A História de Nós Dois

Última atualização: 01/02/2019

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Chapter Thirty Three

Por algum motivo, eu acordei assustada no meio da madrugada. O suor escorria pela minha nuca, ensopando o tecido fino de meu pijama.
Olhei o relógio; duas e quarenta da manhã. Meu coração ainda estava disparado dentro do peito e no momento, eu me encontrava inquieta demais para voltar a dormir. Com cuidado, deixei minha cama onde Sean continuava dormindo tranquilo. Vê-lo ali e me certificar de que eu não estava sonhando fez um rápido alívio percorrer por minha espinha.
Desde a noite de dois dias atrás eu venho tendo esses momentos de sobressaltos, especialmente durante a madrugada. Kyle disse que pode ser por conta do estresse que passei quando Sean sumiu, mas a verdade é que eu não tenho tanta certeza de que é somente isso.
Desde o ocorrido, não tem dado sinais de vida. Não que eu esteja me preocupando, mas é que... Ele não é assim. Não deveria ser...
Suspirei frustrada, caminhando até a cozinha em busca de um copo de água.
A quem eu queria enganar? Eu estava preocupada com ele. Parecia tolice demais tentar negar isso para mim mesma. Depois... Depois daquele momento em que nos abraçamos... Não sei, alguma coisa ficou clara. Tão clara que eu nem consigo identificar o que é.
Em um momento de lucidez, eu percebi que era hipocrisia demais querer jogar a culpa toda pra cima dele. Não posso me esquecer que boa parte da culpa era minha também.
De qualquer forma, reconhecer quem errou ou deixou de errar a essa altura não adianta em muita coisa.
Talvez eu tente falar com ele quando amanhecer.
É quase certo de que ele não vá me atender e nem vai me mandar uma mensagem no final do dia, dando alguma boa desculpa para não falar comigo, mas pelo menos eu terei tentado. E bom, acho que isso é um grande avanço depois de tudo.
Entornei dois copos cheios de água, sentindo-me um pouco mais calma do que minutos atrás, permanecendo em silêncio, apenas observando as estrelas cintilarem no céu.
Era uma bonita noite, aquela.
Voltei pro quarto e envolvi meu filho em meus braços, encontrando novamente, o sossego que me embalou num sono sem sonhos nem pesadelos.

××

Era difícil deixar Sean no colégio depois de tudo. Meu coração se apertava e eu quase tinha um colapso nervoso, mas então eu respirava fundo e repetia mentalmente que aquilo não ia acontecer mais. Tive uma conversa séria com a diretora da escolinha de Sean e ela me certificou que tomaria medidas necessárias para que aquele tipo de deslize não ocorresse mais comigo e eventualmente com nenhuma outra criança.
Meu filho não parecia assustado; na verdade, Sean andava muito cabisbaixo nos últimos dias. Eu acreditava que ele estava assim porque não tem falado com ninguém, mas ontem antes de dormir, ele me surpreendeu. Suas palavras sussurradas em tom de tristeza ainda estão frescas em minha memória: “Eu desapontei o papai e agora ele está triste comigo mamãe”. Sean tinha consciência de que tinha errado, mas em nenhum momento eu dissera nada a respeito.
Eu queria fazê-lo entender que não era preciso se sentir daquela forma, mas não adiantava. Sean era tão parecido com . Somente eles que podem se entender e tirar dos ombros um do outro aquele fardo de culpa.
Eu não aguentava mais ver meu filho daquela forma. Eu não aguentava mais dormir com a ideia de que também deveria estar se sentindo daquele jeito.
Deixei o ar escapar pelos lábios entreabertos, dando a partida no carro, preparando-me para voltar para casa.
O caminho rotineiro fora percorrido com pensamentos aleatórios, e pega pela distração – que eu esforçava para manter – não percebi a presença de duas pessoas em minha porta até o momento em que quase esbarrei nelas no último degrau de minha varanda. Era uma cena tão inesperada que eu não conseguia compreender o que estava acontecendo de fato. Aquilo era real?
- !
Leo me tomou em seus braços, apertando-me saudosamente. Inspirei seu perfume e lembranças me atingiram fazendo-me perder o ar. Fechei meus olhos e retribui o abraço apertado, concordando aos poucos que aquilo definitivamente não era uma ilusão. Leonard Vonn estava ali. Mas o que eu ainda não conseguia entender era onde se encaixava naquela historia.
Sim, exatamente. , a garota que costumava ter certa antipatia comigo nos meus primeiros meses em Londres.
Faziam o quê? Uns sete anos que eu não a via e não tinha nenhum tipo de notícia sobre ela?
Então, como era possível ela aparecer em minha casa magicamente, ao mesmo tempo em que Leo?
- ? – Perguntei, observando-a sorrir em resposta. – ??
- Meu Deus, é você mesma! – Ela disse animadamente, me abraçando tão forte quanto Leo. – Eu realmente não estou acreditando nisso!
- Eu acho que posso dizer o mesmo! – Olhei de minha antiga amiga para Leo, tentando encontrar a conexão entre os dois. – Como...?
- Ah, claro! remexeu em sua grande bolsa de couro, retirando o exemplar de uma revista do mês passado, abrindo exatamente onde uma foto minha e de Leo ocupava meia página. Não me lembrava daquele dia. – Eu sempre compro essas revistas, mania que eu... – estalou a língua, fazendo uma careta antes de continuar com um sorriso brincalhão – Isso não vem ao caso agora, como eu dizia, estava eu folheando essa revista quando me deparei com uma matéria sobre Leo. Comecei a ler, mas perdi o foco total quando vi a mulher que estava ao lado dele. Eu confesso que demorou uns dois dias para minha memória me ajudar a tirar a sensação de que eu conhecia esses traços. Foi quando eu lembrei da época da escola! E então eu liguei para Leo e perguntei quem era a moça com ele na foto. Quando ele me contou sobre você, eu não tive dúvidas!
Ouvi tudo atentamente, mas ainda não conseguia fazer a ligação. Vendo que eu ainda continuava sem entender muita coisa, Leo riu fraquinho, daquele jeito que eu costumava achar engraçado.
- é minha prima, .
- De consideração, mas é como se fosse de sangue! – Ela sorriu de forma infantil. Estava tão mudada! – A mãe de Leo é irmã do meu padrasto. Mundo pequeno, não?
- Ele diminui cada vez mais. – Sussurrei ainda estupefata com aquele acontecimento. – Céus, desculpem minha grosseira, vamos entrar!
Deixei que meus dois amigos passassem para dentro, agradecendo aos céus por minha casa estar em ordem. Enquanto eu fechava a porta e colocava minhas chaves sobre o móbile, observei admirar cada parte da sala e Leo estava um pouco mais próximo, sorrindo-me como se fosse a primeira vez que me visse.
- Sua casa é linda, ! – Ela sorriu, indo em direção aos porta-retratos na estante. – Meu Deus, que garoto lindo! É seu filho?!
- Sim, seu nome é Sean. – Fui até , apontando para uma foto mais recente nossa. – Ele está com cinco anos agora.
- Ele puxou a mãe! – Rolei os olhos, fazendo Leo rir. – Me desculpe, a gente não se vê há tanto tempo e eu puff, de repente apareço na sua porta e não paro mais de falar!
- Não, tudo bem, é só que eu ainda to associando tudo isso. Aliás, como você... – Gesticulei sem jeito para Leo, enquanto eu me sentava no sofá ao lado de , de frente para a poltrona onde ele estava sentado.
- Eu peguei seu endereço na recepção do hotel. – Ele admitiu com um sorriso que mesclava vergonha com diversão. – Bom, nossa despedida ficou meio vaga e eu queria te ver uma vez mais. Foi quando me ligou...
- A vida não é uma coisinha engraçadinha? – Ela sorriu animada.
não parecia mais a mesma garota fria de anos atrás. Física e psicologicamente. Seus olhos verdes brilhantes e sua pele clara continuavam a mesma, mas agora ela tinha curtos cabelos negros na altura dos ombros, e seu bom humor afastou de vez a imagem da garota seca que eu conheci. Parecia outra pessoa.
Acho que apenas eu que não mudei tanto.
- Mas então, me contem como estão as coisas! O que você tem feito?
Perguntei animada, enquanto me levantava para preparar um café. Era uma cena incomum. Eu nunca tinha recebido visitas. Quero dizer, Kyle é praticamente de casa. , e já estiveram aqui, mas não dá pra contar o aniversário de Sean como visita informal. Leo e estavam ali apenas por estarem, por quererem estar ali. Era bom, na verdade. Depois dos últimos acontecimentos, ter uma manhã agradável era um presente.
- Bom, eu tenho uma loja no centro de Londres. Sou designer de interiores, sabia? Aliás, você contratou alguém pra decorar sua casa? Se não, você tem talento pra coisa. Desisti de seguir moda, você lembra que eu dizia que queria fazer? Pois é, não deu certo. Morei um tempo em Paris, mas também não deu certo. – Ela dizia tudo num fôlego só e eu estava me divertindo com aquilo. Aquela nova era divertida. – Ah, sabe onde eu to morando? Perto da sua antiga casa, lembra dela? Sua mãe a vendeu depois que...
Ela recuou sua narrativa e remexeu-se inquieta no sofá, olhando de mim para Leo.
- Tudo bem, acho que já contei essa história para ele. – Sorri sem mostrar os dentes. Eu não estava incomodada por ela tocar naquele assunto; eu me sentia bem com Leo pra falar de qualquer coisa e talvez fosse isso que me incomodasse naquele momento. – Espero que a casa continue bonita.
- Ah, os novos donos não são muito zelosos não. Não cuidam do jardim. Você adorava essas coisas, né? Podia fazer um jardim aqui também. Ia ficar lindo! Ah, e eu me casei.
- Você se casou?
- É, mas também não deu certo.
Ela disse com simplicidade, com um dar de ombros que se parecia tanto com o que Sean dava quando seu castelo de cartas insistia em desmoronar.
- E agora?
- Bom, agora eu vivo sozinha e feliz.
- Mas e aquele cara lá, o Mark? – Leo entrou na conversa com um tom divertido que fez rolar os olhos. – Semana passada você disse que tinha encontrado o amor da sua vida.
- Não disse não! Só disse que ele era bonitinho.
E começou-se uma pequena discussão sobre quem estava com a razão. Leo demonstrou-se exatamente do jeito que eu o conhecera: amigo, fácil de lidar e com o mesmo sorriso lindo. Terminei de colocar as xícaras na bandeja e levei para sala, sendo auxiliada no meio do caminho por Leo. Ele me fitou por longos segundos enquanto eu o servia e, dessa vez não posso dizer que era impressão minha, eu sabia que ele queria me perguntar algo.
Eu só não sabia se poderia responder, dependendo do tipo de pergunta.
continuou com seu relato sobre seu casamento que não deu certo, e volta ou outra me fazia perguntas sobre Sean. Em nenhum momento ela me perguntou sobre , embora tivesse deixado claro que sabia que ele era o pai de Sean. Ela contou-me também que tinha vontade de ter filhos, mas que ainda não tinha achado alguém que fosse competentemente corajoso para isso.
Leonard contou sobre seu trabalho e sobre como Natalee sentia saudades de Sean.
- Você deveria conhecer minha casa nova. – disse, depositando cuidadosamente a xícara sobre a mesinha de centro. – Nesse final de semana vai ter uma festa, aniversário da vovó, por que não aparece com Sean? Natalee vai ficar feliz em rever o amiguinho, e eu vou ficar super contente em conhecê-lo.
- Não sei, ... Confraternização em família, muita gente que eu não conheço... Você sabe que eu não lido bem com essas coisas.
- Mas poxa, ia ser tão, tão bom se você fosse!
- Eu... Eu prometo que vou pensar, ok?
- Você não mudou nadinha! – Ela rolou os olhos, levantando-se num pulo. – Vive pensando demais... Onde é o banheiro?
- Segunda porta à esquerda. – Apontei pra ela o corredor, e enquanto observava minha amiga se afastar, senti os olhos de Leo sobre mim. – Eu não a reconheceria se a encontrasse na rua.
- mudou muito, especialmente depois do casamento. – Leo assentiu; a expressão sempre suave. – Gosto mais dela assim.
- Confesso que eu também.
Rimos no mesmo tom, evitando o olhar um do outro. Os segundos de silêncio não se prolongaram muito, e quando percebi, Leo estava sentado do meu lado, erguendo meu rosto gentilmente pelo queixo. Fitou-me daquela maneira que costumava me deixar sem graça, mas eu não consegui desviar meu olhar do seu.
- Está tudo bem com você? – Abri minha boca para responder, mas fui interrompida. – Não precisa esconder nada de mim, certo?
Conforme um suspiro fraco escapava de meus lábios, repuxei um sorriso singelo, concordando com ele e comigo mesma.
Como era possível?
Como era possível que alguém que eu conhecia há tão pouco tempo pudesse me deixar tão à vontade para tocar em assuntos delicados que eu não teria coragem o suficiente para falar tão abertamente com outra pessoa?
Talvez se devesse ao fato de que ele falava com segurança, transmitindo aquela sensação de confiança, que era reforçado pelo seu olhar seguro e gentil.
Só pode ser isso. Esse era o dom de Leo.
Contei resumidamente os acontecimentos, omitindo a parte que se referia à .
Depois de contar o que aconteceu com Sean, Leo insistiu que eu fosse para a festa na casa de , para poder vê-lo.
Até tentei convencê-lo a ficar para o almoço, mas ele permaneceu irredutível.
Novamente, disse que iria pensar na proposta.
Quando Leo abriu a boca para dizer algo, retornou à sala, fazendo-o recuar e exibir um sorriso enviesado.
Confesso que me nunca me senti tão aliviada como agora.
- Seu jardim é incrível! – Ela exclamou, fazendo com que Leo e eu ríssemos, deixando-a sem entender nada. – O que foi? tem o dom de cuidar do mato!
Ficamos mais alguns minutos conversando, e pouco tempo depois Leo disse que precisava ir embora.
- Eu realmente adorei a visita de vocês. – Disse, enquanto levava-os até a porta. – Inesperado, mas realmente muito gratificante.
- Você deveria recompensar, sabia? Deve ir a minha festa!
- Não era da sua avó? – Brinquei, provocando risos pela parte de Leo e uma expressão debochada em . – Tudo bem, tudo bem. Acho que... Posso lidar com isso.
- Sério? – Ela me encarou desconfiada, frisando as sobrancelhas. – Assim, fácil?
- Era pra ser mais difícil? Oh, tudo bem. Então acho que não vou mais.
- Continua dramática!
me abraçou pelos ombros, despedindo-se animadamente, seguindo pro carro depois de lançar um olhar significativo para Leo. Claro que ela não era muito sutil e ficou muito óbvio que ela sabia de alguma coisa. Leo rolou os olhos, sorrindo sem jeito para mim quando ela nos deixou a sós, murmurando algo como o casal lindo que nós formávamos.
- Ela não sabe a hora de ficar quieta.
- Essa é a nova que eu conheço. – Sorri, dessa vez diretamente para ele.
Normalmente, Leo me deixa fora de órbita quando está prestes a dizer ou fazer algo, mas eu queria ouvir o que ele tinha a dizer. Eu realmente queria.
- Eu espero que você vá a nossa casa nesse final de semana. – Ele começou, usando o tom suave que fazia meu coração bater na mesma sintonia. – Eu... Bem, eu quero conversar com você, com calma. Desde Nova York...
- Eu sei. – Assenti, pousando cuidadosamente meus dedos sobre os seus. – Eu só te peço, na verdade, te suplico, não se machuque por minha causa. Eu não sou uma pessoa fácil de entender. Você sabe... Eu não posso te prometer nada.
- Não quero promessas, . – As batidas de meu coração falharam quando ele se aproximou mais, encarando-me fixamente. – Talvez eu só precise de uma chance.
Fechei meus olhos brevemente, procurando manter o controle sobre meus atos. Eu não queria agir por impulso e estragar tudo.
- A gente se vê no final de semana, então? – Tentei sorrir confiante, estendendo minha mão para ele.
- A gente se vê no final de semana. – Ele a apertou, sorrindo torto. – Se cuide.
Com carinho, Leo depositou um beijo no topo de minha cabeça, afagando demoradamente a linha de meu maxilar. E depois se foi, deixando-me ali, pensando no final de semana que logo estaria à minha frente.
Estranhamente, uma felicidade vibrou pelos meus ossos, moldando um pequeno sorriso em meus lábios.





Chapter Thirty Four

“Casa da , domingo às 15h”.
O post-it amarelo estava colado no monitor em minha mesa e a cada manhã ele parecia ainda mais chamativo. Três dias se passaram desde que e Leo estiveram em casa e fazia três dias que eu ficava olhando aquele pedaço de papel, como se ele fosse se desmaterializar e tirar de cima de mim aquela sensação inquietante.
Eu certamente poderia dizer – como em outras situações semelhantes – que eu estava indecisa, mas na verdade eu não estava. Eu queria ir, queria estar lá.
Mas então por que parecia tão difícil aceitar isso?
Eu não estava com medo de Leo, não é mesmo? Não pode ser isso. É claro que não.
Eu estava com medo de machucá-lo.
“Talvez eu só precise de uma chance”. Chance. Ele quer uma chance. Eu não preciso ir muito além dessas palavras pra entender o que ele quis dizer. Ninguém precisa.
Mas o problema é que ele sabe. Sabe como sou complicada, conhece meus piores defeitos, ele sabe de tudo.
Por que alguém iria querer uma chance comigo, ainda assim?
Eu não sei e não tenho a menor ideia. Talvez eu tenha que perguntar.
- Pensando em algo? – A voz serena de Kyle preencheu meus pensamentos, assustando-me e fazendo-me rir fraquinho. – Ou melhor, em alguém?
- Pensando em tudo na verdade.
Voltei minha atenção pro papel de parede do meu computador, admirando o sorriso de meu filho. Deixei um suspiro escapar de meus lábios, porque aquele sorriso consequentemente era de . A cópia autentica que despertava os mesmos tipos de sensações dentro de mim.
- Você vai, não é?
Kyle apontou pro lembrete, apoiando sua mão sobre a minha.
Eu tinha contado pro Kyle sobre a visita deles e, por mais que eu não tenha conseguido explicar o que aquele evento mudou em mim, Kyle entendeu. Bom, era de se esperar que meu melhor amigo me entendesse mais do que a mim mesma, não é?
Acho que eu nunca agradeci por ele ser assim. Por estar comigo acima de todos meus defeitos, acima de todos meus erros.
Kyle era meu anjo, definitivamente.
Esbocei um sorriso sincero pro meu amigo, meneando vagamente minha cabeça.
- Se eu fosse você, eu iria. Só ouço coisas boas desse rapaz... Não tem porque não dar a chance que ele quer, não é?
- Ky...
- Vai por mim, isso vai ser ótimo. E se não der certo, o que pode acontecer demais? Não acho que ele vai se zangar, o Leonard. Vocês só precisam ir com calma... Deixar algumas coisas claras e depois a vida faz o trabalho dela.
- Sabia que eu odeio a magnífica maneira que você faz tudo parecer simples?
- Não é simples, de fato. Mas a gente tem a opção de não complicar ainda mais. – Ele beijou meus cabelos, afagando meus ombros. – Descomplica. Só pra variar um pouco.
Ele tinha razão.
De alguma maneira absurdamente surreal, Kyle estava certo. Eu vinha há tanto tempo me mantendo escondida de tudo. De , de mim, do passado.
Eu estava cansada da mesmice daquilo tudo.
Sendo tomada repentinamente por uma onda de certeza irrevogável, disquei os números de Leo, confirmando o encontro daquele final de semana.
Um sorriso de satisfação pessoal iluminou meu semblante.
Pela primeira vez, eu senti que estava tomando a decisão certa, por vontade própria. E eu não estava com medo. Não mais.
Acho que era um sinal de que as coisas poderiam se ajeitar antes do que eu imaginava.

