes - Sam Smith)

desembarcou no aeroporto dos Estados Unidos para partida do primeiro amistoso que seria contra os donos da casa dia 07 de setembro no MetLife Stadium. Se hospedaria no Hotel Park Hyatt. Estava orgulhoso de si, apesar de não ter sido convocado para a copa, era bom estar para um novo recomeço da seleção. Não tardou muito para chegar ao hotel, e enfim se apresentou ao técnico Tite e comissão técnica. Seria ótimo rever alguns bons amigos e também ver rostos novos, era bom demais encontrar aquela galera toda. A seleção tinha algo bom, o clima era diferente, era como se estivesse em casa. Viu Neymar também fazendo o check-in enquanto mexia no celular distraidamente, e se aproximou.
– E ai, Ney? – chegou de repente, assustando o jogador que portava a camisa 10 da amarelinha. O rapaz tinha os olhos arregalados pelo susto, estava distraído com uma conversa no celular.
– Hey! – fez um toque de mãos com . Bloqueou o celular, dando total atenção ao meia.
– Tava com uma cara de idiota mexendo nesse celular. – Neymar fez uma careta da fala do amigo, dando um empurrão nele.
– Chega me assustando e ainda me zoa mesmo? – arrancou gargalhadas de .
– Como você tá depois da copa? – sabia que o peso de ser o camisa 10 da seleção e não trazer o hexa era difícil, afinal, os torcedores e a mídia estavam fazendo fortes cobranças ao rapaz.
– O pior passou, agora só resta as piadinhas de cai, cai. – fez uma careta, dando de ombros. – Bola pra frente, foco total agora na Copa América no Brasil.
– Sim, com certeza. Espero dessa vez poder disputá-la. – vestir a camiseta da seleção era sempre uma honra para ele.
– Eu tenho certeza... – deu uma piscadinha como se soubesse de algo. Neymar sentiu o celular vibrar e abriu um sorriso quando leu a mensagem.
– Você ta sabendo de alguma coisa? – Neymar ainda tinha os olhos no celular. – Hei, cara? – chamou o rapaz de forma indelicada.
– Quê?! – Neymar bloqueou o aparelho, agora o encarando. o olhava com cara de tédio. – Ah, você tem mostrado um bom trabalho, a vaga será sua.
– Quem é? – apontou para o celular, ignorando a última fala do amigo. Neymar fez uma careta.
– Bruna! – sorriu em compreensão. – A nossa relação é complicada, brigamos muito por bobeiras. E então terminamos, porque é o melhor a ser feito, mas quando a gente se encontra... É como ímãs, não dá pra resistir. – Neymar desabafou. – E então, nós tentamos de novo, porque ainda existe muito amor em nós.
– Isso é meio tóxico, não? – ele o encarou curioso.
– Talvez seja, mas é impossível não cair nesse ciclo vicioso. – Neymar deu de ombros. – Você já se apaixonou assim? – ficou pensativo, ele não tinha essa resposta de imediato. Teve três namoradas, duas os relacionamentos foram extremamente curtos e a última durou um ano, mas comparando ao companheiro de seleção não tinha toda essa intensidade mencionada.
– Não... – por fim concluiu.
– Quando você se sentir assim, gostar de alguém desse jeito, você vai me entender... – Neymar deu um tapa nas costas dele. – O professor quer ter uma conversa comigo, preciso ir. – assentiu e viu o amigo caminhar para distante dele. Ele deu de ombros, terminou de fazer o check-in e voltou a andar de volta para o seu quarto.
Chegou ao quarto, tomou aquele bom banho para relaxar e depois se jogou na cama, puxando o celular para suas mãos. Olhou o WhatsApp, respondeu algumas mensagens dos amigos e familiares e viu que não havia respondido nenhuma de suas mensagens enviadas anteriormente. O engraçado é que ela não havia o bloqueado no aplicativo, será que havia feito algo errado? Deu de ombros, dessa vez bloqueando o aparelho, não ia ficar correndo atrás dela, se ela não queria conversar com ele, tudo bem, ele poderia lidar com aquilo ou não.
Escutou batidas na porta de seu quarto, abriu encontrando Coutinho e Firmino do lado de fora.
– Hey, bro! – Firmino lhe deu um abraço, fazia um bom tempo que não o via.
– Hey! – se separaram do abraço, agora dando toques de mãos com Coutinho.
– Vamos jantar, hoje tem iniciação dos novatos. – Coutinho esfregou as mãos rindo, arrancando um sorriso de .
– Opa, claro que sim. – saiu do quarto, seguindo os dois colegas.
– Você me parece cabisbaixo, o que há, ? – Firmino o questionou curioso.
– Ah, que isso não é nada demais, só alguns problemas bobos, que em breve serão resolvidos. – abriu um sorriso.
– Se quiser compartilhar, estamos ai pra ouvir, cara. – quem tinha a voz era Coutinho que inclusive deu um afago nas costas do companheiro de time.
– Não é nada demais, fica em paz, caras. Vamos logo iniciar esses novatos – sorriu, empurrando os rapazes para que eles andassem mais rápidos.

