For Every Season

Última atualização: 16/06/2026

PARTE I

PRIMAVERA

Capítulo Um

“Primavera não é uma simples estação de flores, é muito mais, é um colorido da alma.”
(Jaak Bosmans)

“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”
(Cecília Meireles)


Abril, 2016

Não deveria fazer tanto calor na primavera, esse era o meu único pensamento.
Não lembrava da primavera passada eu estar suando tanto como naquela, com a minha blusa preta de manga quase colando no meu corpo. Quem diria que a meteorologia que apontava uma brisa suave soprando na Prefeitura de Osaka naquela tarde — me fazendo usar calça jeans, uma camisa quente e botas para não correr o risco — estava errada? E, ao invés de uma brisa suave, havia um sol escaldante em plena primavera japonesa?
Assim que saí do aeroporto de Osaka e fui recebida por uma baforada de ar quente atípica, contrastando com o frio de dentro do aeroporto, soube que aquela primavera não seria como as outras. Não como um sexto sentido nem nada psíquico, até porque temporadas quentes, para mim, não representavam coisas boas desde a infância, mas aquilo poderia significar novas vibrações para aquele novo começo.
— Tem certeza que o ar condicionado não está no mínimo? — perguntei pela terceira vez ao taxista e ele me deu uma olhada nada amigável pelo retrovisor. Seus olhos pequenos ficaram ainda menores, se estreitando não muito felizes com a minha pergunta. Eu também não ficaria muito feliz no lugar dele. Ninguém gostava de estar preso em um engarrafamento dentro de um carro abafado e, convenhamos, eu era uma cliente muito chata.
— Tenho certeza. Quer que eu desligue o ar condicionado e abra as janelas?
Dei um sorriso amarelo e neguei sua pergunta. Era óbvio que eu não queria. Provavelmente morreria afogada no meu próprio suor. E no dele. Só de pensar, já me dava ânsia de vômito.
Engarrafamentos eram o meu pesadelo. Eu era uma pessoa apressada por natureza, não gostava de esperar e detestava depender de fatores externos para cumprir com meus objetivos. Já estava atrasada pelo voo que acabou sendo protelado por duas horas por causa de uma criança perdida dentro do avião que, na verdade, estava escondida dentro do banheiro para assustar a mãe, cansada por conta da longa viagem e do jet lag, e ainda tinha um engarrafamento e aquele calor para piorar minha situação.
— Será que vamos demorar muito? — fingi olhar o relógio de pulso com impaciência, mas meus olhos não chegaram a registrar realmente que horas eram. Talvez por ele ainda estar ajustado no fuso horário antigo ou talvez porque eu me pressionaria ainda mais por saber quão atrasada eu verdadeiramente estava.
— Cidade grande, senhora. Enfrentamos situações assim o tempo todo. — Na cabeça dele, eu era só mais uma turista chata e ignorante de quem ele arrancaria muito dinheiro. E... senhora? Eu parecia tão velha?
— Eu já... — antes que eu pudesse completar a frase, um barulho alto de batida me cortou.
Eu me abaixei no chão, cobrindo a cabeça instantaneamente com medo que algo viesse na direção do carro e me atingisse. Não parecia um tiro, era mais como uma colisão ou algo grande caindo. Será que poderia ser um terremoto? Um tsunami? Improvável. Durante todo o caminho, o rádio do táxi estava ligado, sintonizado em uma estação de notícias, e nenhum alerta foi emitido sobre desastres naturais.
— Já não estava feio o bastante... — o taxista comentou, olhando pela janela, mas nem se moveu do lugar, despreocupado, como se não fosse nada. Aquele tipo de coisa era comum naquela área?
— O que aconteceu? — perguntei, ainda assustada, voltando a sentar no banco, mas alerta a qualquer outro som.
— Um acidente. — Eu abri a porta do carro assim que ele falou. — Ei! Para onde você vai? A corrida ainda não acabou.
Tirei da bolsa um punhado de ienes recém trocados no aeroporto e o entreguei antes de fechar a porta.
— Acho que isso vai ser o suficiente para levar minhas malas para o endereço que eu te entreguei.
— Mas para onde você vai?
— Aconteceu um acidente e olha o tamanho desse engarrafamento. Pode haver vítimas e o resgate pode demorar a chegar. Eu preciso ver se eles precisam da minha ajuda — eu falei como se fosse óbvio e ele me olhou como se eu estivesse louca. Não julguei seu olhar estranho, não era todo mundo que tinha aquela coragem. Sabia que iria me atrasar ainda mais e perder o meu táxi, mas não podia fingir que nada havia acontecido como aquele taxista. Não poderia perder a chance de salvar uma vida.
— A senhora é médica?
— Não, mas sei um pouco de primeiros socorros — dei de ombros. Na verdade, tudo que eu sabia sobre primeiros socorros havia sido um curso básico que ensinava sobre que tipo de ferimento não mexer e como fazer a manobra Remich.
— Boa sorte. Parece que vai precisar muito.
A cabeça dele voltou para dentro do carro e ele levantou as janelas, mostrando que não estava dando a mínima para a minha atitude. Nem todo mundo estava disposto a abandonar seus carros para ajudar em um acidente desconhecido.
Eu havia crescido com um tio que sempre dizia que para salvar alguém eu deveria fazer tudo que estivesse ao meu alcance. Além do mais, acidentes de carro me faziam lembrar algumas coisas do meu passado. Eu nunca poderia abandonar uma pessoa que precisava da minha ajuda.
Não foi difícil encontrar o local do acidente. Eu corri para onde a fumaça resultante da batida subia. Tinha cheiro de óleo por toda a pista e os carros ao redor não paravam de buzinar. Alguns curiosos saíam para ver o que havia acontecido e outros tentavam manobrar o carro para longe do acidente, mas quase ninguém se aproximou para ajudar.
— Tem algum risco de explosão? — Foi a primeira pergunta que eu fiz para a pessoa mais perto de mim. Eu podia parecer louca, mas era sensata. Não colocaria minha vida em risco para ajudar outras pessoas.
— Acho que não, mas existem pessoas presas nos carros.
Andei para mais perto do local do acidente, tentando entender o que estava acontecendo e como eu poderia ajudar. Era difícil enxergar com toda a fumaça escura, mas eu apertei meus olhos, procurando por alguém para me informar.
— Como eu posso ajudar? — perguntei para ninguém específico.
— Os rapazes estão verificando as vítimas que ficaram presas nas ferragens — uma mulher me respondeu, parada há alguns metros da batida, onde alguns homens tentavam socorrer as vítimas dentro do carro.
— Alguém já ligou para a emergência?
— Eles devem chegar em trinta minutos porque o engarrafamento é muito longo. Esse horário é muito complicado na pista principal.
Um grito vindo do chão, ao lado dos carros, chamou a minha atenção e eu corri até a mulher grávida que sangrava muito. Não conseguia saber se ela havia sido tirada de um dos carros ou arremessada para fora porque parecia falar coisas incoerentes. Me aproximei com cuidado, tentando entender.
— Alguém... Por favor, me ajude...
Me ajoelhei ao seu lado, procurando algum ferimento visível, com medo de mexer em algo e agravar seus ferimentos. Ela agarrou minha mão e apertou com força, gritando em seguida. Eu tentei puxar de volta, mas ela apertou ainda mais, como se aquela ação fosse salvar a sua vida. Meu coração disparou com a adrenalina e meus olhos estavam frenéticos, passando por todo seu corpo.
— Por favor, não se mexa. Tente ficar imóvel para não se machucar ainda mais, tudo bem? — tentei acalmá-la. — O resgate está chegando.
— Me ajude — ela implorou.
— Está sentindo alguma dor? — Ela balançou a cabeça com força. — Eu posso...
— Ele está vindo — ela gritou, apertando ainda mais a minha mão e eu quase gritei junto com ela.
— Sim, o resgate está vindo — falei, sem saber sobre o que ela estava falando. — Logo eles estarão aqui.
— Não! O meu bebê. Meu bebê está vindo.
Só naquele momento eu percebi que ela estava prestes a dar à luz, com água molhando seu vestido e o chão embaixo dela. Sua bolsa havia estourado. Comecei a entrar em pânico porque não fazia ideia do que fazer.
— Ela está dando à luz! Alguém me ajude! — gritei sem parar e um dos homens que ajudava outra vítima correu até nós e se ajoelhou ao meu lado.
— Ela está com dor? — ele perguntou, procurando por ferimentos, assim como eu.
— Minha bolsa estourou — a mulher deitada falou. — Eu estou com muita dor. As contrações estão mais rápidas agora, eu...
— Sente dor em mais algum lugar? — o homem ao meu lado quis saber.
— Eu não sei. Por favor, me ajude. Eu estava a caminho do hospital em trabalho de parto.
Ele levantou o vestido da mulher e olhou alguma coisa entre suas pernas. Eu tentei não pensar no quão estranho era aquilo.
— O bebê está vindo. Ela parece estar com uma dilatação suficiente. Ele está saindo — o homem exclamou como se aquilo fosse uma coisa boa e não significasse que teríamos que ajudar a fazer aquele parto no meio da estrada.
— O quê?
— Há quanto tempo você está tendo contrações? — a mulher gritou várias coisas incoerentes em resposta.
Eu me abaixei para olhar entre as pernas da mulher e vi uma bola preta prestes a sair. Quase desmaiei com a cena. Tive que olhar para outro lugar e prender a respiração para não vomitar. Ela estava parindo ali, no asfalto, com o sol tinindo em nossas cabeças. Senti o mundo girar. Nunca, em meus piores pesadelos, poderia imaginar que veria uma mulher dando à luz. Uma mulher que eu não sabia nem o nome.
— Você vai ter que segurar as pernas dela. — o homem ao meu lado ordenou e eu o olhei com uma careta.
— O que você vai fazer? — perguntei.
— O bebê está saindo. Nós vamos ter que ajudá-lo.
Quase vomitei de novo com a ideia de meter a mão e puxar aquela cabeça para fora das partes íntimas de uma completa desconhecida. Não queria nem levantar o vestido dela, quem diria enfiar a mão ali embaixo.
— O socorro está chegando em vinte minutos — eu argumentei. — Podemos esperar por eles, não precisamos fazer isso. Além do mais, nenhum de nós sabe fazer partos. Se algo der errado...
— Nós não temos vinte minutos — ele falou, rudemente. — O bebê pode morrer se não fizermos algo. O bebê e ela.
— Por favor... — a mulher enfiou as unhas na minha mão, chorando, e eu engoli a dor do seu aperto. — Não deixe o meu filho morrer. Por favor...
— A cabeça dela está sangrando — eu falei. — Não deveria ver isso primeiro?
O homem levantou e examinou a cabeça da mulher, como se fizesse ideia do que poderia estar acontecendo ali.
— Parece ter sido um machucado exterior — ele constatou. — Sente náuseas?
— Não sei! — a mulher gritou entre os dentes, com o suor brotando da testa.
— Tente se concentrar nas outras coisas que está sentindo, senão podemos perder você e o seu bebê — ele falou firmemente. — Sente tontura?
— Não — ela chorou.
— Ânsia de vômito? — ela negou levemente, ainda chorando. O desconhecido sacou a lanterna do celular e colocou nos olhos dela. A mulher seguiu a luz com os olhos. — Ela ficará bem por enquanto — ele concluiu.
— Você é médico, por acaso?
— Sou — ele falou com ironia e eu quase ri. Ao contrário de mim, que estava quase hiperventilando, ele estava calmo e compassivo diante daquela situação. Como se fizesse partos na estrada todos os dias. — Mas nós vamos ter que fazer isso juntos. A perna dela parece mais machucada do que a cabeça, então eu vou imobilizar primeiro e depois tentamos tirar o bebê.
Era aquilo mesmo que eu havia acabado de ouvir? Nós iríamos realmente fazer o parto daquela mulher no meio de um engarrafamento como aquele? Sem nenhum instrumento adequado ou higienizado? Na frente de todas aquelas pessoas?
Alguns kits de primeiros socorros começaram a aparecer, à medida que as pessoas iam saindo de seus carros para ajudar. Com papelão e elástico o homem imobilizou a perna esquerda da mulher que parecia ser a fonte de todo sangue.
— Você — ele chamou uma pessoa próxima —, segure a cabeça dela com cuidado para impedir que sua agitação cause outro ferimento. Você — ele apontou para mim —, segure a perna esquerda aberta para que eu consiga tirar a criança.
— Realmente, nós... Eu... — tentei argumentar novamente, mas ele me cortou.
— Nós precisamos salvar a vida dessas duas pessoas. — Eu tomei duas respirações profundas e fiz como ele orientou. — Qual é o seu nome? — ele perguntou para a grávida.
— Naomi Tanaka — ela respondeu, trêmula.
— Tanaka-san , eu preciso que você empurre com toda força que você puder na minha contagem. Não se preocupe com mais nada, só empurre.
O suor escorria pela minha testa e pingava no chão. Minha blusa estava toda grudada e minha calça esfolada por conta do asfalto, mas quando Naomi começou a gritar, fazendo força para seu bebê sair, nada mais importava.
— Um, dois, três, força!
— Vamos, Tanaka-san! Força! — eu a incentivei, ignorando a dor do aperto dela na minha mão.
— Precisamos seguir as contrações. Um, dois, três, força!
Seu grito rasgou o ar e eu vi o homem ao meu lado tirar a criança de dentro de Naomi. Vendo aquela cena, eu só consegui sorrir e chorar, emocionada, junto com a mãe.
O homem ao meu lado olhou para mim, com o bebê nos braços. Logo o recém-nascido começou a chorar violentamente, tremendo todo o corpo vermelho. O estranho riu para mim e, de maneira automática, eu ri alto junto com ele. Eles ficariam bem. Ficaria tudo bem.
Tudo pareceu se mover em câmera lenta. Aquilo era um milagre. Eu tinha acabado de assistir a um milagre. Eu continuei rindo, aliviada por ter dado certo. Tínhamos conseguido. O bebê havia nascido. Meu coração batia como louco em meus ouvidos com toda a emoção e minhas mãos ainda estavam trêmulas.
— Meu filho! — Naomi gritou.
— Ele está bem, Tanaka-san — eu sorri para ela. — Seu filho nasceu.
A criança continuava chorando. Todos ao redor aplaudiram, também comemorando. As palmas se misturaram com o barulho da ambulância chegando e eu suspirei de alívio. Tudo ficaria bem mesmo.
— O resgate chegou — alguém gritou.
Rapidamente os paramédicos apareceram, cortaram o cordão umbilical e pegaram o bebê para tratá-lo de forma adequada. Noami ainda agarrava minha mão com força.
— Você vai com ela? — um dos paramédicos perguntou e, sem hesitar, eu afirmei. Não sabia como Noami estava envolvida no acidente ou se o pai do seu bebê estava machucado, mas, se eu estivesse no lugar dela, assustada e com dor, gostaria de ter alguém ao meu lado que segurasse a minha mão e me passasse segurança. Estava feliz por ser aquela pessoa para ela.
Colocaram Noami em uma maca e eu e o homem desconhecido subimos na parte de trás da ambulância para o hospital.
— Muito obrigada. Muito obrigada — Noami chorava, agradecendo.
Eu estava tão feliz que nem o atraso e nem o calor me incomodava mais. Nem mesmo o fato de estar com os braços cobertos de sangue de uma mulher que eu havia acabado de conhecer.
— Ela vai ficar bem? — perguntei ao paramédico.
— Os primeiros socorros foram feitos adequadamente. Ela ficará bem — ele garantiu. — Está fora de perigo.
— E o bebê? — O filho de Naomi agora se encontrava em uma manta, deitado ao lado da mãe, mas eu não podia deixar de me preocupar pela maneira que ele havia nascido.
— Está bem também.
— E as outras vítimas?
— Todos ficarão bem. — Quem respondeu dessa vez não foi o paramédico e sim o homem na minha frente. O motorista mais bem preparado que eu já havia encontrado na minha vida. Eu nunca havia aprendido aquilo na autoescola ou em qualquer aula de primeiros socorros. O Japão provavelmente ensinava bem seus motoristas. — Está tudo sob controle agora, não se preocupe — ele garantiu, ainda sorrindo, como eu.
Ah, olá. Muito prazer — eu o cumprimentei com uma reverência, lembrando dos modos orientais.
— Muito prazer. Sou Haru.
Haru. Primavera. De um jeito estranho achei que o nome combinava com ele. Com seu sorriso carismático e sua disposição em ajudar, aquele Haru realmente me lembrava a primavera.


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¹San: Este é um honorífico japonês que pode ser usado em praticamente todas as situações, independente do sexo da pessoa. Podemos dizer que é equivalente a Senhor ou Senhora.
²N/A: Haru significa primavera em japonês.

Capítulo Dois

“A neve e a tempestade matam as flores, mas nada podem contra as sementes”
(Khalil Gibran)


— O que aconteceu com você? — Foi a primeira coisa que disse quando me encontrou. Nada de “oi, tudo bem?”, “você está ferida?”, “fiquei preocupada com você.” Quase suspirei em voz alta com aquele tratamento nada carinhoso que já era tão familiar para mim. era conhecida por seu jeito direto de tratar as coisas e comigo não era diferente.
— Houve um acidente e...
— Você sofreu um acidente? — ela me interrompeu, alvoroçada, tentando fazer uma inspeção rápida tocando meu corpo. Ela apertou meus braços, minha bochecha e até minhas pernas. — Você está bem? Alguém te examinou?
, calma. Eu estou bem — garanti, tentando fugir das mãos dela. — O acidente não foi comigo. Eu estava vindo do aeroporto quando, no meio de um engarrafamento, aconteceu uma colisão e eu fui ajudar as vítimas.
— Você está imunda. E atrasada. — Novamente, nada delicada.
— Acredite em mim, eu sei.
Assim que a ambulância chegou ao hospital, Haru e Naomi desceram juntos e eu acabei me perdendo deles. Uma enfermeira simpática me ajudou a limpar o sangue dos braços no banheiro e me examinar para garantir que eu não tinha nada, mesmo eu exclamando o tempo todo que não estava envolvida no acidente e só fui ajudar.
Não quis procurar por Haru para não parecer romanticamente interessada e acabar sendo mal interpretada, então simplesmente liguei para ir me buscar logo em seguida porque eu não conhecia Osaka e poucos taxistas me aceitariam suja do jeito que estava. Além do mais, ficaria chateada por ser a última a saber das novidades.
— Onde estão as suas coisas?
Só naquele momento eu lembrei que havia acabado de chegar ao Japão e tinha apenas meu celular e carteira comigo. Todas as minhas coisas estavam me esperando no hotel. Provavelmente o taxista mal-humorado havia garantido que elas chegassem em segurança pela quantidade de dinheiro que eu dei a ele e por lembrar que, assim que ele me pegou no aeroporto, eu tirei uma foto da placa de seu carro por segurança.
— Eu pedi para o táxi deixar tudo no hotel. Você não vai me dar um abraço de boas-vindas? Achei que tinha sentido a minha falta. — Tentei me aproximar dela, mas bateu na minha mão para longe.
— Você está fedendo. — Ainda não sabia como aquela ingrata continuava sendo a minha melhor amiga. — Eu senti sua falta, mas não tanto assim.
— Foram dois anos, .
— Eu sei, querida, mas teremos várias oportunidades de compensar a falta. Não hoje quando você pode destruir meu blazer novo. — Nós entramos no carro dela. — Hotel ou restaurante?
— Restaurante. — riu alto.
— Ele vai matar você — dei de ombros. — Deve ter feito uma grande festa de boas-vindas e fechado o restaurante só para te receber.
— Eu estou aqui por causa dele. Mereço um pouco de compreensão por esse pequeno atraso.
dirigiu para o meu novo local de trabalho e eu tive tempo para recostar a minha cabeça no encosto do banco, suspirando, aliviada, pelo que parecia ser a primeira vez em dias. Nem no avião eu tive aquela oportunidade com o estresse do voo e a ansiedade de estar voltando para o Japão.
Eu havia, em uma semana, largando meu emprego fixo no melhor restaurante da cidade com uma estrela Michellin, para viajar para o outro lado do mundo e aprimorar minhas técnicas em comidas japonesas. Um pouco por vaidade e um pouco pelo meu passado, mas principalmente por conta da minha paixão por cozinhar coisas diferentes e desconhecidas.
— Você está atrasada em um total de uma hora e vinte minutos — Fred falou assim que entrei no restaurante, olhando para o relógio de pulso como se estivesse contando os segundos. Não duvidaria que estivesse.
Em todos os nossos encontros na França ou por vídeo chamada, ele sempre pareceu muito ansioso e animado para me ver dentro da sua cozinha, então eu entendia sua pressa. Empresários como ele geralmente tinham aquela personalidade em comum, não era a primeira vez que alguém tão renomado e importante como ele almejava tanto a minha presença, mesmo esse tipo de pensamento podendo soar um pouco arrogante.
— Aconteceram alguns imprevistos — justifiquei.
Seigneur, ça pue ici! E ainda está fedendo. Onde você estava? — ele reclamou e com razão. Eu estava fedida por não ter me limpado corretamente e minhas roupas estavam sujas de sangue e de suor, mas ele não precisava falar aquilo tão abertamente. Todo mundo parecia querer deixar aquilo muito claro para mim como se eu mesma não tivesse sentindo o meu cheiro ruim. Talvez a melhor opção fosse ter ido ao hotel para, pelo menos, tomar um banho adequado e tentar esconder as olheiras enormes de cansaço.
— Eu acabei de fazer um parto — praticamente gritei.
— Você o quê? — Provavelmente ele achou que eu estava fazendo piada, porque parecia impossível o que havia acontecido comigo nas minhas primeiras horas no Japão, mas tudo aquilo havia sido minha escolha, então aceitei sua repreensão. Com um pouco de arrogância. Me disseram uma vez que aquela era a melhor parte da minha personalidade.
— Foi você que me quis aqui e aqui eu estou.
— Você precisa tomar um banho primeiro. Não posso te colocar na minha cozinha assim. Vai espantar todo mundo. E eu não estou só falando dos clientes.
Eu me joguei em uma das cadeiras caras do salão e suspirei com os olhos fechados. Passei tanto tempo fora do Japão que, se ele continuasse falando rápido daquele jeito, minha mente entraria em colapso. Não me importei que quase quarenta pessoas estivessem assistindo o meu show como uma plateia particular.
— Eu estou exausta — reclamei. — Foram quase treze horas de viagem, duas escalas e comida sem gosto da companhia aérea. Nem viajar de primeira classe conseguiu apaziguar o meu sofrimento. Eu não consigo pensar claramente agora e, mesmo que eu estivesse cheirosa, não conseguiria entrar na sua cozinha. Eu só vim aqui te ver pessoalmente e me apresentar oficialmente.
— Volte para o hotel e descanse hoje, nossa festa de boas-vindas ficará para outro dia. Conseguimos nos virar mais um dia sem você. , ajude sua amiga a se acomodar hoje, s'il vous plaît. E garanta que ela não fará mais nenhum parto no meio do caminho.
me arrastou de volta para o carro sem nenhuma reclamação minha, apenas um aceno de cabeça para me despedir de todos no salão que me olhavam como se eu tivesse quatro cabeças, pele cinza e um rabo com espinhos. Não gostava daquele tipo de olhar que me julgava antes mesmo de ver o que eu era capaz. Não gostava de ser subjugada, de ser subestimada e ainda mais por pessoas que estariam sob o meu comando.
— Não foi tão ruim quanto eu achei que seria — comentou dentro do carro.
— Só fui repreendida na frente de todos os funcionários do restaurante — ironizei. — Que ótima chef.
— Aposto que, depois de um bom banho e uma boa noite de sono, tudo ficará bem. Você voltará a ser a que eu conheço e todas as peças serão encaixadas. Você está no lugar certo, depois de tanto tempo.
— Depois do que aconteceu hoje, eu estou ainda mais animada para começar. — revirou os olhos.
— Você é louca. Nunca vou conhecer alguém que se meteria em uma situação dessa igual a você. — Ela poderia não entender, mas, se acontecesse de novo, em qualquer lugar que eu estivesse, eu iria ajudar novamente. Porque aquilo era o certo a se fazer. — Aqui estamos. Vai querer que eu te ajude a desempacotar?
— Eu só quero dormir. Não tenho muitas malas para desarrumar e provavelmente eu vou usar minhas roupas dentro das malas por, pelo menos, uma semana.
Nunca fui uma pessoa acumuladora. Algumas peças de roupas, sapatos, alguns livros e poucos aparelhos eletrônicos. Eu tinha a filosofia de que, se eu precisasse de alguma coisa, poderia comprar. Provavelmente por me mudar muito e nunca poder carregar muitas bagagens, perdi meu apego a coisas materiais. Meu tio costumava dizer que, se eu tivesse uma casa, seria tão vazia quanto as minhas malas.
— Venho te buscar amanhã às 7h. Não se atrase, senão eu te deixo aqui.
— Sim, chef — falei, brincando, e depois me despedi dela.
Minhas bagagens estavam na recepção esperando por mim. Eu fiz o check-in e subi com uma mochila e uma mala de rodinhas, dispensando a ajuda do carregador. Meu celular estava cheio de mensagens nas redes sociais, mas eu o desliguei e o joguei dentro da bolsa. A última coisa que eu queria era passar horas respondendo mensagens, melhor, dando desculpas do meu desaparecimento.
Os meus colegas não entendiam a decisão que eu havia tomado. Eu já era uma chef reconhecida pela imprensa e trabalhava em um lugar incrível, com pessoas incríveis, com uma grande perspectiva de crescimento profissional. Mas, mesmo com tudo aquilo, algo não parecia certo. Não conseguia sentir que aquele era o meu lugar.
Eu estive na França por quase um ano, então recebi o convite do amigo de para ser chef em seu restaurante japonês. Tentei encontrar meu lugar em muitos países, tentei me sentir em casa, mas nada funcionava. As respostas das minhas perguntas eram óbvias. Como eu havia feito antes, eu quis tentar um recomeço em outro lugar.
Por um momento, eu pensei em recusar porque o Japão era um dos últimos lugares que eu gostaria de morar por conta de tudo que aconteceu comigo na infância. Apenas quando estava de viagem marcada, descobri que trabalharia em Osaka e há poucos quilômetros do lugar onde eu havia passado a minha infância e onde minha mãe ainda morava. Voltar para casa me faria encontrar o meu lugar? Só o tempo iria dizer.
Fred, o amigo de , dono de um restaurante de comida tradicional chamado Yuugen, era um francês que havia viajado para o Japão aos 30 anos e se apaixonou pela cultura local. Ele não era cozinheiro, mas um empresário que, conhecendo as pessoas certas, havia conseguido abrir um restaurante em uma das maiores prefeituras do Japão e o transformado em um sucesso. Ele era amigo de longa data do dono do restaurante em que trabalhava na França e pediu por mim. Fred tinha a filosofia de buscar a beleza que existe em coisas que não podemos entender completamente, que originou o nome do seu restaurante, Yuugen, e aquilo chamou a minha atenção. Depois de tanto tempo experimentando o que o material poderia proporcionar, eu queria implementar aquela beleza na minha cozinha também.
Eu dei adeus aos meus colegas franceses e em uma semana eu havia arrumado as poucas coisas que tinha e me mudado definitivamente. Era a quinta vez que eu fazia aquela loucura. Nunca havia passado mais de dois anos em lugar nenhum, mas tinha uma impressão diferente sobre o Japão. Esperava que algo me fizesse ficar. Que eu encontrasse ali o que eu não tinha encontrado nos outros lugares.

Acordei no susto, totalmente desorientada sobre onde estava e com uma dor de cabeça matadora. Procurei cegamente meu celular na bolsa e levei quase dois minutos para encontrá-lo, já que as luzes do quarto ainda estavam desligadas e as cortinas fechadas.
Nunca havia morado em um hotel, mas Fred queria tudo com o máximo conforto possível e, até que eu decidisse realmente continuar em seu restaurante, ele arranjou um lugar provisório para mim. Mas mesmo sendo temporário, o hotel não deixava nada a desejar. Ele me colocou em um dos melhores quartos, com os melhores serviços para que eu me sentisse confortável. O lugar contava com uma sala espaçosa com uma TV enorme, uma cama queen size com um colchão macio que me convidava para deitar toda vez que eu olhava para ele e uma vista espetacular da cidade de Osaka à quase trinta andares do chão, através da parede de vidro do lado oposto à porta. Além de um frigobar cheio de tudo que estava na minha lista de desejos e cortinas de linho. Tudo da melhor qualidade, nada menos de um homem de negócios como ele.
Eu havia dormido por doze horas ininterruptas. Estava quase amanhecendo de acordo com o horário em meu celular.
Jeans: Você está viva?
Camile: Por que apagou as redes sociais? Está tudo uma loucura porque você foi embora.
Camile: Pelo menos diga se você está bem.
Michael: Quando eu te encontrar, vou te matar.
Michel: Onde você está?
Cleodine: Você é uma bruxa. Por que não me avisou que iria embora?
Loreline: Onde você está? As revistas estão loucas atrás de você.
Todas aquelas mensagens eram um dos motivos de eu ter ido embora sem avisar a ninguém pessoalmente.
Eu deixei um bilhete de despedida, junto com meu dólmã na cozinha, mesmo que a minha carta de demissão já tivesse sido entregue e processada no dia anterior. Jacques, meu ex-chefe, estava ciente de todo o processo, mas eu pedi que ele mantivesse segredo. Sabia que, se alguém soubesse da minha partida, tentaria me convencer a ficar e aquela pressão era insana. Eu só queria cozinhar em paz, longe de toda aquela fama e dos holofotes.
Durante toda a minha carreira, nunca almejei fama. Queria sim ser conhecida, mas através apenas da minha comida e do quão bem ela fazia as pessoas se sentirem. Fama é a recompensa do trabalho duro, me disseram uma vez, mas eu nunca consegui concordar. Felicidade é a recompensa do trabalho duro.
chegou pontualmente ao hotel para me buscar, trazendo pão e café. Meu estômago ainda era totalmente francês.
— Conseguiu descansar? — sacudi a cabeça, com a boca cheia. — Você está sujando o meu carro de farelo. Não tem modos?
— Eu pago uma limpeza para você depois. — Ela revirou os olhos.
— Você gosta de exibir seu dinheiro por aí. — Ela fez um som de tsc tsc com a boca. — Você cozinha para restaurantes chiques, mas não consegue comer pão sem sujar tudo. O que seus clientes diriam se vissem você agora?
— Eu estou morrendo de fome, a comida do avião era um pesadelo e você não me deu tempo para comer nada no hotel. Essa é a baguete com mais cascas que eu já comi na minha vida, não me julgue pelos farelos. Ou pelos meus modos. Nos conhecemos há tempo demais para isso.
— Depois de dois anos longe de você, esqueci completamente como seu comportamento era ruim. Você não fala bem, não se veste bem e nem come direito. Talvez você devesse entrar em uma Escola para Princesas.
sempre tinha razão quando reclamava do meu comportamento. Eu sabia que era mal-humorada e ranzinza, principalmente no início da manhã. Além disso, minha aparência não era das melhores quando eu estava cansada. Trabalhava em uma cozinha e a higiene estava sempre em primeiro lugar, mas comida ainda era comida e gruda em todo lugar.
— Não vai descer comigo? — pedi, fazendo beicinho. — Preciso do meu escudo humano e entre nós duas sabemos que Fred prefere você.
— Algumas batalhas você precisa lutar sozinha, sweetpie — ela me deu um abraço de condolência. Sempre usava meu apelido da juventude quando não fazia o que eu pedia. — Brilhe. E, se precisar de alguma coisa, pode me ligar. E deixo meu assistente no meu lugar e venho correndo te resgatar.
Como esperado, Fred estava aguardando por mim no salão quando cheguei. A equipe estava toda junta novamente, me esperando, uniformizados e com as mãos para trás, nas posturas mais formais. Levantei os óculos escuros para o topo da minha cabeça e dei uma boa olhada em cada um deles.
— Bom dia — cumprimentei a todos formalmente, com uma reverência e dei um sorriso. Antes de sair do carro, havia me feito conferir se os dentes não estavam sujos para não causar uma impressão pior do que eu já tinha causado no dia anterior.
— Pessoal, essa é a , nossa nova chef. Ela vai assumir o lugar do Yuzumino-sensei, mas tem muito a aprender conosco, do mesmo jeito que temos a aprender com ela.
— Por favor, cuidem de mim — fiz uma reverência novamente.
Fred apresentou cada membro do corpo de funcionários, de garçons a sous chef e eu os cumprimentei individualmente, apertando suas mãos, como sempre fazia. Seus rostos não eram nada amigáveis, podia ver a desconfiança em seus olhos.
— Não conheço muito de culinária japonesa, como conheço das outras. — Aquilo soou muito ruim. Eu pigarreei e comecei de novo. — O que eu queria dizer é que não sou uma especialista como o Yuzumino era, mas com a minha experiência e com a ajuda de vocês, conseguiremos fazer um ótimo trabalho. Estarei aberta a sugestões.
Eu comecei o dia de trabalho aprendendo sobre o funcionamento do restaurante. Os horários, os pedidos mais frequentes dos clientes, as funções na cozinha e no salão. Alguns pratos do cardápio eu já tinha comido, mas alguns eu nunca tinha ouvido falar. Infelizmente, meu conhecimento de culinária japonesa era bem escasso. Provavelmente porque, durante toda a minha vida, vi o Japão como um tabu e não quis me envolver com nada que tivesse a ver com aquele país.
— Esse é Kento Yoshida. Ele vai te auxiliar nos pratos que você não está familiarizada — Fred apresentou.
Yoshida era o sous chef com cara de poucos amigos e que murmurava baixinho a cada comentário que eu fazia. Ele não parecia gostar de mim e eu também não tinha ido muito com a cara dele. Chefs eram arrogantes por natureza, mas tínhamos que saber o limite de tudo. Uma das coisas mais importantes na cozinha era reconhecermos a hierarquia e respeitá-la, mas ele estava longe de fazer isso e eu não estava ali para ensinar um adulto como se comportar.
— Yoshi, pode apresentá-la à cozinha? — ele concordou com a cabeça e Fred se despediu para cuidar de alguns problemas no escritório.
— Eu não posso chamá-lo de Yoshida-sensei como os outros. E nem de senpai. — Ele não pareceu gostar muito daquele comentário. — Será Yoshi-kun ? Qual a sua idade? Não parece ser mais novo do que eu.
— Você é estrangeira. Yoshida é o suficiente. — Seu tom de voz foi grosseiro.
— Só não queria ser desrespeitosa — resmunguei, seguindo-o para a cozinha. Seu tom mostrava que ele não estava disposto a levantar a bandeira branca e eu decidi seguir seu ritmo.
— Nós usamos algumas coisas que você não deve ter visto antes, pode ter dificuldades.
— Eu conheço a cozinha japonesa — rebati a provocação.
— Sabe usar os pauzinhos?
Algumas pessoas na cozinha riram da pergunta idiota e eu contei até dez antes de responder. Eu nunca perdia a compostura na cozinha. Eu me comportava bem até demais e era sempre elogiada pelo tratamento que dava aos meus funcionários. Não seria algumas piadas e deboches que me fariam mudar a minha fama.
— Para o meu próprio bem, eu espero que sim — respondi com um sorriso. — Por onde podemos começar? Estou ansiosa para aprender com você, Yoshi-sensei. O título está bom o suficiente para você agora?
Eu prendi o cabelo e amarrei minha touca florida, vestindo o dólmã preto de chef com meu nome bordado que Fred havia me entregado assim que nos encontramos.
Vi Yoshida olhar com um pouco de ciúmes e desejo, para não chamar de inveja. Consegui enxergar a razão de seu mau-humor, mas ainda não conseguia entendê-lo. Não queria entendê-lo, não faria muita diferença para a nossa relação que já tinha começado com o pé errado.

Passei a manhã inteira repetindo os pratos que mais eram pedidos até encontrar a técnica certa. Yoshida não tinha muita paciência e, para melhorar o funcionamento do restaurante, pedi que ele assumisse o papel de chef enquanto eu iria me adaptando ao novo ambiente para que não atrasasse o funcionamento e ele já estava acostumado com todos os funcionários.
Por um lado, meu ego brigava comigo e me recriminava, porque aquela situação machucava o meu orgulho, mas por outro lado eu me lembrava dos grandes chefs que me ensinaram a ser humilde desde o início da minha carreira e me submeter quando necessário. Gostaria de ganhar a confiança dos outros cozinheiros cozinhando lado a lado com eles e não chegando para dar ordens e querer fazer as coisas do meu jeito.
Eu continuei trabalhando incansavelmente até meus braços reclamarem com o esforço e meu corpo pedir uma pausa. No intervalo, eu sentei sozinha dentro da dispensa comendo lámen com carne de porco, ovo cozido e espinafre japonês que tinha acabado de preparar, como uma novata no ensino médio que se escondiam dos bullies. Na minha vida eu sempre fui novata em todos os lugares, mas esperta demais para deixar bullies me intimidarem.
— Quem ela pensa que é? — Vi a sombra de duas pessoas através da porta entreaberta da dispensa.
— Frederick a trata como uma deusa, como se fosse a melhor cozinheira do mundo — a outra pessoa comentou e eu, instantaneamente, sabia que eles estavam falando sobre mim. Ambas falavam em tom baixo para não serem descobertas.
— Tudo que ela fala é que na França nós fazemos assim, na Itália nós fazemos assim. — A imitação da minha voz era precária e eu suprimi uma risada. — Ela nunca vai ser boa o suficiente como o Yuzumino-sensei.
— Espero que o Frederick desista dessa ideia logo.
— Se ele deixar essa mulher aqui, vai acabar falindo o próprio restaurante. Não é só porque ela veio de outro país que vai fazer um bom trabalho.
Eu não pretendia revelar que estava ali, mas meu celular tocou alto e as duas sombras na porta pararam abruptamente de falar sobre mim e saíram apressadamente. Eu atendi ao telefone depois de enxugar o caldo do lámen da boca com as costas da mão. tinha razão, meus modos eram péssimos.
— Você escolheu um momento horrível para ligar — atendi, falando baixo, mesmo já tendo sido descoberta.
— Acho que pintaram você em um muro no centro da cidade. — Eu abaixei os pauzinhos sem acreditar no que estava ouvindo.
— O quê? — Quase engasguei com a saliva.
— Tem uma de quase três metros no centro da cidade. Acho que alguém está procurando por você.
Nada do que eu ouvia naquela ligação fazia sentido. de três metros? Pintura? Achei que minha melhor amiga havia pirado de vez.
— Como você sabe disso?
— Os alunos chegaram comentando e, assim que vi a foto, sabia que era você. Está muito bem feito.
— Você pode vir me buscar agora?
— O que você vai...?
— Eu preciso saber o que está acontecendo e ver com meus próprios olhos.
Eu desliguei o celular e joguei a embalagem fora. Era só o que me faltava. Enquanto procurava anonimato, alguém estava espalhando meu rosto pela cidade.
— Onde você vai? — Yoshida perguntou quando saí da dispensa, tirando a touca e o dólmã.
Escrevi uma mensagem rápida para Fred avisando que precisaria sair por alguns minutos.
— Preciso resolver um problema, mas não vou demorar — respondi, sem olhá-lo.
— Acha que estará pronta para hoje à noite só com o que aprendeu até agora? — Ele realmente não conhecia seu lugar.
— Eu disse que volto em uma hora — repeti lentamente, levantando a cabeça e esperando para ver se ele teria coragem de me enfrentar.
— E eu disse que...
— Eu não me importo com o que você disse — interrompi, perdendo a paciência. — A única pessoa para quem devo satisfações é Fred. Não esqueça qual é a sua função aqui e, principalmente, qual é a minha. Entendeu? — Yoshida murmurou alguma coisa incompreensível. — Você me entendeu? — perguntei, mais alto.
— Sim, chef.
— Pelo menos você é obediente — dei um sorrisinho de canto de boca para ele e saí revirando os olhos. — Nunca esqueça o seu lugar.


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³Sensei: O título honorífico é usado especialmente para professores, médicos, dentistas, cientistas, advogados, escritores, artistas e até mesmo, qualquer um que seja considerado um doutor ou um mestre no que faz.
⁴Senpai: É um título honorífico normalmente usado para tratar colegas mais velhos, figuras mentoras ou para fazer referência a alguém que é mais experiente que você. Seria uma forma respeitosa que serve para mostrar a diferença de status social entre o falante e o ouvinte. Ele significa algo como “veterano” ou “mentor”.
⁵Kun: O sufixo “kun” é bastante utilizado entre jovens que tem laços de amizade. É um honorífico informal também utilizado no ambiente de trabalho, principalmente na forma como chefes se referem a seus subordinados.

Capítulo Três

“Hoje me sinto só como um ipê que não dá flores na primavera.”
(M. M. Soriano)



— A pessoa tem um bom olho — comentou, enquanto analisávamos a imagem pintada no muro através da janela aberta do carro. Não me atreveria a descer e acabar sendo reconhecida por alguém.
— Definitivamente sou eu.
Algumas pessoas paravam e tiravam fotos da obra como se fosse um monumento histórico, mas eu não estava feliz e nem orgulhosa por aquilo. Eu queria comprar uma lata de tinta e cobrir toda a imagem do meu rosto para que ninguém me visse, mas não tinha coragem.
— Quem você conhece aqui poderia fazer isso? Seria uma coincidência muito grande alguém pintar um rosto aleatório no muro e acabar parecendo com você. Isso foi intencional.
— Foi aqui que aconteceu o acidente ontem. — Era impossível não lembrar daquele lugar. — Acredito que tenha sido alguém que estava no acidente.
— Você conheceu alguém notável ontem?
Pensei em Haru. Será que poderia ter sido ele? Era a única pessoa que eu poderia pensar, excluindo o pensamento que eu posso ter chamado a atenção de uma pessoa qualquer que não troquei nenhuma palavra ou um stalker, mas nosso encontro foi tão notável a ponto de ele ter feito aquilo?
— Você conheceu, não foi? — Eu pisquei, apagando aqueles pensamentos. — Consigo ver pelo seu rosto. Essa expressão...
O quê? Não — neguei. — Claro que não. Não tem expressão nenhuma.
— Quando eu perguntei, vi seu sorrisinho. Você pensou em alguém — me deu um olhar malicioso. — Alguém que você gostou. Eu conheço você há anos, conheço essa expressão que eu não via desde que saímos da faculdade. Você está gostando de alguém?
— Você está louca — desconversei. — Ficamos longe por tempo demais, você não me conhece tão bem.
— Chegou ao Japão há um dia e já tem um admirador secreto — ela caçoou. — Esse é um aviso que você precisa namorar.
— As pessoas não podem me reconhecer — insisti, nervosa por aquela possibilidade. Não queria perder a paz do anonimato que tinha no Japão. Não queria a tensão em cada restaurante que entrava, das pessoas tentando me agradar ao invés de mostrar seus verdadeiros gostos e opiniões.
— Fique tranquila. Ninguém te conhece aqui. É quase impossível alguém que te conhecia na Europa, acabar te reconhecendo em Osaka.
— Eu espero que isso não se espalhe.
A pintura estava bem-feita, provavelmente a pessoa tinha passado horas fazendo aquilo e gravado cada detalhe do meu rosto. Não pude evitar me sentir lisonjeada pela obra. Havia ficado incrível. Não era um grafite grosseiro ou uma caricatura engraçada. Era uma obra de arte. Até meu sorriso havia conseguido capturar com precisão. Meu cabelo estava solto e esvoaçante ao redor do meu rosto e pescoço. Meus olhos tinham um brilho que nem eu identificava em mim mesma, bem capturado pela técnica da pintura.
— O que é isso? Você está ficando vermelha.
— Eu não tenho tempo e nem idade para isso — desconversei, virando o rosto, mas sentindo minhas orelhas pegando fogo. — Vamos embora.
— O quê? Você não vai nem tirar uma foto e dizer que é você? — revirei os olhos.
— Claro que não. Vou esquecer o que aconteceu. Fingir que não sou eu e seguir em frente. Não importa qual tenha sido o propósito, eu não estou interessada.
— Você sabe quem fez. Ele está procurando por você. As pessoas estão postando nas redes sociais com a #CindereladeOsaka. Você pode encontrá-lo, se quiser — me mostrou algumas postagens nas redes sociais, parecia estar viralizando entre os locais.
— Eu não quero encontrá-lo — tirei os olhos do celular, rapidamente. Eu não tinha tempo para aquela primavera.
— Mas seu príncipe está te esperando.
— Eu sou velha demais para ser princesa de alguém, . Vamos deixar isso para as garotas ingênuas que esperam por seu príncipe montado em um cavalo branco. A realidade é muito diferente do que é contado por aí.
Ei! — ela reclamou. — Nós temos a mesma idade.
— Então nós duas somos velhas demais para essa ilusões. Vamos embora.
— Você é a pessoa mais anti romântica, chata, mal-amada que eu conheço — reclamou, dando a partida no carro. — Nunca vai saber o lado bom da vida que está perdendo, trancando seu coração desse jeito. O amor da sua vida pode estar debaixo do seu nariz.

