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Última atualização: 31/10/2020

Prólogo - Devil

PALERMO, SICÍLIA - ITÁLIA.

O homem deixou um suspiro escapar do fundo de sua garganta e tirou os óculos escuros que escondia um pouco de seu rosto. Com um sorriso no canto dos lábios, levantou a cabeça e encarou o sol brilhante com os olhos estreitos, era bom sentir uma temperatura mais quente. Há quanto tempo não sentia um sol tão quente — comparado à Inglaterra, onde vivia — esquentar-lhe o corpo daquela forma rápida e deliciosa? Era relaxante. Ainda mais depois de tudo o que vivera e sentira.
Férias. Isso, ele precisava de férias. Precisava afastar-se de todo aquele mal que o cercava. Por isso estava ali, em Palermo; para tirar férias, livrar-se de todos, sentir-se bem, recuperar-se. Tinha sequelas de coisas de alguns meses atrás e eram coisas que ele pretendia esquecer. Queria focar em outra coisa — pelo menos nos próximos dois anos —, estava cansado de se esconder, de passar-se de infeliz por aí a fora. Queria viver! Ser feliz! Queria sorrir normalmente, queria conhecer as praias, passear pelos campos, sentir o cheiro do mar, correr na areia, jogar bola, tomar sorvete e brincar como nunca tivera direito antes. Quem sabe, depois disso tudo, passar no Vaticano e conhecer as Igrejas tão bem arquitetadas. Conhecer alguma mulher interessante o suficiente para esquecer-se dos amores do passado também seria uma boa ideia. As italianas eram lindas e ele se sentiria honrado em conseguir uma para si.
Uma moça parou em seu lado e, com um sorriso angelical nos lábios, fitou-o com curiosidade.
— Olá — ele disse em um tom de voz calmo, o qual nem ele mesmo reconhecera. Desde quando era tão sereno? O que uma mulher bonita não faz...
— Olá — ela respondeu no mesmo tom de voz, abrindo mais seu sorriso. — Seja bem-vindo.
— Obrigado — ele mordeu o lábio inferior e pegou as malas no chão. — Isso é tudo...
— Nosso? — ela o interrompeu e soltou uma risada fraca, mas melodiosa. — Sim, nosso. Quando digo nosso — ela o encarou por mais alguns segundos e virou-se para o portão novamente ao voltar a falar: — É nosso de verdade!
— Certo. Você é a... — ele murmurou arqueando uma das sobrancelhas e a garota riu, novamente.
— Amanda. Amanda . — Ela sorriu e jogou os cabelos loiros para o lado. — Não me conhece porque eu era um bebê na última vez que você veio aqui — ela sorriu novamente, com seus lábios rosados e bem desenhados, atraindo a atenção do mais velho.
— Creio que sim — ele murmurou mordendo o lábio inferior e pouco se importando se a pequena italiana ali era sua prima. Até um ano atrás nem sequer sabia que ainda tinha parentes por aí. Pouco importava se eram parentes ou não, aquela garota era linda. De verdade.
— Papá!¹ — a garota gritou assim que cruzaram o enorme portão de ferro do local. — O primo inglês chegou! — ela gritou novamente, com seu italiano soando de uma forma tão perfeita e serena que, naquele momento, o homem sentiu-se perdido e com uma enorme vontade de aprender o italiano para falar tão bem quanto ela. O sotaque era tão lindo, na voz suave de Amanda, então...
— Oh! — o mais velho exclamou enquanto caminhava calmamente na direção do rapaz e da filha. — Bem-vindo! — exclamou novamente, enquanto sorria e puxava o homem para um abraço caloroso, fazendo-o torcer o nariz disfarçadamente. Não gostava de calor humano. Não era chegado a abraços.
— Obrigado — agradeceu, timidamente. Não entendia italiano perfeitamente bem, mas sabia que o velho havia lhe dado boas-vindas.
O velho soltou os ombros largos do mais novo convidado e passou a caminhar ao seu lado, ainda sorrindo. Família feliz, pensou, enquanto corria os olhos por todas as pessoas que surgiram no local assim que ele fora anunciado. Gostava de público. Público sempre fora seu forte. Público lembrava poder, que lembrava passado, que lembrava tudo o que ele queria — ou teria de — esquecer que viveu. Mas, claro, não podia nem iria negar que ele estava no poder agora. Ele era o chefe. Não chefe de uma coisa qualquer, não se mudaria para Itália somente por querer um pouco de paz e felicidade. Isso seria somente nos próximos dois anos. Uma trégua, talvez. Uma trégua de algo que aquela família nem sequer desconfiava. É o que todas as mães dizem para seus filhos: Não confie em estranhos.
O homem deixou um sorriso se formar no canto de seus lábios quando conseguiu observar algo brilhar no topo do telhado da casa, uma coisa tão... escondida. Ninguém ali seria capaz de notar o que ele notou, nem mesmo o melhor segurança daquela casa!
Um leve aceno de cabeça. Bastou isso.
Silenciosa, rápida e fatal.
Essas são as três palavras que definem o que viria a seguir.
Silenciosa.
Rápida.
Fatal.
Mais um sorriso disfarçado.
Aquilo fora o suficiente. Em questão de segundos, o velho, pai de família, estava caído ao chão com uma das mãos sobre o peito, enquanto respirava ofegante. Horror era o que rondava aquele quintal. Todos tinham olhos extremamente arregalados e gritos desesperadores escapavam de suas gargantas. O homem, convidado, como estava mais próximo do mais velho, ajoelhou-se o mais rápido que conseguira e se aproximou do homem, engolindo em seco ao observar o que havia sob a mão do mais velho. Sangue. Era sangue o que havia sob a mão do velho! Fora um tiro certeiro e quase impossível de se notar, se não fosse pelo sangue que jorrava com força e um pouco mais de rapidez que o normal.
As mulheres presentes tinham os olhos arregalados e lacrimejantes, gritos e mais gritos eram ouvidos. Desespero. Medo. Pavor. Escuridão. Gritos.
Morte. Poder. Há quanto tempo ele não via aquelas palavras e sensações? Um ano? Fora o suficiente para sentir saudades. Pose de bom moço não era para ele. O velho estava fora do caminho. O poder era dele. A verdade, bem, a verdade não viria à tona. Só se o velho revivesse. Mas isso não era possível.
Era tudo dele. Mas precisava confessar: estava morrendo de pena de ver os olhos de Amanda — tão azuis, tão bonitos, intensos e brilhantes — derrubarem tantas lágrimas desesperadas daquela forma. Ela ficava tão mais bonita sorrindo! Mas quem se importava? Ele não... nem quem estava com ele.
Uma das mulheres se abaixou ao seu lado, mostrando tanto medo e desespero quanto as outras, mas algo nela a diferenciava. Uma pequena tatuagem no dedo indicador, talvez fossem seus olhos extremamente verdes e traiçoeiros. Ou pelo simples fato dela ser uma antiga conhecida e ninguém sequer desconfiar, assim como não desconfiaram do atirador no topo da casa.
— Bem-vindo, — ela sussurrou antes de levantar-se e secar as lágrimas.


Capítulo 1 - Renascendo

Três anos depois...

abriu os olhos e suspirou preguiçosamente em seguida. Esticou os braços para se espreguiçar e sentiu algo bater contra seu corpo. Com um sorriso fraco no canto dos lábios, virou-se para o lado. Lá estava ela. Os cabelos, levemente enrolados devido ao penteado da noite anterior, estavam espalhados por todo o travesseiro, o blusão que, na verdade, era uma camisa antiga de alguma banda que gostava durante a adolescência, cobria até metade de suas coxas, deixando à mostra o curto short azul marinho que ela usava por baixo. sentia-se feliz em tê-la ali. Nunca sequer desconfiara que acabaria ali com ela, em sua cama. Mesmo depois de tudo o que passaram, mesmo depois de tudo o que disseram e fizeram um com o outro.
Ignorando o leve frio que percorreu seu corpo por estar apenas de boxer, se levantou e caminhou lentamente até o banheiro, antes observou o celular aceso em cima da mesinha ao lado da cama e revirou os olhos. Charlie. Dane-se. Precisava de um banho bem tomado, precisava relaxar, precisava esquecer-se que dali uns dias completaria trinta e um anos. Deus! Como passara rápido esses três anos. Ele ainda podia sentir a bala daquela maldita arma de em seu interior, ela não pôde ser removida pois aquilo colocaria mais sua vida em risco. Charlie, então, como ficara responsável por ele, achou melhor não arriscar. Não o atrapalharia quando cicatrizasse, ele poderia continuar sendo o famoso . A bala não o atrapalharia em nada. Parando em frente ao espelho, encarou seu reflexo e suspirou em seguida.
Havia melhorado. Seu rosto parecia mais... alegre. Seus cabelos não estavam mais tão bagunçados como costumavam ser, estavam até mesmo mais baixos! Sentia-se novo, renascido. Após encarar-se por mais alguns segundos, fechou os olhos com força e abaixou a cabeça. Sentia as memórias lhe atingirem com força toda vez que fechava os olhos, lembrava-se claramente do que acontecera antes de ser atingido. Ainda com os olhos fechados, levou os dedos em direção de sua barriga, onde havia uma cicatriz grossa. Soltou uma risada fraca e irônica lembrando-se que, ali, onde ele havia levado um tiro, fora o local onde seu pai também fora atingido e morto.
Tentaram matá-lo da mesma forma que o pai, mas falharam. Poderiam ter falhado com seu pai também.
sentiu alguém abraçá-lo por trás, mas não se moveu. Apenas sentiu o calor da pele macia e quente de abraçar-lhe por trás, não tinha sensação melhor que aquela. Ele sabia bem que ela já tinha ideia do que ele estava pensando para estar naquele estado. Estavam em um estágio avançado; não precisavam mais de palavras e explicações. Entendiam apenas pelas ações e gestos um do outro. sabia o quão culpada se sentira durante o tempo que ficara no hospital e sabia, também, o quanto ela ainda se sentia mal com toda a situação mesmo depois de três longos anos. Culpa não era algo que passava tão rápido assim, mas ele conseguiu lidar bem com aquilo e deixar claro para ela que... ele a amava mais que qualquer coisa e não teria culpa dela que o fizesse mudar de ideia. Pela primeira vez na vida deixou claro o que sentia por alguém e ignorou completamente seu subconsciente dizendo que ele deveria manter-se longe de porque ela o havia entregue para a polícia mesmo ele não sendo culpado. Ele ignorou tudo e todos que era contra aquilo e a primeira coisa que fez assim que obteve alta do hospital fora ligar para ela e pedir para que ela fosse junto a Charlie e Emma buscá-lo. Oras! Ela passara todos aqueles meses lá com ele. Por que diabos ele a ignoraria? Por que terminaria tudo? Ele a amava com todo seu coração e não sentia mais medo de assumir aquilo para quem quer que fosse.
— Bom dia — sussurrou após depositar um beijo rápido nas costas nuas de .
— Bom dia — ele respondeu com um sorriso torto, abrindo os olhos e virando-se para ela por completo.
— Já tem que ir? — ela perguntou ainda num tom de voz baixo.
— Sim, acabei de ver que Charlie me mandou uma mensagem, não a li... mas tenho certeza que ele me quer lá no prédio — ele respondeu fazendo uma careta que, de acordo com , era fofa. — Quer uma carona? Eu te busco quando eu acabar lá no Charlie.
— Mas não era sua folga? — ela perguntou e voltou a falar em seguida, sem esperar uma resposta: — Você disse isso semana passada e eu tive que esperar você prender um cara fora de Londres... — ela revirou os olhos e sorriu em seguida — Não precisa se preocupar. Eu sei me virar, .
— Eu sei que sabe, mas — ele fez uma pausa e se aproximou mais da mulher, puxando-a pela cintura e colando seus corpos de uma vez — Eu quero te levar em um lugar. A propósito, Charlie curte me tirar de folgas.
— Percebi — ela revirou os olhos e ignorou completamente o fato de ter que ir trabalhar mais uma vez. — Outro? — ela perguntou, referindo-se ao lugar que a levaria, sorrindo boba e envolvendo o pescoço do homem com os braços.
— Sim, outro — ele sorriu fraco. — Sabe como é, a London Eye está aí dando sopa e eu sempre quis, você sabe — ele piscou um dos olhos, fazendo-a gargalhar — transar com você lá dentro.
! — ela exclamou ainda rindo e dando um tapa no braço dele, fazendo-o gargalhar junto.
— Nós vamos jantar com a Emma, o Charlie e o Nicholas — ele disse colocando uma mecha do cabelo de para atrás de sua orelha.
— Vocês vão, finalmente, contar alguma coisa para o Nicholas? — perguntou enquanto encarava .
— Eu não sei — ele deu de ombros e se afastou de . — Eu acho que é apenas... O que fazíamos antes, sabe? — ele sorriu e andou calmamente até o box. — Nicholas pediu e eu aceitei, não sei dizer "não" para aquele moleque.
— Eu sei que não sabe — riu e virou-se de costas para não assistir arrancar a única peça de roupa e correr para atacá-lo e mostrar o efeito que ele lhe causava. — Então tudo bem — ela deu de ombros e se virou para , que já estava embaixo do chuveiro. — Vou pegar minhas roupas e esperar você acabar.
— Eu acho melhor a gente economizar a água do mundo e você vir tomar banho comigo — ele disse alto quando já estava passando pela porta do banheiro, fazendo-a rir. — Não ria! — exclamou. — Estou falando sério! Não ligo de dividir o chuveiro com você!

Alguns minutos se passaram e os dois estavam devidamente arrumados. vestia a mesma roupa da noite anterior, mas não importava — pelo contrário, isso a fazia lembrar que precisava levar roupas para o apartamento de logo. As pessoas da Redação não notariam, até porque não a viram na noite anterior. estava o mesmo despojado de sempre; cabelos — agora um tanto quanto mais curtos — levemente bagunçados, calça jeans e camisa — quase — social branca de botões com uma camiseta igualmente branca por baixo. Estava... Normal.
— Vamos? — ele perguntou afundando o rosto no pescoço de , que se encolheu automaticamente e sorriu.
— Vamos, vamos — ela respondeu se afastando dele e correndo para a sala para pegar sua bolsa que estava largada por ali.
Não demorou muito e já estavam no carro de , que já havia mudado novamente. Agora ele tinha um Audi RS6 azul marinho, o carro era realmente encantador e confortável. Ah, óbvio, veloz também. Era o típico carro que qualquer viciado em carros chamaria de foda. Com , ao encarar aquele carro na loja, não foi diferente. De acordo com ele, aquele carro chamara seu nome, implorara para ser comprado e ele apenas não soube dizer não para aquela coisa linda.
— Que horas você sai hoje? — perguntou enquanto parava em um sinal vermelho.
— Que horas você quer me buscar? — ela sorriu de uma forma sapeca e mordeu o lábio inferior.
— Mal foi promovida e já está querendo fugir do trabalho? — estreitou os olhos e riu, balançando a cabeça afirmativamente. — Te pego às sete e te levo em casa para se arrumar.
— Marcado, então — ela respondeu sorrindo e sentindo a felicidade invadir cada pedacinho de seu corpo. Deus! Há quanto tempo ela esperava por aquilo tudo? Sentia-se completamente realizada por estar com daquela forma. Apesar de tudo o que passaram e disseram um para o outro, ela o amava com todo o coração e não negava aquilo para mais ninguém há tempos. A partir do momento em que a olhou nos olhos e a cobriu com seu casaco dizendo que a amava, há três ano atrás, ela parou de se enganar e negar que não sentia o mesmo. Porque, Deus, ela sentia a mesma coisa que ele, senão a mais! Estava imensamente feliz e realizada com tudo o que estava acontecendo nesses últimos dias.
Pouco mais de dez minutos depois, estacionou o carro em frente a Redação. tinha um bico desanimado e emburrado no rosto. Apesar de adorar trabalhar ali e fazer o que fazia — escrever e correr para pegar os furos —, sentia-se cansada e não queria se afastar de . Não depois da noite que tiveram.
— Não quero trabalhar! — ela exclamou afundando no banco do carro.
soltou uma risada fraca e tirou o cinto de segurança, debruçando-se sobre o corpo de no outro banco.
— Eu não quero que você vá, mas mesmo assim te trouxe aqui, né... — ele murmurou enquanto afundava o rosto no pescoço da mulher, fazendo-a sorrir e sentir arrepios.
— Vou fazer tudo o que tiver para fazer o mais rápido que eu puder — ela murmurou puxando-o pelo rosto e encarando-o nos olhos. — Me pegue assim que eu terminar, sim?
— Com certeza — ele respondeu sorrindo e, sem enrolar mais, juntou seus lábios em um beijo um tanto quanto urgente.
retribuiu o beijo a altura enquanto o puxava para mais perto, sem se importar se ele era mais pesado que ela ou não, apenas queria tê-lo mais perto, queria senti-lo mais uma vez antes de descer daquele carro e se deparar com a maldita realidade de que teria que ficar sem aqueles toques e beijos durante o dia inteiro.
afastou seus lábios e, sem abrir os olhos, murmurou:
— Eu acho bom você descer desse carro agora antes que eu pare de resistir e te leve de volta para o meu apartamento.
— Eu não reclamaria se você fizesse isso — ela respondeu e puxou o lábio inferior de , fazendo-o soltar um suspiro fraco. — Mas eu realmente preciso trabalhar, então...
— Infelizmente. — Ele revirou os olhos e voltou a sentar-se comportadamente em seu banco.
— Até mais tarde — ela murmurou enquanto se curvava na direção de e juntava seus lábios mais uma vez.
— Até mais tarde — ele respondeu sorrindo.
, então, saiu do carro. Olhou para trás antes de entrar na Redação e continuava lá, como ele sempre fazia, esperando-a entrar. Ela sorriu e acenou, ele retribuiu sorrindo da mesma forma e, com a imagem de sorrindo daquela forma alegre na cabeça, arrancou com o carro.

****

Ryan fotografava o corpo sem vida que se encontrava jogado no chão.
— Essa vida de trabalho em dobro não serve para mim — murmurou ele enquanto encarava o pobre coitado morto. — Olha só o que esse cara fez consigo mesmo! — ele exclamou horrorizado. — Charlie, quero voltar para os meus códigos com a Emma — continuou Ryan, assim que o chefe se aproximou.
— Pare de ser frouxo, por favor — Charlie disse em um tom brincalhão, revirando os olhos. — Você que escolheu estar aqui.
— Eu sei — o rapaz suspirou e encarou o mais velho. — Isso foi mesmo um suicídio? — ele perguntou sério.
— É o que parece — Charlie respondeu. — O está vindo para cá. Continue a tirar as fotos, quanto mais detalhes, melhor.
— Certo. — Ryan respondeu dando de ombros e voltando ao trabalho em seguida.
Uns minutos se passaram e finalmente apareceu. Não estava com uma aparência tão apresentável, como já era de se esperar. Era sua folga — novamente —, provavelmente passara a noite inteira acordado ou fazendo qualquer outra coisa com em uma noite calma.
— Finalmente! — Charlie exclamou se aproximando.
— Oi para você também — disse com um sorriso irônico nos lábios e revirando os olhos em seguida. — Qual a dificuldade em me chamar quando minha folga terminar? — ele perguntou bufando.
— Nenhuma — Charlie deu de ombros. — Gosto de te tirar de casa quando está com alguma mulher. Ainda mais quando essa mulher é a ! — ele sorriu, brincalhão e continuou encarando-o sério. — Vai logo olhar esse corpo, — Charlie pediu, dando uma risada fraca. Não pelo corpo, mas sim pela cara de . — Disseram que pode ser encarado como um suicídio.
— Essa sua perícia anda tão fraca que tudo para ela hoje em dia é suicídio.
murmurou indo em direção ao corpo, contra sua vontade. Não aguentava mais ver gente morta.
parou e encarou o homem quase idoso que estava caído no chão sem nenhum rastro de vida. Coitado, foi uma morte dolorida, pensou suspirando e se abaixou na direção do corpo, curvando-se para observá-lo melhor. Sua especialidade não era aquela, mas, querendo ou não, aprendera muito com . Principalmente analisar corpos e ter a certeza de quando fora um suicídio ou não. Assim como aprendera com Lucy que se for um suicídio, terá uma pista evidente daquilo. Nem mesmo que fosse uma carta de despedida ou um corte pequeno no pulso. Agora, se for um assassinato, o corpo ficaria daquela forma. Ficaria exatamente igual ao corpo daquele homem que estava em sua frente. Pelo menos aqueles dois serviram para alguma coisa: aumentar seu conhecimento.
se levantou e se virou para Charlie, mordendo o lábio inferior. Apenas com aquele olhar que o lançara, Charlie notara que teriam mais trabalho que imaginara. Não era um suicídio. Sua perícia estava errada. Ele estava errado. Os assassinatos estavam de volta. Porém, desta vez, mais complicados; complicados a ponto de enganar profissionais. A ponto de ficarem confusos enquanto analisavam o corpo. Indícios de suicídio, mas, na verdade, um homicídio. Charlie sinalizou para os profissionais que ainda estavam ali e pediu para que recomeçassem as análises, deixando claro que não acreditava mais na hipótese de suicídio. Abririam um caso específico para aquele homem e descobririam o que havia acontecido de fato.
— E que tudo comece de novo. — sussurrou ao passar por Charlie e sair do local sem dar as informações necessárias para a perícia que apenas o aguardava. Estava abalado demais para continuar naquele lugar. Sentia-se sufocado. Seja lá quem for o assassino da vez, quer tentar derrubá-los de novo. Mas ele não deixaria isso acontecer. Se não deixara há três anos atrás, não seria agora que ele desistiria de destruí-los de uma vez por todas. Queria viver livre daquele inferno e viveria. Nem que para isso ele precisasse matar o dobro que matara da última vez.

****

Nicholas deu um sorriso de canto para a garota em sua frente e jogou a mochila em um dos ombros.
— Eu realmente preciso ir, Colbie — ele murmurou mordendo o lábio inferior. — O amigo da minha mãe está vindo me buscar.
— Mas ainda é cedo e falta a última aula. Pare de matar aula, Nicholas! — a garota o repreendeu e revirou os olhos. — É a segunda vez em uma semana.
— E se eu prometer que é a última? — ele perguntou baixo, se aproximando da amiga que deu uma risada fraca.
— Contarei para sua mãe caso não seja mesmo — ela o encarou nos olhos firmemente. Era a única garota naquela maldita escola que o encarava nos olhos com tanta firmeza e sem deixar as bochechas corarem. Por que diabos Colbie não podia ser como as outras?
Ah, claro. Se ela fosse como as outras não seria sua melhor amiga.
— Colbie, por favor! — o garoto exclamou. — Se minha mãe souber ela me bota de castigo!
— Por favor digo eu! — a garota bufou. — Só estou precisando de ajuda no maldito trabalho de matemática! Você é o único que consegue me fazer entender. Por favor — ela murmurou fazendo um bico e Nicholas bufou, revirando os olhos.
— Se eu for no jogo com você na sexta... — Nicholas começou e Colbie mordeu o lábio inferior — Você promete não contar a minha mãe?
— Prometo o que quiser se me fizer ficar com pelo menos sete e meio em matemática — ela respondeu sorrindo e Nicholas suspirou. — E de brinde, sim, aceito sua companhia para o jogo.
o perdoaria por ele perder o treino dos jogadores, não é mesmo?
Ainda com o coração apertado por estar louco para ir ao treino, Nicholas pegou o celular e mandou uma mensagem para informando-o que tinha um trabalho para fazer e não poderia matar aquela aula. Alguns minutos depois, respondeu dizendo que estava tudo bem e ele acabara ficando atolado de trabalhos. Nicholas sentiu-se mais aliviado após a mensagem e caminhou ao lado de Colbie até a sala de aula.

****

Charlie encarou a sua frente e mordeu o lábio inferior. Não sabia como contar aquilo a ele, não sabia como agir com tudo aquilo acontecendo de novo.
— Encontramos... — Charlie fez uma pausa e arqueou uma das sobrancelhas — Encontramos um bilhete com o seu nome, . Com a mesma caligrafia de três anos atrás. O que é completamente estranho já que...
— O e Castellamare estão mortos e não há possibilidade de ser o irmão do Crowley que foi morto naquela explosão esquisita que teve no dia que eu acordei — passou as mãos pelo rosto e suspirou. — Christopher. Christopher Adams. Onde ele está? Já foi solto?
— Ele será solto daqui a um mês — Charlie respondeu. — Acha que ele pode estar envolvido?
— Não sei se ele seria capaz de algo tão inteligente, mas o que custa tentar?
deu de ombros. — Não quero ler o bilhete, eu não quero analisar nada. Só quero bater um papo com o Adams e preciso que encontre o Gabe, porque, sim, ainda lembro dele, e o amigo dele também.
— Mas você não pode andar às cegas assim, — Charlie juntou as sobrancelhas, estranhando o ato do mais novo.
— Andei às cegas a vida inteira, Charlie. Não pode ser tão difícil fazer isso de novo. — rebateu firme enquanto se levantava — Não vou demorar com o Adams.
— Você deveria deixar de ser orgulhoso — Charlie murmurou quando já estava na porta. — Acho que você deveria aceitar minha proposta de...
— Não, Charlie! — o cortou e suspirou, encostando o corpo contra a porta. — Não quero trabalhar com a . Por que não chama a Elizabeth?
— Acha que não se importaria? — Charlie riu baixo e balançou a cabeça negativamente. — Pare, , nós dois sabemos que a é a melhor pessoa para trabalhar com isso.
— Não, não é! — exclamou. — Deixe a fora disso, por favor!
Charlie suspirou.
— Pode pelo menos pensar no assunto? Você não pode, nem deve e tampouco deixarei, tomar as decisões por ela. Quero seu consentimento porque faremos uma equipe como a antiga e não quero vocês feito cão e gato agora que estão namorando — ele perguntou baixo e revirou os olhos. — Oras, ! Ela sabe de alguma coisa, podemos colher algo dela facilmente! Pense comigo: a já teve um caso ou sei lá o que com o Paul. Ela pode saber no que ele estava envolvido e por que estava atrás do que queremos e...
— Não! — se segurou para não gritar e suspirou mais uma vez. — Não importa o que ela e Paul tiveram. Isso foi há anos atrás, Charlie! Ela não sabe de nada e é melhor continuar sem saber!
— Está desistindo do cofre, então? — Charlie perguntou e suspirou.
— Sim — ele respondeu firme e Charlie passou as mãos pelos cabelos.
— Então foi tudo à toa? Esforços jogados fora?
— Sim, Charlie, foi, foi tudo em vão. À toa.
— Por favor, . Não fale assim e...
— Sabe o que é ver a mulher que você ama com vários machucados e com os olhos lacrimejantes por saber que você pode morrer a qualquer momento, Charlie? — o interrompeu e deu passos largos até ficar cara a cara com Charlie, apoiou os braços em sua mesa e o fitou nos olhos, falando em seguida: — Sabe o quanto dói encarar aqueles olhos que antes eram tão brilhantes, totalmente opacos e transbordando preocupação? Pois é, Charlie, foi o que eu vi na e não quero ver de novo. Por isso sou contra a volta dela para cá. Não quero, não aceito, não vou colaborar, não adianta.
— Já parou para pensar no que ela quer? — Charlie perguntou. — Repito: você não tem o direito de decidir por ela e eu não vou deixar que isso aconteça. Precisamos dela, quer você queira ou não.
— Já pensei. Temos outras fontes confiáveis, não quero que passemos por tudo de novo — se ergueu e suspirou. — E é por isso que eu vou abrir o jogo com ela. Vou contar o que sei, o que queríamos, quem realmente matou a Owen e por quê. Se ela quiser colaborar, vai colaborar afastada disso tudo, Charlie. Não a quero aqui. Não enquanto o Jack estiver aqui.
— Então tudo não passa de ciúmes do Jack? — Charlie perguntou revirando os olhos.
— Antes fosse ciúmes, Charlie! — exclamou bufando. — Ele é perigoso e você sabe!
— Procuramos provas da corrupção dele há três anos, — Charlie murmurou. — Não tem como garantir nada. Pare de ser inseguro! te ama!
— Eu também a amo! — gritou. — Por isso faço isso, porra!
— Então você deveria parar de tentar controlar as coisas no lugar dela. Pense mais no que ela quer. Vocês estarem em um relacionamento não lhe dá o direito de tomar decisões por ela. Não seja esse tipo de cara — Charlie revirou os olhos. — E pense bem sobre abrir o jogo totalmente de uma vez e, de verdade, se fizer isso, fuja para bem longe, porque você sabe... ela é impulsiva e pode nos jogar na cadeia. Não esqueça disso.
— Ela não faria isso — sussurrou. — Não de novo.
— Então mantenha essa boca fechada, . Apenas foque no seu futuro ao lado dela, tente manter um relacionamento saudável e sem as brigas de antes. Confie em sua mulher e deixe-a confiar em você — Charlie suspirou. — Acha que não me arrependo? Acha que não doeu os olhares acusadores de Emma sobre mim?
— Imagino, Charlie, realmente imagino — fitou o chão. — Mas... eu... eu não quero a trabalhando aqui. Não quero mesmo. A vida dela é naquela redação, ou então virando noites enquanto escreve algum projeto novo... isso aqui não é para ela.
— Não cabe a você decidir isso, é a carreira dela, o trabalho dela; ela decide. E sinceramente? Ela não precisa da sua proteção — Charlie o encarou nos olhos. — Mas saiba que estou arrependido de ter te colocado nisso mesmo depois de...
— Por favor, Charlie. Esquece isso — sorriu fracamente. — Se eu fiz tudo o que fiz, foi por que quis. Esquece o que tem dentro daquele cofre, Charlie. Vamos seguir em frente.
— Tudo bem, como quiser — Charlie deu de ombros. — Lá só tem alguns milhões de libras, alguns segredinhos imundos de algumas pessoas aqui de dentro, a causa das mortes de Paul Garred e Zachary O'Donnel, talvez a prova que queremos sobre Jack... mas tudo bem, vamos esquecer isso completamente.
— Não adianta tentar esse jogo sujo, Charlie — engoliu a seco. — Eu não quero mais.
— Você quem sabe, . Não vou me meter na sua vida como fazia antes — Charlie piscou um dos olhos. — Apenas pense bem no que vai fazer.
não respondeu, apenas saiu da sala de Charlie. Sua cabeça estava trabalhando a mil; dúvidas, medos, incertezas, tudo passava por sua cabeça em apenas um segundo. Adentrou o elevador e encostou-se contra a parede, respirando fundo e fechando os olhos por alguns segundos. Conversaria com Emma e iria atrás de Christopher Adams.

****

Elizabeth caminhou calmamente por todo o corredor da redação, ignorando completamente todos os olhares curiosos sobre si. Parou de frente para uma garota ruiva e pele extremamente branca e sorriu sem mostrar os dentes.
— Posso entrar? — Elizabeth perguntou e a garota a encarou, um tanto assustada.
— Só um segundo, vou avisar que já está aqui, senhorita Johnson — a mais nova respondeu tentando se manter calma. Pegou o telefone e discou alguns números rápido, logo começando a falar: — Sim, a senhorita Johnson já está aqui. Posso mandá-la entrar? — fez uma pausa e suspirou. — Tudo bem — a garota finalizou e desligou o telefone, voltando sua atenção para Elizabeth. — Pode entrar.
— Obrigada — Elizabeth agradeceu gentilmente e adentrou a sala.
ergueu os olhos na direção da porta assim que Elizabeth passou por ela.
— Olá — murmurou um tanto quanto sem jeito. Não via Elizabeth há três anos. Era estranho encará-la sabendo que não fora tão simpática na última vez que a vira.
— Olá — Elizabeth respondeu e caminhou calmamente até a cadeira livre na frente de .
— Então... — mordeu o lábio inferior. — Está de volta há muito tempo?
— Até que não. Voltei ontem — Elizabeth deu de ombros. — Olhe, , tentarei ser rápida e...
— Elizabeth, me escute — a cortou. — Eu sei que na última vez que nos vimos eu não fui das mais simpáticas e você também não. Mas, veja, eu sei que eu estava mais errada do que você. Por mais que você tenha criado um boato sobre o e eu — ela revirou os olhos. — Eu não tinha o direito de ir no seu local de trabalho e te ameaçar daquele jeito. Muito menos tinha o direito de ficar justo contra você no momento em que você sabia mais do que eu e...
! — Elizabeth a cortou e soltou uma risada fraca. — Respire, mulher! Está tudo bem. Não vim aqui para falar de três anos atrás. Sei que foram os meses mais conturbados da sua vida — ela revirou os olhos. — Estou aqui a trabalho. Não quero falar de mais nada disso, foi tão ruim para mim quanto para vocês aquele tempo. Entenda, eu tive que ficar me escondendo por aí e nem sei como consegui fazer meu trabalho.
— Imagino — fitou a mesa e suspirou.
— Enfim — Elizabeth sorriu amigavelmente. — Não estou aqui para pedir para sermos melhores amigas... mas quero que saiba que não guardo mágoas nem nada do tipo, quero viver em paz pelo menos uma vez, . Mas, bom, estou aqui para falar sobre outra coisa.
— Entendo. Acho que sempre seremos aquelas duas imaturas da faculdade disputando coisas que não fazem sentido só para sermos rivais em tudo.
deu uma risada fraca. — Sobre o quê?
— Que tal lançar mais um livro? — Elizabeth perguntou e arqueou uma das sobrancelhas. — Enquanto estive longe daqui, acompanhei todo o caso com algumas informações básicas do Eric que manteve contato de uma forma discreta. Soube do seu livro e decidi comprar, sempre achei sua escrita ótima e nunca neguei — ela deu de ombros. — E, bem, nós duas sabemos que o meu chefe virou sócio do seu... ou seja, estamos trabalhando do mesmo lado agora. Steve me propôs uma coisa e eu acabei aceitando, por que não tentar, aliás? — ela sorriu. — Sei que você escreve bem e não vou negar o meu talento nessa área também, assim como vários outros jornalistas investigativos. O que me diz de colocar nossas aventuras no papel?
parou por uns segundos e observou a mulher em sua frente.
— Está me chamando para escrever com você? — ela perguntou baixo e Elizabeth sorriu. — Você vai falar sobre como fez para ganhar o Pulitzer e como foi recebê-lo?
Elizabeth riu e balançou a cabeça negativamente.
— Vou, . Vou — ela respondeu encarando a mais nova.
— Então podemos começar os rascunhos — disse firme, dando um sorriso sincero para Elizabeth que se levantou e estendeu a mão para ela. apertou ainda sorrindo.
Por que não tentar? Elizabeth era uma boa pessoa e ela sabia disso. Por mais que tivessem aquelas típicas brigas bobas na faculdade. Oras, faziam a mesma coisa! Queriam ser a melhor em tudo. Mas, claro, sempre empatavam. E quando uma ganhava, implicava com a outra. Coisa normal de gente imatura. Depois, veio como problema. Todos daquele país sabiam que Elizabeth e tinham tido um caso. Todos sabiam também que e nunca se deram bem, não até trabalharem juntos. Aí Elizabeth se metera novamente, fazendo aquelas matérias maldosas e deixando uma totalmente cega pela raiva. Mas, bem, águas passadas. Duas Redações antes rivais agora eram sócias. As jornalistas principais deveriam ao menos se darem bem, não? Nada como uma longa conversa sobre o trabalho e um livro em andamento para começar a melhorar aquele convívio. Elas queriam recomeçar, dar a chance que não deram alguns anos atrás. Talvez valesse a pena, talvez não. Mas só saberiam tentando.
— Ah, antes que eu me esqueça — Elizabeth disse já na porta e a encarou. — Desculpe pelo boato sobre você e . Mas é que eu não resisti quando descobri que, mesmo depois de terem assumido publicamente o ódio que sentiam um pelo outro, vocês andavam se pegando pelos corredores da delegacia — ela riu fracamente ao notar o rubor nas bochechas de . — Aliás, saiba que, na verdade, quem começou a colocar as dúvidas sobre o que o realmente sentia sobre você na cabecinha oca dele, fui eu — ela piscou um dos olhos e abriu a porta. — Ele é um cabeça dura para assumir certas coisas, precisei engolir o que sentia por ele na época para fazê-lo enxergar pelo menos um terço do que ele sentia por você.
paralisou e piscou os olhos algumas vezes.
— Você ainda o ama? — ela perguntou baixo e Elizabeth riu novamente.
— Já se passaram anos, garota! — ela exclamou balançando a cabeça negativamente. — A vida segue, a fila anda... como quiser dizer. Já estou em outra há tempos, meu amor. Até mais, .
— Até, Elizabeth — murmurou quando a porta já estava fechada e deixou o corpo cair sobre a cadeira novamente.
Elizabeth já se esquecera de .
Elizabeth quem o fez parar e pensar que poderia sentir algo a mais por ela. Céus! Por que ela e Elizabeth não se suportavam mesmo?

****

Christopher encarou e soltou uma risada fraca.
— O que te leva a pensar que vou saber o rumo que Gabe e o amiguinho tomaram? Entenda, , não sou um cara que sabe de tudo só porque tentei te matar mesmo aqui dentro um tempo atrás — Christopher fitou que mordeu o lábio inferior, mostrando claramente a raiva que estava sentindo. — Não adianta me ameaçar ou me olhar dessa forma, eu não sei. Tudo o que sabia contei para vocês três anos atrás. Por favor, não tente melar minha saída daqui. Cumpri três anos a mais pelo que confessei a você — o rapaz suspirou. — Não vou dizer que me arrependo e te pedir desculpas, porque seria hipocrisia demais. Eu realmente não sei de nada. Investigue, esse é seu trabalho.
bufou e se levantou para ir para cima de Christopher, porém Emma se meteu em sua frente e o segurou com toda a força que tinha.
— Esquece isso, . Se acalma — ela murmurou enquanto o empurrava para trás e alguns outros policiais entravam na sala para tirar Christopher.
— Ele sabe de alguma coisa e não quer abrir a boca. O filho da puta vai sair daqui e não vai abrir a boca, Emma. Entenda. Ele sabe. Eu sei que ele sabe! — disparou inflando as narinas e demonstrando a raiva que sentia. Emma suspirou e revirou os olhos.
— Vamos descobrir. Vamos investigar, como ele mesmo disse! É nosso trabalho. Vamos encontrar tudo o que queremos. Apenas tenha paciência, — ela pediu, fitando-o seriamente. — Tivemos paciência antes, lembra?
— É a minha carreira, Emma — sussurrou, sentindo um bolo se formar em sua garganta. — Eu deveria estar preso. Por sorte vocês conseguiram tirar Richard daqui. Mas...
— Não diz nada, — Emma o cortou. — Está tudo bem agora. Você não vai ser preso de novo. Não vai. Estou te dando minha palavra. Confie em mim!
apenas suspirou e deixou o corpo cair sobre a cadeira de novo.
— O jantar está de pé? — ele perguntou e Emma deu um sorriso fraco.
— Sim — respondeu tranquilamente. — Nicholas está ansioso e levará uma amiguinha, então iremos um pouco mais cedo para Charlie deixá-la em casa logo depois.
riu fracamente.
— Ele já está assim? — perguntou. — Aposto que essa garota deve ser namoradinha dele.
— Ele disse que ela é a única garota da escola que não o olha com outros olhos, ! — Emma sorriu. — Meu menino arrasa corações na escola inteira! Mas a menina é feita de ferro, de acordo com ele.
riu alto.
— Ela com certeza será a primeira namorada dele. Escreva o que estou dizendo — piscou um dos olhos e se levantou. Quando estava prestes a sair, Charlie adentrou a sala com a respiração acelerada, atraindo um olhar desconfiado de Emma.
— Precisaremos cancelar o jantar — ele murmurou e Emma arqueou uma das sobrancelhas. — Encontraram mais um corpo. De acordo com o pessoal que já está lá, ele está impecável.
— Impecável como? — perguntou num fio de voz, engolindo a seco. Não queria assumir, mas o medo estava sufocando-o de uma forma absurda. Assim como a culpa.
— Não tem marcas, está limpo e... — Charlie suspirou — Está tudo tão complicado! Disseram que pode ter sido algum tipo de sufocamento, mas não tem marca alguma no pescoço. Acidez no sangue, talvez? — Charlie encarou e Emma que apenas balançaram a cabeça levemente, tentando pensar também.
O celular de Charlie tocou fazendo com que Emma desse um leve pulo de susto e fitasse o aparelho. Charlie o pegou e o atendeu, colocando no viva-voz.
— Olá, Charlie. Bom saber que já está com o e a Emma. Fico feliz por você ter encontrado o corpo muito bem tratado, com uma morte extremamente linda, da nossa querida Donna Anderson, filha de um mafioso e acredito que você o conheça. Mas não quero falar disso e...
— Quem está falando? — perguntou alto e Charlie sentiu a respiração falhar.
A pessoa do outro lado soltou uma risada alta.
— Olá, ! Como vai você, rapaz? Sentindo muito medo? — a pessoa perguntou e sentiu sua garganta fechar.
— Diga o que quer — Charlie pediu, enquanto caminhava em direção a mesa e colocava o celular ali, sentando-se em uma das cadeiras em seguida. Emma permaneceu em pé, encostada na parede e fitando o pequeno aparelho em cima da mesa. respirou o mais fundo que conseguiu e andou para perto da mesa novamente.
— Quero apenas deixar claro que as duas pessoas que apareceram mortas e vocês foram investigar hoje... — ele fez uma pausa — Foram meus homens. Eu mandei matar. E as pessoas que trabalham para mim estão mais perto de vocês do que imaginam. Enfim! Quero que vocês digam adeus para uma outra pessoa.
Um clique rápido fora ouvido do outro lado da linha e Charlie passou as mãos pelos cabelos. Alguns segundos depois, uma voz extremamente conhecida ecoou pelo local. Emma tinha o coração acelerado e os olhos lacrimejantes. Como... Por quê?
— Brian? — perguntou engolindo a seco.
Brian era um dos agentes próximos de . Ficaram amigos ao longo dos últimos anos, sempre conversando pelos corredores e descobrindo que tinham muito em comum. Brian era um homem incrível, casado e com filhos, que sempre dava conselhos amorosos para quando ele e brigavam. Era uma amizade leve, tranquila e cheia de confiança — Brian acabara por salvar em uma operação importante, o que selou a amizade de uma vez por todas.
— Diga para Marcie que a amo — Brian murmurou com a voz trêmula e Charlie socou a mesa com força, se levantando em seguida.
— Como conseguiu pegá-lo?! — Gritou enfurecido. — Ele estava na Itália! Viajando com a família, porra!
O homem do outro lado riu.
— Quem te garante, Charlie, que eu fico apenas pela Inglaterra? — ele perguntou calmamente. — Brian é um grande exemplo disso. Bem, preciso que andem logo com isso. Estou cansado de ficar apontando a arma na cabeça de Brian. Ele é grande e forte, pode se soltar de onde está a qualquer momento.
— Você não vai fazer nada com ele! — se intrometeu, sentindo a cabeça latejar.
— Oh, não, ? Pague para ver! — O homem riu novamente. — Diga a eles, Brian, do que sou capaz.
Emma se aproximou da mesa lentamente e deixou o corpo cair na cadeira de frente para Charlie.
— Não faça nada com ele. Diga o que quer. — Emma murmurou, tentando soar educada e calma.
— Olá, Cobain. Não quero negociar, obrigado por tentar. — O homem disse debochadamente e Emma fechou os olhos com força. — Bem, acho melhor acabarmos logo com isso. Adeus, Brian e... Sejam bem-vindos ao novo jogo, agentes. — O homem disse firmemente. Após isso, tudo ficou em um silêncio absoluto. Mas era possível ouvir a respiração ofegante — provavelmente — de Brian.
se aproximou do telefone esperando ouvir mais alguma coisa. Porém, no mesmo instante em que se aproximou do telefone, se arrependeu.
Um barulho alto e cortante de tiro ecoou pela sala, fazendo com que Emma soltasse um grito de pavor e pousasse as mãos sobre a boca, assustada.
— Não... — Emma sussurrou e afundou o rosto entre as mãos. permanecia em silêncio, sem saber o que pensar ou fazer.
Como dar a notícia para a família de Brian? Como ter a confirmação de sua morte? Como... investigar aquilo?
Charlie passou a mão pelo rosto e engoliu a seco. Encarou Emma e por alguns segundos e, completamente decidido e firme, disse:
— Arrumem suas coisas. Vamos para a Itália.


Capítulo 2

suspirou e apertou o corpo de contra si. Estavam ali há algumas horas. Era madrugada, provavelmente acordariam extremamente cansados e sem ânimo algum. Mas não importava. Estavam se sentindo bem, encarando o teto branco do quarto de e em um completo silêncio confortável.
se virou para e a encarou de uma forma terna, fazendo-a sorrir abertamente.
— O que foi? — ela perguntou baixo e suspirou pesadamente.
— Vou sentir falta do Brian — ele sussurrou. — E a gente precisa conversar, .
mordeu o lábio inferior e se apoiou em um dos braços, fitando com mais facilidade.
— Sobre o quê? — ela perguntou no mesmo tom de voz que ele enquanto acariciava seu braço descoberto com a mão livre.
— Eu vou precisar ir para a Itália por uns dias — murmurou e arqueou uma das sobrancelhas. — Charlie quer participar das investigações com os policiais italianos, já que eles confirmaram para nós que foi mesmo o Brian encontrado por lá.
— Tudo bem, posso tentar uns dias de folga na Redação e...
— Você não vai — a cortou, fazendo-a encará-lo confusa. — Eu não quero que vá, na verdade… vai ser perigoso, . Não quero você nessas coisas. Fora que você nem trabalha para o Charlie mais.
— Você quer ir para a Itália sozinho com isso tudo acontecendo? — ela perguntou, sentando-se de uma vez na cama. — , não vê que já está na hora de assumir que precisa de alguém com você?
— Não é isso. Eu só não quero que aconteça as mesmas coisas de três anos atrás, se sentou também. — Será que não entende o... medo — ele cuspiu a palavra e desviou o olhar para o teto — que eu sinto? Medo por você, por mim, por nós.
suspirou e se aproximou de , selando seus lábios por alguns segundos.
— Charlie conversou comigo um tempo atrás — ela voltou para a posição inicial e deixou o corpo cair para trás. se virou para ela e fitou seu rosto.
— Ele quer que eu trabalhe com vocês de novo e eu não pretendo recusar isso, . É a minha vida, minha carreira e você não deve se intrometer nisso.
bufou e balançou a cabeça negativamente.
— Eu já disse para ele te deixar fora disso, eu não quero você fazendo isso tudo de novo, ! — exclamou, levantando da cama de uma vez.
, por favor... você não tem que querer nada; eu sim — ela suspirou, virando-se para o lado que ele estava em pé — Vamos conversar sobre isso depois, tudo bem? Volte para a cama e pare de ser orgulhoso.
— Não quero você nisso de novo, — ele sussurrou enquanto deixava o corpo cair sobre a cama novamente. — Por que não esquece isso? Por que não pode simplesmente me deixar fazer meu trabalho sozinho? Não consigo lidar com o risco de te perder de novo.
se virou para ele e o encarou nos olhos.
— Não decidi ser jornalista investigativa à toa — ela disse baixo, porém firme.
— Por que não aceita o que quero? Você não pode e nem vai mandar em mim; querendo ou não este também é meu trabalho. Você não vai me perder, , eu juro.
— Eu me preocupo tanto, tanto — ele respondeu sem desviar o olhar e sorriu.
— Eu sei que sim. Mas não precisa. Eu não estou grávida, não preciso de cuidados excessivos, sei me virar muito bem, fui tão treinada quanto vocês, posso me arriscar a vontade — ela piscou um dos olhos e balançou a cabeça negativamente com um sorriso brincando no canto dos lábios. Nunca conseguiria vencer uma discussão com aquela mulher; e mesmo que não quisesse aceitar, sabia que não podia e jamais iria controlar a vida alheia. Porém, isso não queria dizer que ele não tentaria insistir mais um bocado — não se sentia confortável em trabalhar sabendo que a mulher que mais amava na vida estava em um risco maior do que ele; era óbvio que em qualquer caso ela se tornaria alvo principal, como fora antes, e não importava se sabia ou não como se cuidar; era um tanto egoísta, sim, mas não queria ter de ficar com mais medo durante suas missões.
— Por favor, esquece isso — pediu baixo enquanto a puxava para mais perto e colava seus lábios em um selinho rápido. — Por favor — ele sussurrou novamente, juntando seus lábios mais uma vez. — Não pensa nisso. Não essa semana, não agora. Esquece que o Charlie falou com você, esquece que eu vou pra Itália daqui uns dias, só esquece tudo isso, .
— Vou esquecer até o dia de fazer minhas malas. E não vou desistir, gatinho, nem esquecer o que foi conversado. Minha decisão já está tomada e você irá aceitar com o tempo — ela respondeu calma, sorrindo, e logo puxando-o para mais um beijo.


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 4h20min.


O homem soltou a fumaça do charuto e fitou o teto com um sorriso brincando no canto dos lábios bem desenhados. Os olhos azuis intensos brilhavam de uma forma incrível, qualquer pessoa seria capaz de notar aquilo mesmo naquela sala mal iluminada. Um suspiro de alívio escapou do fundo de sua garganta e, parecendo uma criança, rodou duas vezes em sua cadeira giratória enquanto soltava risadinhas divertidas. Céus! Como estar no poder era ótimo! Seu pai sempre lhe dissera isso. Poder era a fonte de tudo. Poder, poder, poder, poder!
Riu novamente.
O que poderia ser melhor que poder? Nada! Absolutamente nada!
Estava em seu sangue colocar o poder como prioridade, estava em seu sangue lutar pelo poder. De acordo com o que ouvira de seus tios — não de verdade, mas sim os homens que cuidaram de sua segurança por todos esses anos — que deveria honrar o nome de seu pai, honrar o sobrenome que carregava. E ele faria isso. Nem que precisasse matar. Bem, agora, mais do que nunca, ele tinha a certeza absoluta que iria matar. E mataria como nunca pensara matar em sua vida. Honraria o sobrenome que carregava, honraria seu pai. Honraria sua morte. Sua morte injusta. Tudo porque estava no lugar errado, na hora errada.
O rapaz balançou a cabeça negativamente e fitou o papel que tinha em mãos, tragando o charuto mais uma vez.
Emma Cobain era o primeiro nome da lista.
Jesse Pender o segundo.
Charlie Raymond o terceiro.
o quarto, com um parêntese.
Por último, .
O rapaz riu e deixou a folha sobre a mesa ao escutar passos se aproximando.
Oras, quem ousaria a incomodá-lo àquela hora da madrugada?
Duas batidas na porta ecoaram e ele não se deu o trabalho de responder, logo a maçaneta da porta se moveu e uma cabeça surgiu em seu campo de visão.
— Senhor Castellamare? — Um homem de meia idade perguntou em um tom de voz baixo.
O jovem Castellamare soltou a fumaça do charuto e arqueou uma das sobrancelhas.
— Sim?
O homem suspirou e adentrou a sala de uma vez por todas. Estava tenso.
— Brian foi morto. — O homem disse rapidamente. Sabia que o rapaz não gostava de enrolações e não queria provocá-lo.
— Como é? — Castellamare juntou as sobrancelhas. — Não lembro de ter dado ordens para matá-lo.
— Sim, eu sei! — o homem exclamou e bagunçou os cabelos. — Eu avisei! Juro que avisei! Mas disseram que tinham ordens maiores.
— Não há ordens maiores que as minhas por aqui, Gabriel — o rapaz disse firme.
— Não aceitei a te trazer para cá para você fazer merdas! — gritou e inflou as narinas, demonstrando a raiva que sentia. — O coitado do Brian tinha família. Eu só precisava saber uma coisinha dele. Nada mais. Não o mataria aqui. Infelizes! — Castellamare murmurava sozinho enquanto caminhava até a porta.
Gabe suspirou e seguiu o rapaz em seguida.

CIDADE DO VATICANO — ITÁLIA, 4h25min.


O homem desligou o celular e revirou os olhos, sorrindo fracamente. Um encontro fora marcado, finalmente. Bastou cinco minutos para o jovem Apolo Castellamare o ligasse sem se importar em medir palavras ou evitar que palavrões feios e de baixo calão escapassem em suas frases. Mas quem se importava com isso, aliás? Ele não. Estava pouco ligando para Apolo. Queria mais que ele morresse, assim como o pai. Os Castellamare eram desprezíveis. Todos mereciam a morte.
O sorriso do homem se alargou ao sair da Igreja que havia entrado escondido, sentindo o vento bater contra seu rosto de uma forma suave.
Suavidade.
Isso que a querida Itália, no geral, exalava.
O homem abriu mais seu sorriso ao ver a morena parar em seu lado.
— Olá, Jullie — ele murmurou baixo. O local estava tão silencioso que não era necessário falar alto.
— Olá — a mulher respondeu dando de ombros e puxando um maço de cigarros do bolso. Pegou um, colocou na boca e o acendeu, tragando em seguida. — O que temos para hoje? — perguntou e o homem encarou-a por alguns segundos, fazendo-a arquear uma das sobrancelhas. — O que é?
— Você é linda — ele sussurrou se aproximando e ela riu, afastando-se.
— Estamos aqui a trabalho, chefinho. Não quero nada com você e já deixei isso bem claro — ela disse firmemente e segurou o cigarro entre os dedos, enquanto apontava, com a mão livre, o peitoral do rapaz. — Esqueça-se de que me beijou um dia. Isso não irá se repetir. Aliás, eu estava bêbada! — ela revirou os olhos e colocou o cigarro entre os lábios novamente, fazendo-o reparar novamente na pequena tatuagem em seu dedo. — Você é só mais um aproveitador de merda. Estamos aqui para pegar o lugar do Apolo, não é? Então nós vamos.
— Qual o seu problema? — perguntou, estreitando os olhos.
A morena ergueu uma das sobrancelhas e ignorou o vento que cortou seu rosto, jogando pequenos fios de seus cabelos curtos em seu rosto.
— Você, meu amor. Meu maior problema, no momento, é você — respondeu tranquilamente, enquanto tirava o cigarro na boca e soltava, lentamente, a fumaça no rosto do homem. — Vamos ao trabalho, querido. Por favor. Não tenho o resto da noite livre, pretendo dormir.
— Se aproxime do Apolo e faça o que quiser — o homem disse, dando de ombros. — Mate-o logo depois.
— O trabalho sujo não é comigo e você sabe — ela o fitou nos olhos. — Aliás, Apolo já está no papo. Já o conheço há algum tempo e...
— Vocês tiveram um caso e tudo ficará mais fácil. Ótimo — ele sorriu. — Apenas não se apaixone. Ou então... — o homem fez uma pausa e se aproximou da morena, enquanto ela jogava o resto do cigarro no chão com uma das sobrancelhas erguidas, desafiando-o a finalizar — Você morre junto com ele.
— Se eu tivesse medo da morte, não estaria jogando do seu lado — ela disse firme. — Não sinta medo de eu me apaixonar por Apolo. Talvez, no fundo, eu nunca tenha deixado de ser — ela riu debochadamente. — Mas amor é uma coisa que eu já tirei da minha lista. Não preciso dele para nada. Jogarei Apolo em suas mãos e você fará o trabalho sujo.
— Como quiser, Jullie. Apenas cumpra seu trabalho. — Ele disse firme, encarando-a no fundo dos olhos.
Jullie não respondeu, apenas tragou calmamente outra vez. Em seguida, virou-se de costas para o homem e começou a caminhar. Ali, naquele momento, a única coisa que Jullie queria, era aprender a engolir o medo e continuar firme como sempre fora. Apolo a estava esperando dali a algumas horas. Precisaria ser forte. Precisaria fazer com que ele acreditasse nela. Precisava ter sua confiança, assim como precisava da confiança de seu mandante. Estava metida em coisas profundas demais, cavara demais. Agora era tarde demais para sair. Precisava continuar. Então, com uma única pergunta pairando em sua cabeça, Jullie adentrou o carro e deixou seus pensamentos saírem em voz alta quando se sentiu totalmente segura.
— O que realmente está acontecendo? Quem são eles, na verdade? — suspirou e apoiou a cabeça no volante. — O que a família Castellamare está envolvida? — sussurrou a última pergunta e fechou os olhos com força. Precisava salvar muito mais gente que imaginara. As informações que tinha não eram mais o suficiente para seguir naquela missão suicida.
Precisava dar um jeito de chamar a atenção de novamente.

