Última atualização: 28/10/2018

Capítulo 1

Todo animal tem impulsos, seja este um animal racional ou irracional. Humanos são animais racionais que, na maioria das vezes, conseguem controlar grande parte dos seus impulsos instintivos. Contudo, é cientificamente comprovado de que todas as pessoas possuem níveis impulsionais diferentes em todas as idades, principalmente na adolescência. Para os neurocientistas, isto se deve ao fato de que o cérebro dos adolescentes ainda não está completamente formado – especialmente a parte autorreguladora deste. Cada cérebro de cada adolescente se desenvolve em um ritmo não especifico e a última área a amadurecer é o Córtex pré-frontal. Isso mesmo, aquela regiãozinha que comporta características usuais dos adultos: capacidade de planejamento, concentração, empatia e inibição de impulsos.
Então, mesmo com meus colegas de classe falando que não havia nenhuma desculpa ou justificativa para o que eu, , tinha feito na sexta-feira ás 22 horas – não pergunte como souberam a hora exata, isso ainda é um mistério para a protagonista dessa história real, havia sim, pelo ponto de vista de neurocientistas respeitados.
Mas o cenário dessa avalanche não é um hospital ou um centro de pesquisas. É o ensino médio. Entrar aqui é bem mais fácil, sair, no entanto...
- O Anarquismo acredita que o Estado deve ser completamente banido, o povo se auto governaria. A educação seria libertária. – O professor de história continuou seu monologo animadamente, como se dar aula fosse a coisa mais empolgante a fazer. – Muitos deles, não todos, são ateus. Ou seja, a igreja, como era uma instituição, também deveria ser banida. Os casamentos, por exemplo, não existiriam mais, pois envolvem o govern...
- Qual o motivo para casamentos acontecerem se não existe amor verdadeiro?! – Perrie, minha ex melhor amiga e colega de quarto, retrucou enquanto se levantava abruptamente da carteira. O azul das suas íris destacadas pelas lágrimas em seus olhos. Ela olhou de relance para mim, o ódio, desprezo e a mágoa quase me deram um soco na cara. Por mais que a frase proferida por ele tivesse sido, no mínimo, ridícula. Ela estava machucada, pessoas machucadas fazem coisas idiotas.
A loira saiu da sala antes que qualquer um dos presentes pudesse proferir alguma palavra. E logo Vanessa estava correndo atrás dela. Habitual.
- O que está acontecendo? – O professor perguntou em voz alta a turma, completamente absorto as fofocas que percorriam o corredor daquela escola desde a primeira aula.
Bufei, fechando os olhos e afundando na cadeira. Nem me preocupei em checar os arredores, sabia que todos estavam descaradamente vidrados na minha pessoa, prontos para me detonarem a qualquer momento, como já tinham feito por murmurinhos e memes maldosos no Instagram.
- Piranha. – O sussurro era quase inaudível, mas foi o suficiente para me fazer abrir os olhos e dar um sorriso irônico para garota sentada do meu lado, como se eu fosse abaixar a cabeça.
- Com o maior prazer.
Mesmo sendo a errada da história, mas isso não vem ao ponto.
A escola tinha sido mais cansativa e pesada do que o normal, por motivos claros. Assim que o sinal tocou, apressei os poucos passos necessários para chegar a residência na qual vivia, onde com certeza mais uma boa dose de drama com acompanhamento de gelo estavam me esperando, embora eu preferisse um Uísque com gelo naquele ponto. Infelizmente, eu não tinha ninguém para culpar além de mim mesma.
Finalmente estava na porta de casa, completamente exausta depois de uma manhã inteira sendo tachada como vadia, piranha, vaca traidora e outras palavrinhas nada bonitas. Além do sentimento de culpa que eu tinha que carregar, como o fardo que ele era. Tudo o que eu desejava era deitar na minha caminha de solteiro, colocar uma música da Taylor Swift e me permitir entrar em um tipo de estado catatônico até o dia seguinte.
Tal como na noite de sexta, as coisas não aconteceram como eu planejava.
Tirei a chave do bolso, mas quando estava prestes a abrir a porta, a mesma foi escancarada por Perrie.
- Oi, . – Ela fungou, e meu coração doeu um pouco mais. Nós duas tínhamos sido inseparáveis desde sempre, como eu puder ter feito aquilo com ela? Eu dava um novo patamar ao conceito amiga ruim. – Suas coisas estão no gramado. Você não vai mais morar aqui.
Opa.
Minha primeira reação foi olhar para trás, onde a grama da casa se encontrava. Três caixas enormes estavam quase transbordando. A palavra preferida para substituir meu nome escrita nelas com marca texto – lê-se: vadia.
- Tá doida? – Consegui destravar, havia estado tão distraída que nem ao menos tinha notado as caixas nem um pouco discretas no quintal. – Para de coisa, Perrie. Eu sei que fiz muita merda, mas você sabe que não posso morar sozinha. Se eu não ficar aqui, minha mãe vai me levar de volta para outro estado. Literalmente do outro lado do país! – Respondi exasperada, ela não podia estar falando sério. Meu coração esmurrava minha caixa toráxica, sabendo exatamente o que aquilo significava para mim. Como a garota que costumava ser minha melhor amiga, ela sabia exatamente o que estava se passando pela minha mente.
- Você devia ter pensado nisso antes de dormir com o meu namorado na minha cama! – Ela disse, seu tom de voz residia no meio termo entre irritação e decepção. Antes que pudesse ter qualquer movimento em resposta, Perrie fechou a porta na minha cara.
- Perrie, para com isso! – Bati na porta com toda a força que eu tinha, tentando chutá-la e esmurrá-la, mas nada estava funcionando. O que, honestamente, já era esperado. Tentei abrir a porta com a chave, sem resultado de novo. Ela tinha trocado a fechadura? – PUTA MERDA, PERRIE! VAI TOMAR NO CU, SUA FILHA DA PUTA! EU DEVIA TER TRANSADO COM ELE MESES ATRÁS, APOSTO QUE A EJACULAÇÃO PRECOCE DELE OLHANDO PRA MINHA BUCETA FOI MELHOR DO QUE QUALQUER GOZADA DENTRO DE VOCÊ!
É, eu não quis dizer isso. Mas foi exatamente o que saiu da minha boca.
E ela não abriu a porta.
Que surpresa.
Frustrada e aceitando uma derrota temporária, me sentei na escadinha em frente a porta, decidida a esperar pela mãe de Perrie. Até olhar para o lado e notar que o carro luxuoso de Carlita estava divinamente estacionado. O que significava duas coisas:
1. Eu realmente estava distraída pra caralho.
2. A mãe dela estava ciente da situação.
Antes que meus sentimentos pudessem tomar o controle, apareceu do nada na minha frente. Sim, o mesmo que era namorado da Perrie e tinha tirado a minha virgindade na sexta-feira. Ah, aquele dia não podia ficar melhor.
- O que você quer aqui? – Perguntei irritada, prestes a descontar toda a minha raiva em alguém que só tinha 50% da culpa. Alguém que tinha sido extremamente gentil e compreensivo, antes e depois do... Certo, . Se tem um momento para não pensar no cara que te ajudou a, literalmente, foder a sua vida, é agora.
- Eu soube que você está sem lugar pra morar. – Ele coçou a nuca, como fazia quando estava nervoso. E eu arquei as sobrancelhas, confusa sobre como ele soube de algo que aconteceu há 3 minutos atrás. – Ela postou no Instagram. – suspirou, visivelmente arrependido com a proporção que uma transa de traição sem significado tinha tomado. Ah, . Você não é o único arrependido aqui, confie em mim. – Eu tenho um amigo, acho que seria bom pra vocês dois.
- Veio aqui me oferecer uma casa como um pedido de desculpas por ter transado comigo? – Me levantei, mantendo o olhar firme em seu rosto enquanto cruzava os braços.
- Não! – seus olhos verdes ficaram esbugalhados e suas bochechas vermelhas e pela primeira vez no meio de toda aquela confusão eu consegui rir. De repente, eu me lembrei por quê tinha me atraído pelo errôneo doce. – E você transou comigo também!
Viu? Ele é um boboca fofinho. Quer dizer, bem como um traidor repugnante, mas eu também era.
- Normalmente é necessário dois indivíduos ou mais para a prática de uma relação sexual, mas obrigada por me lembrar, . – Revirei os olhos, embora a sombra de um sorriso fosse clara nos meus lábios finos. – Você não está fazendo isso por pena, não é?
Pena.
Eu odiava essa palavra. Ter um grupo de haters vindas do inferno para me xingar era mil vezes melhor do que uma só pessoa sentindo pena de mim. Eu já tinha provado muito desse sentimento alheio quando era uma criança e meu pai abandonou minha mãe e eu, com certeza não precisava de mais uma rodada dessa bebida melancólica.
suspirou, abrindo os braços em rendição.
- Eu estou com raiva de mim mesmo, . Meu relacionamento acabou e você está sem um lugar para morar. Por minha culpa. – Seu olhar sincero e sua voz banhada por fragilidade tornaram tão mais fácil eu apenas concordar com aquelas palavras e tirar o peso da culpa das minhas coisas. Eu podia facilmente xingar, gritar, chorar e ele aceitaria tudo cabisbaixo.
Mas eu só suspirei.
- A culpa foi de nós dois, .
Ele não disse mais nada, provavelmente incerto de suas próximas ações. Afinal, eu o conhecia. Sabia que era da sua natureza bondosa abraçar as pessoas tristes e dizer coisas para fazer elas se sentirem melhor, mas o limite entre nós dois havia sido estabelecido no momento em que eu sai do quarto naquela noite cheia de orgasmos e pesares. estendeu o braço, uma folha de caderno com algumas coisas escritas me esperando em sua mão. Apenas agarrei o papel, sem triscar em qualquer parte da sua pele.
- Todas as informações estão ai.– Assenti sem realmente olhar para ele, focando minha leitura no garrancho que me mostraria o endereço. Não era muito longe, poderia facilmente ir de pé. - E ?
- Sim? – Levantei meu olhar para encontrar seus olhos verdes.
- Você não é uma vadia.
E mesmo que eu supostamente não me importasse com o que as pessoas pensavam, aquelas palavras pequenas que não deveriam soar nem um pouco românticas aqueceram meu coração.
- Obrigada. – Respondi, uma vez que ele já havia ido embora, mesmo que não pudesse escutar. Recuperei a atitude quando uma brisa gélida acariciou minha bochecha, lembrando-me das mãos frias do garoto que tinha acabado de sair. Jesus do céu, eu precisava de mais limites. Andando até a minha trindade de caixas nada pequenas e com o endereço cravado na minha mente, me preparei para empurrar e carregar até a minha, esperançosamente, futura casa. – E lá vamos nós.

