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Última atualização: 09/08/2020

Prólogo - Devil

PALERMO, SICÍLIA - ITÁLIA.

O homem deixou um suspiro escapar do fundo de sua garganta e tirou os óculos escuros que escondia um pouco de seu rosto. Com um sorriso no canto dos lábios, levantou a cabeça e encarou o sol brilhante com os olhos estreitos, era bom sentir uma temperatura mais quente. Há quanto tempo não sentia um sol tão quente — comparado à Inglaterra, onde vivia — esquentar-lhe o corpo daquela forma rápida e deliciosa? Era relaxante. Ainda mais depois de tudo o que vivera e sentira.
Férias. Isso, ele precisava de férias. Precisava afastar-se de todo aquele mal que o cercava. Por isso estava ali, em Palermo; para tirar férias, livrar-se de todos, sentir-se bem, recuperar-se. Tinha sequelas de coisas de alguns meses atrás e eram coisas que ele pretendia esquecer. Queria focar em outra coisa — pelo menos nos próximos dois anos —, estava cansado de se esconder, de passar-se de infeliz por aí a fora. Queria viver! Ser feliz! Queria sorrir normalmente, queria conhecer as praias, passear pelos campos, sentir o cheiro do mar, correr na areia, jogar bola, tomar sorvete e brincar como nunca tivera direito antes. Quem sabe, depois disso tudo, passar no Vaticano e conhecer as Igrejas tão bem arquitetadas. Conhecer alguma mulher interessante o suficiente para esquecer-se dos amores do passado também seria uma boa ideia. As italianas eram lindas e ele se sentiria honrado em conseguir uma para si.
Uma moça parou em seu lado e, com um sorriso angelical nos lábios, fitou-o com curiosidade.
— Olá — ele disse em um tom de voz calmo, o qual nem ele mesmo reconhecera. Desde quando era tão sereno? O que uma mulher bonita não faz...
— Olá — ela respondeu no mesmo tom de voz, abrindo mais seu sorriso. — Seja bem-vindo.
— Obrigado — ele mordeu o lábio inferior e pegou as malas no chão. — Isso é tudo...
— Nosso? — ela o interrompeu e soltou uma risada fraca, mas melodiosa. — Sim, nosso. Quando digo nosso — ela o encarou por mais alguns segundos e virou-se para o portão novamente ao voltar a falar: — É nosso de verdade!
— Certo. Você é a... — ele murmurou arqueando uma das sobrancelhas e a garota riu, novamente.
— Amanda. Amanda . — Ela sorriu e jogou os cabelos loiros para o lado. — Não me conhece porque eu era um bebê na última vez que você veio aqui — ela sorriu novamente, com seus lábios rosados e bem desenhados, atraindo a atenção do mais velho.
— Creio que sim — ele murmurou mordendo o lábio inferior e pouco se importando se a pequena italiana ali era sua prima. Até um ano atrás nem sequer sabia que ainda tinha parentes por aí. Pouco importava se eram parentes ou não, aquela garota era linda. De verdade.
— Papá!¹ — a garota gritou assim que cruzaram o enorme portão de ferro do local. — O primo inglês chegou! — ela gritou novamente, com seu italiano soando de uma forma tão perfeita e serena que, naquele momento, o homem sentiu-se perdido e com uma enorme vontade de aprender o italiano para falar tão bem quanto ela. O sotaque era tão lindo, na voz suave de Amanda, então...
— Oh! — o mais velho exclamou enquanto caminhava calmamente na direção do rapaz e da filha. — Bem-vindo! — exclamou novamente, enquanto sorria e puxava o homem para um abraço caloroso, fazendo-o torcer o nariz disfarçadamente. Não gostava de calor humano. Não era chegado a abraços.
— Obrigado — agradeceu, timidamente. Não entendia italiano perfeitamente bem, mas sabia que o velho havia lhe dado boas-vindas.
O velho soltou os ombros largos do mais novo convidado e passou a caminhar ao seu lado, ainda sorrindo. Família feliz, pensou, enquanto corria os olhos por todas as pessoas que surgiram no local assim que ele fora anunciado. Gostava de público. Público sempre fora seu forte. Público lembrava poder, que lembrava passado, que lembrava tudo o que ele queria — ou teria de — esquecer que viveu. Mas, claro, não podia nem iria negar que ele estava no poder agora. Ele era o chefe. Não chefe de uma coisa qualquer, não se mudaria para Itália somente por querer um pouco de paz e felicidade. Isso seria somente nos próximos dois anos. Uma trégua, talvez. Uma trégua de algo que aquela família nem sequer desconfiava. É o que todas as mães dizem para seus filhos: Não confie em estranhos.
O homem deixou um sorriso se formar no canto de seus lábios quando conseguiu observar algo brilhar no topo do telhado da casa, uma coisa tão... escondida. Ninguém ali seria capaz de notar o que ele notou, nem mesmo o melhor segurança daquela casa!
Um leve aceno de cabeça. Bastou isso.
Silenciosa, rápida e fatal.
Essas são as três palavras que definem o que viria a seguir.
Silenciosa.
Rápida.
Fatal.
Mais um sorriso disfarçado.
Aquilo fora o suficiente. Em questão de segundos, o velho, pai de família, estava caído ao chão com uma das mãos sobre o peito, enquanto respirava ofegante. Horror era o que rondava aquele quintal. Todos tinham olhos extremamente arregalados e gritos desesperadores escapavam de suas gargantas. O homem, convidado, como estava mais próximo do mais velho, ajoelhou-se o mais rápido que conseguira e se aproximou do homem, engolindo em seco ao observar o que havia sob a mão do mais velho. Sangue. Era sangue o que havia sob a mão do velho! Fora um tiro certeiro e quase impossível de se notar, se não fosse pelo sangue que jorrava com força e um pouco mais de rapidez que o normal.
As mulheres presentes tinham os olhos arregalados e lacrimejantes, gritos e mais gritos eram ouvidos. Desespero. Medo. Pavor. Escuridão. Gritos.
Morte. Poder. Há quanto tempo ele não via aquelas palavras e sensações? Um ano? Fora o suficiente para sentir saudades. Pose de bom moço não era para ele. O velho estava fora do caminho. O poder era dele. A verdade, bem, a verdade não viria à tona. Só se o velho revivesse. Mas isso não era possível.
Era tudo dele. Mas precisava confessar: estava morrendo de pena de ver os olhos de Amanda — tão azuis, tão bonitos, intensos e brilhantes — derrubarem tantas lágrimas desesperadas daquela forma. Ela ficava tão mais bonita sorrindo! Mas quem se importava? Ele não... nem quem estava com ele.
Uma das mulheres se abaixou ao seu lado, mostrando tanto medo e desespero quanto as outras, mas algo nela a diferenciava. Uma pequena tatuagem no dedo indicador, talvez fossem seus olhos extremamente verdes e traiçoeiros. Ou pelo simples fato dela ser uma antiga conhecida e ninguém sequer desconfiar, assim como não desconfiaram do atirador no topo da casa.
— Bem-vindo, — ela sussurrou antes de levantar-se e secar as lágrimas.


Capítulo 1 - Renascendo

Três anos depois...

abriu os olhos e suspirou preguiçosamente em seguida. Esticou os braços para se espreguiçar e sentiu algo bater contra seu corpo. Com um sorriso fraco no canto dos lábios, virou-se para o lado. Lá estava ela. Os cabelos, levemente enrolados devido ao penteado da noite anterior, estavam espalhados por todo o travesseiro, o blusão que, na verdade, era uma camisa antiga de alguma banda que gostava durante a adolescência, cobria até metade de suas coxas, deixando à mostra o curto short azul marinho que ela usava por baixo. sentia-se feliz em tê-la ali. Nunca sequer desconfiara que acabaria ali com ela, em sua cama. Mesmo depois de tudo o que passaram, mesmo depois de tudo o que disseram e fizeram um com o outro.
Ignorando o leve frio que percorreu seu corpo por estar apenas de boxer, se levantou e caminhou lentamente até o banheiro, antes observou o celular aceso em cima da mesinha ao lado da cama e revirou os olhos. Charlie. Dane-se. Precisava de um banho bem tomado, precisava relaxar, precisava esquecer-se que dali uns dias completaria trinta e um anos. Deus! Como passara rápido esses três anos. Ele ainda podia sentir a bala daquela maldita arma de em seu interior, ela não pôde ser removida pois aquilo colocaria mais sua vida em risco. Charlie, então, como ficara responsável por ele, achou melhor não arriscar. Não o atrapalharia quando cicatrizasse, ele poderia continuar sendo o famoso . A bala não o atrapalharia em nada. Parando em frente ao espelho, encarou seu reflexo e suspirou em seguida.
Havia melhorado. Seu rosto parecia mais... alegre. Seus cabelos não estavam mais tão bagunçados como costumavam ser, estavam até mesmo mais baixos! Sentia-se novo, renascido. Após encarar-se por mais alguns segundos, fechou os olhos com força e abaixou a cabeça. Sentia as memórias lhe atingirem com força toda vez que fechava os olhos, lembrava-se claramente do que acontecera antes de ser atingido. Ainda com os olhos fechados, levou os dedos em direção de sua barriga, onde havia uma cicatriz grossa. Soltou uma risada fraca e irônica lembrando-se que, ali, onde ele havia levado um tiro, fora o local onde seu pai também fora atingido e morto.
Tentaram matá-lo da mesma forma que o pai, mas falharam. Poderiam ter falhado com seu pai também.
sentiu alguém abraçá-lo por trás, mas não se moveu. Apenas sentiu o calor da pele macia e quente de abraçar-lhe por trás, não tinha sensação melhor que aquela. Ele sabia bem que ela já tinha ideia do que ele estava pensando para estar naquele estado. Estavam em um estágio avançado; não precisavam mais de palavras e explicações. Entendiam apenas pelas ações e gestos um do outro. sabia o quão culpada se sentira durante o tempo que ficara no hospital e sabia, também, o quanto ela ainda se sentia mal com toda a situação mesmo depois de três longos anos. Culpa não era algo que passava tão rápido assim, mas ele conseguiu lidar bem com aquilo e deixar claro para ela que... ele a amava mais que qualquer coisa e não teria culpa dela que o fizesse mudar de ideia. Pela primeira vez na vida deixou claro o que sentia por alguém e ignorou completamente seu subconsciente dizendo que ele deveria manter-se longe de porque ela o havia entregue para a polícia mesmo ele não sendo culpado. Ele ignorou tudo e todos que era contra aquilo e a primeira coisa que fez assim que obteve alta do hospital fora ligar para ela e pedir para que ela fosse junto a Charlie e Emma buscá-lo. Oras! Ela passara todos aqueles meses lá com ele. Por que diabos ele a ignoraria? Por que terminaria tudo? Ele a amava com todo seu coração e não sentia mais medo de assumir aquilo para quem quer que fosse.
— Bom dia — sussurrou após depositar um beijo rápido nas costas nuas de .
— Bom dia — ele respondeu com um sorriso torto, abrindo os olhos e virando-se para ela por completo.
— Já tem que ir? — ela perguntou ainda num tom de voz baixo.
— Sim, acabei de ver que Charlie me mandou uma mensagem, não a li... mas tenho certeza que ele me quer lá no prédio — ele respondeu fazendo uma careta que, de acordo com , era fofa. — Quer uma carona? Eu te busco quando eu acabar lá no Charlie.
— Mas não era sua folga? — ela perguntou e voltou a falar em seguida, sem esperar uma resposta: — Você disse isso semana passada e eu tive que esperar você prender um cara fora de Londres... — ela revirou os olhos e sorriu em seguida — Não precisa se preocupar. Eu sei me virar, .
— Eu sei que sabe, mas — ele fez uma pausa e se aproximou mais da mulher, puxando-a pela cintura e colando seus corpos de uma vez — Eu quero te levar em um lugar. A propósito, Charlie curte me tirar de folgas.
— Percebi — ela revirou os olhos e ignorou completamente o fato de ter que ir trabalhar mais uma vez. — Outro? — ela perguntou, referindo-se ao lugar que a levaria, sorrindo boba e envolvendo o pescoço do homem com os braços.
— Sim, outro — ele sorriu fraco. — Sabe como é, a London Eye está aí dando sopa e eu sempre quis, você sabe — ele piscou um dos olhos, fazendo-a gargalhar — transar com você lá dentro.
! — ela exclamou ainda rindo e dando um tapa no braço dele, fazendo-o gargalhar junto.
— Nós vamos jantar com a Emma, o Charlie e o Nicholas — ele disse colocando uma mecha do cabelo de para atrás de sua orelha.
— Vocês vão, finalmente, contar alguma coisa para o Nicholas? — perguntou enquanto encarava .
— Eu não sei — ele deu de ombros e se afastou de . — Eu acho que é apenas... O que fazíamos antes, sabe? — ele sorriu e andou calmamente até o box. — Nicholas pediu e eu aceitei, não sei dizer "não" para aquele moleque.
— Eu sei que não sabe — riu e virou-se de costas para não assistir arrancar a única peça de roupa e correr para atacá-lo e mostrar o efeito que ele lhe causava. — Então tudo bem — ela deu de ombros e se virou para , que já estava embaixo do chuveiro. — Vou pegar minhas roupas e esperar você acabar.
— Eu acho melhor a gente economizar a água do mundo e você vir tomar banho comigo — ele disse alto quando já estava passando pela porta do banheiro, fazendo-a rir. — Não ria! — exclamou. — Estou falando sério! Não ligo de dividir o chuveiro com você!

Alguns minutos se passaram e os dois estavam devidamente arrumados. vestia a mesma roupa da noite anterior, mas não importava — pelo contrário, isso a fazia lembrar que precisava levar roupas para o apartamento de logo. As pessoas da Redação não notariam, até porque não a viram na noite anterior. estava o mesmo despojado de sempre; cabelos — agora um tanto quanto mais curtos — levemente bagunçados, calça jeans e camisa — quase — social branca de botões com uma camiseta igualmente branca por baixo. Estava... Normal.
— Vamos? — ele perguntou afundando o rosto no pescoço de , que se encolheu automaticamente e sorriu.
— Vamos, vamos — ela respondeu se afastando dele e correndo para a sala para pegar sua bolsa que estava largada por ali.
Não demorou muito e já estavam no carro de , que já havia mudado novamente. Agora ele tinha um Audi RS6 azul marinho, o carro era realmente encantador e confortável. Ah, óbvio, veloz também. Era o típico carro que qualquer viciado em carros chamaria de foda. Com , ao encarar aquele carro na loja, não foi diferente. De acordo com ele, aquele carro chamara seu nome, implorara para ser comprado e ele apenas não soube dizer não para aquela coisa linda.
— Que horas você sai hoje? — perguntou enquanto parava em um sinal vermelho.
— Que horas você quer me buscar? — ela sorriu de uma forma sapeca e mordeu o lábio inferior.
— Mal foi promovida e já está querendo fugir do trabalho? — estreitou os olhos e riu, balançando a cabeça afirmativamente. — Te pego às sete e te levo em casa para se arrumar.
— Marcado, então — ela respondeu sorrindo e sentindo a felicidade invadir cada pedacinho de seu corpo. Deus! Há quanto tempo ela esperava por aquilo tudo? Sentia-se completamente realizada por estar com daquela forma. Apesar de tudo o que passaram e disseram um para o outro, ela o amava com todo o coração e não negava aquilo para mais ninguém há tempos. A partir do momento em que a olhou nos olhos e a cobriu com seu casaco dizendo que a amava, há três ano atrás, ela parou de se enganar e negar que não sentia o mesmo. Porque, Deus, ela sentia a mesma coisa que ele, senão a mais! Estava imensamente feliz e realizada com tudo o que estava acontecendo nesses últimos dias.
Pouco mais de dez minutos depois, estacionou o carro em frente a Redação. tinha um bico desanimado e emburrado no rosto. Apesar de adorar trabalhar ali e fazer o que fazia — escrever e correr para pegar os furos —, sentia-se cansada e não queria se afastar de . Não depois da noite que tiveram.
— Não quero trabalhar! — ela exclamou afundando no banco do carro.
soltou uma risada fraca e tirou o cinto de segurança, debruçando-se sobre o corpo de no outro banco.
— Eu não quero que você vá, mas mesmo assim te trouxe aqui, né... — ele murmurou enquanto afundava o rosto no pescoço da mulher, fazendo-a sorrir e sentir arrepios.
— Vou fazer tudo o que tiver para fazer o mais rápido que eu puder — ela murmurou puxando-o pelo rosto e encarando-o nos olhos. — Me pegue assim que eu terminar, sim?
— Com certeza — ele respondeu sorrindo e, sem enrolar mais, juntou seus lábios em um beijo um tanto quanto urgente.
retribuiu o beijo a altura enquanto o puxava para mais perto, sem se importar se ele era mais pesado que ela ou não, apenas queria tê-lo mais perto, queria senti-lo mais uma vez antes de descer daquele carro e se deparar com a maldita realidade de que teria que ficar sem aqueles toques e beijos durante o dia inteiro.
afastou seus lábios e, sem abrir os olhos, murmurou:
— Eu acho bom você descer desse carro agora antes que eu pare de resistir e te leve de volta para o meu apartamento.
— Eu não reclamaria se você fizesse isso — ela respondeu e puxou o lábio inferior de , fazendo-o soltar um suspiro fraco. — Mas eu realmente preciso trabalhar, então...
— Infelizmente. — Ele revirou os olhos e voltou a sentar-se comportadamente em seu banco.
— Até mais tarde — ela murmurou enquanto se curvava na direção de e juntava seus lábios mais uma vez.
— Até mais tarde — ele respondeu sorrindo.
, então, saiu do carro. Olhou para trás antes de entrar na Redação e continuava lá, como ele sempre fazia, esperando-a entrar. Ela sorriu e acenou, ele retribuiu sorrindo da mesma forma e, com a imagem de sorrindo daquela forma alegre na cabeça, arrancou com o carro.

****

Ryan fotografava o corpo sem vida que se encontrava jogado no chão.
— Essa vida de trabalho em dobro não serve para mim — murmurou ele enquanto encarava o pobre coitado morto. — Olha só o que esse cara fez consigo mesmo! — ele exclamou horrorizado. — Charlie, quero voltar para os meus códigos com a Emma — continuou Ryan, assim que o chefe se aproximou.
— Pare de ser frouxo, por favor — Charlie disse em um tom brincalhão, revirando os olhos. — Você que escolheu estar aqui.
— Eu sei — o rapaz suspirou e encarou o mais velho. — Isso foi mesmo um suicídio? — ele perguntou sério.
— É o que parece — Charlie respondeu. — O está vindo para cá. Continue a tirar as fotos, quanto mais detalhes, melhor.
— Certo. — Ryan respondeu dando de ombros e voltando ao trabalho em seguida.
Uns minutos se passaram e finalmente apareceu. Não estava com uma aparência tão apresentável, como já era de se esperar. Era sua folga — novamente —, provavelmente passara a noite inteira acordado ou fazendo qualquer outra coisa com em uma noite calma.
— Finalmente! — Charlie exclamou se aproximando.
— Oi para você também — disse com um sorriso irônico nos lábios e revirando os olhos em seguida. — Qual a dificuldade em me chamar quando minha folga terminar? — ele perguntou bufando.
— Nenhuma — Charlie deu de ombros. — Gosto de te tirar de casa quando está com alguma mulher. Ainda mais quando essa mulher é a ! — ele sorriu, brincalhão e continuou encarando-o sério. — Vai logo olhar esse corpo, — Charlie pediu, dando uma risada fraca. Não pelo corpo, mas sim pela cara de . — Disseram que pode ser encarado como um suicídio.
— Essa sua perícia anda tão fraca que tudo para ela hoje em dia é suicídio.
murmurou indo em direção ao corpo, contra sua vontade. Não aguentava mais ver gente morta.
parou e encarou o homem quase idoso que estava caído no chão sem nenhum rastro de vida. Coitado, foi uma morte dolorida, pensou suspirando e se abaixou na direção do corpo, curvando-se para observá-lo melhor. Sua especialidade não era aquela, mas, querendo ou não, aprendera muito com . Principalmente analisar corpos e ter a certeza de quando fora um suicídio ou não. Assim como aprendera com Lucy que se for um suicídio, terá uma pista evidente daquilo. Nem mesmo que fosse uma carta de despedida ou um corte pequeno no pulso. Agora, se for um assassinato, o corpo ficaria daquela forma. Ficaria exatamente igual ao corpo daquele homem que estava em sua frente. Pelo menos aqueles dois serviram para alguma coisa: aumentar seu conhecimento.
se levantou e se virou para Charlie, mordendo o lábio inferior. Apenas com aquele olhar que o lançara, Charlie notara que teriam mais trabalho que imaginara. Não era um suicídio. Sua perícia estava errada. Ele estava errado. Os assassinatos estavam de volta. Porém, desta vez, mais complicados; complicados a ponto de enganar profissionais. A ponto de ficarem confusos enquanto analisavam o corpo. Indícios de suicídio, mas, na verdade, um homicídio. Charlie sinalizou para os profissionais que ainda estavam ali e pediu para que recomeçassem as análises, deixando claro que não acreditava mais na hipótese de suicídio. Abririam um caso específico para aquele homem e descobririam o que havia acontecido de fato.
— E que tudo comece de novo. — sussurrou ao passar por Charlie e sair do local sem dar as informações necessárias para a perícia que apenas o aguardava. Estava abalado demais para continuar naquele lugar. Sentia-se sufocado. Seja lá quem for o assassino da vez, quer tentar derrubá-los de novo. Mas ele não deixaria isso acontecer. Se não deixara há três anos atrás, não seria agora que ele desistiria de destruí-los de uma vez por todas. Queria viver livre daquele inferno e viveria. Nem que para isso ele precisasse matar o dobro que matara da última vez.

****

Nicholas deu um sorriso de canto para a garota em sua frente e jogou a mochila em um dos ombros.
— Eu realmente preciso ir, Colbie — ele murmurou mordendo o lábio inferior. — O amigo da minha mãe está vindo me buscar.
— Mas ainda é cedo e falta a última aula. Pare de matar aula, Nicholas! — a garota o repreendeu e revirou os olhos. — É a segunda vez em uma semana.
— E se eu prometer que é a última? — ele perguntou baixo, se aproximando da amiga que deu uma risada fraca.
— Contarei para sua mãe caso não seja mesmo — ela o encarou nos olhos firmemente. Era a única garota naquela maldita escola que o encarava nos olhos com tanta firmeza e sem deixar as bochechas corarem. Por que diabos Colbie não podia ser como as outras?
Ah, claro. Se ela fosse como as outras não seria sua melhor amiga.
— Colbie, por favor! — o garoto exclamou. — Se minha mãe souber ela me bota de castigo!
— Por favor digo eu! — a garota bufou. — Só estou precisando de ajuda no maldito trabalho de matemática! Você é o único que consegue me fazer entender. Por favor — ela murmurou fazendo um bico e Nicholas bufou, revirando os olhos.
— Se eu for no jogo com você na sexta... — Nicholas começou e Colbie mordeu o lábio inferior — Você promete não contar a minha mãe?
— Prometo o que quiser se me fizer ficar com pelo menos sete e meio em matemática — ela respondeu sorrindo e Nicholas suspirou. — E de brinde, sim, aceito sua companhia para o jogo.
o perdoaria por ele perder o treino dos jogadores, não é mesmo?
Ainda com o coração apertado por estar louco para ir ao treino, Nicholas pegou o celular e mandou uma mensagem para informando-o que tinha um trabalho para fazer e não poderia matar aquela aula. Alguns minutos depois, respondeu dizendo que estava tudo bem e ele acabara ficando atolado de trabalhos. Nicholas sentiu-se mais aliviado após a mensagem e caminhou ao lado de Colbie até a sala de aula.

