Fanfic Finalizada em: 22/09/2020

Capítulo 1 - Temporal

“Vai armar um temporal lá fora.” A jovem de cabelos azulados falou enquanto colocava o cachecol em volta do pescoço.
“É...” O rapaz respondeu, dando uma rápida olhada para a janela, voltando a limpar a mesa com um pano em mãos.
“Tem certeza de que não quer ajuda para fechar o caixa?” Ela perguntou novamente, fazendo uma careta de dor.
“Não c, fique tranquila. Pode ir, sério. Eu fecho as coisas aqui.” Ele respondeu com um sorriso mínimo e passou um olhar seguro para ela.
“Obrigada null! Fico devendo essa!” Ela deu um soquinho em seu ombro e saiu apressada. O barulho do sino indicou que a jovem já saía porta afora, deixando apenas o rapaz consigo mesmo.

Após alguns minutos finalizando a limpeza das mesas, null encarou o relógio no alto da parede. O mesmo indicava quinze minutos restantes de trabalho, o que fez o gerente suspirar de cansaço. Com o tempo fechado e o clima frio, o movimento no Café Convict estava mais baixo do que de costume.
A dor nas costas e a necessidade de alongar o corpo lembrou null de que na verdade, o movimento do dia não foi bem distribuído; o local bombou de manhã e no pós-almoço, chegando a um fim de noite vazio, que beirava à melancolia. Olhou novamente para a rua, vendo poucas pessoas ali. Estas, por sua vez, caminhavam apressadamente, da mesma forma que null estaria em... treze minutos.
O caixa já estava fechado, os produtos guardados em seus devidos lugares, a limpeza do local já estava em dia, pronta para uma nova jornada de vai e vem. null estava cansado, e decidiu retirar o avental do trabalho, ficando apenas com sua blusa preta de mangas compridas.
O rapaz estava massageando a base do pescoço quando ouviu o sino da porta soar. Ele respirou fundo antes de se virar, avisando que já estava fechando o Café, mas a pessoa parada na porta o impediu de continuar.

“Já estamos fech-”
“Então é aqui que você se esconde?”

A voz familiar fez com que null não acreditasse em seus próprios ouvidos. Por isso, logo depois dela soar pelo ambiente, o jovem se virou buscando com os olhos a imagem que já pairava em sua mente. Ele piscou três vezes antes de falar alguma coisa. Ela estava em pé, há poucos metros de si, e... sorrindo.

null? É você?” Ele perguntou surpreso, e também sorriu ao ver a garota confirmar com uma leve risada.
“Em carne e osso!” Ela respondeu, apontando para si mesma. “Posso entrar?”
“Claro!” Ele disse, caminhando em sua direção, vendo que ela fazia o mesmo após sua permissão.

Os dois pararam a centímetros um do outro, se encarando atenta e carinhosamente, e cerca de segundos depois mergulharam num abraço apertado.

“Deus, null! Que saudade que eu estava de você, disso!” A jovem confessou, apertando o corpo do rapaz com mais vontade, mostrando sinceridade em seus dizeres. Ele riu sem acreditar no que estava acontecendo.
“Cara, nem fala! Eu... Eu nem sei o que dizer! Quer dizer, olha só pra você!” E se afastou levemente, segurando a garota pelos ombros, enquanto reparava em si. “Está linda, elegante... e de cabelo null!” Ele comentou rindo, pegando em um dos fios soltos debaixo da touca grafite que ela usava.

A gargalhada de null soou no local vazio, e ela deu um leve tapa no ombro do gerente.

“Você para de graça, está me deixando sem jeito! Aliás... Não mudou nada!” Ela disse, acariciando o rosto dele, que sorriu afetuosamente. “Esse cabelo grande... Faz sucesso, não faz?” Ela perguntou rindo, mexendo no rabo de cavalo. Foi a vez dele rir alto.
“Quer tomar alguma coisa? Temos vários tipos de café...” null ofereceu, apontando para o cardápio que ficava logo acima das máquinas de café, em letras garrafais.
“Mas você estava já fechando! Eu não quero dar trabalho, podemos ir a um outro lug-”
“Nada disso! E fazer você se apaixonar por outro lugar da cidade que não seja o Convict? Nem morto! Vamos, entre e fique à vontade.” Ele a interrompeu, trancando a fechadura da porta e virando a placa, que passou a sinalizar “FECHADO” para qualquer um que olhasse de fora.

null orientou o caminho para a melhor mesa do lugar, que ficava num canto intimista com uma luz suave num lustre central. Indicou null para a poltrona acolchoada e lhe sorriu ao perguntar:

“Ainda gosta de chocolate quente?” Ela sorriu e mordeu o lábio inferior.
“Certos costumes nunca vão embora, né? Está muito na cara? Tô morrendo por um desses bem gostoso!”
“Então se prepare para o melhor chocolate quente da sua vida!” Ele vibrou, fazendo cara de convencido enquanto null ria de sua postura. Logo se retirou para a cozinha, e com atenção e afeto, preparou a bebida quente enquanto colocava uma porção de mini croassaints para assar no forno.

Quinze minutos depois e lá vinha o homem dos longos e sedosos cabelos, com um pequeno sorriso no rosto. null retirou os braços da mesa, sorrindo animada para o que o rapaz trazia na bandeja.
Com delicadeza, pouco a pouco o espaço foi preenchido; duas canecas fumegantes de chocolate quente, em cima de dois porta-copos com o logo da Convict, um grande prato com oito croassaints recém assados, e pequenas porções de manteiga, geleia de amora e requeijão.

“Temos croassaints recheados com queijo e presunto, sem recheio e quatro queijos. Fique à vontade para se servir e degustar do melhor Café da cidade.” null anunciou com uma piscadela, e null literalmente lambeu os lábios ao encarar a mesa tão bem composta e servida.
“Nossa, isso tudo parece tão maravilhoso! Hoje eu saio da dieta com gosto!” Ela respondeu com todos os dentes aparecendo em seu sorriso, e erguendo a mão para alcançar a asa da caneca do chocolate quente.
“Dieta? Pra que dieta?” null perguntou com a sobrancelha arqueada, enquanto descansava o queixo na mão esquerda. Ele gostava de observar pessoas comendo, e null acabava de se tornar mais uma de suas memórias sobre esse gosto peculiar.
“Essa vida de adulta acabou comigo, null! Nunca pensei que chegaria nos meus 21 anos correndo atrás pra manter a saúde, mas não há nada que um curso de medicina não seja capaz de mudar na vida de alguém, né?” E suspirou com um sorriso ameno.
“Você está ótima, mas continua exagerada como sempre...” Ele comentou com um sorriso de canto, e puxou sua caneca para si.
“Meu. Deus. Do. Céu.” null falou pausadamente, encarando sua bebida logo após tomar o primeiro gole. “Caralho, null! Que que isso!?” Ela encarou o rapaz de boca aberta e ele riu levemente, dando de ombros.
“Eu te avisei.”
“Porra, mas eu não esperava que fosse ser tão verdade!” Ela exclamou, dando outro gole. Gemeu baixinho enquanto apreciava de olhos fechados. “Meu Deus, que coisa maravilhosa! Isso tem gosto de infância!” Ela constatou, e null concordou enquanto tomava o seu.
“E como...” Ele divagou, encarando o líquido na caneca.

null estava prestes a morder um croassaint quando parou no meio do caminho. Precisou de apenas alguns segundos para adivinhar o que se passava na cabeça da pessoa à sua frente. O olhar triste que se escondia num rosto aparentemente leve não deixou dúvidas; afinal de contas, era a mesma face que ele fazia quando perguntavam se ele estava bem, há anos atrás. E na época, o garoto apenas concordava e mudava de assunto.
Com as memórias tão vivas das feições de null, null respirou fundo e perguntou:

“Faz quanto tempo mesmo?” O homem ergueu os olhos null do chocolate quente e a encarou por um tempo antes de responder.
“Sete anos.” A voz saiu mais grave do que de costume, e null uniu as mãos enquanto acenava com a cabeça.
“Passa rápido, não é?” Ela apontou, com um sorriso amarelo.
“Muito.” Ele concordou, olhando para a mesa e reparando na fumaça que saía das canecas.

Ambos permaneceram em silêncio que não era desconfortável, mas sim respeitoso... acolhedor até.

“Foi a última vez que nos vimos.” Ele comentou, sorvendo de sua bebida. null levantou o olhar para si e o cenho franzido denunciou a incompreensão da jovem.
“No enterro.” Ele explicou, e ela arregalou levemente os olhos, molhando os lábios enquanto viajava em sua mente.
“É verdade. Foi tudo tão corrido, tão dolorido. Eu queria ter estado por perto por mais tempo, null. Sua mãe era uma pessoa muito querida pra mim e pra minha família.” A garota esticou a mão e alcançou a dele, dando um aperto quente e carinhoso na pele do rapaz, que retribuiu o gesto.
“Você fez o que pôde, null... Fez mais do que isso até. Lembra?” Ele perguntou num sorriso brincalhão, e ela o encarou por um momento, antes de dar um tapa na própria testa e começar a rir.
“Por favor não comente sobre minha fuga falha.” E ele sorriu sincero.
“Foi um ato corajoso, determinado e prematuro. Mas mais do que tudo, foi um ato de parceria e afeto. E eu fico feliz que tenha tentado.”
“Porra null, pelo menos tenho seu reconhecimento! Porque meus pais até hoje falam de como eu fui idiota de tentar viajar mais de oito horas para cá aos 14 anos para ver vocês, mesmo tendo acabado de chegar na nova cidade.” E ambos riram cúmplices e se olharam por um momento.

Conforme as risadas foram cessando, apenas o olhar restou. E null não se lembrava dos olhos de null serem de um tom tão brilhoso, ao tempo que a intensidade do olhar só evoluiu com o passar dos anos. Já o rapaz percebia os pequenos tons null dentro dos olhos da jovem e sorriu involuntariamente ao pensar que, mesmo depois de tanto tempo, null ainda tinha a curiosidade infantil tatuada em seu semblante.
Os dois ficaram um tempo assim, até que uma forte trovoada soou do lado de fora e a mulher deu um pequeno pulo no lugar, apertando involuntariamente a mão de null presa à sua.
E foi ali que ambos perceberam que estavam o tempo todo com as mãos unidas. Ele foi o primeiro a retirar, pigarreando sem graça.

“Medo de trovões?” Ele perguntou, levando a caneca à boca.
“Sim, um pouco.” Ela respondeu sentindo as bochechas queimarem, se ocupando de provar o croassaint.
“Esse é o sem recheio. Pode provar com essas opções.” null apontou para as porções e null optou pela manteiga, que derreteu em contato com o salgado quente.
“Meu Deus, null. Eu vou morrer comendo isso, sério.” Ela disse logo após mastigar e ele aproveitou para pegar um de quatro queijos.
“Esse aqui é de matar mesmo.” Ele assumiu, mastigando com calma e deleite.
“Mas então, o que me conta da vida? Como vai família, estudos, trabalho... amores?” null perguntou, arqueando uma sobrancelha na última palavra, fazendo null sorrir ladino.
“Bem, me formei em gastronomia e estou investindo nesse negócio, me sentindo bem feliz e realizado em fazer o que gosto. Não é uma coisa na qual eu nado no dinheiro, mas nem é o intuito. Eu me estresso, mas fico muito satisfeito com o resultado. O Café Convict vem ganhando seu espaço na cidade e eu não poderia estar mais feliz. Foi fruto de muito investimento, de esforço, de sonhos e tradição familiar. Afinal de contas, esse chocolate só é o melhor graças à receita da matriarca null, né?”

null o olhava com um sorriso admirador, ouvindo com alegria tudo o que o jovem lhe falava.

“Que ótimo ouvir isso, null. Eu fico muito feliz por você!” Ela confessou e emendou em outra pergunta. “E a família? Os homens null, como estão?” null sorriu de lado e deu de ombros.
“Estão todos bem. Meu pai segue trabalhando na empresa de turismo, mas está ajeitando as coisas para a aposentadoria. Quer viver no sítio do meu avô.”
“Eu super vejo ele plantando umas cebolinhas, uns tomates-cerejas...” A jovem comentou rindo e ele concordou.
“E null está se formando em direito, como você sabe. Está namorando uma nutricionista esportiva chamada null e está na onda do crossfit.” Ele explicou com o rosto surpreso e null gargalhou.
“Ah Meu Deus, como pode? null crossfiteiro? Gente, se ele já era chato quando era o colírio da galera com 12 anos, agora deve estar insuportável de tão bonito... E se achando!” Ela comentou rolando os olhos e null apontou para si.
“Cuspir no prato que comeu é coisa feia, hein?”
“Ai, cala a boca garoto! Isso foi há uns dez anos, eu apenas perdi meu BV com ele!” null deu um leve tapa na mão de null, que riu da cara tímida que ela fez.
“Vamos contar essa história direito? Foi BVL! Você beijou meu irmão de língua!!!” Ele caçoou, remexendo na touca da jovem, enquanto ela gemia em frustração, escondendo o rosto nas mãos.
“Para, null! Foi só um beijo!”
“Uns beijos!” Ele completou, cruzando os braços. “E nem adianta mentir. Eu estava lá, eu vi tudo.”
“Claro que viu! Você que foi a peste que deu a ideia!” Ela exclamou, tirando as mãos do rosto e apoiando na mesa. null gargalhou alto.
“Eu estava tentando te ajudar! Você era caidinha pelo null, cara!”
“E ali mesmo eu me desapeguei dessa paixãozinha sem sentido! null era muito idiota convencido, não acha?” Ela rebateu, fazendo cara feia.
“Mas a gente não manda no coração, né? Você tá reagindo estranho para quem superou esse amor!” Ele zoou novamente, a encarando com as sobrancelhas subindo e descendo, e ela gargalhou alto.
“Sem chance, null!” E ambos riram levemente, até que se acalmaram.
“Falando sério, meu irmão melhorou bastante. E esse novo relacionamento tem feito bem a ele. Do jeito tinhoso de null, apenas o amor poderia provocar tanta mudança mesmo.” O rapaz analisou, comendo mais um croassaint.
“Eu brigo, mas eu amo aquele chato... Como amigo, tá? E fico feliz que ele tenha encontrado alguém. De verdade!” null disse, com um sorriso nos lábios.
“Mas e você? O que me conta?” null perguntou, dando um novo gole no chocolate.
“Ah, null... Minha vida não é muito interessante não! Correria de estudante de medicina, algumas cervejas pra espantar as desgraças, alguns embustes pelo caminho, e muito, mas muito café!” Ela resumiu tudo, rindo logo após finalizar sua fala. null arqueou a sobrancelha.
“Embustes?” null confirmou, fazendo uma careta.
“Sim... Eu começo a achar que não nasci com sorte pro amor.” Ela sorriu de forma zombeteira e deu de ombros. “E você tá aí, não me deixando mentir: até o null tá bem acompanhado, mesmo sendo um velho ranzinza de 84 anos crossfiteiro. E eu aqui quebrando a cara em relacionamentos surreais...”

O tom utilizado na última palavra fez null estranhar a fala de null. Além da possibilidade do significado, aquilo definitivamente não soava bom.

“Surreais?” Ele decidiu insistir e ela suspirou, pesarosa.
“Você quer mesmo falar disso?” Ela perguntou, o olhando com sinceridade, e nos olhos null, null viu um lampejo de dor passar.
“Se isso for desconfortável pra você, não se sinta obrigada. Eu só fiquei preocupado.” Ele respondeu honestamente, cruzando os braços em cima da mesa. null suspirou e riu nervosa.
“Não é um assunto fácil, mas imagino que se você tivesse passado por isso, eu também gostaria de saber como ajudar, porque também estaria preocupada...”

E então, ele teve a confirmação de que de fato, o que quer que tivesse acontecido no campo amoroso de null, não foi bom. Sem saber exatamente o que dizer, null escolheu o silêncio, prestando atenção na mulher a sua frente que brincava com os dedos e os olhava com atenção.

“Eu terminei um relacionamento de 3 anos... abusivo.” O peso do termo recaiu sobre os dois, e null prendeu a respiração ao ouvir aquilo. null continuava a olhar os dedos e umedeceu os lábios, num gesto nítido de desconforto.
“No início eram tudo flores, né? Literalmente! E chocolates, e carinhos, demonstrações públicas de afeto... Até que as preocupações começaram a deixar de ser fofas e passaram a ser sufocantes, sabe? Uso de roupa, companhia para programas, amizades que ele achava suspeitas. Até que um dia eu insisti em ir no aniversário da minha melhor amiga da faculdade e ele me deu um tapa no meio da cara.” Ela riu sem humor e null piscou os olhos, sentindo sua feição se alterar para incredulidade.
“Sabe o que é pior? Aquilo aconteceu com menos de um ano de namoro.” Ela pegou um guardanapo e começou a fazer dobraduras, enquanto sorria de forma forçada. “Isso significa que mesmo depois disso, eu persisti por mais de dois anos. E a partir daquele dia em diante, eu passei a evitar saídas, a não me vestir como queria, a sequer falar com meus amigos. Eu me fechei no meu mundo, porque toda vez que Alain me agredia psicológica, física ou verbalmente, ele se arrependia depois. E me fazia acreditar que de alguma forma, a culpa era minha pelas brigas que ele começava. E eu me via pedindo desculpas por coisas que não fiz, que não era eu a errada, de fato. Eu estava tão cega achando que aquilo era amor, que iríamos superar as dificuldades, que eu casaria com o cara com quem perdi a virgindade... Você não sabe como me tornei expert em maquiagem por causa disso, null!”

null deu uma pausa para fazer uma piada, que de humor não tinha nada. Ela apenas usou aquilo como escape, para respirar e impedir a queda das águas nos olhos marejados, limpando rapidamente o canto dos mesmos.
null levou sua mão direita até à dela, fazendo com que a garota lhe olhasse com um sorriso triste.

“Eu sinto muito, null. Ninguém deveria passar por algo assim.” Sua voz saiu triste e melodiosa, e a jovem concordou com a cabeça.
“Eu também acho! E só descobri isso há uns três meses, quando decidi dar um basta. A maioria dos amigos tinham desistido de mim, menos null, a melhor amiga da faculdade. Ela conseguiu me explicar como aquilo estava inaceitável, enumerou fatos, situações, acontecimentos diversos e até traições que me fizeram enxergar que eu não merecia aquilo. E quando fui confrontar Alain e terminar de vez, ele tinha simplesmente desaparecido.”
“Como é?” null perguntou, confuso.
“Essa é a parte em que acho boa e ruim ao mesmo tempo. Há três meses ele está sumido, ninguém tem notícias dele. Mas descobri pela null que uma colega da faculdade está grávida. Adivinha de quantos meses?” Ela perguntou e null desaprovou com a cabeça.
“Três.”
“Pois é. E ela não namorava ninguém, não falava sobre o pai da criança. Mas uma amiga dela é amiga de null, e então soubemos que se tratava de Alain. Ele tinha me traído com ela, a engravidou e simplesmente meteu o pé. Dá pra acreditar?”
“Dá. Um ser repugnante como esse é capaz de tudo.” null respondeu, totalmente enfurecido pelo relato de null.
“Pois é. De uma forma ou de outra me livrei dele, mas sinto pela criança e pela garota, que não tem nada a ver com a escrotidão de Alan. Ela tem 19 anos, sabia?”
“Puta que pariu. E ele?” null indagou, curioso.
“25.”
“Hm. Patético. Minha idade.”
“Pra você ver que nem todo mundo é um cara maneiro como você, null.” Ela brincou, terminando de beber sua bebida. null não conseguiu rir; cruzou os braços e apertou suas mãos para si, as apertando até sentir a unha marcar a carne.
“Por que você não nos ligou?” Ele perguntou depois de um tempo em silêncio. null bufou.
“Eu não tinha forças, null. A coisa que mais ouvi durante todo esse tempo foi isso, mas parece que ninguém sabe como é estar nesse lugar, não é mesmo?”

O silêncio retornou, desta vez desconfortável. null entendia o incômodo de null, afinal de contas, aquilo poderia soar como uma pressão sobre a vítima, em como teoricamente deveria ter agido, como se fosse algo fácil, dado. E isso a irritava, porque se tratava novamente em focar no que a vítima não fez, ao invés de questionar o agressor e suas atitudes que deveriam ser muito mais questionáveis do que as dela.

“Me desculpe.” null disse com a voz grave, e levou as mãos até as dela, que o olhou receosa. “Eu não quero que você sofra mais com isso do que já sofreu... Sinto muito por você ter passado por tudo isso, null. E de todos os possíveis desfechos, eu fico feliz que tenha rompido esse ciclo. E mais ainda por estar aqui e sentir à vontade para partilhar comigo. Fico verdadeiramente feliz que confie em mim para isso... Te ouvir falar sobre tudo dói em mim, mas sua força não passa despercebida, ok? Eu quero que você saiba isso. Que estou orgulhoso e feliz pela sua coragem, e muito aliviado de que você esteja aqui... comigo.”