××

Cabelos escovados, roupas coloridas e um pequeno sorriso nos lábios.
Há quanto tempo eu não me via daquela forma no reflexo do espelho?
Geralmente meus cabelos sempre estão presos em coques ou então estão soltos, sem cuidados excessivos. Mas, especialmente nesse dia, eu resolvi prendê-los de forma delicada, deixando-os cascatear pelos ombros. No rosto, pouca maquiagem, mas de certa forma o melhor acessório era o sorriso que insistia em ficar em meus lábios. Não era um sorriso totalmente escancarado, mas ainda assim era um sorriso verdadeiro.
Eu me sentia leve naquela manhã de domingo.
Diferente dos meus habituais jeans + camisetas básica, o tecido suave do vestido florido combinava com meu humor.
Parecia tolice, mas eu me sentia até um pouco juvenil.
- Você tá linda mamãe! – Sean surgiu no quarto, abraçando-me pelas pernas. – E muito cheirosa!
- E você também está um gatão! Tudo isso é pra ver a Natalee?
- Ah mamãe, para com isso! – Ele rolou os olhos, colocando as mãos nas cinturas. – Você me deixa com vergonha!
Ri divertida, abraçando-o e mantendo-o em meu colo, enquanto beijava repetidas vezes suas bochechas rosadas.
- Vamos agora?
- É, acho que já podemos ir.
- Eu posso sentar no banco da frente?
- E desde quando você gosta de andar no banco da frente?
- É porque eu já sou um homem, mamãe.
Rolei meus olhos, apanhando minha bolsa e trancando a porta de nossa casa, ainda rindo das coisas que Sean dizia.
- Um outro dia, tudo bem, campeão?
- A mamãe falou que nem o papai agora. – Sean sorriu, afagando minhas bochechas quando paralisei por alguns segundos diante de seu corpo, me atrapalhando depois com o cinto de segurança de sua cadeirinha. – Eu acho legal quando o papai me chama de campeão.
- Tudo bem, então eu vou te chamar de meu docinho, pode ser? Vai achar legal também, não vai?
- Ah, mamãe, você não vai me chamar de docinho na frente da Natalee, né?
Impossível não se divertir com a cara de desespero de Sean; eu apenas neguei com a cabeça, terminando de ajeitá-lo em seu banco e dando a volta no carro para assumir a direção. Teríamos uma viagem um pouco longa e Sean veio preparado para isso: assim que o carro entrou em movimento, ele retirou com certa dificuldade o CD que havia lhe dado de presente há um tempo atrás do bolso de sua jaqueta.
- Toca a música do papai?
Ele me estendeu o CD com um sorriso enorme, e seus lindos olhos brilharam.
Concordei com um sorriso singelo, admitindo para mim mesma que eu também queria aquilo. Queria sentir nos acordes daquele primeiro CD a lembrança vívida dos meus primeiros anos em Londres.
Ninguém mais poderia sentir o que eu sentia quando ouvia aquelas canções.
Apenas o fato de saber que de alguma maneira, ali naquelas musicas, ainda existia a pureza de nossa amizade, fazia quase tudo valer a pena.
Eu quero meus meninos de volta. Quero minha vida de antes de volta.
- Coloca o carro pra correr, mamãe!
Ri lançando a cabeça para trás, afivelando meu cinto e girando a chave na ignição.
E entre do do do do do doo’s e na na na na na na’s, seguimos nossa viagem para o lugar onde passado e presente se mesclavam.

×

A viagem toda levou quase duas horas, mas Sean permanecia incansável. Assim que estacionei no meio fio em frente à casa de , meu filho teria saltado pela janela se eu me demorasse um minuto a mais.
Tentei acalmar seus ânimos enquanto discava os números de .
- Hei, !
- Hei! Hm, eu acho que cheguei. – Disse, segurando Sean pela mão enquanto ele descia do carro. – Número 385, certo?
- Certíssimo, já vi vocês, estou descendo!
acenou energeticamente da janela do segundo andar da casa de tons claros de azul, e eu retribui um pouco sem jeito. Havia pessoas no quintal e algumas crianças correndo pela calçada. Não demorou para que Sean reconhecesse uma em especial, e antes que eu pudesse contê-lo, ele correu atrás de Natalee, me deixando completamente sozinha, sem saber exatamente pra onde seguir.
Resolvi esperar aparecer, sorrindo sem mostrar os dentes para as pessoas que me cumprimentavam cordialmente.
Um minuto e meio depois, minha amiga surgiu, trazendo em uma das mãos bexigas flutuantes. Alegremente, me entregou uma, abraçando-me fortemente depois.
- Que bom que você veio!
- Você encheu bexigas pro aniversário da sua avó? – Eu franzi as sobrancelhas, rindo divertida. – Contratou palhaços também?
- Vovó esta completando 85 anos, mas tem espírito de criança ainda. E falando em crianças, onde está Sean? Não tem graça só você aqui.
- Adivinha? Está correndo com Natalee pelo jardim. – Rolei os olhos, sendo abraçada novamente por . – Assim que eu conseguir localizá-lo, vou apresentá-los formalmente.
- Bom, enquanto não o encontramos, vem comigo! Quero te apresentar pra minha família!
Sem me dar oportunidade de protesto, ela me arrastou casa adentro, me apresentando pra todos que passavam por nós.
Não preciso nem dizer o quanto aquilo me deixou constrangida, não é mesmo? Mas, de uma forma bem maluca, eu estava me divertindo. Todos os parentes de eram extrovertidos, conversavam comigo como se me conhecessem há anos.
- Vovó, essa é , minha amiga da época da escola!
acariciou os cabelos brancos de sua avó, e eu imediatamente estendi minhas mãos na direção das suas, sentindo o toque morno de sua pele macia. Lembrava-me distintamente minha avó paterna e algumas coisas de minha infância já quase esquecidas.
O cheiro de bolo de laranja que ela fazia e as historias que me contavam. Tenho certeza de que a avó de era exatamente assim: a avó que todos gostariam de ter.
- É um prazer conhecê-la! Meus parabéns pelo seu aniversário!
- Seus olhos me lembram... – A senhora me sorriu afável, apalpando fracamente minhas bochechas. – Chocolate quente.
- Eu disse que a vovó tem espírito de criança. cochichou comigo, rolando os olhos ao continuar o percurso pela casa, mostrando-me tudo. – Ah, olha só quem encontramos!
Leonard sorriu ao nos ver, e depois de assentir para o casal com quem conversava, ele veio em nossa direção, empurrando para mim o seu perfume agradável.
- Então, acho que a não me deixou brechas para mostrar o restante da casa, huh?
- Na verdade, eu ainda não a apresentei pro seus pais. – Ela sorriu marota, causando um leve rubor em minha face. – Quero dizer, eu estava procurando por eles. Você os viu?
- Acho que eu sei onde eles possam estar. – Leo sorriu gentil para mim, estendendo um braço para que eu pudesse acompanhá-lo. – Fez uma boa viagem até aqui?
- Fiz, fiz sim. Foi bem... Tranquilo. A casa da sua família... É linda.
- É, tem bom gosto. Quase sempre faz escolhas erradas, mas de vez em quando acerta. – Rimos juntos. – Vem, quero te apresentar aos meus pais.
Por um momento eu hesitei. Claro que aquilo era coisa de minha cabeça, não tinha nenhuma intenção naquelas palavras. Não tinha. Quero dizer, me apresentou para a família inteira, era normal que ele também me apresentasse para seus familiares, não é?
Então por que parecia existir um significado a mais para ele ao dizer aquelas palavras?
Esbocei um sorriso enviesado, caminhando ao seu lado até o casal de meia idade que conversavam em tom baixo, quase como se sussurrassem. Pareciam jovens trocando segredos e por algum motivo inexplicável aquela cena despertou em mim lembranças agradáveis de meu passado. E isso era raro.
Ao ver que nos aproximávamos, os dois pararam de conversar e esboçaram largos sorrisos para nós.
- Mãe, pai. Quero apresentá-los à . , esses são meus pais, Louise e Rudolph.
- É um prazer conhecê-los. – Cumprimentei-os com gentis apertos de mão, tentando ao máximo não desmontar meu sorriso tranquilo.
- É uma jovem muito bonita. – Louise sorriu de mim para Leo, e pela primeira vez, vi Leonard corar na minha frente. – Muito bonita.
- Imagina, a senhora está sendo gentil.
- Ora, por favor, não me faça me sentir mais velha do que já sou querida. – Sua voz era doce e calma e ela me parecia uma pessoa difícil de não gostar. – Pode me chamar de Lou. Assim, como se já fossemos amigas.
- Tudo bem, Lou. Pode me chamar de então. Como se fôssemos grandes amigas.
Depois de trocarmos mais algumas palavras, Leonard precisou me arrastar para outro lugar, antes que – segundo ele próprio – seus pais o matassem de constrangimento com tantas perguntas sem sentido.
- Seus pais são umas figuras. – Eu disse encantada. Havíamos dado a volta pelo quintal e agora estávamos sentados no gazebo perto das grandes árvores de cerejeira. – Gostei deles.
- Sério? Pensei que fosse chamá-los de loucos depois de tantas perguntas do tipo: vocês vão se casar quando? Ou quando pretendem me dar netos?
- Bem, parece que sua mãe quer se livrar logo de você.
- É, eu suspeito da mesma coisa. Acho que ela não quer mais cozinhar para mim.
- Não acho que estaria melhor comigo. – Ri divertida, meneando minha cabeça para os lados de forma exagerada. – Eu só sei fazer panquecas.
- Eu gosto de panquecas.
Quando o clima de brincadeira se tornou algo mais intenso? Os olhos de Leo analisavam cada pedaço dos meus olhos, de meus lábios. Com carinho e cuidado, ele levou seus dedos até a linha de meu maxilar, acariciando a base de meu pescoço e minha nuca. Sem que eu pudesse controlar, meus olhos se fecharam e um pequeno suspiro escapou de meus lábios.
- Eu gosto de você. – Ele sussurrou com sua boca próxima a minha, de forma que era possível sentir seu gosto na ponta de minha língua.
- Eu posso não ser uma boa escolha. – Sussurrei de volta, sentindo meus lábios roçarem nos dele enquanto falava. – Não sei se posso corresponder ao que você sente da maneira que você deseja.
- Eu quero tentar...
- Não quero machucar você.
- Não precisamos apressar as coisas. – Ele encostou sua testa na minha, segurando-me docemente pela nuca. – Ninguém vai se machucar.
- Eu não posso garantir isso.
- Shiii... – Ele se afastou o mínimo apenas para me encarar fixamente. Não sei o que ele encontrou em meus olhos, porque nem eu mesma conseguia entender o que estava se passando ali, mas, por algum motivo, ele sorriu. E aquele sorriso foi o bastante para que ele se aproximasse novamente, dessa vez colando seus lábios nos meus sem receio, depois de pronunciar as seguintes palavras: – Você pensa demais.





Chapter Thirty Five

“Eu vou estar sempre do seu lado. Eu nunca vou te deixar, nunca”.

Abri meus olhos naquele momento, recuperando o fôlego enquanto meu coração começava a bater fora do ritmo. Suor se acumulava em minha testa e por mais que uma brisa gelada entrasse pela janela, aquilo não estava me ajudando no momento.
O dono da voz que me despertara ainda ecoava em minha cabeça, repetindo as palavras que eu ouvira tantos anos atrás e que eu praticamente havia esquecido.
Ignorando o corpo que estava adormecido ao meu lado na cama, coloquei meus pés no chão, sentindo o toque frio do piso me devolver um pouco da lucidez. Afastei os cabelos que grudavam em meu rosto, prendendo-os num coque frouxo e seguindo para a cozinha. Só me dei conta de que havia lágrimas em meus olhos quando acabei tropeçando no pé da poltrona, caindo no tapete felpudo da sala de estar com um baque surdo.
Sem uma explicação coerente, comecei a chorar ali mesmo.
Eu estava cansada. Cansada de fingir que nada mudara dentro de mim. Eu estava cansada de mim mesma.
E aquilo vinha se estendendo há tanto tempo, que eu nem me lembrava quando foi a última vez que me sentira diferente. Eu sabia que faltava muito pouco para que tudo desmoronasse de uma única vez.

~*

- ?
Abri meus olhos lentamente, reconhecendo aos poucos os móveis ao meu redor. Uma claridade tênue entrava pela cortina e clareava o ambiente, realçando também os traços masculinos que me olhavam com preocupação.
- Leo? – Inspirei uma grande quantidade de ar, percebendo que eu acabara dormindo no sofá. Observei-o sorrir minimamente, depositando um beijo suave em minha testa.
- Você está bem? – Ele perguntou, sentando-se perto de minha barriga, afastando os cabelos de meu rosto. Instantaneamente eu fechei meus olhos com seu toque gentil. – Parece que teve uma noite meio agitada.
- Pesadelos.
- Vou preparar nosso café. Vai se sentir melhor quando provar meus waffles. – Ele riu e ouvir sua risada deveria me fazer sentir melhor, mas aquilo não aconteceu. Leo estava sendo tão carinhoso comigo e com Sean, mas eu não estava sendo tão boa quanto devia com ele. Porque eu o estava enganando. Eu não conseguia parar de pensar em . – Hei, Sean!
Deixei meus devaneios quando ouvi a voz alegre de meu filho saudar Leo e logo em seguida senti seu corpo, que já não era tão pequeno quanto antes, cair sobre o meu.
- Bom dia, meu amor. – Eu sussurrei, beijando demoradamente seus cabelos, enquanto meu filho enrolava a ponta dos meus entre seus dedos. – O que faz acordado tão cedo?
- Tava com fominha. – Ele riu, saltando de meu colo e correndo para a cozinha, começando a conversar com Leo como um adulto.
Sorri sem mostrar os dentes, suspirando fraquinho. Levantei-me do sofá, sentindo o aroma da massa adocicada predominar no ambiente, dando-me a leve sensação de aconchego. Juntei-me a eles, recebendo um beijo singelo em minhas bochechas dos dois rapazes que agora faziam uma calda de caramelo.
- Mamãe, a gente vai ao aniversario da namorada do tio hoje? – Sean perguntou enquanto colocávamos as coisas para o café na mesa. Troquei um olhar breve com Leo. – O tio ligou ontem e disse que era pra gente ir.
- Ele ligou? – Olhei novamente para Leo, dessa vez sem entender.
- Você estava dormindo, não quis te acordar. – Leo se justificou. – E eu não queria atender o telefone, então...
Suspirei e me sentei ao lado de Leo, passando uma mão pelo rosto de meu filho, enchendo seu copo com leite em seguida.
- Eu não sei, meu amor...
- Ah, mamãe! Mamãezinha! Eu to com saudade do tio ! – Sean fez bico, rindo quando eu rolei meus olhos, servindo Leo com suco. – E do tio , e do tio , e do papai...
Congelei meus movimentos, sentindo novamente aquela onda de vazio me preencher. Por onde andava ?
Fazia algum tempo que eu estava tentando fazer contato com ele, mas ele nunca retornava minhas ligações. Para aguçar minha preocupação, o advogado de me ligara ontem pela manha, avisando que o processo judicial estava temporariamente suspenso. Em partes aquilo me deixara aliviada, mas em outras, me deixou inquieta.
Nem o próprio advogado conseguiu me explicar o que havia acontecido e muito menos soube me explicar onde estava. A única coisa que eu consegui descobrir era que ele não estava em Londres.
Eu pensei por algum segundo, olhando indecisa de Leo para Sean, anuindo.
- Olha, se você achar que não vai se sentir bem, eu não vou. – Leo sorriu sem mostrar os dentes, segurando em minha mão por cima da mesa. – Não precisa ir só por minha causa.
- Você quer que vá? – Ele questionou, e por dentro eu me senti dividida. Eu queria que ele fosse para me dar o tipo de segurança que eu já não sentia mais entre e , mas também não queria ficar usando-o ainda mais. – Porque se você quiser que eu vá, eu irei sem questionar.
- Claro que você tem que ir também, tio Leo. – Sean interveio antes que eu pudesse dar uma resposta definitiva. – Você tem que conhecer todos! Não é, mamãe?
Ponderei se uma resposta positiva faria algum mal. Até onde sei, nenhum deles sabia sobre meu relacionamento com Leo. Pelo menos, não oficialmente. Perguntei-me também se aquilo iria prejudicar a minha já abalada amizade com e . Desde nosso último encontro casual na casa de Margareth, não nos falamos mais e não sei se eles estão preparados para me ver chegando acompanhada com outro homem que não seja o amigo deles, pai do meu filho.
Havia ainda tantos outros porquês dentro da minha cabeça, mas por fim acabei suspirando, concordando com Sean.