****

Charlie encarou a sua frente e mordeu o lábio inferior. Não sabia como contar aquilo a ele, não sabia como agir com tudo aquilo acontecendo de novo.
— Encontramos... — Charlie fez uma pausa e arqueou uma das sobrancelhas — Encontramos um bilhete com o seu nome, . Com a mesma caligrafia de três anos atrás. O que é completamente estranho já que...
— O e Castellamare estão mortos e não há possibilidade de ser o irmão do Crowley que foi morto naquela explosão esquisita que teve no dia que eu acordei — passou as mãos pelo rosto e suspirou. — Christopher. Christopher Adams. Onde ele está? Já foi solto?
— Ele será solto daqui a um mês — Charlie respondeu. — Acha que ele pode estar envolvido?
— Não sei se ele seria capaz de algo tão inteligente, mas o que custa tentar?
deu de ombros. — Não quero ler o bilhete, eu não quero analisar nada. Só quero bater um papo com o Adams e preciso que encontre o Gabe, porque, sim, ainda lembro dele, e o amigo dele também.
— Mas você não pode andar às cegas assim, — Charlie juntou as sobrancelhas, estranhando o ato do mais novo.
— Andei às cegas a vida inteira, Charlie. Não pode ser tão difícil fazer isso de novo. — rebateu firme enquanto se levantava — Não vou demorar com o Adams.
— Você deveria deixar de ser orgulhoso — Charlie murmurou quando já estava na porta. — Acho que você deveria aceitar minha proposta de...
— Não, Charlie! — o cortou e suspirou, encostando o corpo contra a porta. — Não quero trabalhar com a . Por que não chama a Elizabeth?
— Acha que não se importaria? — Charlie riu baixo e balançou a cabeça negativamente. — Pare, , nós dois sabemos que a é a melhor pessoa para trabalhar com isso.
— Não, não é! — exclamou. — Deixe a fora disso, por favor!
Charlie suspirou.
— Pode pelo menos pensar no assunto? Você não pode, nem deve e tampouco deixarei, tomar as decisões por ela. Quero seu consentimento porque faremos uma equipe como a antiga e não quero vocês feito cão e gato agora que estão namorando — ele perguntou baixo e revirou os olhos. — Oras, ! Ela sabe de alguma coisa, podemos colher algo dela facilmente! Pense comigo: a já teve um caso ou sei lá o que com o Paul. Ela pode saber no que ele estava envolvido e por que estava atrás do que queremos e...
— Não! — se segurou para não gritar e suspirou mais uma vez. — Não importa o que ela e Paul tiveram. Isso foi há anos atrás, Charlie! Ela não sabe de nada e é melhor continuar sem saber!
— Está desistindo do cofre, então? — Charlie perguntou e suspirou.
— Sim — ele respondeu firme e Charlie passou as mãos pelos cabelos.
— Então foi tudo à toa? Esforços jogados fora?
— Sim, Charlie, foi, foi tudo em vão. À toa.
— Por favor, . Não fale assim e...
— Sabe o que é ver a mulher que você ama com vários machucados e com os olhos lacrimejantes por saber que você pode morrer a qualquer momento, Charlie? — o interrompeu e deu passos largos até ficar cara a cara com Charlie, apoiou os braços em sua mesa e o fitou nos olhos, falando em seguida: — Sabe o quanto dói encarar aqueles olhos que antes eram tão brilhantes, totalmente opacos e transbordando preocupação? Pois é, Charlie, foi o que eu vi na e não quero ver de novo. Por isso sou contra a volta dela para cá. Não quero, não aceito, não vou colaborar, não adianta.
— Já parou para pensar no que ela quer? — Charlie perguntou. — Repito: você não tem o direito de decidir por ela e eu não vou deixar que isso aconteça. Precisamos dela, quer você queira ou não.
— Já pensei. Temos outras fontes confiáveis, não quero que passemos por tudo de novo — se ergueu e suspirou. — E é por isso que eu vou abrir o jogo com ela. Vou contar o que sei, o que queríamos, quem realmente matou a Owen e por quê. Se ela quiser colaborar, vai colaborar afastada disso tudo, Charlie. Não a quero aqui. Não enquanto o Jack estiver aqui.
— Então tudo não passa de ciúmes do Jack? — Charlie perguntou revirando os olhos.
— Antes fosse ciúmes, Charlie! — exclamou bufando. — Ele é perigoso e você sabe!
— Procuramos provas da corrupção dele há três anos, — Charlie murmurou. — Não tem como garantir nada. Pare de ser inseguro! te ama!
— Eu também a amo! — gritou. — Por isso faço isso, porra!
— Então você deveria parar de tentar controlar as coisas no lugar dela. Pense mais no que ela quer. Vocês estarem em um relacionamento não lhe dá o direito de tomar decisões por ela. Não seja esse tipo de cara — Charlie revirou os olhos. — E pense bem sobre abrir o jogo totalmente de uma vez e, de verdade, se fizer isso, fuja para bem longe, porque você sabe... ela é impulsiva e pode nos jogar na cadeia. Não esqueça disso.
— Ela não faria isso — sussurrou. — Não de novo.
— Então mantenha essa boca fechada, . Apenas foque no seu futuro ao lado dela, tente manter um relacionamento saudável e sem as brigas de antes. Confie em sua mulher e deixe-a confiar em você — Charlie suspirou. — Acha que não me arrependo? Acha que não doeu os olhares acusadores de Emma sobre mim?
— Imagino, Charlie, realmente imagino — fitou o chão. — Mas... eu... eu não quero a trabalhando aqui. Não quero mesmo. A vida dela é naquela redação, ou então virando noites enquanto escreve algum projeto novo... isso aqui não é para ela.
— Não cabe a você decidir isso, é a carreira dela, o trabalho dela; ela decide. E sinceramente? Ela não precisa da sua proteção — Charlie o encarou nos olhos. — Mas saiba que estou arrependido de ter te colocado nisso mesmo depois de...
— Por favor, Charlie. Esquece isso — sorriu fracamente. — Se eu fiz tudo o que fiz, foi por que quis. Esquece o que tem dentro daquele cofre, Charlie. Vamos seguir em frente.
— Tudo bem, como quiser — Charlie deu de ombros. — Lá só tem alguns milhões de libras, alguns segredinhos imundos de algumas pessoas aqui de dentro, a causa das mortes de Paul Garred e Zachary O'Donnel, talvez a prova que queremos sobre Jack... mas tudo bem, vamos esquecer isso completamente.
— Não adianta tentar esse jogo sujo, Charlie — engoliu a seco. — Eu não quero mais.
— Você quem sabe, . Não vou me meter na sua vida como fazia antes — Charlie piscou um dos olhos. — Apenas pense bem no que vai fazer.
não respondeu, apenas saiu da sala de Charlie. Sua cabeça estava trabalhando a mil; dúvidas, medos, incertezas, tudo passava por sua cabeça em apenas um segundo. Adentrou o elevador e encostou-se contra a parede, respirando fundo e fechando os olhos por alguns segundos. Conversaria com Emma e iria atrás de Christopher Adams.

****

Elizabeth caminhou calmamente por todo o corredor da redação, ignorando completamente todos os olhares curiosos sobre si. Parou de frente para uma garota ruiva e pele extremamente branca e sorriu sem mostrar os dentes.
— Posso entrar? — Elizabeth perguntou e a garota a encarou, um tanto assustada.
— Só um segundo, vou avisar que já está aqui, senhorita Johnson — a mais nova respondeu tentando se manter calma. Pegou o telefone e discou alguns números rápido, logo começando a falar: — Sim, a senhorita Johnson já está aqui. Posso mandá-la entrar? — fez uma pausa e suspirou. — Tudo bem — a garota finalizou e desligou o telefone, voltando sua atenção para Elizabeth. — Pode entrar.
— Obrigada — Elizabeth agradeceu gentilmente e adentrou a sala.
ergueu os olhos na direção da porta assim que Elizabeth passou por ela.
— Olá — murmurou um tanto quanto sem jeito. Não via Elizabeth há três anos. Era estranho encará-la sabendo que não fora tão simpática na última vez que a vira.
— Olá — Elizabeth respondeu e caminhou calmamente até a cadeira livre na frente de .
— Então... — mordeu o lábio inferior. — Está de volta há muito tempo?
— Até que não. Voltei ontem — Elizabeth deu de ombros. — Olhe, , tentarei ser rápida e...
— Elizabeth, me escute — a cortou. — Eu sei que na última vez que nos vimos eu não fui das mais simpáticas e você também não. Mas, veja, eu sei que eu estava mais errada do que você. Por mais que você tenha criado um boato sobre o e eu — ela revirou os olhos. — Eu não tinha o direito de ir no seu local de trabalho e te ameaçar daquele jeito. Muito menos tinha o direito de ficar justo contra você no momento em que você sabia mais do que eu e...
! — Elizabeth a cortou e soltou uma risada fraca. — Respire, mulher! Está tudo bem. Não vim aqui para falar de três anos atrás. Sei que foram os meses mais conturbados da sua vida — ela revirou os olhos. — Estou aqui a trabalho. Não quero falar de mais nada disso, foi tão ruim para mim quanto para vocês aquele tempo. Entenda, eu tive que ficar me escondendo por aí e nem sei como consegui fazer meu trabalho.
— Imagino — fitou a mesa e suspirou.
— Enfim — Elizabeth sorriu amigavelmente. — Não estou aqui para pedir para sermos melhores amigas... mas quero que saiba que não guardo mágoas nem nada do tipo, quero viver em paz pelo menos uma vez, . Mas, bom, estou aqui para falar sobre outra coisa.
— Entendo. Acho que sempre seremos aquelas duas imaturas da faculdade disputando coisas que não fazem sentido só para sermos rivais em tudo.
deu uma risada fraca. — Sobre o quê?
— Que tal lançar mais um livro? — Elizabeth perguntou e arqueou uma das sobrancelhas. — Enquanto estive longe daqui, acompanhei todo o caso com algumas informações básicas do Eric que manteve contato de uma forma discreta. Soube do seu livro e decidi comprar, sempre achei sua escrita ótima e nunca neguei — ela deu de ombros. — E, bem, nós duas sabemos que o meu chefe virou sócio do seu... ou seja, estamos trabalhando do mesmo lado agora. Steve me propôs uma coisa e eu acabei aceitando, por que não tentar, aliás? — ela sorriu. — Sei que você escreve bem e não vou negar o meu talento nessa área também, assim como vários outros jornalistas investigativos. O que me diz de colocar nossas aventuras no papel?
parou por uns segundos e observou a mulher em sua frente.
— Está me chamando para escrever com você? — ela perguntou baixo e Elizabeth sorriu. — Você vai falar sobre como fez para ganhar o Pulitzer e como foi recebê-lo?
Elizabeth riu e balançou a cabeça negativamente.
— Vou, . Vou — ela respondeu encarando a mais nova.
— Então podemos começar os rascunhos — disse firme, dando um sorriso sincero para Elizabeth que se levantou e estendeu a mão para ela. apertou ainda sorrindo.
Por que não tentar? Elizabeth era uma boa pessoa e ela sabia disso. Por mais que tivessem aquelas típicas brigas bobas na faculdade. Oras, faziam a mesma coisa! Queriam ser a melhor em tudo. Mas, claro, sempre empatavam. E quando uma ganhava, implicava com a outra. Coisa normal de gente imatura. Depois, veio como problema. Todos daquele país sabiam que Elizabeth e tinham tido um caso. Todos sabiam também que e nunca se deram bem, não até trabalharem juntos. Aí Elizabeth se metera novamente, fazendo aquelas matérias maldosas e deixando uma totalmente cega pela raiva. Mas, bem, águas passadas. Duas Redações antes rivais agora eram sócias. As jornalistas principais deveriam ao menos se darem bem, não? Nada como uma longa conversa sobre o trabalho e um livro em andamento para começar a melhorar aquele convívio. Elas queriam recomeçar, dar a chance que não deram alguns anos atrás. Talvez valesse a pena, talvez não. Mas só saberiam tentando.
— Ah, antes que eu me esqueça — Elizabeth disse já na porta e a encarou. — Desculpe pelo boato sobre você e . Mas é que eu não resisti quando descobri que, mesmo depois de terem assumido publicamente o ódio que sentiam um pelo outro, vocês andavam se pegando pelos corredores da delegacia — ela riu fracamente ao notar o rubor nas bochechas de . — Aliás, saiba que, na verdade, quem começou a colocar as dúvidas sobre o que o realmente sentia sobre você na cabecinha oca dele, fui eu — ela piscou um dos olhos e abriu a porta. — Ele é um cabeça dura para assumir certas coisas, precisei engolir o que sentia por ele na época para fazê-lo enxergar pelo menos um terço do que ele sentia por você.
paralisou e piscou os olhos algumas vezes.
— Você ainda o ama? — ela perguntou baixo e Elizabeth riu novamente.
— Já se passaram anos, garota! — ela exclamou balançando a cabeça negativamente. — A vida segue, a fila anda... como quiser dizer. Já estou em outra há tempos, meu amor. Até mais, .
— Até, Elizabeth — murmurou quando a porta já estava fechada e deixou o corpo cair sobre a cadeira novamente.
Elizabeth já se esquecera de .
Elizabeth quem o fez parar e pensar que poderia sentir algo a mais por ela. Céus! Por que ela e Elizabeth não se suportavam mesmo?

****

Christopher encarou e soltou uma risada fraca.
— O que te leva a pensar que vou saber o rumo que Gabe e o amiguinho tomaram? Entenda, , não sou um cara que sabe de tudo só porque tentei te matar mesmo aqui dentro um tempo atrás — Christopher fitou que mordeu o lábio inferior, mostrando claramente a raiva que estava sentindo. — Não adianta me ameaçar ou me olhar dessa forma, eu não sei. Tudo o que sabia contei para vocês três anos atrás. Por favor, não tente melar minha saída daqui. Cumpri três anos a mais pelo que confessei a você — o rapaz suspirou. — Não vou dizer que me arrependo e te pedir desculpas, porque seria hipocrisia demais. Eu realmente não sei de nada. Investigue, esse é seu trabalho.
bufou e se levantou para ir para cima de Christopher, porém Emma se meteu em sua frente e o segurou com toda a força que tinha.
— Esquece isso, . Se acalma — ela murmurou enquanto o empurrava para trás e alguns outros policiais entravam na sala para tirar Christopher.
— Ele sabe de alguma coisa e não quer abrir a boca. O filho da puta vai sair daqui e não vai abrir a boca, Emma. Entenda. Ele sabe. Eu sei que ele sabe! — disparou inflando as narinas e demonstrando a raiva que sentia. Emma suspirou e revirou os olhos.
— Vamos descobrir. Vamos investigar, como ele mesmo disse! É nosso trabalho. Vamos encontrar tudo o que queremos. Apenas tenha paciência, — ela pediu, fitando-o seriamente. — Tivemos paciência antes, lembra?
— É a minha carreira, Emma — sussurrou, sentindo um bolo se formar em sua garganta. — Eu deveria estar preso. Por sorte vocês conseguiram tirar Richard daqui. Mas...
— Não diz nada, — Emma o cortou. — Está tudo bem agora. Você não vai ser preso de novo. Não vai. Estou te dando minha palavra. Confie em mim!
apenas suspirou e deixou o corpo cair sobre a cadeira de novo.
— O jantar está de pé? — ele perguntou e Emma deu um sorriso fraco.
— Sim — respondeu tranquilamente. — Nicholas está ansioso e levará uma amiguinha, então iremos um pouco mais cedo para Charlie deixá-la em casa logo depois.
riu fracamente.
— Ele já está assim? — perguntou. — Aposto que essa garota deve ser namoradinha dele.
— Ele disse que ela é a única garota da escola que não o olha com outros olhos, ! — Emma sorriu. — Meu menino arrasa corações na escola inteira! Mas a menina é feita de ferro, de acordo com ele.
riu alto.
— Ela com certeza será a primeira namorada dele. Escreva o que estou dizendo — piscou um dos olhos e se levantou. Quando estava prestes a sair, Charlie adentrou a sala com a respiração acelerada, atraindo um olhar desconfiado de Emma.
— Precisaremos cancelar o jantar — ele murmurou e Emma arqueou uma das sobrancelhas. — Encontraram mais um corpo. De acordo com o pessoal que já está lá, ele está impecável.
— Impecável como? — perguntou num fio de voz, engolindo a seco. Não queria assumir, mas o medo estava sufocando-o de uma forma absurda. Assim como a culpa.
— Não tem marcas, está limpo e... — Charlie suspirou — Está tudo tão complicado! Disseram que pode ter sido algum tipo de sufocamento, mas não tem marca alguma no pescoço. Acidez no sangue, talvez? — Charlie encarou e Emma que apenas balançaram a cabeça levemente, tentando pensar também.
O celular de Charlie tocou fazendo com que Emma desse um leve pulo de susto e fitasse o aparelho. Charlie o pegou e o atendeu, colocando no viva-voz.
— Olá, Charlie. Bom saber que já está com o e a Emma. Fico feliz por você ter encontrado o corpo muito bem tratado, com uma morte extremamente linda, da nossa querida Donna Anderson, filha de um mafioso e acredito que você o conheça. Mas não quero falar disso e...
— Quem está falando? — perguntou alto e Charlie sentiu a respiração falhar.
A pessoa do outro lado soltou uma risada alta.
— Olá, ! Como vai você, rapaz? Sentindo muito medo? — a pessoa perguntou e sentiu sua garganta fechar.
— Diga o que quer — Charlie pediu, enquanto caminhava em direção a mesa e colocava o celular ali, sentando-se em uma das cadeiras em seguida. Emma permaneceu em pé, encostada na parede e fitando o pequeno aparelho em cima da mesa. respirou o mais fundo que conseguiu e andou para perto da mesa novamente.
— Quero apenas deixar claro que as duas pessoas que apareceram mortas e vocês foram investigar hoje... — ele fez uma pausa — Foram meus homens. Eu mandei matar. E as pessoas que trabalham para mim estão mais perto de vocês do que imaginam. Enfim! Quero que vocês digam adeus para uma outra pessoa.
Um clique rápido fora ouvido do outro lado da linha e Charlie passou as mãos pelos cabelos. Alguns segundos depois, uma voz extremamente conhecida ecoou pelo local. Emma tinha o coração acelerado e os olhos lacrimejantes. Como... Por quê?
— Brian? — perguntou engolindo a seco.
Brian era um dos agentes próximos de . Ficaram amigos ao longo dos últimos anos, sempre conversando pelos corredores e descobrindo que tinham muito em comum. Brian era um homem incrível, casado e com filhos, que sempre dava conselhos amorosos para quando ele e brigavam. Era uma amizade leve, tranquila e cheia de confiança — Brian acabara por salvar em uma operação importante, o que selou a amizade de uma vez por todas.
— Diga para Marcie que a amo — Brian murmurou com a voz trêmula e Charlie socou a mesa com força, se levantando em seguida.
— Como conseguiu pegá-lo?! — Gritou enfurecido. — Ele estava na Itália! Viajando com a família, porra!
O homem do outro lado riu.
— Quem te garante, Charlie, que eu fico apenas pela Inglaterra? — ele perguntou calmamente. — Brian é um grande exemplo disso. Bem, preciso que andem logo com isso. Estou cansado de ficar apontando a arma na cabeça de Brian. Ele é grande e forte, pode se soltar de onde está a qualquer momento.
— Você não vai fazer nada com ele! — se intrometeu, sentindo a cabeça latejar.
— Oh, não, ? Pague para ver! — O homem riu novamente. — Diga a eles, Brian, do que sou capaz.
Emma se aproximou da mesa lentamente e deixou o corpo cair na cadeira de frente para Charlie.
— Não faça nada com ele. Diga o que quer. — Emma murmurou, tentando soar educada e calma.
— Olá, Cobain. Não quero negociar, obrigado por tentar. — O homem disse debochadamente e Emma fechou os olhos com força. — Bem, acho melhor acabarmos logo com isso. Adeus, Brian e... Sejam bem-vindos ao novo jogo, agentes. — O homem disse firmemente. Após isso, tudo ficou em um silêncio absoluto. Mas era possível ouvir a respiração ofegante — provavelmente — de Brian.
se aproximou do telefone esperando ouvir mais alguma coisa. Porém, no mesmo instante em que se aproximou do telefone, se arrependeu.
Um barulho alto e cortante de tiro ecoou pela sala, fazendo com que Emma soltasse um grito de pavor e pousasse as mãos sobre a boca, assustada.
— Não... — Emma sussurrou e afundou o rosto entre as mãos. permanecia em silêncio, sem saber o que pensar ou fazer.
Como dar a notícia para a família de Brian? Como ter a confirmação de sua morte? Como... investigar aquilo?
Charlie passou a mão pelo rosto e engoliu a seco. Encarou Emma e por alguns segundos e, completamente decidido e firme, disse:
— Arrumem suas coisas. Vamos para a Itália.


Capítulo 2

suspirou e apertou o corpo de contra si. Estavam ali há algumas horas. Era madrugada, provavelmente acordariam extremamente cansados e sem ânimo algum. Mas não importava. Estavam se sentindo bem, encarando o teto branco do quarto de e em um completo silêncio confortável.
se virou para e a encarou de uma forma terna, fazendo-a sorrir abertamente.
— O que foi? — ela perguntou baixo e suspirou pesadamente.
— Vou sentir falta do Brian — ele sussurrou. — E a gente precisa conversar, .
mordeu o lábio inferior e se apoiou em um dos braços, fitando com mais facilidade.
— Sobre o quê? — ela perguntou no mesmo tom de voz que ele enquanto acariciava seu braço descoberto com a mão livre.
— Eu vou precisar ir para a Itália por uns dias — murmurou e arqueou uma das sobrancelhas. — Charlie quer participar das investigações com os policiais italianos, já que eles confirmaram para nós que foi mesmo o Brian encontrado por lá.
— Tudo bem, posso tentar uns dias de folga na Redação e...
— Você não vai — a cortou, fazendo-a encará-lo confusa. — Eu não quero que vá, na verdade… vai ser perigoso, . Não quero você nessas coisas. Fora que você nem trabalha para o Charlie mais.
— Você quer ir para a Itália sozinho com isso tudo acontecendo? — ela perguntou, sentando-se de uma vez na cama. — , não vê que já está na hora de assumir que precisa de alguém com você?
— Não é isso. Eu só não quero que aconteça as mesmas coisas de três anos atrás, se sentou também. — Será que não entende o... medo — ele cuspiu a palavra e desviou o olhar para o teto — que eu sinto? Medo por você, por mim, por nós.
suspirou e se aproximou de , selando seus lábios por alguns segundos.
— Charlie conversou comigo um tempo atrás — ela voltou para a posição inicial e deixou o corpo cair para trás. se virou para ela e fitou seu rosto.
— Ele quer que eu trabalhe com vocês de novo e eu não pretendo recusar isso, . É a minha vida, minha carreira e você não deve se intrometer nisso.
bufou e balançou a cabeça negativamente.
— Eu já disse para ele te deixar fora disso, eu não quero você fazendo isso tudo de novo, ! — exclamou, levantando da cama de uma vez.
, por favor... você não tem que querer nada; eu sim — ela suspirou, virando-se para o lado que ele estava em pé — Vamos conversar sobre isso depois, tudo bem? Volte para a cama e pare de ser orgulhoso.
— Não quero você nisso de novo, — ele sussurrou enquanto deixava o corpo cair sobre a cama novamente. — Por que não esquece isso? Por que não pode simplesmente me deixar fazer meu trabalho sozinho? Não consigo lidar com o risco de te perder de novo.
se virou para ele e o encarou nos olhos.
— Não decidi ser jornalista investigativa à toa — ela disse baixo, porém firme.
— Por que não aceita o que quero? Você não pode e nem vai mandar em mim; querendo ou não este também é meu trabalho. Você não vai me perder, , eu juro.
— Eu me preocupo tanto, tanto — ele respondeu sem desviar o olhar e sorriu.
— Eu sei que sim. Mas não precisa. Eu não estou grávida, não preciso de cuidados excessivos, sei me virar muito bem, fui tão treinada quanto vocês, posso me arriscar a vontade — ela piscou um dos olhos e balançou a cabeça negativamente com um sorriso brincando no canto dos lábios. Nunca conseguiria vencer uma discussão com aquela mulher; e mesmo que não quisesse aceitar, sabia que não podia e jamais iria controlar a vida alheia. Porém, isso não queria dizer que ele não tentaria insistir mais um bocado — não se sentia confortável em trabalhar sabendo que a mulher que mais amava na vida estava em um risco maior do que ele; era óbvio que em qualquer caso ela se tornaria alvo principal, como fora antes, e não importava se sabia ou não como se cuidar; era um tanto egoísta, sim, mas não queria ter de ficar com mais medo durante suas missões.
— Por favor, esquece isso — pediu baixo enquanto a puxava para mais perto e colava seus lábios em um selinho rápido. — Por favor — ele sussurrou novamente, juntando seus lábios mais uma vez. — Não pensa nisso. Não essa semana, não agora. Esquece que o Charlie falou com você, esquece que eu vou pra Itália daqui uns dias, só esquece tudo isso, .
— Vou esquecer até o dia de fazer minhas malas. E não vou desistir, gatinho, nem esquecer o que foi conversado. Minha decisão já está tomada e você irá aceitar com o tempo — ela respondeu calma, sorrindo, e logo puxando-o para mais um beijo.


PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 4h20min.


O homem soltou a fumaça do charuto e fitou o teto com um sorriso brincando no canto dos lábios bem desenhados. Os olhos azuis intensos brilhavam de uma forma incrível, qualquer pessoa seria capaz de notar aquilo mesmo naquela sala mal iluminada. Um suspiro de alívio escapou do fundo de sua garganta e, parecendo uma criança, rodou duas vezes em sua cadeira giratória enquanto soltava risadinhas divertidas. Céus! Como estar no poder era ótimo! Seu pai sempre lhe dissera isso. Poder era a fonte de tudo. Poder, poder, poder, poder!
Riu novamente.
O que poderia ser melhor que poder? Nada! Absolutamente nada!
Estava em seu sangue colocar o poder como prioridade, estava em seu sangue lutar pelo poder. De acordo com o que ouvira de seus tios — não de verdade, mas sim os homens que cuidaram de sua segurança por todos esses anos — que deveria honrar o nome de seu pai, honrar o sobrenome que carregava. E ele faria isso. Nem que precisasse matar. Bem, agora, mais do que nunca, ele tinha a certeza absoluta que iria matar. E mataria como nunca pensara matar em sua vida. Honraria o sobrenome que carregava, honraria seu pai. Honraria sua morte. Sua morte injusta. Tudo porque estava no lugar errado, na hora errada.
O rapaz balançou a cabeça negativamente e fitou o papel que tinha em mãos, tragando o charuto mais uma vez.
Emma Cobain era o primeiro nome da lista.
Jesse Pender o segundo.
Charlie Raymond o terceiro.
o quarto, com um parêntese.
Por último, .
O rapaz riu e deixou a folha sobre a mesa ao escutar passos se aproximando.
Oras, quem ousaria a incomodá-lo àquela hora da madrugada?
Duas batidas na porta ecoaram e ele não se deu o trabalho de responder, logo a maçaneta da porta se moveu e uma cabeça surgiu em seu campo de visão.
— Senhor Castellamare? — Um homem de meia idade perguntou em um tom de voz baixo.
O jovem Castellamare soltou a fumaça do charuto e arqueou uma das sobrancelhas.
— Sim?
O homem suspirou e adentrou a sala de uma vez por todas. Estava tenso.
— Brian foi morto. — O homem disse rapidamente. Sabia que o rapaz não gostava de enrolações e não queria provocá-lo.
— Como é? — Castellamare juntou as sobrancelhas. — Não lembro de ter dado ordens para matá-lo.
— Sim, eu sei! — o homem exclamou e bagunçou os cabelos. — Eu avisei! Juro que avisei! Mas disseram que tinham ordens maiores.
— Não há ordens maiores que as minhas por aqui, Gabriel — o rapaz disse firme.
— Não aceitei a te trazer para cá para você fazer merdas! — gritou e inflou as narinas, demonstrando a raiva que sentia. — O coitado do Brian tinha família. Eu só precisava saber uma coisinha dele. Nada mais. Não o mataria aqui. Infelizes! — Castellamare murmurava sozinho enquanto caminhava até a porta.
Gabe suspirou e seguiu o rapaz em seguida.

CIDADE DO VATICANO — ITÁLIA, 4h25min.