As mãos se apertavam com força. Mais uma trovoada soou lá fora, e rapidamente a chuva caiu. Mas nada disso fez com que o olhar entre ambos se rompesse. Muito pelo contrário; o choro silencioso de null tomou vida, e o som da natureza parecia chamá-la para o pranto aberto, expressivo, ensurdecedor.
null não pensou duas vezes e se deslocou para o lado de null, indo ao encontro de seu corpo trêmulo e o abraçando com todo o cuidado do mundo. E assim, ela agarrou as costas dele com desespero, mergulhando o rosto em seu peito e permitindo-se chorar. Os sons dos trovões, agora mais presentes, misturavam-se à voz falha e à respiração irregular da jovem.
null segurou a cabeça de null com as duas mãos e acariciou sua nuca, fazendo “shh” contra o ouvido dela, acalmando a jovem aos poucos.

null...” Ela chamou depois de um bom tempo.
“Hm?” Ele perguntou, sem parar o leve embalo acolhedor.
“Canta pra mim como você fazia quando éramos mais novos?” Ela pediu, levantando o rosto apenas para encarar o queixo protuberante do rapaz.
“Cantar?” Ele indagou, parando de se mexer.
“É. Por favor...” O ar que null soltara rebateu no pescoço de null, aonde a jovem voltou a se aninhar, como se ali fosse um lugar no qual ela poderia descansar. E null gostava de pensar sobre isso, assim... desta forma.
“Ok.” Ele respondeu sem jeito, pigarreou e começou a cantar a única música que vinha à sua mente naquele momento, encarando a chuva torrencial do lado de fora.

Sweet creature
(Doce criatura)
Had another talk about where it's going wrong
(Tivemos outra conversa sobre onde estamos errando)
But we're still young
(Mas ainda somos jovens)
We don't know where we're going
(Não sabemos para onde estamos indo)
But we know where we belong
(Mas sabemos aonde pertencemos)


Sem perceber, null posicionou o queixo em cima da cabeça de null e a embalou num ritmo lento e calmo, como a música que cantava. A mulher reconheceu a melodia e por um momento achou que sorriria com o olhar, devido à escolha sensível de null. Então apenas se permitiu fechar os olhos e deixar rolar algumas lágrimas silenciosas pelo rosto, que morriam no mínimo sorriso dos lábios curvados.

And oh we started
(Oh, nós começamos)
Two hearts in one home
(Dois corações em um lar)
It's hard when we argue
(É difícil quando discutimos)
We're both stubborn
(Nós dois somos teimosos)
I know, but oh
(Eu sei, mas oh)

Sweet creature, sweet creature
(Doce criatura, doce criatura)
Wherever I go, you bring me home
(Onde quer que eu vá, você me leva para casa)
Sweet creature, sweet creature
(Doce criatura, doce criatura)
When I run out of road, you bring me home
(Quando chego ao fim da linha, você me leva para casa)


Quando ele terminou, notou que null estava quieta demais em seus braços. Olhou de soslaio, percebeu que ela adormeceu em meio à cantoria, o que fez com que ele sorrisse ao pensar que certas coisas não mudavam.
Subindo as escadas com ela em seu colo, null refletia sobre a vida e suas circunstâncias inusitadas. Nem em mil anos imaginaria que aquela noite acabaria assim, com ele e null dividindo um sofá cama de seu escritório, logo acima do estabelecimento, tendo apenas a chuva de testemunha daquele curioso encontro que o destino pregara.
Agradeceu mentalmente que null pegaria o turno da manhã seguinte, pois pela hora avançada, null teria problemas em acordar cedo e trabalhar na correria. Desativou o alarme do celular com tranquilidade, e se ajeitou para deitar. null deveria estar realmente cansada; não se mexeu desde que ele a colocou no sofá cama, ficando na mesma posição em que foi posta.
Ele sorriu com esse pensamento, e se ajeitou para dormir, puxando uma almofada para debaixo de sua cabeça. Deitou a nuca, respirou fundo, também sentindo o cansaço tomar conta de si. A chuva lá fora servia como canção de ninar, e null se sentiu relaxado o suficiente para dormir em poucos minutos.
E antes de adormecer de fato, a última coisa que sentiu foi um corpo esguio e mediano se acoplar ao seu, e o perfume familiar atingiu suas narinas, sendo assim a cereja do bolo para um sono tranquilo e pacífico – nada mais nada menos do que seus dedos curiosos m meio ao cabelo da jovem, numa noite fria e chuvosa.


Capítulo 2 - Orvalho

Mesmo com a manta pesada, poderia se afirmar com tranquilidade que aquele dia estava mais frio que o anterior. Então não seria exatamente uma surpresa se null abrisse os olhos sonolentos e encontrasse algo extremamente null dominando sua visão.
Piscando devagar, começou a ter consciência do que estava acontecendo, até que se lembrou da noite anterior, de null, da conversa íntima e delicada, do pranto sufocado, da chuva, e do sono arrebatador.
Sim, ele se lembrava da amiga se arrastando no sofá-cama até si, como se pedisse um afago, e ele logo concedeu seu desejo com carícias na cabeça. E assim, eles adormeceram. Só que mesmo diante de tudo isso, ele não sabia explicar como ou quando os dois acabaram naquela posição, na qual ele se agarrava à cintura dela, com os corpos unidos, e o rosto enfiado na cabeleira roxa da garota.
Os olhos se arregalaram com aquela constatação e ele pensou em como se explicaria caso ela acordasse daquele jeito depois de uma noite de confissões tão íntimas e dolorosas. Ele não queria que ela pensasse mal dele, seria uma merda na verdade. Ela poderia achar que ele estava se aproveitando de sua fragilidade, da situação como um todo e isso só pioraria as coisas.
Com esse pensamento, ele tratou de se afastar delicadamente, para que não a acordasse. Foi retirando aos poucos o braço direito que estava debaixo do dela e assim que conseguiu, se virou feito um felino na cama, ficando de costas para null e respirando fundo, aliviado.
Ficou olhando a janela, ainda sonolento. Pela claridade, deveria ser cedo, bem cedo... Talvez antes das sete da manhã. Estava estranhando a falta de barulho no andar debaixo, quando uma luz cortou o céu e um estrondo ressoou ao redor. Segundos depois, voltou a chover como na noite anterior, e null encarou a cena um pouco alarmado. Era um fluxo muito grande de água para pouco tempo.
Esticou o braço e alcançou o celular na mesa de cabeceira, e percebeu que haviam duas ligações perdidas e uma mensagem não lida de null:

“Mano, não vou conseguir chegar no Café. A cidade tá um caos, tá tudo alagado, árvores caídas por toda parte. Estou há meia hora esperando abrir a estação de metrô, mas acabaram de informar que tá tudo debaixo d’água. Parece que o prefeito vai declarar situação de emergência. O que você acha melhor? Abrir ou suspender atendimento hoje? Me fala que eu repasso para a equipe da manhã – o grupo tá nervoso aqui querendo saber. Beijo no saco, seu lindo.”

Apesar da situação periclitante, o tratamento do sócio de null não passou despercebido pelo null, que riu com a forma de null amenizar a situação com poucas palavras. E quanto ao Café, estava mais do que óbvio: não abriria hoje, e anunciou diretamente no grupo dos funcionários. Informou também que ninguém seria descontado por isso, para que ficassem tranquilos, que a única perda seria a possibilidade de gorjetas, o que arrancou risadas e bom humor da equipe.
Assim que terminou de enviar as mensagens, um novo trovão se fez presente, e ele sentiu o colchão se remexer atrás de si. Permaneceu parado a fim de não interromper o sono de null, mas qual não foi sua surpresa quando o braço dela lhe cobriu a cintura, e automaticamente o corpo da jovem estava de novo colado ao seu?
Endurecido como pedra, ele virou lentamente a cabeça para o lado, conseguindo ver pelo canto dos olhos o rosto tranquilo e cansado da amiga, praticamente afundado em suas costas. Após isso, null relaxou e até sorriu com aquela cena, pensando que a jovem deveria estar realmente exausta, assim como ele estava. E seguindo o exemplo dela, se endireitou na cama, descansou o celular na mesa de cabeceira e fechou os olhos para dormir mais um pouco.
Parecia que apenas dez minutos haviam se passado, mas o coração palpitou alarmado quando ele ouviu um barulho de tampa de panela cair no chão.

“Merda!” Ele ouviu uma voz soar baixinho, e com os olhos já abertos, procurou a garota pelo sofá-cama, não encontrando-a. Sentou-se e olhou em volta, vendo que a mesma tentava improvisar algo no pequeno fogão da área da copa, no canto do escritório.

Ele relaxou a postura, piscando de forma sonolenta. Esfregou as mãos nos mesmos, e ouviu a jovem falar consigo.

“Eu te acordei, não foi?” Ela perguntou com a voz culpada. null riu e concordou, retirando a mão da vista e a encarando.
“Não se preocupe com isso. Bom dia.” E se alongou com preguiça.
“Bom dia! Desculpa mesmo! Aceita uns ovos mexidos e umas torradas como uma forma de me redimir? Tem café também.” Ela comentou sorrindo e foi a primeira vez que ele a olhou atentamente naquele dia. Ela estava engraçada; os cabelos rebeldes, a calça legging preta, a blusa verde escura larga com as mangas arregaçadas até o cotovelo, e um avental com o logo da Convict bem amarrado ao corpo.
“Vou aceitar o café. Não sinto tanta fome de manhã.” Ele explicou enquanto levantava-se do sofá e se sentava à mesa, encarando o relógio na parede. Já passavam das dez da manhã.
“Nossa, como consegue? Eu sou uma traça de manhã. Morro de fome, é a minha refeição favorita!” null exclamou, terminando de fritar os ovos e colocando numa tigela funda e pequena. “A propósito, roubei algumas coisas de lá debaixo para fazer o café. Espero que não se importe, pode colocar tudo na minha conta, inclusive. É minha forma de agradecer.” null a encarou confuso.
“Como assim colocar na sua conta? Já está fazendo um café, mesmo sendo a pessoa mais atrapalhada do mundo! Eu reconheço sua força de vontade, seu empenho e suas intenções, não tem isso de conta. Desculpas aceitas.” E piscou sorridente, enquanto ela ria sarcástica.
“Ha-ha-ha. Muito engraçado! Uma tampa de panela no chão não me define, ok?”
“Não, mas uma vida se estabacando por tropeçar nos próprios pés, sim.” null devolveu com os braços cruzados, piscando várias vezes e fazendo uma cara de sabichão, enquanto a jovem apenas deu o dedo do meio e riu concordando.
“Céus, eu deveria ter procurado ajuda. Mas te garanto que isso melhorou bastante nos últimos anos, ok? Agora cala a boca e prova meu café.” Ela serviu o líquido fumegante na caneca que tinha o nome do gerente da Convict.
“Ah, eu não coloquei açúcar, porque não sei como você prefere...” Ela acrescentou, sentando-se à mesa logo após retirar o avental.
“Acertou em cheio, eu bebo café sem adoçar!” null comentou surpreso enquanto mexia a cabeça em concordância.
“Como eu suspeitava... Você já está morto por dentro, só não sabe.” null brincou enquanto adicionava gotas do adoçante ao seu café, e foi a vez de null rir debochadamente.
“Você sempre acorda com a língua afiada assim? Quer dizer que além de me acordar no susto, ainda quer falar mal da minha pessoa? Nossa, que bela amiga você é.”
“Bela eu sou mesmo. Amiga também.” Ela riu animada, colocando a mão reta embaixo do queixo e mandou um beijinho para null, que riu com a cena.

Após bebericar, ele percebeu que a amiga fazia um café forte, como gostava.

“E então?” Ela perguntou após mastigar um pedaço de torrada.
“Porreta.” Ele respondeu com a face surpresa, e os lábios curvados para baixo, enquanto null ria animada.
“Yes!!! Te falei que algumas coisas melhoraram de uns tempos para cá.” E piscou cruzando os braços. Ela estava sorrindo quando olhou para fora da janela, vendo que a chuva não dava parava.
“Caramba, caiu com força mesmo.”
“Pois é. Você tinha algum compromisso hoje?” null perguntou, bebendo café.
“Não muito. Na real, estou hospedada numa pousada aqui perto, aproveitando as férias da faculdade e do estágio. Então tá tranquilo! Estou preocupada com o Café Convict, na verdade. Hoje não vai rolar abrir, né?”
“Não enquanto durar essa chuva...” null respondeu, com uma careta. “Mas não vou brigar com a natureza. Aliás, falando nisso, eu preciso esclarecer as coisas: ontem você acabou dormindo, e a chuva estava muito forte, então achei melhor...”
“Tudo bem.” Ela respondeu com um sorriso agradecido. “Sério, tá tudo bem. Eu entendi tudo quando acordei. Como sempre, você sendo muito cuidadoso, né? Obrigada, null.”
“Não há o que agradecer. Estamos aí pra isso.” Ele devolveu, sorridente e cruzando os braços. “E como você está?”

A mulher umedeceu os lábios e voltou a olhar a chuva, sabendo que aquela não era uma mera pergunta de rotina. Ele queria saber verdadeiramente como ela estava. Então a jovem meneou a cabeça, reparando nas gotículas que grudavam na janela, formando desenhos aleatórios.

“Estou bem. Estou me sentindo muito bem, para ser sincera. Como há muito tempo não me sentia.” E voltou a olhar null com um sorriso no rosto.
“É muito bom ouvir isso.” Ele acrescentou, concordando com a cabeça.
“É muito bom sentir e dizer isso!” Ela exclamou rindo levemente, enquanto brincava com o próprio cabelo. “Eu estou com uma sensação boa, sabe? Como se estivesse há muito tempo com uma substância ruim no corpo, que me causava torpor e não me fazia bem. Parece que nesses últimos três meses tenho conseguido me livrar dela. E nem preciso dizer o quanto ontem foi crucial para me curar mais ainda, não é?”

null não sabia o que fazer além de sorrir, genuinamente feliz pela amiga. Ele sabia que era preciso muita coragem para dizer aquelas coisas, colocar para fora daquela maneira, além de fazer isso com alguém como ele, pois por mais que fosse um amigo de longa data, era alguém que ela não via há anos. Mesmo que eventualmente se falassem por vídeo-chamadas e redes sociais, não era a mesma coisa. null estava realmente triste por pensar que ela passou um verdadeiro inferno nos últimos três anos e ele sequer suspeitava disso.

“Eu fico sem graça com isso tudo, null. As aparências realmente enganam e eu achava que você levava uma vida boa, sabe? Bem como havia sonhado, quando nos falávamos mais no começo da sua faculdade. Eu sinto muito que tenha passado por isso tudo, de verdade.” Ele disse, estendendo a mão para alcançar a dela, que aceitou o gesto de bom grado.
“Sinto muito por não estar lá por você.” Sua voz desceu alguns tons e ele encarou as mãos dadas com o cenho franzido, se questionando que tipo de amigo era para null, sem fazer ideia das coisas que ela havia passado.
null, você não tem culpa de nada. Eu sempre disfarcei tudo muito bem, e tenho responsabilidade nisso, sabe? Quer dizer, foi a minha forma de lidar com as coisas. E foi uma escolha errônea, improdutiva, perigosa. Mas foi o que deu pra fazer e o que achava certo na época. Agora eu sei o quanto foi imprudente, ruim... E o que importa é que estou bem, que Alain é passado. Eu tenho um presente e um futuro a traçar e serei capaz de fazer isso por ter pessoas como null e como você ao meu lado. Então agora só quero focar no que posso vivenciar de bom nessa vida... Se a chuva der um tempo, é claro.” Ela falou a última frase rindo, arrancando um sorriso de canto do gerente do Convict.

Aquilo não o animava de todo, ainda se sentia culpado, mas era “menos mal” quando null estava fora de perigo, pelo menos. Estava tão absorto que mal viu o tempo passar, e quando deu por si, null já estava retirando as coisas da mesa, deixando uma torrada e a porção de ovos para ele.

“Coma, null. Pelo menos um pouco. Não faça essa desfeita...” Ela repreendeu enquanto lavava a louça na pia. O homem sorriu e separou uma colherada de ovos com torrada, apreciando o sabor preparado por null.
“Está muito bom. Parabéns.” Ele analisou e a jovem riu debochada.
“Dá pra dizer que sou especialista em ovos, Master Chef?”
“Pode acrescentar no currículo, vai dar bom.” Ele riu com a gargalhada de null.
“Porra, imagina só? Médica e especialista em ovos? Definitivamente sou pioneira na minha área. Obrigada por isso, null!” E ambos riram animados.

Ela terminou de secar o último talher e voltou a se sentar. O null mastigava com preguiça, com o joelho erguido e o cotovelo esquerdo descansando sobre o mesmo. null estava com o queixo apoiado nas mãos encarando null com os olhos atentos. Ele por sua vez parou de mastigar e a olhou em confusão, sem entender toda aquela atenção.

“O que foi?” Ele perguntou depois de engolir a comida.
“O que foi o que?” Ela devolveu, sem alterar a feição. Ele riu sem graça.
“Você tá me encarando.” Ele explicou, olhando-a também.
“Sim.” Ela concordou, e ele riu de novo, tentando ignorar os olhos null enquanto comia. Mas após três mordidas, ele não aguentou a pressão.
“Você está me deixando encabulado.”
“Uau! Encabulado? Assim você entrega sua idade, garotão.” Ela brincou, colocando a língua pra fora e ele deu o dedo do meio, risonho.
“Eu sou o tipo de cara que posso ter cem anos, se eu fizer a barba, volto a ter vinte numa boa.” E deu de ombros, enquanto ela rolava os olhos.
“Eu preciso concordar com isso. Aliás, nunca te vi de barba! Você já usou alguma vez?”
“Sim, mas não é minha praia... Gosto do meu rosto aparecendo por completo.” Ele dizia enquanto ajeitava o rabo de cavalo. null acompanhou os movimentos e seus olhos brilharam.
“Eu também nunca te vi de cabelo solto.” Ela sorriu a ponto de mostrar os dentes e null a encarou abismado.
“Sério? Que isso!”
“Você vivia de cabelo preso... E não tem foto sua com ele solto.” Ela falou, tamborilando os dedos em cima da mesa, e ele fez uma careta como se nunca tivesse pensado sobre isso.

Num movimento gracioso, ele puxou o elástico que prendia os fios, tornando-os livres. Ajeitou um pouco pra lá e pra cá, e apontou pra si.

“Voilà!” Disse animado, e null sorriu abertamente, com certa surpresa. Parecia reparar em mais um detalhe bonito do rapaz, em como ele parecia mais natural com o cabelo daquele jeito.
“Nossa, cara. Você deveria usá-lo assim mais vezes. Fica muito bem em você.” Ela disse, fazendo um joinha com a mão e arrancando uma risada amena de null.
“Você está sendo apenas gentil. Eu já falei que não precisa pagar conta alguma e já aceitei suas desculpas por ter me acordado. Então para de puxar meu saco, null.” Ele brincou e ela riu, negando com a cabeça.
“Saiba receber um elogio, null. Tá gato, vai por mim. Homens de cabelos longos tem sempre um bom lugar reservado no coração da galera.” E piscou enquanto null concordava.
“E você? De onde tirou a ideia do null? Até pouco tempo seus cabelos eram naturais...” Ele divagou e ela sorriu de forma mais contida, dando de ombros.

A jovem encarou a mesa, e com os dedos ainda tamborilando, respondeu.

“Eu deixava daquele jeito porque todo e qualquer cara que gostei preferia ele assim. Inclusive null!” Ela riu levemente, sem de fato achar uma graça no que dizia. “Mas desde que entendi que não é sobre o outro, e sim sobre o que eu penso e quero pra mim, percebi que essa é a minha onda. Então, realizei um desejo de adolescente e pintei o cabelo de null.” Ela assumiu, risonha.
“Eu gostei. Ficou bom em você.” Ele apontou, e ela levantou o olhar para si.
“Sério?” Indagou, incerta.
“Seríssimo. Ficou tão bom que eu diria que você sempre foi assim, que essa sempre foi você. É a sua cara.” Ele concluiu com um sorriso e null o imitou, ajeitando o cabelo.
“Obrigada.” Ela agradeceu, tímida.
“Ora ora, se não é a sua vez de ficar sem graça com um elogio...” Ele pontuou com uma careta, bebericando do café.
“Você é um idiota, cara.” Ela riu, ficando desconcertada e null achou aquilo gracioso, comparando a null criança com a mulher à sua frente. Algumas semelhanças nunca morreriam, afinal de contas.
“Mas é verdade, temos que aprender a lidar com elogios. Principalmente este do cabelo.” null comentou, mexendo numa mecha sua.
“Como assim?” null questionou, confuso sobre o ‘principalmente’.
“Você é o primeiro cara que fala bem do meu cabelo.” Ela explicou, com uma careta.
“Sério?” Ele estranhou, com o cenho franzido.
“Bem, pode ser o meio no qual estou, de estudantes de medicinas que se acham os adultos e tudo mais... Muita gente achou exótico, corajoso, mas legal como você opinou... Ninguém.”
“Caralho. Você tá cercada de idiotas, null.” null constatou, fazendo a garota gargalhar.
“Eu tenho essa impressão muitas vezes ao dia, sabia?” Ela concordou, e por mais que fosse engraçado, ele falava sério.
“Nossa, eu conheço um monte de gente que com certeza iria te achar linda. Também, estariam sendo apenas realistas, né.” Ele foi sincero, e a amiga fez uma careta com a surpresa, fazendo ele rir daquilo.
“Porra, null. Minha cara tá queimando.” Até a voz saiu um pouco mais fina do que de costume, e ele riu mais ainda.
“Certas coisas não mudam, né?”
“Não mesmo. Você continua ganhando no quesito “zoar os amigos””. Ela retrucou, tocando suas bochechas com um sorriso ameno.
“Fazer o que se é minha sina, não é mesmo?” Ele falou, se achando.
“Alguém te aguenta sendo uma peste dessas?” Ela indagou cruzando os braços e ele fez falsa cara de ofendido.
“Na minha horta chove como lá fora, null.” Ele respondeu com um sorriso maroto.
“Chove canivete, só se for.” Ela retrucou rolando os olhos, e ele riu da resposta, sem exatamente se prolongar. null ergueu uma sobrancelha e ele devolveu a feição, não entendendo o que a amiga queria dizer.