LONDRES — INGLATERRA, 8h23min.


jogou o despertador para o lado e aconchegou-se mais nos braços de . Não queria levantar, não queria ir trabalhar. Passara metade da noite falando besteiras com , como diabos conseguiria acordar? Ambos fizeram aquilo de propósito para faltar trabalho ou simplesmente chegar atrasados.
bufou ao ouvir seu celular tocando e esticou uma das mãos, ainda com os olhos fechados, até a mesinha que ficava ao lado da cama para pegá-lo. Não se deu o trabalho de olhar o visor do aparelho, apenas apertou o botão para atender e murmurou:
— O que é, caralho?
, ainda sonolenta, soltou uma risada fraca e puxou a coberta para cima, virando-se para o outro lado para deixar mais à vontade.
— Onde você está? — a voz de Charlie ecoou pelo quarto silencioso e revirou os olhos.
— Em casa — ele respondeu baixo, tentando acordar de uma vez por todas.
— Vou precisar de você hoje — Charlie murmurou e bufou. — Sei que prometi deixar você ficar em casa na parte da manhã. Mas se você puder chegar mais cedo, eu agradeço.
— Depois que eu deixar a na Redação eu vou — murmurou e virou-se para o lado, abraçando a cintura de com a mão livre. — Até mais tarde, Charlie.
não esperou resposta, apenas desligou o celular e jogou-o para longe.
— O que o Charlie quer? — perguntou baixinho, enquanto a apertava mais.
— Me tirar de casa mais cedo — ele bufou, fazendo soltar uma risada fraca. — Não quero ir trabalhar.
— Ninguém quer, , ninguém quer — murmurou sorrindo e virando-se para ele. Ficou ali, encarando-o por alguns segundos, fazendo-o revirar os olhos, impaciente. não gostava de ser observado.
— Você sabe que não gosto disso — ele sussurrou, fitando qualquer outro ponto do quarto, fazendo-a rir baixinho.
— Mas eu gosto de observar você — ela rebateu e se aproximou mais dele, apoiando a cabeça em seu peito. — Me faz bem — ela deu de ombros enquanto fazia desenhos imaginários pela barriga descoberta de .
mordeu o lábio inferior e encarou a mulher em seus braços. Com um sorriso torto no canto dos lábios, murmurou:
— Eu estive pensando em uma coisa, .
— Ah, é? — ela levantou a cabeça levemente para encará-lo, sorrindo. — Em quê?
mordeu o lábio inferior e deu uma risada fraca, deixando claro que não estava tão à vontade.
— Eu queria que... — ele suspirou e fitou o teto branco — Hum, não sei como dizer isso sem soar muito aleatório e até mesmo um pouco maluco — suspirou novamente, fazendo arquear uma das sobrancelhas, confusa.
— Ué, o quê? Sabe que pode me falar qualquer coisa — ela perguntou enquanto o fitava curiosa.
sorriu levemente e passou uma das mãos pelo rosto dela. Suspirou uma, duas, três vezes. Pensara naquilo por duas semanas seguidas e, agora, estava ali, prestes a falar para a sua maior vontade. Depois de três anos tentando superar aquilo por saber que nunca daria certo, se pegou pensando na mesma coisa novamente. Tivera sonhos, imaginou cenas, tudo. Aquilo ainda o deixava atordoado. Ele queria poder voltar no tempo e cuidar de para evitar que algo desse errado.
— Eu acho que… Deveríamos avançar um pouco mais no que temos. Talvez… Morarmos juntos? Tentar criar uma família, sabe, ter filhos, cachorros... — ele disparou com a voz baixa, mordendo o lábio inferior em seguida. — Eu acho que poderíamos tentar de novo. Já está na hora, precisamos seguir em frente e tentar esquecer os nossos traumas passados. Tenho pensado muito sobre isso, eu quero… Quero viver com você, quero ter a chance de ser pai.
riu nervosamente e se sentou na cama de uma vez por todas, fazendo um coque nos cabelos em seguida.
, por favor... — ela suspirou. — Você sabe que...
— Você tem um problema, sim, eu sei! Não entendo muito sobre isso e você já tentou me explicar antes e eu continuo confuso — se sentou também. — Mas, entenda, , para isso existem tratamentos. E se não der certo, tudo bem! Tem milhares de crianças precisando de um lar. Ou podemos adotar apenas cachorros. O que você quiser. Eu sei que sente medo, eu também sinto, mas... — ele riu nervosamente. — Eu quero fazer algo dar certo pelo menos uma vez. Já se passaram três anos e a gente nunca conversou sobre isso. Eu vou para Itália daqui uns dias e não sei se volto, entende? Isso está me atormentando, eu precisava ao menos falar e deixar claro que quero tentar — ele a encarou, ainda aflito. — Eu quero pelo menos te dar algo de bom. Pelo menos uma vez, . Uma vez só. Sabe por quanto tempo fiquei atordoado ao ouvir você me dizer que perdeu nosso bebê? E me senti culpado! Muito culpado, porque eu que te coloquei nisso tudo — ele a fitou. — Eu sei que nunca te fiz nenhum pedido formal ou coisa do tipo, você sabe que não sei lidar com essas coisas — ele riu. — Mas... estamos juntos, . Sempre estivemos. Eu só… não sei! Quero muito que a gente dê certo, podemos tentar ter uma vida normal quando tudo isso passar. Algo me diz que não será fácil na Itália, mas eu tenho pelo que lutar e tentar sobreviver. Eu tenho você. E futuramente vou ter nossa família, também.
— Será que pode parar de falar como se fosse morrer? — ela sorriu fracamente. — E eu vou para Itália com você! Não adianta negar, vocês precisarão de mim. E, Prithcard, tudo isso… é um pedido de casamento?
— Não vamos mudar de assunto, ‘tá? — ele mordeu o lábio inferior. — Estou há duas semanas tentando tomar vergonha na cara para virar para você e pedir isso. Daqui uns dias eu completo trinta e um anos, — ele suspirou. — Não quero deixar as coisas para depois. Não mais. Não depois de ter quase morrido de verdade. E não, meu amor, não é um pedido de casamento ainda. Você merece muito mais do que umas declarações malfeitas em plena manhã. Mas, bom, podemos dizer que isso é um pré-pedido. Quero você comigo todos os dias.
não disse nada, apenas fitou a cama, sem saber o que pensar. a pegara tão... de repente. Ela nunca sequer pensara naquilo. Na verdade, sim, pensara. Mas se repreendeu por isso todas as vezes. Pensava que não queria aprofundar as coisas, pensava que ele simplesmente... desistira daquilo tudo já que ele notara que ela não conseguiria nunca ser mãe biológica. Chegou até mesmo pensar que ele a largaria de uma vez, já que errara tanto com ele. Pensara em até mesmo desistir de tudo primeiro, antes que ele mesmo o fizesse. Mas... as coisas, pelo jeito, não eram mesmo como ela pensava. estava ali, sem jeito, em sua frente, usando todos seus argumentos para que ela aceitasse a se tratar novamente de uma vez por todas, para que ela pudesse finalmente ser mãe. Ele queria um filho dela. Mesmo sem nunca a ter pedido em namoro ou algo mais sério. Como ela sempre notara, não precisavam de palavras para esse tipo de coisa. Se amavam e assumiam um para o outro, eram fiéis sem nem mesmo terem se perguntado se deveriam ou não serem namorados. Talvez até fossem mais do que isso. Apenas não queriam falar, não queriam pedir toda aquela formalidade. Mas, agora, estava ali o “pré-pedido de casamento”, deixando-a ansiosa e com o coração acelerado. Era louco demais tudo aquilo, mas, estava feliz.
Ela entendia a dificuldade que tinha para esse tipo de assunto, e sabia, também, que não gostava dessas coisas sérias. Mas também não se dera o trabalho de se afastar de . Estava apaixonada por ele, perdidamente apaixonada. Tinha certeza daquilo. E não era tão diferente dele, no fim das contas, tinha lá sua parcela de medos e sempre fora bem reclusa em relação a tocar no assunto — a machucava e irritava, às vezes.
— Você tem certeza do que está dizendo? — ela perguntou baixo, fitando-o com um certo brilho no olhar, fazendo-o sorrir.
— Absoluta, — ele ergueu uma das mãos para acariciar o rosto dela. — Vejo nos seus olhos que quer tentar também. Podemos tentar um tratamento, ver exatamente o que acontece, quais as formas de melhorar. E se não der certo, podemos adotar e procurar uma casa maior, ao invés de continuarmos entre os nossos apartamentos. Prometo que se tudo der certo, não vou deixar nada de ruim acontecer com você. Não de novo.
sorriu fracamente e balançou a cabeça negativamente, tentando ignorar as lágrimas que surgiram no canto de seus olhos.
— Você é um idiota por começar o dia assim — ela murmurou enquanto passava uma das mãos pelos olhos, sentindo-se, de repente, emocionada. — Um completo idiota.
riu baixo e se aproximou dela, juntando seus lábios sem enrolações. retribuiu o beijo a altura, segurando-o pela nuca firmemente. Ficaram ali por alguns minutos, até o celular de tocar novamente em algum canto do quarto.
se afastou de e bufou, fazendo-a rir. Antes de se levantar para ir atrás do celular, fitou por alguns segundos e murmurou:
— Eu amo você.
sorriu e, antes que pudesse responder, o celular de começou a tocar e ele pulou da cama para pegá-lo outra vez. Não entendia como aquela porcaria não tinha quebrado ainda. Ao achar, atendeu ao ver o nome de Emma piscar no visor.
se espreguiçou e fitou o relógio. Já eram 9h05min. Suspirou e se levantou, indo direto para o banheiro enquanto conversava com Emma.
já estava debaixo do chuveiro quando adentrou o banheiro com a respiração um tanto quanto acelerada. arqueou uma das sobrancelhas e abriu um bocado a porta do box.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou baixo, fazendo-o suspirar.
— A Lucy está viva — respondeu engolindo a seco. — Essa vagabunda vai voltar para cá. Puta que pariu! — exclamou trincando os dentes. — Porra, não são nem dez da manhã e tudo já está desse jeito! Eu nem lembrava da existência dela!
sentiu sua respiração falhar e desligou o chuveiro o mais rápido que pôde, enrolando-se na toalha em seguida.
— Isso quer dizer que...
— Que se ela abrir a boca e confessar tudo o que sabe, assim como ela, eu vou parar na cadeia de novo — cortou , fazendo-a engolir a seco. — Charlie está fazendo de tudo para eu não parar lá. Mas é basicamente impossível — ele riu amargamente. — Mas que droga, que droga...
— Ei, se aproximou dele, segurando-o pelo rosto —, Você não será preso! Não podem prender você! Que provas eles têm? E a Lucy não seria idiota de entregar você sabendo que ela também se ferraria.
— Estou contando com isso.

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 10h12min.


Apolo tinha um cigarro entre os lábios e observava a paisagem pela janela. Estava ansioso. Queria que Charlie e sua equipe pousassem logo em sua querida Itália. Queria tê-los embaixo de suas vistas. Tudo ficaria mais divertido quando eles chegassem lá.
Uma risada escapou do fundo da garganta de Apolo ao lembrar-se do que tinha em mente. Céus! Seria tão incrível fazê-los ficar cara a cara com o único filho de Robert Castellamare. Seria mais incrível ainda eles não poderem fazer absolutamente contra ele, pelo simples fato de não estarem na Inglaterra. Não eram nada, nada nos outros países. A Itália pertencia a Apolo Castellamare, da mesma forma que pertencera a seu pai. Por mais que Charlie soubesse os podres que cercavam cada cantinho daquele lugar, não era nada por ali.
Um sorriso de pura satisfação moldava os lábios rosados e bem desenhados de Apolo. A felicidade escorria por cada parte de seu corpo. Por mais que nem tudo estivesse dando totalmente certo como planejara, estava tudo bem. Sentia-se bem. Estava prestes a pegar as pessoas responsáveis pela morte de seu pai. Seria bom ficar cara a cara com . Ele sustentava o mesmo ódio que Apolo. entendia como era perder o pai. Por mais que Apolo soubesse que quem matara John Prithcard fora seu pai, Castellamare, não se importava em comparar a duas situações.
Duas batidas na porta foram o suficiente para tirar Apolo de seus devaneios.
— Entre. — Ele murmurou firme, levando o cigarro até a boca novamente.
Seus olhos se arregalaram levemente em total surpresa. Não acreditava no que estava vendo.
— Olá — Jullie disse firmemente, enquanto adentrava a sala de uma vez por todas.
Apolo precisou respirar fundo ao encará-la e notá-la tão diferente. Não a via há alguns meses e, na última vez, ela estava com os cabelos longos. Agora estava com os cabelos tão curtos que nem sequer seria capaz de fazer um rabo de cavalo. Porém estava linda. Impecável. Mais bonita do que nunca. A calça jeans apertada marcava suas coxas de uma forma incrível, deixando-o louco. Nos pés, botas de canos médio e sem salto. Para finalizar, uma camisa do Red Hot Chilli Peppers que ele tinha total certeza que ela pegara em seu guarda-roupa na última vez que estiveram juntos.
— Jullie? — ele perguntou, ainda abobado.
A mulher sorriu.
— Ao vivo e a cores, meu amor — ela sorriu. — Agora pare de me olhar como se eu fosse um fantasma.
Apolo riu levemente e jogou o cigarro já pequeno pela janela.
— Onde esteve todos esses meses? — ele perguntou.
— Por aí — ela deu de ombros. — Você sabe, não gosto de ficar em um lugar só.
— E voltou mais rockeira do que nunca, eu suponho — ele murmurou apontando para a camisa que ela vestia com um sorriso sacana nos lábios. — Oh, não! Lembro muito bem dessa camisa, ela estava nas minhas coisas uns meses atrás. Quando resolvi tirar um dia de folga e ir assistir o Red Hot em um show por aqui perto e procurei a camisa, simplesmente não encontrei. Parece que a explicação está aqui.
Jullie gargalhou, deixando Apolo encarando-a ainda sorrindo. Céus, a gargalhada daquela mulher era a coisa mais incrível que ele já ouvira na vida!
— Me perdoe por isso — ela disse sorrindo. — Fiquei tão apaixonada pela camisa que não resisti.
Apolo deu uma breve risada e sentou-se de frente para Jullie em seguida.
— Agora me diga, Jullie, o que te traz aqui? — perguntou firme. — Você nunca volta sem uma razão. É assim desde a primeira vez que fugiu.
— Pare de agir como se me conhecesse desta forma, Apolo — ela disse ainda sorrindo. — Não posso vir relembrar ou te visitar por visitar?
— Não venha com esse joguinho, Jullie. Não está aqui só porque sentiu saudades ou por querer uma noite de sexo de verdade — Apolo rebateu, ficando completamente sério. — Não tente me fazer de babaca. O que quer?
Jullie suspirou.
Havia esquecido o quão espero Apolo era.
— Só queria dizer que estou de volta. Me procure quando passar sua TPM — Jullie disse revirando os olhos e puxando um cartão de dentro da bolsa, colocando-o sobre a mesa. — Estarei te esperando — ela fez uma pausa para fitar os olhos azuis de Apolo. — Qualquer dia e qualquer hora.
Após finalizar sua frase, Jullie saiu sem esperar por uma resposta. Apolo a procuraria. E isso não demoraria muito.

LONDRES — INGLATERRA, 9h20min.


Eric riu de uma piada idiota de Jesse e bebericou seu café novamente.
— Sabe, Eric... — Jesse começou, mordendo o lábio inferior. — Eu nunca entendi uma coisa. Eu sei que já se passaram três anos, mas, me explique, por que diabos o matou a pobre Natasha? Ela era uma prostituta, certo?
— Certo — Eric respondeu dando de ombros. — era um doente.
— Sim, eu sei — Jesse suspirou. — Mas por que ela? O que ela fez de tão mal? O que ela sabia de tão importante?
— Ela me conhecia — Eric piscou um dos olhos. — queria chegar em mim antes de , só que já estava comigo há anos. Ele ia me matar se Natasha abrisse a boca.
— Por que diabos se metia com prostitutas como a Natasha? — Jesse perguntou, curioso, fazendo Eric rir.
— Ela não era uma prostituta comum! — Eric sorriu. — Ela era esperta e sabia podres de muitos por aí. Tinha um caso com Paul, aquele revisor da que morreu. Ela teve um rolo com o O'Donnel também. Ela sabia de muitas coisas, inclusive sobre um cofre que somente o Crowley tinha acesso.
— O cofre que o Charlie e o sempre quiseram? — Jesse perguntou baixo.
— Sim — Eric suspirou. — Mas que tal esquecermos isso? Não tem mais nada para procurar. Sabemos exatamente onde o cofre está, mas não temos a senha.
— O que há dentro do cofre? — Jesse perguntou, dando um grande gole em seu café.
— Milhões de libras, documentos, joias... tudo o que pode imaginar — Eric deu de ombros. — Nada que ainda nos interesse.
— Milhões de libras... você quer dizer quanto? — Jesse perguntou e Eric o encarou, rindo levemente.
— Por que tanto interesse agora? — Eric rebateu arqueando uma das sobrancelhas e Jesse revirou os olhos. — Sei lá, uns nove? Por aí. Não sei como diabos o O'Donnel e a Owen conseguiram roubar tanto. Não sei também como o Paul colaborou para isso, sinceramente.
— NOVE? — Jesse perguntou, arregalando os olhos. — Puta que pariu!
Erc riu levemente. Aquele número já não o assustava mais.
— Isso é o que nós achamos, Jesse — ele deu de ombros. — Crowley deve ter gastado um pouco, Bill deve ter gastado mais um pouco depois da morte do irmão... provavelmente tem outras pessoas envolvidas. Não temos certeza de nada sobre o cofre.
— Por isso o matou a Owen? Por que ela não quis contar sobre o cofre? — Jesse disparou as perguntas, fazendo Eric bufar discretamente. Não gostava de falar sobre aquilo. Não gostava de relembrar tantas coisas. Não gostava de abrir o jogo com Jesse por mais que ele o tenha ajudado muito no passado.
— Não sei, Jesse, sinceramente não sei. Ele nunca quis falar muito sobre isso. Mas que tal esquecermos? — Eric sorriu fracamente. — Não gosto de relembrar essas coisas e...
Um barulho de tiro ecoou pelo local, fazendo com que Eric cortasse sua própria frase para jogar-se para debaixo da mesa, junto com Jesse. Logo depois, gritos e mais gritos.
— Que droga foi essa?! — Jesse perguntou enquanto puxava a arma do coldre que usava e Eric fazia o mesmo.
Com cuidado, ambos foram se levantando devagar. Não puderam ver muita coisa, apenas um corpo estirado no meio da lanchonete. As garçonetes tinham os olhos arregalados e tremiam dos pés à cabeça.
Eric, então, se levantou por completo, ainda segurando a arma com firmeza e se aproximou do corpo. Não conhecia o homem, mas, pelo que vira, parecia ser alguém importante.
Jesse estava do outro lado, tentando controlar a situação e acalmar as mulheres e crianças do local. Ainda enrolado com tudo aquilo, puxou o celular e ligou para Charlie. Não precisou falar muito, bastou uma frase para Charlie desligar o celular e já sair a caminho:
— Mais um, Charlie.


Capítulo 3


Charlie suspirou ao fitar o cadáver em sua frente.
O que diabos estava acontecendo naquele maldito lugar?! Três anos já haviam se passado desde a última vez que Londres estivera totalmente alarmada e de cabeça para baixo.
— O que acha que pode ser? — a voz de Eric ecoou pelo local vazio.
Charlie suspirou novamente e fitou o outro homem.
— Acho que estamos tendo um flashback — ele deu de ombros, bagunçando os cabelos em seguida. — Você garantiu que isso tinha acabado, Eric.
— Eu garanti por mim e pelo — Eric deu de ombros. — Mas tem muitas coisas inacabadas, Charlie. Não posso fazer milagre.
— Eu te trouxe de volta à vida, Eric — Charlie fitou-o no fundo dos olhos. — O que está acontecendo?
Eric riu ironicamente, balançando a cabeça negativamente.
— Eu realmente não sei, Charlie. Tudo o que sei já contei para vocês nos mínimos detalhes umas trezentas vezes — Eric suspirou. — Pode confiar em mim, homem! Nem parece que me conhece há anos...
— Preciso que me conte o que sabe sobre a relação do John com os italianos — Charlie insistiu. — Eu sei que sabe alguma coisa sobre isso!
— Eu realmente já lhe contei tudo, Charlie — Eric revirou os olhos. — Que tal voltarmos para a investigação? Não podemos afirmar nada, não podemos simplesmente dizer que estamos tendo um flashback. Precisamos investigar, comparar corpo com corpo, morte com morte, "acidente" — ele fez aspas com os dedos — com acidente.
Charlie desistiu de dar continuidade à conversa ao ver a figura de atravessar a porta da lanchonete que estavam.
Era só o que faltava.
Uns minutos depois, provavelmente, chegaria ali também.
Era tudo o que Charlie precisava: uma discussão entre casal no meio de sua investigação.
Eric soltou uma risada fraca ao ouvir Charlie bufar e sair caminhando devagar na direção de , que conversava com uma das garotas que estavam no local na hora do crime.
— Está tudo bem, Louise. Pode me contar o que viu agora? — disse calmamente enquanto fitava o rosto pálido de Louise, que tinha os cabelos castanhos desgrenhados devido o susto que levara e o desespero com o qual correra para atrás do balcão. Seus olhos estavam arregalados e o tom de verde estava mais escuro que o normal. Louise estava em estado de choque com o que vira.
— Céus, ! — a garota exclamou, deixando algumas lágrimas caírem. — Um homem morreu em minha frente! Como tudo pode estar bem?!
— Agora está, querida — suspirou e sentou-se na frente da menina. — Entenda, Louise, as coisas estão difíceis por aqui nesses últimos anos. Você tem todo o direito de estar assustada. Mas preciso que colabore agora, tudo bem?
Charlie permaneceu parado onde estava ao escutar aquelas palavras. Um sorriso pequeno e triste surgiu no canto de seus lábios.
— Ficaria feliz em tê-la trabalhando para mim novamente, — Charlie murmurou e Louise encolheu os ombros ao reconhecer a voz de Charlie. Não haviam tido uma boa conversa minutos antes. — Sinto muito por hoje mais cedo, Louise. Não quis ser grosso.
— Mas foi pior que isso, Raymond — a garota rebateu, engolindo a seco.
, por favor, eu já contei tudo o que sei.
— Eu sei, mas não posso te deixar sair daqui, tudo bem? — deu um sorriso fraco e pegou na mão fina da menina. — E perdoe o Charlie, ele é uma ótima pessoa. É uma pena que surte em momentos como esse.
A menina balançou a cabeça negativamente e suspirou em seguida. Estava com medo.
— Eu vi o rosto dele — disse, por fim. a fitou com mais curiosidade e Charlie girou a cabeça em sua direção. — Do cara que atirou no outro. Eu vi o rosto dele. Estava com um capuz e um pano abaixo do nariz. Mas, antes, quando ele estava do lado de fora, pude vê-lo sem nada daquilo. Ele se arrumou aqui em frente.
— Como ele é? — perguntou, puxando um bloco de papel e uma caneta da bolsa.
— Cabelos pretos, olhos castanhos, se não me engano... — Louise começou a falar e Charlie simplesmente parou de ouvir tudo à sua volta, concentrando-se apenas no desenho que fazia no bloco de papel.
Conhecia aquele rosto.
— Eu o conheço! — Charlie exclamou assim que largou a caneta sobre a mesa.
Louise piscou os olhos assustada, sentindo seu coração bater forte contra o peito.
— Quem é ele, Charlie? — perguntou, curiosa.
— O amigo de Gabe. Lembra? Que foram presos quando estavam atrás do , no início dessa droga toda e...
— O que? — o cortou com a voz alta. — Mas esse cara não estava morto?
— E se foi o mesmo caso de Eric, ? — Charlie rebateu. — Eu conheço esse cara! Só pode ser ele. Bandidos fazem isso, somem e criam o maldito boato de que estão mortos.
ia falar alguma coisa quando sentiu lábios gelados tocarem sua nuca e um arrepio percorrer todo seu corpo. Virou-se um tanto assustada, mesmo sabendo que já estava ali.
— O que faz aqui? — perguntou puxando uma cadeira e sentando-se ao lado de .
— Louise me chamou — ela apontou para a garota com a cabeça. — Por que demorou?
abriu a boca para responder, porém Charlie pigarreou, chamando atenção do casal.
— Quem é o cara morto? — perguntou calmamente e Louise arqueou uma das sobrancelhas, encolhendo-se mais na cadeira.
Era estranho observar a forma que eles investigavam. A frieza que eles tinham ao olhar um corpo, o raciocínio rápido em ver apenas um desenho mal feito...
Era estranho.
— Mike Cromwell. Lembra-se dele? — Charlie respondeu calmamente.
juntou as sobrancelhas, sem entender o porquê de matar aquele cara.
— Ele estava metido com desvio de dinheiro — murmurou e todos da mesa viraram-se para ela. — Louise, se importa de ir lá para dentro? Acho que já acabamos com você, pode ser que eles consigam te liberar. Ligue para o seu pai enquanto isso e peça para ele vir para cá, o que acha?
— Tudo bem — a garota respondeu calmamente. — Obrigada, .
— Por nada, querida — respondeu sorrindo amigavelmente.
Louise se levantou e saiu da mesa.
— Ele estava metido com desvio de dinheiro? — perguntou fitando a mulher.
— Sim. Esse pode ter sido o principal motivo de quererem matá-lo. Mas, semana passada, descobri que ele transportava drogas daqui para a Holanda e da Holanda para cá — explicou calmamente. — O desvio de dinheiro que ele fazia, não era nas empresas que trabalhava. Mas sim nesse tráfico todo.
— E você só nos conta isso agora? — perguntou tentando manter a voz calma e revirou os olhos.
— Eu precisava pesquisar mais! — Exclamou, defendendo-se. — Eu estava com tudo em mãos para te entregar hoje à noite. Mas veja só! Não deu tempo. Eu não sabia que estavam vindo atrás dele ou de qualquer outra pessoa. Eu queria que vocês fossem atrás dele. Seria tudo mais fácil, ele teria um motivo para estar preso e demoraria um pouco mais para morrer. Daria tempo de, sei lá, quem sabe, ele abrir o jogo com vocês.
suspirou e passou as mãos pelo rosto. Levantou-se e depositou um beijo na testa de .
— Bom trabalho — ele sussurrou antes de se erguer completamente. — Mas ainda prefiro que fique fora disso.
Charlie suspirou e revirou os olhos. Queria com eles novamente.
— Você não manda em mim e no meu trabalho, rebateu. — Eu te amo, mas não vou ficar de fora sendo que posso ser útil. Precisará lidar com isso — a jornalista sentenciou e se levantou, deixando um beijo suave no rosto do amado. Ele não se deu ao trabalho de rebater, mas ainda tinha esperanças de tirá-la de toda aquela bagunça.
! — Jesse chamou, do outro lado da lanchonete enquanto fazia sinais com as mãos. — Corra aqui!
não disse nada, apenas caminhou em direção ao amigo.
Charlie esperou alguns segundos, até que estivesse longe o suficiente. Virou-se para e encarou-a no fundo dos olhos.
te ama mais que qualquer coisa, isso está escrito em seus olhos. Mas... — ele fez uma pausa e sorriu fracamente — Quero trabalhar com você novamente. Pense no assunto. Comente com ele apenas quando tiver certeza da resposta. Só peço que...
— Eu já estou trabalhando para vocês há tempos, Charlie — ela sorriu. — Acho que, na verdade, nunca deixei. Portanto, não se preocupe. Minha resposta é e sempre será sim para você. Com eu me entendo mais tarde.

****

Colbie sorriu agradecida para um garoto qualquer de sua classe, que havia acabado de pegar seu livro do chão.
Nicholas observou a cena entediado, revirando os olhos. Parou ao lado da amiga e a encarou por alguns segundos, murmurando incomodado:
— Vamos logo?
— Vamos — Colbie sorriu para o outro garoto novamente, virando-se para caminhar ao lado de Nicholas em seguida.
— Daqui a pouco ele pensa que está a fim dele — Nicholas disse de repente, dando de ombros e Colbie riu fracamente. — Falo sério! Você sorriu de uma forma tão idiota...
— E se eu estiver a fim dele, Nicholas? — ela perguntou, jogando a mochila em um banco qualquer. Haviam sido liberados antes do horário e, de acordo com Nicholas, era cedo para irem embora.
Nicholas riu indignado.
— Está dizendo que está a fim do Steve? — ele se virou para a amiga, largando as coisas de qualquer jeito no banco. — Céus! Ele é um idiota! Além de ser um burro, Colbie! — Exclamou enquanto unia as sobrancelhas, sem entender aquilo. Colbie só podia ter pirado.
A garota riu.
— Pare de ser ciumento, Nicholas! — ela exclamou divertida. — Você fica engraçadinho com ciúmes, sim, fica. Mas... está passando dos limites!
— Não estou com ciúmes! — ele disse um tanto quanto baixo, dando uma risada e balançando a cabeça negativamente. — Só estou dizendo para a minha melhor amiga que Steve não serve para ela. Isso é ter ciúmes? Tentar abrir seus olhos é ciúmes, Colbie?
— Você fica um amor assim — ela riu mais uma vez, sentando-se no banco. — Largue de ser idiota, moleque!
— Mas fala sério... — Nicholas mordeu o lábio inferior — Não está a fim dele, está?
Colbie soltou uma gargalhada gostosa, deixando Nicholas perdido por alguns segundos. A quem queria enganar, afinal? Estava com ciúmes de Colbie.
Talvez algo a mais.
Mas ele preferia não pensar nisso.
— Ele é bonitinho — ela sorriu. — Mas não é para mim. Quero ter um futuro — piscou um dos olhos. — E me envolver com meninos como Steve não está nos meus planos.
Nicholas sorriu levemente, mostrando-se completamente aliviado. Abriu a boca para falar alguma coisa, porém desistiu assim que fitou os olhos de Colbie. A garota juntou as sobrancelhas confusa, mas não disse absolutamente nada. Sabia que Nicholas estava em alguma briga interna que ela nunca entenderia. Nicholas suspirou baixinho e se sentou no banco ao lado de Colbie. A menina, inocentemente, deixou a cabeça repousar sobre o ombro de Nicholas, fazendo-o morder o lábio disfarçadamente e passar um dos braços em volta do corpo dela. A garota sorriu agradecida e aconchegou-se mais nos braços do melhor amigo.
Naquele momento Nicholas travava uma briga interna que ele julgava ser interminável. Pensava no que poderia dizer à Colbie, pensava no que o dissera sobre as garotas, pensava também nas dicas que recebera do mesmo. Beijar Colbie parecia extremamente tentador. dizia que ele deveria ouvir esses instintos, pois no final tudo sempre dava certo. Porém Nicholas, nessas horas, costumava ouvir mais Charlie. Charlie era mais racional, normal. E, ainda assim, conseguira arrumar uma mulher tão incrível quanto Emma. Não que não fosse incrível e se dera bem com seu jeito estranho de agir com as mulheres. Mas, bem, as ideias de Charlie eram diferentes.
De qualquer forma, ele estava em dúvida. Sabia que seria legal beijar a amiga.
Mas sabia também que corria risco de perdê-la. Porém sabia também que aquela vontade não passaria. Tinha 13 anos e já entendia o suficiente para ter absoluta certeza de que não conseguiria se controlar e ficar mais um bom tempo sem investir em Colbie.
Ela era uma garota legal. Emma gostava dela. Charlie também.
a achava inteligente e engraçada.
Qual seria o problema de contar toda a verdade para ela? Qual seria o problema de ao menos tentar investir nela?
Colbie fitou o amigo por alguns segundos.
— Está pensativo demais. — A garota afirmou, fazendo-o piscar os olhos algumas vezes. — O que está acontecendo?
— Nada — Nicholas respondeu, xingando-se mentalmente. — Estou pensando nas provas, nada demais.
— Ah, claro, Nicholas — Colbie revirou os olhos e levantou a cabeça para encará-lo. Ele achou aqueles movimentos encantadores. — E eu não te conheço desde pirralha — Colbie voltou a falar revirando os olhos e Nicholas riu levemente. — Vamos lá, diga-me o que está acontecendo.
— Não é nada, linda — Nicholas sorriu mais abertamente. — Vamos para casa?
— Tudo bem — Colbie murmurou revirando os olhos e puxando a mochila. — Passo na sua casa mais tarde.
— Certo — ele sorriu novamente e se aproximou de Colbie, beijando-lhe a bochecha.
A garota retribuiu o beijo sorrindo também.

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 13h13min.


Apolo deixou um sorriso fraco brincar no canto de seus lábios ao ver Jullie adentrando o restaurante. Estava tão linda! Não usava roupas despojadas dessa vez. Pelo contrário, estava impecável. Um vestido vermelho não muito colado mas também não muito solto, que pegava até o meio de suas coxas; os cabelos incrivelmente pretos e bem penteados, maquiagem não muito forte, porém chamativa e uma sandália com um salto não muito alto. Aproximou-se da mesa e sorriu.
— Boa tarde, Apolo — ela disse firme, fazendo-o sorrir também.
— Boa tarde, Jullie. Sente-se, por favor — ele murmurou, apontando para a cadeira à sua frente.
— Oras, onde está seu cavalheirismo? Não vai puxar a cadeira para mim? — ela perguntou divertida, fazendo-o rir fracamente e se levantar logo em seguida.
Apolo puxou a cadeira e esperou-a sentar. Curvou-se em direção à Jullie e inspirou com força seu perfume, arrepiando-a pela proximidade.
Jullie deixou um sorriso brincar no canto de seus lábios quando Apolo voltou a sentar-se em sua frente. Seus grandes olhos verdes faiscavam na direção do homem.
— Obrigada — ela murmurou sem quebrar o contato visual. — O que te faz me chamar aqui, Apolo?
Apolo sorriu e ergueu a mão, chamando o garçom.
— Vamos almoçar primeiro, Jullie. Temos tempo — ele murmurou piscando um dos olhos.
O garçom se aproximou e ambos fizeram seus pedidos.
— Sabe que não gosto de enrolações — ela disse firme. — Vamos direto ao assunto, Apolo. Você não me chamaria aqui à toa.
— Tudo bem, Jullie, vamos lá — ele cruzou as mãos sobre a mesa. — Você voltou de repente. O que quer de mim?
— De você? — ela riu e balançou a cabeça negativamente. — O que te faz pensar que voltei por sua causa?
— Tenho quase certeza de que fui a primeira pessoa que você procurou ao voltar — ele a encarou nos olhos, sério. — Vamos lá, Jullie! Não precisa negar que voltou a mando de alguém e está se aproximando de mim exatamente por isso. Te conheço o suficiente para ter certeza disso. Qual o serviço da vez? — ele ergueu uma das sobrancelhas. — Se aproximar de mim para termos um caso e depois me matar?
Jullie engoliu a seco e piscou os olhos rapidamente. Havia esquecido que Apolo era extremamente inteligente.
— Não tenho motivos para te matar — ela disse baixo, voltando a fitá-lo. — O que te faz pensar assim? Por que não confia mais em mim, Apolo?
— Porque você foi embora — ele disse entre dentes. — Assim que meu pai morreu. Lembra-se? — ele sorriu debochado. — Céus, Jullie! Tenho todos os motivos do mundo para desconfiar de você! Sei que estava metida na morte de Paolo Agostini, aliás.
— Nunca sequer movi um dedo para fazer mal ao Paolo! — Jullie exclamou sentindo a respiração acelerar. — Quer saber, Apolo? Vá para o inferno! — Gritou sem se importar com as pessoas em volta. — Chame uma de suas vagabundas para comer o que pedi.
Jullie se levantou o mais rápido que conseguiu e saiu em passos fortes. Queria chorar. Sentia falta de Paolo. Apolo não tinha a droga do direito de falar com ela daquela forma. Não que estivesse certo o que ela estava fazendo, pois não estava. Mas quem ele pensava que era, afinal?! Ela o conhecia tão bem! Por isso ficara longe por tanto tempo.
Jullie parou perto de seu carro e passou as mãos pelo rosto, limpando as lágrimas que deixara cair contra sua vontade. Respirou o mais fundo que pôde e piscou os olhos, tentando controlar as lágrimas. Ficou assim por alguns segundos, até sentir alguém puxá-la pelo braço. Num ato de puro susto, soltou-se rapidamente e puxou a arma que carregava em um coldre embaixo do vestido e mirou-a na direção da pessoa, com a respiração acelerada.
Apolo balançou a cabeça negativamente e se aproximou da mulher novamente, fazendo-a abaixar a arma e suspirar em seguida.
— Guarde a arma e volte para dentro, Jullie — ele pediu baixo. — Não seja tola...
— Não vou voltar para lugar nenhum com você, Apolo — Jullie disse baixo, porém firme. — Chega dessa palhaçada.
— Jullie...
— Se andar comigo vai acabar morto — ela disse num tom debochado, porém sabia muito bem a verdade que pesava por trás de todo o deboche. — Me esquece. Não deve ser difícil para você.
Apolo não respondeu, apenas engoliu a seco. Jullie fitou-o nos olhos por alguns segundos e virou-se para o carro em seguida, adentrando o mesmo e arrancando em seguida.
Apolo suspirou e passou uma das mãos pelos cabelos extremamente negros. Chutou e socou o ar em seguida e bufou. Ergueu a cabeça e, engolindo a raiva que sentia, caminhou para dentro do restaurante novamente. Havia esquecido da personalidade forte de Jullie.

LONDRES — 12h35min.


bateu a porta atrás de si, fazendo-a voar no rosto de . Se ele não tivesse um reflexo bom, de fato aquela porta o teria machucado. Sorte. Pura sorte.
— Eu sou uma mulher formada! — ela gritou o mais alto que pôde, pouco se importando se os vizinhos ouviriam aquela discussão idiota ou não. — Eu faço o que eu quiser, !
— Não estou dizendo que não deve fazer o que quiser! Só quero mantê-la longe de toda essa merda! — ele rebateu, gritando tão alto quanto ela.
— Pode dar quantas crises quiser, — ela se virou para ele com as mãos na cintura. — Eu vou participar de novo, sim. Você não manda em mim. Não tente ser esse tipo de homem controlador; você sabe que comigo não funciona desta forma. Não tente atrapalhar o meu trabalho e eu não atrapalho o seu. Estamos juntos, sim, e podemos nos ajudar. Basta você não se intrometer nos meus assuntos, e eu não irei me intrometer nos seus. Vamos tentar fazer isso dar certo. Sabe que vocês precisam de mim, tenho informações que poderão complementar a investigação. Não tente me derrubar e me fazer sair. Lembre-se do que combinamos, lembre-se do que passamos e como foi importante estarmos juntos. Não precisa sentir medo, , nós não vamos morrer.
revirou os olhos e soltou uma risada incrédula, passando a língua nos lábios em seguida. Encarou a mulher determinada em sua frente e suspirou, balançando a cabeça negativamente em seguida. Não acreditava no que estava ouvindo. parecia não ter noção de tudo o que estava acontecendo e o quão traumático havia sido. Ainda assim, entendia que também podia ser irredutível e chato demais, mesmo que fosse com boas intenções. A verdade era que estava assustado demais e não sabia lidar com o fato de estar tão confiante enquanto ele parecia um filhotinho amedrontado. A questão era que eles deveriam ir para outro país e ninguém sabia para quê! A única pista que tinham era que alguém que eles deixaram passar despercebido três anos atrás poderia estar voltando e causando todas aquelas desordens pela Inglaterra e, agora, Itália. Por mais que fossem um tanto quanto afastados, os dois países tinham os mesmos ataques e, para completar, um corpo encontrado na Itália havia um recado para . Tudo estava começando de novo.
Em dois passos largos e rápidos, se aproximou de e encarou-a nos olhos.
— Não entra nisso de novo — ele começou pausadamente. — Por favor. Não quero ter riscos de te perder de novo, . Você... — ele mordeu o lábio inferior e se aproximou mais, segurando-a pelo rosto com delicadeza, acariciando suas bochechas com os polegares. — Eu preciso de você viva para ter um motivo para voltar. Você lá, não saberei o que fazer — confessou em um fio de voz, um sussurro que seria inaudível para qualquer pessoa que estivesse assistindo a cena naquela sala. Mas escutou claramente todas aquelas palavras e precisou se controlar para não sorrir. Aproximou o rosto do homem e grudou suas testas; ela estava extremamente feliz ao escutar aquilo. Haviam avançado mais do que imaginava. Avançaram a ponto de dizer tudo aquilo para ela enquanto a fitava nos olhos. — Eu não quero ver você fazendo essas loucuras de novo, — ele voltou a falar. — Não tenho forças para te ter à beira da morte novamente, não quero que você me veja fazer as coisas que abomino, mas que são necessárias para continuar vivo. Quero que você fique segura. Quero ter um motivo para voltar e finalmente podermos tentar ter uma família.
— Você é um idiota — ela murmurou com a voz mansa. — Não vou morrer. Sei me cuidar; fui bem treinada. Além do mais, é sempre mais seguro estarmos juntos.
— Eu só quero te proteger.
— Eu sei. Mas você também precisa de proteção. E eu estando lá, podemos proteger um ao outro. Não precisamos brigar por isso, . De qualquer forma, não embarcarei com vocês, tomarei a rédea das coisas por aqui primeiro. Eu quero que você fique tranquilo e bem o suficiente para focar em seu trabalho. Não precisa se preocupar comigo o tempo inteiro, juro que sei me cuidar. Você precisa aceitar que meu trabalho também contém riscos. Eu invado propriedades, manipulo algumas pessoas, sou agredida verbalmente, tenho que ir atrás de gente que odeio... enfim, não é confortável para mim também, mas ainda é meu trabalho. É perigoso por si só. Meu nome fica estampado na mídia o tempo inteiro. Sofro ameaças desde que consegui consolidar minha carreira. Você não precisa se preocupar. Sei que é inútil dizer isso e a preocupação sempre estará lá, como eu fico quando sei que você está em missão e se arriscando pelo país. Mas, ainda assim, entendo que é seu trabalho. No fim do dia, você sempre volta e sempre está comigo. Quero que pense dessa forma. Lá, aqui ou em qualquer lugar do mundo: eu sempre voltarei para os seus braços.
Ao ouvir palavras tão dóceis sendo sussurradas contra seu rosto, não teve forças para negar. sabia bem como vencer uma discussão e como convencê-lo das coisas. Ele não concordava, não queria ter de vê-la sofrer outra vez e algo no fundo de seu âmago o dizia que o sofrimento seria tão forte quanto da outra vez, mas, ainda assim, não tinha o que fazer. era dona de suas próprias decisões e ele só deveria aceitar e lidar com elas, assim como ela fazia quando ele decidia vestir um colete à prova de balas e sair pela cidade como se fosse um super-herói quando, na verdade, estava mais para um vilão que poderia ser morto a qualquer momento.

****

Colbie soltou uma risada alta enquanto assistia o fim de um episódio qualquer de How I Met Your Mother e Nicholas revirou os olhos. Queria assistir White Collar.
— Oras, Nicholas! Dê um sorriso! — Colbie exclamou divertida. — Assuma que esse episódio foi engraçado!
— Foi, foi muito engraçado — ele revirou os olhos. — Mas será que agora eu posso assistir White Collar?
— Você está muito chato hoje — Colbie esticou-se completamente no sofá que estava e Nicholas observou-a por alguns segundos, desviando o olhar enquanto sentia seu rosto corar levemente com o pensamento que tivera.
Balançou a cabeça negativamente e tirou do seriado que Colbie assistia.
— Estou normal, Colbie — ele murmurou, soltando um suspiro fraco. — Vem, vamos assistir White Collar.
Colbie bufou e sentou-se ao lado dele no chão, em frente ao notebook.
— Você anda tão complexo, tão fechado — Colbie murmurou enquanto apoiava a cabeça no ombro de Nicholas. — Você nem sequer sorriu de verdade hoje.
— Desde quando você repara na forma que sorrio? — ele perguntou, erguendo uma das sobrancelhas e Colbie suspirou.
— Desde sempre, bobão — ela respondeu baixinho fitando o notebook à sua frente.
Nicholas deu um sorriso discreto ao ouvir aquelas palavras e virou-se para ela.
— Por que nunca disse antes? — ele perguntou dando um sorriso de verdade, da forma que Colbie gostava. Ela, corando um bocado, balançou a cabeça negativamente e revirou os olhos.
— Não preciso dizer essas coisas! — exclamou sem jeito. — Você é meu melhor amigo. Deveria saber disso.
Nicholas mordeu o lábio inferior e revirou os olhos discretamente.
Melhor amigo
.
Aquilo o estava incomodando. E muito.
Agora, o porquê daquilo ele não fazia ideia. Mas sabia que o incomodava e sabia também que não enxergava Colbie daquela forma. Não mais. Ou talvez ele nunca tenha enxergado Colbie apenas como uma melhor amiga. Ou talvez fosse apenas coisas da cabeça dele. Ou talvez tudo aquilo fosse culpa de e seus conselhos idiotas. Talvez não fosse nada daquilo e ele só queria culpar alguma coisa por estar sentindo algo a mais por Colbie.
— Nicholas! — ela chamou, encarando-o nos olhos. — Estou falando com você há séculos. O que você tem, afinal?
Nicholas soltou uma risada nervosa e encarou o teto da sala. Depois, voltou o olhar para Colbie. Suspirou pesadamente e bagunçou os cabelos.
— Nada. Eu não tô legal, Colbie. Acho melhor terminarmos de ver isso depois. — Nicholas murmurou, fechando o notebook.
Colbie arqueou uma das sobrancelhas.
— Ei! — ela chamou puxando Nicholas pela mão já que ele ameaçava levantar.
— Pode confiar em mim — ela murmurou, encarando-o no fundo dos olhos. — Por que não me conta o que está acontecendo? Você anda alienado há dias! Sinto falta do meu amigo inteligente e brincalhão que dá sorrisinhos esperançosos para as garotas da escola só porque o diz que assim tudo vai ser mais legal — ela suspirou e apertou mais a mão do amigo. — Me diz o que está acontecendo, por favor — ela uniu as sobrancelhas e estreitou os olhos, mostrando-se triste e Nicholas sentiu o coração acelerar. — Não precisa ter medo. Seja lá o que for... Você sabe que estarei aqui para e por você.
Nicholas engoliu a seco e sentiu o coração acelerar ainda mais dentro do peito.
— Promete que não vai sair correndo daqui, nem me odiar ou algo do tipo? — ele sussurrou enquanto engolia a seco novamente e se aproximava mais de Colbie.
— Prometo o que quiser se você der um sorriso e me contar o que está acontecendo — ela respondeu com um sorriso de canto, porém Nicholas permaneceu sério, pensando e repensando no que fazer.
Era agora ou nunca.
Pegar ou largar.
Alguns segundos se passaram e Nicholas ignorou tudo à sua volta; desistiu de tentar resistir, de tentar lutar contra aquilo. Era impossível controlar-se perto de Colbie e ele não tentaria mais.
— Me desculpe por isso — ele sussurrou antes de segurar a amiga pela nuca e puxá-la para mais perto, juntando seus lábios de uma vez. Tinham só 13 anos mas isso não significava que não saberiam o que fazer quando seus lábios colassem uns nos outros. Nicholas não pensou duas vezes antes de invadir a boca de Colbie com sua língua. Para sua surpresa, Colbie não o empurrou nem o estapeou, apenas jogou os braços em volta de seu pescoço e puxou-o para mais perto. Não era o primeiro beijo de nenhum dos dois, alguns meses antes tinham prometido que aquilo aconteceria ao mesmo tempo para ambos. Sendo assim, tentando não pensar sobre o quão cedo para aquilo era, foram de encontro às suas paqueras e investiram. Aconteceu e não havia sido tão bom assim, compartilharam ambas as experiências dando risadas e comentando como eram terríveis beijando. E agora, estavam ali, juntos, experimentando entre os dois que, na verdade, só não haviam beijado a pessoa certa.
Nicholas desceu uma das mãos para a cintura de Colbie e segurou-a firme e respeitosamente ali, fazendo-a dar um sorriso pequeno entre o beijo e puxá-lo para um abraço cuidadoso. Teriam continuado ali se o barulho da porta da sala não tivesse ecoado por todo o local. Assustado, Nicholas empurrou Colbie para trás o mais rápido — e com cuidado — que conseguiu e levantou-se no segundo seguinte. Logo uma Emma sorridente adentrou a sala. Colbie piscava os olhos de forma desesperada e, com os dedos, desenhava os próprios lábios, sem acreditar no que acabara de acontecer.
— Olá, amores! — Emma exclamou sorrindo.
— Ei, mãe! — Nicholas respondeu, tentando imitar a animação da mãe. — Como foi o trabalho?
— Olá, Emma... — Colbie respondeu ainda distraída, mas com um sorriso no rosto.
— Como vai, Colbie? — Emma perguntou enquanto caminhava para a cozinha com Nicholas em seu encalço. — O trabalho está sendo um inferno, filho.
Precisarei viajar daqui uns dias e não faço ideia de como você vai ficar.
— Tenho idade para ficar sozinho, mãe — Nicholas murmurou revirando os olhos.
— Não com o que vêm acontecendo — ela suspirou. — Só vim em casa buscar uns documentos e voltarei para a delegacia, tudo bem? Só preciso que a Colbie vá para casa. Pretendo deixar você na casa da sua avó.
— Vai trabalhar até tarde? — ele perguntou tentando ignorar o que sentia ao ouvir o nome de Colbie que, aliás, continuava na sala em total silêncio.
— Vou — Emma suspirou. — Tente ir rápido deixar a Colbie, tudo bem? Charlie logo estará aqui.
— Tudo bem — Nicholas mordeu o lábio inferior.
— Antes... — Emma voltou a falar, fazendo-o virar-se para ela — Há algo que queira me contar?
Nicholas balançou a cabeça negativamente, porém um sorriso brincava no canto de seus lábios.
— A você, não. Mas ao ... talvez — ele piscou um dos olhos. — Até daqui a pouco, mãe.
Emma soltou uma risada fraca e revirou os olhos.
Como se ela não tivesse visto o beijo que acontecera no meio de sua sala.
Ah, jovens.
Nicholas saiu da cozinha e mordeu o lábio inferior, não sabia como agir ao encarar Colbie novamente.
— Ei, Colbie — ele chamou baixo, coçando a cabeça. — Eu vou...
— Me levar em casa pois sua mãe vai trabalhar até tarde e você precisa ir para a casa da sua avó — ela o interrompeu, sorrindo timidamente. — Tudo bem. Já arrumei minhas coisas.
— Bom... Certo — ele mordeu o lábio inferior.
— Tchau, Emma! — Colbie gritou da sala enquanto caminhava devagar até a porta.
Emma gritou um "tchau, querida!" em resposta e Nicholas abriu a porta para que Colbie passasse. Logo depois, fechou-a devagar.
— Certo, desculpe por... — Nicholas tentou falar, mas não conseguira já que os lábios de Colbie colaram-se aos seus novamente, num selinho demorado.
— Vamos. Não posso ficar aqui até muito tarde e você precisa voltar... — Colbie murmurou sorrindo e abaixando a cabeça levemente.
Nicholas sorriu e mordeu o lábio.
— Vamos — ele balançou a cabeça negativamente e, timidamente, segurou a mão de Colbie para saírem.
Foram caminhando devagar e conversando coisas idiotas até chegarem à casa de Colbie, o que não demorou tanto quanto costumava — e deveria — demorar.
Pararam em frente ao portão de Colbie e se encararam.
— Bem, obrigada — Colbie murmurou sorrindo. — Te vejo amanhã.
— Por nada — Nicholas respondeu. — Até amanhã.
Nicholas se aproximou de Colbie devagar, porém, ao contrário do que ela pensava, apenas beijou-lhe a testa, fazendo-a sorrir mais. Gostava daquele jeito de Nicholas. Era... diferente.
Trocaram mais um sorriso e Nicholas esperou-a entrar para voltar para casa.
Ficou ali por mais alguns segundos, observando o portão fechado. Sabia que Colbie estava encostada nele com um sorriso enorme nos lábios. Riu fraco e virou-se para fazer o caminho de volta para casa. Estava tão feliz que mal conseguia se conter. Céus! Ele esperou tanto por aquilo.
Ao chegar em casa novamente, Nicholas pôde ver o carro de Charlie na garagem. Logo um sorriso tomou seus lábios novamente. Poderia compartilhar com alguém que não fosse sua mãe. Não que escondesse as coisas de Emma, pelo contrário! Apenas não queria ter as bochechas apertadas e ser tratado como um bebê... como aconteceu quando contou a respeito do primeiro beijo (além, é claro, do sermão a respeito de não deixar isso ser o foco de sua vida, que ele ainda era muito novo para namorado e que deveria estudar).
Riu novamente e adentrou a sala, sem fazer barulho. Observou todos os cômodos do andar debaixo e não encontrou a mãe e o padrasto. Balançou a cabeça negativamente e fez uma careta ao pensar certas coisas. Ignorando o sumiço dos adultos, Nicholas subiu as escadas, ainda sem pressa. Se trancaria no quarto e faria os deveres antes de ir para a casa da avó. Se Charlie estava em casa também, é porque todos tiveram algumas horinhas de folga.
— Ele precisa saber, Emma! — Charlie exclamou e Nicholas parou de andar antes de passar pela porta entreaberta. — Até quando pretende esconder isso dele? Vamos para a Itália daqui uns dias e vamos deixar o menino aí, sem saber porra nenhuma sendo que podemos morrer por lá mesmo?
— Não fale assim, Charlie! — Emma praticamente gritou e Nicholas uniu as sobrancelhas, aproximando-se mais da porta para observar melhor.
Fora ensinado para não fazer aquilo. Mas a curiosidade estava falando mais alto.
— Nicholas precisa saber, Emma — Charlie diminuiu o tom de voz. — Se enrolarmos mais, será pior.
Nicholas sentiu seu coração acelerar e a respiração falhar. O que diabos estavam escondendo dele?
— Já se passaram treze anos... — Emma murmurou.
— E você acha que ele não se questiona sobre isso? — Charlie rebateu. — Acha que ele não quer saber o que aconteceu com o pai dele?
Nicholas paralisou no mesmo momento. Emma nunca lhe contara o que acontecera com Martin, seu pai. Charlie estava certo! Ela deveria contar!
— Pode se questionar, sim, Charlie. Mas...
— Mas o que, Emma? — Charlie interrompeu-a novamente. — Será que não entende que me machuca também vê-lo todos os dias e saber da verdade sem poder contar para ele? Nicholas já está grande o suficiente para saber. Por mim, sinceramente, teria contado tudo para ele assim que descobri. Seria mais fácil. Muito mais fácil!
— Droga, Charlie! — Emma exclamou. — O que você quer que eu faça? Que apenas o chame e diga: "Nicholas, meu amor, venha cá para a mamãe te contar uma coisa... O Charlie é seu verdadeiro pai e o Martin fora só um namoro da mamãe!"? Por Deus, Charlie!
Nicholas sentiu a garganta secar e juntou as sobrancelhas.
Charlie... Charlie! Charlie era seu pai? Mas... E Martin?
Nicholas piscou os olhos e respirou fundo, passando as mãos pelo rosto. Aquilo não podia ser verdade. Ele deveria estar sonhando. Era isso, então? Sua felicidade por ter beijado Colbie estar indo por água abaixo significava que tudo não passara de um maldito sonho?
Beliscou-se uma, duas, três, quatro vezes.
Era verdade. Era realidade. Tudo estava acontecendo.
Era filho de Charlie.
Fora enganado por malditos treze anos.
Nicholas respirou fundo, com a coragem que desconhecia que tinha, abriu a porta e perguntou alto, assustando Emma e Charlie:
— O Charlie é meu pai?


Capítulo 4

IT'S OKAY NOT TO BE OKAY.


LONDRES — INGLATERRA, 20h10min.

entregou uma das taças que segurava para , que estava jogada na cama com o notebook entre as pernas.
— O que está escrevendo agora? — perguntou enquanto se apoiava na janela com um cigarro entre os dedos.
— Projeto novo — ela murmurou, bebericando o vinho que lhe dera. — Ótimo vinho.
— Obrigado — ele sorriu fracamente e tragou o cigarro. — Não vai me falar sobre o projeto?
— Estou escrevendo algumas coisas que já passei por ser jornalista investigativa — ela bebeu o vinho mais uma vez. — Depois juntarei com as partes de Elizabeth...
— Elizabeth? — interrompeu, unindo as sobrancelhas. — Johnson?
— Sim — riu do espanto do homem. — Conversamos, nos acertamos e notamos que o que fazíamos não passava de briguinha adolescente. Estamos escrevendo juntas porque nossos chefes são sócios. As duas Redações que antes eram inimigas, agora são a mesma coisa. O que o dinheiro e o tempo não fazem, né? — ela o olhou de relance, ainda sorrindo.
— Sinto cheiro de confusão — disse, tragando o cigarro.
revirou os olhos.
— Você sempre sente cheiro de confusão, — ela virou o resto do vinho que continha na taça de uma vez. — Precisa parar com isso. Conseguimos nos acertar, é um projeto legal. Tudo vai dar certo. São relatos de duas jornalistas investigativas. Sendo que uma já ganhou Pulitzer. Qual confusão isso pode causar?
— Sei lá! — disse antes de virar a taça e acabar com o vinho de uma vez. — Vocês são esquisitas.
— Esquisito é você! — ela rebateu, largando a taça vazia em qualquer lugar e se levantando, indo em direção a . — Você é muito, muito esquisito e eu não reclamo tanto assim.
revirou os olhos, sorrindo.
— Como se você não gostasse disso... — ele murmurou jogando o resto do cigarro pela janela e passando as mãos pela cintura de — Fala desse jeito, mas não vive sem o esquisito aqui...
— Convencido — ela sussurrou, aproximando seus lábios.
— Gostosa — rebateu, aproximando-se mais.
Teriam se beijado, como fizeram o dia inteiro, se a campainha não tocasse. E logo em seguida, barulhos de socos eram ouvidos.
A última vez que bateram na porta de dessa forma, Emma chegara suja de sangue, de cabelos bagunçados e um pequeno Nicholas agarrado em suas pernas porque tinham invadido sua casa.
se afastou de rapidamente e correu para a sala, abrindo a porta.
— O que diabos aconteceu?! — exclamou ao dar de cara com Nicholas, que tinha a respiração acelerada, narinas infladas e olhos vermelhos.
Nicholas não respondeu, só passou por parecendo um furacão.
— Olá, — ele murmurou. Podia estar triste, revoltado ou o que fosse, mas sua educação continuava ali. Intacta.
— Olá, mascote — sorriu fracamente. — O que aconteceu?
— Você sabia, ? — Nicholas ignorou a pergunta e se virou para o homem ao notá-lo na sala. — Você sabia que o Raymond é meu pai?
engoliu a seco e fez o mesmo, piscando os olhos rapidamente.
— Certo. O que você tem ouvido por aí? Vamos conversar com calma, garotão! Senta aí e...
— Droga, ! — Nicholas gritou. — Por que diabos não me contaram? Porra! — xingou, com vontade. — Não sou um bebê!
, vai para dentro por favor? Preciso bater um papo com o Nicholas — pediu mordendo o lábio e não disse nada, apenas assentiu e seguiu para o quarto. — Senta aí.
— Não quero sentar — Nicholas rebateu. — Quero saber por que esconderam isso de mim por tanto tempo! Qual a droga do problema de vocês?
— Dá para dizer onde ouviu isso, moleque?! — perguntou alto, fazendo-o engolir a seco.
— Ouvi o Charlie e minha mãe discutindo sobre isso no quarto — ele explicou. — Perguntei e eles ficaram me olhando com cara de merda, como se tivessem sido pegos fazendo...
— Olha o vocabulário! — repreendeu. — Não é por que está estressadinho que vai falar dessa forma. Sua mãe não te educou para isso — suspirou. — Então você não deixou eles explicarem o lado deles na história?
— Lado deles? — Nicholas riu, debochado. — LADO DELES? — gritou. — Eu acabo de descobrir que meu pai sempre esteve do meu lado e me escondeu isso a vida inteira, e você quer saber se eu ouvi o lado deles?
— Você quer o que, Nicholas? — suspirou mais uma vez. — Que eu veja o seu lado nisso tudo? Nunca escondi dos seus pais que era a favor de você saber a verdade. Mas eu simplesmente não podia chegar e contar, isso não tem a ver comigo. Sua mãe sentia medo. E você está fazendo exatamente o que ela sempre temeu.
— Vai defendê-los agora? — Nicholas perguntou baixo, porém sem esconder a raiva que sentia. — Eles mentem para mim a vida inteira e você defende?
— Não estou defendendo ninguém. Só quero meu garoto de volta — o fitou nos olhos. — Isso não é o fim do mundo, Nicholas. Você pode estar confuso, com raiva e até mesmo um pouco inconformado. Mas, me diga, quem melhor que o Charlie para ser seu pai? Ele te viu nascer e te deu proteção desde então.
— E eu o agradeço por isso, — Nicholas praticamente sussurrou, sentindo as lágrimas inundarem seus olhos novamente. — Da mesma forma que agradeço a você por ser um cara legal comigo, diferente do que o ou qualquer outro daquela delegacia foi. Mas me diga: o que faria se descobrisse que seu pai não foi seu pai e você se sacrificou por ele a vida inteira à toa?
— Descobri muitas coisas sobre meu pai, Nicholas — o encarou balançando a cabeça negativamente. — Coisas que eu nunca imaginei que viriam dele. Acredite, é muito melhor passar pelo que você está passando do que passar pelo que passei. Você tem 13 anos. Não é o fim do mundo descobrir seu pai biológico. Não quero minimizar o que você está sentindo, mas precisa ter calma num momento desse. Está tudo bem, é sua família. Pais também falham e sentem medo.
Nicholas soltou uma risada debochada e balançou a cabeça.
— Eu só queria entender por que mentiram para mim — ele murmurou. — É algum crime ficar puto com isso? Vai dizer que você não ficaria? Sempre pedem tanto para não mentirmos e... olha isso.
não respondeu. Apenas lembrou-se de quando descobriu que era seu irmão.
— Essas coisas acontecem, Nicholas — respirou fundo. — Você só precisa ser forte. Sua mãe não fez nada disso por mal. Tente entender o lado dela. Charlie era casado na época e...
— Casado? — Nicholas o cortou, dando uma risada debochada e suspirou, dando-se conta do que deixara escapar. — Quem realmente é minha mãe, ?
— Sua mãe é uma mulher maravilhosa que não merece nada disso — respondeu calmamente. — Você deveria voltar para casa amanhã de manhã e tentar conversar com ela e Charlie. Pode dormir aqui, sabe que minha casa é sua casa. Nós vamos para a Itália essa semana. Não deixe as coisas ficarem assim, Nicholas.
— Está vendo, ? — ele riu, balançando a cabeça. — Vocês só pensam no trabalho. Não importa se vou me preocupar com vocês, não importa o quão puto eu esteja, não importa o que vem acontecendo na minha vida, não importa o que eu estou sentindo. Só importa esse maldito trabalho de vocês. Se tem gente morrendo na Itália, deixe os malditos policiais italianos cuidarem disso. Vocês não são super heróis que podem rodar o mundo inteiro sem sofrer nada. Vocês não são imortais.
— Como tem coragem de dizer que não nos importamos com você?! — perguntou, elevando mais a voz mesmo contra sua vontade. — Droga, Nicholas! Preciso que seja forte e nos entenda agora! — deu um passo à frente e segurou o menor pelos ombros com carinho. — Durma, amanhã volte para casa e converse com sua mãe. É o melhor que tem a se fazer agora. Pode ter certeza que se estamos indo para a Itália, é para cuidar de você também. Coisas horríveis estão acontecendo de novo.
Nicholas se soltou das mãos de e passou as mãos pelo rosto em seguida. Não aguentava mais nada daquilo. Queria saber quando aquela sensação ruim passaria, queria saber quando passariam a lhe contar a verdade, queria saber quando as pessoas que amava iam estar fora de perigo...
— É muito para mim — ele riu forçadamente e balançou a cabeça de um lado para o outro. — É demais, . Demais. Eu... — ele suspirou e se afastou de completamente — Não posso lidar com isso.
— Você pode. Agora descansa um pouco, que tal? — murmurou dando mais alguns passos.
— Não quero — Nicholas suspirou e bagunçou os cabelos. — Eu... vou embora. É muita coisa para um dia só.
— Sei que você não vai para casa, Nicholas. Por favor...
— Me deixa, . Me deixa — ele murmurou e virou-se de uma vez por todas, cruzando a sala e abrindo a porta.
deixou um suspiro alto escapar, mas não se moveu. Se suas suspeitas estavam certas, ele estava indo para a casa de Colbie. No fim das contas, moravam todos próximos uns dos outros, não seria uma caminhada longa e as ruas ainda estavam agitadas e iluminadas. Não adiantaria ir atrás de Nicholas. Pelo menos não naquele momento. Ainda assim, sentia o peito apertar. Não queria ser um adulto irresponsável deixando o moleque sair daquele jeito, mas sabia que não adiantaria de muita coisa força-lo ficar ali — ele não queria e provavelmente sairia escondido durante a madrugada; sabia porque fazia muito aquilo na época da pré-adolescência. O que podia fazer havia feito: aconselhado, amolecido as ideias turvas e feito o garoto perceber que não estava sozinho. Além, é claro, de enviar uma mensagem para Emma informando-a do que havia acontecido.
parou ao lado de e segurou sua mão livre.
— Ele vai ficar bem? — ela perguntou baixinho.
— Eu espero que sim... — respondeu encarando a porta fechada — Eu disse que isso aconteceria — ele se virou para , suspirando. — Eu avisei, . Eu avisei. Eu disse que ele se revoltaria. Não era para esconderem isso dele por tanto tempo. Não era. Agora não sei se fico aqui ou se vou atrás dele, se tento falar com a Colbie...
— Eu sei, murmurou, passando uma das mãos pelo rosto tenso do homem. — Mas aconteceu. Eles esconderam tanto que acabaram deixando o garoto escutar. Você vai ver como o Nicholas logo volta ao normal. Ele é forte o suficiente para encarar isso de cabeça erguida. Ele tem amigos, tem a mim e, principalmente, tem você. Vocês todos só precisam de paciência. Nicholas tem 13 anos e isso para ele é o inferno. Mas veja pelo lado bom: ele descobriu agora. Aos 13. Imagine se ele descobre com 17 ou 18? — piscou um dos olhos com um sorriso no canto dos lábios. — A revolta e a briga seriam maiores. Mas, se quiser ir atrás dele, podemos ir agora. Sei que você seria capaz de rastrear o celular dele em dois tempos.
— É.. se formos observar assim... — deu de ombros e bagunçou os cabelos logo depois — Enfim. É melhor dar espaço para ele, vou pedir para Emma falar com a Colbie caso ele vá para lá... apesar de estar com o coração apertado, estou me sentindo horrível, não era pra tê-lo deixado sair... — suspirou. — Certo, a Colbie não mora tão longe, ainda é um horário bom e está tudo movimentado. Ele já tem o hábito de andar assim, as pessoas o conhecem... — tentou tranquilizar-se sozinho. — Vem, vamos terminar aquele vinho. Pretendo ler o que você escreveu hoje...
— O que decidir faremos, meu amor. Se achar que devemos ir atrás dele, vamos. E eu disse que te mostraria algo? — perguntou arqueando uma das sobrancelhas e passando os braços em volta da cintura de . — Não me lembro disso... mas gostei da parte de acabarmos com o vinho.
— Você não disse — sorriu. — Mas você sabe... sou um curioso filho da puta.
soltou uma risada gostosa e a apertou mais.
Uma coisa que aprendera com e nunca mais se esqueceria: sorrir mesmo nos momentos difíceis. Fazia bem.