-x-

- Hei, que bom que você pode vir! – Eu abracei pelos ombros, vendo Sean imitar meu gesto timidamente. Leo terminava de fechar a porta do carro e dirigia-se até nós três.
- Não perco uma festa por nada. – Ela riu, apontando para a casa de atrás de nós.
- Vamos logo! – Sean segurou em minha mão e na mão de Leo, arrastando-nos pelo gramado.
Rimos juntos da afobação de Sean, seguindo-o. Deixei um suspiro escapar imperceptivelmente, perguntando-me naquele momento se fora uma boa ideia. Por um lado, eu estava grata que a festa seria na casa de . E também estava grata que não recusou o convite para nos acompanhar. Covardia, eu sei. Eu ainda tinha fraquezas que não conseguira me livrar.
- De quem é a festa mesmo? – sussurrou para mim um pouco antes da porta ser aberta por , que sorriu abertamente e me abraçou fortemente. Mesmo estando nos braços dele, conseguiu ouvir soltar um “Ah!” de surpresa. Eu havia me esquecido de perguntar se por acaso ela era fã de algum integrante do McFly.
- Você veio! – agora nos balançava para os lados, parando somente quando eu disse que estava sentindo tonturas. – Hei... – Ele sorriu torto para , que piscava lentamente para nós. Depois sorriu para Leo e soltou-me do abraço para poder abraçar Sean.
- , esses são e Leo. – Eu apontei para cada um respectivamente, coçando sem jeito a minha sobrancelha. ajeitou Sean em seu colo, estendendo uma mão primeiramente para minha amiga e depois para Leo. Não percebi nenhum tipo de antipatia por nenhuma parte. – é minha amiga da época do colégio.
- Oh, puxa. – Ele balbuciou, assentindo. – Isso é muito legal, ! – Ele sorriu sincero para mim, colocando Sean no chão e permitindo que ele corresse casa adentro. Virou-se para todos nós, pedindo que entrássemos também.
Do lado de dentro, musica animada ecoava das caixas de som e pessoas – que eu não fazia ideia de quem eram – conversavam animadas com seus copos de bebidas em mão. Parecia até uma festa do colegial, com a diferença de que não éramos mais tão jovens e exatamente por isso não havia pegação por todo canto e garrafas quebradas no meio da sala. Deixei um risinho escapar pelo nariz, seguindo de mãos dadas com Leo. de repente pareceu muito quieta.
- Você tá bem? – Perguntei, puxando-a para mais perto de mim. – Por que esta muda?
- Você não me disse que a festa era de alguém famoso. – Ela respondeu de uma forma engraçada, e eu não consegui reprimir uma risada nasalada. – Não ri, é sério!
- Ai, meu Deus! – Eu lhe dei um tapa leve no ombro, arregalando minimamente meus olhos. – Você gosta dele!
- Quê?
- Você esta tendo um ataquezinho de fã! – Eu ri divertida e Leo me acompanhou. Estávamos parados próximos a sala de jantar e havia sumido juntamente com Sean. – Confessa!
- Eu não sou... – deixou a frase morrer quando ele reapareceu, equilibrando três garrafas de cerveja em mãos, entregando uma para mim e para os meus acompanhantes.
- Casada? – brincou, batendo sua própria garrafa na de . – Porque se você for, vou ter que me atirar de alguma ponte.
- Hei, campeão, devagar ai. – Eu o empurrei pelo ombro, meu sorriso morrendo quase que instantaneamente quando percebi que havia acabado de chegar. Um tremor percorreu meu corpo e instintivamente eu soltei a mão de Leo.
Engoli em seco, esperando que aparecesse a qualquer momento também. Mas ele não apareceu e tudo o que eu vi foi apenas se aproximando, cumprimentando todos com um aceno breve de sua cabeça e instantes depois ele sumiu por entre os convidados.
As coisas entre a gente permaneciam iguais e aquilo era um saco.
Sorri sem mostrar os dentes para o chão, dando um longe gole na minha garrafa em seguida. Ao longe, avistei a silhueta de de mãos dadas com a namorada que eu ainda não tinha conhecido. Fiquei indecisa se deveria me aproximar ou não e, por via das dúvidas, preferi continuar ali.
- Erm, posso pegar a emprestada de vocês por alguns minutinhos? – sorriu para e Leo, e eu senti meu coração acelerar. – Sintam-se em casa!
Lancei um olhar de desculpas na direção de Leo, sorrindo sem mostrar os dentes para minha amiga, que ainda parecia fora de orbita. me guiou por entre as pessoas, cumprimentando algumas e me apresentando para outras quando elas nos paravam no meio do percurso. Quando por fim alcançamos a parte de trás de sua casa, lancei um breve olhar para o deck da piscina e as luzes que iluminavam o local lhe davam um aspecto de calmaria que de certa forma foi o que me ajudou a tranquilizar as batidas do meu coração.
continuou me guiando até o banco de madeira, fazendo-me sentar ao seu lado. Deu um longo gole na sua bebida e eu fiz o mesmo, prevendo que aquela não seria uma conversa fácil.
- E então? – Eu questionei em um suspiro, fitando o céu acima de nós.
- Como você tem passado os seus dias? – Ele esticou os braços sobre o encosto do banco e eu fitei seus olhos claros por alguns segundos, dando mais um gole na cerveja, encostando-me no banco e apoiando minha cabeça em seu braço.
- Tenho passado. – Dei de ombros, ouvindo a risada fraca dele soar pelo ambiente. – E você, ? O que tem feito?
- Escrevendo músicas, gravando músicas... Essas coisas. – Ele riu, fazendo uma careta. Eu acompanhei sua risada, grata por ele estar me tratando sem indiferença alguma. – Mas não tem sido fácil me concentrar nesses últimos tempos. – Fitei-o, arqueando minimamente minhas sobrancelhas. Ele encarava as estrelas que cintilavam no céu. – Está tudo tão mudado, . Nós te encontramos, mas você continua distante. O que aconteceu com aquela garotinha irritante que eu conheci?
Eu busquei palavras que pudessem reconfortá-lo, mas eu queria que fossem sinceras. Então eu descobri que não tinha resposta para aquela pergunta.
- Eu também tenho procurado por ela, . – Suspirei, olhando para o céu também. – Se você a encontrar, pode dizer que ela precisa voltar?
- Eu vou trazê-la de volta, nem que seja na base da pancada. – Ele disse sério, mas acabei rindo fracamente. era engraçado até quando queria falar sério. – Nós sentimos sua falta, . Falta de quem você é de verdade. De quem a gente era juntos. Eu, você, , e . – Por mais que suas palavras estivessem carregadas de significados, ele não parecia zangado. Um nó se formou em minha garganta enquanto eu ouvia o desabafo sincero dele. – mal toca no assunto quando falamos de você. está cedendo aos poucos e o ... Primeiro foi aquela história de brigar pela guarda de Sean, mas agora ele mal atende nossas ligações. A última vez que eu falei com ele foi quando o levei ao aeroporto. – De repente as ligações ignoradas fizeram sentido. – Por que está tudo tão revirado?
- Não é muito difícil perceber que a culpa é minha, não é? – Fechei meus olhos, lutando contra as lágrimas. – Eu nunca quis fazer as coisas que fiz com vocês. Mas agora eu estou tão perdida que eu não sei mais o que eu tenho que fazer, o que eu tenho que dizer. Sei que perdi a confiança de todos vocês e isso não está sendo fácil lidar com isso. - Por longos minutos, tudo o que eu consegui fazer foi consentir que as lágrimas caíssem livres pelo meu rosto, aliviando a pressão dentro de meu coração.
- Eu só quero que você saiba que nada vai mudar o meu carinho por você. – Depois de deixar que eu derramasse todas as lágrimas que eram necessárias, enxugou o rastro que marcaram minhas bochechas, beijando delicadamente o dorso de minhas mãos, que ele segurava gentilmente entre as suas. – Eu também quero que você saiba que não precisa me esconder nada. Se precisar conversar, se quiser chorar... Eu nunca negaria meu ombro para você. Não precisa voar para Nova York da próxima vez, certo?
Ri pelo nariz, concordando enquanto era abraçada mais uma vez.
- Eu vou me esforçar ao máximo para ser merecedora da confiança de vocês novamente. – Eu disse sincera, sentindo meu coração bater mais apressado. Uma onda revigorante de otimismo me tomou naquele momento. – Eu quero que as coisas se acertem entre a gente. De verdade.
Ouvimos um pigarrear baixo soar atrás de nós e quando nos viramos, encontramos e parados lado a lado, um pequeno sorriso moldando os lábios dos dois. Pisquei atônita, fazendo com que risse divertido, lançando a cabeça tranquilamente para trás. Depois, ele se moveu em nossa direção, sendo acompanhado por . Passei o dorso de minhas mãos pelo meu rosto, vendo se agachar na minha frente e se sentar ao meu lado.
- Hei, pequena... – disse e antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, eu lacei meus braços em torno do seu pescoço, voltando a chorar em meio a risos. – Devagar, ... Não tô conseguindo respirar!
- Por favor, por favor... – Eu pedi, me afastando apenas para poder olhar em seus olhos. – Me desculpe, por tudo!
- Tá tudo bem, pequena. – afagou o topo de minha cabeça, me abraçando de lado pelo ombro enquanto concordava rindo, ainda ajoelhado na minha frente. – Nós até que tentamos, mas não conseguimos não gostar de você. - Ele brincou, e eu quis rolar os olhos, mas acabei rindo feito uma tola.
- Espero que esse seja um novo começo. - disse, olhando para mim e eu pude ver em seus olhos a expectativa brilhando. Apertei sua mão entre as minhas, assentindo com um enorme sorriso nos lábios.
- E pra esse recomeço ser perfeito, eu preciso da ajuda de vocês em mais uma coisa.
Sem dizer nada, os três rapazes diante de mim exibiram sorrisos de compreensão enquanto eu dizia tudo o que o meu coração – que nunca esteve tão certo de algo como estava naquele momento – pedia.

-x-

Havia chegado o momento que menos me agradava naquele fim de noite.
Depois da conversa entre , , e eu, algumas coisas ficaram mais claras e apesar de estar satisfeita com o rumo que minha vida estava tomando, era preciso tomar uma atitude que me deixava desconfortável.
Depois da festa, se prontificou a levar até sua casa e eu já podia prever no que aquilo ia dar. Um futuro que muito me agrada, aliás. até tentou me convencer de que eu poderia ficar na casa dele como nos velhos tempos, mas eu precisava ter uma conversa inadiável com Leo.
E era para isso que eu estava me preparando a noite inteira.
Coloquei Sean adormecido em sua cama, enquanto Leo me esperava na sala. Provavelmente ele sabia que alguma coisa aconteceria naquela noite e eu não posso negar que isso fez meu coração bater pesado dentro de peito. De repente, parecia que havia uma rocha pulsando no lugar dele.
Eu nunca soube lidar com finais, independente de quais sejam eles.
Tomei fôlego antes de fechar a porta do quarto e caminhar na direção do belo homem de olhos claros que estava sentado na beira do sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos cruzadas diante do tronco. Exibi um sorriso trêmulo e imediatamente vi a mão de Leo se estender na minha direção, e com gentileza, eu a aceitei, sentando-me ao seu lado.
Por alguns segundos, eu fitei seus olhos e com o mesmo cuidado, fui observada. Era evidente que o fim nos cercava e aquele era o começo de uma despedida pessoal. Leo estava me gravando em sua mente, assim como eu o gravava na minha.
Por mais que eu soubesse claramente que eu não o amava, não podia negar que ele fora de extrema importância e que eu sempre me lembraria do que passamos com carinho.
- Leo... - Eu comecei, parando para tomar fôlego em alguns momentos. Ele não me interrompeu e não desmanchou o sorriso enviesado em nenhum segundo. - Eu... A gente não pode continuar com isso... Eu não quero... Você sabe, te magoar.
- ... - Ele deixou um riso fraco escapar pelo nariz, colocando uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha, pousando delicadamente uma mão em minha bochecha, afagando a região com o polegar. - Eu...
- Shiiu... - Eu pedi gentilmente, colocando um dedo sobre seus lábios. - Eu queria que fosse possível, entende? - Sorri, colocando uma mão sobre a dele, que ainda estava em meu rosto. - Se fosse possível, eu nunca te deixaria. Você é um homem incrível e de bom coração. Você fez muito por mim e pelo meu filho e eu nunca vou esquecer o quanto você me ajudou nos momentos mais difíceis. Você sempre esteve do meu lado sem pedir nada em troca, e eu sinto que deveria corresponder o seu sentimento à altura, mesmo que você não tenha me pedido isso em nenhum momento. É só que... As coisas não acontecem da maneira que a gente quer, sabe?
- Eu entendo, . De uma maneira bem incompreensível, devo dizer, mas eu entendo. - Leo sorriu e eu sorri junto. Era o fim, mas não havia peso nenhum em nossos ombros.
- Eu sei que você vai conhecer alguém que realmente merece o seu amor. Alguém que vai poder te amar por completo, e não pela metade como eu vinha fazendo. Você merece muito mais do que isso, Leo. De verdade.
Não fora necessário pronunciar mais nenhuma palavra. Leo era maduro o suficiente para entender que a gente nunca daria certo, juntos. E, o mais incrível de tudo, era que ele permanecia sorrindo para mim, mesmo que de certa forma, eu tenha destruído alguns planos que ele fizera para nós naquela vaga esperança de que eu esqueceria . E agora eu acredito fielmente que esse dia nunca chegaria. estava em cada batimento do meu coração e sem ele, eu não teria uma vida completa. Eu precisava de . Deus, como eu precisava dele!
Leo me deu seu último abraço e depois disso, foi embora com um único pedido: seja feliz.
E eu seria. Eu estava sendo.
Eu não vou deixar escapar de minhas mãos.
Nunca mais.





Chapter Thirty Six


Custou um pouco para que eu finalmente me desse conta de que estava prestes a desembarcar na Califórnia. A noite estava estrelada e extremamente agradável e mesmo com algumas horas de viagem sobre os ombros, eu não me sentia cansada. Havia, pelo contrario, uma sensação única de renovação. Era como se todo meu corpo não respondesse aos fatores externos; era como se ele só correspondesse às batidas enérgicas do meu coração.
Um sorriso brotou timidamente em meus lábios assim que o aviso de que estávamos pousando soou pelo ambiente. Apertei entre meus dedos a alça de minha bolsa de mão, desejando que o tempo passasse mais depressa e eu finalmente pudesse estar frente a frente com ele.
Eu não sabia o que iria dizer quando o encontrasse. Fiz vários discursos mentalmente, mas sabia que nada do que eu ensaiei sairia na hora que visse os olhos de . Céus, só de pensar na intensidade do brilho daqueles olhos eu perco o raciocínio.
Peguei-me sorrindo sozinha mais uma vez ao me lembrar do primeiro dia em que vi os olhos de . Lembro de tê-lo comparado com um anjo e não foi só pelo fato de ele, definitivamente, ter me salvado. Há algo de divino neles, algo que instintivamente desperta o nosso melhor lado.
Eu deveria ter me lembrado desse efeito nos meus primeiros erros.
Reprimi o pensamento assim que ele começou a escurecer minhas lembranças boas. Eu estava decidida a não dar mais atenção a eles, já se foi o tempo de se deixar abater pelos erros do passado.
Eu estava dando inicio a uma nova fase da minha vida.
Esperei pacientemente que todos os passageiros a minha frente desembarcassem para que eu enfim, pudesse sair e sentir o sol tocar minha pele. Fazia algum tempo que eu não prestava atenção nesses pequenos detalhes. Era bom ter a sensação de que as coisas estavam voltando a fazer sentido. Até os mínimos e mais bobos detalhes.
Com o sorriso esperançoso que não havia sumido, despedi-me da aeromoça e segui pelo hall do grande aeroporto de Los Angeles. Com uma única bolsa de mão foi fácil sair da multidão e encontrar um taxi que me levasse a um hotel. A princípio eu não sabia exatamente em qual eu ficaria, mas esse era o menor dos problemas. Eu já estava em Los Angeles e era isso que importava.
Conferi o relógio em meu celular e ao fazer isso me lembrei que fiquei de avisar Kyle que pousei com segurança assim que pudesse. Resolvi deixar isso para depois que encontrasse um taxi disponível. A cidade tinha uma energia diferente de Londres. Custou um pouco para que eu encontrasse um carro vago e custou ainda mais para que o rapaz parasse de me fazer mil perguntas sobre a terra da rainha.
Por sorte, apesar de ser tagarela, o simpático rapaz sabia muito sobre a cidade e me ajudou com dicas sobre onde comer, quais lugares vendiam os melhores souveniers e o melhor, me deixou num ótimo lugar para me hospedar.
Sorri agradecida quando Stephen – o taxista tagarela – me deixou na porta de um pequeno hotel com ótima aparência. Havia flores de diversas cores bailando com a brisa e pareciam radiantes sob os raios solares. Inspirei a brisa que parecia carregar diversos aromas e entrei, segurando meus óculos de sol em uma das mãos. Na outra, eu trazia meu celular e já começara a discar os números de Kyle antes que mais alguém com disposição para falar aparecesse. Entreguei os documentos necessários para fazer o registro no hotel para um rapaz franzino e que ao contrario do taxista, não demonstrava interesse nenhum em saber por que minha pele era tão branca daquele jeito.
- Hei! – Saudei assim que Kyle me atendera, no meio do segundo toque. – Estava grudado no telefone?
- Mais ou menos. – Ele riu e ao fundo eu pude ouvir a risada de Sean. Pensar no meu filho fez meu coração bater um pouco mais forte e a saudade – que já estava do meu lado antes mesmo de eu me despedir há um dia – quase me fez pegar o taxi de volta para o aeroporto. – Chegou bem?
- Fiz um pouso tranqüilo. – Ri e assinei os papeis que foram colocados a minha frente. – Já me hospedei em um hotel e acho que vou dar uma volta pela cidade antes de... Bem, você sabe.
- Você já ligou para ele?
- Ainda não. – Senti as borboletas em meu estomago se agitarem – me passou o numero do hotel, mas eu ainda não liguei.
- Você consegue fazer isso.
- Eu tenho que conseguir, Ky. – Apanhei a chave com o numero do quarto e me despedi do rapaz que me atendera com um leve agitar de cabeça. Subi os dois primeiros lances de escada e parei diante da porta e girei a chave duas vezes, destrancando-a. – Eu cansei de fugir.
- Por isso que eu afirmei, . Eu sei que foram tempos difíceis... Mas eu nunca duvidei de que você faria a coisa certa, no seu tempo. Por isso eu tenho certeza de que você vai conseguir.
- Eu não quero ser sentimental logo agora, mas você sabe que se não fosse por você, eu não teria chegado a lugar nenhum, não é? – Sentei-me na cama e deixei minha bolsa ao meu lado, fitando distraída a cor suave do papel de parede. – Obrigada por ter estado sempre do meu lado.
- Não precisa agradecer, . É isso que os amigos fazem, ficam do seu lado em todos os momentos. Mesmos nos mais errados. – Kyle riu e eu ouvi a voz de Sean pedindo para falar comigo. De repente meus olhos pareceram mais úmidos do que de costume. Depois de uma despedida breve, ouvi o timbre alegre de meu filho e eu constatei de que realmente estava prestes a chorar. – Mamãe?
- Oi, meu pequeno! – Quase não consegui falar e tive que apertar o telefone um pouco mais contra meu rosto para que não o deixasse cair. – Como você esta?
- Estou com saudades da mamãe mais linda do mundo! Tio Kyle disse que você ia voltar logo, por isso não estou triste. E eu comi panquecas do tio hoje, mas as panquecas dele não são boas. Mas não conta pra ele, porque senão ele vai ficar triste.
Sean continuou com sua narrativa de tudo que fizera desde que me deixara no aeroporto com Kyle e na noite do dia anterior e eu concordava com risos e palavras de incentivo para que ele continuasse falando.
- E ai o tio caiu e o tio ficou rindo igual a uma hiena. Foi engraçado.
- Tenho certeza que foi, meu amor. – Eu não tinha notado, mas o sol já havia mudado de posição no céu. – Sean, querido... Mamãe precisa resolver algumas coisas agora, e não vou poder falar com você, tudo bem? - Tudo bem, mamãe. Mas traz o papai logo de volta, tá bom?
Crianças às vezes nos surpreendem com tamanha espontaneidade. Demorou alguns segundos ate que eu conseguisse esboçar alguma reação. Sorri mesmo que Sean não conseguisse ver. Havia confiança naquele gesto e foi o bastante para que eu soletrasse claramente um “com certeza, amor. O papai vai voltar logo, logo”.
Depois de me despedir de Sean e de Kyle, respirei fundo e olhei para o celular ainda em mãos, tomando a decisão que era necessária para dar um novo rumo a minha vida. Procurei o numero salvo na agenda apenas com as inicias de e cliquei em discar, ouvindo meu coração bater cem vezes mais forte do que o normal. Quando achei que ninguém fosse me atender, a voz dele ressoou como um suave tinir de alegria.
- Alô? – Respirei fundo, me acostumando novamente com o efeito que a voz dele tinha sobre mim. Há quanto tempo eu não ouvia sua voz... E ela nunca me pareceu tão linda. – Alô?
Fechei os olhos e me concentrei no meu propósito. Agora parecia um pouco mais complicado e ate um pouco sem sentido, mas eu tinha que tentar.
- ?
Um segundo de silêncio. Vinte segundos de silêncio. Um minuto de silêncio.
Acredito que meu corpo nunca teve tantas reações ao mesmo tempo em tão pouco tempo. Meu coração batia forte, minhas mãos suavam frio e minhas pernas pareciam não ter mais força suficiente para agüentar meu peso. Levou mais alguns segundos até eu ouvir sua voz novamente.
- ?
Fechei meus olhos de novo, mas apenas pela gratificação de ouvi-lo chamando-me pelo apelido. Sei que não é muito, mas era alguma coisa.
- Hei... Tudo bem?
Nos segundos de silêncio que seguiu depois da minha pergunta, eu senti vontade de rir. Parecia tão sem sentido estar ligando para e perguntar “Tudo bem?” depois de tudo. Eu me sentia como uma criança no primário que não sabia exatamente o que estava fazendo. Mordi meu lábio inferior, percebendo que balançava um pé impacientemente enquanto ele não me dava nenhuma resposta.
- Eu... Nossa. Eu to bem e você?
- Eu estou bem, . Na verdade, eu me sinto muito bem desde... Bem, desde sempre.
- Que bom.
Era tão patético estar me sentindo daquela maneira, não era? Minhas mãos suavam e eu podia jurar que minhas pernas estavam tremendo um pouco. Era apenas . Apenas o homem que eu amo e que eu não posso mais deixar sair de minha vida.
- Olha, eu sei que você deve estar se fazendo um monte de perguntas e no mínimo eu lhe devo uma explicação para tudo. Mas eu não quero ter essa conversa por telefone e se a gente pudesse...
- , eu não sei se você sabe, mas eu não estou em Londres...
Um pequeno sorriso travesso surgiu em meus lábios e antes que terminasse, eu pigarreei, fazendo-o se calar.
- Eu sei que você não esta em Londres. Eu vim ate a Califórnia atrás de você, .
- V-você esta... Aqui?
Havia um tom de descrença e provavelmente um pingo de alegria na voz dele, e novamente eu me peguei sorrindo como uma criança levada. Eu não conseguia conter o sorriso em meus lábios e foi um pouco difícil responder.
- Sim, , eu estou aqui. Por você. – Eu quase não acreditei no que acabara de dizer, mas parecia que eu já não me reconhecia. E isso era bom. – Será que podemos nos encontrar?
- Claro... Claro! Me diga onde você esta hospedada, eu vou buscá-la.
Procurei o cartão do hotel que pegara na recepção assim que cheguei aqui e passei o endereço para , sentindo cada fibra do meu coração acelerar.
- Vou passar as oito, tudo bem?
- Por mim esta ótimo. – Sorri. Mais uma vez. – Te vejo mais tarde, então.
- Ate mais tarde, .
Quando desliguei, mal pude acreditar no que acabara de acontecer. Parecia que tudo aquilo era parte de um sonho, embora eu soubesse que estava bem acordada.
Meu próximo passo foi encontrar alguma coisa que me distraísse enquanto o relógio não marcasse oito horas. E ainda faltavam pouco mais de 7 horas até que aquilo acontecesse.
Meu primeiro pensamento foi ligar para Kyle novamente e contar que eu já falara com , mas eu sabia que depois do encontro acabaria ligando de novo, então achei melhor descartar aquela ideia. O jeito seria tomar um banho e dar uma volta pela cidade, talvez comer alguma coisa e tentar não ter um ataque cardíaco por pura ansiedade.