Ela fez uma cara de quem insistia no óbvio, mas null estava realmente confuso. Ela bufou e riu da lerdeza dele.

“Eu acabei de perceber uma coisa...” Ela comentou, brincando com o guardanapo em cima da mesa.
“O que?” null perguntou, percebendo que null tinha essa mania de dobrar guardanapos. Na noite passada havia feito um pequeno tsuru.

A garota dobrou duas vezes o papel antes de continuar, e o fez sem olhá-lo.

“Você falou de tudo, null. Família, trabalho, estudos. Ouviu minhas histórias... Mas não falou do coração. Por acaso é assunto proibido?” E sorriu astuta, encarando e fazendo o rapaz sorrir sem mostrar os dentes, negando com a cabeça.

Propositalmente voltou a comer sua torrada, finalizando com calma a fim de que ela esquecesse aquilo.
Mas era null, a pessoa mais perseverante que ele conhecia, e isso incluía ser insistente quando quer saber de algo. Suspirou e terminou a torrada com ovos, limpando as mãos num outro guardanapo e cruzando os braços em cima da mesa, ao lançar o olhar atento para ela.
null havia feito um novo tsuru, que estava parado ao lado de seu cotovelo em cima da mesa.

“O que exatamente quer saber?” Ele sorriu de forma amena e ela deu de ombros, olhando para a mesa, fingindo distração.

“O que você quiser me contar.” Ela respondeu sorridente, mas logo o sorriso sumiu do rosto, como se um pensamento lhe cortasse a mente. “Bom, isso é, se quiser falar. Se não quiser, tá tudo bem também, eu não quero que se sinta desconfortável.” E riu sem graça. Não sabia se tinham aquela intimidade e pensou que talvez estivesse sendo invasiva.

null gargalhou com aquilo, achando graça na maneira de null se sentir mal por ele e mudar da água pro vinho numa situação dessas. Após a sessão de risadas, respirou fundo e baixou a perna, colocando os cotovelos apoiados na mesa e unindo as mãos. Umidificou os lábios e a olhou ao responder.

“Eu estou solteiro, me recuperando de um término conturbado. Não posso dizer que passei o mesmo que você, mas eu meio que comi o pão que o diabo amassou em meu último relacionamento.” Ele falou calmamente, piscando devagar. null se remexeu na cadeira, fazendo uma careta de dor.
“Sério?”
“Sim. Sofri muito com mentiras, e por fim, traição.” Ele deu de ombros, num sorriso zombeteiro.
“Porra, que merda. Traição é foda... Porque as pessoas fazem isso, não é? Seria tão mais fácil conversar, trocar uma ideia, tentar achar um caminho mais dinâmico. Talvez abrir relacionamento, ou mesmo terminar antes de fazer isso, sei lá... Diálogo, né?” Ela pensou alto, encarando as mãos de null na mesa.
“Pois é. Mas nem todo mundo pensa ou faz isso, infelizmente.” Ele respondeu e sua feição endureceu um pouco.
“Vocês ficaram quanto tempo juntos?” Ela perguntou, curiosa.
“Um ano e meio. Terminamos há uns cinco meses.”
“E você, está bem?” Ela questionou, reparando em cada e qualquer detalhe de null ao responder. O mesmo deu de ombros e sorriu sutilmente.
“Acho que posso dizer que sim. Quer dizer, eu estaria bem fodido se não estivesse fazendo terapia há alguns anos, então eu já tinha um apoio para fortalecer a mente, entender um pouco mais as coisas dentro de mim, da vida... Enfim, faz parte. É ruim, mas faz parte e a gente vai vivendo um dia de cada vez.” Ele explicou e sua face relaxou um pouco.
“Um dia de cada vez.” null repetiu a frase, concordando com a cabeça. “Vocês ainda se falam?”
“Fazemos parte do mesmo ciclo de amigos.” Ele respondeu com uma careta e null abriu a boca em choque.
“Puta merda, sério?”
“Sim. E já vi com outras pessoas, então no início foi meio foda, senti muitas emoções ruins, mas depois fui compreendendo melhor e me acostumando. Hoje em dia tô de boa, mas o que pega mais são as feridas e os receios... Os gatilhos e etc. Coisas que a gente passa na vida e agradece pela terapia existir, não é mesmo?” Ele deu de ombros, ajeitando a coluna na cadeira e rindo educado. null sorriu e concordou.
“Pois é... É verdade.”

Um momento silencioso se instaurou no ambiente enquanto os jovens trocavam olhares. null rompeu o silêncio com a pergunta que a açoitava de tanta curiosidade.

“Você ainda gosta dela?” Os olhos null atentos e curiosos mirando os negros profundos.

O rapaz a encarou por um tempo, com a feição num misto de sorrisos e ironia. A mulher aguardou pacientemente, até que deduziu ser algo difícil para o null, dado seu silêncio sepulcral.

“Esquece, eu não deveria...” Ela começou a se desculpar, mas foi interrompida pela voz decidida de null.
“Dele.”
“Hã?” Ela perguntou, confusa.
“Dele, null. Meu último relacionamento foi com um homem.” null disse de uma vez, prendendo a respiração e os lábios numa linha fina, ficando ansioso pela reação da jovem. Era a primeira vez que ele falava com alguém tão próximo à sua família sobre isso, fora os poucos e seletos amigos que sabiam. E apesar de saber que não deveria haver problema algum nisso, o nervosismo e o medo em “se assumir” eram latentes. Afinal de contas, aquilo nunca seria fácil...

null não disse nada a princípio. Respirou, piscou uma, duas, três vezes. E enfim acenou com a cabeça, com uma cara engraçada – um sorriso no rosto e o cenho franzido, nitidamente confusa.

“Bom, um homem? Bem... Eu não sabia... Me desculpa pela mancada.” Ela tentou consertar, e null soltou a respiração lentamente.
“Tudo bem.” Ele respondeu mecanicamente. O silêncio reinou por mais alguns momentos, o tamborilar dos dedos de null na mesa se unindo aos de null, que a imitava. Ambos desconcertados pela situação.
“Então... Você sempre se relacionou com homens?” Ela perguntou, mas logo se arrependeu, dando um tapa na própria testa, antes que ele pudesse responder.
“Caralho, nossa, que merda de pergunta... Me desculpa! Esquece isso, null. É que eu não sabia, eu não tô sabendo reagir na verdade. Eu sempre achei que você fosse hétero, e agora eu tô curiosa, mas eu tô com medo de falar merda e te magoar, então eu vou ficar quieta e é até me-”
“Eu sou bissexual, null.” null interrompeu com um sorriso calmo, tirando a mulher de seu próprio devaneio.
“Bissexual? Entendi.” Ela disse como quem repete uma matéria que acabou de aprender. “Então isso quer dizer...”
“Quer dizer que me atraio e me relaciono por/com homens e mulheres. E meu último relacionamento foi com um homem.” Ele explicou, pouco a pouco distensionando. Até então receava pela reação da amiga, que só foi confusa e engraçada, e não ruim como temia.
“Eu não sabia disso.” Ela disse, cruzando os braços. “Como foi pra você tudo isso, null? Quer dizer, seu pai... null... Eles te apoiam? Eles sabem?” A mão de null alcançou a de null, e ele deu um pequeno sorriso antes de seguir a conversa. Ficara feliz pelo ato da jovem.
null sabe, mas não falamos muito sobre isso... Ele diz que quer me ver feliz, mas era nítido o desconforto quando eu, Sid e ele dividíamos o mesmo ambiente. Meio que ninguém sabia exatamente como agir, e eu sei que null não tão no fundo tem seus preconceitos. Mas seria doloroso demais confrontá-lo e não tê-lo por perto. Como já não tenho meu pai, que também sabe, mas finge não saber e só lida comigo assuntos banais, ficando mais sem jeito do que meu irmão. Isso, independente de eu estar acompanhado de um homem ou não. null pelo menos ainda me trata como sempre quando estamos só nós dois, o que é um certo alívio. Mas não vou negar, é foda...”
“Doloroso, não é?” null indagou, com a face preocupada. “Mas me diga, null... Você é feliz?”
“Eu estou. Agora, pelo menos.” Ele comentou e riu levemente, fazendo null relaxar na cadeira. Ela estava visivelmente tensa.
“Então é isso que importa.” Ela sorriu, acariciando a mão dele. “Isso e você sempre fazer pra mim um chocolate quente daqueles!”

Ambos riram com a fala dela, que se debruçou na mesa e segurou as duas mãos do null. Este por sua vez, parou de rir e a olhou atento. Ela ficou com a feição séria, porém a voz saiu melodiosa e acolhedora.

“Obrigada por confiar em mim, null. Eu imagino que não seja fácil, mas fico honrada por você se sentir à vontade e dividir isso comigo. De verdade.”

O nó na garganta subiu depressa, mas o rapaz respirou fundo e sorriu rápido sem mostrar os dentes, engolindo a seco as lágrimas que queriam sair. Por algum motivo, ele as prendeu em si, até que elas se dissipassem no canto do olhar.

“Minhas mãos estão suando frio.” Ele riu nervoso, encarando as mãos dele unidas às delas, e em como se apertavam num enlace firme.

Ele levantou o olhar e seus olhos encontraram os null. Se encararam por um tempo, e ele foi o primeiro a quebrar o silêncio.

“Obrigado, null.” Ela sorriu, negando com a cabeça.
“Estamos juntos nessa, não é?” Ele concordou, olhando a jovem de forma admirada.
“Quem diria...” Ele pensou alto, e ela inclinou a cabeça como se aguardasse a continuação da frase.
“O que?”
“Quem diria que você entraria por aquela porta ontem e hoje estaríamos aqui, recuperando sei lá, dez anos de amizade em 24 horas?” Ela riu e concordou, encarando as mãos unidas.
“Quem diria... A gente curte uma intensidade, né?” E foi a vez dos dois rirem, enquanto se olhavam cúmplices.

Ficaram um tempo assim, até que o toque do celular de null começou a soar no ambiente, e ela soltou-se de null para atender a ligação.

“Alô? Oi null! Sim, tudo bem... Sim, é verdade, choveu horrores mesmo. Não, está tudo bem, eu estou bem, não estou precisando de nada. Só esperando que essa chuva amenize para continuar a visitar minha velha cidade!” null riu levemente, e null sorriu minimamente enquanto a olhava perambular para um lado e para o outro, sua silhueta contrastando com a luminosidade da janela.
“Sim, tranquilo... Não, não estou exatamente na pousada, acabei visitando um velho amigo e por sorte dormi na casa dele ontem, aí to aqui e... Não!” null exclamou com a testa franzida. “Não, null. Não... Não... Tenho, né? Não. Não. Não... Ai cacete, vai continuar? Eu vou desligar! Vou sim! Tá bem. Tá sim. Uhum. Sim, tô só esperando isso passar pra voltar para a pousada. Tá bem. Ué, mas já? Tá bem. Tá. Não, null. Caralho null, não. Aff, vai à merda, cara. Tá, tchau. Também te amo. Tchaaaau!” E desligou bufando. null sorriu ao imaginar o que tirava o prumo da amiga.
“Tudo bem aí?” Ele indagou, e null se assustou, dando uma leve tremida ao virar-se para null. Ela ficou encarando com a boca aberta e visivelmente não sabia o que responder.
“Você ouviu tudo?” Ela perguntou com a voz fina. null deu de ombros, risonho.
“Bom, você não está num ambiente acusticamente isolado... Então...” Ele mexeu as mãos e sorriu amarelo. null acenou e suspirou, dando de ombros e colocando o celular na bolsa.
“Era apenas null bancando a mãe e me enchendo de perguntas.” A jovem explicou, passando a mão na nuca e olhando a chuva do lado de fora da janela.
“Eu posso imaginar...” null comentou com uma careta engraçada, realmente imaginando o conteúdo da conversa das amigas. Ela pescou as suspeitas do null e se deu por vencida.
“Pois é, null tem umas coisas nada a ver na cabeça. Já saiu pensando besteira, que eu tinha dormido com você ontem.”
“Mas você dormiu.” null cruzou os braços e apoiou o quadril na pia, sorrindo de forma irônica para null, que largou os braços ao lado do corpo e olhou sem graça para o amigo, rindo levemente.
“Não nesse sentido... Ela achou que eu estivesse com você, entende?” E uniu as mãos, fazendo um gesto de vai e vem engraçado, que null precisou se segurar para não rir.

Decidiu brincar.

“Juntos? Mas estávamos juntos.” Ele se fez de desentendido e null rolou os olhos e colocou as mãos na cintura.
“Não, null, porra! Você tá de sacanagem comigo, é?” Ela perguntou com uma careta.
“Não, mas sua amiga pensa que sim.” Ele deu uma piscadela e antes que null entrasse em ebulição, ele se dirigiu ao armário no outro canto da sala, rindo dela.
“Vou tomar um banho, você também quer?” Ele perguntou tranquilo, sem exatamente maldar o tom dúbio da pergunta.
“C-Como é?” null perguntou com os olhos arregalados, e ele a olhou confuso e logo riu com a maior cara de tacho.
“Er, deixa eu reformular... Você quer tomar um banho? Eu vou agora, mas você pode ir depois. Não precisa ser junto, sabe? Não é um requisito.” Ele brincou e viu a amiga respirar aliviada, caminhando até onde ele estava.
“Sim eu quero, mas não tenho roupas.” Ela explicou, parando de frente para ele.

Ele apontou para o armário, mostrando algumas ali presentes.

“Tenho um blusão xadrez que aquece bem, e umas calças de moletom. Umas meias perdidas... Serve?” E viu a feição dela tranquilizar.
“Tá ótimo! O blusão deve ficar um vestido em mim, então perfeito!” Ela exclamou enquanto ele mostrava a blusa xadrez quadriculada em vermelho e preto.
“Certo, tenho umas toalhas ali naquele outro armário, fica à vontade. Só vou ficar te devendo shampoo e condicionador, tudo bem?” Perguntou sincero e null fez um gesto com a mão.
“Relaxa, eu lavei meu cabelo ontem. Tá suave.” E pegou uma mecha, fazendo uma espécie de bigode null – como se aquilo comprovasse sua fala. null riu e bagunçou a cabeleira.
“Certo, eu já volto.” E se despediu momentaneamente, seguindo para o banheiro.

Enquanto molhava a cabeça debaixo da água quente, null refletia sobre todos os assuntos que compartilhara com null. Pensou também sobre a vida e sua incrível capacidade de tornar viável encontros que há segundos atrás, pareciam impossíveis.
Ao sair do box, limpou o espelho embaçado e percebeu que seu rosto estava mais suave, menos pesado ou carregado como nos últimos tempos. Ele sabia porquê, sabia também que estava se sentindo muito melhor desde que tivera o retorno acolhedor sobre sua sexualidade, de realmente poder contar com alguém que era praticamente família e que não julgasse ou discriminasse sua forma de ser feliz. Um sorriso estampou-se nos lábios ao pensar nisso, e ele sabia que o motivo daquele misto de alívio com felicidade brincando no peito tinha nome e sobrenome: null null.


Capítulo 3 - Visita

“Ok, faz alguns anos que eu não como isso.” null comentou enquanto ria para seu próprio Cup Noodles.
“Você realmente virou a garota da cidade grande né? Perdendo os costumes que importam, como consegue? Cruzes.” null fingiu indignação enquanto mexia o garfo dentro do seu copo.
“Costumes, null? E quanto aos ancestrais que estão rolando no caixão vendo você comer esse macarrão instantâneo com tempero artificial? A galera simplesmente saiu no soco por anos a fio pra você botar sazonzinho na comida? Acho que você não tem moral para falar de mim, querido.” null apontou os hashis na direção do rapaz, que ria como se tivesse feito besteira.
“Modernismo, null. Apenas quero economizar tempo e preservar as especiarias ancestrais. E comer com garfo é também evolução, além de trazer uma porção maior de comida pra minha boca.” Ele deu de ombros, sorrindo forçadamente.
“Isso é desculpa de quem não sabe usar hashis.” Ela respondeu fazendo movimento de pinça com os palitinhos e null riu concordando.
“Ainda bem que você não se deixa enganar.” Ele comentou antes de abocanhar seu macarrão.
“Logo quem, né null? Te conheço, garoto! Metade da minha vida vi essa carinha aí tentando esconder as merdas que inventava. E muitas delas eu e null acabávamos pagando o pato porque achávamos você o máximo...” Ela rolou os olhos e null sorriu com a sobrancelha erguida.
“Eu era tão peste assim? Eu não tinha essa noção.” Ele pensou alto, após mastigar.
“Claro que era! Pelo menos até virar adolescente trevoso.” Ela coçou o queixo, pensativa.
“Putz, essa época...” Ele riu sem graça, e null o imitou.
“Fã de “My Chemical Romance”, leitor assíduo de “O Morro dos ventos Uivantes”, você era o colírio das garotas.” Ela falou animada e ele fez uma cara de dor, batendo na testa.
“Pior é que eu aproveitei a fama.” E ambos gargalharam.
“Aquela época foi engraçada.” null falou, levando mais uma porção de macarrão à boca.
“Nem tanto.” Ele argumentou, deixando o cup noodles em cima da mesa.
“Por que?” Ela indagou com o cenho franzido. Ele suspirou e deu de ombros.
“Pra mim foi bem conflitante. Ser bissexual e lidar com as coisas a flor da pele era foda...” Ela fez uma careta como se imaginasse o perrengue. “Sabe de quem eu gostava naquela época?” Ele cruzou os braços e sorriu de canto, perguntando com uma leve animação. null negou com a cabeça.
“Não faço ideia.” Ela assumiu, perdida.
“Pior que você conhece... Não quer mesmo nem chutar?” Ele incentivou e ela mordeu os lábios, olhando em volta como se buscasse a resposta.
“Porra, assim é foda! Me dá uma pista?” Ela posicionou o indicador na frente dos lábios, atenta. null sorriu com a imagem.
“Alto, hétero, piercings... Se destacando como meu parceiro de rock, trevoso também... Pelo menos naquela época.” Ele prendeu os lábios dentro da boca e observou o rosto de null se alterar de concentrado para surpreso.
“Não! Sério? null!?” Ela colocou a mão no peito e ficou de boca aberta, enquanto o homem ria de sua cara.
“É.” Ele concordou sorridente, dando de ombros.

null ficou um tempo estupefata, encarando o amigo com um meio sorriso no rosto.

“Caralho null. Eu também.” Ela revelou a bomba, e os dois arregalaram os olhos antes de cair na gargalhada.
“Caralho, que isso! Mentira sua!” Ele dizia, negando com a mão e rindo muito.
“Eu tô falando sério! Você acha que eu seria idiota de ficar mirando só no null? null era gato, além de engraçado e gentil! Entendo perfeitamente porque você tinha uma queda por ele.” Ela abanou a mão no ar e null vez ou outra ria, ainda sem acreditar na coincidência.
“Aliás, como ele está? Nunca mais ouvi falar.” Ela acrescentou, voltando a comer. null também fez o mesmo e respondeu após mastigar.
“Ele é meu sócio, né?” Sorriu tímido e null ficou novamente surpresa.
“Caramba, sério? Mas isso desde sempre? Você não me contou isso quando inaugurou a Convict!”
“Porque naquela época eu estava realmente só. Mas ele agregou quando eu corri risco de perder o Café, e hoje felizmente vamos de vento em poupa. null é um grande amigo além de ser um ótimo profissional. Dei muita sorte.” Ele explicou, sorrindo de forma amena. null lhe lançou um olhar desconfiado.
“Sei, grande amigo...” null riu, rolando os olhos.
“Tô falando sério, somos só amigos. Na época eu percebi que realmente era só uma paixãozinha, mas o que deixava tudo mais intenso era o fato dele ser homem né? Acho que juntava mais essa questão do medo do desconhecido, do “fora do padrão” do que de fato a paixão em si. Não sei, muito difícil explicar!” E riu sem graça, com null concordando com ele.
“E como foi lidar com tudo isso?” Ela perguntou ao cruzar os braços. null respondeu depois de mais uma garfada.
“Cara, uma merda. Minha mente achava aquilo tudo errado, mas lá dentro eu sabia que poderia ser diferente, mas não errado sabe? No começo não quis acreditar, fingi que nem existia esse sentimento. Não foi à toa que saí me envolvendo com toda garota que me dava condição, tentando ser compulsivamente o homem hétero que eu achava que era... ou que deveria ser. Mas o destino não queria que eu ficasse nessa, e null acabou sendo a primeira pessoa que soube da minha sexualidade.”

null falava com fluidez, como se revivesse uma memória distante, e parte de si estranhava a leveza de tratar de um assunto que por tanto tempo foi considerado um tabu dentre os seus entes e amigos. Estar ali, sentado à mesa e almoçando com null, falando dessas vivências com tanta tranquilidade foi algo que o aqueceu por dentro. Ele levantou a cabeça para observar a reação dela, que o encarava atenta e até com certa admiração no olhar.