***

– Foi muito gratificante essa experiência de lidar com cuidados paliativos. – o professor assentiu para Cátia. – É possível que eu volte lá na semana que vem e ela não esteja? É, mas pelo menos, pude deixar aquela senhora um pouco mais confortável, apesar de tudo. – afagou as costas da colega de sala em conforto. Havia tido o estágio no hospital conveniado ao Campus, e agora se encontrava após o estágio na supervisão com o professor responsável pela disciplina.
– Muito bem, Cátia, sua consulta foi bem elogiada pelas enfermeiras que viram uma melhora emocional na paciente. – a moça assentiu feliz. – . – ele chamou atenção da moça que parecia imersa em seus próprios pensamentos, enquanto ainda afagava as costas da colega de classe. – Como foi a consulta de hoje?
– Então... – ela pigarreou, devido à falta de uso sua voz saíra estranha. – A psicóloga hospitalar me passou um caso extremamente difícil, de acordo com os médicos, a paciente viria a óbito naquele mesmo dia devido a um câncer avançado e eu tinha que preparar a família para o recebimento daquela notícia. Pra mim, foi um choque, profesor, porque mesmo que a família espere o pior, eles nunca estão preparados de fato pra isso. – ela mordeu os lábios.
– E como você os abordou? – o mais velho a indagou.
– Bom, primeiramente escutei a história de vida dessa mulher através dos familiares, que naquele momento consistiam no pai e no filho. Devido ao estágio da doença, ela estava em coma. Ressaltei os pontos positivos da paciente, toquei em assuntos íntimos, resgatando momentos importantes dela com a família. – seus olhos brilharam. – Preparei bem o terreno para jogar a bomba. A hora que eu tive mais vontade de chorar no atendimento foi quando eu disse que ela faleceria logo. Os levei até o quarto e fiquei com eles para que pudessem se despedir, depois me retirei para dar privacidade a eles. – ela suspirou. – Foi um dos atendimentos mais difíceis, já que assim que eles saíram do quarto ela faleceu. Os acompanhei até que fizessem todos os trâmites legais e depois os deixei com o coração na mão...
– Como você está depois disso tudo? – o professor lhe encarava preocupado.
– Eu fiquei mal, não posso mentir, profesor, mas internalizei que aquele problema é do outro, não meu. É difícil separar, mas é necessário.
– Sim, com certeza. Inclusive, seu atendimento à família foi excelente, ! Toda a equipe elogiou muito seu trabalho. – ela abriu um enorme sorriso, afinal, tudo o que estava passando valeria a pena. – Turma, diante do último relato estão dispensados. – os alunos recolheram suas coisas para que pudessem sair, fazia o mesmo, porém o professor lhe segurou pelo braço, pedindo que esperasse.
– O senhor queria falar comigo sobre o quê? – ela perguntou um pouco aflita quando o último aluno saiu da sala.
– Você sabe que desde que recomeçamos as aulas você tem sido muito elogiada por toda a equipe do hospital. – a moça assentiu. – Vou ser direto, quero te oferecer um estágio desvinculado ao da faculdade. Ao invés de três horas de estágio, seriam quatro horas, sendo por dois dias na semana, ao invés de um, como o obrigatório. – ela já tinha um enorme sorriso no rosto, porém, a última fala do professor o tirou. – Mas seria não remunerado.
– É uma oportunidade e tanto, já que eu sei que a psicologia hospitalar caminha a passos de tartaruga aqui... Mas eu tenho outro trabalho, e é esse que me mantém aqui no país.
– Você não pode conversar com seu empregador? Seria nas terças e quartas a tarde, das 14 às 18 horas. – ela suspirou fundo. Ah, se ele soubesse...
– Me parece um horário tranquilo, posso verificar com ela. Poderia responder até semana que vem?
– Claro, será a data do nosso próximo encontro. – ela concordou. – Nós conversamos depois dos seus atendimentos da semana que vem.
– Muito agradecida pelo convite, farei de tudo para participar, profesor. – o homem assentiu e saiu da sala.
– Você demorou, amiga. – a esperava do lado de fora da sala para que pudessem ir juntas até para casa.
– Você não sabe, , o profesor me convidou para que eu fizesse um estágio extracurricular no hospital conveniado ao campus. Não é demais?
– Calma, espera, você já não faz um estágio no hospital? – a amiga a encarou com os olhos confusos.
– Sim, eu faço todas as quintas, esse é o estágio obrigatório. Às terças e quartas eu faria um estágio de quatro horas extracurricular. Aumentaria minhas horas de estágio e ainda ganharia um certificado, mas as recomendações do profesor para um emprego futuramente.
– Nossa, é mesmo maravilhoso, então você com esse estágio conseguiria sair totalmente da prostituição e… – negou com a cabeça.
– Não, seria sem nenhuma remuneração… – fez um biquinho. – Eu queria fazer, mas não sei se a Inês autorizaria.
– Vamos tentar conversar com ela, vamos lá no “escritório” dela. – assentiu e elas caminharam rapidamente, mudando o caminho para o tal escritório da cafetina.
Elas pegaram o transporte público e desceram um pouco antes do local e foram caminhando até lá. Entraram no local tão conhecido, cumprimentando os dois seguranças, que mais pareciam armários ali. Adentraram a sala e encontraram a cafetina mexendo em alguns papéis, ela olhou para as meninas e voltou aos papéis.
– O que houve que não podia esperar eu chegar em casa para falarem? – ela perguntou, sem voltar a direcionar o olhar para elas.
– Vou ser direta, preciso te pedir algo… – agora tinha total atenção da mulher. – Meu profesor me convidou para um estágio sem remuneração de terças e quartas das 14 horas às 18 horas, queria saber se conseguiria fazer? Por favor, Inês. – a mulher suspirou fundo, apoiando as mãos na mesa. fechou os olhos, fazendo uma mini caretinha.
– Por favor, Inês, nunca aparece programas por esse horário, a foi superhonesta com você, é o sonho dela… – a mulher as encarava ainda calada.
– Vocês tem noção que se eu liberar algo assim, as outras vão enlouquecer? Olha como foi com as folgas! – Inês apoiou o rosto nas mãos.
– Será só por um tempo, até eu terminar a faculdade… – ela estava quase se ajoelhando no chão.
– Eu vou pensar, ok? Mas caso eu autorize, você nunca poderá contar para nenhuma das outras, se não isso acaba. Estamos entendidas?
– Sim, pode ter certeza que eu jamais vou contar as outras meninas. – Inês assentiu.
– Agora podem ir, quando eu tiver a resposta lhes dou, ok? – elas assentiram com um sorriso breve, saindo da sala.
– Ela já deixou. – abraçou a amiga animada.
– Será? – ainda não acreditava muito naquilo. As duas já estavam do lado de fora agora caminhando para casa.
– Eu a conheço há quatro anos, chica, vai por mim. Só temos que manter a boca muito bem fechada. – ela assentiu, sabia que caso isso vazasse adeus estágio.

***

chegou em casa exausta, precisava fazer alguns relatórios do estágio de plantão psicológico, a qual lhe demandava mais atenção, já que naquele dia havia atendido três pacientes diferentes. Para lhe dar mais disposição, decidiu que tomaria um banho e sem muitas delongas o fez. Voltava para o quarto enrolada na toalha, já que havia esquecido de pegar suas roupas e teve uma surpresa não muito agradável ao abrir a porta.
– O que você quer? Achei que já estivesse mais do que satisfeita de me boicotar em tudo o que é possível. – cuspiu as palavras com raiva para Antonieta que estava sentada em sua cama.
– Na verdade, eu… – mordeu os lábios, enquanto a encarava – Vim te pedir desculpas por aquilo das folgas. – sentiu-se mais leve por falar aquilo.
– Nossa, não sei se fico surpresa por você me pedir desculpas ou por demorar mais de um mês para o fazê-lo. – a estudante de psicologia riu desacreditada.
– Eu sou muito orgulhosa, se eu estou fazendo isso, sinta-se bem… – Antonieta deu de ombros, como se estivesse fazendo uma obrigação. – Minha opinião sobre você não mudou nada, mas sei reconhecer quando errei.
a achou tão infantil, parecia com uma criança birrenta que não queria ceder por nada seu brinquedo. Não estava a fim de ter que lidar com aquilo naquele momento.
– Você só destruiu o pouco de alegria que eu tinha. – comentou amargurada. – Mas agora também não faz diferença, então tanto faz. – Antonieta a encarava indecifrável.
– Certo… – se levantou da cama. – Só um toque, cariño, as reclamações não partiram só de mim, ok? Tem gente que se faz de tua amiguinha, mas te apunhala nas costas. Eu, pelo menos, mostro o que sou. – saiu pela porta do quarto.
O que Antonieta tinha dito não era nenhuma surpresa a , ela sabia que não podia confiar em ninguém ali, exceto por Brenda. No mundo da prostituição era difícil arrumar amizades verdadeiras, afinal, existia muita inveja ali.
Ela suspirou fundo, e se trocou colocando uma roupa mais confortável, não sabia se teria programas, mas caso estivesse seria fácil para se trocar. Pegou o celular esquecido na bolsa e se jogou na cama olhando as notificações. Bufou, quando viu que haviam mensagens de , ele não se tocava que ela não queria conversar com ele? Como era insuportável… Clicou em cima do nome dele e apagou as mensagens sem que as lesse. Se ele continuasse com aquela insistência ela o bloquearia logo, aliás nem ela sabia o porquê ainda não tinha o feito.