Xx


POV


Inspira. Expira. Inspira. Expira.
Eu repetia mentalmente enquanto ajeitava a gola de minha camisa social na frente do espelho. Teimosamente, meu coração não voltara ao ritmo normal desde que recebera a ligação de .
.
Sorri para o reflexo ao pensar em seu nome. Desde que chegara à Califórnia, seu nome ou qualquer coisa que fizesse menção a ela fora bloqueado por mim. No começo foi por culpa, mas depois que descobri que estava em um relacionamento com aquele produtor que me recuso citar o nome, acabei decidindo que estava na hora de deixar tudo para trás, por um tempo. Não queria pensar em , em processos, em nada. Só queria colocar as coisas em ordem, queria restaurar minha sanidade...
E, ironicamente isso só veio a acontecer quando ela me ligou. Ao ouvir a voz dela eu senti tudo novamente. Vi nossa historia passar lentamente pela minha cabeça, coisa que eu não havia feito desde... Bom, desde a última vez que a senti em meus braços.
Nossa historia nunca foi a mais simples ou colorida. Foi traçada sobre um passado difícil, doloroso e que eu sei que ainda está presente no coração dela. Houve marcas causadas por erros meus, cicatrizes que foram abertas por ela... Mas em nenhum momento faltou sinceridade. Talvez em alguns momentos jogássemos mentiras sobre as verdades porque não tínhamos coragem de encará-las, mas ainda assim sempre foi verdadeiro o que eu e ela construímos. E histórias assim não são apagadas da noite pro dia.
Eu sei que vai soar como a coisa mais presunçosa do mundo, mas sei que não ama Leonard. Assim como eu nunca amei Karen. Pensar naquilo me fez lembrar que eu precisava colocar um ponto final na nossa relação. Não que tenhamos assumido um namoro, mas estávamos constantemente juntos, então isso a fazia acreditar que éramos um casal feliz numa viagem romântica. Por sorte não estávamos hospedados no mesmo hotel, mas só por insistência minha. Talvez ela soubesse que não deveria me pressionar caso quisesse que aquilo durasse, mas de qualquer maneira, com ou sem pressão por parte dela, não havia mais chance para nos dois. Nunca existiu, embora eu tivesse acreditado que sim.
- Vai dar tudo certo agora. – Eu sussurrei, deixando o quarto do hotel pronto para encontrar a mulher que eu nunca deveria ter deixado. No momento nada me importava, nada além dela.

Xx

Levou algum tempo ate que eu conseguisse me localizar. O transito em LA era diferente e isso me custou uns vinte minutos a mais no horário combinado. Só espero que ela não pense que eu desisti do encontro.
Quando o GPS do carro alugado me informou que eu estava perto do endereço que ela me passou, senti um leve formigamento correr por todo meu corpo. Sei que essa é a atitude mais gay de todo mundo, mas todo homem sente isso quando esta prestes a encontrar aquela que ama. E se algum deles disser que é mentira, é porque é mentira. Dele, é claro.
Estacionei o carro no meio fio e a procurei rapidamente com o olhar, mas ela não estava na frente do hotel, como havíamos combinado. Estalei a língua no céu da boca e procurei pelo nome dela na minha agenda telefônica, agradecendo por ter sido maduro o suficiente por não ter apagado o número dela quando me deu vontade. E não foram poucas as vezes que isso me passou pela mente.
Assim que vi seu nome, pensei em enviar uma mensagem, mas racionalmente percebi que o momento pedia uma atitude mais ponderada. Cliquei em discar e esperei que ela me atendesse e não me xingasse muito.
- Oi, .
- Hei... – Sem querer, minha voz estremeceu. Percebi que ela soltou um riso baixo, então isso significava que ela não estava zangada. – Espero que não tenha mudado de ideia. Me atrapalhei um pouco com o transito local. E isso não é uma desculpa esfarrapada.
- Relaxa, eu não vou matar você. – Ela brincou e eu quase não reconheci aquela . Era quase como se ela voltasse a ser aquela garota de alguns anos atrás, mas ainda assim era diferente. Havia mais alegria na sua voz. – Eu também me atrasei um pouco para voltar para o hotel, só entrei porque tinha cansado de ser confundida com posto de informações. Mas enfim... Eu estou saindo.
Sorri com a naturalidade que ela estava me tratando, acreditando que aquele era o sonho mais maluco de todos os tempos.
Ainda de dentro do carro, pude ver quando ela saiu. O movimento todo dela sair e parar na calçada levou no mínimo uns cinco segundos, mas para mim parecia uma eternidade. estava linda. Foi tudo que consegui processar enquanto saia do carro para ir em sua direção. Seus cabelos estavam soltos da maneira que eu gostava, ela usava um vestido florido (ou com estampas de frutas, o que para mim era a mesma coisa) e havia tantos outros detalhes que eu queria registrar, mas assim que nossos olhares se cruzaram, eu provavelmente esqueci ate o nome da cidade em que estávamos.
Ela sorriu depois de abrir a boca e disfarçadamente tornar a fechá-la, o que me rendeu um sorriso enorme. Eu não fora o único a perder o raciocínio por alguns minutos, não é mesmo?
Depois do nosso pequeno momento de devaneio, eu resolvi encurtar a distância entre nós. Por um lado fiquei com medo de ela se afastar quando fiz menção de beijar seu rosto, mas no momento que meus lábios tocaram cautelosamente a maçã do seu rosto, eu soube que tudo seria diferente dessa vez.
- Você ta com fome? – Perguntei, vendo-a assentir prontamente. – Algum lugar que queira ir?
- Acho que você esta aqui a mais tempo do que eu, então, vou deixar você escolher.
- Tudo bem, serei seu guia turístico essa noite. – Brinquei, guiando-a até o carro.
Lembrei-me de uma lanchonete que viera em uma das turnês com a banda e resolvi que lá seria um bom lugar para conversar. Tudo o que eu menos queria era chamar atenção naquele momento tão crucial, por isso uma lanchonete longe do centro seria mais apropriada.
- Não esta me sequestrando, não é mesmo? – perguntou depois dos longos minutos em silêncio. Pelo menos aquele silêncio não era desconfortável.
- O que?
- Sabe, aquelas coisas que vemos nos noticiários, de quando a pessoa sequestra a outra por que não quer que ela fique com mais ninguém alem dela. – dizia tudo olhando para a paisagem externa, e por um momento me perguntei se ela estava sã. Quando ela começou a rir e me deu um soco leve no ombro, rolei os olhos e resolvi entrar na brincadeira.
- Bom, tudo vai depender de você. Você pretende ficar com outra pessoa além de mim? – Arqueei uma sobrancelha, fitando-a com o máximo de atenção que podia.
não desviou o olhar e quando o fez, ficou fitando o pára-brisa. Eu sabia que era uma manobra arriscada, mas eu estava ali para tentar. Nós estávamos naquela juntos.
- Na verdade, não depende só de mim. – esboçou um pequeno sorriso. – Eu preciso saber quais são suas intenções primeiro.
- Eu não tenho a intenção de ficar comigo, se é o que quer saber. – Brinquei, sentindo meu coração bater forte. – Então... O caminho está livre.
- Bobo. – Ela depositou um tapa em meu ombro, voltando sua atenção para o rádio, trocando as estações constantemente.
- O que? Eu falei a verdade!
- Dirige, , eu to com fome e não consigo pensar direito. – usou um tom brincalhão, mas no fundo consegui detectar um pingo de nervosismo.
Nos próximos tortuosos dez minutos falamos apenas sobre coisas banais do cotidiano. me contou como fora a viagem de Londres ate Las Vegas e eu tentei não falar muito sobre meus planos para o nosso futuro. Mesmo que ate então ela estivesse ali, não queria cantar vitória antes do tempo.
Fiz uma curva e logo pude avistar a lanchonete que por sorte ainda estava aberta. Estacionei no meio fio e acompanhei ate a entrada do mesmo. Corri os olhos pelo local e aparentemente teríamos uma noite tranqüila, já que os poucos clientes presentes sequer pareciam se dar conta da nossa chegada. Tudo estava conspirando ao nosso favor e eu desejei profundamente que nada mudasse aquilo.
Escolhemos uma mesa na parte externa e prontamente fomos atendidos por um garçom, que nos deixou com os cardápios. Eu queria escolher logo qualquer coisa, mas também não queria parecer tão desesperado. O jeito foi seguir , que escolhia cuidadosamente o que iria comer, me perguntando hora ou outra se tal coisa era boa ou não. Por fim, acabamos escolhendo o mesmo prato que era baseado em um cheeseburguer e uma porção de batatas. Quando o garçom se retirou com nossos pedidos, eu não pude evitar uma risada divertida.
- O que foi? – Ela perguntou já abrindo um sorriso, procurando discretamente o motivo da minha risada. – O garçom te paquerou?
- Não...
- Então o que foi?
- A situação é inusitada. Eu e você, pedindo cheeseburguer como se fossemos dois adolescentes numa excursão da escola.
- O que tem de errado em dois adultos comerem cheeseburguer ao invés de caviar? – Ela fingiu uma expressão sentida, fitando-me com uma sobrancelha parcialmente franzida.
- Bom, só o fato de não termos mais o metabolismo de uns sete anos atrás, mas tudo bem, eu abrirei essa exceção por essa noite.
- Muito obrigada. – Ela reverenciou-me e eu não pude conter a gargalhada. Eu queria que aquilo durasse para sempre. pegou-me quando a fitava e provavelmente aquilo a deixou levemente sem graça. – ...
Ajeitei-me no banco, inspirando fundo antes de deixar as brincadeiras para outro momento. também parecia se controlar bastante, embora fosse possível perceber que ela estava completamente segura de suas atitudes.
- Eu não sei nem por onde começar... Eu sei que você ta pensando em dizer: “Pelo começo seria ótimo!” e eu concordo, mas o começo... Foi tudo tão tumultuado, não é?
Engoli em seco, relembrando do primeiro dia em que a vi. Foi o dia que ela quase morreu em meus braços e ironicamente, foi o mesmo dia em que ela nasceu para mim.
- Eu nunca me permiti lembrar daqueles momentos, antes. A morte do meu pai, as brigas com Elizabeth... Tudo que faz parte do passado, eu sempre os abominei. – falava em um tom sereno e nem mesmo mencionar a mãe a fez recuar. Percebi que ela nunca tocara naquele assunto antes e isso só fez aumentar minha admiração por ela. estava disposta a recomeçar, e eu estava fazendo parte daquilo. – Mas, nesses últimos dias eu percebi que fugir não diminui a dor, nem traz de volta o que a vida levou. E... Fugir também não apagou o que eu sentia por você, .
Quando ela terminou de falar e me fitou com aqueles lindos olhos castanhos, eu juro por Deus... Eu quase perdi o controle. Eu senti vontade de sair correndo pela rua, gritando como um louco ao mesmo tempo em que sentia vontade de agarrá-la e beijá-la. Não sei quanto tempo fiquei olhando para ela, sei que em determinado momento ela riu nervosamente, trazendo-me de volta a realidade.
- Você pode dizer alguma coisa, por favor? – Ela pediu e eu percebi que seus olhos estavam levemente marejados. – Seu silêncio esta me assustando.
Posso, claro que posso! Eu posso dizer mil coisas e muito mais, mas nada seria suficiente. Conclui em pensamento e sabendo que não conseguiria formar uma única frase coerente, levantei do meu lugar, seguindo em sua direção. ficou totalmente seria, fitando-me com mil indagações em seu semblante. Não importava. Depois do que eu fizesse, toda dúvida seria eliminada.
Peguei pelas mãos, levantando-a também e assim que ficamos frente a frente, não levou nem um segundo para que eu a puxasse para perto, colando meus lábios nos seus. No instante que o beijo fora correspondido, meu coração explodiu em mil partes, mas ao mesmo tempo parecia que ele enfim estava encontrando a parte que faltava.
A parte que sempre faltou desde que nos separamos pela primeira vez.




Chapter Thirty Seven

Aquele dia parecia nunca ter acontecido.
Não digo isso de um modo ruim, mas é que tudo parecia ser bom demais para ser verdade. Ter ela ali, deitada em meus braços, como acontecera pela primeira vez há tantos anos atrás, quando tudo ainda era fácil.
Percebi que passara metade da madrugada daquele jeito, dividido entre milhões de pensamentos controversos. Eu queria que aquilo nunca acabasse, mas de certa forma, ansiava e temia pelo dia de amanhã. mudaria de ideia mais uma vez? Ela fugiria? Ficaríamos juntos agora, de uma vez por todas?
Suspirei, cansado.
Ela parecia serena enquanto dormia, suspirando algumas vezes e me puxando para perto de si. Apertei meus abraços um pouco mais em torno de seus ombros, respirando devagar em seus cabelos. Vagarosamente, ela foi despertando. Não posso negar que meu coração passou a bater um pouco mais forte ao me dar conta desse fato.
Tentando não surtar, esperei calmamente que ela abrisse os olhos e se localizasse. bocejou e com os olhos semicerrados, olhou em direção à janela, de onde partia uma claridade amena. Não devia passar das seis da manhã. Alguns segundos depois, suspirou e esticou as pernas por cima das minhas e sua mão - que estivera pousada em meu peito durante toda noite - seguiu em direção ao seu cabelo, jogando-o para trás. Cada pequeno movimento parecia acelerar ainda mais meus batimentos cardíacos. Quando ela parecia ter finalmente despertado, ergueu a cabeça na direção do meu rosto, fitando-me com seus olhos castanhos extremamente brilhantes.
- Oi... - Ela sussurrou com um pequeno sorriso. - Está acordado há muito tempo?
- Não... - Menti, sorrindo tremulamente. Era como se meu psicológico estivesse se preparando para o pior há qualquer momento. - Quer dizer, não faz tanto tempo assim.
- Você não sabe mentir, . - fechou os olhos, afundando sua cabeça na curva de meu pescoço, depositando um beijo suave ali. - Aposto que não dormiu a noite inteira, com medo de que eu fugisse no meio da madrugada, não é?
Não havia nada além de um tom de brincadeira em sua voz, mas eu sabia que ela realmente pensou aquilo. Eu mesmo tinha pensado naquilo, embora não quisesse ter que admitir.
Diante do meu silêncio, se mexeu e em um movimento único, estava em meu colo, sentada diante de mim com ambas as mãos espalmadas em meus ombros, seus olhos fixos nos meus.
- Eu sei que não fui uma boa pessoa nos últimos meses... Mas eu não vou mais fazer isso com você, . - Ela sorriu querendo passar confiança, e tudo o que eu consegui fazer foi puxá-la para perto, colando meus lábios nos seus, abraçando-a como se o mundo fosse acabar naquele instante.
E se de fato ele acabasse, eu não me importaria.

