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Finalizada em: 02/06/2020

Prólogo

Londres. 15 de setembro de 1666

Lucinda chorava compulsivamente perante a lápide de seu marido. Não podia acreditar que aquilo realmente tinha acontecido. O seu querido , o seu amado marido se fora tão cedo e tão tragicamente. Ela não compreendia o motivo de a vida estar fazendo aquilo com ela. Com apenas dezessete anos já era viúva, não tinha herdeiros, não tinha mais família além de seus sogros, visto que Diana, sua cunhada, também morrera naquele incêndio. Não que seus olhos não olhassem para a lápide da cunhada, mas tudo o que conseguia ver para além do nome de seu esposo escrito na lápide, ela também via todos os seus sonhos mortos também. Para onde iria e como iria viver? Eram muitas perguntas, mas Lucinda estava tão envolvida no luto que não conseguia encontrar as respostas.
Pensava consigo mesmo que diabos estaria fazendo, durante a noite, na Catedral de Saint Paul com mais cinco pessoas. Por que Diana, Thomas e Damon também estavam lá? Quem eram as outras pessoas? Como dito antes, muitas perguntas e nenhuma resposta.
- Ah, querida, não se preocupe. Cuidaremos de você - a senhora Somerhalder, sua sogra, lhe deu um gentil abraço de lado como se lesse os pensamentos da nora. - Cuidaremos uns dos outros.
- A senhora não pretende me devolver para a minha família? - Luce perguntou chorosa, fungando, mas Somerhalder se afastou um pouco, negando veemente.
- Perdi dois filhos, Luce, não quero perder você também. Pode ficar aqui o tempo que precisar.
- Obrigada - ela sorriu com os olhos cheios de lágrimas, talvez seu primeiro sorriso em uma semana, então as duas caminharam juntas de volta para o castelo.
Poderia soar meio mórbido duas lápides no meio do lindo jardim da família Somerhalder, mas não queriam, de forma alguma, ficarem afastados de e Diana. Talvez tenha sido cruel demais da parte deles separar Diana de seu esposo, Thomas Bamborough, por quem ela havia se apaixonado perdidamente, mesmo sendo um casamento arranjado. Provavelmente estariam juntos onde quer que estivessem agora, mas ter o que sobrou dos corpos dos filhos por perto lhes traziam o mínimo de consolo.
Lucinda pediu licença para a sogra, subiu lances de escadas e virou várias vezes por corredores até chegar em seus aposentos. Da sacada do quarto ela tinha a pior visão de todas, a visão das duas lápides que pareciam ainda mais deprimentes do quarto andar do castelo. Ela soltou um longo suspiro, sabendo que aquela vista todos os dias a lembraria de que não era um sonho e sim sua terrível realidade. Viúva e sozinha.
Ela pensou também em como estariam a filha e a esposa do Lorde Woodbead. Damon e eram melhores amigos inseparáveis, tão inseparáveis que partiram desta vida juntos. Lucinda não tinha a mínima ideia do que Damon estava fazendo naquela igreja também, se perguntava se em seus últimos momentos ele havia pensado em Clara e Charlotte, embora tivesse quase certeza que sim. Ainda não era o momento, mas Luce estava disposta a unir suas forças com as de Charlotte para que juntas pudessem seguir em frente.
Sim, ela iria seguir em frente. Talvez em outra vida o reencontrasse, ela acreditava nisso friamente. Sua criação diferente foi lhe imposta assim. Sua intuição dizia que sim, eles ainda iriam se reencontrar. Ou melhor, algo a mais do que uma mera intuição.
A feição de luto no rosto de Luce se transformou em uma sombria diversão por pensar naquilo. Seus olhos castanhos, antes tomados por lágrimas, agora tinham outro brilho, brilho este que nem mesmo conheceu. Nos seus lábios, um sorriso maquiavélico se formou quando ela gargalhou, sem se importar se seria ouvida ou não. Se fosse, não faria diferença, levaria aquele castelo abaixo da mesma forma que a igreja queimou, com todos ali dentro. Luce, assim como Carter Rodwell, podia fazer isso.
- Vamos, me mostrem! Me mostrem o que aconteceu naquela noite. Me mostrem quem estava lá! - ela ordenou e, em meio a uma fumaça preta e densa, ela se viu transportada.
Estava na Catedral, sentada no primeiro banco ao lado de Diana. Então, vendo a cena, não poderia acreditar nos próprios olhos. Por que a irmã de Thomas, Bamborough, estava no altar com um homem que certamente não era dela? Por que estava com ali? Damon estava lá também, assim como Diana e Thomas. A cabeça de Luce girava, ela se recusava a acreditar que estava sendo traída.
- Não, isso não é possível - ela riu em negação, mas ninguém pareceu perceber que ela estava ali. - Não é possível...
Ela viu tudo. Viu quando o Lorde Rodwell surgiu por dentre os bancos, se revelando para as pessoas ali presentes. Lucinda não poderia negar que as habilidades dele com o fogo eram admiráveis, jamais imaginou que aquele Lorde, sempre tão culto e educado poderia ser um bruxo poderoso. Embora surpresa, Lucinda se admirou, estava feliz por saber que não era a única com dons especiais. E nem seria a única a buscar vingança.
Ah, sim, ela com certeza iria, mas não sem antes descontar todo a raiva que sentia bem ali. Era um belo castelo, tinha que concordar, mas de nada valia quando virasse apenas cinzas. Passando pelas grandes portas da melhor madeira, Lucinda estalou os dedos, e, sem olhar pra trás para admirar o que havia acabado de fazer, foi embora. Londres estava em chamas, quem pensaria que uma simples viúva teria feito aquilo? Não importava, tudo o que lhe remetia à lembrança do seu falecido marido naquela casa agora era consumido pelas chamas ardentes.
Aquela era apenas a primeira vida, pelo o que ela ouviu, mas mal podia esperar pelo estrago que faria nas próximas três.


Capítulo 1 - Nice To Meet Ya

Setembro de 1665

levantou-se de seu acento e caminhou em direção à prateleira para devolver a obra de Shakespeare que ela lia antes. Colocando o livro em seu devido lugar, a moça deixou a biblioteca e subiu toda uma escadaria em direção aos seus aposentos, entrando em seu quarto e caminhando até a sacada para respirar um pouco de ar puro. Pelo céu colorido, o sol já estava se pondo e ela sentiu a brisa do fim do verão batendo contra o seu rosto e cabelos, bagunçando o seu penteado, a fazendo rir. Já havia feito tantas coisas naquele dia que nem se deu conta das horas avançando e logo mais seria servido o jantar. Ela foi afastada de seu devaneio quando ouviu batidas na porta, mas não estava disposta a ir até a mesma para abrir, então apenas deu permissão para quem quer que fosse.
- Olá - Thomas, seu irmão mais velho, disse ao se espreitar para dentro, fechando a porta atrás de si e caminhando na direção dela.
- Oi - ela sorriu de canto, a visita dele sempre era bem-vinda.
- Está ocupada? Daqui a pouco virão anunciar que o jantar está pronto - ele se colocou ao lado dela e se apoiou no parapeito.
- Não. Na verdade, só estou admirando este lindo crepúsculo. Para mim, quando o céu está assim, é porque ainda há esperança para o que penso estar perdido.
- Está falando sobre o casamento?
- É errado eu não querer me casar agora? Entendo perfeitamente que estou na idade, quase passando do limite, mas... eu gostaria tanto de experimentar outras coisas! É errado?
- Para mim não é errado, , mas para o resto de nós é. Eu, como seu irmão, apenas quero que você seja feliz independente do seu estado civil ou ambições, mas mesmo que eu tente te ajudar quanto a isso, sabemos que só adiaria o inevitável. Você tem dezesseis anos e não vai demorar nada até que nossos pais encontrem um noivo para você.
- Eu sei - soltou um longo suspiro, aquela conversa era sufocante. - Sei também que eles estão procurando homens da nobreza, o que é muito bom, mas... tenho medo, não quero mudar para outro país, não quero ficar longe de você e tudo o que eu conheço. Acho que casamento deveria ser constituído por amor e não por posse de terras e outros bens.
- Irmã, eu não sei quem será o homem escolhido pelos nossos pais, mas será impossível que ele não se apaixone por uma mulher como você. Não se preocupe, apenas dê tempo ao tempo e viva a sua vida, vamos ver o que o futuro reserva para você e também para mim, afinal, dezesseis não é muito longe de dezoito e acho que estou começando a desonrar a nossa família - Thomas disse divertido e riu, negando com a cabeça a afirmação dele. 
- É mais aceitável para você que pra mim, tenho certeza - ela respondeu no mesmo tom de brincadeira, o fazendo rir também. - Além disso, amanhã é o baile em comemoração ao aniversário do Lorde Woodbead e tenho certeza de que muitas moças bonitas estarão presentes lá. Talvez você se interesse por alguma.
- Receio que eu não tenha saúde o suficiente para tal, eu se quer deveria ter me levantado da cama hoje, apenas vim porque estava entediado no meu quarto - ele admitiu rindo. Estava com uma gripe forte por ter tomado chuva dias antes. - Mas você talvez possa encontrar um para você, Damon é muito bem relacionado.
- É verdade, talvez - deu de ombros. - Mas não vamos nos preocupar com isso agora, certo? Vamos apenas ter o jantar e viver um dia de cada vez.

Thomas concordou e acompanhou para o jantar que já estava sendo servido. Eram muito unidos, um sempre protegendo o outro é quando o assunto era casamento, não era diferente. Ambos estavam em idade para se casarem, mas não era algo que realmente queriam e talvez por isso estivessem ainda mais próximos ultimamente. ainda tinha um pingo de esperança de que pudesse se livrar de um destino fadado enquanto Thomas sabia que não seria bem assim para nenhum dos dois, mas não queria demonstrar isso para a irmã menor, apenas torcia para que tivesse a sorte de, ao menos, se apaixonar com o tempo.

- , querida, já se certificou de que todos os detalhes estão conferidos para amanhã? - a senhora Bamborough perguntou quando já estavam assentados à mesa.
- Sim, mãe, o vestido continua servindo perfeitamente e nada mais está fora do lugar - respondeu com educação, mas aquela conversa outra vez a aborrecia.
- Perfeito, apenas quero evitar imprevistos. Thomas, está se sentindo melhor?
- Não muito, mãe, espero estar melhor até amanhã.
- Acho que deveria ir mesmo assim, Thomas, precisamos ser vistos com bons olhos.
- Entendo, pai, mas sabemos como um simples resfriado pode virar uma peste aqui na região, certo? É melhor prevenir - Thomas rebateu transbordando ironia. - Caso eu não tenha febre durante a noite, irei tranquilamente.
- Ele está certo. Não se preocupem, acompanharei vocês - tomou a palavra. Olhou para Thomas e ele murmurou um obrigado inaudível.
- Ah, ! Se Damon Woodbead já não fosse casado, eu faria de tudo para que fosse ele. Falo de todo o meu coração - sua mãe disse sonhadora e precisou se controlar para não torcer o nariz.

Não que o Lorde fosse um homem feio, muito pelo contrário, tinha uma beleza notável à distância, mas por ele ser apenas um ano mais velho do que e se conhecerem desde a infância, Damon não era o tipo de pessoa que olharia com outros olhos, além disso, ela sabia que ele não era o marido mais fiel de todos no início do casamento dele com Charlotte Delacour, uma duquesa francesa. Por mais que tivesse realmente mudado sua conduta, ainda não era o tipo de homem que se interessaria.

- Por que ele é rico e influente? Não, muito obrigada.
- !
- Me desculpe, pai, apenas acho que não é o tipo de conversa que devemos ter sobre um homem casado e uma moça solteira. Se desejam arranjar um casamento para mim, o que é inevitável, ao menos que possamos falar sobre candidatos solteiros e com o mesmo poder aquisitivo e status social.

O discurso moralista e conservador de pareceu ser convincente o suficiente para que o assunto mudasse rapidamente. Não que ela pensasse exatamente daquela forma, não se considerava tão conservadora e ortodoxa assim, mas odiava o rumo que a conversa sempre tomava e ela não estava interessada em continuar ali, então apenas se limitou a jantar em silêncio até que pudesse se retirar e voltar para seus aposentos.

...

- , por favor, não esqueça de nada do que combinamos - sua mãe alertou mais uma vez quando a carruagem parou.
- Não vou me esquecer - respondeu aborrecida, murchando. - Sorrir, acenar, estender a mão e seja mais o que for adorável. Eu já entendi.

Quando a porta da carruagem foi aberta, o senhor Bamborough foi o primeiro a descer, ajudando sua esposa e em seguida a sua filha. Thomas teve febre durante a noite e parte do dia, por isso não estava presente, o que dificultou ainda mais as coisas para , que desejava mais do que tudo que seu irmão estivesse ali. Ela seguiu atrás dos pais, atravessando as gigantes portas de carvalho. Passou pela entrada do castelo despercebida é só ergueu o olhar novamente quando chegou ao salão principal. Ficou encantada com toda a decoração feita e todas as pessoas presentes ali em seus melhores trajes, talvez não fosse se divertir tanto assim, mas não poderia negar que adorava trajes de festa, inclusive o seu próprio.

- Bamborough! - a voz de Damon fez com que os três se virassem, vendo que o aniversariante se aproximava deles em passos rápidos. - Quase não os vi chegando, mil perdões. Senhor, senhora - ele cumprimentou o casal, fazendo reverências adequadas para cada um e se virou para . - Senhorita.
- Damon, não gaste sua formalidade comigo - estendeu a mão quando Damon pediu, se curvando para lhe beijar as costas da mão. Pelo olhar de repreensão dos pais, imaginou que nem ao menos com o amigo teria exceção. - Quero dizer, Lorde Woddbead. É um prazer revê-lo.
- Ah, o prazer é todo meu, espero que se divirtam! Onde está o Thomas?
- Thomas está muito doente, teve febre, achamos melhor que ele ficasse.
- Entendo, senhora, minhas mais sinceras melhoras para ele. É uma pena que ele não veio, quero apresentar uma pessoa para vocês. Uma amiga, acho que ele e todos vocês gostariam muito dela.
- De quem está falando, querido? - os olhos da senhora Bamborough brilharam, então Damon pediu que os acompanhassem.

revirou os olhos e de repente se viu sozinha ali no meio de todas aquelas pessoas. Não sabia para onde ir ou com quem falar, conhecia poucas pessoas do ciclo de amizades de Damon. Pelo tanto de convidados, podia dizer que eram muitos amigos, se ele realmente conhecesse todas as pessoas presentes ali. Quando viu Charlotte com a pequena Clara no colo, cumprimentando as pessoas ao redor, ela ficou feliz por ver um rosto conhecido.

- ! Como vai? - Charlotte disse feliz ao avistar a amiga.
- Olá, Lotte. Estou bem - sorriu e se curvou para cumprimentar. - E como está essa princesinha linda?
- Cada dia maior e mais esperta. Daqui a pouco já está andando e falando. Pegue ela para eu descansar o meu braço, está pesada também - ela riu e passou o bebê para com cuidado.
- A maternidade te fez bem, Lotte, você está radiante.
- Obrigada, acho que fez bem em um geral, você sabe - Charlotte encolheu os ombros e concordou, sem necessidade de fazer algum comentário negativo.
- Estou muito feliz por vocês. Têm uma filha linda - ela voltou a atenção para a bebê que olhava para ela com curiosidade.
- Quem sabe logo terá os seus também?
- Ah... Não sei, é muito cedo ainda, não é algo que planejo a curto prazo. 
- Eu sei, estou apenas brincando. Você pode ficar com a Clara apenas um minutinho? Preciso falar com o Damon.
- Tudo bem, pode ir. Vou ficar bem aqui esperando.
- Obrigada.

Charlotte se afastou e ajeitou o bebê nos braços. Viu Clara quando era recém-nascida, agora estava beirando um ano de idade e ela achava que era a criança mais linda que já viu com aquelas bochechas grandes e rosadas, e os olhos que ela certamente herdou do pai.

- Não me olhe assim, mocinha, não posso te dar amiguinhos durante algum tempo. É melhor aguardar - ela ajeitou uma mecha de cabelo rebelde da bebê, mas foi em vão. - Quem me dera se eu ainda fosse pequena assim...

Clara até parecia saber o rumo que tomaria a lamentação de , pois espremeu sua pequena boca e torceu o nariz, ameaçando chorar.

- Não, não... não faz isso comigo, por favor...

Tarde demais, em meio segundo a bebê já estava chorando alto, atraindo alguns olhares na direção delas. não sabia o que fazer, não tinha nenhuma instrução ou extinto maternal para colocar em prática. Se mexia de um lado a outro, tentando a acalmar, mas não adiantou e Clara continuou chorando.

- Quer ajuda?
Ela se virou quando teve certeza de que falavam com ela, e se não estivesse carregando um bebê, certamente teria caído de joelhos. Quem era aquele homem mais alto do que ela, bonito e com um tímido sorrisinho de canto? E por que simplesmente não conseguia olhar para outra direção? Se quer tinha percebido que prendeu a respiração e também não tinha percebido que ele teve a mesma reação quando ela se virou e ele teve certeza de que havia acabado de se deparar com a mulher mais linda que ele já tinha visto na vida, segundo a própria opinião. Apenas o choro de Clara que os trouxe de volta a realidade.

- Não sei onde está a mãe dela - respondeu, desviando o olhar para Clara.
- Está tudo bem, é a minha afilhada - ele esboçou novamente o mesmo sorriso discreto e percebeu que estava prendendo a respiração de novo. 
- Certo... Hum... Pode pegar ela?
- Claro, me dê aqui, por gentileza.

Ela a entregou para ele que tomou a criança nos braços e começou a acalma-la. Clara parecia extremamente familiarizada com o homem, pois aos poucos foi parando de chorar. Provavelmente o fato de ele parecer levar jeito com crianças ajudou. teve que se conter para não sorrir, achou tudo aquilo adorável.
- Me sinto péssima por fazê-la chorar - ela admitiu encolhendo os ombros, mas ele apenas riu. 
- Não se sinta, ela só não está acostumada com você. Quero dizer, eu acho...
- Tem razão, não está, vi apenas quando tinha dias de vida. Imagino que esteja acostumada com você.
- Sempre que posso, faço uma visita.
- De qualquer forma, muito obrigada. Eu não sabia o que fazer.
- Não tem filhos? - ele perguntou surpreso e negou.
- Não sou casada - confessou e ele parecia ainda mais surpreso com o fato. - Está tudo bem?
- Claro, claro... Eu... Me desculpe, não quis parecer rude, só imaginei que fosse casada. É comum, você sabe...
- Eu sei, está tudo bem, todos pensam assim - esboçou um sorriso mais entristecido do que pretendia, mas logo se recompôs. - Bem, parece que ela se acalmou, afinal.
- Ah, sim, ela é uma boa garota - ele sorriu para a bebê e gargalhou quando a mãozinha dela se chocou contra o seu rosto. riu também, achou adorável. - Tem o temperamento do pai.
- É quase um insulto - ela percebeu que ele parecia um pouco confuso com o cenho franzido. - Damon é um amigo de infância.
- Coincidência, ele também é meu amigo de infância. Meu melhor amigo, eu diria.
- Ele nunca me disse nada sobre você.
- Está bem, vou me explicar: como falei, somos amigos de infância porque nossas famílias são próximas, porém me ausentei da cidade durante algum tempo, voltei há alguns meses para... Hum... enfim, o ponto é que infelizmente não pude comparecer ao casamento dele com Charlotte, voltei à Londres depois.
- Eu estive no casamento, teria te reconhecido se estivesse lá.
- Teríamos nos visto mais vezes depois do casamento, suponho.

Naquele instante, teve certeza de que estava estampado em seu rosto que aquele comentário a pegou de surpresa. Tentou disfarçar com uma risada, mas não teve certeza se obteve êxito em sua tentativa. Para o seu alívio, Charlotte voltou logo em seguida e ela agradeceu muito por isso.

- Não sabia que se conheciam! - ela disse surpresa para os dois, pegando Clara do colo do seu padrinho.
- Está certa, não nos conhecíamos até alguns minutos atrás - ele sorriu e olhou para que concordou com a cabeça. - Você me daria a honra da dança?
- O quê? - Charlotte franziu o cenho. - Enlouqueceu, ?
- Eu não estava falando com você, Lotte, sem parecer grosseiro. Estava falando com ela - ele riu e olhou para que não escondeu a surpresa. - Ela está desacompanhada e eu também, mas eu realmente gostaria de dançar.
- Tudo B-bem - se xingou mentalmente por gaguejar e parecer estagnada no chão.

lhe estendeu o braço para que ela o segurasse. Ele ainda pôde ver a expressão facial exagerada de Charlotte de quem achava que ele não deveria fazer aquilo, praticamente lhe ordenando que não, mas simplesmente ignorou isso. Apenas queria ter a oportunidade de dançar com aquela belíssima garota que lhe agarrou o braço e seguiram juntos até onde pares dançavam sincronizados com a música clássica ecoando por aquele enorme salão. colocou sua mão sobre o ombro dele enquanto ele encaixou a sua na cintura dela, respeitando os centímetros de distância apropriados e começou a guiar os passos, mas se surpreendeu com as habilidades de dançarina dela.