***


já estava de volta a Barcelona, tinha ido relativamente bem nos amistosos, esperava ser convocado para os próximos. Havia acordado o mais cedo que havia conseguido, havia se arrumado e trancado muito bem a casa.
Pegou o carro e o dirigiu o mais depressa possível para aquela cafeteria. Não conseguia tirar da cabeça , ela não tinha o direito de ignorá-lo sem que ele soubesse sequer o motivo para aquilo. A conversa deles havia fluído tão bem naquele dia, por que agora ela tinha tido uma atitude daquelas? Ela tinha que lhe dar uma explicação para aquilo. Não demorou muito e estacionou o veículo em frente ao local, por ser cedo, não havia encontrado ninguém ali. Escutou o sininho tocar quando adentrou o local. Se direcionou ao balcão, fez o mesmo pedido que havia feito no dia em que havia vindo e se sentou em uma mesa mais ao fundo. Colocou o capuz, para evitar que ela o reconhecesse e fugisse dele, isso é, se ela fosse no local novamente.
Esperou por volta de uns 15 minutos, até escutar a sineta tocar e ver a moça entrar ali. Ele suspirou embasbacado, ela era mesmo muito bonita. O jeito como ela se movia, tudo exalava uma sensualidade natural que o encantava, não era à toa que quando a viu pela primeira vez há uns bons anos se encantou de primeira.
Ela seguiu o caminho até o balcão para efetuar o pedido, tendo o olhar atento de sobre si, ela pegou seu cappuccino fumegante e sentou-se em uma mesa próxima ao jogador. Ele sacou o celular, e efetuou o envio de uma mensagem qualquer de bom dia. Sendo ignorada com sucesso por ela que viu, e bloqueou o celular. Ele se levantou da mesa, pegou sua bandeja e se sentou de frente a ela, lhe assustando.
– Oi, . – abriu a boca em um perfeito O, completamente surpresa com ele sentado à sua frente.
– O-oi. – ela deu um sorrisinho amarelo, enquanto tinha os olhos presos aos dele. Ela achou que nunca mais fosse vê-lo de novo, e ali ele estava.
– Você tá bem? – tentava prender o riso, a reação dela estava bem engraçada.
– Eu? – apontou pra si, tendo a confirmação dele. – Estou… É, estou. – suspirou. Ela estava chocada de vê-lo na sua frente, e ainda para piorar a situação ele havia mandado uma mensagem há poucos minutos, ao qual ela havia ignorado com maestria.
– Que bom. – ele levou a caneca a boca, não ousando quebrar o contato visual com ela, que a cada minuto ficava desconfortável na cadeira.
– Para com isso, ! – ela bufou. Estava difícil para ele prender a risada.
– Isso o quê? – ele comentou desentendido.
– Você sabe. – ela gesticulou, sem graça – Você fazia a mesma coisa na época em que eu fugia de você quando me pedia ajuda várias vezes em um só dia em matemática na biblioteca da escola. – e a risada que ele tanto prendia, acabou sendo solta e aquilo ecoou por todo o local, fazendo com que ela risse com ele também.
– Por que está ignorando minhas mensagens? Naquela época eu pegava mesmo no seu pé, ainda guarda mágoa de mim? – ele brincou para suavizar o clima que podia se instaurar ali.
– Não, não é isso. – suspirou fundo. – É complicado.
– Complicado por quê? Me conta e a gente pode tentar descomplicar. – acabou arrancando um sorriso dela. Sabe o que é, ? É que você me causa inveja e ainda tem mais, você tem amigos que utilizam o trabalho das minhas amigas, se é que me entende… Foi a primeira coisa que veio na cabeça dela, mas era meio óbvio que ela não utilizaria aquela desculpa. Ela bebericou o cappuccino enquanto sentia o olhar do jogador lhe queimar a face.
– Você me traz lembranças muito desconfortáveis, . Lembranças aos quais eu não quero lembrar, não quando eu não estou no meu melhor momento… – ajeitou o cabelo atrás da orelha, nervosa.
– Nossa! – comentou surpreso, esperava qualquer tipo de resposta, até que ela estivesse saindo com alguém, mas ele era tão desagradável assim para lhe trazer lembranças ruins? – Acho melhor eu sumir então, para você não ter mais nenhuma lembrança ruim. – ele se levantou da mesa, magoado. Ela encostou o corpo pra trás na cadeira, e respirou fundo, quase se arrependendo da atitude que tomaria. Se levantou rapidamente dali.
– Espera! – ela segurou o braço dele. – Me desculpa, , fica. – ela o encarava extremamente arrependida. – Por favor? – ele agora tinha o olhar voltado para ela. – Se você ficar, a gente faz um tour por Barcelona hoje, mato até aula por isso. – arrancou um sorriso dele.
– Matar aula pra fazer um tour comigo? Golpe baixo, . – ele voltou para a mesa com ela em seu encalço. Eles se sentaram nos mesmos lugares, voltou a bebericar sua bebida. – Sua sorte é que eu não tenho treino hoje, então, eu vou aceitar a proposta. – era um doce de ser humano, o coração dela pesou por tê-lo tratado tão mal.
– Perfeito. – ela sorriu. – Espera um minuto, preciso avisar que não vou a aula hoje.
– Você tá falando sério mesmo? – a encarava atônito.
Bah, claro que sim, eu disse e nós vamos! É uma forma de eu me desculpar pelas coisas que eu disse, isso se você quiser... – ela piscou os cílios demoradamente, o deixando sem palavras. Ele precisava se controlar, não era mais um adolescente virgem. Era um homem de 22 anos. Será que ela sabia que exalava sensualidade assim?
– Senti saudade de escutar esse bah. Seu estado era incrível e o Grêmio também, sinto saudades… E, é claro que eu quero. – ele respondeu meio desesperado, arrancando um sorriso dela.
– O grêmio era incrível, né? Eu também sinto muitas saudades de assistir aos jogos do meu time, com meus pais, sinto até saudades de falar português. Desde que coloquei os pés aqui é só espanhol... – suspirou fundo. – Enfim, só um minuto. – ela se levantou da mesa, discando os números de Cátia para que ela avisasse ao professor de cognitivo-comportamental que ela não compareceria ao estágio. Ela sabia que as faltas em estágio deveriam ser raras, mas estava se sentindo bem mal por tê-lo tratado daquele jeito, afinal, ele não tinha culpa. – Prontinho, avisado.
– Certo. – ele a encarou, enquanto ela terminava de tomar de uma vez o cappuccino.
– O que você conhece aqui, ? – comentou curiosa, enquanto o via se afundar na cadeira com medo da reação dela.
– O Estádio Camp Nou* conta? – foi a vez dela gargalhar audivelmente naquela manhã.
– Você é um ridículo mesmo. – ainda sorria. – Vou te levar a dois lugares que todo turista tem que conhecer.
Ela se levantou, a seguiu rapidamente até fora do lugar. Ela começou a caminhar quando ele segurou o braço dela. Como ela andava rápido, seu corpo voltou com tudo, fazendo com que ela fosse de encontro ao peito do jogador com força. Ela espalmou suas mãos ali e guardou um suspiro. estava muito diferente, estava tão... Gostoso.
– Espera... – ela direcionou o olhar pra cima, encontrando os dele que a fitavam intensamente. Aquilo definitivamente era perigoso. engoliu seco, desfazendo o contato ocular e se afastando dele.
– Por quê? – pigarreou desconfortável.