“E então?” Ela o instigou a continuar, e null riu sem graça. Aquela tranquilidade chegava a ser desconcertante às vezes.
“Bem, quando eu contei para null que era bissexual, já não estava mais afim dele. Então foi mais fácil... Na verdade, foi uma tragédia, mas foi fácil.” E riu, lembrando-se do fatídico dia que atravessava a memória. Olhou null novamente, que mantinha o queixo apoiado nas duas mãos, como se escutasse uma fábula. Ele pigarreou e continuou a falar.
“Estávamos muito loucos numa social; muita bebida, muito som alto, gente de tudo quanto é canto. Era alguma despedida de alguém, mas nem lembro direito, porque fomos praticamente penetras na festa. Só sei que num dado momento puxaram nosso pequeno grupo pra uma roda maior, e a galera bancou a criançada de 13 anos brincando de passar cartão.” null uniu as mãos em cima da mesa, negando com a cabeça e null gargalhou.
“Ah, sério? Aquela de passar cartão com a boca, sem deixar cair?” Ela indagou e ele confirmou, visivelmente desaprovando a brincadeira.
“Pois é. Agora pensa numa roda de umas vinte pessoas, todo mundo muito, mas muito bêbado, null. Pensou? Então, a nossa roda era pior. Imagina quanta gente não se beijou acidentalmente?”
“Ou nem tão acidental assim né? Eu aproveitaria se tivesse um cara que eu quisesse dar uns beijos.” Ela riu despojadamente e null aplaudiu teatralmente.
“Justamente, minha cara. Tivemos exatamente a mesma ideia. Agora pensa na equação: null, null, eu, e a morena que eu queria aplicar essa tática de guerra que você lançou. O cartão vinha da direita, ou seja, de null para nós. Sabe o que aconteceu com meu plano infalível?” null perguntou de forma retórica, enquanto null negava já risonha.
“Ele falhou.” O null deu de ombros e ela gargalhou alto.
“Como, null? Meu Deus, como?” Ela segurava na barriga rindo, já imaginando a merda.
null estava nervosão porque era apaixonado pela null, que não via uma agulha na sua frente, simplesmente achava que ninguém gostava dela, e aí enfim. Era só ele deixar o cartão cair, dar um beijo nela e me passar o cartão. E aí eu faria a mesma coisa, dando um beijo na morena do meu lado esquerdo e deixaria a brincadeira seguir. O que o idiota fez? Deixou o cartão cair na minha vez quando eu já estava indo ao encontro dele.”

A gargalhada soou tão alto que null poderia jurar que nunca viu null rindo daquele jeito antes. O rosto ficou vermelho de tanto que ela ria, e com as mãos na barriga, ela tentava sugar o ar que lhe faltava. Aquela cena o fez rir, enquanto a moça reclamava de dor de barriga entre uma risada e outra.

“Cara, como foi isso? Vocês se beijaram então?” Ela perguntou depois de se recuperar e ele afirmou com um bico nos lábios.
“Eu queria a garota, mas o universo estava cagando pros meus desejos, pelo visto.”
“E aí? Como ficou entre você e null?” null perguntou, mordendo o lábio inferior em curiosidade.
“Cara, a gente se beijou e foi muito estranho. Porque as bocas se chocaram por causa do meu movimento e o dele, e a gente demorou a reagir por não acreditar que aquilo tinha acontecido, saca? Sem falar na merda da letargia do álcool! Enfim, foram os três segundos mais longos das nossas vidas e mesmo que eu já tivesse tido uma queda pelo null, eu realmente estava a fim da morena. Uma merda, eu sei.” null concluiu, e null fez um movimento de continuidade com a mão.
“Não, mas pera lá! E como ele ficou sabendo que você era bi? Você disse que contou, não foi?” Ela indagou animada e o rapaz acenou com a cabeça.
“Porra, o null bêbado é mais insistente do que sóbrio; me alugou pra caramba e eu nem consegui abordar a garota. E ele, por sua vez, nervoso de querer me pedir desculpas, acabou não dando atenção pra null. Estávamos só nós três no gramado do lado de fora da casa; null com as pernas dentro da piscina, deitada na grama e viajando na marola e no céu estrelado... Eu estava tentando matar a frustração com uma cerveja e null choramingava no meu ombro, falando “cara foi mal, que nojo isso, desculpa!”.”
“Eita, ele disse isso mesmo?” null perguntou com uma careta e null confirmou, colocando as mãos na própria nuca, enquanto encarava o teto. Ficou assim por um tempo, até que encarou a amiga de novo, e gesticulando, expressou o que sentira naquela ocasião.
“Aquilo bateu tão mal, sabe? Eu estava muito incomodado com o “nojo”. Mas ele insistiu naquele discurso até que eu mandei calar a boca com toda minha força. Ele me encarou alarmado e eu estava ofegante. Não sei se era a bebida, se era toda a pressão de nunca ter falado nada, mas só sei que comecei a chorar ali mesmo, e me sentei no chão com as mãos na cabeça, cena digna de filme. Ele insistiu em saber o que tinha acontecido e eu reparei que null estava em seu próprio mundo, sem prestar atenção na gente, então só ele saberia. Daí contei. Falei que era bissexual, que me doía ouví-lo falar assim, vomitei palavras rápidas e botei tudo pra fora.”
“Nossa, null. Que intenso tudo isso, né?” null perguntou, se abraçando enquanto acariciava o próprio braço, aflita por seu amigo.
“Bastante. Mas null ficou ao meu lado, compreendeu tudo e até me pediu desculpas pela pisada de bola. Mesmo nos dias seguintes quando ficava um clima esquisito, eu senti que ele se empenhava para mostrar apoio, sabe? E então aos poucos eu fui me sentindo à vontade para não me silenciar entre nossos amigos.”
“Que ótimo, né?” null sorriu com sua face alterando para uma mais alegre.
“Mais ou menos. Foi a partir desse não silenciamento que Sid se juntou a nós numa social dessas da vida. Ele é amigo de null, e é assumidamente homossexual, o que me encantava um pouco pela liberdade que parecia pairar ao seu redor. Queria isso pra mim também, sabe? De não precisar fingir ou esconder. Mas se eu soubesse quem ele era de verdade, teria ido embora na mesma hora que ele chegou, só pra evitar os traumas e as dores de cabeça.”
“Sério? Quer dizer, você não teria vivido esse amor?” A jovem perguntou, curiosa, e null negou veemente com a cabeça.
“Não, porque aquilo não era amor. Hoje em dia posso te afirmar com tranquilidade que já tive relações, com mulheres e homens inclusive, que foram muito mais sinceros, sabe? No caso de Sid, as coisas eram unilaterais e ele me fazia acreditar que se por acaso existisse algum problema conosco, provavelmente era minha culpa. E o pior: eu não sei como, mas sempre acabava concordando com ele, entrando em seu joguinho... Tu acredita nisso?”
“Acredito. Uma pessoa assim é capaz de tudo.” null respondeu de forma semelhante à de null na noite anterior, e ele percebeu isso, dando um sorriso sem graça.
“Imagino que o término tenha sido conturbado, então...” Ela acrescentou, umedecendo os lábios e os soltando devagar, visivelmente tensa. Ele reparou no movimento e demorou a respondê-la, só se tocando tempos depois e afirmando com a cabeça.
“Bastante, até. Nós tínhamos um relacionamento fechado, só que pelo visto não significava nada pra ele, que me traiu na frente de todo mundo num barzinho agitado daqui.” null respondeu com a cara enfezada.
“Putz, sério?” null indagou, incrédula. O rapaz confirmou depois de bufar.
“Sim! E ainda usou várias merdas como argumentos, sobre como ele fez isso porque se sentia inseguro comigo por ser bi, essas coisas tão atrasadas quanto o preconceito num todo... Uma merda. Mas felizmente eu dei o ponto final e foi isso. No pós-término era muito difícil estar no mesmo ambiente que ele, afinal de contas, era a causa da minha dor e das mágoas, que não saram do nada, né? Mas consegui aos poucos, com muita terapia e ajuda dos amigos a lidar com isso tudo.”
“Sério?” null perguntou com um sorriso ameno.
“Sim... Apesar de ninguém ter exatamente parado de falar com ele, ninguém ficou passando a mão na cabeça dele, o que foi ótimo. Sid tentou se redimir, realmente se esforçando pra mudar suas ações, dialogando mais... Depois de um tempo descobri que ele também estava fazendo terapia, e até fiquei feliz com isso, mas além de não acreditar em mudanças da noite pro dia, eu já não nutria mais sentimentos por ele. Evitei de estar entre os mesmos amigos, a galera entendeu e se dividia muitas vezes, mas amigos mesmo de ser justo e ficar do meu lado, só null e null. Eles me fortaleceram muito, e conforme fui me sentindo mais seguro, fui socializando e voltando aos poucos, mas é aquilo, né? O pé sempre fica atrás e eu realmente não me sinto obrigado nem motivado a conversar nada com Sid. Sou muito “morreu, enterra” nesse aspecto. É tão natural que eu lembro o quanto meus amigos ficaram bolados com a ignorada que eu dei em Sid na primeira vez que estávamos no mesmo lugar.”
“Tem ressentimentos?” null perguntou com os braços cruzados. null deu de ombros.
“Não sei se seria a palavra exata, mas certamente eu não tenho memória de barata. Então é basicamente ‘podemos conviver, não graças à você, mas à mim que nem deveria mas sou muito foda a ponto de não levar em consideração sua existência e me sinto bem o suficiente para te ignorar e conviver com nosso grupo em comum.’ Acho que é por aí.”
“Uau! Eu não gostaria de estar no lugar dele!” null exclamou, fazendo uma careta engraçada que provocou risadas em null.
“Mas fala sério, eu tô errado?” Ele perguntou retoricamente, e ela negou com veemência.
“Você nem deve sentir frio, null. Está coberto de razão.” null respondeu com um sorriso tão teatral que fez o rapaz desatar em risadas com aquela piada infame.
“Meu Deus, mulher. Você não existe.” Ele comentou dentre pequenas risadas e ela deu de ombros.
“Existo tanto que digo e afirmo: você é foda e eu odiaria estar no lugar de Sid.” null meneou a cabeça, pensando.
“Não se dê ao trabalho... Você jamais seria assim.” Ele disse tão naturalmente que ela piscou algumas vezes, com um meio sorriso.
“Hm, obrigada! Você acha?” Ela quis trazer um tom de brincadeira, mas ele não arredou o pé e a olhou seriamente.
“Você é incrível demais para fazer uma coisa dessas, null. Além disso, você sabe como doi. Sabe que não há nexo em te tratarem desse jeito e ainda chamarem de amor... Isso não existe.” null exemplificou e ela concordou com a cabeça.
“Nem fala...” null comentou, olhando para a janela. Houve um momento de silêncio no qual o rapaz encarava a jovem, com certa agonia no peito.
“Você entende bem isso, não é?” null perguntou, olhando o rosto de null se alterar para uma feição amarga, com um sorriso sem humor.
“Infelizmente sim. E fico me perguntando como pude perder tanto tempo numa situação dessas. Francamente...” E riu, desgostosa. “Eu demorei o dobro do seu tempo para perceber isso, null. Não é foda? Três anos que eu poderia ter aproveitado de outra forma, mas não. Tive que lidar com uma pessoa tão infeliz e inescrupulosa como Alain que nem sei o que dizer...” Ela divagou, encarando as próprias unhas.
“Eu diria escroto, babaca, manipulador... Um merda mesmo.” null concluiu, e null gargalhou ao concordar.
“Cada vez mais assertivo, null. Parabéns!” Ela disse cruzando as pernas enquanto batia palmas leves. Estava sorrindo e null fez o mesmo, porém não evitou em reparar no destaque que as coxas tiveram com aquela posição. As meias pretas que ele lhe emprestara caíram perfeitamente em suas pernas, que eram cobertas pelo pano, pouco antes do joelho.

null ficou encarando pelo que julgou ser tempo demais e mordeu os lábios ao desviar o olhar para a janela, pigarreando de forma desconfortável. Estranhava a mudança de temperatura debaixo dos seus cabelos e desfez o enlace para fazer um novo. E foi assim que sentiu a nuca levemente molhada de suor, apesar do clima nada quente naquele escritório.
Ele estava com as pernas ligeiramente abertas enquanto se concentrava em seu ato, e apesar da aparência calma, estava nervoso ao constatar que a imagem de null a todo tempo vinha à sua mente – e se ele bem quisesse, era só olhá-la de novo, naquela mesma posição, usando as roupas dele de uma forma tão despojada, natural, simples e... sexy.
Repreendeu a si mesmo com aqueles pensamentos e nem se permitiu refletir; apenas levantou num impulso e pegou os potes de cup noodles vazios, colocando-os na lixeira. Se olhasse para frente antes de se levantar da cadeira, veria uma null atenta aos detalhes de sua reação, reparando em como os anos fizeram bem ao homem.
O corpo alongara, perdendo aquela aparência de adolescente. null era um homem feito, de traços marcantes e presença forte, e os cabelos lhe davam um toque a mais, um verdadeiro charme que ajudava a emoldurar as feições bem desenhadas.
null estava observando suas costas quando ele abriu a geladeira, buscando sabe-se lá o que – talvez se livrar daquele mal estar e daquele calor que começava a chamuscá-lo – e tratou de buscar algo para se refrescar.

“Você quer beber alguma coisa?” Ele perguntou ao enfiar a cabeça para dentro da geladeira, pegando uma garrafa d’água.
“Ah, tanto faz. Água está bom.” null respondeu e ele acenou com a cabeça, segurando a porta e dispondo a água em dois copos, devolvendo a garrafa para a geladeira. Ele pegou os copos e estava se virando quando ela o surpreendeu, aparecendo logo a seu lado ao colocar alguns utensílios na pia.

null se assustou e deu um pequeno pulo, fazendo um pouco de água dos copos pular em cima de ambos.

“Meu Deus, o que foi isso? Tá devendo, garoto?” null perguntou rindo da cena e ele bufou antes de rir também.
“Porra, você vem igual a uma assombração! Quer o que?” E colocou os copos na pia, pegando a base da sua blusa e levantando para secar seu rosto, deixando seu abdômen desnudo.

Ele fez isso inconscientemente, e a jovem que estava rindo, parou de fazê-lo na hora que deu de cara com o torso nu de null. Quando o rapaz tirou a cara da blusa, pegou a mulher o encarando com a boca entreaberta, e ele franziu o cenho, até que algo passou pela sua mente.

“Ah, foi mal! Vem cá.” Ele disse enquanto segurava o rosto de null e o enxugava com as mangas da sua blusa.

Era engraçada a forma cuidadosa que null fazia as coisas, principalmente em como segurava sua face enquanto a secava com o tecido de algodão. Era engraçado também a sensação que surgia dentro da jovem ao reparar em como o sorriso de null tendia puxar mais para o lado direito que o esquerdo, deixando suas feições harmônicas, idiossincráticas.
null sempre fora alguém que transmitia a sensação de familiaridade, de casa. Mas era inegável que nas últimas 24 horas, aquilo tinha adquirido outro nível; mais profundo, mais certeza daquilo que já era verdade para ela. Estava a reparar nas pintas miúdas que ele tinha perto da base do nariz, quando ambos ouviram o barulho da porta se abrir e o null mais novo passar pela mesma, com uma bolsa de mercado pesada na mão.

“Caralho null, você enfiou esse celular aonde, porra? Tô te ligando há...” E parou depois que notou que o irmão não estava sozinho. Colocou a bolsa no chão e sua cara era de surpresa.
“Pô, foi mal, não sabia que você tinha visita.” O tom da voz de null mudou completamente, ficando sem graça e até fez uma careta sem perceber, vendo apenas as costas da jovem diante do irmão.

E a situação não poderia ser mais constrangedora; a blusa de null levemente para cima, null com apenas um blusão e meias, e o mais velho segurando o rosto da moça tão perto que dificilmente pensariam algo sem “segundas intenções”.
A mulher deu um passo para trás e se virou para o null caçula, que arregalou os olhos e abriu a boca em choque.

“E desde quando eu sou visita, garoto?” null abriu um sorriso e foi andando de braços abertos até null, que gaguejava sem parar, olhando dela para o irmão.
null! Porra, é você? Que que você tá fazendo aqui?” E a abraçou ainda sem jeito, tentando ser cordial ao mesmo tempo que buscava digerir a situação estranha.
“Nossa, quanta receptividade hein null?” Ela brincou, dando uns tapinhas nos ombros dele e saindo do abraço, colocando as mãos na cintura.
“Porra, foi mal, é que eu estou muito chocado cara. Tipo, eu não vejo você há anos, e aí do nada você tá aqui, com o null, juntos, meio que... Uau!” null gesticulava sem saber onde enfiar a cara e o sorriso de null sumiu quando entendeu o que ele queria dizer.
“Ah! Não, não!” Ela explicou rindo e null se ajeitou, vindo ao encontro do irmão, rindo de nervoso também.
“Tu entendeu errado, maninho.” O mais velho se pronunciou, apoiando uma mão no ombro do mais novo. “null chegou ontem à noite, pouco antes do Café fechar. Eu a convidei para tomar um chocolate quente e comer alguma coisa, ficamos papeando até tarde da noite quando a chuva torrencial caiu. Então decidimos dormir no escritório e estamos aguardando o tempo melhorar. Só isso.”
“É, e null me emprestou umas roupas para eu não ter que dormir com as minhas e poder tomar um banho digno. Entende?” null acrescentou sorridente e o silêncio se estabeleceu.

null piscou várias vezes para o irmão, e depois encarou a amiga. Olhou para o irmão de novo, e mais uma vez para ela. E então coçou a nuca, completamente envergonhado pelo que sugeriu.

“Puta que pariu, me enterra, mano.” Ele falou olhando pro chão enquanto os outros dois riam da sua fala.
“Relaxa, tá tudo certo! Me fala de você!” null puxou a mão do caçula e ambos sentaram à mesa, null ainda desconfortável por ter pensado merda.
“Hm, tá tudo bem, nada demais. Ainda tô fazendo a faculdade de direito, tenho tentado manter alimentação regrada e atividades físicas com a minha namorada... E é isso.” Ele deu de ombros, encarando null como se fosse uma novidade.
“Tô sabendo que você virou crossfiteiro, é isso mesmo?” Ela comentou, colocando a mão debaixo do queixo enquanto apoiava o cotovelo na mesa. null veio e sentou ao seu lado.
“Pois é! Que doidera, né? Mas e você, cara? Seu cabelo tá null!” null exclamou, apontando para o cabelo enquanto sorria surpreso.
“Pois é! Gostou?” null perguntou segurando uma mecha entre os dedos.
“Eu achei... legal! Diferente...” O mais novo sorriu, ainda analisando a cabeleira.
“Exótico?” Ela sugeriu, com uma sobrancelha arqueada.
“Isso! Essa é a palavra!” null afirmou, sorrindo mais aberto.

null e null se entreolharam e riram.

“Viu só?” Ela apontou para null, ainda encarando o mais velho, que riu com os braços cruzados.
“Mas é o null, cara!” null tentou argumentar, e null rolou os olhos.
“Nem tenta defender, sabe que não tem nada a ver.” Ela contra-argumentou, e o rapaz ao seu lado suspirou, rindo logo depois.
“É verdade.”
“O quê?” O caçula perguntou, confuso.
“Todos acham meu cabelo exótico, null. Só null acha que eu estou linda e vou abalar a galera com meu null aqui.” E ela jogou os cabelos, balançando-os propositalmente perto da cara de null, que riu e a abraçou de supetão.
“Para de tirar onda com a minha cara, garota! Também não elogio mais!” Ele ameaçou, bagunçando os cabelos dela num carinho na cabeça.
“Porra, não desajeita!” Ela reclamou, tentando se soltar enquanto ele a apertava mais contra si e ambos riam daquela brincadeira.

Aquilo soava tão íntimo aos olhos de null, que ele se sentiu um intruso ali, porém sem exatamente sentir-se mal; achava legal que o irmão e a amiga agissem como se anos não tivessem distanciado nada entre eles.