- Há muitas coisas sobre mim que você não sabe - ela respondeu em tom de brincadeira e ele concordou.
- Como o seu nome, por exemplo.
- Bamborough. Bamborough.
- Eu conheço esse sobrenome, acho que já ouvi falar sobre a sua família.
- Com certeza - murmurou, desviando seu olhar por um instante. - E o seu nome? Não costumo dançar com homens que não sei o nome.
- Somerhalder, mas você pode me chamar apenas de - ele sorriu e se conteve para não sorrir junto, ele provavelmente era a pessoa mais simpática que ela já conheceu.
- Certo... - ela não pretendia realmente fazer aquilo. - Me sinto na obrigação de perguntar a sua idade.
- Tenho dezessete e vou ficar muito decepcionado se você me disser que tem mais do que isso.
- Não, eu tenho dezesseis - ela riu, baixando o olhar. - E você não parece ter dezessete, parece ser muito mais velho. Está mentindo.
- Tem razão. Na verdade, tenho trinta e nove. Achei que fosse te enganar - não conteve uma risada quando ela gargalhou.
- Faço dezoito em alguns dias, talvez justifique.
- É, acho que sim. Não posso nem mentir minha idade, sei que aparento ser jovem até demais.
- Eu diria dezesseis se você não tivesse dito - ele sorriu de canto. - Não pode ter trinta e nove, quase ninguém vive tudo isso.
- Na verdade vive sim, a expectativa de vida cresceu desde a Idade Média, sabia? Podemos passar dos trinta e cinco tranquilamente - disse com convicção e pareceu surpreso com o conhecimento dela. 
- Então você gosta de estudar? - perguntou curioso, aquilo não era comum.
- Eu não diria estudar, eu diria que gosto do conhecimento. Sei que não deveria dizer isso tão abertamente, mas não me contento apenas com o que o destino reserva para mim. 
- Uma mulher a frente do seu tempo. Isto é incrível - ele sorriu maravilhado. - Pelo que mais você se interessa?
- Eu amo literatura, filosofia, ciências... Mas não é tão simples assim. Com exceção do meu irmão, toda a minha família acha que é um escândalo eu me interessar por coisas assim.
- Não acho que é um escândalo, eu acho maravilhoso - continuava a sorrir, quase perdendo o tempo da música. - Você não deveria se envergonhar por isso, .
- Eu sei... Só é um pouco frustrante não corresponder ao que os outros esperam de você.
- Vamos fazer o seguinte: hoje você pode ser apenas você mesma, está bem? E eu salvarei a sua noite. Somos jovens apenas uma vez, então vamos apenas viver enquanto somos jovens e só depois você volta para a sua vidinha, está bem? Esqueça disso por agora.

Era a proposta mais tentadora que já ouviu na vida. Não tinha a mínima ideia do que ele quis dizer, mas também era incapaz de dizer não, era como se estivesse hipnotizada com tudo nele. Não conhecia há uma hora se quer, mas parecia que aquela dança durou anos e ela estava feliz com isso. Por ela, não teria parado de dançar, mas quando seus pés torturados pelo sapato pediram um descanso, ela pediu gentilmente para descansar um pouco. garantiu que estaria de volta em alguns minutos, mas foi tempo o suficiente para que ela se encontrasse com seus pais novamente e ambos pareciam radiantes com o que estavam vendo.

- Quem era aquele rapaz? - sua mãe perguntou encantada, seus olhos brilharam.
- O nome dele é Somerhalder - respondeu. Pela primeira vez, não se sentia irritada com o rumo da conversa.
- Somerhalder??? A moça que Lorde Woodbead nos apresentou agora há pouco se chama Diana Somerhalder. Imagino que sejam parentes, o que é uma ótima notícia - seu pai disse pensativo e franziu o cenho, confusa com o comentário.
- Como assim?
- Apresentaremos Diana para Thomas, ela parece ser ótima, além, é claro, de ser uma Somerhalder, o que vai ser ótimo para a nossa família!

Pela felicidade de sua mãe, poderia imaginar que Thomas não teria a opção de dizer não caso não gostasse de Diana.
- Quem sabe não teremos sorte em dose dupla? 
- Talvez, talvez. Com licença, preciso conversar com Charlotte.

se afastou para evitar entrar no assunto, parecia sufocante demais para ela conversar sobre aquilo estando ali, mesmo que o comentário fosse favorável, ela ainda sim precisava do seu próprio espaço. Era assustador demais mesmo para alguém tão corajosa.

Ela parou apenas quando esbarrou em Damon que coincidentemente estava conversando distraidamente com .
- Me desculpa, Damon, eu não te vi! Minhas sinceras desculpas.
- Lorde Woodbead, senhorita! - Damon respondeu em tom de repreensão, fazendo encolher os ombros constrangida, então ele gargalhou. - Estou brincando, querida! Você sabe que eu odeio formalidades, especialmente vinda dos meus amigos.
- Você me convenceu por um segundo de que eu cometi um crime gravíssimo.
- Guarde para quando outras pessoas estiverem por perto, eu realmente não me importo com estas coisas - ele pareceu se lembrar de que não estavam sozinhos. - A propósito, este é o , meu melhor amigo.
- Já nos conhecemos - o corrigiu, deixando o amigo surpreso. 
- Desde quando?
- Desde hoje, inclusive dançamos juntos, não sei como você não viu - riu e Damon pareceu surpreso com o que havia acabado de ouvir.
- Dançaram juntos? - olhou para que praticamente implorava com o olhar para Damon não dizer nada. - Ah sim, claro, imagino que os dois estejam desacompanhados... , pode nos dar licença só por um instante? Preciso muito falar algo em particular com o .
- Está bem.

se afastou o suficiente para não ouvir a conversa, então Damon se virou para o amigo, cruzando os braços, pronto para recitar um sermão.

- Você é a última das pessoas que pode dizer alguma coisa, Woodbead - se adiantou para se defender.
- Você sabe que não deve, .
- Não fiz nada de errado, se é o que está pensando, mas... Damon, eu... eu não posso explicar o que aconteceu comigo quando a vi... Fiquei de mãos atadas, simplesmente... Eu precisava ao menos ter uma dança.
- , ... - Damon negou com a cabeça, colocando as mãos na cintura. - é uma mulher adorável, com uma opinião forte, admiro isso nela, além de ser bela, eu admito, mas... 
- É a mulher mais bela eu já vi - o interrompeu e ele bufou impaciente.
- Mas não é para você. Por favor, não faça algo que você se arrependa e que a envergonhe depois. não merece isso.
- Eu não vou, provavelmente nunca mais a verei.
- Espero que seja sim. Tome cuidado.

Damon deixou uma palmadinha no ombro de e se afastou enquanto ele ficou parado ali, estava pensativo. Sabia que era errado, mas precisava estar perto dela mais um pouco e ver de perto o rosto que ele julgava ser lindo, além de todos os assuntos que ela tinha para conversar. , mas palavras de Damon, era adorável, bela e com uma opinião forte, mas poderia acrescentar que ela também parecia ser culta, desconstruída e divertida, três coisas completamente chocante para uma mulher em pleno século XVII. Não importava se era certo ou errado, ele adorou.

- Você se importa se conversarmos fora do salão? Estou com um pouco de dor de cabeça - disse ao se aproximar de , mentindo ao colocar a mão na cabeça para gesticular. - Você gosta de astronomia.
- Eu amo todas as ciências - ela reforçou o que disse antes e ele concordou.
- Vamos, vou te mostrar um lugar. Me acompanhe, por favor.

...

- Admito que conheço Damon a minha vida inteira, mas nunca estive nessa parte do castelo - ela disse quando adentraram na torre, indo até a abertura que deveria ser uma janela. - Apenas vi de longe.
- Costumávamos brincar aqui quando crianças ou passar tempo quando crescemos um pouco. Gosto muito daqui - olhou pra fora, vendo a grama verde perfeitamente cortada. - Céus, parece uma eternidade.
- É compreensível, ele se casou e tem uma filha. Imagino que os afazeres da vida adulta tenham tomado o tempo dele.
- De fato que sim, tal como eu, apenas queria voltar aqui mais uma vez. Quando eu era criança, costumava dizer que ficava mais perto das estrelas.
- Eu amo as estrelas e constelações, é realmente inspirador - se apoiou no parapeito para ver o céu, feliz por ver algumas constelações. - Veja só, é Andrômeda.
- Não consigo identificar - espremeu os olhos, mas não era realmente bom em identificar a olho nu.
- Siga o meu dedo - ela se aproximou um pouco e esticou o braço o máximo que pôde, tentou acompanhar está vendo aquelas duas estrelas alinhadas que se tivesse mais uma na outra ponta seria um triângulo?
- Sim, eu consigo ver! - ele sorriu, entendendo a referência.
- Imagine que aqueles são os pés de Andrômeda - ela esticou o outro braço. - Agora seguindo para a direita, acompanhando os meus dedos, tem mais duas, imagine que são os joelhos.
- Certo. Joelhos. Estou vendo.
- Seguindo para baixo, tem mais duas. Temos a parte de baixo do corpo dela. Agora se você seguir em linha reta, tem todo o tronco até a cabeça. Por fim, essa linha em vertical forma os braços, é como se ela estivesse deitada. Consegue ver?
- Consigo, é lindo. Realmente, ela parece estar deitada - disse sem tirar os olhos do céu, não queria perder de vista a constelação.
- Conhece a história de Andrômeda?
- Não, para ser honesto. Eu não conheço.
- Andrómeda era a filha de Cassiopeia e de Cefeu, governantes da antiga Etiópia. Quando Cassiopeia se gabou de ser mais bela que as Nereidas, filhas do deus marinho Nereu, Poseidon indignou-se e enviou o monstro Cetus, a Baleia, assolar o reino dos etíopes. Aconselhados pelo oráculo de Ammon, que sentenciou que o sacrifício da sua filha à Baleia era o único modo de apaziguar o deus, o rei e a rainha agrilhoaram Andrómeda a uma rocha perto do mar. No entanto, Perseu, apaixonado, chegou a tempo de a resgatar, montado sobre Pégaso, o cavalo alado. Perseu conseguiu salvar Andrómeda do seu destino cruel mostrando a horrível cabeça de medusa à Baleia, e imediatamente o monstro se transformou em pedra.
- Nossa. Que história incrível! Eu realmente não conheço muito sobre mitologia. Onde você ouviu sobre isto?
- Meu irmão me contou, mas eu também procurei nos livros - ela encolheu os ombros, se afastando. - A ligação entre astronomia e mitologia é algo fascinante para mim.
- Agora é para mim também - admitiu, olhando para cima mais uma vez.
- Eu fico muito feliz por isso - sorriu, deixando com que ele se distraísse com a constelação. - Me desculpe mudar de assunto de repente, mas qual é o seu grau de parentesco com Diana Somerhalder?
- É a minha irmã - voltou sua atenção para ela curioso. - Por quê?
- Bem... Aparentemente ela será apresentada ao meu irmão. Ele é mais velho do que eu, meus pais estão o apressando para que se case logo. Estão vendo com bons olhos uma possível união entre nossas famílias. 
- Eu não sabia disso... É algo muito... Bom, eu acho.
- Você não parece muito feliz com isso.
- Por favor, não me leve a mal, eu apenas me preocupo muito com a minha irmã, ela... Ela é como você na forma de pensar, o que eu admiro muito. Tenho medo de que ela se frustre com isso, com certeza vai. Não vou julgar seu irmão sem o conhecer, apenas quero que Diana seja feliz.
- Thomas é o homem mais culto, educado e respeitoso que eu conheço, não é como os outros, ele também não ficará feliz quando souber o que nossos pais estão planejando, mas eu te garanto que Diana estará em boas mãos e sendo muito bem cuidada. Ela não poderia ter alguém melhor do que ele, eu posso lhe dar toda a certeza que precisar.
- Ele a tratará com respeito?
- Até demais, tenho que admitir - ela riu afim de descontrair, o fazendo rir também. - Ele realmente sabe como respeitar uma mulher, começando por mim.
- Isso é bom, , muito bom - ele sorriu de canto, satisfeito. - Mas acho que um homem que não te respeita como você é, provavelmente não te mereça por inteiro.

recuou, virando as costas. Ele realmente queria dizer aquilo? Estava realmente falando com um desconhecido sobre algo tão íntimo? Tudo bem, ele era um desconhecido, mas era a melhor conversa que ela já teve na vida, a melhor dança. Nunca ensinou uma constelação para ninguém. Por que se sentia tão atraída pela presença de um estranho? Finalmente havia encontrado a palavra certa. Atraída.

- O que foi? - ele perguntou preocupado. - Aconteceu alguma coisa?
- Não - ela negou com a cabeça, ainda sem coragem para se virar.
- Foi o que eu disse? Me desculpe, , eu não quis soar invasivo. Eu sei que acabamos de nos conhecer, eu sei que eu não deveria dizer algo assim, eu sei que se quer deveríamos estar aqui, mas... Eu precisava saber quem era você.
- Isso é loucura, é apenas a minha mente me pregando uma peça - começou a andar em círculos, bagunçando o penteado com as mãos. - Eu não posso me sentir atraída por alguém que acabei de encontrar. É antiético, imoral e um pecado horrível. Não, estou apenas delirando de tanto meus pais falarem que devo me casar.
- Não está delirando. Se acha que que isto é pecado, então eu deveria ser julgado e condenado pelo que gostaria de fazer no momento em que te vi, mas estava com minha afilhada em meus braços.

finalmente o encarou e o viu muito mais sério do que antes. estava sendo sincero, já que não faria diferença depois, não via motivo para não o fazer. Queria muito, mesmo sabendo o quanto era errado. O que de pior poderia acontecer? Quando ela se atirou em seus braços, se rendendo à tentação, ele percebeu que estava disposto a pagar por todas as consequências, tal como ela que, pela primeira vez, se permitiu saber a sensação que era ser beijada por um homem.

O problema é que as consequências eram maiores para ela do que para ele e percebeu o quanto era errado.

- Eu não deveria - ele interrompeu o beijo ao se afastar e olhou confusa.
- Nenhum de nós deveria.
- Não, eu realmente não podia. , eu não sei explicar o que houve comigo quando te vi lá, mas estaria sendo imprudente fazendo isso com você, não é certo, eu deveria ter contado...
- Contado o quê? 
- Eu... - ele espremeu os olhos, cerrando o punho. - Eu sou... Eu sou casado.

arregalou os olhos ao mesmo tempo em que seu queixo foi ao chão. Como ele pôde? Por que fez aquilo? Ela estava se sentindo frustrada consigo mesma e usada por alguém que queria apenas satisfazer os próprios desejos. Não, ela não podia concordar com aquilo.

- Esteve zombando de mim essas horas todas - ela disse incrédula, contendo a terrível vontade de chorar.
- Não, não... eu não queria, , mas...
- Não fale comigo outra vez ou eu própria contarei à sua esposa.

Ela virou as costas e saiu, empurrando a porta pesada com toda a sua força. Queria ir embora e se amaldiçoar por ter feito aquilo. Como pôde ser tão ingênua ao ponto de se atirar nos braços de um desconhecido? Provavelmente sua frustração maior era com ela mesma do que com ele.

Fingir que aquilo nunca aconteceu era a única coisa que poderia fazer.


Capítulo 2 - What A Feeling

Outubro de 1665

- Fique tranquilo - sussurrou para o irmão enquanto caminhavam lado a lado pela entrada do castelo. - Ela parece ser uma boa pessoa.
- Você também deve ficar tranquila - Thomas respondeu, sabendo do ocorrido entre sua irmã e seu futuro cunhado.
- Sinto que sou capaz de matá-lo se tiver a oportunidade - ela disse entre dentes, fingindo estar rindo para ele. - Por favor, não me deixe fazer isso.
- Não pretendo deixar.

Pararam de caminhar quando chegaram no pátio. Cinco pessoas enfileiradas lado a lado os esperavam. O senhor e a senhora Somerhalder, a filha Diana, o filho e... Lucinda, a esposa dele. Todos perfeitamente trajados e sem nenhum defeito aparente, como se tivessem acabado de pular fora de um livro de contos de fadas. O olhar de se encontrou com o de e ela sentiu o estômago revirar. Fosse por raiva ou pelo desejo insano de sentir seus lábios contra os dele mais uma vez, mas a figura ao lado dele de pele pálida e cabelos pretos e compridos a lembrava do quão pecaminoso era aquele pensamento.

Thomas não teve o trabalho de se perguntar qual delas era Diana, a garota de cabelos ruivos lhe chamou a atenção no momento em que a viu. Era pequena, aparentava ter a mesma idade que , e também olhava na direção dele, mas Thomas não tinha ideia do que aquele olhar queria dizer. Diana se manteve impassível o tempo todo, não dava para adivinhar o que se passava na cabeça dela, embora ele pudesse imaginar que compartilhavam do mesmo pensamento.

Deixaram toda a formalidade para os pais, apenas esperando que fossem apresentados finalmente. fez questão de contar aos pais que era um homem casado, assim não se surpreenderam quando viram a jovem ao seu lado, embora quisessem muito aproximar as duas famílias ainda mais. Por enquanto, a união de Thomas e Diana parecia estar de bom tamanho, apenas depois cuidariam de .

- É um prazer finalmente conhecê-lo pessoalmente! - o senhor Somerhalder disse saudoso ao cumprimentar Thomas. - Ouvi muito a seu respeito.

- É um prazer, senhor - Thomas fez uma reverência desajeitada em respeito e olhou para Diana ainda curvado. - Senhorita.

Diana fez um aceno com a cabeça ao mesmo tempo que também fez uma reverência para ele, mas não disse nenhuma palavra. Por mais que soasse bobo, Thomas queria saber como era a voz dela.

- É um prazer rever sua família - disse para e ela exibiu o seu melhor sorriso para não fazer o que realmente gostaria.
- Muito obrigada! - ela se virou para Lucinda e fez uma reverência exagerada de forma provocativa. - É uma honra finalmente lhe conhecer. No baile de aniversário do Lorde Woodbead, o seu marido falou muito sobre você, senhora, falou muito bem e apaixonadamente e eu fiquei ansiosa para conhecê-la.
- Ah... O prazer é meu - Lucinda respondeu sem jeito, feliz com o elogio. - Pode me chamar de Luce, querida, já que seremos uma família só.

não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Estava apavorado internamente com o que poderia fazer ou falar algo que fosse comprometedor, mas Lucinda parecia muito lisonjeada. Passou os últimos dias pensando naquele momento e agora parecia muito pior do que na sua imaginação. Não sabia o que esperar de .

Após toda a formalidade das apresentações, os Bamborough foram convidados a entrar no grande salão para o jantar que teriam todos juntos. Os dois pais se sentaram nas pontas com suas respectivas esposas do lado direito de cada um. Thomas e Diana se sentaram um de frente para o outro, tal como e , mas Lucinda estava ao lado de seu marido. mal podia esperar pelo show de horrores que seria aquele jantar.

Enquanto os pais falavam sem parar, Thomas tentava prestar atenção no que Diana fazia. Ela parecia distante, não olhava para outra direção que não fosse a sua refeição. Não parecia estar com raiva ou triste, mas o silêncio dela era ensurdecedor para ele. Também não queria nada daquilo, não concordava com a ideia de se casar, mas se fosse o fazer, que ao menos se desse bem com sua futura esposa. Pelo que ouviu sobre Diana, ela parecia ser tudo o que ele esperava de uma mulher, então estava fazendo de tudo para enxergar a situação com bons olhos.

, por sua vez, tentava aparentar serenidade, mas o olhar de pesando sobre ela hora ou outra era sufocante. E se Lucinda percebesse algo? Ela não queria causar problemas, mas era ardente demais, ela sentia como se fosse queimar a qualquer instante. O imenso anel no dedo de Lucinda lhe chamou a atenção e ela aproveitou a oportunidade.
- Este é o anel mais lindo que eu já vi - ela apontou discretamente para a joia e Lucinda pareceu se lembrar de que estava o usando.
- Ah, obrigada... foi o presente de casamento que me deu - ela olhou para , sorrindo, e ele apenas fez um aceno de cabeça, evitando olhar para as duas.
- É feito de qual pedra? 
- Kunzita. sabe o quanto amo essa pedra e me presenteou um pouco antes do nosso casamento. Acho que foi ali que me apaixonei.
- É realmente lindo - sorriu, mas estava se sentindo péssima por dentro.
- Ela nos conecta com o amor universal, irradia paz, estimula a expressão do nosso verdadeiro eu. Não poderia ter escolhido uma melhor!
- De fato que sim.

A cada instante que passava, se sentia pior. Lucinda parecia tão apaixonada pelo marido que só fazia sua consciência pesar ainda mais pelo que havia feito. Para piorar, o olhar pesando sobre ela a deixava ainda mais tensa e ansiosa, mas ela pensou que ao menos poderia disfarçar um pouco mais. Olhou para os lados, pensando que alguém pudesse estar prestando atenção, mas o máximo que viu foi Thomas olhando distraidamente para Diana que ainda não tinha dito nada. Ele olhou para a irmã, murmurando um pedido de ajuda e sorriu, ele realmente queria fazer dar certo.

- Diana, eu soube que você se interessa por literatura, Thomas e eu também amamos! Qual é o seu escritor preferido? - ela perguntou afim de puxar assunto, fazendo com que Diana olhasse para ela.
- Na verdade, prefiro os ensinamentos de filósofos como Sócrates e Platão, são muito interessantes de se abordar - Diana respondeu e viu Thomas concordar com um aceno de cabeça.
- São realmente inspiradores - Thomas disse admirado e Diana pareceu se dar conta de que ele estava ali. - Não somos nada sem a filosofia para nos fazer pensar e questionar.
- Penso, logo existo.
- Exato - pela primeira vez, Diana exibiu um sorriso e Thomas sorriu também.

Os pais pareciam entretidos demais para notarem que os filhos interagiam entre si, ou ao menos tentavam, já que estava claramente fugindo do olhar de . Só conseguia pensar se Lucinda desconfiava de algo ou não.
Ela torcia para que não, já estava encrencada o suficiente.

...

caminhava logo atrás de Thomas e Diana, no mínimo a um metro de distância. Viu com bons olhos quando os pais de ambos concordaram em dar alguns instantes para que os jovens pudessem conversar um pouco para se conhecerem, contanto que não estivessem sozinhos. Ela se ofereceu para ir, mas apenas para privar o irmão de um constrangimento maior, iria respeitar o espaço deles e ficar o mais longe possível. O jardim era grande o suficiente para tal, indo além do que a vista dela poderia alcançar.