– É que meu carro está estacionado aqui na frente. – ela fez uma careta, colocando as mãos atrás do corpo.
– Claro, que tolice a minha, é óbvio que você teria um carro. – franziu o cenho, divertido. Apertou o alarme do veículo e entrou no carro, esperou quando entrou logo após ela. O modelo do veículo em questão era nada menos que um Toyota Yaris, branco.
– E então? Para onde vamos agora, ? – ela sorriu animada.
– Vamos para um dos maiores pontos turísticos daqui, a Igreja Sagrada arquitetada por Gaudí – ele a encarou estranho – Eu vou te explicar, mas primeiro vou te guiar até lá, ok? Mas vai preparando o bolso, porque você vai pagar os nossos ingressos para entrar. – ele deu partida no veículo.
– Como é que é? – ela riu da cara de mongo que ele tinha para ela, enquanto colocava o endereço do local dito por ela no GPS.
– Você é o amigo rico aqui, não eu. – deu de ombros, enquanto ele começava a seguir o trajeto do GPS.
– Eu nem vou falar nada sobre isso. – ele sorriu, agora com o olhar fixo na estrada.
Depois de muita loucura, ruas erradas, problemas para estacionar, finalmente pararam o veículo próximo ao local.
– Eu dirijo pro próximo ponto turístico, pelo amor de Deus, !
– E quem disse que eu vou deixar você pegar no meu carro? Sonha, . – arregalou os olhos, o empurrando pra frente.
– Eu não vou te ensinar de novo, você quase bateu seu carro! O tour vai acabar aqui se você não me deixar dirigir. – deu de ombros, passando na frente dele, quando ele parou de andar com a fala dela.
– Você é tão chantagista, . Não tem vergonha, não? – a encarava incrédulo.
– Eu não sou chantagista, apenas prezo pela nossa segurança, bonitinho. – ele sorriu com a menção àquele apelido, ela sempre usava para explicar algo pra ele, na época que o ajudava.
– Ok, você dirige quando sairmos daqui. – ela deu pulinhos animada, o pegando pela mão para que andassem logo para a entrada do local. O fato é que sair com não estava sendo nenhuma tortura, o rapaz era divertido, e fazia muito tempo que ela não se sentia assim tão leve, por alguns segundos seus problemas estavam esquecidos.
– Aqui onde estamos é a principal obra e o ponto turístico mais famoso e lindo de Barcelona, é a Sagrada Família de Barcelona. Uma igreja com uma grandeza incomparável e que ainda não está acabada, pela enorme quantidade de detalhes e pelo tamanho que foi projetada. Mesmo não acabada, é possível visitar o interior. É um dos pontos turísticos mais visitados do mundo, você tem noção disso?! – ela comentou animada enquanto tinha o olhar preso a igreja, que de fato era maravilhosa.
– É linda… – ele indagou maravilhado, enquanto olhava os detalhes dela.
– Vem, vamos comprar os ingressos e ver por dentro. – ela o puxou pela mão para que pudessem ir até a bilheteria, que estava um pouco cheia.
Assim que compraram, foram visitar o interior do local. olhava tudo maravilhado, era incrível como aquela obra era linda, mesmo não estando acabada, o que para ele era como se estivesse. Era um local e tanto para ter contato com Deus.
– Gostou? Eu gosto muito de vir aqui, apesar da quantidade de gente, me traz paz.
– Eu também me sinto assim, – ele deu uma rápida olhadela para ela, voltando a olhar o local.
– Quer que eu tiro umas fotos de você aqui? – perguntou prestativa. rapidamente pegou o celular do bolso da calça, o passando para ela.
Tirou várias fotos do rapaz dentro da igreja, sentado em um dos bancos fingindo orar, depois passou o celular para que ele mesmo pudesse registrar as imagens dentro do local. Ele não resistiu, a viu distraída e tirou algumas fotos dela. Depois de conhecerem cada cantinho do local, propôs algo a ele.
, tem um parque aqui na frente que você consegue tirar fotos com a igreja de fundo, quer ver? – ele assentiu e ambos saíram da igreja e rapidamente avistaram o parque a qual ela mencionou.
Ele tirou várias fotos ali, e com muita relutância da parte de , conseguiu bater algumas selfies com ela, prometendo que não postaria nenhuma em suas redes sociais. Ela jamais poderia ser vista com ele, seria muito complicado.
Depois de conhecerem cada cantinho por ali, como prometido, passou o carro nas mãos da moça que dirigiu até o próximo e último ponto turístico que ele conheceria: a Praia Barceloneta.
– Nossa, que lugar incrível! – sorriu quando viu fazer a baliza para estacionar em frente a algum ponto da praia.
– Temos que vir de manhã, porque isso aqui de tarde lota, principalmente no verão. – ela desceu do veículo, fez o mesmo. Ambos tiraram seus sapatos e começaram a andar por uma das praias mais bonitas do mundo.
– Essa areia é branquinha, – ele se abaixou pegando um punhado de areia e deslizando entre os dedos.
– Sim, é incrível, né? O mais legal é a localização da praia, bem pertinho do centro de Barcelona, e por isso existem muitos bares e restaurantes próximos, com opções à beira mar para você apreciar a comida típica junto ao Mediterrâneo. – tinha os olhos presos no mar. – Vem, vamos molhar o pé um pouquinho. – o puxou mais uma vez pela mão para que pudessem caminhar em direção ao mar e sentir a temperatura da água, que não estava tão gelada como ela imaginava que estaria.
– Esse passeio está sendo incrível, . Muito obrigado. – ela sorriu, enquanto os dois ainda andavam a beira mar.
– É uma forma de me desculpar por ter sido tão rude, ignorando suas mensagens, e descontando minhas frustrações em você. Me desculpe, de verdade. – ela o encarou, tinha arrependimento no olhar.
– Depois de um tour maravilhoso desses, está mais do que perdoada. – ela sorriu. tirou o celular do bolso, tirando mais umas boas fotos ali. Depois de cansar de tirar fotos, eles se sentaram na areia e encararam o mar, cada um imerso em seus próprios pensamentos.
– Eu gosto muito de vir aqui e olhar o mar… Parece que meus problemas desaparecem olhando para essa imensidão azul. É meu refúgio, sem sombra de dúvidas.
– É um lugar muito bonito mesmo, compreensível que você se acalme olhando. – ele assentiu agora olhando o perfil da moça. Ficou a encarando por um bom tempo.
, a visão do mar é mais bonita que o meu rosto, vai por mim. – ela deu de ombros, não desviando seu olhar em nenhum momento do mar.
– Eu tenho dúvidas se consegue ser mais bonito que você. Você é muito linda, . – ela fechou os olhos com a última fala dele. Não, definitivamente, não. Ele não podia enxergá-la desse jeito. se levantou da areia, limpando a calça jeans que havia ficado suja por ter sentado ali sob o olhar atento do jogador.
– Sinto te desapontar, mas a visão do mar é muito mais bonita que eu. – ela sorriu – Me desculpa, , mas antes que fantasie algo, eu e você não vai rolar, não desse jeito. – recomeçou a andar o deixando extremamente sem graça. Ele tinha dado tanta bandeira assim? Claro que tinha “Eu tenho dúvidas se consegue ser mais bonito que você. Você é muito linda, ” era mesmo um idiota. – Você não vem? – ela perguntou divertida. Como um cachorrinho ele se levantou a seguindo.