Xxx

Eu juro que teria batido mais simpaticamente na porta se não tivesse andado três quarteirões inteirinhos com 3 caixas pesadas pra uma porra sendo empurradas, juro mesmo. Mas agora a pessoa que ia decidir se eu ia ou não permanecer nessa droga de cidade muito possivelmente já me odiava por quase quebrar a droga da sua porta de madeira.
Olha, eu sei. Falando assim até parece que eu odeio a minha mãe e odeio a minha cidade natal, mas não é as–
- Você só pode estar de brincadeira comigo. – A voz dele parou minha tentativa interior de explicação ou sei lá o quê, seus lábios arqueados formando aquele clássico sorriso irônico que ele tanto usa.
Só por ele estar ali, vivo e respirando, custou-me um percentual alto de autocontrole para não pular no pescoço dele, tinha que ser legal, pelo menos até ele me deixar morar com ele.
Aí está algo que eu nunca pensei que iria precisar: a ajuda de . Embora nós dois tenhamos uma amizade incomum. Ou inimigacidade. Ah, tanto faz. Minha relação com caras não é um tópico que eu queira discutir, nem comigo mesma.
- Eu concordo. – Revirei os olhos, me forçando a ser cordial com aquele galinha de meia tigela. – Olha, você provavelmente já sabe da minha situação.
- Seu sexo casual com o ou você ser expulsa de casa? – me interrompeu e eu respirei fundo, controlando-me para não mandar ele ir á merda.
- Cala a boca. Eu preciso de um lugar pra morar e o me deu esse endereço. Eu obviamente não sabia que era você, mas já estou aqui e tive que carregar essas caixas enormes por três quarteirões inteiros sem ajuda nenhuma, além de ser taxada como vadia que transa com todos quando eu só fiquei com um cara. Certo, ele não era o cara ideal porque ele tinha namorada e essa namorada era a minha melhor amiga que agora me odeia e me expulsou de casa. Então, não seja um merda pelo menos uma vez na sua vida e me deixe morar aqui. – Despejei rapidamente, e o plano de ser legal voou pelos ares, mas como eu seria gentil com o ? Simplesmente impossível. Eu nem mesmo sei o que fez a válvula estourar e minha boca grande abrir para ser meio grossa com ele, mas aquilo já era parcialmente comum.
Pelo menos eu consegui não mandar ele ir á merda com maestria.
Porém, tomando como dica a careta de confusão que acompanhava os braços cruzados dele, duvidei bastante se tinha entendido alguma coisa do que eu havia dito.
- Fechou. – Foram as únicas palavras que seus lábios proferiram, seguidas pelo irritante sorriso irônico. Eu bem que teria dita alguma coisa para provocar ele, mas o cansaço era tão grande que eu só me permiti sorrir.
Não para ele, é claro. Apenas para o fato de eu ter onde dormir a noite.