- Achei que não fosse te alcançar.

Ela parou de andar e se virou para trás quando ouviu a voz de . Ele estava ofegante quando parou ao seu lado, havia corrido para alcançá-la e teve que respirar fundo para não ir embora imediatamente.

- O que você quer? - perguntou entre dentes, acelerando o passo, mas ele a seguiu.
- Me ofereci para "vigiar" eles, mas também preciso falar com você.
- Me deixe em paz, você não deveria falar comigo. Onde está a sua esposa?
- Ela não quis vir, o que facilitou as coisas para mim.
- Mas eu não quero falar com você! O que você fez foi errôneo e imprudente e eu poderia ter pago pelas consequências sozinha.
- Eu não me orgulho, , mas também não me arrependo. Eu... Eu sei que é insano, mas desde aquele dia eu não consigo te tirar dos meus pensamentos. Por favor, me diga que você pensa da mesma forma.
- Talvez - ela murmurou para a felicidade dele. - Mas continua sendo errado, não poderíamos ter feito aquilo.
- Eu sei, mas eu quis fazer e faria de novo. Acredite em mim quando eu digo que não me casei por amor, porque eu não a amo.
- Me desculpe, mas eu não acho que isso seja um problema que eu deva resolver. Eu realmente achei que você fosse diferente, , quando me convidou para dançar até vi com bons olhos a junção de nossas famílias, mas independentemente de você se casar por amor ou não, ainda não muda o fato de que você é um homem casado que se quer deveria estar falando comigo.
- O que eu preciso fazer para que você entenda que eu não estou zombando de você?

parou de caminhar, o fazendo dar mais um passo antes de parar também. Thomas e Diana pararam, se virando, mas eles estavam envoltos demais na própria conversa para notarem.

- Eu não quero nada. Sei o que fiz, mas também sei que foi um erro. Entenda, é muito mais difícil para mim. Nunca havia sido beijada por homem algum, sempre segui as leis como devem ser e só por causa de algumas horas com você, minha vida virou um completo caos! Eu não como direito, não consigo dormir e nem me concentrar porque flagro a mim mesma desejando repetir ao mesmo tempo em que te condeno e me condeno por isso também. Apenas deixe com que eu siga a minha vida em paz!
- Eu não queria me intrometer na conversa de vocês, mas estamos em um lugar aberto e as pessoas podem ver ou ouvir - Thomas gesticulou mostrando o imenso jardim ao redor. - Imagino que não queiram que o acontecido chegue aos ouvidos de Lucinda.
- Você sabe? - perguntou incrédulo.
- Senhor Somerhalder, eu sei tudo o que acontece na vida da minha irmã, então é que óbvio que eu sei, mas não acho que eu deva colocar a minha opinião no meio de vocês dois. Então peço, com mais educação do que normalmente pediria, para que mantenham isso em segredo. 
- Ele tem razão - Diana cruzou os braços. - , por favor... 
- Está bem - ele bufou impaciente. - Está bem, apenas... levem o tempo que precisar, estarei por perto.

Ele virou as costas e começou a caminhar para outra direção. não sabia o que fazer, não sabia se permanecia com eles ou se ia atrás dele. Estava confusa e frustrada, além de estar com medo de ser descoberta.

- Eu... eu também vou ficar por perto caso precisem de mim... com licença - ela ia se afastar, mas Diana a chamou. - Pois não?
- Eu sinto muito que você esteja se sentindo tão mal. Não concordo com o que fizeram, mas o meu irmão é uma boa pessoa, não estou acobertando dele, mas ele está diferente ultimamente. Ao menos deveriam resolver esta pendência de uma vez por todas - ela sorriu compreensiva. - De uma forma civilizada. Se precisarem de ajuda, estou à disposição. Luce é muito esperta e difícil de despistar.
- Obrigada, Diana - disse com sinceridade. - Acredito que seja o melhor, talvez possamos resolver isso de uma maneira civilizada. Eu reconheço que não estou no meu melhor humor.
- Claramente os dois estão com os nervos à flor da pele, como se pode ver. Eu sugiro que esperem um pouco para que possam conversar calmamente, por isso acho que podemos voltar em um outro dia, talvez na próxima semana podemos voltar aqui, certamente nossos pais vão ficar felizes se pensarem que eu estou feliz também - Thomas pontuou, tentando não soar indelicado em relação à própria felicidade. - Se voltarmos aqui, imagino que possamos resolver isso de alguma forma.
- Parece justo - encolheu os ombros aborrecida. - Eu vou deixar vocês à vontade, estou por perto, caso precisem de mim. Com licença.

se afastou, indo na direção oposta à de enquanto Thomas e Diana continuaram o seu trajeto pelo jardim.
- Ela está realmente abalada com a situação. Acho que ela criou expectativas muito, muito cedo. Eu não quis dar um sermão nela, mas acho que ambos se precipitaram - Thomas se justificou pela irmã e Diana apenas concordava. - Quero dizer, você não deve beijar uma pessoa que acabou de conhecer, isto é um absurdo. Onde estava Luce quando aconteceu?
- Ela não pôde comparecer, estava indisposta. Achávamos até que ela estava grávida, mas não está. De qualquer forma, acho que você tem razão, mas ao mesmo tempo eu entendo que às vezes pode ser inevitável. Eu conheço o meu irmão e ele sempre, sempre seguiu as coisas como devem ser. Imagino que tenha um diferencial que o fez agir por impulso desta maneira, ela é encantadora.
- Sim, ela é mesmo, eu só fico preocupado porque a vida já é cruel o suficiente com as mulheres, eu não quero que ela sofra ainda mais. O fato de ele ser casado só piora as coisas.
- Eu entendo a sua preocupação, mas eles já têm idade o suficiente para tomarem as próprias decisões, não cabe a nós intervir.
- Eu sei, mas ela só tem dezesseis anos! Não é como se tivesse idade o suficiente para defender os próprios ideais.
- Eu também tenho apenas dezesseis anos, Thomas, e vou me casar com você, imagino que não vá demorar nada até ser a próxima, então ela pode sim ter e expressar opiniões próprias.

Thomas estava surpreso, Diana também era mulher de opinião forte, deveria ter imaginado. Foi lhe imposto a vida toda de que o homem sempre deve ser a voz da razão, o portador de conceitos e opiniões, e por mais que ele não concordasse inteiramente com aquele rótulo, ainda sim era surpreendente uma mulher com fala ativa e posicionamento. Surpreendente de uma boa maneira, é claro.

- Gosto do seu posicionamento, não é nem um pouco comum - ele admitiu, pegando Diana de surpresa.
- Bem... acho que eu tenho uma voz e mereço ser ouvida.
- Eu concordo, você tem total razão.
- Tenho que admitir que por essa eu não esperava. Normalmente sou orientada a ficar calada.
- Diana, se você não se considera igual as outras mulheres, então eu não me considero igual aos outros homens. Conhecimento é algo que ninguém pode lhe tomar e eu fico feliz que você compartilhe do mesmo pensamento que eu. Não pense que estou feliz da vida em me casar, mas ao menos que seja algo bom para nós dois. Se não nos apaixonarmos ao longo dos anos, que ao menos possamos ser amigos antes de tudo. Imagino que não vá querer passar o resto da vida com alguém que você odeie.
- Eu preferiria morrer...
- Eu também, por isso estou aqui...
- Obrigada por me compreender, Thomas, eu espero que possamos ser amigos - ela sorriu de canto e ele não deixou de achar que ela tinha um belo sorriso.

Estava infeliz por se casar, mas ao menos tinha que admitir que teria uma esposa culta e bela e isso o animava um pouco.

Enquanto isso, um pouco afastados dali e em direções opostas, e fingiam estar prestando atenção no jovem casal conversando enquanto andavam pelo jardim, mas ela olhava na direção dele porque sabia que ele também estava olhando para ela, mesmo de longe podia perceber. Por mais que estivesse incomodada, no íntimo sabia a loucura que estava fazendo e não se importava. Ele era um rapaz da nobreza, culto, carismático e com os olhos mais intensos que ela já encarou. Estava com frio na barriga, tinha que confessar, as pernas tremiam por debaixo do vestido, sonhou por várias noites com aquele beijo, mesmo tendo sido muito rápido. A figura imponente que ela tentava demonstrar nada mais era do que uma tentativa de encobrir que se sentia exageradamente atraída por Somerhalder, mesmo que não o conhecesse, o que tornava tudo ainda mais estranho e confuso. Estando longe ela conseguia pensar melhor e achou que resolver aquilo da melhor forma possível fosse a coisa certa a se fazer pelos dois.

Semanas depois. Novembro de 1665.

- Você é um gênio, Diana - disse entre dentes quando os irmãos atravessavam o pátio do castelo dos Bamborough. - Mas lembre-se de que estou aqui apenas para te vigiar e nada mais.
- Claro, claro, agradeço toda a sua preocupação - ela respondeu com ironia e os dois deram risadas.

Diana pensou que fosse melhor eles irem de encontro aos Bamborough dessa vez, usando da desculpa de que queria conhecer o lugar que iria morar. A ideia foi acatada quando disse que iria também afim de vigiar os passos da irmã, o que foi bem visto pelos pais de ambos, embora fosse uma grande mentira apenas para que ele pudesse ver . Thomas os aguardava na entrada, estava sozinho e se perguntava onde estaria a garota que ele estava ansioso para ver nas últimas semanas. Thomas, por sua vez, não deixou de notar o quanto Diana estava elegante, achando que estava ainda mais bonita do que na primeira vez que a viu.

- É um prazer revê-los - ele tomou a mão de Diana e se curvou em reverência após também cumprimentar . Ela sorriu pela maneira como ele era sempre tão educado.
- Vamos ao que interessa, Bamborough - disse esboçando um largo sorriso exagerado, falando entre dentes para não ficar tão notório.
- Ela está na biblioteca, mas precisamos ser discretos - ele respondeu sussurrando.
- Juro que se você fizer alguma besteira, eu mesma vou te entregar - Diana disse impaciente e ele revirou os olhos.
- Desculpem, estou ansioso.
- Vamos entrar, por favor.

Thomas deu passagem para os dois e se colocou ao lado de Diana enquanto ia atrás, evitando prestar atenção no que eles conversavam. Thomas apontava algumas partes do castelo, explicava alguns quadros ou parte da mobília, já que a família Bamborough estava situada ali desde a Idade Média, então certamente o castelo tinha muita história para contar. não pôde contar por quantos corredores e cômodos passou até que finalmente chegassem na biblioteca. Ele parou na frente da porta, hesitante em abrir.

- Estamos bem aqui, quero mostrar alguns quadros para Diana - Thomas apontou para a porta da frente. - Não se preocupem, esta parte do castelo não é muito frequentada e neste horário os empregados não passam por aqui, estamos praticamente sozinhos. Quando sairmos, eu bato na porta.
- Está bem... muito obrigado pela ajuda de vocês - disse com sinceridade. - Apenas quero que as coisas fiquem bem.
- Não a magoe, ou muitas pessoas sairão magoadas nesta história - Thomas disse por fim, abrindo a porta para dar passagem à Diana.

apenas sacudiu a cabeça e entrou na biblioteca, fazendo com que se assustasse. Ela fechou o livro que estava lendo enquanto ele trancava a porta. Estava nervoso, percebeu que as mãos tremiam, mas tinha de fazer aquilo. Se virou para e a achou ainda mais linda do que nas outras vezes. Não estava com trajes de festas ou com o cabelo preso em um penteado humanamente impossível para ele. Seus cabelos cumpridos estavam soltos sem nada os prendendo e o vestido era liso e um tom claro de lilás que combinava com o tom de pele dela. também parecia um pouco nervosa pela situação, olhava para os lados com medo de ser descoberta.

- Eu espero que possamos resolver este mal-entendido de uma vez por todas, - ele disse com sinceridade e sorriu de canto, não se contendo. - Você está linda.
- Obrigada - também sorriu, encolhendo os ombros. - Eu também quero esclarecer as coisas, se me permitir falar primeiro.
- Por favor, fale, eu quero te ouvir.
- Eu me sinto tão pressionada por todos para seguir o que me é imposto e eu me sinto tão sufocada quanto a isto. Ser convidada por você para uma dança me fez pensar que... que... Sei que é loucura, mas pensei que talvez...
- Que já que era para se casar, que fosse ao menos com alguém que você tenha gostado de vista?
- Sim, eu sei que é insano, mas foi exatamente isso o que eu pensei. Me sinto envergonhada por isso.
- , você não deve se envergonhar, eu posso imaginar como você se sente, estou em uma posição social muito mais cômoda do que a sua. Eu não me casei por amor, não que Luce seja uma má esposa, porque ela não é, mas eu não a amo.
- Sinto muito por isso, de todo o meu coração. Mas voltando ao que eu estava falando, eu... eu me permiti uma vez na vida fazer algo que eu considerasse loucura. Eu quis dançar com você, eu quis beijar você porque eu me senti muito, muito atraída por você e é isso. Tenho consciência do que fiz, por mais que eu saiba o quanto é errado, talvez eu não tenha me arrependido tanto assim.
- Muito menos eu. O que senti naquele dia foi muito maior e melhor do que no dia em que me casei. Quando eu te vi lá, eu... eu já não podia mais responder por mim, , estava hipnotizado com o que via na minha frente. Te conhecendo melhor, eu percebi que era exatamente o que eu sempre procurei, embora não esperasse que você tivesse uma opinião tão forte, mas me surpreendi de uma boa maneira e agora eu não consigo mais te tirar dos meus pensamentos.

pensava da mesma forma, seus pensamentos podiam ser resumidos em um único nome: . Não queria usar a palavra certa, mas sabia que estava sim obcecara em reviver aquele momento único, mesmo seu lado racional insistindo que não deveria. Ela simplesmente ignorou, o desejo falava mais alto.

- Eu não quero deixar de te ver, mesmo sabendo o quanto é errado - ela admitiu, com a voz falhando, ao dar um passo na direção dele.
- Eu também não quero, por mim eu viria te ver todos os dias. Fingi estar acompanhando Diana, mas eu apenas queria te ver, mesmo que seja a última vez.

deu mais um passo para frente, ficando mais próximo de . A diferença de altura entre eles era considerável, o que fazia ele gostar ainda mais dela. Tocou o rosto dela como se fosse frágil e fechou os olhos, se permitindo sentir o toque dele pela primeira vez e era muito melhor do que poderia imaginar.

- Apenas me beije - ela pediu e ele acatou sem hesitar, se curvando para que seus lábios se encontrassem com os dela.

Começou com um beijo despretensioso e até inocente, mas se aprofundou quando ambos sentiram a necessidade. Era algo novo e empolgante para e ela estava gostando, seu estômago revirava de nervosismo, mas era uma sensação boa. Estava se apropriando do homem de outra mulher sabendo o quanto era errado? Sim, mas se ele estava concordando também, então os dois estavam errados, embora não se importassem muito com isto a essa altura.

Apenas a batida na porta fez com que eles se afastassem algum tempo depois. perguntou quem era, mesmo imaginando que fosse Thomas. Ao ouvir a voz do irmão, informou que já estavam saindo, embora ela não quisesse realmente sair.

- Eu gostaria tanto que você ficasse mais um pouco...
- Eu também, mas é muito arriscado, eu não quero te expor assim, mas eu vou voltar, a desculpa de que Diana está supostamente interessada no casamento caiu muito bem, nossos pais provavelmente não vão se importar se viermos outras vezes. Não se preocupe, eu vou voltar para te ver, eu prometo - ele segurou as duas mãos dela, beijando-as. - Mandarei notícias de alguma forma.
- Tome cuidado, é muito arriscado.
- Fique tranquila, eu vou dar o meu melhor - ele sorriu e deixou um beijo rápido nos lábios dela. - Nos acompanhe, ainda tenho um castelo inteiro para conhecer e eu prefiro que seja você me mostrando.
- Está bem, mas nada menos do que um metro de distância - ela se afastou um pouco, rindo, e ele concordou. - Vamos, quero te mostrar meus lugares preferidos aqui.


Capítulo 3 - Night Changes

14 de fevereiro de 1666

- Eu não acredito que você conseguiu vir sozinho - disse feliz quando passou pela porta, trancando e entrando nos aposentos dela.
- Assuntos de família que devem ser tratados com o meu cunhado - exagerou no sotaque, fingindo ser um homem mais velho, e riu, pois ele falava como o próprio pai.
- Futuro cunhado! O casamento é somente amanhã - ela riu, indo até a janela para fechar as imensas cortinas.
- Sim, mas eu não poderia deixar o seu aniversário passar em branco, afinal, são dezessete primaveras. Além disso, é dia de São Valentim e eu queria estar aqui.
- Você se arriscou muito vindo aqui hoje, . Lucinda não desconfia de nada? - ela se aproximou dele novamente, estava preocupada.
- Não, está empolgada com o casamento, admirando o vestido que Diana usará, mas eu não vim falar sobre ela e nem sobre o casamento, eu vim apenas para ver você. Thomas está no cômodo ao lado e vai nos acobertar, isto é, se não estiver morrendo de ansiedade.
- Ele está um pouco ansioso sim, ele gostou da Diana, eu acho... isso é bom.
- Com toda a certeza! Mas como eu disse, não vim aqui falar sobre o casamento.

tinha um pequeno embrulho de cetim no bolso. Ele pegou e abriu, então pôde ver uma pulseira reluzente com pedras que ela tinha certeza de que eram muito preciosas. Com certeza era a joia mais linda que já viu na vida, ela se quer contestou quando a colocou em seu pulso.

- Esta pedra é um Quartzo Rosa, é a pedra do amor. Repele as energias negativas e potencializa as vibrações do amor... E não, não peguei da coleção de joias de Luce, essa é especial, é sua pelo seu aniversário, além de ser a pedra do amor, é a cor que eu mais gosto de te ver usando. Por favor, aceite, mesmo que você não possa usar, eu não me importo. Apenas olhe e se lembre de mim todas as vezes.
- É a pedra mais linda que eu já vi, a joia mais linda - sorriu, apreciando a beleza da joia.
- Obrigada, eu estou sem palavras!
- Feliz aniversário, meu amor - ele se aproximou um pouco, deixando um beijo na testa dela. - Eu acho que... não, eu não acho, eu tenho certeza... eu amo você como nunca amei ninguém.

sorriu, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. Quase seis meses depois e aquele desconhecido havia se tornado parte da sua vida e dono do seu coração e pensamentos. Inevitavelmente se apaixonou por e ele por ela, algo que ela não estava planejando, mas que aconteceu mesmo assim. Viviam no limite do perigo, sabendo que a qualquer hora poderiam ser pegos, mas estava disposto a assumir toda a responsabilidade para a proteger da exposição que ele achava que ela não merecia. Achava a mulher mais amável, gentil, inteligente e bela que já viu e ele estava disposto a encontrar uma forma para que pudessem ficar juntos, mesmo que ainda estivesse longe de arrumar uma solução.

- Eu também amo você - ela disse com sinceridade.

se surpreendeu quando ela o abraçou. Ele retribuiu ao envolver seus braços ao redor dela, aconchegando-se no que ele julgava ser seu lugar favorito no mundo. Só então percebeu que, de repente, estava chorando contra o seu peito, mesmo que baixinho, a respiração pesada dela a denunciou.

- , o que foi? - perguntou preocupado, sem a soltar.
- Eu sei que nunca poderemos estar juntos publicamente, mas eu não pude evitar o sentimento que cresceu dentro de mim, , não pude... 
- Vamos dar um jeito, eu prometo, só precisamos pensar com calma, está bem? Eu não quero que você seja exposta, você não merece isso, eu nunca faria nada para te prejudicar, , nós vamos ficar bem.

O beijo dele foi suficiente para que ela se acalmasse. Sempre que pensava naquilo, ela chorava de frustração, mas sabia como a acalmar e o simples fato de ele estar ali em um dia especial era o suficiente. Ele era tudo o que ela precisava.

- Se quer saber, eu não me arrependo nem por um segundo de ter te convidado para dançar - ele disse após o beijo, quando os narizes ainda se tocavam. - A cada beijo fica melhor, ninguém sabe o quão especial você é para mim e o que fez comigo, .
Eu não quero esperar muito.
- E não vai, nós vamos conseguir. Por enquanto, vamos apenas desfrutar da companhia um do outro, está bem? Antes que eu tenha que voltar. Informei que iria demorar muito, acho que acreditaram, mas não quero perder tempo aqui.
- Você tem toda a razão.

se afastou, indo até o espelho. Começou a tirar seus adereços. O diadema no cabelo, os anéis, o colar, organizando suas joias em uma caixinha, ficou apenas com a pulseira. Soltou os cabelos, se sentindo aliviada e livre por um instante, mas não totalmente.
- Venha aqui, por favor - pediu para que se aproximou, um pouco confuso. - Preciso de sua ajuda, desabotoe, por gentileza - afastou os cabelos para frente.
- E não se preocupe, como pode ver não estou vestindo saiote e muito menos o corpete, tomaria algum tempo.
- Você tem certeza? - questionou ainda a alguns passos de distância dela. - , eu não vou te...
- Não estou sendo forcada à absolutamente nada. Eu cuidei dos meus cabelos, da minha pele e escolhi a minha vestimenta preferida que uso apenas em meus aposentos apenas porque sabia que você viria aqui hoje. Já que temos tempo, eu quero que seja inesquecível. Imagino que você saiba melhor do que eu como fazer, terá de me ensinar algumas coisas.

esperava pacientemente, mas parecia hesitante. Não que não quisesse, queria muito, mas ainda não tinham chegado lá, ele não queria que ela pensasse que estava apenas se aproveitando dela e do fato de que nunca havia sido tocada por homem nenhum, sendo ele o primeiro em tudo. Tinha na sua frente uma linda mulher que era toda sua, mas ele tinha que ter cuidado.