Flashback

VENEZA — ITÁLIA, 17h17min.
Treze anos antes...


Apolo sorriu ao observar os pais de longe enquanto um único pensamento pairava por sua cabeça: será que algum dia conseguiria encontrar um amor igual aquele? Tinha apenas 14 anos, mas já pensava no que faria ao encontrar uma mulher que o deixasse da forma que sua mãe deixava seu pai. Era impossível não pensar. Sabia bem as coisas que o pai fazia e sabia que muitas pessoas desejavam sua morte. Mas... Céus! Será que ninguém enxergava quem seu pai se tornava ao lado de sua mãe?
— No que você tanto pensa, filho? — A voz de Robert Castellamare ecoou pelos ouvidos de Apolo, fazendo-o sorrir automaticamente.
— No dia em que vou encontrar alguém que me faça sorrir da forma que você sorri com a mamãe... — ele respondeu sorrindo timidamente, agora. — Você simplesmente se transforma com ela por perto. Tenho vontade de sentir algo assim.
Castellamare riu fracamente.
— Sua hora vai chegar, Apolo. Apenas saiba esperar.
— Não estou dizendo que estou com pressa! — Apolo riu. — Tudo tem seu tempo, certo? Vou saber esperar. Aliás, cadê a mamãe?
— Desde quando você é tão sábio assim, rapaz? — Robert arqueou uma das sobrancelhas. — Foi comprar algo para beber.
— Sou sábio assim desde sempre — Apolo piscou um dos olhos, arrancando uma gargalhada do mais velho. — Tudo culpa desse verão... O calor me irrita.
— O calor nos irrita — Robert piscou um dos olhos. — Pretendo ir com vocês para a Inglaterra quando tudo isso acabar.
— Pai... — Apolo chamou baixo, virando-se para o mais velho — Por que você entrou nisso? E por que fez questão de me deixar saber de tudo logo agora? Tenho 14 anos e...
— Preciso que tome meu lugar, Apolo — Castellamare disse enquanto fitava os olhos confusos do filho. — Quero alguém de confiança para tomar conta do negócio. Não precisa levar tudo para o lado que eu estava levando. Basta tomar o poder de lá. Até você acabar a faculdade, tem tempo para decidir como continuar com tudo isso. Não passa de uma empresa, filho.
— Eu sinto medo — Apolo murmurou. — Medo de decepcionar você por te contrariar...
— Até lá você perderá todos os seus medos, Apolo. E eu não estarei vivo para ver o rumo que você dará à empresa — Castellamare disse firme e Apolo sentiu seu coração acelerar. — Não se preocupe com isso, garoto.
Apolo suspirou e Castellamare deu um sorriso fraco. Seu filho era tão diferente. No fundo, não queria que o pequeno Apolo seguisse seus passos. Mas queria deixar algo para ele. Sabia que quando voltasse para a Inglaterra — sozinho, claro — talvez não tivesse tempo de voltar a Itália e ver o que seu filho realmente se tornara. Mas agradeceria se ele virasse um homem honesto, que não o tomasse como exemplo. Nem todos os pais querem que seus filhos sigam seus passos. Ainda mais quando sabem que fazem coisas erradas.
Castellamare deixou um sorriso brotar em seus lábios ao enxergar a mulher com duas bolsas nas mãos, caminhando em sua direção com um sorriso tão aberto e alegre quanto o dele nos lábios.
A mulher estava quase chegando onde o marido e o filho estavam, quando dois estranhos surgiram ao seu lado. Castellamare sentiu o coração parar e Apolo se levantou, juntando as sobrancelhas.
— Pai! O que está... — Apolo tentou perguntar, mas, àquela altura, Robert já dava passos rápidos até onde a mulher estava. Apolo ficou sem saber. Ia atrás? Ficava observando a cena? Estava perdido. Não sabia o que estava acontecendo. Mas sabia que sua mãe estava assustada. Seus olhos azuis brilhantes e intensos estavam mais escuros pelo medo, seus lábios entreabertos e os cabelos levemente desarrumados pelo leve vento que batera por ali. De repente, tudo ficou em câmera lenta. Naquele momento, Apolo achara que perderia tudo o que tinha. Um dos homens ergueu um revólver prateado e mirou-o no meio da testa de sua mãe.
O que diabos estavam fazendo?! Aquilo era um lugar público! Céus!
— NÃO! — Castellamare gritou e apertou mais os passos, porém parou bruscamente ao notar uma outra arma apontada em sua direção. — Não faça nada com ela. Vocês querem a mim.
— Isso é apenas um aviso, Castellamare — o homem que segurava a arma firmemente contra a cabeça da mulher disse. — Ela é só a primeira. Ou você faz o combinado, ou o próximo será seu filho.
Castellamare sentiu seu coração apertar. Não podia deixá-la morrer daquela forma! Não... Não podia perdê-la. Não... Em hipótese alguma! Respirou o mais fundo que pôde e fitou o homem destravar a arma. Com um surto de coragem, Castellamare deu mais alguns passos na direção dos homens, mas parou bruscamente ao ouvir um grito da garganta de Apolo, implorando para que ele fizesse aquilo parar, que não fosse até os caras, mas que salvasse a mulher. Robert Castellamare ignorou. Estava cego. Queria salvar a mulher que mais amava. Com um sorriso nos lábios, o homem apertou o gatilho. Sem dó nem piedade. Apenas apertou e deixou o corpo da mulher cair no chão, como se fosse um saco de lixo qualquer. E então toda a cena voltou a velocidade normal. Castellamare não acreditava no que estava vendo. Não acreditava que haviam feito aquilo. Não acreditava que não conseguiria correr a tempo. Aliás, ele realmente tentara correr? Desde quando aquela praça era tão grande?
— É só um aviso — o homem murmurou novamente. — Sinta-se à vontade para chamar a polícia. Sabe que não ficarei preso. Você já tentou antes.
O outro homem, que também segurava uma arma, mirou-a em direção a Robert, que estava estático encarando o corpo da mulher, pouco se importando se seria atingido ou não.
— Não gaste balas com ele, amigo — o assassino murmurou, enquanto Castellamare levantava os olhos vermelhos em sua direção. — Fique esperto.
E então, saíram. Simplesmente saíram. Sem se importar com os gritos desesperados das pessoas, sem se importar com a polícia a caminho.
Simplesmente saíram e o deixaram ali, desolado. Sem a mulher que mais amava no mundo. Sem ter o que fazer. Com um filho de 14 anos e totalmente traumatizado com as coisas que vira.
Com o resto de coragem que lhe sobrara, Castellamare arrastou-se até o corpo da mulher, segurando-o em seus braços com delicadeza. Uma lágrima rolou.
Logo depois, outra. E outra. Mais outras. Quando Robert se dera conta, já estava debruçado sobre o corpo e chorando como nunca havia chorado na vida. Sentiu braços pequenos envolverem seu corpo e, logo depois, lágrimas molhando sua camisa. Com uma das mãos, Robert abraçou o filho e deixou as lágrimas caírem livremente.
Isso é só um aviso. Kate, sua irmã mais nova, que o perdoasse. Mas ele não arriscaria a perder mais uma pessoa que ama por não obedecer àqueles caras.

Fim do Flashback.

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 22h35min.

Apolo soltou a fumaça do cigarro devagar. As lembranças ainda pairavam por sua cabeça. Lembrava-se de como era idiota até os dezessete. Lembrava-se o quão apaixonado era. Lembrava-se o quanto sua mãe fazia falta. Lembrava-se de quando tomou a decisão de cursar Administração só para ter um diploma e logo depois tomar conta dos negócios do pai, que não eram lá as coisas mais honestas do mundo. Mas era pelo seu próprio bem. Se não fizesse isso, morreria. Se envolvera na podridão toda sem nem ao menos notar. Outras pessoas em seu lugar, sentiriam ódio de seu pai. Mas ele simplesmente não conseguia odiar Robert Castellamare. Aquele homem podia ser tudo, tudo de ruim. Mas lhe dera uma educação impecável, lhe dera amor e lhe ensinara a ser um homem de verdade. Entretanto, ninguém acreditava nisso. Mas e daí? Ele sabia, ele sentia, ele amava e idolatrava seu pai. Poderia ter lhe dado um abraço de dia dos pais. Mas não deu. Porque Jesse Pender o matou. O matou sem nem saber por que estava matando. Talvez só para salvar a maldita vida de que de nada valia. Ou daquela jornalista idiota que andava com ele. Jesse era o maior babaca da face da Terra. Tirara a vida de seu pai para salvar o idiota do .
A porta do escritório de Apolo se abriu, fazendo-o erguer os olhos sem um pingo de paciência. Estava perdido em seus pensamentos e pretendia continuar. Até observar a figura à sua frente.
— Decidi te dar uma segunda chance — Jullie murmurou, jogando a bolsa em cima da mesa e sentando-se na cadeira, enquanto jogava as pernas sobre a mesa de Apolo. — Você é um idiota. Insinua que eu sou uma vadia que quer te matar, mas ainda assim, é impossível ficar longe de você. Posso estar sendo tão idiota quanto você por vir aqui, mas espero não me arrepender.
Apolo riu sem emoção alguma e observou a mulher. Os olhos verdes faiscavam e os cabelos extremamente negros estavam bem penteados, as roupas não eram tão diferentes do que realmente costumava usar; uma blusa de uma banda de rock, um short jeans curto por cima de uma meia calça e o all star de cano médio. Jullie seria uma eterna adolescente. Mas, bem, era o que aparentava ser. Ninguém daria vinte e sete anos para aquela mulher.
Ninguém.
— Não lembro de ter pedido uma segunda chance — ele murmurou, acendendo outro cigarro.
Jullie revirou os olhos e abaixou as pernas, debruçando-se sobre a mesa em seguida para pegar o cigarro já aceso da mão de Apolo. Levou-o até os lábios e tragou-o tranquilamente enquanto largava o corpo sobre a mesa, ignorando os papéis embaixo de seu corpo.
— Você praticamente implorou para que eu voltasse para dentro do restaurante, meu amor — ela piscou um dos olhos. — Você me quer por perto de qualquer forma — ela piscou os olhos. — Você não me esqueceu completamente...
— E você também não me esqueceu, pelo visto — ele murmurou, dando uma risada fraca e pegando o cigarro da mão dela. — O que quer aqui?
— Em algum momento eu já disse que esqueci você, Apolo? — ela perguntou, sentando-se na mesa e observando-o tragar o cigarro. — Que eu me lembre, não. O que eu cheguei a dizer com todas as letras foi: preciso ir embora. Não foi nem um "quero ir embora" ou "te esqueci completamente e agora ‘tô me mandando". Me lembro bem, homem... — Ela sorriu de uma forma angelical e pegou o cigarro de novo, tragando-o profundamente e se aproximando de Apolo para soltar a fumaça em seu rosto, sem quebrar o contato visual.
— Você se acha tão esperta... — ele murmurou pegando o cigarro de volta e tragando-o com tanta intensidade quanto Jullie — Mas, sabe, querida... — ele se aproximou e assoprou a fumaça lentamente entre os lábios entreabertos de Jullie — Você não é. Me diz o que você quer e ficamos em paz. Podemos arrancar nossas roupas e matar as saudades, rolar por aqui ou ali, derrubar os papéis da minha mesa como nos velhos tempos...
Jullie riu.
— Você é tão idiota — ela revirou os olhos. — Não merece o nome que tem, sabia? Apolo era um Deus tão belo, considerado único. E você aí... achando que ainda me conhece, que sabe de alguma coisa. Vamos crescer, Apolo. Encarar os fatos de verdade. Mas eu gostei das suas ideias. Se você parasse de desconfiar de mim... — Ela fez uma pausa e se aproximou dele, brincando com os botões de sua camisa — Poderíamos pular direto para a parte de matarmos as saudades e rolar por aí... mas parece que alguém por aqui não quer nada disso, quer continuar brincando de desconfianças idiotas, sendo que eu que deveria estar fazendo toda essa ceninha.
— É o que você quer, Jullie? Que eu pare de enrolar e parta para a ação? — ele perguntou firme e Jullie sorriu. Atingira o ponto que queria. — É o que realmente quer?
— Acho que você já deveria ter feito isso há muito tempo, Apolo... — ela murmurou revirando os olhos.
— Então vamos parar de enrolação agora — ele disse firme, puxando a camisa para os lados de uma vez, sem se importar com os botões arrebentando. Jullie sentiu seu coração acelerar e a respiração falhar. Céus! Apolo era o homem mais lindo que já vira. — Vamos ver se ainda temos a mesma magia, querida.
Apolo não dera tempo para Jullie responder, apenas puxou-a pela nuca e juntou seus lábios num beijo intenso. Era o que ambos queriam. Agora, o porquê da enrolação, não sabiam responder.
Jullie, não querendo ficar para trás, puxou a própria blusa para cima e jogou-a o mais longe que conseguiu, colando seu corpo ao de Apolo em seguida.
— Céus... — ela murmurou, mordendo o lábio inferior enquanto ele descia os lábios quentes e macios por seu pescoço. — Já tinha me esquecido como isso é bom...
Apolo riu fraco contra o pescoço da mulher e ergueu o rosto em seguida, fitando-a nos olhos.
— Mentir é feio, Jullie — ele sussurrou, aproximando seus rostos e roçando seus lábios. — É impossível se esquecer de mim.
Jullie sorriu sapeca. Gostava daquelas provocações. Gostava de estar com Apolo. Gostava de toda aquela adrenalina que ele provocava.
— Você é tão cheio de si... — ela murmurou balançando a cabeça negativamente e Apolo permaneceu com o sorriso malicioso nos lábios. — Você deveria parar e lembrar o que causo em você, meu amor. Ou acha que não sei que ainda se pega pensando no meu jeito de te abraçar... ou de te beijar... — ela se aproximou mais, passando as unhas pelo peito descoberto de Apolo. — Eu sei que você se pega pensando em mim antes de dormir, Apolo. Veja, meu bem, é impossível me esquecer também — ela piscou um dos olhos e selou seus lábios de uma forma sensual, fazendo com que Apolo prendesse a respiração.
Aquela mulher era o demônio. Mexia com ele de uma forma que ele jamais imaginara que alguém seria capaz.
— Acho que deixei alguém sem palavras... — Jullie sussurrou enquanto descia os lábios lentamente pelo rosto e pescoço de Apolo, arrepiando-o completamente. — Mas tudo bem... quem precisa de palavras agora?
Apolo suspirou e puxou-a pela nuca, juntando seus lábios de uma vez. Jullie soltou uma risada fraca entre o beijo e segurou-o pelo ombro, cruzando as pernas na cintura dele em seguida. Apolo, então, com uma das mãos, jogou tudo o que estava sobre a mesa no chão, pouco se importando com os documentos que estavam ali. Segurou Jullie por uma das coxas e derrubou-a sobre a mesa, sem parar o beijo. Jullie suspirou e puxou a camisa de Apolo de uma vez por todas, jogando-a longe.
— Isso aqui, querida, você nunca mais vai esquecer. De verdade. E vai implorar por mais — Apolo sussurrou enquanto a fitava nos olhos. — Hoje você só sai daqui se for sem voz, Jullie — ele segurou-a pela nuca e apertou ali, fazendo-a encará-lo. — Vai gritar meu nome até não aguentar mais. Para nunca mais esquecer. Hoje você terá a melhor noite da sua vida, Jullie Alexander.
Jullie sorriu ao sentir o arrepio de desejo correr por todo seu corpo e fitou os olhos de Apolo com uma ponta de desafio.
— Então cala a boca e começa.

LONDRES — INGLATERRA, 21h45min.

Nicholas parou e suspirou. Passou as mãos pelos cabelos e pensou no que estava fazendo. Emma deveria estar surtando atrás dele. Mas... ele... não conseguia voltar para casa. Não conseguia esquecer-se do que ouviu. Não conseguia superar o fato de que todos mentiram para ele a vida inteira. Sentia-se perdido. Sozinho. Desesperado. Com medo. Mas também não voltaria para a casa de . Muito menos para sua. Sua última esperança, no momento, era Colbie. Mas... tinha medo. Medo de encará-la e contar a verdade. Nicholas chegara a um ponto que sentia medo até mesmo de respirar. Sua cabeça trabalhava a mil, seu coração estava apertado e totalmente estraçalhado. Por que tudo aquilo estava acontecendo se ele poderia sentir-se feliz com o que descobrira? Céus! Nem mesmo ele se entendia. Poderia voltar para casa e pedir um abraço de verdade. Mas... não!
Fora tudo uma mentira, uma grande mentira! Não podia voltar para casa. Precisava pensar!
Secou as lágrimas e riu de uma forma debochada. Ele era um idiota. Balançou a cabeça negativamente e voltou a andar o mais rápido que pôde. Não era tão seguro assim andar pela rua àquela hora da noite. Parou em frente à casa e tocou a campainha. Fitou o céu e notou não ter nenhuma estrela. Apenas nuvens escuras e pesadas. Suspirou mais uma vez. Choveria. E ele não teria como voltar para casa, de qualquer forma. Mas ele não se importava, só queria um tempo. Um tempo para pensar no que dissera, um tempo para pensar no que ouvira, um tempo para ele.
— Nicholas? — a voz calma da mãe de Colbie soou em seus ouvidos, fazendo-o encará-la. — Aconteceu alguma coisa?
— Oi, Tia — ele tentou sorrir. — Mais ou menos... Eu posso entrar?
— Claro que pode! — Ela juntou as sobrancelhas, dando espaço para o menino.
— Não vai dizer o que houve?
— A Colbie ainda está acordada? — ele perguntou, fugindo do assunto e tentando não soar grosseiro. — Eu... preciso falar com ela.
— Está, sim... — a mulher o fitou por alguns segundos e suspirou — Não suporto ver você desse jeito, menino. Vamos, me conte o que aconteceu.
— Posso ficar aqui hoje? — ele perguntou, coçando a nuca. — Eu não quero voltar para casa. Só isso.
— Você sabe que pode. Mas eu gostaria de ligar para sua mãe e avisar...
— Não! — Nicholas interrompeu. — Céus, deixa minha mãe fora disso. Eu só quero dormir aqui, tia. Vou embora logo cedo. Eu...
— Foi algo com ela? — a mãe de Colbie perguntou e Nicholas suspirou. — Certo. Colbie está lá em cima. Mas eu ligarei para sua mãe de qualquer forma. Seja lá o motivo disso tudo, ela está preocupada com você. São praticamente dez da noite, Nicholas.
— Desculpe por vir essa hora... — ele abaixou a cabeça e suspirou — É que... tá complicado.
— A Colbie tá lá em cima. Vá conversar com ela — a mulher sorriu. — Fique tranquilo.
Nicholas não respondeu, apenas subiu as escadas o mais rápido que conseguiu. Bateu na porta do quarto de Colbie e esperou a garota gritar para ele entrar, o que não demorou muito.
Um sorriso se abriu nos lábios de Colbie ao ver Nicholas ali, porém, ao notar o semblante triste no rosto do garoto, ele desapareceu.
— O que aconteceu? — ela perguntou, levantando-se da cama num pulo.
Nicholas não respondeu, apenas suspirou e puxou-a para um abraço. Ele precisava daquilo. Precisava do abraço de Colbie, do carinho dela em sua nuca. Precisava da melhor amiga.
— Era tudo uma mentira... — ele sussurrou, afastando-se dela de repente. — Tudo, Colbie! — ele elevou a voz, mas tratou de baixá-la novamente. — Martin, minha mãe, Charlie... — ele bagunçou os cabelos. — Uma grande mentira.
— Senta aqui — Colbie murmurou, puxando-o pela mão. — Agora respira fundo e me conta tudo — ela sorriu fracamente, segurando-o pelo rosto. — Devagar.
Nicholas respirou fundo e, em seguida, murmurou:
— Charlie é meu pai.
Colbie riu nervosamente.
— Certo... — ela engoliu a seco — E como você está se sentindo?
— Perdido — ele fitou o chão. — Eles esconderam de mim a coisa mais importante da minha vida, Colbie.
— Você deveria estar feliz... — ela sussurrou.
— Não consigo. Não dá. Faça as contas, Colbie — ele murmurou. — Tenho 13 anos, mas não sou idiota. Charlie era casado na época. E tinha o David. deixou escapar isso enquanto conversávamos e faz todo sentido...
— Sim, mas... — ela procurou por palavras, mas não conseguia dizer nada. — Veja, dorme aqui e não vai para a aula amanhã, que tal?
— Não acabou — Nicholas voltou a falar. — Eles vão precisar ir para a Itália. Não sei por que e nem quero saber, sinceramente. Sei que ficarão lá por um bom tempo.
— Mais um motivo para você conversar com sua mãe e deixá-la explicar a história toda. Eu tenho certeza que você não quer que sua mãe vá embora sabendo que você está com raiva dela — Colbie o fitou com um sorriso no canto dos lábios. — Ela te ama, Nicholas. E muito! Mães também erram, sabia? Ela é uma pessoa maravilhosa.
— Nunca duvidei do amor dela por mim. Mas, droga, Colbie! — ele exclamou. — Esconder quem é meu pai por tanto tempo? Eu cresci sofrendo achando que não tinha um porque o Martin morreu, eu cresci achando que teria que conviver com um cara que não sabe nada sobre mim na minha casa, mesmo adorando o Charlie, eu cresci achando que não teria um cara para chamar de pai de verdade e jogar futebol ou ir a jogos de qualquer outra coisa. Até porque quem sempre fez isso foi o ! O ! — Nicholas sentiu seus olhos lacrimejarem. — Droga, eu cresci achando que ninguém nunca fosse substituir o Martin. Cresci achando que minha mãe sofria pela perda de um amor de verdade.
— Mas você ama o Charlie! E não tem como alguém substituir o Martin, pessoas não são substituíveis assim — Colbie explicou. — Charlie é o seu pai de verdade, Nicholas! Não vai ser difícil acabar com todos esses seus pensamentos. Eu sei que tá difícil agora, mas é só agora. Logo isso vai passar! Confie em mim, sim? — ela se aproximou dele novamente. — Promete que vai falar com sua mãe amanhã. Só para esclarecer tudo.
— Tanto faz. Eu sei que, agora, tá doendo. E não é pouco.

****

Emma secou as lágrimas e pegou o telefone.
— Alô?
— Emma? Aqui é a Sophie, mãe da Colbie — A mulher do outro lado disse calmamente e Emma respirou fundo.
— Olá! Como vai, Sophie? — Emma forçou animação.
— Vou bem. E nem perguntarei o mesmo para você, já sei a resposta. — Ela riu fracamente e Emma juntou as sobrancelhas. — Olhe, Emma, seja lá o que tenha acontecido entre você e Nicholas, logo vai melhorar. Ele é só um pré-adolescente que não sabe o que sente ainda. Enfim. Estou ligando para avisar que ele está aqui em casa com a Colbie.
— Eu... — Emma tentou falar, mas não conseguiu — Tudo bem. Quer que eu vá buscá-lo?
— Deixe-o aqui, Emma. Descanse e pegue-o amanhã cedo. Ele não parece estar muito bem.
— Certo... eu sei que não está — Emma suspirou mais uma vez. — Obrigada, Sophie. Vou buscá-lo antes de ir para o trabalho. Se ele atrapalhar ou acontecer alguma coisa, me ligue... por favor.
— Fique tranquila, Emma. Ele está seguro — Sophie murmurou e Emma pôde jurar que ela estava sorrindo. Colbie tinha a quem puxar na doçura. — E... olhe, querida, se precisar de alguém para conversar, eu estou aqui, tudo bem? Agora vá dormir, imagino o quão cansativo seu dia deve ter sido. Cuide-se, Emma.
— Obrigada, Sophie. Boa noite.
Emma largou o telefone de qualquer jeito e encolheu-se mais no sofá.
Sentia-se tão culpada. Era tanta culpa que mal conseguia respirar. Sentia-se sufocada ao extremo. Tudo o que mais queria era proteger seu filho, seu pequeno, seu garoto. E fizera totalmente o contrário em esconder aquilo. Tudo por medo. Medo de acontecer exatamente o que estava acontecendo.
— Emma... — Charlie murmurou e ela encolheu-se mais. — Vamos dormir.
— Não estou com sono — ela murmurou de volta, tentando manter-se firme. — Pode ir.
— Ei, estou tão triste quanto você. Não queria que ele soubesse assim — Charlie se sentou no sofá e puxou o corpo de Emma em sua direção. — Mas vamos dar um tempo para ele. Ele precisa. Não é fácil, Emma. Não depois de tudo o que ele pensou e sentiu achando que era filho do Martin.
— Eu sei, mas... — Emma suspirou — Ele conviveu tanto, tanto com vocês que ele tem um pouquinho de cada um, sabe? Ele tem o gênio do e o seu jeito. Se formos juntar tudo isso, Charlie, ele realmente está chateado e eu não quero nem imaginar como será essa maldita conversa que teremos que ter com ele! — Emma se sentou para fitar Charlie. — Ele deve estar desesperado. Confuso. Perdido. O meu menino não sabe lidar com essas coisas!
— Ele vai ter que lidar, Emma — Charlie segurou-a pelo rosto. — Pare de achar que o Nicholas é um garotinho bobinho, porque ele não é. Ele é muito mais do que isso. Deixe-o descansar e pensar. Ele tá precisando de um tempo. Não importa o jeito dele. Ele vai ter que lidar com tudo isso. Querendo ou não. Agora vamos dormir. Está acabando comigo tendo que te ver assim.
— Eu só queria que nada disso acontecesse — Emma murmurou, suspirando em seguida. — Eu não quero nem imaginar o que o Nicholas está pensando de mim agora. Ele não é burro... Vai reparar a idade dele e...
— Ei! Pare de pensar nessas coisas, pare de se torturar! — Charlie se aproximou dela, selando seus lábios por alguns segundos. — Aconteça o que acontecer, vou estar aqui com você, meu amor.
— Eu sei, Charlie! — ela fechou os olhos com força. — Mas é difícil. Muito, muito difícil.
— Ninguém disse que seria fácil — ele sussurrou. — Vamos lá, cabeça erguida. Vamos enfrentar isso juntos, sim?
Emma apenas suspirou. Charlie estava certo. Se culpar daquela forma não a levaria a lugar algum.
Com Charlie segurando-a firmemente a mão, Emma fora para o quarto.
Deitaram-se na cama e conversaram algo sobre o trabalho para distrair. Mas não adiantou muito. Charlie estava tão tenso quanto Emma, tão triste e magoado quanto ela.
Enquanto pensava no que estava acontecendo e fazia carinho nos cabelos de Emma — que já dormia —, Charlie deixou a inconsciência tomar conta de si.

****

Nicholas se levantou e caminhou até o banheiro. Sentia-se extremamente cansado. Não dormira nada na noite anterior.
Lavou o rosto e, depois, desceu as escadas em direção a cozinha. Sophie havia deixado café da manhã para ele antes de sair. Ela o conhecia tão bem quanto Colbie. Sabia que ele enrolaria o máximo que pudesse para ir para casa.
Comeu devagar, lavou o que sujou e respirou o mais fundo que pôde antes de sair. Trancou a casa do jeito que Colbie lhe explicara e guardou a chave na janela dos fundos. Por fim, saiu a caminho de casa. Com coração acelerado e apertado. Com o medo tomando cada partezinha de seu corpo, com o desespero subindo à cabeça. Mas foi. Era sua casa. Eram seus pais. Ele não deveria sentir medo. Ou talvez devesse pelo que fizera. Mas não se arrependia. Aliás, eles deveriam se arrepender de algo, certo? Não ele! Ele era a vítima de tudo. Não merecia nada daquilo. Sempre fora um bom filho e crescera aprendendo que mentir era a pior coisa que alguém poderia fazer. Emma sempre lhe ensinara que a mentira machuca, faz mal, estraga amizades e até mesmo casamentos. Mas por que diabos ela e Charlie mentiram para ele? A hipocrisia era tanta que Nicholas nem sequer sentia vontade de ouvir a versão deles. Ao notar que já estava em frente sua casa, Nicholas revirou os olhos e respirou fundo. Chegara até mesmo pensar em dar meia volta e sair dali. Mas sabia que não seria justo com ninguém. Além do mais, prometera à Colbie que iria em casa para pelo menos tentar resolver e entender tudo aquilo. Sabia que sua mãe merecia. Por mais magoado que estivesse, ela merecia a chance de se explicar. Mesmo que ele não fosse acreditar em nada. Ele sabia que não acreditaria. Tinha certeza absoluta que só estava indo até em casa para mostrar à Colbie que ele conseguia fazer aquilo, que era forte para lidar com toda aquela merda.
Nicholas abriu a porta e passou pela sala sem se importar se Charlie estava ali ou não. Sua intenção era ir direto para o quarto. Sabia que era covarde o suficiente para desistir de toda aquela conversa na hora. Entretanto, sabia que Charlie o faria ficar ali. E ele acabaria ficando porque é um idiota covarde que não consegue sequer se impor e mostrar que está magoado.
— Nicholas! — Charlie chamou quando ele já estava nas escadas.
Em alguns segundos, Emma também estava na sala, encarando-o de uma forma tão triste que no mesmo momento ele sentira vontade de correr até ela e abraçá-la para sempre. Detestava ver a mulher que mais amava no mundo naquele estado. Mas ele não estava tão diferente. Estava com tantas olheiras quanto ela, com o rosto tão inchado quanto o dela, com os olhos tão vermelhos quanto os dela. Ali Nicholas pôde notar todas as semelhanças que tinha com a mãe. Ele era praticamente uma cópia masculina de Emma, o que ele tinha de Charlie eram apenas manias. Manias que ele pensava que havia ganhado por causa da convivência. Enquanto Emma sabia que não era verdade.
— O que foi? — Nicholas perguntou tentando manter-se tranquilo e não demonstrar a tristeza que sentia. — Dormi na casa da Colbie. Sophie ligou avisando. Vou subir para me trocar e ir para o curso daqui a pouco.
— Você não vai a lugar algum — Charlie disse firme. — Você vai sentar aqui e nos escutar.
Nicholas riu fracamente.
— Vamos nos poupar disso tudo, Charlie. Por favor — ele revirou os olhos. — Estou com dor de cabeça. Podemos ter a conversinha de família feliz depois. Vocês já adiaram tanto, que diferença faz agora?
— Não fale assim, Nicholas... — Emma pediu com a voz baixa. — Estamos preocupados com você. Queremos abrir o jogo e te explicar as coisas. Não comece a agir como um garoto mimado. Você não é um. Não educamos você assim. Por que isso agora?
— Porque você escondeu de mim quem era meu pai de verdade a vida inteira? — ele rebateu, em tom de pergunta, como se fosse óbvio. — Vocês falam como se eu não me importasse! Como se eu não sentisse dor ou não estivesse magoado. Eu era o moleque mais feliz do mundo ontem porque havia beijado a garota que eu arrisco a dizer que é a primeira que me apaixono, até chegar em casa e descobrir que meu pai sempre esteve comigo, mas nunca agiu como tal!
— Eu sempre te dei tudo o que você precisou, Nicholas! — Charlie se meteu. — Até mesmo antes de descobrir que era seu pai!
— Mas se fosse para fazer escolhas você escolheria o David, Charlie! — Nicholas gritou. — Você não entende? Tudo o que eu sempre quis na vida foi viver com um pai. Mas sabendo que ele era meu de verdade e não que estava só namorando a minha mãe e brincava comigo na esperança de esquecer do filho que perdeu. Eu queria um pai de verdade. Sempre me imaginei brincando com Martin sem nem ao menos tê-lo conhecido! Sempre imaginei eu contando para os meus amigos que meu pai me levava em jogos de futebol ou em qualquer outro esporte. Mas quem sempre fez esse papel foi o . E eu nunca me importei. Nunca me importei porque achei que meu pai de verdade estava morto — Nicholas fez uma pausa para engolir as lágrimas. — Vocês têm certeza que só vocês sentem com tudo isso?
— Em nenhum momento dissemos que você não sente nada com isso, filho — Emma murmurou, se aproximando do garoto. — Foi um erro esconder isso de você. Sim, nós sabemos. Mas, por favor, por favor... Não fique assim. Olhe só, podemos recuperar o tempo perdido ou sei lá. Eu...
— Para, mãe! — Nicholas pediu, deixando as lágrimas caírem de uma vez. — Para de agir assim! Eu não sou um bebê que vocês falam qualquer coisinha e tudo passa! Eu só... Quero um tempo.
— Por favor, Nicholas... — Emma murmurou, com os olhos lacrimejando. — Será que podemos conversar com mais calma? Tome um banho, coma alguma coisa e aí nós conversamos.
— Conversar o quê, mãe? — ele perguntou. — Eu não quero ouvir a história de vocês. Eu não quero saber. É o que vocês sempre dizem: uma hora isso passa. Tem que passar. Ninguém fica nesse estado para sempre.
— Você deveria nos dar uma chance, Nicholas — Charlie murmurou. — Quando sua mãe me disse que você era meu filho eu não soube como agir no começo. Fiquei tão perturbado quanto você está agora. Mas, depois que a ficha caiu, eu fiquei tão feliz! — ele sorriu levemente. — E, não, eu não te vi como uma forma de substituir o David. Pessoas são insubstituíveis, Nicholas. Ninguém nunca tomará o lugar do David, assim como ninguém tomará o seu.
— Quando vocês vão para a Itália? — Nicholas perguntou num fio de voz e Emma mexeu nos cabelos nervosamente.
— Daqui a três dias — Charlie respondeu baixo.
Nicholas riu e balançou a cabeça negativamente.
— Quanto tempo ficarão por lá?
— Não sabemos ao certo — foi a vez de Emma responder. — Pensamos em levar você, mas é realmente perigoso. Então...
— Eu não quero ir — ele deu de ombros. — Nunca gostei de me meter nos trabalhos de vocês. Eu vou ficar com a minha avó?
— Provavelmente — Emma respondeu num fio de voz. Estava tão nervosa, sentia tanto medo de Nicholas pedir para... Ficar de vez com a avó. Pelo menos por uns tempos.
— Eu vou subir. — Nicholas disse firme.
— Nicholas, por favor! — Charlie exclamou. — Não... Não faz isso. Fique aqui. Vamos conversar.
— Eu não quero entender o lado de vocês agora — ele deu de ombros. — Eu só quero um tempo. É pedir demais? Vocês demoraram treze anos para me deixar ouvir a verdade. Agora sou eu quem não quero ouvi-la. Só... Me deixem em paz. Pelo menos hoje.
Após dizer isso, Nicholas saiu da sala. Depois, Emma e Charlie só puderam ouvir a porta do quarto bater.


Capítulo 5

I NEED YOUR SWAY.


Elizabeth sorriu para de uma forma amigável.
— Isso está ficando realmente ótimo! — exclamou, dando um gole no café que tinha em mãos. — Não sabia que tinha passado por tantas coisas assim, Elizabeth.
— Há muitas coisas que não sabe sobre mim ainda, — ela sorriu mais fracamente. — Durante o tempo que resolvia as coisas com e Castellamare, por exemplo, eu precisei ir para o interior pois eles estavam atrás de mim, assim como Crowley — ela fitou a outra mulher. — Desapareci porque achei que fosse justo com vocês dois. Eu não sabia e muito menos imaginava, de verdade, que Castellamare iria atrás de você caso não me encontrasse.
— Eu... Sei — abaixou levemente a cabeça. — Mas por que, exatamente, eles queriam você?
— Eu sabia de tudo nos mínimos detalhes depois que Crowley me procurou — Elizabeth bebericou seu café, já frio. — Juntei meus pontos, procurei em seguida e contei o que tinha. Prometi a ele e Eric que mandaria informações, pois estaria trabalhando em tudo aquilo mesmo de longe. Foi o que fiz. Alertei a sobre você e Crowley, contei também que se Eric não sumisse, morreria. Procurei por Claire, por incrível que pareça. Contei a ela as minhas intenções. A garota é gente boa — Elizabeth sorriu. — Me disse o que sabia e eu tentei procurar o lugar onde eles costumavam ficar. Mas sozinha não tinha condições. Novamente, passei as coordenadas para Eric, que informou ao Jesse e ao . E aí deu naquela confusão toda. Mas isso só foi porque te pegaram e não teve paciência de esperar. Sabe como ele é, certo? — ela piscou um dos olhos. — Ele estava tonto e preso. Não sabia se havia sido por sua causa ou se havia sido por culpa dele próprio. Talvez fosse um bocado de cada coisa, talvez tudo não passava de uma armação do maldito do .
matou a Owen — sussurrou. — Talvez não tenha sido tudo totalmente culpa do , por mais que a morte da Mangor tenha sido culpa da grande influência de Richard por aqui.
— Talvez. Mas, veja, , é um coração mole! — Elizabeth riu. — Acredite, tem muito mais coisa aí que eles não contam. Garanto. jamais mataria uma pessoa só porque teve ordens superiores... Digo, talvez até mataria. Mas precisariam oferecer uma boa quantia em dinheiro vivo e ter um bom motivo para isso.
— Mas por que esconderiam algo de nós? — perguntou, fitando a morena à sua frente.
— Porque somos jornalistas. Querendo ou não, publicaríamos, . Faríamos o que estamos fazendo agora — Elizabeth fez uma pausa e continuou após uns segundos: — Nos juntaríamos com o que tínhamos e escreveríamos loucamente, apenas modificando os nomes e dando um ar fictício na coisa toda. Eles jamais abririam a boca. Mas, veja, mulher, não digo para você desconfiar de ou Charlie ou qualquer um daquele lugar. Pelo contrário! Se eles não contam, é porque nos querem fora dessa podridão toda. E agradeça por isso.
— Sim, é... — suspirou. — Já parei para pensar em todas as coisas que eles escondem e cheguei à mesma conclusão.
— Não vamos nos preocupar com isso agora — Elizabeth abriu mais o sorriso. — Voltemos aos rascunhos. O que tem escrito?
abriu um sorriso automaticamente e puxou uma pasta da bolsa que estava na cadeira ao lado. Entregou-a nas mãos de Elizabeth e esperou a mulher ler — por alto — toda aquela papelada.
— Os rascunhos não estão tão bem explicados assim... — murmurou — Eu só anotei as coisas para não esque... — parou de falar rapidamente ao observar um homem que acabava de adentrar a lanchonete. Juntou as sobrancelhas e olhou em volta. — Precisamos sair daqui — ela sussurrou, puxando a pasta das mãos de Elizabeth e jogando-a dentro da bolsa novamente, mas com cuidado para não chamar atenção alheia.
— O que houve? — Elizabeth perguntou enquanto pegava o dinheiro da carteira e colocava sobre a mesa.
— Não dá para explicar, só precisamos sair daqui — jogou o dinheiro sobre a mesa de qualquer jeito e se levantou. Olhou em volta novamente antes de caminhar até a saída da lanchonete e engoliu a seco. — Não tem ninguém conhecido e importante por aqui, isso quer dizer que...
— O que diabos está acontecendo, ?! — Elizabeth perguntou mais alto do que deveria e respirou fundo, olhando para o homem que acabava de entrar, certificando-se de que ele não ouvira seu nome.
— Não grite! — ela exclamou baixo e saiu da lanchonete, com Elizabeth em seu encalço. — O homem que acabou de entrar — apontou pelo vidro. — Ele se encaixa perfeitamente na descrição de Louise deu para o assassino de Mike Cromwell. De acordo com Charlie, é um dos caras que foram atrás do quando o Christopher mandou, lembra?
— Sim — Elizabeth murmurou. — Mas por que ele viria para cá?
— Não faço ideia, mas não ficaria no mesmo ambiente que ele nem se me pagassem. Não tem ninguém importante ali dentro, Elizabeth. Esse tipo de gente só vai em lugares que são mandados... Para matar — engoliu a seco. — Não tem ninguém ali dentro que tem envolvimento com tráfico ou qualquer coisa assim.
— De "grande importância" — Elizabeth fez aspas com os dedos — ali dentro, no caso, seria...
— Nós duas — a cortou. — Vou ligar para o .
— Faça isso, porque nosso mais novo amiguinho parece estar sentindo nossa falta lá dentro... — Elizabeth murmurou enquanto puxava pelo braço para o outro lado da rua.
Elizabeth ficou apenas observando tudo em volta enquanto murmurava coisas rápidas para pelo celular. Um ônibus passou na rua, impedindo a visão de Elizabeth para a lanchonete por alguns segundos. Como se tudo ficasse em câmera lenta, o ônibus fora saindo devagar, deixando-a observar tudo da mesma forma que antes. Com apenas um porém: o homem de quem elas desconfiavam estava parado na porta da lanchonete com um sorriso no canto dos lábios, encarando-a nos olhos. Elizabeth engoliu a seco e sentiu seu coração acelerar. Virou-se para e, sem se importar com o que pensaria, puxou o celular.
, se eu fosse você, voava para cá AGORA! — Ela disse firme, deixando confusa, até ela fitar o outro lado da rua e ver o homem dando passos rápidos para atravessar. — E eu falo sério. Porque vamos correr bastante agora.
Elizabeth desligou o celular e virou-se para , dizendo firmemente:
— Se esse desgraçado realmente quiser nos matar, ele vai começar a correr dentro de dez segundos. Você quer esperar isso para ter certeza ou podemos sair daqui agora? Porque, sinceramente, eu acho que...
— Abaixa! — gritou, puxando Elizabeth para baixo, ao notar que o homem já tinha a arma em mãos e apertava o gatilho sem se importar. — Eu acho melhor corrermos agora. Quanto mais perto da delegacia, melhor.
Gritos ecoavam por toda a rua enquanto as duas mulheres corriam desesperadamente, olhando para trás vez ou outra para terem certeza que o homem ainda estava atrás delas. Mais dois tiros foram ouvidos. Aquilo fora o suficiente para entrar em um beco qualquer que ela nem sequer sabia que existia e muito menos se havia alguma saída dele ou não. Seu celular tocava loucamente, mas ela não tinha cabeça para atender. E tudo só piorou ao olhar para o lado e não encontrar Elizabeth. O desespero tomou conta de seu corpo, fazendo-a arregalar os olhos. Medo. Ela sentia medo. Não sabia o que diabos estava acontecendo, não sabia quem estava atrás dela, não sabia como Elizabeth sumira, não aparecia... Por fim, decidiu atender o celular.
Tentou murmurar pelo menos um "alô", mas a voz de do outro lado da linha a fez ficar calada. Ele gritava desesperadamente com alguém da delegacia por, provavelmente, essa pessoa não fazer o que ele queria. Estava desesperado. podia notar aquilo em sua voz. Sorriu fracamente e murmurou, para ver se, assim, ele se acalmava:
— Estou bem.
— Pensei que não atenderia isso nunca! — gritou, mas respirou fundo em seguida. — Onde vocês estão?
— Eu simplesmente corri, . Mas pelo que vi, estou a duas quadras do prédio. Elizabeth não está mais comigo — ela suspirou. — Eu não sei o que aconteceu, eu simplesmente corri e achei que ela estava comigo — sentiu seus olhos lacrimejarem. — Se vocês puderem vir nos...
não conseguiu terminar sua frase. Mais um tiro ecoara ali por perto. Ela, então, sem se importar com nada, jogou o celular na bolsa de qualquer jeito e saiu do beco onde estava, tentando seguir o barulho. Ao enxergar a rua novamente, olhou em volta, sem se importar se estaria exposta. Elizabeth. Ela queria saber de Elizabeth.
sentiu alguém puxar seu braço e não evitou gritar. E gritou até notar que estava caída no chão de um restaurante pequeno dali.
— Shhh — Elizabeth pediu baixo. — Droga, mulher, não grite!
— Desculpe! Mas onde diabos você... — não finalizou sua frase, apenas arregalou os olhos ao fitar Elizabeth e ver sua blusa, antes branca, suja de sangue. — Você foi baleada? Céus! Precisamos ir a um hospital!
— Shh, se acalme! — Elizabeth exclamou. — Está tudo bem. Foi de raspão. Nada sério. Eles me ajudaram — ela apontou para trás, onde dois homens tentavam acalmar as pessoas dentro do restaurante. — Só precisamos dar um jeito de sair daqui. Ele quer você.
— Mas você está ferida — murmurou. — Temos que ir logo.
— O está vindo? — Elizabeth perguntou, se levantando devagar e colocando a mão esquerda próximo às costelas. apenas concordou com a cabeça. — Então vamos nos encontrar com ele.
— Melhor ficar aqui, Elizabeth. Eu encontro com o disse firme, parando na frente de Elizabeth.
Elizabeth revirou os olhos e bufou.
— Não vou ficar aqui, se é o que está sugerindo — ela murmurou. — Agora ande logo, . Vamos sair daqui.

***

bateu a porta do carro com força. Os sons de tiros e a voz desesperada de não saíam de sua cabeça, deixando-o totalmente atordoado. Queria pegar o desgraçado que estava causando a desordem e o desespero naquele lugar novamente. E quando o pegasse não teria pena e muito menos pensaria duas vezes antes de matá-lo ou dar-lhe uns belos socos na cara.
pisou no acelerador e fez uma curva, estava tão perdido em pensamentos que nem sequer notara que já estava próximo de onde indicara, com outros dois carros atrás dele. Provavelmente Charlie e seu reforço. parou o carro e desceu do mesmo já com a arma em mãos. O local estava um caos, uma loucura. Pessoas gritavam e se escondiam em lojas, crianças choravam desesperadamente.
— Cuide das pessoas, eu vou achar a disse firme para Charlie assim que ele se aproximou. Puxou o celular do bolso e levou-o até a orelha, enquanto, com os olhos atentos, procurava ou Elizabeth.
— Oi. — A voz de soou baixa e um tanto quanto assustada ao atender o celular.
— Onde vocês estão? — ele perguntou ainda atento a olhar cada mínimo detalhe daquele local.
— Estamos metidas no meio de uma multidão tentando chegar até onde você está. Fique parado, por favor. Elizabeth está ferida. Estamos tentando chegar aí.
— Ele já foi embora? — perguntou baixo, correndo os olhos pela rua com mais atenção.
— Não sei. Não o vejo por aqui.
— Não demorem. Por favor, não demorem. — murmurou, sentindo sua garganta fechar. Só de pensar em perder seu coração acelerava dolorosamente. Só de vê-la em perigo mais uma vez, o desespero tomava conta de seu corpo.
Respirou o mais fundo que conseguiu e guardou o celular no bolso. Ficou ali por mais alguns segundos observando as pessoas saírem devagar, se acalmando aos poucos. Alguns segundos depois, pôde enxergar e Elizabeth. Elizabeth andava um pouco devagar enquanto segurava a lateral do corpo; , vez ou outra, olhava para trás e tentava dar apoio à Elizabeth, que revirava os olhos. tinha quase certeza que ela murmurava: "eu não sou uma criança, !", isso era típico de Elizabeth. Ainda mais ferida.
riu e balançou a cabeça negativamente. Olhou em volta e caminhou devagar na direção das mulheres, mas parou automaticamente ao notar algo brilhante até demais para seu gosto atrás delas. Não estava extremamente perto, mas também não estava tão longe assim. Quem quer que estivesse segurando aquele revólver se garantia e não se importava de trabalhar em público. Nem com policiais por toda parte.
O homem armado, então, decidiu sair das sombras. E saiu com um sorriso no rosto. sentiu seu sangue ferver e tentou não entrar naquele maldito joguinho, mas estava com medo. Medo de ser ferida, medo de perdê-la, medo por Elizabeth que já estava machucada. Medo. Simplesmente medo.
Em tanto tempo de trabalho ele nunca sentiu um desespero como estava sentindo naquele momento. Claro que o dia que seu pai morrera não conta.
Respirou fundo, pensou. Tocou sua arma na parte de trás da calça, suspirou.
Encarou os olhos de como se implorasse para que ela continuasse andando. Ela sorriu para ele, angelicalmente. Achando que estava segura.
fez um sinal mínimo com as mãos, para que ela parasse de andar.
Elizabeth entendeu e parou subitamente. não entendera bem, apenas franziu o cenho, encarando a mais nova amiga com os olhos confusos.
segurou firmemente a arma atrás de si. Engoliu a seco e desistiu de pensar em algo melhor para fazer. Não havia nada que ele pudesse fazer que não arriscasse a todos. Se ele ao menos conseguisse chamar atenção somente para si... Mas era basicamente impossível.
O homem, do outro lado, sorriu novamente sem se importar de mostrar seu rosto. Engatilhou a arma e mirou-a exatamente em . Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, o grito de cortou todo o local:
, cuidado!
Automaticamente, o homem apertou o gatilho. De repente, tudo ficou em câmera lenta. Os olhos de se arregalaram, deixou os lábios entreabertos em puro desespero, o barulho do tiro cortou todo o local, causando toda a desordem de antes. Pessoas corriam, gritavam, totalmente desesperadas, desoladas. Quando observou novamente, ela e Elizabeth estavam no chão com um outro homem por perto.
não parou para pensar no que estava acontecendo. estava bem e Elizabeth não fora atingida de novo. Com tudo à sua velocidade normal, não pensou duas vezes antes de disparar a correr loucamente em direção ao homem que atirara. Finalmente aquele crápula percebera que não teria chances enquanto ele estivesse por ali e abaixara a arma. Ao perceber que correra em sua direção, não pensou duas vezes, também, antes de sair correndo sem se importar com os carros e ônibus que passavam por ali.
Precisava ser salvo. Não podia ser pego. Não por .
não olhou para os lados, apenas olhava para frente, o maldito atirador corria numa porra de uma linha reta passando entre carros e ônibus. Não que se importasse. Nunca ligara de se arriscar em seu trabalho para salvar quem quer que fosse. Ignorou as buzinas, os gritos revoltados de motoristas que achavam que mandavam em alguma coisa e continuou correndo. Enquanto corria, puxou a arma e deixou-a prontíssima para atirar. O suor começava a escorrer por sua testa, mas ele não parava de correr. As pessoas olhavam a cena assustadas, mas sabiam quem estava correndo e o porquê daquilo. Não precisava ser nenhum gênio para reconhecer e notar que ele estava atrás de um bandido.
corria numa velocidade irreconhecível, nem mesmo ele sabia que tinha tanta velocidade e reflexo para desviar de carros. Entretanto, sua respiração já começava a falhar e seu baço começava a doer, num pedido silencioso de seu organismo para ele parar. Mas obviamente, ele não parou. Apenas correu mais, sem se importar com o ônibus que estava cada vez mais próximo. E ele correu. Mas pôde ouvir um grito conhecido ecoar por seus ouvidos e desnorteá-lo por alguns segundos.
estava ali, seguiu-os mesmo que contra a vontade de todos. Estava ali, observando tudo em câmera lenta. Observando os mínimos detalhes, com o coração na mão.
Não queria que sofresse algo por causa daquele homem. Ao vê-lo atravessar aquela última rua com um ônibus tão próximo dele, seu coração apertou. Doeu. Desesperou-se. Lágrimas automaticamente brotaram em seus olhos, fazendo-a piscar algumas vezes para controlá-las.
E então, foi. Não parou por ouvi-la gritar e simplesmente continuou.
Se ele havia sido atropelado, ela não sabia. Mas sabia que sentia seu coração doer a cada segundo que passava e não tinha mais forças para continuar aquela corrida louca.
— Ei , vai acabar tudo bem — o mesmo homem que a salvara murmurou, dando-lhe um sorriso que ela já conhecia. — Confie em mim. Se o trânsito não parou, o ainda está bem.
— Obrigada, Jeff — sorriu fracamente. — Por tudo. Você foi ótimo hoje. Não esperava te reencontrar dessa forma — ela riu sem jeito, enquanto ajeitava os cabelos que insistiam em voar para todos os lados. — Espero que não tenha se machucado.
— Estou bem — ele sorriu mais uma vez, formando pequenas covinhas em suas bochechas. sempre achou aquilo muito fofo, ele se lembrava bem.
— Enfim. Esqueça isso, mulher! Pelo menos um pouco. Vamos tomar um café? Você precisa respirar, se distrair. Logo o volta com aquele cara preso. Ele é um ótimo policial e você sabe disso.
apenas sorriu e caminhou ao lado de Jeff. Por mais que estivesse com o coração na mão, não poderia ficar ali se afundando em total desespero.
Preferia pensar como Jeff e esperar que voltasse bem. Ele sempre voltava bem. Sempre.