***


— Mexa a panela com mais força.
— Sim, chef — eu gritei por cima dos outros sons da cozinha, aumentando o ritmo do meu pulso.
— A mão da concha precisa mexer junto com a mão da panela — ele reclamou mais uma vez. — Você não tem coordenação motora?
— Certo, chef. — Eu limpei o suor com o braço e Yoshida bateu no balcão com força. Eu pulei com o susto.
— Mexa mais rápido para o caldo não engrossar demais.
Minha cozinha era calma e limpa, como escutar uma música clássica em volume moderado. Passos coordenados, vozes mansas, aromas agradáveis. Aquele lugar, ao contrário, era barulhento e caótico como uma banda de rock pesado estourando as caixas de som. Não fazia o estilo de um restaurante fino que prezava pela qualidade como o Yuugen era.
Yoshida tinha muita prática e habilidade, mas gritava muito e não tinha paciência com nenhum cozinheiro, provavelmente por ter uma personalidade imatura e pouca experiência como líder. Uma semana e eu já não aguentava mais. Não sabia como havia durado tanto tempo como sous chef e como tinha ganhado respeito dos outros companheiros.
Ele aumentou o fogo sem avisar e, como das outras vezes, eu pulei para trás, derrubando a concha por conta do calor intenso no meu braço. Por muitas vezes, eu tive perto de me queimar por causa dele. Trabalhar com fogo não era meu ponto forte e ele parecia saber.
— Você está maluca? — ele bradou e eu abaixei a cabeça. O caldo estava arruinado de novo. Tempo e recurso jogados fora. Joguei a mistura no lixo e comecei a preparar tudo de novo.
— Me desculpe — falei, baixo.
— Os pedidos vão atrasar por causa de você. Não sei como as coisas funcionam em outros países, mas no Japão os clientes gostam da comida sem atraso.
Eu passei horas sem dormir naquela primeira semana de estadia no Japão, estudando e cozinhando sem parar, para aperfeiçoar os meus pratos. Eu tomava nota de tudo, refazia mesmo estando perfeito e ainda tinha que ouvir reclamações daquele homem insolente. Tentei desenvolver minha própria técnica e tentar me inspirar em cozinheiros famosos. Sempre era a última a sair e a primeira a chegar para estar atenta a tudo e sincronizada com todos os outros funcionários.
— Preste atenção.
— Me desculpe.
Todos na cozinha pararam para nos observar e eu senti as lágrimas chegarem nos meus olhos, com a humilhação de precisar ouvir tudo aqui na frente de todo mundo. “Tome a cozinha de volta” meu ego dizia. “Você já está boa o suficiente. Você é a chef", mas eu preferi matá-lo mais uma vez e engoli todas aquelas palavras.
— O que vocês estão olhando? Voltem a trabalhar. — Todos voltaram para suas tarefas. — Você, saia.
Eu o ouvi murmurar um “incompetente” baixinho enquanto eu saía para cuidar do me braço. Limpei as lágrimas que caíram e coloquei o braço na água fria, tomando várias respirações para me acalmar.
— Não ligue para o Yoshi-sensei. — Me assustei com a garota que apareceu ao meu lado. Ela era uma das assistentes de corte. Suas habilidades com a faca eram muito boas, mas ela parecia uma estudante do ensino médio, com franja cortada um pouco acima dos olhos, uma pinta no queixo e um sorriso infantil. Por baixo da touca, eu podia ver o pedaço de um laço cor de rosa. — Ele precisa aprender a ser mais paciente.
— Está tudo bem — garanti, tentando passar uma falsa sensação de controle sobre a situação.
— Seu braço está bem? — Eu tirei o braço de debaixo da torneira. O local estava muito vermelho, mas sem queimaduras.
— Não queimou — respondi.
— Quando mexer com fogo, use um tecido amarrado no punho, ao invés da manga do dólmã — ela recomendou. — Vai ajudar. Antes de vir para o Yuugen, eu trabalhava em uma cozinha minúscula, ajudando com o fogo.
— Obrigada — agradeci, me lembrando da época em que era assistente de fogo. Sempre andava com uma gaze enrolada no braço por me queimar com facilidade. Nunca achei que voltaria a usar aquilo como chef.
— Consegue lembrar o meu nome?
— Izumi Kimura — Ela pareceu surpresa. — Eu sei o nome de todos que trabalham na minha cozinha.
— Pode ser só Izumi. Eu sou uma fã. — Foi a minha vez de parecer surpresa. — Eu assistia seu programa na TV e acompanhava sua coluna na revista, mesmo tendo que traduzir tudo na internet.
— Muito obrigada. — Mesmo depois de anos, eu nunca havia me acostumado com situações como aquela. Sempre me sentia envergonhada.
— Todos nós te admiramos. O Yoshi-sensei apenas sente ciúmes, por isso tenta pegar mais pesado com você. Ele não te conhecia antes de vir para cá. Quando todos começaram a falar sobre você há um mês, ele ficou com raiva.
— Eu não o recrimino.
— Ele é apenas um idiota. Posso te chamar de sensei?
— C-Claro — gaguejei um pouco para falar, comovida.
— Obrigada, sensei. — Ela fez uma reverência. — Vou voltar ao meu trabalho.
Assim que a dor passou, eu voltei ao meu posto, como se nada tivesse acontecido. Eu não deixaria Kento Yoshida entrar na minha mente. Fiz muitos anos de yoga para perder a paciência facilmente do jeito que ele queria. Sabia que cada grito e cada ofensa eram para me fazer perder a compostura na frente da cozinha e acabar perdendo o meu valor como chef.
— Como está a cozinha hoje? — Frederick entrou e todos o cumprimentaram formalmente com uma reverência, até o arrogante Kento Yoshida. — Tudo bem, ma chérie?
— Estou ótima, Fred. Pouco tempo para assumir o comando do navio. — Podia ver a careta de Yoshida pelo canto do olho com a minha resposta.
Excellent! Estou ansioso por isso. Bom trabalho para todos — ele reverenciou e todos na cozinha devolveram o cumprimento. — Qualquer coisa, estarei no salão.
Eu preparei alguns pratos, me misturando entre corte e fogo, tentando aprender um pouco de tudo. Mesmo gostando de cada canto da cozinha, o lugar que eu me sentia mais à vontade era com as sobremesas. Talvez porque eu dominava muito bem todas as sobremesas do cardápio. No canto com os doces, temperando o chocolate, os gritos de Yoshida não chegavam até mim e não tiravam a minha paciência, não me faziam duvidar das minhas próprias habilidades.
— Sua técnica é muito boa — Nakamoto, chef das sobremesas, elogiou.
— Obrigada. Minhas especialidades são chocolates e massas.
Ele sorriu para mim e toda bolha de felicidade foi estourada quando Yoshida gritou por mim de novo no fogo. Eu corri até ele.
— Sim, chef?
— Você vai abandonar o caldo? Os pratos ficarão atrasados.
— Não, chef.
Eu enrolei uma gaze no pulso, como Izumi havia aconselhado e peguei a concha novamente. Yoshida jogou água fumegante no wok e eu comecei a mexer como ele havia indicado, fazendo alguns pingos caírem em mim, mas simplesmente ignorei a dor e continuei mexendo. A velocidade e a coordenação eram a chave daquele molho.
Eu peguei o óleo de gergelim com concha e joguei na panela. Os outros ingredientes foram sendo acrescentados, aumentando o ritmo das mãos. Meu suor pingava no chão e alguns fios do meu cabelo grudaram no meu rosto, mas eu continuei. Quando Yoshida estendeu a mão para aumentar o fogo, eu bati nela, afastando-o.
— Eu estou cozinhando, eu controlo o fogo — aumentei um pouco a temperatura, observando a fervura do caldo. Eu não conhecia aquela receita, nunca tinha tentado antes, mas possuía experiência suficiente para ter ideia do que estava fazendo.
— Mais alto. — Eu não queria aumentar a temperatura, porque já sentia a quentura no meu braço. Não via a necessidade. — Não é suficiente — ele reclamou.
Naquele momento, eu soube que Yoshida queria me machucar intencionalmente. Não era necessário aumentar tanto o fogo, mas ele queria me fazer desistir.
— O caldo já está fervendo, vai começar a engrossar logo.
— Eu disse que não é suficiente.
Ele enfiou a mão por entre meus braços para agarrar os botões, empurrando a concha junto com a panela.
— Yoshida, não!
Cuidado! — alguém gritou.
A concha bateu no wok sem controle, fazendo-o virar em cima do meu braço. Eu gritei com dor, caindo para trás, quando o caldo fervendo atingiu a minha pele.
Todos na cozinha correram até onde estávamos, preocupados. Meu pulso esquerdo havia sido o mais atingido. Alguém tentou tirar o tecido enrolado, mas a pele estava quase desgrudando junto com ele. Eu mordi o lábio, com dor.
— O que está acontecendo aqui? — Fred entrou na cozinha. Provavelmente a comoção havia sido ouvida no salão, me fazendo ficar envergonhada. — Emi! — ele se ajoelhou ao meu lado.
— Fred... — eu choraminguei, sentindo a queimadura arder.
— Fred, eu posso explicar — Yoshida começou.
— Eu não quero te ouvir, Yoshida. Não agora. — Fred me ajudou a levantar. — Vamos, Emi. Eu te levarei ao hospital.
No carro, eu tentei enxugar as lágrimas com a mão boa, enquanto evitava olhar para a queimadura. Se encarasse demais pareceria pior do que realmente era.
— Fred, você não pode deixar o restaurante sozinho — tentei argumentar, mas Fred apenas balançou a cabeça. — Eles precisam mais de você do que eu.
— Você está machucada. Eu sou responsável por mantê-la segura aqui no Japão. Eu insisti que viesse, preciso cuidar de você.
Fred me lembrava do meu tio com a sua maneira de cuidar de mim, o que trouxe ainda mais lágrimas aos meus olhos. Provavelmente eu chorava como um bebê naquele momento.
— Você pode ligar para . Ela ficará comigo no hospital.
Ele olhou nervosamente para o meu braço, onde a pele ainda estava grudada no pano. Provavelmente ficaria uma péssima cicatriz, se juntando às outras várias que tinha no local por causa do meu trabalho. Temi que pudesse prejudicar a cozinha e o meu desenvolvimento no Yuugen.

Fred cuidou de toda papelada do hospital e me deixou esperando por , na maca, enquanto minha vez de ser atendida ainda não havia chegado.
— Tem certeza que está bem? — acenei, sem mais lágrimas. Depois de toda comoção, eu me sentia muito mais aliviada. No pré-atendimento, fui informada que não demoraria para curar a queimadura e não me prejudicaria nas atividades rotineiras.
— A enfermeira me deu um analgésico para a dor, então estou me sentindo melhor.
— Quando você voltar, resolvemos isso. — Nos despedimos e eu me recostei na maca, esperando meu atendimento.
— O que aconteceu com você? — chegou pouco tempo depois, falando alto. — Seu braço. O que...?
— Um acidente na cozinha. — Ela olhou para o meu braço e soltou um lamento de pena. Ela me abraçou, segurando minha cabeça entre suas mãos, provavelmente com os olhos cheios de lágrimas. Ela era mais sensível do que eu, como se a queimadura tivesse sido feita no braço dela e não no meu.
— Emi, você é muito perigosa para si mesma. Dois acidentes em uma semana. Você não para de me deixar preocupada. E se algo pior tivesse acontecido? Você não cuida de si mesma? E se...?
, não precisa exagerar. Eu vou ficar bem — tentei acalmá-la. — A enfermeira informou que não vai afetar em nada as minhas rotinas diárias. Só vou precisar usar um curativo por poucos dias.
Não contaria que estava morrendo de medo e que não queria nem olhar o estado do meu ferimento. Provavelmente choraria de novo.
— O que você está fazendo aqui? — um médico parou na minha frente. Eu olhei duas vezes para conseguir reconhecer aquele rosto bonito.
— Haru?

Capítulo Quatro

“Um pouco de perfume sempre fica na mão de quem oferece flores.”
(Provérbio Chinês)



Haru era muito bonito para o seu próprio bem. Quando nos encontramos pela primeira vez, não tive muitas oportunidades para dar uma boa olhada em seu rosto, mas ele já me parecia bonito.
Seu rosto era atraente com os olhos puxados, cílios ralos, as bochechas altas, nariz arrebitado e o sorriso charmoso. Seus dentes eram levemente tortos e ele tinha uma pinta perto da boca que conseguia atrair meus olhos uma vez ou outra para o local. Não era uma beleza exagerada, que fazia todos os rostos virarem assim que passasse. Era uma beleza única, que se você percebesse da primeira vez, desejaria poder continuar olhando. Suas sobrancelhas eram grossas e o cabelo bem cortado, mais baixo nas laterais, penteado para trás, longe dos olhos, diferente da primeira vez que o havia visto, desgrenhado, mas igualmente bonito. Havia outra pinta no queixo e uma menor do lado do olho, quase imperceptível, mas eu estava fazendo uma verificação atenta demais para não enxergar. Sua pele era sutilmente bronzeada e as olheiras eram recentes.
Eu quase suspirei em voz alta. O problema era que aquele rosto jovem não me enganava. Haru era alto e devia ter entre vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Cinco anos a menos e uma placa enorme de proibido em cima de sua cabeça. Não era para mim.
— O que você está fazendo aqui? — eu repeti a pergunta dele, mas então notei o jaleco. Ele tinha até um estetoscópio pendurado no pescoço. Haru levantou uma sobrancelha.
Você é médico. — Nunca poderia ser mais óbvia.
— Sou — ele respondeu, sorrindo. Tudo fez sentido.
— Você é médico de verdade.
Ele riu de mim e eu quis enterrar minha cabeça em um buraco por parecer uma idiota na frente dele.
— Eu sou muito burra. Era óbvio que você era um médico. Ninguém normal conseguiria fazer aquilo tão bem. — Por isso ele parecia tão calmo e pacífico tirando uma criança de dentro de uma completa desconhecida.
— Está tudo bem. Eu te procurei, mas você veio até mim.
pigarreou ao meu lado, me fazendo lembrar da sua existência que, depois de, pelo que parecia, duas horas encarando Haru, eu havia esquecido. Desviei meus olhos dos dele e olhei para minha amiga que parecia querer uma explicação. Eu fiquei envergonhada por ser tão óbvia. Não sabia por que estava tão afetada pela presença daquela pessoa.
— Essa é minha amiga, — apresentei. — , esse é o Haru. Nos conhecemos no dia em que cheguei ao Japão.
— Muito prazer... — não falou seu primeiro nome, para não ser rude, mas ele respondeu de forma simpática.
— Pode me chamar de Haru mesmo.
Ele estendeu a mão para cumprimentar e eu notei que até suas mãos eram atraentes. Os dedos longos e o aperto firme. Provavelmente minha mão ficaria diminuta, dentro da dele. “Esqueça as mãos dele, .” Não havia nenhum anel de noivado ou de casamento, não que eu tivesse procurado atentamente.
— Ele é o responsável pela pintura no muro — esclareci, conectando os fatos.
quase se derreteu na frente de Haru. Podia ver dois corações saindo de seus olhos. Não julguei. Se alguém olhasse para mim, provavelmente veria aqueles corações saindo dos meus olhos também.
— O que aconteceu com seu braço? — ele perguntou para mim.
— Um acidente no trabalho. — Ele segurou meu pulso com cuidado e analisou a queimadura.
— Você não parece ser uma bombeira — Haru comentou baixo.
— Doutor, eu vou ajudá-la com o ferimento. — Uma enfermeira chegou no momento com os materiais na mão para finalmente me atender.
— Tudo bem. Eu faço isso — Haru pegou os materiais da mão da mulher.
olhou para mim sugestivamente e eu neguei com a cabeça. Ela estava começando a ter ideias.
— Está tudo bem. A enfermeira pode fazer isso, não precisa se incomodar — eu falei. — Você deve estar ocupado.
— Eu tenho um tempo — ele insistiu. — Posso cuidar da sua queimadura.
— Eu preciso fazer uma ligação. — muito provavelmente inventou aquela ligação para nos deixar sozinhos e alimentar sua mente fértil. — Volto logo.
saiu junto com a enfermeira, me deixando sozinha com Haru. Ele fechou a cortina que separava meu leito dos outros e se sentou no banco ao meu lado. Não pense sobre o quão perto ele está. Não pense sobre o quão perto ele está. Coloque sua mente em outra coisa.
Um omurice se faz utilizando arroz frito, ovos...”
— Esse é o último lugar que eu pretendia te encontrar — ele comentou.
— Acho que posso dizer o mesmo. Achei que você era apenas um motorista bem preparado, mas você é realmente um médico.
Ele riu e eu cheguei à conclusão que ele ficava ainda mais bonito quando ria. Tinha covinhas leves nos dois lados da bochecha que só aparecia com um sorriso profundo. Lembrei da cena dele segurando o bebê e rindo para mim. Não conseguiria tirar aquela imagem da mente. O que poderia falar para fazê-lo rir de novo?
— Me desculpe por não ter me apresentado adequadamente. — Com cuidado, ele conseguiu retirar o pano do ferimento e eu desviei o olhar. — Vai arder um pouco.
— Tudo bem, eu aguento.
— Então por que está com os olhos fechados?
Ele riu mais uma vez e eu continuei com o rosto virado, esperando a dor chegar. Eu mordi o lábio e reclamei um pouco, enquanto ele tratava a queimadura com bastante cuidado. Deveria ser ilegal um homem ter mãos tão habilidosas como aquelas.
— Você precisa ter mais cuidado. Queimaduras são ferimentos graves e que deixam cicatrizes para sempre.
— Obrigada.
Depois de o curativo ter terminado, eu tirei o braço da mão dele. Estava começando a gostar do seu toque gentil em minha pele.
— Desculpe pela pintura — ele pediu, parecendo envergonhado. — Eu... Não sabia mais como te achar, não quis causar nenhum desconforto ou te deixar envergonhada.
— Tudo bem. No final das contas, você me encontrou — Seu sorriso aumentou, fazendo seus olhos parecerem menores. — Ela ficou linda, obrigada. Não sabia que um médico podia desenhar tão bem.
Ele pareceu envergonhado novamente, mas dessa vez com o elogio. Além disso, não respondeu à pergunta implícita.
— Você quer ver como a Tanaka-san está? — Haru perguntou e meus olhos se acenderam.
— Ela ainda está aqui? — perguntei, surpresa.
— A fratura em sua perna foi muito grave, mas ela está se recuperando bem. Vai receber alta em breve.
— Eu quero vê-la, se for possível.
Ele me ajudou a descer da maca, me segurando pelo braço bom e me guiou pelo hospital. Algumas pessoas o cumprimentavam respeitosamente quando passávamos.
— Você fala japonês muito bem — ele observou enquanto caminhávamos. Eu não tinha nenhum traço asiático, então os olhares de surpresa eram evidentes quando eu abria a boca e começava a falar japonês.
— Passei grande parte da minha infância aqui no Japão, então tenho que saber falar japonês.
— Já sei várias coisas sobre você, mas ainda não sei seu nome.
Ah, desculpe. É e pode me chamar pelo primeiro nome mesmo, já que se apresentou pelo seu primeiro também. Acho que os costumes ocidentais ainda estão em mim.
Ele segurou o elevador para mim e nós entramos juntos. Orei para que chegasse logo o andar pedido, porque me sentia estranhamente envergonhada sozinha com Haru no elevador. Podia sentir seus olhos queimando minha pele e meus braços ficaram arrepiados. “Não olhe, não olhe, não olhe.” Se eu roubasse uma espiada por cima do ombro, poderia ser fatal.
O elevador parou e eu quase soltei um suspiro audível.
— Vamos lá, .
Foi estranha a maneira que eu tremi ouvindo-o chamar o meu nome pela primeira vez com sua voz rouca e potente. Me peguei desejando ouvi-lo dizer mais vezes.
Eu o segui para fora do elevador até um quarto particular, ignorando aquela sensação. Ele bateu e a pessoa do lado de dentro pediu para entrarmos. Era Naomi amamentando seu filho.
— São vocês dois — ela pareceu feliz em nos ver.
— Soube sobre a sua perna — disse assim que nos aproximamos. — Eu sinto muito.
— Eu já estou bem. Logo iremos voltar para casa. Esse é Ren — ela nos mostrou seu pequeno bebê. — Quer segurá-lo?
— Não, obrigada — eu neguei juntamente com a mão, mas logo completei para que ela não pensasse que eu tinha algo contra seu filho, porque eu apenas não era muito boa com crianças. — Fico feliz que ele esteja saudável. Vocês dois.
— Serei eternamente grata a você. Não sei o que aconteceria se vocês não estivessem lá...
— O importante é que estávamos e ocorreu tudo bem — cortei, sem querer pensar no que poderia ter acontecido. Fiquei feliz por ter decidido sair do táxi e ser corajosa o suficiente para ajudar Haru.
— E você acabou por ser um médico. — Naomi e Haru riram.
O celular de Haru tocou e ele pediu licença para atender do lado de fora do quarto.
— Vocês estão juntos? — Naomi perguntou diretamente.
— O quê? — Fiquei automaticamente desconfortável. — Não, nós nos conhecemos naquele dia do acidente. Por coincidência, nos reencontramos hoje.
— Estranho. Eu pensei que vocês estivessem em um relacionamento. Vocês parecem... próximos.
— Desculpem. — Haru voltou para o quarto, me poupando de dar uma resposta ao comentário de Naomi. — Meu intervalo precisa terminar antes da hora. Vou te levar de volta e deixar Tanaka-san continuar seu descanso.
— Adeus, Tanaka-san. Saúde para você e para o pequeno Ren.
Nos despedimos de Naomi e saímos do quarto.
— É incrível, não é? — ele falou. — Nós o tiramos de dentro da mãe dele no meio da rua e hoje ele está saudável e forte.
— Nunca poderia imaginar passar por uma situação como essa.
— Você se saiu muito bem. Foi muito corajosa por ajudar no acidente, mesmo não sabendo muita coisa — ele elogiou, mesmo eu sabendo que não foi nada daquilo. Eu praticamente surtei e quase o abandonei no meio da rua e saí correndo. — Foi uma ótima assistente.
Quando entramos no elevador, Haru segurou a base das minhas costas, para me impedir de esbarrar em outras pessoas. O elevador encheu e eu tive que ficar com as costas encostadas no peito de Haru.
— Desculpe — pedi, tentando ficar o mais longe possível dele.
Haru deu um passo para trás, para não encostar em mim. Eu quase prendi a respiração por estarmos tão próximos daquele jeito. Eu podia até sentir o cheiro bom que vinha dele. Como já estávamos no final do dia, o perfume era fraco, mas ainda era bom de sentir. Se meu nariz estivesse mais perto do seu pescoço, eu poderia senti-lo mais intensamente. Balancei a cabeça para afastar aqueles pensamentos. O que estava acontecendo comigo?
me ligou assim que o elevador parou.
— Onde você está? — ela quis saber. — Achei que tinha resolvido fugir com o médico bonitão.
— Me encontre na saída do hospital. Eu chegarei em um instante.
— Você está com o... — eu cortei antes que ela começasse a falar demais.
, te vejo em cinco minutos. Fred já resolveu os papéis do hospital. — Eu desliguei o telefone e me virei para Haru. — Bom, eu acho que é isso. Obrigada pelo curativo.
, eu não posso deixar de tentar. Parece estranho porque nos conhecemos de uma maneira tão incomum e eu desenhei seu rosto em um muro de três metros para te encontrar... eu não sou um perseguidor, nem nada, mas... — ele parecia tentar procurar as palavras certas. — Eu... Você quer sair comigo?
— Sinto muito, mas não. — Suas sobrancelhas se ergueram com surpresa. Ele não esperava a recusa.
— Como? — Não tive vergonha de repetir.
— Eu não vou sair com você. Desculpe, eu tenho que ir agora. Minha amiga está me esperando.
Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, eu praticamente corri para fora, onde estava me esperando encostada em seu carro, cheia de perguntas.
— Você sabe que tem explicações para me dar — ela falou assim que me viu.
— Vamos para casa — pedi, quase a arrastando para dentro do carro.
— Quem era aquele médico bonitão que estava flertando com você?
— Eu o conheci no dia do acidente. — Ela continuou esperando o resto da resposta. — Foi ele quem me desenhou no muro. — soltou um grito de empolgação. — Mas isso não quer dizer nada.
— Ele é muito gato. Como não significa nada?
, eu não vim para o Japão namorar com ninguém. Eu não tenho tempo para isso. Você olhou o rosto dele? Ele deve ser cinco anos mais novo do que eu. — revirou os olhos.
— Não é como se isso fosse um crime. Você deveria tentar. Não custa nada.
— Eu preciso descansar para o trabalho amanhã. Vamos para casa.
Emi! Ele te chamou para sair? — Eu não respondi, mas aquilo foi o suficiente. — Ele te chamou! Emi! Aquele gato te chamou para sair e o que você disse?
— Não — respondi, simplesmente, e soltou um suspiro frustrado, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo.
— Você nunca muda. Eu não acredito que você perdeu essa oportunidade. É como uma lua azul a cada cem anos ou uma chuva de meteoros a cada um milhão de anos.
, eu preciso me concentrar na minha culinária, cheguei ao Japão há pouco tempo e tenho muito o que aprender ainda. Além disso, um hospital não é lugar para flertar. Ele estava no horário de trabalho. Eu não sou esse tipo de pessoa. — me olhou como se eu fosse louca, mas eu estava firme na minha escolha.
No carro, eu olhei para o curativo em meu braço. Haru era simpático, atraente, tinha um sorriso convidativo e um toque gentil, mas não era a pessoa certa para mim. Ninguém é a pessoa certa, se você não quer. E tudo que eu menos queria era embarcar em um romance com alguém mais novo para complicar a minha vida.
— O ferimento está doendo? — ela mudou de assunto e eu neguei com a cabeça.
— Recebi uma receita de analgésicos para a dor e alguns cuidados para trocar o curativo, mas vou ficar bem. Amanhã estarei de volta ao trabalho.
— Trabalho, trabalho e trabalho. Você só fala sobre trabalho.
— É para isso que viajei para o outro lado do país.
— E a diversão? Quando você vai conhecer Osaka? Quando vamos sair para comer em lugares legais? Quando você vai visitar a minha aula? Você está aqui e é como se ainda estivesse distante. Eu só te vejo quando você se mete em alguma confusão.
— Desculpa, eu não quero ser assim, mas você sabe que eu não faço esse tipo de coisa. Nem antes e nem agora. Eu sou chata. Não sei como ainda me suporta.
— Talvez porque você cozinha bem e sempre me mantém bem alimentada. — Eu a olhei como se estivesse ofendida. — Logo você fará trinta anos e tudo que você sabe do mundo é cozinhar e escrever sobre comida.
— Sessão de humilhação gratuita — reclamei.
— Você precisa conhecer alguém e se apaixonar.
Não, não precisava.

Capítulo Cinco

“Transforme seu mundo em primavera: a vida ganha mais cor, emoção e sabor, se decorada com amor.”
(Cristina Deutsch)



Eu me olhei no espelho, com o dólmã abotoado e a touca florida amarrada atrás da cabeça. Encarei meus olhos no reflexo, me lembrando do meu primeiro dia como chef de massas na Itália. Minha primeira vez como chef de verdade. Eu não tinha muita confiança própria naquela época, era apenas uma jovem cheia de sonhos e algumas habilidades. Eu dependia muito das opiniões alheias e por isso a daquele momento me lembrou aquela do passado. Eu via aquela falta de confiança nos meus olhos naquele momento.
— Você consegue, . Você sempre conseguiu. — Olhei o braço com o curativo novo. — Eu confio em você.
Assim que entrei na cozinha, todos me reverenciaram em frente às suas bancadas de trabalho. Todos os chefs com seus assistentes ao lado, vestindo suas melhores expressões respeitosas, com as mãos para trás, esperando as orientações daquela noite.
— Boa noite.
— Boa noite, chef.
— Meu período de aprendizado acabou e eu fico feliz por vocês terem me ajudado tanto. Todos vocês. — Yoshida permaneceu de cabeça baixa durante meu discurso. — Antes de começarmos, eu gostaria de preparar um prato para vocês. Todos sabem que não há nada melhor para espantar o calor úmido deixado pelo verão japonês do que Unagi. Ele é simples, comum e vendido em todos os lugares, mas tudo muda com a maneira que é preparado e servido. Eu quero que, através do que eu faça aqui, os olhos de vocês sejam abertos para além da culinária tradicional.
Eu preparei um molho barbecure doce e um salgado com algumas ervas, usando um pouco da água onde a enguia havia sido mantida de molho. Grelhei as enguias de água doce e as temperei depois. Servi o prato perfeitamente com alguns caramelos derretidos e pedaços de frutas cristalizadas, de maneira artística.
Uau, que lindo. — Alguns aplaudiram.
— Eu nunca vi um prato tão lindo.
— Não importa a classe do restaurante, acredito que todos amem comer comidas tradicionais do seu país. O diferencial é a maneira que foi preparado e, claro, a maneira que está sendo servido. Podem experimentar.
Itadakimasu!
Não me surpreendi com as exclamações de prazer que faziam enquanto cada pessoa da cozinha se aproximava e tirava um pedaço, experimentando o prato. Podia parecer convencida, mas eu tinha confiança em tudo que fazia na cozinha. Desde um simples prato até uma refeição completa. Eu sabia do que era capaz e não tinha medo de tentar.
— Esse é o melhor Unagi que já comi na minha vida.
— Não tenham medo de ousar no tradicional — expliquei. — Navegar entre o doce e o salgado. Podemos antecipar o sabor da sobremesa no prato principal deixando um gosto de quero mais. Vamos tentar com udon, takoyaki, sushis e tempura. — A maioria parecia surpresa com minhas recomendações. — Vamos aos poucos e todos irão aprender a aperfeiçoar sua criatividade. Vocês podem fazer pesquisas de campo, em barracas de rua tradicionais para saber mais sobre esses clássicos. Hoje vamos começar com o unagi como escolha do chef. Preciso que os molhos estejam prontos para serem servidos com a enguia quente. Entenderam?
— Sim, chef.
— Os cortes devem ser com três milímetros de espessura para que não camufle o sabor dos molhos. Lembrando que a enguia é a estrela do prato, então o tempero tem que estar na medida certa. Bom trabalho para todos.
O início da noite foi um pouco desastroso, como uma orquestra sem maestro, em que cada instrumento tocava em uma nota diferente, mas eu não podia culpá-los. O início era sempre difícil. Se adaptar a um chef novo, fazendo pratos que nunca tinham tentado antes. Eu tentei suavizar as críticas e falar em tom baixo, para deixá-los confortáveis e calmos. Em pouco tempo, todos conseguiram se acostumar ao meu estilo e o trabalho começou a fluir.
Chef, posso falar com você por um instante? — um dos maître me chamou na cozinha, longe dos outros cozinheiros.
— O que aconteceu? — sua expressão me deixou apreensiva.
— Um dos clientes pediu para devolver o prato. Ele disse que a enguia está mal grelhada. Frita por fora e crua por dentro.
— O quê? — eu peguei um garfo e provei o prato na mão dele. Não havia nada de errado com a comida. — Não há nenhum problema com a carne.
— Ele pediu para chamar o chef.
Respirei fundo e contei até dez. Aquilo não deveria acontecer na minha estreia. Não naquela noite, de todas. Era dizer que a minha coordenação havia sido desastrosa desde o primeiro dia.
— Me leve até ele.
O cliente era sempre o dono da razão. Era para o cliente que eu trabalhava. Se ele dizia que precisava de mais sal, precisava de mais sal. Se ele dizia que a carne estava mal cozida, estava. Mesmo confiando em mim e nos meus cozinheiros, eu sempre seguia as ordens do cliente. Além de que, se ele estivesse errado, eu sempre poderia dizer “eu avisei” e provar quão boa chef eu era.
— Ali, na mesa 46 — ele apontou e eu agradeci, indo até o homem sozinho sentado na mesa 46.
— Boa noite — eu me curvei para suas costas e ele virou. — Sou a chef. Gostaria de saber o que...
— Olá, . — Meu coração quase perdeu uma batida.
— Haru? — Ele me deu um sorriso travesso.
— Você é a chef?
— Não haja como se não soubesse — fechei a cara instantaneamente, mal-humorada. — Me chamou aqui para realmente reclamar da minha comida ou apenas para falar comigo?
Ele se recostou na cadeira, com os braços cruzados, me dando uma olhada completa. Permaneci inalterada.
— Você ficou ofendida porque falei mal da sua comida? — Não respondi. — Orgulho de chef, hein?
— Precisa de mais alguma coisa? — eu me virei para sair, mas ele segurou minha mão. Eu a puxei de volta.
— Você está bem? Como está a queimadura? Teve dificuldade para trocar o curativo? — ele parecia genuinamente preocupado, mas meu humor já havia azedado. — Sentiu alguma dor?
— Eu estou no meu horário de trabalho, não é propício falar sobre assuntos pessoais aqui.
— Então eu posso te encontrar fora do horário de trabalho? — ele ousou dar uma piscadela na minha direção.
— Eu disse que não vou sair com você — cortei. — Minha decisão continua inalterada.
— Por quê? Você tem namorado?
— Eu não preciso responder a essa pergunta.
– Você não tem namorado e eu acho que quer sair comigo.
O jeito arrogante dele me deixava irritada e o fazia parecer ainda mais atraente. Principalmente vestindo aquela roupa social com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos e o cabelo penteado para trás. Parecia diferente das outras vezes que eu havia encontrado com ele. Antes, foram encontros acidentais, naquele momento, ele estava completamente preparado para roubar o coração de alguém. Sua roupa, seu cabelo, seu perfume e seu olhar. Tudo estava na medida certa.
“Ele é muito mais jovem do que você. Ele está procurando uma aventura com uma estrangeira. Não caia nessa armadilha.”
— E eu acho que você está errado. Se você acha que esse “não” é um desafio para que você continue insistindo, não é. E se você não sabe ouvir um “não” de uma mulher, não é mesmo o tipo de cara com quem eu sairia. Espero que aproveite o resto da sua noite. Pedirei para trazerem outro prato para você.
Fiz uma reverência, apertando a barra do dólmã com o punho, me impedindo de falar algo que me arrependesse depois, como gritar com ele na frente dos outros clientes ou arrastá-lo para fora.
— Você poderia me dar uma chance?
— Você parece um stalker, sabia? É estranho. Como descobriu onde eu trabalhava?
— Me desculpe, sua amiga me contou. — . Por que eu não estava surpresa?
— Me perdoe se agi de uma maneira que tenha feito você pensar algo mais ou dado uma ideia errada, mas eu não estou interessada.
— ele chamou e eu virei novamente ao som da sua voz. — Dois encontros acidentais. Se houver um terceiro, você vai ter que sair comigo. Acreditarei que não será mais coincidência.
Eu voltei para a cozinha sem mais nenhuma palavra, ainda com o coração disparado. Não era bom ficar perto de uma pessoa que causava aquele tipo de reação em mim. Eu precisava ter controle e foco.
— Você está bem, chef? — um dos auxiliares de cozinha me perguntou e eu acenei.
Eu não pensaria em Haru, não desejaria coisas que eu não podia ter. Atração física não era o suficiente para algo e eu não estava a fim de algo a mais. Algo que talvez ele não pudesse me dar.
— Os clientes adoraram a recomendação do chef dessa noite — Frederick entrou, parecendo satisfeito e feliz. Aquilo foi suficiente para acalmar os meus ânimos. Ele me deu dois beijinhos nas bochechas, como de costume dos franceses.
— Fico feliz por ter acertado.
— Você sempre acerta, ma chérie. Eu sabia que não estava enganado ao trazer você aqui. Como está o braço? — Ele segurou meu braço enrolado, mas eu o tirei da mão dele automaticamente, lembrando de Haru. Seu toque gentil.
— Está melhor — respondi, sorrindo, para evitar o desconforto de ter sido um pouco rude retirando o braço tão rapidamente. Frederick era francês e eu havia acabado de chegar da França, então seus costumes de contato pessoal eram normais para mim. — Felizmente, não vai prejudicar em nada no trabalho.
— O mais importante é a sua saúde, chérie. Recebemos muitos elogios pelos pratos hoje. A equipe foi conduzida de forma excepcional. Você fez muito jus à sua fama.

No final do expediente, eu agradeci a todos pelo trabalho bem feito e fui para o hotel me sentindo muito satisfeita. A falta de confiança e a inquietação saíram do meu peito. Eu fiz uma ligação para o meu tio.
— Eu liguei muito tarde?
— Muito cedo, você quer dizer — ele falou, com uma voz cansada.
— São que horas? — Eu me esqueci completamente da enorme diferença de horários entre os dois países. — Eu te acordei?
— Cheguei tarde ontem, por isso dormi além do horário, não se preocupe. — Ele nunca admitiria qualquer coisa que me deixasse desconfortável ou culpada. — Como estão as coisas aí?
— Hoje foi a minha estreia no Yuugen como chef — falei, agarrando o celular com as duas mãos. — Eu já consegui me sentir em casa.
— Esse é o verdadeiro lugar para você se sentir em casa. — Suspirei, olhando pela janela, pensando se aquela frase era verdade. O Japão representava muitas coisas para mim, menos casa.
— Pena que seja o último lugar que eu me sinta em casa.
— Você vai vê-la?
— Eu não vim aqui para isso. — Não hesitei na resposta.
— Você sabe que, no fundo, foi sim. De maneira inconsciente, você quer resolver suas questões pendentes. — Eu não respondi. — Osaka é uma cidade linda. já te levou para conhecer mais da cultura local?
— Eu estou trabalhando como nunca para poder me adaptar bem aqui, não tenho tempo para diversão.
— Está comendo direito? Tem dormido bem? Está descansando o suficiente? Você é sempre muito focada no trabalho, nunca se lembra de se cuidar.
Sorri ao ouvir aquilo. Eu amava aquela pessoa. Ele conseguia cuidar de mim mesmo de longe. Sua preocupação aquecia meu coração. Era aquilo que chamavam de família.
— Eu estou bem. E você? Está comendo direito?
— Eu tenho uma sobrinha que cozinha muito bem e que me deixou mal-acostumado agora que está do outro lado do mundo.
— Nada de comida instantânea — eu avisei. — Ou aqueles restaurantes gordurosos que gosta de visitar.
— O mesmo serve para você — ele rebateu. Nós dois tínhamos um péssimo gosto por comida rápida que estragava o paladar.
— Sinto sua falta. Prometo que tentarei ligar mais vezes para te atualizar.
— Por que excluiu as redes sociais?
— Não queria ninguém procurando por mim ou postando coisas desnecessárias. Queria realmente me desapegar de tudo que deixei para trás e começar de novo aqui no Japão.
— Até de mim?
— Eu nunca te deixei para trás. Você é a minha família. — Eu pude ouvir sua risada rouca do outro lado da linha.
— Eu quero ver fotos suas.
— Eu tentarei enviar quando estiver me divertindo — prometi, sabendo que seria difícil. Eu raramente saía da cozinha.
— Gosto de fotos sua cozinhando, fazendo aquilo que ama.
— Irei mandar. Estou chegando ao hotel agora. Ligarei amanhã.
Eu só percebi o quanto estava cansada depois que deitei em minha cama confortável, após um banho quente maravilhoso. Eu só queria dormir. Quando fechei os olhos, enrolada entre os lençóis, pensei no que havia acontecido mais cedo.
“Eu acho que você quer sair comigo.” A audácia daquele comentário me tirava do sério, mas Haru era bom em ler as pessoas. Eu queria sair com ele. Mas que mulher não gostaria? Bonito, alto, gentil, aparentemente solteiro e bem-sucedido. Provavelmente nunca havia ouvido um “não” antes, mas, durante a minha vida, eu já tinha dito muitos “nãos”. Não tinha vergonha de deixar claro que o meu único interesse era a minha culinária.
Nunca havia pensado em namorar antes, mas por que Haru havia tornado aquela alternativa possível? Por que Haru, de todos? Um homem mais jovem.
Eu coloquei o travesseiro em cima do rosto, como se aquilo conseguisse abafar os pensamentos. Quando eu me senti atraída por pessoas mais jovens? costumava dizer que detalhes como idade e naturalidade eram coisas que não influenciavam quando gostávamos de verdade de alguém, mas pensar na diferença de idade entre mim e Haru me dava até arrepios. Eu nunca sairia com alguém mais novo que eu, não importava quão lindo fosse o seu sorriso.
“Dois encontros acidentais. Se houver um terceiro, você terá que sair comigo. Acreditarei que não será mais coincidência.”
Nós não nos encontraríamos de novo. Osaka era uma cidade grande, seria muito azar conseguir encontrá-lo por um acaso pela terceira vez. Eu sabia onde ele trabalhava, então me manteria longe daquele hospital e mesmo que ele fosse ao restaurante, eu conseguiria evitá-lo. Eu nunca havia baixado a guarda antes, não começaria com ele.