- Eu não sou tão experiente quanto pensa - se aproximou mais e começou a desabotoar devagar os botões do vestido. - Não é fácil assim dividir a cama com uma mulher enquanto se ama outra.
- Acho que nunca perguntei há quanto tempo estão casados...
- Sete meses.
- Você já se deitou com ela muitas vezes? - mantinha uma expressão serena no rosto, mas engoliu a seco a própria pergunta.
- Não, mas é a minha esposa, , se eu evitar todas as vezes seria muito suspeito - se sentia extremamente constrangido com o rumo daquela conversa, mas não iria esconder nada dela.
- Eu entendo, você está certo - ela admitiu, mas não estava muito feliz com a informação, mesmo sabendo que ela era a pessoa errada. - Nunca fui tocada por homem nenhum, caso já tenha lhe passado pela mente.

Ela sentiu o corpo todo se arrepiar quando sentiu os lábios dele na sua nuca em um beijo provocativo, depois ele continuou perto, enquanto abaixava devagar o vestido já desabotoado.

- Eu sei, meu amor, mas mesmo que fosse eu não me importaria - ele disse no ouvido dela, quase sussurrando. - Hoje eu farei de você mulher. 
- Faça - , de olhos fechados quando ele lhe beijou o pescoço, puxou as alças finas do vestido, revelando seus seios despidos perante o espelho.

não se deu ao trabalho de abrir os olhos e olhar, ainda veria depois, ela tinha o melhor perfume que ele já sentiu e ele pensou que poderia passar o resto da tarde e à noite inteira admirando. se virou para ele e deram início a um beijo caloroso. Ela procurou pelo fecho da capa dele, mas não encontrou. Estava apressada, apenas queria que ele tirasse toda aquela vestimenta logo. se afastou um pouco, tirando a capa e jogando no chão. riu, o fecho estava bem acima dos ombros, mas não demorou nada até que ele a puxasse de volta, beijando-a com toda a vontade, guiando até a cama dela.

se deitou e logo em seguida ele se deitou por cima sem jogar todo o peso do seu corpo. Sentiu todos os pelos do corpo se arrepiando quando os lábios dele desceram de seu pescoço para os seus seios. Estava em êxtase, era melhor do que podia imaginar e estava feliz por ser justamente ele o seu primeiro... E ela esperasse que fosse o único.

se inclinou, quase se sentando, mas era apenas para o puxar para baixo. Foi para o colo dele, e por mais que quisesse continuar de onde parou, ela não permitiu, pois começou a desabotoar os botões da camisa dele um a um, sem pressa. Quando ela terminou, tirou a camisa e a atirou para longe, sem saber onde caiu. Puxou-a pela nuca, tornando a beija-la. Suas mãos desceram, tocando-lhe os seios e repousando sobre a cintura, trazendo para mais perto se fosse possível. A desejava mais do que tudo naquele momento e queria a ter por completo.

Só interromperam o beijo quando faltou ar em seus pulmões, mas então se levantou, parando na frente dele. fez uma cara confusa, mas quando o vestido caiu no chão, revelando a mulher completamente nua na sua frente, ele se sentiu como um homem de sorte. não estava se sentindo insegura ou envergonhada pelo próprio corpo, queria tudo o que estava fazendo.

- Nossa... - foi tudo o que ele conseguiu dizer com um sorriso de canto nos lábios, estava admirado com o que via.
- Estou lhe esperando - ela apontou para as calças dele e foi questão de segundos para que ele também se livrasse do restante de suas vestimentas.

Ela voltou para a cama e agora o lençol os cobria quando ele o puxou quando ficou por cima. sabia que não poderia, de forma alguma, deixar marcas pelo corpo dela, embora quisesse e muito. por si queria também, embora soubesse o quão difícil seria para se explicar depois. Então mesmo que suave, ela ainda sim tinha certeza de que o toque dele era o único que ela precisava.

Ele penetrou devagar e ela mordeu os lábios ao mesmo tempo em que uma lágrima solitária escorreu pelo seu olho. Doeu, tinha que admitir, mas não queria parar, mesmo que tivesse olhado preocupado para ela.
- Por favor, não pare - pediu em um sussurro, quase implorando.
- Mas...
- Não pare - disse com firmeza e ele apenas assentiu, embora estivesse indo devagar.

Era doloroso e prazeroso ao mesmo tempo, mas o prazer do momento se sobressaia. Apesar do movimento lento dele, a força com que ele agarrou as coxas dela compensou em sua opinião. Queria gemer alto, mesmo sabendo que não podia, pois, as paredes poderiam ter ouvidos, ao invés disso, seus gemidos foram abafados com beijos. Suas unhas curtas, porém, bem cuidadas, arranharam as costas dele e não se conteve, colocando mais força no movimento, pegando de surpresa. A expressão de dor no rosto dela o fez se sentir mal.
- Me desculpe, me desculpe - ele lhe deu um selinho, levando uma das mãos até o rosto dela. - Eu vou parar...
- Não! Tudo bem, só... apenas continue.

Ele assentiu e continuou, alternando o ritmo. Seus corpos já estavam suados, fosse calor humano ou pelo lençol que os cobriam. Chegaram ao ápice juntos um pouco depois e caiu ao lado dela na cama, respirando ofegante. Olhou para e se sentiu o homem mais abençoado do mundo, se perguntando como alguém como ela poderia ter entrado na sua vida repentinamente e em poucos meses se tornado tão importante assim. Ele a amava, tinha certeza disso.

- Por que está me olhando desta forma? - ela perguntou se virando pra ele, notando a forma com que ele a olhava, conhecia bem aquele olhar.
- Porque eu te amo - ele disse simplesmente, e sorriu, não sabia o que responder para além de eu também. - Sou o homem mais sortudo de todo o mundo por te ter. Ah se eu tivesse te conhecido um pouco antes, só um pouquinho! Já seria minha esposa há muito tempo.
- É o que eu mais quero, mesmo sabendo que é impossível - ela disse pesarosa, levando uma das mãos ao rosto dele e acariciando. fechou os olhos por um instante para sentir. - Você é tudo o que eu sempre sonhei, , eu não queria ceder com medo de me arrepender depois e acabar sendo prejudicada e exposta. Não sei o que seria de mim se isso acontecesse.
- Eu nunca faria isso com você, , nunca - ele colocou sua mão sobre a dela, aproximando mais o seu rosto. - Eu vou lutar por nós.
- Como??? - ela questionou mais pesarosa do que queria, não via alternativas para fugir ilesa daquela situação. - Com o casamento e o distanciamento das famílias, será ainda mais difícil.
- Muito pelo contrário, meu amor, eu vou vir visitar sempre a minha irmã. Será muito mais simples e eu vou poder ver o seu lindo rosto com mais frequência - ele sorriu, queria poder ter aquela vista todos os dias quando acordasse. - Eu vou encontrar uma solução, , quero que seja minha.
- Eu já sou - ela disse por fim antes de juntar seus lábios nos dele em um beijo suave.

...

O fato de o Rei Charles II ser católico e contra o anglicanismo fez com que as famílias optassem por um casamento católico afim de evitarem problemas maiores com a corte, mesmo sendo na Catedral Saint Paul, afinal, o catolicismo ganhava força com o apoio do Rei, mesmo ambas as famílias sendo anglo-saxônicas.

De longe, observava discretamente achando que ela era a mulher mais bonita na festa depois da noiva. Ela usava um vestido com vários tons de verde e ele achou que ficou muito bem nela, mas o fato de estar apaixonado bagunçava o seu senso de moda. Ele notou também que ela estava usando a pulseira que ele lhe deu no dia anterior, o que o pegou de surpresa, mas que ele amou ver.

- Por que está olhando tanto na direção da irmã do noivo?

A voz de Lucinda o fez despertar e seu coração começou a bater acelerado no peito. Ele pensou que estava sendo discreto, mas pelo visto não estava e ser pego pela esposa era o que menos queria. Tinha que pensar rápido.

- Estou horrorizado, eu nunca vi uma cor tão horrível. É tão feio que não consigo parar de olhar - ele disse rapidamente, um pouco enrolado. - É a irmã do noivo, certo? O alfaiate poderia ter sido mais caprichoso.
- Não acho que seja tão ruim assim - Luce analisou de cima a baixo. - Verde não é minha cor preferida.
- Azul combina mais com você - ele fez menção à cor do vestido que ela usava, fazendo Lucinda sorrir.
- Você acha? - ela baixou o olhar, encarando a própria vestimenta que até fios de ouro continua.
- É claro que sim, Luce, está belíssima.
- Obrigada, você é tão gentil - ela ainda sorria e esticou o pescoço para beijar os lábios do marido.

olhou na direção deles naquele exato instante, sentindo como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. Era pior do que podia imaginar, mesmo sabendo que era ela a errada. Tinha que se conformar, era apenas uma amante enquanto Lucinda carregava consigo a função de esposa, tendo todas as regalias que desejava. Era sufocante estarem sob o mesmo teto, mas sem se quer dirigirem à palavra um ao outro e pior ainda era ver o seu amado beijando outra mulher, mesmo sendo a própria esposa. Apesar de tudo, era apenas uma menina de dezessete recém-completados, tinha sonhos e força de vontade para realizá-los, mas justamente por ser uma menina, não conseguia se portar devidamente com o que estava vendo. Se levantou do banco em que estava sentada, alegando que precisava ir ao lado de fora para respirar um pouco de ar puro, mas queria apenas chorar sem ser vista. Ela não sabia que Damon e Charlotte estavam a observando, então se assustou quando viu o amigo saindo da igreja pela porta da frente, indo em sua direção.

- ...
- Sinto muito, Damon, eu não consigo evitar - ela tentou secar suas lágrimas em vão. 
- Eu entendo. Também sinto muito pelo que tenham que passar, mesmo que eu não concorde, não posso ser contra o amor de vocês, mas ele pertence à outra, ...
- Eu sei, por isso estou aqui fora em prantos enquanto é ela que está sentada ao lado dele. Eu apenas precisava vir aqui um pouco, é demais pra mim.
- Imagino que ele não esteja confortável na posição em que está, vejo os dois lados. Nunca vi tão feliz como ultimamente, o que é muito bom, você trouxe felicidade para os dias dele.
- Mas Lucinda pensa que é ela o motivo...
- Deixe ela pensar, apenas vocês sabem o que sentem e que seja assim. Espero que vocês possam resolver isso um dia, ambos são meus amigos e eu desejo o melhor para vocês.
- Obrigada, Damon - esboçou um tecido entristecido. - Eu vou voltar daqui alguns minutos, até que meu rosto não esteja mais com aparência de choro. Obrigada por vir até aqui falar comigo.
- Apenas quero que você fique bem. Vou entrar, creio que em instantes o noivo chegará.
- Eu estarei lá.

Damon entrou novamente na igreja e ainda ficou mais alguns minutos do lado de fora, se acalmando para não voltar para dentro com o rosto inchado por estar chorando. Talvez alguém notasse, mas ela poderia inventar uma desculpa, apenas não queria que soubesse o motivo, ela não queria demonstrar fraqueza diante dele, não depois de ter se entregado completamente a ele no dia anterior e ter a sensação de que estava sonhando acordada. Não, ela tinha que encarar a situação da forma que era, mesmo que fosse uma realidade cruel demais.

- Está perdida?

Ela se assustou quando ouviu uma voz masculina e envelhecida perto dela, fazendo com que se sobressaltasse com o susto. Se virou e viu um senhor de idade avançada, que ela teve certeza ser o padre que faria a cerimônia, já tinha o visto antes nas redondezas. Sentia profundo afeto pelo Padre John e toda a sua bondade.

- Não, senhor, eu apenas precisei vir aqui fora para tomar um ar, mas já estou entrando novamente. O noivo é o meu irmão.
- Então a senhorita é uma Bamborough?
- Sou. Bamborough.
- Imaginei que sim. Vi quando saiu de seu lugar nos primeiros bancos. Você o ama, não é mesmo?

quase perdeu a firmeza das pernas naquele instante, sentindo como se fosse desmaiar a qualquer momento, seu coração bateu acelerado. Tinha ouvido certo? Aquele homem velho e religioso sabia sobre o seu segredo mais íntimo?

- Me desculpe? - foi tudo o que ela conseguiu dizer, as palavras lhe fugiram da mente.
- O rapaz do outro lado, o Somerhalder, eu o casei alguns meses atrás. É um bom rapaz, de boa família e muito gentil, diferente dos outros homens da região. Creio que estes sejam alguns dos motivos, estou certo?

mexia a boca, mas não saía palavra alguma, ela não conseguia falar. Só conseguia pensar no seu castigo quando todos descobrissem que ela era uma adúltera e também não era mais virgem, algo que envergonharia toda a sua família da pior maneira possível, rebaixando o prestigiado status social que possuíam entre a nobreza inglesa. Estava condenada, teve certeza naquele momento.

- Não tenha medo, eu não estou aqui para te entregar - o padre disse em um tom compreensível, esboçando um sorriso bondoso. - Apenas Deus pode lhe julgar.
- C-como o senhor s-sabe? - ela tremia tanto que estava gaguejando.
- Sei de muitas coisas, querida, muito mais do que imagina, e sei que nutre sentimentos por aquele rapaz. Estou certo?
- Sim, senhor - olhou para os lados, com medo de ter mais alguém ali. - Eu não deveria, mas...
- Você o ama mesmo assim, eu compreendo. Não se pode deter um coração jovem e cheio de amor como o seu, senhorita Bamborough. Sei que ele também a ama.
- Eu sei, quero dizer, eu acho que me ama... estou confusa - confessou, encolhendo os ombros.
- Tenha toda a certeza que sim, tenha mais certeza ainda de que foram feitos um para o outro. Suas almas... eu posso vê-las, são almas gêmeas, assim como o jovem casal que se casará dentro de instantes, eles também, sim...
- Mas eles...
- Eles ainda não se apaixonaram, eles se quer se tocaram para além de cumprimentos formais, mas como lhe informei, sei de muitas coisas. Estou falando da senhorita e do senhor Somerhalder, foi uma peça do destino o juntar com Lady Lucinda, apesar de ela ser boa moça, não era para ser ela, tinha que ser você.
- O quê? - perguntou confusa, franzindo o cenho, se virando de costas para ele. - Eu não entendo...
- Querida, já nascemos com o nosso destino traçado, e ele é o seu, você é o dele. Eu vejo uma conexão entre vocês, uma conexão muito, muito forte. Foi uma peça que o destino pregou em vocês, mas pode ser resolvido. Talvez leve muito mais tempo do que estão pensando, mas pode sim ser resolvido.
- Como?
- Não se preocupe, vocês vão descobrir sozinhos - ele sorriu novamente, mesmo que não olhasse para ele. - Vai ser difícil, querida, mas creio que vão conseguir. Apenas... creiam. Se precisarem de mim para alguma coisa, estou sempre aqui na igreja e em nenhum outro lugar.
- Desculpe, mas como o senhor pode saber destas coisas? Não há base cristã para o destino - se virou novamente, mas ela estava falando sozinha, ele já não estava mais lá.

Ainda perplexa com o que havia acabado de ouvir, entrou na igreja de novo, atraindo alguns olhares na direção dela, sendo um deles o de . Ela tentou não retribuir, mas era inevitável. Ele era o seu destino, a sua alma gêmea. Ela queria muito contar aquilo para ele, era bonito demais para guardar apenas para si, ele também merecia saber. Ela não se conteve, esboçando um discreto sorrisinho no canto dos lábios apontados na direção dele. pareceu surpreso no primeiro instante, mas retribuiu antes que ela se sentasse e Lucinda dirigisse a palavra a ele reclamando sobre como estava demorando para começar a cerimônia e ele tinha que concordar.

Mas após a entrada do noivo, foi a vez de Diana entrar acompanhada pelo seu pai. Certamente a esposa do Rei não ficaria tão bela naquele vestido como ela, estava lindíssima, apesar do seu semblante claro de quem não queria estar ali. Diana odiava ser o centro das atenções, odiava que todas aquelas pessoas estivessem olhando na direção dela, salvo a exceção de alguns amigos próximos como Damon e Charlotte, assim como que também não concordava com um casamento arranjado. Também não poderia descontar sua frustração em Thomas, ele estava se esforçando, ela tinha que reconhecer que ele seria um bom marido apesar de tudo. Apenas por isto e exclusivamente isso, ela não desistiu e fugiu, Thomas, assim como ela, não tinha culpa, e vê-lo a esperando no altar, claramente ansioso, a confortavam um pouco.

, vendo Diana sendo entregue para o seu futuro marido, pensava nas palavras do padre que agora fazia a cerimônia. Eles também eram almas gêmeas, também tinham os destinos entrelaçados, mas diferente dela, o destino foi justo com eles. Não que estivesse com inveja, estava feliz pelo irmão, mas se sentia frustrada. Ela e estavam destinados, mas não podiam ficar juntos por causa de uma peça boba e agora ele era casado com outra mulher, enquanto Thomas e Diana estavam ali contra suas próprias vontades, mas livres para decidirem como passariam os próximos anos. Poderiam se apaixonar ou apenas serem amigos, ou até mesmo criarem terríveis desavenças, de qualquer forma tinham o poder de escolha e agora estavam ali prestes a dizerem o famoso sim. Ela desejava, com todas as forças e mais do que tudo, que tivesse a oportunidade também, mas com o homem que verdadeiramente amava. A ideia de que seria a próxima da família a se casar era horripilante e ela não queria pensar naquilo.

Diana ergueu o olhar para o homem que seria o seu marido. Temeu aquele momento por muito tempo, mas ali estava ela. Tinha sido muito transparente ao deixar claro para ele que não era de seu agrado se casar, mas foi surpreendida quando Thomas disse a mesma coisa, embora tentasse soar otimista de que poderia dar certo. Ela sentia que não estava se esforçando da mesma forma que ele, mas também não o queria decepcionar. Já que tinha de se casar, ao menos que fosse com alguém como ele.

E, após o sim dos noivos, diante dos convidados e testemunhas formais, Diana trocou seu sobrenome de Somerhalder para Bamborough. Estavam casados perante a lei e perante Deus, não tinha mais volta. Os próximos três dias seriam de festa, embora os recém-casados não quisessem comemorar tanto assim.

...

virou no corredor em direção aos seus aposentos. Estava cansada, três dias de festas foram o suficiente para que ela não desejasse outro casamento ou qualquer comemoração tão cedo, queria apenas se livrar dos sapatos apertados e do espartilho que ela tanto odiava. Ela apenas não esperava se deparar com sua mãe e algumas criadas amontoadas perante a porta do quarto de Thomas e Diana, tentando bisbilhotar pelas frestas o que estava acontecendo dentro das quatro paredes. Ela revirou os olhos em repúdio, sentindo como se a privacidade dela tivesse sido violada também, não entendia o motivo de as pessoas terem este costume tão vergonhoso.

- O que estão fazendo todas plantadas aí? - perguntou retoricamente, apenas para assustar as que estavam ali e conseguiu. - Não acham que é falta de respeito com os noivos? Respeitem a privacidade deles.
- , é a noite de núpcias!
- Por isso mesmo, mãe, creio que deva ser um momento íntimo deles que não diz respeito a nenhuma de nós. Agora, se puderem se afastar da porta e continuarem com seus afazeres, eu agradeço, caso contrário, pedirei para que Lorde Bamborough tome as devidas providências.

Apesar de ser a mais nova da família, sabia se impor e todas as pessoas que trabalhavam para sua família a respeitavam. Não que ela gostasse de se vangloriar de seu sobrenome ou de seu status social, pelo contrário, procurava ser sempre educada e gentil com todos, mas não podia se calar diante do que via. Odiaria se fosse com ela em sua noite núpcias, então exigia respeito pelo seu irmão também. As criadas se dispersaram envergonhadas e apenas sua mãe ficou, parecia pronta para dar um sermão na fila.

- Não me olhe assim, a senhora sabe que estou certa, mãe.
- Por que está sempre contrariando as coisas como devem ser? , isto não é correto.
- Se eu não concordo com algo, então vou falar a respeito quando tiver a oportunidade. Acho desrespeitoso o que estavam fazendo com eles, especialmente a senhora como mãe. Se fizer isso quando eu me casar, já que não tenho outra opção, eu juro nunca mais pisar neste castelo outra vez. Visto que terei de me mudar para junto de meu futuro esposo, não verei problemas em cortar relações se eu descobrir que fizeram o mesmo comigo.
- , querida, teu sendo de justiça é formidável, mas você deve saber exatamente o seu lugar de fala como mulher.
- Sim, eu sei o meu lugar de fala, mas não me conformo e nunca vou.
- Filha, falando assim você nunca irá se casar. Homem algum se interessa por uma mulher que fala ativamente o que pensa.
- Eu não me importo com o que os homens pensam sobre mim, entenda! - disse irritada. - Estou condenada a ser infeliz por toda a minha vida e ainda não posso expressar minha opinião? E a senhora está enganada! Muitos homens morreriam para ter uma mulher como eu. Boa noite, mãe, e pare de tentar ouvir e ver pelas frestas.

seguiu seu caminho em direção ao seu quarto, e embora sua mãe tenha ficado perplexa e irritada com a indignação da filha, ela continuou ali tentando ouvir o que acontecia, mas para sua decepção, Thomas e Diana ouviram tudo o que disse, sabendo que estavam sendo vigiados. Estavam em pontas opostas do quarto, Thomas lia sentado em uma poltrona enquanto Diana já estava na cama, fingindo estar lendo também, mas a verdade é que estava com muitas saudades de casa, para além de se sentir muito desconfortável estando ali. Talvez se acostumasse com o tempo, mas aquela era a pior noite de sua vida.