Capítulo 2

Clap. Foi esse barulhinho chato que a minha nova caminha fez quando eu me joguei nela, logo depois de ter terminado de organizar o tanto de coisas que pude no meu ‘’quarto’’. Aspas são um eufemismo para aquele cubículo. O lugar era bem arrumadinho, até: cama forrada, dois travesseiros confortáveis, ar-condicionado, tomada estratégica, um relógio feio na parede, janela e um guarda-roupa.
Motivo da minha reclamação: o guarda roupa estava todo quebrado, de modo que só uma porta estava utilizável. Não consegui arrumar nem uma mala inteira dentro daquele troço, que provavelmente era o lanche diário de uma corja de cupins.
E agora essa cama estúpida fez um ruído anunciando a sua quebra. Eu até teria gritado se o dia não tivesse sido exaustivo o bastante. Me levantei e fui até a cozinha, onde provavelmente estaria.
Bingo, meu querido aminimigo estava lá. Cozinhando. De cueca, diga-se de passagem.
Sério, me responda com toda a honestidade do mundo: QUE TIPO DE ANIMAL FRITA HAMBURGUERS SEM CAMISA? E ele estava basicamente encharcando o nosso jantar em óleo. Que nojo.
- Você vai ficar parada aí me secando? – provocou, continuando de costas para mim. Admito que aquela voz me assustou um pouco e eu dei um pulinho. Mas o que ele não vê, não aconteceu. – Já vou acabar aqui, mas a gente pode adiar o jantar e ir lá pro meu quarto.
Um idiota completo, eu sei.
- Eu não estava te secando, – revirei os olhos, me dirigindo até o balcão e sentando-me sobre o mesmo. – estava pensando no quão panaca você é por fritar hambúrgueres sem camisa. Você sabe que esses litros de óleo que você colocou aí podem respingar em você, né?
- Tá preocupada comigo, pequena? – Aquilo apelido bobo fez o meu coração parar por um segundo. Não porquê era o falando ou coisa do tipo, mas pelo que aquilo remetia: dias mais simples. Quando mais nova, eu era a menor menina da sala. E ficava me chamando de pequena. Ás vezes, me zoando, ás vezes, só como um apelido mesmo. Nono ano do ensino fundamental, também o ano que Perrie e eu compramos nosso primeiro colar da amizade. Levei a mão a gargantilha sagrada imediatamente, abaixando a cabeça em pura vergonha. – ? – chamou, provavelmente tentando ver se eu ainda estava viva. Afinal, não era comum eu não ter uma resposta arisca na ponta da língua.
- Por mim, você morria e eu dançava a ragatanga no seu túmulo, . – Rebati afiada, soltando o meu colar que agora se assemelhava á uma corrente de ferro. Pelo menos, brigar com aquele jumento iria me fazer esquecer a mágoa crescente que eu estava sentindo.
O menino de olhos verdes desligou o fogão, agarrando o braço da frigideira e se virando para mim.
Puta merda, ele era gostoso. não tinha aquele físico 100% fortão da academia, ele era magro e alto, mas agora sua estatura contava com alguns músculos nada exagerados e uma barriga bem mordível.
Certo, mordível. Eu estava com fome.
Mas porra, eu sabia que ele era bonito; olhos verdes irritantemente magnéticos, cabelo castanho convidativo para um cafuné, alto. Mas não tinha noção de que ele tinha evoluído tanto assim no outro departamento.
- Não precisa passar vontade, pode tocar. – O garoto sorriu pra mim, sua mãos alcançando a minha cintura. provavelmente tinha largado nossa comida em algum lugar enquanto eu estava distraída demais, dessa vez, realmente secando ele.
Sou obrigada a admitir que o toque dele não era novo para minha pele: como eu disse anteriormente, somos uma espécie de amigos que agem como inimigos, se provocando e blá, blá, blá. Tanto as provocações quanto a amizade já tinham seus estágios táteis. Claro, nunca houve violência física – por parte dele, porque eu já dei uns tapas bem dados naquele safado. – e a gente também nunca se pegou.
Enfim, erámos amigos/inimigos. Só isso. Mas eu também não sou cega. é um dos caras mais bonitos da escola, dividindo o posto com , Tyler Campbell, Zach Wide e alguns outros caras da equipe de futebol. Embora ele e sejam parecidos nesse aspecto: cabelos de cores parecidas e a estatura muscular segue o mesmo molde, mas os olhos de eram azuis. E não, eles não são primos ou coisa do tipo, eu não dormiria com alguém relacionado ao cafajeste que se encontra na minha frente, também conhecido como meu novo colega de casa.
- Eca. Vou pegar uma DST só por você ter encostado em mim. – Coloquei minha mãos na sua barrigada para empurrá-lo para longe, mas as danadinhas mal fizeram pressão. Óbvio, eu não queria realmente empurrar ele pra longe.
De novo, não sou cega. Ele é bem ‘’pegável’’. Eu nunca ficaria com ele, mas a atração é uma coisa existente que eu tenho e nego até cair mortinha no chão.
Antes que pudesse retrucar, seu olhos finalmente encontraram os meus. E olhando aquelas esmeraldas, me lembrei dele.
. E de como ele havia me tocado na sexta, como minha vida estava uma merda, como eu tinha perdido tudo: minha reputação, minha melhor amiga, minha casa, minha virgindade, meus amigos que nem mesmo trocaram uma palavra comigo o dia inteiro na escola. Ainda estava lá, perdida nele enquanto pensava em outro quando os lábios de se partiram, prestes a prosseguir a conversa naquela posição nada convencional.
Isso, ou a lembrança de , me fez empurrá-lo de verdade.
- Devíamos ter regras. – Falei de repente, descendo do balcão. Eu iria não cruzar essa linha novamente, nem a pau. Já tinha virado a vadia traidora da escola, agora só me faltava ser a vadia que dá pra todos. Além disso, atiçar ele até podia ser bem divertido, mas ir até os finalmentes não estava nos meus planos.
Ele arqueou a sobrancelha, cruzando os braços com um sorriso divertido. Imitei o gesto braçal.
- Que tipo de regras? Sua palavra de emergência? – Cafajeste. Como sempre.
- É sério, . Já sou a piranha da escola, não quero que minha reputação piore por sua culpa. – Ele abriu a boca para falar, mas apenas continuei. – Além disso, é normal que as pessoas tenham regras quando moram juntas. Você não tinha regras quando morava com o Trevor?
Trevor era o cara que morava com o . Ele se mudou de última hora, os boatos dizem que os pais dele conseguiram revogar na justiça o pedido de emancipação dele.
- Se tiver pegando alguma menina, tranque a porta. Se vomitar vai ter que limpar, bêbado ou sóbrio. Furar a camisinha do outro é sacanagem. Esse tipo de coisa. – deu de ombros e eu bufei. Um perdido na vida, meu Deus do céu.
- Pronto, agora fazemos as nossas próprias regras.
- Tudo isso por que você não consegue resistir a esse corpinho? – Ele deu um passo para perto de mim e eu cruzei os braços, lançando o melhor olhar de ódio que eu consegui.
- Eu vou furar as suas camisinhas. – Eu não tinha coragem de fazer isso, mas não precisava saber. Principalmente quando eu usei um tom tão sério.
Arqueado os braços no ar em rendição, ele assentiu, aceitando formar nossas regras de convivência.
Ótimo, mais um problema evitado com sucesso.