****

parou de correr e respirou o mais fundo que conseguiu. Perdeu o maldito de vista.
Trincou os dentes e xingou alto, sem se importar com as pessoas olhando em volta. Bagunçou os cabelos e tentou se acalmar. Mas porra! Correu aquilo tudo à toa! Para o filho da puta conseguir escapar, fugir, ir embora! Mas que caralhos ele estava pensando quando fora atrás de e Elizabeth? Marginal atrevido! Isso que ele era: atrevido, ousado! Filho da puta! Como se ele fosse sair dessa sem sofrer nada. o pegaria. Ah, se o pegaria. E não seria pegar para prender.
Ainda bufando de raiva, deu meia volta e caminhou o mais rápido que conseguiu de volta para onde todo o caos havia se iniciado. Precisava saber como estava. Precisava abraçá-la, beijá-la. Ou somente olhá-la e receber um sorriso em troca. Alguns minutos depois, pôde avistar o carro com os homens de Charlie parado. Provavelmente ficariam ali para observar o local. suspirou. Mal havia voltado para as ruas e já havia falhado. Ótimo. Agora todos ficariam olhando para ele como se fosse uma aberração. E agora ele se importava com isso.
Aproximou-se de Charlie e, sem esperar nada, perguntou:
— Onde está a ?
Charlie se virou para ele, calmamente.
— Primeiro de tudo: você está bem? — Charlie murmurou. — O que aconteceu? Por que não chamou reforço? Por que não parou quando sentiu que não conseguiria pegá-lo?
revirou os olhos.
— Estou bem, Charlie — ele suspirou. — Não pedi reforços porque não achei que fosse necessário. Em nenhum momento eu senti como se fosse perdê-lo. Foi tudo culpa de uma droga de um carro que decidiu vir na minha direção, quando eu já estava prestes a pular em cima daquele maldito cara.
— A não estava tão bem assim. Você não precisava sair correndo atrás do cara e deixá-la aqui — Charlie o fitou nos olhos. — Às vezes, , há alguém escondido e pronto para fazer aquilo que não fazemos. Você simplesmente deu a costas para a mulher que diz amar por causa de um bandido. Ele escaparia de qualquer forma. Seus capangas estão espalhados por aí. Ou você acha que jogaram o carro em cima de você, como diz, sem querer? Não seja inocente, . Não seja burro — Charlie suspirou e bagunçou os cabelos. — Elizabeth acabou indo ao hospital para levar alguns pontos. Poucos, mas poderia ter sido pior. estava chocada com tudo o que aconteceu, assustadíssima. Por mais que ela não demonstre, , ela sente medo. Ela se assusta. Ela quer você por perto nessas horas. Ela não quer ninguém fazendo isso por você. Ela não quer ver você correndo por aí feito um desesperado só por que acha que deve prender o cara. Aprenda a ter paciência, . É tudo o que eu peço.
— O que quer dizer com tudo isso? — perguntou baixo. Sabia que havia errado em sair feito um louco, mas fora impulso. — Eu não vou mudar meu jeito de trabalhar, Charlie.
— Eu quero dizer que a está dentro daquela lanchonete — Charlie apontou —, com um tal de Jeff desde a hora que ele simplesmente pulou em cima dela e da Elizabeth para salvá-las. E quando você saiu correndo, a foi atrás. Adivinha quem foi junto para dar força à antiga colega de trabalho? Por favor, , por favor — o mais velho revirou os olhos. — Não estou querendo colocar nada na sua cabeça. Mas sei exatamente como você é. Controle seus impulsos e evite estresses.
— Jeff? Jeff Grant? A está com Jeff Grant? — perguntou enquanto estreitava os olhos, apontando para o lado. — Eu odeio esse cara, que inferno... Me admira você não lembrar dele, Charlie. É o pai da melhor amiga do seu filho.
— Ah. Esse Jeff? Não o reconheci — Charlie revirou olhos. — De qualquer forma, boa sorte. está um pouco chateada.
não respondeu, só respirou o mais fundo que pôde e caminhou em passos largos e rápidos até onde estava. Abriu a porta da lanchonete sem se importar em ser educado ou delicado. Queria mais é poder quebrar aquela porta para não quebrar a cara de Jeff. Se ele fizesse isso, por mais que fosse um policial, se complicaria. Pela primeira vez na vida estava parando para pensar antes de socar alguém. Ele e Jeff tinham problemas há alguns anos por conta de alguns problemas de trabalho. Era incrível como conseguia arrumar briga com todos os jornalistas da cidade. Já havia batido boca com Jeff inúmeras vezes em coletivas de imprensa por conta das perguntas peculiares e desnecessárias do outro. Jeff era insuportável, sentia muito por Colbie, uma garota tão doce, ser filha de um homem como ele.
tinha certeza que Jeff não era o homem bonzinho que tentava parecer que era.
Assim que avistou , ela estava sorrindo. Sorrindo para o maldito Jeff Grant. Tentou sentir ciúmes, mas tudo o que conseguiu sentir foi felicidade e alívio. estava bem, viva, saudável e linda, mesmo com a calça jeans levemente suja de poeira e o casaco rasgado no cotovelo. era uma mulher fora do comum, fora do normal. não sabia lidar com ela. Não sabia lidar nem consigo mesmo, imagine com uma mulher daquelas?! Era um idiota apaixonado, no fim das contas.
Ao se aproximar da mesa, imediatamente fechou seu sorriso e Jeff segurou a respiração. Não esperavam que chegasse naquele momento, e sabiam que uma confusão desnecessária poderia se instalar ali simplesmente por ambos os homens não se darem bem. Porém, daquela vez, a intenção de Jeff fora apenas dar um café à para acalmá-la e ir embora. Mas engataram uma conversa sobre o antigo trabalho e esqueceram totalmente dos problemas ao redor.
— Você está bem, ? — perguntou baixo, enquanto fitava a mulher. Estava enciumado, mas tentava não demonstrar isso. Jeff não merecia sua insegurança.
— Estou — respondeu, por fim.
— Certo, quando terminar aí, me procure. Precisamos conversar, sim? — murmurou tentando não demonstrar nervosismo. Curvou-se em direção a e beijou-lhe a testa com carinho, suspirando contra sua pele ao sentir que aquilo era real, que ela estava ali, viva, sob seus lábios.
— Não precisa sentir ciúmes, — a voz de Jeff Grant adentrou seus ouvidos. não o encarava, mas sabia que ele sorria de forma provocativa, querendo atingi-lo de alguma forma, como se quisesse vê-lo enfurecido e fora de controle como sempre acontecia quando estavam juntos. — Vai dizer que não sentiu minha falta?
— Te espero na delegacia, murmurou, ignorando a tensão e a raiva que se instalava no local.
virou-se de costas e preparou-se para caminhar, esperando pelo menos um "! Espera!" de . Porém não veio. Quem o chamara para falar algo, fora Jeff. E não gostou do que ouvira. Nem um pouco.
— Não vai agradecer por eu ter salvo a vida da sua namorada? — Jeff levantou o dedo indicador e se virou para ele. — Se dependesse de você, a não estaria aqui.
— Jeff, pare com isso! — pediu, mas não tivera tempo de dizer mais nada além daquilo. No segundo seguinte, já o segurava pelo colarinho com as narinas infladas e os olhos estreitos em puro ódio.
— Não se atreva a insinuar que não protejo a mulher que amo, Jeff — apertou-o mais contra a cadeira. — Não se atreva. Você não me conhece, não sabe do que sou capaz de fazer por ela. Não entre no meu caminho outra vez, está ouvindo? Não me importo com a dezena de processos que pode jogar em mim caso eu aja de forma violenta com você de novo. Pare de me provocar.
estava ao lado de , já de pé. Pedira tanto, tanto para Jeff não arrumar confusão. Estava cansada de tudo aquilo.
, por favor, para — murmurou, segurando-o pelos ombros. — Todos estão olhando. Vamos embora.
— Diga mais uma merda dessas e eu quebro sua cara, Grant. De verdade. — respondeu sem se importar se sua voz soara mais alto que o normal. Em seguida, o soltou e saiu andando em passos largos sem sequer esperar por que ainda perdera tempo lançando um olhar irritado para Jeff, fazendo-o abrir mais seu sorriso.
, espera! — disse alto assim que ele atravessou a porta da lanchonete.
tinha o rosto vermelho.
— Homens como ele não são confiáveis... Céus, com tantas pessoas nessa cidade justo ele tinha que intervir? Que inferno! Só de olhar para ele eu sinto ódio.
— Ele não me faria mal em público, sem contar que trabalhos juntos por muito tempo. Eu quero saber como você está — sussurrou, fitando-o nos olhos. — Fiquei tão preocupada ao vê-lo sair correndo... — aproximou-se e segurou-o pelo rosto com carinho. — Eu te amo, não faça isso comigo outra vez.
— Desculpe... — suspirou e puxou-a para mais perto, abraçando-a com carinho. — Eu não sei o que faria se algo te acontecesse...
não quis ouvir o que tinha a dizer, muito menos se lembrou que estavam na rua, e puxou-o pela nuca para juntar seus lábios num beijo repleto de vontade e alívio. Estava sentindo falta daquele contato com . Estava com medo de nunca mais conseguir aquilo desde o momento em que ele saíra correndo feito um louco atrás daquele maldito cara.
se afastou levemente de após um tempo e encarou-a nos olhos, com um sorriso brincando no canto dos lábios.
— É sério, me desculpe... Por ter te deixado sozinha e por agir assim — ele mordeu o lábio e balançou a cabeça negativamente — Eu também te amo, por isso fiquei cego e quis sair correndo, mas eu devia ter ficado do seu lado e deixar que os outros fizessem o trabalho. Posso te esperar hoje no meu apartamento hoje à noite? Sei que ainda precisará dar seu depoimento e essas coisas demoram, mas... O convite está feito. — Ele sorriu de uma forma sapeca, enquanto mexia com os botões do casaco de , fazendo-a rir e enterrar o rosto em seu pescoço, abraçando-o pela cintura.
— Você não existe, . Não existe — ela murmurou dando uma leve mordida no pescoço de , fazendo-o rir. — E é claro que aceito seu convite. Estou aliviada por você estar aqui comigo, meu amor.
— Também estou aliviado por tê-la em meus braços agora — suspirou. — Enfim, você precisa ir depor logo e eu preciso voltar ao trabalho. Posso lhe dar uma carona até a delegacia se estiver sem carro.
— Eu aceito a carona, não estou confortável para andar por aí sozinha ainda.
— Então, vamos.
E com os dedos entrelaçados suavemente, seguiram juntos em direção ao carro.

****

O dia estava se arrastando, na visão de Nicholas. Estava jogado em um dos quartos da avó enquanto tentava estudar. Mas simplesmente não conseguia se concentrar. Em nada. Absolutamente nada. Sentia falta de poder conversar com abertamente, sentia falta de quando sua mãe não mentia para ele, sentia falta de quando jogava futebol com Charlie, sentia falta de quando podia conversar com Colbie calmamente sem sentir vontade de beijá-la, sentia falta de quando conseguia se concentrar para estudar e ser um perfeito nerd. Sentia falta de quando tinha nove ou dez anos. Ter treze anos realmente é difícil. Crise de pré-adolescente. Uma coisa que ele nunca imaginara que teria.
Sempre achara tão estranho a forma das meninas, por exemplo, de surtarem e agirem aos treze anos. E ele estava se identificando com todas elas por causa de tudo o que vem acontecendo em sua vida. Ele estava se transformando em uma menininha. Não havia outra explicação para aquele turbilhão de sentimentos e medos. Estava se tornando um idiota. Uma completa garotinha boba que não conseguia lidar com seus problemas. ensinara, ensinara e ele não aprendera nada. Estava agindo por impulso, estava sendo um idiota completo com os pais, estava largando tudo por uma rebeldia sem explicação. Descobrira que é filho de Charlie. Isso era para ser uma coisa boa. Mas o revoltara completamente. Mais um motivo para ele se achar uma garotinha. Precisava parar com tudo isso. Precisava seguir em frente. Seus pais iriam para a Itália dentro de poucos dias e ele ainda estava em sua crise existencial.
"Isso não é o fim do mundo", dizia para si mesmo. Tentava convencer-se de que nada daquilo iria estragar sua vida, mudar sua relação com Emma ou com Charlie ou até mesmo com e que sabiam de toda a história. Ele não queria mudar, não queria perder a amizade aquelas pessoas. Não queria sentir nada daquilo, não queria chegar ao ponto de pensar que sentia raiva da mãe.
Um suspiro escapou do fundo da garganta de Nicholas, estava tenso e nem sequer sabia por quê. Passara o dia pensando nessas coisas e estava quase enlouquecendo.
Esticou-se até seu celular e digitou uma mensagem rápida para .
Precisava vê-lo. Conversar, se distrair. era bom naquelas coisas.
Esperava que ele não estivesse trabalhando... Ou fazendo qualquer outra coisa com . Nicholas deu uma risada fraca com seu último pensamento e balançou a cabeça negativamente. Homem realmente ficava um bicho muito idiota quando apaixonado. Ninguém nunca pensara que ficaria nesse estado por alguém. E olhem só. O querido brutamontes da Inglaterra estava perdidamente apaixonado por uma jornalista que ele sempre chamou de idiota e burra (e que, na verdade, era bem mais inteligente do que ele na maioria das vezes). Vai entender o coração...
Quase uma hora se passara e Nicholas sentiu seu celular vibrar. Pegou-o preguiçosamente e tentou ler a mensagem. Pegara no sono enquanto pensava, mal sabia onde estava. Imagine ler com atenção? A única coisa que entendera naquelas letras embaralhadas fora o nome de . Respirou fundo e espreguiçou-se o máximo que pôde. Voltou sua atenção para a mensagem e estreitou os olhos para tentar ler melhor.

"Ei garotão! Me encontre daqui a vinte minutos na praça em frente à casa da sua avó. P.S.: Perdão a demora para responder, estava com a ."

Nicholas soltou uma risada curta ao ler o final da mensagem. Céus, e pareciam coelhos.
Balançou a cabeça negativamente e pegou uma roupa qualquer no guarda roupa. Tomaria um banho para acordar e encontraria .
Alguns minutos depois, Nicholas estava devidamente vestido e os cabelos mais bagunçados que o normal. Precisava cortar essa porcaria ou então ficaria louco. Como diabos esses garotos aguentavam cabelos grandes?
— Vó, vou encontrar o lá na praça! — Nicholas gritou.
— Só não demore, querido! Sua mãe vem para cá daqui uma hora! — A senhora gritou da cozinha.
— Tudo bem! — Nicholas respondeu e abriu a porta, saindo sem esperar uma resposta. Fazia tanto tempo que não dava essas saídas com que estava ansioso. Sentia falta do velho .
Caminhou calmamente até a praça e pôde ver o carro de chegando ao mesmo tempo. Um sorriso brotou nos lábios de Nicholas e ele apertou mais os passos.
— Ei Nicholas! — disse alto enquanto descia do carro. — Como vai?
— Ei! — Nicholas sorriu e passou um dos braços sobre os ombros do menor. — Vou bem, e você?
— Muito bem apesar de ter tido um dia cheio — entortou os lábios, fazendo uma careta e guiou Nicholas até um banco. — Você não me parece bem. Acredito que não me mandaria uma mensagem daquelas se estivesse.
Nicholas sorriu fracamente e deixou o corpo cair sobre o banco.
— Estava com saudades — ele deu de ombros. — E queria pedir desculpas por agir desse jeito esses últimos dias. Nem sequer tenho ido te visitar. A última vez que fui foi para dar um ‘piti’. — riu com o final da frase e balançou a cabeça negativamente.
— Não tem problema. Eu também dei um ‘piti’ hoje — ele piscou um dos olhos.
— São coisas que acontecem, Nicholas. Ninguém é obrigado a estar bem e sorrindo para todos o tempo inteiro. Você é um moleque de treze anos, vai começar a ter seus problemas, crises existenciais e tudo o mais — fez uma careta, arrancando risadas de Nicholas. — Mas falando sério agora... Como você está, rapaz? Sua mãe disse que você não para em casa e, quando para, arruma uma briga com ela ou com Charlie para se trancar no quarto. Sua semana de provas está chegando que eu sei. Não tem que se importar com essas coisas, Nicholas. Estude. Isso ajuda a distrair.
— Eu sinto falta de como as coisas eram antes — Nicholas murmurou. — Não que eu seja velho e saiba o que estou dizendo. Só sinto saudades de poder ir te visitar todos os dias ou então jogar futebol com Charlie depois da escola. Ou então assistir filmes comendo besteiras com minha mãe... — ele suspirou — Eu só não consigo mais aguentar isso tudo. Vocês mentiram para mim a vida inteira. Você sabe como é esse sentimento, .
— Não quero que fique aí se deprimindo por essas coisas — bagunçou os cabelos do menor. — Você tem treze anos e isso não é o fim do mundo!
— Eu digo isso a mim mesmo todos os dias — foi a vez de Nicholas fazer uma careta. — Essa coisa é muito estranha. Seria melhor que pudéssemos pular essa fase.
gargalhou. Nicholas era precocemente maduro. Sabia o que sofria e sabia que não passaria, sabia que teria muitas e muitas crises pela frente.
Definitivamente ele não era um garoto comum. Talvez pelo tipo de adulto que o cercava, o trabalho violento e perigoso da mãe, a preocupação que carregava desde muito pequeno... Era tudo um amontoado de coisas que faziam-no crescer antes da hora. sentia muito por ele, mas o entendia — passara pela mesma situação, e talvez por isso tivesse atitudes tão perturbadas e problemáticas.
— Você precisa de distração, carinha — empurrou-o de leve com um dos ombros. — Só vou para Itália daqui uns dias... E dizem as más línguas que o The Kooks toca por aqui amanhã... Tipo, sei lá. Só acho que eu poderia conseguir dois ingressos escondidos da sua mãe e da . Só para nós dois, sabe? — piscou um dos olhos. — Ou talvez para você e a Colbie...
Nicholas riu fracamente.
— Estava demorando para você citar o nome da Colbie — Nicholas revirou os olhos. — E eu aceito os ingressos. Mas a mãe da Colbie não a deixa ir para essas coisas sem ela. Então vamos nós dois.
— Mas quem disse que eu queria conversar com você sobre a Colbie, moleque? — juntou as sobrancelhas. — Eu não quero saber de nada, não... Muito menos quero que você me conte como foi beijá-la no meio da sua sala.
Nicholas não segurou a gargalhada que veio ao escutar aquelas palavras. era impossível.
Sua mãe mais ainda que espalhava esse tipo de coisa por aí. Não era nem para ela ter visto aquela cena.
— Minha mãe deveria segurar mais a língua... — ele deu de ombros — Eu acho que estou ficando tão idiota quanto você. Só que a nossa diferença é que eu assumo.
— Onde está o respeito que tinha por mim? — perguntou mostrando-se indignado. — Essas crianças de hoje estão perdidas.
— Ele foi embora assim que você começou a dar esses ‘pitis’ pela , amigo — Nicholas balançou a cabeça negativamente, sorrindo. — Brincadeira. É bem bonito o que vocês têm. Tirando o fato de que você sempre a xingou publicamente.
riu e balançou a cabeça.
— Ela sempre foi uma curiosa — deu de ombros. — Sem contar que sempre falou mal de mim. Mereceu todos os xingamentos. Mas não conte para ela.
— Você é completamente louco, — Nicholas riu. — É sério.
— Eu sei disso — ele deu de ombros. — Ser normal não tem graça, moleque. As coisas boas estão nas loucuras que somos capazes de fazer.
— E eu acho que é por isso que eu tenho você como um exemplo — Nicholas sorriu e encarou por alguns segundos. — Por mais estranho que isso soe, porque você não se diz digno para uma coisa dessas. Mas sei lá. Você foi um dos caras mais presentes na minha vida.
— Wow! — sorriu. — Fico feliz por isso. De verdade.
— Enfim — Nicholas sorriu fracamente. — Minha mãe daqui a pouco chega e minha avó disse para eu não demorar. Desculpa te fazer vir aqui. Eu só queria dizer isso, sabe? — Nicholas o fitou. — E me desculpar pela ceninha idiota que eu fiz esses dias.
— Não foi ceninha idiota — bagunçou os cabelos dele mais uma vez. — Eu com vinte e oito anos, Nicholas, dei uma crise tão ridícula quanto a sua e eu quase morri por isso. Não seja impulsivo como eu. É um conselho.
— Prometo parar e pensar antes de fazer ou falar qualquer coisa a partir de hoje — o pequeno sorriu. — Sou novo demais para morrer e pretendo trabalhar no seu lugar daqui uns anos.
gargalhou.
— Apenas sonhe. Não saio dessa vida antes dos cinquenta e poucos — piscou um dos olhos. — Você ainda tem muito o que estudar para tentar chegar onde estou.
— Menos, . Bem menos — Nicholas riu. — Daqui um tempo você não está aguentando mais correr e barrigudo. Sem contar que estará sem fôlego algum por causa desses cigarros. Seu lugar já é meu. Acredite, .
— Sonhar não custa nada — murmurou e revirou os olhos. — Mas ei, se cuide, tá? Sempre que precisar conversar pode me procurar. Sabe que eu sempre vou estar livre para você, certo?
— Certo — Nicholas sorriu. — Não esqueça de descolar os ingressos para o show...
riu.
— Pode deixar — ele piscou um dos olhos novamente. — Antes de ir eu queria te pedir uma coisa.
— Pode pedir. O que quiser — Nicholas sorriu fracamente.
— Se acerte com seus pais. Eles são tudo o que você tem nessa vida, Nicholas. Sua mãe não suporta ver você assim, todo pra baixo e saber que é culpa dela — suspirou. — Por favor. converse com eles hoje. Você vai até dormir melhor depois que fizer isso. Uma hora você terá que encarar a situação. Quanto mais cedo, melhor. Quero ver todos vocês bem amanhã. Caso contrário...
— Adeus The Kooks — Nicholas revirou os olhos e sorriu em seguida. — Eu vou conversar com eles. Eu só...
— Precisava de um empurrão — completou. — Agora vai lá. Sua avó vai dar crise e jogar a culpa para cima de mim.
— Minha avó te adora... — Nicholas murmurou enquanto se levantava.
— Adora tanto que toda vez que apareço por aqui ela me dá uns bons tapas. Pelo menos o bolo de chocolate compensa...
Nicholas gargalhou com o comentário de e balançou a cabeça.
— Até amanhã, . Mande um beijo para a — Nicholas disse educadamente.
— Não mandarei nada — revirou os olhos. — Ela é minha garota e você não tem que mandar beijos ou qualquer coisa para ela...
— Céus, , eu tenho treze anos — ele fez uma careta. — Você é um maluco. Vou entrar. Isso pode ser contagiante...
não respondeu, apenas riu do menor e ficou ali parado, esperando-o atravessar a rua.
ainda tinha um sorriso no canto dos lábios quando Nicholas se virou para dar um tchau. Há quanto tempo não conversava daquele jeito com seu mascote? Sentira falta daquele moleque. Mas o entendia perfeitamente. Riu mais uma vez ao sentir-se leve após a conversa, era bom ter Nicholas por perto. Sua aura inocente, as falas perspicazes, as risadas e o fato dele se dar tão bem com e vice-versa. Era sua felicidade, no fim das contas, mesmo quando se fingia de enciumado. E, bom, é claro que ele mandaria os beijos para quando a encontrasse dali algumas horas — ou melhor: ele daria cada um dos beijos.

****

O rapaz soltou um suspiro fraco e atendeu o celular que vibrava em seu bolso.
— O que é agora? — perguntou, impaciente.
— Pegue o garoto. Ele não tem como escapar. — A voz do outro lado disse sem enrolações. — E pelo amor de Deus, vê se consegue fazer algo direito dessa vez.
— Ah, vá se foder! — exclamou. — Se eu pego esse garoto eu não vou ficar vivo e você vai ficar sem suas informações. Não seja idiota.
— Se não pegá-lo, irá morrer de qualquer forma, querido. Então eu acho bom que pelo menos tente. Mas tente de verdade. Não preciso de pessoas frouxas comigo. Se quiser desistir agora, desista. Mas vá para bem longe nos próximos vinte minutos.
— Quando? — o rapaz perguntou, dando-se por vencido. Não poderia fazer nada. Absolutamente nada. Ou obedecia ou morreria.
— Quando se sentir preparado. Mas seria muito bom se você começasse a agir logo. Você sabe por quê.
— Sei. Pode deixar. O garoto vai estar com você logo — ele respondeu, engolindo a seco. — Mas o que irá fazer depois?
— Isso pode deixar por minha conta. Seu trabalho é trazê-lo para mim.
E após dizer isso, desligou. O rapaz continuou segurando o celular contra a orelha, na esperança de que aquilo fosse só uma pegadinha. Mas não era. O que estava acontecendo com o mundo, afinal? As pessoas haviam perdido totalmente a consciência. Estava tudo uma loucura. Só pensavam em poder, dinheiro, matança. Céus, a humanidade estava perdida.
O rapaz bagunçou os cabelos e guardou o celular no bolso. Teria que pensar e agir o mais rápido que conseguisse.
Ou era fazer o trabalho, ou era morrer. E ele definitivamente não queria morrer agora. Não enquanto estivesse vivo.


Capítulo 6

fitou o teto do quarto e depois fitou o relógio que estava na parede. Eram quase dez da noite e ele estava ali jogado, pensando em tudo o que Elizabeth dissera numa conversa boba mais cedo. Odiava quando faziam o que a amiga fez e o deixava curioso daquela forma. Odiava também quando diziam que ia se interessar por algo que ele não estava interessado, pois sabia que aquilo era verdade. Maldita mulher complicada, também. Precisava bater um papo com Emma. Precisava se distrair. Precisava beber. Fumar. Transar.
Riu sozinho e balançou a cabeça negativamente. Precisava de tantas coisas que nem sabia mais por onde começar para tentar realizar tudo. Era um maldito complicado e jogava a culpa para . Era um filho da puta.
Seu celular tocou, cortando seus pensamentos. esticou o braço preguiçosamente e o pegou, sorrindo automaticamente ao ler o nome de Emma no visor.

— Diga, amor da minha vida! — atendeu dando uma risada fraca, mas parou no mesmo momento ao ouvir Emma fungar. — Emma?
— Ei. Preciso de você aqui. Agora. — Emma disse rápido. — Charlie precisou ficar até tarde na delegacia, mas já está a caminho. Você está mais perto. Por favor, , vem logo.
— O que houve? — perguntou enquanto, já de pé, tentava vestir uma calça jeans e a camisa de botões ao mesmo tempo.
— O Nicholas sumiu. Simplesmente sumiu. E eu tenho certeza que não foi por rebeldia dele.
— Puta que pariu — murmurou. — Já chego aí.

não esperou uma resposta, apenas desligou o celular e saiu de casa ainda fechando a camisa e com o tênis desamarrado. Pouco importava sua aparência. Nicholas era o foco ali.

***

Elizabeth sorriu ao sentir Jesse se aproximar e não fez questão de ir para trás como pensaria em fazer alguns anos atrás. Estavam prestes a colar seus lábios quando sentiu algo molhar a blusa branca de botões que usava. Jesse riu e mordeu o lábio inferior, afastando-se um bocado.

— Desculpe. — ele murmurou coçando a nuca. — Sério, eu...
— Shhh — Elizabeth pousou um dos dedos sobre os lábios do homem. — Tudo bem. Não me importo. É só vinho.
— Me desculpe, de qualquer forma. — ele murmurou beijando a ponta do dedo da mulher sem quebrar o contato visual. — Não foi a intenção.
— Eu não me importo — ela sussurrou enquanto, lentamente, começava a abrir os botões da blusa. — E acho que você também não.
Jesse sorriu e se aproximou mais, segurando-a pela nuca sussurrando em seguida:
— Pode ter certeza que não.

Sem enrolar mais, juntaram seus lábios num beijo que transbordava sentimentos. Não era um beijo rápido, mas também não era lento. Era da forma que gostavam. Por mais clichê que soe, encaixavam-se perfeitamente, como se tivessem sidos desenhados um para o outro.
Elizabeth finalmente terminara de abrir os botões da blusa e soltou-a, levando uma das mãos para a nuca de Jesse, puxando-o ainda mais. Com cuidado para não machucá-la, Jesse deixou seu corpo cair sobre o dela.
Sentiam-se tão bem quando estavam juntos. Fizeram um jantar tão maravilhoso que nem sequer se lembravam da última vez que se sentiram daquela forma. Jesse estava livre, finalmente, dos fantasmas do passado.
Assim como Elizabeth estava livre de qualquer resto de sentimento por outro homem. Não era a primeira vez que saíam, não era a primeira vez que se beijavam e se tocavam daquela forma, não era a primeira vez que se viam.
Era apenas a primeira vez que deixavam alguém desconfiar daquilo. Sentiam paixão, desejo ou qualquer coisa que fosse aquele sentimento, há tempos. Era bom colocá-los para fora, era bom senti-los quando estavam perto um do outro. Era perfeito.
Tinham o encaixe perfeito.
O momento era perfeito.
Jesse passou os lábios levemente por todo o pescoço de Elizabeth, fazendo-a arquear as costas levemente e suspirar. Céus, como era bom sentir as carícias daquele homem!

— Não quero que se esqueça dessa noite. — Jesse sussurrou enquanto descia os beijos por todo o pescoço de Elizabeth. — Nunca.
— Eu não vou. — ela sussurrou de volta com os olhos fechados. — Nunca.
Jesse sorriu e juntou seus lábios novamente.

***


— O Jesse está com a Elizabeth. — Charlie murmurou. — Ele deve demorar um pouco para chegar, mas logo virá.
— No que diabos Jesse ajudará? — Emma perguntou não fazendo questão de esconder que chorava. — Ele não se mete mais com essas coisas, é o que chamamos de policial honesto, a maior fantasia do mundo. Ele não vai ter ideia de nada.
— Qualquer ajuda é bem-vinda. — Charlie sussurrou. — Ele pode ter pelo menos um contato, uma pista...
— Só se acalme, Emma. — murmurou, passando um dos braços sobre os ombros dela. — Vamos encontrá-lo.

Emma não respondeu, apenas fitou o chão. Seu coração estava apertado. O desespero tomava conta de seu corpo. O medo também estava ali. A insegurança, a culpa. Todos os sentimentos ruins. Nicholas havia sumido. Seu pequeno Nicholas, seu garotinho, havia desaparecido de repente.
soltou os ombros de Emma ao notar que Charlie se aproximava da mulher. Não foi preciso alguém dizer algo para sair de perto e ir falar com os outros policiais que estavam por ali.

— Ele vai aparecer. — Charlie murmurou, fazendo-a deixar cair mais algumas lágrimas. — Vai acabar tudo bem. Confie em mim.
— O meu menino, Charlie... — Emma murmurou, jogando-se nos braços do homem — Eu estou com medo.
— Ei! — Charlie puxou-a pelo rosto, fazendo-a olhá-lo nos olhos — Vai acabar tudo bem, logo o Nicholas aparece. Seja por bem ou por mal. mergulhará nisso de cabeça. Sabe que ele se importa com o Nicholas tanto quanto nós dois. Por isso o quero no meu lugar daqui um tempo. Não demorará muito para que a gente consiga localizá-lo. Já falou com Colbie?
— Ela não sabe de nada. — Emma suspirou e sentou-se no sofá novamente. — Eu não vou aguentar isso. Eu preciso de notícias do meu filho.

Charlie não disse nada, apenas sentou-se ao lado da mulher e puxou-a para um abraço apertado. Ambos estavam desesperados, ambos estavam com medo. Não sabiam o que pensar ou fazer, não estavam em condições.
Ter ali fora a melhor decisão que já tomaram. Era o único que conseguia agir numa situação daquela.
Segundos, minutos, horas passaram e eles continuaram ali esperando por informações. Emma sentia seu coração afundar a cada segundo que passava. Sua cabeça doía e seus olhos começavam a se fechar lentamente, mas não se deixaria vencer pelo sono, não enquanto seu filho não estivesse em seus braços novamente. Charlie tentara fazer sua cabeça para ir dormir, mas ela se recusava. Pelo seu filho, ficaria acordada até não aguentar mais, mesmo se fosse necessário inúmeras garrafas de energético.
Alguns gritos do lado de fora da casa foram ouvidos, fazendo com que Charlie se levantasse no mesmo momento. Porém, assim que se levantou e deu um passo à frente, parou. Parou automaticamente, ficando como uma estátua, congelado. Não acreditava no que via. Não sabia se sentia felicidade, medo, desespero ou qualquer outro sentimento assim. Emma levou os olhos cansados na direção que Charlie olhava e sentiu seu coração acelerar enquanto algumas poucas lágrimas rolavam por seu rosto.
Nicholas estava ali, apoiado no batente da porta com uma das mãos na barriga. Seus cabelos estavam bagunçados e tinha restos de sangue espalhado por todo o rosto. logo apareceu atrás do garoto, puxando-o pelo braço, fazendo o garoto passá-los por seus ombros. carregou Nicholas até o sofá e o deitou ao lado de Emma que, ao recuperar-se do susto, se levantou e correu para pegar algo para fazer curativos no filho. Charlie se ajoelhou ao lado do garoto, tentando fazê-lo não dormir sem dizer nada.

— Tente se manter acordado. — Charlie murmurou. — Por favor, filho. - Nicholas respirou fundo e fechou os olhos por uns segundos. Não conseguia organizar os pensamentos. Mas precisava falar o que vira e o que acontecera.
, o Pender acabou de chegar! — Um dos homens de gritou da porta.
— Mande-o entrar. — gritou de volta. — Agora!
O homem apenas balançou a cabeça e correu para o lado de fora. Não demorou muito para Jesse adentrar a sala e assustar-se com o estado do pequeno Nicholas.
— O que houve com ele? — Jesse perguntou tirando o casaco e jogando-o num canto qualquer.
— Ele mal consegue respirar e manter-se acordado, imagine nos contar o que houve. — murmurou. — Vou pegar um copo d'água para ele. Mantenham esse garoto acordado até o médico dele chegar.
— Não seria melhor levá-lo ao hospital? — Jesse perguntou.
— Não podemos arriscá-lo a tanto. Pode ser que descubram que ele fugiu e venham atrás dele. Aqui estamos mais bem preparados. — Charlie respondeu.

saiu da sala e Jesse abaixou-se ao lado de Charlie, que observava o garoto e acariciava seu rosto. Não demorou muito para Emma chegar com uma caixa pequena nas mãos e, sem se importar com nada, jogar-se no chão entre os dois homens e pegar uma gaze para limpar o rosto do filho.

— Coloque-o sentado. — pediu assim que voltou com o copo de água nas mãos. Emma se afastou um bocado e Charlie colocou-o sentado. — Beba e tente nos contar algo.
— Só me deixe respirar. — Nicholas murmurou, pegando o copo d'água, bebendo quase tudo em um gole só. — Eu não faço ideia de onde estava, só para começar. — ele sussurrou. — Mas garanto que, dessa vez, não foi o Jesse. — Nicholas riu fracamente e bebeu o resto da água. — Eu não sei como aconteceu. Eu só... estava saindo da escola quando senti algo na minha cabeça. Depois acordei num lugar estranho. Num quarto, mas não estava amarrado. Quando levantei, vi uns homens no que mais parecia um quintal. Não sei como saí, só sei que fui calculando o que aconteceria se eu fizesse cada coisinha. No fim de tudo, consegui distraí-los com um pedido para ir ao banheiro. Tinha uma janela, saí por ela e consegui parar numa estrada. Peguei uma carona até o centro e de lá me virei para vir.
— E como se machucou assim? — perguntou, fitando-o com curiosidade. Nicholas riu.
— Digamos que eu tenha um pouco do seu temperamento e acabei apanhando mais do que devia antes de pedir para ir ao banheiro. — ele respondeu tranquilamente. — Os caras não estavam ligando se eu tenho treze anos ou não. Queriam me matar de qualquer jeito. — ele sussurrou a última frase, fazendo com que Emma fungasse. — Eles iam pedir algum dinheiro para vocês ou pedir a cabeça do em troca. Acredito que vocês dariam um jeito de entregar uma das duas coisas, ou as duas do jeito que o é louco. — Nicholas sorriu fracamente. — Mas era mentira, me matariam logo em seguida. Não sei exatamente o porquê. Mas sei que tinha a ver com algo que Charlie fez no passado e alguma coisa a ver com mortes de três anos atrás. Eu não entendi. Mas foi o que escutei.
trincou os dentes e Charlie encarou-o tenso.
— Tome um banho e descanse, Nicholas. — Emma murmurou. — Nossos homens ficarão cercando a casa a noite inteira e um médico virá te examinar. Amanhã você tenta se lembrar de mais alguma coisa.
— Eles citaram o nome do . — Nicholas murmurou. — Falaram algo do seu pai também, . E citaram a Kennedy, aquela sua prima que eu só vi uma vez.
— O que falaram? — perguntou, piscando os olhos algumas vezes. Estava com raiva. Estava prestes a largar tudo e ir atrás daqueles caras às cegas sem se importar com nada.
— Disseram que o matou a Kennedy por sua causa e que seu pai sabia demais, por isso morreu. — Nicholas murmurou. — Eu não entendi. Eles falavam baixo, só consegui identificar os nomes com precisão.
— Não se preocupe com isso agora. — Charlie murmurou. — Faça o que sua mãe disse.
Nicholas não disse nada, só obedeceu ao pai e, com a ajuda de Emma, se levantou e seguiu para o banheiro.
— O que diabos vocês andaram fazendo no passado? — Jesse perguntou. — Eu pedi tanto para vocês ficarem longe de merdas.
— Não fizemos nada demais. — respondeu. — Só tentamos limpar minha barra porque eu fugi da cadeia aquele dia.
— Vocês contaram uma história diferente da minha? — Jesse perguntou.
— Não. — Charlie respondeu. — Apenas demos mais detalhes e provas de que era inocente, que só havia sido preso para a segurança dele e de todos nós.
— Vocês não estão num filme de James Bond onde qualquer coisinha que digam dá certo. — Jesse suspirou. — Com certeza há policiais metidos nessa história toda. Acredito que estejam metidos na morte do Brian e nos últimos atentados. Tentei conseguir algo com uns antigos colegas, mas eles não sabiam tanta coisa. Mas me deram alguns nomes. Incluindo o maldito Jack, o corrupto que a gente nunca consegue pegar. — Jesse revirou os olhos. — Ele estava metido com o Crowley também. E com todos esses marginais que estão mortos agora, quase como um maldito informante. Precisamos do cofre.
— Não há condição de abrirmos o cofre. — Emma disse firme, aparecendo na sala. — Precisamos encontrar uma prova de verdade contra o Jack. Sem nenhum desgraçado que o pagava para abrir a boca vivo, fica complicado, porque ele jamais vai falar ou confessar, ainda mais pra limpar a barra da gente. Precisamos esquecê-lo e dar o nosso jeito. Abrir o cofre contra a lei e só vai piorar as coisas.
— É o que eu penso. — murmurou. — Mas... que opção temos se não tentar?
— Se já não abriram. — Emma sussurrou. — O irmão do Crowley ainda estava vivo enquanto estávamos tentando pegar o Castellamare. Não duvido de que Bill abriu e pegou o que precisava para fazer as merdas que fez antes de morrer.
— Crowley nunca deu a senha para ninguém. — Jesse disse firme. — Bill achava que tinha a senha, mas não tinha. Não era a senha de verdade, ou pelo menos não era do cofre de verdade.
— Precisamos que abra o cofre, Emma. — Charlie murmurou. — Há exatamente cinco anos estou atrás dessa coisa. Foi preciso Crowley voltar para Londres e morrer para eu encontrá-lo. Sabemos onde ele está. Só precisamos que você abra.
— Só se isso acabar assim que voltarmos da Itália. — Emma murmurou. — Quero que esse inferno acabe. Se for para eu abrir o cofre e irmos para a Itália, é para matar todos eles. E quando digo todos, são realmente todos. — ela engoliu a seco. — Se fizeram isso com Nicholas essa noite, imagine o que farão conosco. Prometam que isso acaba assim que eu destrancar aquele cofre.
— Não podemos prometer nada. — murmurou. — Não sabemos quem está metido nisso.
— Descubram. — Emma rebateu. — Quero garantir a segurança das pessoas que amo. Não quero ter que passar pelo desespero que passei esses últimos anos. Não quero passar pelo que passei essa noite de novo.
— Vai tudo acabar bem, Emma. — Jesse disse firme. — Você sabe que só confiamos em você para abrir o cofre.
— Só quero que isso acabe. — Emma suspirou. — Não aguento mais esse inferno. Se livre do seu passado, , se livre dessas malditas coisas que te cercam. Por Deus, Jesse, você é o único que pode ajudá-los. Me prometa que tudo isso acabará logo e eu faço o que quiserem, desde que meu filho continue vivo.
— Eu prometo, Emma. Tudo acabará bem. — Jesse disse firme, porém devagar. — Seu filho ficará bem. Todos nós ficaremos.

Emma encarou os três homens presentes e respirou fundo. Não queria se meter naqueles assuntos, eram coisas sujas demais; coisas que não tinham a ver com ela, coisas que ela ficara sabendo sem querer, coisas que a colocaram em perigo, que quase a mataram várias e várias vezes, coisas que precisavam ser destruídas, acabadas.
Após soltar um suspiro e prender os cabelos em um coque frouxo, Emma murmurou:

— Encontrem o cofre e digam o dia que eu preciso ir abri-lo.


Capítulo 7

parou em frente à porta do apartamento de e tocou a campainha, pouco se importando se ainda eram seis e meia da manhã. Não sabia porque, diabos, estava lá. Talvez só estivesse com saudades, talvez só precisasse de companhia, talvez só precisasse conversar e sabia que ela não trabalharia naquele dia, talvez só quisesse se despedir ou talvez só precisasse dormir um pouco com ela ao seu lado e saber que ela não sairia dali. Ele realmente não sabia, mas queria estar ali, apesar de ter certeza absoluta de que seria xingado. odiava ser acordada cedo, principalmente em seus dias de folga. Talvez ele tivesse aprendido com Charlie a estragar folgas alheias.
abriu a porta e preparou-se para soltar um palavrão qualquer, mas ao observar ali parado com um sorriso no canto dos lábios, fechou a boca.

— O que faz aqui a essa hora? — ela perguntou baixo enquanto dava espaço para ele entrar. — Eu avisei que era minha folga...
— Eu sei — respondeu dando de ombros e tirando o casaco que vestia. — É que... ontem foi uma noite cheia. Eu queria ter vindo aqui antes, mas... só agora tive uma folga.
— Ainda não dormiu? — ela perguntou sentando-se em seu lado no sofá. — O que houve?
suspirou.
— Pegaram o Nicholas. — ele sussurrou. — Aí eu fui para a casa do Charlie... um bom tempo depois o Nicholas apareceu. Ele estava machucado e cansado demais. — suspirou e passou as mãos pelo rosto. — Ele contou que falaram coisas do meu pai, da Kennedy e do . Sem contar o fato de que ainda bateram nele antes dele conseguir fugir.
— O Nicholas simplesmente fugiu deles na cara e na coragem? — deixou sua boca abrir em puro choque. — Céus, esse garoto está ficando como você.
riu fracamente.
— Pelo menos ele faz coisas boas. — fitou o chão e mordeu o lábio inferior. — Enfim. Eu só... queria pedir desculpas por não vir ontem.
sorriu fracamente.
— Era o seu trabalho. — murmurou, se aproximando mais de . — Eu nem tinha feito nada mesmo.

riu e a puxou pela cintura, fazendo-a sentar-se em seu colo. Mordeu o lábio inferior com mais força ao reparar que a camisola vermelha que usava subira com o movimento que fizera, deixando suas coxas à mostra.
balançou a cabeça negativamente, com um sorriso fraco no rosto, e arqueou uma das sobrancelhas, enquanto passava as mãos, lentamente, por suas coxas. Aproximou-se mais da mulher e grudou seus lábios em seu pescoço, também de forma lenta, fazendo-a suspirar.

— Ainda são seis e meia da manhã, . — sussurrou segurando-o pelos ombros, porém permanecendo de olhos fechados.
— Você está de folga hoje e eu posso chegar mais tarde no prédio. — respondeu, subindo os beijos lentamente pelo rosto de , parando no canto de seus lábios. — Temos o dia praticamente inteiro. Shhh.
sorriu fracamente e, em seguida, sussurrou o mais baixo e provocante que conseguiu:
— O que acha de tomarmos um banho?
soltou uma risada fraca e segurou-a firmemente pela cintura, respondendo enquanto se levantava com ela no colo:
— Seria perfeito.

***

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 8h57min.


Apolo tirou os óculos escuros e sorriu para garota à sua frente. Ela era loira, seus olhos tinham um tom azul cristalino hipnotizante, seus lábios eram carnudos e sempre pintados de vermelho. A verdadeira perdição. Por um segundo, achou que não fosse se conter, achou que não fosse aguentar.
Aquela garota era incontrolável. Com rostinho de anjo e pensamentos de um demônio. Tão doce e sensual que ele chegara a pensar que enlouqueceria só de olhá-la.
Amanda era tão encantadora que Apolo pensou que perderia o controle e esqueceria o que fora fazer ali. Ele a conhecia há alguns meses, mas ela nem sequer sabia de sua existência até ele aparecer ali atrás de seu primo.

— Olhe... se não me engano, o meu primo está na Inglaterra. — Ela disse educadamente, juntando as sobrancelhas. — Não faço ideia de quando ele volta.
— Tudo bem. — Apolo respondeu, ainda fitando-a. — Pode avisá-lo que Apolo Castellamare o procurou? Caso vocês se falem e tudo o mais. — Apolo sorriu amigavelmente. — Peça-o para me ligar. Até logo, Amanda.

A garota não disse nada, apenas sorriu e acenou. Balançou a cabeça negativamente assim que Apolo virou de costas e fechou o portão. Odiava quando estava prestes a sair e esses amigos, ou sei lá o quê, de seu primo a paravam para pedir informações. Se nem mesmo seu tio tinha informações demais sobre o primo, imagine ela.
Apolo puxou o celular do bolso após olhar para trás mais uma vez. Amanda já havia saído e as pessoas na rua eram comuns, nada tão ameaçador assim.
Ultimamente tem andando assim na rua; observando tudo e todos, um tanto quanto assustado, talvez. A Itália estava virando de cabeça para baixo e ele já sabia o motivo disso. Todo cuidado era pouco por ali. Charlie estava prestes a desembarcar com sua equipe por lá. E isso só aumentava os riscos.

— Jullie? — Ele murmurou ao ouvir a voz da mulher resmungar alguma coisa. — Pode me encontrar daqui uma hora?
— Poder até posso, mas não quero. — respondeu irritada. — Eu estava dormindo e você sabe como é meu humor matinal, Castellamare. Me procure depois. E só se estiver a fim de sexo e não informações.
Apolo soltou uma risada fraca.
— Podemos conversar sobre sexo também, querida. Mas preciso te encontrar agora na parte da manhã. — ele disse firme. — Sobre o seu chefe. Ou achou que eu não saberia que está metido com um dos ? Hmmm... jogou mal, coração. Me encontre daqui a uma hora. No restaurante de sempre.
Apolo podia jurar que Jullie engoliu a seco e piscou os olhos loucamente, enquanto se perguntava como diabos ele teve aquela informação.
— Não seja idiota. Não quero te encontrar agora de manhã. — Ela respondeu tentando manter-se tranquila. — ? Metade dos estão mortos, meu amor. Com quem diabos eu iria me relacionar?
— Não sei. Talvez o que está vivo na Inglaterra. — Apolo sorriu e teve certeza que Jullie estava nervosa e passava as mãos pelo rosto. — Venha me encontrar, Jullie.
— Você me irrita. — Ela disse completamente irritada — Juro que se pudesse eu te matava. Sabia que estão pagando pela sua cabeça?
— Sim, eu sei que mataria. Mas de prazer, meu bem. — ele riu fracamente. — Querem minha cabeça, mas ninguém, além de você, pode ter. — ele riu mais uma vez. — Céus, você me descontrola, Jullie. Vamos, pare de doce. Estarei te esperando. Até pago seu café, se quiser.
— Apolo, faça o favor de ir se foder e me deixar em paz, sim? — Jullie pediu firme. — Não vou te encontrar na parte da manhã.
— Opa. Foder você? Com todo prazer, amore mio. — Apolo rebateu com seu sotaque italiano carregado, ainda sorrindo enquanto caminhava pelas ruas tranquilamente. Provocar Jullie era uma das melhores coisas do mundo. — Estarei esperando você até às dez da manhã. Sei que aparecerá. Está curiosa. Quando começa a falar nesse tom comigo é por que está extremamente curiosa. Sei que quer saber onde descobri que você está com algum , mesmo que boa parte deles estejam mortos.
— Vá para o inferno. — Jullie murmurou pausadamente. — Meus trabalhos são meus trabalhos, não tenho que te dar satisfações de nada.
— Vou para o inferno e te arrasto comigo. — Apolo rebateu. — Te esperarei até às dez. Não passe disso. Tenho trabalhos para fazer, coração.

Apolo não deu chance de Jullier dizer algo, apenas desligou o celular e guardou-o no bolso em seguida. Conseguira irritar e atiçar a curiosidade de Jullie. Sabia que ela chegaria cedo, Jullie jamais se atrasaria para aquele tipo de assunto.

***

LONDRES — INGLATERRA, 7h57min.


Nicholas riu e balançou a cabeça negativamente.
— Você é louca. — ele murmurou enquanto se sentava na cama. Ainda sentia algumas dores pelo corpo. — Não acredito que sua mãe deixou você faltar aula só para ficar comigo hoje.
— Pois pode acreditar. — Colbie sorriu. — Ela ainda ligou para sua mãe para avisar, por isso sua mãe não se importou de ir dormir um pouco. Talvez não seja perigoso ficarmos por aqui durante o dia, né?
— É. — Nicholas suspirou, fitando o teto. — Esse trabalho deles é uma loucura.
— E como você está com tudo isso? — Colbie perguntou enquanto sentava-se ao lado de Nicholas na cama, enfiando-se debaixo das cobertas do garoto. — Digo, não deve ser fácil. Você está no mínimo perturbado.
— Eu acho que acostumei. Eu cresci nisso, Colbie. — ele suspirou e fitou a amiga. — Eu quero ser como o meu pai ou como o quando me formar.
— Seu pai Charlie ou seu pai Martin? — Colbie perguntou mordendo o lábio inferior. — O é um bom policial. Só um pouco doido, mas ainda assim...
Nicholas riu fracamente.
— Meu pai Charlie — respondeu baixo. — Eu não acostumei com isso ainda, aliás.
— Mas logo se acostuma! — Colbie sorriu e puxou-o para um abraço desajeitado, passando os braços pela cintura de Nicholas. — Vai tudo acabar bem, sempre acaba. Só, por favor, não nos dê mais um susto daqueles. Não saia sozinho, por favor, não com isso acontecendo. Converse com sua mãe. — Colbie suspirou, fechando os olhos enquanto Nicholas a abraçava de volta. — Deixe sua mãe feliz por você. Converse com Charlie também. Sabe que rebeldia não leva ninguém a lugar nenhum.
— Relaxa, Colbie. — Nicholas murmurou enquanto depositava um beijo no topo da cabeça da menina. — Eu tenho consciência das merdas que faço... e a maior delas foi dar essa crise. Tenho certeza que Charlie é um bom pai. Eu só... não entendi porque esconderam. Mas já passou.
— Isso, já passou. Só não se esqueça que o Charlie te ama tanto quanto a sua mãe. — Colbie sorriu e levantou o rosto para encará-lo. — Esquece o tempo que passou, o que aconteceu essas semanas. Tudo sempre acaba bem. Vamos assistir alguma coisa?
Nicholas suspirou e sorriu em seguida.
— Sinta-se em casa para escolher qualquer coisa. — murmurou. — Mas, por favor, nada de filmes do Chris Evans ou Matt Bomer. Não ligaria de ver um filme da Evan Rachel Wood ou Scarlett Johansson.
Colbie revirou os olhos e caminhou até a prateleira de filmes de Nicholas.
— Não sei o que vê nessas mulheres. — Colbie revirou os olhos. — Procurarei um desenho qualquer.
— Eu também não sei o que você vê nesses homens. — Nicholas foi firme. — Então procure um desenho. Antigo. Maratona de Os Cavaleiros do Zodíaco, que tal?

Charlie se afastou da porta do quarto de Nicholas com um sorriso no rosto.
Passava por ali quando ouviu que Nicholas conversava com Colbie sobre tudo o que vem acontecendo. Viviam perguntando e Nicholas mostrava saber lidar com a situação. Óbvio que Charlie sabia que era mentira. Era bom ouvi-lo dizer aquelas coisas, deixava-o mais aliviado. Aquilo fizera seu dia. Seu garoto estava bem e estava começando a aceitar a ideia de tê-lo como pai de verdade.
Pai de verdade. Quão louco aquilo soava?
Charlie balançou a cabeça negativamente e suspirou, sem tirar o sorriso dos lábios. Adentrou o quarto que dividia com Emma e ela fitava o teto.

— Está tudo bem. — Charlie sussurrou, beijando-a no rosto. — Vá descansar.
— E você? — ela perguntou.
— Adiantarei algumas coisas. Dormirei depois. — ele disse calmamente. — Vou adiantar as coisas da viagem, dar parabéns ao e arrumar nossas coisas.
— Você deveria dormir também. — Emma murmurou, virando-se para o
lado e fechando os olhos. — Temos tempo agora, Charlie. Temos tempo...
— Não custa nada adiantar. — ele sussurrou dando um beijo na nuca de Emma. — Descanse.

***

estava jogado na cama de , dormindo feito um anjo. riu baixo e balançou a cabeça negativamente. e anjo na mesma frase não tinha coerência alguma.
soltou um suspiro pesado ao ouvir o celular de apitar na mesinha ao seu lado. Pegou o aparelho e leu no visor o nome de Charlie. Revirou os olhos e abriu a mensagem, pronta para responder que estava dormindo.
Mas a única coisa que conseguiu fazer foi deixar a boca se abrir em puro choque.
Como assim as passagens já estavam compradas e eles iriam para a Itália no dia seguinte?
piscou os olhos rapidamente e largou o celular de de volta na mesa. Sentou-se na cama e suspirou mais uma vez. nem sequer a avisara da viagem. E naquele momento estava mais que óbvio que ele fizera a cabeça de Charlie para que ela não fosse avisada, já que não pretendia embarcar no mesmo dia que eles, de qualquer forma. Tinha seu trabalho, seus compromissos e combinou com Charlie de ir alguns dias depois, não havia necessidade alguma de esconder dela o dia que iriam. De qualquer forma, não era de sua 100% conta o que estava acontecendo, ela não era da equipe e muito menos fora chamada para a viagem. Bem, pelo menos não por . E ela respeitava aquilo. Mas não contá-la que estavam indo? Oras, aquilo já era demais. Não que fosse arrumar uma briga por isso ou algo assim, apenas queria que ele confiasse mais nela para contar-lhe as coisas de seu trabalho. Até porque, bem, em alguns momentos era seu trabalho também e ele sabia que ela eventualmente iria para Itália, caso eles precisassem levar mais que três dias lá. Haviam conversado tanto, tanto, sobre tudo aquilo.
era tão idiota às vezes que a irritava, mas, no fundo, ela sabia que tudo o que estava sentindo naquele momento era preocupação. Talvez por isso que tentara tirar férias adiantadas. não teria desculpa para deixá-la sozinha em Londres. Ela sabia dos riscos que todos corriam. Mas... a preocupava mais, era fato. Amava-o. Queria ir com ele para se certificar de que tudo ficaria bem, de que ele ficaria bem e não abalado com as coisas que descobriria assim que pisasse lá. estava totalmente ciente dos riscos, dos segredos que seriam revelados, dos medos que sentiria e tudo o mais. Só queria... estar lá para abraçá-lo sempre que necessário.
Observou o rapaz ao seu lado e ele abria os olhos devagar. não conseguia dormir muito quando virava a noite, pelo menos não de manhã. Achava que estava perdendo o dia, o trabalho etc.

— Ei. — ele sussurrou voltando a fechar os olhos. — Por que já está acordada?
— Seu celular tocou. — mentiu. Nem sequer havia dormido após o banho maravilhoso que tomaram. — Era mensagem do Charlie avisando que as passagens para a Itália já estão compradas e tudo está certo para amanhã.
suspirou, apertando mais os olhos.
— Olha...
— Tudo bem, . — ela o interrompeu, cansada. — Eu já estava conformada por não poder ir com você agora, porque tenho meus trabalhos aqui e eles têm prazos; e não porque você não queria que eu fosse. É um fato de que eventualmente acabarei indo para ajudar vocês, ambos sabemos que precisam. Mas vocês vão amanhã. Pretendia me contar quando? No aeroporto ou só quando voltasse?
— Eu ia te contar ontem à noite. — ele respondeu baixo. — Mas estávamos com o Nicholas, , não deu. E hoje é meu aniversário, droga. Eu pensei que pelo menos um ano poderia ser diferente e o Charlie desistiria de ir amanhã. Emma tinha comentado algo assim. E sim, eu ia te contar hoje, mas... — ele deixou a frase no ar e deu de ombros. — Não precisa se preocupar com essas coisas, por favor.
— Como quiser. Só tome cuidado. Você vai descobrir coisas que não quer assim que pisar em Palermo. — fitou o chão e a encarou com curiosidade. — Você deveria ter lido o que Elizabeth deu a você, .
— Ah, então é verdade que você ainda se interessa pela minha vida? — ele perguntou, sentando-se na cama em um pulo. — Esquece a droga do meu passado. Delete da mesma forma que eu fiz.
— Você deveria saber mais da sua família. — murmurou. — Seu pai morreu sem saber, . Você não precisa ir pelo mesmo caminho.
revirou os olhos e se levantou da cama, passando as mãos pelo rosto.
— Esquece isso. — ele deu de ombros. — Você vai no aeroporto amanhã?
— Vou. — ela murmurou contra vontade. Não queria ir a droga de lugar nenhum se fosse para se despedir dele. — Ao que tudo indica, terei que trabalhar com Elizabeth por aqui.
— É. — respondeu enquanto vestia a camisa. Tudo estava tão tenso de repente. — Nós não vamos ficar muito tempo lá. Acho que três dias é o suficiente para resolvermos tudo.
— Charlie mandou você ligar para ele, na mensagem. — sentiu seu coração apertar. — Tem a possibilidade de vocês ficarem lá por mais tempo. Se isso acontecer, pode ter certeza que embarcarei o mais rápido possível. Não vou deixá-los sozinhos.
— Como é? — perguntou virando-se para ela. — Eu não fico mais de três dias naquele lugar se for para trabalhar.
pegou o celular e jogou-o para ele.
— Provavelmente ficará, sim. — ela deu de ombros e deitou-se na cama, fitando o teto. — Só não esqueça de avisar que chegou bem.
suspirou e jogou o celular em qualquer canto do quarto.
— Não fica chateada. — ele sentou-se na beira da cama. — Eu não quero que você sofra tudo o que sofreu de novo.
— O problema não é esse, . — ela se sentou de novo, encarando-o nos olhos. — Eu só... me preocupo.
— Não precisa. — ele sorriu fracamente e se aproximou dela, juntando seus lábios num selinho demorado. — Nós só vamos ver por que diabos estão segurando o corpo do Brian.

não respondeu, apenas suspirou e balançou a cabeça. Não queria esconder coisas de , mas algumas eram necessárias. Talvez Elizabeth a entendesse e apoiasse a ideia que se passava em sua cabeça, talvez realmente já estivesse na hora de contar para alguém o que sabia. E Elizabeth parecia saber de tantas coisas quanto ela. Investigar há três anos atrás servira de algo. Teria uma desculpa perfeita para que sua ida à Itália fosse irrecusável. No fundo, preferia manter-se longe de todas aquelas coisas enquanto pudesse, por isso não estava se importando tanto com o fato de que iriam no dia seguinte. Estava preocupada, claro, mas seria bom ter alguns dias para pensar e embarcar com tudo planejado.
Mas, pelo que estava vendo da situação, algo daria errado. Ela sentia. Só precisava da confirmação. E essa confirmação era Elizabeth e tudo o que ela sabia.


Capítulo 8

jogou os papéis dentro da pasta de novamente e bagunçou os cabelos. O que queriam, afinal? Enlouquecê-lo? Pois estavam conseguindo.
Mas que diabos! Que droga de vida! Será que não cansavam de bagunçar sua cabeça o tempo inteiro? E por que diabos Elizabeth entregara aquelas coisas só agora? Desde quando ela sabia aquelas malditas coisas? Desde quando sabia? Por que diabos ninguém nunca contara nada a ele?

Flashback.
Alguns anos antes...


— Quando for a hora certa, você vai saber de tudo, moleque — John murmurou bagunçando mais os cabelos do filho. — Você deveria ser menos curioso e dar mais atenção aos estudos.
revirou os olhos e riu fracamente.
— Não acha que já estou na idade de saber coisas sobre a nossa família, pai? — o garoto perguntou fitando o mais velho nos olhos. — Sério, eu não sou mais um bebê. Eu sempre ouvi a vovó falar coisas dos parentes e até mesmo outros filhos do vovô. Não custa nada você me explicar.
— Se sua avó não contou, quem sou eu para contar? — John sorriu fracamente e puxou o filho para mais perto, passando um dos braços por seus ombros. — Não é coisa para você agora, . Acredite em mim.
— Eu acredito — murmurou. — Só estou curioso.
— Me responda uma coisa: como diabos chegamos a essa conversa? — John perguntou arqueando uma das sobrancelhas. — Isso não é assunto meu nem seu. Era assunto do seu avô.
— Você nunca ficou curioso para saber a respeito dos seus outros irmãos?
perguntou e John bufou. — Juro que é a última pergunta.
— Nunca mais quero falar sobre isso, tudo bem? — John o encarou. — Sim, já tive muita curiosidade em saber sobre os outros. Eram só mais dois. Isso é tudo o que sei e quero saber, é o suficiente, . Esqueça isso. Aquelas pessoas não têm nada a ver conosco. Esqueça, por favor.
suspirou e não disse mais nada. Estava claro que seu pai não se sentia confortável para falar sobre aquilo. E seu avô não estava mais vivo para explicá-lo por quê.
Talvez realmente fosse melhor esquecer-se de todas aquelas coisas e focar-se nos estudos. Precisava acabar logo aquele maldito ensino médio e se livrar daquelas pessoas idiotas da escola.