Thomas, se sentindo desconfortável também, deixou o livro de lado e se levantou, indo em direção à cama. Diana se afastou assustada, estava totalmente na defensiva. Conhecia o noivo com quem conversou poucas vezes e por pouco tempo, mas ainda não o conhecia como marido.

- Eu não vou tocar em você - ele disse calmo, sentando a uma distância razoável dela. - Diana, está tudo bem, você pode ficar tranquila.
- Me desculpe, Thomas, mas não posso fazer isso que todos esperam. Eu me recuso, eu não vou me deitar com você.
- Eu também não quero, não crie este tipo de expectativa sobre mim - Thomas rebateu um tanto aborrecido, não conseguia relevar sempre e Diana pareceu surpresa. - Eu não queria me casar, não queria estar aqui e muito menos tendo esta conversa, acredite em mim. Mas agora somos casados e precisamos nos respeitar para fazer dar certo. É isto ou uma venda de esposa se você desejar, assim pode voltar para sua família.
Por mais humilhante que fosse, aquela possibilidade insana passou pela mente de Diana mais de uma vez. Ser exposta como um objeto afim de conseguir um divórcio era estranhamente atrativo, mas humilhante demais, mesmo que ela quisesse muito voltar para casa. Tentava pensar que ao menos estava casada com um homem totalmente diferente dos outros que já lhe cortejaram, voltar para casa e arranjar outro casamento não seria bom.
- Eu não queria parecer insensível, me perdoe - ela fechou o livro e olhou para ele. - Mas não sei como agir. As pessoas esperam que nós simplesmente...
- Eu já lhe falei que não vou tocar em você, não sem a sua permissão. Diana, não sou como os outros, entenda. Você poderia ter se casado com alguém muito pior do que eu.
- Pior? Não me lembro de ter dito que você não era bom... de qualquer forma, sei que estou sendo injusta. Você está me respeitando e me dando espaço, eu estou aliviada de que seja você e não outro. Sei que é diferente, Thomas, mas preciso do meu próprio tempo até que me acostume com tudo isto. Deixei minha casa, minhas coisas, minha família... bem, na verdade deixei meu irmão, já que meus pais me viam como uma moeda de troca... Enfim, deixei para trás tudo o que importava para estar aqui, estou sobrecarregada e triste, apenas peço tempo para que eu me acostume e vou provar que não sou esta pessoa mal-humorada que está lhe dizendo estas coisas.
- Eu sei que você não é, eu já pude ver um pouco da verdadeira Diana e eu gostei muito dela - ele sorriu de canto, estava sendo sincero. - Quando estiver pronta, então eu estarei também, e não estou falando apenas sobre a noite de núpcias, falo sobre tudo... Apenas quero que você fique bem, Diana, caso precise de alguma coisa, basta me chamar... Se não se importar, vou me deitar agora e amanhã inventaremos uma grande mentira para toda a família, está bem?
- Já estou arquitetando - ela sorriu também. - Boa noite, Thomas.
- Boa noite, Diana.


Capítulo 4 - Loved You First

Junho de 1666

tinha certeza de que nunca esteve tão séria em toda a sua vida, mas também não havia motivos para estar feliz, afinal, depois de meses de especulação, finalmente iria conhecer seu noivo. Lorde Carter Rodwell, um nobre escocês estava a caminho de Londres para encontrar com sua futura esposa e chegaria a qualquer momento. Certamente nunca esteve tão agoniada e com tanta vontade de chorar como naquele momento em que Diana a ajudava a amarrar o espartilho.

- , aconteceu alguma coisa? Eu te machuquei? - Diana perguntou preocupada ao ver que algumas lágrimas escorriam pelo rosto da cunhada, mas negou.
- Eu não posso fazer isso, Diana, não posso... não quero me casar com ele, não quero estar com outra pessoa. Ele mora em outro país e eu terei que ir para lá, provavelmente nunca mais verei nenhum de vocês...
- Vamos encontrar uma solução, , vamos fazer de tudo para que você fique... não posso usar da minha experiência para que você se sinta melhor, mas sei exatamente o que você está sentindo, não quero que passe por isso, farei o que for preciso.
- Obrigada - disse chorosa e esboçou um sorriso entristecido. - Queria tanto que ele estivesse aqui...

Já fazia quase um mês que não fazia uma visita, mas enviou uma carta para Diana informando que precisava diminuir a frequência das visitas. Mesmo sendo discreto com as palavras, Diana entendeu o que ele quis dizer. Lucinda estava desconfiada das visitas, eles precisavam ser mais discretos e era isso o que estava fazendo, mas só de pensar que ele estava com outra, se sentia ainda pior. Tudo aquilo estava virando um grande pesadelo.

- Ele não pode vir, você sabe...
- Eu sei - ela tentou secar as lágrimas com a palma da mão. 
- Ele não pode vir, mas não quer dizer que não podem se ver! - Diana teve uma ideia naquele instante. - Damon e Charlotte! Eu tenho certeza de que eles os acobertariam em sua própria casa!
Como não pensamos nisto antes?
- Parece arriscado, não consigo sair sem uma dúzia de pessoas atrás de mim - revirou os olhos aborrecida.
- Você não estará sozinha - Diana sorriu. - Thomas e eu iremos. Não se preocupe, você sabe que ele vai concordar.
- Vocês nos ajudam tanto! Sou tão grata por tudo o que estão fazendo nestes meses - ela sorriu de volta. - Obrigada, Diana.
- Você não tem que me agradecer, está fazendo de tudo para que eu me sinta confortável na minha nova casa, é o mínimo que posso fazer por todo o apoio que você e me deram. Vou enviar as cartas ainda hoje, creio que logo teremos uma resposta. Talvez amanhã, ainda bem que moramos todos na mesma cidade.
- Sim. A parte boa de Lorde Rodwell morar em outro país, é que não preciso vê-lo com frequência... espero que dê certo...
- Não se preocupe, é claro que vai.

Diana continuou ajudando a se vestir. Mesmo aconselhando a cunhada a usar sua melhor vestimenta, negou e pegou o vestido que menos gostava. Era de um tom de laranja muito exagerado, com rendas amarelas que mais pareciam encardidas, era realmente horrendo, e por isso mesmo ela optou por aquele. Acreditava fielmente na primeira impressão, prova disso era estar apaixonada por , e gostaria que aquela fosse a primeira impressão que seu noivo tivesse dela. Toda a sua vaidade tinha destinatário e não era o escocês.

- Formidável o fato de esta pulseira ficar perfeita até mesmo com o vestido mais horrendo - disse após colocar a pulseira que ganhou de .

Poderia soar como afronta e era mesmo. Usar o presente do seu amante na presença do seu noivo parecia algo muito corajoso e queria, mais do que tudo, que aquele homem percebesse o seu nítido desinteresse nele.

- tem bom gosto para joias, tenho que admitir - Diana sorriu de canto. - Mas pode ser um pouco arriscado, , não acha?
- Ninguém sabe disto além de você, ele e eu. Qual é o perigo? Além do mais, é a minha nova joia preferida. O sorriso dele quando me vê usando faz tudo valer a pena - exibiu seu melhor sorriso, se lembrando do quanto amava o sorriso dele.
- Seu semblante muda quando fala do . É tão bonito de ver... isso só me faz pensar que devo juntar vocês o mais rápido possível.
- Diana, não sei o que seria de mim sem você!

...

saiu de seu lugar ao lado de seu irmão e de sua cunhada, caminhando em direção ao homem que também vinha ao seu encontro, sabendo que aquele era seu noivo. Tinha de admitir que Lorde Rodwell era um homem de boa aparência sendo alto, com cabelos e olhos negros, mas de pele pálida. Não se parecia em nada com , mas tinha suas próprias qualidades. sentiu um arrepio percorrendo a espinha, simplesmente não conseguia encarar o homem nos olhos por mais de dois segundos, algo no olhar dele a incomodava.

Pararam um de frente para o outro, ele estava encantado com a jovem que via, não se parecendo com a descrição que lhe foi dita. era muito mais bonita pessoalmente e ele estava feliz com isso, tendo certeza de que teria a esposa mais bela de todo o reino. Curvou-se, tomando a mão dela, única parte do corpo que poderia tocar antes do casamento, e beijou-a, erguendo o olhar logo em seguida.

- Encantado, senhorita. Lorde Carter Rodwell, a teu dispor.
- É um prazer conhecê-lo. Bamborough - tomou de volta sua mão, desviando o olhar. - Seja bem-vindo, espero que tenha uma boa estadia.
- De certo que sim. Minha visita será breve, mas espero que eu possa conhecer melhor a mulher com quem irei me casar.
- Ah, tenho certeza que sim - ela sorriu, mas sabia o quão falso soou.

Carter foi apresentado à família, sendo cordial com todos. Também não se podia negar que ele falava bem e era muito educado, o que teria chamado a atenção de caso já não estivesse com o coração preenchido. Tentava imaginar como se fosse se estivesse ali sendo apresentado para a família, talvez a ajudasse a manter a sanidade nos próximos dias.

...

- Então o senhor é do parlamento? Câmara dos Lordes? É admirável, considerando que aqui na Inglaterra, foi abolida em 1649 e restaurada apenas em 1660, pôde-se dizer que é algo relativamente novo para nós - comentou quando ele comentou sobre seu título enquanto caminhavam pelo jardim.
- O que sabe sobre política? Sobre a Câmara dos Lordes? - Carter questionou, não sabia sobre os conhecimentos que possuía.
- Tudo o que se tem para saber. Caso tenha notado, meu pai também faz parte da Câmara dos Lordes, então é inevitável que eu também saiba um pouco sobre política, seja sobre o parlamento, jurídico, legislativo e até mesmo a coroa...
- Então o que acha do Rei Charles?
- Já tivemos monarcas melhores - deu de ombros, estava começando a ficar entediada. - Não me agrada a imposição do catolicismo sendo que há quatrocentos anos o povo anglo-saxão implantou o anglicanismo na Inglaterra. 
- Bem... Já que não é adepta ao catolicismo, nosso casamento poderá ser anglicano sem problema algum, eu não me importo.
- Que seja conforme a sua vontade, Lorde.
- E também terá o título de Lady, apenas reforçando.
- Claro, estou muito ansiosa para tal... 
- A propósito, não quero parecer rude ou insensível. Seus conhecimentos sobre política são formidáveis, senhorita Bamborough, mas peço, por gentileza, para que não os compartilhe com outras pessoas a não ser comigo. Pode ser mal visto e chegar à Câmara.

quis rebater imediatamente, deixando bem claro que sempre falava o que pensava no momento em que bem quisesse. Repudiava a posição da mulher na sociedade, sem lugar de fala, e esperava poder lutar contra isto um dia. Sabia que a probabilidade de se casar com um homem machista, ou simplesmente comum, era altíssima, mas entre supor e estar diante de um era completamente diferente.

- Lorde Rodwell - ela parou de andar, se virando para ele e não se contendo. - Se pretende se casar comigo, espero que saiba com o tipo de mulher que está lidando. Sim, eu falo sobre políticas, ciências, literatura, filosofia, religião, matemática, música e até mesmo botânica, se eu tiver a oportunidade. Tenho um gênio forte, como costumam dizer, e talvez eu goste disso. Não pense que irá se casar com uma mulher submissa que fará tudo o que deseja, se calando, porque eu não vou, não aceito a posição que me foi implantada apenas por ter nascido mulher, então espero que pense muito bem antes de dizer o que posso ou não fazer ou dizer. Se quer que eu lhe respeite, então me respeite primeiro.

Carter estava sem palavras, nunca uma mulher o afrontou daquela forma, o que ele não sabia se era bom ou ruim. Ter uma esposa com bom senso de política poderia ser bom caso precisasse de uma outra opinião, mas o que pensariam dele se fosse casado com uma mulher que estava sempre expressando? Ele, de fato, percebeu que estava dividido naquele instante, mas queria causar uma boa impressão. Quando se casassem, poderia dizer o que bem pensava.

- Tem razão, me desculpe pela minha grosseria que te ofendeu, estou admirado com seus conhecimentos, .
- Obrigada, Lorde.
- Por favor, me chame apenas de Carter, vamos deixar as formalidades de lado, está bem? Vamos começar da melhor maneira possível.
- Certo... Carter - voltaram a caminhar, mas torcia para que aquilo acabasse logo.

Mesmo que tivesse descoberto que Carter podia praticar equitação, falar latim e ter formação jurídica, marcava o tempo através da posição do sol no céu. Estava anoitecendo, o que a deixou mais aliviada, não aguentava mais falar sobre sua vida e também ouvir as qualidades do homem que falava sem parar. Aparentemente, ele também era tagarela, o que a deixava bem aborrecida. não falaria nem metade de tudo aquilo, era mais reservado e modesto, jamais se vangloriava pelas coisas que sabia fazer, algo que encantava , mesmo que ela já soubesse praticamente tudo sobre a vida dele àquela altura.

- É uma bela joia - ela foi dispersada de seus pensamentos quando ele apontou para a pulseira em seu pulso. - É um quartzo rosa?
- Sim, um presente de minha cunhada como forma de gratidão e também por ter se casado um dia depois do meu aniversário - respondeu imediatamente, como se fosse verdade.
- Mas por que ela lhe presenteou com a pedra do amor?
- Para que eu tenha boas vibrações - ela se lembrou das palavras de , desejando ainda mais estar com ele. - Mas caso não seja de seu agrado, Carter, eu usarei com muito prazer as joias com que queira me presentear.
- Que bom que disse isto porque realmente tenho algo para você e entregarei antes de partir - ele sorriu contente e forçou um sorriso. 
- Mal posso esperar...
- , preciso dizer, fiquei preocupado com seu primeiro posicionamento, mas agora percebo que escolhi a mulher certa para me casar. Com todo o respeito, estou mais do que encantado com todas as suas qualidades e toda a sua beleza, é muito mais bela do que me foi dito.
- Fico feliz por isso, espero que seja uma boa união.
- Eu também, você vai amar a Escócia, é um país lindo. A capital Edimburgo é um lugar adorável.
- Já estive em Edimburgo com minha família, todas aquelas muralhas não me impressionaram, sinto muito, foi apenas uma tentativa falha de se protegerem das invasões inglesas. Prefiro Aberdeen, se não se preocupar.
- Hum... verei o que posso fazer a respeito...

Semanas depois.

- Pare, pare! Está marcando o meu tapete! - Damon se levantou de seu lugar quando viu que parecia ansioso, estava andando em círculos na frente da lareira apagada.
- E se ela não vier?
- , você é meu melhor amigo, mas é impossível te defender por tamanha estupidez das coisas que diz. É claro que ela vem! Acha que teríamos todo este trabalho se ela não viesse? Não se preocupe, ela virá e será o melhor final de semana de sua vida, está bem? Não estou cedendo nossa moradia em Canterbury para ela simplesmente não vir.

A ideia de Diana foi aprimorada por Damon e Charlotte. A residência da família na cidade Canterbury, muito próxima de Londres, foi cedida para que o jovem casal pudesse desfrutar de um final de semana, mesmo que todos fossem também. O lugar era grande o suficiente para que os três casais não se encontrassem. A ideia não foi aceita no primeiro momento, e queriam ficar sozinhos, mas Damon disse não confiar nem mesmo nos moradores locais, então teriam que ir todos juntos. Para a família Bamborough, a desculpa inventada foi de que Thomas e Diana gostariam de conhecer um lugar novo, mas gostariam que fosse também, pois estava muito ansiosa com os preparativos para seu casamento. Já para os Somerhalders, foi convidado por Damon para o acompanhar em uma viagem importante por motivos políticos, o que pareceu convencer Lucinda sem questionar. Era uma grande operação, tinham que ter cuidado. Parecia loucura moverem todos os esforços possíveis apenas para que um casal pudesse ficar juntos, mas todos se sentiam envolvidos demais para simplesmente virarem as costas para eles. Estavam dispostos a ajudar.

Quando chegou junto com Thomas e Diana, Damon os recebeu. Já estava de noite e o castelo tinha poucos empregados, mas Damon os informou mesmo assim para que fossem discretos e acatou. Ao ver , o cumprimentou formalmente, mas se sentaram lado a lado enquanto ouviam as últimas instruções de Damon. notou que usava a pulseira que ele lhe deu, mas outros adereços lhe chamavam a atenção no outro pulso dela. Uma pulseira com esmeraldas e um anel da mesma pedra ostentavam na mão dela, o que despertou a curiosidade dele para que perguntasse quando estivessem a sós.

- Certo, vamos nos dividir. Eu, Charlotte e Clara vamos em uma carruagem, Thomas e Diana vão na própria que vieram. e , separei uma para vocês. Não se preocupem, o cocheiro não vai ser seus rostos. Coloquem as capas, vamos, estou com pressa.

e entraram rapidamente na primeira carruagem que foi fechada por Damon. Inicialmente, se sentaram de frente um para o outro, mas não se conteve e foi para o lado dela, a abraçando e beijando os lábios de como não fazia há mais de um mês.

- Senti saudades - confessou sem se afastar. A pouca luz que atravessava as cortinas finas era o que permitia que ele a visse.
- Também senti sua falta - sorriu de canto. - Foi um mês horrível, eu conheci o meu noi... o Lorde Rodwell. Ele veio me visitar.
- E o que pensa dele? - perguntou receoso.
- Ele pode ter muitas características admiráveis, mas não é você - ela disse com sinceridade, aliviada por finalmente estar com ele.
- Notei que está usando outras joias. Foram presentes dele?
- Sim - olhou para seu pulso esquerdo, se esquecendo completamente dos adereços. - Prometi que usaria até que ele fosse embora, mas esqueci de tirar. Me desculpe, quero apenas usar a que você me deu.

finalmente entendeu como se sentia em relação à Lucinda. Saber que ela esteve na companhia de outro homem e ganhando presentes o faziam se sentir enciumado, além de invejar o homem que a podia cortejar livremente.

- Agora sei como se sente em relação à minha esposa - confessou aborrecido. - Eu invejo esse homem mais do que tudo.
- Digo o mesmo sobre Lucinda, eu mataria para ter o que ela tem. Ou melhor, segundo o padre, ela tem o que é meu por destino.
- O quê? - franziu o cenho confuso. 
- Eu sei que parece loucura, mas durante casamento... Bem... Eu vi Lucinda com você e me senti muito mal, admito que deixei a igreja e chorei do lado de fora, estava me sentindo sufocada - encolheu os ombros constrangida por admitir aquilo.
- ...
- Eu ainda não terminei. Damon foi até mim, conversando comigo para me acalmar, mas depois que ele saiu, o Padre John, que realizou não só aquele casamento como também o seu, veio até mim e começou a dizer coisas que me deixaram muito, muito surpresas. Claro que tenho minhas dúvidas porque não existe base cristã para tudo aquilo e ouvir de um padre foi muito incomum, mas basicamente... Ele disse que somos almas gêmeas, destinos um do outro, foi uma peça do destino você ter se casado com Lucinda e não eu, mas que poderia ser concertado e iríamos descobrir com o tempo, era para ser eu e não ela. Disse também que viu uma forte conexão entre nós, para além de Thomas e Diana, que segundo ele, também estavam destinados... O mais impressionante é que eu nunca havia falado com ele, não sei como ele sabia todas aquelas coisas, , estou lhe dando minha palavra de que Thomas foi a única pessoa para quem contei nosso segredo.
- Eu acredito em você, meu amor. Estou surpreso, tenho que admitir, mas talvez ele esteja certo. Eu sei que encontrei a minha alma gêmea, não tenho dúvidas quanto a isso. Talvez devemos fazer uma visita quando voltarmos para Londres.
- Ele disse que se precisarmos dele, está sempre na igreja.
- Então acho que vai ser ainda mais fácil...

A viagem para Canterbury não foi longa por ser uma cidade muito próxima de Londres, chegaram de madrugada na silenciosa cidade medieval. Damon foi rápido o suficiente ao apresentar os devidos cômodos para e , Thomas e Diana, não queria causar nenhum alarde e nem que fossem todos reconhecidos, afinal, ele tinha fama pelo seu cargo político.

- Eu venho pela manhã ver se precisam de alguma coisa. Tenham juízo - ele fechou a porta e então o jovem casal estava sozinho novamente.

Era um quarto grande e muito aconchegante. Além da cama que confortaria mais de duas pessoas, tinha uma lareira, poltronas grandes que pareciam ser muito confortáveis e também livros para entreter, para além de armários presos nas paredes onde poderiam guardar suas malas, mas deixariam isso para quando amanhecesse.

- Será que pode me ajudar? - pediu quando trocavam os trajes por vestimentas para dormir e ela não conseguia tirar o espartilho sozinha após já ter se livrado do saiote.
- Sabe o que isto significa para mim - riu, se aproximando dela e começando a desamarrar a peça.
- Eu sei - ela riu também. - Mas estou muito cansada, meu amor, prometo lhe recompensar depois.
- Estou apenas brincando, também estou cansado e imagino o quanto seja incômodo usar isso.
- Sim, é muito incômodo. Não posso explicar como fico aliviada sempre que me livro do espartilho.
- Eu gostaria que esta fosse uma cena mais comum, que eu pudesse fazer com frequência.
- Eu também - disse com pesar, estavam novamente falando com aquilo. - Por favor seja sincero comigo... Você tem algum sentimento por ela?
- ...
- , estou falando com seriedade.
- Está bem - ele soltou um longo suspiro, encontrando dificuldade para soltar os enlaces da peça. - Eu tentei, no começo eu tentei. Lucinda é educada, culta e bela, eu tentei me forçar a criar sentimentos por ela, mas depois que te conheci, não me dei ao trabalho mais. Eu a respeito por ser minha esposa perante a lei, mas só. Me sinto mal às vezes porque vejo que ela se apaixonou por mim, mas não posso mandar no meu coração, é você que eu amo.
- Você se arrepende de ter me conhecido?
- De forma alguma! Como eu poderia me arrepender de ter conhecido a minha alma gêmea?

terminou de soltar o espartilho e terminou de se livrar dele, colocando rapidamente suas vestimentas noturnas, então se virou para ele, vendo que ainda não havia terminado de se trocar. O fato de ele praticar equitação, esgrima e arco e flecha lhe davam um bom porte que ela poderia passar o tempo inteiro admirando.