Xxx

Nós dois estávamos sentados, comendo nossos lanches ensopados em óleo – que surpreendentemente estavam muito bons – e conversando sobre nosso protocolo anti-desastre para vivermos sob o mesmo teto.
- Certo, eu acho que acabamos. – Larguei a caneta na mesa e dei a última mordida no meu X-burguer caseiro. – Ah, mais uma coisa. Meu guarda-roupa tá todo quebrado.
- Foi o Trevor. – revirou os olhos. – Rolou uma briga quando ele tava bêbado em uma das festas que demos. Acho que tem uns cupins, também. – Deu de ombros, como se não fosse nada. – Tem espaço de sobra no meu, pode usar.
- Regra oito: não andar de roupas íntimas pela casa. – Relembrei. Porque, claro, a gente ia acabar se vendo assim se todas as minhas roupas estivessem no quarto dele.
- Eu voto por revogar essa regra. – Brincou em formato de provocação.
- Eu voto por você calar a boca. – Rebati, sorrindo ironicamente.
- Você sabe como me fazer calar a boca. – Ele piscou.
- Com um tapa. – Revirei os olhos. Teria que juntar dinheiro para comprar um guarda-roupa. Porém, por hora, o de seria a minha saída. – Outra coisa. Minha cama quebrou.
- O sofá é bem confortável. – Ele comentou, sabendo que eu queria que ele cedesse a cama. Poxa, não é pedir demais.
- Por que você não dorme lá, então? – Cruzei os braços, fazendo biquinho como uma criança birrenta.
Qual é, eu tinha direito de querer uma boa noite de sono depois de dia de hoje. Numa caminha confortável e nada quebrada.
- Porque eu não caibo lá. Você é pequena. – Mostrei a língua pra ele, que riu do meu ato infantil. – Ou você pode dormir comigo.
- O sofá nunca me pareceu tão confortável.

Xxx

Onze horas, trinta minutos e uma guardando as roupas dela no guarda-roupa de . Minha vida é oficialmente algo... Olha, eu nem sei mais definir essa merda.
tinha se oferecido para me ajudar, mas achei que era melhor manter ele longe das minhas calcinhas e sutiãs. Além disso, eu preferia organizar esse tipo de coisa. Era mais fácil encontrar o que eu queria depois.
- Para de encarar minha bunda. – Zombei. Havia sentindo o olhar fixo daquele bestão em mim desde que virei as costas para ele, mas podia ser só algo da minha cabeça.
- Uma garota no meu quarto que não quer que eu olhe a bunda dela? Essa é nova. – Ele respondeu da cama, onde estava largado sem fazer absolutamente nada. Não soube dizer se ele estava zoando ou se realmente tinha olhado.
- Se acostume com isso, você mora com uma garota agora. – Fechei a porta do guarda-roupa, feliz em ter achado um lugar para esvaziar minhas malas. Virei-me, dando de cara com tentando desviar o olhar de certa parte do meu corpo. Como sempre, eu estava certa. Movendo a cabeça de um lado para o outro em um gesto de desapontamento, me sentei ao pé da cama. – Posso perguntar uma coisa?
- Já perguntou. – Retrucou em um tom brincalhão e eu bati na perna dele de leve, um pequeno sorriso no meu rosto. – Desembucha, pequena.
Viu? É uma relação de ódio e aturação que ás vezes rola uma atração. Aminimigos completos.
- Por que você mora sozinho? – A feição leve de mudou rapidamente e eu percebi que estava fazendo merda, de novo. – Não precisa me responder se não quiser.
- Tá tudo bem. – Ele deu de ombros, se movendo até sentar do meu lado. – Meu pai trabalha em outra cidade. Passa a semana inteira fora. Só aparece com a minha mãe ás vezes.
- Sente falta deles? – Questionei suavemente. O sonho da maioria dos adolescentes era morar sozinho, sem os pais para encherem o saco. Contudo, como uma adolescente que conseguiu essa ‘’façanha’’, sabia muito bem que não eram só flores. E embora minha situação e a dele fossem diferentes, também sabia a falta que um familiar podia fazer.
- Sei que ele tem que ir trabalhar. – Disse. Simples, direto. Como um robô programado com apenas uma reposta.
- Não foi isso que eu perguntei. – Olhei para ele, e foi fácil ver muitos sentimentos reprimidos dentro daquele menino que eu jurava ser um cafajeste sem emoções humanas.
Ah, eu mesma. Você já devia ter aprendido que um momento besta pode mudar tudo.
- Eu sei. – olhou pra baixo e eu me senti triste por ele. Não, não era pena ou algo do tipo. Era um tipo de tristeza... Empática. Eu acho. Conhecia bem o lugar do filho, no meu caso, filha, que sabia que a distância era a melhor alternativa a longo prazo, mas continuava a sentir, mesmo não querendo, a falta da mãe e do pai.
Pela minha parte, embora meu pai tenha me deixando quando pequena, a ausência emocional e física da minha mãe também machucava bastante – não só agora que eu estava longe dela, mas principalmente quando morávamos juntas.
Balancei a cabeça, tentando enterrar ainda mais meus problemas familiares.
- Eles sentem a sua falta também.
E, sem qualquer justificação dada, coloquei a mão na perna dele, acariciando levemente o local num carinho intimo demais.
não fez nada por alguns minutos, eu estava prestes a me levantar quando ele deitou a cabeça no meu ombro. E nós dois nos permitimos curtir a fossa um do outro juntos.
Por um momento, até que eu abri a minha boca grande.
- Realmente tava desesperado por companhia pra aceitar que eu morasse aqui, hein? – riu contra o meu ombro e eu sorri, feliz por fazer aquele momento de ‘amigos unidos pelo abandono parental’ menos trágico e mais engraçado.
- Não mais do que você pra vir morar aqui. – Retaliou, o clima leve com brincadeiras bobas voltando de novo.
- Eu presumo. – O carinho persistente na perna dele, a respiração de contra a minha pele, a cabeça dele deitada no meu ombro, a atmosfera legal que havia surgido do nada. Não sei qual desses fatores fez eu me abrir naquele momento com uma informação que podia me ferrar bastante no futuro, só não queria culpar a mim mesma por mais um erro. – Minha mãe me deixou morar aqui, mas só se eu estivesse morando com a Perrie. Obviamente eu não posso mais morar com ela, mas nem a pau que eu vou voltar para casa. – Mesmo que aquele colégio fosse um inferno nos dias atuais, era a melhor alternativa. – Além disso, é só mais um ano até a faculdade. Consigo mentir para minha mãe por esse tempo, ela mal liga, mesmo.
- Ela acha que você ainda está morando com a Perrie? – Perguntou e eu assenti por instinto, notando logo depois que ele não podia ver.
- Acha. E vai continuar achando até a faculdade.
- E se a Perrie contar? Ou a mãe dela. – parecia genuinamente preocupado pelo seu tom de voz, aposto que não queria se dar ao trabalho de achar outra pessoa para morar com ele.
- Tenho certeza absoluta que a Perrie ainda vai vir brigar comigo na escola, vou soltar uma dizendo que minha mãe providenciou uma casa com uma amiga ou coisa assim. Com certeza, ela conta pra mãe dela e pronto, menos um problema na minha lista. – Expliquei. Tinha bolado aquele plano enquanto andava três quarteirões até a casa do . – Mas por que você precisava tanto de mais uma pessoa aqui?
- Meu pai foi transferido há uns 4 anos atrás, eu já tinha estudado na Lockel toda a minha vida, tinha o time de futebol que ia me garantir uma bolsa de estudos e diversos fatores. Eles me deixam morar sozinho, mas não completamente ‘sozinho’. Pelo menos um amigo tem que morar comigo. Não pode ser um desconhecido, é a regra. – Respondeu. – Acho que somos mais parecidos do que eu pensei, pequena.
- Nós dois? Parecidos? Vai nessa. Eu preferia morrer. – Retruquei na hora, acostumada com aquele joguinho. aproveitou a posição na qual estávamos, se inclinou e beijou meu pescoço gentilmente, como se fosse uma coisa completamente normal.
Eu, como uma idiota, me arrepiei toda até onde não devia me arrepiar. Principalmente onde não devia me arrepiar.
Filho da puta.
- Que nojo, . Essa boca passou por metade da cidade. – Fiquei de pé rapidamente, esfregando o lugar que seus lábios tinham tocado com uma expressão de nojo. Corrigindo: tentando fingir que não tinha ficado arrepiada pra caralho e esquecido como se respirava.
Ele riu, se arrumando na cama. Aquele sorrisinho satisfeito me deu vontade de bater na cara dele.
Andei para sair do quarto, tentando não parecer desesperada – qual é, não queria perder o jogo das provocações amigáveis.
- ? – Ele me chamou e eu virei, franzindo o cenho. Estava a ponto de perguntar o que queria quando ele prosseguiu; – Se o sofá estiver muito desconfortável...
- Prefiro dormir no chão a deitar com você. – Interrompi ele, sabendo qual gracinha ele ia fazer. colocou a mão no peito, fingindo que estava magoado com o que eu havia dito. – Boa noite, bobão.
- Boa noite, pequena. – Ele sorriu e eu fechei a porta do seu quarto, indo para minha cama improvisada no sofá.
Amanhã seria mais um loooooongo dia. Com todos os O’s do mundo.