*


Eu não pude deixar de agir como um bobo ao longo do dia incrível que eu estava tendo ao lado dela. Mal parecia que passamos anos afastados; ela agia naturalmente, conversando comigo sobre coisas do cotidiano que passava no noticiário e comentando também sobre as próprias coisas do seu dia a dia. Notei que em alguns momentos ela parecia se perder em pensamentos e em todos esses momentos eu me contive para não perguntar no que exatamente ela estava pensando. Eu não sentia como se já pudesse ter tanta intimidade a ponto de fazer perguntas delicadas. Ainda mais se envolvessem assuntos delicados do nosso passado ainda não bem resolvido. No meio das minhas divagações, acabei pego de surpresa com os olhos curiosos de sobre mim. Ela abriu um sorriso tímido e eu me vi sorrindo da mesma maneira.
- O que foi? - ela perguntou, abrindo o sorriso. - parece até que viu um fantasma.
- Tá mais para um anjo. - Soltei, fitando fixamente seus olhos castanhos.
- Você continua sofrendo de miopia?
- Desde o dia que te vi pela primeira vez.
- Não foi um primeiro encontro muito agradável. - ela baixou os olhos, se perdendo novamente em lembranças, mas dessa vez eu sabia que não eram memórias felizes.
- Hei... - puxei o banco que ela estava sentada para perto de mim, abraçando seu corpo o máximo que eu pude. - Aquele dia mudou tudo. Se eu não estivesse ali, meu Deus, eu não gosto nem de pensar no que poderia ter acontecido.
- ...
- Não ... Você não precisa se envergonhar. Você estava desesperada e eu entendo os motivos que levaram você a fazer aquilo, mas talvez, se você não tivesse feito aquilo, nós nunca teríamos nos aproximado.
- Aposto que você arrumaria um jeito. - Observei-a abrir um pequeno sorriso, embora seus olhos ainda estivessem mergulhados em tristeza.
- Mas será que você me olharia da mesma maneira que me olhou quando me viu no hospital?
- E de que maneira eu olhei pra você?
- Com raiva. - rimos juntos e aproveitei que o clima estava ficando menos tenso para depositar um beijo em sua bochecha. Ela baixou os olhos e depois voltou toda sua atenção para mim, esperando a resposta correta. - Tudo bem, não foi só com raiva. Eu vi neles, nesses lindos olhos castanhos, uma súplica tão intensa e tão perturbadora que eu simplesmente não consegui te ignorar depois desse dia. Você pode não saber, mas foi como se naquele momento, minha vida começasse a ter um sentido, um propósito único sabe?
- Você não ficou com medo? - Ela perguntou depois de um tempo, seus dedos brincavam com os meus de uma forma distraída. Na maior parte daquela conversa, pude perceber que ela estava se esforçando para quebrar as barreiras em torno do que dizia respeito ao nosso passado. - De tudo virar um pesadelo e você se arrepender da escolha que fez?
Pensei se em algum momento senti aquilo. Não posso negar que tudo sempre fora muito difícil e às vezes desanimador, mas definitivamente nunca senti medo do que poderia vir.
- Não.
- Não sentiu isso nem mesmo quando engravidei?
Surpreendi-me quando tocou no assunto com o mesmo tom de naturalidade que vínhamos conversando. De tudo que passamos, acredito que aquele assunto era o que mais a machucava. Era o que mais machucava a mim também.
- Não foi bem medo... Eu fiquei muito assustado, isso eu não nego. Mas em nenhum momento eu me arrependi de ter escolhido nós dois. O único momento em que senti medo foi no dia seguinte, quando me dei conta de que você não estava mais ali. E foi então que meus dias passaram a se resumir em remorso por não ter escolhido bem minhas palavras...
- A culpa não foi só sua.
- Mas parte dela é. Eu sempre tive certeza do meu amor por você e quando eu mais tive que provar, não consegui fazer isso. Eu fui pego pela incerteza, não do meu sentimento, mas da minha capacidade de ser o que você precisava naquele momento. Eu cresci presenciando brigas e depois minha mãe ficou sozinha, desolada. E por mais que eu soubesse que nunca faria aquilo com você, eu hesitei.
- Eu demorei pra perceber... Mas no fundo também sentia medo. - Depois de mais uma longa pausa, recomeçou a falar. - Senti medo de não conseguir ser boa para ele, sozinha. Senti tanto medo de me tornar uma Elizabeth, .
não conseguiu mais controlar as lágrimas que vinha segurando e eu apenas a permiti chorar em meus braços. Quando ela pareceu se acalmar, beijei delicadamente o topo de sua cabeça, afagando calorosamente a base de suas costas.
- Você é a melhor mãe do mundo. - Eu disse, obrigando-a a olhar diretamente em meus olhos, por mais que ela tentasse se esconder atrás de suas pequenas mãos trêmulas. - E eu sei disso, porque eu conheço você.
- Eu... – pausou, olhando fundo em meus olhos. Naquele momento, meu coração disparou, quase como se soubesse quais palavras viriam a seguir. – , eu...
O momento perfeito que estávamos vivendo naquele instante foi cortado pelo som irritante do meu celular. Eu quase praguejei e joguei o celular para longe, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, sorriu e enxugou as lágrimas restantes em seu rosto, beijando delicadamente os meus lábios e se levantando da cadeira, amarrando os cabelos desgrenhados, anunciando que tomaria um banho enquanto eu atendia a ligação. Insisti que poderia deixar para depois, mas parecia que não conseguiria retomar o clima e ouvir o que ela estava quase me dizendo. Sorri e apanhei o celular enquanto a observava caminhar para o banheiro, finalmente deixando um suspiro frustrado escapar quando a porta fez um “clic”. Olhei para o aparelho que tremia em minhas mãos, franzindo o semblante ao perceber que se tratava de uma chamada restrita.
- Alô?
- Curtindo as férias na Califórnia, querido?
Um arrepio – não do tipo agradável, devo dizer – correu pela minha espinha assim que reconheci a voz feminina que tiniu do outro lado.
- Karen?
- Oh! Ele se lembra da namorada que deixou plantada em Londres!
Bufei novamente, sentindo a palma de minhas mãos começarem a suar. estava do outro lado do quarto e eu tinha que resolver aquele assunto antes que ela percebesse alguma coisa e fugisse de mim novamente. Eu não podia cometer nenhum erro.
- Me desculpe por não dar noticias. Mas eu disse pra você...
- Que precisava de um tempo sozinho, eu sei. Mas parece que você não está tão sozinho quanto diz estar.
- Do que você está falando?
- Não se faça de sonso, ! – Karen esbravejou, e seu tom agudo quase perfurou meus tímpanos. – Eu tô falando daquela desqualificada, aquela umazinha que tem um filho com você!
Juro que naquele momento eu quase perdi a cabeça. Quase. Serrei os lábios em uma linha rígida, sentindo o maxilar enrijecer com a tensão correndo pelas minhas veias.
- Presta atenção como você fala da mãe do meu filho, garota.
- Como é que é, ?
- Não venha querer me cobrar algo que eu nunca lhe prometi. Não somos namorados, não devo satisfação da minha vida pra você! – Anunciei, pronto para finalizar aquela discussão. Eu realmente disse aquilo para Karen desde o começo; não éramos um casal jovem e apaixonado. Nunca fomos e nunca seriamos.
- Ah, então quer dizer que ficar comigo não passou de uma aventura pra você? É isso mesmo que você está me dizendo?
- Depois a gente conversa sobre isso. Agora eu estou realmente ocupado com outras coisas. – Afastei o aparelho de meu rosto pronto para desligar, mas juro que pude ouvir Karen pronunciar algo como “vai se arrepender...”. Ou foi algo mais rude do que isso. Tanto faz. Eu já não podia mais perder tempo nem arriscar o meu recomeço.
- ?
Vislumbrei sair do banheiro só de roupão e por um segundo eu havia esquecido de respirar. Ela estava ainda mais linda. Como aquilo podia ser possível? Não posso negar que nos anos que passamos longe, eu conheci outras mulheres, mas nenhuma se comparava a ela. Não digo isso porque sou – e provavelmente sempre fui – apaixonado por ela e nem porque ela me deu um filho que é a coisa que eu mais amo nesse mundo. tem uma aura especial. Algo que você não encontra em qualquer esquina. Ela é simples e deslumbrante, tudo ao mesmo tempo. Não precisa de maquiagem nem glamour, ela é linda pelo simples fato de ser ela mesma.
Cara. Como ela é linda.
- ?
Lembrei que precisava esboçar alguma reação normal antes que ela achasse que eu estava sofrendo de algum mal súbito – ou coisa pior. Abri um sorriso e me levantei, seguindo em sua direção, fazendo-a abrir um pequeno – e desconfiado – sorriso.
- Você está cheirosa. – Eu sussurrei ao encostar meus lábios suavemente em sua bochecha, sentindo a pele de seu braço se arrepiar sob o toque de minhas mãos.
- Deve ser porque acabei de tomar um banho, gênio. – Respondeu em tom de brincadeira, mas sua voz não passava de um sussurro. – ...
Céus, eu juro que estava perto, muito perto de perder completamente todo meu autocontrole. Era como se meu corpo ainda não tivesse matado toda a saudade que sentia do dela. E provavelmente levaria um tempo para que aquilo acontecesse.
- Não fala nada... – Pedi, levando meus lábios em direção aos dela, beijando-a com urgência.
No mesmo instante seu corpo respondeu à necessidade que tínhamos de nos completar novamente. pulou em meu colo, agarrando com força os cabelos de minha nuca, puxando-me em sua direção. E eu não pestanejei para responder ao seu chamado.
Aquilo era mais do que certo. Aquilo era o que nós dois queríamos.




Chapter Thirty Eight

O que havia começado como uma incerteza, aos poucos ia se tornando sólido. Cada novo segundo que se passava eu tinha mais e mais certeza de que agora as coisas iam entrar nos trilhos. E o brilho no sorriso dela era prova mais do que suficiente de que eu não estava errado. Mesmo agora em que estávamos nos despedindo. Por ora.
- Você realmente tem que ficar aqui? – Ela questionou, sorrindo.
- Tenho. – Respondi beijando carinhosamente sua testa. – Comecei uns projetos e queria terminar, pelo menos um deles, antes de voltar.
- Hm, projetos é? – semicerrou os olhos, abraçando-me pela nuca. – Que tipos de projetos?
- Canções sobre uma mulher.
- Uma mulher?
- Sim. – Beijei demoradamente seus lábios, envolvendo sua cintura com minhas mãos. – E sobre como ela parece um anjo para mim.
- Parece uma excelente canção. – Ela riu, beijando meu pescoço. – É uma mulher de sorte, essa da sua canção.
- Eu sei. E ela também sabe.
O voo para Londres fora novamente anunciado, fazendo com que nos olhássemos com certa tristeza e saudade antecipada.
- Então... Eu tenho que ir. – Ela disse, apontando para o portão de embarque.
- Logo estarei com você. – Senti um arrepio correr pela minha espinha; era de fato um recomeço. Quando eu pisasse em Londres de novo, eu não estaria mais só. Seria eu, ela e Sean. Como uma família de verdade. – Dê um beijo em Sean por mim.
Inevitavelmente sorrimos juntos.
- Darei, mas acho que ele vai preferir o seu pessoalmente.
- Mal posso esperar por isso. – Beijei novamente seus lábios, deixando-a ir logo em seguida.
Antes de sumir pelo portão, porém, parou, se virou e sorriu. E naquele sorriso havia mais do que muitas palavras poderiam explicar.
Aquilo bastou para mim.

*

O sol já havia se posto há algumas horas, mas eu ainda não conseguira sair do torpor de mais cedo. O perfume de ainda parecia estar impregnado em meu corpo e naquele quarto de hotel. Era incrível.
Ao mesmo tempo em que estava tendo aquelas sensações boas, um assunto pendente fazia o estômago dar voltas dentro de mim. Karen. Bufei irritado, sem saber exatamente o que fazer.
Decidi que seria bom tomar um drink no bar do hotel. Vesti a camiseta que estava em cima da cama, apanhando minha carteira, desistindo de pegar o celular quando a suposição de que ela poderia ligar novamente passou pela minha cabeça.
Eu não estava fugindo. Estava apenas me dando umas horas para pensar a respeito.
Enquanto esperava o elevador para descer, avistei uma família deixando o quarto no fim do corredor. O homem carregava um bebê no colo, adormecido. A mulher brincava com uma garotinha, que aparentava ter cinco anos, no máximo. Sem perceber, estava sorrindo feito um tolo, porque dali alguns dias, eu teria a oportunidade de ter momentos como aquele. Eu quase fiquei chateado por não ter tido a oportunidade de acompanhar o crescimento de Sean, mas eu sabia que não ia adiantar me lamentar pelo tempo perdido. Eu conseguira a segunda chance que estava esperando, e dessa vez eu faria tudo certo. Seria um bom pai para Sean e um bom... Bem, eu seria bom para , dando um passo de cada vez para reconquistar seu coração de vez.
Entrei no elevador e a família que eu observara também. A garotinha abriu um enorme sorriso para mim e eu o retribui, cumprimentando seus pais sutilmente com a cabeça.
Quando chegamos ao térreo, seguimos nossos caminhos, mas antes de sair, a menininha acenou com sua pequena mão.
Fui pensativo até o bar, imaginando a nova vida que me esperava em Londres. Mas, consequentemente, quando eu pensava no meu retorno, também me lembrava de Karen. Na teoria, é só colocar um ponto final naquela história. Mas eu sei que Karen não é o tipo de mulher que desiste fácil.
E isso pode ser um problema.
Sentei no banco, pedindo uma dose de whisky. Não era habitual, mas a situação pedia.
- Dia difícil? – Perguntou-me o barman, servindo a dose que pedi.
- Situação difícil. – Respondi, rindo.
- Então essa é por conta da casa. – Solidário, o barman assentiu, saindo para atender outros clientes.
Bufei, passando as mãos pelos cabelos.
Que encrenca, , que encrenca.

Alguns dias depois...

[ POV]

Parei tudo que estava fazendo, apenas para observar o cenário a minha volta. Sean corria pelo quintal com em seu encalço; estava na frente da churrasqueira e tentava me ajudar na cozinha. Sorri, pois finalmente parecia que tudo estava como deveria estar. Naquele momento, nem parecia que estivemos afastados por tanto tempo.
- O que eu faço com isso? – perguntou, trazendo-me de volta do meu devaneio.
- É só misturar tudo, . – Eu o instrui, rindo da cara dele. – E depois teremos uma deliciosa maionese pronta para ser devorada!
- Essas coisas são muito complicadas.
- Você que não entende nada de cozinha. – Ri, tomando a tigela de sua mão antes que ele fizesse algum estrago. – Vai, me ajuda a levar isso pra fora.
- Tão mandona. – rolou os olhos, mas fez o que pedi.
Seguimos para o quintal, sendo recepcionados com um forte abraço de Sean. Entreguei a tigela para , apanhando meu filho em meu colo.
Eu não sei como nem quando aquilo aconteceu, mas Sean estava tão diferente. Até ontem, parecia que ele ainda era um bebê, indefeso e frágil, mas de repente, percebi que meu filho havia crescido tanto e mudado tanto em questão de meses... Quando somos mães, o tempo parece passar de uma forma diferente do resto do mundo.
- Quando o papai vai chegar? – Sean perguntou enquanto mexia em meus cabelos. – Ele está demorando!
- Ele já vai chegar, meu amor. – Respondi beijando sua bochecha, abraçando-o com um pouco mais de força.
Um segundo depois da minha afirmação, a campainha tocou. Sean, em um movimento digno de ninja, soltou-se de meus braços e correu em direção à porta, deixando-me estática no meio do quintal.
Depois, ri pelo nariz, sentindo borboletas voando dentro do meu estômago.
- Sean? – Chamei seu nome, estranhando o silêncio. Se fosse , Sean já estaria enchendo-o de perguntas, falando sem parar. – Querido?
- Não é o papai. – Ele respondeu decepcionado, terminando de abrir a porta de entrada, revelando a silhueta de uma mulher.
- Posso ajudar? – Questionei para as costas de mulher assim que Sean voltou correndo para dentro de casa. Assim que ouviu minha voz, ela se virou, revelando o semblante enfurecido.
- ? – Ela perguntou, torcendo o nariz ao pronunciar meu nome.
- Quem quer saber? – Respondi, cruzando meus braços ao perceber que ela não parava de me medir.
- A namorada de .
- Quê? – Eu ri, mas não de diversão. – Quem é você?
- Você é sonsa ou o quê? Eu disse que sou a namorada de .
- Karen?
Nós duas fomos pegas de surpresa ao ouvir a voz do próprio soar. Por um segundo esqueci-me da presença inoportuna dela, sorrindo ao avistar seus olhos . O momento de felicidade durou pouco, pois a tal de Karen se atirou nos braços de , que a afastou no mesmo instante. Seu semblante estava fechado, seu maxilar trincado numa linha rígida. Céus, era possível alguém ficar ainda mais atraente?
- O que está fazendo aqui? – Ele perguntou pausadamente, respirando fundo entre cada palavra. Eu permaneci parada na porta de minha casa, esperando alguma explicação.
- Você me deve explicações.
Não me diga.
- Não te devo explicação alguma. – Ele respondeu, apanhando a mala que deixara no chão, caminhando em minha direção. – Eu já disse tudo que tinha para dizer.
- É assim que tudo vai terminar? – Ela perguntou, cruzando os braços.
- Tudo o quê? – beijou minha testa, esquecendo-se dela por um segundo, como eu fizera instantes atrás. – Não temos e nunca tivemos nada. Segue sua vida e deixe a nossa em paz.
Dito isso, me abraçou pelos ombros, fechando a porta na cara dela. Simples assim. Olhei para a porta, perguntando-me quanto tempo demoraria para ela começar a esmurrá-la. Quando isso não aconteceu, olhei para o homem que sorria para mim, arqueando uma sobrancelha.
- O que foi isso? – Perguntei, ainda sem entender. – Como ela descobriu onde eu moro?
- Tenho medo até de descobrir. Mas não se preocupe com ela, ela não vai mais nos importunar. – Ele beijou minha bochecha, apanhando meus dedos entre os seus.
- Papai?
Um segundo de silencio e uma troca de olhares entre eu e . Seus lindos olhos brilharam com uma emoção tão sincera, que eu quase me vi em lágrimas quando nosso filho correu, pulando em seu colo com toda a força que pôde. O abraço entre eles durou um minuto ou mais, e tudo o que eu pude sentir foi à sensação de que tudo estava no seu lugar. Sean sorria abertamente e, com seus dedos pequenos, afagou as bochechas de , fazendo-o sorrir também. Ficaram por alguns segundos se olhando, e finalmente a enxurrada de perguntas começou a brotar dos lábios de Sean.
- Papai! Como você demorou em chegar! Onde você estava? Tio queria comer toda a comida que a mamãe fez, porque você não chegava logo!
Eu ri, enxugando disfarçadamente uma lágrima que se acumulou no canto dos meus olhos.
- Vem, vamos nos juntar aos outros. – Peguei novamente na mão de , puxando-o em direção ao quintal.

*

[ POV]

Era possível que alguém estivesse mais feliz do que eu, naquele exato segundo, em todo o universo?
Acredito que não.
Os últimos meses poderiam ser resumidos em momentos de tensão, desânimo, raiva, incerteza. Mas agora, nada disso parecia ter existido. Não havia espaço para outro sentimento além da felicidade. Sozinho, pude perceber que estava rindo, olhando para um ponto qualquer além da janela de meu quarto. Minhas malas ainda estavam fechadas, num canto ao lado da escrivaninha. O cheiro de casa que ficou por muito tempo sem ventilação me fez sentir certo incomodo, então comecei abrindo as persianas e vidros, chegando até a sala. Fazia pouco mais de meia hora que me deixara em casa, depois de ficarmos até tarde na casa de . Eu queria ter ficado lá, queria ter a oportunidade de acordar ao lado dela novamente, mas tinha que dar tempo ao tempo. Tempo para , tempo para mim, tempo para tudo dar certo.
Quando abri a cortina da sala, vi um carro estacionado na frente de minha casa. Bufei, pois reconheci aquele carro e a pessoa que acabara de descer dele. Cinicamente, a pessoa abriu um sorriso ao me ver parado na janela, dirigindo-se à porta de entrada.
Não tinha mais como fingir que eu não estava ali.
Mas eu também não podia adiar mais aquela conversa.
Abri a porta antes que Karen terminasse de subir o ultimo degrau.
- Me esperando, querido?
Ela me abraçou, porém eu não retribui.
- Posso entrar?
- Tenho alternativa? – Respondi, sem conseguir desfazer o sorriso no rosto dela. – Olha, eu vou logo avisando que não estou a fim de discutir.
- Não vamos. – Karen retirou o sobretudo, sentando no sofá. – Vamos conversar sobre o nosso futuro.
- Qual? – Questionei, querendo rir. – Nós não...
- Eu estou grávida, .