- Acho que você não deveria se comparar com ela desta forma, não é saudável para você, meu amor. Lucinda não tem culpa de absolutamente nada.
- Eu sei, eu sei... eu não quero a culpar por alguma coisa, apenas acho injusto ser ela e não eu. Não quero ficar me comparando, mas é inevitável, .
- , me escute - ele se aproximou, colocando as duas mãos sobre o rosto dela. - Eu a deixei em Londres para estar aqui com você durante três dias, nossos amigos e irmãos se mobilizaram unicamente para nos trazer aqui porque acreditam em nós. Eu não faria isso por ela, estou fazendo por você, está bem? Unicamente por você. Eu te amei primeiro e estou fazendo tudo o que posso para estar com você.

o abraçou, repousando a cabeça contra o peito nu dele. Mesmo que passasse cinquenta anos casada com Carter Rodwell, jamais sentiria a mesma sensação de paz que sentia estando ali nos braços do homem que amava de verdade.

- Eu nunca entendi como era o amor de verdade até a primeira vez que eu te vi, , e se algum dia formos pegos, eles podem pensar o que quiserem porque eles não sabem sobre nós e nunca vão saber.

As palavras dele as confortavam de uma forma que nem mesmo poderia explicar. Poderia ter uma personalidade forte e sempre afrontar quem a contrariasse, mas também era uma menina insegura. fazia toda a insegurança dela desaparecer.
- Podemos ficar aqui para sempre? Preciso que dure mais do que três dias - ela disse ainda presa entre os braços dele, ouvir a risada dele e sorriu junto.
- Teremos muito mais do que três dias, eu sei que teremos... agora, se não se importar, estou com frio e gostaria de me vestir.
- Com que finalidade? Está ótimo desta maneira - ela disse ao se afastar e foi se deitar enquanto ele terminava de se vestir. - Já vi algumas vezes, de qualquer forma.
- Você não se parece em nada com a mocinha que conheci no baile. Estou surpreso, pensei que fosse tímida e recatada - apagou as lamparinas acesas e foi até a cama com a pouca luz natural que restou.
- Há muitas coisas que você ainda não sabe sobre mim, senhor Somerhalder - sorriu, se virando para ele, mesmo que mal pudesse ver alguma coisa na sua frente.
- Quero muito descobrir.

Ela foi surpreendida quando os lábios dele se encontraram com dela. Retribuiu ao beijo calmo que se estendeu por alguns minutos, mas mesmo depois continuou com a sua testa colada na dele, sentindo a respiração dele batendo contra o seu rosto. Estava começando a pegar no sono, e pelo visto também estava, pois, a respiração de ambos começou a ficar mais pesada.

- ? - ele a chamou quase em sussurro.
- Sim? - ela respondeu no mesmo tom de voz sonolento.
- Quero que se case comigo.
- Eu vou - ela se quer ficou surpresa, passava tanto tempo pensando naquilo que era como se estivesse sonhando. - Me casarei com você.
- Estou falando sério, quero que seja minha esposa, nem que para isso tenhamos que fugir. Estou disposto.
- Vou para qualquer lugar com você, .

Mesmo estando com sono, tinha consciência do que estava falando, tinha tanta seriedade na voz quanto ele que também estava falando sério. Queria fugir e se casar em um lugar longe, onde fossem apenas os dois sem medo do julgamento, onde pudessem ser livres. Estavam dispostos a fazer esse grande sacrifício.

- Você deixaria tudo para trás? - questionou após algum tempo em silêncio, mas não recebeu nenhuma resposta, já havia adormecido.

Cansado e com muito sono também, ele adormeceu pouco depois. 0

Faria a mesma pergunta no dia seguinte.


Capítulo 5 - They Don't Know About Us

Na manhã do dia seguinte, acordou primeiro do que . O quarto estava claro o suficiente para que ele pudesse ver que a garota ainda dormia calmamente ao seu lado. Por mais que fosse uma exceção, ele se sentiu feliz por finalmente poder acordar ao lado dela, como bem queria desde a primeira vez em que compartilharam a cama. Sempre teve que ir embora depois, mas não agora, tinha alguns dias para aproveitar e ele queria muito, e isto incluía a admirar enquanto dormia, poderia riscar mais uma coisa feita da sua lista de desejos.

A ideia de deixar a Inglaterra parecia ainda mais tentadora agora. Podia se imaginar em um lugar longe dali, tendo a oportunidade de recomeçar apenas os dois, talvez tivessem que mudar de nomes, mas isto era apenas um detalhe. Pensou em vários lugares que conhecia e Paris parecia ser ideal, não era tão distante e ele tinha contatos na cidade que certamente poderiam lhe ajudar, o que realmente importava era poder viver aquele amor que estava guardando apenas para si, mas que o consumia cada dia mais.

Embora a ideia fosse muito tentadora, o que o fazia recuar um pouco era saber que provavelmente nunca mais veria Damon, Clara ou Diana. Não veria sua afilhada crescendo, não veria os filhos que Diana futuramente teria com Thomas e também não daria boas risadas com seu melhor amigo. Eram as pessoas mais importantes na sua vida e lhe custaria muito abrir mão delas, a não ser que pudessem lhes fazerem visitas ao longo dos anos, mesmo sabendo que seria algo muito difícil, visto que viagens de barco eram muito longas e cansativas.

Quando finalmente despertou, algum tempo depois, ele deu o espaço que ela precisava para se situar e não se assustar com o fato de que ele estava ali, mas parecia bem tranquila, esboçando um sorriso enquanto esfregava os olhos, afim de melhorar a vista embaçada. achava que até mesmo sonolenta, ela ainda continuava bela.

- Bom dia - disse abrindo o mesmo sorriso. - Espero que tenha dormido bem.
- Bom dia! Maravilhosamente bem! Acho que ainda estou sonhando.
- Você não está sonhando, , estou aqui com você - ele passou um braço ao redor dela, a trazendo para perto e repousou a cabeça contra o peito dele. - Qual será a nossa programação para hoje?
- Não sei, mas só de pensar que poderemos caminhar livremente pelo jardim, sem preocupações, já me sinto aliviada.
- Eu também... Acho que Damon não se importa se usarmos os cavalos para irmos cavalgar. Por favor, não diga que tem medo de montar em um cavalo.
- Ainda há muitas coisas que não sabe sobre mim, senhor Somerhalder - ergueu a cabeça para olhar para ele e se apoiou nos cotovelos.
- Amo quando você diz isto, eu sempre me surpreendo - ele riu e ela concordou.
- Sim, eu sei cavalgar, para sua informação. Muito bem, eu diria.
- Vamos ver mais tarde se está dizendo a verdade. 
- Talvez você se surpreenda comigo.
- Então deixe-me ver se entendi corretamente: a jovem mais linda que eu já vi tem posicionamento político, gosto por astronomia e literatura, é destemida, ousada, tem habilidades com a dança e ainda por cima sabe equitação? 
- Exatamente!
- Por favor, se case comigo amanhã neste mesmo horário.
- Posso me casar ainda hoje...

rompeu a pequena distância entre os dois quando o beijou. O fato de dele notar e apontar as qualidades que via nela a fazia gostar dele ainda mais, não eram todos que faziam isso e também não gostaria de ouvir de outros. Já havia sido cortejada por outros rapazes antes, mas nenhum deles a conhecia tão bem quanto . O fato de ela ter permitido o ajudou, mas mesmo que involuntariamente ele sempre descobria coisas novas e talvez por isso se apaixonava cada dia mais.

...

Quando disse que sabia cavalgar, não esperava que isto incluísse guiar o cavalo em alta velocidade, algo que ele próprio se sentia temeroso em fazer, mas tentava a acompanhar, impressionado com a habilidade dela. Estavam em um campo muito amplo, com grama verde bem aparada e árvores até onde a vista podia alcançar. Estavam finalmente livres, como se a quilômetros dali não tivessem pessoas os esperando para seus afazeres e obrigações. tinha Lucinda e tinha um casamento para preparar, mas tudo isso ficou para trás quando decidiram desfrutar dos dias que tinham a sós.
- Estou impressionado. Pratico equitação desde os doze anos e ainda sinto medo quando o cavalo corre muito - disse quando diminuíram a velocidade e agora os cavalos trotavam lado a lado. - Parece que você nasceu para fazer isso.
- Cavalos são animais muito fáceis de compreender, claro que tive um tutor, mas me identifiquei no momento em que montei pela primeira vez - se explicou, percebendo que ele parecia muito interessado no que ela tinha para dizer. - Sim, eu pratiquei equitação durante algum tempo, apenas deixei de lado, mas é algo que eu amo fazer.
- Prometo que vamos morar em um campo exatamente como este quando nos casarmos. Posso fazer isto todos os dias.

se lembrou da noite anterior quando ele pediu para que ela se casasse com ele e ela disse sim. Não que estivesse mentindo, apenas havia se esquecido por estar com sono, mas ele parecia estar falando muito sério quanto ao fato de se casarem.

- Posso te perguntar uma coisa? - perguntou um pouco receosa.
- Qualquer coisa, meu amor.
- Ontem à noite... Quando me pediu para que se casasse com você... Estava falando a verdade?
- O quê? É claro que sim! É tudo o que eu mais quero, . Sim, eu quero me casar com você.
- Mas é que... Bem... você já é casado perante a lei com outra pessoa... Isto não seria possível, ao menos não na Inglaterra.
- Por que diz isso, ? Você não quer?
- Quero, , eu quero muito, mas estou pensando em todos os outros detalhes e conhecendo as leis como conheço, sei que é impossível.
- Impossível apenas na Inglaterra...

entendeu o que ele quis dizer. Ele queria fugir para que pudessem se casar, o que era o mais óbvio a se fazer se quisessem ficar juntos livremente. Era tentador, mas começou a pensar em todas as vantagens e desvantagens, como seria planejar uma fuga e a executar, como seria deixar tudo e todos que conhecia para trás e recomeçar em um lugar longínquo e novo. Ela gostava de se planejar com antecedência, mas não tinha certeza se conseguia fazer aquilo.

- Ontem à noite você disse que iria para qualquer lugar comigo - disse após perceber o silêncio da garota, não sabia que rumo aquela conversa iria tomar.
- Eu sei, eu me lembro disto. Eu quero, mas sei as consequências e o quão trabalhoso seria planejar...
- Você acha que não vale a pena?
- Não é isso, , eu... Apenas não sei, preciso pensar a respeito. Eu nunca mais vou ver o meu irmão...

Além de irmão, poderia considerar Thomas como seu melhor amigo. Ele não a julgava por ser como era, ele lhe ensinara muitas coisas que ela jamais teria aprendido por outra pessoa, ele a apoiava em tudo o que ela queria fazer, podia dizer com tranquilidade que Thomas era a única pessoa que realmente se importava com ela naquela família. Deixá-lo não estava nos seus planos, não podia se imaginar longe dele, não queria perder o nascimento dos sobrinhos que teria futuramente. Fugir significava abdicar disto e ela não imaginava como seria sua vida sem ele.

- E eu não veria mais a minha irmã, minha afilhada, meu melhor amigo... Acho que nós dois abriríamos mão de coisas muito valiosas para nós, ...
- Não sei se me sinto preparada para tal, ... A única pessoa que jamais me julgou foi Thomas, eu não quero pensar como seria nunca mais vê-lo.
- Eu não penso desta forma, . Quero dizer, não precisamos ir para o outro lado do mundo, podemos ficar perto, assim poderíamos vê-los ao mesmo uma vez por ano ou algo assim. Também não queria abrir mão de ver minha afilhada crescendo e se tornando mulher.
- É perigoso continuar na Inglaterra...
- Paris. Podemos ir para Paris, a França é um país vizinho e eu tenho conhecidos na cidade... é uma chance, . Lá podemos nos casar legalmente, aqui jamais seria possível.
- Eu sei... apenas me dê algum tempo para pensar.
- Está bem... Como você preferir...

Apesar de seguirem a programação que planejavam durante o dia, não foi a mesma coisa. Por mais que se esforçasse para manter as aparências, parecia um pouco distante em relação à como estava pela manhã. Falava pouco, demonstrava menos afeto e percebeu, entendendo que o motivo de ele estar daquela maneira foi o que ela disse pela manhã, pontuando os contras de fugirem repentinamente. Não que ela não quisesse estar com ele, mas a ideia a pegou de surpresa e era algo grande demais para ser feito de qualquer maneira.

Ao final da tarde, quando se sentaram debaixo de uma árvore para admirar a vista, ela decidiu conversar novamente sobre o assunto para que pudessem esclarecer aquilo de uma vez por todas.

- Eu iria à qualquer lugar com você, - ela começou a falar, o pegando de surpresa. - E não é que eu não queria ir, porque quero muito estar com você, mas estou pensando em todas as possibilidades. Perderíamos pessoas importantes para nós, mas teríamos um ao outro. Não teríamos a mesma vida luxuosa, mas teríamos a oportunidade de começar do zero... São muitas coisas para pensar, a única coisa que tenho certeza é de quero muito estar com você e ter o seu sobrenome. Quase um ano atrás você chegou de repente e minha vida virou de cabeça para baixo, fiz coisas que jamais imaginei que faria, me arrisquei muito e não me arrependo de absolutamente nada, faria tudo de novo... apenas precisamos ter cautela.
- , eu nunca faria nada que fosse te prejudicar, eu sei que é muito mais fácil para mim me livrar de um escândalo desse porte do que para você, sempre penso primeiramente em você.... - ele repousou as costas sobre o tronco da árvore, a convidando para se ajuntar nele. - Imagina o quanto seria ruim para você e sua família, certamente nunca poderia se casar porque teria má fama, seu pai seria mal visto na Câmara dos Lordes... Quero te proteger, , não quero que as pessoas digam o que não sabem porque elas simplesmente não sabem nada sobre nós. 
- Eu não sei se me importaria tanto assim com uma má reputação...
- Mas eu me importo, eu conheço a mulher forte e gentil por quem me apaixonei... O que temos fica mais forte a cada dia e eu não aguento mais esperar e guardar isso para mim, quero que todos saibam que você é minha apenas. O que poderia ser tão simples, não é para nós... Ninguém, absolutamente ninguém, sabe o quanto você é especial e significa para mim, ou o que fez comigo, e por isso eu não quero nunca te expor.
- Eles não sabem o que fazemos de melhor - sorriu, achando que tudo aquilo daria uma linda canção de amor. - É o nosso pequeno segredo. Não me arrependo de nada.
- Eu também não, e justamente por isso quero gritar para mundo inteiro ouvir! Apenas quero ter a liberdade de poder estar com você onde e quando eu quiser.
- Vamos ter calma, está bem? Vamos planejar tudo com muito cuidado e, antes do casamento, vamos fugir. Eu me recuso e deixar a Inglaterra sendo esposa de outro homem, quero estar casada com você.
- Creio que Padre John nos ajudará, mas já que estamos falando sobre casamentos, prefiro fazer isso do jeito certo, ou ao menos, da forma menos errada possível, já que se tratando de nós, nada é correto - ele riu e se levantou, esticando a mão para que ela se levantasse também.
- E o que seria fazer da maneira menos errada possível? - perguntou quando já estavam em pé, mas seu queixo foi ao chão quando ele se ajoelhou enquanto ainda segurava a sua mão.
- Bamborough, você aceita se casar comigo para depois fugir e ser feliz pelo resto de sua vida?
- ... - ela riu, não poderia acreditar que ele realmente estava fazendo aquilo. - Não pode estar falando sério...
- É claro que estou! Sei que está muito atarefada com o seu casamento que nunca vai existir, e por isso mesmo digo para não se preocupar que eu cuidarei de todos os detalhes, mas não vou me levantar daqui enquanto não disser que sim, então irei repetir mais uma vez: Bamborough, você deseja se casar comigo?
- Mil vezes sim, Somerhalder! Levante-se e beije a sua noiva, não quero que sinta dores nos joelhos.

se levantou e a tomou nos braços, beijando-lhe com vontade. Ela disse sim, era tudo o que importava. Iriam se casar, teriam uma vida nova. Não seria fácil, mas estavam dispostos. Ainda não sabiam como quando fugiriam, mas tudo tinha seu tempo devido para acontecer.
E o deles estava perto de acontecer.


Capítulo 6 - Ready To Run

23 de julho de 1666.

"Querida ,

Talvez não esteja acostumada a receber cartas, mas eu não poderia deixar de te escrever. Confesso que tenho pensado muito em você desde o nosso último encontro e o quanto estou ansioso para lhe visitar novamente. Seus conhecimentos e sua beleza me fascinaram de uma forma que não posso pôr em simples palavras, mas como seu futuro marido, pretendo lhe mostrar.

Escrevo esta carta com duas finalidades. A primeira é que, no final de agosto, pretendo lhe visitar mais uma vez antes de sermos marido e mulher no fim de setembro, assim podemos nos conhecer melhor. Quanto a outra, tentei guardar segredo para lhe fazer uma grande surpresa, mas simplesmente não consegui me conter e preciso dizer: Lembro que me disse quando Edimburgo não era tão fascinante assim e devo concordar, falei coisas boas apenas para lhe agradar, mas percebo seu profundo apego com a Inglaterra. Mesmo diante do atual cenário do país, penso que será benéfico não apenas para você, mas também para mim, criarmos raízes neste adorável país. Por isso, após o casamento, você poderá respirar aliviada porque vamos morar em Londres, assim poderá ficar perto de sua família e creio que será uma ótima oportunidade para mim me juntar à Câmara dos Lordes ingleses.

Estou muito ansioso para revê-la e enfim sermos um só. Penso em você todos os dias com o carinho de um noivo que, aos poucos, começa a se apaixonar. Quero lhe fazer a mulher mais feliz do mundo, prometo lutar por isso. Não sei explicar, , mas algo em mim diz que seremos eternos amantes... talvez seja a minha intuição, não sei ao certo...

Sinto que já escrevi o suficiente, mas o necessário que estava guardado em meu peito. Espero ansiosamente por uma resposta de sua parte.
De seu futuro esposo,
Lorde Carter Rodwell."

terminou de ler a carta sem acreditar no que estava vendo. Precisou ler por cima mais uma vez para assimilar todas aquelas palavras em uma letra bonita demais para um homem atarefado como Carter Rodwell. Aquilo era um pesadelo, ela tinha certeza de que estava dormindo e iria acordar a qualquer instante, então tudo teria voltado ao normal.

Como Carter poderia simplesmente mudar de país apenas porque ela gostava de viver na Inglaterra? Não fazia sentido, e menos ainda uma visita repentina dele. Por que havia tomado aquela decisão tão repentinamente e dizer que estava se apaixonando sendo que o viu apenas uma vez? Muitas perguntas rondavam a mente de , mas nenhuma resposta eminente surgia. Tudo o que ela temia estava naquela carta, até mesmo o uso da palavra amantes. Sim, ela tinha um, mas não era ele e nunca seria. Precisava mostrar aquilo para , precisavam fugir o mais rápido possível, o fim de semana afastados de Londres a fez ter ainda mais certeza de que a pessoa certa era e sempre seria, receber uma carta de outro homem era, no mínimo, repugnante.

Tinham que fugir o mais rápido possível.

...


- Eu não tenho a mínima ideia do que devo fazer, padre - dizia com sinceridade ao padre que a ouvia com atenção. - Esta carta é o meu pior pesadelo!

De todas as pessoas com quem poderia conversar sobre aquilo, o Padre John parecia ser o mais experiente, podendo assim dizer, para a aconselhar. Sabia que todos os outros a aconselhariam a fugir com imediatamente, inclusive o próprio, mas ela precisava ter cautela. O Lorde era um homem poderoso e poderia usar de todos os seus recursos para ir atrás dela, então, ao menos uma vez no meio de toda aquela insanidade, estava tentando agir com racionalidade ao invés de dar espaço para a emoção.

- E mais uma coisa! Como este homem pode dizer que está apaixonado por mim se me viu uma única vez? - ela ralhou, quase cuspindo as palavras.
- Pelo que a senhorita me disse, bastou que visse o senhor Somerhalder apenas uma vez para que se sentissem atraídos. Estou certo? - o homem respondeu com paciência. Gostava de conversar e aconselhar os mais jovens.
- Sim, mas é diferente! Nós nos amamos!
- Não é tão diferente assim, querida, veja. Ele é um homem mais velho, precisa de uma esposa para elevar seu status social. Pelo que a carta diz, suas qualidades o encantaram, é compreensível que ele não pare de pensar em você, ele se interessou pelo que viu.
- Mas eu não me interessei! Não quero me casar com este homem, não quero que ele me toque, não quero que ele se quer fale comigo! Manter contato apenas tornará as coisas mais difíceis... para ele, obviamente, não sentirei pena e nem remorso quando estiver em Paris com o homem que amo verdadeiramente.
- , entendo sua aversão pelo Lorde, mas você deve ser prudente. Se está sendo cauteloso e mantendo as aparências enquanto planeja a fuga, você deve fazer o mesmo. 
- O senhor tem razão, mas está tão difícil fingir! No começo era muito simples, mas agora é quase como um jogo mortal. E eu sinto que vou perder...
- Acho que a senhorita está equivocada... Veja bem, é necessário muita cautela diante da situação. Ele está interpretando um papel, você deve também. Deixe com que o Lord te visite e siga a sua vida normalmente, tenho certeza de que tem tudo sobre controle.

odiava o fato de ter de esperar sentada enquanto planejava tudo sozinho. Ela gostava da sensação de adrenalina, gostava de estar no limite, gostava da sensação de aventura que estava vivendo, mas apenas esperar era agonizante. Ele já não dava notícias sobre seus planos e ela temia que talvez tivesse mudado de ideia e pretendesse passar o resto de seus dias feliz em seu casamento com Lucinda, talvez tivessem filhos, o que ela mais temia.