Capítulo Seis

“Há uma primavera em mim; vou desabrochar, seja como flor.”
(Fernanda Scaravelli)



— Por favor, . Eu nunca te pedi algo assim antes — insistiu no telefone e eu continuei batendo a massa, como se ela não estivesse presa naquele assunto pelos últimos vinte minutos, como uma abelha chata zunindo no meu ouvido através do fone.
— É por isso que eu não vou fazer agora.
— Emi, por favor. Eu não posso ir sozinha. Não dessa vez.
— Você sempre vai sozinha em encontro às cegas — argumentei. — Nunca precisou de mim. Além do mais, encontro às cegas não é muito meu estilo. Você pode encontrar muita gente estranha nesse tipo de coisa.
— Mas é um encontro duplo. Eu não tenho outra amiga para levar.
— Peça a alguma aluna da aula de cerâmica.
— Emi — ela chorou. — Você é minha melhor amiga, não pode me deixar na mão. Eu não posso sair com dois caras ao mesmo tempo. Ele pediu para levar um amigo e eu disse que também tinha uma amiga para levar também. Vai ser divertido, eu juro. Você não vai se arrepender.
— Eu estarei trabalhando essa noite — justifiquei.
— Você tem trabalhado sem parar. Até Fred mandou você tirar uma folga. É só uma noite. Não é como se você fosse morrer por sair e se divertir uma noite.
, eu não vou em um encontro duplo com você. Não tenho idade para isso. Você parece uma mãe que quer casar a filha o mais rápido possível. Esqueceu que eu não estou procurando por um namorado?
— Não é para você conseguir um namorado. — Fingi acreditar que aquela não era mais uma das tentativas dela de conseguir um namorado para mim. — É só para ser uma noite divertida com pessoas legais.
— Eu nem os conheço.
— Você não sabe como funciona um encontro às cegas? Eu conheço o e ele disse que o amigo dele é um pouco sério, mas é legal. Combina com você. Só vamos jantar juntos e rir um pouco. Você precisa sair da sua zona de conforto.
— Não me parece uma boa ideia.
— De que serve uma melhor amiga, então?
— Para muitas coisas, mas não para isso. Se quiser conseguir um namorado, pode fazer isso sozinha. Me mantenha fora dos seus esquemas.
Eu desliguei o celular e voltei a preparar a massa do udon. Meu celular tocou de novo e todos na cozinha olharam para mim. Celulares eram proibidos dentro da cozinha e eu estava quebrando a regra.
, eu estou no trabalho — atendi, sussurrando.
— Por favor, Emi. Eu preciso de você essa noite. Ficarei te devendo uma. Eu farei o que você quiser, se for comigo hoje.
Respirei fundo, apertando os olhos. Aquilo não seria uma boa ideia.
— Só essa noite — ela insistiu. — Por favor.
— Tudo bem, eu vou. Mas não prometo ser sociável ou fingir que estou me divertindo. Se ele for chato, eu vou pedir para ir ao banheiro e vou fugir.
— Obrigada, eu te amo. Tenho certeza que você não vai se arrepender. — Eu já estava me arrependendo. — Vista algo bonito e deixe o cabelo solto.
— Qualquer pressão sua e eu vou vestida com o dólmã mesmo.
— Você sabe que nenhum homem resiste a você quando a vê vestida de chef.
— Tchau, .
— Eu vou te buscar às 19h — ela gritou enquanto eu desligava o celular. — Não se atrase.
Avisei a Fred que ficaria na cozinha até as 18h porque sairia com e ele pediu para eu aproveitar muito e me divertir, mas o tempo passou tão rápido que meu horário de saída chegou e eu ainda estava preparando o udon daquela noite.
Chef, você não precisa sair mais cedo? — Olhei o relógio de pulso e eu estava vários minutos atrasada.
— Saio em um instante.
Continuei trabalhando no cortador de macarrão até estar perto do horário do encontro. Não daria tempo de lavar o cabelo e me mataria. Eu corri para o hotel, tomei apenas um banho e vesti a primeira coisa que encontrei na frente.
Soltei o cabelo e tentei deixá-lo o mais apresentável possível, sacudindo a farinha para fora dele, mas os dias em que trabalhava com massa eram os dias que eu deveria lavar o cabelo. Entre cabelo molhado e sujo de farinha, fiquei com a segunda opção.
Quando chegou, eu estava passando um pouco de perfume e batom. Aquela era uma prova de que eu estava me esforçando, pelo menos um pouco.
— Não, Emi. Jeans? — Eu olhei minha calça, procurando alguma mancha de sujeira ou buraco, mas ela parecia bem.
— Qual o problema com a calça?
— Vamos a um encontro. E ainda tem farinha no seu cabelo — ela começou a sacudir meus cachos para livrar a farinha. — Que horas você chegou?
— Eu estou bem, . Estou apresentável, pelo menos eu tomei banho. Vamos, antes que eu desista.
— Troque apenas o tênis por um sapato mais bonito. Algo com salto.
— Salto faz meu pé doer. — quase soltou um grito de frustração. — Amanhã eu preciso passar horas em pé na cozinha.
— Nós vamos jantar, você não vai precisar andar muito. Só para fazer suas pernas parecerem mais longas e atraentes.
Só porque eu havia me atrasado, coloquei o sapato que ela pediu e peguei a minha bolsa.
— O já chegou e está esperando por nós — ela me informou, após checar o celular. — Eu odeio me atrasar. Vamos logo.
— Eu não quero parecer como se realmente quisesse ir.
— Por favor, não me envergonhe. Coloque o sorriso no rosto e pareça simpática. Outra coisa, não fique falando sobre não ter tempo para fazer nada ou fique ligando para o restaurante. Fale sobre assuntos interessantes, como suas viagens e sua culinária. Seja a legal que eu gosto.
nos levou até onde os rapazes estavam esperando. Ela marcou o encontro na entrada do restaurante.
— Posso saber como você conheceu o ? Nunca me contou sobre ele antes — perguntei quando estávamos próximas do restaurante.
— Eu não te contei? Eu o conheci recentemente, naquele dia no hospital.
— Que dia no hospital? — Aquilo não cheirava bem. Ela estava mantendo oculta aquela informação por algum motivo específico.
— O dia da sua queimadura. Olha, são eles. — Nós descemos do carro e meu coração deu um salto.
— Você sabia disso, não sabia? Foi de propósito? — eu perguntei para , com raiva, beliscando seu braço enquanto andávamos em direção aos dois homens parados em frente ao restaurante.
— Sabia, mas não falei nada porque você não viria se fosse ele. Eu tive que fazer acontecer, já que você não queria.
, eu não…
— Emi, não faça uma cena. Olá, rapazes — os cumprimentou alegremente quando chegamos perto e eu repeti, não tão animada.
“Se nos encontrarmos pela terceira vez, você vai ter que sair comigo.”
— Olá, .
— Olá, Haru.
— Vocês já se conhecem? — o encontro de , , perguntou.
— Nos encontramos por acaso algumas vezes. — Eu o encontrei com os olhos semicerrados. Só podia ser alguma brincadeira de mau gosto. Ele havia planejado tudo?
— Vamos entrar? — convidou.
— Eu acabei esquecendo de avisar. O restaurante não tinha nenhuma mesa para quatro disponível para essa noite. Só consegui marcar uma mesa para duas pessoas — falou, inocentemente, e eu quis pular em cima dela. — Tem algum problema vocês conseguirem outro restaurante para comer?
— Não há problema nenhum — Haru falou primeiro. — Pode ficar tranquila, eu cuidarei bem dela.
— Não tenho dúvida disso. Tenham um bom encontro. Emi, falo com você amanhã. — e entraram no restaurante, me deixando ali com Haru. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
— Vamos? — Haru pediu.
— Eu não vou para lugar nenhum com você. — Peguei o celular para chamar um táxi. — Estou indo para casa. Tenha uma boa noite.
, espere um pouco — ele me segurou pelo braço. — Há algum problema comigo?
— Não, eu só não quero sair com ninguém.
— Você está aqui, de uma maneira ou de outra, já havia concordado em sair com alguém. Qual o problema de ser eu? Eu fiz algo que te desagradou? Fui rude ou grosseiro com você? Se algo ficou subentendido e você acabou com uma impressão ruim de mim, peço desculpa.
— Eu... — eu não sabia o que falar. Não queria revelar que estava com medo de sair com ele e acabar gostando, mas sua gentileza fazia algumas rachaduras.
— Eu disse que, se nos encontrássemos pela terceira vez, você teria que sair comigo — ele deu um sorriso.
— Você é jovem demais — soltei antes de pensar no que estava falando e ele riu da minha impulsividade. Haru me deixava nervosa ao redor dele e, se eu não prestasse atenção, acabaria falando o que não deveria.
— Eu não estou pedindo para casar comigo, é só um jantar. Eu não vou fazer nada com você.
“É só um jantar, . Vocês dois são adultos e ele não vai te forçar a nada.”
— Você prefere ir para casa do que ter uma noite agradável? — ele insistiu.
— Tudo bem — falei, convencida. — Um jantar. Depois eu vou para casa.
— Meu carro está por aqui.
Eu andei com ele até onde seu carro estava estacionado. Tentei reprimir a admiração quando ele me indicou seu carro. Era lindo e combinava perfeitamente com ele. Haru abriu a porta para mim e eu fingi que aquela gentileza não significava nada.
— Tem alguma recomendação de restaurante? — ele perguntou dentro do carro.
— Não conheço muito bem os restaurantes da cidade, porque me mudei há pouco tempo — admiti, porque era a verdade.
Geralmente, eu fazia um reconhecimento dos restaurantes mais visitados da cidade para saber o gosto das pessoas, mas minha vinda tinha sido tão urgente, que ainda não tinha conseguido tempo para colocar isso em prática.
— O Yuugen é a minha primeira recomendação, mas acho que você não gostaria de passar uma noite de folga no restaurante onde trabalha. Gosta de comida mexicana? — acenei com a cabeça. — Então será o Los Fuegos.
— Parece que você conhece bem os restaurantes daqui. Mora em Osaka há muito tempo? — quis saber, para não parecer que eu deixaria a conversa ser um monólogo.
— Nascido e criado em uma cidade próxima, mas me mudei para a prefeitura quando comecei a faculdade. Música? — ele ofereceu.
— Não precisa.
— Prefere ar-condicionado ou os vidros abertos?
— Está ótimo assim. — Dentro daquele carro maravilhoso que tinha cheiro de limpeza, qualquer coisa ficava bem.
Haru parecia uma pessoa organizada. Seu carro era extremamente limpo e eu sabia que ele não havia sido limpado apenas para o encontro porque havia alguns livros e seu jaleco jogado no banco de trás, além de algumas embalagens de chiclete no saquinho de lixo entre os bancos. Parecia ser do tipo que tinha pouco tempo livre e focava muito no trabalho, mas era sistemático. Eu não tinha um tipo, mas, se tivesse, aquele homem seria o meu tipo. Responsável, simpático, sorridente e bonito.
— Você disse que se mudou há pouco tempo — Haru interrompeu a minha inspeção. — De onde veio? Seu japonês é muito bom.
— Vim de vários lugares. Brasil, Inglaterra, Coréia... Meu trabalho me faz viajar pelo mundo, mas eu também fui criada aqui perto. Em Kadoma.
— Interessante. — Foi seu único comentário. Ficamos em silêncio até chegarmos ao restaurante. — A rua do restaurante está cheia. Vou precisar estacionar na rua de trás. Algum problema?
— Nenhum. O Japão e suas ruas pequenas…
Eu só conseguia pensar nos meus pés sendo massacrados pelos sapatos que estava calçando. Haru estacionou e me ajudou a descer do carro.
— Tudo bem com seus sapatos? — Ele não deixava passar nada.
— Minha melhor amiga me fez colocá-los e me prometeu que eu não iria andar muito, mas eles destruíram meus pés. — Haru segurou minha mão e colocou apoiada em seu braço, de maneira gentil, não intimidadora ou dominadora. Eu apreciei muito aquele gesto e me apoiei nele.
— Você pode se apoiar em mim.
— Obrigada.
Andamos em silêncio até o restaurante que ele havia recomendado. A caminhada foi menos dolorosa, podendo me apoiar nele. Tentei ignorar o fato dele parecer lindo vestindo uma calça social preta com uma camisa da mesma cor, que caía muito bem nele. Imaginei o quão bonito ele ficaria de gravata. Seu cabelo estava bem penteado novamente, não parecendo ter sido utilizado muito esforço, apenas um pouco de gel e os dedos entre os fios. Será que ele nunca ficava feio ou malvestido?
, espere um pouco — ele me parou antes de subirmos as escadas do restaurante.
— O que foi?
— Há algo que eu queria fazer desde que te vi pela primeira vez hoje.
Minha barriga embrulhou e minhas mãos começaram a suar.
— O quê? — gaguejei, quase dando um passo para trás, mas continuei firme no lugar. Sempre ouvi que precisava ser mais corajosa e experimentar as oportunidades que a vida me dava.
— Me desculpe — ele pediu e eu senti como se meu coração fosse saltar do meu peito e sair voando.
Minha mente dizia que eu precisava empurrá-lo e sair correndo, mas o que eu realmente queria era ficar e aproveitar o momento. Meus dedos do pé se enrolaram dentro do sapato e eu segurei em seu braço com mais força para não cair. Haru se abaixou e se aproximou de mim. Eu estava quase fechando os olhos e levantando o rosto, quando ele estendeu a mão e sacudiu uma mecha de cabelo minha.
— Tinha farinha no seu cabelo.

Capítulo Sete

“Deixe que a vida faça contigo o que a primavera faz com as flores.”
(Plabo Neruda)



Mesmo depois dos pedidos chegarem, eu ainda estava vermelha de vergonha. Eu achei que Haru iria me beijar. E a pior parte era que eu queria. Eu estava toda derretida, depois de ter me feito de difícil no início da noite. Eu era uma fraude total. Cada “não” que saía da minha boca era um “sim” quase óbvio.
— A comida daqui é ótima — comentei, tentando afastar minha mente dos pensamentos sobre o que havia acontecido.
— Não achei que você fosse do tipo que comia comida picante. A maioria das pessoas aqui não gostam.
— Eu morei no México por um tempo, tive que aprender a comer comida apimentada. Se formos seguir essa lógica, você também não deveria gostar. — Haru riu e bebeu um pouco de água. Assim como eu, ele não bebia nada com álcool.
— Morei com um aluno de intercâmbio mexicano por três anos — ele explicou. — Dos lugares que você visitou, qual o lugar mais gostou?
— Para mim, o que importa não é o lugar em que estou morando e sim o que estou cozinhando. E escolher um tipo de comida é como uma mãe escolher um filho favorito. Eu não consigo.
— Sempre quis ser chef?
— Sempre quis ser médico?
— É uma boa pergunta. Acho que simplesmente aconteceu. Acabei amando o que faço apenas depois de começar a fazer. Não parecia certo no início, mas depois eu acabei me identificando.
— Exatamente o que aconteceu comigo. Se eu acreditasse no destino, diria que foi ele que me colocou com as pessoas certas na hora certa para escolher essa carreira. Antes, nunca tinha passado pela minha cabeça.
— Por que não acredita em destino?
— Porque tudo o que acontecerá em nossas vidas depende exclusivamente das decisões que tomamos. O destino não tem nada a ver com isso. O futuro pode mudar de acordo com o que escolhemos.
— Então nossos encontros acidentais não foram destino? — Eu tentei não rir daquela pergunta, mas não conseguia evitar.
— Destino não existe — reforcei. — O nome disso é coincidência.
— Parecia que algo queria que nos encontrássemos.
— Bom, então aqui estamos. — Ele sorriu.
— Você está linda, por falar nisso. Não tive a chance de falar isso mais cedo. — Eu quase engasguei. Tive que beber um gole de água para conseguir me recompor.
— Você não deveria falar isso assim.
— Foi um momento ruim? — ele perguntou com sinceridade. — Sinto muito.
— Tudo bem, obrigada. Realmente achei que não daria tempo de chegar. Meu trabalho consome quase cem por cento do meu tempo. — Lembrei automaticamente do que havia dito. Homens não gostavam de mulheres que reclamavam da falta de tempo, mas eu não estava ali para impressioná-lo.
— Por isso o cabelo sujo de farinha?
— Por isso o cabelo sujo de farinha — concordei. — Eu estava fazendo udon.
— Eu estava fazendo uma clipagem de aneurisma.
Notei quantas vezes Haru conseguia me fazer rir. Ele tinha uma conversa tranquila e me fazia esquecer do que me preocupava. Eu esquecia que ele era mais novo do que eu porque era maduro e seguro em suas palavras. Não jogava conversa fora, ele tinha assuntos interessantes e parecia genuinamente interessado sobre o que eu falava. Seus olhos estavam sempre fixos no meu, segurando meu olhar enquanto eu falava, sem me deixar desconfortável.
— Já que conhece tanto de comida mexicana, o que recomenda para a sobremesa? — Eu olhei o cardápio e analisei as opções.
— Flan é simples, mas, se for bem feito, fica muito gostoso. Eles oferecem muitas opções de sabores: morango, chocolate, coco. Mas o tradicional, apenas de leite, é muito bom.
— Então vamos pedir o flan tradicional.
A garçonete perguntou se dividiríamos a sobremesa e Haru negou, o que eu achei muito legal da parte dele, não querer forçar uma proximidade, mesmo estando tecnicamente em um encontro.
— Você acertou em cheio — ele comentou, quando experimentou a primeira colherada do flan. — O flan é uma delícia. Eu amo doces.
— Essa foi a primeira sobremesa que aprendi a fazer.
— Que bom que eu posso experimentar algo da sua história.
— Vou te contar um segredo — eu me aproximei como se fosse falar algo super secreto e ele se aproximou também. — Na verdade, eu sou uma chef de sobremesas. Mas não conte isso no Yuugen porque senão meu chefe pode me demitir.
— Aposto que você deve ser tão boa cozinhando pratos principais quanto preparando sobremesas.
— Você precisa provar a minha sobremesa primeiro, depois falar isso. — Pareceu um convite, mas eu esperava que Haru não enxergasse daquele jeito.
No final do jantar, Haru me deixou apoiar em seu braço até o carro novamente, mostrando o quão perfeito cavalheiro ele era. Sua mãe ficaria orgulhosa, imaginei.
— Obrigada pelo jantar — agradeci. — Eu aproveitei muito a noite.
— Eu não fazia ideia que seria você essa noite — ele confessou. — Fui um pouco coagido a participar desse encontro. Na verdade, eu nunca fui em um encontro às cegas, mas estava fazendo um favor a um amigo.
— Coincidências demais, não é?
— Desculpa pela última vez. Não quis te deixar desconfortável aparecendo no seu local de trabalho daquele jeito e supondo aquelas coisas. Mas acho que, depois desse encontro, você não vai mais correr de mim. — Eu senti meu rosto ficar vermelho.
— Eu achei que esse jantar era um adeus amigável. — Haru semicerrou os olhos na minha direção.
— Eu não posso ser seu amigo?
— Eu acho que... Bem... — eu não tinha uma resposta para aquilo.
— Você é uma pessoa legal e cozinha bem.
— Você quer ser meu amigo por causa da minha comida? — provoquei, cruzando os braços e levantando uma sobrancelha.
— Não é só pela comida. Eu quero te conhecer melhor. Nós tivemos uma boa conversa hoje durante o jantar e você pareceu uma pessoa interessante.
— Haru, eu... — procurei algo para argumentar.
— Eu já sei, . Eu nunca faria nada que você não quisesse. — Aquele era o problema mais uma vez. — Você chegou há pouco tempo no Japão, não deve ter muitos amigos aqui.
— Eu não sou muito sociável. Não tenho muitos amigos no geral.
— Eu posso ser o seu primeiro amigo japonês.
— Por que tanto interesse?
— Eu já disse, você parece interessante. — Aquele comentário poderia ser interpretado de várias formas e a minha mente foi automaticamente para a forma romântica. — Você não precisa ter medo de mim.
— Não tenho medo. Sou precavida.
— Eu não vou quebrar o seu coração. — Não era aquilo que todos diziam no início?
— Você não sabe. Não pode dizer isso.
— Eu sou um amigo legal. Conheço Osaka como a palma da minha mão, posso ser seu guia.
— Tudo bem, mas eu sou bem chata — desisti de argumentar. — Você vai perder o interesse bem rápido.
— Duvido muito. – Haru parou em frente ao hotel que eu estava ficando. — Precisa de ajuda com os saltos?
— Não, vou ficar bem. Obrigada pela noite. — Eu abri a porta do carro, mas Haru me parou.
— Você pode me emprestar seu celular?
Eu passei meu celular para ele. Haru ligou para alguém e um celular tocou em seu bolso.
— Amigos precisam do número um do outro — justificou.
“Emily, não pense que isso é nada demais. Não pense além do que isso realmente significa. É apenas um número de celular. Não quer dizer nada.”
— Boa noite, Haru.
Eu podia sentir seus olhos me acompanhando até entrar no saguão do hotel e pegar o elevador. Meu celular tocou minutos depois que entrei no quarto.
— Como foi o encontro com o bonitão? — Era .
— Como você sabia que eu já tinha chegado?
— Porque o cavalheiro Haru ligou para o , pedindo que ele me avisasse que você já estava em casa e em segurança. E que havia aproveitado a noite. — Eu podia apostar que estava sorrindo muito satisfeita ao falar aquilo.
— Você vai me pagar, . Como você pôde fazer isso comigo?
— Não finja que não queria. Eu só vi a oportunidade e aproveitei. Não podia deixar a minha amiga perder uma chance tão grande.
— Você deveria ter me avisado que era ele. Eu deveria estar preparada.
— Por favor, eu sondei o Haru antes com o . O rapaz desenhou um muro de três metros com seu rosto só para te encontrar, porque te achou interessante. E ele nem é desenhista, é médico. Está mais do que óbvio que Haru está muito afim de você, por isso fiz esse encontro acontecer. Ele também não sabia de nada, espero que não o tenha culpado.
! Eu já disse que não vou ter nada com ele. O Haru é mais novo do que eu.
— Que papo do século IX, Emi. Isso não é mais empecilho para ninguém. Ele parece muito maduro para mim. Além de muito bonito. E solteiro, claro.
— Mas é um empecilho para mim.
— Eu tenho que voltar. Eu e o estamos tomando algumas bebidas e eu disse que precisava ir ao banheiro depois que o amigo dele ligou. Mas eu vou ligar amanhã querendo os detalhes do que aconteceu entre vocês dois. Não esqueça de me preparar um jantar maravilhoso como agradecimento.
— Não aconteceu nada — eu adiantei.
— Haru parecia animado na ligação.
— Tchau, . Chame um motorista de emergência ou pegue um táxi para voltar para casa.
— Pode deixar, mamãe.
Eu tentei muito não pensar em Haru naquela noite, mas era muito difícil não lembrar dele. Nunca havia conhecido alguém tão gentil como ele tinha mostrado ser. Havia ido a poucos encontros em toda minha vida, mas aquele havia sido o melhor, sem sombra de dúvidas. Tinha rido a noite toda, de um jeito que nunca tinha rido com um desconhecido. Eu sentia como se conhecesse Haru há muito tempo, me sentia estranhamente confortável ao lado dele. Não precisava fingir ser alguém que eu não era para impressioná-lo ou para não o deixar desconfortável.
Encarei o celular com seu número salvo. Será que ele ligaria? Ou mandaria mensagem? Qual era o próximo passo? Se eu fizesse alguma coisa, ele entenderia errado? Me senti frustrada. Eu era péssima fazendo amizades, mas sobre namoro eu conseguia ser pior ainda.
Tinha o total de zero experiência, não sabia quais sinais entender ou o que fazer para não mostrar interesse demais. Só sabia falar sobre culinárias e ficava sensível quando alguém tentava falar do meu passado. Gostava de algumas piadas ruins e assistia muito talk show. Eu era a pior pessoa para Haru se interessar.
Geralmente, os homens gostavam de . Entre nós duas, ela sempre havia sido a mais interessante. Ela era a mais bonita, a mais animada e ainda tinha um emprego incrível. Na faculdade, as garotas de gastronomia eram as entranhas e as de artes eram as mais legais. Os rapazes se aproximavam de mim com interesse nela. Quando moramos juntas, depois da formatura, ela começou a namorar alguns homens e até famosos, mas eu continuei sozinha, focando na minha carreira. Eu apenas era a amiga que tomava conta dela e ficava de vela nos encontros com amigos.
Desde que nós nos conhecemos, ela tentava me arrumar encontros com caras que “eram o meu tipo”, mas eu simplesmente nunca tive interesse em namoro. Nem antes e nem agora. Eu me sentia como se estivesse tentando convencer a mim mesma. Mesmo com quase trinta anos, algo que eu ainda não estava preparada para dar. Sempre disse a mim mesma que aguentaria os comentários de: “você já está velha, não vai casar?” ou “já está na idade de ter filho” ou “onde está o seu namorado?” ou até mesmo “você vai se tornar uma solteirona.” e “quando tiver interesse em casamento, já será tarde demais”. Não queria começar algo por causa daquele tipo de comentário. Não queria parecer estar cedendo às pressões de fora.

Haru: Você chegou bem?

O celular escorregou da minha mão e caiu no chão com o susto da mensagem. Eu o alcancei e me sentei na cama, mordendo a unha do polegar com a antecipação, quando vi que ele estava digitando de novo.

Haru: Você deve estar dormindo. Desculpe, boa noite.

Eu ri sozinha no meu quarto, olhando as mensagens. Eu não respondi para que aquela conversa não se estendesse por muito tempo e acabássemos conversando durante a noite toda. Coisas demais já haviam acontecido naquele dia e eu precisava de um tempo para me recuperar.
Só gostaria de saber se aquela sensação de coração acelerado representava algum perigo para mim.

Capítulo Oito

“Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável: se não experimentássemos algumas vezes o sabor das adversidades, a prosperidade não seria tão bem-vinda.”
(Anne Bradstreet)


— Como estamos essa noite? — Fred chegou à cozinha, perguntando.
Todos na cozinha estavam trabalhando bem e a paz que eu queria, finalmente havia encontrado. O silêncio na cozinha, a não ser pelo barulho das facas encontrando as tábuas, os fouet encontrando os bowls, os caldos levantando fervura e os pedidos chegando. Nada de gritos ou cacofonia.
— Estamos trabalhando a todo vapor — falei, não conseguindo esconder minha felicidade. — A casa está cheia, não?
— Os clientes estão amando suas recomendações.
— Estamos todos dando o nosso melhor na cozinha.
— Por favor, continuem. Não quero atrapalhar o trabalho.
Chef — uma hostess entrou na cozinha —, há um cliente VIP lá fora pedindo para falar com o chef.
Limpei as mãos no pano e a segui. — Ele parecia bravo? — perguntei, preocupada.
— Na verdade, ele parecia bem feliz e animado — suspirei, aliviada.
O cliente era Arata Yamazaki, um empresário famoso na cidade. Eu estava nervosa quando cheguei diante dele, como se nunca tivesse conhecido uma celebridade antes.
— Você conseguiu trazer as memórias da minha infância com esse prato. Minha mãe fazia esse udon para mim e é uma das minhas únicas lembranças dela que eu ainda tenho — ele elogiou. — O gosto é muito parecido e eu soube que foi você que colocou o prato no menu. Muito obrigada. Eu viajei por muitos lugares procurando um sabor como esse e só o encontrei aqui no Yuugen. — Eu o cumprimentei com uma reverência, feliz.
— Obrigada pelo elogio, mas toda a equipe foi responsável pelo prato. Esse é um agradecimento ao Yuugen, não a mim.
— Você é uma boa garota — ele sorriu para mim. — Frederick disse que trouxe você da França para trabalhar aqui.
— Fred é muito generoso com sua equipe — justifiquei.
— Eu vou voltar mais vezes. Faz muito tempo que não como uma refeição tão saborosa como essa — sorri, aliviada e orgulhosa.
— Nós estamos... — eu encontrei um par de olhos simpáticos me olhando por detrás do vidro do restaurante, do lado de fora, do outro lado da rua. — Eu preciso checar uma coisa. Com licença. Continue aproveitando a refeição. Qualquer coisa, pode me chamar.
Eu saí do restaurante às pressas e atravessei a rua para encontrar um Haru sorridente, com as mãos no bolso, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Suas bochechas estavam vermelhas, provavelmente porque estava frio naquela noite.
— Boa noite, — ele cumprimentou, como se não fosse nada.
— O que está fazendo aqui fora?
— Eu estava esperando você sair, mas ficou muito frio. Geralmente as noites de primavera não são frias, mas hoje…
— Você está esperando há muito tempo? — Haru olhou o relógio de pulso.
— Não muito. Meu plantão começa em duas horas, não quis voltar mais tarde.
— Por que não entrou e me esperou lá dentro?
— Não queria te incomodar como da última vez. — Pressionei os lábios juntos para não rir.
— Entre e coma alguma coisa enquanto espera — convidei. — Não fique aqui em pé no frio. Não quero que pegue um resfriado por causa de mim.
— Não vai parecer estranho?
— Parece mais estranho você aqui fora. Parece um stalker. — Haru sorriu ainda mais, com os olhos quase fechados.
— Às vezes, eu também acho que pareço estranho. Não tenho costume de fazer essas coisas, prometo. Estou totalmente sem prática nesse negócio de conhecer pessoas novas. — Ele me acompanhou para dentro.
— Vou fazer um pouco de tamem sem macarrão para te aquecer, depois de ter ficado tanto tempo do lado de fora esperando por mim.
Tamen sem macarrão é uma sopa de legumes. Nunca vi esse prato.
— Não é bom comer carboidrato tão tarde da noite — aconselhei. — Principalmente quando vai começar a trabalhar em breve. Logo alguém virá te servir. O restaurante fecha daqui a pouco, espere um pouco.
Eu voltei para a cozinha e preparei um tamen simples, sem macarrão, e pedi que servissem na mesa onde Haru estava sentado. Se alguém achou estranha a minha atitude de cozinhar para apenas uma pessoa no meio de uma noite tão agitada, não falou nada, mas o tempo todo minha mente me perguntava o que eu pretendia com aquilo.
Era só uma refeição, mas porque eu não o mandei embora dizendo que iria demorar demais? Por que não o afastei? Era estranho gostar de saber que ele havia ficado esperando por mim como se estivesse ansioso para me encontrar?
Quando o último cliente caiu e nós arrumamos a cozinha, eu esperei pacientemente que todos fossem embora para encontrar com Haru. Não por vergonha de me verem com ele, mas para conversar privadamente e à vontade com ele.
— Precisa de carona, chef? — alguém ofereceu.
— Não, obrigada. Vou ficar mais um pouco.
Eu me despedi de todos e saí para encontrar Haru tomando um café sozinho na mesa. Já tinha avisado que ele esperaria por mim, então os funcionários do salão deixaram que ele ficasse.
Aproveitei o momento para observá-lo. Sem o sorriso, ele parecia mais sério e maduro. Suas roupas eram sempre impecáveis e o cabelo estava penteado para baixo, com a franja quase chegando aos olhos esticados. A mão grande segurava a xícara com delicadeza e eu me perguntei como ele conseguia ser tão gentil. Era algo sobre ser médico ou algo sobre a personalidade dele?
Haru era maior do que a maioria dos japoneses que eu conhecia, mas não era desajeitado. Sua altura combinava bem e ele parecia totalmente ciente dos seus pontos fortes e como tirar proveito deles.
Ele me viu observando-o e acenou, com um sorriso largo, mostrando os charmosos dentes levemente tortos.
— Você me esperou até agora. Deve ter sido entediante.
— Não foi — ele respondeu, rápido. — A comida estava ótima. Nunca comi um tamen tão bom, mesmo sem a massa.
— Você deve evitar carboidratos durante a noite, mas acho que você merece uma recompensa por ter me esperado todo esse tempo.
— Que tipo de recompensa? — ele pareceu interessado.
— Quanto tempo falta até o seu plantão começar? — ele olhou para o relógio de pulso.
— Tenho pouco menos de uma hora.
— É tempo suficiente. Venha comigo.
Eu o agarrei pelo braço e o levei até a cozinha.
— Esse é o meu esconderijo secreto. — Vesti um avental e coloquei minha touca. — Você já comeu tiramisù?
— Uma vez há muito tempo, mas não lembro muito bem o sabor. — Eu separei os ingredientes em cima da mesa enquanto ele respondia.
— Se você esquecer o sabor da sobremesa, então ela não foi memorável para você.
— Essa eu não vou esquecer. — A maneira que ele falou me deixou um pouco desorientada. — Como eu posso ajudar?
— Você pode... — eu procurei um lugar para ele e o empurrei para se apoiar no balcão de cortes, atrás dele. — Você pode ficar aqui e esperar. Cuidado com as facas. — Ele se apoiou e cruzou os braços, me observando. — Toda sobremesa tem uma história, eu aprendi isso na minha última viagem antes daqui.
— Qual a história do tiramisù?
— Tem certeza que quer ouvir? Não vai ser minha culpa se você pegar no sono. — Ele deu de ombros e eu comecei a misturar os ingredientes. — Não garanto que seja verdade, mas conta-se que, na segunda guerra mundial, um soldado italiano se preparava para ir à batalha, mas não tinha muita comida em casa. Sua esposa, preocupada que ele ficasse com fome durante a viagem, misturou tudo o que tinha em casa que era comestível como ovos, queijo, biscoito, pó de café e rum. Com isso, ela preparou uma sobremesa para, caso ele ficasse com fome, tivesse o que comer durante a viagem. Mas o tiramisù não era só uma sobremesa feita para um soldado, representava os anseios de uma esposa. Para ele, significava que, mesmo estando longe, havia alguém esperando para que ele voltasse. Tiramisù significa “leve-me”, mas também significa “fique comigo.”
Ele me observou em silêncio terminar a sobremesa em uma porção pequena e servi-la em um prato único para ele. Assim que finalizei, eu o chamei para experimentar, entregando uma colher.
— Acho que não mereço algo tão lindo — ele elogiou.
— Sobremesas servem para serem apreciadas.
Ele tirou um pedaço e comeu. Cada mordida era como um beijo. Eu me senti estranhamente prazerosa vendo-o comer o tiramisù que eu havia acabado de preparar.
— Como está? — perguntei, mesmo sabendo como estava o sabor.
— Divino. Eu não sei elogiar a comida que você faz. Tudo é muito bom, eu nunca mais vou esquecer o sabor dessa sobremesa.
— Fico feliz que você tenha gostado.
— A história... — ele quis saber.
— Sim? — perguntei, com rosto repentinamente quente.
— Ele voltou para ela? — Dei de ombros.
— Não sei, mas eu espero que sim.
Haru terminou de comer em silêncio e eu sentia a tensão entre nós aumentando. Parecia que havia algo no ar prestes a acontecer e aquilo me deixava nervosa. Eu limpei a cozinha sem levantar os olhos para ele.
— Eu te deixo em casa — ele ofereceu.
— Você vai se atrasar para o trabalho — tentei argumentar.
— Tudo bem. Eu não vou deixá-la ir para casa sozinha depois de ter mantido você aqui até esse horário cozinhando para mim.
— Eu fiquei porque quis, não se sinta obrigado.
— Eu não quero me despedir de você ainda — ele confessou. — Tenho tempo suficiente para deixá-la no hotel.
Se eu já estava vermelha, meu rosto alcançou outros níveis depois da resposta dele. Me senti tímida, como uma adolescente namorando pela primeira vez. Aquilo não era nada bom.
Eu fechei o restaurante e ele foi buscar o carro. Haru desceu e abriu a porta para mim antes que eu fizesse.
— Obrigada.
O caminho foi ainda cheio de tensão. Nós dois tínhamos coisas para falar, mas ninguém tinha coragem de dizer nada. Agradeci por poder fingir estar muito concentrada em algo do lado de fora da janela.
, eu... — não o deixei continuar. Assim que ele estacionou, eu abri a porta e desci.
— Você não pode se atrasar. Boa noite e bom trabalho. Depois nos falamos.
Eu fechei a porta e corri como uma covarde. Eu não estava pronta para aquilo ainda. Tinha medo de perder o controle depois de ouvi-lo declarar os sentimentos. Só havia uma pessoa para me ajudar.
— Sua amiga ingrata! — ela me xingou assim que atendeu ao telefone. — Você sabe o quanto me deixou preocupada?
... — tentei, mas ela não me deixou falar.
— Estou te ligando desde cedo e você está me ignorando. Eu achei que algo havia acontecido com você. Você reclama de que eu ajo como uma mãe, mas você age como uma filha rebelde.
— Desculpe, eu estava no trabalho.
— Essa desculpa não serve mais para mim. O trabalho não é mais importante do que os amigos. Você só precisa digitar uma mensagem dizendo que está bem, . Não é como se você não tivesse nenhum intervalo.
, preciso te contar algo — eu a cortei, começando a me sentir enjoada em declarar aquilo em voz alta.
— O que é?
— Acho que estou gostando de alguém. — Ela pareceu derrubar o celular.
— Espera. O quê?
— É muito estranho porque eu o conheci há menos de duas semanas e ele é mais novo do que eu, mas eu nunca me senti assim antes e eu não sei o que fazer. Eu fico esperando a ligação dele e quero cozinhar para ele. Eu... O que eu vou fazer?
soltou uma sonora gargalhada do outro lado da linha e eu fiquei com raiva da minha melhor amiga.
— Você está admitindo isso muito facilmente. Achei que demoraria mais para descobrir o que estava sentindo. Não há mais nada que você possa fazer, querida.
! — reclamei.
— Eu estou falando sério. Já é tarde demais para você. agora é uma paciente terminal da doença do amor.
— Eu deveria me manter longe dele para pensar melhor. Colocar os sentimentos em ordem.
— Não vai adiantar muito porque ele vai até você, não importa onde esteja. O garoto é perseverante. Além do mais, não o ver pessoalmente vai fazer você desejar estar com ele ainda mais.
— A pior parte é que eu quero que ele venha.
— Então deixe-o vir. Ficar apaixonada é maravilhoso, . Deveria experimentar isso pelo menos uma vez na sua vida.
— Eu não quero ter uma aventura. Não quero simplesmente experimentar para ser se vai dar certo. Eu não sou assim.
— E eu te admiro por isso, mas você precisa perguntar o que ele quer e se o plano dele encaixa com o seu. — sempre tinha razão.
— Eu estou com medo. E se ele não quiser o mesmo que eu?
— Então você vai conseguir convencer a si mesma de que não é o certo, mas não o afaste. Até um cego pode ver que ele gosta de você. — Eu choraminguei.
— Eu não estou pronta para isso.
— O Haru vai saber o seu ritmo. Ele não me parece o tipo de cara que vai correr com as coisas. me disse que Haru nunca esteve em um relacionamento antes. Vai ser uma descoberta para ambos.
— Não quero quebrar o meu coração. — Era uma via de mão dupla. Um relacionamento era perigoso para os dois lados.
— Ninguém quer, . Ninguém nunca quer.