Capítulo 4

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento
Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento
Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar


(Cássia Eller – Palavras ao Vento)

– Eu não sabia que você era tão pretensiosa... – ele já tinha se levantado e agora tentava acompanhar os passos dela, incrédulo. – Eu não pensei nisso assim, só te elogiei, não pode mais?
– Claro que pode. – ela ainda sorria, deixando-o claramente sem graça. – Eu me equivoquei, claro... – continha ironia em seu tom de voz.
Uma coisa em que ela tinha experiência depois de ter entrado na prostituição era quando um homem a encarava com desejo. Desde a hora em que eles haviam saído da cafeteria para os passeios, ela percebeu aquele olhar sobre si diversas vezes. Mas quando sentados na praia aquele mesmo olhar veio com força, e com a cantada, ela percebeu que era hora de pará-lo antes que aquilo ficasse complicado.
Aquilo era um jogo perigoso, porque ela tinha que reconhecer que estava muito gostoso e ela infelizmente não era imune. Após se envolver com Jonathan, teve alguns casinhos aqui ou acolá, mas nada muito sério. E depois de ter virado garota de programa então, não sabia mais o que era sentir tesão por alguém, afinal seus clientes não ajudavam em nada para que ela mudasse aquela ótica.
– Sim, eu, é... – ele coçou a nuca, completamente sem graça com a fala dela. sorriu, o interrompendo.
– Está tudo bem, – eles agora estavam parados em frente ao veículo, ela colocando sua sandália, ele ainda descalço. Ela entregou a chave na mão dele. – Você sabe voltar sozinho?
– Acho que sim, estamos bem perto do Centro, certo? – ela assentiu – Por quê? – perguntou confuso, enquanto a fitava.
– Porque você vai voltar sozinho, eu vou ficar, moro aqui perto. – ela deu de ombros.
– Ah não, eu te dou uma carona até sua casa, . – ele a olhava prestativo. – É o mínimo que eu posso fazer por você.
– Não, por Deus! – ela exclamou nervosa, fazendo-o se assustar com o tom de voz que ela usou.
– Por quê? O que há? – a encarava intrigado.
– Não é nada, é só que não tem cabimento, eu moro pertinho. Ainda aproveito e faço uma caminhada, as vezes é bom ser fitness. – se aproximou do homem e lhe deu um beijo na bochecha.
– Tá certo. – desistiu, sabia que era uma causa perdida. – Se eu te mandar mensagem você não vai me ignorar, né? – ela riu da carinha de cachorrinho que ele fazia.
– Não vou fazer mais isso, prometo. – sorriu a vendo se afastar cada vez mais dele. – Fica bem, bonitinho.
– Você também. – ele sorriu a vendo se distanciar cada vez mais, até que ela sumisse de seu campo de visão.
Ele se encostou no veículo, pegou o celular, escolheu uma das fotos da igreja e fez uma postagem no Instagram: "Turistando por Barcelona! 🙏"

***

– Por que você não foi para a faculdade hoje? – foi a primeira pessoa que ela viu quando entrou na residência.
– Ah, que susto! – tinha as mãos sobre o coração. Se jogou na cama ao lado da amiga. – Então sobre isso, bem... Eu posso ter cometido um pequeno grande erro. – rapidamente se ajeitou na cama, olhando-a assustada.
– Como assim? – arqueou a sobrancelha, com o olhar fixo na amiga.
– Bom, eu acabei de voltar de um passeio com o . – a amiga tinha a boca escancarada em surpresa.
– Como é que é?! – se levantou da cama depressa, fitando . – Você tá louca? , você disse que não ia mais ter contato com o jogador.
– Sim, eu disse, mas eu fui pra cafeteria perto do campus e tomei um susto quando o vi ali, me exigindo explicações que eu simplesmente não podia dar, e bom, eu disse umas merdas para ele, mas me arrependi e, como desculpa, simplesmente o convidei para conhecermos alguns pontos turísticos daqui.
– Você sabe que não vai ter mais volta, que ele vai querer mais contato com você, querer você na vida dele e você vai se afundar mais e mais, e estará mais perdida do que nunca. Abre o jogo para ele, conta que é garota de programa!
– Você tá louca? Eu não vou contar isso para ele. – se sentou na cama, encarando a amiga incrédula.
– Ou você conta de uma vez, ou você se afasta dele. O que você não pode fazer é sustentar essa mentira. Esse cara vai se apaixonar por você, você por ele e as coisas vão ficar muito piores.
– Chega, ! Eu já sou grandinha e sei muito bem me virar, eu hein! Cuida sua vida, que eu cuido muito bem da minha! – saiu do quarto batendo a porta.
– Quando você se foder lindo, eu vou dizer “eu avisei”! – suspirou, deitando-se novamente na cama, e tentando dormir. A noite tinha sido bem agitada e não seria que atrapalharia o seu sono.