O homem desligou o celular e revirou os olhos, sorrindo fracamente. Um encontro fora marcado, finalmente. Bastou cinco minutos para o jovem Apolo Castellamare o ligasse sem se importar em medir palavras ou evitar que palavrões feios e de baixo calão escapassem em suas frases. Mas quem se importava com isso, aliás? Ele não. Estava pouco ligando para Apolo. Queria mais que ele morresse, assim como o pai. Os Castellamare eram desprezíveis. Todos mereciam a morte.
O sorriso do homem se alargou ao sair da Igreja que havia entrado escondido, sentindo o vento bater contra seu rosto de uma forma suave.
Suavidade.
Isso que a querida Itália, no geral, exalava.
O homem abriu mais seu sorriso ao ver a morena parar em seu lado.
— Olá, Jullie — ele murmurou baixo. O local estava tão silencioso que não era necessário falar alto.
— Olá — a mulher respondeu dando de ombros e puxando um maço de cigarros do bolso. Pegou um, colocou na boca e o acendeu, tragando em seguida. — O que temos para hoje? — perguntou e o homem encarou-a por alguns segundos, fazendo-a arquear uma das sobrancelhas. — O que é?
— Você é linda — ele sussurrou se aproximando e ela riu, afastando-se.
— Estamos aqui a trabalho, chefinho. Não quero nada com você e já deixei isso bem claro — ela disse firmemente e segurou o cigarro entre os dedos, enquanto apontava, com a mão livre, o peitoral do rapaz. — Esqueça-se de que me beijou um dia. Isso não irá se repetir. Aliás, eu estava bêbada! — ela revirou os olhos e colocou o cigarro entre os lábios novamente, fazendo-o reparar novamente na pequena tatuagem em seu dedo. — Você é só mais um aproveitador de merda. Estamos aqui para pegar o lugar do Apolo, não é? Então nós vamos.
— Qual o seu problema? — perguntou, estreitando os olhos.
A morena ergueu uma das sobrancelhas e ignorou o vento que cortou seu rosto, jogando pequenos fios de seus cabelos curtos em seu rosto.
— Você, meu amor. Meu maior problema, no momento, é você — respondeu tranquilamente, enquanto tirava o cigarro na boca e soltava, lentamente, a fumaça no rosto do homem. — Vamos ao trabalho, querido. Por favor. Não tenho o resto da noite livre, pretendo dormir.
— Se aproxime do Apolo e faça o que quiser — o homem disse, dando de ombros. — Mate-o logo depois.
— O trabalho sujo não é comigo e você sabe — ela o fitou nos olhos. — Aliás, Apolo já está no papo. Já o conheço há algum tempo e...
— Vocês tiveram um caso e tudo ficará mais fácil. Ótimo — ele sorriu. — Apenas não se apaixone. Ou então... — o homem fez uma pausa e se aproximou da morena, enquanto ela jogava o resto do cigarro no chão com uma das sobrancelhas erguidas, desafiando-o a finalizar — Você morre junto com ele.
— Se eu tivesse medo da morte, não estaria jogando do seu lado — ela disse firme. — Não sinta medo de eu me apaixonar por Apolo. Talvez, no fundo, eu nunca tenha deixado de ser — ela riu debochadamente. — Mas amor é uma coisa que eu já tirei da minha lista. Não preciso dele para nada. Jogarei Apolo em suas mãos e você fará o trabalho sujo.
— Como quiser, Jullie. Apenas cumpra seu trabalho. — Ele disse firme, encarando-a no fundo dos olhos.
Jullie não respondeu, apenas tragou calmamente outra vez. Em seguida, virou-se de costas para o homem e começou a caminhar. Ali, naquele momento, a única coisa que Jullie queria, era aprender a engolir o medo e continuar firme como sempre fora. Apolo a estava esperando dali a algumas horas. Precisaria ser forte. Precisaria fazer com que ele acreditasse nela. Precisava ter sua confiança, assim como precisava da confiança de seu mandante. Estava metida em coisas profundas demais, cavara demais. Agora era tarde demais para sair. Precisava continuar. Então, com uma única pergunta pairando em sua cabeça, Jullie adentrou o carro e deixou seus pensamentos saírem em voz alta quando se sentiu totalmente segura.
— O que realmente está acontecendo? Quem são eles, na verdade? — suspirou e apoiou a cabeça no volante. — O que a família Castellamare está envolvida? — sussurrou a última pergunta e fechou os olhos com força. Precisava salvar muito mais gente que imaginara. As informações que tinha não eram mais o suficiente para seguir naquela missão suicida.
Precisava dar um jeito de chamar a atenção de novamente.

LONDRES — INGLATERRA, 8h23min.


jogou o despertador para o lado e aconchegou-se mais nos braços de . Não queria levantar, não queria ir trabalhar. Passara metade da noite falando besteiras com , como diabos conseguiria acordar? Ambos fizeram aquilo de propósito para faltar trabalho ou simplesmente chegar atrasados.
bufou ao ouvir seu celular tocando e esticou uma das mãos, ainda com os olhos fechados, até a mesinha que ficava ao lado da cama para pegá-lo. Não se deu o trabalho de olhar o visor do aparelho, apenas apertou o botão para atender e murmurou:
— O que é, caralho?
, ainda sonolenta, soltou uma risada fraca e puxou a coberta para cima, virando-se para o outro lado para deixar mais à vontade.
— Onde você está? — a voz de Charlie ecoou pelo quarto silencioso e revirou os olhos.
— Em casa — ele respondeu baixo, tentando acordar de uma vez por todas.
— Vou precisar de você hoje — Charlie murmurou e bufou. — Sei que prometi deixar você ficar em casa na parte da manhã. Mas se você puder chegar mais cedo, eu agradeço.
— Depois que eu deixar a na Redação eu vou — murmurou e virou-se para o lado, abraçando a cintura de com a mão livre. — Até mais tarde, Charlie.
não esperou resposta, apenas desligou o celular e jogou-o para longe.
— O que o Charlie quer? — perguntou baixinho, enquanto a apertava mais.
— Me tirar de casa mais cedo — ele bufou, fazendo soltar uma risada fraca. — Não quero ir trabalhar.
— Ninguém quer, , ninguém quer — murmurou sorrindo e virando-se para ele. Ficou ali, encarando-o por alguns segundos, fazendo-o revirar os olhos, impaciente. não gostava de ser observado.
— Você sabe que não gosto disso — ele sussurrou, fitando qualquer outro ponto do quarto, fazendo-a rir baixinho.
— Mas eu gosto de observar você — ela rebateu e se aproximou mais dele, apoiando a cabeça em seu peito. — Me faz bem — ela deu de ombros enquanto fazia desenhos imaginários pela barriga descoberta de .
mordeu o lábio inferior e encarou a mulher em seus braços. Com um sorriso torto no canto dos lábios, murmurou:
— Eu estive pensando em uma coisa, .
— Ah, é? — ela levantou a cabeça levemente para encará-lo, sorrindo. — Em quê?
mordeu o lábio inferior e deu uma risada fraca, deixando claro que não estava tão à vontade.
— Eu queria que... — ele suspirou e fitou o teto branco — Hum, não sei como dizer isso sem soar muito aleatório e até mesmo um pouco maluco — suspirou novamente, fazendo arquear uma das sobrancelhas, confusa.
— Ué, o quê? Sabe que pode me falar qualquer coisa — ela perguntou enquanto o fitava curiosa.
sorriu levemente e passou uma das mãos pelo rosto dela. Suspirou uma, duas, três vezes. Pensara naquilo por duas semanas seguidas e, agora, estava ali, prestes a falar para a sua maior vontade. Depois de três anos tentando superar aquilo por saber que nunca daria certo, se pegou pensando na mesma coisa novamente. Tivera sonhos, imaginou cenas, tudo. Aquilo ainda o deixava atordoado. Ele queria poder voltar no tempo e cuidar de para evitar que algo desse errado.
— Eu acho que… Deveríamos avançar um pouco mais no que temos. Talvez… Morarmos juntos? Tentar criar uma família, sabe, ter filhos, cachorros... — ele disparou com a voz baixa, mordendo o lábio inferior em seguida. — Eu acho que poderíamos tentar de novo. Já está na hora, precisamos seguir em frente e tentar esquecer os nossos traumas passados. Tenho pensado muito sobre isso, eu quero… Quero viver com você, quero ter a chance de ser pai.
riu nervosamente e se sentou na cama de uma vez por todas, fazendo um coque nos cabelos em seguida.
, por favor... — ela suspirou. — Você sabe que...
— Você tem um problema, sim, eu sei! Não entendo muito sobre isso e você já tentou me explicar antes e eu continuo confuso — se sentou também. — Mas, entenda, , para isso existem tratamentos. E se não der certo, tudo bem! Tem milhares de crianças precisando de um lar. Ou podemos adotar apenas cachorros. O que você quiser. Eu sei que sente medo, eu também sinto, mas... — ele riu nervosamente. — Eu quero fazer algo dar certo pelo menos uma vez. Já se passaram três anos e a gente nunca conversou sobre isso. Eu vou para Itália daqui uns dias e não sei se volto, entende? Isso está me atormentando, eu precisava ao menos falar e deixar claro que quero tentar — ele a encarou, ainda aflito. — Eu quero pelo menos te dar algo de bom. Pelo menos uma vez, . Uma vez só. Sabe por quanto tempo fiquei atordoado ao ouvir você me dizer que perdeu nosso bebê? E me senti culpado! Muito culpado, porque eu que te coloquei nisso tudo — ele a fitou. — Eu sei que nunca te fiz nenhum pedido formal ou coisa do tipo, você sabe que não sei lidar com essas coisas — ele riu. — Mas... estamos juntos, . Sempre estivemos. Eu só… não sei! Quero muito que a gente dê certo, podemos tentar ter uma vida normal quando tudo isso passar. Algo me diz que não será fácil na Itália, mas eu tenho pelo que lutar e tentar sobreviver. Eu tenho você. E futuramente vou ter nossa família, também.
— Será que pode parar de falar como se fosse morrer? — ela sorriu fracamente. — E eu vou para Itália com você! Não adianta negar, vocês precisarão de mim. E, Prithcard, tudo isso… é um pedido de casamento?
— Não vamos mudar de assunto, ‘tá? — ele mordeu o lábio inferior. — Estou há duas semanas tentando tomar vergonha na cara para virar para você e pedir isso. Daqui uns dias eu completo trinta e um anos, — ele suspirou. — Não quero deixar as coisas para depois. Não mais. Não depois de ter quase morrido de verdade. E não, meu amor, não é um pedido de casamento ainda. Você merece muito mais do que umas declarações malfeitas em plena manhã. Mas, bom, podemos dizer que isso é um pré-pedido. Quero você comigo todos os dias.
não disse nada, apenas fitou a cama, sem saber o que pensar. a pegara tão... de repente. Ela nunca sequer pensara naquilo. Na verdade, sim, pensara. Mas se repreendeu por isso todas as vezes. Pensava que não queria aprofundar as coisas, pensava que ele simplesmente... desistira daquilo tudo já que ele notara que ela não conseguiria nunca ser mãe biológica. Chegou até mesmo pensar que ele a largaria de uma vez, já que errara tanto com ele. Pensara em até mesmo desistir de tudo primeiro, antes que ele mesmo o fizesse. Mas... as coisas, pelo jeito, não eram mesmo como ela pensava. estava ali, sem jeito, em sua frente, usando todos seus argumentos para que ela aceitasse a se tratar novamente de uma vez por todas, para que ela pudesse finalmente ser mãe. Ele queria um filho dela. Mesmo sem nunca a ter pedido em namoro ou algo mais sério. Como ela sempre notara, não precisavam de palavras para esse tipo de coisa. Se amavam e assumiam um para o outro, eram fiéis sem nem mesmo terem se perguntado se deveriam ou não serem namorados. Talvez até fossem mais do que isso. Apenas não queriam falar, não queriam pedir toda aquela formalidade. Mas, agora, estava ali o “pré-pedido de casamento”, deixando-a ansiosa e com o coração acelerado. Era louco demais tudo aquilo, mas, estava feliz.
Ela entendia a dificuldade que tinha para esse tipo de assunto, e sabia, também, que não gostava dessas coisas sérias. Mas também não se dera o trabalho de se afastar de . Estava apaixonada por ele, perdidamente apaixonada. Tinha certeza daquilo. E não era tão diferente dele, no fim das contas, tinha lá sua parcela de medos e sempre fora bem reclusa em relação a tocar no assunto — a machucava e irritava, às vezes.
— Você tem certeza do que está dizendo? — ela perguntou baixo, fitando-o com um certo brilho no olhar, fazendo-o sorrir.
— Absoluta, — ele ergueu uma das mãos para acariciar o rosto dela. — Vejo nos seus olhos que quer tentar também. Podemos tentar um tratamento, ver exatamente o que acontece, quais as formas de melhorar. E se não der certo, podemos adotar e procurar uma casa maior, ao invés de continuarmos entre os nossos apartamentos. Prometo que se tudo der certo, não vou deixar nada de ruim acontecer com você. Não de novo.
sorriu fracamente e balançou a cabeça negativamente, tentando ignorar as lágrimas que surgiram no canto de seus olhos.
— Você é um idiota por começar o dia assim — ela murmurou enquanto passava uma das mãos pelos olhos, sentindo-se, de repente, emocionada. — Um completo idiota.
riu baixo e se aproximou dela, juntando seus lábios sem enrolações. retribuiu o beijo a altura, segurando-o pela nuca firmemente. Ficaram ali por alguns minutos, até o celular de tocar novamente em algum canto do quarto.
se afastou de e bufou, fazendo-a rir. Antes de se levantar para ir atrás do celular, fitou por alguns segundos e murmurou:
— Eu amo você.
sorriu e, antes que pudesse responder, o celular de começou a tocar e ele pulou da cama para pegá-lo outra vez. Não entendia como aquela porcaria não tinha quebrado ainda. Ao achar, atendeu ao ver o nome de Emma piscar no visor.
se espreguiçou e fitou o relógio. Já eram 9h05min. Suspirou e se levantou, indo direto para o banheiro enquanto conversava com Emma.
já estava debaixo do chuveiro quando adentrou o banheiro com a respiração um tanto quanto acelerada. arqueou uma das sobrancelhas e abriu um bocado a porta do box.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou baixo, fazendo-o suspirar.
— A Lucy está viva — respondeu engolindo a seco. — Essa vagabunda vai voltar para cá. Puta que pariu! — exclamou trincando os dentes. — Porra, não são nem dez da manhã e tudo já está desse jeito! Eu nem lembrava da existência dela!
sentiu sua respiração falhar e desligou o chuveiro o mais rápido que pôde, enrolando-se na toalha em seguida.
— Isso quer dizer que...
— Que se ela abrir a boca e confessar tudo o que sabe, assim como ela, eu vou parar na cadeia de novo — cortou , fazendo-a engolir a seco. — Charlie está fazendo de tudo para eu não parar lá. Mas é basicamente impossível — ele riu amargamente. — Mas que droga, que droga...
— Ei, se aproximou dele, segurando-o pelo rosto —, Você não será preso! Não podem prender você! Que provas eles têm? E a Lucy não seria idiota de entregar você sabendo que ela também se ferraria.
— Estou contando com isso.

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 10h12min.


Apolo tinha um cigarro entre os lábios e observava a paisagem pela janela. Estava ansioso. Queria que Charlie e sua equipe pousassem logo em sua querida Itália. Queria tê-los embaixo de suas vistas. Tudo ficaria mais divertido quando eles chegassem lá.
Uma risada escapou do fundo da garganta de Apolo ao lembrar-se do que tinha em mente. Céus! Seria tão incrível fazê-los ficar cara a cara com o único filho de Robert Castellamare. Seria mais incrível ainda eles não poderem fazer absolutamente contra ele, pelo simples fato de não estarem na Inglaterra. Não eram nada, nada nos outros países. A Itália pertencia a Apolo Castellamare, da mesma forma que pertencera a seu pai. Por mais que Charlie soubesse os podres que cercavam cada cantinho daquele lugar, não era nada por ali.
Um sorriso de pura satisfação moldava os lábios rosados e bem desenhados de Apolo. A felicidade escorria por cada parte de seu corpo. Por mais que nem tudo estivesse dando totalmente certo como planejara, estava tudo bem. Sentia-se bem. Estava prestes a pegar as pessoas responsáveis pela morte de seu pai. Seria bom ficar cara a cara com . Ele sustentava o mesmo ódio que Apolo. entendia como era perder o pai. Por mais que Apolo soubesse que quem matara John Prithcard fora seu pai, Castellamare, não se importava em comparar a duas situações.
Duas batidas na porta foram o suficiente para tirar Apolo de seus devaneios.
— Entre. — Ele murmurou firme, levando o cigarro até a boca novamente.
Seus olhos se arregalaram levemente em total surpresa. Não acreditava no que estava vendo.
— Olá — Jullie disse firmemente, enquanto adentrava a sala de uma vez por todas.
Apolo precisou respirar fundo ao encará-la e notá-la tão diferente. Não a via há alguns meses e, na última vez, ela estava com os cabelos longos. Agora estava com os cabelos tão curtos que nem sequer seria capaz de fazer um rabo de cavalo. Porém estava linda. Impecável. Mais bonita do que nunca. A calça jeans apertada marcava suas coxas de uma forma incrível, deixando-o louco. Nos pés, botas de canos médio e sem salto. Para finalizar, uma camisa do Red Hot Chilli Peppers que ele tinha total certeza que ela pegara em seu guarda-roupa na última vez que estiveram juntos.
— Jullie? — ele perguntou, ainda abobado.
A mulher sorriu.
— Ao vivo e a cores, meu amor — ela sorriu. — Agora pare de me olhar como se eu fosse um fantasma.
Apolo riu levemente e jogou o cigarro já pequeno pela janela.
— Onde esteve todos esses meses? — ele perguntou.
— Por aí — ela deu de ombros. — Você sabe, não gosto de ficar em um lugar só.
— E voltou mais rockeira do que nunca, eu suponho — ele murmurou apontando para a camisa que ela vestia com um sorriso sacana nos lábios. — Oh, não! Lembro muito bem dessa camisa, ela estava nas minhas coisas uns meses atrás. Quando resolvi tirar um dia de folga e ir assistir o Red Hot em um show por aqui perto e procurei a camisa, simplesmente não encontrei. Parece que a explicação está aqui.
Jullie gargalhou, deixando Apolo encarando-a ainda sorrindo. Céus, a gargalhada daquela mulher era a coisa mais incrível que ele já ouvira na vida!
— Me perdoe por isso — ela disse sorrindo. — Fiquei tão apaixonada pela camisa que não resisti.
Apolo deu uma breve risada e sentou-se de frente para Jullie em seguida.
— Agora me diga, Jullie, o que te traz aqui? — perguntou firme. — Você nunca volta sem uma razão. É assim desde a primeira vez que fugiu.
— Pare de agir como se me conhecesse desta forma, Apolo — ela disse ainda sorrindo. — Não posso vir relembrar ou te visitar por visitar?
— Não venha com esse joguinho, Jullie. Não está aqui só porque sentiu saudades ou por querer uma noite de sexo de verdade — Apolo rebateu, ficando completamente sério. — Não tente me fazer de babaca. O que quer?
Jullie suspirou.
Havia esquecido o quão espero Apolo era.
— Só queria dizer que estou de volta. Me procure quando passar sua TPM — Jullie disse revirando os olhos e puxando um cartão de dentro da bolsa, colocando-o sobre a mesa. — Estarei te esperando — ela fez uma pausa para fitar os olhos azuis de Apolo. — Qualquer dia e qualquer hora.
Após finalizar sua frase, Jullie saiu sem esperar por uma resposta. Apolo a procuraria. E isso não demoraria muito.

LONDRES — INGLATERRA, 9h20min.


Eric riu de uma piada idiota de Jesse e bebericou seu café novamente.
— Sabe, Eric... — Jesse começou, mordendo o lábio inferior. — Eu nunca entendi uma coisa. Eu sei que já se passaram três anos, mas, me explique, por que diabos o matou a pobre Natasha? Ela era uma prostituta, certo?
— Certo — Eric respondeu dando de ombros. — era um doente.
— Sim, eu sei — Jesse suspirou. — Mas por que ela? O que ela fez de tão mal? O que ela sabia de tão importante?
— Ela me conhecia — Eric piscou um dos olhos. — queria chegar em mim antes de , só que já estava comigo há anos. Ele ia me matar se Natasha abrisse a boca.
— Por que diabos se metia com prostitutas como a Natasha? — Jesse perguntou, curioso, fazendo Eric rir.
— Ela não era uma prostituta comum! — Eric sorriu. — Ela era esperta e sabia podres de muitos por aí. Tinha um caso com Paul, aquele revisor da que morreu. Ela teve um rolo com o O'Donnel também. Ela sabia de muitas coisas, inclusive sobre um cofre que somente o Crowley tinha acesso.
— O cofre que o Charlie e o sempre quiseram? — Jesse perguntou baixo.
— Sim — Eric suspirou. — Mas que tal esquecermos isso? Não tem mais nada para procurar. Sabemos exatamente onde o cofre está, mas não temos a senha.
— O que há dentro do cofre? — Jesse perguntou, dando um grande gole em seu café.
— Milhões de libras, documentos, joias... tudo o que pode imaginar — Eric deu de ombros. — Nada que ainda nos interesse.
— Milhões de libras... você quer dizer quanto? — Jesse perguntou e Eric o encarou, rindo levemente.
— Por que tanto interesse agora? — Eric rebateu arqueando uma das sobrancelhas e Jesse revirou os olhos. — Sei lá, uns nove? Por aí. Não sei como diabos o O'Donnel e a Owen conseguiram roubar tanto. Não sei também como o Paul colaborou para isso, sinceramente.
— NOVE? — Jesse perguntou, arregalando os olhos. — Puta que pariu!
Erc riu levemente. Aquele número já não o assustava mais.
— Isso é o que nós achamos, Jesse — ele deu de ombros. — Crowley deve ter gastado um pouco, Bill deve ter gastado mais um pouco depois da morte do irmão... provavelmente tem outras pessoas envolvidas. Não temos certeza de nada sobre o cofre.
— Por isso o matou a Owen? Por que ela não quis contar sobre o cofre? — Jesse disparou as perguntas, fazendo Eric bufar discretamente. Não gostava de falar sobre aquilo. Não gostava de relembrar tantas coisas. Não gostava de abrir o jogo com Jesse por mais que ele o tenha ajudado muito no passado.
— Não sei, Jesse, sinceramente não sei. Ele nunca quis falar muito sobre isso. Mas que tal esquecermos? — Eric sorriu fracamente. — Não gosto de relembrar essas coisas e...
Um barulho de tiro ecoou pelo local, fazendo com que Eric cortasse sua própria frase para jogar-se para debaixo da mesa, junto com Jesse. Logo depois, gritos e mais gritos.
— Que droga foi essa?! — Jesse perguntou enquanto puxava a arma do coldre que usava e Eric fazia o mesmo.
Com cuidado, ambos foram se levantando devagar. Não puderam ver muita coisa, apenas um corpo estirado no meio da lanchonete. As garçonetes tinham os olhos arregalados e tremiam dos pés à cabeça.
Eric, então, se levantou por completo, ainda segurando a arma com firmeza e se aproximou do corpo. Não conhecia o homem, mas, pelo que vira, parecia ser alguém importante.
Jesse estava do outro lado, tentando controlar a situação e acalmar as mulheres e crianças do local. Ainda enrolado com tudo aquilo, puxou o celular e ligou para Charlie. Não precisou falar muito, bastou uma frase para Charlie desligar o celular e já sair a caminho:
— Mais um, Charlie.


Capítulo 3


Charlie suspirou ao fitar o cadáver em sua frente.
O que diabos estava acontecendo naquele maldito lugar?! Três anos já haviam se passado desde a última vez que Londres estivera totalmente alarmada e de cabeça para baixo.
— O que acha que pode ser? — a voz de Eric ecoou pelo local vazio.
Charlie suspirou novamente e fitou o outro homem.
— Acho que estamos tendo um flashback — ele deu de ombros, bagunçando os cabelos em seguida. — Você garantiu que isso tinha acabado, Eric.
— Eu garanti por mim e pelo — Eric deu de ombros. — Mas tem muitas coisas inacabadas, Charlie. Não posso fazer milagre.
— Eu te trouxe de volta à vida, Eric — Charlie fitou-o no fundo dos olhos. — O que está acontecendo?
Eric riu ironicamente, balançando a cabeça negativamente.
— Eu realmente não sei, Charlie. Tudo o que sei já contei para vocês nos mínimos detalhes umas trezentas vezes — Eric suspirou. — Pode confiar em mim, homem! Nem parece que me conhece há anos...
— Preciso que me conte o que sabe sobre a relação do John com os italianos — Charlie insistiu. — Eu sei que sabe alguma coisa sobre isso!
— Eu realmente já lhe contei tudo, Charlie — Eric revirou os olhos. — Que tal voltarmos para a investigação? Não podemos afirmar nada, não podemos simplesmente dizer que estamos tendo um flashback. Precisamos investigar, comparar corpo com corpo, morte com morte, "acidente" — ele fez aspas com os dedos — com acidente.
Charlie desistiu de dar continuidade à conversa ao ver a figura de atravessar a porta da lanchonete que estavam.
Era só o que faltava.
Uns minutos depois, provavelmente, chegaria ali também.
Era tudo o que Charlie precisava: uma discussão entre casal no meio de sua investigação.
Eric soltou uma risada fraca ao ouvir Charlie bufar e sair caminhando devagar na direção de , que conversava com uma das garotas que estavam no local na hora do crime.
— Está tudo bem, Louise. Pode me contar o que viu agora? — disse calmamente enquanto fitava o rosto pálido de Louise, que tinha os cabelos castanhos desgrenhados devido o susto que levara e o desespero com o qual correra para atrás do balcão. Seus olhos estavam arregalados e o tom de verde estava mais escuro que o normal. Louise estava em estado de choque com o que vira.
— Céus, ! — a garota exclamou, deixando algumas lágrimas caírem. — Um homem morreu em minha frente! Como tudo pode estar bem?!
— Agora está, querida — suspirou e sentou-se na frente da menina. — Entenda, Louise, as coisas estão difíceis por aqui nesses últimos anos. Você tem todo o direito de estar assustada. Mas preciso que colabore agora, tudo bem?
Charlie permaneceu parado onde estava ao escutar aquelas palavras. Um sorriso pequeno e triste surgiu no canto de seus lábios.
— Ficaria feliz em tê-la trabalhando para mim novamente, — Charlie murmurou e Louise encolheu os ombros ao reconhecer a voz de Charlie. Não haviam tido uma boa conversa minutos antes. — Sinto muito por hoje mais cedo, Louise. Não quis ser grosso.
— Mas foi pior que isso, Raymond — a garota rebateu, engolindo a seco.
, por favor, eu já contei tudo o que sei.
— Eu sei, mas não posso te deixar sair daqui, tudo bem? — deu um sorriso fraco e pegou na mão fina da menina. — E perdoe o Charlie, ele é uma ótima pessoa. É uma pena que surte em momentos como esse.
A menina balançou a cabeça negativamente e suspirou em seguida. Estava com medo.
— Eu vi o rosto dele — disse, por fim. a fitou com mais curiosidade e Charlie girou a cabeça em sua direção. — Do cara que atirou no outro. Eu vi o rosto dele. Estava com um capuz e um pano abaixo do nariz. Mas, antes, quando ele estava do lado de fora, pude vê-lo sem nada daquilo. Ele se arrumou aqui em frente.
— Como ele é? — perguntou, puxando um bloco de papel e uma caneta da bolsa.
— Cabelos pretos, olhos castanhos, se não me engano... — Louise começou a falar e Charlie simplesmente parou de ouvir tudo à sua volta, concentrando-se apenas no desenho que fazia no bloco de papel.
Conhecia aquele rosto.
— Eu o conheço! — Charlie exclamou assim que largou a caneta sobre a mesa.
Louise piscou os olhos assustada, sentindo seu coração bater forte contra o peito.
— Quem é ele, Charlie? — perguntou, curiosa.
— O amigo de Gabe. Lembra? Que foram presos quando estavam atrás do , no início dessa droga toda e...
— O que? — o cortou com a voz alta. — Mas esse cara não estava morto?
— E se foi o mesmo caso de Eric, ? — Charlie rebateu. — Eu conheço esse cara! Só pode ser ele. Bandidos fazem isso, somem e criam o maldito boato de que estão mortos.
ia falar alguma coisa quando sentiu lábios gelados tocarem sua nuca e um arrepio percorrer todo seu corpo. Virou-se um tanto assustada, mesmo sabendo que já estava ali.
— O que faz aqui? — perguntou puxando uma cadeira e sentando-se ao lado de .
— Louise me chamou — ela apontou para a garota com a cabeça. — Por que demorou?
abriu a boca para responder, porém Charlie pigarreou, chamando atenção do casal.
— Quem é o cara morto? — perguntou calmamente e Louise arqueou uma das sobrancelhas, encolhendo-se mais na cadeira.
Era estranho observar a forma que eles investigavam. A frieza que eles tinham ao olhar um corpo, o raciocínio rápido em ver apenas um desenho mal feito...
Era estranho.
— Mike Cromwell. Lembra-se dele? — Charlie respondeu calmamente.
juntou as sobrancelhas, sem entender o porquê de matar aquele cara.
— Ele estava metido com desvio de dinheiro — murmurou e todos da mesa viraram-se para ela. — Louise, se importa de ir lá para dentro? Acho que já acabamos com você, pode ser que eles consigam te liberar. Ligue para o seu pai enquanto isso e peça para ele vir para cá, o que acha?
— Tudo bem — a garota respondeu calmamente. — Obrigada, .
— Por nada, querida — respondeu sorrindo amigavelmente.
Louise se levantou e saiu da mesa.
— Ele estava metido com desvio de dinheiro? — perguntou fitando a mulher.
— Sim. Esse pode ter sido o principal motivo de quererem matá-lo. Mas, semana passada, descobri que ele transportava drogas daqui para a Holanda e da Holanda para cá — explicou calmamente. — O desvio de dinheiro que ele fazia, não era nas empresas que trabalhava. Mas sim nesse tráfico todo.
— E você só nos conta isso agora? — perguntou tentando manter a voz calma e revirou os olhos.
— Eu precisava pesquisar mais! — Exclamou, defendendo-se. — Eu estava com tudo em mãos para te entregar hoje à noite. Mas veja só! Não deu tempo. Eu não sabia que estavam vindo atrás dele ou de qualquer outra pessoa. Eu queria que vocês fossem atrás dele. Seria tudo mais fácil, ele teria um motivo para estar preso e demoraria um pouco mais para morrer. Daria tempo de, sei lá, quem sabe, ele abrir o jogo com vocês.
suspirou e passou as mãos pelo rosto. Levantou-se e depositou um beijo na testa de .
— Bom trabalho — ele sussurrou antes de se erguer completamente. — Mas ainda prefiro que fique fora disso.
Charlie suspirou e revirou os olhos. Queria com eles novamente.
— Você não manda em mim e no meu trabalho, rebateu. — Eu te amo, mas não vou ficar de fora sendo que posso ser útil. Precisará lidar com isso — a jornalista sentenciou e se levantou, deixando um beijo suave no rosto do amado. Ele não se deu ao trabalho de rebater, mas ainda tinha esperanças de tirá-la de toda aquela bagunça.
! — Jesse chamou, do outro lado da lanchonete enquanto fazia sinais com as mãos. — Corra aqui!
não disse nada, apenas caminhou em direção ao amigo.
Charlie esperou alguns segundos, até que estivesse longe o suficiente. Virou-se para e encarou-a no fundo dos olhos.
te ama mais que qualquer coisa, isso está escrito em seus olhos. Mas... — ele fez uma pausa e sorriu fracamente — Quero trabalhar com você novamente. Pense no assunto. Comente com ele apenas quando tiver certeza da resposta. Só peço que...
— Eu já estou trabalhando para vocês há tempos, Charlie — ela sorriu. — Acho que, na verdade, nunca deixei. Portanto, não se preocupe. Minha resposta é e sempre será sim para você. Com eu me entendo mais tarde.