“Mas você está bonita também.”

null se viu dizendo as palavras, enquanto encarava o rosto da amiga, que parou de rir e o olhou. Pigarreou, constrangida por momentaneamente esquecer de sua presença ali, e agradeceu sem graça. Ela e null se desfizeram do abraço, se ajeitando em seus lugares.

“Consertar é pior, maninho.” null quebrou o gelo enquanto null prendia o riso, e null abriu a boca em protesto.
“Mas eu tô falando sério!”
“Tarde demais, cara.” O irmão pontuou, e o mais novo bufou.
“Mas eu não tô tentando consertar não!”
null...” null advertiu, fazendo “tsc tsc tsc” com a boca, e null deu uma risadinha.
“É sério!” O mais novo insistiu.
“Para enquanto dá tempo, aproveita vai.” null sussurrou e null perdeu a linha.
“Porra null, eu tô sendo sincero! null, você tá gostosa pra caralho!” O caçula apontou a mão aberta na direção da mulher, que o encarou com uma cara engraçada.
“Ih, objetificou o corpo, fez merda maninho. Volta dez casas.” null disse de braços cruzados e negando com a cabeça. null explodiu em gargalhadas e null segurou a testa com a mão.
“Não foi isso que eu quis dizer! Ai, que merda!”
“Tá tudo bem null, faz parte. null foi seu primeiro amor, é normal a gente ficar confuso.” null disse enquanto gesticulava com a mão.
“Por que você não vai à merda, null!?” null disse, levemente irritado.
“Olha o respeito com seu irmão mais velho!” null fingiu estar indignado, e null seguiu rindo daquela cena.

Vendo a feição emburrada de null, poderia jurar que aquela era a mesma que ele fazia quando o irmão implicava consigo há alguns anos, e riu disso. Algumas coisas nunca mudavam.

“Desculpa, null. O que eu quis dizer é que você está bonita, tá bem?” null explicou, falando pausadamente, com o rosto vermelho.
“Tá tudo bem, null. Eu entendi, obrigada.” Ela esticou a mão e acariciou a dele sobre a mesa.
“Moleque só faz merda, cara.” null sussurrou e null fechou a cara, dando um peteleco bem no meio da testa.
“Ai, caralho!” O mais velho reclamou, e o mais novo sorriu zombeteiro.
“Agora aprende, diabo.” E cruzou os braços, enquanto null ria da situação.
“Porra, tu não vai me defender? Só vai ficar rindo?” null se virou para a jovem, que deu de ombros com a cara chocada.
null, você infernizou o null. Como sempre né.” Ela explicou, fazendo uma cara óbvia.
“Obrigado!” O caçula respondeu e ela piscou para si.
“Caralho, tu é foda hein. Te salvei do machismo, do patriarcado e olha como você agradece?” Ele simulou uma careta brava, e a mulher gargalhou alto.
“Ainda bem que sou letrada em ironia e sarcasmo, viu? Também te amo, seu idiota.” Ela disse, apertando a bochecha dele, que num movimento rápido puxou o braço dela e mordeu, fazendo null entrar em risadas histéricas e implorar pra que ele parasse.

E novamente, null sentiu-se estranho ali. Mas sorriu com a cena, vislumbrando coisas que talvez só não estivessem nítidas para os dois à sua frente. null foi o primeiro a notar o olhar do irmão e se recompôs, disfarçando a timidez ao perceber como o caçula lhe mirava e sorria.
null seguiu seus movimentos, e se ajeitou na cadeira, cruzando as pernas e ajeitando o cabelo com as mãos. null reparou nas pernas expostas por algum tempo e desviou o olhar para o irmão, que arqueou uma sobrancelha para si e o mais novo riu, sendo pego pela fiscalização do gavião.

“Ai gente, essas risadas me deram vontade de ir ao banheiro! Licença.” Ela comentou, se levantando num pulo, deixando os irmãos à sós.

null estava com a feição desconfiada e um sorriso ladino no rosto, encarando null, que franziu o cenho.

“O que foi?”
“Não me venha com essa merda de ‘que foi’, null! Sério, tá rolando?” Ele sussurrou com o sorriso se abrindo.
“Não! Não tem nada rolando, cara. A gente é só amigo. Amigo que não se vê há muito tempo.” O mais velho deu de ombros, unindo as mãos em cima da mesa e fugindo do olhar do irmão.
“Porra, null. Sério? Não é só isso. Não é possível que você não esteja vendo direito.” null rebateu, negando com a cabeça.
“Vendo o que, cara?” null perguntou, confuso e um pouco incomodado com aquela conversa.
“Que vocês estão afim um do outro? Toda essa interação, assim, do nada?” null sugeriu com as mãos viradas pra cima, falando como se fosse óbvio. E talvez fosse.
“Cara, você tá viajando. A gente só... Se dá bem. Muito bem.” null deu de ombros, pegando um guardanapo e dobrando em nervosismo. Aquela ação lhe parecia familiar.
“Bem demais, até. Qual é, cara! Isso não é só saudade. Até porque eu e null éramos inseparáveis, e a gente não tá nessa efusividade toda não!”
“Efusividade? tem feito um ótimo trabalho, maninho. Honestamente falando.” null quis mudar o assunto, mas null rolou os olhos.
“Para de desvirtuar a conversa, caralho! Tu não mente pra mim não, hein! Eu sei que tu tá afim dela.” O caçula apontou um dedo na direção do irmão, que o olhou sério.
“Não tô não.” Respondeu, sentindo as palavras saírem azedas da boca.
“Tá sim!” null riu, tendo a confirmação de suas suspeitas ao ver null nervoso. “Relaxa, ela visivelmente tá também.”
“Você tá querendo achar chifre em cabeça de cavalo.” null riu em descrença, negando com a cabeça.
“Ué, cara. Que mal tem nisso? Para pra pensar, vocês dois são livres, null é uma garota incrível, gata pra caralho, vocês tem história, sempre se deram bem! Por que não? E outra, já era hora de você começar a se envolver com outras pessoas desde aquele cara babaca lá.”
“Ei! Eu me envolvi com outras pessoas.” null ralhou, e null lhe olhou com tédio.
“Sexo desgovernado e casual para superar o chifre não é exatamente o que quero dizer.” O mais novo analisou com os braços cruzados.
“Foda-se, transei pra caralho mesmo. Bons tempos, inclusive.” null sorriu, se lembrando dos dois primeiros meses em que não passava um dia sequer sem dividir o colchão com alguém.

O irmão suspirou.

“O que estou dizendo é: se permita viver, sentir. Entende?” Os irmãos se olharam por um tempo e null sorriu, afirmando com a cabeça.
“Ca-ra-lho. A null realmente fez um bom trabalho.” null rolou os olhos e riu.
“Eu não posso negar, ela é foda. Eu gosto muito dela.” Ele falou sincero e null sorriu sincero.
“Eu sei, posso ver isso! Fico feliz por você, irmãozinho. De verdade. É bom quando nos empenhamos para sermos a melhor versão de nós. Não é fácil, mas você tem se saído bem.” null piscou para o irmão, e deu de ombros.
“Eu faço o que dá. Mas você parece estar inspirado também, falando coisas tão profundas! Porque será, não é mesmo?” E ele cruzou os braços, caçoando do irmão, que discordou.
“Ei, qual é! Eu sempre fui profundo!” null argumentou, e ambos ouviram a porta do banheiro destrancar, com uma null saindo lá de dentro.
“Acho que tinha xixi acumulado desde o século passado.” Ela comentou risonha, e antes de sentar, deslizou as mãos pelo ombro de null, que a seguiu com o olhar.
“Ah, aí tu limpa a mão de xixi em mim? Você é podre, garota!” Ele disse e ela riu incrédula.
“Cara, você não tem jeito! Dá um tem-po!” Ela tentou dar dois tapinhas em si, e ele segurou os pulsos dela com facilidade, sorrindo sarcástico. Ela tentou se soltar e ele cada vez intencionava a feição, nitidamente caçoando de sua incapacidade em se libertar.
“Me larga!” Ela pediu rindo.
“Diga que eu sou lindo.” Ele fez cara exagerada.
“Você é horrível.” Ela disse com tédio.
“Diga que eu sou maravilhoso.” Ele a encarou sorridente.
“Filhote de cruz-credo.” Ela devolveu, fazendo cara de nojo.
“Diga que eu sou o rei da pedra do rei.” Ele insistiu com o cenho franzido.
“Belzebu dos infernos.” Ela respondeu, rolando os olhos.
null!” Ele exclamou rindo e ela o acompanhou.
“Me solta, perturbado!” E ele atendeu seu pedido, fingindo estar emburrado.
“Vou te soltar só porque achei seu cabelo exótico.” Ele comentou e ela finalmente acertou um tapa em seu ombro.
null, vai à merda!” null riu, prendendo o cabelo num rabo de cavalo alto.
“O My little poney mais lindo que eu já vi na vida, te juro.” Ele disse e escapou da mão que tentava lhe acertar de novo.

null riu daquela cena e se levantou da mesa.

“Ué, já vai?” null parou de rir e o olhou confusa.
“Sim, tenho que fazer algumas coisas.” Ele respondeu sorridente.
“Mas tá tudo suspenso hoje, cara.” null argumentou e null lhe lançou um olhar incisivo.
“Eu tenho que fazer coisas em casa, irmão. Só vim aqui porque a chuva deu uma pequena estiada e porque vim trazer as compras que você anteontem pediu. Depois a gente acerta isso, preciso ir e aproveitar, antes que meu carro vire canoa, ou pior!” E fez uma pausa dramática e olhou de forma sapeca para os dois. “Ser obrigado a ficar aqui com vocês.”

O mais velho e a moça abriram a boca para argumentar, mas null não deu atenção.

“Tchau null, foi bom te ver, aparece um dia lá em casa para conhecer Karin e comer umas comidas boas. Vai ser divertido.” Ela se levantou e ambos se abraçaram ternamente.
“Se cuida, abestado. Avisa quando chegar, tá? E eu levo um vinho bom quando combinarmos o dia.”
“Pelo amor de Deus, melhor do que aquele que você me indicou da última vez.”
“Eita, por que?”
“Ele era doce demais, eu odeio vinho doce! Na verdade, não curto doces de maneira geral.” Ele comentou dando de ombros e ela arregalou os olhos.
“Oh Deus, isso sempre foi verdade então? Achava que você bancava essa por achar descolado!”
“Não, eu realmente não curto doces.” null respondeu tediosamente, e null o encarou com estranheza.
“Entendi! Você já está morto por dentro, só não sabe.” Ela repetiu a fala que proferiu na noite anterior pra null. Este por sua vez, riu por ouví-la novamente.
“Também senti sua falta, querida.” E bagunçou o cabelo null de leve, levando um pequeno empurrão da amiga.
“Tchau irmão, depois a gente se fala.” Ele disse ao abraçar null, que concordou num aceno.
“Aproveita a minha deixa, caralho.” null sussurrou no ouvido de null, que tentou disfarçar o constrangimento em ouvir isso e dar de cara com null os encarando sorridente.
“Claro, maninho. Nos falamos sim.” Ele respondeu automaticamente, sorrindo amarelo.
“Certo, até mais!” null se despediu e saiu porta a fora, deixando ambos sozinhos.
“Que sorte a nossa ele trazer essas coisas, não?” null perguntou enquanto null mexia na bolsa, retirando alguns alimentos.
“Pois é. Sorte que ele mora aqui perto também.” Ele disse, cheirando o ramo de cheiro verde antes de colocar na pia. “Adoro isso.”
“Eu também!” Ela comentou alegre. “E aí, o que vamos fazer para jantar?” Ela perguntou, parando atrás dele.

null se virou com uma peça de queijo na mão, e encarou o rosto de null. A chuva lá fora caía insistente, porém em menor quantidade, conforme null havia falado. Ele voltou a olhar a amiga, olhou o queijo, viu o baguete em cima da mesa e lhe sorriu.

“Então... Curte fondue?”


Capítulo 4 - Jantar

“Isso, mexe assim, devagar.” Ele dizia com uma voz melodiosa, orientando o trabalho manual.

“Eu tô fazendo certo?” Ela perguntou receosa. “Posso garantir que está muito gostoso, e olha que você nem acabou ainda...” null respondeu com um sorriso ladino, e null respirou aliviada.
“Preciso que você continue me dizendo o que fazer pra que isso fique bom.” Ela disse, passando a mão na testa suada.
“Tá com medo?” Ele indagou risonho.
“Tô, ué! Sou muito inexperiente nisso...” Ela reclamou com uma careta.
“Você está indo muito bem. Tem que aprender a relaxar e confiar em si, null.”
“É fácil pra você, sabe fazer melhor que eu...” Ela pontuou com a cara aflita.
“Eu prometi te ensinar, e é isso que estou fazendo. Só não importa o que faça, não pare o movimento.”
“Por que?”
“Senão vai ficar mole e aí não presta mais. Tem que ficar em ponto de bala.” null explicou, segurando o braço dela e guiando a manobra.
“De bala? Mas isso não é um creme de queijo?” null indagou de forma engraçada, e o rapaz suspirou antes de responder.
“É só um modo de falar, mulher. Tem que mexer para não ficar mole, e sim cremoso. Na verdade, o ponto que tem que ficar é quase aquele em que você passa a colher de pau e o fundo da panela aparece. Ainda falta um pouco... Percebe?” Ele comentou mexendo a colher pela mão de null, envolvida pela sua própria. Apesar de estar aparentemente calmo, tinha dificuldades em se concentrar com a proximidade dos corpos e o cheiro dela tão envolvente, tirando seu prumo.

Depois que null foi embora deixando-os à sós, null não parou de pensar no que o irmão lhe dissera. E ele não podia negar; reparando na interação com null, percebeu que se sentia atraído por ela. E não só pela beleza do corpo, do rosto, dos olhos... Mas por ela toda. null visivelmente cresceu, tornou-se uma mulher linda, inteligente, engraçada, generosa... E mesmo diante das dificuldades e experiências ruins, lutava pela sua felicidade, sem medo de buscar uma nova versão de si.
E isso fazia null admirá-la. Sim, se identificava com as dores dos amores, mas tinha algo a mais! Com null parecia que os assuntos não tinham fim, e cada vez mais sentia-se interessado em saber mais histórias, mais detalhes... Era tudo tão natural que ele se sentia empolgado em sua presença, e se pegava desejando intimamente que aquela chuva durasse um pouco mais.
Ao constatar isso, sentiu-se nervoso. Começou a pensar sobre as possibilidades do que aquelas sensações poderiam lhe trazer, e se perguntou se ela sentia o mesmo. Afinal de contas, a jovem estava refém da situação climática, então a questão que pairava em sua mente era: Se ela pudesse, iria embora? Voltaria para a pousada e seguiria nos passeios que planejou fazer? Ou por acaso gostaria de passar mais tempo com null, como ele desejava? Esses pensamentos nublavam a atenção do rapaz, e a insegurança começou a se fazer presente.
E por causa dela, ele não poderia ver com nitidez que a recíproca era verdadeira.
Estava tão mergulhado em sua conversa interior que apenas despertou quando null provou o molho na palma da mão livre.

“Hm... Acho que rola um pouco mais de sal...” Ela pensou alto, e colocou um pouco em seu dedo indicador, oferecendo-o para null. “Vê aqui.”

null encarou o dedo apontado em sua direção e sentiu um arrepio passar pela espinha com aquela ação tão... instigante. Abriu a boca e a jovem moveu a mão em sua direção. Quando a língua entrou em contato com o molho, null sugou o dedo de null e suavemente tocou a mão dela, permitindo se deleitar no ato. Fechou os olhos para apurar os sentidos e jogou a cabeça pra trás com graciosidade, soltando o dedo e encarando a jovem logo em seguida com um sorriso.
Ela estava com a boca entreaberta, assistindo a tudo com muita atenção – e agora focava na boca do rapaz, que se curvava num sorriso astuto. Sim, ele estava testando possibilidades, limites... Queria saber se ela também tinha vontade. Vontade dele.

“Eu acrescentaria mais queijo parmesão ralado, e talvez mais uns pedaços de gorgonzola. Isso vai dar conta do ponto e do sal, já presente nos queijos, sem necessariamente pesar o molho.” null falou com a voz mais grave que o normal, de forma tranquila, ainda segurando a mão de null. Ela permanecia olhando para sua boca. Ele prendeu o ímpeto de rir e a tirou de seu devaneio.
null?”
“Hm?” Ela piscou várias vezes, olhando nos olhos de null.
“Os queijos.” Ele disse sorrindo, achando graça no jeito dela se perder.
“Ah! Sim, sim! Os queijos!” Ela respondeu, dando a colher de pau para null e indo pegar os ingredientes.

Depois disso, eles seguiram em silêncio; null com um sorriso discreto no rosto, mexendo na panela, e null com as bochechas queimando em vergonha, enquanto cortava e ralava os queijos. Eles até falavam uma coisa ou outra, mas era visível que a jovem tinha outras coisas na mente. A cena de null lambendo seu dedo simplesmente não a deixava em paz, inclusive. A sensação então...
Balançou a cabeça ao perceber a quentura que a tomou por dentro, e inconscientemente apertou uma perna na outra, como se o corpo respondesse aos estímulos mentais.

“Sinapses em perfeito estado.” Ela sussurrou para si mesma, mas null ouviu e arqueou a sobrancelha.
“Hm?” Ele perguntou, curioso. null arregalou os olhos e o encarou sem graça.
“N-Nada! Tô aqui pensando que precisamos providenciar a calda de chocolate também. Vai ter sobremesa, né? Fondue bom é fondue salgado e doce!” Ela saiu pela tangente, dando uma piscadela e rindo de nervoso.
“Claro! Mas a calda eu pego lá embaixo, tenho já pronta por causa do Convict.” null explicou, prestando atenção na panela. “Oh, vem cá. Esse é o ponto! Tá vendo?”

null se aproximou com os queijos em mãos, numa pequena tigela.

“Nossa! Fica incrível mesmo. Posso colocar?” Ela perguntou, olhando null nos olhos, que assentiu num movimento com a cabeça.

A jovem depositou com delicadeza os ingredientes finais e viu null mexer por mais alguns minutos, e desligou o fogo.

“Prova agora.” Ele solicitou, colocando molho em seu dedão. null abriu a boca e se moveu em direção ao molho, sem tirar os olhos de null.

Com medo de queimar a boca, assoprou por alguns instantes e foi pouco a pouco encostando os lábios no dedão, sentindo a temperatura amenizar e o molho preencheu sua boca, bem como null.
Ela sugou tímida, desviando o olhar para o chão enquanto tentava pensar em outra coisa... que não fosse a vontade de pular em cima do homem à sua frente e dar vida ao que tinha em mente.
null, por sua vez, observou a cena sentindo seu corpo reagir com excitação, mas tentou disfarçar com um sorriso ameno. Que para null, apenas soou como um sorriso provocativo. E ela apreciou isso.
Movendo a cabeça para o lado, null abandonou o calor do dedo de null, e pigarreou antes de falar.

“Está ótimo.”
“Gostoso?” Ele perguntou, sorrindo abertamente. Ela levantou o olhar e sorriu sarcástica.
“Muito.” E ambos se olharam, sentindo a faísca surgir.

null engoliu a seco e quebrou o contato visual, respirando devagar ao acenar para null.

“Ótimo. Então vamos colocar isso no aparelho e comer. Estou faminto.” A última frase soou tão convidativa que a mulher decidiu se deixar levar.
“Eu também. Parece que nunca provei algo tão gostoso antes. Estou ansiosa.” Ela respondeu levemente atrevida, esfregando as mãos uma na outra.

null olhou rápido pra ela e riu sem graça, voltando a ajeitar as coisas na mesa enquanto a amiga pegava os talheres.
Ele realmente tinha ouvido aquilo? Era possível que null estivesse se referindo ainda a fondue? A conotação estava tão dúbia, a dúvida pairava no ar, mas ficou tão sem reação que apenas riu, concordando silenciosamente com ela.
Em poucos minutos, o jantar estava servido. null aproveitou o vinho trazido por null e o abriu, colocando em dois copos americanos.

“Vou ficar devendo as taças.” Ele advertiu, com cara de culpado, logo depois de brindarem. Ela rolou os olhos e riu levemente.
“O que importa é o conteúdo, null. O gosto, a essência. É provar, não importa se numa taça de cristal ou num copo de café. Não acha?” Comentou sorrindo, e sorveu um gole da bebida, apreciando o sabor com um murmúrio na voz, de olhos fechados.

Ele engoliu em seco. Ela só poderia estar brincando consigo. Afinal de contas, como tudo mudara tão de repente? À tarde estavam brincalhões, tranquilos, fofoqueiros. Na escuridão da noite, com as luzes amarelas à meia luz, ele se perguntava como o clima poderia ter tomado outra proporção, e tudo parecia a ponto de se derreter em deleite e prazer.
E ele estava contente com essa mudança.

“Não poderia concordar mais.” Ele disse por fim, sendo sincero.

Sem aviso prévio, null abriu os olhos e sorriu, pegando um pedaço de pão e o mergulhando no molho, colocando na boca e digerindo com gosto.