- E se ele tiver mudado de ideia? E se... - ela mordeu os lábios, encolhendo os ombros. - E se ele preferir continuar com ela?
- Hum... Penso que é impossível. Sim, é impossível. Ele não é feliz com ela. Acho que a senhorita pode duvidar de qualquer coisa que exista, menos do amor dele por você.
- Isto é... bem profundo, para ser sincera. Às vezes eu realmente duvido - de repente sentiu a consciência pesar por duvidar tanto de .
- Mas não deveria, é a forma mais pura de amor que ele carrega, está arriscando tudo por você. 
- O senhor tem razão...

se sentia um tanto sobrecarregado pela quantidade de coisas que aconteciam de uma vez só. Tinha que preparar um casamento que nunca iria acontecer, tinha que manter as aparências, tinha que lidar com o fato de que talvez nunca mais visse sua família, tinha que ser criativa em suas escapadas. Estava se tornando cansativo, queria apenas ter a paz e liberdade que achava que merecia.

Ela agradeceu ao padre pelos aconselhamentos, se levantou e saiu. Seu cavalo estava preso exatamente onde o deixou, então soltou o animal e montou, tomando o caminho de volta para o castelo. Londres estava caótica devido ao atual cenário político, o país estava um verdadeiro caos, o que a fazia querer ir embora o mais rápido possível, tinha certeza de que a França era um lugar muito melhor de se viver do que presenciar toda uma revolução diante de seus olhos.

...


encarava o próprio reflexo no espelho, ajeitando a boina oitavada na cabeça pela quarta vez, achando que não estava curvada o suficiente. Se certificou de que a túnica estava em posição adequada sobre os ombros e só então se deu por satisfeito, achando que estava apropriado para deixar seus aposentos.

Não apenas isso, queria estar apresentável para sua amada.

Deixou seus aposentos e passou pelo largo corredor, sendo reverenciado pelo guarda que vigiava o local. Virando por mais alguns corredores, desceu as escadas nas pontas dos pés, mas suas tentativas de sair de fininho falharam quando Lady Lucinda surgiu logo atrás dele, no topo da escada, o chamando pelo seu nome.

- Para onde vai, querido?
- Visitar a minha irmã - se virou e olhou para o topo da escada, vendo a esposa descendo os degraus devagar sobre o longo vestido.
- Outra vez? Imagino que Diana tenha idade o suficiente para cuidar de si mesma.
- Não é por isso, Luce. Foi doloroso para você deixar sua casa e sua família para se casar comigo, não foi? Conheço a minha irmã, sei que ela precisa ver um rosto conhecido. 
- Mas está é a segunda vez que você vai visitá-la essa semana, .
- Não se preocupe, serei breve em minha visita - sorriu, mentir já não era uma dificuldade pra ele. - Tenho assuntos para tratar com Lorde Woodbead depois, então a visita não tomará muito de meu tempo.
- Por favor, não demore, me sinto só sem você aqui.
- Não se preocupe, voltarei cedo para casa, querida.
- Por favor, tome cuidado - Lucinda se aproximou, colocando as mãos sombra os ombros dele e deixando um beijo nos lábios do marido, beijo este que não foi correspondido.
- Eu tomarei. Até mais tarde - a afastou e deu meia-volta, andando rapidamente em direção à saída.

Atravessou as grandes portas que protegiam o castelo. Desceu o pequeno lance de escadas quase saltando os degraus para alcançar a carruagem que o esperava. Entrou no veículo e esperou que o cocheiro fechasse a porta e tomasse o seu lugar para que enfim ele pudesse ir até o castelo da família Bamborough.

Se o trajeto não incluísse as ruas sujas e lamacentas de uma Londres caótica com os eventos que vinham acontecendo, poderia ir mais tranquilo durante o caminho, mas a cidade como um todo lhe causava repulsa. Imaginou que se até mesmo ele, um Lorde de boas condições de vida, se sentia angustiado e deprimido em um ambiente cinza e triste, não podia imaginar o que cidadãos londrinos comuns sentiam ao viver em um monte de madeiras amontoadas. Sabia que era questão de tempo para que pudesse ter um novo destino. Portugal e França eram os seus preferidos.

Ele não soube quanto tempo passou dentro da carruagem, mas uma sensação de alívio invadiu seu corpo quando parou perante o Bamborough Castel, residência da nova família de Diana. Foi reverenciado pelos guardas novamente e adentrou enquanto aguardava que um dos criados avisasse que ele estava ali. Não demorou muito para que Diana o recebesse, sorrindo de orelha a orelha por avistar seu irmão. Antes mesmo de lhe dar um abraço, o chamou para a sua biblioteca particular para que pudessem conversar tranquilamente.

- Estou tão feliz por te ver aqui - ela disse após receber com um abraço apertado. - Mas imagino que me ver não seja o único motivo de sua visita.
- Tem razão, mas primeiramente vim ver você, irmã. Parece que está sendo bem tratada por aqui - olhou ao redor, vendo como aquela pequena biblioteca tinha a personalidade de Diana em cada detalhe e todos aqueles incontáveis livros que ele tinha certeza que ela iria ler.

- Sim, estou. Thomas, quando soube do meu gosto pela leitura e estudos, aceitou da melhor maneira possível. Ordenou que este espaço fosse inteiramente meu, às vezes passamos tempo aqui lendo juntos.

não deixou de notar o sorriso estampado no rosto da irmã quando mencionou o marido, reparando que era algo novo. Um brilho no olhar que Diana não tinha antes. Ele ficou feliz por perceber que ela também estava feliz.

- Estou feliz por você.
- Acho que finalmente estou me apaixonando, . Thomas é gentil, compreensivo, paciente, amoroso... eu nunca imaginei que um casamento arranjado pudesse dar certo, mas eu não poderia ter me entregado para alguém melhor.
- Entregado? - ele arqueou as sobrancelhas, entendendo o duplo sentido da palavra e Diana encolheu os ombros, achando que não deveria falar sobre aquilo tão abertamente, mesmo que fosse para o seu irmão e melhor amigo. - Ah... Claro, claro... não posso agir como se eu nunca tivesse compartilhado do mesmo sentimento - se referiu à , mesmo que sua primeira tivesse sido sua esposa, como deveria ser. - Estou muito feliz por você e eu espero que sejam ainda mais felizes. Quero sobrinhos o mais rápido possível, está bem? Dez, de preferência.
- Não quero passar toda a minha vida estando grávida, - Diana riu, se considerava uma mulher a frente do seu tempo. - Claro que teremos filhos um dia, mas tudo ainda é recente, precisamos nos adaptar.
- Eu compreendo, estou apenas brincando. Desejo sua felicidade acima de tudo.
- E eu a sua - Diana se levantou de seu lugar. - Vou chamá-la para vir aqui. Me dê um instante.

Diana se levantou e deixou a biblioteca e para trás. Ele sentiu o coração palpitar, ansioso por vê-la depois de alguns dias ausente. Gostaria, mais do que tudo, de poder ver todos os dias ao acordar e também ao adormecer, ser a primeira e a última pessoa que ela visse. Se lamentava profundamente por tê-la conhecido apenas depois do seu casamento, mas não se importava. O último ano de sua vida foi melhor que os outros dezessete, ele tinha certeza que sim. Apenas queria fugir para um lugar distante e poder ser feliz se estivesse também.

Perdido nos próprios pensamentos, não se deu conta de que a porta se abriu, revelando que entrou sem chamar a atenção para si. Ele sorriu ao vê-la, sempre tão elegante e bonita, ele não poderia ter escolhido melhor.

- Levem o tempo que precisar, me chamem quando terminarem. Com licença - Diana fechou a porta e a trancou para não correrem o risco de serem descobertos.

se levantou de seu lugar e se aproximou, fazendo a mesma reverência que fazia desde a primeira vez que a viu. sorriu, esticando a mão para que ele a beijasse. ainda a admirou mais uma vez, encantado com o vestido rosa que ela usava e os cabelos soltos sem qualquer penteado eminente. Ele preferia assim, achava que não precisava de adereços desnecessários para ficar bonita.

- Está tão linda. Como sempre. Senti tanto a sua falta.
- Eu também senti a sua falta - soltou um longo suspiro cansado e percebeu que ela parecia triste.
- Por que está assim? - ele se aproximou, fazendo um carinho no rosto dela. fechou os olhos para apreciar o toque dele antes que acabasse.
- Tem sido tão difícil e só está piorando. Não suporto mais, ... receberei a visita do Lorde Rodwell no fim de agosto. Ele é um homem adorável, mas não é com ele que quero me casar. Acho tão injusto nossos irmãos terem o privilégio de compartilhar a cama enquanto nós temos de viver às escondidas.

O único motivo pelo qual as coisas eram assim era porque e se conheceram primeiro quase um ano antes no baile de aniversário do Lorde Woodbead, ou simplesmente Damon para eles. Thomas e Diana se conheceriam pouco depois para o casamento planejado pelas duas famílias, o que fez com que e se lamentassem por não terem sido eles os escolhidos, mas nem poderia, afinal, ele já era um homem casado.

- Vamos encontrar uma forma. Vamos fugir, mas precisamos agir com cautela, . É mais fácil para mim me livrar de um escândalo do que para você. Não quero que você corra perigo, meu amor, não quero que as pessoas pensem que você é uma adúltera.
- É isso o que sou, mas não me importo, não me importo com mais nada. Eu só quero ir embora daqui o mais rápido possível. Eu não suporto mais - ela tinha lágrimas nos olhos, estava desesperada.
- Vamos encontrar uma solução, eu prometo.

Ele a puxou para os seus braços, envolvendo-a por completo. ergueu o rosto para poder olhar, ele era mais alto, e ela gostava desse detalhe. Sorriu quando ele se curvou para que seu nariz tocasse o dela. Estava com os olhos fechados, então apenas sentiu quando os lábios dele se encontraram com os dela em um beijo suave, mas que se intensificou conforme o desejo de ambos aumentava. O maldito espartilho que a apertava não lhe permitia desfrutar das mãos dele tocando o seu corpo e ela desejou tirar, embora soubesse que naquele momento não seria possível.

- Pode ficar até o anoitecer? - ela perguntou após o beijo, não se contendo pela vontade de tê-lo.
- Não posso. Luce está desconfiando de minhas saídas frequentes, preciso ser mais discreto. Disse a ela que visitaria Damon após ver Diana, mas acho que ela não de seu por convencida.
- Me mata saber que outra mulher o espera em casa - se afastou, encolhendo os ombros.
- Me mata saber que é ela que acorda com você todos os dias, que é livre para te acompanhar aonde quer que você vá. Eu não suporto a ideia de que... - ela mordeu os lábios, tentando conter o que estava prestes a dizer, mas precisava desabafar. - De que ela te toca livremente, que ainda compartilham noites juntos... não posso por em palavras o quanto isso me frustra.
- Não me deito com Luce há meses, talvez por isso ela esteja tão desconfiada - se defendeu como pôde. - Eu não consigo desejar ela como desejo a você, , não consigo fingir que tenho uma vida perfeita ao lado dela. Não pense que eu gosto de saber que todos os dias um outro homem vem te visitar. Te corteja, faz elogios a você... Ele já...
- Ele nunca me tocou, se é o que iria perguntar - ela rebateu quase que em um tom de ofensa, nunca havia sido tocada por nenhum homem que não fosse . - Apesar de tudo, reconheço que o Lorde Rodwell é um homem respeitoso.
- Não importa. Ele te corteja, ele te deseja, ele caminha com você pelo jardim e diz coisas belas, diz as coisas que eu queria dizer. Estou planejando tudo, , mas precisamos ter cautela. Aguente só mais um pouco e eu prometo que em breve seremos apenas nós dois em lugar novo, está bem?
- Esperarei mais um pouco - foi até uma das janelas e puxou as largas cortinas para fechá-las e fez assim com a outra também.
- O que está fazendo?
- Não quero que alguém de fora me veja desamarrando meu espartilho.

entendeu perfeitamente o que ela quis dizer. sabia como ser sútil e direta ao mesmo tempo e isso o cativava. Se aproximou por trás, repousando suas mãos na cintura dela enquanto lhe distribuía beijos no pescoço, causando arrepios nela por debaixo de todo aquele tecido. Por mais que não fosse o lugar mais apropriado, não era desculpa o suficiente para não o fazer.

...

- Apenas peço que mantenha a calma, está bem? - disse enquanto segurava as mãos de , ela parecia muito aflita.
- , você não entende... - respirou fundo, precisava ser muito direita. - Não lhe contei no instante em que adentrou porque não consegui, mas recebi uma carta do Lorde Rodwell. Como informei antes, ele pretende me visitar no final de agosto, mas não é este o problema... Ele disse que está se apaixonando por mim! Eu não quero ter qualquer intimidade com aquele homem, , eu me recuso. 
- Eu não vou deixar - ele disse convicto, não suportava a ideia de outro homem a tocando. - Estou aguardando uma resposta do meu contato em Paris, não posso agir enquanto não obtiver uma resposta, e acredito que ainda vá demorar algum tempo. Deixe que ele venha, está bem? Mas não se preocupe, apenas vamos seguir o nosso roteiro e tudo dará certo... agora preciso ir, prometi que seria breve e já se passaram horas. Tentarei vir na próxima semana ver como você está.
- Está bem, tenha cuidado.

rompeu a distância entre eles ao lhe dar um longo beijo de despedida, então foi embora antes que pensasse em ficar mais um pouco. Era difícil sempre ter que ir embora e estava ficando pior, mas ele precisava se manter firme em seu propósito, ou seria a mais prejudicada se o affair entre eles virasse notícia. Ela fácil para ele se livrar de um adultério, mas ela ficaria marcada e ele não queria isso de maneira alguma, mas tentaria agilizar as coisas para que fugissem o mais rápido possível.

30 de agosto de 1666

A estadia do Lorde Rodwell em Londres durou uma semana que para ele passou muito rápido, enquanto que para foi como se tivesse se passado um mês inteiro. Estava entediada por sempre terem as mesmas conversas, por sempre mencionarem o casamento e também por nunca conseguir o encarar nos olhos por muito tempo, enquanto ele parecia ser muito bom com isso. Não podia negar que as joias que ganhou de presente eram lindas e preciosas, embora sua preferida ainda fosse a pulseira de que ela optou por guardar estando na presença do noivo, mas estava tentando ser discreta, não podendo dizer o mesmo de Carter que parecia visivelmente interessado nela, cobrindo-a de elogios e dizendo a todo instante o quão ansioso estava para selarem a união, assim poderia tê-la por completo.

não era tão inocente assim, ao menos não mais, sabia o que ele queria dizer e sentia repulsa. Apesar das palavras sutis dele, as intenções eram claras, mas ela estava aliviada por saber que aquilo nunca aconteceria de verdade. Não podia nem imaginar o que ele poderia fazer se descobrisse que ela já não era mais virgem, certamente seria uma mulher condenada, mas não se arrependia. Apenas um homem poderia tê-la pelo resto da vida.

Era isso o que ela pensava enquanto observava a bagagem do Lorde sendo colocada na carruagem pelo cocheiro. Carter o ajudou com a última mala que era muito pesada, então enquanto o homem tomava seu lugar, ele foi até que o observava. Seguindo o protocolo estabelecido pelos pais, o acompanhou até a entrada do castelo para se despedir formalmente, mas podia imaginar o quão forçado era o sorriso estampado em seu rosto.

- Bem... acho que hora de ir embora - ele deu de ombros, parando perante .
- Creio que sim. Faça uma boa viagem de volta para Edimburgo - usou toda a sua simpatia para proferir as palavras, torcendo para que ele se adiantasse e fosse embora o mais rápido possível.
- Eu apenas gostaria de agradecer pela estadia e também pela sua companhia. Foram dias muito agradáveis.
- Que bom que tenha se divertido em minha companhia, me esforcei ao máximo para que se sentisse confortável.
- Pode ter certeza que me senti! Não vou me prolongar, já estou de partida, apenas quero memorizar seu rosto antes ir, já que na próxima vez que nos encontrarmos, seremos marido e mulher.
- Claro, compreendo... tome o tempo que precisar.

se surpreendeu quando ele deu um passo para frente, ficando mais próximo dela. Ele colocou as mãos em seu rosto, da mesma forma que fazia, e ela sentiu o estômago revirar, mas quando ele juntou seus lábios aos dela, se quer teve tempo de se afastar, arregalou os olhos enquanto ele parecia desfrutar do breve momento. o afastou, se contendo para não passar a manga do vestido pela boca, reconhecia que era grosseiro demais até para ela, mas o beijo serviu para reforçar o que ela já sabia: não o queria ver nem se estivesse pintado de ouro.

- Por favor, vá embora - pediu com mais educação do que pretendia, dando alguns passos para trás.
- Me perdoe, não sabia que reagiria assim, ...
- Não somos casados ainda, é muito, muito imoral, espero que ninguém tenha visto. O senhor acabou de ferir minha honra.
- ...
- Vá embora imediatamente.
- Suspeito... - ele espremeu os olhos, olhando fixo para a garota na sua frente. - Não é o beijo de alguém que nunca foi beijada...
- O quê?! - sentiu como se seu coração fosse parar de bater a qualquer instante, mas tinha que agir imediatamente.
- Seja sincera, não deixarei de me casar com você por causa disso.
- Como ousa? - ela esganiçou a voz, descobrindo que era uma ótima atriz. - O senhor vem até a minha casa, desfruta de horas a sós comigo sem uma pessoa mais velha nos vigiando, me rouba um beijo antes do casamento e ainda insinua que já passei de meros cortejos? Que tipo de pessoa pensa que eu sou??? 
- , eu não...
- VÁ EMBORA!!! - bradou, o fazendo dar um passo para trás.

Ela não esperou por uma resposta, apenas deu as costas e voltou em passos rápidos para dentro, não queria ficar mais um segundo ali. Fosse na presença dele, naquele castelo ou mesmo no país. Fugiria o mais rápido possível, estava comprometida.

andou por todo o castelo à procura de Thomas, o encontrando no estábulo com roupas de montaria. Ele notou que a irmã parecia muito aflita mesmo de longe, e quando se aproximou, viu se sua intuição estava certa. Preocupado, ele se aproximou dela.

- , o que aconteceu?
- Aquele... - ela mordeu os lábios antes que pudesse xingar, não proferia ofensas ou palavrões nem mesmo na frente de alguém íntimo. - Aquele que eu não suporto estar na presença! Ah, ele me paga! Thomas, ele me beijou!
- O quê? - Thomas franziu o cenho confuso. - Lorde Rodwell?
- Sim! E o pior: simplesmente supôs que eu já havia beijado outro homem apenas pelo milésimo de segundo em que a boca dele encostou na minha! E adivinhe só: ele não está errado!!!
- , por favor, se acalme...
- Não posso me acalmar! E se ele souber? E se fizer alguma coisa com ? Não temos mais tempo, estou comprometida! É claro que neguei até a morte, mas e se ele souber?
- Não tem como ele saber.
- Eu não sei, talvez ele saiba! Por favor, vá até imediatamente e o traga aqui. Eu preciso falar com ele.
- ...
- Thomas, eu estou te implorando! - juntou as mãos em súplica, estava desesperada. - Vá agora e traga até mim, precisamos resolver isto hoje mesmo! Eu quero ver ele! Vá, quando chegar diga a ele que estou na biblioteca de Diana.

deu as costas para ele e Thomas percebeu que não tinha outra opção a não ser ir, então montou em seu cavalo e foi o mais rápido possível ao encontro de . Eram muitas informações para se processar de uma vez, mas ele tinha noção da gravidade daquela situação. Se Lorde Rodwell soubesse de alguma coisa, Thomas faria o possível e o impossível para acobertar a irmã, mas sabia que, apesar disso, não serviria para muita coisa.

...

- Você tem certeza, ? - Diana perguntou receosa, se sentando ao lado da cunhada.
- Tenho sim. Não podemos mais adiar, espero que entenda e concorde. Continuo querendo que você, Thomas e Damon sejam nossas testemunhas, por isso preciso que a notícia chegue até Damon o mais rápido possível. Deixe todas as coisas desnecessárias de lado, apenas vamos avisar o Padre John sobre uma nova data e nos casaremos, em seguida vamos fugir. Não queria que fosse assim, queria ter mais tempo para me despedir de vocês, mas não posso, espero que entenda.
- Eu entendo, - Diana disse compreensiva, mas viu os olhos da cunhada começarem a ganhar brilho.
- Diana...
- Está tudo bem, eu sou a primeira a ser a favor do amor de vocês, mas... - Diana espremeu os olhos, contendo a vontade de chorar, mas falhou. - Eu não sei lidar com o fato de que jamais verei meu irmão outra vez. Durante a vida inteira, foi meu porto-seguro, eu não estaria aqui se não fosse por ele, teria desistido há muito tempo!

se via em Diana de várias maneiras. As duas eram muito parecidas, pensavam da mesma forma, tinham os mesmos gostos e também compartilhavam a semelhança de que eram profundamente apegadas aos seus irmãos Thomas e , respectivamente. podia a compreender, pensava o mesmo sobre Thomas.

- E eu nunca mais verei Thomas...
- Vamos tentar manter a comunicação de alguma maneira! Contrataremos um mensageiro particular, qualquer coisa! - Diana secou as lágrimas na manga do vestido.
- Faremos o possível. Sei que será difícil, se ao menos existisse uma forma direta de contato...

foi interrompida quando a porta se abriu e adentrou na biblioteca. Ela se levantou e esperou que Diana saísse para lhes dar privacidade, então ele fechou a porta e foi até ela. o abraçou, pois só assim se sentia um pouco melhor, mesmo com toda a confusão que a envolvia. já estava a par da situação e estava tão preocupado quanto ela.