***

Havia virado um hábito, sempre ia aquela cafeteria para ao menos tomar o café da manhã acompanhado por . Já fazia uma semana, desde o passeio que eles tinham feito, e todos os dias os dois se viram. Ele chegou ao local com a roupa de treino, tomaria café e iria até o local após. já estava lá, e sorriu quando o viu, acenando para que assim que ele efetuasse seu pedido, fosse até lá.
– Você não enjoa de tomar cappuccino todo dia? – ele sorriu brincalhão, lhe dando dois beijinhos na bochecha dela, e se sentando à sua frente.
– Não, nunquinha, cappuccino é vida. – ela sorriu – Quer experimentar? – ele tinha o olhar desconfiado para a bebida.
– Como café, chocolate e leite podem ser bom juntos? – ainda encarava a bebida duvidoso.
– Bebe logo, , para de frescura. – ela empurrou a caneca em direção a ele, que efetuando uma careta engraçada engoliu o líquido. – E ai, o que achou?
– E não é que é bom? – arqueou a sobrancelha pretensiosamente, como quem diz “eu avisei”.
– Sim, é maravilhoso, agora me dá minha caneca de volta antes que você beba tudo. – ela puxou de volta para si, com um sorrisinho maroto.
– Se eu quiser eu compro um igual. – fingiu estar magoado, enquanto mordiscava um pedacinho de seu pão. – Você ainda acompanha futebol? – perguntou de repente, quebrando o breve silêncio que surgiu.
– Na verdade, mais ou menos, ando com a vida megacorrida. Trabalho quase todas as noites direto, , e bem, ainda tem a faculdade. – ela suspirou, dando de ombros. – Por quê?
– Como existem lugares que ainda mantém os funcionários sem qualidade de vida assim? É inacreditável, ! Por que você não sai de lá e arruma outra coisa? – seus olhos arregalaram.
– As coisas não são assim simples como acha que são, ! Não é só sair e pronto, emprego aqui na Espanha é difícil. Não é todo mundo que tem as chances que você teve na sua vida, que simplesmente caíram no seu colo. – pegou a colher e ficou remexendo no pouco líquido que tinha ali na caneca, completamente chateada. Custava ele entender isso?
– Você fala desse jeito, até parece. Não foi bem assim. – ele suspirou fundo.
– E como foi? Me explica porque, de verdade, não me parece que foi difícil estar onde você está. – comentou irônica. Ele arregalou os olhos, como é que era?
– Eu tive que lutar desde muito pequeno pelos meus sonhos, levei muito não na cara, . Ou você acha que não existe um monte de garotos que tem como sonho ser jogador de futebol?! Eu tinha que me esforçar, tive que treinar duro para me destacar mais do que os outros e chamar atenção de alguma forma de algum olheiro. Demorou muito para eu receber uma resposta positiva e, quando a recebi, tive que largar minha cidade, minha mãe, já que quem me acompanhou em tudo foi meu pai, meus amigos, minha escola… Tive que me habituar em um estado novo, que tem um clima completamente diferente de onde eu morava, minha saúde ficou frágil, fiquei diversas vezes doente, e eu não tinha minha mãe para os xaropinhos caseiros que só ela sabia fazer. – suspirou, lembrando-se de sua mãe. – Passei por muita coisa para estar onde estou, então não, as coisas não caíram simplesmente no meu colo. – ele despejou tudo aquilo.
Eu… – apertou os lábios, sem graça, evitando encará-lo. Desde que estudaram juntos, nunca havia comentado ou demostrado como tinha sido tão difícil sua mudança para o Sul, escutar aquilo tudo dele, havia a deixado sem palavras.
– Me desculpa se soei rude com você, não foi minha intenção. Mas você me jogando essas indiretinhas o tempo todo não estava legal.
– Não, está tudo bem, eu só não imaginava que você tinha passado por tudo isso… Por que nunca me falou?
– Sei lá, eu não queria te encher com minhas lamúrias, não éramos tão próximos. E também, eu era só o garoto burro que precisava da ajuda da menina mais inteligente da escola em todas as matérias possíveis. – ele desviou o olhar do dela, voltando-o para o pão que estava disposto a sua frente.
– Por favor, não fale assim, você não era burro, e eu o escutaria de bom grado. – ela segurou a mão dele, entrelaçando com a sua. – Me desculpa ter falado essas merdas pra você, eu não tinha o direito. – encarou as mãos de ambos entrelaçadas e apertou a sua com a dela.
– Tudo bem, só não ache que as pessoas não tem problemas, , todos têm, a gente só precisa aprender a lidar com eles para podermos vencê-los. – ele desentrelaçou suas mãos, terminando de comer, deixando-a sem palavras mais uma vez naquela manhã.
– É… Eu preciso ir pra aula. – ela tomou o cappuccino de uma vez, segurando suas coisas que estavam na cadeira ao lado.
– Espera, se eu te convidasse para assistir algum jogo do Barcelona, você toparia?
, eu despejo um monte de coisas em você, você me despeja mais um monte e depois simplesmente me solta uma dessas? Você é inacreditável. – ela mordeu os lábios com um meio sorriso, ela achou que ele pudesse ter ficado ressentido, com raiva, achou até que ele tivesse magoado e lá vem ele e esfrega na cara dela mais uma vez o quanto era incrível e bem superior a ela. Definitivamente, ela não merecia tê-lo em sua vida. Ele ainda a encarava esperando a resposta para sua pergunta. – Eu faria de tudo para ir. – ela sorriu, levantando-se da mesa, lhe dando um beijo na bochecha e saindo dali.
terminou de tomar seu café, com um sorriso no rosto. Estava gostando de ter em sua vida. Sim, as coisas que tinha dito eram pesadas mesmo, mas não tinha conseguido ficar com raiva, um pouco magoado sim, porque não era de ferro, mas já tinha resolvido aquilo, e com certeza ela tinha entendido.
só estava em um momento ruim, ele só não entendia por que ela tinha tanta mágoa dentro de si. O que havia acontecido com ela para ter se tornado tão… Amargurada? E o pior é que ele já estava envolvido por completo por ela, tinha algo que o intrigava, que o seduzia de um jeito tão natural que ele via-se cada vez mais enfeitiçado por ela.
Suspirou, sentia-se um merda porque achou que as coisas que sentia por ela haviam ficado no passado. Achou que conseguiria não se apegar a ela novamente. era tão simpática, tão meiga, que ele se viu nutrindo uma paixão platônica pela garota o colegial inteiro, e por isso muitas vezes procurava a ajuda dela para que ao menos ficasse um pouco ao lado da mesma, apesar de ela namorar, e ele saber que não tinha nenhuma chance. E agora cá estava ele na friendzone de novo, as coisas não poderiam estar melhores para o jogador.
Suspirou, levantando-se da mesa e deixando aqueles pensamentos de lado, seguindo até o seu veículo para que pudesse ir para o treino, precisava focar tudo de si para manter sua posição de titular, afinal, o banco estava cheio de gente que queria estar em seu lugar.