“Caralho, isso tá muito bom!” Ela exclamou animada, e ele riu com a cena. Lá estava alguma parte da null “vespertina”, e se alegrou com a iniciativa da mulher, servindo-se também.
“Porra... Namoral, acho que nunca provei um fondue tão bom!”
“É porque você nunca provou comigo, querido...” Ela sorriu exibida, jogando o ombro em direção ao rosto. null riu, entrando na brincadeira.
“É verdade, acho que nunca tive uma companhia tão exótica.” E o sorriso dela se tornou em careta de nojo.
“Vai à merda, garoto!” Ela bradou risonha, e ele riu de sua reação.
“Falando sério, tô feliz de estar aqui com você.” Ele disse, depois de se recuperar das risadas. null estava sorrindo, e concordou consigo.
“Eu também. Parece que a chuva veio a calhar... Não é?” Ela perguntou quase com medo da negação de null, e o mesmo soltou o ar exasperado antes de sorrir.
“Cara... Eu estava pensando a mesma coisa!” Ele disse surpreso e feliz. null abriu ainda mais o sorriso, acenando com a cabeça.
“Sério?”
“Sim! Porra, muito sério! Eu fiquei pensando no lado bom da coisa, porque assim a gente pode curtir e aproveitar o tempo... conversar, cozinhar, enfim! Matar a saudade... juntos.” Ele disse um pouco envergonhado, enquanto mordia o lábio inferior inconscientemente.
“É.” null só conseguiu dizer isso, olhando com veemência para null. “É verdade...” Ela completou depois de um tempo de silêncio, e o rapaz apenas acenou, intimamente animado por ser correspondido de alguma forma.
“Eu nunca pensei que vir até a minha antiga cidade desencadearia um reencontro desses, null.” null admitiu, depois de descansar o talher no prato e encarando o homem.

Ele fez o mesmo, e virou seu rosto totalmente na direção dela, cruzando os braços e os apoiando na mesa, ficando mais perto da moça e ouvindo atentamente ao que lhe dizia.

“Eu também não esperava encontrar em você uma pessoa com quem eu pudesse desabafar, me fortalecer... Eu tive muita sorte em te reencontrar, sabe?” Ela disse, estendendo a mão para alcançar o rosto dele. Como ambos estavam sentados um do lado do outro, foi fácil para os dedos de null alcançarem a face de null.
“Você sempre foi alguém especial, mas depois de toda nossa troca, eu posso dizer que é alguém mais incrível do que antes. Ao mesmo tempo, fico feliz de ser uma pessoa com quem você se sinta à vontade para falar. Você sabe... De tudo.” Ela completou a frase, um pouco nervosa, e null percebeu que sua mão estava um pouco trêmula.
“Quero que saiba que você é maravilhoso por ser tudo que é, null. Pra mim, você ser você mesmo é a melhor versão de null que pode existir. Sem tirar nem pôr. Não esquece disso, tá?” E acariciou o dedão na bochecha do rapaz, enquanto ele afirmava com a cabeça, visivelmente emocionado com as palavras dela.
“Mulher, você é foda.” Ele disse com a voz levemente rouca, e null riu sem graça, abaixando a mão, que foi envolvida pelas duas de null.
“Eu tô falando sério.” A voz masculina soou firmemente.
“Eu sei.” Ela sorriu, umedecendo os lábios.
“Que bom que sabe. Sério, se encha de si, foda-se os outros! Você merece você mesma na sua vida. Espero que seja estupida e infinitamente feliz, null. Entendeu?”

Ela afirmou com um aceno, e ele sorriu alegre.

“Ótimo.” E acariciou o rosto dela com delicadeza, enquanto ela fechava os olhos e apoiava a mão na dele, sorridente.

Aquela cena era definitivamente uma das mais bonitas que o rapaz já tinha visto em tempos. Ela parecia ser boa demais para seus próprios olhos, e na curiosidade quase infantil, passou os dedos pelo rosto da jovem, sentindo cada marca, cada detalhe por suas digitais.
null abriu os olhos, encarando a feição encantada de null. Mas isso deu lugar a um cenho franzido, e os olhos do null observaram algo acima dos null de null, no canto direito.
Ele se aproximou e tocou a pele que estava em alto relevo em relação à uniformidade da testa da jovem. O toque fez null estremecer, mas não havia nada a ver com a temperatura, nem com dor. Pelo menos não física.

“Onde conseguiu essa cicatriz, Harry Potter?” Ele perguntou, voltando a sorrir e encarando as bilhas iluminadas de null, que piscaram mais vezes do que de costume. O sorriso sumiu novamente ao ver que ela desviou o olhar e mirou o chão, sem graça.

Não foi preciso dizer nada. null ainda estava com o dedão em cima da cicatriz, que deveria ter uns três centímetros, quando se aproximou mais ainda e observou a coloração levemente mais clara da marca.
Não demorou muito tempo para unir as informações que tinha descoberto nas últimas horas, e o silêncio de null confirmou suas suspeitas. Doía em seu peito pensar em que circunstâncias aquele machucado foi feito, haja vista as inúmeras possibilidades. Ele sentia a respiração dela rebater em seu rosto, acelerada. Ele também estava nervoso, sentindo-se invasivo diante daquilo, sem saber o que fazer.
Sentiu os lábios secos, e umedeceu antes de chamá-la.

null?” Ela ergueu vagarosamente o olhar, até encontrar o seu. Estava marejado, e o aperto no peito aumentou ao ver isso. Ela engoliu a seco e riu por puro nervosismo.
“Nem todas as marcas na testa são de amor, Dumbledore.” Ela respondeu segurando o nó na garganta, sorrindo de forma forçada, abaixando o olhar. Mas null não mudou a feição, nem fugiu o olhar – continuou segurando o rosto dela com precisão e cuidado, absorvendo a certeza de suas deduções.
“Olha pra mim.” Ele pediu, e ela atendeu seu pedido; as águas não secaram.
“Isso é qualquer coisa, menos amor.” Ele falou sério, vendo que as lágrimas caíram silenciosas enquanto ela prendia os lábios. “Você sabe disso, não sabe?”

Ela afirmou com a cabeça, e null soltou o ar preso nos pulmões, pesadamente. Sentiu vontade de fazer algo que não sabia como seria interpretado, mas esperava que ela entendesse suas intenções.
Levou os lábios à testa e beijou a cicatriz delicadamente, deslizando as mãos para os braços de null. Pouco tempo depois, estavam num abraço apertado; ele a envolvendo, ela retribuindo, se agarrando ao seu corpo enquanto se permitia sentir o carinho, o afeto de null.
De olhos fechados, sentindo os lábios dele em sua cicatriz, um misto de emoções a habitava. Ela sabia que tinha outras feridas não visíveis que null poderia enxergar. Ele, por sua vez, tinha cicatrizes que ela conseguia reparar de longe.
Ambos, atravessados por aqueles que passaram por seus caminhos e não fizeram de sua estadia, algo bom. Ambos, quebrados pelos papeis subjugados que foram impostos em nome à uma falsa ideia de amor. Ambos, buscando se curar a sua própria maneira, em seus próprios processos. Processos que levam tempo, feridas que abrem e fecham. Não havia algo linear ali. Não há vida linear, sem altos e baixos.
Mas era nítido para ambos que aquele momento, o carrinho da montanha-russa subia. E não estavam sós nos assentos. Tinham um ao outro, sabiam que poderiam contar um com o outro. Sabiam que distância não alterava a sintonia, que tempo cronológico não media afeto, muito menos a disposição de querer o bem um do outro.
Num movimento natural, ela escondeu o rosto no pescoço de null, absorvendo o cheiro da pele, enxugando o trajeto das lágrimas enquanto se afundava naquele porto seguro. Porto seguro? Sua voz racional tentou questionar. Mas ela sabia que a forma como se sentia era real, era sua bússola. Estava, acima de tudo, consigo mesma, a melhor companhia que poderia ter.
E então, criou coragem e começou a se entregar às sensações. A ponta do nariz gelado em contato com a tez aquecida, o toque dos lábios úmidos com a clavícula dele... Era maravilhoso, era quente, era acolhedor.
Descansava no pescoço do homem enquanto o mesmo se permitia respirar o aroma dos fios, não querendo se desfazer do enlace no qual se encontravam.
Não sabiam quanto tempo havia passado. Mas ainda em sincronia, se afastaram um pouco, e o rapaz enxugou o rastro do pranto da jovem com os dedões, sem retirar as duas mãos da base da nuca. Novamente seguindo seus instintos, ele se aproximou e beijou o centro de sua testa, descendo delicadamente até encostar os lábios quentes nos olhos fechados de null.
Ela respirava de forma acelerada, a boca entreaberta, e o peito ansiando por mais de todo aquele carinho que null lhe proporcionava. Dentro de si algo parecia ganhar vida e a chacoalhar. Era como se o corpo agitasse diante da saudade do que nunca viveu, mas sabia o quão bom seria.
Simplesmente sabia. O toque era certeiro, pontual. Os lábios do homem se arrastaram vagarosamente dos olhos para as bochechas dela, cujas mãos trouxeram o corpo de null para mais perto... A cabeça inclinada para matar a distância do encontro que ardia em acontecer.
Finalmente, lábios nos lábios. Um beijo sôfrego, intimamente sôfrego. Curiosidade no paladar. As bocas e a passagem, o gemido ao primeiro toque das línguas. O sabor peculiar dele. O sabor especial dela. O vinho se preponderando no gosto. A dança que encontra seu ritmo, e os corpos que se unem mais do que antes.
Aprofunda-se o beijo, o toque; a delicadeza vai dando espaço à precisão, à fome da alma, à vontade de viver algo que não machuque, que não doa, que seja seguro, que seja tão certo quando se sente; e mesmo sabendo o quão impossível aquilo era, naquele momento acreditavam o contrário. O corpo pede, a alma urge, e eles se entregam.
Eles cedem à vontade, eles cedem à montanha-russa. Pouco a pouco, pega-se velocidade, ela avança e pula no colo, as pélvis se encontram, e mesmo com tecido, já causa uma sensação de estremecer os corpos em ansiedade, com a notória prontidão do rapaz.
As respirações falhas não são obstáculos e o encontro perdura na intensidade, que aumenta cada vez mais. Ela se esfrega, movimenta o quadril sobre ele, que aperta sua carne com vontade e avança na pele de seu pescoço. Ela joga a cabeça para trás, o gemido ganha vida na boca aberta, e em seus dedos os cabelos de null se apertam, como apoio.
Querendo aproveitar mais e melhor, ele se levanta, caminhando de olhos atentos em tudo – no sofá-cama, no caminho e em null; e mesmo com o local levemente escuro, consegue chegar ao destino com facilidade – vantagem de conhecer o lugar como a própria palma da mão.
Mão esta que estava a conhecer novas superfícies, lhe trazendo conhecimento, prazer, calor. Também queria conhecer null como a palma da mão.
As pernas envoltas na cintura dele, as costas dela no colchão, ele em cima de si. A vontade de sentir mais e melhor, as roupas no chão. Momento algum de descanso para os lábios, que desfrutam de toda e qualquer tez do outro; a novidade que soa tão certa aumenta o frio na barriga, a pressa de saber do que são capazes juntos.
O primeiro rompimento de beijos, os joelhos dele apoiados no sofá. As pernas dela em volta de si, os olhares em fogo. As peças íntimas retiradas com calma e apreciação. Os dedos arrastados pela pele enquanto o tecido abandona o corpo. O tato demora-se na ação, tamanha é a curiosidade, o prazer, a vontade de degustar tudo que se apresenta.
Os corpos completamente nus, a visão. O tato, o olfato, o paladar. A audição aguçada para os gemidos presos, os soltos, diante dos toques das mãos curiosas. Olhos nos olhos, ele por cima dela. O beijo, o fervor. As respirações misturam, embolam-se, ela morde o lábio dele.
Falas anunciam o que a mente pensa.

“Você é tão linda.”
“Me abraça forte, vem cá...”
“Eu quero você.”
“Eu também te quero!”
“Isso, assim.”
“Não acredito que estamos fazendo isso”
“Tá tudo bem? Quer parar?”

Silêncio.
Respiração profunda.
Um sorriso nos lábios femininos.

“Eu não escolheria estar em outro lugar ou fazendo outra coisa senão isso com você, agora.”
“Sério?”
“Eu quero te sentir em mim.”
“Caralho, sim. Eu também. Como quero...”

Estavam prontos, tão prontos... null alcançou a carteira em cima da mesa de cabeceira, retirou o preservativo de lá e agilmente vestiu-se diante de null, que observava tudo sentindo seu corpo pulsar.
Ele a beijou novamente, desceu os toques, ela o retribuiu e novamente suas pernas abraçaram a cintura do rapaz. O encaixe, como todo o resto, fluíra de certa forma tímida, mas incrivelmente natural. O êxtase após primeira investida causou gemidos de ambas as partes. Um arrepio desceu a espinha do rapaz ao sentir-se dentro dela, que gemeu em resposta ao pé do ouvido.
Os movimentos começaram devagar, um de cada vez, encontrando sua velocidade, ritmo e forma. Cada nova sincronia era uma nova chance de escrever novas histórias na pele, na alma, no coração. Reinventavam-se ao se encontrar, ao encontrar-se um no outro, ao choque dos sexos, aos deleites das emoções, da vontade de partilhar com o outro a melhor versão de si: livre, vibrante, viva.
O prazer só aumentava, e as pontas dos pés dormentes ou os arrepios pelo corpo indicavam o clímax. Pra frente, pra trás. E a cada retorno, parecia que voltavam para onde jamais queriam sair.
O sexo de null começou a latejar dentro dela, os grunhidos ficaram mais constantes, e ele sabia que estava chegando em seu limite – a montanha russa alcançando o pico. Ele sentiu a mão dela se encaixar entre os dois e testemunhou a autonomia de null ao se mostrar o quanto a mesma era capaz de se amar, de literalmente buscar a si. Ele investiu nas carícias, nos seios à mostra, estimulando-os enquanto ela trabalhava em seu ponto sensível, que se demonstrava inchado, ansiando por atenção.
Segurando-se para não terminar antes dela, ele manteve o ritmo bom das investidas, enquanto a mulher cada vez mais manuseava seu próprio caminho de prazer. Seguiram nessa dinâmica por um tempo, com null se dividindo entre carícias diversas, além de dizer-lhe palavras e falas excitantes ao pé do ouvido.
E então, as pernas tremeram e ela agarrou uma mão aos cabelos soltos do homem, enquanto finalizava o estímulo com manuseio desesperado, e sua voz entoou uma melodia aos ouvidos de null em forma de gemido.
Era sinal de alívio, de prazer, de vida. Ele gemeu ao sentí-la lhe apertar e não tardou a encontrá-la no trajeto – ela descia a montanha-russa um pouco à frente de si, e ele apoiou a testa na dela, gemendo mais alto ao sentir o clímax lhe atingir por completo, se derretendo dentro dela.
As respirações permaneceram desreguladas, mas aos poucos se recompunham. Saiu de si com cuidado, retirou o preservativo e o descartou na lixeira ao lado do sofá-cama, voltando para a bela jovem que se encontrava nua de corpo e de alma.
Trocaram olhares intensos, meios-sorrisos cúmplices. Ele a puxou para um beijo, ainda sem acreditar no que tinha acontecido. Ela também.
Não disseram uma palavra; passaram o tempo dedilhando um ao outro, trocando carícias, beijos, e bons momentos.
O fogo da fondue havia se apagado há tempos, mas o do casal simplesmente seguia flamejante. E assim passaram boa parte da noite e até da madrugada, confundindo sons de trovoadas com gemidos, explorando falas, corpos, sensações, mergulhando um no outro, sem ter pressa para voltar à superfície.
Finalmente quando já não sustentavam mais o próprio peso, ela adormeceu no calor dele e vice-versa, respirando o mesmo ar, os mesmos cheiros misturados, as peles e os corpos abraçados, acoplando-se como se descansassem não só do ato sexual em si, mas da dureza da vida; haviam enfim, encontrado um cais de porto para respirar diante de tantas tempestades em alto mar.


Capítulo 5 - Carta ao destino

“Merda!” null reclamou ao deixar derrubar um copo de vidro no chão. null olhou para a cena, e seu olhar encontrou o de null, que apontou para null com um aceno de cabeça. Eles tiveram uma discussão silenciosa, apenas entre olhares, e a mulher nitidamente venceu.

null bufou e foi em direção ao amigo, que terminava de limpar os cacos de vidro e jogava tudo no lixo.

“Vem comigo.” O sócio colocou a mão nas costas de null e direcionou para a saída do Café Convict. O outro franziu a testa, sem entender.
“O que houve?” Ele perguntava enquanto era arrastado pelo amigo, que o ignorou.
“Segura as pontas aí.” null falou com null, que afirmou com a cabeça.

Ao chegar do lado de fora, caminharam até um canto mais reservado, e o amigo acendeu um cigarro enquanto o null encarava impaciente, de braços cruzados. null deu umas duas tragadas antes de quebrar o silêncio.

“Cara, estamos no meio do dia dos namorados, o Café tá lotado! O que houve?” null perguntou, irritado.
“O que que tá pegando, cara?” null perguntou numa calma incomum, fazendo o amigo estranhar a pergunta.
“Como assim?” null suspirou e rolou os olhos. Soltou a fumaça e encarou o amigo com a feição séria.
“Você está há dias tratando todo mundo mal, errando pedidos e agora quebrou o terceiro copo da semana... O que tá te deixando assim? Aconteceu alguma coisa? Você parece nervoso, incomodado.”

null fechou a cara e encarou a rua agitada. O sol daquele dia estava estupidamente radiante, como se não tivesse tido uma das piores chuvas há sete dias.
Malditos sete dias.
Ele voltou a olhar o amigo, que arqueava a sobrancelha, fumando calmamente seu cigarro.

“Não adianta me olhar com essa cara feia que isso pra mim é fome. E você não vai sair daqui enquanto não me disser que merda tá acontecendo. Vai, desembucha.”

null bateu no cigarro com o indicador e as cinzas alcançaram brevemente o chão. null acompanhou o caminho sentindo-se amargo por dentro. Sabia que não escaparia do interrogatório do amigo, só não pensava que estivesse tão visível o quão mexido estava. Suspirou antes de dar-se por vencido e enfim, explicou.

“Há uma semana recebi a visita de uma antiga amiga. null, você lembra dela?”
“Acho que sim. Esse nome não é estranho...” Ele disse, coçando o queixo.
“Vivia pra cima e pra baixo com null.” null ajudou e null fez cara de compreensão.
“Ah, eu lembro! Era a namoradinha dele, não é? Eles faziam um casal bonitinho. Mas o que tem ela?”

null ficou puto duas vezes. Uma por sentir certos ciúmes ao ouvir que o irmão e null faziam um belo casal. A segunda, porque ficara com ciúmes, e aquilo só confirmava as suas suspeitas: estava de quatro por aquela mulher.
Respirou fundo, de olhos fechados. Se acalmou por alguns instantes e abriu os olhos, encarando o amigo com a feição séria.

“Nós ficamos.” Ele foi direto ao ponto e null se engasgou com a própria fumaça, começando uma sessão de tosse que logo foi amparada por tapinhas de null nas costas.
“Caralho! Sério? Caralho! Como foi isso?” O outro perguntou e null explicou tudo desde o início, até o dia em que ele acordou com a cama vazia, sozinho no escritório.
“Puta que pariu. E você não sabe o que aconteceu? Ela simplesmente desapareceu depois de vocês treparem?” null rolou os olhos e fez uma careta com a boca. “Ela deixou uma carta. E pelo visto, não foi só uma trepada...” Ele explicou, enquanto passava as mãos nos cabelos, sentindo-se nervoso.
“Uma carta?” null perguntou e o dono da Convict estava sem paciência em resumir mais a história. Num modo brusco, retirou um papel dobrado do bolso e entregou nas mãos do amigo, que jogou o cigarro fora e segurou a carta em mãos, desdobrando e lendo.