- O que pretende fazer? Sei que tem algo em mente - ele perguntou quando se afastaram.
- Vamos adiar a fuga e o casamento. Não me importo se ainda não tem um retorno de Paris, tenho dinheiro o suficiente para pagarmos uma estalagem para nós durante algum tempo. Apenas diga o dia, , e eu vou imediatamente dizer ao padre John para que se prepare.

não queria se adiantar tanto, mas sabia que não tinha escolha. Precisavam correr contra o tempo e ele teria que improvisar ao juntar alguns pertences sem que Lucinda percebesse.

- Me dê seis dias, é tudo o que preciso. Tenho que juntar algumas roupas, mantimentos, dinheiro... vou até o porto verificar quando o próximo navio para Paris saíra, me dê apenas estes dias.
- Está bem, também preciso me preparar... Apenas quero fugir o mais rápido possível, , não suporto mais este lugar e nunca mais quero ver o rosto daquele homem outra vez. Creio que Thomas não tenha mencionado, mas ele me beijou e insinuou que eu já estive com outra pessoa. Ele não está errado.
- Ele fez o quê?! - praticamente se conteve para não gritar. - Está bem, , vou ser o mais rápido possível, talvez ele saiba de alguma forma, não podemos mais ficar aqui. Hoje mesmo irei até a catedral notificar o Padre John. Não se preocupe, tudo dará certo, eu prometo, ninguém saberá sobre nós.

5 de setembro de 1666

Aquele não era o vestido de noiva que esperava vestir. Era feio, velho e encardido, mas era tudo o que encontrou na parte esquecida da igreja. Estava parada no altar, apenas esperando que já havia informado através de Diana que teria de esperar Lucinda adormecer.

Padre John estava ao seu lado e Damon ao lado dele, enquanto Thomas e Diana estavam sentados no primeiro banco aguardando a rápida cerimônia começar. Por mais que estivessem com os corações apertados por fazerem aquilo, sabiam que era a única opção para que e pudessem ficar juntos.

- , Charlotte e eu conversamos e achamos que seja melhor que qualquer correspondência venha direto a nós, está bem? Repassaremos para os devidos remetentes - Damon disse de repente, se lembrando antes que fosse tarde demais.
- Está bem, mandaremos notícias. Obrigada - sorriu, todo o apoio de Damon estava sendo primordial. - Por tudo, não teríamos feito nada sem você.
- Por favor, não me faça chorar, apenas... se casem - ele riu, mas também pensava que não veria mais seus melhores amigos.
- Preciso de um noivo para isto...

Aquele não era o casamento que sonhou, mas não podia reclamar, ao menos teria a benção divina e talvez tentasse a sorte com as leis francesas. Estava ansiosa, contando os minutos para que chegasse e eles acabassem com todo aquele sofrimento de uma vez por todas. Era apenas questão de horas para que finalmente estivessem livres e tudo teria valido a pena.

Quando ouviu batidas na porta dos fundos e Damon saiu de sua posição para ir atender, ela sentiu como se o coração fosse saltar pela boca, estava chegando, estava na hora, finalmente seriam um só e tudo estava acontecendo conforme o planejado.

A única falha dos jovens foi não terem olhado as sombras, os mínimos detalhes. Estava escuro na Catedral Saint Paul, tudo poderia acontecer.

O perigo estava na sombra.


Epílogo

olhava para os lados enquanto caminhava, procurando ter certeza de que não era visto, mas parecia quase impossível visto que ele usava uma enorme capa preta sobre os ombros, para além do capuz que cobria de forma sombria o seu rosto. Estava escuro e ele estava contente por não ter muitas pessoas circulando pela rua, afinal, uma cidade em chamas não era o lugar mais apropriado para passear à meia-noite.

Ele olhou para cima por um instante, avistando a belíssima catedral de Saint Paul e sentindo como se o seu coração fosse sair pela boca a qualquer instante. Ela estava lá, ele tinha certeza que sim. Sua doce e bela o esperava ali dentro para que finalmente pudessem, juntos, partir dali. Um navio com destino à França sairia logo pela manhã e eles não viam outra forma que pudessem ficar juntos para além de uma fuga repentina. Felizmente, e teriam ajuda para isso.

deu a volta e procurou pela porta dos fundos. Se tudo corresse como o combinado, Damon Woodbead, seu melhor amigo, estaria do outro lado o esperando para abrir. O rapaz respirou fundo e então bateu três vezes na porta como acertado entre eles antes, então Damon abriu logo em seguida, aliviado por ter se lembrado do código e batido corretamente.

- Suas vestes são realmente divinas, meu caro amigo - riu ao entrar e notar que Damon usava uma bata que provavelmente foi emprestada pelo Padre John.
- O Padre é um homem muito gentil, disse que ninguém desconfiaria de um Cardeal. Talvez ele esteja correto.
- De fato, de fato - ponderou e então retirou o capuz quando se sentiu seguro com a porta trancada. - Ela está?
- Sim, chegou há alguns minutos e está belíssima apenas esperando por você.
- Não posso crer que estou prestes a me casar com a mulher que verdadeiramente amo - ele deu ênfase em verdadeiramente, fazendo Damon soltar um longo suspiro.
- Lucinda é uma boa moça, .
- Eu sei, espero que um dia ela possa me perdoar... Mas é a que amo, com quem quero passar o resto de meus dias. Não consigo imaginar uma vida sem ela e devo isso a você.
- Eu não esperava que você se apaixonaria justamente no baile em comemoração ao meu aniversário por Bamborough.
- Eu não só me apaixonei, Damon, eu a salvei. Ela não queria se casar com o Conde de Yorkshire, assim como eu não queria me casar com Lucinda.
- Eu compreendo. Vamos, não podemos tomar todo o tempo que nos resta.

apenas assentiu e seguiu Damon, que segurava a lamparina em sua frente para os guiar por dentre os cômodos até que pudessem chegar no salão principal da igreja, que estava iluminado apenas na frente, onde se encontrava o altar. Ele não pôde conter o sorriso quando viu bem ali ao lado do Padre John, apenas o esperando. Olhou para o primeiro banco e pôde ver as silhuetas de Diana e Thomas no meio da pouca luz sobre eles. estava mais do que agradecido por ter a irmã e o cunhado os apoiando naquele
momento que marcaria sua vida para sempre.

Diana Somerhalder e Thomas Bamborough, mesmo sabendo o quanto aquilo era errado, se dispuseram a estar ali e darem toda a cobertura necessária ao jovem casal, embora soubessem que dificilmente voltariam a se encontrar outra vez naquela vida. Diana, a irmã mais nova de , e Thomas, o irmão mais velho de , gostariam de ser as testemunhas daquele amor proibido. Lamentavam por e não terem a mesma sorte que eles tiveram com o casamento arranjado.

- Obrigado por estarem aqui hoje - disse com sinceridade, mas antes que pudessem lhe responder, Damon forçou uma tosse enquanto se colocava ao lado do Padre.
- Sua noiva está bem aqui, , não a faça esperar por mais tempo.

Ele concordou e se aproximou de , que usava um vestido branco simples e surrado e um véu encardido, o que era lamentável para alguém de seu prestígio social, afinal, os Bamborough eram considerados uma das famílias mais ricas da Inglaterra, tal como os Somerhalders. não esperava que ela estivesse em um exuberante vestido de noiva feito especialmente para ela do mais caro tecido, mas ele gostaria de poder dar algo melhor para ela naquele momento tão especial.

sorriu quando segurou suas mãos antes de dizer qualquer coisa. Ela estava ansiosa como nunca, mas de uma forma boa, afinal, estava se casando com o seu grande amor, mesmo que isso lhe custasse o seu status, sua família e tudo o que ela tinha. Nada valeria a pena se não estivesse com . Apesar de ter apenas dezessete anos, sabia muito bem o que queria, ou melhor, quem queria, e este alguém certamente não era o Conde de Yorkshire. Carter Rodwell poderia ser um adorável rapaz do alto escalão, mas ele não era e nunca seria e tinha certeza de que nunca o amaria.

- Estou tão feliz - ela confessou, incapaz de conter o sorriso que fazia o coração de acelerar todas as vezes.
- Eu também. Falta pouco, meu amor - ele se curvou para beijar as mãos dela, então olhou para o Padre. - O senhor já pode começar, estamos prontos.
- Eu vou ser breve - o Padre, que já era um homem de idade, disse bondosamente, sorrindo para o casal. - Espero que saibam o quão arriscado é este matrimônio e as consequências que isto pode trazer para suas vidas.
- Nós sabemos - prontamente disse com convicção. - Nada importa além do nosso amor.
- Gostariam de dizer algo um para o outro?
- Sim - apertou um pouco mais as mãos de , pois ele próprio sentia que estava tremendo. - Bamborough, eu lhe amei desde o instante em que te vi naquele baile, eu jamais poderia imaginar que eu seria capaz de me apaixonar por alguém como estou apaixonado por você. Quando te vi, eu soube que apenas uma vida não seria o suficiente para que eu pudesse te amar, então prometo te amar por toda a eternidade.

As palavras de pegaram de surpresa, pois ela jamais ouviu uma declaração de amor como aquela. Seu coração transbordava de alegria e ela mal podia esperar para o chamar de esposo, como estava esperando por algum tempo.

- - ela disse com a voz embargada o apelido no qual somente ela o chamava. - Somerhalder, eu não tenho palavras para expressar o que estou sentindo agora. Sinto, talvez, uma alegria que transcende a vida, sinto que posso passar toda a eternidade com você se me for permitido. Obrigada, obrigada por me salvar de um casamento arranjado com alguém que não amo, obrigada por mostrar para mim o verdadeiro sentido do amor, por me mostrar a felicidade no meio de todos este caos. A cidade pode estar em chamas lá fora, mas eu não me importo, pois me sinto segura com você. Eu o amo e sempre, sempre amarei.
- Eu te amo - sussurrou em resposta, se contendo para não a beijar antes que o Padre lhe autorizasse.
- Somerhalder, você aceita Bamborough como sua esposa, prometendo amar e respeitar por todos os dias de sua vida até que a morte os separe?
- Sim - ele respondeu prontamente, sem tirar os olhos de .
- Banborough, você aceita Somerhalder como seu...
- Aceito - o interrompeu de tamanha ansiedade, fazendo sorrir.
- Então eu os declaro marido e mulher. , pode beijar sua noiva.

se curvou para puxar o longo véu de para cima, podendo ter uma melhor visão do rosto de sua amada e ela estava radiante, tão linda como sempre foi. o esperava, embora demonstrasse pressa em ser beijada, então , curvando o pescoço, colocou as mãos no rosto dela e pressionou seus lábios contra os dela, em um beijo suave e respeitoso na frente de seus entes queridos como deveria ser, mas desejava estar a sós com ela mais do que tudo, fingindo que seria a primeira vez, já que agora podia dizer que não estavam mais em pecado.

Sobre os aplausos de Damon, Diana e Thomas, eles se separaram e se encararam, sorrindo e com lágrimas nos olhos por finalmente estarem casados e apenas a algumas horas de estarem longe dali em uma nova casa com uma nova vida.

- Ah, que cerimônia mais adorável! Sinto que meus olhos sangram de alegria!

Por dentre os bancos da igreja escura, Carter Rodwell caminhava em passos largos, aplaudindo ironicamente o matrimônio. sentiu como se fosse desmaiar a qualquer instante porque seu sonho se transformou em pesadelo em um piscar de olhos. Não sabia como Carter poderia estar ali, como havia entrado. Teria Damon esquecido a porta aberta? Ela não sabia, mas tinha quase certeza que, a partir dali, seus dias estavam contados.

- Como você entrou aqui? - perguntou abruptamente, se colocando na frente de e do Padre John.
- O Cardeal esqueceu a porta aberta - ele apontou para Damon que parecia perplexo com sua falha, incapaz de sair do lugar ou abrir a boca para dizer uma palavra que fosse em sua defesa. - Padre, acredito que isto seja um engano, este homem no altar é um impostor e eu sou o verdadeiro noivo desta linda dama. , minha doce , este velho vestido não lhe cai nada bem.
- Eu não posso fazer isso, Carter, não é você que eu amo - disse ao sentir repentina coragem, se colocando ao lado de . - Espero que você me perdoe.
- Perdoar? , você deveria saber o que acontece com as adúlteras, sim? Ande, saia daí e vamos embora, este casamento está anulado.
- O que Deus uniu, homem nenhum pode separar, senhor Rodwell.
- Pode, pode sim, é exatamente o que estou prestes a fazer.
- Terá de passar por cima de todos nós, Conde - Thomas se levantou do seu lugar.
- Tom, por favor, venha para cá - pediu, quase implorando, ao irmão.
- Thomas, Thomas... Eu não esperava isso de você, sempre te enxerguei como um amigo. Penso que não será muito difícil passar por cima de você, ou você pretende usar suas plantinhas medicinais para me impedir de tomar o que é meu por direito?
- Você não pode obrigar alguém a se casar com você.
- Diana? Me desculpe, eu não tinha notado que você estava aqui. Contraditório, não é mesmo? Até onde sei, você foi obrigada a se casar com ele, não foi?
- Eu me apaixonei pelo Thomas, mas você não ama a . Está feito, você não pode anular um casamento apenas porque deseja.
- Posso, posso sim - ele sorriu e podia jurar que aquele não era o Conde de Yorkshire que ela conheceu. Ele tinha uma expressão sombria no rosto, algo que a fez sentir um terrível arrepio na espinha. - Digamos que a Inquisição não queimou todas as bruxas, não é mesmo? 
- Do que você está falando? - questionou, tentando não demonstrar que estava sim com medo do que poderia acontecer.
- Talvez tenham queimado todas as bruxas, mulheres, mas quem desconfiaria de homens, não é mesmo? Mais de um, eu diria. Estou certo, Padre?
- Esta é a casa de Deus, senhor Rodwell.
- Então somos dois hipócritas, falsos católicos. Eu sei quem o senhor é, eu sei que o senhor não é um Padre de verdade.

Sobre um silêncio sombrio, Carter caminhou tranquilamente na direção do altar, passando por Thomas quase fingindo que ele não estava ali, pois o rapaz parecia perplexo demais para fazer alguma coisa. Ele se aproximou do casal, mas puxou para si, deixando em vista o Padre, que parecia calmo demais diante da situação.

- O que está acontecendo aqui, Carter? - perguntou ao ver os dois homens parados, um perante o outro, se encarando abaixo da pouca luz do ambiente.
- Eu não gostaria de mostrar este meu lado, , mas você não me dá outra opção.
- Você é um deles, não é? - o Padre perguntou sombriamente, pálido com o que via na sua frente.
- Sim, assim como o senhor. Bruxos sobreviventes da Inquisição infiltrados na Igreja, de qual deles o senhor é descendente? 
- Isso não importa, não sou como outros, eu quero ajudar as pessoas e não destruir os que nos perseguiram.
- Belas palavras, eu também gostaria de ajudar as pessoas, mas não me importo em distruir aqueles que se colocam no meu caminho. 
- Você não vai fazer isso aqui neste templo.
- O senhor quer pagar para ver? Posso levar este templo abaixo em um estalar de dedos. Gostaria de ver? Pois bem, vou mostrar.

Carter deu meia volta e se colocou no meio de todos ali, se virando para e , assim como Damon bem atrás deles.

- Amor é uma magia muito antiga, muito além do que posso dominar, mas se eu morrer aqui, minha jornada termina hoje, enquanto a de vocês irá perpetuar. Eu os amaldiçoo hoje e sempre, nunca poderão ficar juntos, mesmo que o destino e todas as forças do universo tratem de os colocar frente a frente por todos as vidas que ainda virão. Não apenas vocês, mas todos presentes aqui e os que ainda virão. Sim, sim, outros virão, outros como vocês, parentes de sangue - ele olhou para Thomas e Diana. - e estes também serão amaldiçoados, pagando pelo pecado destes dois jovens bem ali - ele voltou a atenção novamente para e . - Talvez eu morra, talvez eu volte. Não importa, se você não for minha, , não será de mais ninguém.

Em um estalo de dedos, as chamas se acenderam em labaredas ardentes, primeiramente em um círculo ao redor de todos eles e depois por toda a igreja, os deixando encurralados.

- Te vejo no Inferno, Padre. Você não pode os salvar.
- Nem que seja minha última vida, eu os salvarei.
- Sério? Então sinto muito, mas estarei lá também, eu prometo. Até a próxima vida, até a eternidade.

E então, sem hesitar, o Conde de Yorkshire caminhou, de costas em direção ao fogo, com seu sorriso sombrio enquanto as chamas o abraçavam como um velho amigo, mas ele parecia muito feliz por estar sendo queimado por elas, para a incredulidade de todos ali, era como se ele não sentisse dor alguma até o momento em que caiu de joelhos, morto, tendo seus restos consumidos pela chama que ardia cada vez mais.

- Escutem bem, não temos tempo, venham todos aqui - o Padre os reuniu no centro, se abaixando para ter mais tempo antes que a fumaça os intoxicasse, mas Damon começou a tossir desesperadamente, sendo ajudado por a se abaixar. - Ninguém sairá vivo daqui esta noite.
- Mentiroso! - Diana bradou, pronta para se levantar, mas Thomas a segurou, puxando a esposa para baixo. - Tem que ter uma maneira!
- E tem, mas é arriscado - ele olhou para os recém-casados. - Não posso desfazer a maldição lançada pelo Conde, mas posso lhes dar uma chance de se defender. Vocês terão três chances, não sei quais serão seus nomes ou de onde virão, mas o destino fará com que vocês se encontrem novamente. Não sei o que os espera, mas lhes concedo a proteção necessária pelas próximas três vidas, o máximo que eu consigo avançar, para que essa maldição possa ser desfeita. 
- Mas e eles? - perguntou se referindo a Damon, Thomas e Diana. - Eles não podem sofrer por nós!
- Segurem as mãos uns dos outros. Rápido - ele tossiu enquanto juntava suas mãos com Damon e Diana. - O Conde disse que o amor é uma magia muito antiga, e ele tem razão, arrisco dizer que é quase inquebrável. É o amor que salvará vocês, todos vocês. Se caso falhem nas duas primeiras tentativas, terão de resolver na última vida, onde eu acredito que Carter Rodwell voltará, caso contrário será o fim e estarão condenados perpetuamente. Eu lhes protejo com todas as minhas forças, protejo os que ainda virão, esta maldição pode ser quebrada, mas depende apenas de vocês.

Em uma língua muito antiga e desconhecida, o Padre John começou a falar. Seus olhos grandes e verdes estavam arregalados como se algo prendesse sua atenção bem à sua frente. As chamas pareciam lutar entre si para ver qual os queimaria primeiro, mas algo as impediam de queimar. Enquanto todos tossiam e se curvavam cada vez mais na tentativa de se protegerem, ele continuava a falar sem parar, de uma forma muito acelerada, apertando as mãos de Diana e Damon e caiu inconsciente um minuto depois, devido à fumaça inalada.
- Damon!!! - fez menção de soltar a mão de , mas ela não deixou.
- Ele virá conosco, meu amor - ela tentou transparecer a convicção de sempre, mas as lágrimas escorrendo pelo seu rosto demonstravam que estava com medo. - A irmandade de vocês é muito além do que podemos imaginar.

, sem soltar a mão de Damon (provavelmente morto, ele não sabia), continuou concentrado, enquanto o fogo se aproximava. Ele ainda pôde ver Thomas e Diana caindo também, intoxicados pela fumaça e um nó se formou na garganta dele. E se desse errado? E se morressem todos ali? E se a maldição não fosse quebrada? E se ele estivesse condenado para sempre?

- Tem que acreditar, - o Padre disse por dentre as palavras desconhecidas, quase como se pudesse ler a mente do garoto.
- ... - fez menção de continuar, mas tossiu, quase sufocada. - Vamos... conseguir.

sentiu a mão de afrouxando até que ela cambaleou para o seu lado e caiu, inconsciente, batendo com a testa no chão bem na sua frente.

- ! - ele soltou a mão dela e a de Damon, tomando a amada nos braços. - Fica comigo, por favor, por favor...
- Ela ja está longe, , vá também, filho.
- Mas...
- Vá, .

As palavras soaram como uma ordem ao corpo de que sentiu a visão ficar turva ao mesmo tempo que uma moleza incomum tomou conta de si. Ele queria lutar contra o fogo, sair dali, mas não conseguia levantar do lugar.

- Apenas vá.

Antes que caísse de rosto no chão, ele já estava inconsciente. Nenhum deles sofreu ou sentiu dor, quando o fogo os consumiu, já estavam distantes espiritualmente dali. Padre John foi o único que sentiu o arder, mas ele sabia que era momentâneo, ele precisava continuar para que aqueles jovens encontrassem o caminho que devessem seguir e quebrar a maldição lançada pelo Conde.

E ele estaria lá, para além do tempo.


Fim.



Nota da autora: Olá!!! Como estão? Espero que tenham gostado, mesmo sendo apenas um resumo para que possamos entender o melhor o passado de Ad Perpetuam Memoriam. Eu sempre quis escrever uma fic baseada em They Don’t Know About Us e finalmente tive a oportunidade! Por mais que não seja uma fanfic com os meninos da 1D, a história original tem MUITO sobre eles, inclusive eles próprios, porém modificados ahahah
Aaaaanyway, fica aqui a minha contribuição para o especial e meus mais sinceros agradecimentos ao FFOBS por trazer esse especial lindo pra gente! Gratidão por poder fazer parte disso.





Outras Fanfics:
» Ad Perpetuam Memoriam
» Onde Nascem Os Grandes

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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