****

Colbie sorriu agradecida para um garoto qualquer de sua classe, que havia acabado de pegar seu livro do chão.
Nicholas observou a cena entediado, revirando os olhos. Parou ao lado da amiga e a encarou por alguns segundos, murmurando incomodado:
— Vamos logo?
— Vamos — Colbie sorriu para o outro garoto novamente, virando-se para caminhar ao lado de Nicholas em seguida.
— Daqui a pouco ele pensa que está a fim dele — Nicholas disse de repente, dando de ombros e Colbie riu fracamente. — Falo sério! Você sorriu de uma forma tão idiota...
— E se eu estiver a fim dele, Nicholas? — ela perguntou, jogando a mochila em um banco qualquer. Haviam sido liberados antes do horário e, de acordo com Nicholas, era cedo para irem embora.
Nicholas riu indignado.
— Está dizendo que está a fim do Steve? — ele se virou para a amiga, largando as coisas de qualquer jeito no banco. — Céus! Ele é um idiota! Além de ser um burro, Colbie! — Exclamou enquanto unia as sobrancelhas, sem entender aquilo. Colbie só podia ter pirado.
A garota riu.
— Pare de ser ciumento, Nicholas! — ela exclamou divertida. — Você fica engraçadinho com ciúmes, sim, fica. Mas... está passando dos limites!
— Não estou com ciúmes! — ele disse um tanto quanto baixo, dando uma risada e balançando a cabeça negativamente. — Só estou dizendo para a minha melhor amiga que Steve não serve para ela. Isso é ter ciúmes? Tentar abrir seus olhos é ciúmes, Colbie?
— Você fica um amor assim — ela riu mais uma vez, sentando-se no banco. — Largue de ser idiota, moleque!
— Mas fala sério... — Nicholas mordeu o lábio inferior — Não está a fim dele, está?
Colbie soltou uma gargalhada gostosa, deixando Nicholas perdido por alguns segundos. A quem queria enganar, afinal? Estava com ciúmes de Colbie.
Talvez algo a mais.
Mas ele preferia não pensar nisso.
— Ele é bonitinho — ela sorriu. — Mas não é para mim. Quero ter um futuro — piscou um dos olhos. — E me envolver com meninos como Steve não está nos meus planos.
Nicholas sorriu levemente, mostrando-se completamente aliviado. Abriu a boca para falar alguma coisa, porém desistiu assim que fitou os olhos de Colbie. A garota juntou as sobrancelhas confusa, mas não disse absolutamente nada. Sabia que Nicholas estava em alguma briga interna que ela nunca entenderia. Nicholas suspirou baixinho e se sentou no banco ao lado de Colbie. A menina, inocentemente, deixou a cabeça repousar sobre o ombro de Nicholas, fazendo-o morder o lábio disfarçadamente e passar um dos braços em volta do corpo dela. A garota sorriu agradecida e aconchegou-se mais nos braços do melhor amigo.
Naquele momento Nicholas travava uma briga interna que ele julgava ser interminável. Pensava no que poderia dizer à Colbie, pensava no que o dissera sobre as garotas, pensava também nas dicas que recebera do mesmo. Beijar Colbie parecia extremamente tentador. dizia que ele deveria ouvir esses instintos, pois no final tudo sempre dava certo. Porém Nicholas, nessas horas, costumava ouvir mais Charlie. Charlie era mais racional, normal. E, ainda assim, conseguira arrumar uma mulher tão incrível quanto Emma. Não que não fosse incrível e se dera bem com seu jeito estranho de agir com as mulheres. Mas, bem, as ideias de Charlie eram diferentes.
De qualquer forma, ele estava em dúvida. Sabia que seria legal beijar a amiga.
Mas sabia também que corria risco de perdê-la. Porém sabia também que aquela vontade não passaria. Tinha 13 anos e já entendia o suficiente para ter absoluta certeza de que não conseguiria se controlar e ficar mais um bom tempo sem investir em Colbie.
Ela era uma garota legal. Emma gostava dela. Charlie também.
a achava inteligente e engraçada.
Qual seria o problema de contar toda a verdade para ela? Qual seria o problema de ao menos tentar investir nela?
Colbie fitou o amigo por alguns segundos.
— Está pensativo demais. — A garota afirmou, fazendo-o piscar os olhos algumas vezes. — O que está acontecendo?
— Nada — Nicholas respondeu, xingando-se mentalmente. — Estou pensando nas provas, nada demais.
— Ah, claro, Nicholas — Colbie revirou os olhos e levantou a cabeça para encará-lo. Ele achou aqueles movimentos encantadores. — E eu não te conheço desde pirralha — Colbie voltou a falar revirando os olhos e Nicholas riu levemente. — Vamos lá, diga-me o que está acontecendo.
— Não é nada, linda — Nicholas sorriu mais abertamente. — Vamos para casa?
— Tudo bem — Colbie murmurou revirando os olhos e puxando a mochila. — Passo na sua casa mais tarde.
— Certo — ele sorriu novamente e se aproximou de Colbie, beijando-lhe a bochecha.
A garota retribuiu o beijo sorrindo também.

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 13h13min.


Apolo deixou um sorriso fraco brincar no canto de seus lábios ao ver Jullie adentrando o restaurante. Estava tão linda! Não usava roupas despojadas dessa vez. Pelo contrário, estava impecável. Um vestido vermelho não muito colado mas também não muito solto, que pegava até o meio de suas coxas; os cabelos incrivelmente pretos e bem penteados, maquiagem não muito forte, porém chamativa e uma sandália com um salto não muito alto. Aproximou-se da mesa e sorriu.
— Boa tarde, Apolo — ela disse firme, fazendo-o sorrir também.
— Boa tarde, Jullie. Sente-se, por favor — ele murmurou, apontando para a cadeira à sua frente.
— Oras, onde está seu cavalheirismo? Não vai puxar a cadeira para mim? — ela perguntou divertida, fazendo-o rir fracamente e se levantar logo em seguida.
Apolo puxou a cadeira e esperou-a sentar. Curvou-se em direção à Jullie e inspirou com força seu perfume, arrepiando-a pela proximidade.
Jullie deixou um sorriso brincar no canto de seus lábios quando Apolo voltou a sentar-se em sua frente. Seus grandes olhos verdes faiscavam na direção do homem.
— Obrigada — ela murmurou sem quebrar o contato visual. — O que te faz me chamar aqui, Apolo?
Apolo sorriu e ergueu a mão, chamando o garçom.
— Vamos almoçar primeiro, Jullie. Temos tempo — ele murmurou piscando um dos olhos.
O garçom se aproximou e ambos fizeram seus pedidos.
— Sabe que não gosto de enrolações — ela disse firme. — Vamos direto ao assunto, Apolo. Você não me chamaria aqui à toa.
— Tudo bem, Jullie, vamos lá — ele cruzou as mãos sobre a mesa. — Você voltou de repente. O que quer de mim?
— De você? — ela riu e balançou a cabeça negativamente. — O que te faz pensar que voltei por sua causa?
— Tenho quase certeza de que fui a primeira pessoa que você procurou ao voltar — ele a encarou nos olhos, sério. — Vamos lá, Jullie! Não precisa negar que voltou a mando de alguém e está se aproximando de mim exatamente por isso. Te conheço o suficiente para ter certeza disso. Qual o serviço da vez? — ele ergueu uma das sobrancelhas. — Se aproximar de mim para termos um caso e depois me matar?
Jullie engoliu a seco e piscou os olhos rapidamente. Havia esquecido que Apolo era extremamente inteligente.
— Não tenho motivos para te matar — ela disse baixo, voltando a fitá-lo. — O que te faz pensar assim? Por que não confia mais em mim, Apolo?
— Porque você foi embora — ele disse entre dentes. — Assim que meu pai morreu. Lembra-se? — ele sorriu debochado. — Céus, Jullie! Tenho todos os motivos do mundo para desconfiar de você! Sei que estava metida na morte de Paolo Agostini, aliás.
— Nunca sequer movi um dedo para fazer mal ao Paolo! — Jullie exclamou sentindo a respiração acelerar. — Quer saber, Apolo? Vá para o inferno! — Gritou sem se importar com as pessoas em volta. — Chame uma de suas vagabundas para comer o que pedi.
Jullie se levantou o mais rápido que conseguiu e saiu em passos fortes. Queria chorar. Sentia falta de Paolo. Apolo não tinha a droga do direito de falar com ela daquela forma. Não que estivesse certo o que ela estava fazendo, pois não estava. Mas quem ele pensava que era, afinal?! Ela o conhecia tão bem! Por isso ficara longe por tanto tempo.
Jullie parou perto de seu carro e passou as mãos pelo rosto, limpando as lágrimas que deixara cair contra sua vontade. Respirou o mais fundo que pôde e piscou os olhos, tentando controlar as lágrimas. Ficou assim por alguns segundos, até sentir alguém puxá-la pelo braço. Num ato de puro susto, soltou-se rapidamente e puxou a arma que carregava em um coldre embaixo do vestido e mirou-a na direção da pessoa, com a respiração acelerada.
Apolo balançou a cabeça negativamente e se aproximou da mulher novamente, fazendo-a abaixar a arma e suspirar em seguida.
— Guarde a arma e volte para dentro, Jullie — ele pediu baixo. — Não seja tola...
— Não vou voltar para lugar nenhum com você, Apolo — Jullie disse baixo, porém firme. — Chega dessa palhaçada.
— Jullie...
— Se andar comigo vai acabar morto — ela disse num tom debochado, porém sabia muito bem a verdade que pesava por trás de todo o deboche. — Me esquece. Não deve ser difícil para você.
Apolo não respondeu, apenas engoliu a seco. Jullie fitou-o nos olhos por alguns segundos e virou-se para o carro em seguida, adentrando o mesmo e arrancando em seguida.
Apolo suspirou e passou uma das mãos pelos cabelos extremamente negros. Chutou e socou o ar em seguida e bufou. Ergueu a cabeça e, engolindo a raiva que sentia, caminhou para dentro do restaurante novamente. Havia esquecido da personalidade forte de Jullie.

LONDRES — 12h35min.


bateu a porta atrás de si, fazendo-a voar no rosto de . Se ele não tivesse um reflexo bom, de fato aquela porta o teria machucado. Sorte. Pura sorte.
— Eu sou uma mulher formada! — ela gritou o mais alto que pôde, pouco se importando se os vizinhos ouviriam aquela discussão idiota ou não. — Eu faço o que eu quiser, !
— Não estou dizendo que não deve fazer o que quiser! Só quero mantê-la longe de toda essa merda! — ele rebateu, gritando tão alto quanto ela.
— Pode dar quantas crises quiser, — ela se virou para ele com as mãos na cintura. — Eu vou participar de novo, sim. Você não manda em mim. Não tente ser esse tipo de homem controlador; você sabe que comigo não funciona desta forma. Não tente atrapalhar o meu trabalho e eu não atrapalho o seu. Estamos juntos, sim, e podemos nos ajudar. Basta você não se intrometer nos meus assuntos, e eu não irei me intrometer nos seus. Vamos tentar fazer isso dar certo. Sabe que vocês precisam de mim, tenho informações que poderão complementar a investigação. Não tente me derrubar e me fazer sair. Lembre-se do que combinamos, lembre-se do que passamos e como foi importante estarmos juntos. Não precisa sentir medo, , nós não vamos morrer.
revirou os olhos e soltou uma risada incrédula, passando a língua nos lábios em seguida. Encarou a mulher determinada em sua frente e suspirou, balançando a cabeça negativamente em seguida. Não acreditava no que estava ouvindo. parecia não ter noção de tudo o que estava acontecendo e o quão traumático havia sido. Ainda assim, entendia que também podia ser irredutível e chato demais, mesmo que fosse com boas intenções. A verdade era que estava assustado demais e não sabia lidar com o fato de estar tão confiante enquanto ele parecia um filhotinho amedrontado. A questão era que eles deveriam ir para outro país e ninguém sabia para quê! A única pista que tinham era que alguém que eles deixaram passar despercebido três anos atrás poderia estar voltando e causando todas aquelas desordens pela Inglaterra e, agora, Itália. Por mais que fossem um tanto quanto afastados, os dois países tinham os mesmos ataques e, para completar, um corpo encontrado na Itália havia um recado para . Tudo estava começando de novo.
Em dois passos largos e rápidos, se aproximou de e encarou-a nos olhos.
— Não entra nisso de novo — ele começou pausadamente. — Por favor. Não quero ter riscos de te perder de novo, . Você... — ele mordeu o lábio inferior e se aproximou mais, segurando-a pelo rosto com delicadeza, acariciando suas bochechas com os polegares. — Eu preciso de você viva para ter um motivo para voltar. Você lá, não saberei o que fazer — confessou em um fio de voz, um sussurro que seria inaudível para qualquer pessoa que estivesse assistindo a cena naquela sala. Mas escutou claramente todas aquelas palavras e precisou se controlar para não sorrir. Aproximou o rosto do homem e grudou suas testas; ela estava extremamente feliz ao escutar aquilo. Haviam avançado mais do que imaginava. Avançaram a ponto de dizer tudo aquilo para ela enquanto a fitava nos olhos. — Eu não quero ver você fazendo essas loucuras de novo, — ele voltou a falar. — Não tenho forças para te ter à beira da morte novamente, não quero que você me veja fazer as coisas que abomino, mas que são necessárias para continuar vivo. Quero que você fique segura. Quero ter um motivo para voltar e finalmente podermos tentar ter uma família.
— Você é um idiota — ela murmurou com a voz mansa. — Não vou morrer. Sei me cuidar; fui bem treinada. Além do mais, é sempre mais seguro estarmos juntos.
— Eu só quero te proteger.
— Eu sei. Mas você também precisa de proteção. E eu estando lá, podemos proteger um ao outro. Não precisamos brigar por isso, . De qualquer forma, não embarcarei com vocês, tomarei a rédea das coisas por aqui primeiro. Eu quero que você fique tranquilo e bem o suficiente para focar em seu trabalho. Não precisa se preocupar comigo o tempo inteiro, juro que sei me cuidar. Você precisa aceitar que meu trabalho também contém riscos. Eu invado propriedades, manipulo algumas pessoas, sou agredida verbalmente, tenho que ir atrás de gente que odeio... enfim, não é confortável para mim também, mas ainda é meu trabalho. É perigoso por si só. Meu nome fica estampado na mídia o tempo inteiro. Sofro ameaças desde que consegui consolidar minha carreira. Você não precisa se preocupar. Sei que é inútil dizer isso e a preocupação sempre estará lá, como eu fico quando sei que você está em missão e se arriscando pelo país. Mas, ainda assim, entendo que é seu trabalho. No fim do dia, você sempre volta e sempre está comigo. Quero que pense dessa forma. Lá, aqui ou em qualquer lugar do mundo: eu sempre voltarei para os seus braços.
Ao ouvir palavras tão dóceis sendo sussurradas contra seu rosto, não teve forças para negar. sabia bem como vencer uma discussão e como convencê-lo das coisas. Ele não concordava, não queria ter de vê-la sofrer outra vez e algo no fundo de seu âmago o dizia que o sofrimento seria tão forte quanto da outra vez, mas, ainda assim, não tinha o que fazer. era dona de suas próprias decisões e ele só deveria aceitar e lidar com elas, assim como ela fazia quando ele decidia vestir um colete à prova de balas e sair pela cidade como se fosse um super-herói quando, na verdade, estava mais para um vilão que poderia ser morto a qualquer momento.

****

Colbie soltou uma risada alta enquanto assistia o fim de um episódio qualquer de How I Met Your Mother e Nicholas revirou os olhos. Queria assistir White Collar.
— Oras, Nicholas! Dê um sorriso! — Colbie exclamou divertida. — Assuma que esse episódio foi engraçado!
— Foi, foi muito engraçado — ele revirou os olhos. — Mas será que agora eu posso assistir White Collar?
— Você está muito chato hoje — Colbie esticou-se completamente no sofá que estava e Nicholas observou-a por alguns segundos, desviando o olhar enquanto sentia seu rosto corar levemente com o pensamento que tivera.
Balançou a cabeça negativamente e tirou do seriado que Colbie assistia.
— Estou normal, Colbie — ele murmurou, soltando um suspiro fraco. — Vem, vamos assistir White Collar.
Colbie bufou e sentou-se ao lado dele no chão, em frente ao notebook.
— Você anda tão complexo, tão fechado — Colbie murmurou enquanto apoiava a cabeça no ombro de Nicholas. — Você nem sequer sorriu de verdade hoje.
— Desde quando você repara na forma que sorrio? — ele perguntou, erguendo uma das sobrancelhas e Colbie suspirou.
— Desde sempre, bobão — ela respondeu baixinho fitando o notebook à sua frente.
Nicholas deu um sorriso discreto ao ouvir aquelas palavras e virou-se para ela.
— Por que nunca disse antes? — ele perguntou dando um sorriso de verdade, da forma que Colbie gostava. Ela, corando um bocado, balançou a cabeça negativamente e revirou os olhos.
— Não preciso dizer essas coisas! — exclamou sem jeito. — Você é meu melhor amigo. Deveria saber disso.
Nicholas mordeu o lábio inferior e revirou os olhos discretamente.
Melhor amigo
.
Aquilo o estava incomodando. E muito.
Agora, o porquê daquilo ele não fazia ideia. Mas sabia que o incomodava e sabia também que não enxergava Colbie daquela forma. Não mais. Ou talvez ele nunca tenha enxergado Colbie apenas como uma melhor amiga. Ou talvez fosse apenas coisas da cabeça dele. Ou talvez tudo aquilo fosse culpa de e seus conselhos idiotas. Talvez não fosse nada daquilo e ele só queria culpar alguma coisa por estar sentindo algo a mais por Colbie.
— Nicholas! — ela chamou, encarando-o nos olhos. — Estou falando com você há séculos. O que você tem, afinal?
Nicholas soltou uma risada nervosa e encarou o teto da sala. Depois, voltou o olhar para Colbie. Suspirou pesadamente e bagunçou os cabelos.
— Nada. Eu não tô legal, Colbie. Acho melhor terminarmos de ver isso depois. — Nicholas murmurou, fechando o notebook.
Colbie arqueou uma das sobrancelhas.
— Ei! — ela chamou puxando Nicholas pela mão já que ele ameaçava levantar.
— Pode confiar em mim — ela murmurou, encarando-o no fundo dos olhos. — Por que não me conta o que está acontecendo? Você anda alienado há dias! Sinto falta do meu amigo inteligente e brincalhão que dá sorrisinhos esperançosos para as garotas da escola só porque o diz que assim tudo vai ser mais legal — ela suspirou e apertou mais a mão do amigo. — Me diz o que está acontecendo, por favor — ela uniu as sobrancelhas e estreitou os olhos, mostrando-se triste e Nicholas sentiu o coração acelerar. — Não precisa ter medo. Seja lá o que for... Você sabe que estarei aqui para e por você.
Nicholas engoliu a seco e sentiu o coração acelerar ainda mais dentro do peito.
— Promete que não vai sair correndo daqui, nem me odiar ou algo do tipo? — ele sussurrou enquanto engolia a seco novamente e se aproximava mais de Colbie.
— Prometo o que quiser se você der um sorriso e me contar o que está acontecendo — ela respondeu com um sorriso de canto, porém Nicholas permaneceu sério, pensando e repensando no que fazer.
Era agora ou nunca.
Pegar ou largar.
Alguns segundos se passaram e Nicholas ignorou tudo à sua volta; desistiu de tentar resistir, de tentar lutar contra aquilo. Era impossível controlar-se perto de Colbie e ele não tentaria mais.
— Me desculpe por isso — ele sussurrou antes de segurar a amiga pela nuca e puxá-la para mais perto, juntando seus lábios de uma vez. Tinham só 13 anos mas isso não significava que não saberiam o que fazer quando seus lábios colassem uns nos outros. Nicholas não pensou duas vezes antes de invadir a boca de Colbie com sua língua. Para sua surpresa, Colbie não o empurrou nem o estapeou, apenas jogou os braços em volta de seu pescoço e puxou-o para mais perto. Não era o primeiro beijo de nenhum dos dois, alguns meses antes tinham prometido que aquilo aconteceria ao mesmo tempo para ambos. Sendo assim, tentando não pensar sobre o quão cedo para aquilo era, foram de encontro às suas paqueras e investiram. Aconteceu e não havia sido tão bom assim, compartilharam ambas as experiências dando risadas e comentando como eram terríveis beijando. E agora, estavam ali, juntos, experimentando entre os dois que, na verdade, só não haviam beijado a pessoa certa.
Nicholas desceu uma das mãos para a cintura de Colbie e segurou-a firme e respeitosamente ali, fazendo-a dar um sorriso pequeno entre o beijo e puxá-lo para um abraço cuidadoso. Teriam continuado ali se o barulho da porta da sala não tivesse ecoado por todo o local. Assustado, Nicholas empurrou Colbie para trás o mais rápido — e com cuidado — que conseguiu e levantou-se no segundo seguinte. Logo uma Emma sorridente adentrou a sala. Colbie piscava os olhos de forma desesperada e, com os dedos, desenhava os próprios lábios, sem acreditar no que acabara de acontecer.
— Olá, amores! — Emma exclamou sorrindo.
— Ei, mãe! — Nicholas respondeu, tentando imitar a animação da mãe. — Como foi o trabalho?
— Olá, Emma... — Colbie respondeu ainda distraída, mas com um sorriso no rosto.
— Como vai, Colbie? — Emma perguntou enquanto caminhava para a cozinha com Nicholas em seu encalço. — O trabalho está sendo um inferno, filho.
Precisarei viajar daqui uns dias e não faço ideia de como você vai ficar.
— Tenho idade para ficar sozinho, mãe — Nicholas murmurou revirando os olhos.
— Não com o que vêm acontecendo — ela suspirou. — Só vim em casa buscar uns documentos e voltarei para a delegacia, tudo bem? Só preciso que a Colbie vá para casa. Pretendo deixar você na casa da sua avó.
— Vai trabalhar até tarde? — ele perguntou tentando ignorar o que sentia ao ouvir o nome de Colbie que, aliás, continuava na sala em total silêncio.
— Vou — Emma suspirou. — Tente ir rápido deixar a Colbie, tudo bem? Charlie logo estará aqui.
— Tudo bem — Nicholas mordeu o lábio inferior.
— Antes... — Emma voltou a falar, fazendo-o virar-se para ela — Há algo que queira me contar?
Nicholas balançou a cabeça negativamente, porém um sorriso brincava no canto de seus lábios.
— A você, não. Mas ao ... talvez — ele piscou um dos olhos. — Até daqui a pouco, mãe.
Emma soltou uma risada fraca e revirou os olhos.
Como se ela não tivesse visto o beijo que acontecera no meio de sua sala.
Ah, jovens.
Nicholas saiu da cozinha e mordeu o lábio inferior, não sabia como agir ao encarar Colbie novamente.
— Ei, Colbie — ele chamou baixo, coçando a cabeça. — Eu vou...
— Me levar em casa pois sua mãe vai trabalhar até tarde e você precisa ir para a casa da sua avó — ela o interrompeu, sorrindo timidamente. — Tudo bem. Já arrumei minhas coisas.
— Bom... Certo — ele mordeu o lábio inferior.
— Tchau, Emma! — Colbie gritou da sala enquanto caminhava devagar até a porta.
Emma gritou um "tchau, querida!" em resposta e Nicholas abriu a porta para que Colbie passasse. Logo depois, fechou-a devagar.
— Certo, desculpe por... — Nicholas tentou falar, mas não conseguira já que os lábios de Colbie colaram-se aos seus novamente, num selinho demorado.
— Vamos. Não posso ficar aqui até muito tarde e você precisa voltar... — Colbie murmurou sorrindo e abaixando a cabeça levemente.
Nicholas sorriu e mordeu o lábio.
— Vamos — ele balançou a cabeça negativamente e, timidamente, segurou a mão de Colbie para saírem.
Foram caminhando devagar e conversando coisas idiotas até chegarem à casa de Colbie, o que não demorou tanto quanto costumava — e deveria — demorar.
Pararam em frente ao portão de Colbie e se encararam.
— Bem, obrigada — Colbie murmurou sorrindo. — Te vejo amanhã.
— Por nada — Nicholas respondeu. — Até amanhã.
Nicholas se aproximou de Colbie devagar, porém, ao contrário do que ela pensava, apenas beijou-lhe a testa, fazendo-a sorrir mais. Gostava daquele jeito de Nicholas. Era... diferente.
Trocaram mais um sorriso e Nicholas esperou-a entrar para voltar para casa.
Ficou ali por mais alguns segundos, observando o portão fechado. Sabia que Colbie estava encostada nele com um sorriso enorme nos lábios. Riu fraco e virou-se para fazer o caminho de volta para casa. Estava tão feliz que mal conseguia se conter. Céus! Ele esperou tanto por aquilo.
Ao chegar em casa novamente, Nicholas pôde ver o carro de Charlie na garagem. Logo um sorriso tomou seus lábios novamente. Poderia compartilhar com alguém que não fosse sua mãe. Não que escondesse as coisas de Emma, pelo contrário! Apenas não queria ter as bochechas apertadas e ser tratado como um bebê... como aconteceu quando contou a respeito do primeiro beijo (além, é claro, do sermão a respeito de não deixar isso ser o foco de sua vida, que ele ainda era muito novo para namorado e que deveria estudar).
Riu novamente e adentrou a sala, sem fazer barulho. Observou todos os cômodos do andar debaixo e não encontrou a mãe e o padrasto. Balançou a cabeça negativamente e fez uma careta ao pensar certas coisas. Ignorando o sumiço dos adultos, Nicholas subiu as escadas, ainda sem pressa. Se trancaria no quarto e faria os deveres antes de ir para a casa da avó. Se Charlie estava em casa também, é porque todos tiveram algumas horinhas de folga.
— Ele precisa saber, Emma! — Charlie exclamou e Nicholas parou de andar antes de passar pela porta entreaberta. — Até quando pretende esconder isso dele? Vamos para a Itália daqui uns dias e vamos deixar o menino aí, sem saber porra nenhuma sendo que podemos morrer por lá mesmo?
— Não fale assim, Charlie! — Emma praticamente gritou e Nicholas uniu as sobrancelhas, aproximando-se mais da porta para observar melhor.
Fora ensinado para não fazer aquilo. Mas a curiosidade estava falando mais alto.
— Nicholas precisa saber, Emma — Charlie diminuiu o tom de voz. — Se enrolarmos mais, será pior.
Nicholas sentiu seu coração acelerar e a respiração falhar. O que diabos estavam escondendo dele?
— Já se passaram treze anos... — Emma murmurou.
— E você acha que ele não se questiona sobre isso? — Charlie rebateu. — Acha que ele não quer saber o que aconteceu com o pai dele?
Nicholas paralisou no mesmo momento. Emma nunca lhe contara o que acontecera com Martin, seu pai. Charlie estava certo! Ela deveria contar!
— Pode se questionar, sim, Charlie. Mas...
— Mas o que, Emma? — Charlie interrompeu-a novamente. — Será que não entende que me machuca também vê-lo todos os dias e saber da verdade sem poder contar para ele? Nicholas já está grande o suficiente para saber. Por mim, sinceramente, teria contado tudo para ele assim que descobri. Seria mais fácil. Muito mais fácil!
— Droga, Charlie! — Emma exclamou. — O que você quer que eu faça? Que apenas o chame e diga: "Nicholas, meu amor, venha cá para a mamãe te contar uma coisa... O Charlie é seu verdadeiro pai e o Martin fora só um namoro da mamãe!"? Por Deus, Charlie!
Nicholas sentiu a garganta secar e juntou as sobrancelhas.
Charlie... Charlie! Charlie era seu pai? Mas... E Martin?
Nicholas piscou os olhos e respirou fundo, passando as mãos pelo rosto. Aquilo não podia ser verdade. Ele deveria estar sonhando. Era isso, então? Sua felicidade por ter beijado Colbie estar indo por água abaixo significava que tudo não passara de um maldito sonho?
Beliscou-se uma, duas, três, quatro vezes.
Era verdade. Era realidade. Tudo estava acontecendo.
Era filho de Charlie.
Fora enganado por malditos treze anos.
Nicholas respirou fundo, com a coragem que desconhecia que tinha, abriu a porta e perguntou alto, assustando Emma e Charlie:
— O Charlie é meu pai?