Capítulo Nove

“Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim como florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!”
(Florbela Espanca)


“Você quer sair comigo?”
Três minutos de tortura e pensamentos conflitante despois, consegui responder à mensagem com um simples: quero. Mesmo querendo responder com “esperei essa pergunta por toda semana” ou “eu adoraria sair com você.”
Eu sairia em um encontro com Haru. Não que já não tivéssemos saído juntos antes, mas, naquele dia, não só ele havia dado um passo em minha direção, mas eu também estava indo na direção dele.
Todos da minha cozinha haviam ganhado o dia de folga e eu estava gastando o meu com Haru. Ele foi me buscar ainda de manhã, no hotel.
A primeira coisa que percebi quando entrei no carro foi que o jaleco e os livros haviam sumido. O lixo estava vazio. Ele havia se esforçado para limpar o carro ainda mais e deixá-lo apresentável para mim. Senti algo se contorcendo na minha barriga e comprimi os lábios juntos para não sorrir. O fato que ele havia limpado o carro para me impressionar, mas não para impressionar qualquer outra mulher desconhecida em um encontro às cegas me deixou feliz.
— Aonde vamos? — perguntei assim que coloquei o cinto.
— Vou honrar minha posição como guia e te levar para conhecer Osaka.
— Sério? Então vesti a roupa certa.
Claro que eu não iria falar que só sabia vestir jeans e tênis longe dos olhos da minha melhor amiga. Mas eu havia me esforçado naquela manhã, penteando o cabelo solto e usando um pouco de maquiagem para ficar mais bonita.
— O que você conhece de Osaka até agora? — Fingi pensar um pouco, mas a resposta era rápida e direta.
— O restaurante mexicano da outra noite e o Yuugen.
— Então hoje eu vou levá-la para conhecer os lugares mais bonitos da prefeitura de Osaka que vai fazer com que você ame a cidade como eu.
O carro ia avançando pela parte mais tradicional e eu ia admirando as construções antigas e as lindas cerejeiras. Abril é o mês mais bonito no Japão. Eu amava as paisagens tradicionais, com as lanternas penduradas na rua, os tetos curvados e a escrita antiga em tábuas na frente das construções antigas. Senti que poderia acordar todos os dias com aquela paisagem e não desejaria estar em mais nenhum outro lugar.
Desde muito nova sempre amei o Japão. No meu primeiro ano morando longe de onde eu nasci, tudo era diferente e fascinante. Achava as pessoas muito educadas, a comida muito diferente, a língua maravilhosa e admirava todos os dias a paisagem pela janela do meu quarto. Eu amava sair de casa e passear para conhecer mais daquele país. Mesmo me mudando para vários outros lugares, aquelas imagens sempre ficaram guardadas no fundo da minha memória e eu fiquei grata por vê-las novamente.
— Para onde vamos primeiro? — quis saber.
— Para o Parque do Castelo de Osaka. — Me virei instantaneamente para ele. Aquele lugar era famoso por sua beleza e a conservação da majestosa construção. — Não vou fingir que não pesquisei no google os melhores lugares para te levar hoje. Conheço muita coisa boa na cidade, mas principalmente restaurantes e hoje queria te mostrar os lugares mais bonitos.
— Eu realmente não me importo com que tipo de ajuda você obteve.
O castelo era impressionante e as cerejeiras decoravam o exterior do lugar. Imaginei como os antigos moradores se sentiam ali. Eu tirei foto de tudo que conseguia. A riqueza dos detalhes do estilo oriental por fora e por dentro. Enquanto nos misturamos com os outros turistas, os guias nos explicavam sobre as histórias das guerras e dos samurais que marcaram o país.
Vários turistas passeavam e moradores locais com suas crianças aproveitavam o dia de sol. Haru comprou algumas comidas de rua para que eu pudesse experimentar e conhecer.
— Algum problema com comida de rua? — ele perguntou, antes de oferecer que parássemos em uma barraca próxima.
— Na verdade, eu sou um pouco fã de comida de rua, principalmente aqui em Osaka, a cozinha do Japão.
— Eu não posso alimentar com qualquer comida a ex-chef executiva do Hotel Fuentes. — Eu levantei uma sobrancelha para ele.
— Fez sua pesquisa, não foi?
— Você não me disse que era tão famosa. — Provavelmente eu corei com o elogio.
— Eu não sou tão famosa assim, só sou muito conhecida na Europa.
— Você tinha um programa na TV. E escrevia para uma coluna em uma revista famosa. Acho que vi seu rosto estampado em cem edições.
— Levemente famosa. Mas meu gosto para comida é muito simples. — Haru segurou minha mão e espalhou um pouco de maionese e um punhado de folhas secas em cima do que eu comia. — O que é isso?
Nori. É um acompanhamento feito com algumas algas marinhas. Você vai gostar. Deixa o okonomiyaki mais gostoso.
— Sou fácil de agradar.
— Vou guardar essa informação, vai ser útil para mim no futuro.
Terminei de comer o okonomiyaki em silêncio. Haru era direto em suas respostas e muito sincero. Me deixava sem palavras constantemente, mas eu apreciava muito. Era uma grande revelação sobre a sua personalidade. Seu flerte também era algo natural. Ele não dava em cima de mim abertamente, de maneira grotesca e dominadora. Ele era sutil, abrindo o caminho devagar, o que o fazia ser ainda mais perigoso para mim. Me fazia gostar e querer mais.
— Vamos visitar o templo de Sumiyoshi Taisha Shrine. Ele é pequeno em comparação aos exuberantes que temos no país, mas perto dele há uma ponte muito charmosa onde conseguimos tirar muitas fotos e alimentar os peixes.
— Você estudou isso? — perguntei, tentando esconder o riso, já que ele tentou falar da maneira mais natural possível.
— Um pouco — admitiu.
Haru ficou envergonhado, mas eu gostei de saber que ele havia estudado para responder às minhas perguntas e me dar uma boa experiência.
No templo, nós fizemos as reverências respeitosas e ele tirou fotos minhas na ponte. Preferi não fazer nenhum pedido nas reverências, mas fechei os olhos de maneira respeitosa e me inclinei.
Visitamos o Osaka Museum of Housing And Living — eu quase aluguei um kimono vermelho cheio de flores bordadas, com um cinto preto igualmente decorado para me sentir como uma japonesa de verdade, que me garantiria uma peruca com tranças e uma maquiagem temática, mas Haruto foi firme para negar o meu pedido de vestir um igual a mim, então me contentei com fotos de outras pessoas — e o parque Kema Sakuranomiya. O Kema Sakuranomiya era o lugar ideal para passear de mãos dadas em um dia de primavera como aquele, mas sabia que, se Haru tentasse aquilo, eu iria me afastar. O parque era cheio de flores de cerejeiras — honrando seu nome.
— Você quer um passeio de barco? — Haru convidou, quando um barco cheio de pessoas tirando fotos e casais passou por nós através do rio Okawa onde o Kema Sakuranomiya se estendia.
— Eu não consigo ficar bem dentro de barcos. Se você não quiser me ver perder todo o glamour e vomitar nos pés de todo mundo, é melhor ficarmos em terra firme. — Ele riu do meu comentário e nós continuamos caminhando juntos, lado a lado, pelo parque.
Estava quase anoitecendo quando chegamos à última parada do dia. Provavelmente eu estava suada, um pouco despenteada e não tão maquiada quanto naquela manhã, mas perto de Haru eu acabava esquecendo de querer parecer perfeita e apenas aproveitar o momento, estando confortável e sendo eu mesma. Ele era paciente em sussurrar perto do meu ouvido quando eu dizia algo de maneira informal por engano ou usava algum gesto que não deveria. Sempre perguntava se eu estava bem, se queria parar para descansar ou se estava com fome.
— Esse é o Umeda Sky Building — Haru apontou para o majestoso prédio na nossa frente.
Uau — eu exclamei quando olhei para a arquitetura do chão. O Umeda Sky Building tinha duas torres ligadas por uma passagem aberta impressionante. Senti um frisson na barriga imaginando subir até lá. — Eu já tinha visto na TV, mas nunca imaginei que fosse tão lindo. É como os arranha-céus de Nova York, mas é... impressionante.
— Nunca visitei esse lugar também. Será a minha primeira vez.
— Vamos subir.
Eu segurei seu braço e corri para o prédio. Lá de cima, tínhamos uma visão de 360° da linda cidade de Osaka com o sol se pondo. A vista era digna de toda a fama que o lugar tinha.
— Quer que eu tire uma foto sua? — Haru ofereceu.
— Por que não tira uma foto comigo?
Ele pareceu surpreso com o pedido, mas segurou o celular e veio para o meu lado. Eu sorri para a câmera frontal e Haru se aproximou ainda mais para se encaixar no ângulo. Seu rosto estava logo ao lado do meu para se encaixar na câmera e eu sorri ainda mais, fazendo um sinal de V com os dedos.
— Você não tirou muitas fotos hoje — comentei, enquanto olhava para as fotos que havíamos tirado juntos na galeria do celular. Haru parecia desajeitado na maioria, mas lindo em todas. Uma em particular, onde ele olhava para mim enquanto eu sorria quase me fez mudar o plano de fundo do meu celular. — Por que não fica ali e eu tiro algumas fotos sua?
— Eu não... — eu o empurrei para se posicionar contra o sol, fazendo um lindo cenário e me afastei. — Não sei o que fazer.
— Só sorria. — Ele deu um sorriso encabulado, mas que não deixava de ser charmoso.
— O que eu faço com os braços? — Eu tirei uma foto.
— Você pode se apoiar no parapeito. De maneira natural. Só com o cotovelo.
— Vou parecer estranho. — Eu tirei outra foto, enquanto ele tentava se ajeitar, mudando de posição a cada segundo.
— Então coloque a mão na cintura.
Ele me olhou como se dissesse: “está me brincando comigo?” e eu ri, tirando várias fotos enquanto ele estava distraído, mesmo que pegasse apenas seu movimento. Ele não precisava de uma pose específica, ficava bem de qualquer maneira.
— Foi o suficiente? — Eu fiz sinal de positivo com o polegar e me juntei a ele no parapeito. — Você gostou da cidade?
— Foi um dos melhores lugares que já conheci. Todas as construções antigas e a cultura tradicional tão vívida em todos os lugares... E as cerejeiras desabrochando.... — suspirei de felicidade. — Nunca poderia ter encontrado algo assim em nenhum lugar que visitei. A primavera é incrível.
— Obrigado.
Eu fiquei com o rosto vermelho por causa do trocadilho com o nome dele.
— Eu também gosto da primavera. Traz boas energias, parece que tudo fica mais feliz. — Fiquei imaginando se a mãe dele gostava daquela estação e por isso escolheu aquele nome para ele.
— Eu gosto de fazer pratos com flores da estação — admiti, me sentindo inspirada pelo cenário e pela conversa.
— Você cozinha com flores? — Acenei.
— Eu aprendi a fazer um prato maravilhoso com flores fritas em massa de farinha de trigo, ovos e queijo.
— Acho que nunca ouvi falar sobre algo assim.
— O que eu mais gosto na culinária é o poder de ser livre com o que crio. Poder ser criativa e inventar coisas surpreendentes com a vista e com o sabor.
— Posso contar um segredo? — Eu acenei, animada por saber algo sobre ele. — Eu queria ser um artista na minha infância. Olhar os lugares que visitamos hoje, me faz querer pintá-los.
— Você pinta muito bem — lembrei do meu rosto de três metros no muro que ele havia desenhado para me encontrar.
— Eu sonhava em ser um pintor durante a infância, mas, depois de alguns acontecimentos, eu pensei mais sobre como ajudaria outras pessoas sendo simplesmente um artista. Achei que ser um médico que salva vidas me faria dormir melhor à noite. Era uma criança, não sabia que artistas também conseguiam mudar vidas, mas acabei seguindo e nunca poderia voltar atrás.
— Então você mudou seu sonho por causa de outras pessoas?
— Mudei, principalmente por causa da minha família. Queria ajudá-los de alguma forma.
Haru falava da sua família com um pouco de nostalgia no olhar e isso me fez perceber o quanto ele sentia falta deles. Não conhecia nada sobre sua família. Se ele tinha irmãos, se foi criado em um lar harmonioso ou desestruturado como o meu, mas o amor por aqueles que ele chamava de “família” estava evidente em cada uma das suas palavras.
— Parece que você não se arrependeu dessa decisão.
— Não há nada que eu me arrependa. Cada decisão que tomo é definitiva.
— Você parece muito maduro para a sua idade.
— Você fala como se eu tivesse dezenove anos. Nossa diferença de idade não é tão grande. — Eu percebi que ele se virou para mim, mas eu continuei encarando o horizonte.
— Eu estou perto dos trinta — lembrei.
— Você age como se tivesse quarenta.
— Você não é a primeira pessoa que diz isso. costuma me chamar de caranguejo-eremita na faculdade por meus hábitos antissociais e antiquados. — Haru riu do apelido.
— É um bom nome. Combina com você.
Nós continuamos observando a cidade, com o dia se transformando em noite, cada um com seus próprios pensamentos. Com Haru, não precisávamos preencher todos os espaços entre nós com palavras. Muitas vezes, no carro, ficávamos em silêncio porque não tínhamos a necessidade de estar sempre falando. Eu me sentia confortável com ele sem dizer nada e parecia que ele também se sentia da mesma forma comigo. Aquilo dizia muito sobre que tipo de relacionamento tínhamos um com o outro. É raro conseguirmos encontrar pessoas com quem possamos trocar muito mais do que palavras e, se encontrássemos, não deveríamos deixá-los escapar facilmente.
— Você está muito cansada? — Neguei com a cabeça. — Podemos ir ao cinema antes de te levar para casa. Não sei quando terei outra oportunidade de te levar para sair como hoje. Não sei como vencer o seu trabalho nessa disputa.
— Faz muito tempo que não vou ao cinema.
— Eu achei que não era muito sociável, mas você consegue ganhar de mim em disparada, caranguejo-eremita. — Eu o fuzilei com o olhar por causa do apelido.
— Não temos um filme para ver? — Eu o deixei sozinho no topo do Umeda Sky Building e corri para o elevador.
— Para um caranguejo, você anda muito rápido. — Ele me alcançou rapidamente com suas pernas longas.
No carro, nós conversamos sobre o clima, comida, música e sobre nada. Com Haru, a conversa fluía naturalmente.
— Que tipo de filme você gosta? — ele perguntou, quando chegamos ao cinema.
— Assisto a qualquer tipo de filme, mas me sinto enjoada com filmes em 3D.
— Isso nos deixa com poucas opções.
Tivemos que escolher uma comédia romântica porque era o único filme não 3D. Eu paguei a pipoca e os refrigerantes antes que Haru chegasse com os ingressos porque, durante todo o dia, ele havia feito questão de pagar por tudo com a desculpa de que ele havia me convidado.
A sala estava quase vazia, com poucas pessoas sentadas em casal, dividindo uma pipoca e fazendo carinho um no outro. Me senti envergonhada, mas Haru não pareceu notar nada.
— Pipoca? — ofereci.
— Você deveria ter me esperado chegar para comprar a pipoca.
— Você pagou por tudo hoje. Pelo menos a pipoca eu precisava comprar.
— No próximo encontro, eu deixo você pagar.
Aquilo deixava evidente que teríamos outros encontros e eu gostei muito daquele plano.
O filme começou e eu ignorei o clima romântico no ar. Fingir estar prestando atenção no filme e não no tempo que eu levava para pegar pipoca sem encostar na mão de Haru.
Na primeira cena de beijo na tela, eu fiquei congelada na cadeira, sem olhar para a pessoa ao meu lado. Nós dois colocamos a mão no saco de pipoca ao mesmo tempo, fazendo nossos dedos se tocarem como se estivéssemos dentro do filme. Eu tirei a mão rapidamente, como se tivesse levado um choque e me ajeitei desconfortavelmente na cadeira. Eu parecia uma adolescente saindo em um encontro pela primeira vez.
“Tudo bem, Emily. Não precisa surtar. Vocês já tocaram um no outro antes.”
Senti Haru se aproximando um pouco até nossos ombros se tocarem. Eu fiquei tensa no meu assento até os créditos subirem, como se qualquer movimento que eu fizesse fosse letal. Em resumo, eu passei quase duas horas de filme pensando no que faria se Haru me beijasse.
— Você não precisa ficar tensa ao meu redor — ele soltou quando saímos da sala.
— O quê? — Haru falava simplesmente tudo o que pensava, sem filtro.
— Eu não quero deixá-la desconfortável.
— Eu não estou... — ele pegou uma das minhas mãos e eu puxei de volta automaticamente, assustada. — O que você está fazendo?
— Você está desconfortável com isso?
Ele segurou novamente minha mão e eu o deixei porque seria estranho se eu o rejeitasse novamente. Era minha primeira vez segurando a mão de um homem tão intimamente, mas aquele dia havia tido muitas “primeiras vezes” para mim, então eu tentei somente relaxar.
— Não estou — ele entrelaçou nossos dedos e meu coração pulou uma batida. Me controlei para não puxar de volta novamente.
— E com isso? — Neguei com a cabeça. — Vou te levar para casa, então.
Nós andamos até o estacionamento com as mãos dadas. Haru parecia como se fizéssemos aquilo o tempo todo, enquanto eu ainda estava tentando não surtar com o pequeno gesto.
Será que todo mundo conseguia ver meus olhos arregalados e os meus lábios tensos? Será que conseguiriam perceber minha outra mão segurando a alça bolsa atravessada rigidamente? Até meus passos estavam nervosos com a expectativa do que iria acontecer.
Nas minhas antigas experiências com encontros, nada daquilo havia acontecido. Da última vez que saí em um encontro com um pretendente amoroso, há três anos, fomos jantar em um restaurante horrível e eu perdi duas horas da minha vida ouvindo uma lista de experiências profissionais e conquistas acadêmicas, como se eu fosse uma agente de empregos, além de piadas grosseiras sobre a minha profissão. Aquela noite acabou comigo fugindo do restaurante antes da sobremesa chegar e bloqueando seu número no táxi mesmo.
No estacionamento, Haru abriu a porta do carro para mim, soltando nossas mãos. Não tive tempo para lamentar a falta do calor de sua mão na minha, porque, assim que entramos no carro, ele fez questão de segurar minha mão novamente no espaço da marcha, com nossos dedos entrelaçados.
Eu passei todo o caminho observando nossas mãos juntas. A dele, grande, com as unhas cuidadas e a minha pequena, com as unhas curtas e calos nas palmas, como eu achei que seria na primeira vez que vi suas mãos no hospital. Gostei de como ele me segurava e quis que aquele momento pudesse congelar ali mesmo para que eu conseguisse aproveitar aquela sensação por mais tempo.
O carro parou e nós continuávamos de mãos dadas, sem nos mover, como se nenhum de nós tivesse a pretensão de sair dali.
— Parece que mesmo passando o dia com você, ainda não é o suficiente.
— Você não deveria falar tudo o que vem na sua mente — eu falei de novo.
— Às vezes eu não consigo evitar.
— Eu vou... Preciso ir embora agora.
— Tudo bem. — Eu soltei a mão dele e desci do carro. — Boa noite.
! — Eu me virei para ver Haru saindo do carro e correndo na minha direção.
— O que foi? Eu esqueci alguma coisa?
Ele me puxou pelo braço e me abraçou apertado. Sem pensar em nada, eu devolvi o abraço com carinho, quase me afogando em seus braços. Eu o senti beijando minha cabeça e o abracei ainda mais forte, entrelaçando as mãos em suas costas.
Ele tinha cheiro de perfume e loção pós barba. Seu abraço era quente e confortável, ainda melhor do que sua mão segurando a minha. Era quase tão íntimo quanto um beijo, mas eu não fiquei com medo e nem tentada a me afastar. Ao contrário, eu queria abraçá-lo cada vez mais.
Aquele abraço parecia ser capaz de curar tudo e eu poderia ficar ali para sempre.
Após nos despedirmos de verdade, um pensamento cruzou minha mente de repente: ainda bem que tinha lavado meu cabelo naquela manhã.

Capítulo Dez

“Sem ninguém querer... Sorria, a Primavera chegou! Flores ao vento, na cortina da janela, cores da primavera.”
(M. Kiffer)



— Gostou das fotos que eu enviei?
— Você conheceu o Museum of Housing and Living. Lembra de quando você era mais nova, eu prometi que te levaria para conhecer? — Meu tio parecia tão animado quanto eu do outro lado da linha. — Você ficava vendo os turistas na televisão vestindo kimono e insistia para que eu deixasse você usar de novo.
Acenei, mesmo sabendo que ele não podia me ver.
— Você conseguiu realizar o sonho sem mim. Por que não experimentou um kimono? Ou até mesmo um yukata? Ficaria linda.
— Fiquei um pouco envergonhada de usar em público. — “Sem um parceiro”, não completei.
— Conheceu pessoas legais até agora? Fez amigos?
— Tio, não estou em uma escola nova. Não é como se eu nunca tivesse viajado para morar em um país diferente. Passei um tempo fora, mas conheço muito bem o Japão.
— Eu nunca deixaria de me preocupar como se você tivesse cinco anos e indo para a escola nova. — Sorri para mim mesma. — Sua mãe descobriu que você está em Osaka.
— Você contou a ela?
— Não, mas ela acompanha a sua vida. Ela sempre sabe onde você está, principalmente no mesmo país que ela. Ela me ligou e eu só confirmei, não fique chateada.
— Eu realmente não quero falar sobre ela, tio. — Minha expressão feliz foi desfeita ao ouvir sobre aquele assunto.
— Ela sente muito a sua falta, Emi. Não deixei que o passado influencie seu olhar sobre ela. Ela continua sendo sua mãe e continua amando você.
— Meu olhar nunca foi diferente para ela. A vida toda eu só a enxerguei de um jeito e isso vai continuar sendo assim para sempre. Eu não vou mudar, tio.
— Você não me desprezou pelos meus erros do passado.
— Ela nunca se arrependeu do que fez. Sangue inocente ainda está nas mãos dela, tio. E eu simplesmente não posso falar nada. Você não odeia essa situação? Não foi disso que fugimos há tanto tempo?
— Sua mãe é uma mulher incrível, . E você nunca a deu chance de se explicar. Mesmo depois de tantos anos, você não a deu o benefício da dúvida. Não é um pouco injusto?
— Você acha que existe uma explicação para o que aconteceu? Para o que ela fez?
— Treze anos é tempo demais para deixá-la fora de sua vida. Não desperdice mais tempo nenhum, talvez seja tarde demais.
— Podemos mudar de assunto? Como você está? O trabalho vai bem?
Ele suspirou e começou a me atualizar sobre seu trabalho, entendendo que aquele assunto estava encerrado. Não adiantava insistir, eu sempre iria mudar de assunto ou desligar a ligação, dando a desculpa que tinha algo para fazer, mesmo sendo uma mentira, se ele começasse a falar sobre minha mãe.
— Nora me pediu para cuidar do cachorro dela enquanto ela passa três meses na Argentina visitando a filha.
— Você ama aquele cachorro.
— Preciso pedir permissão para ele ficar no apartamento.
— O Toby é um cachorro tranquilo, você não vai ter trabalho nenhum.
Eu falei sobre o trabalho e sobre o meu dia-a-dia. Falei que estava sentindo falta dele e pedi para que não esquecesse de tomar os remédios. Desliguei a ligação com a promessa que continuaria enviando fotos.
Não falamos mais sobre minha mãe. Ele sabia que eu nunca gostava de falar sobre ela. Há treze anos, quando saímos do Japão, ele me mantinha conversando com ela, mas, depois de fazer dezoito anos, eu aprendi a dizer não e escolhi não entrar mais em contato com ela e recusar todas as suas mensagens. Decidi apagá-la da minha vida e começar a dar a desculpa de que não tinha mãe quando alguém perguntava.
Por conta da vida ocupada na política, ela não podia viajar, então nos afastamos ainda mais. Tinha dias que eu sentia muito sua falta, mas, em outros, eu queria esquecer que ela existia e do peso que ela havia colocado sobre as minhas costas que eu iria levar para o resto da minha vida.
Meu celular apitou com a chegada de uma mensagem logo após ter encerrado a ligação com meu tio. O remetente me fez sorrir e esquecer totalmente sobre a minha mãe.
Haru: Você poderia fazer um grande favor para mim hoje?
: Do que você precisa?
Haru: Preciso que você me acompanhe em um jantar.
Assim que a mensagem chegou, o telefone tocou. Eu atendi quase automaticamente.
— Os médicos do meu departamento farão um jantar hoje à noite. Eu preciso que você me acompanhe — ele explicou.
— Eu? Por quê?
— Quem mais eu levaria? Todas as pessoas que eu conheço já estarão lá. Lembra que eu não tenho muitos amigos?
Não estava preparada para conhecer os amigos de Haru. Todos jovens como ele, me sentiria completamente deslocada. Além de que, estaríamos elevando nosso relacionamento para outro nível.
— Eu vou trabalhar hoje — usei a minha desculpa mais usual que geralmente não falhava.
— Você tem uma folga por semana. Faz muito tempo que eu não a vejo, caranguejo-eremita.
— Nos vimos na quinta — protestei, tentando não deixar transparecer que também queria vê-lo de novo.
levará . Não me deixe na mão. — Eu tinha amigos realmente chatos, sempre querendo me fazer sair do casulo. — Você pode ir depois do trabalho.
— E aparecer com o cabelo sujo de farinha, correndo o risco de te envergonhar?
— Você fica realmente charmosa com o cabelo sujo de farinha. — Revirei os olhos para aquele comentário.
— Não queira me comprar com elogios.
— Eu posso te buscar — ele ofereceu.
— Me envie o endereço e eu vou aparecer quando puder sair do trabalho.
— Eu te espero no Yuugen.
— Não quero que você se atrase por minha causa. Eu vou chegar apenas um pouco depois do horário, não se preocupe. Não vou te deixar na mão, prometo.
— Obrigado, . Você gosta de comida tailandesa?
— Você sabe que eu gosto de qualquer tipo de comida.
Depois da ligação, eu enviei uma mensagem para e ela me confirmou que iria com , mas ele iria buscá-la, então ela não poderia passar no restaurante para me buscar quando eu estivesse disponível.
Diferente da última vez, eu me programei para sair no horário certo e estar devidamente limpa. Kento era meu sous chef e conseguia lidar muito bem com as coisas na minha ausência. Mesmo ainda resmungando pelas minhas costas.
— Estou gostando de ver você se divertindo assim — Fred comentou quando pedi folga naquela noite. — Você costumava chegar tão cedo para treinar e preparar as coisas que fiquei preocupado do trabalho te consumir. Eu trouxe você para o Japão, não só para trabalhar, mas para aproveitar também.
— Você sabe que eu amo trabalhar aqui. — Voltei para a cozinha. — Coloque mais força nos braços, Tanaka. Se você só usar força no começo, o macarrão não vai sair uniforme.
— Obrigada, chef.
— Hirai-kun, as enguias precisam ser temperadas depois. Se não, o sabor não vai grudar na carne e vamos perder a excelência do prato.
— Certo, chef.
— Temos ainda muitas horas de serviço, mas eu preciso sair agora. Yoshi ficará no comando enquanto eu estiver fora.
— Sim, chef.
Eu tirei a touca e me troquei no vestiário do restaurante. Não tive tempo para tomar banho, mas passei desodorante e lavei o rosto. Troquei minha camisa de malha habitual por uma de alça de seda e os tênis por uma bota não muito alta. Não ousaria sair da minha zona de conforto na frente de estranhos.
Meu cabelo não estava com muito cheiro da cozinha, mas espirrei um pouco de perfume no ar acima da minha cabeça para garantir que ninguém sentisse o cheiro de comida em mim. A pior coisa que poderia acontecer era chegar no restaurante com o fedor de óleo impregnado nos fios.
— Está bonita, chef. — Izumi entrou no vestiário, me assustando. — Está saindo em um encontro essa noite?
— O quê? Não — neguei rapidamente, me fazendo parecer culpada. — Vou apenas encontrar alguns amigos.
— Você deveria usar o cabelo preso para exibir os brincos.
— Assim? — prendi o cabelo para trás, me olhando no espelho, testando como estava.
— Em um rabo-de-cavalo alto. — Ela me fez abaixar para pegar meu cabelo e levantar, deixando algumas mechas soltas e meu pescoço descoberto. Passei para ela um elástico e ela o prendeu de maneira desleixada. — Combina com a sua roupa.
— Não queria parecer causal demais.
— Não está.
Quase ri por estar aceitando os conselhos de uma garota que tinha cara de fundamental, mas eu não sabia muito bem como me comportar naquela noite. Haru havia prometido não me deixar ficar desconfortável e só tinha olhos para o namorado.
— Obrigada, Izumi.
Vesti um sobretudo e peguei um táxi na frente do Yuugen. O restaurante tailandês ficava do outro lado da cidade, mas o trânsito estava tranquilo. Enviei uma mensagem para , avisando que já estava perto. Assim que cheguei, consegui localizá-los dentro do estabelecimento. Um grupo de quase doze pessoas jovens e bem apresentadas, rindo alto. Senti o suor se acumulando nas palmas das minhas mãos com a expectativa.
— A está aqui. — foi a primeira a me ver. Logo depois, Haru levantou os olhos e sorriu ao me encontrar. Meu coração disparou com aquela visão.
— Você chegou — ele parecia quase aliviado.
Eu cumprimentei todos e esqueci o nome da metade deles quando finalmente consegui sentar. O único lugar disponível era ao lado de , uma cadeira na frente de Haru. Todos já haviam começado a beber e conversar.
— Nós fizemos os pedidos, mas eu pedi para você o mesmo que pedi para mim — explicou ao meu lado. Eu agradeci em voz baixa.
— Então, — o rapaz ao lado de Haru me chamou. — Nos conte sobre você. O Haru não parava de falar sobre o quão incrivelmente famosa você é. — Haru sorriu, sem graça, e tomou um gole de água.
— Não sou tão famosa, só trabalhei em bons restaurantes internacionais. Atualmente sou chef do Yuugen.
— Aquele restaurante fino no centro? — alguém perguntou com surpresa e eu acenei.
— Você deve ser muito boa mesmo. As reservas do Yuugen precisam ser feitas com uma semana de antecedência.
— Achei que você não conseguiria vir, caranguejo — Haru comentou.
Caranguejo? Que apelido bobo. — Eu notei a mulher sentada ao lado de Haru pela primeira vez. Ela tinha o cabelo perfeitamente alinhado, o rosto perfeito e se sentava perigosamente perto demais de Haru. Tão perto que suas mãos quase se tocavam em cima da mesa. Seu olhar cínico me estressou automaticamente. — É um pouco infantil, julgando a sua idade.
— Hana... — Haru falou, em tom de aviso. Hana e Haru. Quase o Ken e a Barbie japoneses. Quase ri em voz alta da minha piada.
— Desculpa — ela pediu, fingindo inocência, mas me lançou um olhar cínico por trás dos cílios curtos.
— Quer algo para beber? — Haru me ofereceu.
— Estou bem.
— Me deixe buscar um copo para você.
Ele levantou e trouxe um copo com gelo. Vi algo parecido com ciúmes nos olhos de Hana. Estava mais do que na cara que ela estava a fim de Haru e ele não fazia ideia. Era simpático e gentil com todos na mesa porque fazia parte da personalidade dele.
Pelas conversas, eu descobri a especialidade de cada um e que todos eram da mesma idade de Haru. Pedi que me chamassem de , mesmo com a diferença de idade e não usassem honoríficos.
— De onde você é, ? Seu japonês é perfeito, parece uma falante nativa.
— Eu nasci no Brasil, mas fui adotada por uma família japonesa quando era bem nova. Morei aqui por toda a minha infância, então posso falar japonês tão bem quanto vocês.
— Quais línguas você pode falar?
— Onde você já morou?
— Vamos com calma, certo? — Haru pediu. — Não estamos em uma entrevista de emprego. Deixem a respirar um pouco.
— É sua primeira vez em Osaka? — Concordei com a cabeça. — Está gostando da cidade?
— Gostei do pouco que conheci até agora, mas mora aqui há muito mais tempo do que eu. Dois anos, não é?
começou a falar sobre como se mudou para Osaka e seu trabalho. Eu não gostava muito de falar, principalmente em um grupo tão grande de pessoas desconhecidas, mas parecia que o assunto sempre voltava para mim. estava falando sobre quando alguém soltou uma pergunta para mim.
, você e o Haru também estão namorando?
Eu o esperei negar automaticamente, mas ele ficou apenas olhando para mim, sem dizer nada. Eu levantei as sobrancelhas para ele, mas Haru continuou me encarando de forma enigmática. Parecia que estávamos nos encarando por horas, esperando um ao outro para responder, quando eu finalmente falei.
— Não estamos namorando. Somos apenas amigos.
— Por um segundo achei que o nosso caçula finalmente estava amarrado com alguém. — Eu fingi achar graça do comentário e dei um sorriso amarelo.
A comida foi servida e todos se ocuparam com seus próprios pratos. Hana tentava chamar a atenção de Haru praticamente se jogando nele e eu ficava cansada só de olhar.
Ela “acidentalmente” derrubou um pouco de bebida na calça dele e pegou vários papeis para ajudá-lo a secar, pedindo desculpas. Achei pedante.
— Acho que posso vomitar bem aqui — comentou ao meu lado.
— Estou quase com pena dela — falei, baixo.
— Alguém precisa avisar que ela está passando vergonha. Parece desesperada por um pouco de atenção.
— Hana, eu consigo me limpar sozinho — Haru afastou a mulher insistente, mas ela não parecia contente com a recusa.
Continuamos comendo sem nenhum outro incidente do gênero. Assim que terminei, pedi licença para ir ao banheiro. estava terminando de comer ainda e não pôde me acompanhar. Em menos de dois minutos depois de entrar no banheiro, a porta foi aberta e Hana entrou. Ela fingiu estar retocando o batom enquanto eu secava as mãos.
— Quem você acha que é? — Seu tom foi tão grosseiro que eu nem acreditei que ela estava falando comigo.
— Como? — perguntei.
— Você não deveria nem estar aqui essa noite.
— Nós já nos conhecemos antes? Não entendo a sua grosseria.
— Você deveria sair com homens da sua idade.
— Hana — respirei fundo —, estamos velhas demais para ter brigas no banheiro como uma adolescente por causa de homem. Prefiro que você guarde seus comentários para si mesma. Não somos colegiais. — Tentei sair do banheiro, mas ela bloqueou a minha saída.
— Você deveria ficar longe dele.
— Eu não estou brigando com você por causa dele. Saia do meu caminho.
— Eu vejo a maneira que você olha para ele. — Seu tom era como se eu fosse a amante do seu marido e eu quase me sentia suja com o seu olhar.
— Eu e Haru somos amigos — expliquei. — Se você está insatisfeita, deve dizer isso para ele e não para mim.
— Você é nojenta. É patético o que está fazendo. O faz parecer um gigolô. — Eu afastei o braço dela com violência, sem me importar com o quão histérica ela ficaria, e saí do banheiro.
, o que aconteceu? — Haru perguntou quando peguei minha bolsa e o casaco para sair.
— Sinto muito por sair assim, mas aconteceu um imprevisto. — Fiz uma reverência de desculpas para todos. — , eu te ligo depois.
Deixei o dinheiro correspondente ao meu prato em cima da mesa e saí.
! — Haru veio atrás de mim e eu aumentei meus passos. — Me diz o que aconteceu.
— Eu nunca fui tão humilhada na minha vida — falei, furiosa.
— Foi por causa da Hana? Ela não...
— Eu simplesmente não posso ficar mais nesse lugar.
— Você está com ciúmes? — Eu não consegui controlar a risada.
— Ciúmes? Eu nunca teria ciúmes de você porque nós não somos nada. Eu só quero que você controle as garras da sua namoradinha porque eu não tenho tempo e nem paciência para ser ofendida por uma louca descontrolada.
... — Eu parei um táxi.
— E nem queria vir para esse jantar idiota mesmo. Passar bem, Haru. — Fechei a porta do táxi com força e pedi para o motorista dar a partida.
Estava com muita raiva. Durante todo o jantar, Haru contornou as investidas de Hana, mas nunca deixou claro que não queria, o que foi babaca da parte dele. Nós realmente não éramos nada um do outro, mas eu achei que nosso relacionamento indefinido estava progredindo para alguma coisa. Por um minuto, eu deixei o que Hana havia dito entrar na minha mente. Será que todos naquela mesa também me achavam nojenta por estar saindo com Haru? Me senti péssima.
— A senhorita está bem? — A voz do taxista me tirou dos meus pensamentos e eu percebi que estava chorando. De raiva, claro. Eu limpei os olhos com a mão, ficando com mais raiva por ter chorado.
— Eu estou bem — respondi.
— Não me passou o endereço de destino.
— Me desculpe. — Eu dei o nome do hotel e meu celular começou a tocar. Era .
— Onde você está? O que aconteceu? — ela perguntou, frenética.
— Amanhã nos vemos, não se preocupe.
— Aquela horrorosa fez alguma coisa com você? Por que senão eu vou...
— Não, . Eu estou bem. Pode aproveitar a noite com seu namorado. Amanhã nos encontraremos — desliguei o telefone.
Eu tinha esquecido o porquê de ser tão avessa a relacionamentos. Para evitar situações como aquela.

Capítulo Onze

“Poderão arrancar todas as flores, mas não conseguirão acabar com a primavera.”
(Lino J. Somavilla)



Na manhã seguinte, eu encontrei em um café perto do hotel onde eu estava ficando e a primeira coisa que ela disse ao me ver foi: — Você não parece que chorou.
— Eu não chorei. — Pelo menos, não depois de ter chegado em casa. — Por que choraria? Meu cachorro não morreu, não fui demitida, nem perdi um parente próximo.
— Você parecia brava ontem e, quando você fica brava, você chora.
— Eu fiquei bem. Se eu não perco a compostura com uma cozinha quente, cheia de pedidos atrasados, não vou perder com uma vaca ciumenta.
— O que ela disse para você ontem no banheiro?
— Nada que valha a pena repetir.
Eu pedi um latte e um muffin para a garçonete que veio nos atender. Meu estômago ainda não conseguia digerir as grandes refeições japonesas logo pela manhã.
— O Haru foi duro com ela depois que você saiu — falou, mas eu não me deixei influenciar por aquela informação.
— Ele deveria ter sido claro desde o início. Ela deu em cima dele a noite toda e sempre simplesmente a ignorou, ao invés de deixar claro que não estava interessado.
— Homens são realmente babacas, às vezes.
Meu celular tocou e eu recusei a chamada novamente. Era a terceira vez que ele me ligava, mas eu não estava nem um pouco afim de falar com ele.
— Você o está evitando? — perguntou o óbvio.
— Eu não quero falar com ele agora. Não queria estar tão afetada pelo que aconteceu, então preciso de um pouco de espaço.
— Você está afetada porque gosta dele.
— Eu fiquei afetada porque ele está tomando todo o meu tempo. Eu deveria estar concentrada no trabalho e não nele.
— Não o deixe na geladeira por muito tempo. Ficou óbvio ontem que ele está apaixonado por você. Os olhos dele acenderam como luzes de natal quando você chegou ao restaurante. E quando você falava, ele... ele te olhava com um sorriso lindo. Ele gosta muito de você e isso ficou óbvio para todos.
— Eu preciso de um tempo disso, . Parece que está andando rápido demais. Nos conhecemos há um mês e estamos em contato o tempo todo. Passo a maior parte do meu dia pensando nele. Isso não é bom.
— Eu conheci o depois e já estamos namorando. Seus passos são lentos demais. Você deixa todas as suas preocupações formarem uma barreira entre vocês e está usando desculpas para o inevitável.
— Mas eu não sou assim. Sinto que vou quebrar a cara se continuar desse jeito.
— Eu já falei tudo que você precisava ouvir. Minha cota de conselhos já foi extrapolada. Está nas suas mãos.
— Eu preciso fazer compras hoje para o restaurante — mudei de assunto de maneira nada sutil.
— Está me expulsando?
— Eu preciso trabalhar, mas preciso da sua carona também. Ainda não me sinto confortável pegando táxi aqui.
— Sei que você é péssima com direções, mas um carro agora não seria má escolha. — Ignorei seu comentário porque ela sabia, mais do que qualquer pessoa, que eu odiava dirigir. — Só vou te levar porque ontem te deixei voltar para o hotel sozinha. Agora come seu muffin calada.
Terminamos o café da manhã e ela me deixou no mercado público para conhecer os lugares onde os ingredientes do restaurante eram comprados. Fred gostava de ingredientes naturais e tradicionais, plantados e pescados na cidade, e eu gostava de conhecer os tipos de ingredientes que eu usava.
— Bom dia — me aproximei da primeira barraca —, os daikons foram colhidos ontem?
O mercado público era um espaço onde os feirantes armavam suas barracas com lonas para exibir suas mercadorias frescas. Alguns vendedores usavam estruturas de madeiras e outros colocavam suas mercadorias em cestos no chão. O lugar era famoso por toda Osaka pela qualidade do que era oferecido.
— Posso sentir o cheiro dessas especiarias?
Meu celular tocou. Era Haru de novo. A ligação caiu e ele voltou a ligar. Eu atendi para fazê-lo desistir. Não conseguiria continuar as compras com o celular tocando a cada dois segundos.
— Haru, eu estou ocupada no momento. Podemos conversar depois? Estou trabalhando, não posso falar com você.
— Onde você está? — ele quis saber.
— Posso ligar mais tarde? Não estou tentando te evitar, estou realmente trabalhando agora.
— Eu estou no mercado público, em que ala você está?
— Você está aqui? Por que você está aqui?
Abri a tampa de um dos jarros em cima da bancada e coloquei um pouco na palma da mão para sentir o cheiro e o sabor.
— Não vou fingir que não foi sua amiga que contou onde você estava. Pode me dizer sua localização? Estou um pouco perdido aqui.
— Estou na ala dos vegetais.
— Espere um momento, não desligue. Eu estou passando agora por uma barraca amarela no segundo corredor depois da entrada.
— Você vai virar à esquerda e andar direto.
— Tudo bem. Acho que estou te vendo. — Eu acenei para ele de longe e desliguei o telefone.
— O que você está fazendo aqui? — quis saber. — Não deveria estar no trabalho?
, eu sinto muito por ontem. O que aconteceu, eu... eu prometi que não deixaria você se sentir desconfortável, mas acabei deixando você ficar constrangida. Me desculpe. De verdade.
— Haru, eu realmente preciso trabalhar agora. — Paguei pelas minhas compras e agradeci ao vendedor. — Nós podemos conversar depois. Está tudo bem, eu não estou chateada.
— Não está tudo bem. Não gosto que haja esse clima estranho entre a gente.
— Você deveria ir para o trabalho — insisti.
— Eu não vou trabalhar hoje. — Continuei procurando os ingredientes da minha lista. Óleos, vegetais frescos, frutas e temperos. Haru continuou me seguindo, mesmo sendo claramente ignorado. — Você pode não me ignorar? Não fique brava comigo. Eu já resolvi a situação de ontem. Esse tipo de coisa não vai voltar a acontecer.
— Eu realmente estou bem, apenas não queria falar com você hoje. — Tentei equilibrar os sacos que segurava e Haru tomou da minha mão.
— Eu te ajudo.
— Não quero que você falte ao trabalho por causa de mim, nós realmente podemos conversar depois. — Sua expressão séria tremeu com um sorriso.
— Eu não faltei ao trabalho por causa de você, estou de folga hoje. — Dei de ombros e continuei as minhas compras.
— Eu quero aquelas batatas, gengibre, cenoura, misu, dashi, shoyu, anko, soja, negi e guzu.
Haru segurou todas as sacolas, sem reclamar. Andamos pelo mercado, experimentando wasaki, panku, kombu, kat suobuchi e umedoshi por todos os lugares. Ouvi as opiniões de Haru com algumas coisas porque ele era um nativo, mas tentei ainda ser dura com ele como castigo. Depois de quase duas horas de caminhada pelas barracas, fomos para a parte externa comprar frutos do mar.
— Essas são enguias de água salgada? — apontei para os frutos do mar na bacia.
— Chamamos de anago. — Eu as toquei dentro da bacia. Pareciam boas pela textura. — Foram pescadas hoje de manhã.
— Eu vou querer. Aquele aji também. Dois. Podemos grelhar inteiros e depois separar as carnes em vários pratos. — Eu comprei alguns peixes para fazer sushi, sashimi e tempura. Comprei lulas, atum, salmão e camarão kuruma que eram os maiores que eu já tinha visto.
— Do que mais você precisa? — Segurei algumas sacolas para que Haru pudesse segurar os peixes. Pensei em poucos, reavaliando minhas anotações.
— Polvo, ovas de salmão, cavalinha, unagi e torigai.
— Tudo isso?
— Está cansado? — Ele negou firmemente.
— De jeito nenhum. — Nós visitamos outras bancas para escolher o que faltava e Haru trabalhou muito bem como assistente, sem reclamar de nada. — Você não se incomoda em tocar esses animais ainda vivos?
— Eu sou uma cozinheira. Não posso ter medo dos meus ingredientes. Aquelas ovas parecem boas, vamos experimentar. — Eu peguei algumas ovas e comi. — Isso está bom. Quero também algumas cavalinhas e um polvo.
— Nós podemos comer desse jeito? — Acenei e ofereci a ele um pouco das ovas. Ele estendeu a mão e eu coloquei as ovas para que ele pudesse experimentar. Sua expressão foi cômica quando as colocou na boca e eu tentei não rir, para não baixar a guarda. — Elas explodem na boca.
— Ficam ótimas em vários pratos. Podemos fazer muitas combinações, por isso eu gosto de tê-las como ingredientes essenciais.
Comprei uma bacia para transportar os frutos do mar dentro do porta malas do carro de Haru.
— Obrigada pela sua ajuda. Você aguentou bem.
— Como você aguenta fazer essas compras sozinha?
— Experiência. Eu faço isso em todo lugar que eu vou. Gosto de saber quem produz os ingredientes que eu uso em minha cozinha. É algo comum para chefs de cozinha.
— Parece que você não está mais chateada — ele observou.
— É porque eu fico feliz fazendo compras para a minha cozinha.
Haru não parecia gostar da resposta porque parou, entrando na minha frente e forçando-me a encará-lo.
— Então você ainda está chateada comigo?
— Eu não estou chateada com você, fiquei chateada com a situação que você me colocou. Eu fiquei ofendida e humilhada por ter ido.
— Hana passou dos limites e ela já reconheceu isso. Nós não temos nada, eu juro.
— Esse não é o problema, porque nós também não temos.
Haru não respondeu ao meu comentário e não falou mais nada por todo o caminho. Ele me ajudou a entrar com as compras na cozinha quando chegamos ao restaurante.
— Bem, acho que é isso — ele concluiu.
— Obrigada pela ajuda hoje. Você precisa de mais alguma coisa de mim?
— Não, eu... estou indo. — Me despedi com um aceno e entrei na cozinha. Fred entrou logo em seguida.
— O rapaz lá fora parece chateado. — Era óbvio que ele estava falando de Haru.
— Ele vai embora, não se preocupe.
— Eu não me preocupo com o restaurante, me preocupo com você. Também parece chateada. — Não sabia que era tão transparente para que todos ao meu redor percebessem o meu humor.
— Só estou cansada por causa das compras, mas logo que começar a cozinhar ficarei bem. A cozinha consegue curar tudo.
— Eu tenho uma proposta para te fazer. — Ele conseguiu minha atenção.
— Proposta de quê?
— Há alguns meses, eu venho pensando em abrir franquias do Yuugen em outros lugares do Japão.
— Isso é maravilhoso, Fred. O restaurante é tão famoso em Osaka que vai fazer sucesso onde vá. — Fred era um homem com visão e, pelo sucesso que o Yuugen fazia, não era de se admirar que ele quisesse expandir os seus negócios.
— Eu quero abrir uma franquia em Tóquio.
— Tóquio? Uau. Quer dizer... É um passo enorme.
— Eu quero que você seja a chef executiva de lá. — Eram muitas informações ao mesmo tempo.
— Eu? Em Tóquio? — perguntei, descrente. — Abrindo um restaurante do zero?
— Eu confio em você para entregar o novo Yuugen em suas mãos.
— Por que não deixa esse comigo e abre o da capital? Eu não sei muito de negócios. Eu só sei cozinhar.
— E isso é o suficiente. Você tem coragem e ambição. Eu estarei com você o tempo todo, você não estará sozinha.
— Eu posso pensar nisso? Abrir um restaurante é algo que eu não pensei até agora. E em Tóquio, uma cidade tão grande... Acho que é muita responsabilidade para mim.
, você precisa pensar grande porque você é grande. Não te chamei aqui para simplesmente substituir um chef que precisou pedir demissão. Você é muito mais do que isso. Você é talentosa e sabe guiar uma cozinha onde quer que esteja e acima de qualquer dificuldade. Além da sua experiência com muitos chefs por todo mundo e em muitos restaurantes.
— Eu vou pensar na sua proposta. Obrigada pelos elogios. Essas palavras, vindas de você, representam muito para mim.
— Eu vou aguardar a sua resposta ansiosamente. Não vou te pressionar, mas sei que você vai tomar a melhor decisão.