Fim do flashback.

respirou fundo e virou-se para que saía do banheiro enrolada em apenas uma toalha.
— Quando a gente é adolescente — se virou para ela, fazendo-a parar de andar e encará-lo —, a gente não liga para certas coisas. Ignora e, às vezes, até deleta da cabeça certos momentos, conversas, coisas em geral. Meu pai sempre disse para eu não procurar pelos possíveis parentes que a gente tinha perdidos por aí. Ele sempre dizia que não era bom falar sobre aquilo, que eram assuntos do meu avô e não tínhamos nada com a ver com aquilo. Eu me esqueci completamente sobre uma conversa que tive com ele um bom tempo antes dele morrer — suspirou e automaticamente procurou por sua pasta com os olhos, encontrando-a sobre a cama. — Ele pediu para que eu nunca mais falasse sobre aquilo, ele estava claramente desconfortável com as perguntas que eu fazia. Depois de um tempo, eu me esqueci completamente aquela conversa e foquei no que ele mais queria que eu focasse: os estudos. E eu parei de me importar com tudo isso. Aí, de uma hora para outra, você e Elizabeth decidem procurar essas coisas. Elizabeth queria que eu lesse esses documentos de qualquer jeito. Sempre fui um curioso, sim, sempre fui. Mas isso não quer dizer que eu queria ler o que estava ali e relembrar algumas coisas do meu passado — caminhou até a pasta de e pegou os papéis. — Há quanto tempo você tem isso aqui? Há quanto tempo você sabe dessas coisas? Há quanto tempo sabe da existência dessas pessoas? Por que nunca me contou?
abriu e fechou a boca várias vezes, mas não conseguia dizer nada. estava claramente abatido pelo que lera. Mas... Ela nunca pensou que as coisas que estavam naquela pasta poderiam causar tanto estrago assim. Não sabia que aquelas coisas mexiam com ele daquela forma.
— Alguns meses — ela murmurou e suspirou. — Eu... Eu não sabia de nada disso, . Eu sou uma jornalista, droga! Que mal teria em ler coisas sobre a outra parte da família do cara que dorme comigo? Eu não sabia que essas coisas te deixariam abatido assim. Eu só estava curiosa.
— Por que nunca me contou? — perguntou firmemente, encarando-a nos olhos.
— Eu não sei, — ela fitou o chão, não aguentava encarar aquele olhar de . Aquele maldito olhar carregado de desconfiança... de novo. — Não fiz por mal. Eu só achei que você não gostaria de saber nada daquilo. Pelo menos não através de mim.
bagunçou os cabelos novamente e soltou uma risada fraca. Estava cansado daquilo tudo.
— Eu preciso resolver umas coisas — murmurou. — Espero que isso não saia daqui.
— Não vai sair — respondeu rapidamente. — E você poderia tirar o dia para descansar, . Além de ser seu aniversário, não deve ter tantas coisas para fazer e...
— Preciso me encontrar com Eric — se levantou e pegou o casaco que estava jogado na cama de . — A gente se vê a noite.
engoliu a seco e deu passos rápidos na direção de , segurando-o pelo braço.
— Pare de agir assim comigo — ela sussurrou, de olhos fechados. — Eu odeio esconder as coisas de você. Eu só não achei que fosse a hora certa. Me desculpa.
— Tá tudo bem — soltou-se das mãos de e selou seus lábios rapidamente. — Te ligo depois.
caminhou devagar atrás de , que ia em direção à porta. Não sabia se deveria contar outras coisas para ele, não sabia se ficava quieta e deixava aquilo do jeito que estava.
! — ela chamou, assim que ele abriu a porta, fazendo-o virar-se para ela. — Você ao menos leu tudo?
— Não — ele respondeu firme. — Achei desnecessário.
— Se tiver tempo durante a semana, leia — murmurou, fitando o chão e ignorando as gotas que caíam de seus cabelos. — Talvez... Melhore tudo.
bagunçou os cabelos e suspirou uma, duas, três vezes. Fechou a porta e encostou-se na mesma, fitando a mulher à sua frente.
— O que diabos tem ali? — ele perguntou baixo. — O que está acontecendo por aqui que eu não sei, ? Por favor, se tiver mais alguma coisa, me diga. E logo.
— Isso é tudo o que eu tenho e sei — respondeu rápido, embolando-se nas palavras e juntou as sobrancelhas. — Eu juro. Eu... Eu jamais esconderia algo de você de novo.
fitou-a por mais alguns segundos e balançou a cabeça positivamente.
— Falo com você mais tarde — ele murmurou abrindo a porta novamente. — Não marque nada para hoje. Nem amanhã.
— Eu não pretendia marcar — ela sorriu fracamente. — Não vá para a delegacia — deu alguns passos rápidos na direção de . — Aproveite o resto do seu aniversário... — ela fez uma pausa e sorriu aproximando-se do ouvido dele — Comigo.
riu fracamente e puxou-a pela nuca, juntando seus lábios num beijo rápido.
— Você fala como se não tivéssemos passado a manhã inteira transando — sussurrou estreitando os olhos. — Não que eu me importe. Meu corpo está gritando por você e querendo tudo de novo.
— Idiota — murmurou, empurrando-o para fora. — Resolva suas coisas e volte.
— Farei isso — piscou um dos olhos. — Só não prometo ser rápido.
— Desde que volte... — ela deixou a frase no ar e sorriu.
revirou os olhos com um sorriso no canto dos lábios e jogou beijos no ar para , fazendo-a rir.
fechou a porta e encostou-se na mesma, soltando um suspiro fraco.
Pouco se importava se ainda estava enrolada na toalha e seu cabelo ainda pingava um bocado. Sentiu sua cabeça latejar e os olhos lacrimejarem só ao lembrar-se de uma maldita conversa que tivera com Crowley tempos atrás.

Flashback
Algum tempo atrás...


Crowley riu ao ouvir as palavras de e fitou-a nos olhos.
— Não se faça de boa moça. Não para mim — ele piscou um dos olhos. — Você sabe que não te chamei à toa, sabe por que está fazendo tudo isso.
— Você deveria parar de me ameaçar. Se eu contar para o , você...
— Eu o quê? — Crowley estreitou os olhos. — O máximo que pode acontecer é ele me matar. E caso isso aconteça, docinho, certos assuntos seus serão espalhados por aí. Acredito que você ainda tenha amor à sua carreira e ao .
— Você é um idiota — murmurou engolindo a seco. — Envie o que precisar para minha casa, mas me deixe em paz. Se algo acontecer com você, tomou as decisões sozinho. Você vai saber disso caso algo te aconteça.
— Saberei, sim, querida. Agora vá para casa digitar suas matérias — Crowley sorriu de forma debochada. — Só não se esqueça, docinho: eu estou em todos os lugares.
— Você não me assusta — revirou os olhos. — Só espero que não esteja nos lugares onde eu estiver transando com o . Não curtimos sexo em grupo e muito menos com curiosos observando.
Crowley riu alto.
— Olha só... — ele balançou a cabeça negativamente — Andar com ele está te fazendo mal, queridinha. Afaste-se enquanto há tempo.
— Me responde uma coisa, Crowley — se aproximou dele e encarou-o nos olhos. — Rachel se afastou de você? Desistiu de você quando soube tudo isso? Ela em algum momento deixou de te amar mesmo quando precisou te jogar para o Brasil? E você? Deixou de amá-la em algum desses momentos? Acredito que não. Então não venha me dar lição de moral. Sabe que estou fazendo tudo isso para evitar uma confusão com o no futuro. Sabe que não te entrego por consideração ao amor que Rachel sente por você, já que não estou numa situação tão diferente da dela, e porque sei que você logo vai morrer. Pode não aceitar, mas logo você morrerá.
— Decidiu encontrar a mulher determinada aí no fundo da sua alma, ? — Crowley aproximou-se mais. — Decidiu parar de fingir ser boa moça? — ele deu um sorriso de lado. — Adoraria ver você botando as asinhas para fora na frente do . Ele ia adorar.
— Vá se foder — murmurou, devagar. — Vá para o inferno. Já disse que vou fazer o que quer. Me deixe em paz a partir de agora. O que te acontecer de ruim quando eu sair daqui, você vai saber que não estou envolvida. Acabou, Crowley.
Crowley riu e balançou a cabeça negativamente, falando próximo ao rosto de :
— Só acaba quando eu disser que acabou.


Fim do flashback.


suspirou novamente, balançando a cabeça para os lados. Queria esquecer tudo aquilo, queria esquecer de Crowley, queria esquecer de tudo o que acontecera. Só queria olhar para frente, pensar em seu futuro, ser feliz.
Não pretendia mais se questionar, pensar no porquê de ter sido tão idiota a ponto de cair nas conversas de Crowley e deixá-lo ameaçá-la.
Ignorando o peso que voltava à sua consciência, caminhou para o quarto em passos largos para se trocar. Tinha coisas para fazer. Coisas melhores que se lamentar pelo que fizera no passado.

***

Elizabeth suspirou e abriu a porta, revirando os olhos em seguida.
— Isso só pode ser brincadeira, né? — ela murmurou, dando espaço para a pessoa passar. — O que quer aqui, ?
— Eu vou muito bem, Elizabeth, obrigado! — disse debochadamente e Elizabeth revirou os olhos novamente enquanto fechava a porta. — Só quero saber umas coisas.
— A propósito, feliz aniversário — Elizabeth deu de ombros e jogou-se em seu sofá de qualquer jeito. — O que quer saber?
— Por que diabos está envolvendo a nessa coisa sobre meu passado? — perguntou de forma direta, jogando-se no outro sofá. — É tão difícil para vocês notarem que não a quero metida nessas coisas?
, já parou para pensar que nem sempre é a inocente da história? — Elizabeth revirou os olhos. — Ela é minha amiga, sim, é. Mas por que diabos acha que eu quem a leva para o seu passado? Não preciso disso. Sei o suficiente. Ela é curiosa e você sabe. Agora pare de fazer tempestades em copo d'água.
— Se ela descobrir o quão próximo de Castellamare eu e meu pai éramos, por mais que não quiséssemos, ela vai saber as coisas sobre a invasão na casa dela quando ela era mais nova.
Elizabeth ergueu o corpo, parando para pensar melhor. O interesse de pela família de era até estranho, olhando por esse lado. Como diabos ela não ligara uma coisa à outra? Castellamare estava metido naquela droga toda. sabia! tinha visto seu rosto, tanto na noite da invasão em sua casa quanto no dia em que fora sequestrada. Ela sabia da vida de Castellamare, já havia soltado várias coisas para Elizabeth. Como diabos ela não percebera antes?!
— Como eu não notei isso antes? — Elizabeth murmurou mais para si que para . — Ela não está investigando você. Mas sim o Castellamare. Por isso ela está sabendo tanto da sua vida. Não fui eu quem passei essas coisas para ela, mas sim ela para mim. Pelo menos boa parte do que temos.
— Como assim "boa parte do que temos"? — juntou as sobrancelhas, curioso. — Ela disse para mim que só tinha o que vi na casa dela.
— Claro, o resto está aqui — Elizabeth revirou os olhos. — Mas por que ela não pode saber sobre quem matou o pai dela?
mordeu o lábio inferior e fitou o chão.
— Se não me engano, o pai dela trabalhava com o Charlie. Ou fez um trabalho para ele. Eu não sei bem — deu de ombros, sentia-se desconfortável. — Meu pai não se dava bem com ele e...
— Espera — Elizabeth o interrompeu e fitou-o nos olhos. — Acha que ela vai sentir raiva de você porque seu pai pode estar metido nisso?
— Por que você nunca me deixa acabar de falar? — perguntou emburrado. — Acredito que ela fique com mais raiva por eu saber disso e nunca ter dito a ela.
— Seu pai estava mesmo metido, então? — Elizabeth ignorou a primeira pergunta de e sentou-se na mesinha do centro da sala, ficando de frente para . — Há coisas sobre ela que você não sabe também, . Ela não vai te deixar nunca mais. Nem mesmo se seu pai tivesse matado o pai dela. O máximo que poderia acontecer seria ela desejando a morte do seu pai e, bem... — Beth deu uma risada nervosa. — Mas, de qualquer forma, assim como você enterra coisas do seu passado, também o faz. Pare de se preocupar. A intenção dela era só te informar que você tem alguns primos em Palermo. Incluindo o filho de Castellamare.
abriu a boca mas não conseguiu pronunciar nada. Castellamare deixara um filho? Mas... O quê?
— Como é? — perguntou arqueando uma das sobrancelhas. — Filho... Que filho?
— Apolo Castellamare, algum tipo de empresário na Itália. Isso é tudo o que sei dele — Elizabeth mordeu o lábio inferior. — E eu não deveria estar te falando nada disso. Senão daqui a pouco o seu "eu sanguinário" volta à tona.
— Não vou matar ninguém na Itália — ele revirou os olhos. — A não ser que seja necessário.
— Vocês vão descobrir mais coisas quando chegar lá. Por isso eu insisti para que lesse os arquivos, . Mas você é um idiota cabeça dura! — Elizabeth exclamou bufando. — Seu maior problema sempre foi esse, . Você sente medo demais de desenterrar as coisas do passado para tentar resolvê-las. Pare com isso. Se dê uma chance de ficar livre disso uma vez por todas. Sabe que seu pai gostaria de te ver agindo feito um adulto de verdade.
— Não fale como se eu fosse uma criança ou um adolescente em crise — disse firme. — Na última vez que revirei o passado descobri um irmão serial killer, em seguida, todos souberam quem realmente matou Owen, passei um dia na cadeia, fugi, minha garota foi pega, perdeu nosso filho e meu nome ficou sujo por aí.
— Se não quiser ser tratado como criança ou adolescente, pare de agir como tal — Elizabeth revirou os olhos e se levantou. — Faça o que tem que ser feito, . Ignore o medo. Você não vai perder a , não mais.
a fitou intensamente. Estava curioso. Elizabeth sabia disso. Sabia que conseguiria fazê-lo ler todas aquelas coisas e ir atrás de seu passado mais uma vez. Justo no maldito momento em que ele decidira que nunca mais faria isso, que nunca mais procuraria confusão e só faria seu trabalho.
deu uma risada fraca e bagunçou os cabelos, perguntando firmemente:
— O que vocês querem, afinal? Me enlouquecer de verdade?
— Não, — Elizabeth revirou os olhos. — Só queremos que acabe com isso.
— Acabar como? — perguntou baixo. Não entendia o que estava acontecendo. — Eu não li tudo o que ela tinha, Beth — ele suspirou, nem sequer notando que chamara Elizabeth pelo apelido. — Eu só quero ir até a Itália, resolver as coisas e voltar para cá.
Elilzabeth suspirou.
— Preste atenção, — ela segurou-o pelos ombros. — Você não vai voltar rápido da Itália. Coloque isso na sua cabecinha. Ao pisar lá, eles saberão quem você é, pelo menos a polícia saberá. Eles vão te mostrar coisas, vão te pedir ajuda. Você aceitará porque Charlie aceitará. Você aceitará porque um tio seu foi assassinado na frente de todas as mulheres e crianças da família.
Ao saberem quem você é, vão pedir para você matar todos os suspeitos e o próprio assassino. Eles sabem de você. Sabem da sua fama. Sabem do que é capaz. Sabem da sua inteligência. Eles querem e precisam de você.
— O que te leva a pensar que vou aceitar ajudá-los se nem ao menos os conheço? — perguntou rindo fracamente e tirando as mãos de Elizabeth de seus ombros. — Não quero contato com eles.
— Sua curiosidade me diz tudo, . Sua vontade de conhecer suas raízes também — a mulher revirou os olhos. — Você diz isso porque seu pai sempre o fez pensar assim. Mas, acredite, ele nunca quis te afastar de seus parentes. Só queria que você ficasse longe de Castellamare. Mas não adiantou nada.
— Você está louca — murmurou. — Isso, você enlouqueceu de vez e está indo pelo mesmo caminho.
— Talvez eu realmente tenha enlouquecido só de pensar que você me ouviria dessa vez — Elizabeth balançou a cabeça negativamente. — Você vive dizendo que não quer reviver o passado, mas não o deixa para trás também. Desde que fui embora e voltei, por mais que não sinta nada por mim e eu sei que não sente, você não me ouve. E sabe que estou certa. Isso é o pior de tudo. Sejamos adultos, . Você está com e eu com o Jesse. Seguimos em frente.
Sabe quantas coisas precisei contar ao Jesse ou a própria para salvar sua pele esses últimos anos? Sei que te machuquei, mas éramos novos, porra! Eu ouvia meus pais e não o coração. Hoje eu não sinto nada por você. Absolutamente nada. Mas seria bom sermos o que éramos na faculdade. Conversar da forma que conversávamos, ouvir da forma que nos ouvíamos. Mas tudo bem, você é muito idiota pra isso. Guarda rancor demais. Isso também não ajuda.
não respondeu. Sabia que boa parte dali era verdade, mas sabia que outra grande parte tudo que Elizabeth dissera era uma mera tentativa de persuadi-lo. E estava funcionando. Por mais que não quisesse, estava. e Elizabeth tinham o mesmo tipo de poder de persuasão e aquilo o irritava. Se não fizesse por Elizabeth dizer, faria por dizer porque elas sempre concordavam mesmo que indiretamente. E assim seria até o último dia de sua vida. Triste realidade, para ele.
— Vá se foder com esses joguinhos — murmurou apontando o dedo para Elizabeth, fazendo-a rir fracamente e abaixar a cabeça. — Faça isso com o Pender, não comigo. Você é uma idiota. Uma completa idiota, Elizabeth. E eu sou mais idiota ainda por sempre cair na sua — ele revirou os olhos. — Conte-me mais sobre isso, então.
Elizabeth riu e deixou seu corpo cair sobre a mesinha de centro novamente.
Sabia que falar daquele jeito com o faria abrir os olhos. Ele era um idiota, um completo idiota marrento. Mas sempre a escutava quando falava daquela forma extremamente carinhosa — só que ao contrário — e comparando a situação atual com a do passado. Eles eram amigos acima de tudo. Podiam brigar a ponto de quase se socarem, mas eram amigos. Elizabeth era quase uma versão mais agressiva de Emma. gostava daquilo. Talvez tivesse se apaixonado por Elizabeth, anos atrás, por isso. E talvez isso que mais chamara sua atenção em . Mulheres que trabalham com investigação sempre são parecidas assim? Isso era o que mais se perguntava. Sendo ou não, ele não ligava. Só não queria se afastar mais das que encontrara.
Principalmente .
Sua .

***

Nicholas jogou a mochila em um dos ombros e esticou a mão livre para Colbie, que a segurou no mesmo momento.
— Você vai ficar na casa da sua avó a partir de amanhã, né? — Colbie perguntou baixo.
— Vou sim — Nicholas revirou os olhos. — E você poderia ir para lá no fim de semana.
Colbie sorriu.
— Se minha mãe deixar, eu vou sim. E precisamos terminar os trabalhos da semana que vem — ela murmurou chutando as pedrinhas que apareciam em seu caminho, já que já tinham saído da escola.
— Acabamos de sair da aula, Colbie! — Nicholas exclamou risonho. — Não precisa me lembrar dos trabalhos. Faremos tudo no domingo, se você for para lá comigo na sexta. E se sua mãe te deixar dormir lá.
— Tudo bem, tudo bem — Colbie sorriu novamente. — Devo levar alguns filmes, sim?
— Com certeza. E doces — Nicholas riu. — Bastante doces.
— Só se você prometer convencer sua avó a fazer aquele bolo delicioso — Colbie mordeu o lábio inferior e fechou os olhos, como se imaginasse um bolo em sua frente. Aquilo fora o suficiente para Nicholas ficar fitando-a com um sorriso nos lábios. Estava hipnotizado. Colbie era linda.
Colbie abriu os olhos e riu sem jeito ao perceber o olhar de Nicholas.
Fitaram-se por mais alguns segundos, sem parar de caminhar. Porém algo alto e forte — que Colbie julgou ser um homem que mais parecia um poste — bateu contra o corpo de Nicholas, fazendo-o ir para trás mas sem soltar suas mãos.
— Wow! — Nicholas exclamou. — Desculpa.
O homem o fitou e deu um sorriso fraco.
— Era você mesmo que eu procurava — ele murmurou e Nicholas engoliu a seco ao reconhecer aquela voz. Automaticamente, apertou mais a mão de Colbie e puxou-a para trás de seu corpo. — Pode ficar calminho, não quero nem vou te pegar... Só preciso que passe um recado para o .
— Vá para o inferno — Nicholas murmurou estreitando os olhos. — Quer dar um recado ao , vá pessoalmente. Ele ia adorar.
— Nicholas! — Colbie o repreendeu baixinho, fazendo-o revirar os olhos.
— Apenas diga para o que se ele não quiser que ninguém mais se machuque, que ele fique afastado do cofre. Porque isso não pertence a ninguém daquela delegacia — o homem ignorou o que Nicholas disse. — Apenas avise-o. Ou... — O homem se aproximou de Colbie e tocou seu rosto, fazendo com que Nicholas mordesse o lábio inferior e a colocasse ainda mais atrás de seu corpo — Vocês dois são pegos. E você sabe do que somos capazes de fazer, não sabe, Nicholas? — o homem sorriu. — Lembro que da última vez você só saiu vivo porque foi esperto. E decidimos usar isso a nosso favor. Agradeça por ter conseguido correr, moleque. Apenas agradeça. Agora leve sua namoradinha até em casa e passe o recado para o . Ah! E dê os devidos parabéns a ele por nós!
Nicholas respirou fundo e soltou a mão de Colbie, bagunçando os cabelos em seguida.
— Desgraçado! — Nicholas gritou ignorando, novamente, o medo que sentia. Quem aquele cara pensava que era para fazer e dizer aquelas coisas? Quem ele pensava que era para tocar em Colbie?
— Se acalma! — Colbie pediu, segurando-o pelo braço. — Ele pode, sei lá, voltar!
— Quem ele pensa que é para falar assim? — Nicholas perguntou, ignorando o que Colbie dissera. Estava claramente cego de raiva. — Sério, quem aquele filho de uma...
— Ei! — Colbie o cortou. — Calma, vamos para casa e você conta tudo ao .
— Será que vai acontecer mais alguma coisa? — Nicholas disse firme. — Eu só queria que esse inferno acabasse...
— Vai ficar tudo bem, pense positivo. Sei que é muito para você aguentar, mas vai dar tudo certo, acredito que estaremos protegidos a partir de agora. Basta contarmos tudo para eles.
Nicholas suspirou e puxou a mão de Colbie novamente, trazendo-a para mais perto de si. Com um sorriso fraco na boca, Colbie o incentivou a voltar a andar, sem olhar para trás.

***

— Como assim ameaçaram a Colbie e o Nicholas? — perguntou deixando o celular entre o ombro e a orelha direita, enquanto dirigia. — Por minha causa?! Por que diabos seria por minha causa, Charlie?
— Disseram para o Nicholas que você deveria ficar longe do cofre, porque ele não pertence a ninguém daqui — Charlie explicou. — E nós temos que viajar amanhã. Uma boa parte de quem iria conosco ficará aqui para dar proteção às crianças e parentes ou qualquer coisa de nós que ficarem por aqui.
— Justo — suspirou. — Olhe, não vou aparecer na delegacia hoje. Me dei uma folga. Mas qualquer coisa me ligue. Diga ao Nicholas para ele não se preocupar e que ele foi muito corajoso em segurar a Colbie o tempo todo — soltou uma risada fraca. — Esse moleque dará um bom policial daqui um tempo.
— Ou um bom técnico em computação como a mãe... — Charlie suspirou. — Aproveite seu aniversário e último dia com a . Parabéns, pequeno .
riu do apelido que era tão usado até seus vinte e poucos. Era estranho ouvir aquele apelido depois de tanto tempo. Era estranho saber que mais um ano se passara e seu pai não estava mais ali.
— Obrigado, Charlie. Qualquer coisa apareço na sua casa hoje à noite — ele parou o carro em um sinal vermelho e olhou em volta. — Peça a Emma para fazer algo que eu gosto de comer, por favor.
— Peço a Deus todos os dias para você ser menos abusado, mas parece que ele me compensa com o contrário. Falarei com ela depois. Preciso desligar agora. Nicholas está por aqui e não para de encher o saco do pessoal lá de cima querendo invadir os sistemas alheios.
— Tudo bem — riu novamente. — Se cuidem aí. Até depois.
Alguns minutos depois, estava no prédio em que Eric morava. Tinha algumas dúvidas para tirar antes de voltar a jogar-se na cama de . riu com o próprio pensamento e adentrou o local, cumprimentando o porteiro que já o conhecia.
Logo já estava em frente a porta do apartamento de Eric, aguardando-o.
— Olhem só se não é o aniversariante do dia! — Eric exclamou, fazendo rir. — Parabéns, moleque.
— Obrigado — revirou os olhos e preparou-se para entrar no apartamento, mas fora surpreendido por um abraço de Eric. — Ah, não...
— Ah, sim! — Eric respondeu apertando-o mais. riu e abraçou-o de volta. — Prometi ao seu pai que cuidaria de você caso algo ruim acontecesse com ele antes de você completar vinte e cinco. E agora você está fazendo trinta e um, Prichard. Entenda, isso é muito bom porque eu achei que você morreria aos vinte e oito — Eric piscou um dos olhos e se afastou dele, deixando-o entrar. — Eu sei que é terrível ficar lembrando disso justo no teu aniversário. Mas é bom para mim vê-lo ficando mais velho e saber que fiz parte disso por muito, muito tempo.
— Tudo bem — deu de ombros e caminhou até a cozinha, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de uma cerveja qualquer. — Ei, Eric... Quero saber umas coisas e...
— Se for a respeito sobre a família do seu pai, desista — Eric falou de uma vez, fazendo revirar os olhos. — Já estou ciente de que sua garota e a Beth estão mexendo com isso.
— Eu só queria saber por que meu pai escondeu isso. Só quero o porquê, não detalhes. Não ligo para eles e você sabe — deu de ombros. — Acho que já passou da hora de eu saber de algumas coisas, não?
— Ele queria proteger você — Eric começou fitando que estava debruçado no balcão da cozinha, bebericando sua cerveja. — Por causa do Castellamare, boa parte dos seus parentes vivos são da parte de sua mãe. O seu tio que morreu, se eu não me engano, era o último irmão do seu pai. Seu avô era um garanhão, . Agora você tem, sim, algumas primas por parte de pai. Mas se não estou errado, somente duas meninas, as outras mulheres da família são as esposas dos seus falecidos tios. A sua prima mais velha se chama Amanda, se não estou errado, e a mais nova se chama Joanne. Seu pai não te queria metido com eles porque seu avô nunca quis que as duas famílias se aproximassem. Achava que a mulher italiana não suportaria os dois filhos que tivera com a inglesa. Os dois filhos, no caso, seu pai e a mãe de Kennedy.
— Mas aí meu pai se envolveu com uma Castellamare — murmurou. — No caso, irmã de Robert e ele nem sequer sabia disso.
— Exato. Castellamare é totalmente italiano — Eric o fitou. — Seu avô não se importou nem um pouco, apesar de nunca ter ido com a cara daquela família. Era a vida do seu pai e ele sempre respeitou isso. E aí sua mãe engravidou de você. E aí Castellamare decidiu se meter, porque o contrário do seu pai e seu avô, ele se importava sim com a rivalidade das famílias. Até porque seu avô não era totalmente italiano. O pai dele era inglês, por isso essa mistura na aparência do seu pai e Rosie, mãe de Kennedy.
— Claro, claro — mordeu o lábio inferior. — Aí Castellamare decidiu aprontar e separar meus pais. E aí meu pai aceitou isso porque achava que Kate, minha mãe, o estava traindo. E aí o cresceu com todo aquele ódio por nós, porque foi criado pela mãe.
— Exatamente — Eric fitou o chão. — Você não precisa desenterrar isso tudo, . Pelo menos não hoje. Curta seu dia.
— Kate morreu porque estava doente — continuou. — E meu pai só soube disso quando estava à beira da morte naquela maldita casa.
— Exatamente — Eric sussurrou. — E aí me pegaram. E aí o Jesse já estava começando a trabalhar com os federais e aquela foi praticamente sua primeira missão. E estamos aqui agora.
— Certo — virou o resto da cerveja que havia na garrafa e fitou Eric novamente. — Então amanhã eu estou indo para o berço da minha família?
— Sim — Eric riu fracamente. — Mas relaxe. Vá para o apartamento da e tenha uma ótima noite de sexo, não se preocupe com isso.
— Eu já tive uma ótima manhã de sexo, Eric, obrigado — murmurou revirando os olhos e Eric soltou uma gargalhada. — Mas eu realmente já estou indo para o apartamento dela, porque não me importo de ter uma longa tarde e noite de sexo também.
— Eu sei que sim — Eric piscou um dos olhos. — Feliz aniversário de novo, little .
— Porra, parem de me chamar disso! — exclamou. — Já não basta Charlie com essa mania escrota. Agora você também?
— Esse sempre foi e sempre será seu apelido, meu caro — Eric piscou um dos olhos. — Todo mundo naquela delegacia sempre te chamou assim. Pergunte ao Charlie!
— Quero que todos vocês se fodam — murmurou revirando os olhos, mas um sorriso brincava no canto de seus lábios. — Agora vou embora. Obrigado por tudo, Eric.
— Não agradeça — Eric sorriu amigavelmente. — Agora vamos parar com toda essa demonstração de afeto, já estouramos o limite. Vai logo para a sua garota, por favor. Suma daqui, ande, .
riu e balançou a cabeça negativamente.
— Se quiser, apareça na casa da Emma mais tarde — gritou já da porta. — Sabe como ela tem mãos mágicas para cozinhar.
— Sei! — Eric gritou de volta, sem se dar o trabalho de levantar. — Estarei lá!

***

As horas passaram mais rápido que esperava.
Estava no quarto de , jogado em sua cama com um lençol cobrindo apenas seu quadril e sua perna direita. estava em pé de frente para o grande espelho que tinha dentro de seu guarda-roupa, encarando-o vez ou outra, fazendo-o sorrir. não podia negar que ainda estava totalmente em forma e mexia com o psicológico de por mais que ela não quisesse aquilo. E vê-lo daquela forma desleixada e totalmente nu em sua cama não ajudava.
— Não vai se arrumar, ? — perguntou enquanto terminava de fechar a blusa branca e social que escolhera. Estava linda. Simples, mas linda.
A calça jeans preta era apertada e aquilo dava uma grande visão de uma das partes do corpo dela que mais adorava, nos pés tinha uma sapatilha qualquer que ele não se importava. Mas tudo estava combinando perfeitamente, deixando-a ainda mais bonita por mais que usasse uma roupa simples e comum do dia a dia.
— Depois de você — murmurou preguiçosamente com um sorriso nos lábios. — E pare de me olhar assim antes que eu levante e arranque suas roupas de novo.
— Eu já estou pronta — ela deu de ombros, amarrando o cabelo em um rabo de cavalo alto. — Você sabe como eu gosto quando arranca minhas roupas, hum? — ela sorriu fracamente, virando-se para ele. — E realmente não me importaria se você o fizesse agora.
— Eu também não me importaria de fazê-lo — murmurou mordendo o lábio inferior e observando ficar de joelhos na cama e engatinhar em sua direção. — Não me importaria mesmo.
— Você é insaciável — sussurrou enquanto passava uma perna em cada lado do corpo de , fazendo-o suspirar.
— E você adora isso — ele murmurou, segurando-a pela cintura firmemente e erguendo seu corpo devagar, para beijar seus lábios levemente. — Se você ficar no meu colo por mais dez segundos eu juro que desisto de ir para a casa da Emma.
gargalhou e ajeitou-se mais sobre o colo dele.
— Gosto disso — ela mordeu o lábio inferior e fechou os olhos. — Mas vamos, temos que ir!
resmungou alguma coisa e soltou alguns palavrões quando saiu de seu colo em um pulo.
Ainda um tanto quanto emburrado, foi para o banheiro tomar um banho. riu e balançou a cabeça negativamente, jogando-se em sua cama de qualquer jeito. Ficaria ali olhando para o teto e rindo feito uma idiota até que estivesse pronto.
Alguns minutos se passaram e estava devidamente arrumado e cheiroso. adorava quando trazia as coisas para a casa dela, até porque ela amava o perfume que ele usava e, quando levava para sua casa, ela usava.
Conferiram se não estavam esquecendo nada e saíram de uma vez. Iriam com o carro de , já que ele pretendia beber — apesar de ter uma viagem a trabalho para fazer no dia seguinte — e ele não tinha a mínima moderação quando começava a fazê-lo. traria o carro, como sempre faziam, se não bebesse tanto quanto o namorado.
Chegaram à casa de Emma em pouco mais de dez minutos. Nicholas atendera a porta animado, pulando em cima de e quase derrubando-o enquanto o parabenizava e dizia o quão importante era para ele ter vivo e em sua casa.
riu fracamente disso e adentrou a casa, correndo para a cozinha após cumprimentar Colbie — que estava sentada no sofá comportadamente conversando com Charlie — e Charlie na sala.
— Olá — disse sorrindo para Emma. — Quer ajuda?
— Ei ! — Emma exclamou empolgada, dando um abraço rápido na amiga. — Não preciso de muita coisa, mas se quiser pôr os pratos na mesa seria ótimo.
— Tudo bem — deu uma risada fraca e pegou o que Emma pedira. — O que temos para o jantar?
— Massas com muito queijo porque o adora — Emma respondeu fazendo gargalhar. — Fiz uma lasanha e um macarrão com algum tipo de molho que encontrei a receita na internet, já que o lindíssimo avisou que viria para cá de última hora.
— Típico dele — sorriu para Emma. — Mas então, tudo bem?
— Não muito — Emma deu de ombros. — Mas nada que melhore daqui uns dias.
— Emma meu amor! — chegou na cozinha gritando, fazendo a mais velha revirar os olhos. — O que fez para mim?
— Merda — Emma murmurou, revirando os olhos e lhe deu um sinal feio, fazendo-a rir. — Fiz a lasanha que gosta e alguma coisa com macarrão e molho que encontrei na internet. Aprenda a avisar que vem para minha casa cedo, sim? A propósito, parabéns, bebezão! — Emma sorriu e puxou-o para um abraço. — Mas por favor, não encha a cara hoje, tudo bem?
— Viemos em um carro só, Emma. Ele vai encher a cara — se intrometeu suspirando. — Não vou saber lidar com esse homem bêbado de novo.
— Shhh! — pediu silêncio e afastou-se de Emma, puxando pela cintura. — Era para ser nosso segredinho, ! Agora ela vai segurar as bebidas.
— Não vou segurar porque hoje é seu aniversário... — Emma murmurou e sorriu — E porque não será eu quem ficará de ressaca amanhã, tampouco quem limpará seu vômito mais tarde.

Após alguns minutos conversando, todos se dirigiram à mesa — até mesmo Eric, que chegara um pouco depois. O cheiro da comida de Emma era inconfundível e único. adorava. Sentia-se uma criança quando via as coisas que Emma preparava em sua frente.
Comeram enquanto conversavam bobagens e riam. Pareciam até mesmo uma família de verdade. Bem, na cabeça de eles realmente eram. Emma e Charlie sempre lhe deram força para tudo, sua vida inteira. Nicholas era uma coisa que viera deles, como um bônus. E ele adorava aquele moleque. Colbie era a possível namoradinha dele, por que não aceitá-la e incluí-la naquilo também? Eric era basicamente a mesma coisa que Emma e Charlie. Um amigo acima de qualquer coisa, gostava de tê-lo por perto por mais louco que ele fosse. E, bem, era... ! era apenas ela. Deveria estar ali.
Tudo estava certo, sentia aquilo. Talvez não por muito tempo, porque em sua vida tudo era daquela forma e ele estava ciente disso. Mas sentia-se extremamente bem ali, estava feliz, animado. Ansioso. Talvez até um tanto esperançoso com o que o futuro o reservara. Estava em paz. Depois de muito tempo, estava em paz. Mas aquela paz não duraria. Ele sabia e aceitava aquilo. Mas o que importa? Ele só queria viver aquele momento.
Congelar o tempo ali seria ótimo. Mas ele, infelizmente, não tinha esse poder. A única coisa que o restava era aproveitar cada segundo daquela noite. No dia seguinte precisaria se despedir de algumas pessoas — incluindo , a mais importante delas — e nem sequer sabia se voltaria para a Inglaterra.
Se tudo corresse exatamente como Elizabeth disse, ele demoraria mais tempo para voltar, mais tempo para descobrir suas raízes e tudo o mais. Não tinha certeza de mais nada. Mas aproveitaria aquela noite como se fosse a última, rezando internamente para que tudo corresse bem na Itália, por mais difícil que aquilo fosse já que em sua vida nada nunca corria bem por mais de três dias. Mas é o que dizem: o que tivesse de ser, seria.


Capítulo 9

Flashback.

Paul sorriu de uma forma nada inocente ao observar a mulher adentrar sua sala. Ela parecia mais bonita que o normal; os cabelos estavam soltos e caíam sobre os ombros, vestia jeans apertado e um casaco grosso — porém apertado —, nos pés uma sapatilha qualquer.
— O que quer aqui, ? — ele perguntou calmamente, observando-a com um sorriso no canto dos lábios. — Você não me parece com uma cara boa.
— Por que me quer escrevendo matérias sobre o ? — perguntou direta. — Não sabe como ele é, Paul? Quer que eu faça o quê? Provoque-o?
— Sim, exatamente isso. Provoque-o. Quero ver o que ele causa em você — Paul murmurou levantando-se. — E pelo jeito não é algo que me faça muito feliz.
riu, encarou Paul e riu novamente. O que diabos aquele homem estava falando?
— O que te faz pensar que o me faria sentir algo?
— Talvez a sua decepção na primeira coletiva com ele — Paul se aproximou. — Talvez a forma que o olhava quando o via de relance na faculdade indo buscar a Elizabeth. Talvez por esse seu maldito interesse na vida desse cara.
riu mais uma vez e balançou a cabeça negativamente.
— Não preciso ficar te dando motivos para o que faço ou sinto — deu um passo à frente e deu um sorriso torto. — O não é nada.
Paul sorriu e se aproximou mais, pousando uma das mãos na cintura de firmemente. Encarou-a nos olhos e sussurrou:
— Prove.
mordeu o lábio inferior e fitou-o por alguns segundos. Sabia que não sentia nada por Paul. Sabia que com o tempo que passara ali, passou a detestá-lo. Mas as coisas estavam começando a dar certo. Estavam começando a ficar em seu devido lugar.
O caminho estava livre para ela. E do jeito que Paul andava agindo por aí — pelo pouco que sabia —, não duraria muito. Talvez ele não passasse daquela noite. Talvez não passasse da próxima. Quem se importava, aliás? já se importara sim, já. Mas estava tudo tão diferente. O tesão já não era o mesmo, os beijos já não eram iguais, a magia já tão existia mais. Era tudo automático; Paul pensava ser seu dono, dava crise de ciúmes, ela sorria de lado, ele a beijava, faziam um sexo meia boca e agiam como se nada tivesse acontecido.


Fim do flashback.


abriu os olhos e fitou o teto do quarto. Não aguentava mais aquela cena aparecendo diante de seus olhos toda vez que os fechava. Não aguentava mais engolir o bolo em sua garganta toda noite desde que Paul morrera. Não importava quanto tempo se passara desde sua morte, não importava quanto tempo estava com , aquele maldito bolo sempre continuaria em sua garganta. Talvez porque ela queria contar para tudo o que acontecera naquela época, talvez porque ela queria xingar Paul de todos os palavrões possíveis ou talvez pelo simples fato de se sentir a maior idiota do planeta por ter acreditado em Paul. Pelo menos o tempo naquela Redação a ajudara em algo; tinha ali, um livro lançado contando toda a história da equipe de Charlie com detalhes, amigos mais que verdadeiros entraram em sua vida e sua (pseudo) amizade com Elizabeth voltara. De fato, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim.
— Um milhão de libras pelos seus pensamentos... — sussurrou agarrando-a pela cintura e apoiando o queixo em seu ombro — O que foi?
— Nada demais — sorriu e fechou os olhos, sentindo a respiração de bater tranquilamente em seu pescoço. — Não vai se arrumar?
— Eu não queria... — suspirou e , por mais que não o olhasse, sabia que ele estava revirando os olhos — Minha mala já está pronta. O voo é daqui a sei lá, quatro horas?
— Na verdade — ela olhou para o relógio em seu pulso —, daqui duas horas e meia.
— Temos tempo — resmungou e aconchegou-se mais contra . — Só espero que você não se meta em merda enquanto eu estiver fora.
— Espero que você — ela frisou bem — não se meta em merda enquanto estiver fora. Parece que você tem o dom para se meter em porcarias, se virou para ele. — Me promete que vai se cuidar, pelo menos?
— Pode ficar tranquila. Vamos descobrir o porquê de não enviarem o corpo do Brian — a fitou nos olhos e colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. — Vai ficar tudo bem. Não vou procurar meus parentes e espero que eles não me procurem também. Talvez eu faça algo para o chefe da polícia italiana que é grande amigo de Charlie, mas nada demais. Só pegar uns caras para ele, não deve ser complicado. Nesses três dias fora dá para resolver.
— Eu já disse que você não ficará lá só por três dias — murmurou. — Está óbvio que tem mais coisas aí, .
— E daí? Se tiver não é da minha conta — jogou as cobertas para o alto e se sentou na cama. — Eu não me importo. Não faço nem questão de conhecer ninguém daquele lugar. Por que é tão difícil entender isso?
— Tudo bem, não vamos falar mais disso então — suspirou, cansada. — Vamos sair para tomar café?
— Se arrume — piscou um dos olhos. — Se quiser levo você no seu apartamento antes.
— Não precisa — sorriu fracamente e se levantou de uma vez. — Você nem tem tanto tempo.
apenas revirou os olhos e deixou seu corpo cair sobre sua cama novamente. riu baixo e balançou a cabeça negativamente, saindo do quarto em seguida. não tinha jeito.

***

Ryan estreitou os olhos e soltou outro suspiro. Seus pulsos doíam e sua cabeça latejava. Não conseguia pensar, não sabia o que fazer, não sabia o que falar. Nem sequer acreditava ainda no que havia visto.
À sua esquerda havia uma mulher com um buraco no meio da testa e os olhos revirados; como diabos alguém poderia ser tão cruel a ponto de fazer aquilo? À sua frente estava uma pessoa que ele jamais esperou ver ali: Jeff. E ele sorria como se nada estivesse acontecendo.
Ryan evitava olhar para sua direita, a garota — sim, garota! Não devia passar dos vinte e dois — sentada ali não parara de chorar um minuto sequer. E ele sabia por quê. Ela apanhara como se realmente fosse um saco de pancadas, tivera alguns cigarros apagados em suas coxas e barriga também. Era assustador, macabro. Ryan não sabia exatamente por que estava ali, e muito menos imaginava que encontraria Jeff Grant em um lugar como aquele. A única coisa que ele tinha certeza naquele momento é que morreria por mais que lutasse contra isso. Se fizeram aquelas coisas com duas mulheres, imagine com ele que era um policial?
— Espero que esteja pronto para sofrer um pouquinho, Ryan — Jeff murmurou. — Assim que acabarmos com a bela Marie, já que ela se recusa a falar o que queremos, partiremos para você.
— Eu nunca vou falar nada — a tal Marie murmurou. — Se quiser, me torture mais. Porém não espere nada sair da minha boca. Porque não irá.
Ryan engoliu a seco e desviou o olhar para a garota. Ela tinha os cabelos vermelhos e a pele extremamente branca, seu rosto estava machucado e sua boca escorria sangue, mas ela parecia realmente não se importar. Estava sim desesperada e não parara de chorar, mas também, pelo visto, não perdera a coragem.
— Você vai falar sim, Marie — Jeff respondeu lentamente, fitando a garota. — Você sabe que vai. Sabe por quê? Porque é fraca como seus pais. Fraca, burra e idiota como eles.
— Não fale deles! — Marie gritou, remexendo-se na cadeira com ódio. — Você não sabe o que diz. Mas eu não me importo com suas palavras — Marie relaxou. — Pode falar o que quiser, o quanto quiser. Mas eu sinto orgulho dos meus pais. Eu os amo por mais que estejam mortos. Por mais que você os tenha matado, não me importo. Sinto pena de você. Sabe por quê, querido Grant? — ela sorriu fracamente. — Sua filha nunca encherá a boca para dizer que sente orgulho de você. Ela nunca sequer abrirá a boca para dizer que é sua filha. E você ao menos imagina o porquê? Pois eu imagino — a garota riu. — Eu teria nojo de um pai como você. Um lixo de homem. O resto de todos eles. De todos os cafajestes, você é o pior. Sabe os ratos de esgoto? Todos são inspirados em você, na sua vida fracassada. Se quiser me matar, me mate. Mas que eu morra depois de te dizer a verdade: o nunca, nunca vai te perdoar por ter se metido em toda aquela merda e ter publicado coisas sobre ele. Pode me matar, pode matar o Ryan, mas saiba que o irá te pegar. Nem que seja no inferno. Cuidado, Jeff. Você pode parar no Tâmisa junto com os restos do Crowley.
Ryan não segurou a risada quando ouviu as palavras da menina. Jeff aproximou-se da garota e grudou a arma — que Ryan nem sequer notara que ele carregara — em sua testa.
— Fale o que quero saber — ele murmurou fitando-a nos olhos. — Essa é a última vez que eu peço.
Marie riu e balançou a cabeça negativamente. Fitou Jeff firmemente nos olhos e murmurou:
— Pois então me mate.
— Marie, Marie... — Jeff sussurrou — Você não quer morrer.
— Se eu falar você me mata, se eu não falar me mata também — ela sorriu abertamente. — Não me importo. Não sinto medo da morte. Não sinto medo de você.
— Não é o que parecia minutos atrás — Jeff riu e acariciou o rosto da garota com a arma. — Diga, Marie.
— Dizer o quê? O quão fodido você está? — ela riu novamente e sentiu a arma ser pressionada contra sua bochecha. Mas seu sorriso debochado continuou ali, por mais que seu coração estivesse acelerado e seus olhos brilhassem por causa das lágrimas. Não se importava mais. Precisava mostrar para Ryan que não se deve desistir e entregar as pessoas por mais terrível que a tortura seja. — Pode me matar, Grant. Mate-me da forma que fizera com meus pais, pelo mesmo motivo. Mate-me para mostrar o quão fracassado é. Mas saiba que sua filha nunca mais querer olhar na tua cara e sua ex-esposa muito menos. E nem diga que está metido nisso tudo por elas. Elas não merecem isso. Isso aqui — Marie olhou em volta — você faz porque quer, faz por você. Faz porque é um merda.
Jeff afastou a arma que segurava do rosto de Marie e colocou-a sobre uma pequena mesinha que havia ali, calmamente. Ryan não conseguia ver o que mais havia em cima da mesa, mas tinha certeza absoluta de que não eram coisas boas.
Jeff sorriu, virando-se para o casal ainda vivo.
— If I'm a bad person, you don't like me — Jeff cantarolou. — Well, I guess I'll make my own way.
Marie sentiu seu coração acelerar. Era a terceira vez no dia que Jeff cantarolava aquele trecho de "Ignorance", do Paramore. Não era uma música atual da banda, mas fazia total sentido no momento. Jeff sempre tivera bom gosto musical, isso Marie não negava. Mas aquilo definitivamente não importava. Naquele dia — ou tarde, ou noite, ela não sabia — ela desgostara totalmente daquela música que antes era sua preferida, pelo simples fato de Jeff cantá-la apenas quando estava prestes a matar alguém. Fizera isso com a mulher que estava jogada do lado de Ryan. Fizera isso com alguém também que eles não viram e muito menos sabiam quem era. Nem sequer ouviram a voz da pessoa. Aquilo acabara com Jeff, de verdade. Todas aquelas palavras de Marie não o atingiram da forma que o silêncio da outra pessoa fez.
— It's a circle, a mean cycle — Jeff cantarolou mais uma vez e um barulho de algo sendo ligado ecoou pelo local, fazendo Marie e Ryan arregalarem os olhos. O que diabos era aquilo? — I can't excite you anymore.
Quando Jeff se aproximou novamente, Marie soltou um grito de pavor. Não acreditava no que via.
Ryan estava quieto, calado, mudo. Não sabia o que fazer, não sabia o que pensar. Jeff era um... Maníaco desgraçado! Um sádico! Ele tinha uma maldita serra elétrica em mãos!
— O que... — Ryan tentou falar, mas Jeff fez apenas um sinal com uma das mãos para ele manter-se em silêncio.
— Preciso de concentração para manusear isso — Jeff sorriu. — Não estava autorizado a usá-la. Mas não me seguro. Vocês sabem como é, né?
— Você é louco — Marie murmurou. — Sádico.
— Louco, talvez — ele deu de ombro e sorriu em seguida. — Sádico, com certeza.
— Jeff, pelo amor de Deus — Ryan murmurou. — O que diabos vai fazer com isso?
— Talvez acertar no pescoço dela. O que acha, Ryan? — ele sorriu. — Ou eu posso cortar os membros dela, um a um, com ela ainda viva. Só para observá-la agonizando. Lentamente. Dolorosamente.
Marie parou de respirar por alguns segundos e Jeff aproximou a serra de seu pescoço, fazendo-a inflar as narinas e tentar se afastar.
— Afaste isso dela, Jeff! — Ryan gritou. — Para, porra!
Marie fechou os olhos e esperou Jeff acabar com a palhaçada. Mas, de repente, o silêncio reinou no lugar. Logo depois, gargalhadas explodiram por ali.
— Vocês precisavam ver as caras que fizeram — Jeff disse após recuperar-se de sua crise de risos. — Mas agora chega de brincadeiras — ele desligou a serra elétrica e colocou-a no lugar, pegando sua arma novamente. — Vai falar ou não, Marie?
— Já disse que não — ela respondeu firme. — Filho da puta!
— Ótimo — Jeff respondeu dando de ombros. — Já estava cansado dessa brincadeira mesmo.
— Eu tamb...
A voz de Marie foi cortada pelo tiro que ecoara pelo local. Ryan deixou seu queixo cair, assustado. Jeff havia mirado exatamente em um dos olhos da garota e sem nem pensar duas vezes. Marie estava morta.
— Vai fazer o que eu mandar ou quer ir pelo mesmo caminho? — Jeff perguntou e Ryan engoliu a seco. — Espero que faça o que eu mandar. Aí sua morte será mais rápida, sem sofrimento. Fechado?

***

Charlie pegou a mala que faltava e deixou-a no carro. Estavam no horário certo; não estavam atrasados, nem adiantados. Tinham tempo o suficiente para deixar Nicholas na casa da avó e ainda passar no apartamento de para pegá-lo. talvez já estivesse lá para ir com eles. Ela levaria o carro de Charlie para casa logo após eles entrarem no avião. Era a pessoa mais confiável para deixarem o carro.
— Pai, que horas vocês vão sair? — Nicholas se aproximou de Charlie, que ficou momentaneamente chocado com a primeira palavra que saíra da boca do filho. — É que eu acho que a Colbie vai ficar lá comigo esse fim de semana.
— A gente pode sair mais cedo para passar na casa dela — Charlie sorriu. — Já falaram com a mãe dela?
— Falamos sim, ela sabe que apesar de tudo o que anda acontecendo, vocês deixam seguranças lá — Nicholas sorriu de lado. — A mãe de Colbie confia em vocês, então tudo bem.
— Charlie! — Emma gritou da porta da sala. — Vem aqui dentro agora!
Charlie arqueou uma das sobrancelhas e puxou Nicholas para dentro o mais rápido que conseguiu. Emma raramente o chamava daquela forma.
— O que houve? — Charlie perguntou fitando-a. — Emma, você está pálida. O que houve?
— Vá para seu quarto, Nicholas — Emma pediu e o garoto rapidamente obedeceu. — Alguém está com o Ryan. Alguém me mandou essa foto agora — Emma estendeu o celular para Charlie. — Eu não sei se é certo nós irmos para Itália hoje.
— Não podemos passar de hoje, senão perdemos o prazo de alguma coisa que eles não querem informar. De acordo com o chefe de polícia de lá, eles precisam do para alguma coisa — Charlie encarou a foto aberta no celular de Emma e sentiu todo seu café subir pela garganta. A imagem era um tanto quanto perturbadora. Ryan estava entre duas mulheres mortas, sentado em uma cadeira com mãos e pés amarrados, o rosto demonstrava medo, desespero, cansaço. Ryan tinha o supercílio direito cortado, sua camisa estava aberta e dava para ver claramente as marcas ali; de queimaduras, cortes, arranhões.
— Ainda acha que devemos ir? — Emma perguntou. — Os italianos que se fodam, Charlie! Um dos homens mais inteligentes que conhecemos e temos em nossa equipe foi pego por um maníaco qualquer. E aquelas duas mulheres que talvez fossem inocentes?
— Vamos dar um jeito nisso — Charlie murmurou. — As coisas com os italianos precisam ser resolvidas, Emma. Você não entende...
— Claro que não entendo! — Emma elevou a voz. — Você não me explica! O motivo dessa viagem não é somente o que houve com o Brian! Assuma isso pelo menos, Charlie!
— Não, não é só pelo Brian! — Charlie elevou a voz também. — Eu e o vamos. Precisamos ir. Por mais que o Ryan seja importante para nós. E eu sei que o Jesse e o Eric serão capazes de resolver isso.
— E eu? — Emma perguntou baixo, sentindo sua garganta fechar. — Vou ficar aqui e deixar você e o lá? Você acha que eu vou aceitar isso? Ainda mais sem saber das coisas direito, Charlie?
Charlie não respondeu. Sua cabeça estava a mil. Precisava falar com Eric de qualquer jeito.
— Vou falar com Eric — Charlie murmurou. — Fique aqui com o Nicholas. Prometo que explico tudo quando voltar — ele se aproximou de Emma e puxou-a pelo rosto, juntando seus lábios. — Eu te amo.
— O que vai fazer, Charlie? — Emma perguntou baixo, sentindo os olhos lacrimejarem. Sabia que quando Charlie se juntava a Eric daria alguma merda. Sempre fora assim.
— Tirar o cofre de onde está — Charlie disse firme e Emma sentiu sua boca abrir. — Desculpe por isso, mas precisávamos mantê-lo escondido. Mas parece que já descobriram que pegamos.
— Você escondeu isso de mim todo esse tempo? — Emma perguntou trincando os dentes. — Quando pretendia contar?
— Quando fosse a hora certa. A hora de abri-lo. Mas esse não é o momento para discutirmos isso, Emma. Me desculpe — Charlie mordeu o lábio. — Eu prometo explicar tudo quando eu voltar. Deixe o Nicholas na casa da sua mãe e me espere no aeroporto.
Após dizer isso, Charlie saiu. Emma não entendera nada, sua cabeça parecia que ia explodir. Mas o que ela faria? Provavelmente aquilo era assunto de Charlie. Só se tornaria dela também mais tarde. Talvez. Naquele momento, a coisa mais certa a se fazer era pegar Nicholas e levá-lo para a casa de sua mãe.

***

Ryan respirou o mais fundo que pôde, sentiu dor pelo simples ato, mas o que poderia fazer, afinal? Simplesmente dizer o pouco que sabia? Não, ele jamais faria isso. Era fiel àquela delegacia. Poderia morrer, mas morreria honrando seus colegas de trabalho. Honrando sua dignidade.
— Acho que terei que fazer com você o que fiz com Marie — Jeff murmurou. — Vamos, Ryan. Abra a boca.
— O que quer saber? — Ryan perguntou baixo e Jeff sorriu.
— Muito bem, muito bem... Onde colocaram o cofre?
Ryan riu e balançou a cabeça negativamente.
— Acho que será mais fácil você me matar — ele respondeu baixinho. — Não vou dizer nada, Jeff. Só queria ter certeza do que estava procurando. E a propósito, você não irá encontrar esse cofre. Ninguém vai.
— Saiba que se não falar, nós pegaremos a Emma — Jeff disse firme, aproximando-se de Ryan.
— Não pegam, não — Ryan sorriu. — Como a Marie disse, você é um merda. E quem está por trás disso também é.
— Aposto que depois da imagem que enviei para a querida Cobain eles vão desistir de ir para a Itália — Jeff disse calmamente. — Talvez eu possa procurar a para tomar um café. Ouvi dizer que ela é bem influenciável. Ryan gargalhou.
— Ela te conhece — Ryan murmurou. — Pode ter certeza que conhece. Sem o aqui ela não chegará perto de você, a não ser que precise de alguma informação útil.
— E como tem tanta certeza disso?
— Não tente usar o método que usamos para interrogar as pessoas comigo, Jeff. Não tente — Ryan disse mais firme. — Não vou falar nada. Me mate. Eu não me importo.
— Mas sua namoradinha se importa, Ryan — uma voz que não era de Jeff ecoou pelo local. Ryan conhecia aquela voz de algum lugar. — Olá, amigo. Como vai?
Ryan engoliu a seco.
— Parece que ele perdeu a fala — Jeff disse de forma debochada. — O que foi, Ryan? Não esperava ver outro rosto conhecido por aqui?
— É o seguinte, Ryan, ou você fala o que queremos ou morre. O Jeff ainda não te matou porque é um sádico que gosta de torturar aqueles que já fizeram mal para ele — o homem sorriu fracamente. — Mas agora eu cheguei. Ou você fala ou você morre.
— Eu morro — Ryan murmurou. No fundo, no fundo Ryan já sabia que estava morto; se falasse, morreria. Se não falasse morreria também. Depois de ver o que Marie passara e falara durante todo o tempo, sua coragem simplesmente triplicou. Não se importava com mais nada. Sabia que sua namorada sentiria sua falta, sim, sabia! E ela realmente sentiria. O amava. Ele também a amava.
Mas ela sabia que a partir do momento em que ele se envolvera com ele poderia acabar daquele jeito. Ela o aceitara da mesma forma. Não que fosse o culpado daquilo tudo. Mas a partir do momento que alguém daquele lugar começa a trabalhar ao seu lado, é como se a pessoa tivesse sido promovida a um cargo maior e tivesse um alvo pintado no meio da testa. Para trabalhar com precisava de muitas coisas e Ryan nunca sequer pensara que tinha aquilo. Com o tempo uma amizade fora formada ali. Ryan sabia que eles eram amigos desde o dia em que eles trocaram de lugar, três anos atrás. E mesmo se não fossem amigos, Ryan jamais o entregaria. Jamais entregaria Charlie. Emma. Ou qualquer outra pessoa daquela delegacia. Jamais. Tinha um respeito por eles que era incrível, admirava os trabalhos que Emma já fizera, admirava a força de Charlie. Ver um filho morrer não deve ser uma das tarefas mais fáceis do mundo. Naquele momento Ryan mais que agradecia por seus pais já estarem mortos. Eles jamais sentiriam a dor que Charlie, por exemplo, sentira ao perder David. As outras pessoas superariam tranquilamente, seus pais não.
— Como quiser — Jeff murmurou, balançando a cabeça negativamente. — Fica por minha conta?
— Ele é todinho seu. Preciso voltar para a delegacia — o homem piscou um dos olhos. — Sabe que o sempre desconfia quando não me vê lá, certo? Diga-me, Ryan, vocês já conseguiram alguma prova contra mim?
— Você nem imagina quantas — Ryan sorriu. — Sua casa vai cair, Jack.
— Acaba com ele, Jeff — Jack sorriu. — O chefe estará aqui na Inglaterra daqui uma semana. E Ryan... — Jack o fitou — Acho que não é a minha casa caindo agora.
— Quer dizer suas últimas palavras, Ryan? — Jeff perguntou sorrindo. — Olha como sou legal com você.
— Vai se foder — Ryan murmurou.
— Belas palavras — Jeff sorriu e se virou para Ryan. — Pena que não tem mais ninguém aqui para ouvi-las e gravá-las.
— Adeus, Ryan.
— Volto para assombrar seus sonhos, Jeff.
— Estarei aguardando — Jeff piscou um dos olhos. — Não demore.
E com um sorriso no rosto, Jeff apertou o gatilho da arma que segurava. Cinco segundos se passaram e Ryan estava completamente sem vida.
Ryan estava morto. Assassinado à queima roupa com um tiro na testa.