Capítulo 4

IT'S OKAY NOT TO BE OKAY.


LONDRES — INGLATERRA, 20h10min.

entregou uma das taças que segurava para , que estava jogada na cama com o notebook entre as pernas.
— O que está escrevendo agora? — perguntou enquanto se apoiava na janela com um cigarro entre os dedos.
— Projeto novo — ela murmurou, bebericando o vinho que lhe dera. — Ótimo vinho.
— Obrigado — ele sorriu fracamente e tragou o cigarro. — Não vai me falar sobre o projeto?
— Estou escrevendo algumas coisas que já passei por ser jornalista investigativa — ela bebeu o vinho mais uma vez. — Depois juntarei com as partes de Elizabeth...
— Elizabeth? — interrompeu, unindo as sobrancelhas. — Johnson?
— Sim — riu do espanto do homem. — Conversamos, nos acertamos e notamos que o que fazíamos não passava de briguinha adolescente. Estamos escrevendo juntas porque nossos chefes são sócios. As duas Redações que antes eram inimigas, agora são a mesma coisa. O que o dinheiro e o tempo não fazem, né? — ela o olhou de relance, ainda sorrindo.
— Sinto cheiro de confusão — disse, tragando o cigarro.
revirou os olhos.
— Você sempre sente cheiro de confusão, — ela virou o resto do vinho que continha na taça de uma vez. — Precisa parar com isso. Conseguimos nos acertar, é um projeto legal. Tudo vai dar certo. São relatos de duas jornalistas investigativas. Sendo que uma já ganhou Pulitzer. Qual confusão isso pode causar?
— Sei lá! — disse antes de virar a taça e acabar com o vinho de uma vez. — Vocês são esquisitas.
— Esquisito é você! — ela rebateu, largando a taça vazia em qualquer lugar e se levantando, indo em direção a . — Você é muito, muito esquisito e eu não reclamo tanto assim.
revirou os olhos, sorrindo.
— Como se você não gostasse disso... — ele murmurou jogando o resto do cigarro pela janela e passando as mãos pela cintura de — Fala desse jeito, mas não vive sem o esquisito aqui...
— Convencido — ela sussurrou, aproximando seus lábios.
— Gostosa — rebateu, aproximando-se mais.
Teriam se beijado, como fizeram o dia inteiro, se a campainha não tocasse. E logo em seguida, barulhos de socos eram ouvidos.
A última vez que bateram na porta de dessa forma, Emma chegara suja de sangue, de cabelos bagunçados e um pequeno Nicholas agarrado em suas pernas porque tinham invadido sua casa.
se afastou de rapidamente e correu para a sala, abrindo a porta.
— O que diabos aconteceu?! — exclamou ao dar de cara com Nicholas, que tinha a respiração acelerada, narinas infladas e olhos vermelhos.
Nicholas não respondeu, só passou por parecendo um furacão.
— Olá, — ele murmurou. Podia estar triste, revoltado ou o que fosse, mas sua educação continuava ali. Intacta.
— Olá, mascote — sorriu fracamente. — O que aconteceu?
— Você sabia, ? — Nicholas ignorou a pergunta e se virou para o homem ao notá-lo na sala. — Você sabia que o Raymond é meu pai?
engoliu a seco e fez o mesmo, piscando os olhos rapidamente.
— Certo. O que você tem ouvido por aí? Vamos conversar com calma, garotão! Senta aí e...
— Droga, ! — Nicholas gritou. — Por que diabos não me contaram? Porra! — xingou, com vontade. — Não sou um bebê!
, vai para dentro por favor? Preciso bater um papo com o Nicholas — pediu mordendo o lábio e não disse nada, apenas assentiu e seguiu para o quarto. — Senta aí.
— Não quero sentar — Nicholas rebateu. — Quero saber por que esconderam isso de mim por tanto tempo! Qual a droga do problema de vocês?
— Dá para dizer onde ouviu isso, moleque?! — perguntou alto, fazendo-o engolir a seco.
— Ouvi o Charlie e minha mãe discutindo sobre isso no quarto — ele explicou. — Perguntei e eles ficaram me olhando com cara de merda, como se tivessem sido pegos fazendo...
— Olha o vocabulário! — repreendeu. — Não é por que está estressadinho que vai falar dessa forma. Sua mãe não te educou para isso — suspirou. — Então você não deixou eles explicarem o lado deles na história?
— Lado deles? — Nicholas riu, debochado. — LADO DELES? — gritou. — Eu acabo de descobrir que meu pai sempre esteve do meu lado e me escondeu isso a vida inteira, e você quer saber se eu ouvi o lado deles?
— Você quer o que, Nicholas? — suspirou mais uma vez. — Que eu veja o seu lado nisso tudo? Nunca escondi dos seus pais que era a favor de você saber a verdade. Mas eu simplesmente não podia chegar e contar, isso não tem a ver comigo. Sua mãe sentia medo. E você está fazendo exatamente o que ela sempre temeu.
— Vai defendê-los agora? — Nicholas perguntou baixo, porém sem esconder a raiva que sentia. — Eles mentem para mim a vida inteira e você defende?
— Não estou defendendo ninguém. Só quero meu garoto de volta — o fitou nos olhos. — Isso não é o fim do mundo, Nicholas. Você pode estar confuso, com raiva e até mesmo um pouco inconformado. Mas, me diga, quem melhor que o Charlie para ser seu pai? Ele te viu nascer e te deu proteção desde então.
— E eu o agradeço por isso, — Nicholas praticamente sussurrou, sentindo as lágrimas inundarem seus olhos novamente. — Da mesma forma que agradeço a você por ser um cara legal comigo, diferente do que o ou qualquer outro daquela delegacia foi. Mas me diga: o que faria se descobrisse que seu pai não foi seu pai e você se sacrificou por ele a vida inteira à toa?
— Descobri muitas coisas sobre meu pai, Nicholas — o encarou balançando a cabeça negativamente. — Coisas que eu nunca imaginei que viriam dele. Acredite, é muito melhor passar pelo que você está passando do que passar pelo que passei. Você tem 13 anos. Não é o fim do mundo descobrir seu pai biológico. Não quero minimizar o que você está sentindo, mas precisa ter calma num momento desse. Está tudo bem, é sua família. Pais também falham e sentem medo.
Nicholas soltou uma risada debochada e balançou a cabeça.
— Eu só queria entender por que mentiram para mim — ele murmurou. — É algum crime ficar puto com isso? Vai dizer que você não ficaria? Sempre pedem tanto para não mentirmos e... olha isso.
não respondeu. Apenas lembrou-se de quando descobriu que era seu irmão.
— Essas coisas acontecem, Nicholas — respirou fundo. — Você só precisa ser forte. Sua mãe não fez nada disso por mal. Tente entender o lado dela. Charlie era casado na época e...
— Casado? — Nicholas o cortou, dando uma risada debochada e suspirou, dando-se conta do que deixara escapar. — Quem realmente é minha mãe, ?
— Sua mãe é uma mulher maravilhosa que não merece nada disso — respondeu calmamente. — Você deveria voltar para casa amanhã de manhã e tentar conversar com ela e Charlie. Pode dormir aqui, sabe que minha casa é sua casa. Nós vamos para a Itália essa semana. Não deixe as coisas ficarem assim, Nicholas.
— Está vendo, ? — ele riu, balançando a cabeça. — Vocês só pensam no trabalho. Não importa se vou me preocupar com vocês, não importa o quão puto eu esteja, não importa o que vem acontecendo na minha vida, não importa o que eu estou sentindo. Só importa esse maldito trabalho de vocês. Se tem gente morrendo na Itália, deixe os malditos policiais italianos cuidarem disso. Vocês não são super heróis que podem rodar o mundo inteiro sem sofrer nada. Vocês não são imortais.
— Como tem coragem de dizer que não nos importamos com você?! — perguntou, elevando mais a voz mesmo contra sua vontade. — Droga, Nicholas! Preciso que seja forte e nos entenda agora! — deu um passo à frente e segurou o menor pelos ombros com carinho. — Durma, amanhã volte para casa e converse com sua mãe. É o melhor que tem a se fazer agora. Pode ter certeza que se estamos indo para a Itália, é para cuidar de você também. Coisas horríveis estão acontecendo de novo.
Nicholas se soltou das mãos de e passou as mãos pelo rosto em seguida. Não aguentava mais nada daquilo. Queria saber quando aquela sensação ruim passaria, queria saber quando passariam a lhe contar a verdade, queria saber quando as pessoas que amava iam estar fora de perigo...
— É muito para mim — ele riu forçadamente e balançou a cabeça de um lado para o outro. — É demais, . Demais. Eu... — ele suspirou e se afastou de completamente — Não posso lidar com isso.
— Você pode. Agora descansa um pouco, que tal? — murmurou dando mais alguns passos.
— Não quero — Nicholas suspirou e bagunçou os cabelos. — Eu... vou embora. É muita coisa para um dia só.
— Sei que você não vai para casa, Nicholas. Por favor...
— Me deixa, . Me deixa — ele murmurou e virou-se de uma vez por todas, cruzando a sala e abrindo a porta.
deixou um suspiro alto escapar, mas não se moveu. Se suas suspeitas estavam certas, ele estava indo para a casa de Colbie. No fim das contas, moravam todos próximos uns dos outros, não seria uma caminhada longa e as ruas ainda estavam agitadas e iluminadas. Não adiantaria ir atrás de Nicholas. Pelo menos não naquele momento. Ainda assim, sentia o peito apertar. Não queria ser um adulto irresponsável deixando o moleque sair daquele jeito, mas sabia que não adiantaria de muita coisa força-lo ficar ali — ele não queria e provavelmente sairia escondido durante a madrugada; sabia porque fazia muito aquilo na época da pré-adolescência. O que podia fazer havia feito: aconselhado, amolecido as ideias turvas e feito o garoto perceber que não estava sozinho. Além, é claro, de enviar uma mensagem para Emma informando-a do que havia acontecido.
parou ao lado de e segurou sua mão livre.
— Ele vai ficar bem? — ela perguntou baixinho.
— Eu espero que sim... — respondeu encarando a porta fechada — Eu disse que isso aconteceria — ele se virou para , suspirando. — Eu avisei, . Eu avisei. Eu disse que ele se revoltaria. Não era para esconderem isso dele por tanto tempo. Não era. Agora não sei se fico aqui ou se vou atrás dele, se tento falar com a Colbie...
— Eu sei, murmurou, passando uma das mãos pelo rosto tenso do homem. — Mas aconteceu. Eles esconderam tanto que acabaram deixando o garoto escutar. Você vai ver como o Nicholas logo volta ao normal. Ele é forte o suficiente para encarar isso de cabeça erguida. Ele tem amigos, tem a mim e, principalmente, tem você. Vocês todos só precisam de paciência. Nicholas tem 13 anos e isso para ele é o inferno. Mas veja pelo lado bom: ele descobriu agora. Aos 13. Imagine se ele descobre com 17 ou 18? — piscou um dos olhos com um sorriso no canto dos lábios. — A revolta e a briga seriam maiores. Mas, se quiser ir atrás dele, podemos ir agora. Sei que você seria capaz de rastrear o celular dele em dois tempos.
— É.. se formos observar assim... — deu de ombros e bagunçou os cabelos logo depois — Enfim. É melhor dar espaço para ele, vou pedir para Emma falar com a Colbie caso ele vá para lá... apesar de estar com o coração apertado, estou me sentindo horrível, não era pra tê-lo deixado sair... — suspirou. — Certo, a Colbie não mora tão longe, ainda é um horário bom e está tudo movimentado. Ele já tem o hábito de andar assim, as pessoas o conhecem... — tentou tranquilizar-se sozinho. — Vem, vamos terminar aquele vinho. Pretendo ler o que você escreveu hoje...
— O que decidir faremos, meu amor. Se achar que devemos ir atrás dele, vamos. E eu disse que te mostraria algo? — perguntou arqueando uma das sobrancelhas e passando os braços em volta da cintura de . — Não me lembro disso... mas gostei da parte de acabarmos com o vinho.
— Você não disse — sorriu. — Mas você sabe... sou um curioso filho da puta.
soltou uma risada gostosa e a apertou mais.
Uma coisa que aprendera com e nunca mais se esqueceria: sorrir mesmo nos momentos difíceis. Fazia bem.

Flashback

VENEZA — ITÁLIA, 17h17min.
Treze anos antes...


Apolo sorriu ao observar os pais de longe enquanto um único pensamento pairava por sua cabeça: será que algum dia conseguiria encontrar um amor igual aquele? Tinha apenas 14 anos, mas já pensava no que faria ao encontrar uma mulher que o deixasse da forma que sua mãe deixava seu pai. Era impossível não pensar. Sabia bem as coisas que o pai fazia e sabia que muitas pessoas desejavam sua morte. Mas... Céus! Será que ninguém enxergava quem seu pai se tornava ao lado de sua mãe?
— No que você tanto pensa, filho? — A voz de Robert Castellamare ecoou pelos ouvidos de Apolo, fazendo-o sorrir automaticamente.
— No dia em que vou encontrar alguém que me faça sorrir da forma que você sorri com a mamãe... — ele respondeu sorrindo timidamente, agora. — Você simplesmente se transforma com ela por perto. Tenho vontade de sentir algo assim.
Castellamare riu fracamente.
— Sua hora vai chegar, Apolo. Apenas saiba esperar.
— Não estou dizendo que estou com pressa! — Apolo riu. — Tudo tem seu tempo, certo? Vou saber esperar. Aliás, cadê a mamãe?
— Desde quando você é tão sábio assim, rapaz? — Robert arqueou uma das sobrancelhas. — Foi comprar algo para beber.
— Sou sábio assim desde sempre — Apolo piscou um dos olhos, arrancando uma gargalhada do mais velho. — Tudo culpa desse verão... O calor me irrita.
— O calor nos irrita — Robert piscou um dos olhos. — Pretendo ir com vocês para a Inglaterra quando tudo isso acabar.
— Pai... — Apolo chamou baixo, virando-se para o mais velho — Por que você entrou nisso? E por que fez questão de me deixar saber de tudo logo agora? Tenho 14 anos e...
— Preciso que tome meu lugar, Apolo — Castellamare disse enquanto fitava os olhos confusos do filho. — Quero alguém de confiança para tomar conta do negócio. Não precisa levar tudo para o lado que eu estava levando. Basta tomar o poder de lá. Até você acabar a faculdade, tem tempo para decidir como continuar com tudo isso. Não passa de uma empresa, filho.
— Eu sinto medo — Apolo murmurou. — Medo de decepcionar você por te contrariar...
— Até lá você perderá todos os seus medos, Apolo. E eu não estarei vivo para ver o rumo que você dará à empresa — Castellamare disse firme e Apolo sentiu seu coração acelerar. — Não se preocupe com isso, garoto.
Apolo suspirou e Castellamare deu um sorriso fraco. Seu filho era tão diferente. No fundo, não queria que o pequeno Apolo seguisse seus passos. Mas queria deixar algo para ele. Sabia que quando voltasse para a Inglaterra — sozinho, claro — talvez não tivesse tempo de voltar a Itália e ver o que seu filho realmente se tornara. Mas agradeceria se ele virasse um homem honesto, que não o tomasse como exemplo. Nem todos os pais querem que seus filhos sigam seus passos. Ainda mais quando sabem que fazem coisas erradas.
Castellamare deixou um sorriso brotar em seus lábios ao enxergar a mulher com duas bolsas nas mãos, caminhando em sua direção com um sorriso tão aberto e alegre quanto o dele nos lábios.
A mulher estava quase chegando onde o marido e o filho estavam, quando dois estranhos surgiram ao seu lado. Castellamare sentiu o coração parar e Apolo se levantou, juntando as sobrancelhas.
— Pai! O que está... — Apolo tentou perguntar, mas, àquela altura, Robert já dava passos rápidos até onde a mulher estava. Apolo ficou sem saber. Ia atrás? Ficava observando a cena? Estava perdido. Não sabia o que estava acontecendo. Mas sabia que sua mãe estava assustada. Seus olhos azuis brilhantes e intensos estavam mais escuros pelo medo, seus lábios entreabertos e os cabelos levemente desarrumados pelo leve vento que batera por ali. De repente, tudo ficou em câmera lenta. Naquele momento, Apolo achara que perderia tudo o que tinha. Um dos homens ergueu um revólver prateado e mirou-o no meio da testa de sua mãe.
O que diabos estavam fazendo?! Aquilo era um lugar público! Céus!
— NÃO! — Castellamare gritou e apertou mais os passos, porém parou bruscamente ao notar uma outra arma apontada em sua direção. — Não faça nada com ela. Vocês querem a mim.
— Isso é apenas um aviso, Castellamare — o homem que segurava a arma firmemente contra a cabeça da mulher disse. — Ela é só a primeira. Ou você faz o combinado, ou o próximo será seu filho.
Castellamare sentiu seu coração apertar. Não podia deixá-la morrer daquela forma! Não... Não podia perdê-la. Não... Em hipótese alguma! Respirou o mais fundo que pôde e fitou o homem destravar a arma. Com um surto de coragem, Castellamare deu mais alguns passos na direção dos homens, mas parou bruscamente ao ouvir um grito da garganta de Apolo, implorando para que ele fizesse aquilo parar, que não fosse até os caras, mas que salvasse a mulher. Robert Castellamare ignorou. Estava cego. Queria salvar a mulher que mais amava. Com um sorriso nos lábios, o homem apertou o gatilho. Sem dó nem piedade. Apenas apertou e deixou o corpo da mulher cair no chão, como se fosse um saco de lixo qualquer. E então toda a cena voltou a velocidade normal. Castellamare não acreditava no que estava vendo. Não acreditava que haviam feito aquilo. Não acreditava que não conseguiria correr a tempo. Aliás, ele realmente tentara correr? Desde quando aquela praça era tão grande?
— É só um aviso — o homem murmurou novamente. — Sinta-se à vontade para chamar a polícia. Sabe que não ficarei preso. Você já tentou antes.
O outro homem, que também segurava uma arma, mirou-a em direção a Robert, que estava estático encarando o corpo da mulher, pouco se importando se seria atingido ou não.
— Não gaste balas com ele, amigo — o assassino murmurou, enquanto Castellamare levantava os olhos vermelhos em sua direção. — Fique esperto.
E então, saíram. Simplesmente saíram. Sem se importar com os gritos desesperados das pessoas, sem se importar com a polícia a caminho.
Simplesmente saíram e o deixaram ali, desolado. Sem a mulher que mais amava no mundo. Sem ter o que fazer. Com um filho de 14 anos e totalmente traumatizado com as coisas que vira.
Com o resto de coragem que lhe sobrara, Castellamare arrastou-se até o corpo da mulher, segurando-o em seus braços com delicadeza. Uma lágrima rolou.
Logo depois, outra. E outra. Mais outras. Quando Robert se dera conta, já estava debruçado sobre o corpo e chorando como nunca havia chorado na vida. Sentiu braços pequenos envolverem seu corpo e, logo depois, lágrimas molhando sua camisa. Com uma das mãos, Robert abraçou o filho e deixou as lágrimas caírem livremente.
Isso é só um aviso. Kate, sua irmã mais nova, que o perdoasse. Mas ele não arriscaria a perder mais uma pessoa que ama por não obedecer àqueles caras.

Fim do Flashback.

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 22h35min.