Capítulo Doze

“Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável: se não experimentamos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda.”
(Anne Bradstreet)



Haru demorou um total de 34h para entrar em contato comigo de novo. Não que eu tivesse contado. Mas, se ele tivesse demorado um pouco mais, seria eu a entrar em contato primeiro.

Haru: Me desculpe.
: Me desculpe também. Ainda estava ofendida ontem e acabei falando o que não deveria.
Haru: Quando posso te ver?

Pensei um pouco antes de responder. Se eu fizesse aquele convite, eu não poderia voltar atrás. Haru havia me apresentado aos seus colegas e me mostrado um pouco do mundo dele e agora eu estava fazendo aquilo. Eu não me arrependeria.

: O que você vai fazer amanhã?
Haru: Trabalho apenas no turno da noite.
: O Yuugen vai fazer uma visita a um asilo de uma cidade próxima amanhã. Você quer ir?
Haru: Eu adoraria.
: Não será um encontro convencional.
Haru: Eu adoro coisas não convencionais.

Quase soltei gritinhos de alegria. Estávamos bem de novo.

Haru: ...
: O que foi?
Haru: Somos mais do que nada, não somos?
: Sim, somos mais do que nada.

Eu trabalhei aquele dia muito mais leve por ter feito as pazes com Haru, como se tivesse tirado um peso dos meus ombros. Minha mente dizia que eu precisava manter uma distância, mas meu coração sentia falta dele. Gostava de receber suas mensagens e conversar com ele. Parecia exatamente como havia dito: era tarde demais para mim.
Os peixes já haviam sido tratados e limpos pelos assistentes e todos os ingredientes guardados devidamente. Pedi para que todos na cozinha conhecessem os ingredientes que usávamos para que tivessem mais familiaridade e intimidade com a comida. Eu tentei algumas sobremesas diferentes usando frutas e cremes. Fazer doces acalmava a minha mente, eu conseguia esquecer tudo ao meu redor. Conseguia esquecer a proposta tentadora e perigosa de Fred.
Não queria ir embora de Osaka. Eu podia ver minha melhor amiga, de quem eu fiquei afastada por dois anos, todos os dias. Trabalhava com uma equipe que gostava, com uma culinária ainda misteriosa para mim, em uma cidade que gostava muito e que ainda era perto de todas as lembranças da minha infância. Eu queria ir para Tóquio, uma cidade turbulenta onde eu não conhecia ninguém, trabalhando muito mais, longe de tudo e todos? Pensei em Haru. Eu o deixaria para trás também.
— Eu preparei algumas sobremesas para vocês provarem e votarem se querem tentar adicionar ao cardápio do Yuugen — anunciei quando os cozinheiros chegaram.
— Estão lindas.
— São feitas com frutas?
— Pode encarecer o prato, mas sobremesas com frutas ou caldas de frutas são um diferencial, então é interessante adicioná-las ao cardápio. São sobremesas frescas, feitas com laranja, maracujá e pêssego, que combinam com a estação. Usei também as flores dessas frutas para decoração do prato, mas que podem ser comidas junto com a sobremesa.
A opinião de todos era importante, principalmente aqueles que eram responsáveis pelas sobremesas, mas aqueles doces eram tão famosos no restaurante onde eu trabalhava que era impossível eles não aprovarem.
— Por favor, chef. Nos ensine.
— Antes, eu gostaria de discutir o cardápio do evento de amanhã. Precisamos de comidas saudáveis para os mais velhos e sobremesas não muito doces. Quantos de vocês trabalharão amanhã? — Menos da metade da equipe levou a mão. — Quais são as ideias de vocês?
Sushi é sempre a melhor escolha.
— Pratos frios porque cozinharemos ao ar livre.
— É uma boa ideia — elogiei. — Sushi e sashimi.
— Para a sobremesa podemos fazer par fait. Ou wagashi para eles comerem com chá.
Par fait era uma das minhas sobremesas preferidas de fazer. Era legitimamente francesa, mas adaptada para o gosto japonês de uma maneira muito mais simples, utilizando camadas de frutas, chantilly e sorvete, podendo adicionar bolos e waffles dependendo do gosto. Wagashi também combinaria com o ambiente por ser uma sobremesa feita com ingredientes originários de plantas.
Wagashi soa perfeito. São mais rápidos de serem preparados e haverá um chá da tarde no local. Além de podermos fazê-los em diversos tamanhos e formatos. Podemos investir no wagashi no estilo namagashi recheado com feijão azuki e geleias.
Anotei as ideias e nós começamos a preparação para a hora do jantar daquela noite. O restaurante logo iria abrir, então tínhamos trabalho dobrado para deixar tudo pronto para os dois dias.
— Você realmente não pode usar essa faca. Já não disse isso antes? — Alguém interrompeu o silêncio da cozinha.
— Mas essa é a faca que eu uso para os tomates.
— Você está ignorando os meus conselhos. Você é uma assistente.
— O que está acontecendo aqui? — eu interrompi a discussão entre Yoshi e Izumi.
Yoshida gostava de importunar os assistentes. Eu tinha decidido deixar a situação da queimadura para trás por causa do talento dele na cozinha, mas, a cada dia que passava, ele ficava mais insuportável.
— Algumas pessoas não conseguem reconhecer o que é hierarquia — Yoshida reclamou, cruzando os braços de maneira convencida. — Você não deveria se meter.
— Tudo o que acontece nessa cozinha diz respeito a mim. Eu quero saber o que aconteceu.
— Ele quer que eu use aquela faca com os vegetais, mas as minhas mãos são pequenas e eu... — Izumi soluçou, apontando a faca que Yoshida queria que ela usasse.
— Tudo bem, Izumi. Yoshida, você quer machucá-la?
— Acho que nós podemos resolver sem você.
— Acho que quem não entende a hierarquia é você. Eu cansei de você gritando dentro da minha cozinha. Você humilha e ofende seus colegas de trabalho. Eu cansei do seu assédio moral. Cada pessoa que trabalha neste lugar passou por uma seleção rigorosa e sabe o que está fazendo. Izumi pode adaptar suas ferramentas da maneira que quiser.
— Quem você acha que é? — ele perguntou, com um toque de desprezo na voz.
— Eu sou a chef dessa cozinha e eu quero você fora.
— O quê? — ele soltou um riso descrente. — Você não pode estar falando sério.
— Você machuca fisicamente e verbalmente aqueles que acham que são inferiores a você. Só vai saber o que é trabalhar em equipe quando for colocado no seu lugar.
— Você não pode me demitir.
— Mas eu posso te rebaixar. Você trabalhará a partir de hoje como assistente de fogo.
— Eu não vou...
— Ito-sensei ficará no seu lugar como sous chef provisório.
Todos na cozinha pareciam surpresos. Kento Yoshida era filho de um famoso chef japonês e pareceu nunca ouvir palavras duras em sua vida. Provavelmente foi formado chef sob a sombra da fama do seu pai. Aquilo não existia dentro da minha cozinha. Não havia raça, status social e nem gênero.
— Você é da minha idade, então nunca exigi respeito por isso, mas eu sou a chef dentro dessa sozinha e por isso eu mando em você. Cansei das murmurações, dos resmungos e dos xingamentos sobre mim. Você e qualquer outro que desafiar a minha autoridade aqui vai aprender o seu devido lugar. Se não estiver satisfeito, pode ir embora. Tem uma fila de novos chefs esperando a oportunidade de entrar aqui. Não sei como o Yuzumino-sensei tratava você antes, mas é assim que a minha cozinha funciona. Entendeu?
— Sim, chef. — Sua voz foi firme e ele não vacilou nem por um segundo, sem me encarar.
— Isso serve para todos.
— Sim, chef — todos responderam em uníssono.

***


Saímos cedo de Osaka por causa da distância e do trânsito. Os cozinheiros foram em uma van, junto com os equipamentos, e eu fui de carona com Haru. Ele passou no hotel para me buscar pontualmente, como sempre.
— Tem certeza que não vai atrapalhar o seu trabalho? — eu perguntei novamente para que ele confirmasse que ficaria bem, mesmo passando quase o dia inteiro comigo. Eu estava feliz pela oportunidade de mostrar o meu trabalho para ele, mas também não queria que ele pudesse se arrepender no futuro.
— Eu não tenho nenhuma cirurgia durante o dia.
— Seu carro ficou com cheiro de peixe? Parece que foi limpo recentemente. — O porta-malas estava novamente cheio com as minhas tralhas.
— A bacia foi uma boa ideia. Precisou apenas de uma limpeza superficial.
— Sinto muito, eu posso te pagar e...
— Você não precisa pagar de volta tudo que eu faço por você, sabia? — ele me interrompeu. — Não estou querendo dizer que sou rico, porque você deve ser muito mais rica do que eu, mas eu sou uma pessoa generosa.
— Você realmente acha que eu sou uma celebridade — falei, rindo.
— Você mora em um hotel!
— Porque meu chefe paga para mim. Teoricamente, estou em um período de experiência no Japão, então ainda não posso ter uma residência fixa.
— Você se incomoda se eu pagar as coisas quando sairmos?
— Você sempre paga por tudo quando saímos, não quero que pareça que eu estou me aproveitando de você.
— Você não está se aproveitando de mim, não importa o que digam. Eu nunca deixaria você pagar as coisas em encontros. Sei que você tem costumes modernos porque morou no exterior, mas eu sou à moda antiga.
Não soltei nenhum comentário sobre nossos encontros. Haru não tinha qualquer vergonha em desenvolver aquele assunto, então preferi mudar o rumo da conversa. Era como se cada um de seus comentários deixasse claro seu interesse e que ele estava me esperando também para dar um passo em sua direção. Não para me pressionar ou me deixar desconfortável, mas apenas para mostrar seus sentimentos porque ele era claro daquele jeito.
— Você quer ouvir música? — ele ofereceu.
— Estou bem.
Mesmo assim ele ligou o rádio e uma música desconhecida começou a tocar. Haru, com uma voz totalmente desafinada, cantarolou junto com o cantor. Eu tentei não rir na cena.
— O que foi?
— Você canta muito mal.
— O quê? Eu não canto mal. Você está ouvindo direito? — Nós dois rimos e ele aumentou ainda mais o som.
— Você é péssimo — fingi tapar os ouvidos e ele continuou a cantar. — Em francês temos um termo para isso: elle chante comme une casserole.
— Acho que eu me apaixonei de novo por você. — Se eu estivesse bebendo algo naquele momento, teria cuspido tudo. Meu riso morreu instantaneamente e eu engoli qualquer coisa engraçada que poderia dizer.
— Você não deveria falar isso assim.
— Desculpe, mas você fica muito atraente falando francês.
Não respondi porque não sabia o que falar. Haru me deixava sem palavras. Fingi mexer no celular até avistar a entrada do asilo. A van do Yuugen já havia chegado e os rapazes estavam armando nossa bancada de trabalho ao ar livre, perto de onde a festa estava acontecendo.
Os idosos assistiam a uma peça teatral com atenção quando chegamos. Haru me ajudou a carregar as coisas do porta-malas para o ponto de encontro. Ele estava especialmente bonito de jeans e uma camisa lisa, com o cabelo penteado para baixo casualmente do jeito que eu gostava.
— No que você precisa da minha ajuda? — ele perguntou, quando terminamos de montar as coisas para que eu começasse a cozinhar.
— Acho que você pode ficar com as sobremesas porque ninguém pôde vir hoje.
— Sim, chef — ele respondeu de brincadeira.
— Pessoal, esse é o Haru — eu o apresentei quando nos aproximamos dos outros cozinheiros do Yuugen. — Ele vai nos ajudar hoje.
— Por favor, tenham paciência comigo. Sou médico e sei pouco sobre culinária. — Eu o apresentei a todos e deleguei as tarefas daquela tarde.
Fred chegou com a diretora do asilo.
— Edo-sama, essa é , nossa chef e a responsável pelo almoço de hoje.
— Muito prazer — eu a cumprimentei com uma reverência, assim como todos.
— Eu gostei muito do cardápio escolhido para hoje, principalmente os doces — ela elogiou, com um sorriso. — Fred me contou o quanto seus cozinheiros são talentosos.
— Obrigada, faremos o nosso melhor. Está quase na hora do almoço, então devemos nos apressar.
Eu vesti o dólmã, junto com a touca e passei um avental para Haru. Minha mente processou rapidamente o fato de ele ficar lindo de avental.
— Por onde vamos começar?
— Você pode bater os cremes, enquanto eu preparo as frutas.
Eu o ensinei como bater as claras em neve e ele, como um aluno aplicado, aprendeu rapidamente. Logo entramos em um ritmo e conseguimos sincronizar o que fazíamos.
Nunca acreditei na teoria de almas gêmeas ou amores predestinados, mas, sempre que imaginava o homem por quem iria me apaixonar, pensava em alguém que tivesse sintonia comigo na cozinha. Alguém que conseguisse se encaixar comigo. Nunca pensei que realmente essa pessoa existiria de verdade. E nunca pensei que essa pessoa pudesse ser Haru, que não tinha nada a ver com a minha profissão.
Ele me mostrou o creme perfeito que havia acabado de fazer dentro do bowl com um sorriso enorme de orgulho e eu percebi ali que estava apaixonada por ele. Exatamente naquele momento. Não foi como fogos de artifício e nem como anjos descendo em um coral do céu. Foi uma constatação. Algo que eu conseguia sentir dentro do meu coração e em todos os lugares. Pela primeira vez nos meus quase trinta anos de vida eu estava apaixonada e a sensação era de tirar o fôlego.

Capítulo Treze

“Olhei a vida pelas lentes das flores e, dentro de mim, floresceu um jardim de esperança.”
(Dell Delambre)



Todos adoraram o almoço, especialmente a sobremesa. Fomos aplaudidos e algumas pessoas da cozinham ficaram emocionadas pela maneira carinhosa que fomos tratados. Ajudamos os garçons a servirem os pratos e conhecemos mais sobre os moradores do asilo.
Eu estava levando um segundo prato de sobremesa para algumas senhoras em uma mesa que riam muito, quando uma delas comentou baixo como se fosse algo confidencial:
— Você e seu namorado fazem um casal muito bonito.
— Meu namorado? — perguntei, confusa.
— O rapaz alto das sobremesas. Ele é bonito. — Eu ri, sem graça.
— Nós não somos...
Ei! Nós vimos a maneira que ele te olha.
— Minha audição não é boa, mas meus olhos são ótimos. Ele não consegue tirar os olhos de você enquanto cozinha.
— E nem você dele. — Eu olhei para Haru, que ajudava uma senhora a segurar a xícara de chá.
— Os mais novos são os melhores. — Eu corei com o comentário.
— São gentis e tem bom coração. Não o deixe escapar.
— Esse tipo de homem é raro hoje em dia. Aceite os nossos conselhos.
— Obrigada — eu agradeci e saí de perto da mesa.
Como todos já estavam servidos, eu peguei um wagashi com chá para mim.
— Tudo bem, sensei? — Izumi perguntou. — Você parece preocupada.
— Apenas muita coisa na cabeça.
— O Frederick comentou sobre a proposta que te fez para abrir um Yuugen em Tóquio.
Aquilo me pegou totalmente desprevenida. Frederick havia contado aos outros cozinheiros sobre a proposta para abertura do novo Yuugen em Tóquio. Aquilo fez com que a possibilidade fosse ainda mais real.
— Por que ele falou sobre isso?
— Ele queria saber quem de nós gostaria de ir com você.
— Mas eu ainda não me decidi.
— Mas vai. Eu te acompanho há muito tempo, chef. Osaka não é o seu lugar e todos nós sabemos disso. Você precisa ter o seu próprio restaurante.
— O Yuugen em Tóquio não seria meu. Continuaria de Fred.
— Ainda não entendeu que ele quer te fazer herdeira dos negócios dele? — Izumi me deixou surpresa pela segunda vez. Aquilo nunca havia passado pela minha cabeça. — Fred é divorciado, velho e sem filhos. Ele quer aproveitar sua aposentadoria em alguma praia distante e não dentro do Yuugen. Ele sempre foi um grande fã seu e fez de tudo para trazê-la para o Japão.
— Bom, esse é um sonho que eu ainda não sonhei — confessei. — Ainda não cheguei nesse estágio.
— Com mais de dez anos de carreira, deveria pensar no que quer para o futuro, não?
— Na verdade, eu não faço muitos planos. Gosto de ser livre e me construir ao redor do que a vida me traz.
— É a sua oportunidade de fazer algo muito maior do que tem feito até agora. Você deveria pensar um pouco mais seriamente sobre as propostas que ele te fez, sensei.
— Tudo bem, eu pensarei.
— Vou pegar mais um pedaço de parfait. — Ela se despediu, me deixando pensativa sobre aquele assunto.

O sol estava começando a se pôr quando começamos a arrumar tudo de volta na van. Todos se divertiram dançando e cantando no karaokê com os moradores do asilo. Eu recusei todos os convites, alegando não ter talento musical e ter nascido com dois pés esquerdos. Apenas observei Haru, que era naturalmente sociável e desinibido, e os cozinheiros se divertindo. Até Fred aproveitou a tarde e entrou no clima também.
— O que aconteceu? — Haru perguntou dentro do carro na volta para casa. — Você ficou quieta e com essa expressão pensativa que eu não consigo identificar.
— Izumi disse a mesma coisa. Eu só estou... cansada.
— Sei que tem algo que você não quer me contar, mas eu vou esperar até você estar preparada. — Nenhuma palavra que Haru falava me decepcionava. Ele mostrava ser uma pessoa compreensiva com tudo. Ele parecia aceitar na medida que eu podia oferecer.
— Obrigada.
— Eu aprendi um pouco sobre você esses dias, mas sei que tem muito mais que tenho que descobrir. — Eu abri a boca para responder, mas ele continuou falando. — Eu não tenho pressa. Posso ser bem paciente e esperar o seu tempo.
— Não importa quanto tempo seja?
— Eu te garanto que já esperei por muito mais tempo por outras coisas na minha vida. Sou um homem paciente.
Queria dizer que também queria saber sobre ele. Seus gostos, sua família, seus hobbies e muito mais, e que talvez não tivéssemos tanto tempo quanto ele achou que tínhamos. Que talvez tivéssemos que dizer adeus antes do previsto, mesmo eu já estando apaixonada por ele.
— Eu me diverti muito hoje — ele revelou.
— Eu também. Cozinhar ao ar livre é muito bom. Sem falar na qualidade dos clientes. Isso pode transformar o dia.
— Onde quer que eu esteja com você, é sempre divertido.
— Acho que você tem uma ideia errada sobre mim. Eu já disse que não sou tão legal como você acha.
— Ei, caranguejo. Acho que é você que tem a ideia errada sobre si mesma. — Lembrei do comentário de Hana.
— Não me chame de caranguejo.
— Mas você é um caranguejo-eremita, do que mais eu te chamaria?
— É um apelido bobo. — Me assustei quando ele agarrou minha mão e entrelaçou nossos dedos.
— Não ligue para o que os outros falam. O apelido é fofo e combina com você. É algo só nosso. Quero ter algo com você que ninguém mais tenha.
— Você está me chamando de fofa? — Haru foi o único que conseguiu tirar um sorriso de mim naquela tarde.
— Você é fofa. Geralmente é muito séria e fica lembrando para mim que é mais velha o tempo todo. Também é mal-humorada, mas seu cabelo cacheado é fofo e seu sorriso quando faço algo bobo, também.
Baka¹ — falei, baixinho.
— Do que você me chamou? — Neguei com a cabeça, culpada.
— Nada, sobre o que estávamos conversando? — tentei desconversar.
— Você não pode me chamar de “baka” e achar que vai ficar por isso mesmo.
— E o que você vai fazer com isso?
— Eu vou pensar em uma maneira de puni-la. — Eu fiz uma careta. — Muito melhor quando você está sorrindo. Quando está séria, parece que eu não consigo me aproximar de você.
— Você fica com medo de mim?
— Você fica um pouco assustadora, para falar a verdade.
— Quando eu era mais nova, meu tio dizia que eu não conseguia fazer muitos amigos por causa da minha cara feia. As outras crianças ficavam com medo de mim.
— Você parece muito próxima do seu tio. Já te vi ligando para ele antes. — Hesitei um pouco antes de falar, porque minha família era um assunto delicado para mim.
— Eu passei toda a minha infância com ele — contei. — Me mudei do Japão para o México com dezesseis anos para viver com ele.
— E seus pais? — Ele quis saber.
— Meu pai morreu quando eu era muito nova e quem acabou me criando foram minha mãe e meu tio.
— Sinto muito pelo seu pai. Você ainda tem contato com sua mãe?
— Bem pouco, na verdade. E a sua família? — mudei de assunto.
— Somos uma família clássica. Meus pais eram vizinhos de infância, tenho mais duas irmãs mais velhas, nada muito especial. Sempre tive uma vida muito comum. Nunca saí do Japão, nunca apareci na TV. Só fui um aluno com boas notas e algumas pesquisas importantes.
— Aposto que, na faculdade, você era do tipo que fazia sucesso — provoquei.
— Eu era um pouco estranho e alto demais para a média dos alunos. Um pouco deslocado. Um aluno de medicina que gostava de artes, jogava basquete e vivia com a cara enterrada nos livros.
Tentei imaginar Haru como um adolescente tímido, mas não consegui. Ele parecia ser do tipo descontraído e sociável, totalmente diferente de mim.
— Garotos altos fazem sucesso. Acredite em mim. As garotas gostam dos altos.
— Você também? — Não respondi.
— Na faculdade eu era esquisita e só sabia cozinhar.
— Os homens gostam daquelas que cozinham — ele falou, me repetindo. — Acredite em mim.
— Você tem uma conversa doce.
— Espero que funcione com você. Estou colocando em prática pela primeira vez. — Já havia perdido as contas de quantas vezes Haru me deixou sem palavras. — Você pode abrir o porta-luvas, por favor?
— O que estou procurando?
— Um par de ingressos vermelhos. — Eu encontrei os papéis e peguei.
— O que é isso?
— Ganhei esses ingressos para o concerto de uma orquestra na sexta à noite.
— Sinfonia da Ásia — li. — Parece importante.
— Você quer ir comigo?
— Posso considerar como o meu presente de aniversário? — Aquela informação não parecia nova para Haru.
— Eu não vou fingir que não sabia que seu aniversário é amanhã.
— Como você faz isso? Parece que nada que eu conto para você é novidade. Sempre sabe tudo sobre mim.
é uma ótima informante.
— Desde quando vocês são tão próximos? — fingi estar brava. — Ela te conta tudo, parece que é a sua melhor amiga e não minha.
— Não fique com ciúmes. Ela sabe o quão difícil é te conquistar, então ela passa informações pelo namorado dela que, por acaso, é meu amigo. Para eu ter alguma vantagem.
— Isso é injusto. Eu não tenho como saber sobre você.
— O que você precisa saber? Meu aniversário é no outono, eu gosto de livros estrangeiros, música clássica, filme de ficção científica e comida picante. Eu sou bem simples e, se você só falar uma palavra em francês para mim, é o suficiente para me deixar feliz pelo dia inteiro. Posso dizer tudo que você quer saber.
— Você é um homem fácil.
— Eu não gosto de complicar a vida. Eu digo o que penso e tenho opiniões muito definidas. Sou transparente com tudo que sinto. — Aquela declaração arrancou o meu fôlego.
— Você me deixa envergonhada. — Eu tentei me encolher no banco, mas eu sentia que, bastasse um olhar de Haru, meu interior estaria todo aberto para ele. Era como se ele conseguisse ver todo o meu interior.
— Você também é transparente. Sei quando você gosta ou não de alguma coisa.
— Parece que você me conhece bem.
— Um pouco. Já disse que não tenho pressa em descobrir o que quero saber sobre você.
Haru me deixou no hotel com um abraço de despedida, um beijo no topo da cabeça e foi para o hospital.
Eu deitei para dormir pensando em suas palavras. O jeito simples dele de dizer as coisas fazia tudo parecer muito fácil. Pouco a pouco, sem perceber, eu estava dando o meu coração para ele. Minhas barreiras já não estavam apenas tremendo, elas estavam desmoronando. Eu estava quase pegando no sono quando meu celular apitou a chegada de uma mensagem.
Haru: Olhei a vida pelas lentes das flores e, dentro de mim, floresceu um jardim de esperança. São meia-noite. Queria ser o primeiro a dizer isso: Feliz aniversário, .


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¹Baka: Palavra japonesa que significa idiota.

Capítulo Quatorze

“Já é primavera: uma colina sem nome sob a névoa da manhã.”
(Matsuo Bashô)



Provavelmente eu estava na TPM, porque estávamos apenas no meio da noite e meu estresse estava no pico. Eu estava suando horrores e minhas mãos, tremendo. Qualquer coisa errada que faziam na cozinha me deixava cada vez mais perto do precipício.
Tudo começou naquela manhã, quando eu liberei todo o meu dia para passear com e ela simplesmente me deu um bolo por causa do namorado. Sem nem mesmo um “parabéns”. Pela primeira vez, em anos de amizade, ela havia esquecido o meu aniversário.
Haru sumiu depois da mensagem à meia-noite com a justificativa que tinha muitas cirurgias no dia. O que resultou em um dia desocupado no quarto de hotel, assistindo talk shows repetidos e comendo porcaria.
A única pessoa que havia lembrado do meu aniversário havia sido meu tio que tinha me ligado às lágrimas com uma vídeo-chamada. Nem Fred e nem meus colegas de cozinha haviam lembrado do meu aniversário, mesmo tendo uma nota no quadro de avisos com os aniversariantes do mês.
Eu enviei várias mensagens raivosas para , chamando-a de pior amiga e alguns outros nomes ruins. Me sentia patética por precisar de um simples “feliz aniversário” dos meus amigos para ficar feliz, mas já me sentia sozinha naquela cidade, longe dos meus únicos conhecidos, ficava pior ainda.
Eu decidi que iria em um encontro comigo mesma depois do trabalho para começar a comemorar meu aniversário de forma digna.
— Esse prato é da mesa 40 e não da 31, Kuroda-kun — reclamei. — Como pode errar algo tão simples?
— Desculpa, chef. — Me senti uma tirana quando um dos auxiliares saiu correndo com os pratos para consertar seu erro.
— Qual o problema com as sobremesas hoje? Estão chegando tarde demais.
— Desculpa, chef.
Chef, hoje nós não poderemos ficar até mais tarde para preparar a cozinha para amanhã — alguém me informou perto do horário de encerramento da noite. — Iremos sair para comemorar.
— Todos? — Todos na cozinha acenaram.
— Podemos chegar mais cedo amanhã para compensar.
— Tudo bem — eu concordei, cabisbaixa. — Eu consigo lidar com tudo sozinha.
— Claro que não, chef. Não podemos deixá-la aqui sozinha. — Meus olhos brilharam com antecipação do convite, mas murchei logo depois. — Por que não vai para casa descansar?
— Obrigada pela preocupação, Izumi. Vou ficar bem.
Provavelmente minha fama de carangueiro-eremita tinha se espalhado e as pessoas haviam chegado à conclusão que até o meu aniversário eu gostaria de trocar pelo trabalho. Optei por me concentrar e apenas esquecer aquele dia.
— Estamos indo, chef. Boa noite.
— Tchau, chef.
— Até amanhã, chef.
Todos foram saindo até não ter mais ninguém na cozinha. Provavelmente todos do restaurante haviam saído também, a julgar pelo silêncio do lado de fora.
— Não acredito que me deixaram aqui — murmurei comigo mesma. — Eu devo ser realmente muito chata. Deveria escutar mais os conselhos de .
Terminei de arrumar a cozinha e tirei o dólmã para ir embora. Organizar a cozinha tinha um efeito calmante em mim, então, quando peguei minhas coisas para ir embora, estava me sentindo muito melhor do que quando comecei. Não me importava em fazer trabalhos braçais dentro da cozinha ou até mesmo trabalhos que eram de hierarquias menores. Para mim, o chef precisava ser capacitado a fazer tudo. Até porque, muitos de nós começaram apenas lavando pratos ou servindo as mesas.
Quando saí, as luzes do salão estavam apagadas.
— Estranho, porque eles...
Surpresa!
As luzes se acederam e várias pessoas saíram de trás das mesas, soltando confetes em cima de mim. A primeira pessoa que eu vi foi , segurado um lindo bolo com velas acesas.
— Parabéns para você...
Eu tentei segurar as lágrimas. Haru, , , Fred e os funcionários do Yuugen estavam todos lá. Eu soprei as velas, emocionada, quando eles terminaram de cantar os parabéns. O salão estava todos arrumado com faixas de “feliz aniversário” e balões.
— Você achou que havíamos esquecido o seu aniversário? — minha melhor amiga perguntou e eu olhei brava para ela, como resposta.
— Ela ficou chateada o dia inteiro — Izumi comentou.
— Ficou com essa cara de raiva e gritou com todo mundo.
— Obrigada, pessoal. Eu... eu estou muito feliz por ter conhecido todos vocês aqui no Japão. Muito obrigada pela surpresa. Vocês me fizeram perceber que eu não estou sozinha, mesmo a milhares de quilômetros de distância da minha família. Obrigada de verdade.
Eu abracei cada um e peguei os presentes enquanto cortava o bolo. Ela me deu de presente um lindo prato feito por ela, os cozinheiros se juntaram e me deram um dia no SPA e Fred me deu um livro.
Todos já estavam servidos, comendo e conversando, quando Haru se aproximou de mim, pela primeira vez naquela noite. Provavelmente meus olhos brilhavam do mesmo jeito que os dele quando o vi se aproximando. Nunca me importei com a presença física de alguém que gostava perto de mim. Meu tio sempre esteve distante, morei perto de poucas vezes em nossas vidas, mas o contato digital sempre foi o suficiente. Mas com Haru era diferente. Eu apreciava poder estar perto dele, vê-lo de perto.
— Você gostou da surpresa? — ele perguntou, tentando conter o sorriso que parecia querer rasgar meu rosto em dois.
— Conseguiram me enganar direitinho.
— Foi muito difícil não falar com você o dia todo, mas sofri algumas ameaças de , por isso me contive. Mas não menti quanto às cirurgias que tive que fazer.
— Obrigada, eu gostei muito da surpresa.
— Aqui está o seu presente. — Ele tirou uma linda caixa verde da Tiffany and Co. do bolso e eu ofeguei.
— Haru, por que você...
— Não reclame. Só aceite.
Haru estendeu a caixinha e eu segurei, sabendo que havia algo precioso. Dentro da caixa, um pequeno colar com uma pedra solitária como pingente descansava em uma pequena almofada. Meu coração perdeu uma batida. Nunca tinha ganhado um presente tão lindo quanto aquele. E tão significativo.
— É muito lindo, eu não posso aceitar.
— É seu presente de aniversário, não pode recusar. Me deixe colocar em você.
Eu segurei o cabelo no alto e virei de costas para que ele prendesse o colar. Quando terminou, seus dedos demoraram em meu pescoço descoberto. Eu permaneci de costas, respirando pesadamente, porque, se eu virasse, com certeza o beijaria na frente de todas as pessoas que estavam ali, envergonhando a mim e a ele.
— Obrigada — falei, baixinho, tocando a pedra com a ponta dos dedos.
— Fico feliz que gostou. Não sabia sobre seu gosto para joias e temi ter escolhido algo simples demais.
— Não é simples, é perfeito.
— Emi, venha comer um pedaço de bolo — Fred chamou de longe e eu fui quase correndo, sendo despertada daquela nuvem de devaneio que Haru me fazia entrar. — Foram os seus cozinheiros que fizeram.
— Como conseguiram esconder isso de mim? — Experimentei um pedaço. — Está melhor do que o bolo da melhor confeitaria do Japão.
— Não merecemos um elogio tão bom de uma das melhores patissiê da França.
— Que colar lindo — se aproximou, comentando. — Foi o seu namorado quem te deu de presente?
— chamei sua atenção —, você sabe que ele não é o meu namorado.
— Mas logo será — ela cutucou minha costela e eu bati em sua mão. — Do jeito que estão avançando.
— Não o pressione. Tudo irá acontecer no tempo certo.
— Podemos tirar uma foto com a aniversariante? — uma das assistentes da cozinha pediu e eu agradeci a interrupção. Não precisava de para colocar aquelas ideias na minha cabeça.

Era quase duas da manhã quando consegui me despedir de todo mundo. Eu agradeci a todos pelos presentes e pela festa, e Haru me levou de carona para o hotel.
— Obrigada por hoje — eu agradeci assim que ele parou em frente ao hotel. — Eu já vou...
— Você pode esperar um pouco? Só um pouco? — Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos. Eu amava momentos como aquele. Gestos pequenos como segurar as mãos, mas que fazia meu coração bater como as asas de um beija-flor e uma gota de suor se formar na minha testa. Fazia com que eu me sentisse nervosa, animada e tímida. Tudo ao mesmo tempo. Me fazia sentir como se pudesse ficar ali por horas, só sentindo sua mão na minha e sabendo que ele me olhava com um tipo de adoração que nunca tinha experimentado diferente.
— O que aconteceu?
— Não quero deixar você ir ainda. Só mais um pouco.
— Tudo bem. — Eu segurei mais firmemente sua mão e deitei no banco, virando meu corpo na direção dele para observar seu perfil bonito. Eu poderia ficar observando por dias aquele rosto que não me cansaria. Pensei em tirar uma foto e colocar como tela de fundo do meu celular para poder admirá-lo mais. Colocaria em um quadro bem no meio de uma parede e ficaria gravando seus pequenos detalhes com meus olhos, como uma obra de arte. Cada cicatriz, cada pinta, cada sinal. — Não tem nenhum plantão hoje à noite?
— Pedi para trocarem comigo. Tive várias cirurgias hoje para ter a noite livre.
Só naquele momento eu percebi as olheiras. Mesmo por trás do seu sorriso, ele parecia cansado. Quase levantei a mão para tocar em seu rosto.
— Você parece cansado.
— Saí de uma série de plantões longos, mas eu estou bem agora.
Senti uma carga correndo através das nossas mãos se tocando e se espalhando por todo o meu rosto. Queria responder que também estava melhor depois de tê-lo visto, mas não era tão corajosa quanto ele. Preferi responder com algo engraçado.
— Está evitando carboidratos à noite? — Haru riu.
— Está parecendo a minha mãe.
— Levando em conta a minha idade, esse comentário pode ser ofensivo.
— Você fez trinta anos hoje, caranguejo. Não seja exagerada. E você não parece ter a idade que tem.
— Obrigada? — Ele riu de novo.
Haru não tinha nenhuma vergonha em demonstrar os sentimentos, o que era uma das coisas que eu mais gostava sobre ele.
— Eu estou apaixonado por você — ele confessou, fazendo a carga correr ainda mais forte entre nossas mãos. Meu coração bateu ainda mais forte dentro do peito, mesmo já sabendo daquele fato. Apenas um cego não veria os sentimentos que surgiam em seus olhos quando ele olhava para mim. Aquele tipo de admiração genuína. E eu amava aquilo.
— Eu sei.
— E agora eu me sinto patético. — Foi a minha vez de rir.
— Não se sinta. Eu gosto quando é sincero porque é diferente das outras pessoas que sempre tentam fingir ou esconder o que realmente sentem. — Diferente de mim, era o que eu queria dizer, que era apenas uma covarde que se escondia atrás de uma máscara dura e rígida.
— Mas você sempre reclama da minha sinceridade.
— Reclamo porque me deixa envergonhada, não porque é ruim. Gosto disso em você.
Gosto disso e de outras mil coisas em você. Gosto de como você me segura apertado como se eu fosse desaparecer a qualquer momento. E de como me olha como se eu fosse uma estrela brilhante.
Eu queria que ele me beijasse naquele momento e, pela maneira que ele me olhava, provavelmente ele queria me beijar também. Aquele pensamento me assustou. Muitas coisas haviam acontecido naquela noite. Parecia que estávamos dirigindo em uma ladeira sem freio. Desentrelacei nossos dedos.
— Acho melhor eu entrar. Você precisa descansar depois de hoje.
— O concerto ainda está de pé? — Acenei, abrindo a porta do carro.
— Boa noite.
Desci do carro e corri para o hotel. Depois do banho, meu celular tocou com uma mensagem de Fred.
Fred: Você já tem uma resposta?
: Ainda estou pensando no assunto.
Fred: Meus planos são de mandá-la para Tóquio na semana que vem.
Meu coração deu um salto e eu senti meu interior gelar. Na próxima semana? Aquilo era muito recente. Eu estava no meio de começar algo com a primeira pessoa que eu já tinha gostado. Eu queria deixar aquilo para trás? Eu precisava me decidir, não podia adiar mais. Se fosse realmente abrir um Yuugen em Tóquio, eu precisaria focar naquilo e esquecer todo o resto. Um namoro a distância não iria funcionar.
Eu liguei a televisão e, enquanto zapeava entre os canais, um noticiário chamou a minha atenção.
— Kaori Hirano, reeleita quatro vezes prefeita da cidade da Kadoma, anuncia sua aposentadoria da política esse ano.
Meu coração disparou quando a imagem de Kaori Hirano apareceu na tela. Minha mãe. Eu senti falta daquele rosto. Eu não a via há muitos anos.
Desliguei a televisão para não ficar pensando naquilo. Aquele assunto já estava encerrado, eu tinha outras coisas pelas quais deveria me preocupar. Me olhei no espelho do banheiro enquanto escovava os dentes.
“O que você quer, ?”
“Aonde você quer chegar?”
“Você quer viver seu primeiro amor sendo chef do Yuugen em Osaka ou quer virar herdeira do que pode se tornar uma grande cadeia de restaurantes?”
“O que é mais importante para você?”
Eu me sentia entre a cruz e a espada.
Por que Haru mexia comigo daquele jeito? Ele não foi o primeiro homem bonito e gentil que apareceu para mim. Mas foi o primeiro homem por quem eu havia ficado interessada. Interessada apenas? Não. Rendida. Admirada. Apaixonada. Será que seria apenas um romance passageiro? Será que eu estava pensando em trocar a maior alavancada da minha carreira por causa de algo que seria temporário?
Aquela não era eu. Eu perguntaria diretamente as intenções dele e tiraria minhas dúvidas. Contaria sobre a decisão que precisaria tomar e chegaríamos a um consenso. Se fosse o certo ir embora, eu faria de tudo para apagar aquele sentimento. Eu não o magoaria e também não o deixaria me magoar.
— Você é adulta, . — falei para mim mesma. — Todas as decisões só dependem de você. Não deixe nenhuma delas depender de mais ninguém.