Chapter Thirty Nine

Uma semana. Quase não dava para acreditar que aquele tempo todo já se passou desde que voltara. Voltara para a minha vida.
Sean estava sentado na mesa, sendo auxiliado por no dever de casa. A fumaça que saia de minha xícara de chá esquentava a ponta de meu nariz, mas aquela cena conseguia aquecer todo meu interior.
Eu achei que aquilo nunca ia ser possível.
Sorri abertamente quando me buscou com um breve olhar. Eu queria que fosse impressão minha, mas parecia que algo o incomodava. Talvez fosse apenas o meu medo enfeitando coisas.
- Terminou? – Perguntei a Sean quando o mesmo fechou seu caderno.
- Sim, o papai é um ótimo ajudante!
- Ajudante? – riu. – Pensei que fosse seu professor!
- Não, papai. Eu tenho professora, e ela é muito linda.
Dito isso com uma simplicidade tão encantadora, Sean desceu da cadeira, dirigindo-se ao seu quarto. meneou a cabeça e aceitou a xícara que lhe estendia.
- Quando foi que ele cresceu tanto assim? – me abraçou e me posicionou junto ao seu corpo, depositando a xícara sobre a mesa.
- Me pergunto a mesma coisa todos os dias. – Beijei o dorso de sua mão, olhando-o fixamente por alguns segundos. – Você está bem?
- Estou. Parece que não estou?
- Não sei. – Dei de ombros, afagando uma mecha de seu cabelo. – Você parece meio distante esses últimos dias.
- Eu sei, me desculpe por isso. – Ele suspirou, apanhando minha mão na sua. – Desde que voltei... Aquele assunto com os advogados... Ainda estão cancelando o meu pedido e...
- Shiu. – Beijei seus lábios, encostando minha testa na sua. – Eu entendi. Desculpe-me, não queria que se sentisse pressionado a comentar sobre isso.
- Tudo bem, . Quem começou com tudo isso fui eu.
- Não vamos falar sobre isso, ok? – Pedi. – Todos cometemos erros.
suspirou novamente e eu sabia que mais alguma coisa o incomodava. Mas o quê?
Sean retornou à sala, trazendo consigo sua coberta.
- Você vai dormir hoje aqui, papai?
Bom, fazia apenas uma semana que e eu nos acertamos, mas ainda não havíamos conversado nada a respeito de morarmos juntos ou qualquer coisa do gênero. Combinamos mutuamente – e sem que nenhuma palavra precisasse ser pronunciada – que deixaríamos fluir. Por enquanto. Não havíamos feito nenhum anúncio oficial sobre nossa união, não nos intitularíamos como “namorados” nem como “casados”, embora todos que estavam no nosso circulo de convívio já soubesse que estávamos nos acertando. E, mesmo que tenha dormido em casa apenas uma vez depois do seu retorno, Sean não perguntara quando ele passaria a ficar de vez conosco. Mas todo dia, sempre perto do horário de dormir, ele fazia a mesma pergunta para . E, todas as vezes que ele não pode ficar, Sean se satisfazia em pelo menos ouvir uma história contada por antes de pegar no sono.
- Se a mamãe deixar, eu fico. – sorriu para Sean, antes do mesmo correr em nossa direção e me abraçar pelas pernas.
- O papai pode, né?
Fingi pensar, sendo atacada por cócegas e beijos antes que pudesse dizer qualquer coisa.
- Tudo bem, depois desse ataque, eu acho que o papai pode ficar sim. – respondi, sendo atacada novamente por beijos dos meus meninos.

***


Custou para Sean pegar no sono.
Geralmente ele apaga nas primeiras páginas de qualquer livro que escolha para ouvir a historia, mas naquela noite, mal conseguiu terminar o primeiro capitulo de “Rei Arthur”. Sean começou a lhe fazer perguntas sobre a banda, sobre como era viajar para cantar e se um dia ele poderia ir junto. Eram perguntas simples e complexas ao mesmo tempo. Todos ali estávamos aprendendo a ser uma família como nunca fomos antes. E ainda assim seriamos diferente da maioria das famílias que Sean conhecia da escolinha. E com tão pouca idade, ele já parecia entender e queria participar ao máximo daquilo.
E eu vi naquele momento que já não tinha como tirar de nossas vidas. Não que ele estivesse fora antes, mas agora era diferente. Sean tinha ao seu alcance a convivência com a figura paterna; agora ele tinha com quem jogar vídeo game e futebol, podia fazer coisas de menino e achar graça porque agora tinha com quem compartilhar. Sean agora podia ter alguém em quem se espelhar para ser um ótimo homem no futuro.
E eu também percebi o quanto eles se pareciam. Sempre me orgulhei quando as pessoas me paravam e diziam que ele era a minha cara, mas hoje não poderia estar mais feliz por terem se enganado esses anos todos. Sean tinha a mesma mania de arquear as sobrancelhas em determinados momentos. A cor de seus olhos e até mesmo a maneira de sorrir eram todos de .
Quando se certificou de que Sean pegara no sono, levantou de sua cama com cuidado, cobrindo-o e dando-lhe um beijo carinhoso no topo de sua cabeça. Eu assistia todo aquele momento da poltrona da sala, de onde era possível ter uma ampla visão do quarto do nosso filho.
Saiu pé ante pé, encostando a porta. Em seu semblante, a satisfação de missão cumprida. Ri baixinho, sendo surpreendida quando ele se aproximou e me pegou no colo, depositando um longo beijo em meus lábios.
- Vai me por para dormir também?
- Para você – beijou meu maxilar, sussurrando próximo a minha boca – eu tenho outros planos.

***


Assim como Sean, eu custei a dormir. Na verdade, eu e .
As bochechas coraram-se imperceptivelmente ao me recordar da noite passada. As mãos hábeis de tocaram cada parte de meu corpo e as minhas correram por toda extensão de suas costas e nuca como se eu nunca tivesse feito aquilo antes.
Era impressionante como cada noite parecia sempre ser a primeira, só que com a diferença de que era cada vez melhor.
- ...?
Surpreendi-me ao ouvir o sussurro de , pois acreditava que ele já havia pegado no sono. Em resposta ao seu chamado, afaguei suavemente os seus dedos que estavam entrelaçados aos meus.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Quantas você quiser. – Eu disse, virando-me de frente para ele. ajeitou sua cabeça no travesseiro, encostando a ponta de seu nariz no meu.
- Você e eu...
- Sim? – Disse quando percebi que se calou por mais de meio segundo.
- Nós estamos bem, não é?
Refiz aquela pergunta mentalmente, em silêncio. Meu corpo se aproximou do de e encaixei meu rosto em seu peito, ouvindo seu coração e sentindo sua respiração calma.
Eu desejei que aquela pergunta não levantasse certas inseguranças entre nós dois e principalmente em mim mesma, porque alguma coisa me dizia que havia algo que eu não estava conseguindo enxergar ainda.
- Não há nada que me afaste de você agora. – Respondi, depois de pensar serenamente no que ele havia me perguntado. – Nada.
respirou fundo e, quando achei que diria mais alguma coisa, senti seus lábios depositarem um longo beijo em minha testa.
- Eu te amo. – Ele disse, antes de nós dois cairmos num sono tranquilo.

[ POV]

Eu não costumo ser supersticioso ou coisa do gênero, mas naquele dia, eu me sentia estranho. Como se alguma coisa me rondasse e quisesse me avisar que o melhor seria ficar dentro de casa. Era uma sensação incomoda, mas que não me impediu de levantar às sete da manhã e sair para uma caminhada.
e Sean ainda estavam dormindo, então pensei em passar no mercado e pegar algo para preparar o nosso café da manhã.
Avistei o mercado mais próximo e entrei. Com um aceno breve com a cabeça, cumprimentei o senhor que estava atrás do caixa, que parecia mais interessado no jornal em suas mãos do que em fiscalizar o ambiente. Se bem que, eu deveria ser o único no lugar naquele horário. Enquanto caminhava por entre os corredores, senti uma vibração no bolso de minha jaqueta. Sorri quando avistei o nome de .
- Oi... – Eu disse, ainda sorrindo.
- Oi! Aconteceu alguma coisa? Eu acordei e não te vi aqui...
Não pude evitar um sorriso ainda maior. Ela sentiu minha falta. Como um adolescente abobalhado, senti o estômago se contrair.
- Aconteceu que eu gostaria de saber se meu filho e a mãe dele gostam de torradas no café da manhã.
Percebi um leve suspiro de alívio do outro lado, e depois pude ouvir sua risada soar.
- Pensei que fosse o meu papel cuidar do café da manhã.
- Hoje não, baby. – Brinquei. – Estou no mercado, daqui alguns minutos eu volto.
- Tudo bem, estaremos aqui esperando por você.

Talvez não ficasse muito orgulhosa da minha compra. Eu não estava acostumado a fazer compras, então acabei comprando tudo o que eu achava que Sean poderia gostar. Isso incluía biscoitos, chocolates e algumas outras guloseimas.
Pelo menos as torradas estavam ali. E também havia uma garrafa de suco de laranja.
Apanhei as chaves da casa de e girei a maçaneta, estranhando quando percebi que a mesma não estava trancada. Eu jurava que havia trancado antes de sair.
E, sabe aquela sensação de que algo não estava certo? No momento em que coloquei os pés no corredor, voltou com mais força. Tive até que prender a respiração por um segundo.
Estranhei o silêncio. E estranhei ainda mais quando caminhei até a sala, encontrando com Sean em seu colo e uma expressão indecifrável no olhar. De frente para ela e de costas para mim, uma mulher.
Mulher esta que, com um puro sorriso de cinismo, se virou para mim.
- Oi, .
Olhei de Karen para , sentindo meu estômago afundar dentro de mim. Aquilo não podia ser real.
- O que está acontecendo? – Perguntei, sem ter a certeza de que queria saber o real motivo daquela visita inesperada. E indesejada.
- Olá, querido. – Karen me respondeu. sequer parecia respirar. Sean olhava da mãe para Karen, de Karen para mim. – Seu filho é uma graça.
- O que você veio fazer aqui?
Respirei fundo, tentando não me exaltar na frente de Sean e . Podia sentir os nós de meus dedos estalarem, tamanha era a força que eu fazia com os punhos cerrados.
Aquilo não estava acontecendo. Só podia ser uma brincadeira muito sem graça do destino.
- Vim contar a novidade para... . – Vi trincar o maxilar e semicerrar brevemente os olhos, mas sua postura permanecia impecável. – Esperei que você contasse, mas não sabia se você teria coragem de fazê-lo sozinho.
- Vamos embora daqui.
Não esperei se pronunciar – no fundo eu tinha medo do que ela poderia dizer. Em passos largos, me dirigi até Karen, fazendo-a se erguer prontamente. Ela sorriu cinicamente para , apanhando a bolsa e caminhando até a saída como se já conhecesse aquela casa.
Quando estávamos do lado de fora, ela parou em frente ao seu carro que estava estacionado de frente para o meu, ainda com aquele sorriso no rosto.
- O que você acha que vai ganhar com isso? – Perguntei entredentes, lutando ao máximo contra a vontade de gritar com ela e esmurrar alguma coisa. – Você tem o que na cabeça, garota?!
- Você não me deu opções, . – Karen assumiu um semblante raivoso. – Você não atende as minhas ligações.
- E tem um motivo para isso. Eu não tenho nada para falar com você.
Um segundo. Por um segundo eu jurei que ela ia chorar. Mas, com mais uma risada forçada, ela se virou para mim, apontando seu indicador em meu peito.
- Não vá você achando que vou desistir só porque você diz não ter nada para falar comigo. Eu vou espalhar para o mundo inteiro o tipo de homem que é você. O tipo que abandona mulheres grávidas!
- Cala sua boca! – Gritei, sequer me importando se alguém – se – estava presenciando aquela discussão. – Você pode fazer as ameaças que desejar, eu não vou ficar com você.
- É o que veremos, . – Ela disse, abrindo a porta do seu carro. - É o que veremos.



Chapter Forty

- Eu estou ficando com medo, .
Olhei de para Sean adormecido em meu colo. Gotas pesadas de chuva ricocheteavam a janela do quarto de nosso filho, mas ele continuava dormindo tranquilamente, a boca levemente entreaberta. Por dentro, ao contrário de , eu sentia raiva. Raiva de mim, por ter permitido que aquilo chegasse àquela ponto e raiva de Karen, por ser tão baixa e suja.
Há semanas ela vem nos importunando com ligações e mensagens. Mas até então eram apenas xingamentos. Só que as coisas começaram a tomar rumos mais agressivos depois que contratei um advogado para cuidar dos assuntos referente ao filho que esperávamos. Concordei que assumiria o filho que ela dizia esperar de mim (eu ainda não estava totalmente convencido de que aquele filho era meu – como eu sempre dizia, não tínhamos um relacionamento sério e ela poderia muito bem ter saído com outro cara nesse meio tempo), mas tudo seria resolvido através do meu advogado. Quanto menos contato tivesse com ela, melhor.
Graças aos céus, se tornara uma mulher muito mais sensata do que eu poderia imaginar e foi ela que me ajudou a tomar a decisão correta. “Estamos juntos nessa, ela me disse, afastando todo o receio que eu sentia em perdê-la novamente.
Só que essa decisão não agradou a Karen. Talvez ela esperasse que surtasse e me abandonasse. Talvez isso pudesse acontecer em outros tempos, mas hoje eu consigo ver o quanto nós dois evoluímos como pessoas e como um casal.
Às vezes me pego pensando, tentando imaginar como teria sido nossa vida se tivéssemos agido diferente no passado. Se eu tivesse agido diferente.
- Eu não vou deixar nada acontecer com você. – Voltei de meus devaneios, olhando firmemente para ela. – Ninguém vai machucar você. Ou nosso filho.
- Você não pode garantir isso, . – dizia num sussurro, como se as paredes pudessem ouvir o tom de medo em sua voz. – Você viu a ameaça que aquela doida fez. Ela foi até o estúdio onde eu trabalho! Ela anda me seguindo, eu tenho quase certeza disso.
Coloquei Sean em sua cama, cobrindo cuidadosamente. estava sentada na poltrona ao lado da cama, os joelhos dobrados sendo envoltos por seus braços finos. Me ajoelhei na sua frente, tomando suas mãos entre as minhas.
- Eu já estou cuidando disso. Eu conversei com meu advogado, vamos tomar todas as atitudes para mantê-la afastada de nós.
ficou olhando para Sean, seu polegar desenhando círculos no dorso de minha mão quase que imperceptivelmente. Eu sabia que sua maior preocupação era com Sean. Eu também estava preocupado, mas eu não acho que Karen seria capaz de fazer alguma coisa contra ele. Que ela nem pense nisso, ou eu nem sei do que seria capaz.
- Eu estive pensando... – Ela retomou a falar depois de um tempo em silêncio. – Conversei com Kyle e ele concordou em adiantar minhas férias. Talvez seria melhor se eu passasse alguns dias em Nova York.
Ponderei sobre o assunto. Eu não queria ficar longe dela, mas concordava que seria bom para ela e para Sean ter um pouco de sossego. Alguns sites de fofocas já estavam sondando para dar entrevista sobre o caso da gravidez da ex do atual marido dela.
- Eu acho que pode ser uma boa. – Disse, por fim. – Contanto que você volte para mim o mais rápido possível.
- Eu não sei se você percebeu, mas não há como a gente se separar. – Ela sorriu, se aninhando em meu colo. – A vida sempre dá um jeito de nos unir, independente do que façamos.
- Eu gosto dessa vida.

~*

[ POV]

Novamente eu me vi em Nova York, agora por motivos completamente diferentes. Se alguns meses atrás viera com intenção de me esconder do meu passado, agora estava ali exatamente por causa dele. Claro que, também tinha aquela questão complicada daquela maluca ficar perseguindo a mim e ao meu filho, mas não fora só por causa disso que quis vir para Nova York.
Conversando com – que segue em um relacionamento muito sério com – fiquei sabendo de alguns boatos sobre minha mãe. Ela não soube me dizer se eram verídicos, mas os boatos é de que ela estava muito mal.
Eu estava disposta a consertar todos os meus erros, não estava? Começara por mim, admitindo minhas falhas e tentando, dia após dia, ser uma pessoa melhor. Eu recuperara minha amizade com , e . Estava bem com .
Só faltava Elizabeth.
Eu conversei muito sobre o assunto com e até mesmo com Kyle, que continuava sendo meu maior confidente. E ambos apoiavam a minha vontade de rever minha mãe. Custou muito, mas depois de tudo o que eu passei, entendi o que a dor faz com uma pessoa. Ela nos transforma. Nos endurece. Nos torna irracionais.
A dor da rejeição e a mágoa enfim se dissiparam. Tudo o que restou foi a enorme vontade de rever minha mãe. De lhe dizer que eu a entendia, enfim. E que não era somente porque ouvira boatos de que ela estava ruim, eu realmente queria refazer os laços com ela. Nem que fossem laços tímidos, eu só não queria guardar nenhum nó do passado.
Depois de deixar as duas malas perto da cama daquele quarto de hotel, coloquei Sean para tomar um banho. Enquanto meu pequeno se esbaldava com a agua morna caindo sobre seus ombros, redigi uma mensagem rápida para Kyle, avisando que eu chegara bem. Esperei pela resposta dele, pedindo que não o deixasse sem notícias.
- Você está com fome, filho? – Perguntei enquanto ensaboava os cabelos macios dele, vendo-o assentir. – Depois que a mamãe tomar um banho também, nós vamos procurar uma pizza bem gostosa para a gente comer.
- Nós vamos ficar aqui quanto tempo, mamãe?
- Bem pouquinho, eu prometo. – Beijei sua testa molhada. – Está com saudades de casa já?
- Com saudades do papai. – Ele admitiu, ficando um pouco entristecido.
- Vou ligar para ele, ai vocês poderão conversar bastante para ver se essa saudade fica pequenininha, tá bom?
Assim que terminei de dar banho em Sean, enrolei-o na toalha e ali mesmo, do banheiro, liguei para . Como se ele também estivesse ansioso para falar com a gente, atendeu no primeiro toque.
- Papai!!!
- Oi, meu campeão! – Ouvi a voz dele soar animada do outro lado, pelo viva voz. – Chegou bem ai?
- Sim, papai! Eu estava tomando um banho refrescante. E eu vou comer pizza com a mamãe já, já.
- E onde está a mamãe?
- Estou aqui. – respondi com um sorriso, mesmo que ele não pudesse ver. – Chegamos bem. E como estão as coisas por ai?
Tentei não entrar muito em detalhes na frente de Sean, e eu tenho certeza de que o silêncio de do outro lado também significava que ele estava pensando na melhor maneira de responder aquilo da melhor maneira possível.
- Estão bem, meu amor. Na medida do possível. Mas pode ficar tranquila, tudo vai se ajeitar.
Assenti, querendo que aquilo fosse verdade o mais rápido possível.
- E você, como está? Ansiosa para rever Elizabeth?
- Um pouco nervosa. – Apoiei o celular em meu ombro, fazendo malabarismos para terminar de enxugar e vestir Sean. – Eu não sei bem aonde começar a procurar por ela. Talvez amanhã dê uma passada no nosso antigo apartamento. Pode ser que consiga alguma pista.
me deu palavras de incentivo e depois o tempo fora todo de Sean, que pedia impacientemente para falar com o pai. Deitei na cama confortável enquanto Sean ficou sentado, balançando seus pezinhos na beirada da mesma. Enquanto eles conversavam, penteava os cabelos de Sean, pensando no encontro que poderia ocorrer no dia seguinte, se eu tivesse alguma sorte.
Eu não tinha ensaiado nenhum discurso. Eu sabia que as palavras me faltariam no momento em que a visse e as emoções tomassem conta de mim. E também não sei como ela reagiria. Da última vez que nos vimos, no cemitério diante do túmulo de meu pai, eu não a tratara muito bem.
A saudade de meu pai doía bem menos agora. Agora, eu já conseguia pensar nele sem chorar e sem sentir raiva de sua partida tão precoce.
Após vinte minutos, Sean enfim se despedira de . Saltou da cama, calçando seus sapatos, pronto para sair e comer.
Apanhei nossos documentos e deixei o quarto do hotel, ainda pensando em Elizabeth. Durante o caminho, passamos por muitas lojas e restaurantes, mas nada que atraísse muito a nossa atenção. Sean fazia comentários completamente aleatórios, e isso foi bom para me distrair um pouco.
Depois de muitas esquinas viradas e fachadas nada atraentes, chegamos à uma pizzaria bem pequena, mas com um ambiente muito aconchegante. Procuramos uma mesa perto da janela, para que Sean pudesse ver a movimentação da noite nova-iorquina.
Enquanto esperávamos que nosso pedido chegasse – a tradicional pizza de mussarela que Sean ama – senti meu celular vibrar em meu bolso.