Capítulo 3

Os dedos longos de estavam trêmulos quando ele finalmente tocou minha pele por baixo da blusa, aquele obstáculo em forma de tecido. Ele acariciou minhas costas, enquanto seus lábios abandonavam os meus e começavam sua jornada pelo meu pescoço.
Não consegui evitar um gemido embaraçoso, mas ele pareceu gostar daquilo: suas mãos, tão inseguras quando começamos, agarram minha cintura em um movimento possessivo que nunca imaginei que poderia vir de um menino tão doce. E aquilo me deixou ainda mais derretida em seus braços.
Eu estava completamente á mercê dele, de um jeito que eu nunca pensei ser possível para nós dois.

Acordei assustada pela memória tão realista, sentando-me no sofá por puro reflexo. Infelizmente, uma dor nas costas vinda do nada, proveniente do sofá nada confortável no qual eu tinha adormecido, me fez soltar um grunhido de dor e me curvar, acabando por cair no chão.
Ótimo. Duas partes do meu corpo machucadas logo pela manhã. Não dava para piorar.
Suspirando, fiquei de pé. Minha mão direita pressionando o lugar onde minhas costas doíam. Além de ter demorado pra pegar no sono – por ficar olhando o escuro e me lembrar do palhaço de It, admito – provavelmente ficaria dolorida pelo resto do dia. Justamente no dia dos testes para equipe de natação. Pelo menos, como capitã, eu não precisaria fazer o teste hoje, mas sempre ocorria algo e eu acabava tendo que entrar na piscina.
Fitei o relógio eletrônico, 5:30 da manhã. O sol já tinha saído da toca, obviamente não estava acordado e eu com certeza não iria pegar no sono novamente. Principalmente pela maneira que acordei.
Sério, eu podia ter sido acordada de vários modos horrendos, mas a lembrança do que fodeu a minha vida era foi a sorteada pela minha mente? Realmente? Eu só podia ser uma puta masoquista inconscientemente mesmo.
Fui até ao quarto de a base de passos leves, tomando cuidado para não acordá-lo quando abri o guarda-roupa. O menino estava esparramado na cama, respirando lentamente. Ali, dormindo tranquilo, nem parecia que ele era um tapado. Até estava fofinho.
Gastei alguns segundos longos encarando uma blusa preta que eu tinha, ela ficaria maravilhosa com o casaco roxo que eu tinha escolhido, e podia combinar com meu salto verniz preto. Até que eu encarei a blusa um pouco mais. Ela era um pouco apertada, ou seja, deixaria meus seios em maior evidência. E eles certamente aproveitariam isso para mais fofoca.
Peguei meu maiô de natação, deixando o quarto logo em seguida. Haviam dois banheiros na casa: um no quarto de e do lado do meu quarto. Optei pelo banheiro ao lado do meu quarto, queria evitar ao máximo acordar o garoto. Tomei um banho quente rápido, sem conseguir qualquer relaxamento – não que eu tivesse conseguido relaxar desde que deixei sozinho no quarto de Perrie – ou sensação de limpeza ao acabar. Enfiei-me nas roupas compostas demais para o que eu normalmente usava: minha única calça jeans, uma blusa cinza de manga curta com uma rosa contornada pelos dizeres Not your doll e um casaco roxo escuro por cima. Nada na ‘’moda’’, nada curto e livre como eu gostava. Apenas roupas que eu sabia que não iam chamar atenção de ninguém, nem iriam abrir mais uma brecha para os apelidos maldosos.
Poxa, eu realmente queria usar aquela blusa preta, mas sacrifícios erem necessários.
Cercada pelas paredes repletas de azulejos azuis daquele banheiro, encarei o meu próprio reflexo no espelho, tentando decidir se deveria ou não colocar maquiagem. Talvez algo leve como eu normalmente usava de manhã. Mas e se as pessoas pensassem que eu estava daquele jeito por conta de um cara? Ou para chamar atenção? Os comentários atacariam com o dobro de força.
Prossegui minha rotina, penteando o meu cabelo e escovando os dentes antes de sair do banheiro. Minhas roupas estavam todas no quarto de , contudo, meus outros pertences se encontravam no quarto que logo seria meu – após dos devidos concertos serem providenciados. Apanhei o que ia precisar e voltei para o banheiro, escolhendo colocar maquiagem ainda mais leve do que o habitual. Decidi permanecer com meus saltos verniz, de algum jeito, me senti mais confiante com eles. Terminei de me produzir com um par de brincos pequenos e algumas pulseiras brincando ao redor do meu pulso esquerdo.
6:45AM, pulei o café da manhã, agarrei minha bolsa e fui para o colégio. Seria até melhor não ser vista saindo de casa com , um dos maiores galinhas do colégio, no meu encalço.