Apolo soltou a fumaça do cigarro devagar. As lembranças ainda pairavam por sua cabeça. Lembrava-se de como era idiota até os dezessete. Lembrava-se o quão apaixonado era. Lembrava-se o quanto sua mãe fazia falta. Lembrava-se de quando tomou a decisão de cursar Administração só para ter um diploma e logo depois tomar conta dos negócios do pai, que não eram lá as coisas mais honestas do mundo. Mas era pelo seu próprio bem. Se não fizesse isso, morreria. Se envolvera na podridão toda sem nem ao menos notar. Outras pessoas em seu lugar, sentiriam ódio de seu pai. Mas ele simplesmente não conseguia odiar Robert Castellamare. Aquele homem podia ser tudo, tudo de ruim. Mas lhe dera uma educação impecável, lhe dera amor e lhe ensinara a ser um homem de verdade. Entretanto, ninguém acreditava nisso. Mas e daí? Ele sabia, ele sentia, ele amava e idolatrava seu pai. Poderia ter lhe dado um abraço de dia dos pais. Mas não deu. Porque Jesse Pender o matou. O matou sem nem saber por que estava matando. Talvez só para salvar a maldita vida de que de nada valia. Ou daquela jornalista idiota que andava com ele. Jesse era o maior babaca da face da Terra. Tirara a vida de seu pai para salvar o idiota do .
A porta do escritório de Apolo se abriu, fazendo-o erguer os olhos sem um pingo de paciência. Estava perdido em seus pensamentos e pretendia continuar. Até observar a figura à sua frente.
— Decidi te dar uma segunda chance — Jullie murmurou, jogando a bolsa em cima da mesa e sentando-se na cadeira, enquanto jogava as pernas sobre a mesa de Apolo. — Você é um idiota. Insinua que eu sou uma vadia que quer te matar, mas ainda assim, é impossível ficar longe de você. Posso estar sendo tão idiota quanto você por vir aqui, mas espero não me arrepender.
Apolo riu sem emoção alguma e observou a mulher. Os olhos verdes faiscavam e os cabelos extremamente negros estavam bem penteados, as roupas não eram tão diferentes do que realmente costumava usar; uma blusa de uma banda de rock, um short jeans curto por cima de uma meia calça e o all star de cano médio. Jullie seria uma eterna adolescente. Mas, bem, era o que aparentava ser. Ninguém daria vinte e sete anos para aquela mulher.
Ninguém.
— Não lembro de ter pedido uma segunda chance — ele murmurou, acendendo outro cigarro.
Jullie revirou os olhos e abaixou as pernas, debruçando-se sobre a mesa em seguida para pegar o cigarro já aceso da mão de Apolo. Levou-o até os lábios e tragou-o tranquilamente enquanto largava o corpo sobre a mesa, ignorando os papéis embaixo de seu corpo.
— Você praticamente implorou para que eu voltasse para dentro do restaurante, meu amor — ela piscou um dos olhos. — Você me quer por perto de qualquer forma — ela piscou os olhos. — Você não me esqueceu completamente...
— E você também não me esqueceu, pelo visto — ele murmurou, dando uma risada fraca e pegando o cigarro da mão dela. — O que quer aqui?
— Em algum momento eu já disse que esqueci você, Apolo? — ela perguntou, sentando-se na mesa e observando-o tragar o cigarro. — Que eu me lembre, não. O que eu cheguei a dizer com todas as letras foi: preciso ir embora. Não foi nem um "quero ir embora" ou "te esqueci completamente e agora ‘tô me mandando". Me lembro bem, homem... — Ela sorriu de uma forma angelical e pegou o cigarro de novo, tragando-o profundamente e se aproximando de Apolo para soltar a fumaça em seu rosto, sem quebrar o contato visual.
— Você se acha tão esperta... — ele murmurou pegando o cigarro de volta e tragando-o com tanta intensidade quanto Jullie — Mas, sabe, querida... — ele se aproximou e assoprou a fumaça lentamente entre os lábios entreabertos de Jullie — Você não é. Me diz o que você quer e ficamos em paz. Podemos arrancar nossas roupas e matar as saudades, rolar por aqui ou ali, derrubar os papéis da minha mesa como nos velhos tempos...
Jullie riu.
— Você é tão idiota — ela revirou os olhos. — Não merece o nome que tem, sabia? Apolo era um Deus tão belo, considerado único. E você aí... achando que ainda me conhece, que sabe de alguma coisa. Vamos crescer, Apolo. Encarar os fatos de verdade. Mas eu gostei das suas ideias. Se você parasse de desconfiar de mim... — Ela fez uma pausa e se aproximou dele, brincando com os botões de sua camisa — Poderíamos pular direto para a parte de matarmos as saudades e rolar por aí... mas parece que alguém por aqui não quer nada disso, quer continuar brincando de desconfianças idiotas, sendo que eu que deveria estar fazendo toda essa ceninha.
— É o que você quer, Jullie? Que eu pare de enrolar e parta para a ação? — ele perguntou firme e Jullie sorriu. Atingira o ponto que queria. — É o que realmente quer?
— Acho que você já deveria ter feito isso há muito tempo, Apolo... — ela murmurou revirando os olhos.
— Então vamos parar de enrolação agora — ele disse firme, puxando a camisa para os lados de uma vez, sem se importar com os botões arrebentando. Jullie sentiu seu coração acelerar e a respiração falhar. Céus! Apolo era o homem mais lindo que já vira. — Vamos ver se ainda temos a mesma magia, querida.
Apolo não dera tempo para Jullie responder, apenas puxou-a pela nuca e juntou seus lábios num beijo intenso. Era o que ambos queriam. Agora, o porquê da enrolação, não sabiam responder.
Jullie, não querendo ficar para trás, puxou a própria blusa para cima e jogou-a o mais longe que conseguiu, colando seu corpo ao de Apolo em seguida.
— Céus... — ela murmurou, mordendo o lábio inferior enquanto ele descia os lábios quentes e macios por seu pescoço. — Já tinha me esquecido como isso é bom...
Apolo riu fraco contra o pescoço da mulher e ergueu o rosto em seguida, fitando-a nos olhos.
— Mentir é feio, Jullie — ele sussurrou, aproximando seus rostos e roçando seus lábios. — É impossível se esquecer de mim.
Jullie sorriu sapeca. Gostava daquelas provocações. Gostava de estar com Apolo. Gostava de toda aquela adrenalina que ele provocava.
— Você é tão cheio de si... — ela murmurou balançando a cabeça negativamente e Apolo permaneceu com o sorriso malicioso nos lábios. — Você deveria parar e lembrar o que causo em você, meu amor. Ou acha que não sei que ainda se pega pensando no meu jeito de te abraçar... ou de te beijar... — ela se aproximou mais, passando as unhas pelo peito descoberto de Apolo. — Eu sei que você se pega pensando em mim antes de dormir, Apolo. Veja, meu bem, é impossível me esquecer também — ela piscou um dos olhos e selou seus lábios de uma forma sensual, fazendo com que Apolo prendesse a respiração.
Aquela mulher era o demônio. Mexia com ele de uma forma que ele jamais imaginara que alguém seria capaz.
— Acho que deixei alguém sem palavras... — Jullie sussurrou enquanto descia os lábios lentamente pelo rosto e pescoço de Apolo, arrepiando-o completamente. — Mas tudo bem... quem precisa de palavras agora?
Apolo suspirou e puxou-a pela nuca, juntando seus lábios de uma vez. Jullie soltou uma risada fraca entre o beijo e segurou-o pelo ombro, cruzando as pernas na cintura dele em seguida. Apolo, então, com uma das mãos, jogou tudo o que estava sobre a mesa no chão, pouco se importando com os documentos que estavam ali. Segurou Jullie por uma das coxas e derrubou-a sobre a mesa, sem parar o beijo. Jullie suspirou e puxou a camisa de Apolo de uma vez por todas, jogando-a longe.
— Isso aqui, querida, você nunca mais vai esquecer. De verdade. E vai implorar por mais — Apolo sussurrou enquanto a fitava nos olhos. — Hoje você só sai daqui se for sem voz, Jullie — ele segurou-a pela nuca e apertou ali, fazendo-a encará-lo. — Vai gritar meu nome até não aguentar mais. Para nunca mais esquecer. Hoje você terá a melhor noite da sua vida, Jullie Alexander.
Jullie sorriu ao sentir o arrepio de desejo correr por todo seu corpo e fitou os olhos de Apolo com uma ponta de desafio.
— Então cala a boca e começa.

LONDRES — INGLATERRA, 21h45min.

Nicholas parou e suspirou. Passou as mãos pelos cabelos e pensou no que estava fazendo. Emma deveria estar surtando atrás dele. Mas... ele... não conseguia voltar para casa. Não conseguia esquecer-se do que ouviu. Não conseguia superar o fato de que todos mentiram para ele a vida inteira. Sentia-se perdido. Sozinho. Desesperado. Com medo. Mas também não voltaria para a casa de . Muito menos para sua. Sua última esperança, no momento, era Colbie. Mas... tinha medo. Medo de encará-la e contar a verdade. Nicholas chegara a um ponto que sentia medo até mesmo de respirar. Sua cabeça trabalhava a mil, seu coração estava apertado e totalmente estraçalhado. Por que tudo aquilo estava acontecendo se ele poderia sentir-se feliz com o que descobrira? Céus! Nem mesmo ele se entendia. Poderia voltar para casa e pedir um abraço de verdade. Mas... não!
Fora tudo uma mentira, uma grande mentira! Não podia voltar para casa. Precisava pensar!
Secou as lágrimas e riu de uma forma debochada. Ele era um idiota. Balançou a cabeça negativamente e voltou a andar o mais rápido que pôde. Não era tão seguro assim andar pela rua àquela hora da noite. Parou em frente à casa e tocou a campainha. Fitou o céu e notou não ter nenhuma estrela. Apenas nuvens escuras e pesadas. Suspirou mais uma vez. Choveria. E ele não teria como voltar para casa, de qualquer forma. Mas ele não se importava, só queria um tempo. Um tempo para pensar no que dissera, um tempo para pensar no que ouvira, um tempo para ele.
— Nicholas? — a voz calma da mãe de Colbie soou em seus ouvidos, fazendo-o encará-la. — Aconteceu alguma coisa?
— Oi, Tia — ele tentou sorrir. — Mais ou menos... Eu posso entrar?
— Claro que pode! — Ela juntou as sobrancelhas, dando espaço para o menino.
— Não vai dizer o que houve?
— A Colbie ainda está acordada? — ele perguntou, fugindo do assunto e tentando não soar grosseiro. — Eu... preciso falar com ela.
— Está, sim... — a mulher o fitou por alguns segundos e suspirou — Não suporto ver você desse jeito, menino. Vamos, me conte o que aconteceu.
— Posso ficar aqui hoje? — ele perguntou, coçando a nuca. — Eu não quero voltar para casa. Só isso.
— Você sabe que pode. Mas eu gostaria de ligar para sua mãe e avisar...
— Não! — Nicholas interrompeu. — Céus, deixa minha mãe fora disso. Eu só quero dormir aqui, tia. Vou embora logo cedo. Eu...
— Foi algo com ela? — a mãe de Colbie perguntou e Nicholas suspirou. — Certo. Colbie está lá em cima. Mas eu ligarei para sua mãe de qualquer forma. Seja lá o motivo disso tudo, ela está preocupada com você. São praticamente dez da noite, Nicholas.
— Desculpe por vir essa hora... — ele abaixou a cabeça e suspirou — É que... tá complicado.
— A Colbie tá lá em cima. Vá conversar com ela — a mulher sorriu. — Fique tranquilo.
Nicholas não respondeu, apenas subiu as escadas o mais rápido que conseguiu. Bateu na porta do quarto de Colbie e esperou a garota gritar para ele entrar, o que não demorou muito.
Um sorriso se abriu nos lábios de Colbie ao ver Nicholas ali, porém, ao notar o semblante triste no rosto do garoto, ele desapareceu.
— O que aconteceu? — ela perguntou, levantando-se da cama num pulo.
Nicholas não respondeu, apenas suspirou e puxou-a para um abraço. Ele precisava daquilo. Precisava do abraço de Colbie, do carinho dela em sua nuca. Precisava da melhor amiga.
— Era tudo uma mentira... — ele sussurrou, afastando-se dela de repente. — Tudo, Colbie! — ele elevou a voz, mas tratou de baixá-la novamente. — Martin, minha mãe, Charlie... — ele bagunçou os cabelos. — Uma grande mentira.
— Senta aqui — Colbie murmurou, puxando-o pela mão. — Agora respira fundo e me conta tudo — ela sorriu fracamente, segurando-o pelo rosto. — Devagar.
Nicholas respirou fundo e, em seguida, murmurou:
— Charlie é meu pai.
Colbie riu nervosamente.
— Certo... — ela engoliu a seco — E como você está se sentindo?
— Perdido — ele fitou o chão. — Eles esconderam de mim a coisa mais importante da minha vida, Colbie.
— Você deveria estar feliz... — ela sussurrou.
— Não consigo. Não dá. Faça as contas, Colbie — ele murmurou. — Tenho 13 anos, mas não sou idiota. Charlie era casado na época. E tinha o David. deixou escapar isso enquanto conversávamos e faz todo sentido...
— Sim, mas... — ela procurou por palavras, mas não conseguia dizer nada. — Veja, dorme aqui e não vai para a aula amanhã, que tal?
— Não acabou — Nicholas voltou a falar. — Eles vão precisar ir para a Itália. Não sei por que e nem quero saber, sinceramente. Sei que ficarão lá por um bom tempo.
— Mais um motivo para você conversar com sua mãe e deixá-la explicar a história toda. Eu tenho certeza que você não quer que sua mãe vá embora sabendo que você está com raiva dela — Colbie o fitou com um sorriso no canto dos lábios. — Ela te ama, Nicholas. E muito! Mães também erram, sabia? Ela é uma pessoa maravilhosa.
— Nunca duvidei do amor dela por mim. Mas, droga, Colbie! — ele exclamou. — Esconder quem é meu pai por tanto tempo? Eu cresci sofrendo achando que não tinha um porque o Martin morreu, eu cresci achando que teria que conviver com um cara que não sabe nada sobre mim na minha casa, mesmo adorando o Charlie, eu cresci achando que não teria um cara para chamar de pai de verdade e jogar futebol ou ir a jogos de qualquer outra coisa. Até porque quem sempre fez isso foi o ! O ! — Nicholas sentiu seus olhos lacrimejarem. — Droga, eu cresci achando que ninguém nunca fosse substituir o Martin. Cresci achando que minha mãe sofria pela perda de um amor de verdade.
— Mas você ama o Charlie! E não tem como alguém substituir o Martin, pessoas não são substituíveis assim — Colbie explicou. — Charlie é o seu pai de verdade, Nicholas! Não vai ser difícil acabar com todos esses seus pensamentos. Eu sei que tá difícil agora, mas é só agora. Logo isso vai passar! Confie em mim, sim? — ela se aproximou dele novamente. — Promete que vai falar com sua mãe amanhã. Só para esclarecer tudo.
— Tanto faz. Eu sei que, agora, tá doendo. E não é pouco.

****

Emma secou as lágrimas e pegou o telefone.
— Alô?
— Emma? Aqui é a Sophie, mãe da Colbie — A mulher do outro lado disse calmamente e Emma respirou fundo.
— Olá! Como vai, Sophie? — Emma forçou animação.
— Vou bem. E nem perguntarei o mesmo para você, já sei a resposta. — Ela riu fracamente e Emma juntou as sobrancelhas. — Olhe, Emma, seja lá o que tenha acontecido entre você e Nicholas, logo vai melhorar. Ele é só um pré-adolescente que não sabe o que sente ainda. Enfim. Estou ligando para avisar que ele está aqui em casa com a Colbie.
— Eu... — Emma tentou falar, mas não conseguiu — Tudo bem. Quer que eu vá buscá-lo?
— Deixe-o aqui, Emma. Descanse e pegue-o amanhã cedo. Ele não parece estar muito bem.
— Certo... eu sei que não está — Emma suspirou mais uma vez. — Obrigada, Sophie. Vou buscá-lo antes de ir para o trabalho. Se ele atrapalhar ou acontecer alguma coisa, me ligue... por favor.
— Fique tranquila, Emma. Ele está seguro — Sophie murmurou e Emma pôde jurar que ela estava sorrindo. Colbie tinha a quem puxar na doçura. — E... olhe, querida, se precisar de alguém para conversar, eu estou aqui, tudo bem? Agora vá dormir, imagino o quão cansativo seu dia deve ter sido. Cuide-se, Emma.
— Obrigada, Sophie. Boa noite.
Emma largou o telefone de qualquer jeito e encolheu-se mais no sofá.
Sentia-se tão culpada. Era tanta culpa que mal conseguia respirar. Sentia-se sufocada ao extremo. Tudo o que mais queria era proteger seu filho, seu pequeno, seu garoto. E fizera totalmente o contrário em esconder aquilo. Tudo por medo. Medo de acontecer exatamente o que estava acontecendo.
— Emma... — Charlie murmurou e ela encolheu-se mais. — Vamos dormir.
— Não estou com sono — ela murmurou de volta, tentando manter-se firme. — Pode ir.
— Ei, estou tão triste quanto você. Não queria que ele soubesse assim — Charlie se sentou no sofá e puxou o corpo de Emma em sua direção. — Mas vamos dar um tempo para ele. Ele precisa. Não é fácil, Emma. Não depois de tudo o que ele pensou e sentiu achando que era filho do Martin.
— Eu sei, mas... — Emma suspirou — Ele conviveu tanto, tanto com vocês que ele tem um pouquinho de cada um, sabe? Ele tem o gênio do e o seu jeito. Se formos juntar tudo isso, Charlie, ele realmente está chateado e eu não quero nem imaginar como será essa maldita conversa que teremos que ter com ele! — Emma se sentou para fitar Charlie. — Ele deve estar desesperado. Confuso. Perdido. O meu menino não sabe lidar com essas coisas!
— Ele vai ter que lidar, Emma — Charlie segurou-a pelo rosto. — Pare de achar que o Nicholas é um garotinho bobinho, porque ele não é. Ele é muito mais do que isso. Deixe-o descansar e pensar. Ele tá precisando de um tempo. Não importa o jeito dele. Ele vai ter que lidar com tudo isso. Querendo ou não. Agora vamos dormir. Está acabando comigo tendo que te ver assim.
— Eu só queria que nada disso acontecesse — Emma murmurou, suspirando em seguida. — Eu não quero nem imaginar o que o Nicholas está pensando de mim agora. Ele não é burro... Vai reparar a idade dele e...
— Ei! Pare de pensar nessas coisas, pare de se torturar! — Charlie se aproximou dela, selando seus lábios por alguns segundos. — Aconteça o que acontecer, vou estar aqui com você, meu amor.
— Eu sei, Charlie! — ela fechou os olhos com força. — Mas é difícil. Muito, muito difícil.
— Ninguém disse que seria fácil — ele sussurrou. — Vamos lá, cabeça erguida. Vamos enfrentar isso juntos, sim?
Emma apenas suspirou. Charlie estava certo. Se culpar daquela forma não a levaria a lugar algum.
Com Charlie segurando-a firmemente a mão, Emma fora para o quarto.
Deitaram-se na cama e conversaram algo sobre o trabalho para distrair. Mas não adiantou muito. Charlie estava tão tenso quanto Emma, tão triste e magoado quanto ela.
Enquanto pensava no que estava acontecendo e fazia carinho nos cabelos de Emma — que já dormia —, Charlie deixou a inconsciência tomar conta de si.

****

Nicholas se levantou e caminhou até o banheiro. Sentia-se extremamente cansado. Não dormira nada na noite anterior.
Lavou o rosto e, depois, desceu as escadas em direção a cozinha. Sophie havia deixado café da manhã para ele antes de sair. Ela o conhecia tão bem quanto Colbie. Sabia que ele enrolaria o máximo que pudesse para ir para casa.
Comeu devagar, lavou o que sujou e respirou o mais fundo que pôde antes de sair. Trancou a casa do jeito que Colbie lhe explicara e guardou a chave na janela dos fundos. Por fim, saiu a caminho de casa. Com coração acelerado e apertado. Com o medo tomando cada partezinha de seu corpo, com o desespero subindo à cabeça. Mas foi. Era sua casa. Eram seus pais. Ele não deveria sentir medo. Ou talvez devesse pelo que fizera. Mas não se arrependia. Aliás, eles deveriam se arrepender de algo, certo? Não ele! Ele era a vítima de tudo. Não merecia nada daquilo. Sempre fora um bom filho e crescera aprendendo que mentir era a pior coisa que alguém poderia fazer. Emma sempre lhe ensinara que a mentira machuca, faz mal, estraga amizades e até mesmo casamentos. Mas por que diabos ela e Charlie mentiram para ele? A hipocrisia era tanta que Nicholas nem sequer sentia vontade de ouvir a versão deles. Ao notar que já estava em frente sua casa, Nicholas revirou os olhos e respirou fundo. Chegara até mesmo pensar em dar meia volta e sair dali. Mas sabia que não seria justo com ninguém. Além do mais, prometera à Colbie que iria em casa para pelo menos tentar resolver e entender tudo aquilo. Sabia que sua mãe merecia. Por mais magoado que estivesse, ela merecia a chance de se explicar. Mesmo que ele não fosse acreditar em nada. Ele sabia que não acreditaria. Tinha certeza absoluta que só estava indo até em casa para mostrar à Colbie que ele conseguia fazer aquilo, que era forte para lidar com toda aquela merda.
Nicholas abriu a porta e passou pela sala sem se importar se Charlie estava ali ou não. Sua intenção era ir direto para o quarto. Sabia que era covarde o suficiente para desistir de toda aquela conversa na hora. Entretanto, sabia que Charlie o faria ficar ali. E ele acabaria ficando porque é um idiota covarde que não consegue sequer se impor e mostrar que está magoado.
— Nicholas! — Charlie chamou quando ele já estava nas escadas.
Em alguns segundos, Emma também estava na sala, encarando-o de uma forma tão triste que no mesmo momento ele sentira vontade de correr até ela e abraçá-la para sempre. Detestava ver a mulher que mais amava no mundo naquele estado. Mas ele não estava tão diferente. Estava com tantas olheiras quanto ela, com o rosto tão inchado quanto o dela, com os olhos tão vermelhos quanto os dela. Ali Nicholas pôde notar todas as semelhanças que tinha com a mãe. Ele era praticamente uma cópia masculina de Emma, o que ele tinha de Charlie eram apenas manias. Manias que ele pensava que havia ganhado por causa da convivência. Enquanto Emma sabia que não era verdade.
— O que foi? — Nicholas perguntou tentando manter-se tranquilo e não demonstrar a tristeza que sentia. — Dormi na casa da Colbie. Sophie ligou avisando. Vou subir para me trocar e ir para o curso daqui a pouco.
— Você não vai a lugar algum — Charlie disse firme. — Você vai sentar aqui e nos escutar.
Nicholas riu fracamente.
— Vamos nos poupar disso tudo, Charlie. Por favor — ele revirou os olhos. — Estou com dor de cabeça. Podemos ter a conversinha de família feliz depois. Vocês já adiaram tanto, que diferença faz agora?
— Não fale assim, Nicholas... — Emma pediu com a voz baixa. — Estamos preocupados com você. Queremos abrir o jogo e te explicar as coisas. Não comece a agir como um garoto mimado. Você não é um. Não educamos você assim. Por que isso agora?
— Porque você escondeu de mim quem era meu pai de verdade a vida inteira? — ele rebateu, em tom de pergunta, como se fosse óbvio. — Vocês falam como se eu não me importasse! Como se eu não sentisse dor ou não estivesse magoado. Eu era o moleque mais feliz do mundo ontem porque havia beijado a garota que eu arrisco a dizer que é a primeira que me apaixono, até chegar em casa e descobrir que meu pai sempre esteve comigo, mas nunca agiu como tal!
— Eu sempre te dei tudo o que você precisou, Nicholas! — Charlie se meteu. — Até mesmo antes de descobrir que era seu pai!
— Mas se fosse para fazer escolhas você escolheria o David, Charlie! — Nicholas gritou. — Você não entende? Tudo o que eu sempre quis na vida foi viver com um pai. Mas sabendo que ele era meu de verdade e não que estava só namorando a minha mãe e brincava comigo na esperança de esquecer do filho que perdeu. Eu queria um pai de verdade. Sempre me imaginei brincando com Martin sem nem ao menos tê-lo conhecido! Sempre imaginei eu contando para os meus amigos que meu pai me levava em jogos de futebol ou em qualquer outro esporte. Mas quem sempre fez esse papel foi o . E eu nunca me importei. Nunca me importei porque achei que meu pai de verdade estava morto — Nicholas fez uma pausa para engolir as lágrimas. — Vocês têm certeza que só vocês sentem com tudo isso?
— Em nenhum momento dissemos que você não sente nada com isso, filho — Emma murmurou, se aproximando do garoto. — Foi um erro esconder isso de você. Sim, nós sabemos. Mas, por favor, por favor... Não fique assim. Olhe só, podemos recuperar o tempo perdido ou sei lá. Eu...
— Para, mãe! — Nicholas pediu, deixando as lágrimas caírem de uma vez. — Para de agir assim! Eu não sou um bebê que vocês falam qualquer coisinha e tudo passa! Eu só... Quero um tempo.
— Por favor, Nicholas... — Emma murmurou, com os olhos lacrimejando. — Será que podemos conversar com mais calma? Tome um banho, coma alguma coisa e aí nós conversamos.
— Conversar o quê, mãe? — ele perguntou. — Eu não quero ouvir a história de vocês. Eu não quero saber. É o que vocês sempre dizem: uma hora isso passa. Tem que passar. Ninguém fica nesse estado para sempre.
— Você deveria nos dar uma chance, Nicholas — Charlie murmurou. — Quando sua mãe me disse que você era meu filho eu não soube como agir no começo. Fiquei tão perturbado quanto você está agora. Mas, depois que a ficha caiu, eu fiquei tão feliz! — ele sorriu levemente. — E, não, eu não te vi como uma forma de substituir o David. Pessoas são insubstituíveis, Nicholas. Ninguém nunca tomará o lugar do David, assim como ninguém tomará o seu.
— Quando vocês vão para a Itália? — Nicholas perguntou num fio de voz e Emma mexeu nos cabelos nervosamente.
— Daqui a três dias — Charlie respondeu baixo.
Nicholas riu e balançou a cabeça negativamente.
— Quanto tempo ficarão por lá?
— Não sabemos ao certo — foi a vez de Emma responder. — Pensamos em levar você, mas é realmente perigoso. Então...
— Eu não quero ir — ele deu de ombros. — Nunca gostei de me meter nos trabalhos de vocês. Eu vou ficar com a minha avó?
— Provavelmente — Emma respondeu num fio de voz. Estava tão nervosa, sentia tanto medo de Nicholas pedir para... Ficar de vez com a avó. Pelo menos por uns tempos.
— Eu vou subir. — Nicholas disse firme.
— Nicholas, por favor! — Charlie exclamou. — Não... Não faz isso. Fique aqui. Vamos conversar.
— Eu não quero entender o lado de vocês agora — ele deu de ombros. — Eu só quero um tempo. É pedir demais? Vocês demoraram treze anos para me deixar ouvir a verdade. Agora sou eu quem não quero ouvi-la. Só... Me deixem em paz. Pelo menos hoje.
Após dizer isso, Nicholas saiu da sala. Depois, Emma e Charlie só puderam ouvir a porta do quarto bater.


Capítulo 5

I NEED YOUR SWAY.