Message from
Pode me agradecer por ser uma excelente amiga investigativa depois que voltar. Estou mandando o endereço de alguém que pode te ajudar a encontrar sua mãe.


Na mensagem que chegou depois, havia um endereço e o nome de Jeremy Morgan. Franzi a sobrancelha, sem entender direito. Aquele era o nosso antigo motorista. Eu não sabia como Jeremy poderia me ajudar a encontrar minha mãe, mas aquilo com certeza era melhor do que nada. Pelo que eu saiba, depois que eu saí de casa, Elizabeth mandou todos os seus empregados embora.
Guardei o aparelho em meu bolso assim que o garçom trouxe nossa refeição, fazendo Sean soltar gritinhos de aprovação, fazendo todos os presentes rirem.
Comi tranquilamente na companhia do meu rapazinho, ouvindo-o falar sobre muitas coisas, como ele sempre gostava de fazer. Logo Sean completaria seis anos e é uma criança extremamente educada e comunicativa. Me pego pensando quando foi que o tempo passou a correr tanto daquela maneira.
- E talvez eu pudesse ter uma irmãzinha. Ou um irmãozinho.
Quase engasguei quando ouvi Sean comentar sobre aquilo.
- Você o quê? – Pisquei atônita. Eu realmente ouvira aquilo?
- Seria legal ter um irmão para eu brincar, mãe.
Aquela era uma história totalmente nova para mim. Nunca, em nenhum momento antes, Sean mencionara a vontade de ter um irmão. E eu sinceramente também nunca pensara em dar um irmão para ele.
Inconscientemente eu disse "você já vai ter um em breve", mas Sean não ia entender. E era bem mais complicado do que simplesmente dizer que ele teria um irmão que não viria da minha barriga, mas que também seria filho de . Se fosse realmente filho dele, como o próprio salientava quando tocávamos no assunto.
Mas, enquanto não tivéssemos certeza, não podia dar as costas para ela. Apesar de tudo, eu tenho consciência de que uma criança inocente não pode ser punida. Eu a odeio? Sim, com toda certeza. Mas, eu havia desenvolvido aquele senso da coisa certa a ser feita e eu não queria que aquela criança pagasse pelos erros da mãe. E, francamente, depois de tudo que passei para ficar com , eu não ia deixar de apoiá-lo nesse momento. Afinal, eu sabia que ele amava a mim e era isso que importava.
- Coma sua pizza. Conversaremos sobre esse seu pedido em outro momento. – Disse, rindo para a expressão contrariada de meu filho.

- Você acredita que ele me pediu um irmão, ? – Eu ri baixinho para não acordar Sean. – A essa altura, nosso filho pedindo outro filho!
- Sabe... Eu não ia achar ruim ter outro filho com você.
Outro filho com você.
Pensei naquela frase simples e não precisei de muito para entender o significado dela. Um filho que ele poderia acompanhar desde o começo. Um filho que ele veria crescer. Um filho que ele poderia carregar no colo no seu primeiro dia de vida. Tudo o que ele não teve com Sean.
- ?
- Hm?
- Não quero que pareça uma cobrança... se justificou após meu silêncio repentino. – Eu só... Bem, poderia ser legal.
- Eu sei, meu amor. – Suspirei, deitando ao lado de Sean – Eu só não sei se esse momento é o mais adequado.
fez silêncio do outro lado. Me perguntei quais seriam os pensamentos que estavam rondando sua mente nesse instante.
- Eu entendo.
Não havia mágoa em sua voz. Mas também não era como se ele tivesse se conformado com aquela resposta. Vamos dar tempo ao tempo.
Desligamos um pouco depois de conversamos mais um pouco sobre meus planos para o dia seguinte.
Quando finalmente adormeci, sonhei com crianças.

Arrumei um Sean bem inquieto pela manhã. Havia buscado previamente a localização exata do endereço que me passara, sentindo o coração palpitar descompassado dentro do peito enquanto aguardava a recepcionista do hotel me avisar sobre a chegada do táxi que pedira.
- Para onde nós vamos, mamãe?
- Conhecer um amigo da mamãe. – Beijei sua bochecha, fazendo-o sorrir. – Você vai gostar muito dele.
O telefone do hotel tocou e fui informada de que o táxi já me aguardava. Respirei fundo e tomei meu filho pelas mãos, me certificando de ter pegado minha bolsa e meu celular.
Entramos no taxi onde um senhor simpático nos dera bom dia. Passei as coordenadas ao mesmo, sendo avisada que levaríamos menos de trinta minutos para chegar ao local – se o trânsito ajudasse.
Sean logo engatou uma conversa animada com o motorista, falando sobre sua coleção de carrinhos em miniatura. Enquanto eles conversavam, liguei para Kyle, contando sobre minha visita ao nosso antigo motorista. Meu grande chefe-amigo me desejou sorte e implorou que eu voltasse logo, pois estava morrendo de saudades de Sean.
Os trinta minutos se passaram e, quando percebi, estávamos diante de um sobrado simples, porém muito charmoso.
Agradeci e paguei a corrida, segurando firmemente a mão de Sean enquanto eu olhava para a porta de entrada. Os três degraus que me mantinha longe da campainha pareciam muito maiores do que realmente eram. Por um segundo, senti medo. E se ele não quisesse saber de mim ou de qualquer coisa que o lembrasse quem Elizabeth fora em sua vida?
- Vamos, mamãe?
- Vamos. – Eu disse, mais para mim do que para ele. Me aproximei e toquei a campainha. Em menos de um minuto uma jovem me atendeu. – Olá, eu procuro o senhor Morgan.
- Tio, visita para você. – Ela sorriu para Sean. – Entrem. Meu tio está fazendo o almoço.
Agradeci e timidamente entrei, aguardando a jovem que aparentava ter em torno de quinze anos nos encaminhar para a sala de estar, nos indicando um grande sofá cor de gelo. Sean preferiu se jogar na poltrona vermelha que destoava do restante da decoração. Ela nos deixou assim que Jeremy apareceu no cômodo.
Jeremy não devia estar com mais de quarenta anos, mas sua expressão era a de um homem muito mais velho. Parecia cansado, um pouco triste. Seus cabelos começavam a dar sinais de alguns fios brancos. O canto de seus olhos se enrugaram um pouco quando sorriu, assim que me reconheceu.
- Céus! Eu não acredito que é você! !
- Por um segundo achei que não fosse me reconhecer. – O abracei quando o mesmo se aproximou com os braços abertos. – Jeremy, quero lhe apresentar meu filho, Sean.
O pequeno saltou da poltrona, se aproximando de nós. Sorriu e acenou para Jeremy, que lhe estendeu a mão para que fizessem um hi-five.
- A que devo a honra? – Perguntou contente, sentando-se ao meu lado no sofá. – Faz tantos anos...
- Sim, alguns anos... – Esbocei uma reação sem graça, respirando fundo antes de ir direto ao ponto. – Jeremy... Eu vim até aqui porque eu gostaria de saber se você tem alguma notícia da minha mãe.
Silêncio. Seu olhar pareceu distante por alguns segundos. Jeremy olhou de mim para Sean, perdendo-se na minha mão entrelaçada à mão de meu filho. Havia algum dilema interno, eu pude perceber. Por fim, ele se encostou no sofá, como se aquele assunto lhe deixasse cansado e precisasse de apoio.
- Sabe, desde que Elizabeth decidiu deixar Londres e voltar para o antigo apartamento aqui em Nova York, eu soube que ela precisaria de ajuda. Talvez ela no momento não quisesse admitir, mas eu sabia. Simplesmente sabia que precisaria cuidar dela. Vendi tudo que tinha em Londres e vim morar com minha irmã, disposto a ajudá-la sempre que precisasse de mim.
Eu não pude evitar de me emocionar. Havia ternura em sua voz e os olhos de Jeremy estavam levemente marejados. Por um breve momento era como se eu estivesse ouvindo um de alguns anos atrás.
- Não é como se fôssemos um casal... – Jeremy continuou parecendo acanhado por admitir aquilo para a filha de Elizabeth, sua eterna paixão. Eu sempre suspeitei que havia algum sentimento por parte dele. – Mas também não somos apenas amigos, entende? Eu quero cuidar dela. Quero que ela fique bem...
- Fico feliz em saber que ela pôde contar com você quando eu fugi..
- Elizabeth se arrepende tanto das coisas que fez no passado, . Ela mudou.
- Eu também me arrependo, Jeremy. – Pus minha mão sobre a sua, me segurando para não cair em prantos. A essa altura, a sobrinha de Jeremy havia aparecido novamente na sala com alguns livros para colorir, entretendo Sean. – Só Deus sabe o quanto quero consertar as coisas.
- Acredito que ela vai ficar muito feliz em vê-la. Isso pode ajudar na melhora dela...
- Ela...
- Não, ela não corre risco de vida. – Me respondeu quando o pior passou pela minha cabeça. – Mas está bem abatida. Em alguns momentos a ouvi dizer que não queria mais viver...
- Você pode me levar até lá, Jeremy?
Seus olhos ganharam ainda mais vida e o sorriso que surgiu em seus lábios era como o de uma criança que estava tendo seu maior sonho realizado.
- Só me deixe trocar de roupa. Eu te levo até ela.



Chapter Forty One

Foi como voltar a ser criança.
Colocar os pés na minha antiga casa, sentir a nostalgia me rondando como uma velha amiga que me esperou para brincar fez meu coração bater mais apressado dentro do peito. Os olhos pareceram cobertos por uma nevoa e, quando percebi, um soluço já estava prestes a escapar de meus lábios.
Elizabeth estava deitada em sua cama, a pele antes tão vivida tinha agora um tom quase transparente, como se ela fosse um fantasma.
Me perguntei porque tudo tinha que ser daquela maneira. Mesmo que por muitos anos o ressentimento tenha sido minha maior memória dela, eu não suportava vê-la daquela maneira.
Me aproximei devagar, com medo de assustá-la. Uma enfermeira sorriu e nos deixou a sós. Observei a quantidade de remédios sobre o criado mudo e deixei um sopro escapar de minha boca. Devagar, ela abriu os olhos e levou alguns segundos até que ela me reconhecesse.
Permaneci imóvel ao lado da cama, as mãos hesitando entre a barra de meu casaco e os seus finos dedos.
- ?
Assenti, visivelmente emocionada. Eu queria me atirar em seu colo, mas nenhum dos meus músculos pareciam responder. Eu só conseguia sentir o coração batendo dolorido dentro de mim e os olhos marejados que quase me impediam de enxerga-la.
Ela ainda era minha mãe.
E eu ainda a amava.

- Mãe...
Elizabeth esticou fragilmente sua mão em minha direção e foi quando eu a toquei, com cuidado e certa urgência. Segurei seus dedos entre os meus, apoiando minha testa na beirada da cama. Eu mal percebi, mas quando dei por mim já estava de joelhos ao lado de seu corpo.
- Filha.
Ficamos alguns segundos em silêncio, apenas os meus soluços irregulares ecoando pelo quarto.
- Que bom que está aqui. – Ela disse, com sua voz suave e fraca. – Achei que nunca mais fosse vê-la depois daquele dia.
- Eu precisava vir, mas eu não sabia que estava doente... Há quanto tempo está assim?
- Tem alguns meses. – Elizabeth fechou os olhos brevemente, respirando com certa dificuldade. – Tive algumas complicações devido ao consumo extravagante de álcool...
Ela tentou rir, embora sua vergonha por admitir aquilo fosse evidente. Me sentei ao seu lado, ainda segurando sua mão entre as minhas, afastando os cabelos de meu rosto, procurando olhar diretamente em seus olhos.
- Você vai ficar bem. – Eu disse, sem saber se no fundo eu tinha conhecimento daquilo. Mas era o que eu mais queria naquele momento. – Certo?
Elizabeth assentiu e eu tentei sorrir. Ela já não era mais a mulher que exalava poder. Seus cabelos que antes eram sempre sedosos estavam opacos e com muitos fios brancos à mostra, embora ela ainda os mantivesse em um penteado comportado. Elizabeth agora era uma mulher comum, um ser humano que estava fragilizado, um ser que eu queria perdoar e trazer para perto de mim.
Mais alguns minutos de silêncio se instalou entre nós duas. Sabíamos que tínhamos tanto para falar e ouvir, e talvez nenhuma das duas soubesse muito bem por onde começar. Tocar nas feridas antigas não é tarefa fácil.
- Seu pai deve estar muito furioso comigo. – Elizabeth disse, olhando pela janela o céu nublado de Nova York. Parecia imersa em seu próprio mundo de suposições e ressentimentos. – Ele com certeza deve estar com aquela ruga no meio da testa.
Continuei olhando fixamente para minha mãe. Depois de tantos anos após sua morte, era a primeira vez que Elizabeth falava dele comigo. Eu mal podia conter minha surpresa.
- Quando ele se foi, eu realmente fiquei muito zangada. Com ele, com o mundo, até mesmo com Deus. Eu não podia acreditar que o homem que eu mais amei havia me deixado.
- Não foi culpa sua. – Eu consegui sussurrar.
- Foi sim. – Elizabeth baixou a cabeça, fechando os olhos. – Ele me deixou antes de morrer naquele acidente e a culpa foi minha. Seu pai e eu não estávamos bem já fazia tempos... Não dormíamos mais na mesma cama e tudo foi culpa da minha incapacidade de amá-lo. Eu estava sempre ocupada com meu trabalho que mal conseguia perceber que nosso amor estava morrendo.
“Um dia, descobri que ele estava tendo um caso com sua professora de piano. E eu não posso culpar nenhum dos dois. Ela era realmente uma pessoa boa. Te tratava muito bem e era gentil com seu pai. Ele viu nela algo que não via mais em mim. Ele ia pedir o divórcio. Mas eu ainda amava seu pai, eu descobri isso quando ele veio falar que não podia mais ficar comigo. No dia do acidente, eu tinha pedido que ele me encontrasse num antigo restaurante que costumávamos frequentar no começo do nosso namoro. Só que chovia muito naquele dia. Estava caindo um verdadeiro temporal e... E então...”
- O carro dele perdeu a direção e capotou. – Eu completei, sentindo o ar faltar em meus pulmões.
- Ele morreu sem saber o quanto eu ainda o amava. – Elizabeth estava aos prantos. Seus ombros sacudiam conforme os soluços irrompiam pela sua garganta. – Eu vou carregar essa culpa até o dia da minha morte, filha. Me perdoa por ter descontado em você...
Lágrimas escorreram pela minha face também. Eu nunca soube dos motivos dela. E eu não poderia culpa-la mais por nada. Ela sofreu tanto quanto eu naquele tempo. E, assim como eu cometi erros por medo, Elizabeth também era vulnerável a esses tipos de sentimentos.
- Tá tudo bem, mãe. – Enxuguei as minhas lágrimas, beijando o topo de sua cabeça. – Ninguém é perfeito, não é mesmo? Você errou, o pai errou, eu errei. O que importa agora é que reconhecemos isso e vamos nos esforçar para deixar o passado no passado e tentar ser pessoas melhores, agora.
Minha mãe concordou, sorrindo tremulamente. Segurou meu rosto entre suas mãos, agradecendo com o olhar.
Um grande sentimento de paz nos cercou. Eu abracei carinhosamente minha mãe, sentindo que aquela garotinha assustada e perdida se despedia de mim. Eu finalmente estava deixando para trás todos os grilhões que me aprisionavam.
- Vem, tem alguém que eu quero que você conheça.
Os olhos antes opacos de Elizabeth ganharam um brilho sutil. Sean estava aguardando com Jeremy na sala, e eu mal podia esperar para que meu filho conhecesse sua avó.

~*~

De volta ao hotel, seguimos com a nossa programação habitual: comíamos no restaurante do hotel, dávamos uma volta e comíamos uma sobremesa gostosa, subíamos para o quarto e depois que Sean tomava um banho, ficava horas e horas falando com através de vídeo chamada.
- Como tem sido esses dias ai sem mim? – Perguntei, deitada ao lado de Sean que fazia caretas para os meninos. até tentava conversar comigo, mas éramos interrompidos ora por Sean, ora por eles. – Tô vendo que de solidão você não sofre.
- Na verdade, eu tenho sofrido um pouco. Nenhum deles quer dormir comigo.
- Ninguém quer ser tarado pelo de madrugada. disse e foi repreendido por . – Opa, foi mal, crianças presentes no ambiente!
- Sim, , então por favor, se retire do ambiente. – Eu disse, fazendo todos rirem.
Conversamos mais um pouco enquanto todos falavam sobre os novos projetos para a banda, justificando aquela bagunça na casa de às 2 horas da manhã. Quando o sono venceu Sean e todos os outros, e eu finalmente tivemos nosso momento a sós.
Certifiquei-me que meu filho estava coberto e embalado em seu sono tranquilo e me dirigi para a poltrona próxima da varanda. O hotel tinha uma vista bonita dos grandes prédios espelhados e até mesmo o som incessante de carros lá embaixo era reconfortante.
- Como foi o encontro com sua mãe?
- Libertador. Não sentir mais rancor dela, entender os motivos e perceber que todo mundo comete erros... Foi à etapa final da minha renovação. Eu sinto que agora estou livre de todos os fantasmas do meu passado.
- Nossa. Como é bom ouvir isso de você. Como é bom ver que você superou tudo de ruim que aconteceu, amor.
- É bom me sentir leve. – Concordei. – E Sean adorou conhecer a avó. Isso me lembra que devemos fazer um almoço para que sua família também conheça ele.
- E para que todos saibam que estamos juntos?
- E isso é uma dúvida pra você ou para eles? – Brinquei, fazendo-o rolar os olhos. Ah como eu queria poder tocar seu rosto naquele momento...
- Você ainda não me apresentou como seu namorado para sua mãe... entrou na brincadeira, fingindo estar chateado. – Aliás, depois de tudo o que aconteceu, dona Elizabeth pretende voltar para Londres?
- Não exatamente. Conversamos muito hoje e, ela quer ficar aqui. Disse que tem mais memórias boas e felizes da nossa família aqui na nossa antiga casa. Mas eu fico feliz em saber que ela tem o Jeremy e a Suzy, que é a enfermeira que cuida dela, sabe? Agora só falta uma coisa para essa paz ser completa. – Mordi o canto inferior de meu lábio, sentindo uma leve pontada de angustia.
- A gente subir no altar?
- Quem dera fosse simples assim, . – Eu ri, mas sem saber se era de diversão ou de nervosismo. Ele queria me pedir em casamento? – Alguma novidade sobre sua ex?
- Ah... pareceu um pouco desapontado pela conversa tomar aquele rumo. Vi, no escuro, sua testa franzir levemente. – O advogado disse que só conseguimos um exame de DNA com doze semanas de gestação. E pelas contas dele com base nas informações que passamos, faltam quatro semanas.
- Ai, caramba. Eu não quero ter que esperar mais quatro semanas para voltar para casa.
- Você não precisa esperar, . E eu não vou aguentar ficar mais quatro semanas sem você aqui. Sorri e fiquei apenas olhando para o rosto dele, parcamente iluminado pelo brilho da tela do celular dele.
- Acha que é seguro voltar?
- , amor... Eu nunca deixaria que alguém fizesse mal algum a vocês.
- Eu sei.
Olhei para Sean dormindo tranquilamente, a incerteza pairando sobre minha mente. Eu queria tanto estar com , mas também não queria causar problemas. Havia toda aquela correria com o novo álbum, compromissos inadiáveis, reuniões e mais reuniões... Eu não poderia deixá-lo ainda mais preocupado.
- Vamos combinar assim: mais duas semanas e eu volto.
- Duas semanas??! fingiu chorar e eu ri, sentindo ainda mais saudade. – Depois disso, nada de viagens longas sem mim?
- Depois disso, nada de viagens longas sem você.
- Tudo bem. Acho que vou sobreviver.
- É bom que sobreviva. Me mantenha informada sobre o processo todo.
- Vai dar tudo certo, amor. Ninguém vai destruir nossa família. Eu prometo.
Ninguém vai destruir nossa família foram às últimas palavras que ecoaram pela minha mente antes de eu cair no sono.