***

andava de um lado para o outro enquanto aguardava notícias de Charlie.
Olhava o relógio de dois em dois minutos, mas o tempo simplesmente não passava. Ninguém sabia onde Ryan estava, ninguém sabia onde Charlie e Eric enfiaram o cofre, ninguém sabia mais quem ia e quem não ia para a Itália, tudo estava uma completa bagunça.
, faça o favor de se acalmar! — exclamou aproximando-se do homem, segurando-o pelos ombros. — Calma. Vai tudo ficar bem. Vocês vão resolver isso! Não precisa se desesperar.
— Charlie disse, finalmente, o porquê de estarmos indo para a Itália — murmurou. — Tem gente morrendo naquele lugar. Com meu nome no meio. Porque eu sou o único vivo, ou era. Está acontecendo lá o que aconteceu aqui, . Não me diz que tudo vai ficar bem porque você, mais do que ninguém, sabe que não vai.
— Então aceite eu ir com você — ela sussurrou colando suas testas. — Por favor.
— Não — respondeu enquanto a puxava pela cintura. — Você não sabe como foi ruim te ver naquele estado, . Foi terrível te encarar assustada daquele jeito, com marcas no rosto, nos braços, com o vestido rasgado...
engoliu a seco — Eu não quero passar por aquilo de novo, não quero que você passe por aquilo de novo. Eu só quero que você fique aqui e espere por mim.
— Mas eu nem sei se você vai voltar! — exclamou afastando-se de e mexendo nos cabelos, finalmente explicitando o quão aflita estava. — Eu só queria acompanhar vocês de novo. Sei que sou capaz disso; já superei o que aconteceu. Agora, você precisa superar também.
— Eu nunca concordei com isso — foi firme. — Nem nunca vou concordar. Se você quiser ir, vá. Isso não depende de mim. Entendo que é sua carreira e sua vontade. E sim, preciso superar. Mas não consigo. Não é tão fácil.
— Não quero brigar — murmurou. — Mas preciso que entenda que esse também é meu trabalho... Superar não é fácil, mas faz parte.
— Não sou bom superando as coisas, como pode ver — deu de ombros, tentando parecer indiferente. — Preciso para o aeroporto.
ia responder, mas o som do toque do celular de ecoou pela sala.
Logo estava do outro lado da sala com o celular no ouvido.
— Acabaram de achar onde o Ryan está — Charlie disse do outro lado da linha. — Mas disseram que ele está...
— Não precisa terminar, Charlie — o interrompeu. — Isso já era óbvio. Vamos perder nosso voo. Deixe o Eric e o Jesse de frente nisso tudo.
— Ligue para a Emma e mande-a ir para o aeroporto também. Não vamos precisar levar tanta gente daqui.
— Eles já separaram as pessoas para nós? — perguntou enquanto caminhava para onde estava novamente. — Em quanto tempo resolvemos isso?
— Sim, separaram. Olha, , não sei. Uma semana talvez seja o suficiente. Mas pode ser que aconteça imprevistos e precisemos ficar por mais tempo.
não respondeu, apenas fitou que estava sentada no sofá o esperando. Não aguentaria ficar longe dela. Não por mais de uma semana. Mas também não queria levá-la para a Itália. A amava demais para arriscá-la novamente. Contudo, não conseguia enxergar outro jeito. Estava quase cedendo.
— Nos vemos daqui a dez minutos — murmurou desligando o celular. — Estou indo.
— Não quer que eu vá com você? — perguntou baixo, fitando o chão. — Digo, até o aeroporto...
— Ryan está morto — a cortou, mesmo a contra gosto, e engoliu a seco. — Eu não sei mais o que eu quero, não sei mais para onde vou, por que vou... Por mim tanto faz, . A partir de agora, depois de tudo isso, tanto faz.
não disse nada. Sabia o que sentia. Ela sentia o mesmo. Ryan era um bom homem. Faria falta. Principalmente para a delegacia, Ryan era um ótimo profissional. Se dava bem em qualquer área que Charlie o colocava e exatamente por este motivo que ele estava fazendo dois trabalhos diferentes lá.
— Por favor, , se cuida — murmurou enquanto se aproximava mais dele. — Por favor. Só se cuida.
— O Eric e o Jesse ficarão aqui — passou uma das mãos pelo rosto de . — Não arrume encrencas. Não saia das vistas deles. Eu volto em uns dias.
— Quantos dias? — perguntou e mordeu o lábio inferior. — Quantos, ?
— Não sei — ele respondeu. — Só tenta ficar longe confusão. Eu vou fazer de tudo para voltar o mais rápido possível. Fica por aqui esses dias, não precisa ir para o aeroporto.
— E o corpo do Ryan? — mudou de assunto. Não queria lembrar-se que estava se despedindo de ali e não poderia sequer levá-lo até o aeroporto. — O que vão fazer? E os parentes dele?
— Tudo será resolvido pelo Eric — deu de ombros e caminhou até o lado do sofá, pegando sua mala. — Se cuida, tá?
— Deixa eu pelo menos ir com vocês no aeroporto — pediu enquanto fechava os olhos e selava seus lábios. — Por favor.
— Já estou atrasado, provavelmente já vou chegar indo direto para o avião — ele a fitou. — Se você for, eu não vou te soltar e vou perder o voo... Se aqui já está sendo difícil...
deu uma risada fraca e juntou seus lábios novamente.
— Vai logo — murmurou ao sentir apertar mais sua cintura, colar seus corpos e descer os lábios para seu pescoço. — Vai perder o voo...
— Que droga... — resmungou enquanto ainda distribuía beijos pelo pescoço de . — Se cuida, por favor. Não faça nenhuma loucura. Não apareça em Palermo de surpresa... se precisarmos de você, vamos avisá-la, tudo bem? Podemos fazer assim? Se eu não entrar em contato por dois dias, você simplesmente voa para lá. Estamos combinados?
— Tudo bem — mordeu o lábio inferior. — Tenho trabalho demais para fazer, . Não tenho tempo para te fazer surpresas em outro país! Mas, eu aceito voar para lá se necessário, se vocês precisarem de mim. E por favor, não se atreva a sumir por dois dias, eu não tenho psicológico para isso.
— Eu sei — deu um sorriso fraco. — Vou indo.
— Até daqui um tempo — murmurou. — Liga assim que chegar.
— Certo — mordeu o lábio inferior e suspirou. — Não vou demorar.
— Eu sei — sorriu e puxou-o pela nuca novamente. Ficaram ali por mais alguns segundos, até separar seus lábios.
— Tchau — ele murmurou mordendo o lábio inferior. — Eu te ligo. Amo você.
— Tchau, também amo você — murmurou jogando um beijo no ar quando já estava na porta. — Vou esperar!
— E cuide bem do meu apartamento! — disse alto e fechou a porta.
Ambos sabiam que o diálogo anterior havia sido totalmente retórico. não tinha tanto trabalho a fazer. E aparecer em Palermo de surpresa era a coisa mais óbvia no momento. não queria aceitar nem assumir, mas no fundo esperava acordar na manhã seguinte com aparecendo em solo italiano de surpresa. Ajudá-lo-ia a continuar. Seu orgulho e ego idiota não existiam mais. Mesmo que tivessem um acordo pré-acertado, sabiam que não daria tempo de ligar pedindo para que ela fosse; no fim das contas, a surpresa parecia mais viável e mais reconfortante naquele momento. Estavam de coração partido e sofrendo pela perda de Ryan, mas sequer podiam deixar transparecer; seria bom poder passar por cima de mais uma situação ruim como aquela estando juntos, lado a lado, como sempre estiveram.

***


PALERMO, SICÍLIA – ITÁLIA. 14h07min.


Jullie sorriu para o rapaz em sua frente. Ele estava amarrado e poucas lágrimas escapavam de seus olhos enquanto a mulher apertava mais o ferimento que havia em sua perna. Ele era até um rapaz bonito, jovem. Uma pena que era um drogadinho idiota, porém sabia demais. Tinha informações demais.
— Não tenho o dia inteiro, filhote — Jullie murmurou. — Vamos, vamos! — gritou. — Me diz onde o filho da puta do seu chefe fica!
— Eu não sei! — o rapaz gritou de volta. — Eu já disse tudo o que sei!
— Acabem com ele — Jullie disse para os homens que estavam por ali. — E quando digo acabar, é para acabar mesmo. Picote-o se for necessário. Não quero ver nem um pedacinho dele por aqui quando eu voltar.
— Como é? — O rapaz perguntou alto. Mas Jullie já estava de costas para ele, não voltaria só para explicá-lo que morreria. — Sua vadia!
Jullie balançou a cabeça negativamente e riu baixinho ao ouvir dois disparos.
Vadia. Aquela era a palavra que ela mais ouvia por aí. Mal sabiam aquelas pessoas que tudo o que fazia era para o bem. Ninguém nunca a vira matando alguém inocente. Não que ela já não tenha presenciado algo assim, já presenciara sim. No mundo em que vivia, era normal ver pessoas inocentes morrendo. Mas ela nunca sequer tentou. Jullie sempre soube onde pisar. Nunca precisou de ninguém guiando-a. Seguia ordens dos dois lados: o bem e o mal, mas raramente apertava o gatilho.
Não se importava, no entanto. Ganhava dinheiro o suficiente para manter-se viva. Tinha informação o suficiente para conseguir ainda mais. Tinha inteligência o suficiente para saber que se mexesse com alguém inocente, o "lado do bem" acabara com ela. Era melhor fazer seu trabalho sujo em pessoas sujas. Elas não fariam falta. Bom, talvez fizesse. Mas para pessoas tão sujas quantos.
Então ela não era uma vadia, certo? Ou talvez realmente fosse; aliás, o que era ser vadia? Ela não se importava. Sua consciência estava limpa. Ela realmente não se importava com o que falavam. Jullie tinha lá seus segredos. Talvez por isso que não se importava com palavrões alheios.
— Trabalho feito — Jullie piscou um dos olhos ao passar por um homem que estava no portão da casa em que estava. — Aguardo o pagamento amanhã às nove da noite. Não se atrase. Se chegar lá às nove e um posso fazer com vocês pior do que fiz com o garoto e ainda uso as informações contra vocês. Pode ter certeza que vão acreditar em mim.
— Estarei lá. Não precisa se precipitar, Jullie — o homem sorriu. — Fico feliz por ter voltado para os trabalhos sujos. Ouvi por aí que havia parado.
— Foi necessário a pausa — ela sorriu de uma forma enigmática. — Mas já estou de volta. É o que importa. Amanhã às nove em ponto, com o dinheiro certo. Nem um centavo a menos, nem um a mais. Quantia exata. É bom que chegue antes de mim, não gosto de esperar.
— Está marcado, pequena Jullie — ele piscou um dos olhos. — Um jantar depois do acerto de contas, o que acha?
— Não me envolvo com os caras que me pedem esse tipo de trabalho — ela riu. — Mamãe sempre me disse que eu conseguiria algo melhor.
— Como o Apolo? — Ele perguntou de forma debochada quando Jullie já se virava para sair andando.
— Bem, tecnicamente, ele é empresário — ela se virou para ele e sorriu abertamente. — Já você...
— Sempre me botando para baixo... — ele riu e balançou a cabeça negativamente — Não vou desistir de você, mulher. Acredite.
— Não pedi para desistir. Gosto de ser bajulada — ela piscou um dos olhos. — Até amanhã à noite, Fernando.
Jullie tinha um sorriso no canto dos lábios quando voltou para casa. Fernando era um homem atraente, ela sabia. Porém, por mais que negasse, não conseguia esquecer Apolo. Não conseguia se envolver com outra pessoa que não fosse ele. Talvez ela o amasse. Talvez não. Não importava. Estava focada em outro trabalho que tinha para fazer. Homens à parte.
Sim, sua mãe também a ensinara que trabalho sempre vinham em primeiro lugar. Homens só servem para satisfazer as necessidades carnais.

***

Amanda tinha um sorriso satisfeito nos lábios. Seus olhos estavam fortemente fechados e poucas roupas cobriam seu corpo perfeitamente bem desenhado.
Joanne, sua irmã mais nova, estava ao seu lado encarando o céu.
— Mandy, acha que ainda há pessoas da nossa família metidas com a máfia? — Joanne perguntou. — Ou isso era tudo história?
— Ah, Jo! Sei lá — Amanda deu de ombros. — Não fique se preocupando com isso, sério. É desnecessário. Se estiverem metidos, estamos mais que seguras. Se não estiverem, melhor ainda. Você pode começar sua faculdade tranquila.
— Certo — Joanne mordeu o lábio inferior. — Vamos beber?
— Claro! — Amanda riu da animação repentina da irmã. — Quero Martini!
— Algum drink novo ou puro? — Joanne perguntou. Ela tinha... Digamos que... Um dom para preparar bebidas de todos os tipos.
— Hmmm... Me surpreenda, Jo! Invente algo desta vez! — Amanda pediu sorrindo.
— Como quiser — Joanne piscou um dos olhos e se levantou, seguindo para o bar da pequena casa onde estavam. Porém um barulho chamou sua atenção e ele vinha da cozinha. Devagar, Joanne caminhou até lá. Parou na porta da cozinha e olhou para o local. Um homem estava de costas ali e procurava por algo. Joanne pensou em gritar, mas não o fez. Apenas refez o caminho até o lado de fora para encontrar a irmã novamente em passos rápidos, por mais assustada que estivesse. Mas parecia ser tarde demais. Amanda estava sendo puxada brutalmente pelos braços por um outro homem que ela nunca vira na vida. Amanda gritou para a irmã correr, e fora o que Joanne fizera. Precisava pedir ajuda. Mas a casa estava cercada, o que já era de se esperar. Não demorou muito para Joanne sentir algo contra sua cabeça e tudo ficar extremamente escuro. Talvez ela tenha levado uma coronhada na cabeça, talvez uma pedrada ou uma paulada, ela não sabia. Só sabia que doera e a fizera perder os sentidos. A última coisa que escutara fora um grito desesperado de Amanda.

***

— Você mandou pegar as garotas? — Jullie perguntou. — Você quer que eu arranque coisas delas?
— Exatamente — um homem alto e de cabelos grisalhos disse. Ele estava ali para representar alguém que pedira os serviços de Jullie e não queria se identificar. — Acredito que não será nenhum problema para você.
— Pelo contrário, será sim — Jullie manteve-se firme. — Não mexo com essa família.
— Ouvi dizer que já mexeu — o homem rebateu. — Não se faça de difícil. Você pode escolher o preço.
— Não há dinheiro no mundo que me faça mexer com essas garotas — Jullie rebateu. — E eu sei para quem você trabalha. Não trabalharei para ele novamente. Brincar de anonimato não me convence. Tenho inteligência o suficiente para saber sobre cada um dos meus clientes. Mexo com os dois lados da história, velhote. Não me venha com essas brincadeirinhas de esconde-esconde. Ou ele dá as caras e diz o que quer comigo e por que eu ou eu não faço trabalho nenhum para ele nunca mais. E de verdade agora.
— É o seguinte, Jullie... — ele se aproximou — Ou você faz ou...
— Ou o quê? — Jullie arqueou uma das sobrancelhas. — Me matar ele não tem coragem. Ele sabe que sei muitas coisas e posso fazê-lo chegar em quem ele realmente quer. Posso dizer com certeza que as garotas não sabem de nada. Não sejam idiotas e me passem qual o trabalho de verdade. E pare de agir como se eu não soubesse para quem você trabalha. E muito menos se aproxime assim novamente ou levante a voz para mim. Você é só um pau mandado. Não mexerei com as garotas. Liberte-as.
— Como tem tanta certeza do que diz? — o homem perguntou novamente.
— Segredo de Estado. Solte as meninas — Jullie acendeu um cigarro. — Mande seu chefe entrar em contato comigo pessoalmente, por favor. Não trato nada com secretários.
Após dizer isso, Jullie não esperou mais nada. Apenas saiu do local. Recebera uma ligação daquele velho e fora ao seu encontro, pensando que era outra pessoa. Como diabos tinham tanta coragem a ponto de tentar enganá-la?
Idiotas. Ela era Jullie Alexander. Não havia quem a enganasse.
Normalmente era o contrário: ela enganava. Enganar era o trabalho dela, acima de qualquer outro. Jullie era a Jullie. Não havia ninguém naquele lugar melhor que ela, por mais que tentassem.

***


LONDRES — INGLATERRA, 14h47min.


Jeff sentou de frente para Jack numa lanchonete qualquer.
— Não vai me dizer para quem nós fazemos isso? — Jeff perguntou enquanto olhava o cardápio.
— Você já sabe — Jack deu de ombros. — Acho que todos já sabem. Só que ninguém quer enxergar.
— Odeio esses mistérios — Jeff revirou os olhos. — Quando isso acaba?
— Quando ele quiser que acabe — Jack sorriu. — Não se preocupe. Você vai ter sua filha de volta. E quem sabe sua ex-mulher não venha de brinde?
— Não quero minha ex-mulher. Só estou fazendo isso para que esse tal "ele" devolva minha garotinha — Jeff fitou a mesa. — Não me importo de matar, eu até gosto. Por isso aceitei o acordo de primeira. Só quero que minha filha fique viva. Se encostarem nela já é outra história.
— Espero que não nos ameace — Jack murmurou encarando-o nos olhos. — Porque isso é o que mais fazem. E é exatamente por isso que há mais homens mortos que vivos no nosso grupo.
— Não quero ameaçar ninguém, essa não é minha onda. Eu gostei de fazer o que fiz hoje — Jeff riu. — Não matava alguém há alguns anos já. Como disse, eu até gosto. Minha filha estando viva e bem, faço isso a vida inteira até conseguir a cabeça do .
— Gostei de você — Jack riu. — Fizemos uma ótima escolha.
— Sim, vocês fizeram — Jeff sorriu abertamente. — Podemos conversar sobre isso mais vezes. Será um enorme prazer ajudá-los com o e companhia.
— Que assim seja! — Jack exclamou rindo. — Vamos fazer os pedidos?
— Claro — Jeff respondeu sorrindo. — Sinto que vou gostar de passar os próximos meses com você.
— Digo o mesmo — Jack respondeu e ergueu o braço para chamar a garçonete. — E sua filha está bem, Jeff. Saudável, maravilhosa. Uma excelente criança, como sempre foi. Uma verdadeira princesinha.


Capítulo 10

suspirou e abriu os olhos lentamente. Estava irritado de ficar sentado por tanto tempo. Estava triste por Ryan. Queria estar na cama de .
— Se lamentar em silêncio não vai resolver nada — Charlie murmurou. — Eu...
— Por que estamos aqui? — o interrompeu. — Ryan acabou de morrer, Charlie. Não sabemos quem pode ser o próximo, não sabemos o porquê disso tudo.
— O motivo está aqui — Charlie murmurou. — Acha que foi fácil para mim segurar algumas informações para não apavorar a Emma? Por Deus, ! — Charlie bufou e olhou para os lados, verificando se Emma realmente ainda estava no banheiro. — Você está aqui porque tem que estar. Você está aqui porque não quer passar o resto da vida na cadeia. Você está aqui para liberar o corpo do Brian comigo. Você está aqui para descobrir suas raízes. Você está aqui para ficar de frente com o filho de Castellamare. Você está aqui para acabarmos com isso de uma vez por todas. Você está aqui para salvar vidas. Está aqui para proteger . Isso está de bom tamanho ou quer mais motivos?
— Por que a Emma está aqui? — perguntou baixo. — Pelo que entendi, o problema é nosso.
— Para destrancar o cofre — Charlie respondeu. — Parece que há um parecido aqui. Como veio parar ou o porquê, não faço a mínima ideia. De acordo com os policiais italianos, eles têm agentes infiltrados nessa "quadrilha". O filho do Castellamare está no meio disso tudo, mas não é só ele. Parece ter algo maior envolvido. O pequeno Castellamare é um empresário conhecido pela Itália, jamais se meteria em algo arriscado se não se garantisse.
— Por que precisam de nós? — perguntou. — Não faz sentido eles quererem isso.
— Na realidade, precisam de você — Charlie olhou para trás novamente, conferindo onde Emma estaria. Ao voltar-se para , disse firmemente: — Parece que alguém está agindo como você. Fingindo ser você. Precisamos entender o porquê.

***


— O que está te perturbando? — A voz de Jesse ecoou em seus ouvidos, fazendo-a levantar o olhar. — Você está desse jeito há alguns dias. Não suporto te ver assim, Beth — ele segurou-a pelas mãos. — Sabe que pode contar comigo para tudo, sim?
— Eu sei — Elizabeth sorriu sinceramente, apertando mais as mãos de Jesse. — Só estou preocupada com tudo isso. Você está responsável pela morte de um amigo sendo que deveria ter ido para a Itália para colocar juízo nas cabeças de Charlie e . Entendo que a morte de Ryan causou muito efeito por aqui, um desespero fora do comum. Mas... Acho que todos vocês deveriam agir com a frieza que o Charlie agiu. Não quero que ache que estou dizendo que o Ryan não era importante, porque ele fez coisas impossíveis e arriscou toda sua carreira para nos ajudar. Mas... A essa altura do campeonato deveríamos estar preparados para tudo. A cada morte que passa, devemos agir com mais frieza. Frieza nos ajuda a pensar, nos ajuda fazer coisas que nunca imaginamos fazer.
— Concordo. Mas veja, eu estando com o Charlie ou não ele vai aprontar, Beth. Não adianta — Jesse suspirou. — Eu não poderia fazer nada se fosse. O máximo que eu poderia fazer era reconhecer algumas coisas que eram daqui e foram parar lá na Itália.
— Que coisas? — Elizabeth perguntou arqueando uma das sobrancelhas. — Achei que eles estivessem indo pela morte do Brian. Que já faz um bom tempo, aliás.
— Coisas deles, Beth — Jesse soltou as mãos de Elizabeth e bebericou seu café. — Nada demais.
Elizabeth revirou os olhos, contrariada. Queria saber o que realmente estava acontecendo. Charlie não era de mudar os planos de repente, Jesse não era do tipo que fugia das coisas daquela forma, jamais aceitaria ir para Itália após a morte de um amigo se estivesse no estado normal. Ela queria entender o que realmente estava acontecendo por ali. Assim como queria.
Elizabeth tinha certeza absoluta que estava procurando coisas que fizessem sentido e que explicasse toda aquela confusão.
— Tinha me esquecido o quão complicado era lidar com policiais — Elizabeth bufou e Jesse soltou uma risada fraca. — Falo sério. Vocês são seres de outro mundo.
Jesse riu novamente e arrastou sua cadeira para o lado de Elizabeth.
— Não somos, não — ele murmurou, segurando-a pela nuca e dando-lhe um selinho demorado. — Você que é curiosa demais. Mas eu realmente espero que esteja ciente de que eu não abrirei a boca.
— Você é um idiota por isso — ela murmurou enquanto fechava os olhos sentindo Jesse se aproximar novamente. — Você é um completo idiota.
— Eu sei disso — ele sussurrou. — Mas sou um idiota que você não consegue mais se afastar por mais que eu me negue a contar o que quer saber.
— Eu te daria um tapa na cara agora se não estivesse com tanta vontade de te beijar — Elizabeth murmurou e Jesse riu, puxando-a pela nuca novamente.

***


PALERMO — SICÍLIA, ITÁLIA.

— Você quer que eu fique responsável por um amigo seu? — Jullie perguntou para o tio. — Está louco, tio? Não posso envolver mais ninguém nisso!
— Preciso que me ajude, Jullie — o homem suspirou. — Você sabe que vai ajudar, não sabe?
— Sei, mas por que você não pode ajudá-lo? Eu não posso simplesmente arriscar esse seu tal amigo e metê-lo onde eu normalmente me meto — Jullie revirou os olhos. — Entenda, eu não faço só coisas boas para conseguir o que quero.
— Sei disso. E tem meu apoio em tudo o que faz, porque faz direito. Mas ele também não faz só coisas boas, Jullie. Nunca fez nem nunca vai fazer — ele disse firme. — Eu só preciso que coloque-o lá dentro. A partir dali ele se vira.
— Que horas ele chega aqui? — Jullie perguntou, dando-se por vencida. Sabia que não poderia negar nada para o tio. Ele a colocava onde queria, quando queria e como queria. Seu tio era a pessoa mais influente daquele lugar, o melhor policial que já vira em toda sua vida. O tinha como seu maior exemplo já que perdera os pais tão cedo. Não poderia negá-lo um favor daquele. Talvez esse amigo fosse alguém inteligente e que aprendesse rápido. Bom, ela pelo menos esperava isso.
— Ele já chegou em Palermo, só está terminando de se instalar — o mais velho sorriu. — Obrigado, Ju.
Jullie mordeu o lábio inferior. Fazia alguns anos que não ouvia alguém chamando-a por aquele apelido. Era estranho. Fazia com que ela se sentisse uma menininha, uma criança indefesa. Não gostava de apelidos.
— Não me chame assim — ela pediu baixo. — Sabe que não gosto de apelidos.
— Você deveria parar com essa paranoia de se sentir indefesa quando alguém te chama por um apelido — seu tio se aproximou. — Você é uma mulher incrivelmente forte. Qualquer uma não aguentaria o que você vem aguentando, Ju. E muito menos faria o que você vai fazer por mim.
— Obrigada — Jullie tentou sorrir e se levantou. Sua tarde estava extremamente agradável até seu tio chamar para uma maldita conversa. — Quando for para eu encontrar esse seu amigo misterioso, me ligue. Preciso resolver uma coisa agora.
— Ele já está a caminho. Desmarque seus compromissos de hoje — o mais velho disse firme, fazendo-a arquear uma das sobrancelhas. — Scusa¹, Ju. Não tive tempo de informá-la antes. Sabe que está tudo uma grande confusão, sim? Pessoas morrem por aqui o tempo inteiro. Não tenho tempo para conseguir informá-la sobre tudo.
— Me diga o real motivo desse cara vir para cá, tio. Eu tenho a leve impressão de que ele é alguém realmente importante. Sinto medo disso. Para ser importante para você precisa de muita coisa — Jullie aproximou-se do tio novamente. — Quem é ele?
O mais velho soltou uma risada fraca.
— Daqui uns quinze minutos você vai saber. Tenho certeza que já viu o rosto dele por aí. Ou pelo menos um rosto parecido — o mais velho piscou um dos olhos. — Não precisa ficar preocupada.
— O que está aprontando, velho Antoni? — Jullie insistiu, chamando o tio da forma que chamara durante a adolescência. Quem sabe assim não o amoleceria e o faria abrir a maldita boca?
— Adoro quando me chama assim — ele sorriu. — Me lembra quando éramos felizes. Mas isso não vai me fazer dizer nada além do que já disse, Ju. Isso é o suficiente. Pare de ser tão ansiosa.
— Eu só quero entender — ela murmurou. — Não custa nada me explicar!
— Você vai entender daqui a pouco, Jullie — Antoni disse firme. — Espere.
Jullie jogou-se na cadeira novamente e passou as mãos pelos cabelos curtos.
Antoni sorriu fracamente, tentando acalmá-la. Mas ele estava tão nervoso quanto ela. Não sabia se daria certo juntar pessoas tão diferentes para um trabalho de tal porte, por mais que fosse melhorar e facilitar as vidas de ambos os lados. Tudo o que Antoni queria era saber por que diabos estavam matando pessoas em sua Sicília. Palermo não era o único lugar afetado, não era o único lugar a sofrer com aquelas coisas horríveis que vinham acontecendo. Pessoas morriam ou eram sequestradas a cada dois dias por ali, assim como estava voltando acontecer em Londres. Ele estava informado.
Tinha seus contatos perdidos por lá, falara também com seus mais novos amigos. E com os velhos também.

***


Charlie mordeu o lábio inferior e arqueou uma das sobrancelhas. Não entendia porque estavam ali, para falar a verdade. Mas sabia que Charlie estava estranho. Primeiro ele disse que precisavam ir encontrar um velho amigo dele. Logo depois dissera que precisaria melhorar o italiano — que ele não falava há anos e nem se lembrava bem da pronúncia —, depois dissera que precisaria ser uma nova pessoa; nome diferente, jeito diferente, estilo diferente, modo de falar diferente. Mudar totalmente. Pelo menos nos dias que estivesse ali em Palermo.
— O que falaram para você naquele maldito telefonema? — perguntou de uma vez por todas, fitando o mais velho. — Você não diria para eu fazer todas essas coisas à toa. Vamos, Charlie. Desembucha.
— Vamos sair — Charlie disse firme. — Explicações maiores quando chegarmos no lugar que quero.
— Explicações maiores agora, Charlie — rebateu, segurando-o pelo braço firmemente quando o mais velho tentou passar por ele. — Eu só sei, muito mal, o porquê de estar aqui. Não vou sair com você sem saber para que.
Charlie riu fracamente.
— Acredite, você não vai é querer ficar sozinho nesse quarto — Charlie murmurou. — Você vai conhecer, finalmente, quem pediu sua presença aqui. Pare de desconfiar de mim. Quem deveria estar desconfiado sou eu, mas nem por isso estou. Conforme-se com o fato de que ficará longe da por um tempo. Ah! Não tente mandar em mim — Charlie sorriu e deu um tapinha de leve no rosto de , soltando-se dele em seguida. — Ande logo. Não queremos chegar atrasados no nosso primeiro compromisso, certo?
revirou os olhos e bagunçou os cabelos. Estava confuso e isso não deveria acontecer. Não tinha por que Charlie agir daquela forma. Não era segredo para ninguém que toparia qualquer coisa para acabar com aquele inferno de uma vez por todas. O que ele mais queria era aquilo. Charlie deveria saber. Talvez fosse por Emma estar por ali, talvez fosse porque ele só queria provocá-lo. não sabia ao certo, mas gostaria de saber e entender. Não estava ali em Palermo pelo motivo que Charlie falara e já estava ciente disso, mas em nenhum momento pensara em pegar o primeiro avião de volta para Londres. Queria acabar com aquilo logo. Mas Charlie parecia querer o contrário. Ou pelo menos demorar mais para fazê-lo. Era como se tivesse algo naquele lugar que o prendesse, que o fazia necessitar de mais tempo naquele ambiente estressante e medíocre. não entendia. De maneira alguma. Charlie nunca agira nem falara daquela forma, por que isso agora?
— Velho doente — sussurrou, revirando os olhos novamente. Charlie escutara e ele sabia daquilo, mas preferiu não comentar nada mais já que Charlie continuara em silêncio.
Charlie abriu a porta e esperou passar para fechá-la em seguida.
— O lugar que vamos não fica muito longe daqui — Charlie murmurou. — Mas seria perfeito se você apressasse o passo.
— Para que tanta pressa? — perguntou arqueando uma das sobrancelhas. — Não vai te matar se tentar me explicar pelo menos um pouco do que está acontecendo.
— Você logo irá saber. Agora ande — Charlie puxou-o pelo braço para atravessarem uma rua. — Você vai gostar do trabalho que prepararam para você. É a sua área preferida.
não respondeu, apenas deixou sua cabeça trabalhar. Estava em dúvida sobre algumas coisas que Charlie dissera, sim, estava. Mas perguntar não resolveria nada. O único jeito era apressar os passos para chegarem logo no maldito lugar misteriosos que Charlie tanto falava.
Mais alguns poucos minutos de caminhada bastaram para Charlie adentrar um prédio bem estruturado. não perdeu tempo observando a arquitetura do local, aquilo não o importava. Ao adentrar o local junto com Charlie, uma fraca risada escapou de sua garganta, fazendo com que Charlie o olhasse com um pequeno sorriso nos lábios. O ambiente era praticamente o mesmo da grande Londres.
— Ambiente agradável, sim? — Charlie perguntou enquanto adentrava o elevador mais próximo.
— Muito — respondeu com o mesmo tom e atraindo a atenção das outras duas pessoas presentes no elevador. — Bonita delegacia. Agora gostaria de saber o que estamos fazendo nela.
Charlie não respondeu, apenas riu e apertou o botão de número 4. Bastaram alguns segundos para as portas do elevador se abrirem no quarto andar.
Saíram e Charlie, então, começou a guiá-los em direção à sala de número 15 que pertencia ao seu antigo amigo. não falara mais nada, apenas seguiu o mais velho. Pararam em frente à porta e Charlie deu duas batidas de leve. Uma voz um tanto quanto grossa ecoou de dentro da sala, mandando-os entrar. Charlie girou a maçaneta e logo ambos estavam dentro da sala. O sorriso nos lábios de Charlie era animado, notava-se isso de longe. só não entendia o porquê. O homem que gritara provavelmente era um grande amigo de Charlie. Caso contrário, ele não ficaria animado daquela forma.
fechou a porta atrás de si e virou-se para o velho que agora abraçava Charlie de maneira animada. Ele tinha os cabelos um tanto quanto grisalhos, olhos azuis e a pele tão branca quanto a de Charlie. No canto da sala, encostada à parede, estava uma mulher de cabelos extremamente curtos e pretos. Seus olhos claros eram praticamente hipnotizantes e a maquiagem escura que ela usava chamava ainda mais a atenção. Porém dava para ver claramente que ela não estava nem um pouco feliz com aquela situação. Dava para ver em sua cara que estava detestando ter que ficar ali, seja lá para o que fosse.
— Então você é o famoso ! — O amigo de Charlie exclamou, aproximando-se de e estendendo a mão. — Sou Antoni. Um velho amigo de Charlie. Conheci seu pai também, aliás.
sorriu fracamente e apertou a mão do mais velho, não se dando o trabalho de dizer algo.
— Jullie Alexander — a mulher que estava apoiada à parede disse alto, acenando para os dois homens. — Sobrinha de Antoni.
— Por favor, controle sua pressa, Jullie — Antoni pediu sorrindo, em tom de brincadeira. — Sentem-se.
pôde notar quando Jullie revirara os olhos e arqueou uma das sobrancelhas. A mulher parecia ser insuportável. Ou pelo menos ter um gênio parecido com o dele. De qualquer forma, insuportável.
Charlie se sentou de imediato e permaneceu de pé. Não queria sentar, queria saber por que estava ali e ir descansar em seguida.
— Sei que está cansado e quer ir embora logo, . Mas sente-se, por favor — Antoni pediu educadamente. — Não pretendo demorar, mas me sinto incomodado quando estou explicando algo para alguém de pé. Mania de velho.
deu uma risada fraca e sentou-se ao lado de Charlie.
— Tio, eu realmente preciso ir e...
— Serei direto, Jullie — Antoni a cortou rapidamente. — Você logo poderá voltar para seu trabalho. Espere.
Jullie mordeu o lábio inferior e sentou-se na beira da mesa. Antoni suspirou e preparou-se para falar porém, mais uma vez, Jullie fora mais rápida.
— Temos grandes problemas por aqui. Provavelmente iguais aos de vocês em Londres — ela pegou os papéis em cima da mesa do tio e jogou-os em cima de . — A coisa toda é o seguinte: tem uma quadrilha que deve ser formada por conhecidos de vocês. Os caras não são italianos, posso dizer com certeza. Estive com o chefe deles. O cara é um canalha e comanda tudo, absolutamente tudo. O filho de Robert Castellamare está metido, mas não tenho provas o suficiente sobre ele. Mas posso garantir que vira e mexe ele se encontra com o chefão. O cara é um empresário conhecidinho por aqui, ninguém acreditaria em nós se jogássemos toda a merda no ventilador. Seu trabalho, , é o seguinte: você vai se passar por um dos capangas do cara. Você não precisa dizer nada, ouvi dizer que tem problemas com o italiano. Fale somente o necessário. Eles não precisam de palavras, mas sim de ação — ela piscou um dos olhos, continuando em seguida: — Se eles te mandarem matar, mate. Se te mandarem vigiar, vigie. Mas faça isso como um policial, por favor. Sei que você é do tipo estouradinho. Tente se controlar no trabalho. Isso é um resumo do que meu tio ficaria falando por uma hora.
— Jullie... — Antoni murmurou e soltou uma risada fraca enquanto folheava os papéis. — Desculpe por isso, . Mas...
— Tudo bem — deu de ombros. — Só de olhar para sua sobrinha notei o quão insuportável ela é. Mas acho que entendi qual é meu trabalho por aqui. Só peço para que você me explique melhor. Sua sobrinha não é das mais pacientes, eu também não sou. Isso não daria certo.
— Mas, bem... — Charlie murmurou limpando a garganta. — A intenção era colocá-los juntos.
— Não trabalho acompanhado — disse calmamente. — Ainda mais com uma péssima companhia dessas.
— Eu também não trabalho acompanhada e, se te conforta , também não sou chegada às más companhias — Jullie sorriu educadamente. — Só tome cuidado, mocinho — ela afinou a voz. — Eles podem ser conhecidos de vocês, mas até chegar a eles você precisa passar por uma série de coisas. E ops — ela fez um biquinho —, eu já passei. Se não se importa, tio, vou embora agora.
Jullie pegou sua bolsa e seguiu em direção à porta. Antoni não se deu o trabalho de chamá-la de volta, muito menos Charlie. E estava concentrado lendo os papéis em suas mãos, pouco se importando com as últimas palavras de Jullie – não precisaria dela para nada, ele deduziu.
Jullie abriu a porta e sentiu algo bater contra seu corpo. Preparou-se para xingar alto, porém, assim que abriu a boca, nenhum som saíra. Estava chocada. Seus olhos estavam tão arregalados que ela sentia-se como uma criancinha medrosa acabando de ver uma cena de um filme de terror.
— O que faz aqui? — Perguntou baixo juntando as sobrancelhas.
— O que você faz aqui? — A voz do homem ecoou pelo local, fazendo Antoni dar um sorriso fraco antes de se levantar e seguir até a porta. — Antoni, querido!
— Apolo! — Antoni exclamou e parou de ler os papéis imediatamente. — Entre, rapaz, entre.
Jullie continuava em choque. Suas narinas inflavam e voltavam ao normal a cada dois segundos. Sua cabeça estava a mil e ela não entendia bulhufas do que estava acontecendo naquela sala. Como se não bastasse Antoni mandá-la ficar esperando por e ela acabar discutindo com ele, Apolo ainda aparecia? Que porra de circo era aquele?
Antoni pediu calma com o olhar e Jullie passou as mãos pelos cabelos.
— Antoni, pode vir aqui fora um minuto? — Jullie perguntou baixo. Antoni sorriu para Apolo e pediu para que ele esperasse junto a Charlie e . Jullie segurou o mais velho peço braço e puxou-o para fora, batendo a porta da sala em seguida.
— Mas que porra é essa?! — Ela perguntou, segurando-se para não gritar. — Você tem o que na cabeça, tio? Não pode colocar Apolo e de frente agora!
— Shhh, acalme-se — Antoni sorriu. — Sei o que estou fazendo.
— Não, não sabe! — Jullie exclamou. — Você está sendo precipitado! Louco! agora sabe quem é Apolo, mas que droga!
— Se você soube no primeiro dia que era com ele que se envolveria de novo, por que o não pode? — Antoni provocou.
— Porque eu sei me controlar, ao contrário do inglês engomadinho ali! — Jullie rebateu firme. — Não vê que esse maldito é capaz de voar no pescoço de Apolo nesse exato momento?
— E como você se controla, Jullie? — Antoni abaixou o tom de voz. — Entregando-se para ele sempre quando tem chance?
— Vá se foder! — Jullie exclamou. — Sabe que se eu não fizer isso ele dá um jeito de descobrir o que eu realmente faço.
— Eu preciso mantê-lo por perto, Jullie. Apenas entenda isso — Antoni suspirou. — Preciso de opções, de outras formas de pegá-lo. Preciso de mais profissionalismo. Alternativas. Sei que você é capaz de fazer seu trabalho sozinha. Mas eu preciso dar chances a outras coisas. pode ser uma grande ajuda, precisamos ter o Apolo por perto. trabalha conhecendo seus inimigos, por mais que tenha ficado chocado com o fato de precisar conhecer Apolo tão rápido.
— Está dizendo que não sou uma boa profissional e que não tenho que trabalhar sozinha? — Jullie perguntou emburrada.
— Estou dizendo que não é capaz de criar laços afetivos com Apolo — Antoni respondeu calmamente. — Muito pelo contrário, querida.
— Você é um idiota. Está sendo precipitado! — Jullie ignorou a primeira frase do tio. — Apolo não é uma pessoa fácil de lidar e enganar.
— Nunca disse que era — Antoni sorriu. — Agora vá embora. Se ele perguntar por que estava aqui, invente algo. Diga que foi assaltada ou sei lá.
— Assaltada em Palermo... — Jullie murmurou debochadamente enquanto revirava os olhos. — Por que não pede para o inglês engomadinho me tirar dessa?
— Tchau, Jullie — Antoni murmurou enquanto apertava o botão para pedir o elevador. — Te vejo amanhã.

***


LONDRES — INGLATERRA.

soltou um suspiro fraco e tocou a campainha da casa simples onde estava parada em frente há minutos. Queria deixar de ser impulsiva, mas não conseguia. Não conseguia tirar de sua cabeça o maldito telefonema que recebera. A raiva ainda corria por suas veias. Quem aquela maldita achava que era para ligar para seu trabalho e falar aquelas coisas?
Não demorou muito para a figura de Camille aparecer na porta. Seus cabelos estavam mais loiros que nunca, estava mais magra que o normal e quase não tinha maquiagem em seu rosto. Mas seu sorriso irônico estava em seus lábios.
— Achei que você tinha deixado de ser impulsiva — Camille murmurou e apoiou-se no batente da porta. — Velhos hábitos realmente nunca mudam. Achei que três anos e meio tinham sido o suficiente para você tomar jeito. Mas vejo que estava errada...
— Só vim te dar um aviso — deu um passo à frente e, antes que Camille pudesse fazer algo, segurou-a pelos cabelos e puxou-a para dentro da casa, fechando a porta com um dos pés. — Afaste-se daqui se não quiser apodrecer na cadeia.
— Decidiu mostrar as garrinhas de verdade, docinho? — Camille murmurou, ignorando a leve dor que sentia próximo à nuca. — O não vai gostar de saber disso.
— E o que vai fazer? — a encarou nos olhos. — Ir atrás dele na Itália para falar que apanhou de mim novamente, Camille? Quantas vezes vou ter que te pedir para ficar longe de mim e parar de me ameaçar por telefonemas idiotas?
— Tá com medinho de descobrirem quem você era? — Camille provocou mais uma vez. — Você deveria parar de fazer ceninha e ser você mesma, como está sendo agora, sempre.
não disse nada, apenas empurrou o corpo magro de Camille para a parede mais próxima e forçou-a contra a mesma.
— Preste bem atenção, Camille — fez uma pausa para fitá-la nos olhos. — Não se ache esperta. Todos que pensaram assim acabaram mortos. Isso não é uma ameaça, não gosto dessas coisas. Mas pare. Não fique atrás de mim, não se envolva nos meus trabalhos. Não pense que me conhece, não pense em sequer falar qualquer coisa sobre nosso passado por aqui. Esqueça que me conhece, esqueça que tem um pouco do meu sangue correndo por suas veias. Acredite, eu não quero ficar te dando tapas na cara a vida inteira.
— Eu não vou sossegar enquanto não acabar com você, — Camille disse firme e soltando-se das mãos da prima. — Não importa o que eu tenha que fazer. Mas eu vou acabar com você e essa sua vidinha de merda. Nem que eu tenha que ir pessoalmente contar para o tudo o que você já fez.
— E vai falar o que? A sua versão idiota do maldito acidente que aconteceu com seus pais? — se aproximou dela novamente. — Acha que o vai acreditar em você? Acha mesmo que alguém vai acreditar?
— Não espero que acreditem em mim. Só espero que eles vejam quem você realmente é — Camille disse firme. — Sei que não foi culpa sua o que houve com nossa família. Mas se ninguém fez nada até hoje, sim, é culpa sua. Culpa dessa sua mania ridícula de sempre querer resolver tudo! Será que o já sabe por que vocês estão juntos até hoje? Ou como isso aconteceu? Seria uma pena se ele descobrisse tudo e mais um pouco da sua vida, não?
— Já falei para sair da minha vida — murmurou. — Já te pedi de todas as formas para ir embora. Inclusive fizemos um acordo que eu limparia sua pele por aqui sempre só para você se manter calada sobre um passado que somente a nós duas pertence. Em troca, tudo que eu queria, era que você calasse essa boca imunda e sumisse daqui. Creio que você se lembra. Não me ameace mais.
— Não estou ameaçando. Estou tentando te alertar que ficar escondendo isso não vai adiantar — Camille a fitou firmemente; no fundo, não queria destruir a vida da prima como dizia. — Sabe que, assim como você, eu não presto. Sabe que minha maior vontade é ficar cara a cara com o novamente e contar tudo o que sei.
— E você acha que ele vai acreditar em quem? — se aproximou novamente. — Na mulher que ele ama e dorme praticamente todas as noites ou na prima marginal que nem sequer um caso foi? Uma transa ou outra com o não define o que você é ou não é na vida dele, Camille.
— Abre seu olho, — Camille riu fracamente. — Eu não me importo em ser um nada na vida do . Aliás, antes um nada do que um tudo falso e mentiroso como você. Sabe que quando ele descobrir coisas sobre mim não vai se importar. Ao contrário de quando souber as coisas que você já fez, inclusive contra ele. A propósito, você já contou para ele que já conhecia o Castellamare há bastante tempo ou deixou todos esses anos se passarem sem ele nem desconfiar de que o velho Robert já fez algo contra nós? — Camille perguntou e manteve-se em silêncio. — Espero que esteja ciente de que o filho dele está vivo. E espero que esteja ciente de que o filho sabe de exatamente tudo o que Castellamare já fez e pretende finalizar tudo o que o pai começou.
— Onde descobre tantas coisas assim? — perguntou fitando a prima. — Não é possível que uma marginal como você saiba tanto.
— Todo mundo tem seus informantes, . Todos têm sua forma de investigar — ela sorriu. — Não preciso ter um diploma para saber procurar, pesquisar e entender minhas raízes. Não preciso que todos me conheçam para eu saber de coisas. Apenas sei procurar, ao contrário de você.
— Só vá embora daqui, Camille. Suma — se aproximou novamente. — É melhor para você.
— Está com medo de que eu seja assassinada e se tiver alguma testemunha de que você esteve aqui a culpa caia sobre você? — Camille provocou. — Fique calma. Ninguém vai encostar em mim agora.
— Seja lá para quem você esteja trabalhando para tentar me derrubar novamente, informe que isso não vai adiantar — disse devagar. — Mas, se eu fosse você, iria embora e desistiria dessa ideia. O que eu queria, eu já fiz. E há três anos atrás.
— Não, . O que você queria não conseguiu ainda. Você sabe disso — Camille rebateu. — Você sabe que não cumpriu a promessa que fez para sua mãe.
— E não cumprirei — disse firme. — Essa é a única coisa que prometi que não irei cumprir. Ouça meu conselho... Se não quiser mais alguns tapas para sua coleção, vá embora.

***


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA.

fitou Charlie rapidamente e se levantou em seguida já com a pasta que Jullie entregara fechada. Antoni se aproximou dos homens e ignorou o ambiente um tanto quanto tenso da parte dos ingleses.
— Gostaria de apresentar para você, Apolo, um velho amigo meu que veio para cá para nos ajudar — Antoni disse calmamente. — Esses são Charlie Raymond e...
— Noah. — interrompeu a fala de Antoni, sorrindo educadamente. — Noah Rogers.
— Apolo Castellamare — Apolo respondeu educadamente, enquanto apertava a mão de Charlie. Lembrava-se claramente daquele nome. Mas Charlie era sua menor preocupação no momento. Ele não conhecia o nome daquele Noah. Essa era sua preocupação; já seu rosto não era tão estranho assim. Lembrava o que procurava; e todos haviam dito que o próprio viria para Palermo. — Não era o que viria, Antoni?
— Ele teve alguns problemas — , ou melhor, Noah respondeu tranquilamente. — Não há tanta diferença entre nós dois.
— Parentes? — Apolo perguntou arqueando uma das sobrancelhas.
— Crescemos juntos — sorriu mantendo sua atuação, a fim de sondar mais e entender o que estava acontecendo ali. — Mas indo direto ao ponto... Já há alguma ideia de como irei entrar lá?
Charlie mordeu o lábio inferior para reprimir um sorriso e Antoni logo percebeu, soltando um suspiro aliviado disfarçadamente. era inteligente. Até um pouco mais do que Antoni imaginava.
A cabeça de realmente trabalhara muito rápido, até ele mesmo se chocara com sua ideia. E se chocara ainda mais com o fato de Apolo não conhecer seu rosto de imediato, ou saber disfarçar e mentir tão bem quanto ele. Tinha certeza absoluta que Apolo pretendia fazer algo contra eles, apresentar Charlie pelo nome verdadeiro era a melhor escolha.
, não. Todos ali sabiam que Charlie já havia ido à Palermo antes. nem sequer se lembrava a última vez que pisada em alguma terra italiana. Mas tinha certeza absoluta que Apolo nunca o vira, pelo menos não por ali. Decidira, então, de última hora, arriscar e jogar verde. Se Apolo os conhecesse, seria apenas por nome. Caso contrário, descobriria depois. O pequeno Castellamare não devia ser nenhum idiota de pôr tudo a perder na frente de Antoni. De acordo com os papéis de Jullie, Apolo era extremamente inteligente.
Apolo queria, com toda certeza do mundo — e assim como —, vingar a morte do pai. Ninguém ali era idiota e estava ciente disso. Apolo com certeza sabia que alguém de Charlie assassinara seu pai. Talvez por isso pedira tanto para Antoni chamar os ingleses.
— Já tenho tudo arquitetado — Antoni respondeu. — E é exatamente por isso que Apolo está aqui.
— Sou um homem influente nesse lugar — Apolo sorriu. — Posso te colocar em qualquer lugar a qualquer hora. Participo das coisas por aqui internamente com a autorização de Antoni, que é um velho amigo da minha família. Cresci e consegui construir tudo aquilo que meu pai sonhou — Apolo fitou friamente o rosto de Charlie, mas logo voltou a falar: — Espero de verdade que vocês não nos decepcionem.
— Nós não vamos — disse firme. — Pode acreditar. Não vamos.


Capítulo 11

Apolo sorriu fracamente para um de seus capangas após dar suas ordens. O rapaz ainda estava tenso, parecia ser novo naquilo. Mas quem disse que Apolo se importava com isso? Ele apenas dava as ordens. Se seus capangas conseguissem fazer, faziam. Caso o contrário, morreriam. Apolo não se importava se eles tinham família ou alguém importante, para se meter naquela vida desgraçada de obedecer a um empresário não devia ser boa coisa.
— Eu só quero que vocês acabem com ele — Apolo revirou os olhos. — Há algum problema com mortes? Saia enquanto há tempo. Pois se falhar... — Apolo riu, deixando a frase no ar — Pergunte aos seus companheiros o que acontece. Eles irão te explicar melhor. Não tenho tempo para ficar aqui batendo papo. Eu bem que queria, aliás, mas tenho um encontro muito importante. Vocês têm até às onze da noite para fazerem o trabalho. E lembrem-se: torturem aquele maldito o máximo que puderem. Brinquem de roleta russa. Deem socos. Chutem. Queimem. Façam o que quiserem, mas torturem. Se me sobrar tempo, apareço lá para vê-lo dar o último suspiro.
— Você quem manda, Castellamare — um dos outros rapazes murmurou. — É para deixarmos o novato aí — ele apontou para o outro rapaz — fazer alguma coisa?
— Deixe-o com a grande honra de matar o pobre coitado— Apolo sorriu. — Apenas não me decepcionem. Estão vendo o que acontece com quem faz isso...
Um dos capangas de Apolo soltou uma risada fraca. Gostava de ficar responsável pelos novatos. Nem todos tinham sangue frio o suficiente para fazer o que Apolo mandava. Às vezes conseguiam matar, mas ficavam perturbados. Então para que deixar os coitados viverem com essa perturbação que é a culpa de matar alguém? Logo, Apolo mandava matá-los também. Era engraçado. A morte, em si, nada mais era que uma piada.

***


soltou uma risada fraca ao ouvir um palavrão ecoar em seus ouvidos.
Estava se arrumando e deixara o celular no viva-voz enquanto conversava com . A única coisa que ela sabia fazer naquele momento, era xingá-lo por ter ficado tanto tempo sem dar notícias.
— Você é um idiota! Um completo idiota! Como é que some desse jeito, ? — praticamente gritou e riu novamente. Sentia falta de sua garota. Sentia falta de seus gritos e exageros. Sentia falta de seu toque. Seu cheiro. Seus lábios. Seu corpo. Sentia falta da intensidade que havia entre eles – e estava longe dela há pouco mais de um dia.
— Me desculpe por isso — terminou de fechar os botões da camisa. — Culpe o Charlie. Ele me ocupou até o último fio de cabelo, . As coisas estão tensas por aqui também.
— Por incrível que pareça, aqui está tudo calmo. Não sei se é por que vocês se afastaram, não sei se estão planejando coisas piores... Só sei que não me sinto bem por aqui sem você. As coisas ainda estão estranhas. Calmas, mas estranhas. — terminou a frase e soltou um suspiro fraco. pôde jurar que vira a imagem de fechando os olhos por alguns segundos e encarando-o preocupadamente após ouvir aquelas palavras.
— Nós vamos cuidar de tudo. Sempre cuidamos — sorriu fracamente, na esperança de se acalmar mesmo que fosse incapaz de vê-lo naquele momento. — Não se preocupe, tudo bem? E se demorarmos, não pise aqui. soltou uma risada fraca e revirou os olhos.
— Não vou me meter no seu trabalho de novo. Tenho mais o que fazer.
— Quem ouve isso nem pensa que estava desesperada para vir atrás de mim... — murmurou, fazendo-a rir.
— Estou com saudades. Acho bom vocês voltarem logo — murmurou, mudando de assunto, e riu mais uma vez, imaginando-a fazendo um pequeno bico e enrolando-se nas cobertas de sua cama. — Eu nunca pensei que falaria isso para você, logo você, , mas eu realmente estou com saudades.
gargalhou e jogou-se na cama. Se estivesse naquele quarto, gritaria com ele por ele estar amassando toda a roupa que acabara de vestir.
— Você me ama tanto quanto eu te amo, . Não adianta se lamentar por isso — deixou um sorriso fixar no canto de seus lábios. — Agora preciso ir para o trabalho. Tenho coisas terríveis para fazer hoje...
— Juro que pude ver seu rosto ficando levemente corado ao assumir que me ama — riu. era sempre o mesmo. Perto, longe... Nunca mudava.
Sempre falava as mesmas coisas, tinha as mesmas reações. Seu jeito era imutável. Três anos poderiam ter se passado desde a primeira vez que ele dissera que a amava, mas ele sempre iria corar levemente e disfarçar. Odiava assumir certas coisas, por mais que fosse para pessoas como . — Enfim. Não vai matar ninguém, vai?
, o que acha que sou? — perguntou e ela riu. — Não vou matar ninguém. Pelo menos não agora. Só preciso me meter numa merda das grandes que Charlie pediu.
— Se cuida, por favor. Sabe o quanto eu fico preocupada quando vocês inventam essas coisas...
— Eu vou me cuidar. Fica bem. Prometo voltar para você logo — mordeu o lábio inferior. — Cuide do Nicholas.
— Ele está com a Beth hoje — murmurou. — Enfim, não vou fazer você se atrasar. Eu amo você, tá?
sorriu e respondeu calmamente:
— Eu sei disso, também te amo. Até depois, linda.
— Até depois, respondeu rindo fracamente. — Não demora.
não respondeu, apenas soltou um suspiro fraco e desligou o celular em seguida.
Não podia prometer que não demoraria naquela noite; sequer sabia se conseguiria voltar com vida.