”Querido null,
eu estou aqui pensando comigo como você vai me achar brega por começar uma carta com ‘Querido null’, mas eu não sei exatamente como falar isso sem sentir o peso de tudo que vivemos e tudo que tenho sentido agora.
Primeiro eu gostaria de pedir desculpas prévias por você acordar sozinho depois das melhores vinte e quatro horas que eu vivi nos últimos tempos. Talvez anos, até. Eu sei, isso parece uma atitude de macho hétero-cis que foi comprar o cigarro e nunca mais voltou, mas juro que não se trata disso.
Mas eu precisava ir.
Assim como precisava escrever antes de ir.
Você provavelmente não está entendendo nada, e eu não o culpo, pois se eu estou confusa, imagino você...
Mas eu não posso negar a promessa que fiz a mim mesma, de me cuidar, e de ser inteira. E eu percebi que estar com você é incrível, mas as coisas que senti nesse tempo me mostraram o quão fácil posso me perder em meus propósitos e em minhas vivências.
Você torna tudo tão fácil, null. Tão natural, tão gostoso, tão sincero, tão fluido. Mesmo que você esteja um pouco quebrado, a sensação que dá é que você está mais preenchido de si, do que esvaziado. E eu fico muito feliz por você ter conseguido, de verdade. É algo que não só admiro, como torço pra que você alcance cada vez mais.
E bem, estou seguindo seu exemplo e seu conselho: encher-me de mim, ser uma parte inteira de mim mesma. E por mais que tenha sido apaixonante compartilhar histórias, refeições, sonhos, dores, e prazeres com você, eu ainda não estou inteira.
Não estou inteira para você, muito menos para mim. E isso não é justo, sabe? Nem comigo, nem com você... Com nenhum de nós dois, na verdade. Eu não quero começar algo se ainda estou inacabada em vários aspectos que urgem em mim agora – e que há muito foram negligenciados. Estou retomando um trajeto difícil, um caminho de volta para mim, e isso não requer só tempo, como compreensão, e acima de tudo, paciência.
A vontade que tenho agora é de rasgar essa merda de carta e te ver dormir esse sono tranquilo que você curte, observar as suas feições relaxadas, ou a forma como seu corpo paira sobre esse sofá-cama. Ou quem sabe, te acordar com muitos beijos, sorrisos e pedir que a gente faça de novo esse sexo maravilhoso e depois cozinhe um bom almoço pra gente. Pensar essas coisas fazem o frio na barriga ser mais real do que já é...
Caralho null, o que você fez? Até anteontem você era o irmão mais velho de null; era o cara brincalhão e implicante, colírio das minhas amigas de infância. Agora você é simplesmente uma das pessoas mais incríveis que eu conheço, com quem pude compartilhar uma experiência foda, desconcertantemente prazerosa, que me deixa na saia justa, querendo largar o bom senso e simplesmente tacar o foda-se.
E eu tô falando isso tudo porque sei que existe alguma reciprocidade. Eu sei que você, assim como eu, sentiu coisas profundas, meio que parou sua vida para me receber, e...
Oh merda. Agora veio a dúvida se isso tudo que vivemos foi ótimo pra você, mas eu talvez esteja levando a outro nível – e provavelmente estou.
Bom, não dá exatamente pra voltar atrás, né? Então essa é a verdade: eu não sei se você gostaria de um repeteco disso tudo, mas eu definitivamente quero. Quero muito, e a minha mente já imaginou várias outras coisas que me levam ao motivo de estar indo embora: não são saudáveis. As expectativas sobre isso tudo fogem à realidade, e a minha cabeça não quer nem saber, só fica pensando em como seria viver mais disso tudo. E porra, a gente só ficou uma vez, mas foi tão intenso! Seria esse o famoso amor de pica é amor que fica? Enfim.
Só sei que isso não é saudável; eu investir mais tempo e energia nessas coisas do que garantir minhas vivências, meu amor próprio, meu autocuidado... Meu recomeço.
Eu sei, eu poderia fazer isso e ficar. Mas dentro do que vejo necessário pra mim, graças às conversas que tivemos, e a forma como nos afetamos um pelo outro (de todos os jeitos, se é que você me entende), eu percebi que ainda falta alguns bons passos para que eu construa apoio próprio, sabe? No sentido de confiar em mim, estar sozinha e estar bem. Fazer as escolhas que eu realmente quero, traçar minhas metas e me desgarrar de certas amarras que ainda muito me sangram.
E eu adoraria fazer isso enquanto curtiríamos um tempo juntos, mas... não seria possível. Sabe por quê? Porque você é esse cara incrível, viciante, gato pra caralho, engraçado, sensível, inteligente, gostoso, atencioso e ainda é dono de uma porra de uma Cafeteria linda pra cacete.
Eu ia me perder em você. Na verdade, eu já estou sentindo isso. E o problema é que me perder em você seria maravilhoso, como foi a noite passada. Mas não é certo, nem justo, muito menos saudável comigo, e a promessa que fiz de cuidar de mim mesma quando terminei meu último relacionamento.
Minha escolha de partir nada tem a ver com possíveis sentimentos remanescentes sobre Alain – na real, eles nem existem, mas achei importante ressaltar. Eu estou indo porque quero ser alguém melhor pra mim, me cuidar, e preciso fazer isso sozinha, preciso me encher de mim mesma, como você disse. E eu não seria capaz disso se não fosse por você, ao mesmo tempo que permanecer ao seu lado seria me boicotar. Porque eu me conheço... Eu mergulharia no seu mundo, perderia minha individualidade, e caso terminássemos algum dia, eu voltaria à estaca zero. E posso estar sendo precipitada ou até mesmo medrosa demais, mas é o que eu sinto que preciso fazer.
Eu espero que você não fique muito chateado, mas é isso. Saiba que estou nessa minha busca por mim, principalmente porque você foi e é parte essencial dela; a força e o apoio que faltavam pra enxergar tudo que vejo agora. A continuação de um processo que eu bravamente comecei, e não seria nada sem pessoas como você no meu caminho. Então, eu quero ser melhor pra mim, acima de tudo. Mas quero ser a minha melhor versão pro que possa a vir, pra quem possa me amar...
E eu não vou negar, pensei muito em nós, e nas possibilidades futuras.
Mas isso, eu deixo para o destino, e nossos passos. Eu espero que você entenda, espero que guarde em um lugar bom dentro de si isso tudo que vivemos, e espero que saiba o quanto eu gostaria de estar inteira para viver mais dias como este com você... E espero do fundo do meu coração que não tenha soado como uma louca desesperada por atenção, fissurada num cara. Mas se sim, foda-se, não é mesmo? A vida é curta demais para ficar me preocupando com as coisas que eu deveria ou não revelar... E ademais, também sei que nossa história não é de hoje, que existe alguma importância, algum peso, e que não somos ‘qualquer pessoa’ um pro outro.
De toda forma, eu sei o que senti, e acho importante que você saiba disso. E se não foi recíproco, tá tudo bem também. Eu agradeço pela experiência que me impulsiona, e vida que segue!
Mas se houve reciprocidade, eu espero que você não se emputeça caso eu te procure quando estiver inteira. Vou entender caso negue uma possibilidade entre nós, vou entender pra caralho se estiver com alguém que te valorize e te ame muito quando eu... retornar.
Porque eu vou. Eu estou indo com o coração totalmente atravessado por tudo que vivi na minha vida amorosa – e que honra poder ter você nela – mas não tenha dúvidas, eu volto. Nem que seja pra dizer um “oi” e agradecer mais uma vez por tudo que vivemos. Eu espero que muitas coisas mudem, mas não a forma como me sinto em relação a você.
Mas se mudar, eu sempre vou me sentir aquecida pelo que estou sentindo agora, e isso é impagável, e só foi possível porque você é você, o que já é muito. Obrigada por me proporcionar isso.
Continue sendo você, maravilhoso, gostoso, rei da pedra do rei. Ame, ame demais, transe também, viaje, voe alto, invista em seus sonhos e coma coisas melhores do que aqueles Cup Noodles, sério. Uma hora o corpinho bonito vai pedir arrego, e você merece ser bem cuidado por si mesmo também.
Todos nós merecemos.
Com amor,

null.”


“Caralho.” null falou depois de ler.
“Pois é.”
“Caralho mano. Você tem a pica de ouro? Essa mulher escreveu um testamento por causa de uma noite? Puta que pariu! Até eu quero dar pra você agora.” null rolou os olhos, mas não conseguiu evitar dar uma risada.
“Pode vir. Uma rapidinha agora não seria má ideia. Você sabe, jogo rápido, nada que gere conflitos.” null respondeu com um sorriso ladino e null riu sem graça.
“Desculpa, mano. Mas meu corpinho é todo da null, você sabe.”
“Aquela megera do cabelo azul, pff... Isso é tão 2007.” null brincou enquanto null mandava o dedo do meio, rindo do amigo.
“E então? O que achou?” O null perguntou enquanto a carta era devolvida.
“Cara, ela é intensa, né?” O amigo comentou ao cruzar os braços. “Bem intensa. Mas me parece empenhada pra se entender, pra ficar bem. E me pareceu gostar bastante de você. Genuinamente.”
“Pois é...” null suspirou, batendo a cabeça na parede atrás de si, cansado.
“E algo me diz que você também gosta dela.” O amigo respondeu com um sorriso de canto.
“Caralho, eu não sei como isso foi acontecer, sério.” null respondeu sincero, dando de ombros. “Tipo, puta que pariu, é a null, sabe? Ela era aquela garotinha que vivia junto do null, que eu adorava zoar junto ao meu irmão, e que foi louca o suficiente pra fugir de casa aos 13 anos e tentar nos encontrar depois que minha mãe morreu. Sempre atrevida e corajosa...” Ele sorriu ao pensar na memória, e null sentiu pena do amigo.
“E agora ela tá aí! Um puta mulherão desses, sabe? Caralho, eu não lembro a última vez que tive tanta sintonia com alguém assim. E eu sei que parece loucura, porque foi como ela disse, vinte e quatro horas juntos apenas, mas foram as mais intensas e gostosas que eu vivi nos últimos tempos, mano. Tipo, eu aproveitei tudo mesmo, não só a óbvia e maravilhosa parte do sexo. Eu curti todas. To-das. Desde conversar pra caralho, a implicar com ela, ou ouvir suas histórias, ou secar seu choro, ou fazê-la dormir nos meus braços, cozinhar junto e o caralho a quatro...”
“Vocês fizeram tudo isso em vinte e quatro horas?” O sócio da Convict arqueou a sobrancelha.
“Sim!” null exclamou e null assoviou.
“Puta merda! Intenso mesmo, meu amigo. E você queria estar com ela agora, dando continuidade a isso tudo?”
“Sim! Puta que pariu, sim, mil vezes sim! Queria pegar aquele corpo e foder em cima da pia de mármore, queria dizer pra ela que eu me sinto todo fodido quando vejo ela rindo, queria dizer que pra mim foi muito importante, porque foi a primeira mulher que sabia da minha sexualidade e em nenhum momento demonstrou insegurança em estar comigo! Queria contar várias histórias, piadas, ir ao mercado, fazer o chocolate quente que ela gosta, mostrar minha casa, passear por aí... Porra, eu tô de quatro por essa mulher, null! E tá foda de lidar com isso, porque ela não tá aqui, entendeu!?”

O outro piscou várias vezes encarando null. Caminhou até si, e colocou a mão em seu ombro direito.

“Amigo. Você está de quatro por essa mulher.”
“Jura, porra?” null perguntou, irônico.
“Mas não é pouco não. Acho que até faz sentido ela ter escrito uma carta tão visceral, tão entregue. Vocês são assim, né? Separados também, mas mais ainda juntos, pelo visto.”
“Porra, tu não sabe como... E eu não consigo desviar minha mente dessa merda. Tá foda real. E estar sozinho no dia dos namorados, sendo dono de uma Cafeteria que está abarrotada de casais apaixonados só está me deixando mais pra baixo.” null foi sincero enquanto massageava as têmporas, em nervosismo.
“Calma, calma... Agora que você desabafou, vai se sentir melhor. E não se preocupe, esse dia também vai passar. Mas me diz, você tá chateado com ela?”
“Não. Eu entendo totalmente o que ela fala. E concordo.” Ele admitiu, suspirando. “Só que isso é uma merda, porque penso essas paradas racionalmente, saca? Já pro coração, são outros quinhentos...”
“Então vamos lidando com um número de cada vez até chegar os quinhentos? E se precisar, a gente retoma a contagem. Pode ser?” null sorriu animado para null, que devolveu o ato, aliviado.
“Obrigado, cara. Na moral mesmo!”
“Tranquilo, ‘tamo junto’. Faz o seguinte? Esfria a cabeça, tira o dia de folga. Eu e null damos conta da equipe e do Café. Vai pra casa, dá uma relaxada, aproveita sua companhia. Segue o exemplo da null, e se preencha de si.”
“Porra, não vou recusar essa deixa não. Valeu null. Qualquer coisa me liga.”
“Deixa comigo. E ah! Estou torcendo por vocês.” O amigo acenou com um joinha, antes de voltar para a Cafeteria. null riu de lado e seguiu seu caminho, respondendo para si mesmo.
“Eu também.” E suspirou, atravessando a rua e seguindo para casa.

***

Cinco meses depois


“Eu preciso ser sincero com você. Essa foi a nossa última vez.” A voz do rapaz soou firme, enquanto null amarrava os cadarços do tênis. Ele parou de dar o último laço e encarou Jon sentado na cama, apenas de samba-canção.
“O-k. Por que, exatamente?” null perguntou confuso, terminando o enlace e colocando o pé no chão, se ajeitando na cadeira da escrivaninha.

O peito nu de Jon subiu e desceu profundamente – estava visivelmente nervoso com o assunto abordado. Tentando manter a calma, null esperou sem apressá-lo, ainda que estivesse ansioso por sua resposta.

“Não dá mais, null. Não é certo pra mim... Me envolver com você. Entende?” null arqueou uma sobrancelha e deu de ombros.
“Na verdade, não. Foi algo que eu fiz ou disse? Te destratei de algum jeito?”

O negro respirou fundo, passando as mãos na cabeça, de olhos fechados. null estava genuinamente intrigado com aquilo; passara os últimos dois meses se encontrando com Jon, e tudo parecia estar bem. O sexo era bom, o papo era bom, os gostos eram similares. Mas, ele não poderia negar que tudo era bom num nível morno. E ele não se sentia voando nas nuvens como esperava que sentiria...
Ele acordou de seu diálogo interno quando ouviu Jon pigarrear.

“Muito pelo contrário, null. Você me trata bem demais, é tudo maravilhoso pra mim. Mas eu sei que para você não é. E depois de ontem à noite, eu tive certeza daquilo que já suspeitava.”
“Ontem à noite? Como assim?” null franziu a testa, sem entender. Estavam num pub com um casal de amigos de Jon, simpáticos e receptivos. null buscou as memórias da noite passada, sem exatamente encontrar nada demais.
“Você disse algo com muita tranquilidade e sinceridade. Eu entendi a intenção, mas ouvir aquilo me deixou bem desconcertado... Porque eu ouvi a verdade.” O negro respondeu olhando nos olhos de null, que o encarou sentindo-se culpado e confuso.
“O que foi que eu disse, Jon?” Sua voz saiu mais baixa que de costume, e o outro suspirou.
“Lembra quando meus amigos comentaram do cara que eu namorei na faculdade? Em como ele tinha entrado em contato com meus amigos para saber de mim? Você disse-“
“Que você era livre... pra fazer o que quisesse.” null completou, aos poucos rememorando a fala. “Merda...” Ele xingou consigo mesmo, começando a entender a situação.
“Olha Jon, eu juro... Não quis ofender você. Desde o começo a gente deixou estabelecido que não era um namoro... E para mim estava tudo bem explícito, sabe? Eu só comentei que você era livre, num sentido de que não ficaria chateado caso você quisesse pegar o telefone do cara, sabe? Não foi te descartando, foi só dizendo que estaria tudo bem... Sem ressentimentos. Só isso. Tendo diálogo, acho que tudo se resolve, entende?”
“Eu sei!” Jon exclamou, suspirando. “Eles só disseram isso pra te botar ciúmes, essa é a merda!”

O silêncio se estabeleceu. null engoliu a seco, e olhou para o chão. Ouviu o ar sendo puxado com dificuldade do nariz de Jon, e não precisava levantar a cabeça para saber que ele estava chorando. Tomou coragem após longos minutos de silêncio, e mirou o rapaz em um pranto silencioso.

“Eu não sei o que te dizer, Jon. Eu sinto muito se isso te deixou mal, eu não queria que...”

Jon só ergueu a mão para null, que se calou na hora. Sentiu-se desgostoso com aquela cena, e suspirou diante do ocorrido. Jon enxugou o rosto com a blusa que estava em cima da cama, e ergueu a cabeça para devolver o contato visual.

“No momento em que você disse aquilo, eu vi nos seus olhos que estava bem com a situação. Sem problema algum. E na forma que você falou, eu entendi que se tratava de duas pessoas com boa afinidade que tem se visto por dois meses e só. E sim, esse foi o combinado no início, mas as coisas... foram mudando pra mim. Em mim. A forma como você me tratou depois, como se estivesse tudo bem, só ressaltou a diferença das expectativas para o que temos. E eu pensei que no seu lugar, se eu tivesse ouvido aquilo, eu ficaria...” E pausou a fala, respirando fundo. null apenas afirmou com a cabeça. Era tudo verdade.
“Compreende, null?” Jon perguntou com a voz grave, e o null sorriu ameno, sentindo-se com um misto de pena e tristeza. Agora, a frase que iniciou aquela conversa fazia todo sentido. Realmente estava nítido que Jon sentia algo a mais por null, que não retribuía dessa forma. Precisava ser sincero, e talvez concordar com o rapaz sobre não se verem mais. Respirou fundo antes de respondê-lo.
“Eu não entendi que aquilo era uma tentativa de ciúmes partindo de seus amigos, mas honestamente, se queria saber a verdade, era só falar comigo, Jon. Esse tipo de “brincadeira” só aumentou o impacto da realidade, e eu não queria que você tivesse sua resposta de uma forma tão dura. Não sei como se sentiu, mas só de te ver assim, dá pra imaginar que não foi legal. Sinceramente, achei que estava estranho por andarmos de mãos dadas. Eu sei que você tem receio de fazer isso publicamente, então nem reparei que era por esse motivo específico.”

Ele se levantou, caminhou até a cama e se sentou diante do rapaz, segurando em suas mãos. O contato visual era intenso, e null acariciou a bochecha de Jon, que respirava com dificuldade.

“Você é uma ótima pessoa, Jon. Tem meu afeto, sem dúvidas. Mas não posso mentir para você e dizer que estou apaixonado, ou que pretendo ter um relacionamento sério, fechado com você. Sinto muito em dizer isso, e me desculpo se essas palavras te doem, mas... É a verdade. Não seria justo se fosse de outro jeito.”

Jon afirmou com a cabeça, mantendo os lábios para dentro da boca, concordando com null.

“Eu sei, null. Eu também sinto muito não ser recíproco. Então espero que entenda e não se chateie quando digo que foi nossa última vez juntos.” E encarou o null, com a feição séria.
“Nem que eu não entendesse, Jon. Acho que acima de qualquer coisa a gente tem que se sentir bem. Então, apesar de sentir sua falta, eu fico feliz por você estar se escolhendo, se colocando em primeiro lugar. Sério, é muito bom isso. E continuarei torcendo pelo seu sucesso, independentemente de qualquer coisa.” E sorriu mais tranquilo.
“Eu também, null. Obrigado por tudo.” Jon respondeu, parecendo gostar do que ouvira de null.
“Obrigado também. Foram bons meses.”

Ambos se envolveram num abraço, e Jon deu um último beijo nos lábios de null, que ficou com os olhos arregalados a princípio, mas retribuiu, terminando momentos depois com um sorriso sem graça.

“Tá valendo a partir de agora o acordo.” Jon disse e os dois riram. null acenou afirmativamente, e com uma mão estendida, perguntou.
“Amigos?”

*** Três meses depois.


“Bora null, faz um esforço caralho!” null berrava na cara do amigo, que rolava os olhos.
“Porra de festa que vocês querem me arrastar! A gente já passou dessa vibe de ficar curtindo choppada e festa de calouro, na moral.” Ele reclamava com a cara fechada, e recebeu apenas um dedo do meio da namorada de null.
“Isso é falta de sexo, você tá ficando ranzinza.” O amigo avisou, e null olhou com raiva.
“Transei semana passada, seu verme.”
“Porra, então porque tá com cara de comeu e não gostou?” null perguntou risonha, enquanto tomava um gole da sua cerveja.
“Foi bom, mas foi só isso. E tá bom para mim.” Ele respondeu ranzinza e o casal de namorados se entreolhou de forma cúmplice.
“E isso não tem nada a ver com o coração?” null indagou com a sobrancelha arqueada e null rolou os olhos, bufando.
“De novo esse assunto? Vocês poderiam trocar a fita de vez em quando, sabe?” Ele reclamou mexendo em alguns papeis e null se aproximou do amigo.
“Sério null, você precisa relaxar, cara!”
“Eu tô bem, null.” Ele respondeu sem olhar o sócio, que riu com sarcasmo.
“Eu tô vendo! Você tá ficando com a testa toda enrugada de tanto fechar a cara.”
“Eu só... Urgh!” E jogou os papeis em cima da mesa, desistindo de tentar se concentrar. Passou as mãos no rosto e fechou os olhos. Estava exausto.
“Eu só estou tentando levar as coisas numa boa, gente.”
“Mas visivelmente não tá ‘numa boa’ para você, null. E tá tudo bem não estar bem, sabe? É por isso que estamos aqui.” null respondeu, também se aproximando e colocando suas mãos nas dele, com um aperto carinhoso. Ele encarou o gesto sentindo-se reflexivo pelas palavras da amiga.
“Realmente não tá tudo bem.” Ele concordou, suspirando.
“A gente sabe que não. E sabemos que isso tem a ver com sua vida amorosa, cara. É seu calcanhar de Aquiles.” null comentou com um meio sorriso e null afirmou com a cabeça.
“Sei lá, parece que tá tudo fluindo, e ao mesmo tempo, não. Tô tentando lidar com esses sentimentos, mas tá foda sem ela.”

null pendeu a cabeça pro lado com uma feição de pena, enquanto null concordava com null. Ambos se mantiveram em silêncio, deixando o amigo desabafar.