Capítulo Quinze

“O inverno cobre minha cabeça, mas uma eterna primavera vive em meu coração.”
(Vitor Hugo)

— Não me sinto como eu mesma.
— É porque você está bonita.
!
Me olhando no espelho, eu percebi realmente o quanto estava bonita. havia arrumado meu cabelo em um penteado preso no topo da cabeça e feito minha maquiagem mais forte do que o normal, realizando um dos seus muitos sonhos.
Nunca tive muito tempo para prestar atenção na minha aparência enquanto trabalhava e a última vez que tinha me arrumado daquele jeito foi para aparecer na TV. Mesmo com meu armário precário, encontrou em seu próprio guarda-roupas um vestido que cabia em mim e, por livre e espontânea vontade, eu usava o meu sapato de salto alto destruidor de pés. Mas era por uma boa causa. Eu queria estar bonita para aquela noite. Queria que quando os olhos dele pousassem em mim, ele tivesse os mesmos efeitos que causa em mim quando o vejo.
— Melhores amigas servem para isso. Que horas ele vem te buscar? — olhei para o relógio de parede.
— Daqui a dez minutos. — era provável que ele já tivesse chegado, com sua pontualidade.
— Se ele não a beijar hoje, você precisa agarrá-lo.
— Não somos assim. — revirou os olhos.
— Acho que você assusta ele, por isso o coitado ainda não tentou nada. Deve estar confuso com tantos sinais contrários que você envia.
Eu murmurei sobre ela ser uma péssima melhor amiga enquanto lia a mensagem de Haru avisando que já havia chegado. Vesti o casaco e peguei minha bolsa.
— Que orgulho eu estou de você. — fingiu enxugar as lágrimas falsas.
— Não seja tão dramática.
Quando eu desci, Haru estava me esperando do lado de fora do carro, vestindo um smoking e o cabelo penteado para trás, daquele jeito que fazia uma mecha rebelde escapar e cair em sua testa. Provavelmente eu me apaixonei de novo naquele momento, quando ele me deu um sorriso encantador.
A maneira que ele me olhou enquanto eu atravessava a calçada para encontrá-lo não decepcionou. Eu me senti ainda mais bonita e, provavelmente, estufei um pouco o peito com orgulho.
— Você está linda. — seu elogio fez meu rosto ficar vermelho.
— Obrigada. Você também.
Como um cavalheiro, ele abriu a porta do carro para mim e eu entrei. O caminho curto até o teatro foi tranquilo e ele conduziu a conversa com um assunto casual. O lugar parecia lotado de pessoas bem-vestidas. Haru parou para falar com alguns conhecidos em nosso caminho para dentro e eu senti que meu rosto iria rasgar de tanto que eu sorri quando era apresentada a alguém. Ele me apresentou com sua “amiga”, mas percebi que o motivo disso era não me pressionar ou não me deixar constrangida.
— Nossos lugares estão ali. — Haru apontou e me conduziu as nossas poltronas.
— Você conhece muita gente. — observei. — Não parece alguém que simplesmente ganhou esses ingressos de maneira aleatória.
— Eu disse que gosto de música clássica. Queria mostrar essa parte de mim para você.
— Não sei muito bem o que esperar essa noite. Nunca fui a um concerto de música clássica antes. — a verdade era que eu era ignorante para música.
— Essa é a melhor orquestra da Ásia. Você vai saber como aproveitar. — Haru garantiu.
Eu me acomodei no lugar e esperei o concerto começar. Quando as cortinas levantaram e os instrumentos começaram a tocar, eu não sabia para onde olhar. Eu não sabia que peça eles tocavam, mesmo estando escrito no folheto em minhas mãos, mas o som era tão lindo que fez meus olhos se encherem de lágrimas. Começou triste, doloroso e lento, então foi ganhando força e os músicos expressavam cada nota muito bem, em seus rostos e em seus braços. A sincronia dos instrumentos era perfeita. O maestro era como um mágico conduzindo todos em um único ritmo hipnotizante.
A última nota soou como um eco no salão e eu estava quase chorando e aplaudindo junto com as outras pessoas. Haru estava tão maravilhado quanto eu, aplaudindo de pé, com entusiasmo. Todos reverenciaram em cima do palco e saíram quando o intervalo foi anunciado. Eu e Haru seguimos as outras pessoas para fora.
— O que você achou? — Haru quis saber.
— Foi a coisa mais linda que já vi. Eu estou maravilhada. — provavelmente meus olhos brilhavam naquele momento. — Eu pareço uma criança agora, não é?
— Está tudo bem. Eu consigo entender seu sentimento. Foi assim quando assisti ao meu primeiro concerto, há cinco anos. Desde então, eu fiquei apaixonado. — ele olhou o relógio de pulso. — Temos alguns minutos. Você quer comer alguma coisa?
— O restaurante do teatro deve estar lotado e vamos demorar muito para encontrar algo bom para comer.
— O que você acha de takoyaki? — ele ofereceu. — Não queria te levar para comer comida de rua em uma ocasião tão especial, mas acho que é a opção mais rápida. Podemos jantar em algum lugar melhor no final do concerto.
— Já disse que meu gosto para comida é simples. Eu vi uma barraquinha aqui perto quando chegamos. Podemos ir e voltar em vinte minutos. Eu só não posso usar ervas para não deixar meus dentes verdes e acabar com a nossa noite.
— Você ficaria linda de qualquer maneira.
Nós dois saímos do teatro e compramos um takoyaki delicioso. O bolinho era recheado com polvo, maionese, picles de gengibre e flocos de peixe fermentado. Eu soprei o ar para fora enquanto tentava comer porque estava muito quente. Olhei para Haru e ele tentava morder o bolinho e não se queimar. Não consegui conter a risada alta.
— O que foi? — ele perguntou, quando eu tapei a boca com a mão, tentando parar de rir.
— Você é engraçado.
Haru se aproximou e colocou uma mecha de cabelo meu atrás da orelha. Antes que eu falasse mais alguma coisa, ele segurou minha mão e correu comigo para a rua ao lado do teatro que estava vazia. Com apenas um movimento, ele me encostou na parede, com uma mão atrás da minha cabeça e perigosamente próximo.
— Eu posso te beijar? — senti um frio na barriga.
— Um beijo é algo muito importante para mim. Não é algo sem valor.
Eu fiquei tão abalada com aquela proximidade que o takoyaki caiu no chão depois de apenas um pedaço comido, mas eu realmente não me importava com nada além do que estava acontecendo entre nós. Meu coração batia muito rápido para que eu pudesse acompanhar.
— É algo importante para mim também, mas sinto que se eu não te beijar agora, eu vou enlouquecer.
Sua boca veio de encontro a minha e, por um impulso, eu coloquei a mão em cima dos seus lábios, impedindo o seu movimento.
— Promete que não é temporário? — ele confirmou com a cabeça, olhando nos meus olhos. Seus cílios curtos estavam tão próximos de mim que faziam sombra nas minhas bochechas. — Promete que não vai quebrar meu coração?
, — ele segurou minha mão que tampava sua boca e prendeu na parede, ao lado da minha cabeça, com gentileza. — não tenha medo de mim.
— Eu não tenho, mas eu não beijo qualquer um.
— Então eu vou te beijar agora, porque eu não sou qualquer um.
Ele se aproximou lentamente e tocou seus lábios nos meus, ainda prendendo minha mão. O primeiro contato despertou uma faísca que se espalhou por todo o meu corpo, como fogo se espalhando em uma palha seca. Eu abri a boca, aprofundando o beijo. Sua boca, quente e macia, tinha gosto de gergelim do takoyaki e eu senti como se estivesse caindo. Eu não queria parar de sentir aquilo. Eu queria tocá-lo e mergulhar o mais profundo que podia.
Sua boca era dolorosamente gentil e suave, estudando devagar, como se pedisse permissão. Como se fosse um lugar ansioso para ser explorado. E eu deixei que ele explorasse. Deixei que ele fizesse o que quisesse. Disse sim para todas as suas perguntas. Abri o portão e o dei permissão para entrar, porque no coração ele já havia invadido, sem pedir.
A pequena faísca que existia encontrou a gasolina e se transformou em um incêndio dentro de mim. Era como se eu tivesse esperado anos pela expectativa daquele beijo e não apenas alguns meses.
Aquele beijo era como uma perfeita primavera. Era a expectativa se tornando realidade. Era os segredos sendo contados sussurrados. Era todas as flores desabrochando. Era a cerejeira sendo balançada pelo vento.
Ele se afastou um pouco, mas eu o puxei de volta pelas lapelas do smoking, beijando-o de novo, com mais desespero. Suas mãos estavam na minha cintura, pescoço, braços e cabelo. Mesmo com saltos, eu fiquei na ponta dos pés, para alcançá-lo mais, enlaçando seu pescoço com os braços, beijando-o com todo desejo que estava dentro de mim. E eu o desejava. Muito.
Suas mãos estavam supreendentemente quentes quando tocava meu rosto com carinho. Ele era o próprio maestro e eu, a orquestra. E eu estava feliz por seguir sua direção. E queria segui-la a todo momento. Eu me desfiz e me refiz a cada segundo que passava naquele momento.
“O inverno cobre minha cabeça, mas uma eterna primavera vive em meu coração.”
— Nós precisamos... — falei, ofegante, me afastando um pouco, mas com seus lábios ainda próximos do meu. Quanto tempo estávamos nos beijando? Uma eternidade? Alguns segundos? — Precisamos voltar.
— Eu não quero mais voltar. — ele ainda estava de olhos fechados, com a testa colada na minha, respirando em cima da minha boca. Eu queria beijá-lo de novo. Minha boca já sentia falta da sua.
— O intervalo já vai acabar. — avisei, mesmo querendo continuar ali. Mas estávamos na rua, qualquer um que passasse poderia nos ver.
— Podemos ficar aqui só mais um pouco? Eu esperei por essa oportunidade desde que te vi pela primeira vez.
— Suja de sangue, ajudando em um parto? — Haru se afastou, suspirando frustrado.
— Péssima imagem mental você me deu. Vamos lá.
Ele segurou minha mão, mas antes que voltássemos, eu tirei um lenço da bolsa e limpei sua boca que estava totalmente manchada com o meu batom vermelho. Quase não resisti à vontade de beijar novamente seus lábios inchados. Amaldiçoei por não tem me dado algum batom mais duradouro. Haru me ajudou a limpar a minha e voltamos de mãos dadas para o teatro.
Seria mentira minha se eu dissesse que prestei atenção em alguma coisa depois que voltamos. Eu só conseguia pensar no beijo, principalmente com Haru segurando minha mão e acariciando a palma com o polegar de um jeito que enviava choques que percorriam todo meu corpo. Me sentia quente e corada. Queria que ele me beijasse de novo daquele jeito. Queria que ele me beijasse por um longo tempo. Até o esquecer tudo ao meu redor, inclusive meu próprio nome. Parecia que nunca poderia ter o suficiente dele. Ele estava em todo lugar na minha mente. Sob a minha pele. Nos meus lábios.
Quando o concerto acabou, nós quase soltamos suspiros de alívio. Nos levantamos ainda de mãos dadas e fomos para fora.
— Eu preciso falar com uma pessoa antes de irmos. — ele avisou.
— Eu te espero aqui.
— Não vou demorar. — ele me deu um beijo na testa e saiu. Eu fiquei envergonhada por aquela demonstração de afeto pública, mas igualmente feliz. Meu coração ainda estava acelerado e meu rosto quente com a expectativa.
? — alguém me chamou e eu virei para olhar. — É você mesmo?
— Emica-chan¹?
Eu conhecia aquele rosto. Nós estudamos juntas em Kadoma. Mesmo depois de quatorze anos, ela não havia mudado nada. O mesmo olhar cínico de antes. Só o cabelo que havia perdido as marias-chiquinhas e caía como ondas suaves acima dos ombros.
— Não acredito que te encontrei aqui. Achei que não era você.
— O cabelo está diferente. — justifiquei.
— Quando voltou ao Japão?
— Há um pouco mais de um mês. Está morando na prefeitura agora? — ela acenou, alegremente.
— Eu me casei no ano passado e me mudei para cá.
— Que bom. — dei um sorriso amarelo, tentando encerrar a conversa, mas ela ainda não tinha acabado.
— E você? Está casada?
— Estou casada com o meu trabalho. — fiz a piada, mas ela não riu.
— Eu vi você com o Watanabe agora a pouco. — falou maliciosamente. — Vocês pareciam muito afetuosos. Estão juntos?
— Como? — perguntei, confusa.
— Não sabia que você estava saindo com o pequeno Watanabe. Sempre achei que você gostasse do irmão dele antes de tudo acontecer. Na verdade, todo mundo achava que vocês acabariam juntos com toda aquela proximidade. Quer dizer, agora ele não é tão pequeno, não é?
Senti todo sangue sendo drenado do meu rosto.
— Do que está falando?
— Não finja que não sabe. Demorei para reconhecê-la, mas assim que o vi, soube quem era. Ele se parece com o pai. Haruto Watanabe, o filho mais novo dos Watanabe. Eles eram seus vizinhos, não eram? O irmão dele não desgrudava de você quando estudávamos juntos, antes de toda aquela bagunça acontecer. Qual era mesmo o nome dele?
A partir daquele momento, eu não consegui prestar atenção em mais nada que ela dizia. Haru era Haruto Watanabe. Como eu não tinha percebido aquilo antes? Eu tive vontade de vomitar. Era como se a sala começasse a rodar.
— Tenho que encontrar o meu marido, mas não desapareça de novo. Vamos manter contato.
— Tudo bem, Emica-chan. Nos falamos depois. — ela se despediu e eu continuei estática no lugar, sentindo como se o chão tivesse sido arrancado dos meus pés.
? Demorei muito? — Haru voltou e quando eu olhei, quase gritei de susto. Me desviei do seu toque. — ? O que aconteceu?
— N-Nada. — gaguejei, apertando meus olhos para conseguir enxergar direito. — Acho que eu não estou me sentindo bem.
— Será que foi o takoyaki?
— Vamos embora. Eu preciso ir para casa. — eu andei na frente, ignorando a dor que sentia nos pés.
Voltamos para casa em silêncio. Eu senti que se começasse a falar, choraria. Ele poderia ser qualquer pessoa do mundo, menos Haruto Watanabe.
, o que há de errado? — ele perguntou quando parou o carro em frente ao hotel.
— Não há nada de errado. — desci do carro quase correndo, mas Haru desceu e me encontrou no meio do caminho, segurando-me pelo ombros. Todo meu corpo tremia e era como se eu tivesse perdendo o controle de mim mesma. Meus pensamentos estavam embaçados e as lágrimas não paravam.
Respire pelo nariz. Expire pela boca. Não perca o controle. Não agora. Não depois de tanto tempo.
— Você está chorando? O que aconteceu? — eu desviei o olhar, sentindo as lágrimas descendo. Não queria ouvir sua voz. Não queria que ele me tocasse. Mordi o lábio com força, mas as lágrimas continuaram a cair.
Era como um pesadelo que eu não conseguia sair. Eu estava presa. Todo meu corpo estava paralisado com o medo da verdade.
— Por que você mentiu para mim? — perguntei com um sufoco. Eu estava sufocando. Não conseguia respirar direito.
— O quê? Eu não menti para você.
— Qual seu nome completo? — vi em seus olhos a mudança quando ele percebeu o que eu estava falando.
...
— Qual é o seu nome? — gritei.
— Haruto Watanabe. — soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo. — ...
— Você sabia que era eu desde o início, não sabia? — ele hesitou um pouco, mas concordou com a cabeça. Claro que ele sabia.
— Sinto muito. Eu sabia que se você descobrisse quem eu era, nunca iria querer ficar comigo. Sempre me viu apenas como uma criança. E com tudo que aconteceu...
— Você... Não deveria ter feito isso, Haruto. Você não faz ideia do que fez.
— Eu nunca menti, você apenas não percebeu. Não viu meu nome no jaleco e nem perguntou o meu sobrenome. Eu me apresentei com o nome que uso agora, mas você nunca quis saber nada além disso. Mas o que há de errado? É só por que eu sou mais novo do que você? Só por que nos conhecíamos quando criança? Isso não é importante. Isso é besteira.
— Você não sabe de nada! — gritei, batendo em seu peito. — Nós nunca vamos poder ficar juntos.
— Do que você está falando? O que fiz foi tão grave assim?
— Por favor, nunca mais apareça na minha frente. — eu tentei me desgrenhar dele, mas ele continuou me segurando. — Você... — solucei. — Sua família... Nós não podemos mais fazer isso.
— O que nós fizemos com você? Por favor, . Só me diga e vamos conversar. Nós podemos resolver qualquer coisa.
— Vá embora, Haruto. — até dizer seu nome doía.
Todo meu passado voltou como uma tsunami e eu não tinha mais em quem se segurar. Eu percebi o quanto me enganei até ali. Achei que me apaixonar e dar continuidade à minha vida poderia me fazer esquecer o passado, mas aquilo nunca ia acontecer. Eu nunca iria me libertar dele. Não importa para onde eu fugisse, o passado sempre me encontraria. Eu teria que viver com aquele peso para o resto da minha vida.
Me senti suja. Me senti podre. Indigna de amor. Indigna de qualquer coisa que aquele homem poderia me dar.
, não faça isso. — ele pediu, como se tivesse com dor, o que fez meu coração se partir em dois.
— Não volte mais, Haruto. Nunca mais. Esqueça tudo o que aconteceu entre nós. — eu o empurrei e corri para dentro.
Em todo caminho para o quarto, eu chorei. Quando cheguei, eu não consegui alcançar a cama, apenas caí no chão e chorei com todo o meu coração que, naquele momento, estava despedaçado.

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¹Chan: O sufixo “chan” é um termo carinhoso usado geralmente para crianças ou pessoas que temos muita intimidade. O “chan” é usado após o nome inteiro ou abreviado.

Capítulo Dezesseis

“Do mesmo modo que no início da primavera todas as folhas têm a mesma cor e quase a mesma forma, nós também, na nossa tenra infância, somos todos semelhantes e, portanto, perfeitamente harmonizados.”
(Arthur Schopenhauer)

Não sei como o som do meu toque se infiltrou em meu sono. Eu acordei desorientada sem saber onde estava e nem que horas eram. O celular continuou tocando até me acordar por completo. Pelo identificador de chamadas, eu vi que era .
— O quê?
“O quê?” Estou te ligando há horas e é assim que você me atende?
— Eu estava dormindo.
Isso são horas? Você deveria estar no trabalho.
Eu olhei para o relógio e vi que já era quase tarde. Provavelmente porque eu havia ido dormir depois do Sol nascer, chorando até meus olhos caírem e vomitado todo conteúdo do meu estômago. Não era à toa que minha cabeça doía como se tivesse sido batida em um liquidificador e minha boca tinha gosto amargo.
— Eu vou mandar uma mensagem para Fred avisando que não poderei ir.
Não poderá ir? , o que está acontecendo? Eu fui acordada ontem quase meia-noite por Haru preocupado com você. — só em ouvir o nome dele, as lágrimas ameaçavam voltar.
— Eu realmente não quero falar sobre isso agora. — pedi.
Eu estou chegando aí em cinco minutos. Você vai falar o que está acontecendo quer queira, quer não.
Ela desligou o telefone e eu me levantei ainda um pouco desorientada. Abri as cortinas para que o Sol pudesse iluminar o quarto escuro e tomei um remédio para a dor de cabeça matadora.
Ignorei todas as mensagens do meu celular e enviei uma para Fred avisando que não poderia trabalhar naquele dia. Encarei o que havia enviado para ele na noite anterior.
: Eu vou para Tóquio. Quero viajar o mais rápido possível.
Minhas malas estavam jogadas pelo chão do quarto, com algumas peças dentro, na minha tentativa de ocupar minha cabeça com alguma coisa e esquecer Haruto ontem.
. — alguém bateu na porta, quase gritando. — Sou eu.
— Eu estou indo. — assim que abri a porta, ela invadiu o quarto, sem nem trocar os sapatos.
— O que está acontecendo?
, eu não quero...
— Você está chorando? — ela segurou minha cabeça, encarando meu rosto. — O que aquele babaca fez? Eu vou matá-lo.
— Ele não fez nada. — notou as malas jogadas pelo chão.
— Por que você está arrumando suas malas? Para onde você vai?
, se acalme. — pedi.
— Você está me assustando. Por favor, me diga o que está acontecendo, senão eu vou ligar para Haru e saber por ele.
— Eu vou para Tóquio. Fred me ofereceu uma oportunidade lá. — sua expressão passou de brava para confusa e depois triste.
— Mas você está feliz aqui. Estamos juntas e você tem o Haru agora. Espera. É por causa do Haru?
não sabia nada sobre o que havia acontecido no meu passado porque sempre escondi aquele segredo a sete chaves, como se fosse meu.
, eu preciso te contar uma coisa, mas você não pode contar para ninguém. Nem que isso pareça poder me ajudar. Nunca.
— Eu prometo.
***

Desliguei o que parecia ser a centésima ligação de Haru. Através de , havia pedido que ele mantivesse distância e não fosse me ver por que eu precisava de espaço, mas aquilo não o impedia de me ligar ou de mandar mensagem a cada cinco minutos.
Haru: Por que você está me evitando?
Haru: O que eu fiz de errado?
Haru: Por favor, atenda.
Haru: Eu estou preocupado com você.
Haru: Me perdoe, eu não quis esconder quem eu era.
Minhas malas estavam prontas e Fred me garantiu que eu poderia viajar no dia seguinte. Eu levaria comigo Ito, Izumi e Saori para começar em Tóquio. Tínhamos um orçamento inicial, mas não poderíamos perder tempo. Faríamos nossas pesquisas de mercado e escolheríamos um lugar logo.
Eu queria estar nervosa e ansiosa por aquela experiência, mas eu não conseguia pensar em mais nada além do que havia acontecido. Agradeci por ter ao meu lado, me apoiando e me ajudando. Ela colocou alguém em seu lugar nas suas turmas para ficar comigo até a viagem.
— Você está certa de que essa é a melhor saída? — eu assentei.
— Essa proposta chegou no melhor momento. É a minha oportunidade de superar isso.
— De fugir, você quer dizer. — ela corrigiu. — É imaturo da sua parte fugir e não enfrentar isso diretamente. De sentarem como dois adultos e contarem a verdade um para o outro.
— Mas eu sou imatura. Com relação a esse assunto, eu sempre serei imatura. — ela deu de ombros, voltando ao celular. — Ele falou com você?
, não faça isso com você mesma. — eu não conseguia impedir meu coração de doer por ele.
conversou com ele?
— Não é que precisa conversar com ele. É você que precisa revolver tudo.
— Eu não posso vê-lo antes de ir. Tenho medo que se o encontrar antes de ir, vou querer contar a ele e implorar que me perdoe. Vou querer tentar consertar tudo com ele e machucar nós dois. É melhor ir embora como uma idiota que quebrou o coração dele.
Eu me sentia horrível por ser egoísta e mentirosa, mas qualquer decisão que fosse tomar machucaria nós dois. Por isso, eu tomaria a decisão que me machucaria mais do que a ele. Talvez isso fosse realmente amor. Uma forma distorcida e feia do amor, mas era só isso que eu poderia dar do meu coração tão distorcido e feio quanto.
— Ele não precisa te perdoar, isso está muito acima de vocês dois.
— Eu guardei isso comigo por tanto tempo que parece fazer parte de mim. Eu sou parcialmente culpada por nunca falar para ninguém.
— Emi, pare com isso. — ela colocou o celular de lado e se aproximou de mim. — Ela é sua mãe, mas não é culpa sua. Nunca foi.
Ela me abraçou e eu me afastei, antes que começasse a chorar de novo. Provavelmente estava desidratando do tanto que chorei na noite anterior.
— Eu preciso... Preciso ir fazer o check out.
— Eu vou sentir muito a sua falta.
Peguei meu documento de desci para fazer o check out antes de me entregar novamente às emoções com a fala de . Sairia cedo na manhã seguinte.
! — ouvi alguém chamando o meu nome e nem precisei virar para saber quem era.
— O que você está fazendo aqui?
— Por que você não está falando comigo?
— Nós não podemos conversar agora.
— E quando vamos conversar? Quando você estiver em Tóquio? — eu precisei virar e encará-lo depois de ouvir suas palavras.
— Como você descobriu isso?
Haruto soltou uma risada amarga e apertou a ponte do nariz, como se estivesse irritado. Ele falou tão alto que algumas pessoas que passavam na recepção do hotel começaram a nos encarar.
— Você só pode estar de brincadeira comigo. Você vai embora de verdade. De novo. Essa é a sua especialidade? Fugir?
— As pessoas estão olhando. Vamos só... — eu tentei puxá-lo, mas ele afastou meu braço.
— Eu não vou a lugar nenhum até você me dizer o que está acontecendo.
Eu olhei nervosamente para os lados, pedindo desculpas. Aquele assunto não deveria ser conversado no meio de tanta gente e de maneira tão aberta. Não quando ele poderia explodir e gritar a verdade cruel na minha cara.
— Não faça uma cena.
— Fazer uma cena? — ele perguntou, com incredulidade. — , você tem noção de como eu estou me sentindo agora? Eu não faço ideia do que aconteceu porque você simplesmente decidiu ignorar todas as minhas ligações e agir como se eu tivesse alguma doença contagiosa. Eu só queria uma explicação. Achei que você fosse melhor do que o tipo de pessoa que dispensa sem nem uma mensagem de texto. Sem uma explicação plausível. Eu achei que você gostasse de mim, pelo menos um pouco, para me explicar o que está acontecendo.
— Podemos conversar em outro lugar? Por favor. As pessoas estão olhando. — Haru soltou um suspiro pesado. Ele parecia cansado.
— Para onde você quer ir? — para o meu quarto era o último lugar que eu o levaria e cafeterias seriam muito abertas.
— Já está tarde. Podemos dar uma volta.
— Eu realmente não preciso de uma caminhada agora.
— Acredite em mim, você vai precisar de ar fresco.
Eu enviei uma mensagem para , mesmo sabendo que ela havia armado aquilo e saí do hotel com Haru me seguindo. Ele parecia inquieto e desconfortável. Seu cabelo estava louco, despenteado para todos os lados e seus olhos eram sérios, muito diferente do habitual. Eu andei sem destino, esperando o fluxo de pessoas diminuir para começar a falar. Não queria parar para não precisar olhar em seu rosto. Não conseguiria falar nada se o visse de perto. Coloquei as mãos do bolso para fazê-las parar de tremer.
— Algo aconteceu há quatorze anos.
— Tudo isso tem a ver com o passado?
— Você pode me deixar terminar? — tomei uma respiração profunda e encarei meus sapatos, enquanto andava. — Seu irmão, Yuto Watanabe, que morreu no acidente de carro há quatorze anos. Foi a minha mãe quem o matou.
— O que você acabou de falar?
Haru parou e eu continuei andando, apertando os olhos fechados. Achei que não doeria tanto depois de tanto tempo, mas dizer aquelas palavras em voz alta, me fazia voltar exatamente para o mesmo dia do ocorrido.
— Foi ela quem o matou. — eu parei, há alguns metros dele, de costas. — Ela o atropelou e fugiu sem prestar socorro. Depois agiu como se nada tivesse acontecido.
Haru me alcançou em passos largos e me virou de frente para ele. Não levantei o rosto, apenas continuei encarando a calçada com os olhos cheios de lágrimas.
— Isso não pode ser verdade. Você está brincando comigo?
— Eu sinto muito, Haruto.
— Por que ninguém sabe sobre isso? Por que ela...? Ela... Sua mãe? A prefeita Hirano? Foi ela quem matou o meu irmão?
Eu confirmei com a cabeça e encolhi quando ele correu até a parede próxima e a socou. Ele gritou e socou novamente. Eu o abracei por trás, tentando impedi-lo de se machucar. Haruto se curvou e gritou, chorando. Eu não consegui segurar minhas próprias lágrimas, porque sentia sua dor. Eu sentia aquela dor há tanto tempo que era como uma ferida inflamada. Nunca cicatrizava. Às vezes doía menos, mas sempre doía.
A morte do meu melhor amigo.
A morte do seu irmão.
A culpa da minha mãe.
— Eu sinto muito. Eu sinto muito. — pedi repetidamente.
— Ele só tinha quinze anos. — Haru lamentou. — Por que ela não o ajudou? Por que ela o deixou morrer sozinho daquele jeito? Ele era apenas uma criança.
— Eu sabia de tudo. Sempre soube.
Ele se virou para mim e agarrou meus ombros, forçando-me a encará-lo. Sua tristeza era tanta que eu tentei dar um passo para trás, mas ele continuou se segurando. Seu aperto não doía. Mesmo com raiva, ele nunca me machucaria intencionalmente, mas o que tinha dentro dos seus olhos... Aquilo podia quebrar meu coração mil vezes. Me machucou mais do que qualquer coisa faria.
Tudo que poderíamos ter tido. Tudo que poderíamos ter sido. Tudo foi quebrado e dissolvido naquele momento.
— Por que você fez isso?
— Eu sinto muito. Ela é minha mãe e eu estava confusa e assustada. — tentei justificar, mas nenhuma desculpa era boa o suficiente. Era só uma mentira que eu contei a mim mesma durante quatorze anos para conseguir sobreviver todos os dias.
— Você deixou uma assassina comandar a cidade? Você deu ainda mais poder a ela? Você deixou que eu me apaixonasse por você.
— Me desculpe. — eu pedi, baixo.
— Como eu posso estar apaixonado por você?
Eu também não sabia. Como aquilo havia acontecido? Que tipo de ironia maluca e dolorosa era aquela?
— Como você a deixou ficar impune depois de tanto tempo?
— Eu não sei. — doía tanto quando outra pessoa me acusava de algo que eu mesma me acusava. — Eu simplesmente nunca tive força para voltar e encarar o que ela fez.
— E agora vai fugir para Tóquio como se nada tivesse acontecido? Como uma covarde? — confirmei com a cabeça. — Por que você iria fazer isso comigo?
— Porque eu estava com medo.
— Você não iria me contar antes de ir?
— Eu não estou contando agora? — eu me desvencilhei dele. — Não era isso que eu deveria ter feito?
— E o que eu devo fazer com essa informação? Como você acha que eu vou contar isso para a minha família e para as outras pessoas? Como eu vou encarar a minha mãe depois de saber isso? Você sabe o quanto ela considerava você e a sua mãe?
— Eu não sei o que você vai fazer ou o que eu vou fazer, eu simplesmente não sei. Não fiz isso de propósito, não sabia quem você era. Eu queria ter todas as respostas, mas não tenho. Queria ser justa e ter feito tudo certo, mas eu não sou. Sou egoísta e nojenta e tudo que você quiser que eu seja, mas eu sinto muito. Sinto muito por ser eu.
— Você iria morrer com esse segredo?
Por mais que eu odiasse a minha mãe, a resposta daquela pergunta era muito fácil. Nunca contaria seu segredo para ninguém. Além de , até aquele dia, Haru era a única pessoa que sabia. Eu havia feito uma promessa que nunca revelaria a verdade para ninguém, sob nenhuma circunstância.
— Eu preciso ir embora. — me virei para sair, mas Haru segurou o meu braço. Eu olhei para sua mão sangrando. — Acho melhor encerrarmos isso por aqui. Já causamos danos demais um ao outro.
— O que eu faço agora? — sua voz estava quebrada, assim como seu olhar. Destruído. Eu havia apagado o brilho que existia ali no dia anterior. O amor. A admiração. Não existia mais ali. Só ressentimento, ódio e mágoa. Eu havia machucado a última pessoa que merecia ter sido machucado. Eu havia quebrado seu coração do jeito que eu queria que ele fizesse com o meu. Eu traí sua confiança e seu amor.
— Vá embora. Me esqueça. Finja que o que aconteceu entre nós nunca existiu. Esqueça a mim, a minha mãe e a minha família. Faça o que você quiser, só fique longe de mim.
— É muito fácil para você falar, não?
— Isso é tudo para mim, menos fácil, Haruto.
Eu puxei meu braço e saí correndo de volta para o hotel, com a visão embaçada.
Então era daquele jeito que tudo acabava. Todos os momentos bonitos, os sorrisos e as lindas palavras. Era irônico. Eu nunca havia aberto meu coração para me apaixonar e quando fiz aquilo, me apaixonei pela última pessoa no mundo que deveria ter nutrido aquele sentimento. E agora ele me odiava. Qualquer vestígio de sentimentos que ele poderia ter estava morto, enterrado embaixo da decepção. Ainda era quente, mas a minha primavera tinha ido embora. Todas as flores haviam murchado e sido pisoteadas.
Eu finalizei a documentação do hotel e confirmei meu horário de saída na manhã seguinte.
— Por que você demorou tanto? — perguntou, preocupada.
— Eu enviei uma mensagem e...
— Você estava chorando?
— Você sabia que Haru viria aqui? — perguntei diretamente.
me disse que ele tentaria falar com você. O que aconteceu?
O choro voltou com tudo.
— Acabou, . Ele sabe de tudo. Está acabado agora.
Era hora de dar adeus a todo frio na barriga, os sorrisos bobos, os presentes, os encontros, as emoções. Como há quatorze anos, eu precisava ir embora de novo.


PARTE II

VERÃO

“Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.”
(William Shakespeare)

Capítulo Um

“No meio do inverno, aprendi que existia em mim um invencível verão.”
(Albert Camus)


Agosto, 2002
sempre amou o verão.
Sua mãe dizia que o motivo disso era ela ter nascido em um país tropical e estar acostumada com as altas temperaturas, mas, na verdade, quem não ama o verão? Bebidas geladas, sol, piscina, vestido de alça e sorvete. Sem falar nas férias de verão. Havia muito motivos para gostar.
O dia da mudança de casa foi cheio e cansativo, mas estava intimamente animada. A casa nova era enorme e, de acordo com seu tio, na casa ao lado tinha crianças da idade dela. Ela teria com quem brincar de bicicleta e poderia, finalmente, deixar seu tio em paz.
— Mãe, podemos falar com nossos novos vizinhos agora? — pediu, mas já podia ouvir a resposta em sua mente antes mesmo de ouvi-la em voz alta.
, eu estou ocupada. Você pode ir lá sozinha.
não entendia porque depois de tanto tempo continuava tentando algo com a mãe. Era sempre a mesma resposta: “Estou muito ocupada.”, “Tenho uma reunião agora.”, “Não fale tão alto, estou em uma ligação.”, “Não posso brincar agora”.
Admirava sua mãe por ser uma mulher tão importante e reconhecida, mas ela queria de volta aquela mãe de cinco anos atrás que dormia com ela para afastar os pesadelos, que fazia seu café da manhã todos os dias, que incentivava sua curiosidade e que a ensinava sobre tudo. Agora ela não tinha uma mãe e sim uma desconhecida.
— Leve um pouco de cookies para eles. — seu tio sugeriu e revirou os olhos para ele.
— Eles não têm esse costume ocidental.
— Então leve os bolinhos de arroz que eu tirei do forno.
nunca se atreveu a reclamar em voz alta, porque no lugar de uma mãe presente ela tinha um tio que a amava muito. Não sabia como o tio havia ido morar com elas e nem com o que ele trabalhava. Algumas vezes ele não parecia bem e chegava tarde em casa, mas nunca viu seu tio ser agressivo, malvado ou desagradável com ela. Nunca viu seu tio agir como sua mãe. Na verdade, os dois pareciam o completo oposto um do outro.
— Você deveria estar se arrumando para a nova escola. — sua mãe apareceu, quebrando toda a empolgação de . — Sua aula começa em pouco tempo.
— Acabamos de nos mudar. — resmungou. — Não deveria ir para a escola no primeiro dia na casa nova.
— Precisamos dar o exemplo.
— Eu preciso ajudar o tio a terminar de arrumar. — tentou um segundo argumento para que a mãe a deixasse ficar.
— Seu tio consegue arrumar tudo sozinho. Te espero no carro em vinte minutos.
Com uma cara emburrada e batendo o pé, foi para o novo quarto se arrumar para o primeiro dia de aula na nova escola. Toda animação sobre a mudança se dissolveu como sorvete exposto ao sol daquela manhã com a ordem de sua mãe.
A garota engoliu o choro e desceu para o carro antes dos vinte minutos propostos.
— Não vai tomar café da manhã? — a mãe perguntou, mas ela fingiu estar muito ocupada observando uma sujeira na janela para responder. A mãe entendeu a mensagem e parou de tentar puxar conversa pelo resto do caminho.
— Não precisa vir me buscar. — falou ao descer do carro quando pararam na frente da escola. — Vou de ônibus.
, você ainda não conhece as...
— Eu me viro. — cortou a mãe a saiu apressada, mas a tempo de ver sua mãe suspirando e murmurando alguma coisa.
Depois da terceira mudança, já estava acostumada com os olhares que recebia quando entrava em uma escola nova. Ela podia dizer que já havia conhecido toda Kadoma.
Sua primeira mudança foi aos três anos, quando sua mãe a adotou. Foi seu primeiro contato com o Japão. Moravam em uma vizinhança tranquila e familiar, com um grande jardim e um quarto que era quatro vezes maior do que ela tinha no orfanato. Após a morte do seu pai, quando tinha cinco anos, sua mãe se mudou para um apartamento no centro e quando seu tio veio morar com ela, há cinco anos, tiveram que se mudar para um lugar maior.
Aquela casa era perto dos eleitores, passava uma imagem de família que sua mãe sempre quis. Ela sairia como candidata à prefeitura de Kadoma no ano seguinte e tudo que ela fazia era com a intenção de ser eleita.
Se alguém perguntasse a se ela aprovava a candidatura de sua mãe, ela diria que não havia ninguém melhor para assumir aquela responsabilidade. Sua mãe era sua heroína. Nunca esqueceria sua imagem jovem rindo em sua direção e estendendo os braços para carregá-la no orfanato precário em que viva. Ela amava muito sua mãe, mas ter que ser a provedora da casa havia criado uma distância quilométrica entre elas. Kaori Hirano era uma ótima candidata, mas uma péssima mãe.
— Você é ? — a recepcionista da secretaria perguntou com total desinteresse. — Pode me entregar seu formulário?
entregou os documentos assinados por sua mãe à mulher e viu a mudança automática nos olhos dela quando leu o nome que estava assinado.
— Você é filha da prefeita Hirano? — ela perguntou com os olhos brilhando na direção de .
— Ela ainda não é prefeita.
Ah, querida. Por que não falou antes? — a recepcionista levantou e a cumprimentou formalmente. — Todos nós sabemos que ela ganhará a próxima eleição. Todos aqui apoiamos ela.
A mãe de era uma das benfeitoras daquele colégio, da mesma maneira que era com todas as escolas grandes da cidade. Por isso, uma grande foto sua sorrindo estava no corredor central, junto com a das outras celebridades filantrópicas de Osaka.
— Tudo bem... — ficou automaticamente envergonhada. — Posso pegar meus horários?
— Claro, claro. Vou pediu para alguém acompanhá-la até a sala.
— Não precisa, eu... — a mulher chamou alguém que passava antes que tivesse a chance de escapar.
— Ela é filha da prefeita Hirano. — a pessoa cumprimentou com a mesma educação.
— Está tudo bem. — também se curvou, envergonhada por uma pessoa mais velha cumprimenta-la com todo aquele respeito.
— Acompanhe-a até sua sala e a apresente aos professores.
— Eu realmente posso fazer isso sozinha. — tentou argumentar, mas logo foi arrastada para trocar os sapatos em seu novo armário e entrar na sala de aula.
— Envie os meus cumprimentos à sua mãe. Diga que todos nós aqui na escola estaremos com ela. — deu um sorriso sem graça e concordou.
Entrando na sala, todas as cabeças viraram em sua direção. O professor olhou para o relógio, mas não falou nada. Todo mundo sabia que ela estava atrasada, ele não precisaria dizer em voz alta.
— Bom dia. — fez uma reverência. — Sou a aluna nova.
— A aluna transferida. Pode se apresentar.
se colocou na frente da sala, aos olhos de todos, com as unhas enfiadas nas palmas das mãos e com o coração disparado. Odiava aquilo, odiava se mudar de novo, tentar fazer novas amizades, ser vista como estranha por ser estrangeira e tentar se adaptar. Engoliu as lágrimas antes de falar.
— Bom dia. Eu sou , podem me chamar pelo primeiro nome, porque não tenho sobrenome japonês. — mentiu. Ela usava o sobrenome da família biológica e o sobrenome de sua mãe, mas não queria que soubessem quem era sua mãe. — Por favor, cuidem de mim.
Algumas pessoas riram no fundo da sala e sentiu que ficava vermelha a cada segundo.
— Nos diga de onde você vem e o que gosta de fazer. — o professor incentivou.
— Eu vim do outro lado da cidade e gosto de andar de bicicleta. — mais risos.
— Tudo bem, . Seja bem-vinda. Pode sentar naquele lugar vago.
fez a caminhada da vergonha até o fundo da sala e se afundou na cadeira. Algumas pessoas encaravam-na de maneira nada sutil. Crianças nunca conseguiam se comportar bem com estrangeiros, ela sabia bem daquilo. Não importava se era no primário, no parquinho ou no ensino médio. Pelo menos o professor escolheu uma cadeira vazia para ela e não uma dupla.
— Eu também gosto de andar de bicicleta. — a pessoa ao lado de comentou. Ela chegou a duvidar de que ele realmente estava falando com ela.
— O quê? — ela virou para o lado e encarou o garoto.
— Eu também gosto de andar de bicicleta. — ele repetiu e ela deu um sorriso sem graça. — Não ligue para as risadinhas. Ninguém de quinze anos é muito maduro.
— Eu não...
— Tudo bem se chatear também. — ele continuou, compreensivo. — Mas eu posso te emprestar o meu livro se não tiver. — tirou o livro da mochila e mostrou para ele.
— Eu trouxe o meu. — o rosto do garoto murchou por ter perdido a oportunidade de aproximação.
— Você parece legal. De onde você é? — ele continuou tentando puxar assunto.
— Sou daqui. — ela o cortou.
— Nunca te vi por aqui.
— Eu acabei de falar que morava do outro lado da cidade.
O professor começou a falar e tirou a atenção do garoto ao seu lado. Ela não sabia como fazer amizade ou como manter uma conversa tranquila, então preferia se manter longe ou em silêncio. Talvez por isso fosse sempre vista como estranha em todas as escolas novas.
Depois das aulas, ela ouviu alguns alunos fazendo comentários maldosos sobre sua aparência e seu jeito de falar, o que a fez se encolher ainda mais e não querer conversar com ninguém. Saiu da sala apressadamente com a mochila apertada perto do corpo.
Não queria esperar ali. Queria ir para casa. Queria seu tio. A única pessoa com quem ela conseguia ser ela mesma. A única pessoa com quem ela gostava de ficar. E que gostava de ficar com ela.
Ei! — ouviu uma voz a chamado ao longe, mas continuou andando. — ! — ela virou e o garoto da última vez veio correndo em sua direção.
— O que foi? — perguntou sem paciência.
— Não me ouviu te chamando? — não respondeu. Só queria passar despercebida. Achou que se ignorasse o garoto, ele perceberia sua inconveniência, mas ele insistiu. — Não ligue para os comentários.
— Eu não ligo. — quis parecer corajosa, mas sua posição era totalmente defensiva.
— Elas estão com inveja por você ser estrangeira. No fundo, são inofensivas.
— Eu não me importo com o que elas falam. — os dois sabiam que ela estava mentindo, mas o garoto não queria deixá-la sem graça, então não a desmentiu.
— Elas não falariam isso se soubessem quem sua mãe é.
Aquele comentário fez dar total atenção ao garoto à sua frente. Quem era ele? Será que ouviu as mulheres da recepção conversando? Ninguém naquele lugar deveria saber quem era sua mãe. Pior que ser odiada era ser bajulada.
— Não sei do que você está falando. — ela tentou se fazer de desentendida.
— Você é filha da prefeita Hirano.
— Ela ainda não é prefeita. — corrigiu automaticamente e o garoto deu um sorriso triunfante. fechou a cara e saiu. — Espera. O que você quer?
— Eu quero ser seu amigo. — semicerrou os olhos na direção dele.
— O que você quer da minha mãe? — ele deu uma risada, revelando os dentes levemente tortos. quase saiu de novo, mas ele a segurou pelo braço.
— Eu não quero nada da sua mãe. Já disse eu quero ser apenas seu amigo. — não conseguia não sentir desconfiança.
— Por quê? — quis saber e ele respondeu com um dar de ombros.
— Você parece sozinha e deslocada aqui. Achei que você era uma boa garota.
— Como você sabe sobre a minha mãe?
— Você não sabia? — fez cara de confusão. — Eu e a minha família moramos ao lado da sua casa. Sou Yuto Watanabe, seu vizinho.