***


Jullie acendeu um cigarro calmamente e fitou os olhos de Apolo.
— Espero que já tenha desistido da Amanda e Joanne — ela murmurou, tragando o cigarro. — Sei que você mandou pegá-las.
Apolo gargalhou.
— Como pode pensar esse tipo de coisa de mim, Jullie? — Apolo bufou. — Aquilo são coisas do seu chefinho maravilhoso.
— Ele não se meteria com aquela família de novo — ela revirou os olhos. — Só pare. Não arrume mais merdas para você.
— Fale isso para ele — Apolo murmurou de forma impaciente. — Ou está com medo, Jullie? O que é agora? Está mantendo um caso com ele também?
— Não me confunda com as vadias que está acostumado a sair — Jullie rebateu. — Não saio abrindo as pernas para o primeiro que me aparece com uma boa quantia de dinheiro, e se eu fizesse, você não teria nada a ver com isso. Minhas coisas com ele são somente negócios.
— Negócios — Apolo repetiu e soltou uma risada fraca. — Os mesmo que tem comigo?
— Você é um babaca, Castellamare — Jullie rebateu. — Não sei por que ainda mantenho contato com você.
— Sabe que não vive sem mim — Apolo se aproximou. — Mas me diga, Jullie. O que fazia com Antoni e os ingleses ontem?
— Nada que seja da sua conta — Jullie soprou a fumaça no rosto de Apolo e afundou o cigarro sobre a mesa do homem, pouco se importando se a mancharia. — Preciso ir trabalhar. Mantenha-se longe das garotas. São apenas adolescentes inconsequentes. Não precisam de mais nenhum susto. E que fique claro: elas estão livres. Espero que assim permaneçam.
— O que vai acontecer se eu mexer com as garotas novamente? — Apolo perguntou quando Jullie caminhava calmamente para porta, fazendo-a soltar uma risada fraca. — O que, Jullie? Diga! Vai correndo ligar para o priminho dela? Ou pensa mesmo que o conseguiu me enganar? Aquele filho da puta, infelizmente, é um parente meu.
Jullie engoliu a seco e virou-se para Apolo, mantendo a pose rígida de sempre dizendo firmemente:
— É uma pena você não reconhecer mais o rosto do próprio primo.
— É uma pena você ser a vadia que é — Apolo disse tentando controlar o tom de voz e se aproximou de Jullie, fazendo-a andar para trás. — É uma pena você saber de tudo e não abrir a porra da boca para mim — ele deu mais um passo, fazendo-a recuar dois. — Você. É. Uma. Vagabunda. Va-ga-bun-da. — Apolo murmurou pausadamente ao notar que Jullie batera contra a parede e cercou-a em seguida, colocando um braço de cada lado de seu corpo, fazendo-a engolir a seco novamente. — Como consegue, Jullie? Me diz. Como consegue ser assim? Frieza é de família? Idiotice é de família? E a burrice, também é? O que te faz pensar que conseguiria me enganar?
— Eu nunca tentei te enganar — Jullie manteve-se firme. — Você que acredita em tudo que ouve.
— NÃO MINTA PARA MIM, PORRA! — Apolo gritou, dando tapas na parede e fazendo com que Jullie fechasse os olhos. — Não minta. Sabe que odeio mentiras. Não faço questão de esconder nenhuma das merdas que faço. Tenho peito para assumir todas. Você, com o gênio que tem, deveria pensar da mesma forma. Mas é uma idiota que se vende por dinheiro.
— Você não tem o direito...
— TENHO! — Apolo a interrompeu. — Tenho o direito de falar tudo isso e muito mais. Tenho porque você sabe que é uma filha da puta — ele murmurou tentando abaixar o tom de voz e Jullie abriu a boca para protestar, mas logo Apolo voltou a falar: — Você é tão filha da puta que não consigo te esquecer. Faz tanta merda comigo e eu continuo com essa merda de sentimento por você. Sabe que por mais que faça todas essas coisas, não consigo te esquecer. Nunca consegui. Mas quero que você morra, Jullie. Que morra — Apolo engoliu a seco, fitando-a nos olhos. — Não é a primeira vez que você tenta acabar comigo. Mas cuidado, ela pode ser a última.
— Vai me ameaçar agora? — Jullie tomou coragem e perguntou, tentando normalizar a respiração que ficara descontrolada pelo susto. — Vai fazer o quê? Me matar como fez com as outras que não te aguentaram?
— Se for preciso, sim, Jullie.
— Você não teria coragem — Jullie murmurou. — Não teria porque me ama.
— Tive coragem com as outras. Não foi o que disse? — Apolo encarou-a seriamente. — Não brinque comigo, Jullie.
— Não sou como as outras — Jullie rebateu. — Você mesmo murmura isso entre gemidos todas as vezes que estamos juntos, Apolo. Não venha me ameaçar por desconfianças idiotas.
— Eu deveria matar você agora — Apolo manteve-se firme. — Mas vamos ver até onde você consegue ir.
Jullie riu calmamente. Apolo havia voltado ao normal, sua revolta já havia passado. Agora bastava enrolá-lo mais.
— Você é um idiota — ela murmurou. — Se eu fosse você, confiaria em mim cegamente. Não sabe quem realmente sou, Apolo.
— Você que pensa, Jullie — Apolo afastou-se da mulher. Tinha a sensação de que se ficasse mais um segundo tão próximo a ela, a agarraria. — Não imagina o quanto sei sobre você. Não imagina o quanto já te salvei de seu querido chefinho. Não subestime minha inteligência.
— Se soubesse tanto sobre mim, me mataria agora — Jullie desafiou. — A não ser que não tenha coragem.
— Apenas me aguarde, Jullie — Apolo sorriu maliciosamente. — Meu foco, no momento, é o meu priminho . Se eu fosse vocês, tomaria mais conta do rapazinho.
— Desisto de você — Jullie murmurou. — Vai ser sempre um idiota que acha que entende de tudo.
— Saia daqui, Jullie. Só saia daqui — Apolo pediu calmamente, enquanto dobrava a camisa social branca que usava até os cotovelos. — Suma o mais rápido possível. Espero não olhar mais na sua cara hoje. Senão eu juro, juro que te mato e esqueço que é sobrinha do Antoni.
— Não sinto medo de você — Jullie disse firme. — Não me ameace. Não sabe quem sou.
— Pois deveria sentir — Apolo encostou-se em sua mesa e passou a mão pelo rosto. — Pare com esse papo idiota e chato de que não sei quem você é. Pare de agir como se eu realmente fosse um descerebrado. Só suma daqui.
— Vá para o inferno, Apolo.
— Só depois de você, querida.
E então, tudo o que Apolo ouvira no segundo seguinte fora a porta de sua sala batendo com força.
Um suspiro pesado escapou do fundo de sua garganta. Jullie estava enganando-o novamente, porém, desta vez, ele tinha certeza que não deixaria barato. Esperava que Jullie fosse esperta o suficiente para saber ou pelo menos desconfiar do que a esperava do lado de fora daquele prédio.

Jullie não se deu o trabalho de sair do prédio, puxou o celular e digitou o número do tio. Ao escutar a voz do mesmo, disse apressadamente:
— Venha me buscar. Apolo sabe de tudo.

***


LONDRES — INGLATERRA.

bebericou seu chocolate quente e permaneceu concentrada no que escrevia. Tinha uma coluna para entregar dentro de dois dias e ainda estava na metade. Odiava ficar alheia e acabar enrolando para terminar seu trabalho. Odiava pensar tanto em e acabar se perdendo e esquecendo das coisas ao seu redor. Odiava também o efeito que aquele homem tinha sobre ela. Mesmo de longe.
Balançou a cabeça negativamente e voltou a atenção para o notebook. Sua coluna não estava ruim de tudo. Tinha que falar e explicar mais sobre os últimos assaltos que estavam rondando a grande Londres. Assaltos que, inclusive, mataram algumas pessoas. Aquilo estava preocupando toda a população novamente. não sabia bem como comentar sobre aquelas coisas já que, desde que ajudara Charlie, as pessoas achavam que ela tinha que trazer soluções para a cidade. Ou, no mínimo, mostrar que haviam policiais trabalhando em cima daquilo. As pessoas deveriam entender que aquele não era seu trabalho. Informá-los, sim. Fazer o papel que todos os policiais deveriam fazer, não.
Um barulho alto em sua cozinha a tirou de seu pequeno protesto silencioso, fazendo-a arquear uma das sobrancelhas e largar a coluna de lado. Não deixara nenhuma janela aberta. E de qualquer forma, não estava ventando lá fora. saiu da cama em pulo, indo até a cômoda que ficava logo ao lado e abrindo a última gaveta em seguida. E ali estava a pistola que seu pai lhe dera antes de morrer. Engoliu a seco e pegou-a, colocando na cintura, presa à calça legging que usava. Poderia não ser nada, como poderia sim ser alguém. Ela sabia disso. Poderia só estar mais paranoica que o normal. Mas não custava nada olhar.
Ao chegar no corredor que ligava até à sala, parou. Sua porta estava aberta. Aberta.
Como assim aberta se ela a trancara na noite anterior?
Ela nem sequer saíra de seu quarto naquele dia!
Revirou os olhos por puro nervosismo e deu mais alguns passos, tentando espiar a sala. Se arrependeu no mesmo momento e levou as mãos à boca para não gritar. Mas não gritaria de pavor, e sim de raiva.
— Pelo silêncio, ela não está em casa — Jack disse para o outro rapaz que estava ali e forçou-se mais contra a parede do corredor. — Vamos dar um jeito nisso aqui e caçar algo que possamos usar contra um deles. Seria interessante ver o Charlie fora do comando. Mais interessante que isso, só o morto.
mordeu o lábio inferior ao ouvir aquelas palavras. No mesmo momento tivera vontade de puxar a pistola em sula calça e atirar contra aqueles malditos. Mas se agisse dessa forma, provavelmente acabaria morta. E ela não queria morrer. Não ali, não naquele momento, não longe de . Não sem antes contar tudo o que acontecera alguns anos atrás.
, então, voltou para o quarto no mesmo silêncio em que fora para o corredor. Pegou o celular e fechou o notebook silenciosamente. Digitou uma mensagem rápida para Elizabeth e pediu para que Jesse fosse até seu apartamento ajudá-la. Poderiam prender Jack em flagrante dessa vez. Ele não teria para onde correr. sentia seu coração bater forte contra seu peito, estava sim com medo. Estava sozinha. Trancada no quarto. Sem ter como fugir. Ela podia, claro, simplesmente sair correndo e passar pela porta do seu apartamento. Mas ela sabia que Jack não seria idiota de deixar a porta aberta se não tivesse ninguém do lado de fora esperando que algo desse errado para ajudá-lo. tinha aquela noção, sabia que bandido como ele não trabalhava sozinho.
andava de um lado para o outro dentro do quarto, aguardando alguma resposta de Elizabeth. Mas tudo o que recebera em cinco minutos de longa espera, fora uma ligação. Uma maldita ligação que fez seu celular tocar às alturas alguma música que ela pouco se importava no momento. Sabia que seu celular era alto o suficiente para levar o som até à cozinha ou qualquer outro lugar que estivessem. Aquilo fora ideia dela, para sempre ouvi-lo tocar em qualquer cômodo. E naquele momento, estava arrependida. Encarou o visor e ficou em dúvida sobre atender ou não. Se ela atendesse, eles poderiam ouvi-la. Se não atendesse, poderiam simplesmente pensar que ela esquecera o celular. Mas também poderia procurar, poderiam não! Eles iriam procurar pelo barulho de qualquer jeito e encontraria a porta do quarto trancada. E ela não tinha mais tempo nem para onde fugir.
O nome de piscava desesperadamente no visor do celular, juntamente com uma foto dele sorrindo alegremente. Ela amava aquela foto. Mas simplesmente não poderia atender o celular. Ela sabia que se atendesse diria algo. E aquilo o deixaria preocupado. Jesse tinha que estar a caminho. Jesse sempre estava a caminho.
Por fim, o celular parou de tocar. Mas fora capaz de ouvir passos pelo corredor. Conforme os passos se aproximavam, seu coração batia mais forte contra seu peito. Ponderou entre tirar o volume ou não do celular; sabia que logo retornaria a chamada e, sinceramente, ela não sabia se queria que os invasores desconfiassem de que ela estava ou não em casa. Tendo em mente – torcendo, na verdade – que Jesse já estava a caminho, não silenciou o celular. Era melhor que, naquele momento, pensassem que ela não estava em casa e havia deixado o aparelho ali.
Alguns segundos depois, a foto e o nome de tornaram a aparecer no visor, fazendo-a fechar os olhos e morder o lábio inferior. Não podia atender, porque poderia ser ouvida. No entanto, ouvir a voz de em meio àquela situação repentina a ajudaria lidar melhor com tudo o que estava acontecendo, tanto em seu apartamento quanto em seu interior – sentia-se, de repente, insegura e desprotegida mesmo que tivesse uma arma em mãos; não pretendia usá-la outra vez.
arrastou o ícone que brilhava na tela e levou o celular ao ouvido, arriscando sua vida da maneira mais estúpida possível. Contudo, não disse nada, esperou que falasse qualquer coisa e entendesse que algo estava errado.
? — a chamou pelo apelido em um tom de voz baixo, quase sussurrado. — Alô?
manteve-se em silêncio, tentando segurar a vontade de chorar. Estava com medo, claro que estava. Não sabia quantos homens haviam invadido sua casa, não sabia o que poderiam fazer com ela, não sabia qual era a intenção deles e tampouco de Jack, que era um homem descontrolado e que invadira suas vidas sem mais nem menos, com a única intenção de prejudica-los ainda mais.
— Algo está errado — murmurou para provavelmente alguém que estava ao seu lado. — Meu amor, se você está em perigo, por favor, me dê um sinal. Um suspiro, um sussurro, qualquer coisa.
— Jack — sussurrou de maneira quase inaudível.
não respondeu de imediato, tentando enganar a própria mente dizendo-se que havia escutado errado e que tudo estava bem. também não se deu ao trabalho de dizer mais alguma coisa; estava apavorada àquela altura. Quase um minuto se passara e , então, finalmente demonstrou a raiva que sentia. pôde ouvir um grito — que ela tinha certeza ser a voz grave de — e uma batida contra alguma mesa ou porta, enquanto o nome de Charlie ecoava pelo local. A ação repentina de a fez pular levemente de susto, fazendo com que seu corpo se chocasse contra um dos porta-retratos que ficavam sobre sua mesinha de cabeceira. Travou no mesmo lugar, ficando com a respiração ofegante de repente. Sabia que o barulho a entregara completamente.
Do outro lado da linha, estava pirando. Ela tinha certeza. estava doido para voltar para Londres e quebrar a cara de Jack novamente – talvez matá-lo de uma vez por todas. sabia, ela sentia; e, no fundo, queria fazer o mesmo.
— Sei que não pode falar, mas, por favor... Só diga sim ou não: você pode sair de onde está? — ele pediu. — Ele invadiu sua casa?
— Sim — sussurrou enquanto deixava o corpo escorregar até o chão, ao lado da cama, ao mesmo tempo em que puxava a arma com uma das mãos, segurando-a firmemente. — Não tenho como sair — finalizou com a voz tensa, baixa e trêmula.
— Eu não acredito que esse filho da puta foi atrás dela, Emma, não acredito — pôde ouvir a voz abafada de falar, mas temeu que, pelo silêncio repentino, pudesse ser descoberta. — Não desligue, . Nem mesmo quando o Jesse chegar, por favor.
ficou em silêncio novamente, apenas respirando fundo e tentando se controlar enquanto ouvia passos se aproximarem do quarto. Arrastou-se mais com cuidado, ficando estrategicamente no canto do quarto, apontando a arma para a porta. Quem quer que entrasse, estaria sob sua mira. A escuridão do quarto a deixava ainda mais tensa, os murmúrios de adentravam seu ouvido, mas ela não entendia o que lhe era dito – estava concentrada em sobreviver.
A maçaneta do quarto girou algumas vezes, sendo forçada logo em seguida. O invasor pareceu irritar-se mais ao percebê-la trancada e iniciou uma sequência de chutes contra a madeira forte. levantou-se depressa, quase deixando o celular cair de seu ombro. Só então, os sussurros de cessaram como se ele também estivesse escutando as pancadas. Assim como , apavorou-se imediatamente ao ouvir os gritos dos invasores, que falavam coisas que lhes soavam desconexas.
— Não reaja — pediu. — Eles poderão usar isso contra você. Não atire em ninguém, sei que está armada agora. Deixe o trabalho sujo para o Jesse, por favor, por favor — implorou. — Não faça nada que possa te prejudicar.
mordeu o lábio inferior com mais força. Estava surpresa com o pedido de ; logo ele, que sempre era tão impulsivo e não pensava duas vezes antes de reagir em situações como aquela. Mas, no fundo, ela entendia. Entendia que ele queria protegê-la mesmo de longe e mesmo que ela não precisasse tanto assim; ela já havia deixado claro que sabia como manusear armas e se defender fisicamente, mas, naquele momento, estava em desvantagem e seria imprudente de sua parte reagir como tanto ansiava. Ao mesmo se Jesse já estivesse ali...
Um estrondo maior ecoou pelo quarto, fazendo com que soltasse um palavrão. e se encolhesse mais contra a parede, apertando mais a pistola entre os dedos. O celular, embora escorregadio, continuava preso entre o ombro e a orelha – os palavrões e a respiração ruidosa de acalmavam-na de certa forma, mantendo-a sã.
— Jesse está chegando — sussurrou novamente, e suspirou levemente aliviada. — Eles...
não pôde ouvir a continuação da fala de , pois, de repente, a porta de seu quarto fora escancarada e seu celular foi de encontro ao chão pelo susto, entregando-a completamente. Automaticamente, segurou a arma com mais força e não hesitou em apertar o gatilho, acertando um tiro no ombro do primeiro homem que atravessou seu caminho. Ofegante, tentou sair de onde estava a passos rápidos, a fim de seguir para o banheiro do quarto. No entanto, não teve tempo e sentiu a cintura ser agarrada rapidamente por um homem duas vezes maior que ela. Ainda assim, não largou a arma que segurava com firmeza. Com um grito alto saindo de sua garganta, ergueu-se levemente entre os braços do homem e jogou o cotovelo para trás com destreza, acertando o rosto do agressor e deixando-o zonzo, mas não o suficiente para soltá-la. Debateu-se com mais vontade, acertando-o com os pés e o cotovelo novamente, tinha pressa; sabia que os outros homens já estavam a caminho de seu quarto. Apertou o gatilho mais uma vez, desta vez, mirando para o pé do homem que a segurava. Assim, por fim, sentiu-se ser solta e virou-se com pressa, atirando mais duas vezes e fazendo com que o corpo grande fosse de encontro ao chão, debatendo-se levemente enquanto afogava-se no próprio sangue.
Na porta, com um sorriso de escárnio, estava o desgraçado que havia montado todo aquele circo. trincou os dentes com raiva e deu alguns passos para trás, até sentir a porta do banheiro em suas costas. Jack, porém, não demonstrava medo. A pouca luz do corredor mostrava seu rosto de forma sombria, deixando-o levemente assustador. Porém, ainda assim, não o temeu. Havia acertado dois homens sozinha, em um impulso incontrolável, sentia-se imbatível. E não hesitaria em acabar com Jack com suas próprias mãos.
Pensando assim, respirou fundo e mirou com atenção e ergueu a pistola com firmeza.
— Você é um homem morto — murmurou e Jack soltou uma risada fraca.
— E quem vai me matar? — perguntou, dando um passo à frente, embrenhando-se na escuridão assim como ela. — Você, ?
não respondeu, apenas apertou o gatilho sem medo algum. Porém, nada aconteceu. Apertou de novo, de novo, de novo e de novo. Não tinha mais balas; a arma estava descarregada.
Jack riu novamente e passou os dedos levemente pelo interruptor, ponderando se acendia ou não a luz. Seria interessante, para ele, acabar com enquanto encara seus belos olhos sob a luz clara, porém, a escuridão lhe parecia ainda mais atrativa. Por isso, passou direto e pôde ver o aparelho celular no chão, abaixou e pegou-o sem pressa, sabendo que estava paralisada de medo e sem saber o que fazer. Levou o celular até o ouvido e passou pelo capanga ferido, que agora apoiava-se na parede enquanto tentava estancar o sangue que saía de seu ombro.
— Oi, — Jack murmurou enquanto pulava o cadáver do outro capanga. — Gostaria de dizer as últimas palavras para sua namoradinha? Aproveite a oferta, estou dando a chance do adeus.
— Eu vou te matar — respondeu baixo, firme, entredentes. O ódio que sentia parecia que explodiria de seu corpo a qualquer momento; queria matar Jack com as próprias mãos.
— Tudo bem, a sabe que você a ama. Até logo, .
O celular foi jogado aos pés de , que seguia paralisada e torcendo para que Jesse já estivesse em seu prédio – o amigo seria sua salvação, pois sabia que sua casa ainda estava sendo revirada por outros homens e Jack tentaria mata-la naquele momento; precisaria ser forte, e não sabia se conseguiria ir muito além do que aquilo.
Em uma ação impensada e a fim de ganhar tempo, jogou a arma que segurava no rosto de Jack com força, acertando-o em um baque alto e fazendo-o soltar um murmúrio de dor. Ao vê-lo fragilizado, chutou-lhe entre as pernas com o máximo de força que teve e correu em direção ao corredor, a fim de fugir do quarto. Porém, o outro capanga de Jack, ao vê-lo machucado, segurou-a com a mão boa, empurrando-a para a direção contrária e jogando-a no chão com força. gemeu de dor, mas não se deixou abater e logo empurrou o homem machucado, tentando soltar-se dele. Chutou-o no joelho e quase conseguiu se reerguer para correr novamente, já que a mão grande e firme de Jack agarrou seus cabelos e puxou-os para trás, fazendo-a urrar de dor e voltar em direção ao chão, ao mesmo tempo em que se debatia. Em questão de segundos, Jack já estava sobre seu corpo com as mãos ao redor de seu pescoço. tentou se defender colocando os braços na frente do rosto, tentou acertar o rosto de Jack e soltar-se chutando-o novamente, mas, o nervosismo não a deixava raciocinar e defender-se da forma que fora ensinada.
O ar começou a lhe faltar, deixando-a zonza e nervosa. Os murmúrios já não eram mais tão altos, mas seus sentidos pareciam ainda mais aguçados, fazendo com que seu instinto de sobrevivência falasse mais alto. Sendo assim, podia ouvir de longe os gritos de , chamando-a, implorando para que ela ainda resistisse, para que atirasse e fizesse o que lhe fosse possível. Automaticamente, ao ouvir os gritos e o choro desesperado de do outro lado da linha, tentou esticar-se em direção ao celular, sentindo os próprios olhos encherem de lágrimas – mas já não estava mais tão esperançosa assim. O medo lhe tomou por inteira ao passo que sentia o corpo começar a ficar mais lento e a garganta cada vez mais apertada; seu pescoço estava dolorido, sua cabeça parecia que explodiria a qualquer momento e estava prestes a se render. No entanto, quando tudo ficava mais escuro do que antes, quando sentiu-se a ponto de ser levada pela inconsciência, sons de tiros ecoaram pelo quarto, revelando que a ajuda estava ali. sentiu o sangue de Jack espirrar contra seu rosto e o corpo grande e pesado caiu sobre o seu, sufocando-a ainda mais.
Porém, não demorou muito para Jesse tirá-lo de cima de si, empurrando-o para o chão e sujando-o ainda mais com sangue. sentou-se com pressa, afastando-se dos homens jogados em seu quarto e arrastou-se para trás enquanto puxava o ar com força e tossia em desespero, sentindo-se tonta e desesperada.
— Shh, está tudo bem, sou eu — Jesse murmurou e agachou em sua frente, segurando-a pelo rosto. As lágrimas caíam de seus olhos em uma enxurrada, e Jesse sentiu-se quebrar ao vê-la daquele jeito – sequer podia imaginar como havia se sentido enquanto ouvia tudo o que acontecia ali.
— Você está bem, , eu estou aqui — Jesse voltou a falar, abraçando-a com cuidado. De longe, pôde ver o celular da jornalista jogado ao chão. Deixou-a de lado por alguns segundos e pegou o aparelho, logo percebendo a chamada ainda em andamento.
— Ela está bem — Jesse disse o que queria ouvir. Do outro lado da linha, suspirou e fungou outra vez, e Jesse pôde ouvir quando o amigo jogou-se em algum lugar para se sentar.
— Obrigado — murmurou com a voz rouca e trêmula, ainda choroso e exposto, fraco, desamparado. — Quero falar com ela.
Jesse não respondeu, apenas tirou os cabelos bagunçados de de seu rosto e colocou o celular contra o ouvido dela.
...
— Meu amor, você está viva — murmurou sem conter a emoção, permitindo-se chorar novamente. — Me perdoa, , eu não podia deixar que você passasse por isso de novo. Perdão, meu amor, perdão, eu não deveria ter vindo, eu...
— Está tudo bem — murmurou, sentindo a garganta arder e segurou o celular sozinha, sorrindo para Jesse em agradecimento. — Estamos bem.
— Você foi incrível. Você é incrível, na verdade. Eu te amo.
sorriu fracamente e fechou os olhos, deixando que as lágrimas rolassem o quanto quisessem. Os soluços vieram logo depois e os ouviu em silêncio, ao mesmo tempo que engolia os próprios – não se sentia no direito de fazer com que o ouvisse chorar novamente.
não conseguiu falar mais nada, e também não quis que ela sequer tentasse. Apenas ficaram ali, ouvindo as respirações ofegantes um do outro.

***


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA.

soltou um suspiro pesado e virou-se para Charlie e Emma.
— Nunca mais me peçam para viajar para resolver problemas dos outros. Por favor — ele murmurou, passando as mãos pelo rosto, terminando de limpar as lágrimas. — E muito menos argumentem dizendo que eu poderia trazer a para cá. Vocês sabem e estão vendo que não é um bom negócio, seja lá, seja aqui. Estamos constantemente em perigo. Agora eu vejo: não existe segurança, não existe um lugar bom para todos nós, não temos como proteger uns aos outros, não importa o que aconteça. Mas, eu quero estar ao lado dela e de todos que amo o quanto for possível, sem precisar levá-los para cima e para baixo. Isso tudo não aconteceria se tivéssemos pego o Jack antes.
— É o seu trabalho, — Charlie rebateu. — Você sabe que é. E o que queria que eu fizesse? Que prendesse um policial sem uma acusação concisa?
— Meu trabalho é lá, Charlie. Na Inglaterra. Cuidar da minha população. Cuidar da minha namorada — disse firmemente. — Vocês me arrastaram para cá porque cismaram que tem parente meu aqui. Não tem, desistam dessa ideia. E mesmo se tiver, o que faz vocês pensarem que vou me aproximar deles? E Charlie, por favor, não aja como se não tivesse jogado pessoas sem provas na cadeia só pela própria proteção. Todos nós fizemos isso todos esses anos, somos todos corruptos e imundos. Um a mais ou a menos na nossa lista particular não é nada. E sinceramente, quando se trata de homens como o Jack, eu não me importo em soar egoísta e fazer tudo ao meu favor.
— Não queremos que se aproxime de ninguém — Emma se meteu. — Queremos que você os salve, conheça suas histórias e os tire da mira de Apolo. Que por sinal, é seu priminho querido. Ninguém aqui é idiota e todos sabem que você é sobrinho de Castellamare. Sua mãe não teve culpa de nascer numa família como a dele. E eu entendo sua frustração — Emma se aproximou do amigo. — Por mim, teríamos jogado sujo com todos da corja do Jack. Mas, você sabe, não podemos. Não podemos nos sujar novamente, manchar o seu nome seria pior à essa altura. Seu passado não ajuda, e você poderia acabar preso.
— Eu não vou passar mais de três dias aqui — manteve-se firme, levantando-se e ignorando as palavras de Emma. — E é o último trabalho que faço fora da Inglaterra, eu não quero, nem vou sair de perto da novamente. Sei que ela pode se proteger sozinha, hoje vimos, de novo, que ela é totalmente capaz. Mas, espero que entendam que, nós dois juntos, somos muito melhores.
se levantou e pegou as chaves do carro. Charlie suspirou e Emma se virou para ele.
— Onde você vai? — perguntou. — Jullie informou que Apolo já sabe de tudo e estava tentando dar um jeito de matá-lo.
— Vou fazer o que tenho que fazer de uma vez — deu de ombros. — Melhor que ele saiba. Aí poupamos trabalhos e ficamos de frente de uma vez por todas.
— Você é um babaca — Emma murmurou revirando os olhos. Estava preocupada. — Se algo der errado, ligue. E lembre-se: você não se chama .
— Eu sinto muito, Emma — encarou a amiga nos olhos. — Não vou fingir ser quem não sou apenas para me esconder e poupar minha vida. Se eu tiver de morrer esta noite, irei. Se eu voltar, é porque tenho algo muito maior para realizar ainda. Não vou fingir novamente ser um homem aleatório quando, na verdade, todos conhecem meu nome verdadeiro e meu rosto. Estou aqui, e o Apolo pode vir me encarar se quiser. Estou pronto para ele e para quem mais quiser tentar se meter em meu caminho.
E após dizer isso, saiu. Sabia que correria riscos de não conseguir voltar naquela noite. Assim como sabia que os riscos de não conseguir voltar para a Inglaterra dentro de três dias eram grandes. Mas quem se importava? Ele daria um jeito de voltar, ficar ali, impotente e sem saber como se proteger e proteger os outros ao seu redor é que não podia. Aquele país não era sua casa.
balançou a cabeça negativamente e voltou a caminhar tranquilamente até o carro, enquanto assobiava uma música qualquer. Parou por uns segundos ao notar uma sombra passar por trás dele, mas, pela primeira vez na vida, não se importou com o que poderia ser – ainda se sentia extasiado após o susto que levara por conta do ataque a .
voltou a caminhar calmamente até o carro, tentando dissipar a sensação de estar sendo seguido e a tensão que ainda carregava sobre os ombros. Desativou o alarme e preparou-se para abrir a porta, porém, no mesmo momento, sentiu algo tocar em sua nuca e uma dor tomou conta de todo seu corpo, fazendo-o soltar um murmúrio desesperado. Mas que porra...?
— É hora de tchau, de uma vez por todas, – uma voz desconhecida adentrou seus ouvidos.
E tudo escureceu.


Capítulo 12

suspirou e abraçou as próprias pernas. Era noite. Estava um tanto quanto frio e aquilo a incomodava. Nunca fora tão fã do frio, mas também nunca tivera nada contra ele. Pelo menos não quando tinha ao seu lado – sentia tanta falta dele. Sentia falta do seu sorriso, do seu cheiro, do seu jeito, dos seus palavrões, dos seus cigarros, dos seus vinhos para aliviar o estresse, seu instinto protetor, enfim, tudo. Sentia falta de tudo naquele homem. Queria poder passar horas e horas com ele ao seu lado. Queria poder beijá-lo quando quisesse. Queria levá-lo ao teatro para ele deixar de ser chato logo após uma briga. Queria dormir com ele. Queria fazer tudo o que sempre faziam. Aquela saudade estava matando-a aos poucos, ela sabia disso. Mas só teria que esperar alguns dias. Faltavam só mais uns poucos dias e logo seu estaria ali, ao seu lado, abraçando-a, confortando-a e dizendo que ela estava segura e que ninguém jamais ousaria a se aproximar dela novamente, fazendo-a rir com suas ideias mirabolantes e idiotas.
fechou os olhos e deixou com que as lembranças a atingissem.

Flashback.
Três anos antes, Bournemouth.

Estava um silêncio agradável no quarto. estava completamente distraído fitando o teto e o encarando. Não se importavam. Apenas queriam aproveitar, curtir o momento. Esperaram algumas semanas para conseguirem viajar por uns dias e estavam felizes por terem conseguido, finalmente, um pouco de paz e momentos apenas para os dois depois de uma temporada tão intensa. ainda precisava de total atenção e cuidado para que continuasse a tomar os remédios, mas era totalmente capaz de cuidar de tudo aquilo – mesmo que, em alguns momentos, agisse feito uma criancinha mimada, recusando-se a tomar aquelas “porcarias”, como costumava dizer.
se virou para de repente, fazendo-a encará-lo com uma das sobrancelhas arqueadas.
— O que foi? — ela perguntou baixo, ainda fitando-o.
deu ombros e sorriu fracamente, juntando seus lábios em seguida em um beijo calmo e carinhoso. Estava parecendo um adolescente na puberdade, mas era aquele efeito que causava. Era bom estar com ela, fazia com que se sentisse vivo depois de tanto tempo inerte e lutando pela própria vida – o deixava alegre, com frio na barriga e de coração acelerado; era uma sensação que ele costumava detestar, mas, agora, tendo-a em seus braços, olhando-a nos olhos, tornara-se uma das melhores coisas de todo o mundo para ele.
Não demorou para que segurasse a nuca do homem com um pouco mais de força, mantendo-o perto, sentindo-o colado em seu corpo – quase como se pudesse perdê-lo a qualquer instante; como se fosse desaparecer entre seus dedos.
Ainda assim, era estranho estar ali com ele depois de tantas coisas que passaram juntos. Era estranho estar naquela situação tão amorosa com um homem que jurou odiar a vida inteira, mesmo que, no fundo, soubesse que tal ódio não era 100% verdadeiro – de um jeito esquisito, sentia que eles tinham uma conexão muito mais profunda que podia imaginar, e ela não fazia ideia de onde vinha aquela sensação. De qualquer forma, era diferente e um bocado assustador ter o coração extremamente acelerado e aliviado por tê-lo ali. Sentia-se completa, feliz e pronta para viver o futuro sem medo algum – como se fossem invencíveis juntos. Sabia que deveria temer por estar ao lado de e tudo o que isso significava; os perigos que corria outra vez, os riscos à sua própria carreira e, mesmo que não quisesse, estava envolvida em questões judiciais também, mas perigo e risco nenhum parecia ser maior e mais forte do que o que sentia por aquele homem – e sabia que tudo era recíproco; fazia questão de mostra-la o tempo inteiro o quanto a amava; fosse com gestos, presentes, ou verbalmente, como vinha acontecendo desde que acordara do coma.
Afastaram seus lábios e ficaram ali, apenas se encarando como se nada mais no mundo existisse. Apesar de tudo, gostava daquela sensação. Sentira falta de alguém ao seu lado daquela forma. Sentira falta de ter alguém para proteger e ser protegido e amado. Sentira falta de amar alguém, por mais que não dissesse aquilo em voz alta. Palavras nunca foram seu forte, mas, com estava tentando ao máximo – seu maior medo era que ela esquecesse o quanto era amada, mesmo que ambos tenham lutado contra aquele sentimento no começo. ainda sentia certa dificuldade em se expressar claramente acerca de alguns sentimentos, medos e momentos de sua vida, porém, com , aquilo não parecia ser um problema. A mulher simplesmente parecia conseguir lê-lo claramente desde o dia em que ele acordara do coma. Ou, talvez, naquele dia ele só tivesse notado isso para valer. Com isso, sentia-se tão confortável em sua presença que, quando percebia, já estava falando sobre tudo sem sentir vergonha ou medo de estar tão exposto.
— Achei que nunca mais seria capaz de fazer ou sentir tudo isso novamente — murmurou, mordendo o lábio inferior. — Sei lá, isso aqui é diferente. As sensações são diferentes.
sorriu fracamente e juntou seus lábios num selinho rápido.
— Não fique pensando nessas coisas, vamos viver, disse firme, com um leve sorriso no canto dos lábios. — Você ganhou uma segunda chance, por que não simplesmente aproveita isso? Não é tão complicado aproveitar a vida que tem, . Não é tão difícil deixar para trás as coisas ruins que aconteceram. Vamos focar no futuro. Somos capazes de realizar tudo o que quisermos.
— Às vezes eu acho que ainda sou um moleque na puberdade tendo as primeiras crises de personalidade — riu fracamente, enquanto passava as pernas em volta do quadril de ficando por cima da mulher, porém, sem machucá-la.
— Você ainda é um pirralho na puberdade, riu. — Brincadeiras à parte... Você é todo cheio de complexo, brigas internas e inseguranças, sabe que precisa cuidar disso.
deu uma risada fraca e balançou a cabeça negativamente.
— Falou a mulher mais madura da face da Terra... — murmurou enquanto suas mãos subiam lentamente pelo corpo de . — Não falemos sobre meus complexos agora, sei que você vai sugerir, de novo, a terapia. Não estou pronto para isso. Então... — deixou a frase no ar e curvou-se sobre ela, juntando seus lábios num selinho demorado – não queria falar sobre coisas sérias ainda, principalmente num momento tão descontraído e gostoso como aquele que estavam tendo.
Alguns segundos depois, com ainda sobre seu corpo, uma gargalhada escapou alta da garganta de ao sentir os dedos ágeis do homem forçarem contra suas costelas, numa cócega que ela até diria ser gostosa e irritante ao mesmo tempo, fazendo-a se contorcer embaixo do corpo de .
— Pare já com isso, ! — tentou gritar, mas sua voz saiu abafada devido aos risos que soltava. Odiava quando fazia aquilo, mas era impossível não rir. — Por favooooor! implorou, sentindo os olhos lacrimejarem enquanto acelerava ainda mais os movimentos dos dedos contra ela, fazendo-a rir mais.
achava aquilo uma coisa divertida, parecia uma simples garota risonha, como ele se lembrava de vê-la ser com as outras pessoas, tanto na época de faculdade quanto no trabalho. A verdade era gostava mais de fazer aquilo para ouvi-la rir e saber que, agora, tinha aquela garota legal consigo – não era mais um peso em sua vida, não era mais uma obrigação conviver com ele. sempre ficava com um semblante inocente quando ria, ele gostava daquilo; era tão bonita. poderia ser a mulher mais atraente e provocante do mundo e, no segundo seguinte, ser a mais inocente e fofa. Ele gostava daquelas variações – era o que o deixava cada vez mais apaixonado. era a mulher mais incrível que conhecera. chegava a xingar-se mentalmente por ter sido tão idiota no início de tudo – mas, naquela época, ambos eram super orgulhosos e alimentavam uma desavença antiga que nunca sequer fez sentido; pareciam apenas dois idiotas querendo se prejudicar sem mais, nem menos.
parou os movimentos com os dedos e segurou-a firmemente pela cintura, fazendo-a suspirar aliviada. Ambos tinham sorrisos enormes nos rostos, felizes e esperançosos; precisavam daquilo. Passaram meses tentando esquecer o que acontecera entre eles, o que acontecera com naquele maldito lugar abandonado para onde fora levada. Qualquer sorriso sincero fazia diferença na vida dos dois. Na vida que estavam, a partir daquele momento, levando juntos. Como um verdadeiro casal.
— Você devia parar com essas coisas — murmurou respirando fundo. — Você não passa de um idiota.
— Um idiota que você não vive sem... — murmurou e curvou-se sobre ela novamente, fazendo-a bufar e rir em seguida. — Vai dizer que é mentira? — perguntou, contra o ouvido de , no tom mais baixo que pôde.
sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo e sorriu fracamente enquanto levava as mãos para a nuca de , começando um carinho de leve e pôde sentir o sorriso se abrir contra sua pele, deixando claro, outra vez, o quanto ele apreciava aquele gesto.
Não demorou muito para distribuir beijos em seu pescoço, fazendo-a se encolher embaixo de seu corpo e arrepiando-se por inteira. segurou-a mais firmemente e levou os lábios em direção aos dela, grudando-os outra vez em um beijo lento. Não tinham pressa de nada naquela viagem. Não precisavam. Eram só os dois por duas semanas inteiras.
E aquele era somente o segundo dia.

Fim do flashback.


— Você já pode parar com os pensamentos a respeito do e atender seu celular, — a voz de Elizabeth ecoou pelo local, fazendo piscar os olhos rapidamente e fitar o aparelho jogado sobre a cama. — Vou me lembrar de dizer para ele nunca mais viajar — Elizabeth resmungou enquanto pegava o celular e o levava até a orelha, revirando os olhos. — Você fica muito alheia a tudo. Céus.
— Shh — pediu com um sorriso brincalhão nos lábios e Elizabeth revirou os olhos. — Alô.
— Oi. Sou eu, Camille. Preciso me encontrar com você, é urgente. Juro que não é para arrumar briga ou qualquer coisa do tipo, só preciso te contar o que descobri. — Camille cuspiu as palavras. No mesmo momento, sentiu todo seu corpo esquentar. Odiava quando Camille a procurava, odiava ser parente daquela mulher. A odiava, para falar a verdade. Ódio não era um sentimento saudável e muito menos certo, mas ela não se importava. Odiava Camille com todas as forças – embora soubesse que devia muito a prima e era justamente isso que a fazia ficar em seu encalço.
— Eu pedi para não me procurar mais, não pedi? — ignorou todas as palavras da prima. — Por favor, Camille, me esqueça.
— Não seja idiota! Descobri coisas sobre você e eu acredito que não gostaria que eu procurasse outra pessoa senão você mesma! — Camille rebateu. — Não preciso de você para nada, mas talvez você precise de mim. Não quero te dar uma notícia dessas por telefone. Você sabe onde eu moro.
— Por que diabos eu te procuraria? — perguntou revirando os olhos. — Pare de me encher, mulher!
— Talvez porque descobri coisas que nem você mesma sabia a respeito de seus pais. E acredito que eles foram as pessoas que você mais amou na vida. A propósito, você jamais desconfiaria que eles seriam capazes de mentir para você. Não é mesmo, priminha? — Camille deu uma risada fraca. — Até mais, .
Após dizer isso, desligou. bufou e largou o celular sobre a cama de qualquer jeito.
— Essa sua prima não desiste nunca? — Elizabeth perguntou enquanto se sentava na cama, ao lado de . — O que ela queria dessa vez?
— Me perturbar — deu de ombros. — Não vamos falar de Camille. A propósito, obrigada por me abrigar aqui.
Elizabeth sorriu amigavelmente.
— Por nada. Eu já desconfiava de que você precisaria se refugiar para cá, já que o é um chato — Beth revirou os olhos e riu. — Mas até que dessa vez ele está certo.
— Talvez até esteja. Só espero não te atrapalhar por aqui — murmurou dando de ombros.
, por favor — Beth revirou os olhos. — Não pense que vai me atrapalhar. Você sabe que isso vai até facilitar as coisas para os nossos trabalhos, certo?
— Em partes, sim — sorriu fracamente e fitou a amiga. — E como está o andamento das coisas?
— Muito bem — Beth abriu um grande sorriso. — Jesse até que tem me ajudado. Como se não bastasse ser um federal, ele ainda consegue brincar de ser escritor e, às vezes, até mesmo revisor.
riu fracamente e Elizabeth a acompanhou. E então, ali, começaram uma conversa sobre o trabalho que planejavam juntas. Não seria um assunto rápido, talvez levasse a noite inteira. Mas elas não se importavam. Falar sobre o que faziam sempre deixava o clima mais agradável e fazia com que esquecesse um bocado dos problemas à sua volta e as saudades que sentia de . Elizabeth sabia daquilo e fazia questão de manter-se acordada para conversar com só para distraí-la. Elizabeth pegara grande afeto por com o passar do tempo, e isso era bom. Estava mais do que na hora de ambas se darem ao prazer de ter uma boa amizade para todas as horas.

***


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA.

abriu os olhos com dificuldade, tentando entender o que estava acontecendo. Sua cabeça doía e os olhos ardiam, o corpo, tensionado, jazia amarrado e ele não conseguiu se mover, questionando-se como diabos fora parar ali. Não conseguia acreditar que estava passando por algo do tipo outra vez – e, agora, sequer sabia se conseguiria se safar ou não, já que encontrava-se sozinho. Seria uma situação bem engraçada se não fosse tão trágica e irônica. Não fazia a mínima ideia de onde estava, com quem estava e por que estava. Tudo bem, o porquê ele conseguia imaginar, mas não esperava nada daquilo tão rápido assim. Esperava que Apolo o enrolasse por mais alguns dias, a fim de vê-lo enrolado na própria mentira – assim como Charlie, Emma e Antoni, que criou todo aquele circo, como se ninguém soubesse quem ele realmente era. Apolo era mesmo inteligente, até mais que o próprio pai, arriscaria dizer. Seria uma ótima notícia se aquilo não o estivesse o atrapalhando tanto.
— E então a Bela Adormecida acordou — uma voz ecoou pelo local, fazendo com que tentasse se esforçar mais para enxergar. — Como se sente, ?
não respondeu, apenas fechou os olhos novamente e respirou fundo. Conhecia aquela voz, mas não conhecia seu dono. Tinha certeza que já ouvira aquela voz.
Como num estalo, se deu conta do que estava acontecendo e levantou a cabeça rapidamente, arregalando os olhos. Tudo continuava extremamente escuro como antes, mas agora ele já sabia o que estava realmente acontecendo ali. Ele provavelmente estava no mesmo lugar em que Brian esteve, no início daquilo tudo. A voz daquele homem era a voz que ligara para eles enquanto Brian ainda estava preso. Aquele era o maldito cara que tinha matado Brian, seu colega de trabalho. Um grande amigo.
estava sentindo seu sangue borbulhar, o ódio o estava corroendo de uma forma indescritível. Estava irritado e sentia que poderia soltar-se daquelas cordas a qualquer momento e sair quebrando tudo, tamanha a raiva que carregava. Não, aquilo não poderia estar acontecendo de novo. Não! Ele não poderia estar ali, não, não, não! A respiração de era ofegante, porém falha. Sentia vontade de gritar, xingar, bater, matar. Ao que tudo indicava, estava frente a frente com o desgraçado que matara um dos melhores homens que Charlie já tivera.
— O que houve, ? Ficou mudo? — o homem perguntou e pôde ouvir seus passos se aproximando. Alguns segundos se passaram e as luzes se acenderam, fazendo com que fechasse os olhos rapidamente.
— Até que você está com uma aparência legal. Achei que meus amigos tinham acabado com seu rosto, mas pelo visto deram só a porradinha na cabeça pra você apagar. Que pena.
abriu os olhos devagar e fitou o homem à sua frente, não fez a mínima questão de esconder o ódio que sentia. mordeu o lábio inferior tentando não perguntar nada, ignorar aquele homem seria a melhor coisa a se fazer. Mas ele não aguentava.
Simplesmente não aguentava.
— Foi você — sussurrou. — Foi você que ligou para nós falando do Brian. Você matou o Brian.
O homem riu. Riu, não. Gargalhou. Gargalhou na cara de . Gargalhou tanto a ponto de seus olhos lacrimejarem, e aquilo apenas aumentou mais o ódio de , fazendo-o balançar-se na cadeira como se quisesse levantar. Mas suas mãos e pernas estavam devidamente amarradas.
— Fui eu, sim — o homem deu de ombros. — Tem uma ótima audição, . Fico feliz por ter me reconhecido logo de cara, isso dispensa apresentações.
— Você é um desgraçado — murmurou de forma raivosa. — Ele tinha família... Tudo isso por quê? Para nos atrair?
— Vocês viriam para cá de qualquer forma — o homem se aproximou de , encarando-o nos olhos. — Era o destino de vocês — ele sorriu. — Vocês viriam desesperados para cá em menos de um mês. Só adiantamos o serviço. Sabe por que, ? Porque se não tivéssemos matado o Brian, mataríamos o resto dos seus parentes, eles são todos um bando de inúteis, como seu pai, que não sabem lidar com o dinheiro que têm. Não sabem administrar o que fora deixado para eles após o seu último tio, ou sei lá o que ele era seu, morrer.
— Não fale do meu pai! — gritou, tentando se soltar mais uma vez. — Pouco me importo com os parentes daqui e o que eles têm. Não sabia da existência deles até semana passada. Pouco me fodo para todos eles.
— Não fale assim, — o homem suspirou. — Algumas mulheres de lá têm filhos pequenos. As crianças não precisam pagar pelo seu ódio sem motivo. Se bem que você não se importa, né? — o homem abriu um sorriso malicioso. — Talvez você realmente queira que todas as crianças do mundo morram já que sua mulherzinha não consegue te dar uma...
Aquilo fora a gota d'água para . Seu coração estava acelerado e ele era incapaz de descrever o ódio e nojo que sentia. Num impulso, jogara a cabeça para frente com força e rapidez, acertando o nariz do homem. Com um grito de susto e dor, ele se afastou de com as mãos no nariz. respirava pesadamente e tentava se soltar a qualquer custo, queria acabar com aquele desgraçado. Quem ele pensava que era, afinal? Como podia tocar naquele assunto com tanta frieza e ousar culpar por algo que não tinha controle?
— Sabe que vai se arrepender disso, não sabe? — o homem murmurou enquanto limpava o sangue do nariz. Estava com tanto ódio de que pouco se importava com sua dor. — Você está incapaz de fazer alguma coisa, . Eu vou acabar com você. ACABAR!
ignorou os gritos do homem e tentou controlar a respiração. Sua cabeça doía e sua garganta estava seca. Podia se fingir de forte o quanto fosse, mas ainda era um ser humano.
— Isso é para você aprender a não falar sobre a minha mulher — murmurou. — Posso estar morrendo, meu caro, mas sempre darei um jeito de defendê-la. E não será você que vai me impedir. Não se atreva a abrir a boca para falar dela. Nunca mais. Só está vivo depois do que disse, porque estou amarrado.
— Eu só não te solto porque melhor que cair na porrada com você de forma justa, é te ver amarrado não podendo fazer nada enquanto eu e meus homens fazemos qualquer coisa com você. A propósito — ele fez uma pausa e sorriu —, entrem, rapazes. Venham se apresentar para o .
mordeu o lábio inferior com força, tentando manter a calma. Sabia tudo o que aconteceria ali. Não importava quem era o mandante daquilo tudo, ele tinha certeza absoluta que aqueles caras fariam o que quisessem com ele. E não poderia rebater ou se defender – era o modo mais covarde de conseguir vingança, mas, ainda assim, o mais eficaz; não tinha por que deixá-lo se defender que o queriam morto.
riu fracamente. Morte. Quantas vezes ficara de cara com a morte? Quantas vezes a venceu? Era ruim pensar e ver que ela estava mais próxima de novo porque, desta vez, não sentia que conseguiria escapar.
— Alguém contou alguma piada, ? — o homem de nariz quebrado perguntou e riu novamente.
— Quer piada maior que seu nariz quebrado por causa de uma cabeçada de um cara amarrado? — rebateu arqueando uma das sobrancelhas. — Você é mesmo um fracassado.
— Acho bom medir suas palavras, — o homem se aproximou em passos lentos. — Você não está mais na sua área.
— Ah, é mesmo? — perguntou baixo, ignorando a seca em sua garganta. — Foda-se.
Em questão de segundos, sentiu seu rosto ir para o lado e uma dor tomou conta de seu corpo, fazendo-o soltar um gemido baixo. Fora tão rápido que ele nem sequer notara a mão do homem à sua frente se movimentar e acertar-lhe um soco.
— Vamos começar a diversão, — o homem murmurou lentamente. Estava tão feliz em vê-lo naquela situação. Nem sentia mais a dor no nariz por causa da cabeçada. A satisfação de ver submisso, amarrado, apanhando dele era maior que qualquer dor ou qualquer outra coisa.
cuspiu no chão tentando livrar-se do gosto de sangue que havia em sua boca após o soco.
— Não pense que sinto medo de você só por que pode me bater — sorriu fracamente. — Só gostaria de saber o motivo desse circo todo. Vocês poderiam simplesmente me apagar na rua. Ou torturar, para vocês também, é mais divertido? Eu adorava fazer isso na Inglaterra.
— Lembra-se de mim, ? — um homem de meia idade atravessou o local e pôde, finalmente, notá-lo. — Acho que eu, mais do que qualquer um aqui, sei muito bem como você realmente sempre gostou de brincar de torturar as pessoas. Era divertido, não era? Será que você vai achar divertido agora estando do outro lado? — o homem sorriu e balançou a cabeça negativamente. — Você se acha esperto, mas não é. Se fosse, teria conseguido me pegar de novo depois daquele dia que fui atrás da sua namorada, peguete, ou o que a jornalista for — ele deu de ombros. — E veja só, vocês nem sequer desconfiaram de mim; esqueceram que existo, e eu me aproveitei da vantagem. Ser um fantasma, às vezes, é ótimo para conseguir vingança. Você até tentou correr, mas como é um idiota não conseguiu nada, aquele dia.
engoliu a seco. Odiava ficar por baixo. Odiava errar. Odiava prender esses bandidinhos de merda para serem soltos dois anos depois. Odiava não poder acabar com cada um deles. Odiava estar preso ali. Odiava toda aquela situação. E vivia passando por ela.
Mais um soco o acertou, deixando-o zonzo. Mas, ainda assim, continuou em silêncio e respirou fundo. A noite seria longa, e talvez ele não vivesse para ver a manhã seguinte.
Suspirou disfarçadamente e deixou que a imagem de sorrindo lhe tomasse a mente – aquilo era o suficiente para manter-se inerte.

***


Palermo — 3h42min.

Apolo bocejou e coçou os olhos tentando espantar o sono que sentia. Estava ali há horas com Charlie e seus amiguinhos, incluindo Jullie. Tudo isso porque o maldito do havia desaparecido. Oras, como se Jullie não soubesse que ele havia mexido seus pauzinhos. Assim como deveria ter mexido para ela. Todos ali sabiam da situação, mas fingiam não saber de nada, não entender nada. Apolo sentia como se estivessem insultando sua inteligência, mas também não falava nada. Sabia que se falasse, poderiam jogá-lo na cadeia e ir preso não estava nos seus planos; matar , às escondidas, sim.
— Vou para casa. Desculpe, mas estou realmente cansado e ainda preciso trabalhar cedo — Apolo murmurou dando um sorriso triste e cansado, soando tão falso que sentiu vontade de rir. — Eu realmente adoraria esperar o contato do rapaz, mas para mim realmente não dá agora.
— Tudo bem, Apolo — Antoni murmurou. — Vá descansar. Esperaremos o Noah aqui.
Apolo fez um gesto com a cabeça e saiu da sala onde estavam. No mesmo momento, Emma bufou. Estava inconformada. Aquele maldito não abrira a boca em momento algum.
— Vá atrás dele — Emma disse para Jullie. — Não importa o quanto ele te ameaça. Você provavelmente já foi ou é algo importante na vida dele. Ele não te fará mal algum, Jullie. Jullie deu uma risada fraca.
— Vocês não conhecem esse Castellamare. Ele é uma mistura de toda a parte ruim da família — ela suspirou. — Ele quer mais é que eu vá atrás dele para me matar.
— Ele não vai te matar. Ainda mais se pararmos para analisar a partir de tudo o que nos contou — Emma rebateu enquanto fitava a mais nova nos olhos. — Ou será que sua coragem vai toda embora quando falamos sobre o pequeno Castellamare?
— O que quer dizer? — Jullie arqueou uma das sobrancelhas e Emma riu.
— É tão fraca e idiota quanto ele.
Jullie não respondeu, apenas riu. Odiava ser provocada. Odiava.
— Quer que eu vá atrás dele? — Jullie se aproximou de Emma e encarou-a nos olhos. — Eu vou, então, mesmo que isso aqui não seja problema meu. A vida de vocês até pode girar ao redor de , mas, espero que tenham em mente que a minha, não. Tenho planos maiores e estou aqui por um único motivo. Ainda assim, vou dar um voto de confiança e tentar de novo agora. Quando eu voltar, lembre-se de me agradecer por salvar o bichinho de estimação de vocês.
Emma sorriu fracamente e apontou para a porta. Jullie bufou, irritada, e saiu batendo a porta com força.

***


fechou os olhos e engoliu mais um grito. Não sabia por quanto tempo mais aguentaria levar porrada. Estava ali, sentado, levando socos e chutes em quaisquer partes do corpo e os caras simplesmente não se importavam. Estavam dispostos a se vingar dele. Queriam fazer com que sentisse o que sentiram. Na verdade, apenas dois deles tinham motivos para vingança. O rapaz que ele não lembrava o nome, mas lembrava do rosto — e a forma que ele ficara após se "interrogado" por e seus companheiros — e o outro — que ele não fazia questão de saber o nome — que tinha o nariz quebrado por sua causa. Já os outros dois ele nunca vira na vida, mas um dos rapazes desconhecidos tinha o olhar assustado, como se não quisesse nada daquilo, como se realmente estivesse com medo. Tanto que a forma que ele batia em era diferente, como se não quisesse machucá-lo. Claro que só notava aquilo. O rapaz sabia esconder as coisas. Mas estava tão cego de raiva que se pudesse mataria os quatro – embora soubesse que estava tendo o que merecia por suas ações impensadas por simplesmente possuir poder na Inglaterra; não se orgulhava de tais ações e sabia que, em algum momento, seria procurado por alguém.
— Parece que há um novato aqui — sussurrou e o rapaz parado à sua frente engoliu a seco, fitando-o intensamente. — Os socos dele não tem feito nem cócegas. E nem irão fazer, caras. Parece que o rapazinho aí não quer fazer nada disso — riu fracamente, ignorando as dores que sentia. — Vamos lá, não seja covarde.
— Não provoque o moleque, — o homem do nariz quebrado murmurou enquanto mexia num revólver. — Ele que irá acabar com você daqui a pouco. Mas enquanto não chega a hora, que tal brincarmos?
— De quê? Roleta russa? — perguntou debochadamente enquanto o homem colocava apenas uma bala no revólver. — Vai ser interessante.
O homem riu e mexeu-se na cadeira, incomodado. A realidade era: mantinha-se debochado para não perder a pose, porque estava com fome, fraco, com sede e, sobretudo, com medo. Estava mais fraco que nunca e não podia fazer absolutamente nada quanto aquilo, seu corpo inteiro latejava e mal conseguia enxergar por conta dos olhos inchados – podia sentir o sangue escorrer por todo seu rosto, e se surpreendia com o fato de ainda estar acordado para sentir tudo aquilo
Agora, ali, prestes a iniciar uma tortura ainda maior, sabia que se realmente jogassem roleta russa, poderia morrer. No fundo, esperava que o homem trapaceasse e colocasse mais do que apenas uma bala naquele revólver. Usar apenas uma bala era para profissionais. Pessoas que queriam realmente dar um terror psicológico ao inimigo. E eles não tinham cara nem jeito daquilo. Provavelmente assim que fechasse os olhos por não aguentar mais, encheriam aquele revólver de balas e o matariam. não tinha tantas chances assim, sabia disso e já estava aceitando seu destino – o tão temido e promissor seria morto em um galpão nos confins da Itália nas mãos dos homens que ele decidira poupar a vida.
Ainda assim, tentava repetir para si mesmo que precisava aguentar e ser forte, manter-se acordado e respirando. Para aliviar sua mente do horror, pensava em – seu sorriso, seu olhar penetrante, sua voz. Gostaria de vê-la mais uma vez. Queria lutar e tentar. Queria viver! Mas, infelizmente, ainda não sabia como fazer aquilo – e sua esperança de sair vivo dali diminuía a cada segundo que passava. se perguntava se valera a pena ter feito aquilo com tantas pessoas, mesmo que fossem pessoas ruins e assassinas. Não sabia, ainda, se estava arrependido completamente da forma que trabalhara ao longo dos anos – fora ensinado pelo pai e por Charlie, logo, para ele, aquilo era o certo, mas, agora, enxergava que apenas se deixara levar por toda a maldade alheia. Perguntava-se, agora, até onde era sua vontade e até onde era a vontade dos outros. Será que fora mesmo tão influenciável como Elizabeth costumava dizer na juventude? Será que a frase “bando bom, é bandido morto” realmente era verdadeira? Será que ela, agora, se aplicava a ele dado a tudo o que já havia feito na vida? não queria se arrepender, porque fora a vida que escolheu ter, sabendo de todos os riscos que corria e como seria considerado um assassino com um distintivo, mas, bom, ali era difícil não pensar sobre tudo e não sentir uma ponta de arrependimento. Ele sabia ser um cara bom, mas, durante toda a vida, preferiu ser um homem mau – e que era fiel apenas ao que restou de sua família e as poucas pessoas que amava.
Ao mesmo tempo que queria se arrepender de todos os seus erros e julgamentos errados, queria soltar-se para matar cada um daqueles que contribuíram para que chegasse àquela situação. O ódio era seu companheiro, seu fiel parceiro, e andava sempre de mãos dadas aos seus pensamentos caóticos e confusos. Queria poder se soltar e matar todo mundo que o fazia mal, mesmo que soubesse que aquilo era errado e só lhe traria mais e mais peso na consciência. No entanto, seus pensamentos diziam-no que não podia deixar aquilo assim, ainda tinha suas próprias questões para resolver, suas próprias vinganças e os próprios medos para lidar. Sabia que seu lugar no Inferno, caso ele existisse, já estava reservado – então, para que afundar-se em arrependimento quando poderia vingar-se outra vez? Viver de vingança não foi algo que planejou para si, mas foi para onde seu destino o guiou. Tudo o que queria, naquele momento, era sobreviver para ao menos tentar mudar um pouco – não queria sair em busca de redenção ou perdão, queria finalizar o que começou e deixar que a vida lhe retornasse, fosse com um castigo ou um resto de vida feliz na medida do possível. Ele não merecia felicidade, sabia disso, suas ações não mereciam aplausos e felicitações. Mas, ainda assim, queria poder voltar para sua casa, olhar para e deixá-la ciente de que, apesar de tudo, de ser o monstro que era, a amava e daria sua vida por ela se necessário.
— Está pensativo — o rapaz que já havia prendido, tempos atrás, murmurou. — Está orando silenciosamente, ? Está implorando por piedade? Justo você?
— Lê pensamentos agora? — perguntou baixo, tentando manter o contato visual.
— Não preciso ler seus pensamentos ou esperar você falar para saber que está com medo — o rapaz riu. — Basta olhar em seus olhos, . Está se borrando de medo, feito um garotinho trancada num quarto escuro. Pois saiba que de hoje você não passa, cara — o rapaz se abaixou em sua frente, mantendo todo aquele contato visual que transbordava ódio. — E eu vou fazer questão de rir na sua cara enquanto estiver agonizando. Vou fazer questão de pisar em sua garganta para evitar que respire. Vou fazer questão de te dar o último tiro. Vou fazer questão te matar você. Acredite, , eu vou me vingar de você da maneira mais digna possível. Vou me livrar de você da forma que você sempre quis se livrar dos seus fantasmas do passado. Sei da sua história tão bem quanto você. Acredito que se lembre de Christopher. Acredito que se lembre que matou o pai dele. Acredito que não se lembre que ele tem um irmão. E que esse irmão tomou o mesmo rumo que ele.
sentiu sua garganta secar ainda mais. Mas não demonstrou medo, não fraquejou e muito menos quebrou o contato visual – se fosse para morrer ali e ter o que merecia, o faria com dignidade, sem demonstrar qualquer resquício de medo ou hesitação para aqueles homens. Não, realmente não se lembrava do irmão de Christopher. Para falar a verdade, mal se lembrava de todo o mal que fizeram para aquele homem. Lembrava-se, sim, da surra que lhe dera na cadeia três anos atrás. Lembrava-se também dele tentando acabar com a investigação deles, semanas atrás. Mas não lembrava do maldito irmão. E muito menos que já o havia prendido e feito tudo o que fizera com o outro. não se arrependia de ter matado o pai daqueles garotos. O cara não prestava. Quem não prestava merecia morrer, não é? Era o que seu pai e Charlie costumavam dizer para convencê-lo em não hesitar quando tivesse um bandido na mira. O próprio , às vezes, parava para pensar e chegava à conclusão que também já deveria estar morto. Mas ele continuava ali. Talvez nunca encontrara alguém tão “bom” quanto ele para matá-lo. Com tudo o que presenciara ali, estava começando a achar que somente Apolo poderia acabar com ele.
Ou .
Mas já estava morto.
deu uma risada fraca. Toda aquela situação era engraçada. Sim, era. Era tudo envolvendo famílias. Famílias que, de certa forma, se interligavam. Ele e Apolo, Christopher e seu irmão. Provavelmente aqueles outros deveriam ser, pelo menos, primos. Pelo menos era o que faltava para deixar o circo completo.
Apolo havia sido esperto. Havia recrutado todos os inimigos que fizera ao longo dos anos e ainda estavam vivos.
— Estarei aguardando ansiosamente que você cumpra com todas essas promessas. — rebateu debochadamente, com um sorriso sarcástico brincando em seus lábios. — Porque, se não cumpri-las, quem vai te matar sou eu.