***

colocou os pés em casa cansada, se jogou no sofá. Os dias que tinha que dar plantão na clínica da faculdade para atender casos eram um dos dias mais cansativos para ela. E saber que por ser sexta, a noite a probabilidade de ter programa era de quase 100%, a deixava mais fadigada ainda, se é que era possível.
Inês ainda não havia lhe posicionado sobre deixá-la fazer o estágio ou não, precisou enrolar o professor por mais uma semana. Se até terça-feira Inês não lhe desse uma resposta, ela a procuraria para questionar. Como se a mulher pudesse ler pensamentos, surgiu no último degrau da escada.
, meu quarto, agora! – a moça suspirou fundo, e subiu as escadas atrás da cafetina, que já a aguardava sentada na cama de seu quarto. – Encosta a porta. – a obedeceu. – Você me pediu algo semana passada referente aos seus estudos, certo? – a jovem assentiu. – Eu já me decidi sobre isso, e tudo bem, você pode estagiar. – a moça começou a comemorar animada. – Desde que isso fique entre nós! Se isso vazar, adios!
– Muito obrigada, Inês, de verdade. Eu estou muito feliz…Você não tem nem noção. Muito obrigada mesmo.
– Faça por merecer o que eu estou te dando, hein? – para mostrar que a conversa tinha sido encerrada, a cafetina se levantou da cama e abriu a porta para que ela pudesse sair dali.
– Eu farei, pode deixar. Mais uma vez obrigada. – encostou a porta do quarto comemorando internamente, se pudesse estaria gritando aos quatro ventos.
Entrou em seu quarto e encontrou de toalha, provavelmente se arrumando para algum programa. Mordeu os lábios, estavam sem se falar direito desde o dia em que discutiram. Aquilo estava matando , querendo, ou não era sua única família ali, já que sua tia não estava nem ai para ela. Sabia o que tinha que fazer.
– Quero te pedir desculpas por ter falado daquele jeito com você, é que eu só… – não tinha palavras para completar.
– Você já está envolvida, eu sei. – completou a fala da amiga em reconhecimento. – Eu te desculpo, tá tudo bem entre a gente. – sorriu. Parecia que um peso havia saído de suas costas, não gostava de brigar com a melhor pessoa que havia conhecido na Espanha.
– O é tão legal, conversar com ele me faz bem, apesar do caos em que eu estou, eu tento me afastar, mas quando eu o vejo, essa vontade some. Eu sei que não deveria me envolver, você tem razão sobre eu contar a verdade sobre tudo, mas eu não posso, eu tentei hoje, mas eu não consegui. – ela mordeu os lábios tentando controlar as lágrimas que queriam jorrar de seus olhos.
– E você acha que essa mentira vai se sustentar até quando? – as lágrimas agora já desciam desenfreadamente de sua face. – Essa sua atitude vai magoar você dois, . – vestia um vestido apertado tubinho no corpo. – Você vai se apaixonar e ele também…
– Eu não vou me apaixonar, eu só quero a amizade dele, ok? – se virou para a amiga com a sobrancelha arqueada, enquanto se maquiava.
– Às vezes eu acho que sou eu que faço psicologia por aqui… – negou com a cabeça. – Se você quer se enganar, se engane. – suspirou fundo, vendo a amiga limpar as lágrimas que escorriam. Não adiantava falar, era teimosa feito uma mula. – Deixa isso para lá, eu não vou ficar dando murro em ponta de faca com você. – suspirou. – O fato é que o Dembelé me quer hoje, e cedo, porque tem um jogo a noite.
– Meu Deus, como ele é imprudente, ! Que eu saiba em dia de jogos os jogadores não podem transar…– fungou, limpando as lágrimas que ainda desciam, agradeceu a amiga silenciosamente pela mudança de assunto.
– E eu não sei? De qualquer forma eu vou encontrá-lo, não é como se eu tivesse escolha, ou pudesse opinar sobre algo. – suspirou, dando de ombros. – Ele é cliente e sempre tem razão.
– Sim, verdade. – se jogou na cama, enquanto olhava a amiga se arrumar. A viu terminar de secar o cabelo, deu mais uma rápida checada na maquiagem, viu que estava tudo certo, pronta para sair.
– Enfim, já está na minha hora, chica. – ela sorriu, enquanto procurava a pequena bolsa pelo quarto, a encontrando em cima de sua cama.
, espera! – se levantou e deu um abraço apertado na amiga. – Obrigada por tudo, eu vou tentar me afastar do , não é saudável mesmo para nenhum de nós. – correspondeu o abraço. – Ah, eu consegui o estágio, Inês autorizou! – as duas começaram a pular animadas enquanto ainda estavam abraçadas.
– Estou muito feliz por você, de verdade. – desfez o abraço com a amiga segurando suas mãos. – Quanto ao , não precisa se afastar, só conte a verdade. – deu uma piscadela, se despedindo da amiga.
se jogou na cama com os pensamentos ouriçados, estava confusa, sabia que precisava contar para ele, mas como abordaria o assunto. Ah, oi, , tudo bem? Sabe o que é, eu sou prostituta… Quis rir para não chorar de desespero quando esse pensamento veio à cabeça.

***

– Você é foda demais, fico enciumado só de pensar que você faz essas mesmas coisas com outros clientes. – Dembelé comentou, enquanto saía do banho. estava emaranhada nos lençóis enquanto via o jogador começar a se vestir.
– Essa questão é simples, é só você me tirar do prostíbulo e me tornar sua garota fixa… Quem sabe uma ficante ou talvez namorada... – em toda a oportunidade que tinha jogava aquela indireta, ela sabia no fundo que se pressionasse muito quem sabe ele não cedesse um dia?
– Muito tentador, mas não pegaria muito bem, se é que você me entende. – ele deu de ombros, ela abriu um sorriso fingido.
– Claro que sei, então lide bem com seus ciúmes e saiba que eu trato todos os meus clientes iguais, você não é especial… Sinto muito, sabe como é, não pegaria muito bem. – o jogador fechou a cara. Era claro que Dembelé era diferente, mas ela jamais diria isso a ele, se quisesse que ele a tirasse daquilo, ela precisava jogar bem sujo.
– Hum. – terminou de se vestir, engatinhou na cama e lhe deu um selinho – Preciso ir, jogo daqui a pouco. – ela mordeu os lábios, insinuativa. – Pelo amor de Dieu, não faz essa cara pra mim, se não dá merda. – o francês comentou.
– Vai lá, e faz um gol para mim. – ele lhe deu mais um selinho, segurando os lábios dela entre seus dentes e por fim saiu dali com um grande sorriso.
Ela não desistira, ele havia ficado chateado por não ser especial, só mais um pouquinho e conseguiria o feito que muitas meninas queriam, ela conseguiria enlaçar um jogador de futebol que a tiraria dali, ela só precisava continuar do jeito que estava…