Capítulo Dois

“Quando as pessoas estão felizes, não reparam se é inverno ou verão.”
(Anton Tchekhov)


As brigas não demoraram para começar. já havia se acostumado com aquele cenário. Sua mãe e seu tio quase nunca se entediam. Eles não pareciam irmãos e sim inimigos que compartilhavam o mesmo teto. Sempre fechavam a porta para impedir que ouvisse, mas era quase impossível não ouvir os gritos e ofensas de um com o outro. Às vezes as coisas ficavam bem ruins e ela podia ouvir coisas sendo arremessadas na parede ou sendo quebradas. E aquela era uma daquelas noites.
— Não levante a voz para mim. — seu tio ordenou.
— Que moral você tem para falar alguma coisa? — a mãe respondeu, no mesmo tom, como se fosse uma competição para ver quem gritava mais alto.
— Você se acha tão perfeita... Tão dona da razão.
vestiu o casaco e pegou sua bicicleta com lágrimas nos olhos. Pedalou como se sua vida dependesse daquilo, até bater em uma pedra e cair com tudo no chão, rasgando a calça e machucando o joelho. Não queria chorar, mas as lágrimas vieram e ela não conseguiu segurar depois que a primeira caiu.
— O que aconteceu? — não conseguiu enxergar quem se aproximava por causa da escuridão, mas seu choro continuou alto, sem conseguir se controlar.
— Eu-Eu... — soluçou tanto que nem conseguia falar.
— Não chore, vai ficar tudo bem.
Era um garoto, parecia ser mais novo do que ela por causa do rosto, mas era mais alto do que deveria ser. Ele se sentou no chão ao seu lado e a abraçou de lado. continuou chorando.
— Está sentindo alguma dor? O joelho está doendo? — negou com a cabeça. — O que aconteceu?
— Eu não quero voltar para casa. — revelou.
— Tudo bem, eu fico aqui com você. — o garoto sentou ao lado dela e esperou que ela terminasse de chorar e só sobrassem os soluços. — Está melhor?
— Estou, obrigada. — ela fungou.
— Você pode limpar o rosto com a minha manga. — o garoto estendeu o braço e usou a manga do casaco dele para secar o rosto e o nariz escorrendo. — Às vezes eu também choro escondido para ninguém me ver.
— Obrigada. — conseguiu se acalmar.
— Sua mãe brigou com você? — negou com a cabeça.
— Ela e meu tio estão brigando. — explicou.
— Meus pais brigam as vezes. Eu odeio quando isso acontece, porque parece que não há ninguém que possa ser machucado pelas palavras deles, a não ser eles dois.
— Eles gritam um com o outro e jogam coisas na parede. — falou, sem saber o porquê. Não conhecia aquele garoto, de perto ele parecia ainda mais novo, mas não tinha amigos e precisava contar como se sentia para alguém. — Por favor, não conte isso para ninguém. — pediu, sabendo que aquela informação poderia prejudicar sua mãe se alguém descobrisse.
— Eu não vou contar. Prometo. — o garoto fez sinal de juramento e riu pela primeira vez naquele dia, juntando o mindinho com o dele e depois o polegar, selando o juramento. — Também vou te contar um segredo para ficarmos quites: sou eu quem escondo as roupas das minhas irmãs. — riu novamente.
— Isso não é legal.
— Elas são irritantes. — o garoto justificou. — E demoram muito no banheiro penteando o cabelo.
— Mesmo assim não deveria fazer isso.
— Eu sempre devolvo as roupas antes de elas começarem a chorar. Ah, tenho outro segredo: fui quem quebrou a câmera do meu irmão. Mas foi sem querer, eu juro. Foi um acidente com a minha mochila.
— Prometo que, se conhecê-lo, não vou contar. — foi a hora dela prometer, do mesmo jeito dele, juntando os dedos.
— Agora é a sua vez de contar outro segredo. — pensou um pouco.
— Eu queria que minha mãe não tivesse aceitado o meu tio em casa. Teríamos menos brigas, mesmo eu o amando muito. — nunca havia admitido aquilo em voz alta antes, mas era como se tivesse tirando um peso do peito ao contar.
— Eu queria que meu pai ficasse mais em casa conosco.
— Eu acho que amo mais o meu tio do que a minha mãe.
— E o seu pai? — o garoto quis saber, pela falta da menção.
— Ele morreu há muito tempo. Somos só eu, a minha mãe e o meu tio agora. — o garoto acenou, entendendo a situação. Não falou nenhuma palavra de conforto ou que sentia muito. Só acenou. — Acho que é melhor eu voltar.
— Me deixe olhar sua bicicleta primeiro. — ele levantou a bicicleta e começou a inspecioná-la. — Parece que está tudo certo, só a corrente parece um pouco folgada.
— Eu vou consertar quando chegar em casa. Obrigada. — o garoto entregou a bicicleta para . — Você mora muito longe?
— Eu moro aqui perto, na verdade. — ele estendeu a mão. — Sou o Haruto.
— Eu sou . — ela apertou a mão dele, como se estivessem em uma negociação de escritório. — Você é meu vizinho, então vou te ver sempre.
Os dois se despediram e voltou pedalando para casa, sentindo pela primeira vez o joelho ralado arder. Não queria mais chorar, estava se sentindo bem melhor. Conversar com alguém havia funcionado. Não sabia o que era ter um amigo além de seu tio.
— Onde você estava, ? — sua mãe exigiu logo na porta da sala. Parecia genuinamente preocupada.
— Eu fui dar um passeio de bicicleta e...
— Sabe quanto eu fiquei preocupada? — a mãe a interrompeu, irritada. — Quantas vezes eu disse para você não sair sem avisar? Você sabe o que poderia ter acontecido? Eu estava quase ligando para a polícia por notícias suas.
Só naquele momento, se deu conta do quão tarde era. Não pretendia ter demorado tanto, mas estava sem horas para saber quando voltar para casa e queria demorar o suficiente para que quando voltasse, não encontrasse mais a briga.
— Me desculpe, eu...
— Olhe para o seu joelho, está todo ralado. Você caiu?
— Eu estou bem, mãe. Sério. — ela tentou passar direto, mas a mãe ainda não havia terminado de falar.
— Eu não quero você na rua a essa hora e ainda por cima sozinha. Sabe o que pode ter acontecido?
— Eu não sou criança. — protestou.
— Nem maior de idade você é ainda. Só tem dezesseis anos, . — ela aumentou o tom de voz. — Dezesseis anos!
— Você queria que eu ficasse aqui ouvindo vocês dois brigando?
A expressão da mãe de murchou na hora.
— Você ouviu a briga?
— Eu sempre ouço, mãe. — ela confessou, com raiva. Os adultos, às vezes, pareciam mais ingênuos do que as crianças. — É impossível dormir com tanto barulho.
— Desculpa, . Vamos tentar evitar brigar dentro de casa.
— E onde mais vocês brigariam? Na rua? — falou, amargamente. — A futura prefeita de Kadoma não pode ter esse comportamento.
, pare aí mesmo. Não vou aceitar o seu desrespeito. Você não é assim.
— Talvez você não me conheça mais. — entrou em casa e tirou os sapatos, procurando logo pelo tio.
— Seu tio não está aqui.
— Nem ele aguenta viver aqui. — murmurou baixo e subiu para o quarto batendo o pé para que sua mãe visse seu desgosto.
Não queria agir como criança, não queria ser mal-agradecida, sua mãe havia sido incrível desde que a conheceu e sempre a tratou como uma filha biológica, mas as mães, às vezes, tinham seu próprio jeito de amar e não queria entender isso.
No quarto, ficou olhando para a casa ao lado pela janela com um pouco de ciúmes. A família de Yuto era enorme e eles sempre estavam brincando juntos do lado de fora quando a temperatura estava muito alta. Ele geralmente brincava com suas irmãs, mas também tinha outro irmão que não saía muito. Eles tomavam sorvete e andavam de bicicleta quando chegavam da escola. A casa deles não era tão grande quanto a sua e nem tão bonita, mas todo dia se pegava desejando estar na casa ao lado, brincando com aquelas crianças. Algumas vezes Yuto a flagrava olhando pela janela e acenava, com os olhos bem pequenos por causa do sol, mas quando isso acontecia, fechava a janela rapidamente e corria para a cama.
Na escola, ele a havia convidado inúmeras vezes para brincar com ele e os irmãos, mas sempre negava dizendo que preferia ficar em casa estudando. Yuto sabia que era mentira, mas continuava convidando-a e se sentando perto dela na sala. Ele parecia querer realmente ser seu amigo, mas tinha medo de se apegar a ele e ter que se mudar de novo, deixando-o para trás. Ficaria ainda com mais raiva de sua mãe, então sempre tentava se manter distante. gostava dele porque Yuto era gentil com todos e estava sempre sorrindo. Diferente dela, que parecia sempre infeliz.
— Você não precisa ficar com essa cara perto de mim. — ele dizia. — Eu sei que você quer rir da minha piada.
— Suas piadas são péssimas. — virou para o outro lado, tentando evitar o olhar dele para não rir da piada sem graça. Não conseguia ser dura com ele por muito tempo.
Estava escuro, mas ainda conseguia ver as luzes acesas na sala, com sombras se movendo. A mãe deles era sempre sorridente e simpática. Havia feito uma cesta de manju1 e levado para dar as boas-vindas à vizinhança, com um grande sorriso. Quem recebeu o presente foi , com um sorriso sem graça e as mãos suando. Agradeceu com uma reverência e voltou para dentro, sem nenhuma palavra, de tão envergonhada que ficou. O manju estava delicioso, ainda quentinho, recém-saído do forno.
Sua mãe não cozinhava. Ou eles comiam comida congelada ou seu tio cozinhava para elas. O sabor do manju era delicioso, nunca havia comido algo tão bom feito em casa. Pensou em pedir a receita para tentar fazer sozinha, mas desistiu da ideia automaticamente. Não tinha aquela coragem.
Fechou a cortina com o coração apertado de infelicidade. O joelho ardia, então usou o kit de primeiros socorros do banheiro para limpar os arranhões. Lembrou do garoto mais novo que a ajudara. Como chorou na manga da sua camisa e contou para ele segredos que nunca havia contado para ninguém. Como um confidente. De uma maneira estranha, sentiu que não seria traída pelo garotinho. Ela sabia que ele não contaria aquilo para ninguém. Pensou se um dia, voltaria a vê-lo. Deveria ser o vizinho da frente ou do lado.

Mais tarde daquele dia, quando ainda não havia conseguido dormir, ouviu a porta da frente se abrir e passos arrastados entrarem. Aquilo era muito familiar. Sabia que era seu tio, mas não se atreveu a levantar. A mãe a havia proibido terminantemente de sair do quarto quando seu tio chegava tarde depois do incidente quando ele chegou com um cheiro estranho e falando algumas coisas sem sentido.
Ouviu sua mãe falar algo – deveria estar acordada trabalhando em alguma coisa da campanha – e seu tio respondeu algo que não conseguiu entender. Mais algumas palavras depois e silêncio total.
Queria perguntar a seu tio o que ele fazia tão tarde da noite, porque ele e sua mãe estavam sempre brigando e porque sua mãe havia proibido sua saída do quarto quando ele chegava. Qual era o perigo que ela corria estando com ele e principalmente: por que ele não ia embora e se libertava de sua mãe?
Com as perguntas rodando em sua mente, pegou no sono e sonhou com uma vida feliz e normal que nunca poderia ter.


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1Manju: É um doce muito popular no Japão, em que o recheio é feito com feijão.

Capítulo Três

“Nada mais que possiblidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ser sol.”
(Rainer Maria Rilke)


— O que é isso? — perguntou, olhando desconfiada para o envelope que Yuto colocou em sua mesa.
— O convite para a minha festa de aniversário. — ele respondeu, sorridente como sempre.
— Eu não... Minha mãe...
— A minha mãe já pediu ao seu tio e ele deixou. — continuou olhando para o envelope, sem tocá-lo, como se dentro dele houvesse algum vírus mortal.
— Eu não vou. — voltou a terminar sua atividade, ignorando Yuto, mas ele não desistiu. Estava resignado em, finalmente, levá-la até sua casa.
— Vamos lá, . Todos da sala vão. É sua oportunidade de mostrar para todos que é diferente deles.
— Mas eu não quero provar nada para ninguém.
— Por favor, . — ele fez uma cara de cachorro abandonado e sorriu, se rendendo.
— Tudo bem, mas se for chato, eu vou embora.
— Ótimo, não vai ser. O dia e o horário estão no convite. Não precisa levar presente.
Mas levou. No dia e horário marcado, ela estava na porta da família Watanabe com um presente feito a mão e uma bandeja de daifukus1 feitos por seu tio. Foi Yuto quem abriu a porta e assim que a viu, sorriu.
! Você veio! — ela parecia genuinamente feliz pela presença de .
— Eu trouxe um presente e daifukus. — ele entregou as coisas para ele.
— Eu disse que não precisava. Venha, entre. Todo mundo já chegou.
entrou pela primeira vez a casa da família Watanabe. Na casa que ela admirava de longe todos dias pela janela do quarto. Por dentro era completamente diferente da sua própria. Bem menor e mais aconchegante. Tinha cheiro de comida gostosa e grama. Era exatamente como achou que seria. Sem troféus e certificados na parede, como a sua. Sem fotos de pessoas desconhecidas sorrindo apertando a mão de sua mãe. Apenas algumas fotos em família.
Yuto a conduziu para a mesa cercada de pessoas da sala deles. ficou automaticamente envergonhada.
veio! — alguém comentou e todos viraram a cabeça para olhar.
Ela cumprimentou todos com uma reverência. O sorriso que eles deram fez derreter a marulhada de gelo que ela tinha construído antes de aparecer.
— Venha, sente perto de mim.
Depois de alguns minutos, já estava completamente confortável com todos e conversando alegremente. Percebeu que os colegas da sala não eram tão ruins se ela deixasse de lado sua carranca.
A mãe de Yuto desceu com o bolo cheio de chantilly depois dele ter aberto todos os presentes. Cantaram os parabéns e comeram o bolo. Na hora de irem embora, o irmão mais novo de Yuto apareceu, com um sorriso, pedindo bolo.
Era Haruto.
— Você! — ela apontou.
-chan2.
Haruto correu e a abraçou como se fossem grandes amigos. Ele era um palmo menor que ela, mas parecia mais velho do que era. Yuto havia contado que Haruto tinha onze anos e suas irmãs gêmeas tinham treze, fazendo-o o mais velho.
— Eu não sabia que você era irmão do Watanabe. — ela revelou.
— E eu não sabia que você era colega dele.
— Nós somos vizinhos. — ele falou, feliz.
— Eu sei. Eu te vi com sua mãe saindo para a escola.
— Você conhece o meu irmão? — Yuto chegou perto dos dois, conversando.
— Nós nos encontramos uma vez. — Haruto justificou para o irmão mais velho.
— Ele me salvou, na verdade. — corrigiu. — Mas eu não sabia que ele era seu irmão.
— É porque eu sou muito mais bonito. — Yuto prendeu Haruto pelo pescoço com o braço e bagunçou o cabelo do irmão mais novo que, por sua vez, fez uma cara feia para a brincadeira.
Onii-san3! — Haruto reclamou e tentou escapar do aperto.
— Vamos andar de bicicleta, . — Yuto convidou.
— Acho que já está tarde para isso. — ela recusou, mas, naquele momento, era por um motivo real e não porque queria evitá-lo. — Podemos deixar para amanhã.
— Por que não vamos para a escola juntos de bicicleta?
quase respondeu automaticamente que não, mas depois repensou. Yuto havia sido tão legal com ela, convidando-a para sua festa de aniversário, mesmo quando eles ainda nem eram amigos, não seria problema ir para a escola com ele de bicicleta.
— Tudo bem. — ela acenou.
— Eu apareço na sua porta.
— Eu também quero andar de bicicleta com a -chan. — Haruto, pediu, descontente por ter sido deixado de fora da conversa.
— Conseguiremos andar juntos algum dia, Haruto. — ela se despediu dos dois e voltou para casa.
Assim que entrou, encontrou o tio jantando sozinho na cozinha, com as luzes apagadas. Sentiu seu coração entristecer, vendo-o parecer tão sozinho.
— Onde está a mamãe?
— Ela precisou ir para a prefeitura de Osaka. — sentou-se na frente dele.
— Ela viajou?
— Não é tão longe. Amanhã já estará de volta.
— Por que ela não me avisou nada?
— Ela não queria te tirar da festa para isso, mas não se preocupe. Será rápido.
não conseguiu deixar de ficar triste por sua mãe estar longe. Se perguntou se naquela posição, a mãe de Haruto e Yuto os levaria pela falta que sentiria por estar longe dos filhos.
— Como foi a festa? — ele mudou de assunto. — Ele gostou do presente?
— Eu não sabia muito do que ele gostava, então apostei no básico.
— Você é criativa, aposto que ele adorou. E os daifukus? Eles gostaram dos daifukus?
— Foi o maior sucesso, não sobrou nenhum. — riu ao lembrar das crianças brigando pelo último daifuku levado por ela.
— Parece que estar com seus colegas da escola te deixa feliz. — ele sorriu, ao ver o quão feliz sua sobrinha estava. — Geralmente você não consegue se enturmar muito bem.
— É porque o Yuto Watanabe é intrometido e não me deixa em paz. Ele acha que pode mudar meu jeito e me fazer mais... social.
— Você gosta dele? — sentiu as bochechas corarem violentamente.
O quê? Claro que não. — ela tratou de responder rapidamente.
— Não tem problema gostar dele. Vocês são jovens e ele me parece ser um garoto legal. Não ficaria contra.
Seu tio achava que sua resposta rápida havia sido uma tentativa de esconder seus sentimentos, mas na verdade aquele pensamento nunca havia passado pela cabeça de . Yuto era só um amigo, nada mais.
— Tio! Eu não gosto dele. Somos só amigos. De verdade.
— Se você diz... — o tio deu de ombros e rolou os olhos.
— Esqueça isso. Nunca vou namorar com ele.
— Nunca é uma palavra muito forte. — o tio caçoou e deu um olhar feio na direção dele.
— Vou dormir. Tchau.
— Boa noite, querida.

No dia seguinte, cumpriu sua promessa e foi de bicicleta com Yuto para a escola. Na verdade, não só naquele dia, mas em todos os dias depois dele. A medida em que os dias iam avançando, começou a se tornar amiga de Yuto. Os dois iam e voltavam juntos da escola de bicicleta, além de saírem juntos com os outros alunos. Yuto sempre levava um obentô4 a mais para ela comer junto com ele, preparado especialmente por sua mãe.
Ao mesmo tempo que ela se aproximava de Yuto e sua família, ela se afastava de sua mãe. A cada dia que passava, as eleições se aproximavam então sua mãe tinha que viajar com mais frequência para a prefeitura de Osaka e quase nunca estava em casa.
geralmente jantava com os Watanabe ou com seu tio. Passava mais tempo com os vizinhos do que em sua própria casa. Conversava e brincava muito com as gêmeas Momo e Rina e ainda mais com Haruto que sempre aparecia quando ela chegava. Ela gostava de conversar com ele sobre os mangás que estavam lendo e ajudá-lo nas atividades da escola. Desenvolveu um certo carinho por ele depois do dia em que se encontraram após ela cair de bicicleta. Ele nunca mencionou os segredos que uma vez ela o contou, então foi eternamente grata a ele.
Os irmãos eram muito parecidos. Todos eram amigáveis, gentis e bem-humorados. A mãe deles era do mesmo jeito. Sempre carinhosa e protetora. Não havia conhecido o pai deles por ele trabalhar fora, mas os irmãos Watanabe eram muito parecidos com a mãe. Ela se sentia acolhida e quase parte da família.
— Você vai namorar o onii-chan? — Momo perguntou um dia quando a mãe chamou Yuto para ajudá-la com os lanches na cozinha e deixou os outros filhos com na sala.
— O Yuto? — fez careta. — Nós somos só amigos.
— Vocês parecem namorados. — Momo falou.
— Ele te ajuda com a bicicleta. — Rina acrescentou.
— E sempre deixa você pegar o primeiro sanduíche de pepino.
— Ele ama katsusando5, mas dá a parte dele a você.
— Isso não faz ninguém namorado. — Haruto quase gritou, parecendo repentinamente bravo.
— Haruto tem razão. — concordou, tentando tirar aquela ideia da cabeça das garotas. — Isso não nos faz namorados.
— Mas significa que ele gosta de você. — Rina concluiu, quase sonhadora.
— Mas ela não gosta dele. — Haruto falou, ainda bravo.
— Você não sabe de nada, Haruto. Ainda é criança para entender isso. — Momo concordou com a irmã, mesmo as duas sendo apenas dois anos mais velhas do que ele.
— Eu não sou criança. — ele respondeu, na defensiva.
— Vocês deveriam namorar, -chan. — Rina aconselhou e se sentiu ficar vermelha.
— Não fale isso, onee-san6. — Haruto empurrou a irmã, irritado. — -chan disse que eles são só amigo.
— Se eles namorarem, ela seria nossa onee-san. — Momo replicou e a irmã concordou. As duas pareciam cópias uma da outra e não só na aparência.
— Eles não vão namorar.
Nenhuma das três garotas percebeu os ciúmes nas palavras do pequeno Haruto. Ninguém havia se dado conta em quão apaixonado ele estava por . Nem a própria. Ela pensava nele como um amigo querido que mesmo com a diferença de idade, significava muito para ela. Já para ele, era o seu primeiro amor.
— Eu não vou namorar com ele, Haruto. — , declarou. — Todos vocês são meus amigos. Inclusive o Yuto.
— Os lanches chegaram. — Yuto e a mãe entraram na sala carregando algumas bandejas.
— Sobre o que estavam conversando? — Yuto quis saber.
— Nada. — não conseguiu esconder a vergonha.
-chan está vermelha. — todos riram e ficou ainda mais vermelha.
— Vamos brincar lá fora? O sol está lindo. — Haruto convidou.
— Vamos comer primeiro. As frutas estão geladas — Yuto sentou perto de , no chão.
— Eles estavam te enchendo? — negou, com a boca cheia.
— Não, seus irmãos são ótimos.
— Eu estou feliz por você ser nossa amiga.
— Eu também estou feliz por ser amiga de vocês. — deu outra mordida na melancia e sorriu.


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1Daifukus: É um confeito japonês que consiste em pequenas bolas de mochi (bolinho de arroz glutinoso) recheado com algo doce, geralmente pasta de feijão vermelho adocicado feito de feijão-azuqui.
2Chan: É um honorífico de tratamento típica do idioma japonês, utilizada quando há uma relação muito afetuosa entre duas pessoas.
3Onii-san: Significa "irmão mais velho".
4 Obentô: É um tipo de marmita japonesa para uma pessoa. Contém tradicionalmente arroz, peixe ou carne e legumes cozidos ou em conserva como acompanhamento.
5Katsusando: É um sanduíche feito no pão de fôrma branco com tonkatsu: filé de porco à milanesa ao estilo japonês.
6Onee-san: Significa “irmã mais velha”.

Capítulo Quatro

“Até que o sol se vá, eu ainda tenho uma luz”
(Kurt Cobain)


— Sorria mais, . Parece até que você não queria estar aqui.
quase respondeu que não queria, mas, ao invés disso, apenas sorriu mais para as câmeras, mesmo com os flashs quase cegando-a.
Era o dia em que sua mãe oficializava a candidatura como prefeita de Kadoma, então haviam jornalistas em todos os lugares com suas câmeras e microfones no rosto dela. Ali, fazia o papel de filha perfeita sorrindo e acenando para todos, contato a história da sua adoção e como era grata a sua mãe pôr a ter adotado em um orfanato enquanto fazia trabalho voluntário no Brasil como assistente social. Como ela lutou com as autoridades japonesas para legalizá-la como sua filha e dá-la o título de cidadã japonesa. Era tudo verdade, mas a maneira que aquela história era usada parecia até sido feita de propósito.
— O vestido está apertado demais. — justificou.
— Servia perfeitamente há alguns meses. Você deveria comer menos dorayaki1. — aquele comentário azedou ainda mais o humor de .
As duas foram guiadas até o local onde a mãe de responderia às perguntas dos jornalistas. ficou em um canto com seu tio e os assessores da campanha. Ela só queria sentar e tirar aquela roupa apertada.
— Candidata Hirano, sabemos que você está competindo nesta eleição contra um candidato experiente e muito conhecido pela população. — um dos jornalistas perguntou. — Qual sua expectativa com relação a isso?
Por horas, ficou ouvindo sua mãe fazer propostas, prometer o mudo e convencer as pessoas do auditório que era nela que todos deveriam votar. Não podia negar que ela era carismática e inteligente. Conseguia responder com precisão e contornar aquilo que vinha contra ela.
No final da noite, todos estavam cansados e estressados. A mulher sorridente da coletiva virou novamente a mãe que ela tanto conhecia.
— Você deveria ter penteado melhor o cabelo. — ela começou assim que entraram no carro.
— Cheguei tarde da escola. — respondeu sem olhá-la.
— Você sabia que tínhamos um evento hoje, não deveria ter ido para a escola.
— Eu não vou faltar aula por sua causa, mãe. Meus estudos são importantes, você mesmo falou. — as duas se encararam, cada uma com sua expressão de mau humor.
— Você deveria ser mais grata pela posição que estou agora.
— Eu nunca pedi por isso. — resmungou, baixo.
— O que você disse? — sua mãe parecia mais irritada com ela a cada segundo. E não estava muito diferente dela.
— Disse que estou com fome. Não comi nada desde a manhã.
— Comeu tanto nos últimos dias que acabou ficando com o vestido apertado e ainda está reclamando de fome? — o comentário havia sido como um soco no estômago de .
— Eu só estou cansada.
— Você só precisa estudar e aparecer ao meu lado, . Não aja como se eu colocasse o peso do mundo em seus ombros.
engoliu as lágrimas. Não seja tão sensível, ela dizia para si mesma.
— Você é cruel. — disse, finalmente.
— O que você disse? — a mãe parou o carro e sentiu o coração acelerar. Nunca tinha tido coragem para falar aquilo em voz alta, mas estava como um balão de ar prestes a estourar.
— Você se tornou cruel. — ela admitiu novamente, sem saber de onde tinha tirado aquela coragem. — Quando o papai estava aqui, isso nunca aconteceu.
— Adivinha, ? Ele não está. Ele foi embora e eu acabei tendo que ficar com você.
— Tendo que ficar comigo? — nunca tinha ouvido palavras tão duras de sua mãe. Se arrependeu de ter incentivado aquela conversa. — Foi você quem me escolheu.
— Eu te escolhi e olha o que você se tornou. Uma filha mal-agradecida e desobediente que só sabe reclamar de tudo.
— Eu preferia estar com o meu tio. — gritou.
— E eu preferia que você não estivesse aqui.
Assim que as palavras saíram, Kaori Hirano se arrependeu de pronunciá-las, mas era tarde demais.
abriu a porta do carro e saiu correndo, sem destino. Sua mãe desceu do carro, assustada e gritando seu nome, mas correu até ser perdida de vista.
Primeiro correu sem saber onde estava, com as lágrimas molhando seu rosto, depois conseguiu se localizar e andou até o quarteirão da sua casa, ainda chorando. Parou na entrada da rua, sem querer ir para casa. Sua mente estava tão confusa com as palavras de sua mãe que ela não sabia o que fazer, nem o que falar. Estava machucada e magoada.
-chan? — enxugou as lágrimas rapidamente, envergonhada.
— Haruto? O que faz aqui há essa hora?
— Eu gosto de passear pela vizinhança à noite. Você está chorando? — negou com a cabeça, mas não conseguia parar de soluçar e fungar. — Quer que eu te acompanhe até a sua casa?
— Não quero ir para casa. — admitiu.
— Então vamos caminhar.
— Haruto, eu não...
— Caminhar ajuda, -chan. Sempre que brigo com meus irmãos, eu saio para caminhar perto de casa. O ar está ótimo hoje.
— Brigou com eles hoje?
Haruto concordou com a cabeça. Os dois começaram a caminhar no sentido oposto à rua deles, um ao lado do outro, sem falar nada, a princípio.
— Não gosto muito como meu pai trata a minha mãe quando chega do trabalho. Ela é gentil e ele usa algumas palavras ruins. — Haruto explicou.
— Seu pai é ruim com vocês? — ele negou com a cabeça.
— Ele faz isso com minha mãe poucas vezes, mas eu odeio. Meus irmãos acham que nós não deveríamos nos meter nesse assunto, mas eu não consigo ficar quieto quando vejo.
— Por isso vocês brigaram? — ele acenou.
— Por que você estava chorando? — tomou uma respiração profunda para começar a contar.
— Eu e minha mãe brigamos e eu fiquei magoada com ela. Falei coisas ruins para ela, mas ouvi outras coisas muito ruins também.
— E fugiu? — concordou com a cabeça.
Haruto parou, procurando algo no bolso da calça.
— O que foi?
— Aqui. — ele estendeu uma pequena embalagem para . — É chocolate. Eu guardei para depois do jantar.
— Você pode comer. — Haruto negou com a cabeça.
— Chocolate faz tudo ficar melhor. Pode comer. — pegou o chocolate e partiu o pequeno pedaço no meio, oferendo um deles a Haruto. Os dois comeram e riram juntos.
— Estou me sentindo melhor.
— Que bom. Eu também. — os dois continuaram caminhando juntos. — Você está muito bonita essa noite, -chan.
— Fui a um evento hoje com a minha mãe.
— Você vai aparecer na TV? — concordou e Haruto pareceu animado pelo fato de poder ver a amiga na televisão.
— Minha mãe disse que não queria que eu tivesse aqui. — Haruto continuou em silêncio esperando continuar falando. — Ela nunca falou algo assim para mim antes.
— Talvez ela apenas estivesse com raiva e...
— Não. — cortou. — Ela sempre quis isso. Ela disse.
— Eu sinto muito, -chan. Não quero que fique triste.
— Estar aqui com você me deixa feliz, Haruto.
Não havia outra coisa que Haruto queria ouvir além daquelas palavras. Não havia dúvidas do quanto ele estava apaixonado por ela.
— Não vou contar para ninguém. — ele garantiu.
— Eu sei. Eu confio em você. — eles deram a volta e começaram a voltar. — Sua mãe ficará preocupada se você demorar muito.
— Você vai ficar aqui sozinha?
— Eu também vou para casa. — a verdade era que ela não queria, mas sabia seus limites. — Já está tarde e amanhã temos aula.
— Não fique preocupada. Tudo vai se resolver.
— Obrigada pelo chocolate. Até amanhã.
Os dois se separaram e foram em direção as suas respectivas casas. O carro da mãe estava na garagem, mostrando a que a mãe já havia chegado.
? É você? — sua mãe se levantou assim que a porta se abriu.
— Sou eu. — trocou os sapatos e entrou, tentando ser silenciosa, mas a mãe já estava esperando por ela.
, eu... — sua mãe tentou, mas logo a interrompeu.
— Estou cansada, mãe. Vou dormir.
— Você chegou tarde. Onde estava? — simplesmente deu de ombros.
— Estava caminhando.
— Eu fiquei preocupada. — a mãe parecia mais calma do que no carro, mas era tarde demais. Aquelas palavras que estavam guardadas dentro dela já haviam saído e feito o estrago.
— Não vai acontecer de novo.
No quarto, tomou banho e deitou na cama, sem conseguir dormir. Pela primeira vez em todos aqueles anos, sua mãe a fez se sentir indesejada. sempre foi consciente sobre sua adoção e nunca teve problema com isso, mas aquelas palavras a fizeram se sentir como uma intrusa.
? Está dormindo?
Assim que a mãe bateu na porta do quarto, virou para o outro lado e fingiu estar dormindo. Isso não a impediu de entrar e sentar na beira da cama.
— Eu sinto muito pelo que disse, filha. É só que... às vezes eu sinto como se estivesse sozinha enfrentando o mundo e acabo perdendo o controle. Nunca quis dizer aquelas palavras para você. — a voz da mãe estava embargada, mas continuou fingindo que estava dormindo. Mesmo com os olhos cheios de lágrimas. — Eu nunca me arrependeria de ter te escolhido, . Foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Me desculpe por tudo. Sem seu pai é tão difícil... Eu me sinto tão sobrecarregada tentando ajudar outras pessoas que esqueço de cuidar de você. Mas eu te amo, filha. Te amo muito. Espero que você me perdoe. Você costumava me chamar de super-heroína, mas no final eu só sou uma humana e cometo erros também.
A mãe deu um beijo em sua cabeça e saiu do quarto. Só depois disso, ela pôde se permitir chorar. Ainda estava magoada, não sabia quando poderia perdoar a mãe. Só queria algo que nunca poderia ter. Uma família normal. Uma família como os Watanabe.
Chorou tanto que o travesseiro acabou encharcado de lágrimas. Não fez nenhum som porque não queria que sua mãe voltasse e quisesse conversar se descobrisse que ela estava acordada. Não teria nada nada para dizer. Provavelmente elas brigariam de novo.
Seu tio dizia que elas eram muito parecidas, por isso que estavam sempre brigando. não sabia se ser comparada com sua mãe era um elogio ou uma crítica.
A garota não dormiu bem naquela noite. As palavras de sua mãe rodavam sua mente. Tanto as palavras da briga, quanto suas palavras de desculpa. Eram quase duas pessoas diferentes.
Pensou em fugir de novo porque aquela casa a sufocava, mas não teria Haruto para conversar. Preferiu ficar ali até finalmente cair no sono.


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1Dorayaki: São panquecas doces japonesas.

Capítulo Cinco

“O sol de verão não foi para meninos como eu. Meninos como eu pertenciam à chuva”
(Benjamin Alire Sáenz)


Era agosto, então todos estavam ansiosos para o festival Tenjin Matsuri que acontecia todos os anos. Na semana anterior ao festival, todas as crianças só conversavam sobre os barcos e as lanternas que eram soltas para o poeta Sugawara-no-Michizane nos dias do festival. As garotas falavam sobre os kimonos que usariam e os garotos, sobre as embarcações que sairiam da cidade.
nunca participou de nenhum dia da festividade, por nunca ter amigos. Sua mãe sempre comparecia, mas ela ficava em casa com seu tio ou ia para ficar sentada com os adultos, junto com sua mãe, observando os outros se divertindo de longe.
— Você vai o festival Tenjin Matsuri com a gente? — Yuto perguntou, assim que a aula acabou.
— Não participo desse festival. — ela recusou automaticamente.
— Todo mundo que mora em Osaka participa desse festival.
— Vou ficar em casa com o meu tio. — justificou.
A verdade era que ninguém nunca a tinha convidado para ir ao festival. amava todos os festivais de verão japoneses que aconteciam na cidade, mas o festival Tenjin Matsuri era o seu favorito por conta da sua história para homenagear Tenjin, o deus patrono da aprendizagem e da arte. Amava a história por trás dele e a tradição vivida todos os anos.
— Em todos os dias do festival? — ele levantou uma sobrancelha para ela, com um sorriso. não conseguiu resistir por muito tempo.
— Você vai com sua família? — Yuto acenou.
— Eu e meus irmãos vamos juntos todos os anos. Quando fiz 13 anos, minha mãe me deixou levá-los sozinho. Você vai com a gente?
— Sim. — acenou, alegremente, tentando reprimir o sorriso.
— Participamos todos os dias. Você só precisa estar pronta no pôr do sol que passamos para buscá-la.
Quando chegou em casa, foi diretamente para o tio, pedir para que ele fosse com ela comprar um novo kimono, porque o que tinha já não cabia mais. A última vez que tinha usado, seus peitos ainda não haviam crescido e ela media dez centímetros a menos.
— Você vai participar do festival Tenjin Matsuri esse ano? — foi a resposta de seu tio para o pedido.
— Sim, vou com a família Watanabe.
— Podemos comprar o seu kimono amanhã depois da escola. — estava ansiosa, imaginando o tipo que escolheria e como pentearia o cabelo. — Quando era mais novo, meus pais sempre me levavam para os festivais de verão, mas o festival Tenjin Matsuri é o melhor da estação.
— Eu gosto das apresentações de teatro com as máscaras. E os dragões de papel.
— Você vai se divertir muito com seus amigos. Agora, vá trocar seus sapatos. Se sua mãe te pegar com esses sapatos dentro de casa, ela vai te fazer limpar o chão até seus braços caírem. — riu e correu para trocar os sapatos que tinha esquecido.
Estava de bom humor, mesmo depois da briga com a mãe. Só de imaginar que, na semana seguinte, estaria se divertindo com os artistas de rua e comendo os caramelos em forma de figuras no palito, não conseguia ficar triste ou chateada.
Dormiu, pensando naquilo e no dia seguinte, na hora marcada, estava pronta para encontrar o kimono adequado para a festa.
— Gosto de vê-la assim sorridente. — seu tio comentou quando saíram da primeira loja, depois de experimentarem os kimonos e decidirem procurar em outra.
— Nunca achei que teria companhia para um festival.
— Você sempre teve a minha.
— Você não conta. Adultos não são companhia, são responsáveis. — falou e eu tio bufou, fingindo indignação.
Ei! Eu servi muito bem como companhia durante todos esses anos. Agora que você conseguiu fazer amigos, está me rejeitando?
— Claro que não. — ela pulou e o agarrou pelo pescoço, dando um abraço apertado. — Eu vou até deixar você pentear o meu cabelo no dia do festival.
— Você quer me deixar com os trabalhos mais difíceis, não é? Isso é ser uma aproveitadora. Quando você se tornou esse tipo de pessoa?
Rindo, os dois entraram na loja seguinte. Cumprimentaram a atendente com uma reverência e ela os levou até o cabide com os kimonos do tamanho dela pendurados. Os olhos de brilharam. Aquela loja tinha muito mais modelos e cores do que a anterior.
Ela escolheu um vermelho, um amarelo, um laranja e um rosa para experimentar. Seu tio ficou sentado do lado de fora do provador, enquanto ela se trocava. Ele aplaudiu e elogiou cada vez que ela saía do provador com uma cor diferente. Parecia tão entusiasmado quando ela. No final, escolheu o vermelho, com flores pretas e brancas na barra e nas mangas. O cinto largo era da mesma cor, com o mesmo bordado.
Para provar os sapatos, ela se sentiu como a própria Cinderela, enquanto seu tio tirava e colocava os modelos para que ela pudesse escolher. Juntos, escolheram um modelo de pano branco e preto, junto com a tabi1 que usaria por baixo. A atendente simpática que os ajudou, gostou tanto do entusiasmo de que a presenteou com um conjunto de kanzashi2 de flores iguais ao seu kimono e um sensu3 vermelho, explicando como ela poderia arrumar o cabelo.

Dizem que quando estamos ansiosos por alguma coisa, o tempo passo mais rápido. Bom, para , a semana passou como um piscar de olhos e o primeiro dia do festival chegou.
No dia marcado com Yuto, ela terminou suas tarefas mais cedo e ajudou seu tio na cozinha, para que ele tivesse tempo de ajudá-la a se arrumar. Estavam quase terminando o jantar quando sua mãe chegou.
— Vi o kimono que você comprou, para onde vai? — quase a ignorou, mas o olhar firme do seu tio a fez revirar os olhos e responder a contragosto.
— Vou sair com meus amigos.
— Vai para o festival Tenjin Matsuri essa noite? — respondeu concordando com a cabeça, sem olhar para mãe.
— Você sempre reclamou quando eu te levava e agora está indo com seus amigos? — a garota não achou que a mãe merecia uma resposta diferente do que a que preparou para dar.
— Eu não gostava de ir com você, gosto de ir com eles.
lavou as mãos e saiu da cozinha e indo para o quarto, para manter uma maior distância de sua mãe e não falar mais coisas indevidas.
Ainda estava magoada por suas palavras duras. Provavelmente nunca esquecia o que sua mãe havia falado sobre sua adoção. se sentia indesejada e rejeitada, como nunca tinha acontecido antes.
— Você não acha que está sendo muito dura com a sua mãe? — seu tio entrou no quarto, encontrando-a na frente do espelho, terminando de se vestir.
— Ela está tentando agir como se nada tivesse acontecido. — falou, prendendo a roupa e ajeitado o cinto. Seu tio se posicionou atrás dela para ajudá-la com os laços.
— Ela está tentando fazer você seguir em frente e esquecer o que aconteceu.
— Acho que nunca vou esquecer.
Seu tio terminou de amarrar o cinto e sentou na frente da penteadeira para que ele arrumasse seu cabelo. Por ter o cabelo cacheado, ele precisou usar muito a escova para alisá-lo e conseguir prendê-lo em um coque no topo da cabeça, usando o conjunto de kanzashi para manter os cachos teimosos no lugar.
Enquanto se encarava no espelho, se sentiu estranha. Seus traços eram totalmente diferentes dos do seu tio. Seus olhos eram enormes e redondos, seu cabelo totalmente cacheado e a cor da pele mais escura do que a dele. Mesmo vestida com as roupas tradicionais, não se sentia parte daquela tradição.
— Tio...
— O que foi, ? — ele ainda estava tentando arrumar seu cabelo, quando ela o chamou, tímida pela pergunta que estava prestes a fazer.
— É muito ruim ser diferente dos outros?
— O que você quer dizer?
— Nós somos completamente diferentes um do outro. E mesmo com o sobrenome da família e a cidadania japonesa, eu... Eu sei que não sou como vocês. — aquelas palavras foram suficiente para fazer seu tio parar o que estava fazendo e se abaixar até o nível dos olhos de .
— As crianças falaram alguma coisa na escola? — negou com a cabeça. — Foi o que sua mãe disse? — dessa vez, ela nem negou e nem concordou. — , o que sua mãe sempre diz?
— Nós não temos o mesmo sangue, mas temos o mesmo coração.
— Você sabe que nós somos uma família. Nada mais importa além disso. Não pense sobre isso, . Achei que você já tinha entendido isso na nossa última conversa.
A conversa havia sido há dois anos, em uma situação parecida com aquela. sempre se mostrava muito confiante e independente diante dos comentários das pessoas sobre ser diferente, mas, na verdade, aquilo sempre deixava dúvidas em sua cabeça.
— Você entendeu, ?
— Entendi...
— Olhe para mim. — ela levantou a cabeça, envergonhada. — Quero que repita comigo: não é ruim ser diferente.
— Não é ruim ser diferente. — repetiu, baixo.
— Não senti muita firmeza na sua voz.
— Não é ruim ser diferente. — ela falou mais alto, com firmeza, acreditando em suas palavras. Não precisava ser igual para fazer parte de algo. “Não é ruim ser diferente”. Era uma barreira contra as palavras ruins de sua mãe. Funcionava como um escudo protetor.
— Eu nunca mais quero escutar aquelas palavras da sua boca, entendeu? Olhe como você está linda. — ele apontou para ela mesma no espelho. — Veja como você não precisa de cabelos, pele ou olhos diferentes para ficar bonita. Não deixe ninguém te fazer acreditar no contrário.
— Obrigada.
— Não quero te ver triste por causa disso de novo. Quero que você fique animada novamente por causa do festival. Se não, não vou poder te dar o que tenho guardado. — seu humor melhorou no mesmo instante.
— O que é? — o tio tirou do bolso várias notas e colocou na mão de .
— Você pode gastar com o que quiser essa noite. — olhou para os ienes e pensou na quantidade de guloseimas que poderia comer naquela noite com o dinheiro. Ou todas as lanternas bonitas que poderia comprar para soltar com pedidos.
— Eu posso gastar tudo? — seu tio concordou, rindo.
— Mas não conte para a sua mãe. Você sabe que ela não gosta que você coma coisas ruins na rua. — os dois se olharam como se estivessem trocando o maior dos segredos.
Finalizada a arruação, calçou os sapatos, pegou sua bolsinha, o sensu e foi encontrar seus amigos, soprando beijos de despedida para o seu tio. Quando pisou na varanda, o olhar que recebeu os Watanabe foi suficiente para esquecer o que havia pensado sobre si mesma.
— Você está linda, -chan. — Haruto foi o primeiro a falar. Yuto apenas abaixou a vista, encabulado.
-chan, está parecendo uma princesa. — Momo e Rina correram ao seu encontro, elogiando seu cabelo, seu kimono e seus acessórios.
Todos os quatro estavam vestidos iguais a ela, com kimonos de cores únicas e acessórios bonitos. Os garotos usavam sandálias e madeira e as garotas usavam enfeites de cabelo iguais. se sentiu confortável perto deles, não se sentia mais diferente ou inconveniente.
Rina e Momo deram o braço a ela, uma de cada lado e os garotos foram seguindo atrás, como se estivessem na retaguarda. Assim que entraram na rua principal, conseguiram enxergar as lanternas dentro das embarcações. Os homens mais velhos, remavam e as moças jogavam seus lenços, como se estivessem nos tempos antigos. Os donos das barraquinhas brilhavam, chamando os clientes para comerem takoyaki e doces no palito. Os grupos de dança já se apresentavam na rua com máscaras assustadoras e o teatro estava prestes a começar.
— Vamos comprar doces, -chan! — Momo puxou para a barraca mais próxima e os outros se aproximaram para escolher seus doces.
Eles comeram sentados no chão, assistindo ao teatro e rindo das peças cômicas. aplaudiu com entusiasmo quando os atores agradeceram à plateia.
— Olhem! Já vão soltar as lanternas! — Haruto gritou e todos foram correndo até a barraca mais próxima, comprar suas lanternas de papel que seriam soltas no ar.
— Você precisa escrever um desejo. — Yuto explicou ao seu lado, quando ela recebeu sua lanterna e o pincel com tinta preta.
— Eu sei. — Haruto, Momo e Rina já estavam escrevendo seus desejos em suas caligrafias infantis.
— O que você vai pedir? — balançou um dedo para ele.
— Não posso contar, se não, não se realiza. — Yuto deu de ombros e virou para escrever seu desejo em segredo.
tinha muitas coisas para pedir, desejos para se realizar era o que não faltava, mas quando colocou no pincel no papel, as palavras foram escritas quase por si só.
Eu quero que esse dia dure para sempre.
Juntamente com a multidão, as cinco crianças, com sorrisos largos no rosto e doces sem suas mãos, viram suas lanternas voarem para longe com seus desejos, acreditando que eles se tornariam reais.


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1Tabi: Tradicional “meia” japonesa que têm os dedos divididos.
2Kanzashi: Nome dado ao ornamento que acompanha e adorna os penteados japoneses tradicionais.
3Sensu: Leque dobrável japonês.