***


sentiu seu coração acelerar no mesmo momento em que o revólver tocou sua testa. — Se Deus existe, , reze para Ele te ajudar — o irmão de Christopher murmurou. — Porque algo me diz que a sorte não estará ao seu lado dessa vez.
E então, ele apertou o gatilho. fechou os olhos automaticamente e esperou que a dor o atingisse e o matasse logo. Mas nada além de um estalo ecoou pelo local, fazendo-o suspirar. Já se fora um tiro. Nada. Não fora atingido. , por um momento, sentiu vontade de rir e sair pulando por todos os lados. Mas sabia que aquilo era só o início e raramente a bala saía de primeira. Por mais que fosse um jogo de sorte, aquilo já estava se tornando um antigo clichê.
— Oh, não foi dessa vez — o rapaz murmurou tristemente. — Sua vez, Brad.
abriu os olhos ao escutar o nome. Não conhecia ninguém daquele maldito lugar e, naquele momento, tivera o (des)prazer de descobrir que o homem que ele quebrara o nariz se chamava Brad.
Brad se aproximou de com um sorriso no canto dos lábios.
— O contrário do meu amigo aqui, não espero que Deus te ajude — Brad riu fracamente. — Espero mesmo é que ele não tenha piedade e me deixe acabar logo com você.
não disse nada, apenas sorriu abertamente e revirou os olhos. Ignorando o medo que sentia, cuspiu no rosto de Brad, fazendo-o fechar os olhos com força. riu mais uma vez, vendo que conseguiu, finalmente, irritar aquele filho da puta. Em questão de segundos, sentiu seu rosto virar e uma dor atingir sua cabeça com mais intensidade que antes. Brad tinha as narinas infladas e o revólver na direção do rosto de .
— Faça isso mais uma vez e eu não vou simplesmente te dar uma porrada com o revólver, — ele disse firmemente. — Pelo contrário, vou pegá-lo e atirar em você. Vou encher o tambor* de balas quantas vezes eu puder só para desfigurar esse seu rostinho que julgam bonito.
não conseguiu responder, apenas sentiu algo quente escorrer pelo rosto. Tinha certeza que aquela pancada havia cortado seu supercílio. Sinceramente, não sabia quanto tempo aguentaria. Sentia-se fraco e eles faziam questão de socá-lo a cada dois minutos. Faziam questão de torturá-lo de forma pior que podiam.
estava tonto pela última pancada que recebera, mas tentou manter-se forte. Ou pelo menos de olhos abertos.
Brad segurou-o pelo rosto, fazendo com que o olhasse nos olhos.
— Você merece coisa pior que isso, — murmurou. — Só preciso de uma ligação para matar você. Mas, enquanto não a recebo, vou me divertir. Me divertir com sua dor. Com seu desespero. Com seu medo.
Sem falar mais nada, Brad mirou o revólver na direção do olho esquerdo de .
— Me encare nos olhos enquanto morre. Quero ver seu olho direito revirar e ficar sem vida. Quero vê-lo morto pelas minhas próprias mãos. Quero ver seu último olhar de puro medo e desespero.
fizera questão de fitá-lo intensamente. Engoliu a seco por uma última vez e ergueu a cabeça. Se ele tivesse que morrer naquele momento, morreria. Mas morreria calado. Morreria mostrando que conseguia, sim, ser forte. Mostraria para seu assassino que conseguiria, sim, encará-lo nos olhos durante todo o processo. A raiva que sentia era tanta que seu medo estava quase totalmente desaparecido. Para falar a verdade, não sentia medo por ele. Mas sim por todas as pessoas que amava. Sentia medo do que elas fariam, medo do que se transformariam, medo do quanto sofreriam.
E então Brad apertou o gatilho.
Mas nada aconteceu.
riu.
Gargalhou. Gargalhou o máximo que pôde, a ponto de jogar a cabeça para trás. Não podia negar que seu coração batia mais aliviado, mas ainda assim acelerado e tinha lágrimas brincando no canto de seus olhos, mas não demonstraria aquilo. Jamais. Porém nunca, nunca esconderia sua satisfação ao ver a cara de merda que Brad fizera ao falhar mais uma vez. Não seria naquele momento que morreria.
sentia a adrenalina passear livremente por cada pedacinho de seu corpo. Mas não podia negar que ainda estava assustado. Ainda haviam mais dois tiros. E uma única bala. Naquele momento, tudo o que ele tinha que pedir a Deus, se Ele realmente existe, era para que os dois próximos tiros estivessem sem a bala também. Porque, se forem seguir as regras da verdadeira roleta russa, o último tiro era dele. Mas claro que não seguiriam as regras. Mas talvez Brad recebesse aquela maldita ligação na hora de dar o último tiro. Talvez ele e o irmão de Christopher brigassem para darem o último tiro e, nesse meio meio tempo, conseguiria puxar as cordas dos pulsos. Não se importava com machucados, tudo o que queria era sair vivo dali. David, filho de Charlie, há anos atrás, estivera naquela situação e conseguira fugir. queria tirá-lo como exemplo já que passava pela mesma situação. Esperava ter a mesma inteligência que ele tivera.
— Vai precisar fazer melhor na próxima vez, Brad — encarou-o sorrindo. — Estarei aqui esperando ansiosamente pela minha morte.

***


LONDRES — INGLATERRA, 5h55min.

abriu os olhos lentamente, enquanto seu celular tocada em seu lado. Céus, cinco para as seis da manhã! Isso lá eram horas de ligar para as pessoas?
— Alô — murmurou.
— Sei que está na casa da Elizabeth. Tem como aparecer aqui fora? — a voz de Camille ecoou por seus ouvidos e sentou-se na cama, coçando os olhos. — Sei que pediu para não te procurar e disse que não me procuraria também. Mesmo sabendo que você o faria durante a manhã, não aguentei. Precisei vir aqui para te dar essa notícia. Só preciso de cinco minutos e te deixo em paz com seus rancores e mágoas.
— Camille, por favor — revirou os olhos. — Pare de me perturbar. Nosso último encontro não te convenceu que não quero estar perto de você?
— Não fale como se eu quisesse estar perto de você. Apenas venha aqui. Te entrego o que tenho e irei embora.
não respondeu. Apenas suspirou e desligou o celular em seguida. Camille sabia que ela não aguentaria e iria encontrá-la. Não importava que horas eram, não importava o quanto a odiava. Ela nunca aguentava a curiosidade que sentia.
Após jogar as cobertas para o alto e vestir algum casaco grande — que pegara de —, saiu silenciosamente para não acordar ninguém. Nicholas estava dormindo em um dos quartos, provavelmente. Elizabeth e Jesse dormiam feito pedras, não acordavam com nada. Imagine com os leves passos que dava.
Fechou a porta atrás de si e, em alguns segundos, já estava do lado de fora. Não demorou para avistar a cabeleira loira de Camille ali em frente.
, então, caminhou até a mulher e parou em seu lado, murmurando:
— Vamos acabar com isso.
— Oi, priminha! Quanto tempo! — Camille exclamou rindo fracamente. — Isso te pertence.
Camille estendeu uma pasta de tamanho médio para , que arqueou uma das sobrancelhas.
— O que há aqui? — perguntou.
— Os papéis a respeito da sua adoção — Camille riu e a encarou completamente confusa. — Oh! Céus! Esqueci que você não sabe nada sobre isso! Meu Deus, ! Mil perdões! — Camille exclamou e gargalhou em seguida. — Acho que ninguém nunca teve a coragem de contar para você que seus papais incríveis, meus titios queridos, não eram biológicos. O que é uma pena... Tsc — Camille fez um bico após estalar a língua nos lábios. — Te adotaram quando você tinha mais ou menos três meses de nascida. Está tudo explicado aí. Entendeu agora o porquê da minha agitação e ansiedade, ? Sua cara está sendo impagável — Camille riu. — É uma pena você não ser minha prima de verdade.
— Pare de inventar esse tipo de coisa — murmurou, sentindo um nó formar-se em sua garganta. — Pare de ser tão cobra assim! — Gritou. — Louca!
— Louca é você que não vê o que está diante de seus olhos! — Camille rebateu. — Sua mãe biológica está viva e ela não é flor que se cheire. Melhor você descobrir agora e por mim, do que depois e por ela. Acredite, . Sua mamãe é totalmente diferente da mãe que você viu morrer.
não queria acreditar no que ouvia. Não queria se deixar levar por Camille, não queria chorar em sua frente, não queria dar aquela crise mas... Seu coração estava apertado e as lágrimas já estavam em seus olhos.
— Some daqui — pediu. — Some de vez.
— Pode ter certeza que sim — Camille sorriu. — Mas pare para analisar os fatos, ... As pessoas sempre te abandonam — Camille a encarou nos olhos. — Primeiro sua mãe biológica, depois seus pais adotivos, que te criaram com tanto amor, mas fizeram tantas merdas a ponto de morrerem na sua frente... E depois... Bem, depois foi aquele seu namorado. Qual era o nome dele mesmo? Chace? Chad? Não lembro. Sei que ele abandonou você e a criança que você carregava dele, que nem chegou a nascer. Coitadinha.
não aguentou e levou a mão direita até o rosto de Camille, mas não conseguiu dar o tapa que tanto queria. Camille havia segurado seu pulso com força.
— Não venha me bater para descontar suas frustrações e mágoas — Camille disse firmemente. — Dê seu jeito para livrar-se de toda essa sujeira sozinha. E cuidado, , alguém além de mim pode descobrir o que você realmente é.

*: "suporte" do revólver onde as balas são colocadas.


Capítulo 13

SOMEWHERE.

deixou seu corpo cair sobre a cama e fechou os olhos com força. Não acreditava que tudo o que Camille falara mais cedo era verdade. Não poderia ser. Aquele casal que ela crescera... Eles... Eles tinham seu jeito! Alguns traços faciais! Sem contar as manias! Tinham semelhanças em tudo! Camille estava louca. Tinha que estar. Aqueles papéis tinham que ser falsificados. Nada daquilo deveria estar acontecendo, aliás. Se aquilo tudo for verdade e sua mãe biológica realmente estivesse vida, não aguentaria, não conseguiria lidar com a situação. Tudo o que precisava fazer, na verdade, era procurar mais sobre aquilo. Mas como faria isso sozinha? Não teria cabeça para pensar em tantas coisas. Talvez Elizabeth pudesse ajudar já que ainda estava fora e talvez fosse o único que pudesse analisar aqueles papéis para ter certeza se eram verdadeiros ou não. Em momentos assim que agradecia pela faculdade de direito de . Isso, a propósito, a fazia imaginá-lo vestido socialmente; de terno e gravata; com o cabelo penteado para trás, em um tribunal, falando formalmente para defender alguém. Era uma visão e tanto.
suspirou e balançou a cabeça. Era incrível como qualquer pensamento que tinha se direcionava para ele. Aquilo a perturbava, entretanto. Naquele momento, sentiu vontade de ligar para ele. Porém, era muito provável que ele estivesse trabalhando em algo importante. Não queria atrapalhá-lo com suas saudades bobas e muito menos com seus problemas que poderiam ser resolvidos assim que ele voltasse.
Duas batidas na porta do quarto fizeram com que saísse de seu transe. Não sabia, exatamente, por quanto tempo ficara pensando naquelas coisas e encarando o teto de seu mais novo quarto. Gritou um "entre" e logo Elizabeth apareceu no quarto, com um sorriso tenso no canto dos lábios.
— Bom dia — a morena murmurou fechando a porta atrás de si. — Dormiu bem?
— Bom dia — respondeu e se sentou na cama. — Sim, e você?
Elizabeth apenas concordou com a cabeça e se sentou ao lado de .
era totalmente capaz de sentir a tensão pairando por todo o quarto. Beth era péssima em enrolar para dar notícias ruins. Não era difícil notar isso; seus olhos pareciam estar perdidos e com menos brilho, seu sorriso, que sempre é chamativo e contagiante, ficava preso do canto de sua boca de forma tensa e forçada. Aquele tempo que passara conversando e trabalhando com Beth serviu para que prestasse muita atenção nisso. Seu instinto observadora a fazia prestar atenção em tudo e todos a sua volta.
— Vamos tomar café? — Beth sorriu. — Jesse quer conversar conosco.
— Claro — murmurou. — Só vou me trocar, não demoro.
— Tudo bem. Ainda precisamos levar o Nicholas para a escola.
— Certo!
E em um pulo, se levantou. Não queria atrasar ninguém, afinal. Ela só iria trabalhar à tarde, naquele dia.
Poucos minutos depois, todos já estavam na cozinha de Elizabeth tomando café calmamente. Nicholas foi o primeiro a terminar de comer e correu para o banheiro escovar os dentes. Ele sabia que os outros três queriam conversar. Ele podia sentir o peso dos olhares que Beth trocava com Jesse, sem contar a forma que olhavam para . Assim que Jesse ouviu a porta do banheiro bater, suspirou. Não faria ideia de como contaria o que estava acontecendo para . Ela talvez surtaria, talvez daria um jeito de ir para Itália, ou talvez as duas coisas. Todos ali sabiam do que aquela jornalista era capaz de fazer por .
— O que está acontecendo, afinal? — perguntou enquanto dava um gole em seu café.
Jesse mordeu o lábio e suspirou. Para que enrolar, afinal?
Após encher o peito de ar novamente, Jesse soltou a bomba:
— O simplesmente desapareceu sem dar notícias a ninguém.
No mesmo segundo sentiu seu coração acelerar e o café parecia não passar mais em sua garganta, fazendo-a tossir loucamente.
— Como assim? — perguntou sentindo o ar voltar para seus pulmões.
— Ele não falou com você também, então? — Elizabeth perguntou baixo.
— E ele deveria? O que ele estava aprontando? — suspirou passando as mãos nos cabelos. Não aguentava mais aquilo tudo. sempre se metia no que não devia. Que inferno!
— Na verdade, desconfio de que ele fora pego pelos caras que estamos investigando — Jesse disse devagar. — jamais tentaria fazer algo sozinho em Palermo sabendo como as coisas estão por lá. Ele é louco, mas não tanto.
— Ainda mais depois do que o Jack fez — Beth disse. — Ele estava fazendo de tudo para voltar rápido.
Jesse ia dizer algo, porém, no mesmo momento, Nicholas adentrou a cozinha novamente. Jesse poderia afirmar, com toda certeza, que o garoto estava ali há bastante tempo, mas não diria nada a ninguém. Sabia que o menino só estava preocupado, o que não era para menos, já que era seu maior exemplo depois de Charlie. Sem contar o amor que aquele menino sentia por , era uma coisa que beirava ao surreal. Nicholas tinha uma admiração por que emocionava qualquer pessoa de fora. Era claro que o garoto faria qualquer coisa que estivesse em seu alcance para ajudá-lo. Assim como faria por qualquer outra pessoa que ele considerava ser de sua família.
— Vou levar o Nic para a escola — Beth disse se levantando rapidamente. — Fique bem, sim? — Ela se virou para . — Vi que Camille te procurou.
não respondeu, apenas balançou a cabeça. Estava atônita demais para elaborar alguma frase com sentido. Não estava acreditando, ainda, que desaparecera. Não acreditava — ou não queria — que tudo aquilo estava acontecendo. Tudo estava dando errado de novo em sua vida. Estava tudo de cabeça para baixo, tudo tão bagunçado...
— Nós vamos encontrá-lo — Jesse murmurou, tentando tranquilizá-la. — Isso se ele já não está achando um jeito de sair, seja lá de onde estiver trancado.
— Eu espero que sim — suspirou. — Já começaram a tentar?
— Sim — Jesse respondeu. — Pelo que fiquei sabendo, a sobrinha do amigo de Charlie tem contato com o possível mandante de tudo. Ela está fazendo o que pode para achá-lo o mais rápido possível.
— Certo. — suspirou mais uma vez e Jesse a fitou. Ele sabia que havia algo a mais a perturbando. E a última coisa que Elizabeth dissera o ajudara chegar àquela conclusão. — O que há de errado além do que houve com o ? — Jesse decidiu perguntar de uma vez por todas. Talvez pudesse ajudar, afinal. Jesse sempre tivera uma simpatia muito grande por e, sempre que pudesse, iria ajudá-la.
— Fui adotada — ela respondeu curta e grossa. Jesse estreitou os olhos sem entender. — Camille veio até aqui para me contar isso e até me deu os papéis. Como ela conseguiu essas coisas, não faço ideia.
— Você não está realmente acreditando nisso, está? — Jesse a encarou. — Isso não faz o menor sentido, !
— Não tem como não acreditar ou não se abalar com isso, Jesse — ela suspirou. — Os documentos parecem ser verdadeiros. De acordo com Camille, minha mãe biológica está viva e irá me procurar a qualquer momento.
— Pois então espere — Jesse deu de ombros. — Talvez seja só mais uma armação da sua prima. Se realmente é verdade, peça um exame de DNA para a mulher que te procurar. Ela não irá hesitar em fazê-lo se realmente for verdade.
— É exatamente o que eu pretendo fazer — mordeu o lábio inferior. — Eu só estou com medo do resultado.
— Seja ele qual for, não importa mais — Jesse sorriu. — Você tem a nós, . Não precisará se aproximar totalmente dessa mãe se não quiser, ninguém nunca vai te obrigar a nada. Mas é sempre bom ouvir todos os lados da história, certo? Entenda os motivos dela. Se ela se mostrar merecedora de sua atenção e cuidados agora, apenas a acolha de braços abertos. Caso você note que ela realmente é algo ruim, tente não se apegar. Vocês não terão aquele laço de família para poder, sei lá, sentir algum tipo de dor em se afastarem novamente.
apenas deu um sorriso fraco para Jesse. Talvez ele realmente estivesse certo. Mas ela não queria pensar naquilo, apenas queria saber onde diabos havia se enfiado. Ele, como sempre, era a maior de todas as suas preocupações.

***


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA.

sentia todo seu corpo doer mais que antes. Sua boca estava incrivelmente seca e ele se sentia ainda mais fraco. Sua cabeça pesava e todo seu rosto ardia como se estivesse completamente machucado. Era uma sensação que ele esperava se livrar logo. Tudo o que realmente queria, era estar ao lado de sabendo que tudo e todos estavam bem. não tinha mais noção de tempo, não fazia ideia de quanto tempo estava ali amarrado ou quanto tempo já havia passado desde o último contato com aqueles infelizes.
Um barulho chamou sua atenção, fazendo-o abrir os olhos levemente assustado. Algumas vozes ecoaram pelo local e a porta se abriu, revelando a silhueta jovem de uma garota que não conhecia. Os olhos azuis e intensos da garota pareciam assustados, como se não acreditasse na imagem à sua frente.
— Por favor, Amanda, saia já daqui! — O "novato" da quadrilha pediu. — Sabe que não sairá viva dessa vez se te pegarem aqui!
— Isso não pode continuar — Amanda murmurou. — Vocês são o pior tipo de gente que já conheci! Por que diabos fazem isso com as pessoas?
— Cale a maldita boca e saia daqui! — O rapaz elevou o tom de voz e o olhar de Amanda virou-se para novamente, como se gravasse cada traço do rosto do homem. — Agora! — O rapaz gritou, fazendo-a pular levemente de susto.
Amanda olhou uma última vez para o homem e pôde jurar que seus olhos imploravam por socorro. Ela tinha certeza absoluta de que voltaria ali outra hora quando não tivesse ninguém. Não entendera o porquê daquele sentimento, mas sentia que precisava ajudá-lo. Sem contar sua beleza que ela não fora capaz de ignorar. Mesmo com o rosto machucado e abatido pelas prováveis fome e sede, era impossível não achá-lo ao menos atraente. Seus olhos atraiam qualquer pessoa sem o menor esforço. Seus traços eram... Diferentes, Amanda não sabia explicar o que notara naquele homem. E aquilo não importava, de qualquer forma. Seu coração tinha um único dono, e talvez fosse ele o causador da dor daquele belo homem amarrado à sua frente.
soltou um suspiro fraco ao ver a garota sair do local, por míseros segundos ele achou que alguém poderia ajudá-lo. Mas aquilo talvez realmente não acontecesse. Ou talvez não daria tempo. Talvez ele simplesmente morresse ali.
Ao notar que estava sozinho no escuro novamente, sentiu a tristeza e saudade atingi-lo em cheio. Não tinha muita noção de tempo estando ali, mas sabia que, àquela hora, devia estar com em seus braços, em sua cidade. Aquele era o certo. Deveria estar com . Céus... ! Como ele estava sentindo falta daquela mulher. Como diabos ela devia estar? Será que já sabia de seu sumiço repentino? E o que deveriam estar fazendo para tentar encontrá-lo? Inferno! Precisava sair dali logo, ou simplesmente morreria. A ideia de morrer sem se despedir de o apavorava mais que qualquer outra coisa. Não podia deixar aquilo acontecer de jeito nenhum.
Suspirou novamente e fechou os olhos com força, tentando organizar os pensamentos, porém tudo o que conseguia fazer era lembrar de todos os momentos que passara com ; desde a primeira briga à primeira vez que deixaram o desejo falar mais alto na sala de Charlie. jamais esqueceria da sensação de tê-la em seus braços, gritando seu nome e implorando por mais contato. Fora uma coisa totalmente diferente de tudo que ele já havia sentido. Precisava sair dali o mais rápido possível, precisava dar um jeito de ter sua amada em seus braços mais uma vez, precisava parar de se envolver naquele tipo de trabalho, precisava parar de achar que seria capaz de salvar todos o tempo todo. Ele jamais conseguiria aquilo e acabaria morto. Algum tempo atrás jamais se importaria com isso. Mas o problema é que, agora, ele não é o único envolvido em suas próprias merdas. Agora ele simplesmente não conseguia ser aquele inconsequente que sempre fora. Talvez ele tenha crescido, finalmente. Ou simplesmente encontrado a tal pessoa certa que Emma vivia falando.

***


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA.

Apolo sorriu para os rapazes em sua frente e caminhou devagar até a grande porta, abrindo-a em seguida. Não havia satisfação melhor, para ele, que ver preso daquela forma, praticamente desmaiado de tão fraco que estava. Aquele homem era bem ousado, tirara forças do inferno para xingar todos os homem que Apolo mandara cuidar dele. Além de xingar, conseguira dar outra cabeçada em outro homem. Mas, dessa vez, com efeito contrário de Brian, não quebrara seu nariz. Talvez, realmente, pela falta de força. Mas aquilo fora o suficiente para fazer com que Apolo aparecesse no local. Daria uma água para o pobre inglês. Ou algo para ele comer. Mas somente depois de ouvir o que ele queria ouvir. Queria fazer se humilhar ao máximo. Seu corpo se arrepiava de pura excitação só de imaginar , o incrível , implorando algo para ele. Implorando para viver. Implorando para ver sua maldita jornalista de novo. Não que Apolo fosse atender suas necessidades. E a graça estava exatamente aí, para o pequeno Castellamare.
não ficara nem um pouco surpreso ao notar a presença de Apolo ali. Já era mais do que esperado que ele estivesse por trás daquilo tudo. sabia, claro que sabia. E também era óbvio que ele não comandava aquilo tudo sozinho. Apolo jamais teria tantos contatos assim com pessoas da Inglaterra. O maior problema de , naquele momento, nem era estar amarrado e desesperado por água e comida, mas sim quem diabos estava com Apolo no meio daquilo tudo e por quê. Dinheiro, simplesmente? Obviamente não. Apolo não mexia com aquele tipo de coisa, ele não precisava de dinheiro. O rapaz poderia até ser ambicioso, mas nem tanto. Não a ponto de pegar policiais estrangeiros para ganhar. Apolo era inteligente. Um filho da puta inteligente. Maldito, desgraçado, filho da puta. Era tão inteligente quanto o pai.
Ao ter a confirmação de que Apolo estava por trás daquilo, percebera, então, que não teria como sair dali tão facilmente. Estava rezando internamente para que aquela garota voltasse ali com pena dele. Ela e sua sensibilidade seriam as únicas que poderiam salvá-lo daquele inferno.
— E aí, priminho? — Apolo disse alto, puxando uma cadeira que estava perdida por ali e sentando-se de frente para , que abrira os olhos devagar. — Meus rapazes estão cuidando bem de você?
— Tão bem que espero que você e eles morram — alfinetou baixinho.
— Olhe só, , já te perdoei por você ter tentando me enganar, tudo bem? — Apolo sorriu. — Exatamente por isso que trouxe umas coisinhas para você — ele sacudiu a sacola que tinha em mãos e, de dentro dela, tirou uma garrafa de água. — Eu sei que você precisa disso mais que qualquer outra coisa que já precisou na vida. Mas vamos lá, , peça.
engoliu a seco e desviou o olhar da garrafa que lhe parecia tão atrativa naquele momento. A sede praticamente o dominava naquele momento, mas seu orgulho ainda conseguia ser maior. Não queria fazer o que Apolo mandava. Sabia que aquilo era para humilhá-lo. ainda tinha um orgulho próprio, um ego para cuidar. E sua fama não o ajudava. nunca fora de se importar com o que as pessoas de fora pensariam sobre ele, mas se importava, sim, com o que seus "rivais" pensavam.
— Tudo bem, não vou brincar muito com você hoje porque estou com pressa — Apolo se levantou e abriu a garrafa. — Gostaria de saber algumas coisas, mas não estou com tempo agora. Só quero te avisar umas coisinhas — Apolo se aproximou e virou o rosto de para cima, deixando-o dar um gole na água. — Não quero que você fique xingando meus homens ou tentando bater neles. Você não é nada aqui, . Nada. Então não venha querer mandar. Você pode ser um dos últimos vivo, mas aqui realmente não é nada — Apolo tirou a garrafa da boca de , que estava ofegante. — A garota... A loira que veio aqui mais cedo e acabou te vendo...
— Vocês já mataram a pobre coitada? — perguntou baixo, rindo sem humor.
— Ela é sua prima — Apolo sorriu. — Mas ela pensa que você é outra pessoa. Não posso matá-la, infelizmente. Mas ela é uma fofoqueira. Sempre se mete onde não é chamada. Já tentei dar um susto nela, mas parece que ela conhece todos os capangas de todo mundo... Sua priminha, pelo jeito, não passa de uma rodada neste meio de gente como nós. Parece que se meter em merda realmente é de família.
não respondeu. Mas, naquele momento, rezava completamente o contrário de antes. Rezava, agora, para que a garota não voltasse. Não que ele se importasse com ela, mas ela era jovem demais para se meter naquilo tudo. E ele se lembrava claramente do que o filhote mais novo de Apolo dissera para ela. Ele disse alto e em bom som que ela morreria se fosse pega ali novamente. não queria levar mais desgraça para aquela família. Já bastava tudo o que tinha acontecido, a forma que foram separados, as mortes que rondavam suas vidas desde o século passado. Ninguém precisava de mais sofrimentos, ainda mais por sua culpa. Talvez seus poucos parentes vivos oravam com todas as forças para que ele estivesse, enfim, morto. Assim como seu pai. Assim como seu avô. Assim como seus tios distantes. Assim como qualquer merda de outra pessoa que carregava seu sobrenome e fazia besteiras por aí.
— Ops, o priminho ficou pensativo demais — Apolo sorriu de forma sapeca. — Preste atenção, : seus dias estão contados. Então não se preocupe com as outras pessoas. A propósito, te trouxe comida. Mas você não está merecendo pelo que ouvi por aqui. Então me agradeça, mesmo que internamente, pela água que te dei. É a única coisa boa que conseguirá de mim daqui para frente. Saiba, também, que os dias da sua jornalista também estão contadinhos. Parece que consegui acabar com minha lista mais rápido do que pensava. Obrigado por vir visitar Palermo. É um belo lugar, não? — Apolo abriu mais seu sorriso. — A Sicília é isso, meu rapaz. É assim. Isso aqui é o berço da melhor máfia do Universo. Como diabos pudera pensar que se daria bem por aqui, pobre inglês?
— Você pode até me matar, Apolo — o encarou nos olhos. — Mas espero que tente fazer isso antes de sequer chegar perto da . Acredito que saiba do que sou capaz por aquela mulher — sorriu fracamente. — Não vai ser um idiota como você que chegará perto dela se eu não quiser que chegue. Um ótimo exemplo do que pode acontecer caso você force o contato, é o caso do seu pai. Lembre-se do que fizemos com ele quando ele pensou em tentar matá-la.
— Esse seu teatrinho de homem apaixonado e forte não cola comigo, — Apolo se aproximou. — E trate de lavar essa boca para falar qualquer coisa sobre meu pai. Ele pode ter feito muita coisa de ruim, eu sei que fez, mas ele foi o homem mais respeitável de toda a Itália. Não importa o que você fale, , meu pai foi um homem que honrou o sobrenome que carregou, o contrário de sua mãe que não passava de uma vadia estúpida que gostava de dar para o seu pai nas horas vagas, trazendo você e aquele bastardo idiota do ao mundo!
sentiu seu coração acelerar e a raiva tomar conta de seu corpo. Tinha certeza absoluta de que se não estivesse amarrado, já teria dado uns bons socos em Apolo. Mas tudo o que conseguira fazer, fora o de sempre: tirar forças do além e cuspir com toda força no rosto de Apolo, que sem perder tempo, revidou a "agressão" da mesma forma.
— Não pense que não vou te tratar da mesma forma que me trata, . Não sou ambicioso como meus capangas — Apolo o fitou. — Gosto de brigar de igual para igual; se cuspir em mim, cuspirei em você; se me bater, baterei em você. É uma pena que não possamos nos resolver no mano a mano. Pode ter certeza absoluta que eu adoraria cair na porrada com você aqui e agora. Mas infelizmente não tenho tempo para isso.
— Você é um filho da puta — murmurou ainda com raiva. — Um merda filho da puta!
— Assim como você e todo o resto dessas famílias que nos cercam! — Apolo gritou com toda a força que tinha. — Somos todos uns merdas! Uns filhos da puta que só sabem machucar os outros e matar pessoas inocentes! Foda-se, ! Mude o disco, caralho!
não respondeu nada, apenas revirou os olhos. Apolo não gritara nada além da verdade, aliás. Ele sabia e concordava com cada uma de suas palavras. Mas ainda o odiava com todas as forças. Se pudesse, o mataria com as próprias mãos. E ele sabia que esse dia chegaria. Ele sairia dali nem que fosse da pior forma possível. Sairia e mataria Apolo. E todos os outros que estivessem com ele. Faria um massacre, se necessário. Só daquela forma aliviaria a raiva que estava sentindo naquele momento.
Apolo o encarou mais uma vez e passou a mão pelos cabelos, irritado. Teria atirado em naquela hora se não fosse bem controlado e centrado em seu futuro. Encararam-se firmemente até Apolo dar as costas e sair por onde entrou. fechou os olhos com força, tentando se acalmar. Apolo conseguia irritá-lo profundamente, mas ele tinha certeza que aquilo era recíproco. O pequeno Castellamare saíra de lá prestes a explodir de tanta raiva. Qualquer um seria capaz de notar aquilo.

***


PALERMO – 13h13min.

Amanda suspirou e pegou o celular. Não tinha certeza se deveria lidar para alguém ou simplesmente contar para a irmã o que estava acontecendo e pedir ajuda para ela. Mas que dúvida infeliz! Tinha que fazer alguma coisa. Ainda estava com o olhar desesperado do homem em sua cabeça. Toda vez que fechava os olhos, o via em sua frente novamente, com aquele semblante de dar pena. Amanda mordeu o lábio inferior e virou-se para a irmã que estava na cama ao lado.
— Jo, queria te pedir uma coisa — a loira murmurou, piscando os olhos lentamente. — Eu sei que vai me achar louca e dizer que estou tentando me matar. Mas preciso que me faça entrar naquele casarão novamente.
— Como? — Jo virou-se para Amanda, arqueando uma das sobrancelhas. — Você não se lembra do que Apolo disse para gente? Se entrarmos lá novamente, ele manda nos matar.
— Jullie jamais o deixaria fazer isso — Amanda murmurou. — O susto daquela vez, ele quem deu. Mas não sinto medo daquele desgraçado! Ele é só um primo distante, não um irmão ou algo assim. E eu nem conheço a história da família dele. A única coisa que faz sentido é que ele tem o sobrenome italiano. Vamos, Jo! Tem um homem preso lá! E eu tenho certeza que já vi o rosto dele por aí. Não sei seu nome ou nada do tipo, mas ele parecia estar sofrendo muito lá.
— Por favor, Amanda, não — Jo revirou os olhos. — Não seja louca. Se aquele homem está lá, é porque merece. Ele deve ter aprontado algo. Você sabe que o homem que você está se envolvendo e o Apolo não brincam quando o assunto são esses caras. A propósito, por que não posso saber quem é esse homem?
— Ninguém pode ou precisa saber, já vou largá-lo. Não o quero mais. Não depois de ver o que ele faz com as pessoas quando está com Apolo — Amanda revirou os olhos. — Jo, por favor, só me ajude a entrar lá. Eu preciso soltar aquele homem. Algo me diz que ele é bom e está ali injustamente. Eu prometo te tirar dessa. Você já se ferrou alguma vez por minha causa?
— Eu...
— Por favor! — Amanda pediu novamente, saindo de sua cama e sentando ao lado da irmã. — Eu prometo que assim que ajudá-lo, nós vamos para a Inglaterra ou qualquer outro lugar que você quiser! Prometo que te ajudo de todas as formas para sairmos daqui juntas. Mas, por favor, vamos.
— Certo, certo — a mais nova suspirou. — Mas por favor, Amanda, tome cuidado, sim? Vou te levar de carro e jogamos esse tal homem nele e vamos para um lugar longe onde possamos escondê-lo, tudo bem?
— Certo — Amanda sorriu. — Obrigada, Jo. Prometo que nada, absolutamente nada, irá acontecer com você.
— Eu sei — Jo sorriu. — Você tem sorte por ter uma irmã que dirige tão bem como eu. — Tenho, sim — Amanda sorriu e puxou a irmã para um abraço rápido. — Faça o favor de continuar, sempre, participando de pegas. Quanto mais veloz você ficar, melhor.
Jo riu e balançou a cabeça negativamente. Quem a olhasse jamais diria que gostava daquelas coisas. Jamais desconfiariam que ela aprontava todas com a irmã. Amanda já tinha sua fama de perturbada, mas Jo era praticamente um anjo aos olhos dos outros. Talvez, em certos momentos, Amanda era mais comportada que ela. Claro que Amanda gostava de se meter com pessoas de "barra pesada", mas talvez aquilo fosse de família. Amanda queria entrar para as tramóias de seus parentes e não fazia questão de esconder aquilo. Já Joanne, apenas queria curtir a vida. Se formar. Ser feliz. Ser livre. Ir embora dali. Queria rodar o mundo. Queria se aventurar. Mas sem se meter com bandidos, policiais e mafiosos. Amanda já nascera para aquilo; era esperta, inteligente, veloz e ousada.
— Faremos isso a noite, certo? — Jo perguntou.
— Sim — Amanda a encarou. — Por quê?
— Porque darei um jeito de ocupar Apolo e os capangas dele que ficam por aqui — ela deu de ombros. — Você viu o rapaz novo que está com eles?
— Sim, ele gritou comigo hoje — Amanda riu. — Parece que todos aqueles caras acham que podem falar comigo desse jeito...
— E talvez possam — Jo revirou os olhos. — Você deveria parar de se envolver nessas coisas. Enfim. O novato ficou me encarando. Não vai ser difícil tirá-lo do lugar dele.
Amanda deixou o queixo cair com a revelação da irmã.
— O idiota está a fim de você, já? — Amanda perguntou. — Céus, Jo! Todos os capangas do idiota do Apolo ficam caidinhos por você e essa carinha de anjo. Faça o favor de se aproveitar disso, sim?
— Aproveitarei. Direi que estarei esperando-o aqui, às escondidas, à meia noite. Assim que ele me avisar que já está saindo do casarão, pegamos o carro e vamos logo — Jo sorriu fracamente. — Eu adoraria conhecê-lo melhor. Mas não gosto do tipo dele. Não quero ser torturada por supostamente não andar na linha.
Amanda soltou uma risada fraca e revirou os olhos. Joanne sempre achava que seria morta por aqueles caras. Mas eles não passavam de paus mandados.
— Vá atrás desse garoto logo e marque tudo. Direi para a mamãe que ficaremos estudando até mais tarde hoje e que ela não precisa ficar nos olhando de cinco em cinco minutos — Amanda piscou os olhos. — E não sinta medo de se envolver com as pessoas, Jo! Se jogue! A vida é uma só.
— Exatamente por isso que eu tendo cuidar dela, Amanda — Joanne riu. — Estou indo lá. E você estará me devendo mais uma se isso tudo der certo...
— Isso vai dar certo, Jo. Não seja negativa — Amanda piscou um dos olhos. — Pelo menos não hoje.

***


LONDRES, INGLATERRA — 12h15min.

trancou a porta atrás de si e saiu o mais rápido que conseguiu. Estava um tanto quanto atrasada. Prometera à Claire que almoçaria com ela para conversarem sobre algumas coisas do trabalho, colocar as coisas em ordem. Mas acabara se atrapalhando enquanto falava com Emma no telefone. Precisava ouvir da boca da pessoa mais responsável do mundo o que realmente havia acontecido. Sua cabeça estava a mil. Tudo o que precisava era trabalhar, se ocupar, se distrair. Sabia que logo apareceria. Sabia que ela não precisaria se meter em seu trabalho novamente e viajar. Confiava nele. Confiava no trabalho dele. Confiava na inteligência dele. Tudo daria certo. Logo estaria gritando em sua cabeça e, no final das contas, acabando em sua cama, abraçando-a com força e sussurrando coisas em seu ouvido.
soltou um suspiro fraco ao sentir um leve arrepio percorrer seu corpo só de lembrar-se da sensação de ter tão perto e abriu a porta de seu carro. Estava fazendo as coisas de uma forma tão automática que nem sequer notara que já estava em seu carro. Assim que se preparou para entrar no carro, sentiu uma mão não muito forte segurá-la pelo braço. Virou-se assustada e arqueou uma das sobrancelhas ao dar de cara com uma mulher de cabelos pretos até os ombros, encarando-a com um leve sorriso nos lábios.
? — a mulher perguntou baixo e apenas balançou a cabeça. — Sou Lindsay.
— Nós nos conhecemos? — perguntou, piscando os olhos rapidamente. — Será que podemos conversar depois? Estou um pouco atrasada para um compromisso.
A mulher mordeu o lábio inferior, pensativa. Talvez fosse melhor soltar a bomba de uma vez, talvez não. Mas de que isso importava, afinal? , àquela altura, já deveria saber da verdade. Camille não poderia ser tão idiota de segurar uma informação daquelas, certo?
Lindsay respirou fundo e disse firmemente:
— Sou sua mãe.
riu. Encarou a mulher. Riu novamente. Balançou a cabeça. Riu mais uma vez. E jogou a cabeça para trás, incrivelmente nervosa.
Aquilo era piada, certo? Só podia ser! Não fazia nem um dia que descobrira essa possível adoção e, de repente, sua possível mãe biológica aparecia ali?
— Minha mãe está morta — murmurou. — Com todo respeito, é claro. Olhe, não sei quem você realmente é, mas preciso ir agora.
— Não, quem está morta é sua mãe adotiva e sabe disso — a mais velha rebateu. — Não finja ser uma adolescente em crise agora, miss .
— Não me chame assim — pediu, tentando ser educada. — Sim, a mãe que morreu realmente pode ser a adotiva. Mas não dizem que pais são aqueles que criam? Pois então. Ela que ouvira sobre meu primeiro namorado, minha primeira decepção e meu primeiro amor de verdade. Ela que me deu forças para trabalhar com o que trabalho hoje, ela que me arrumou para o primeiro baile da escola e todas essas coisas importantes de quando somos mais novos — encarou Lindsay nos olhos. — Mas isso não importa agora, até porque ela está morta. Eu preciso ir, com licença.
— Não quer ouvir sua história? — Lindsay perguntou assim que tentou adentrar o carro. — Não quer saber o que aconteceu? Por que precisei te deixar? Por que voltei?
— Não — a fitou rapidamente. — Não preciso saber de nada disso agora.
— Fiquei sabendo que está envolvida com — Lindsay a ignorou. — Ele não é o homem certo para você. Mas eu posso te apoiar, se isso fizer você me ouvir.
— Não se atreva a falar do revirou os olhos. — Você não sabe metade do que ele fez por mim. Mas isso realmente não importa. Eu não quero ouvir você! Não agora, pelo menos. Eu realmente preciso ir.
— Podemos nos encontrar mais tarde? — Lindsay insistiu e suspirou. — Por favor...?
— Não tenho motivo para me encontrar com você — fitou o chão. — Mesmo que seja verdade tudo isso que está dizendo, de que importa agora? Não importa de nada. Para que voltar depois de quase trinta anos? Você só serviu para me trazer ao mundo, se realmente for minha mãe. Eu adoraria dizer que estou feliz por encontrar "minha mãe" — ela fez aspas com os dedos —, mas não estou. Cresci acreditando que tinha uma família verdadeira e você simplesmente quer me tirar isso? Oras, faça-me o favor...
— Quando Camille me contou que você realmente tinha se tornado isso, eu não acreditei. Mas vendo agora, com meus próprios olhos... — a mulher suspirou. — Eu só quero uma chance para me explicar. Quer que eu faça um teste de DNA antes de aceitar a me escutar? Tudo bem, eu aceito. Eu só quero me aproximar de você, .
— Eu não preciso de uma mãe agora — rebateu firme. Não queria dizer aquelas coisas. Mas nem mesmo ela sabia que estava com tanta raiva assim.
— Mês que vem é seu aniversário. Eu adoraria poder te ver em pelo menos um, poder te dar um abraço, dizer que estou orgulhosa da forma que te educaram e no que você se tornou profissionalmente — a mulher sorriu tristemente. — Mas parece que nada disso importa para você. Então vá para seu compromisso.
Se o plano de Lindsay era deixá-la com a consciência pesada, funcionara. odiava aquele seu jeito idiota de agir, de não conseguir sentir raiva de ninguém e não conseguir ser cruel. Ainda mais quando as pessoas se mostraram realmente arrependidas. Mas algo no fundo de seu coração dizia que ela sairia infeliz caso desse algum espaço para Lindsay entrar em sua vida.
— Não posso ficar aqui agora, Lindsay — suspirou e mexeu nos cabelos, da exata forma que fazia, bagunçando-os. — Me procure qualquer outro dia. Mas não agora. Minha cabeça está uma bagunça e tudo o que eu preciso é de mais alguma coisa que possa deixá-la ainda mais bagunçada. Só... Só... Desapareça por uns dias — praticamente implorou. — Deixe eu me acostumar com isso tudo. Vá embora. Isso não deve ser difícil para você.
— Tudo bem, eu desisto. Talvez realmente seja uma coisa pesada para você — Lindsay suspirou. — Não sei o que está passando, o que está acontecendo na sua vida. Mas tenho esperanças de que um dia saberei e farei parte dela. Já fiquei tempo demais longe de você, espero que um dia seja capaz de me perdoar por isso. Estou realmente arrependida.
preferiu não responder, apenas adentrou seu carro e fechou a porta com força. Seu coração estava acelerado e sua cabeça doía. Aquilo era tudo o que faltava para bagunçar sua cabeça. fechou os olhos e socou o volante do carro, deixando algumas poucas lágrimas escorrerem por sua bochecha. Apoiou a cabeça no volante e respirou fundo, erguendo a cabeça e secando as lágrimas em seguida. Pôde ver que Lindsay continuava parada do outro lado, observando-a. Naquela hora agradecera mentalmente pelo insulfilm que ele mandara colocar em seu carro para evitar que as pessoas vissem o que acontecia dentro dele.
Alguns minutos depois, conseguiu se acalmar e arrancou com o carro. Não precisava mais olhar para o rosto daquela estranha.
"Sou sua mãe". Céus, o quão absurdo aquilo soava?
— Não importa, isso não importa — sussurrou para si mesma, acelerando mais o carro. — Não importa. Nem um pouco.
Alguns minutos depois já estava no lugar que combinara com Claire e almoçaram em silêncio, era óbvio que aquilo não era normal. Claire podia sentir a tensão transbordar do corpo da chefe.
— Está tudo bem? — Claire murmurou, tomando um gole de suco. — Não precisamos resolver nada disso agora, . Falo sério. Temos um mês inteiro para decidirmos o que fazer.
— Para falar a verdade, não. Nada está bem, nada — suspirou. — Mil desculpas por isso, Claire. Mas não estou realmente bem, eu adoraria acertar as coisas e deixar tudo adiantado como sempre fazíamos, mas não consigo. Pelo menos não hoje, não essa semana.
— Tudo bem — a loira sorriu fracamente. — Mas conte-me o que está acontecendo.
desapareceu, simplesmente desapareceu — murmurou enquanto apoiava o rosto nas mãos. Preferiu não comentar sobre Lindsay, aquilo era coisa para guardar somente para ela (e Jesse, que já estava ciente do assunto) e mais ninguém. — Eu não sei o que pode estar acontecendo com ele neste momento, não sei por que ou como ele sumiu, onde, com quem... Ninguém tem notícias dele.
— Mas Charlie já está tentando resolver isso, sim? — Claire perguntou arregalando os olhos levemente. — E o que você ainda faz por aqui, ?
— Prometi que não me meteria mais nos trabalhos dele e isso é o que farei — respondeu baixinho. — E sim, Charlie já está cuidando de tudo. Mas às vezes eu acho que vou ter algum tipo de ataque, porque eles não ligam desde, sei lá, sete da manhã? Ou menos! Não faço ideia, Jesse e Elizabeth que comentaram sobre isso comigo. Minha cabeça vai explodir a qualquer momento, Claire...
— Continuo achando que você deveria estar lá — Claire disse firmemente. — Você o ama, não importa as promessas que quebre, por menores que elas sejam, como essa de não se meter mais em seu trabalho. Por Deus, ! — a loira revirou os olhos. — Você não vai ficar esperando telefonemas sendo que pode ir para lá e ajudá-lo, não é? Onde diabos está a que conheci anos atrás? Não é possível que o amor do a tenha mudado tanto! E não é segredo para ninguém, nem mesmo para o dito cujo, que tudo o que Charlie mais quer é você por lá.
— Mas...
— Mas o que, ? — Claire a encarou nos olhos. — Não há nada que você possa fazer, realmente, por aqui. Mas quem sabe se não há nada que possa ser feito lá? Você conhece o melhor que todos eles juntos — ela sorriu fracamente. — Ok, tudo bem, talvez tanto quanto a Emma. Mas imagine todos vocês trabalhando juntos novamente? Capaz de encontrarem o e, de bônus, os bandidos que vêm causando o inferno daquele lugar! Você é incrivelmente inteligente, use isso a seu favor. Leve tudo o que sabe. Comente dos poucos parentes vivos de . Não seja boba. Tenho certeza que o idiota do não abriu a boca para falar sobre o que você e Beth descobriram.
encarou a mulher em sua frente e mordeu o lábio inferior. Tudo o que Claire disse era verdade. com certeza fora um idiota a ponto de não falar nada com Charlie e muito menos com Emma, sabendo do que a mulher seria capaz de fazer com aquelas informações.
Tudo o que pairava pela cabeça de , naquele momento, era apenas uma palavra: Palermo.
Precisava ir. Precisava ajudar. Precisava tentar. Precisava ver seu mais uma vez. Precisava deixar de ser idiota e ir. Precisava, também, deixar de se levar tão facilmente por e fazer o que quisesse. No final, ela tinha certeza que tudo acabaria bem.
Porque tudo sempre acabava bem.
Tudo tinha que acabar bem.
Claire sorriu ao ver o olhar um tanto quanto perdido da chefe. Conhecia aquele olhar melhor que qualquer um. O vira três anos e meio atrás, e agora estão onde estão. era uma mulher extremamente inteligente, Claire não conseguia entender por que diabos ela recusara a proposta de Charlie. Era o que ela amava fazer e queria para o resto da vida. Era investigação. Fora da Inglaterra! Oras, fora uma boba de recusar de primeira. Mas Claire sabia que havia tomado sua decisão definitiva e, com toda certeza, era a correta.
encheu o peito de ar e disse firmemente:
— Eu vou até Palermo. Ligarei para o Charlie assim que chegar em casa.

***


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA.

Já era noite quando Amanda finalmente abriu os olhos e jogou os braços para o alto, espreguiçando-se. Dormira o resto da tarde inteira, sentia-se totalmente cansada por várias coisas; a faculdade estava tomando boa parte de seu tempo, assim como sua mãe a cobrava o tempo inteiro, assim como seu namorado — se é que podia chamá-lo assim — vivia enchendo a droga do saco para que ela parasse de se envolver em suas coisas e, agora, aquele homem preso no "casarão" que ficava do outro lado da chácara que vivia. Amanda teve seus pensamentos e lamentações interrompidos por Joanne, que adentrara o quarto com um grande sorriso.
— Mamãe está indo dormir — Jo sentou-se na beira da cama da irmã mais velha. — Disse para ela que estudaríamos o máximo que pudéssemos para as próximas provas que teremos. Ela até perguntou por que você estava tão quieta, disse que você estava com um pouco de cólica e eu lhe dei remédio — a mais nova riu fracamente. — Ela acreditou e está indo se deitar, agora. A casa está, praticamente, vazia. Daqui a pouco Mabel levará as crianças para a casa dos avós paternos — ela deu de ombros. — Eles já estavam completamente arrumados, pelo menos. Eu acho que ela vai sair com algum cara e só voltará para casa pela manhã. Está tudo a nosso favor. Só precisamos fazer com que tudo isso dê certo, por favor.
Amanda abriu um grande sorriso e sentou-se na cama.
— Tudo dará certo, Jo! — Exclamou empolgada. — Falou com aquele infeliz? — Falei, sim — Jo riu. — Está tudo certo. Assim que Mabel sair com as crianças, nós vamos para lá e tentamos arquitetar uma forma rápida e fácil de sair daquela parte. Pensei em usarmos o portão que fica lá no final, lembra? Não usamos aquela saída desde... — Jo mordeu o lábio inferior e fitou o chão — Você sabe.
Amanda suspirou e passou um dos braços pelos ombros da irmã.
— Shhh, tudo bem — a loira sorriu. — Eu sei. Eu me lembro bem. Mas vamos usar aquela saída mesmo, depois nós vamos levá-lo para fora daqui. Mas, claro, se ele decidir colaborar e dizer quem é e por que estão fazendo tudo isso com ele. Se ele merecer nossa ajuda, vamos até o fim. Se não, o largamos em qualquer lugar e voltamos como se nada tivesse acontecido. Fechado?
— Fechado — Jo sorriu. — Eu espero que esses seus ataques de bondade passem logo. Não quero servir de cobaia nesses seus planos retardados...
— Largue de ser boba! — Amanda riu e balançou a cabeça. Sim, de fato, ela tinha o coração mole demais para certas coisas. — A propósito, que horas são?
— Quase nove horas, eu acho — Jo deu de ombros. — Temos tempo o suficiente, ainda. — Sim, temos — Amanda se levantou e se espreguiçou novamente. — Quer repassar tudo?
— Na verdade, quero saber uma coisa — Jo deixou seu corpo cair sobre a cama da irmã. — A mamãe sabe o que acontece no casarão lá do outro lado? Ela sabe que o papai se envolvia nessas coisas também?
Amanda gelou. Ela poderia responder a irmã e dizer que não sabia de nada. Poderia, também, fugir do assunto como sempre fazia. Assim como podia contar a verdade. Joanne merecia a verdade, aliás. Amanda só não queria contar que descobrira tudo o que seu pai fazia junto com os capangas dele e Apolo.
— Ainda com isso na cabeça, Jo? — Amanda suspirou. — Não precisa se preocupar com isso. Sério.
— Só quero saber se a mamãe sabe de alguma coisa — Joanne praticamente sussurrou. — Depois que aqueles caras mexeram com a gente, eu fiquei meio paranoica com isso. Assumo. Mas eu só quero saber um pouquinho mais sobre nossa família. Você parece saber tanto e...
— Eu sei porque sou curiosa demais e fiquei indo atrás de cada informação que tenho — Amanda a encarou. — Não é como se eu não quisesse compartilhar com você, eu só não gostei do que descobri. Ainda mais depois que o papai morreu. Mas eu quero que saiba que você está completamente segura, assim como a mamãe, a Mabel e as crianças. Não se preocupe. Só acontecerá algo de ruim com quem merecer isso — Amanda sorriu para a irmã, tentando acalmá-la. — Mas, enfim. Não tenho certeza absoluta se a mamãe sabe dessas coisas. Mas ela não é burra, nós sabemos disso. Se ela fosse burra, não seria professora em uma Universidade, certo? Mamãe é uma mulher incrivelmente inteligente. Ela jamais se casaria com o papai se não soubesse exatamente o que ele fazia — piscou um dos olhos. — Deve ter algo a mais por trás disso tudo. Mas não faço questão de descobrir e você também não deveria fazer.
Joanne suspirou e fechou os olhos. Talvez Amanda tivesse razão. Talvez ela não precisasse, realmente, saber o que diabos rondava aquela família. Ela não faria parte daquilo, de qualquer forma. Tudo o que queria era cursar sua faculdade normalmente. Suas aulas haviam começado há pouco tempo e já tinha provas para se ocupar, não tinha que se preocupar com mais nada além de seus estudos. Pelo menos era isso que sua mãe vivia lhe dizendo. Quem ela era, afinal, para contrariar?

***


abriu os olhos devagar, tentando manter a calma ao notar que continuava amarrado ali. Todo seu corpo doía e seus pulsos provavelmente estavam cortados de tanto que tentara puxá-los. Aquilo estava sendo um inferno. A cada segundo que passava, ele pedia para aquilo ser um pesadelo. E caso não fosse, que ele morresse de uma vez por todas. o entenderia se ele implorasse pela morte, sim? Talvez qualquer pessoa em seu lugar implorasse. Não aguentava mais ficar sentado e amarrado ali, sem se alimentar direito — porque os capangas de Apolo levaram um bocado de comida para ele, mas muito, muito menos do que um adulto deveria comer, dizendo que ele não merecia nem o pouco que estava tendo —, sem beber água o suficiente para mantê-lo bem, sem ver as pessoas que amava, sem trabalhar. simplesmente não aguentava mais. Estava, realmente, vendo a hora que pediria pela morte. Talvez fosse isso que Apolo queria.
estava agindo como um fraco, mas o que poderia fazer? Estava completamente acabado, derrotado. Tinha certeza absoluta que a próxima vez que Apolo aparecesse ali, pediria para morrer. queria acabar com aquela porra de sofrimento o mais rápido possível. Não queria se arriscar mais, não queria arriscar outras pessoas também. Sabia que logo, logo Jullie o localizaria e viria atrás dele com Charlie, ou sozinha do jeito que era marrenta e maluca. E simplesmente não queria aquilo. Sabia o quão perigosos aqueles malditos eram. Não que sua preocupação fosse Jullie ou Antoni ou Charlie, eles sabiam se virar mil vezes melhor que Emma, por exemplo. Emma raramente ia para as ruas. As vezes que fora, ou acabara baleada ou fora por causa de alguém muito importante. O pensamento de Emma largar as coisas que fazia para ir atrás dele ao lado dos outros o perturbava. Mas nada o perturbava mais que a possibilidade de já estar sabendo de tudo e estar surtando em Londres, implorando para voar para Palermo. Se ao menos pensasse em pisar naquele lugar, ela já estaria correndo perigo. tinha absoluta certeza de que surtaria e voaria para Palermo o mais rápido possível. Ele estando morto ou não. Mas se ele ao menos estivesse morto, ela não correria tanto perigo. Porque, oras!, eles já teriam conseguido o que tanto queriam: morto.
Um barulho estranho fez com que acordasse de seus devaneios e olhasse em volta, mesmo estando tudo escuro. Pensou em chamar alguém e perguntar se algo estava acontecendo, mas preferiu ficar em silêncio. Se alguém dali estivesse morrendo, fosse por qualquer motivo, ele não atrapalharia. Queria que todos fossem para o inferno, de qualquer forma. Ele também iria um dia, então não se importava em praguejar aqueles filhos da puta. As únicas coisas que realmente gostaria de saber, naquele momento, eram: que horas eram e de que dia?
Ele sequer se lembrava quanto tempo estava ali ou quando fora pego, ou como fora pego. Só queria que aquilo acabasse de uma vez. — Brad? — perguntou um tanto quanto alto, ao ouvir a porta tentar ser aberta. — Oras, cara, não sabe mais abrir uma porra de uma porta?
Ninguém respondeu e deu de ombros. Pouco se importava com aquilo. Queria mais é que todos eles fossem se foder. Sem se importar com o barulho que ainda fazia do outro lado, fechou os olhos e suspirou. Tentaria pegar no sono mais uma vez, por mais difícil que fosse. Talvez aquilo fizesse o tempo passar mais rápido. Ou ele morrer mais rápido.
— Mas que caralho de porta! — uma voz feminina ecoou pelo local assim que a porta se abriu, fazendo com que arregalasse os olhos assustado. — Olá, moço. Então, vim te tirar daqui e preciso que me diga seu nome. Mas o de verdade.


Continua...



Nota da autora: Oi! As atualizações serão bem rapidinhas sempre porque a fanfic já está concluída e a nossa beta é incrível e maravilhosa e rápida hahaha. Espero que estejam gostando. Lembrando que: a PMI é uma fanfic antiga e estou enviando a segunda parte só agora para o ffobs devido a muuuitos pedidos de vocês, logo, alguns trechos, falas, situações, séries e músicas citadas são bem antigas também. No mais, espero que estejam curtindo e com aquele gostinho de nostalgia, já que faz bastante tempo desde que a primeira parte foi concluída. Obrigada por tudo, até a próxima! <3



Outras Fanfics:
» Pull Me In
» Sombras do Passado
» Supernova

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