Chapter Forty Two

POV

Parecia um filme de ação. Tão surreal que eu quase acreditei que estava tendo um pesadelo.
Tudo aconteceu em uma fração de segundos, muito mais rápido do que eu pude calcular e quando eu dei por mim, nosso carro girava sem controle pela pista, o grito de Sean ecoando dentro de meus ouvidos.
- Eu não quero morrer, mamãe! - Era tudo o que ele conseguia dizer.
“Hei campeão, calma!” eu queria olhar para ele e dizer, mas eu não conseguia. Eu tinha que controlar o carro, tinha que me assegurar que minha namorada e meu filho estivessem em segurança.
Mas eu não sabia se seria capaz de salvá-los. E eu nunca tive tanto medo. Eu não podia perdê-los. Não podia deixar que nenhum mal os atingisse. Eu havia prometido!
- !!! – gritou e então a escuridão nos abraçou.

Uma semana antes – POV

- Tem certeza que não pode ficar mais um pouco, querida?
Desfiz o laço em volta dos ombros de Elizabeth, segurando suas mãos entre as minhas. Sean brincava com Suzy e Jeremy no tapete da sala. Meus olhos ameaçaram embaçar, então respirei fundo e assenti com a cabeça. Eu queria prolongar aquele momento, queria que ele durasse para sempre. Mas eu tinha uma vida em Londres e estava na hora de tocá-la em frente.
- Tenho que voltar para a minha vida, aquela que deixei em Londres. – Sorri gentil. Elizabeth concordou, sorrindo também. Sua aparência estava bem melhor do que a de semanas atrás. – Ligarei sempre que puder para saber como você está.
Minha mãe afagou meu rosto e eu fechei os olhos com o gesto. Éramos mãe e filha, como nos velhos tempos. Sem mágoas, sem dor, sem peso nos ombros. Beijei sua testa, sentindo uma saudade antecipada apertar o meu coração.
- Sean, venha se despedir da vovó.
Prontamente ele se dirigiu até nós duas, abraçando fortemente as pernas de Elizabeth. Suas mãos, trêmulas, afagaram o topo de seus cabelos. Não pude conter um soluço baixo.
- Vovó, eu prometo cuidar muito bem da mamãe. E prometo que vou ser um bom menino também.
- Eu sei que vai, meu anjo. – Elizabeth se agachou, ficando quase da mesma altura que Sean. – Venha me visitar nas férias, tudo bem?
Meu filho assentiu e, por alguns segundos tive a impressão de que aquela promessa não poderia ser cumprida. Meneei minha cabeça, afastando os pensamentos negativos. Sorri para Jeremy, que abraçou e beijou cuidadosamente a bochecha de minha mãe ao se aproximar. Senti o alívio confortar meu coração angustiado, afinal de contas, Elizabeth não estaria sozinha quando eu fosse embora. Ela tinha Jeremy, que sempre a amou, mesmo nos seus tempos mais sombrios. Eu estava feliz pelos dois.
Despedimo-nos com mais algumas palavras de carinho e, assim que entramos no táxi, fechei meus olhos, suspirando fraco. Sean se aninhou em meu colo, caindo no sono após alguns minutos de viagem.
Durante todo o percurso, desde a casa de minha mãe até o aeroporto e do aeroporto rumo à Londres, eu só conseguia sentir paz. Paz por finalmente ter acertado as coisas entre mim e Elizabeth, paz por saber que ela não esta sozinha, paz por ter me tornado uma pessoa mais sensata.
Sem perceber, estava sorrindo sozinha com meu filho adormecido em meu colo e algumas bagagens no carrinho.

~*

Por conta dos compromissos da banda, não conseguiu nos encontrar no aeroporto. Mas a minha sorte era que Kyle estava sempre disponível para me socorrer.
Após 20 minutos de espera, ele nos encontrou no saguão do aeroporto. Sean, como toda criança de sua idade, não estava com o melhor dos humores. De cinco em cinco minutos ele me pedia colo, ou então dizia que estava cansado e queria dormir em sua cama. Eu confesso que até eu mesma estava um pouco irritada, querendo banho, café e cama.
- Meus amores! – Kyle nos apertou e beijou repetidas vezes cada lado de nosso rosto, fazendo Sean reclamar um pouco. – Prontos para irem para casa?
- Mais do que prontos. – Respondemos quase que correndo para o carro de Kyle.
No caminho, consegui tirar um cochilo. Mesmo que empolgado para saber das novidades, Kyle me conhecia bem o suficiente para saber que, com sono e fome, eu não sou uma boa pessoa.
Estávamos quase chegando a nossa casa quando fui pega por uma sensação estranha. Não sei explicar bem o que era, mas minha nuca formigava, como alguém estivesse me encarando tão fixamente que era quase possível sentir a pressão do olhar sobre mim. Olhei para trás, através do retrovisor; nada além de alguns carros. Conferi se Sean estava bem e ele continuava deitado no banco, adormecido.
Devo estar ficando louca, pensei. Meu celular começou a tocar assim que estacionamos no meio-fio. Não reconheci o número, mas poderia ser ligando de outro celular. Desci do carro e atendi, esperando que Kyle pegasse Sean. Do outro lado, alguém respirou e um calafrio correu pela minha espinha. Com certeza não era .
- Quem é? – Perguntei, sem obter resposta. – Alô?
Pelos próximos segundos só consegui ouvir a respiração pesado do outro lado. Desliguei, sem dar muita atenção ao fato assim que pisei dentro de casa. Kyle colocou Sean em sua cama e eu me joguei no sofá, grata por estar em casa.
- E então, enquanto eu faço um café, você me conta como foi com sua mãe? – Sugeriu Kyle e eu concordei, tirando meus sapatos e casaco.
- Ela está tão diferente, Ky. Nem parece mais a mesma mulher.
Comecei a falar sobre sua doença e sobre como isso me afetou internamente. O aroma de café preenchia a casa e conforme eu ia falando, a saudade ia aparecendo. Contei sobre meu pai e Kyle me ouvia atentamente, como o bom amigo que sempre foi. Ele, mais do que ninguém, sabe como foi difícil o começo de tudo. Só ele e Deus podem saber o quanto eu odiei Elizabeth no passado.
- Isso é ótimo, . – Ele disse depois que eu terminei de falar, colocando na minha frente uma xícara de café fumegante. – Isso é ótimo, mesmo. É um capítulo que se encerrou e vocês tiveram um desfecho feliz.
- Estamos em paz, agora. Eu não ia me perdoar se ela partisse achando que eu a odeio. Porque eu não a odeio mais. – Uma lágrima escorreu sem que eu permitisse. – Eu não quero que ela morra, Ky.
Eu sabia, no fundo eu sabia que nosso tempo estava cada vez mais curto. Eu queria mudar aquilo, mesmo sabendo que não era capaz. Kyle me aninhou em seu colo e eu fiquei ali, deixando que as lágrimas escorressem e me levassem para um sono tranquilo.

~*

Eram quase duas da madrugada quando acordei assustada. Coloquei uma mão sobre o peito, sentindo o coração bater descompassado. Levantei-me da cama, procurando o motivo que me fez acordar assustada. Eu podia jurar que ouvira alguém andando dentro de casa, mas não era Sean, eu tinha certeza. Ainda com o coração acelerado, me certifiquei que meu filho estava dormindo seguro em seu quarto.
A casa estava toda encoberta pela escuridão. Senti o suor escorrer pela nuca, fazendo um calafrio percorrer minha espinha. Caminhei com cautela até a sala, sem saber se devia ou não acender as luzes. De repente, senti que não estava mais sozinha. Meu coração quase parou quando senti que alguém me abraçou pelas costas, mas logo me recuperei quando reconheci a voz que sussurrou em meu ouvido um “oi, amor”.
- Mas que diabos, ! – Eu mal podia acreditar que ele estava ali, dentro de minha casa em plena madrugada. Aliás, como ele havia conseguido entrar ali? – O quê..?
- Cópia da chave embaixo do tapete, não é muito clichê? – Ele riu, beijando-me com urgência. – Eu estava com muita saudade, não podia esperar amanhecer para vir te ver.
- E achou que seria uma boa ideia invadir minha casa de madrugada? – Eu ri, abraçando-o e beijando-o com a mesma intensidade. – Eu quase morri do coração, sabia?
- Mas não morreu. – Ele retrucou, pegando-me em seu colo. Seus olhos brilhavam e senti minhas bochechas esquentarem. – Mas eu posso cuidar disso, se quiser.
Enrosquei meus dedos em seus cabelos, mordendo seu lábio com cuidado fazendo-o soltar um suspiro pesado. Ah, como eu estava com saudades dele.

POV

[No hospital – descrição do – descobre que Karen não estava grávida, porém sim]

Um som incessante e irritante ecoava em meus ouvidos. Minha cabeça doía e, mesmo de olhos fechados, sentia a claridade me incomodando. Ouvia ao longe vozes indistinguíveis e alguma coisa queimava em meu braço direito.
Respirei fundo e aos poucos fui recobrando minha consciência. Imagens embaralhadas passavam numa velocidade desconcertante pela minha cabeça. Eu estava deitado, mas não estava na minha cama, nem na cama da , disso eu tinha certeza.
Lentamente fui me lembrando. A tempestade. As ameaças de Karen no telefone. A perseguição na estrada...
Ah merda.
Nosso carro capotando.
Sean e gritando.
Merda. Merda. Merda.
Com mais dificuldade do que eu esperava, abri meus olhos. Minha cabeça girou e náuseas embrulhavam meu estômago. Com a vista embaçada, consegui distinguir o lugar pelos tons típicos de verde e branco: um quarto de hospital.
O som irritante vinha de aparelhos posicionados ao lado da minha cama. A queimação em meu braço provinha de um cateter que levava soro para minhas veias. A dor em minha cabeça provavelmente tinha relação com a faixa em volta dela.
Mas eu não me importava com nada disso. Eu não ligava para nada, eu só queria saber de e Sean. Tentei me ajeitar na cama, mas todo meu corpo estava doendo. Alguém se movimentou no canto do cômodo e só então eu percebi que estava acompanhado.
- Hei, cara! – me saudou, os olhos denunciando seu cansaço. Há quanto tempo estava ali? – Que bom que você acordou.
- Cadê a e o Sean? – Perguntei, sem conseguir falar direito. Minha garganta estava mais seca do que o deserto. – Onde eles estão?
- Eles estão bem, certo? – se aproximou, colocando uma mão no meu ombro para que eu me acalmasse. – Mantenha a calma, irmão.
- Certo. – Respirei fundo, aliviando um pouco a tensão em meus ombros. – Eu posso vê-los agora?
chegou a abrir a boca para falar, mas foi interrompido pelo médico. Meu amigo sorriu e se retirou do quarto, me deixando com uma sensação não muito boa.
- Como se sente? Eu sou o Dr. Hall e estou cuidando de você, Sr. .
- Já tive dias melhores. – tentei não parecer muito grosso, mas minha ansiedade não me permitia ser mais simpático do que aquilo. – Eu só quero saber como minha namorada e meu filho estão.
- Presumo que sua namorada seja a moça que chegou junto com a criança, então? – Dr. Hall falava com calma enquanto me examinava.
- Que tipo de pergunta é essa? – Eu rolaria meus olhos caso fosse possível. – Obvio que sim.
- Então a moça que chegou aqui logo depois de vocês, a que alega ser mãe do seu filho, não é sua namorada?
Eu não sabia onde ele queria chegar, mas sabia que estava começando a perder a paciência. Só estávamos naquela situação porque aquela descompensada da Karen bateu em nosso carro. Ela era a causadora do acidente que pode ter colocado a vida dos que mais amo em risco.
- Doutor, eu só quero saber como eles estão. Não me importa mais nada, só eles.
- Não tem com o que se preocupar, eles estão bem. Estão todos seguros. – Sorriu como se soubesse de algo que eu não podia saber, no momento. – A enfermeira vai passar aqui para te medicar daqui uma hora. Quando se sentir melhor, poderá vê-los.
Não fiquei muito contente, mas tive que concordar. Meus olhos começavam a pesar mais do que o normal e minha cabeça ainda doía. Aprumei-me no colchão, suspirando pesadamente.
- A propósito, não que isso seja da minha conta, mas me vejo na obrigação de dizer que não precisa se preocupar com a outra moça também. – Ele parou na porta, seus cabelos grisalhos brilhando na luz que vinha do corredor. – Ela e o bebê, que não existe ainda, passam bem. Só sofreu algumas escoriações leves.
E ao dizer isso, simplesmente saiu. O ar pareceu muito mais leve depois de ouvir suas palavras. Eu mal podia acreditar no que acabara de ouvir.
Era tudo mentira. Karen não estava grávida, tudo não passava de um golpe!
Será que a já estava sabendo disso? Meu Deus, eu precisava contar para ela!
Eu teria me ajoelhado e agradecido aos céus se meu corpo não estivesse todo dolorido. Limitei-me a fechar os olhos e adormecer, esperando que o dia seguinte fosse bem melhor.

~*

O dia amanheceu naquele quarto de hospital e eu já me sentia bem melhor. Uma enfermeira me medicou e me avaliou, sorrindo satisfeita ao perceber que eu estava bem. Assim que ela proferiu as palavras mágicas “pode ir ver seu filho”, eu saltei de minha cama, quase tropeçando em meus próprios pés.
Atravessei o corredor tentando não correr e gritar de alegria, embora eu tivesse certeza de que meu peito estava prestes a explodir. Eu tinha que contar para ela que nosso pior pesadelo tinha acabado. Ninguém ficaria mais entre nós dois, nunca mais.
Dei dois toques sutis na porta, abrindo-a com o máximo de cuidado possível. e Sean assistiam um desenho animado e sorriram ao mesmo tempo ao me ver. Não vou negar que uma lágrima se formou em meus olhos naquele instante.
Eles estavam seguros.
- Oi ,papai! – Gritou Sean, fazendo repreendê-lo com uma risada baixa.
Entrei no quarto e agarrei meu filho, beijando repetidas vezes seus cabelos e bochechas. Fiz o mesmo com , percebendo que havia pequenos arranhões em sua testa. Beijei com cuidado seus cabelos, seus olhos e por último seus lábios.
- Que bom que vocês estão bem.
- Que bom que você também está bem. – afundou sua cabeça em meu pescoço e Sean se aninhou em meu colo. – Pensei que nunca mais fôssemos nos ver.
- Shiu, não diga isso!
- Eu sei, mas é que eu nunca senti tanto medo na minha vida!
- Eu também senti muito medo. – Confessei, olhando bem no fundo de seus olhos, me perdendo em sua iris. – Mas agora estamos bem e estamos juntos, isso é o que importa. Nada pode separar a gente agora, . Nada e ninguém.
Ela concordou, beijando meus lábios singelamente. Aproveitei que estávamos mais tranquilos e resolvi contar sobre a minha descoberta do dia anterior.
- Eu preciso te contar uma coisa.
- Engraçado – ela riu, parecendo um pouco nervosa. – eu ia falar a mesma coisa.
- Me conta você. – Sugeri, acreditando que talvez o Dr. Hall também tivesse contado para ela.
- Não, eu quero que você conte primeiro.
Rolei os olhos, rindo. Brevemente relatei que o Dr. Hall me contou sobre a ‘não-gravidez’ de Karen e percebi que ela ficou genuinamente surpresa com a novidade. Comecei a ficar ansioso ao perceber que também estava um pouco nervosa.
- O que você quer me contar?
- Bom, eu nem sei por onde começar. – se ajeitou, ficando de frente para mim. Sean estava em meu colo, brincando com meu celular. – E isso é tudo muito doido, estamos tendo esse tipo de conversa num hospital e eu não estava esperando por isso, sabe?
- , amor. – Peguei em suas mãos, sentindo-as trêmulas. – Só respire e me conte o que você quer me contar. Eu estou aqui por você. Sempre vou estar.
Um sorriso meigo nasceu em seus lábios e com os olhos marejados, ela disse:
- Eu estou grávida, .
Demoraram alguns segundos para eu processar aquelas três palavrinhas. “Eu estou grávida”. Ela está grávida. Eu vou ser pai de novo.
Aos pouquinhos, as palavras do Dr. Hall no dia anterior começaram a fazer sentido. “Eles estão bem, estão todos seguros”.
- Não brinca! – Eu quase gargalhei e teria dado cambalhotas se Sean não estivesse no meu colo. – Não brinca! Você ta falando sério? Isso é sério? Quando? Como você...?
- Eu não estava sabendo até sofrermos o acidente, até porque eu não estava me sentindo diferente. – Ela riu tímida, cutucando a costura do lençol. – Dr. Hall disse que é um milagre que não tenha acontecido nada com ele.
- Meu Deus. Meu Deus. Eu vou ser pai de novo! E dessa vez eu vou poder acompanhar vocês dois de perto. – Eu não pude conter as lágrimas que insistiam em rolar. Abracei Sean, que ainda parecia não entender o que estava acontecendo. – Sean, você foi promovido a irmão mais velho!
- Eba! Eu quero que seja um menino. – Ele disse rindo com sua pura inocência. – Vou ensinar ele a jogar videogame.
- E se for uma menina? – cutucou suas costelas, fazendo-o gargalhar.
- Ai eu vou cuidar dela. Vou ser o irmãozão.
O momento se tornou tão surreal, mas de uma maneira boa – diferente do dia do acidente. Estávamos ali, sentados numa cama de hospital, enclausurados num quarto sem cor, mas nada poderia estar mais perfeito, porque estávamos felizes de uma maneira que nunca estivemos antes. Estávamos juntos, completos, uma família feliz.
- Eu te amo tanto. – Disse, beijando-a novamente. – Eu vou ser o melhor pai do mundo.
- Você já é. – Ela respondeu, segurando meu rosto entre suas mãos. – E nós três te amamos muito. Para sempre.





Continua...



Nota da autora: Queridas leitoras e leitores, quem diria, estamos na reta final dessa fanfic que tem mais anos de duração do que aquela sua serie preferida. HAHAHA Brincadeiras à parte, espero que cada um tenha curtido cada capítulo dessa história. Eu já disse isso das outras vezes, mas vou repetir porque é sempre bom lembrar: eu sou imensamente grata à todos vocês. Obrigada por cada comentário e pelo apoio. Espero que tenham gostado desse capítulo <3 Beijos!!!E também me sigam lá nas redes sociais, visite o meu perfil de autora e sintam-se a vontade para me mandar mensagem! Beijos e até a próxima atualização!





Nota da beta: Ahhh, meu coração tá bem apertado, porque um ciclo está se encerrando e a gente se apega aos personagens, né? Enfim, fanfic incrível, meus parabéns, de coração!

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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