Capítulo Seis

“É sempre assim com as coisas que os homens começam; há uma geada na primavera, ou uma praga no verão, e suas promessas fracassam.”
(R.R. Tolkien)


Yuto havia avisado no dia anterior que não iria estudar naquele dia porque visitaria o médico com a mãe. ficou preocupada com a possibilidade de ele estar doente, mas o garoto garantiu que era só um exame de rotina.
pedalou sozinha até a escola. Em uma sinaleira, ela precisou parar para a passagem do bondinho. Enquanto esperava o sinal ficar verde, viu ao longe algumas crianças com a farda da escola do ensino fundamental ao lado da sua. Passaria direto, se não tivesse reconhecido um deles.
– Haruto?
Ela pedalou em direção aos garotos e antes de conseguir alcançá-los, viu um deles jogar Haruto no chão, violentamente. largou a bicicleta rapidamente e correu até Haruto.
– Você está bem? – ela o ajudou a se levantar e recuperar sua mochila no chão.
-chan...
Haruto tinha o lábio partido e um olho roxo, além de ambas as mãos arranhadas por causa da queda. Ficou horrorizada com aquela cena. Nunca achou que Haruto poderia ser o tipo de criança que sofria bullying na escola. Ele era tão quieto e maduro que parecia não incomodar ninguém.
– Você está bem? – ele concordou com a cabeça e ela se virou para os garotos que haviam batido nele. – O que vocês acham que estão fazendo?
– Isso não é problema seu. – um dos garotos falou, com falta de respeito.
– Se vocês estão mexendo com o meu amigo, então é problema meu.
– Acha que pode nos enfrentar?
– Você é só uma garotinha.
Sem conseguir se controlar, socou o rosto do garoto na sua frente. Ele caiu no chão e os outros foram tentar socorrê-lo.
-chan! – Haruto gritou e olhou para o próprio punho.
O que ela havia acabado de fazer?
Ei, você! – um policial viu a cena de longe e o olhou, assustada. – Está batendo em garotos mais novos?
– Não. – Haruto tentou defender. – Ela só estava me...
– Não quero ouvir, garoto. Você – ele apontou para , furiosamente. – venha comigo!
O policial escoltou até a escola, com Haruto no encalço, tentando justificar a atitude da amiga, mas ela sabia que já estava perdida. Quando deu por si, ela já estava na sala da diretora, esperando ao lado de Haruto enquanto sua mãe conversava com a diretora.
-chan, me desculpe. – Haruto falou e segurou a mão machucada dele para tranquilizá-lo.
– Você não tem culpa de nada, Haruto. – ela mesma não conseguia se tranquilizar. Não conseguia entender porque havia feito aquilo para defender Haruto, mas teria consequência pela expressão furiosa de sua mãe quando chegou à escola.
– Não consegui me defender sozinho. – Haruto penalizou, triste.
– Haruto, já disse que não foi sua culpa.
– Mas você vai acabar punida por causa de mim.
– Você deveria ir para a aula. – Haruto negou com a cabeça.
– Eu não posso te deixar sozinha aqui.
– Eu vou ficar bem.
Assim que a porta da diretoria foi aberta, o coração de gelou. Sua mãe não parecia feliz, muito pelo contrário.
– Você fez isso para se vingar do que falei na semana passada? – parecia que ela não esperaria chegar em casa para explodir sua raiva.
– Mãe, eu...
– Não, . Hoje você ultrapassou todos os limites. Sabe a vergonha e humilhação que me fez passar, tirada de uma reunião para vir aqui porque minha filha bateu em uma criança?
– Eu não...
– Você quer destruir a minha candidatura? – ela gritou e se encolheu. – Acabar com a eleição?
– Me desculpe, mãe. – sentiu Haruto apertar ainda mais sua mão. Ele não ousou levantar a cabeça.
– Você me odeia, ?
– O quê? – ela levantou a cabeça rapidamente. Era aquilo que sua mão pensava? Que tudo havia sido de propósito, como uma vingança? – Claro que não, mãe.
– Por que está fazendo isso comigo? – prendeu a respiração para impedir as lágrimas caírem.
– A -chan não... – Haruto tentou explicar, mas a mãe de não queria ouvir nenhuma explicação. Nada poderia mudar sua mente.
– Haruto, eu não preciso de nenhuma justificativa. Você deveria ir colocar um gelo nesse olho para não inchar. Vamos, .
soltou a mão de Haruto e se levantou, como se levasse o peso do mundo todo sobre ombros. Ela já estava se sentindo culpada, mas sua mãe a fez se sentir pior ainda.
– Não fique triste ou se sinta culpado. – ela pediu a Haruto. – Nós não tivemos culpa de nada, eles que deveriam ser punidos. Ligue para sua mãe vir te buscar.
– Tudo bem. – eles se despediram e seguiu sua mãe para fora.
– Você está proibida de andar com os Watanabe a partir de hoje. – foi a primeira coisa que sua mãe falou quando entraram no carro.
– Mãe! Eles não tiveram culpa de nada, Haruto não fez nada. A escolha foi minha, foi eu quem bati no garoto. Ele não tem culpa.
– Não desobedeça, . – falou ainda mais firme, com a mesma voz que usava para falar com aqueles que faziam alguma coisa errada no trabalho. – Eu quero que você fique em casa e foque nos estudos. Sua família sou eu, e não eles.
se sentiu indignada. Como ela podia falar uma coisa daquele tipo? Como ela podia dizer que era a família de , quando ela nem queria aquele papel?
– Eu fico onde as pessoas gostam de mim. – respondeu, ficando automaticamente com raiva. – Onde me querem.
– Isso é por causa de ontem?
– Isso é por causa de todos os dias.
As duas voltaram para casa sem se falar. subiu para o quarto e bateu a porta com força. Seu tio entrou pouco tempo depois, sabendo que algo havia acontecido.
– Trouxe o sanduíche de pepino que você gosta. – ele anunciou.
– Não estou com fome.
Ele colocou o prato em cima da cômoda e sentou na cama. jogou o cobertor por cima da cabeça, mostrando que não queria falar com ele.
– Você ganhou um dia para pensar sobre o que fez, mas amanhã pode voltar a estudar normalmente. – não respondeu. – Quer me contar o que aconteceu?
– Minha mãe está mais disposta a contar. – falou, ressentida. – Parece que ela tem muita coisa para falar.
– Eu quero ouvir de você. – tirou o cobertor da cabeça e olhou para o tio.
– Eu bati em uma pessoa.
– Tudo bem. Violência nunca é justificativa, mas a pessoa mereceu?
– Ele bateu no meu amigo. – justificou. – Eu não consegui me controlar, mas isso não teve nada a ver com a mamãe. Eu não fiz para provocar ou para acabar com a eleição, eu juro.
– Sua mãe está estressada com a eleição. – seu tio sempre saía em defesa de sua mãe, mesmo depois de todas as palavras duras que eles trocavam em suas brigas.
– Não é justificativa para ela agir assim. Parece que ela me odeia.
– Não pense isso, algumas coisas não são em preto e branco. Lembre-se de tudo de bom que ela já fez.
– Está defendendo ela? – acusou.
, as coisas não são assim. Não pense nela desse jeito. Entenda que essa atitude sua é muito nova para ela. Você nunca agiu desse jeito antes e ela ficou muito surpresa.
– Não foi de propósito, eu juro.
– Eu acredito em você, . Sei que foi uma ação sem precedentes, mas continua tendo sido errado. Diferente de quem você é normalmente. Você está passando pela fase da adolescência, é compreensível, mas é difícil para ela. Lembre-se que você é sua primeira filha.
– Eu não estou tentando justificar o que fiz, só queria que ela ficasse ao meu lado. Não me acusasse como ela fez. – o tio levantou da cama e deu um beijo em sua cabeça.
– Descanse um pouco hoje. Amanhã essa situação vai ter passado.

passou o dia todo dentro de casa evitando a mãe. Leu um pouco, fez atividades da escola e aprendeu a fazer mandus com seu tio. Amava cozinhar com ele, fazia tudo de ruim desaparecer.
Era quase noite quando ela estava deitada na cama e ouviu um barulho de algo batendo em sua janela e se levantou para saber o que era.
– Haruto?
O garoto estava em seu quintal com as mãos cheias de pedras. Ele fez sinal para ela descer. vestiu um casaco e trocou os sapatos, antes de sair ao encontro dele.
– Como você está? – Haruto não deu tempo para perguntar nada.
– Me mandaram para casa hoje, mas amanhã poderei voltar. Como está o seu machucado? – Haruto tocou o pequeno curativo na boca. O olho não parecia tão ruim.
– Eu estou bem, não se preocupe.
– Sua mãe foi te buscar? – Haruto concordou com a cabeça.
– Ela conversou com o diretor da minha escola, mas não está bem com o que aconteceu. E a sua mãe? Ela ficou chateada com você? – negou com a cabeça.
– Nós não estamos nos falando desde ontem. – confessou, triste. Odiava brigar com sua mãe. – As coisas não estão boas entre nós.
– Foi por causa de ontem? Me perdoe.
– Haruto, pare de se desculpar. A culpa não foi sua, eu juro. Acredite em mim, de verdade.
– Obrigada pelo que você fez por mim. Nunca fui defendido desse jeito. Você é a minha melhor amiga. – abraçou Haruto.
– Você também é o meu melhor amigo. Mesmo você sendo muito mais novo que eu, você é maduro para a sua idade. Sinto que posso confiar em você.
– Obrigada, eu acho. Minha mãe também ficou grata pelo que você fez. Ela queria vir até sua casa, mas temeu a reação da sua mãe, então preferiu deixar para agradecer depois.
– E porque você veio?
– Eu fugi. – não conseguiu segurar a risada. – Precisava ver como você estava. Fiquei preocupado.
– Você é muito jovem para ficar preocupado com coisas assim. – Haruto se sentia intimamente incomodado quando deixava evidente o quão novo ele era.
– Eu não sou uma criança, -chan.
– Você ainda tem muito o que aprender.
– Eu também posso defendê-la. – levantou uma sobrancelha para aquela afirmação.
– Não vá bater em ninguém por mim. O que eu fiz foi errado, você não deve copiar. Talvez eu seja um mal exemplo para você...
– Se arrepende por ter me defendido? – ela negou com a cabeça.
– Não, eu faria tudo novamente. Nunca te deixaria sozinho se precisasse de mim. Mas preciso pensar melhor antes de tomar uma iniciativa.
– Você quer saber o que aconteceu para eles terem me macucado? – Haruto perguntou, olhando para os sapatos, envergonhado.
– Não importa o que tenha acontecido. – deu um tapinha nas costas dele, confortando-o. – Eu defenderia você em qualquer situação.
– Você é a melhor pessoa que eu já conheci, -chan.
– Conhecer você e a sua família me fez melhor.


Capítulo Sete

“As lembranças ensolaradas e cheias de calor daquele verão me ajudarão a suportar o frio até a primavera.”
(Ruta Sepetys)


O dia não começou bem, mesmo sendo verão. O céu não estava tão bonito, como geralmente estava naquela estação, com algumas nuvens escuras. e sua mãe tomaram café da manhã juntas depois de muito tempo, mas sem nenhuma palavra de uma para a outra. Pareciam duas desconhecidas, mas achou que daquele jeito seria melhor. Pegou a mochila e foi encontrar Yuto.
– Você não parece doente. – ela observou.
– Já disse que não estou doente, foi só um exame de rotina. Não me diga que sentiu tanto minha falta. – revirou os olhos.
– Não senti nenhum pouco. – Yuto fez cara de ofendida. – Na verdade, aproveitei muito.
– Assim você me magoa.
Em nenhum momento durante o percurso para a escola, ele tocou no assunto do que tinha acontecido no dia anterior com seu irmão. se sentiu agradecida, porque, ele com certeza sabia.
– Está tudo bem com você, não está?
– Não se preocupe, eu não vou embora tão cedo. Ainda preciso fazer você me contar seus segredos. – ele brincou e riu.
– E quem disse que você vai conseguir?
– Eu sou persistente. Se não conseguir isso, pelo menos preciso conseguir que você saia comigo. – perdeu o riso na hora e quase caiu da bicicleta.
– Sair com você? Em um encontro?
Yuto apenas riu e acelerou a bicicleta. acelerou as pedaladas para alcançá-lo. Yuto havia acabado de convidá-la para sair? Mas ela nem gostava dele daquele jeito. Será que ele entenderia errado a recusa dela? Eles ainda conseguiriam continuar como amigos?
Assim que trancaram as bicicletas no estacionamento da escola, ele correu para longe dela.
– Vamos, ! – ele gritou e ela correu atrás dele, ainda abalada pelo convite.
– Yuto, espera. – ela perdeu o fôlego antes de chegar na entrada e ele precisou voltar para encontrá-la. – O que você falou... – tentou normalizar a respiração. – Sobre...
– Sobre sair comigo em um encontro? – ela acenou. – Você que sair em um encontro comigo?
– Não é isso, é que... Eu apenas... – Yuto riu alto.
– Não precisa surtar, . Eu gosto de você e estou te chamando para sair. – não sabia se seu coração estava disparado por causa da corrida ou por causa daquela declaração.
– Você... Eu... O quê?
– Não precisa responder agora. Vamos para a aula.
Ele a segurou pelo braço e a arrastou para a sala. ainda estava atordoada pelo que havia ouvido. Yuto havia se confessado para ela. Nunca esperava que aquilo acontecesse.
, espere um momento. – alguém chamou, enquanto Yuto ainda a arrastava pelo braço.
– Yamamoto-sensei. – os dois pararam e fizeram uma reverência para o professor.
– A diretora precisa falar com você. – ele avisou.
– Quer que eu vá com você? – estava pronta para negar, quando o professor respondeu por ela.
– Eu vou acompanhá-la, Watanabe. Pode ir para a sala, a aula já vai começar.
– Pode ir na frente. – acompanhou o professor até a diretoria.
– Ela está esperando por você. – a secretária pediu para entrar e ela logo sentiu o suor se acumulando nas palmas.
– Bom dia, . – a diretora a cumprimentou. – Pode sentar.
sentiu o frio na barriga do nervosismo, mesmo sabendo que a diretora não teria coragem de aplicar nenhuma punição por causa de sua mãe.
– Queria te garantir que todas as medidas foram tomadas juntamente com a Moriko School para que todos os envolvidos na situação de ontem, tenham as consequências aplicadas.
– Entendo. – por um segundo achou que sua mãe a deixaria ser punida.
– Ninguém comentará sobre o que aconteceu e eu peço que você faça o mesmo. Não há necessidade de trazer à tona o que não vale mais a pena. A prefeita Hirano sugeriu que você fizesse aulas de reforço depois da aula a partir de hoje – sabia muito bem o porquê do reforço. – Não encare isso como uma punição, você é uma ótima aluna. Tenha certeza que só vai te ajudar.
– Obrigada. Posso voltar para a aula?
– Sua mãe pensa muito no seu futuro. Ela é uma ótima mãe, não esqueça de ser grata. – teve que se controlar para não responder de maneira grosseira. Ela sabia que era óbvio o fato de ser adotada, mas o comentário da diretora havia sido inadmissível.
– Obrigada, vou voltar agora. – saiu da sala remoendo aquilo.
– Você está com problema? – Yuto quis saber, assim que ela voltou para a sala. negou com a cabeça. – Parece que você está.
– Eu terei que fazer reforço depois da aula.
– Se você quiser, posso te esperar e...
– Não, tudo bem. – negou. – Você pode ir na frente, nos vemos amanhã.
– No mesmo horário? – concordou com a cabeça.
Depois da aula, se sentou sozinha debaixo de uma das árvores do lado externo da escola para comer seu sanduíche preparado pelo tio. Estava tão cercada pela família Watanabe que, longe deles, se sentia estranha, como a velha . Até parecia que sua mãe queria que ela fosse solitária. Provavelmente porque ela não conhecia a terrível sensação de estar sozinha.
– Por que quis se aproximar de mim? – perguntou a Yuto em uma ocasião quando estavam na casa dele, esperando por seus irmãos para saírem de bicicleta.
– Você tem esse olhar.
– Que olhar? – quis saber.
– De que precisava de um amigo.
– Está dizendo que eu parecia solitária? – Yuto concordou com a cabeça. – E quis ser meu amigo por pena?
– Eu quis ser seu amigo porque aconteceu assim, não por pena ou outra coisa.
Aquela resposta não era clara, mas era o suficiente. desejou que um deles estivesse ali para não se sentir mais tão sozinha.


Assistiu a aula de reforço com o professor Yamamoto e outros alunos. Não achou que demoraria tanto, mas quando saiu da escola, o sol já estava se pondo. Sua mãe havia armado tudo perfeitamente para afastá-la dos Watanabe, como se o problema estivesse com eles.
Pedalou sozinha para casa com uma péssima sensação sobre aquele dia. Quanto mais ia se aproximando de casa, mais a sensação ia piorando, até entrar em seu quarteirão.
Ouviu as sirenes de alguma coisa. Pedalou mais rápido na direção do som, até chegarem em casa. Primeiramente achou que algo havia acontecido com a sua família por conta da quantidade de carros, mas, olhando bem, percebeu que a aglomeração era no jardim dos Watanabe.
largou a bicicleta no chão e correu para descobrir o que estava acontecendo. Alguns policiais tentaram barrar sua passagem, mas ela conseguiu ver a mãe de seus amigos se desfazendo em lágrimas nos braços de alguém que ela não conhecia. Tentou olhar por cima do ombro de alguém, mas era baixa demais. Alguns vizinhos começaram a se aproximar, preocupados. sabia que algo grave havia acontecido.
– O que está acontecendo? – perguntou para a pessoa mais próxima.
– Você não pode ficar aqui. – um adulto ao lado dela falou.
– Eu quero saber o que está acontecendo. Eles são meus vizinhos, são meus amigos. – tentou procurar Haruto, Yuto ou mesmo as gêmeas, mas não conseguiu encontrá-los. No meio da confusão, ela teve um vislumbre de sua mãe passando. – Mãe!
? – sua mãe surgiu por entre as pessoas que barravam sua entrada, mas parecia visivelmente perturbada. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto machado de lágrimas e o cabelo que geralmente só alinhado, escapava do coque na frente do rosto.
– O que aconteceu?
– O que você está fazendo aqui?
– Mãe, o que está acontecendo?
– Você não pode ficar aqui, . Vá para casa, depois eu te explico.
A voz de sua mãe estava firme e, pelo olhar que recebeu, se deu por vencida e pegou a bicicleta, voltando para casa. Não conseguiu nem ao menos tomar banho de tão preocupada. Tentou enxergar alguma coisa da janela do quarto, mas não conseguia ver nada.
– Tio? – procurou pelo tio. – Você está aqui? Tio?
Não havia ninguém em casa. Ficou andando de um lado para o outro, esperado a mãe chegar em casa e explicar o que havia acontecido na casa dos seus amigos. Queria estar lá com os Watanabe, dando apoio aos seus amigos, não em sua própria casa, como se nada tivesse acontecido. Não sabia quanto tempo ficou esperando, mas quando finalmente a porta da frente se abriu, já estava sonolenta no sofá.
, vá dormir em seu quarto. – foi a única coisa que ela falou.
– Mãe? – ela se levantou. – O que aconteceu?
– Eu vou...
Sua mãe não completou a frase, apenas se retirou para o escritório. correu atrás dela, mas a porta da sala foi fechada, indicando que sua mãe não queria a entrada de ninguém. ouviu o som de choro pouco tempo depois e não conseguiu esperar. Abriu a porta e foi ao encontro de sua mãe.
– Mãe? Está tudo bem? – era a segunda vez que havia visto sua mãe chorar. A primeira foi há onze anos, quando seu pai morreu. Era assustador.
, não fique aqui. – ela pediu, com o rosto enterrado nas mãos. – Vá para o seu quarto.
– O que aconteceu? Por favor, me diga.
– O seu amigo morreu. – ficou confusa por um momento.
– Amigo? Que amigo?
– Yuto Watanabe. – não sabia o que responder. Não havia processado a informação. – Ele foi atropelado. Está morto.
– Yuto? – sentiu a garganta tampando e o nariz pinicando. Os olhos começaram a encher de lágrimas. – O meu Yuto está morto?
Aquilo não era possível. Estava com ele há poucas horas, na escola. Ele havia a convidado para sair, estava animado e sorridente. Ele havia voltado para casa. Não poderia estar morto. achou que era apenas uma brincadeira sem graça, uma pegadinha daqueles programas ruins de televisão. Yuto não poderia estar morto. Ele era apenas uma criança.
– Eu sinto muito, . – a mãe pediu, olhando para ela com os olhos quebrados. – Eu sinto muito.
– Eu... Não... Apenas... – ela não conseguia pensar, não conseguia entender o que estava ouvindo.
– Me desculpe, . Eu sinto muito, filha.
correu para o quarto e chorou com todo seu coração. Seu amigo, seu parceiro, a pessoa que havia feito ela sair do casulo, a ajudado a encontrar felicidade em suas amizades. Aquele que havia feito ela enxergar fora do seu mundo, que havia feito quase parte de sua família. Yuto estava morto. Um jovem com a vida inteira pela frente.


Capítulo Oito

“Olhem o céu. Perguntem a si mesmos: O carneiro terá ou não comido a flor? E verão como tudo fica diferente… E nenhuma pessoa grande jamais entenderá que isso possa ter tanta importância!”
(Antoine de Saint-Exupéry)


passou a noite entre a sonolência e o choro. Quando amanheceu, ela já não tinha lágrimas. Só conseguia pensar que não poderia mais ver seu amigo. Não poderia mais rejeitar seu encontro, explicando que eram apenas amigos, não poderiam mais ir para a escola de bicicleta e nem fazerem o dever de casa juntos. Pensou em como estava o pequeno Haruto naquele momento. A dor que estava sentindo por ter perdido seu irmão de sangue. Como estavam Rina e Momo? E a Sra. Watanabe?
Não tinha mais o que chorar. Tudo parecia um pesadelo.
Alguém entrou em seu quarto para mandá-la comer, mas não conseguia sair de debaixo das cobertas. Seu coração estava completamente partido, como se tivesse perdido um membro da sua própria família.

***

Na casa ao lado, a família Watanabe se preparava para o funeral do filho mais velho. A família estava inconsolável, mas Haruto tentava se manter forte por seus pais e suas irmãs. Ele tentava não chorar ao pensar que nunca mais veria seu irmão novamente, mas vendo sua mãe não conseguindo aguentar, fazia com que aquela decisão fosse ainda mais difícil.
– Haruto, querido, venha terminar de se vestir. – Haruto seguiu sua tia para o quarto. Quase toda família havia chegado para ajudar.
– A polícia já sabe o que aconteceu com o onii-san? – sua tia também parecia prestes a chorar a qualquer momento.
– Esse não é um assunto para crianças, Haruto. Você só precisa saber que seu irmão foi embora e não vai mais voltar.
– Eu não sou uma criança, eu sei que ele morreu, mas ninguém quer me contar como foi. Ele não estava doente, o médico disse que ele estava saudável. Por que ele morreu, então? – sua tia suspirou e se ajoelhou em sua frente.
– Você não quer isso, querido. Confie em mim.
– Eu tenho o direito de saber, ele era o meu irmão. – Haruto viu sua tia olhar para o teto, tentando conter as lágrimas antes de começar a falar.
– Foi um acidente. – ela explicou, enquanto o ajudava com a roupa. – Ele foi atropelado enquanto voltava da escola.
– Mas ele sempre presta atenção nos carros. Ele nunca desrespeitava as regras. Ele nunca...
– Eu sei, Haruto. Eu sei. Não foi culpa dele. Parece que o motorista avançou no sinal errado e acabou atropelando-o. – Haruto não conseguia imaginar aquela cena. Alguém cruel fazendo aquilo com seu irmão inocente.
– E onde ele está? A pessoa que fez com o onii-san? Ele vai ser preso? Vai se punido pelo que fez, não vai?
– Ele fugiu. – Haruto se afastou da tia, indignado.
– Os policiais não conseguem pegá-lo? Ele vai ficar livre? – sua tia deu de ombros.
– Eu não sei, querido, mas ele atropelou o seu irmão e o deixou lá sem chamar socorro. Não sabemos quem é essa pessoa ou o porquê dela fazer isso. Eu sinto muito por não ter as respostas que você quer.
Haruto não conseguia entender o que havia acabado de ouvir. Não haviam localizado o culpado. Essa pessoa estava em algum lugar, colocando a vida de outros em risco também.
– Tia, eles não...
– Já chega, Haruto. – sua tia o parou, colocando um fim naquela conversa. – Sem mais perguntas. Esse assunto deixa sua mãe ainda mais triste. Não fale sobre isso perto dela ou de suas irmãs. Vamos terminar de vestir a sua roupa para nos despedirmos do seu irmão.
– Mas a polícia não...
– Eu disse que chega, Haruto. Estamos atrasados, vamos.
Haruto aceitou aquilo no momento, mas nunca esqueceria da pessoa que havia tirado a vida de seu irmão. Ele procuraria por justiça.

O velório foi simples, apenas com seus familiares e alguns alunos e professores. Seu pai não queria algo grande, para não machucar ainda mais sua mãe, que só chorava e chamava pelo filho mais velho. Haruto ficou o tempo todo ao lado de suas irmãs, recebendo cumprimento dos outros. Parecia que toda cerimônia passava com um borrão, porque sua mente não estava naquele lugar. Só pensava em Yuto. Será que ele havia sentido dor? Será que pediu ajuda? Será que pensou em sua família? Por que alguém tão bom como se irmão havia morrido tão jovem?
– Haruto, seu pai pediu para levar você e suas irmãs para casa. – um de seus primos o chamou para ir embora.
– Eu estou esperando as outras pessoas chegarem. – ele permaneceu no mesmo lugar, com as mãos na frente do corpo, pronto para a próxima reverência.
– Acabou, Haruto. Não há mais ninguém lá fora para entrar.
– Alguém pode estar atrasado. Ainda há pessoas para ver. – Haruto estava esperando por ela.
– Muitas pessoas já apareceram, foi o suficiente. Não vamos fazer sua mãe sofrer ainda mais prolongando isso.
Aquilo significava que ela não ia. .
– Todos foram avisados? – Haruto tentou mais uma vez. – Os amigos dele da escola e...
– Todos sabiam, Haruto. Vamos embora.
Por que ela não estava ali? Eles não eram amigos? Onde estava quando ele mais precisava dela? Havia tantas coisas que ele não conseguia entender. Nem e nem sua mãe haviam aparecido para se despedirem do seu irmão.

***

Uma hora antes do velório de Yuto, saiu do quarto. Estava um pouco desorientada por não ter saído depois de tanto tempo. Ouviu vozes baixas dentro do escritório de sua mãe. No início, achou que ela estava falando ao telefone, mas depois ouviu outra voz. Seu tio. Eles estavam brigando novamente.
– ... porque você nunca me escuta. – ouviu sua mãe falar.
– Eu não preciso de...
estava preparada para entrar no escritório e pedir que eles respeitassem a morte de seu amigo, até que sua mãe gritou e a fez parar, antes mesmo de abrir a porta. se aproximou com o ouvido na porta, curiosa.
– Agora há uma criança morta! – ela gritou. – Quem vai pagar pelas consequências disso?
– O culpado tem que pagar.
Eu terei que pagar pelo que fiz. Entendeu? Eu!
achou que não tinha mais lágrimas até ouvir aquilo. Sua mão tapou sua boca para impedir que eles ouvissem seu choro de dentro do escritório e parassem a conversa por causa dela.
– Acabou, Kaori. O garoto morreu.
– Você acha que eu vou conseguir viver com isso? Foi negligência deixá-lo lá, sem chamar o socorro. Sem... – a voz dela ficou embargada com as lágrimas.
– Eu não sei o que fazer, Kaori. – seu tio também parecia desolado. – Eu estou em pânico até agora. Se não fosse por você...
– Poderia ter sido a . Ele estava voltando da escola. Poderia ter sido a minha filha naquela bicicleta, poderia estar morta agora, como ele.
– Eu não...
– Por favor, não fale nada. Eu já ouvi o suficiente de você. Como vou viver agora depois do que aconteceu? Tudo deu errado.
– Kaori, por favor. Me escute!
– Não, Kaede! – ela gritou. – Eu não consigo viver com o que fiz.
não conseguia mais ouvi nenhuma palavra. Abriu a porta abruptamente, assustando sua mãe e seu tio, que parecem congelar.
, o que você... – seu tio não pôde terminar de falar.
– Você matou o Yuto? – ela perguntou diretamente para sua mãe, com lágrimas nos olhos e o coração sendo tomado pela raiva.
, volte para o quarto. – sua mãe ordenou, limpando as lágrimas depressa.
– Você o matou? Atropelou o Yuto e depois fugiu? – quis saber, em prantos. – Foi você, mãe?
– Do que você está falando, ? – seu tio perguntou.
– Não a defenda. – gritou para o tio. – Eu ouvi tudo, ouvi você confessando o que fez.
, você entendeu errado. – viu sua mãe mandar seu tio parar de falar com um movimento com a mão. – Kaori, o que está fazendo? Ela não pode...
não precisa saber de nada.
– Você é um monstro. – acusou, apontando para a mãe. – Assassina.
– Eu mereço todos os nomes que você tiver para mim.
– Eu odeio você. Porque o matou? O que ele fez de tão errado?
– Foi um acidente. – seu tio explicou. – Não fale assim com a sua mãe, . Você não sabe o que está acontecendo.
– Tudo que importa para você é ganhar a eleição. Você passa por cima de qualquer coisa e qualquer um para isso. Até esconder sua culpa por matar uma criança!
– Nem se explicasse você entenderia, .
– Eu odeio você! – gritou e correu para fora.
– Vá atrás dela.
O tio correu atrás de e a encontrou encolhida em cima da cama. Ele deitou ao seu lado e a abraçou enquanto ela chorava em seu peito.
– Por que, tio? Por que ela fez isso? – chorava para ele.
– Não a odeie, . Não a culpe, por favor.
– Ela o matou! Ela matou o Yuto. – o tio afagou sua cabeça, porque não sabia mais o que falar. Não tinha mais explicações e nem justificativas para o que havia acontecido. – Vamos embora daqui, por favor.
, nós não...
– Não posso mais aguentar isso, não posso mais ficar nessa casa com ela. Por favor, tio. Vamos embora daqui.
– Nós não podemos fugir, . – o tio falou com a voz embargada. – Nunca poderemos fugir do que aconteceu.
– Ela é uma assassina, um monstro. Ela o largou lá para morrer sozinho.
– Você não sabe o que aconteceu. – se afastou do tio violentamente.
– Por que você a está defendendo? Acha que o que ela fez foi certo? – gritou. – Ela matou uma pessoa! Ela matou o meu amigo! Não podemos ficar aqui, não podemos ficar com ela.
abriu o guarda-roupas e tirou todas as roupas, jogando no chão, histericamente. Estava desorientada.
– Vamos embora.
, não podemos fazer isso. – o tio a segurou dentro de um abraço, tentando pará-la.
– Eu quero estar longe dela. Eu não posso... Não posso... – se debateu, chorando e gritando, tentando se livrar do aperto do tio. – Eu vou embora. Eu vou para longe dela.
, se acalme. Não podemos tomar atitudes precipitadas. Você está piorando tudo.
– Me solta! – gritou com força, não conseguindo parar de chorar e seu tio a apertou ainda mais perto.
– Me desculpa, . Me perdoa, por favor. – ele começou a chorar junto com ela. – Não podemos ir embora assim. Por favor, tente entender.
– Eu não consigo... eu não posso perdoá-la nunca mais. Não posso olhá-la nos olhos. Eu sempre vou lembrar do que ela fez. Não consigo ficar dentro dessa casa, por favor...
O tio a segurou pelos ombros e a fez encará-lo, seriamente. Nunca tinha visto um olhar tão amedrontado no rosto dele. Parecia tão assustado e desesperado quanto sua mãe, dentro do escritório.
– Olhe para mim, . Você não pode contar para ninguém o que ouviu, entendeu?
– Você continua a protegendo?
, nós somos uma família. Nós precisamos proteger a nossa família.
– E a família dele? A família dele precisa saber. – olhou de relance para a casa dos Watanabe, com todas as luzes apagadas, se lembrando da família de Yuto. Seu coração doeu ainda mais. – A família dele...
– Ela é sua mãe, você precisa pensar nela acima de todas as coisas.
– Eu não tenho mais mãe. Não posso ser filha de uma assassina.


Capítulo Nove

“Eu quase desejo que fôssemos borboletas e vivêssemos apenas três dias de verão. Três dias como estes eu poderia preencher com mais deleite do que cinquenta anos comuns poderiam conter.”
(John Keats)


continuou chorando por um longo tempo. Não conseguia fazer nada além de pensar em sua mãe matando Yuto. Quando fechava os olhos, via Yuto colidindo com um carro e voando até cair no chão e morrer. Sozinho. Deitado na poça do próprio sangue.
Depois da crise de histeria com seu tio, ela conseguiu se acalmar um pouco e se deitar sozinha em seu quarto. Não aguentava sair porque tudo que olhava, a lembrava Yuto. Até as janelas permaneciam fechadas com a cortina bloqueando a entrada de qualquer luz. Não conseguiria olhar para a casa dos Watanabe dali de cima e não pensar no que estava fazendo com eles por esconder aquele segredo.
, por favor, coma alguma coisa. – o tio entrou pela vigésima vez com um prato na mão, tentando fazê-la comer, mas a última coisa que a garota queria fazer era comer.
Não tinha fome, não tinha sono, não tinha ânimo. Tudo dentro dela estava murcho, como um jardim, há muito tempo sem água e sem sol. Destruído.
– Me deixe em paz. – ela pediu, virado para o outro lado.
– Você vai adoecer. Já faz mais de dois dias. Se você continuar assim, eu...
– Eu não quero. – fez um gesto com a mão, pedindo que ele saísse. – Por favor, me deixe.
, esse não é o caminho para consertarmos as coisas.
– O que nós podemos consertar? Não há o que consertar. É tarde demais para fazermos qualquer coisa.
– O que eu posso fazer para que você coma?
– Pegar nossas coisas e irmos embora. Se continuarmos aqui, eu vou morrer, como Yuto.
Era tudo que pensava. Ir embora daquela casa e daquela cidade. Ficar o mais longe possível de sua mãe. Seus pensamentos eram divididos entre lembrar de Yuto e bolar planos para ir embora com seu tio.
– Não é tão simples assim. – ele falou, com o suspiro. Como em todas as outras vezes que ela mencionou a ideia.
– Então não há mais nada.
No final do terceiro dia, estava tão fraca que até respirar doía. Seus lábios estavam partidos e sua boca, seca. Só bebia água uma vez por dia, quando seu tio implorava. Do mais, não dormia e não falava com ninguém.
Ela esperou o horário que sabia que não haveria ninguém em casa e saiu do quarto para comer algo, mesmo sem fome.
Não ficava trancada no quarto para fazer pirraça ou chamar a atenção de alguém. Só não tinha ânimo para fazer nada, suas forças haviam sido drenadas. Assim que abriu a porta da geladeira ouviu alguém bater na porta. Era impossível ser sua mãe porque ela estava sempre trabalhando. Só restava seu tio. Abriu a porta, temerosa e deu de cara com Haruto. ficou tão nervosa que bateu a porta com tudo na cara do garoto.
-chan. – ela o ouviu chamar do outro lado. Vê-lo fazia seu coração se partir ainda mais. A dor era demais para suportar.
– Vá embora, Haruto. – ela pediu.
– O que aconteceu, -chan? Eu...
– Vá embora! – ela empurrou a porta com força. – Não apareça mais aqui.
– O que eu fiz? É por causa do onii-chan?
– Eu não quero te ver. Vá embora.
subiu as escadas de dois em dois degraus e voltou para quarto chorar. Quando seu tio chegou, ela o olhou com os olhos cheios de lágrimas.
– Por favor, tio. – ela implorou, sem forças. – Não me deixe aqui. Eu não aguento mais. Se eu continuar aqui, acho que vou morrer.
– Tudo bem, . – ele a abraçou, se rendendo. A dor dela refletia nele. – Nós vamos embora.
Depois da morte de Yuto, aquela foi a primeira vez que pôde se animar.
– Está falando sério? Nós vamos embora mesmo? – ele concordou com a cabeça.
– Nós vamos embora do país o mais rápido possível. Nunca mais poderemos voltar aqui. Nunca mais mesmo.
– Eu não quero voltar. Nunca mais. Eu odeio esse lugar, odeio tudo que ele representa. Eu quero estar o mais longe possível daqui. Eu quero estar o mais longe possível daquela mulher.
– Nós vamos esquecer o que aconteceu aqui, entendeu? – assentiu. – Ninguém pode saber. Me prometa que nunca contará, para ninguém.
– Eu prometo, tio. – teria prometido qualquer coisa naquele momento. Tudo que ela queria era ir embora.
– Essa é a condição para irmos embora.
– Eu aceito, nunca contarei para ninguém. Eu confio em você, tio.
– Eu serei a sua família, . Seremos só nós dois. Não se preocupe mais. – o abraçou mais apertando, chorando, mas de alívio dessa vez.
– Obrigada, tio. Obrigada por me salvar desse lugar.
lembrou do dia em que sua mãe a tirou do orfanato. Ela usou aquelas mesmas palavras enquanto a abraçava. Sua heroína. A mulher de roupa chique, cabelos bem penteados, olhos puxados e que não sabia falar sua língua muito bem. A mulher que ela amava tanto. Sua mãe.
Como alguém tão maravilhosa havia se tornado aquele monstro assassino? Como sua heroína desapareceu daquele jeito? Ali em sua frente estava o verdadeiro herói. O homem que faria de tudo para protegê-la e fazê-la feliz. A figura de pai que ela teve tão pouco com seu pai adotivo.
– Me desculpe por tudo que te fiz passar, querida. Me perdoe. – ele falou contra seu cabelo. – Eu vou te proteger para sempre.
– Não há nada para desculpar.
– Não vou deixá-la chorar nunca mais. Eu prometo.

Não demorou muito. Em dois dias, os dois estavam com tudo pronto para irem embora. Depois do dia em que descobriu a verdade, nunca mais viu sua mãe, mas achou melhor assim. Vê-la só causaria mais dor. Por culpa dela, havia perdido tudo; sua ambição e ganância. Como seu tio havia pedido, esqueceria aquela cidade e seu passado. Seria outra pessoa.

***

– Por que demorou tanto? – perguntou ao tio quando ele voltou com o café da manhã dos dois. Estavam no aeroporto, esperando horário do voo que os levaria para longe.
– Uma criança passou mal e eu estava entrando em contato com a administração do hospital. Eu aprendi que nunca devemos negar ajuda, por menor que seja. – notou uma pitada de tristeza em sua voz, quando falava aquilo e ela não conseguiu evitar se sentir triste. – Aqui está seu café da manhã.
– Obrigada, tio.
Os dois se sentaram em silêncio e comeram o café da manhã. Pelas paredes de vidro do aeroporto, reparou como o sol estava brilhante. Aquele clima fúnebre e triste não combinava com o verão e sim com o inverno. O verão deveria ser feliz e alegre. Ninguém deveria morrer no verão. Aquela estação lembrava Yuto e, no fundo, combinava com ele. Feliz, alegre e fresco.
– No que está pensando? – seu tio quis saber.
– O verão costumava ser a minha estação favorita. Com tudo que aconteceu, acho que vou mudar. Será a primavera. – seu tio riu.
– Só você para pensar em algo assim, .
– Qual sua estação favorita? – o tio pensou um pouco.
– Acho que não tenho uma estação favorita. Todas têm sua própria beleza e feiura. Todas elas são importantes para a manutenção da vida em nosso planeta.
– Acho que vou ficar com a primavera mesmo, com todas as flores e o bom perfume da grama. Acho que nada ruim pode acontecer na primavera.
A voz robótica anunciou os voos seguintes e seu tio se colocou de pé.
– É o nosso voo. Vamos. – e o tio pegaram suas malas de mão e foram em direção ao embarque.
– Para onde estamos indo?
– Eu não te contei? – negou com a cabeça. – Estamos nos mudando para o México.
– México na América? – o tio concordou com a cabeça. – É um pouco longe daqui, não?
– Conheço algumas pessoas lá que podem nos ajudar a recomeçar.
– Como conheceu pessoas no México? – sabia pouco da vida do seu tio antes dele começar a morar com ela, mas nunca teve a necessidade disso. Sempre confiou nele de olhos fechados.
– Eu fiz faculdade lá. – não conseguiu esconder a surpresa. – Nossa família morou nos Estados Unidos por muito tempo quando eu e sua mãe éramos pequenos.
– Então estaremos voltando para o lugar onde você passou a sua juventude?
– Você vai gostar de lá. É diferente do Japão, mas as pessoas são acolhedoras e a comida é muito boa.
– Eu estarei feliz em qualquer lugar com você.
O tio sorriu para ela e sentiu um pouco da tristeza que parecia fazer parte dela, indo embora. Tinha esperanças que um dia conseguiria superar aquilo. Um dia conseguiria tirar aquele peso que o segredo de sua mãe causava. Um dia bem longe dali.

***

Haruto demorou um pouco para convencer o pai a levá-lo até a casa de . Sua mãe ainda estava no quarto, então só tinha ele para ajudá-lo.
– Filho, acho que não foi uma boa ideia. – seu pai falou, olhando apreensivo para a casa vizinha. – Parece que não há ninguém em casa.
– Ela está aqui. – Haruto afirmou, sabendo que a amiga não havia saído de casa desde a última vez que haviam se encontrado.
Da última vez Haruto havia fugido de casa para encontrar e, pela reação dela, ele teve que voltar. Algo não estava certo e ele não podia deixar sua amiga daquele jeito. Já havia perdido o irmão, não perderia ela também.
– Está tudo fechado e as luzes estão apagadas.
– Eu tenho certeza que ela está em casa.
Ele bateu na porta e esperou, ansioso. Quem atendeu foi a mãe de e ela não parecia bem. O cabelo estava desgrenhado e as olheiras profundas. Parecida com a aparência que tinha há dois dias.
– Boa tarde. – seu pai começou, apreensivo por ver o estado que a mulher se encontrava. – Desculpe incomodá-la, mas o meu filho gostaria de saber se a sua filha está aqui.
– Ela não está. – Haurto ficou preocupado com a resposta.
– A -chan saiu?
foi embora. – ela respondeu de forma grosseira.
– O quê? Ela...
foi embora com o tio. Ela não mora mais aqui. – depois da declaração, a porta foi fechada na cara dos dois.
– Eu disse que não era uma boa ideia, filho, vamos para casa. É bom ficarmos perto da nossa família enquanto sua mua mãe ainda está sensível. Esqueça essa garota.
Haruto não conseguia acreditar. Sua havia ido embora, ele provavelmente nunca mais a veria. Seu primeiro amor. Perder duas pessoas tão importantes em sua vida trouxe lágrimas aos seus olhos.
– Adeus, -chan. – Haruto falou, baixinho, com as lágrimas escorrendo silenciosamente. – Adeus, onii-chan.


Capítulo Dez

“Neste dia quente de verão, eu vi um sorriso tão quente como os raios do sol e um olhar tão frio como gelo.”
(Zankyou No Terror)


Kaori Hirano ganhou a eleição como prefeita de Kadoma no ano seguinte, após uma campanha de sucesso.
Sozinha, ela subiu para receber o título. Ninguém entendeu quando ela começou a chorar ao assinar o documento de posse. Ninguém entendeu por que ninguém sabia o peso que aquele título tinha. O peso de uma vida. O peso do ódio de sua filha. No fim, nada havia valido a pena.


Continua...



Nota da autora: Muito obrigada por todos que estão acompanhando junto comigo!
Confira também minhas outras histórias no site:

➽ As cores mais bonitas do universo (Longfic - Em andamento)
➽ Comeback home (Longfic - Finalizada)




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