Elizabeth sorriu para de uma forma amigável.
— Isso está ficando realmente ótimo! — exclamou, dando um gole no café que tinha em mãos. — Não sabia que tinha passado por tantas coisas assim, Elizabeth.
— Há muitas coisas que não sabe sobre mim ainda, — ela sorriu mais fracamente. — Durante o tempo que resolvia as coisas com e Castellamare, por exemplo, eu precisei ir para o interior pois eles estavam atrás de mim, assim como Crowley — ela fitou a outra mulher. — Desapareci porque achei que fosse justo com vocês dois. Eu não sabia e muito menos imaginava, de verdade, que Castellamare iria atrás de você caso não me encontrasse.
— Eu... Sei — abaixou levemente a cabeça. — Mas por que, exatamente, eles queriam você?
— Eu sabia de tudo nos mínimos detalhes depois que Crowley me procurou — Elizabeth bebericou seu café, já frio. — Juntei meus pontos, procurei em seguida e contei o que tinha. Prometi a ele e Eric que mandaria informações, pois estaria trabalhando em tudo aquilo mesmo de longe. Foi o que fiz. Alertei a sobre você e Crowley, contei também que se Eric não sumisse, morreria. Procurei por Claire, por incrível que pareça. Contei a ela as minhas intenções. A garota é gente boa — Elizabeth sorriu. — Me disse o que sabia e eu tentei procurar o lugar onde eles costumavam ficar. Mas sozinha não tinha condições. Novamente, passei as coordenadas para Eric, que informou ao Jesse e ao . E aí deu naquela confusão toda. Mas isso só foi porque te pegaram e não teve paciência de esperar. Sabe como ele é, certo? — ela piscou um dos olhos. — Ele estava tonto e preso. Não sabia se havia sido por sua causa ou se havia sido por culpa dele próprio. Talvez fosse um bocado de cada coisa, talvez tudo não passava de uma armação do maldito do .
matou a Owen — sussurrou. — Talvez não tenha sido tudo totalmente culpa do , por mais que a morte da Mangor tenha sido culpa da grande influência de Richard por aqui.
— Talvez. Mas, veja, , é um coração mole! — Elizabeth riu. — Acredite, tem muito mais coisa aí que eles não contam. Garanto. jamais mataria uma pessoa só porque teve ordens superiores... Digo, talvez até mataria. Mas precisariam oferecer uma boa quantia em dinheiro vivo e ter um bom motivo para isso.
— Mas por que esconderiam algo de nós? — perguntou, fitando a morena à sua frente.
— Porque somos jornalistas. Querendo ou não, publicaríamos, . Faríamos o que estamos fazendo agora — Elizabeth fez uma pausa e continuou após uns segundos: — Nos juntaríamos com o que tínhamos e escreveríamos loucamente, apenas modificando os nomes e dando um ar fictício na coisa toda. Eles jamais abririam a boca. Mas, veja, mulher, não digo para você desconfiar de ou Charlie ou qualquer um daquele lugar. Pelo contrário! Se eles não contam, é porque nos querem fora dessa podridão toda. E agradeça por isso.
— Sim, é... — suspirou. — Já parei para pensar em todas as coisas que eles escondem e cheguei à mesma conclusão.
— Não vamos nos preocupar com isso agora — Elizabeth abriu mais o sorriso. — Voltemos aos rascunhos. O que tem escrito?
abriu um sorriso automaticamente e puxou uma pasta da bolsa que estava na cadeira ao lado. Entregou-a nas mãos de Elizabeth e esperou a mulher ler — por alto — toda aquela papelada.
— Os rascunhos não estão tão bem explicados assim... — murmurou — Eu só anotei as coisas para não esque... — parou de falar rapidamente ao observar um homem que acabava de adentrar a lanchonete. Juntou as sobrancelhas e olhou em volta. — Precisamos sair daqui — ela sussurrou, puxando a pasta das mãos de Elizabeth e jogando-a dentro da bolsa novamente, mas com cuidado para não chamar atenção alheia.
— O que houve? — Elizabeth perguntou enquanto pegava o dinheiro da carteira e colocava sobre a mesa.
— Não dá para explicar, só precisamos sair daqui — jogou o dinheiro sobre a mesa de qualquer jeito e se levantou. Olhou em volta novamente antes de caminhar até a saída da lanchonete e engoliu a seco. — Não tem ninguém conhecido e importante por aqui, isso quer dizer que...
— O que diabos está acontecendo, ?! — Elizabeth perguntou mais alto do que deveria e respirou fundo, olhando para o homem que acabava de entrar, certificando-se de que ele não ouvira seu nome.
— Não grite! — ela exclamou baixo e saiu da lanchonete, com Elizabeth em seu encalço. — O homem que acabou de entrar — apontou pelo vidro. — Ele se encaixa perfeitamente na descrição de Louise deu para o assassino de Mike Cromwell. De acordo com Charlie, é um dos caras que foram atrás do quando o Christopher mandou, lembra?
— Sim — Elizabeth murmurou. — Mas por que ele viria para cá?
— Não faço ideia, mas não ficaria no mesmo ambiente que ele nem se me pagassem. Não tem ninguém importante ali dentro, Elizabeth. Esse tipo de gente só vai em lugares que são mandados... Para matar — engoliu a seco. — Não tem ninguém ali dentro que tem envolvimento com tráfico ou qualquer coisa assim.
— De "grande importância" — Elizabeth fez aspas com os dedos — ali dentro, no caso, seria...
— Nós duas — a cortou. — Vou ligar para o .
— Faça isso, porque nosso mais novo amiguinho parece estar sentindo nossa falta lá dentro... — Elizabeth murmurou enquanto puxava pelo braço para o outro lado da rua.
Elizabeth ficou apenas observando tudo em volta enquanto murmurava coisas rápidas para pelo celular. Um ônibus passou na rua, impedindo a visão de Elizabeth para a lanchonete por alguns segundos. Como se tudo ficasse em câmera lenta, o ônibus fora saindo devagar, deixando-a observar tudo da mesma forma que antes. Com apenas um porém: o homem de quem elas desconfiavam estava parado na porta da lanchonete com um sorriso no canto dos lábios, encarando-a nos olhos. Elizabeth engoliu a seco e sentiu seu coração acelerar. Virou-se para e, sem se importar com o que pensaria, puxou o celular.
, se eu fosse você, voava para cá AGORA! — Ela disse firme, deixando confusa, até ela fitar o outro lado da rua e ver o homem dando passos rápidos para atravessar. — E eu falo sério. Porque vamos correr bastante agora.
Elizabeth desligou o celular e virou-se para , dizendo firmemente:
— Se esse desgraçado realmente quiser nos matar, ele vai começar a correr dentro de dez segundos. Você quer esperar isso para ter certeza ou podemos sair daqui agora? Porque, sinceramente, eu acho que...
— Abaixa! — gritou, puxando Elizabeth para baixo, ao notar que o homem já tinha a arma em mãos e apertava o gatilho sem se importar. — Eu acho melhor corrermos agora. Quanto mais perto da delegacia, melhor.
Gritos ecoavam por toda a rua enquanto as duas mulheres corriam desesperadamente, olhando para trás vez ou outra para terem certeza que o homem ainda estava atrás delas. Mais dois tiros foram ouvidos. Aquilo fora o suficiente para entrar em um beco qualquer que ela nem sequer sabia que existia e muito menos se havia alguma saída dele ou não. Seu celular tocava loucamente, mas ela não tinha cabeça para atender. E tudo só piorou ao olhar para o lado e não encontrar Elizabeth. O desespero tomou conta de seu corpo, fazendo-a arregalar os olhos. Medo. Ela sentia medo. Não sabia o que diabos estava acontecendo, não sabia quem estava atrás dela, não sabia como Elizabeth sumira, não aparecia... Por fim, decidiu atender o celular.
Tentou murmurar pelo menos um "alô", mas a voz de do outro lado da linha a fez ficar calada. Ele gritava desesperadamente com alguém da delegacia por, provavelmente, essa pessoa não fazer o que ele queria. Estava desesperado. podia notar aquilo em sua voz. Sorriu fracamente e murmurou, para ver se, assim, ele se acalmava:
— Estou bem.
— Pensei que não atenderia isso nunca! — gritou, mas respirou fundo em seguida. — Onde vocês estão?
— Eu simplesmente corri, . Mas pelo que vi, estou a duas quadras do prédio. Elizabeth não está mais comigo — ela suspirou. — Eu não sei o que aconteceu, eu simplesmente corri e achei que ela estava comigo — sentiu seus olhos lacrimejarem. — Se vocês puderem vir nos...
não conseguiu terminar sua frase. Mais um tiro ecoara ali por perto. Ela, então, sem se importar com nada, jogou o celular na bolsa de qualquer jeito e saiu do beco onde estava, tentando seguir o barulho. Ao enxergar a rua novamente, olhou em volta, sem se importar se estaria exposta. Elizabeth. Ela queria saber de Elizabeth.
sentiu alguém puxar seu braço e não evitou gritar. E gritou até notar que estava caída no chão de um restaurante pequeno dali.
— Shhh — Elizabeth pediu baixo. — Droga, mulher, não grite!
— Desculpe! Mas onde diabos você... — não finalizou sua frase, apenas arregalou os olhos ao fitar Elizabeth e ver sua blusa, antes branca, suja de sangue. — Você foi baleada? Céus! Precisamos ir a um hospital!
— Shh, se acalme! — Elizabeth exclamou. — Está tudo bem. Foi de raspão. Nada sério. Eles me ajudaram — ela apontou para trás, onde dois homens tentavam acalmar as pessoas dentro do restaurante. — Só precisamos dar um jeito de sair daqui. Ele quer você.
— Mas você está ferida — murmurou. — Temos que ir logo.
— O está vindo? — Elizabeth perguntou, se levantando devagar e colocando a mão esquerda próximo às costelas. apenas concordou com a cabeça. — Então vamos nos encontrar com ele.
— Melhor ficar aqui, Elizabeth. Eu encontro com o disse firme, parando na frente de Elizabeth.
Elizabeth revirou os olhos e bufou.
— Não vou ficar aqui, se é o que está sugerindo — ela murmurou. — Agora ande logo, . Vamos sair daqui.

***

bateu a porta do carro com força. Os sons de tiros e a voz desesperada de não saíam de sua cabeça, deixando-o totalmente atordoado. Queria pegar o desgraçado que estava causando a desordem e o desespero naquele lugar novamente. E quando o pegasse não teria pena e muito menos pensaria duas vezes antes de matá-lo ou dar-lhe uns belos socos na cara.
pisou no acelerador e fez uma curva, estava tão perdido em pensamentos que nem sequer notara que já estava próximo de onde indicara, com outros dois carros atrás dele. Provavelmente Charlie e seu reforço. parou o carro e desceu do mesmo já com a arma em mãos. O local estava um caos, uma loucura. Pessoas gritavam e se escondiam em lojas, crianças choravam desesperadamente.
— Cuide das pessoas, eu vou achar a disse firme para Charlie assim que ele se aproximou. Puxou o celular do bolso e levou-o até a orelha, enquanto, com os olhos atentos, procurava ou Elizabeth.
— Oi. — A voz de soou baixa e um tanto quanto assustada ao atender o celular.
— Onde vocês estão? — ele perguntou ainda atento a olhar cada mínimo detalhe daquele local.
— Estamos metidas no meio de uma multidão tentando chegar até onde você está. Fique parado, por favor. Elizabeth está ferida. Estamos tentando chegar aí.
— Ele já foi embora? — perguntou baixo, correndo os olhos pela rua com mais atenção.
— Não sei. Não o vejo por aqui.
— Não demorem. Por favor, não demorem. — murmurou, sentindo sua garganta fechar. Só de pensar em perder seu coração acelerava dolorosamente. Só de vê-la em perigo mais uma vez, o desespero tomava conta de seu corpo.
Respirou o mais fundo que conseguiu e guardou o celular no bolso. Ficou ali por mais alguns segundos observando as pessoas saírem devagar, se acalmando aos poucos. Alguns segundos depois, pôde enxergar e Elizabeth. Elizabeth andava um pouco devagar enquanto segurava a lateral do corpo; , vez ou outra, olhava para trás e tentava dar apoio à Elizabeth, que revirava os olhos. tinha quase certeza que ela murmurava: "eu não sou uma criança, !", isso era típico de Elizabeth. Ainda mais ferida.
riu e balançou a cabeça negativamente. Olhou em volta e caminhou devagar na direção das mulheres, mas parou automaticamente ao notar algo brilhante até demais para seu gosto atrás delas. Não estava extremamente perto, mas também não estava tão longe assim. Quem quer que estivesse segurando aquele revólver se garantia e não se importava de trabalhar em público. Nem com policiais por toda parte.
O homem armado, então, decidiu sair das sombras. E saiu com um sorriso no rosto. sentiu seu sangue ferver e tentou não entrar naquele maldito joguinho, mas estava com medo. Medo de ser ferida, medo de perdê-la, medo por Elizabeth que já estava machucada. Medo. Simplesmente medo.
Em tanto tempo de trabalho ele nunca sentiu um desespero como estava sentindo naquele momento. Claro que o dia que seu pai morrera não conta.
Respirou fundo, pensou. Tocou sua arma na parte de trás da calça, suspirou.
Encarou os olhos de como se implorasse para que ela continuasse andando. Ela sorriu para ele, angelicalmente. Achando que estava segura.
fez um sinal mínimo com as mãos, para que ela parasse de andar.
Elizabeth entendeu e parou subitamente. não entendera bem, apenas franziu o cenho, encarando a mais nova amiga com os olhos confusos.
segurou firmemente a arma atrás de si. Engoliu a seco e desistiu de pensar em algo melhor para fazer. Não havia nada que ele pudesse fazer que não arriscasse a todos. Se ele ao menos conseguisse chamar atenção somente para si... Mas era basicamente impossível.
O homem, do outro lado, sorriu novamente sem se importar de mostrar seu rosto. Engatilhou a arma e mirou-a exatamente em . Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, o grito de cortou todo o local:
, cuidado!
Automaticamente, o homem apertou o gatilho. De repente, tudo ficou em câmera lenta. Os olhos de se arregalaram, deixou os lábios entreabertos em puro desespero, o barulho do tiro cortou todo o local, causando toda a desordem de antes. Pessoas corriam, gritavam, totalmente desesperadas, desoladas. Quando observou novamente, ela e Elizabeth estavam no chão com um outro homem por perto.
não parou para pensar no que estava acontecendo. estava bem e Elizabeth não fora atingida de novo. Com tudo à sua velocidade normal, não pensou duas vezes antes de disparar a correr loucamente em direção ao homem que atirara. Finalmente aquele crápula percebera que não teria chances enquanto ele estivesse por ali e abaixara a arma. Ao perceber que correra em sua direção, não pensou duas vezes, também, antes de sair correndo sem se importar com os carros e ônibus que passavam por ali.
Precisava ser salvo. Não podia ser pego. Não por .
não olhou para os lados, apenas olhava para frente, o maldito atirador corria numa porra de uma linha reta passando entre carros e ônibus. Não que se importasse. Nunca ligara de se arriscar em seu trabalho para salvar quem quer que fosse. Ignorou as buzinas, os gritos revoltados de motoristas que achavam que mandavam em alguma coisa e continuou correndo. Enquanto corria, puxou a arma e deixou-a prontíssima para atirar. O suor começava a escorrer por sua testa, mas ele não parava de correr. As pessoas olhavam a cena assustadas, mas sabiam quem estava correndo e o porquê daquilo. Não precisava ser nenhum gênio para reconhecer e notar que ele estava atrás de um bandido.
corria numa velocidade irreconhecível, nem mesmo ele sabia que tinha tanta velocidade e reflexo para desviar de carros. Entretanto, sua respiração já começava a falhar e seu baço começava a doer, num pedido silencioso de seu organismo para ele parar. Mas obviamente, ele não parou. Apenas correu mais, sem se importar com o ônibus que estava cada vez mais próximo. E ele correu. Mas pôde ouvir um grito conhecido ecoar por seus ouvidos e desnorteá-lo por alguns segundos.
estava ali, seguiu-os mesmo que contra a vontade de todos. Estava ali, observando tudo em câmera lenta. Observando os mínimos detalhes, com o coração na mão.
Não queria que sofresse algo por causa daquele homem. Ao vê-lo atravessar aquela última rua com um ônibus tão próximo dele, seu coração apertou. Doeu. Desesperou-se. Lágrimas automaticamente brotaram em seus olhos, fazendo-a piscar algumas vezes para controlá-las.
E então, foi. Não parou por ouvi-la gritar e simplesmente continuou.
Se ele havia sido atropelado, ela não sabia. Mas sabia que sentia seu coração doer a cada segundo que passava e não tinha mais forças para continuar aquela corrida louca.
— Ei , vai acabar tudo bem — o mesmo homem que a salvara murmurou, dando-lhe um sorriso que ela já conhecia. — Confie em mim. Se o trânsito não parou, o ainda está bem.
— Obrigada, Jeff — sorriu fracamente. — Por tudo. Você foi ótimo hoje. Não esperava te reencontrar dessa forma — ela riu sem jeito, enquanto ajeitava os cabelos que insistiam em voar para todos os lados. — Espero que não tenha se machucado.
— Estou bem — ele sorriu mais uma vez, formando pequenas covinhas em suas bochechas. sempre achou aquilo muito fofo, ele se lembrava bem.
— Enfim. Esqueça isso, mulher! Pelo menos um pouco. Vamos tomar um café? Você precisa respirar, se distrair. Logo o volta com aquele cara preso. Ele é um ótimo policial e você sabe disso.
apenas sorriu e caminhou ao lado de Jeff. Por mais que estivesse com o coração na mão, não poderia ficar ali se afundando em total desespero.
Preferia pensar como Jeff e esperar que voltasse bem. Ele sempre voltava bem. Sempre.

****

parou de correr e respirou o mais fundo que conseguiu. Perdeu o maldito de vista.
Trincou os dentes e xingou alto, sem se importar com as pessoas olhando em volta. Bagunçou os cabelos e tentou se acalmar. Mas porra! Correu aquilo tudo à toa! Para o filho da puta conseguir escapar, fugir, ir embora! Mas que caralhos ele estava pensando quando fora atrás de e Elizabeth? Marginal atrevido! Isso que ele era: atrevido, ousado! Filho da puta! Como se ele fosse sair dessa sem sofrer nada. o pegaria. Ah, se o pegaria. E não seria pegar para prender.
Ainda bufando de raiva, deu meia volta e caminhou o mais rápido que conseguiu de volta para onde todo o caos havia se iniciado. Precisava saber como estava. Precisava abraçá-la, beijá-la. Ou somente olhá-la e receber um sorriso em troca. Alguns minutos depois, pôde avistar o carro com os homens de Charlie parado. Provavelmente ficariam ali para observar o local. suspirou. Mal havia voltado para as ruas e já havia falhado. Ótimo. Agora todos ficariam olhando para ele como se fosse uma aberração. E agora ele se importava com isso.
Aproximou-se de Charlie e, sem esperar nada, perguntou:
— Onde está a ?
Charlie se virou para ele, calmamente.
— Primeiro de tudo: você está bem? — Charlie murmurou. — O que aconteceu? Por que não chamou reforço? Por que não parou quando sentiu que não conseguiria pegá-lo?
revirou os olhos.
— Estou bem, Charlie — ele suspirou. — Não pedi reforços porque não achei que fosse necessário. Em nenhum momento eu senti como se fosse perdê-lo. Foi tudo culpa de uma droga de um carro que decidiu vir na minha direção, quando eu já estava prestes a pular em cima daquele maldito cara.
— A não estava tão bem assim. Você não precisava sair correndo atrás do cara e deixá-la aqui — Charlie o fitou nos olhos. — Às vezes, , há alguém escondido e pronto para fazer aquilo que não fazemos. Você simplesmente deu a costas para a mulher que diz amar por causa de um bandido. Ele escaparia de qualquer forma. Seus capangas estão espalhados por aí. Ou você acha que jogaram o carro em cima de você, como diz, sem querer? Não seja inocente, . Não seja burro — Charlie suspirou e bagunçou os cabelos. — Elizabeth acabou indo ao hospital para levar alguns pontos. Poucos, mas poderia ter sido pior. estava chocada com tudo o que aconteceu, assustadíssima. Por mais que ela não demonstre, , ela sente medo. Ela se assusta. Ela quer você por perto nessas horas. Ela não quer ninguém fazendo isso por você. Ela não quer ver você correndo por aí feito um desesperado só por que acha que deve prender o cara. Aprenda a ter paciência, . É tudo o que eu peço.
— O que quer dizer com tudo isso? — perguntou baixo. Sabia que havia errado em sair feito um louco, mas fora impulso. — Eu não vou mudar meu jeito de trabalhar, Charlie.
— Eu quero dizer que a está dentro daquela lanchonete — Charlie apontou —, com um tal de Jeff desde a hora que ele simplesmente pulou em cima dela e da Elizabeth para salvá-las. E quando você saiu correndo, a foi atrás. Adivinha quem foi junto para dar força à antiga colega de trabalho? Por favor, , por favor — o mais velho revirou os olhos. — Não estou querendo colocar nada na sua cabeça. Mas sei exatamente como você é. Controle seus impulsos e evite estresses.
— Jeff? Jeff Grant? A está com Jeff Grant? — perguntou enquanto estreitava os olhos, apontando para o lado. — Eu odeio esse cara, que inferno... Me admira você não lembrar dele, Charlie. É o pai da melhor amiga do seu filho.
— Ah. Esse Jeff? Não o reconheci — Charlie revirou olhos. — De qualquer forma, boa sorte. está um pouco chateada.
não respondeu, só respirou o mais fundo que pôde e caminhou em passos largos e rápidos até onde estava. Abriu a porta da lanchonete sem se importar em ser educado ou delicado. Queria mais é poder quebrar aquela porta para não quebrar a cara de Jeff. Se ele fizesse isso, por mais que fosse um policial, se complicaria. Pela primeira vez na vida estava parando para pensar antes de socar alguém. Ele e Jeff tinham problemas há alguns anos por conta de alguns problemas de trabalho. Era incrível como conseguia arrumar briga com todos os jornalistas da cidade. Já havia batido boca com Jeff inúmeras vezes em coletivas de imprensa por conta das perguntas peculiares e desnecessárias do outro. Jeff era insuportável, sentia muito por Colbie, uma garota tão doce, ser filha de um homem como ele.
tinha certeza que Jeff não era o homem bonzinho que tentava parecer que era.
Assim que avistou , ela estava sorrindo. Sorrindo para o maldito Jeff Grant. Tentou sentir ciúmes, mas tudo o que conseguiu sentir foi felicidade e alívio. estava bem, viva, saudável e linda, mesmo com a calça jeans levemente suja de poeira e o casaco rasgado no cotovelo. era uma mulher fora do comum, fora do normal. não sabia lidar com ela. Não sabia lidar nem consigo mesmo, imagine com uma mulher daquelas?! Era um idiota apaixonado, no fim das contas.
Ao se aproximar da mesa, imediatamente fechou seu sorriso e Jeff segurou a respiração. Não esperavam que chegasse naquele momento, e sabiam que uma confusão desnecessária poderia se instalar ali simplesmente por ambos os homens não se darem bem. Porém, daquela vez, a intenção de Jeff fora apenas dar um café à para acalmá-la e ir embora. Mas engataram uma conversa sobre o antigo trabalho e esqueceram totalmente dos problemas ao redor.
— Você está bem, ? — perguntou baixo, enquanto fitava a mulher. Estava enciumado, mas tentava não demonstrar isso. Jeff não merecia sua insegurança.
— Estou — respondeu, por fim.
— Certo, quando terminar aí, me procure. Precisamos conversar, sim? — murmurou tentando não demonstrar nervosismo. Curvou-se em direção a e beijou-lhe a testa com carinho, suspirando contra sua pele ao sentir que aquilo era real, que ela estava ali, viva, sob seus lábios.
— Não precisa sentir ciúmes, — a voz de Jeff Grant adentrou seus ouvidos. não o encarava, mas sabia que ele sorria de forma provocativa, querendo atingi-lo de alguma forma, como se quisesse vê-lo enfurecido e fora de controle como sempre acontecia quando estavam juntos. — Vai dizer que não sentiu minha falta?
— Te espero na delegacia, murmurou, ignorando a tensão e a raiva que se instalava no local.
virou-se de costas e preparou-se para caminhar, esperando pelo menos um "! Espera!" de . Porém não veio. Quem o chamara para falar algo, fora Jeff. E não gostou do que ouvira. Nem um pouco.
— Não vai agradecer por eu ter salvo a vida da sua namorada? — Jeff levantou o dedo indicador e se virou para ele. — Se dependesse de você, a não estaria aqui.
— Jeff, pare com isso! — pediu, mas não tivera tempo de dizer mais nada além daquilo. No segundo seguinte, já o segurava pelo colarinho com as narinas infladas e os olhos estreitos em puro ódio.
— Não se atreva a insinuar que não protejo a mulher que amo, Jeff — apertou-o mais contra a cadeira. — Não se atreva. Você não me conhece, não sabe do que sou capaz de fazer por ela. Não entre no meu caminho outra vez, está ouvindo? Não me importo com a dezena de processos que pode jogar em mim caso eu aja de forma violenta com você de novo. Pare de me provocar.
estava ao lado de , já de pé. Pedira tanto, tanto para Jeff não arrumar confusão. Estava cansada de tudo aquilo.
, por favor, para — murmurou, segurando-o pelos ombros. — Todos estão olhando. Vamos embora.
— Diga mais uma merda dessas e eu quebro sua cara, Grant. De verdade. — respondeu sem se importar se sua voz soara mais alto que o normal. Em seguida, o soltou e saiu andando em passos largos sem sequer esperar por que ainda perdera tempo lançando um olhar irritado para Jeff, fazendo-o abrir mais seu sorriso.
, espera! — disse alto assim que ele atravessou a porta da lanchonete.
tinha o rosto vermelho.
— Homens como ele não são confiáveis... Céus, com tantas pessoas nessa cidade justo ele tinha que intervir? Que inferno! Só de olhar para ele eu sinto ódio.
— Ele não me faria mal em público, sem contar que trabalhos juntos por muito tempo. Eu quero saber como você está — sussurrou, fitando-o nos olhos. — Fiquei tão preocupada ao vê-lo sair correndo... — aproximou-se e segurou-o pelo rosto com carinho. — Eu te amo, não faça isso comigo outra vez.
— Desculpe... — suspirou e puxou-a para mais perto, abraçando-a com carinho. — Eu não sei o que faria se algo te acontecesse...
não quis ouvir o que tinha a dizer, muito menos se lembrou que estavam na rua, e puxou-o pela nuca para juntar seus lábios num beijo repleto de vontade e alívio. Estava sentindo falta daquele contato com . Estava com medo de nunca mais conseguir aquilo desde o momento em que ele saíra correndo feito um louco atrás daquele maldito cara.
se afastou levemente de após um tempo e encarou-a nos olhos, com um sorriso brincando no canto dos lábios.
— É sério, me desculpe... Por ter te deixado sozinha e por agir assim — ele mordeu o lábio e balançou a cabeça negativamente — Eu também te amo, por isso fiquei cego e quis sair correndo, mas eu devia ter ficado do seu lado e deixar que os outros fizessem o trabalho. Posso te esperar hoje no meu apartamento hoje à noite? Sei que ainda precisará dar seu depoimento e essas coisas demoram, mas... O convite está feito. — Ele sorriu de uma forma sapeca, enquanto mexia com os botões do casaco de , fazendo-a rir e enterrar o rosto em seu pescoço, abraçando-o pela cintura.
— Você não existe, . Não existe — ela murmurou dando uma leve mordida no pescoço de , fazendo-o rir. — E é claro que aceito seu convite. Estou aliviada por você estar aqui comigo, meu amor.
— Também estou aliviado por tê-la em meus braços agora — suspirou. — Enfim, você precisa ir depor logo e eu preciso voltar ao trabalho. Posso lhe dar uma carona até a delegacia se estiver sem carro.
— Eu aceito a carona, não estou confortável para andar por aí sozinha ainda.
— Então, vamos.
E com os dedos entrelaçados suavemente, seguiram juntos em direção ao carro.