Xxx

Entrei no Lackel sorrindo amigavelmente para o porteiro. O fluxo de alunos não estava alto nos corredores, na verdade, parecia um cenário de The Walking Dead. Poucas pessoas e as que estavam lá pareciam zumbis controlados pelo sono.
O que significava nenhuma atenção indesejada. Era o meu dia de sorte.
Estava sorrindo que nem uma idiota por ter essa pequena tranquilidade, até ver a mim mesma no espelho do corredor principal. Deus, aquela realmente não se parecia comigo. Mas aquelas roupas eram necessárias para que eu pudesse recuperar a minha reputação. Então, sacrifício feito.
Me sentei no banquinho ao lado do espelho, sacando meu celular. Chequei os status dos meus contatos salvos no WhatsApp, parando por um momento no da minha mãe. A legenda podre Com elas!!! Amo muito!! seguida por uma foto dela com minha irmã, Iris, e a filha do novo namorado dela, Kristen.
- Sua mãe? – E simples assim, meu celular tinha caído no chão. Me abaixei para pegá-lo antes de responder a , porém, ele acabou se abaixando também. E foi a vez das nossas mãos se tocarem levemente. Na versão clichê perfeita da coisa, nos ficaríamos vidrados nos olhos um do outro. Porém, na vida real, ele apenas recolheu a sua mão rapidamente. – Desculpa! – Não consegui distinguir se ele estava se desculpando por me tocar ou pelo telefone.
- Tudo bem. – Respondi, me sentindo incomodada pela súbita negação ao meu toque. Embora soubesse que estava fazendo o que eu tinha dito que queria, mesmo sem palavras: que ele se afastasse. – Por que está aqui?
- Vi você fazendo a ‘’cara de mãe’’. – fez aspas imaginárias e eu franzi o cenho.
- Cara de quê?
- É a sua cara quando sua mãe faz algo que te deixa irritada ou magoada. – Ah, é. Perrie costumava ser minha melhor amiga, mas era bem próximo de mim antes de eu conseguir ferrar tudo. – Tudo bem?
- Só mais uma foto dela com a filha de outro ao invés de procurar saber sobre a própria filha. – Dei de ombros como se aquele comportamento não me afetasse. Quem me dera ser tão fria quanto parecia. – Como sempre.
- ... – Sabia o que vinha a seguir. O carinho dele, o suporte, tudo que me fez ter coragem o bastante para me entregar a ele naquela noite. E por mais que eu desejasse aquilo, não podia continuar falando com ele como se nada tivesse acontecido, especialmente pelos cantos da escola. - Olha, . Sem querer sem grossa, mas acho que você tem que ir embora. Eu tô me esforçando pra caralho para recuperar a minha reputação. E falar com você não vai me ajudar nem um pouco nisso. – Ele olhou para o chão, um suspiro saindo dos seus lábios perfeitamente moldados.
- , eu sei que é difícil. Mas nós somos amigos desde sempre... – levantou a cabeça, buscando meus olhos. E foi a minha vez de desviar o olhar. – Aquela noite significou algo pra mim. Não foi só uma coisa qualquer. Você significa algo pra mim, . Não somente algo. – Ele segurou minhas mãos delicadamente. Por reflexo, olhei para ele. Aquele olhos azuis-esverdeados repletos de admiração pela garota que ele me idealizava, mas a qual eu já tinha provado diversas vezes não ser. – Você é tudo pra mim. Sempre te disse isso. E não mudou. Aquela noite só me fez perceber que eu te a...
Sua fala foi interrompida por mim, levantando bruscamente e levando minhas mãos para longe dele.
- Aquela noite foi um erro. Erros não devem se repetir. A gente não se ama desse jeito. A gente nem se gosta assim. – Fiz questão de frisar. Como ele poderia estar prestes a dizer que me amava depois de transar comigo na cama da ex-namorada dele? Amor não era a definição daquilo. Estava mais para hormônios de adolescentes. – Você sabe o que esse erro me custou? Minha casa, minha melhor amiga, minha reputação. Tudo. – Ele abriu a boca para falar, entretanto, eu não permiti. – Não me venha com essa história fajuta sobre amor e idealizações românticas, . A gente transou, fodeu. Simples. Não tem amor envolvido nisso. Nunca teve. – Finalizei raivosa. Eu estava com tanta raiva de tudo, que nem conseguiria falar um motivo principal para aquele sentimento avassalador.
- Não significou nada pra você? – perguntou baixinho, como quem estava com medo da resposta. Seus olhos, que já haviam me consolado tantas vezes, me olhavam com tristeza e medo. E eu quase conseguia ouvir ele pedindo em pensamento para que eu não quebrasse o seu coração, se é que ele realmente tinha sentimentos não platônicos por mim.
Não funcionou.
- Significou. – Disse rapidamente, ríspida. – Significou um erro que nunca será repetido.
Coloquei meu celular no bolso e carreguei minha bolsa para longe dali, dando a mim mesma o privilégio de não ver a expressão estampada no rosto de quando eu o deixei.
Novamente.
Assim como tinha feito naquela noite.
Nós dois estávamos deitados, o êxtase que ambos tinham alcançado pela primeira vez – ou eu devia dizer primeiras vezes? – era mais forte do que o previsto, e tão bom quanto os livros, séries e colegas mais experientes retratavam.
Quer dizer, claro que eu já tinha gozado antes, mas em um voo solo, descobrindo o meu próprio corpo com os meus dedinhos dançantes. Realmente transar, colocar tudo aquilo em prática foi... Uau. É, não tinha como definir.
Sabia que era virgem, Perrie com certeza teria me dito se eles tivessem transando. Eu mal podia esperar para contar pra ela!
Puta merda.
Perrie.
O homem ao meu lado me puxou para mais perto no instante em que minha mente deu um click. beijou minha nuca, acariciando com suavidade as minhas costas. O clima leve e repleto de sentimentos confusos, porém bons e fortes foi cortado por mim: praticamente pulando para fora da cama, cobrindo meu corpo com um lençol por conta de uma vergonha absurda.
- O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa errada? Eu te machuquei? – perguntou preocupado, pronto para se levantar da cama e me dar qualquer assistência necessária. – ? Eu tô preocupado, amor. Fala comigo, por favor.
Amor. Aquela palavra tinha sido usada na cama muitas vezes em vão.
- Não devíamos ter feito isso.
- Eu sei. – suspirou, passando a mão pelos cabelos castanhos desengrenados. – Eu vou falar com a Perrie sobre isso, explicar tudo para ela. Mas o que aconteceu aqui foi sério, . Isso significou muito para mim.
- , não. – Implorei, mordendo meu lábio inferior para segurar o choro. Trair minha melhor amiga com o namorado dela na sua cama era repugnante, mas ouvir uma suposta declaração do mesmo ali, naquele recinto? Isso era demais. Não que os limites não estivessem extrapolados, mas estava na hora de começar a concertar os meus erros. – Você vai falar com ela e eu também. Vamos concertar isso. Provavelmente não vamos nos falar por um bom tempo e eu entendo isso perfeitamente. Perrie vai ter todos os motivos do mundo para querer que eu fique longe de você. Ninguém além de nós três pode ficar sabendo disso. Nada aconteceu. – Em outras palavras: nunca termine aquela sentença, .
E assim, tão rápido quanto tinha aparecido, eu virei as costas e o deixei lá.