“Eu juro que entendo as escolhas dela e torço muito por ela, é sério! Mas sei lá, a cada coisa nova que acontece comigo, eu tenho vontade de ligar para ela, dividir esse momento, saber como ela está... Eu sei que isso seria interromper o tempo dela, e eu não quero isso. Então eu seguro a minha onda e fico na minha. Só que eu percebi que, depois de Jon, não dá para simplesmente tentar conhecer pessoas novas se eu ainda deito a porra da cabeça no travesseiro e penso apenas em uma. null me faz falta e eu tô cansado de fingir que não.”

O casal observava null com os olhos atentos, e cada um parecia trazer sua própria forma de conforto com aquele silêncio respeitoso.

“Acho que no fim das contas, vocês têm razão. A semana foi punk e eu tô cansado para um caralho de tanto trabalhar no projeto da nova unidade da Convict.” Ele confessou ao estalar o pescoço, e o casal concordou consigo.
“E é por isso que vamos tirar você desse escritório, null! Tu precisa deixar as coisas fluírem, viver...” null advertiu, olhando para o amigo.
“Nem tudo é trabalho, pequeno gafanhoto. Respira, vai? As coisas podem estar confusas e delicadas, mas elas vão se ajeitar. Enquanto isso, por que não toma uma gelada com seus velhos amigos e curte uma noite de sexta-feira, uh?” null sorriu e ofereceu seu melhor sorriso. null olhou para os amigos e deu um sorriso mínimo de canto.
“Ok, vocês venceram.” E o casal soltou um coro animado em comemoração à decisão de null, que riu com isso.

Momentos mais tarde, os três caminhavam em direção a festa, com cada um tomando sua cerveja. Eles brindaram e null deu um senhor gole, que desceu convidativo pela garganta.

“Aí sim, porra! Viva os calouros, caralho!” null berrou, fazendo os outros dois rirem enquanto chegavam ao local da choppada.

Lá, encontraram mais dois amigos e infelizmente Sid, que estava com um novo namorado, apresentado como Ian. O cara era boa pinta, null teve que admitir, mas o fato de encontrar o ex acompanhado de outra pessoa e não sentir nem sequer uma pontada no peito demonstrava o que ele já sabia há meses: a porra da mulher de cabelo roxo ainda dominava seu coração.
Pensando nela, refletiu sobre como a comunicação entre ambos foi escassa nos últimos tempos; null preferiu não intervir no processo de null, ao tempo que sabia que precisava se controlar para não cair de cabeça e se ferir novamente também. Então apenas se falavam esporadicamente, com um “oi, tudo bem?”, logo depois que null confirmou a leitura da carta de null, respondendo a ela que entendia seus motivos, assim como respeitava a nova jornada, preferindo ater-se ao regime do contato para que as coisas não se prejudicassem, sem deixar de garantir o bem-estar entre ambos – e que ela não precisava se preocupar com isso.
Mas “tudo bem é o caralho”, segundo o próprio pensamento de null, ao perceber que os sentimentos pela garota só aumentavam, e volta e meia, por mais que estivesse deitando com outra pessoa, beijando outras bocas, ou até mesmo flertando, ele se pegava lembrando da fatídica noite da chuva, das conversas, dos corpos nus e da forma como se conectaram com tanta facilidade.
E aquilo fodia todo o meio de campo, tornando tudo mais complicado. Porque significava que sim, ele estava caidinho por ela, sem nenhuma previsão de retorno. Porém, ele gostava de ser otimista, e tentava pensar pelo lado bom: já não sofria por Sid, nem sequer guardava sentimentos ruins pelo mesmo, preferindo deixar tudo no passado e focar na sua própria felicidade.
O que não impediu do ex tentar reaproximação algumas vezes, mas foi completamente rechaçado pelo null, e a terceira e última vez foi aquela em que Sid percebeu que realmente null não estava nem aí pra si, ou melhor: estava em outra, mais especificamente uma outra de cabelo roxo e sorrisos espontâneos que o tiravam do eixo.
null ‘voltou para o presente’ ao ficar diante de Sid e corresponder educadamente ao cumprimento do ex. O dono da Convict foi oficialmente apresentado à Ian, e rapidamente engataram numa conversa animada, por mais estranho que parecesse. Aliás, todos estavam em roda, mas ambos trocavam mais ideias entre si do que a galera, falando dos últimos filmes indicados ao Oscar – assunto que aparentemente só interessava aos dois.
Num dado momento, Sid se afastou para buscar mais bebidas e Ian puxou o null para o lado, querendo conversar mais à sós.

“Olha cara, já tinha ouvido falar de você. Eu estava super inseguro porque sei que o relacionamento de vocês não terminou muito bem, e eu não queria entrar no meio de uma história de amor que não terminou da melhor maneira. Mas quero que saiba que respeito muito o passado de vocês e espero que entenda isso como um sinal de que venho em paz... Beleza?”

O poder de síntese de Ian, bem como sua iniciativa amigável, causou certa surpresa em null que apenas acenou a cabeça e sorriu gentilmente.

“Obrigado por vir falar isso. Foi legal da sua parte, Ian. Espero que vocês sejam felizes juntos, e que Sid seja uma pessoa bacana pra você. E você pra ele, também.” E sentiu-se alegre por aquele gesto do novo amigo, que sorria um pouco tímido.
“Eu que agradeço tua compreensão e paciência em ouvir esse cara chato aqui!” E Ian o abraçou de lado, voltando à rodinha enquanto gargalhava alto. null coçou a sobrancelha, sentindo-se um pouco constrangido pela efusividade de Ian, mas aceitou de bom grado. Poderia ser pior.

Ainda estava sorrindo sem graça, com os braços de Ian em seus ombros quando avistou uma figura familiar.
Familiar demais.
Tão familiar que o encarava de volta. E veio seguindo em sua direção, com o caminhar lento e incerto. null estava de boca aberta e sentiu o coração errar umas batidas. O ar faltou nos pulmões, e seus pés trêmulos simplesmente andaram ao encontro da pessoa, não acreditando no que seus olhos viam.
O cabelo estava mais longo, os fios estavam soltos, da mesma cor que ela usava meses atrás, quando atravessou a porta da Cafeteria. Mas, diferente daquele dia, agora ela usava um vestido tubinho vermelho e coturnos pretos. A maquiagem no rosto destacava os olhos e os lábios, rubros como o vestido.
E ela estava linda, linda demais.
A surpresa jamais abandonou null, que ainda a encarava embasbacado, sem exatamente saber se era pela beleza, ou por ela estar ali diante dele, depois de todo esse tempo.

“Oi.” Ela disse tímida, abraçando os próprios braços.
“Oi.” Ele repetiu, mecanicamente. Seus olhos moviam-se rápido na imagem a sua frente, e seu corpo parecia inerte, sem saber como reagir.
“Como você está?” Ela perguntou, sorrindo de lado.
“Bem.” Ele respondeu, sem exatamente prolongar. Apenas ficou observando, sem saber o que dizer.
“Que bom...” Ela divagou, sem graça.
“O que faz aqui?” null perguntou, não se contendo de curiosidade. Ela mordeu o lábio, reticente.
“Eu larguei medicina e estou entrando no curso de psicologia da Universidade. Sou uma das calouras. Tecnicamente, esta é minha festa.” Ela sorriu sem graça e null fez uma cara de quem entendia, tentando disfarçar a surpresa (e falhando miseravelmente).
“Uau, nossa. Que mudança! Parabéns! Está feliz?” Ele perguntou, sentindo cacos de vidro perpassarem pela garganta enquanto dizia aquelas palavras. Nada parecia real.
“Sim, muito! Descobri que medicina era algo que eu fazia para agradar meus pais, assim como morar naquela cidade. Preferi fazer algo que eu gostava, e felizmente encontrei em um lugar que já conheço, e no qual me sinto bem...”
“Que bom, null. Fico feliz por você.” Ele disse honestamente, enquanto a olhava com um sorriso e um semblante admirado.

Mas o silêncio os atingiu, e ela estava ficando desconcertada com o jeito dele olhá-la. Queria causar boa impressão, investiu nisso, mas não imaginava que a ausência de palavras e reações perdurasse tanto.

“Por acaso você tá podendo conversar?” Ela tomou a iniciativa, dando um passo em sua direção. O ato pulverizou o cheiro do perfume, e null respirou fundo, como quem respira pela primeira vez depois de prender o ar por muito tempo.
“Claro.” Ele disse, e ela caminhou na sua frente, indo em direção a uma parte reservada do jardim que estava mais vazia, com o som não tão alto.

null olhou para trás e percebeu que null e null o encaravam com a mesma surpresa que ele tinha em si. Foi a jovem de cabelos azuis que deu um joinha e sorriu animadamente, enquanto o sócio fez um movimento com as mãos que o mandava seguir junto de null. Atrapalhado, ele respirou fundo e se virou, seguindo o conselho do amigo.
A cada passo, parecia o chão se abriria debaixo dos pés de null e ele acordaria de um sonho. Mas não; null era real, sua presença era real, e era real a conversa que estavam prestes a ter. Ela parou diante de si, e ele colocou as mãos no bolso da frente da calça, encarando-a.

“Bom, eu acho que preciso te agradecer.” Ela disse sorrindo, visivelmente incomodada com o clima estranho entre os dois.
“Pelo que?” null perguntou, confuso.
“Por tudo. Lembra? Eu disse que agradeceria na carta... Quando te visse de novo.” Ela gesticulou rapidamente, e null compreendeu.
“Ah sim. Bom, não há o que agradecer. Fiz tudo de coração.” Ele foi sincero e sorriu educadamente. null respirou fundo e acenou com a cabeça.

Os lábios dela estava presos numa linha fina, e ela estava nitidamente nervosa com algo. Bom, não era pra menos; null poderia jurar que tinha uma britadeira no próprio estômago, mas como diriam os amigos, ele estava fingindo plenitude.

“Olha, eu não sei se estou te atrapalhando, se estou sendo incômoda ou invasiva... Mas eu precisava te encontrar pra te dizer algumas coisas.”
“Tudo bem. Estou ouvindo.” Ele falou calmamente, relaxando a feição. Já ela, ficou mais tensa, mexendo as mãos em movimentos repetitivos.
“Eu quis te procurar muitas vezes nesses últimos meses, null. Quis mesmo, mas você sabe; como bem falei na carta, estava empenhada em trabalhar em mim, na minha autonomia, em meu autoconhecimento, amor-próprio...” Ela explicou aflita.
“E encontrou o que procurava?” Ele perguntou num tom leve, mas ela endureceu diante de si.

Após um tempo, riu nervosa e deu de ombros.

“Eu buscava a mim, não é? Não posso mentir: me encontrei em muitos pedaços nesses últimos tempos.” Ela respondeu sorridente, e foi a primeira vez que ele a viu respirar com mais calma.
“Que bom!” Ele retrucou, animado.
“É, não é?” Ela perguntou com um sorriso, e voltou a encarar o chão. “Mas faltava uma parte muito importante de mim que eu precisava encontrar.”
“É?” Ele perguntou, atento.
“Sim. A parte de mim que precisava encontrar você.” null lançou de uma vez, encarando os olhos de null, que se arregalaram com aquela confissão.
“Eu não sei se você está com alguém, se está solteiro, se tem interesse, se tem raiva, ou se simplesmente não tá nem aí pra mim... Mas eu precisava voltar pra parte de mim, que só quer você. E-eu perdi a conta das vezes que desejei estar fazendo tudo que fizemos naquele dia, e revivi tudo aquilo incansavelmente na minha cabeça, tentando sanar a saudade. Mas a verdade é que eu não consigo mais, null. Eu fui pro mundo, eu me vi, entendi muita coisa, e outras eu ainda preciso trabalhar... Mas não dá mais pra ignorar o quanto eu te quero. E eu sei que posso levar um puta fora, mas eu não me importo. Eu precisava tentar.” Ela falou tudo de uma vez, e null ficou encarando, sem dizer nada.
“Por favor, fale algo.” Ela pediu, depois de um tempo de silêncio. Ele umedeceu os lábios, rindo descrente daquilo tudo, sentindo as mãos geladas e o frio na barriga subir.
“Oito meses, null.” Ele falou, e voltou a olhá-la nos olhos. “Oito meses.”
“Sim.” Ela respondeu com a feição de dor, e ele suspirou.
“Caralho, eu tô há oito meses esperando você me dizer isso. E sabe qual é a sensação?” Ele indagou com a cara fechada, fazendo a jovem engolir a seco.
“Qual?” Ela perguntou com medo, e ele manteve o olhar firme, negando com a cabeça.
“A sensação é que eu poderia esperar por mais oito meses, só pra ouvir você falar tudo isso. Que merda você fez comigo, mulher!?” Ele perguntou, abrindo um sorriso genuíno, que instigou um maior ainda no rosto de null.
“S-Sério?” Ela perguntou, colocando as mãos na boca.
“Porra, cara... sim. E nem eu sei como. Mas eu só sei que eu gosto pra caralho de você e não tô a fim de passar nenhum minuto longe de tu. Agora vem cá e me deixa beijar essa boca gostosa que eu tô salivando desde que a vi.”

Sem delongas, null segurou a nuca de null e selou seus lábios nos dela, automaticamente sentindo um sentimento bom preenchendo seu interior. Como tinha sentido saudade disso! Do beijo, da textura, dos lábios, do sabor! Dos movimentos que as línguas faziam, da respiração acelerada que ambos trocavam.
Ela sorria pelo beijo e o abraçava, trazendo-o mais perto para si. Ele por sua vez, agarrou sua cintura com força, matando a saudade a cada novo centímetro de carne que apertava nas mãos.

“Porra, como eu senti falta disso...” Ela disse, após romper o beijo e encostar a testa no rosto dele, que riu ameno.
“Idem, null. Você me deixou na merda com a tua ausência.” Ele assumiu e ela riu sem graça.
“Sinto muito, mas eu precisava...”
“Eu sei. E fico feliz que tenha feito isso. Sério.” Ele a interrompeu, segurando seu rosto com ambas as mãos, olhando diretamente nos olhos null.
“Eu não consigo acreditar no quão sortuda eu sou por você ainda estar aqui, disponível, me querendo.” Ela comentou em tom de incredulidade, e null riu debochado.
“Porra, você tá de brincadeira com a minha cara? Quem não te esperaria, mulher? null... Você é maravilhosa. Eu simplesmente não tive chances nenhuma contra seu charme, seu jeito de ser... E tô feliz que esteja aqui. Bem, saudável, segura, alegre...”
“Apaixonada...” Ela completou, e ele fez uma cara animada.
“Sério?” A pergunta soou infantil e ingênua, e null riu encabulada.
“Sim, né! Você também não fica atrás, null. É uma pessoa incrível...” Ela explicou tímida, enquanto escondia o rosto no pescoço dele.
“Ouvir que você está apaixonada por mim é definitivamente uma das melhores coisas que meus ouvidos tiveram nos últimos tempos.” Ele disse com um sorriso no rosto, enquanto a abraçava apertado.
null...”
“Hm?”
“Preciso te mostrar uma coisa...” Ela disse, se afastando levemente de si, e moveu o tecido do vestido, mostrando a pele na altura do ombro.

Ali jaziam letras tatuadas em forma de caracol, e null pode ler as palavras “Sweet Creature.”

“Caralho, mentira! Sério que tu mandou essa? Que foda!” Ele exclamou exasperado, dedilhando a pele em surpresa.
“Sim! Eu precisava fazer isso, sabe? Significou muito pra mim aquele dia, você cantando aquela música, e o que a gente viveu... Me fez perceber o quanto preciso sim de mim, mas mais ainda de pessoas como você, como null... De doces criaturas que são verdadeiros companheiros de vida, nos tirando do limbo e trazendo a gente pro foco, pro que realmente importa.” Ela sorriu com os olhos e null lembrou ali no porque se apaixonara por null. Ela era encantadora, destemida, generosa, linda... Parecia boa demais para ser de verdade. Mas felizmente era de carne osso, e finalmente estava ali, com ele.
"Você não existe, cara..." Ele comentou, puxando-a para um beijo cálido. Ela, por sua vez, respondeu totalmente entregue às carícias. Ficaram um tempo matando a saudade, até que a falta de ar indicou a pausa.
null?” Ela o chamou erguendo a cabeça de seu pescoço, com um carinho em sua bochecha.
“Hm?” Ele respondeu manhoso, se deleitando na carícia, como um felino.
“Por acaso você quer ficar preso comigo no Café Convict por 24 horas ininterruptas enquanto o mundo acaba do lado de fora?” Ela perguntou animada e ele riu de sua proposta indecente.

Ambos sorriam, se olhando de forma apaixonada, admirada.

“Só se for agora. E os dias que se seguirem.” Ele respondeu, puxando-a novamente para um beijo faminto, cheio de vontade e saudade.

E assim, ambos sabiam: não importava o que acontecesse...
Caso se perdessem pelo caminho, sabiam que um teria ao outro para trazê-los de volta.
De volta para casa.

FIM.



Nota da autora: Como eu bem disse, eu não estava minimamente preparada para me despedir de Bring me Home HUAHUAHUAHUAHU e cá estou escrevendo essa nota com o coração pesado, mas muito feliz com esse desfecho (e espero que vocês também fiquem né hehehehe).
Bom, agora vamos a alguns pontos:

→ A fic sempre teve a intenção de ser pequena. Cinco capítulos foi um real desafio para mim, que sou muito prolixa na escrita e acabo por vezes alongando as coisas. Então esse enredo partiu de uma tentativa em escrever uma five-shot sem necessariamente perder o vigor e a magia de uma long, na qual a gente consegue ter mais "calma" pra desenvolver as coisas.
→ A fic também partiu de uma proposta atravessada por inúmeras questões de gênero e sexualidade (acredito que vocês tenham percebido, mas vamos lá); cada capítulo trata em si alguma questão que julgo importante de ser discutida e visivilizada nas histórias que lemos.

O primeiro cap, por exemplo, temos uma pp extremamente sensibilizada por todas as vivências de um relacionamento abusivo, e sobre como ela vem tentando lidar com isso de uma maneira saudável.
No segundo cap, descobrimos que nosso pp é bi, e ele tenta lidar com isso e as pessoas ao seu redor de uma forma que não se sinta silenciado.
No terceiro, os dois trocam experiências amorosas e comentam sobre como a infância e adolescência pode ser também desastrosa em alguns aspectos - especialmente se você é lgbtqia+.
No quarto, desromantizar o sexo; mulheres, se toquem, se conheçam, caiam dentro de si! Temos inúmeros estudos que apontam uma quantidade assustadora de mulheres que nunca tiveram orgasmos ou que não chegam ao clímax durante o sexo (principalmente o hétero). Na verdade, as mulheres heterossexuais são as que menos alcançam orgasmo no ato sexual, com suados 65% diante do estudo apontado nessa matéria aqui. Como podemos ver, nossa pp vai perdendo a vergonha e se toca lindamente quando ambos concretizam o ato sexual - e o pp se amarra, sem se sentir ameaçado ou sei lá que tipo de problema isso possa causar para um homem (Rapazes que curtem moças, aprendam a tocar suas rainhas e como fazer de modo que elas apreciem. Lembrando que: sexo oral é sexo, preliminar é saber se ela prefere Marvel ou DC).
Quinto e último cap, temos nosso lindo pp percebendo que a vida não é fácil, e se relacionar de maneira saudável e dialógica é difícil sim! Às vezes você ganha, às vezes perde, e sim, talvez algo especial de uma noite seja apenas isso e nada mais. Sorte pros nossos corações esperançosos que na história, os dois se queriam - mas algo me diz que independente disso, se respeitariam e seguiriam seus caminhos sem atrapalhar a trajetória de um do outro e vice-versa.
Falei pacas, mas precisava deixar algumas coisas pontuadas. Acima de tudo, dizer que essa história não tem pretensão de abordar todas as questões lgbtqia+ e muito menos dar conta delas; é uma tentativa de aos poucos, desconstruirmos o olhar e visibilizar pessoas fora do padrão héteronormativo em nossas histórias. Entender de uma vez por todas que: as diferenças existem e todos merecem ser respeitados por quem são. Pessoas queer existem, pessoas negras existem, pessoas inígenas existem, e são nossos familiares, colegas de trabalho, amigos, amores... Ou até mesmo, nós. Beleza?
Então, é isso. Encerro essa nota com muito carinho no coração, já deixando a promessa de que vou, mas volto (um passarinho verde me contou que tem uma autora muito louca abrindo o word pra escrever um spin-off de Bring me Home, pfff...)!
Gente, valorizem suas autoras! Me deem amor e comentem, curtam, compartilhem Bring me Home!
E pra quem não tá sabendo, também sou autora de Ironic Lovers e Bendição, então corre lá pra me amar também hehehehe.
Beijos e até a próxima!
(twitter: lullymaniac).





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Eu não escrevo nenhuma dessas fanfics, apenas scripto elas, qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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