***

Já era outubro, fazia exatos um mês que estava fazendo o estágio no hospital, a cada momento era elogiada pelo professor e os médicos dali. Sua presença era constante, e quando tinha dias que não ia, era como se a equipe sentisse falta dela ali. Estava muito feliz, se mostrasse cada vez mais seu potencial, conseguiria pagar a dívida para Inês e trabalhar na área que sempre sonhou na vida, até não precisando voltar para o Brasil.
De fato que fazer o estágio estava deixando extremamente cansada, mas ela não reclamava, fazia os programas calada, apesar de tudo o que mais queria era chegar em casa ir pra cama. Sua sorte era que as terças e quartas o movimento no prostíbulo não era tão intenso, e às vezes nem aparecia programa. Mas não era o caso de ontem, que ela precisou dormir com o cliente.
O rapaz era um CEO de uma empresa de médio porte. O que a deixou mais surpresa é que ele não era feio, era até bonito. Aquilo não entrou na cabeça dela, o cara poderia ter a mulher que quisesse, por que precisaria requerer uma acompanhante? Deu de ombros, afastando aqueles pensamentos de si.
Trocou de roupa no próprio motel, e agora caminhava em direção a cafeteria, com certeza já lhe esperava. Ela abriu a porta e dito e feito, ele já estava lá.
– Hey! – ela sorriu. Já estavam tão íntimos que havia pagado o cappuccino dela, que estava disposto à mesa, pronto para consumo.
– Oi, . – ela lhe deu dois beijinhos e se sentou em frente a ele. – Você não sabe da última, fui convocado novamente para os amistosos da seleção. Dia 12 e 15 de outubro. – se curvou na mesa dando um abraço apertado no rapaz.
– Parabéns, que bom! – ela sorriu sincera, afagando as costas dele.
– Obrigado. – sorriu, ela voltou a se sentar. – Pode ser pouco, mas todas as vezes que sou convocado para vestir a camisa do meu país, é gratificante.
– Sim, é claro que sim, é o Brasil! – ela alisou a mão do rapaz, a soltando. Bebeu um bom gole de cappuccino.
– E quando a senhorita vai dar a honra de sua presença em um dos jogos do Barcelona? – perguntou animado.
– Um dia, eu prometo, bonitinho. – ela sorriu – Me passa os dias de jogos depois pelo WhatsApp, pra que eu já tenho uma noção. Mas lembra que eu vou avisar em cima da hora quando puder, então esteja a postos. – ele assentiu.
– Certo. A partir de amanhã eu vou te deixar sem companhia para os cafés da manhã... – ela assentiu em concordância.
– Boa sorte pra vocês lá, viu? – sorriu largo. – Enfim, hoje vou precisar sair mais cedo. – ela deu uma longa golada no cappuccino para terminá-lo de vez. – Preciso passar na biblioteca antes da aula.
– Claro, sem problemas. Vamos nos falando. – ela se levantou, deu um beijo estalado na bochecha dele e saiu dali.
Não demorou muito e seguiu os passos dela, embarcando no seu veículo e dirigindo rapidamente até o centro de treinamento. Chegou rapidamente e cumprimentou a todos com um sorriso breve, indo em direção ao vestiário para que pudesse guardar suas coisas.
– Hey, ! – Rafinha já estava lá, acompanhado de Dembelé e Malcom. Ao fundo era possível ver Messi e Piqué. Ainda era inacreditável para ele estar no mesmo time de um dos melhores jogadores do mundo.
– Hey, caras! – sorriu, cumprimentando a cada um deles com um toque de mãos.
– Você tá com uma cara de bobo, . – Malcom foi quem falou aquilo para ele.
– Quê? Nada a ver. – ele enfiou a cara no armário, guardando suas coisas para evitar um contato com qualquer um deles, completamente tímido.
– Na minha terra isso se chama mulher... – Dembelé arrancou gargalhadas de todos, até de Messi que sempre era muito reservado e ficava na dele. – E por falar em mulher, alguém topa hoje uma festinha com algumas garotas de programa? Amanhã não tem treino, e depois vai ser complicado! Vamos!
Não era segredo pra nenhum deles que Dembelé sempre frequentava aquele tipo de lugar, desde que não atrapalhasse seu desempenho nos jogos ninguém se intrometia, mas não era o que estava acontecendo… O jogador estava faltando a alguns treinos. Em uma das vezes, um dos funcionários do time ligou às 11:30 para perguntar o porquê ele não havia aparecido para o treino das 11 horas, Dembelé completamente atrapalhado e consciente de que tinha feito asneira, inventou uma desculpa que estava mal da barriga. Um médico do Barcelona deslocou-se à sua residência e constatou que o jogador estava completamente recuperado das (fictícias) dores de estômago*. Sua fama não estava muito boa por ali.
– Eu dispenso, tô muito bem, obrigado, com a minha chica… – Malcom terminou de se trocar, sentando no banquinho que tinha ali.
– Rafinha? – Dembelé olhou para o rapaz com um sorriso.
– Amanhã não tem treino, então bora. – Rafinha sorriu animado com o rapaz.
? – chamou a atenção do jogador, que olhava seu armário com tanto interesse que parecia que tinha uma passagem para Nárnia ali.
– Eu não curto muito esse tipo de coisa, caras, então eu passo. Vou curtir minha noite com muito videogame. – deu de ombros.
– Nossa, , que coisa mais sem graça. – Dembelé fez uma careta para fala do colega, Rafinha gargalhou.
– Deixa o cara, Dembelé. – Rafinha ralhou, rindo. tinha fama de santinho por todos da equipe, não saía para noitadas com nenhum deles. – Vem, vamos ver com o Vidal, o Alba, talvez o Umtiti e.. – Dembelé e Rafinha foram pegando suas coisas e saindo do local, sendo seguidos por Malcom. terminou de se vestir e foi surpreendido por Messi que estava ao seu lado.
– Não se deixe levar pelo Dembelé, do jeito que as coisas andam, logo mais ele vai ter o banco de reservas como advertência definitiva. Valverde e a comissão técnica estão de olho nele. – Messi comentou, enquanto caminhavam até a arena.
– Ele tem ido direto? – perguntou curioso.
– Sim, ele vive com prostitutas, a mídia logo mais vai colocar isso em pauta, já que ele não tem jogado tão bem quanto o esperado. Ele precisa ter disciplina.
– Eu não imaginava... – o encarava perplexo.
– Você tem muito potencial, é um dos melhores reforços que chegou aqui no Barça, não perca essa essência. – deu dois tapinhas nas costas de e correu até o campo para começar o treino.
Parecia que explodiria tamanha era alegria de ter escutado um grande elogio do melhor jogador do time, quiçá do mundo, aquilo havia o feito ganhar o dia, agora é que tinha certeza que se manteria cada vez mais focado, não se deixaria levar por Dembelé ou qualquer outro colega de time que tentasse lhe desviar de seu foco. Dembelé... Lembrou-se de algo com a fala de Messi:

– Então era de você que o Dembelé estava falando… – ele a encarou curioso.
– Você conhece o Dembelé? – arregalou os olhos. Sua amiga era a pior pessoa, por que ela não conseguia segurar a porcaria da língua na boca?
– Sim, eu conheço. – suspirou, tentando raciocinar rapidamente. – Somos amigos.
– Que coincidência, ele não vai acreditar quando contar que você é amiga da minha amiga então… – ele concluiu pensativo. – Que mundo pequeno.
, você não pode contar ao Dembelé que encontrou ! – o encarava de olhos arregalados.
– Mas por que eu não posso contar? Há alguma coisa de errado? – ele tinha o olhar curioso para as duas moças.
– Sim, é que eles estão brigados é… – suspirou. – Não acho que seja legal que você fale dela, o Dembelé está morrendo de raiva.
– Sim, eu o irritei quando disse algumas coisas a ele. – assentiu com o cenho franzido, que coisa estranha. Mas preferiu concordar, sem maiores questionamentos.

Ele ficou pensativo, Dembelé só saía com prostitutas, o conhecia, havia pedido segredo… Será? Não, não deve ser isso, vai ver são amigos mesmo, era o que ele concluía pensativo. Decidiu entrar de vez no campo para o treino, mas a pulguinha tinha ficado atrás da orelha.


*Sim, gente, esse trecho eu adaptei de um jornal espanhol, então é verdade esse bilhete, rs. O jogador na época vinha faltado aos treinos, mas por noitadas jogando playstation.




Continua...



Nota da autora: Parece que o bolinho (apelido dado pela Flá, que já pegou rapidamente hhahahah) não é tão indefeso assim, deu uma bela resposta na pp, né? Ela precisava disso! E esse finalzinho? Hum...
Gostaram da atualização? Entrem no grupo do facebook, é só clicar no ícone para ser informada quando um novo capítulo entrar. Beijos!





Nota da beta: Eita que o bolinho tá começando a juntar 1 mais 1, mal vejo a hora dele descobrir, honestamente! Hahahaha e eu ainda tenho minha pulguinha atrás com a Brenda, viu?! É alguém que ela tá brigando muito e com muito conhecimento, vai dar merda! No aguardo dos próximos capítulos, Naty! <3
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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