Capítulo 4

Parecia uma cena daqueles filmes adolescentes americanos, sabe? A menina segurando as lágrimas enquanto corria para o banheiro feminino, prestes a desabar.
Só que nem desabar em paz eu podia. Assim que empurrei a porta com toda a força que tinha pra entrar no recinto cheio de privadas, torneiras e espelhos, dei de cara com Lola Padite.
Costumava ser um quinteto alguns anos atrás: Lola, Perrie, Alyce, Lariza e eu. Alyce e Lariza mudaram de escola, Perrie e eu começamos a andar com novos grupos de pessoas e Lola... Bem, era um excelente ginasta da última vez que chequei. Ninguém era inimiga de ninguém, só afastadas.
Como dizem sobre o ensino médio: certas amizades só acontecem de acabar.
Engoli o choro, andando até um box e entrando nele. Sentei na privada coberta pela tampa branca e respirei fundo, tentando conter minhas emoções traiçoeiras. Contudo, assim que olhei para porta, não fui capaz de segurar um soluço alto: é uma vadia.
Minha mochila caiu no chão, fazendo um barulho meio alto devido ao silêncio no recinto. Toquei as palavras rudes levemente, e a caneta rosa com a qual elas foram escritas sujou o meu polegar.
Suja. Era isso que eu sempre seria a partir de agora.
- , você tá bem? – Olhei para baixo e consegui ver os sapatos de Lola: uma havaiana rosa, quase da mesma cor da caneta, de plástico, com uma flor roxa do mesmo material na tirinha direita.
- T-tô. – Gaguejei.
- Eu estou aqui se você quiser conversar, tá? Sabe que pode contar comigo. – A honestidade em sua voz era óbvia. Destranquei o box, confusa pelo rumo que aquela conversa estava tomando. Fui recebida por um sorriso amigável e compreensivo de Lola, o que estranhei ainda mais.
- Você não sabe o que eu fiz? – Me limitei a perguntar, embora não soubesse como era possível alguém não saber do ocorrido.
- Sei. Quer dizer, ouvi dizer. Mas né, você sabe que eu tô aqui pra você. Mesmo que a gente não esteja não esteja tão próximas, também tem que ouvir o seu lado da história, né. E o que eles estão fazendo é muito, muito desnecessário. – Se enrolou. – Né. – Lola e sua mania de falar né em todas as frases quando estava nervosa ou não sabia o que dizer. – Não sei se você entendeu o que eu quis dizer.
- Eu entendi, sim. – Ri levemente, ela sempre foi capaz de me fazer rir em situações sérias. – Mas a vida é o que ela é. Eu sou uma vadia.
- Mulher, não diga isso, não. – Ela disse e eu ri novamente pelo tom de voz que minha velha amiga havia adquirido: quase como se aquele substantivo fosse ilegal.
- Tá tudo tão complicado, Lola. – Suspirei. Por um momento, foi bom ter ela ali. Eu estava começando a ficar sobrecarregada: os sentimentos de , a situação na escola, minha mãe que me afetava mesmo do outro lado do país, morar com , perder a Perrie.
- A vida é complicada. Quando você pensa que ela vai melhorar, ela piora. – Revirei os olhos para o teatro dela, embora o pequeno sorriso em meus lábios denunciasse o meu divertimento. – Daqui a pouco o sinal toca.
- A gente conversa da aula do Davi. – Peguei minha bolsa e me levantei do vaso, andando com Lola até a porta.
- Pera aí. – Padite arrumou o cabelo, sorrindo para o espelho. – Pronto! E conversar na aula de química? Eu tenho que prestar atenção. A gente conversa no intervalo. – Respondeu, me alcançando na porta.
- Você entende alguma coisa daquela aula? – Perguntei, mesmo já possuindo uma noção da resposta.
- Não.
- Eu também não.
E naquele momento, com nós duas rindo ironicamente da nossa própria desgraça estudantil, realmente pareceu que as coisas estavam nos eixos por um segundo. Como costumavam ser.
Engraçado como uma velha amizade pode te ajudar mais do que as pessoas que estão ao seu redor diariamente.

Xxx

Sai da piscina sorridente, havia passado o dia todo distraída por Lola, ninguém tinha visto minha conversa com e o teste para equipe de natação fora adiado para amanhã – hoje, a treinadora apenas pediu para eu repetir os exercícios diários na piscina para que ela pudesse marcar o tempo e decidir quantos de cada as candidatas para equipe fariam para entrar. Compararíamos o meu tempo e técnica com as delas.
O dia havia sido razoavelmente bom. Eu não fiquei sozinha em nenhuma aula, sempre com Padite. Na hora do almoço, comemos fora da escola. As merdas que minha amiga de infância falava me mantiveram distante da realidade que eu estava enfrentando. Melhor ainda: Alison, a garota nova, ficou com a gente. Por ser novata, ela não sabia das fofocas.
Ás vezes, você só precisa de uma amiga para ignorar o mundo ao seu redor.
Eu estava radiante. Entrei no vestiário da equipe de natação, arrancando a touca de silicone da minha cabeça e pronta para tomar uma boa chuveirada. Ao invés disso, dei de cara com um me esperando na porta do vestiário.
- O que você quer, ?
- Te entregar a chave. – Ele sacudiu-as na mão. – Esqueci de te dar ontem e você saiu cedo hoje.
Peguei as chaves rapidamente. Não queria que alguém acabasse entrando ali e visse aquilo. O dia tinha se passado sem qualquer tipo de conturbação, quase como se eles tivessem esquecido a história do sexo com . Mas e se eles soubessem que eu morava com o ? Tudo iria voltar mil vezes pior.
- Tá doido, ? E se alguém visse isso?
Ele não foi capaz de retrucar ou qualquer coisa, porque como num passe de mágica, vozes femininas podiam ser ouvidas claramente. Um grupo de garotas estava se aproximando da porta do vestiário. Puta merda.
Segurei o pulso dele, correndo para dentro da única saída daquela situação: o próprio vestiário. Enfiei dentro da primeira cabine que eu achei, entrando junto com ele. Sinalizei para ficar sobre a privada, então, ninguém veria pés masculinos ali. Ele pareceu entender, ou só estava confuso demais para contestar. De qualquer maneira subi na privada junto com ele, me segurando nos seus ombros para não cair e ele agarrou minha cintura.
- Eu não acredito que o vestiário das ginastas está sem água de novo! A gente que trás medalhas para essa porcaria de colégio. – A voz fina da Vanessa encheu o ambiente e eu revirei os olhos. – E se a água daqui for a água da piscina? Eu paguei mais de trezentos reais na progressiva, não vou lavar meu cabelo com xixi!
abriu a boca, prestes a rir da baboseira que Vanessa tinha falado. Usei uma das minhas mãos para tapar aquele poço de sapinho antes que ele acabasse com nosso disfarce. Parece que eu esqueci que estava lidando com uma criança de dois anos, porque lambeu minha mão.
Isso mesmo, aquele idiota lambeu minha mão.
- Filho da puta! – Praguejei baixinho, limpando minha mão nos ombro dele. E que ombro.
Foco, . Foco.
- A bolsa da . – Droga. Suspirei cansada quando a voz de Candida, uma das ginastas, soou. estava olhando para mim com cara de quem queria rir pelo quanto eu fiquei irritada por conta da sua lambida. Eu enviei um olhar de morte pra ele, que apenas fez o bestão morder o lábio inferior para conter a risada. – Devíamos jogar ela na privada, aí ela vai poder sair nua por aí e transar com quem ela quiser.
- Vocês viram as roupas que ela estava usando hoje? Bregas! Até minha vó se vestiria melhor. Ficar nua vai ser uma bênção. – Foi a vez de Nina soltar o veneno. Bufei irritada. Se eu me vestisse assim, era brega. Se me vestisse de outro jeito, era vadia. Sinceramente.
- Aí, gente. É chato ficar falando isso, a menina não fez nada. – Malu interviu e eu sorri, não era tão ruim quanto parecia.
- Com a gente, não. Mas fez para Perrie. Ela está procurando uma nova co-capitã para o time de ginástica. Aposto que nós íamos ter mais vantagem se brincássemos um pouco. – A voz de Vanessa pingava veneno. Eu me senti irritada e, ao mesmo tempo, triste. Porém, sabia que era melhor permanecer ali ao invés de acabar com meu disfarce e piorar a situação. Tinha sido um dia bom, melhor do que eu esperava.
- Vamos levar a bolsa dela e largar na rua! – Nina disse animadamente, como se ferrar uma pessoa com quem ela mal conversasse fosse equivalente a ganhar o prêmio Nobel. fez uma careta, prestes a se levantar e acabar com aquilo. Segurei ele mais perto de mim para impedir que o mesmo fizesse isso. Nossos narizes quase se tocando quando eu movi a cabeça de um lado para o outro, sinalizando o claro não para intervir o plano maligno que estava rolando. Naquele momento, embora, estava mais preocupado em encarar meus lábios do que tentar se soltar de mim.
Ele se inclinou para perto e eu não me movi – nem para afastá-lo, nem para me aproximar mais. Não sei por quê. Nem mesmo soube dizer se eu queria ou não que aquilo de fato acontecesse.
- Não. – Malu foi em minha defesa novamente, ou assim eu imaginei. Fazendo eu finalmente recuperar a consciência e me afastar de . Por precaução, virei-me sutilmente no pequeno espaço da privada, ficando de costas para ele. As mão dele continuavam na minha cintura e agora minha bunda estava próximo de certa parte dele. Parabéns, . Você é burra. Tentou evitar um beijo súbito e vai acabar sentindo um pau duro contra a sua bunda. – Vamos só tirar a bolsa daqui, eu levo para casa e deixo amanhã nos achados e perdidos. Senão ela podia dar queixa e os funcionários iam olhar nas câmeras.
- E a gente ia acabar sendo pega. Boa, novata! – Nina bateu palminhas. Bem, aquilo era melhor que a primeira opção. Continuei ali, dividindo um sanitário com enquanto as meninas usavam o banheiro, por sorte, sem nem citar o meu nome de novo. Pela graça dos anjinhos, nada demais havia rolado naquele meio tempo.
- Não acredito que tô em um banheiro feminino com meninas tomando banho e sem poder ver nada. – Ele murmurou e eu revirei os olhos.
- Tem como você não ser um cafajeste por um minuto? Daqui a pouco elas saem, agora, fica quieto! – Sussurrei de volta. Fizemos o máximo de silêncio possível por aproximadamente dois segundos. Até me cutucar. – O que você quer?
- Vamos jogar pedra, papel e tesoura?
- É sério?
- Tô entediado.
E assim começavam a jogar jokenpo como dois idiotas. Rindo silenciosamente quando o outro perdia, a espera das garotas para saírem. O tempo não pareceu se arrastar e, quando a porta bateu, nós saímos aliviados do banheiro. Ficar tão perto dele e depois tão longe me dava uma sensação na qual eu não preferia pensar.
- Droga, vou ter que sair na rua de maiô.
E simples assim, tirou a blusa dele. Acho que fiquei encarando aquele tanquinho por um tempo considerável já que ele estava sorrindo convencido quando nossos olhos se encontraram novamente.
Pateta.
- Não vou transar com você, pode tirar o cavalinho da chuva. – Ele revirou os olhos e me ofereceu a camisa. - Veste isso. As pessoas da rua vão ter o prazer de ver toda essa gostosura aqui. – Ele apontou pra si mesmo. E foi a minha fez de revirar os olhos. – E você pode voltar a me secar também.
- Eu não estava te secando. – Vesti a blusa dele e guiei-me a saída, sendo seguida por ele.
- Imagina. – piscou para mim e eu semicerrei os olhos. – Por que não parou aquelas garotas de pegarem a sua bolsa? – Perguntou, coçando a barriga definida despreocupadamente.
- Porque iam ver a gente junto. Em um banheiro. O dia hoje até que foi bom, melhor do que eu esperava. Não quero ferrar a minha reputação de novo quando parece que as pessoas estão esquecendo o que rolou.
- Você e essa mania de se preocupar com o que os outros pensam. – Antes que eu pudesse retrucar, sorriu. – Vem, vamos pra casa. Tô com fome.
Olhei ao redor, confirmando que ninguém estava de tocaia nos olhando e saí, andando para casa na companhia de . Por conta do horário, todos os alunos já deviam ter ido embora. Ainda assim, continuei checando os arredores ao andarmos pela rua. Acho que ele notou, porque depois de dois quarteirões bufou e colocou os braços sobre os meus ombros.
- Ninguém vai te ver, todo mundo vai olhar pra mim.
Não segurei a pequeno riso diante daquilo, revirando os olhos comicamente. Mais importante, confiei nele. Mesmo sabendo que ele não tinha controle daquilo.
E nós continuamos andando assim até em casa.


Continua...



Nota da autora: como é aquela palavrinha com R? Aquela que a gente dá muito importância. Isso mesmo, essa palavra que foi o nome do último álbum da Taylor Swift. REPUTAÇÃO.
Guardem isso. ALIÁS, começaram a notar as mudanças sutis que estão rolando com PP, né? Digo nada.
Além de mostrar um pouco mais do cara que ajudou a vida dela virar do avesso, aqui conhecemos um pouco mais da menina em si!
LOLA É INSPIRADA EM UMA AMIGA MINHA, ELA TÁ LENDO ISSO! OI, LOLA DA VIDA REAL!
Mas Jesus do céu, isso que foi uma att, ein? Quase quatro mil palavras nesse cap! O próximo volta a ser menor, juro.
Espero que tenham gostado! E não se preocupem, os benefícios da inimigacidade desses dois vai aparecer já, já! Se bem que já te se mostrando que não é tão platônico assim, né? Btw, a repetição de certas paradas = ela negando pra si mesma. Alguém sabia dessa?
XOXO, V.



Outras Fanfics:
Minha Flor Preciosa - Outros/Andamento


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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