****

O dia estava se arrastando, na visão de Nicholas. Estava jogado em um dos quartos da avó enquanto tentava estudar. Mas simplesmente não conseguia se concentrar. Em nada. Absolutamente nada. Sentia falta de poder conversar com abertamente, sentia falta de quando sua mãe não mentia para ele, sentia falta de quando jogava futebol com Charlie, sentia falta de quando podia conversar com Colbie calmamente sem sentir vontade de beijá-la, sentia falta de quando conseguia se concentrar para estudar e ser um perfeito nerd. Sentia falta de quando tinha nove ou dez anos. Ter treze anos realmente é difícil. Crise de pré-adolescente. Uma coisa que ele nunca imaginara que teria.
Sempre achara tão estranho a forma das meninas, por exemplo, de surtarem e agirem aos treze anos. E ele estava se identificando com todas elas por causa de tudo o que vem acontecendo em sua vida. Ele estava se transformando em uma menininha. Não havia outra explicação para aquele turbilhão de sentimentos e medos. Estava se tornando um idiota. Uma completa garotinha boba que não conseguia lidar com seus problemas. ensinara, ensinara e ele não aprendera nada. Estava agindo por impulso, estava sendo um idiota completo com os pais, estava largando tudo por uma rebeldia sem explicação. Descobrira que é filho de Charlie. Isso era para ser uma coisa boa. Mas o revoltara completamente. Mais um motivo para ele se achar uma garotinha. Precisava parar com tudo isso. Precisava seguir em frente. Seus pais iriam para a Itália dentro de poucos dias e ele ainda estava em sua crise existencial.
"Isso não é o fim do mundo", dizia para si mesmo. Tentava convencer-se de que nada daquilo iria estragar sua vida, mudar sua relação com Emma ou com Charlie ou até mesmo com e que sabiam de toda a história. Ele não queria mudar, não queria perder a amizade aquelas pessoas. Não queria sentir nada daquilo, não queria chegar ao ponto de pensar que sentia raiva da mãe.
Um suspiro escapou do fundo da garganta de Nicholas, estava tenso e nem sequer sabia por quê. Passara o dia pensando nessas coisas e estava quase enlouquecendo.
Esticou-se até seu celular e digitou uma mensagem rápida para .
Precisava vê-lo. Conversar, se distrair. era bom naquelas coisas.
Esperava que ele não estivesse trabalhando... Ou fazendo qualquer outra coisa com . Nicholas deu uma risada fraca com seu último pensamento e balançou a cabeça negativamente. Homem realmente ficava um bicho muito idiota quando apaixonado. Ninguém nunca pensara que ficaria nesse estado por alguém. E olhem só. O querido brutamontes da Inglaterra estava perdidamente apaixonado por uma jornalista que ele sempre chamou de idiota e burra (e que, na verdade, era bem mais inteligente do que ele na maioria das vezes). Vai entender o coração...
Quase uma hora se passara e Nicholas sentiu seu celular vibrar. Pegou-o preguiçosamente e tentou ler a mensagem. Pegara no sono enquanto pensava, mal sabia onde estava. Imagine ler com atenção? A única coisa que entendera naquelas letras embaralhadas fora o nome de . Respirou fundo e espreguiçou-se o máximo que pôde. Voltou sua atenção para a mensagem e estreitou os olhos para tentar ler melhor.

"Ei garotão! Me encontre daqui a vinte minutos na praça em frente à casa da sua avó. P.S.: Perdão a demora para responder, estava com a ."

Nicholas soltou uma risada curta ao ler o final da mensagem. Céus, e pareciam coelhos.
Balançou a cabeça negativamente e pegou uma roupa qualquer no guarda roupa. Tomaria um banho para acordar e encontraria .
Alguns minutos depois, Nicholas estava devidamente vestido e os cabelos mais bagunçados que o normal. Precisava cortar essa porcaria ou então ficaria louco. Como diabos esses garotos aguentavam cabelos grandes?
— Vó, vou encontrar o lá na praça! — Nicholas gritou.
— Só não demore, querido! Sua mãe vem para cá daqui uma hora! — A senhora gritou da cozinha.
— Tudo bem! — Nicholas respondeu e abriu a porta, saindo sem esperar uma resposta. Fazia tanto tempo que não dava essas saídas com que estava ansioso. Sentia falta do velho .
Caminhou calmamente até a praça e pôde ver o carro de chegando ao mesmo tempo. Um sorriso brotou nos lábios de Nicholas e ele apertou mais os passos.
— Ei Nicholas! — disse alto enquanto descia do carro. — Como vai?
— Ei! — Nicholas sorriu e passou um dos braços sobre os ombros do menor. — Vou bem, e você?
— Muito bem apesar de ter tido um dia cheio — entortou os lábios, fazendo uma careta e guiou Nicholas até um banco. — Você não me parece bem. Acredito que não me mandaria uma mensagem daquelas se estivesse.
Nicholas sorriu fracamente e deixou o corpo cair sobre o banco.
— Estava com saudades — ele deu de ombros. — E queria pedir desculpas por agir desse jeito esses últimos dias. Nem sequer tenho ido te visitar. A última vez que fui foi para dar um ‘piti’. — riu com o final da frase e balançou a cabeça negativamente.
— Não tem problema. Eu também dei um ‘piti’ hoje — ele piscou um dos olhos.
— São coisas que acontecem, Nicholas. Ninguém é obrigado a estar bem e sorrindo para todos o tempo inteiro. Você é um moleque de treze anos, vai começar a ter seus problemas, crises existenciais e tudo o mais — fez uma careta, arrancando risadas de Nicholas. — Mas falando sério agora... Como você está, rapaz? Sua mãe disse que você não para em casa e, quando para, arruma uma briga com ela ou com Charlie para se trancar no quarto. Sua semana de provas está chegando que eu sei. Não tem que se importar com essas coisas, Nicholas. Estude. Isso ajuda a distrair.
— Eu sinto falta de como as coisas eram antes — Nicholas murmurou. — Não que eu seja velho e saiba o que estou dizendo. Só sinto saudades de poder ir te visitar todos os dias ou então jogar futebol com Charlie depois da escola. Ou então assistir filmes comendo besteiras com minha mãe... — ele suspirou — Eu só não consigo mais aguentar isso tudo. Vocês mentiram para mim a vida inteira. Você sabe como é esse sentimento, .
— Não quero que fique aí se deprimindo por essas coisas — bagunçou os cabelos do menor. — Você tem treze anos e isso não é o fim do mundo!
— Eu digo isso a mim mesmo todos os dias — foi a vez de Nicholas fazer uma careta. — Essa coisa é muito estranha. Seria melhor que pudéssemos pular essa fase.
gargalhou. Nicholas era precocemente maduro. Sabia o que sofria e sabia que não passaria, sabia que teria muitas e muitas crises pela frente.
Definitivamente ele não era um garoto comum. Talvez pelo tipo de adulto que o cercava, o trabalho violento e perigoso da mãe, a preocupação que carregava desde muito pequeno... Era tudo um amontoado de coisas que faziam-no crescer antes da hora. sentia muito por ele, mas o entendia — passara pela mesma situação, e talvez por isso tivesse atitudes tão perturbadas e problemáticas.
— Você precisa de distração, carinha — empurrou-o de leve com um dos ombros. — Só vou para Itália daqui uns dias... E dizem as más línguas que o The Kooks toca por aqui amanhã... Tipo, sei lá. Só acho que eu poderia conseguir dois ingressos escondidos da sua mãe e da . Só para nós dois, sabe? — piscou um dos olhos. — Ou talvez para você e a Colbie...
Nicholas riu fracamente.
— Estava demorando para você citar o nome da Colbie — Nicholas revirou os olhos. — E eu aceito os ingressos. Mas a mãe da Colbie não a deixa ir para essas coisas sem ela. Então vamos nós dois.
— Mas quem disse que eu queria conversar com você sobre a Colbie, moleque? — juntou as sobrancelhas. — Eu não quero saber de nada, não... Muito menos quero que você me conte como foi beijá-la no meio da sua sala.
Nicholas não segurou a gargalhada que veio ao escutar aquelas palavras. era impossível.
Sua mãe mais ainda que espalhava esse tipo de coisa por aí. Não era nem para ela ter visto aquela cena.
— Minha mãe deveria segurar mais a língua... — ele deu de ombros — Eu acho que estou ficando tão idiota quanto você. Só que a nossa diferença é que eu assumo.
— Onde está o respeito que tinha por mim? — perguntou mostrando-se indignado. — Essas crianças de hoje estão perdidas.
— Ele foi embora assim que você começou a dar esses ‘pitis’ pela , amigo — Nicholas balançou a cabeça negativamente, sorrindo. — Brincadeira. É bem bonito o que vocês têm. Tirando o fato de que você sempre a xingou publicamente.
riu e balançou a cabeça.
— Ela sempre foi uma curiosa — deu de ombros. — Sem contar que sempre falou mal de mim. Mereceu todos os xingamentos. Mas não conte para ela.
— Você é completamente louco, — Nicholas riu. — É sério.
— Eu sei disso — ele deu de ombros. — Ser normal não tem graça, moleque. As coisas boas estão nas loucuras que somos capazes de fazer.
— E eu acho que é por isso que eu tenho você como um exemplo — Nicholas sorriu e encarou por alguns segundos. — Por mais estranho que isso soe, porque você não se diz digno para uma coisa dessas. Mas sei lá. Você foi um dos caras mais presentes na minha vida.
— Wow! — sorriu. — Fico feliz por isso. De verdade.
— Enfim — Nicholas sorriu fracamente. — Minha mãe daqui a pouco chega e minha avó disse para eu não demorar. Desculpa te fazer vir aqui. Eu só queria dizer isso, sabe? — Nicholas o fitou. — E me desculpar pela ceninha idiota que eu fiz esses dias.
— Não foi ceninha idiota — bagunçou os cabelos dele mais uma vez. — Eu com vinte e oito anos, Nicholas, dei uma crise tão ridícula quanto a sua e eu quase morri por isso. Não seja impulsivo como eu. É um conselho.
— Prometo parar e pensar antes de fazer ou falar qualquer coisa a partir de hoje — o pequeno sorriu. — Sou novo demais para morrer e pretendo trabalhar no seu lugar daqui uns anos.
gargalhou.
— Apenas sonhe. Não saio dessa vida antes dos cinquenta e poucos — piscou um dos olhos. — Você ainda tem muito o que estudar para tentar chegar onde estou.
— Menos, . Bem menos — Nicholas riu. — Daqui um tempo você não está aguentando mais correr e barrigudo. Sem contar que estará sem fôlego algum por causa desses cigarros. Seu lugar já é meu. Acredite, .
— Sonhar não custa nada — murmurou e revirou os olhos. — Mas ei, se cuide, tá? Sempre que precisar conversar pode me procurar. Sabe que eu sempre vou estar livre para você, certo?
— Certo — Nicholas sorriu. — Não esqueça de descolar os ingressos para o show...
riu.
— Pode deixar — ele piscou um dos olhos novamente. — Antes de ir eu queria te pedir uma coisa.
— Pode pedir. O que quiser — Nicholas sorriu fracamente.
— Se acerte com seus pais. Eles são tudo o que você tem nessa vida, Nicholas. Sua mãe não suporta ver você assim, todo pra baixo e saber que é culpa dela — suspirou. — Por favor. converse com eles hoje. Você vai até dormir melhor depois que fizer isso. Uma hora você terá que encarar a situação. Quanto mais cedo, melhor. Quero ver todos vocês bem amanhã. Caso contrário...
— Adeus The Kooks — Nicholas revirou os olhos e sorriu em seguida. — Eu vou conversar com eles. Eu só...
— Precisava de um empurrão — completou. — Agora vai lá. Sua avó vai dar crise e jogar a culpa para cima de mim.
— Minha avó te adora... — Nicholas murmurou enquanto se levantava.
— Adora tanto que toda vez que apareço por aqui ela me dá uns bons tapas. Pelo menos o bolo de chocolate compensa...
Nicholas gargalhou com o comentário de e balançou a cabeça.
— Até amanhã, . Mande um beijo para a — Nicholas disse educadamente.
— Não mandarei nada — revirou os olhos. — Ela é minha garota e você não tem que mandar beijos ou qualquer coisa para ela...
— Céus, , eu tenho treze anos — ele fez uma careta. — Você é um maluco. Vou entrar. Isso pode ser contagiante...
não respondeu, apenas riu do menor e ficou ali parado, esperando-o atravessar a rua.
ainda tinha um sorriso no canto dos lábios quando Nicholas se virou para dar um tchau. Há quanto tempo não conversava daquele jeito com seu mascote? Sentira falta daquele moleque. Mas o entendia perfeitamente. Riu mais uma vez ao sentir-se leve após a conversa, era bom ter Nicholas por perto. Sua aura inocente, as falas perspicazes, as risadas e o fato dele se dar tão bem com e vice-versa. Era sua felicidade, no fim das contas, mesmo quando se fingia de enciumado. E, bom, é claro que ele mandaria os beijos para quando a encontrasse dali algumas horas — ou melhor: ele daria cada um dos beijos.

****

O rapaz soltou um suspiro fraco e atendeu o celular que vibrava em seu bolso.
— O que é agora? — perguntou, impaciente.
— Pegue o garoto. Ele não tem como escapar. — A voz do outro lado disse sem enrolações. — E pelo amor de Deus, vê se consegue fazer algo direito dessa vez.
— Ah, vá se foder! — exclamou. — Se eu pego esse garoto eu não vou ficar vivo e você vai ficar sem suas informações. Não seja idiota.
— Se não pegá-lo, irá morrer de qualquer forma, querido. Então eu acho bom que pelo menos tente. Mas tente de verdade. Não preciso de pessoas frouxas comigo. Se quiser desistir agora, desista. Mas vá para bem longe nos próximos vinte minutos.
— Quando? — o rapaz perguntou, dando-se por vencido. Não poderia fazer nada. Absolutamente nada. Ou obedecia ou morreria.
— Quando se sentir preparado. Mas seria muito bom se você começasse a agir logo. Você sabe por quê.
— Sei. Pode deixar. O garoto vai estar com você logo — ele respondeu, engolindo a seco. — Mas o que irá fazer depois?
— Isso pode deixar por minha conta. Seu trabalho é trazê-lo para mim.
E após dizer isso, desligou. O rapaz continuou segurando o celular contra a orelha, na esperança de que aquilo fosse só uma pegadinha. Mas não era. O que estava acontecendo com o mundo, afinal? As pessoas haviam perdido totalmente a consciência. Estava tudo uma loucura. Só pensavam em poder, dinheiro, matança. Céus, a humanidade estava perdida.
O rapaz bagunçou os cabelos e guardou o celular no bolso. Teria que pensar e agir o mais rápido que conseguisse.
Ou era fazer o trabalho, ou era morrer. E ele definitivamente não queria morrer agora. Não enquanto estivesse vivo.


Capítulo 6

(Capítulo betado por Mary).

fitou o teto do quarto e depois fitou o relógio que estava na parede. Eram quase dez da noite e ele estava ali jogado, pensando em tudo o que Elizabeth dissera numa conversa boba mais cedo. Odiava quando faziam o que a amiga fez e o deixava curioso daquela forma. Odiava também quando diziam que ia se interessar por algo que ele não estava interessado, pois sabia que aquilo era verdade. Maldita mulher complicada, também. Precisava bater um papo com Emma. Precisava se distrair. Precisava beber. Fumar. Transar.
Riu sozinho e balançou a cabeça negativamente. Precisava de tantas coisas que nem sabia mais por onde começar para tentar realizar tudo. Era um maldito complicado e jogava a culpa para . Era um filho da puta.
Seu celular tocou, cortando seus pensamentos. esticou o braço preguiçosamente e o pegou, sorrindo automaticamente ao ler o nome de Emma no visor.

— Diga, amor da minha vida! — atendeu dando uma risada fraca, mas parou no mesmo momento ao ouvir Emma fungar. — Emma?
— Ei. Preciso de você aqui. Agora. — Emma disse rápido. — Charlie precisou ficar até tarde na delegacia, mas já está a caminho. Você está mais perto. Por favor, , vem logo.
— O que houve? — perguntou enquanto, já de pé, tentava vestir uma calça jeans e a camisa de botões ao mesmo tempo.
— O Nicholas sumiu. Simplesmente sumiu. E eu tenho certeza que não foi por rebeldia dele.
— Puta que pariu — murmurou. — Já chego aí.

não esperou uma resposta, apenas desligou o celular e saiu de casa ainda fechando a camisa e com o tênis desamarrado. Pouco importava sua aparência. Nicholas era o foco ali.

***

Elizabeth sorriu ao sentir Jesse se aproximar e não fez questão de ir para trás como pensaria em fazer alguns anos atrás. Estavam prestes a colar seus lábios quando sentiu algo molhar a blusa branca de botões que usava. Jesse riu e mordeu o lábio inferior, afastando-se um bocado.

— Desculpe. — ele murmurou coçando a nuca. — Sério, eu...
— Shhh — Elizabeth pousou um dos dedos sobre os lábios do homem. — Tudo bem. Não me importo. É só vinho.
— Me desculpe, de qualquer forma. — ele murmurou beijando a ponta do dedo da mulher sem quebrar o contato visual. — Não foi a intenção.
— Eu não me importo — ela sussurrou enquanto, lentamente, começava a abrir os botões da blusa. — E acho que você também não.
Jesse sorriu e se aproximou mais, segurando-a pela nuca sussurrando em seguida:
— Pode ter certeza que não.

Sem enrolar mais, juntaram seus lábios num beijo que transbordava sentimentos. Não era um beijo rápido, mas também não era lento. Era da forma que gostavam. Por mais clichê que soe, encaixavam-se perfeitamente, como se tivessem sidos desenhados um para o outro.
Elizabeth finalmente terminara de abrir os botões da blusa e soltou-a, levando uma das mãos para a nuca de Jesse, puxando-o ainda mais. Com cuidado para não machucá-la, Jesse deixou seu corpo cair sobre o dela.
Sentiam-se tão bem quando estavam juntos. Fizeram um jantar tão maravilhoso que nem sequer se lembravam da última vez que se sentiram daquela forma. Jesse estava livre, finalmente, dos fantasmas do passado.
Assim como Elizabeth estava livre de qualquer resto de sentimento por outro homem. Não era a primeira vez que saíam, não era a primeira vez que se beijavam e se tocavam daquela forma, não era a primeira vez que se viam.
Era apenas a primeira vez que deixavam alguém desconfiar daquilo. Sentiam paixão, desejo ou qualquer coisa que fosse aquele sentimento, há tempos. Era bom colocá-los para fora, era bom senti-los quando estavam perto um do outro. Era perfeito.
Tinham o encaixe perfeito.
O momento era perfeito.
Jesse passou os lábios levemente por todo o pescoço de Elizabeth, fazendo-a arquear as costas levemente e suspirar. Céus, como era bom sentir as carícias daquele homem!

— Não quero que se esqueça dessa noite. — Jesse sussurrou enquanto descia os beijos por todo o pescoço de Elizabeth. — Nunca.
— Eu não vou. — ela sussurrou de volta com os olhos fechados. — Nunca.
Jesse sorriu e juntou seus lábios novamente.

***


— O Jesse está com a Elizabeth. — Charlie murmurou. — Ele deve demorar um pouco para chegar, mas logo virá.
— No que diabos Jesse ajudará? — Emma perguntou não fazendo questão de esconder que chorava. — Ele não se mete mais com essas coisas, é o que chamamos de policial honesto, a maior fantasia do mundo. Ele não vai ter ideia de nada.
— Qualquer ajuda é bem-vinda. — Charlie sussurrou. — Ele pode ter pelo menos um contato, uma pista...
— Só se acalme, Emma. — murmurou, passando um dos braços sobre os ombros dela. — Vamos encontrá-lo.

Emma não respondeu, apenas fitou o chão. Seu coração estava apertado. O desespero tomava conta de seu corpo. O medo também estava ali. A insegurança, a culpa. Todos os sentimentos ruins. Nicholas havia sumido. Seu pequeno Nicholas, seu garotinho, havia desaparecido de repente.
soltou os ombros de Emma ao notar que Charlie se aproximava da mulher. Não foi preciso alguém dizer algo para sair de perto e ir falar com os outros policiais que estavam por ali.

— Ele vai aparecer. — Charlie murmurou, fazendo-a deixar cair mais algumas lágrimas. — Vai acabar tudo bem. Confie em mim.
— O meu menino, Charlie... — Emma murmurou, jogando-se nos braços do homem — Eu estou com medo.
— Ei! — Charlie puxou-a pelo rosto, fazendo-a olhá-lo nos olhos — Vai acabar tudo bem, logo o Nicholas aparece. Seja por bem ou por mal. mergulhará nisso de cabeça. Sabe que ele se importa com o Nicholas tanto quanto nós dois. Por isso o quero no meu lugar daqui um tempo. Não demorará muito para que a gente consiga localizá-lo. Já falou com Colbie?
— Ela não sabe de nada. — Emma suspirou e sentou-se no sofá novamente. — Eu não vou aguentar isso. Eu preciso de notícias do meu filho.

Charlie não disse nada, apenas sentou-se ao lado da mulher e puxou-a para um abraço apertado. Ambos estavam desesperados, ambos estavam com medo. Não sabiam o que pensar ou fazer, não estavam em condições.
Ter ali fora a melhor decisão que já tomaram. Era o único que conseguia agir numa situação daquela.
Segundos, minutos, horas passaram e eles continuaram ali esperando por informações. Emma sentia seu coração afundar a cada segundo que passava. Sua cabeça doía e seus olhos começavam a se fechar lentamente, mas não se deixaria vencer pelo sono, não enquanto seu filho não estivesse em seus braços novamente. Charlie tentara fazer sua cabeça para ir dormir, mas ela se recusava. Pelo seu filho, ficaria acordada até não aguentar mais, mesmo se fosse necessário inúmeras garrafas de energético.
Alguns gritos do lado de fora da casa foram ouvidos, fazendo com que Charlie se levantasse no mesmo momento. Porém, assim que se levantou e deu um passo à frente, parou. Parou automaticamente, ficando como uma estátua, congelado. Não acreditava no que via. Não sabia se sentia felicidade, medo, desespero ou qualquer outro sentimento assim. Emma levou os olhos cansados na direção que Charlie olhava e sentiu seu coração acelerar enquanto algumas poucas lágrimas rolavam por seu rosto.
Nicholas estava ali, apoiado no batente da porta com uma das mãos na barriga. Seus cabelos estavam bagunçados e tinha restos de sangue espalhado por todo o rosto. logo apareceu atrás do garoto, puxando-o pelo braço, fazendo o garoto passá-los por seus ombros. carregou Nicholas até o sofá e o deitou ao lado de Emma que, ao recuperar-se do susto, se levantou e correu para pegar algo para fazer curativos no filho. Charlie se ajoelhou ao lado do garoto, tentando fazê-lo não dormir sem dizer nada.

— Tente se manter acordado. — Charlie murmurou. — Por favor, filho. - Nicholas respirou fundo e fechou os olhos por uns segundos. Não conseguia organizar os pensamentos. Mas precisava falar o que vira e o que acontecera.
, o Pender acabou de chegar! — Um dos homens de gritou da porta.
— Mande-o entrar. — gritou de volta. — Agora!
O homem apenas balançou a cabeça e correu para o lado de fora. Não demorou muito para Jesse adentrar a sala e assustar-se com o estado do pequeno Nicholas.
— O que houve com ele? — Jesse perguntou tirando o casaco e jogando-o num canto qualquer.
— Ele mal consegue respirar e manter-se acordado, imagine nos contar o que houve. — murmurou. — Vou pegar um copo d'água para ele. Mantenham esse garoto acordado até o médico dele chegar.
— Não seria melhor levá-lo ao hospital? — Jesse perguntou.
— Não podemos arriscá-lo a tanto. Pode ser que descubram que ele fugiu e venham atrás dele. Aqui estamos mais bem preparados. — Charlie respondeu.

saiu da sala e Jesse abaixou-se ao lado de Charlie, que observava o garoto e acariciava seu rosto. Não demorou muito para Emma chegar com uma caixa pequena nas mãos e, sem se importar com nada, jogar-se no chão entre os dois homens e pegar uma gaze para limpar o rosto do filho.

— Coloque-o sentado. — pediu assim que voltou com o copo de água nas mãos. Emma se afastou um bocado e Charlie colocou-o sentado. — Beba e tente nos contar algo.
— Só me deixe respirar. — Nicholas murmurou, pegando o copo d'água, bebendo quase tudo em um gole só. — Eu não faço ideia de onde estava, só para começar. — ele sussurrou. — Mas garanto que, dessa vez, não foi o Jesse. — Nicholas riu fracamente e bebeu o resto da água. — Eu não sei como aconteceu. Eu só... estava saindo da escola quando senti algo na minha cabeça. Depois acordei num lugar estranho. Num quarto, mas não estava amarrado. Quando levantei, vi uns homens no que mais parecia um quintal. Não sei como saí, só sei que fui calculando o que aconteceria se eu fizesse cada coisinha. No fim de tudo, consegui distraí-los com um pedido para ir ao banheiro. Tinha uma janela, saí por ela e consegui parar numa estrada. Peguei uma carona até o centro e de lá me virei para vir.
— E como se machucou assim? — perguntou, fitando-o com curiosidade. Nicholas riu.
— Digamos que eu tenha um pouco do seu temperamento e acabei apanhando mais do que devia antes de pedir para ir ao banheiro. — ele respondeu tranquilamente. — Os caras não estavam ligando se eu tenho treze anos ou não. Queriam me matar de qualquer jeito. — ele sussurrou a última frase, fazendo com que Emma fungasse. — Eles iam pedir algum dinheiro para vocês ou pedir a cabeça do em troca. Acredito que vocês dariam um jeito de entregar uma das duas coisas, ou as duas do jeito que o é louco. — Nicholas sorriu fracamente. — Mas era mentira, me matariam logo em seguida. Não sei exatamente o porquê. Mas sei que tinha a ver com algo que Charlie fez no passado e alguma coisa a ver com mortes de três anos atrás. Eu não entendi. Mas foi o que escutei.
trincou os dentes e Charlie encarou-o tenso.
— Tome um banho e descanse, Nicholas. — Emma murmurou. — Nossos homens ficarão cercando a casa a noite inteira e um médico virá te examinar. Amanhã você tenta se lembrar de mais alguma coisa.
— Eles citaram o nome do . — Nicholas murmurou. — Falaram algo do seu pai também, . E citaram a Kennedy, aquela sua prima que eu só vi uma vez.
— O que falaram? — perguntou, piscando os olhos algumas vezes. Estava com raiva. Estava prestes a largar tudo e ir atrás daqueles caras às cegas sem se importar com nada.
— Disseram que o matou a Kennedy por sua causa e que seu pai sabia demais, por isso morreu. — Nicholas murmurou. — Eu não entendi. Eles falavam baixo, só consegui identificar os nomes com precisão.
— Não se preocupe com isso agora. — Charlie murmurou. — Faça o que sua mãe disse.
Nicholas não disse nada, só obedeceu ao pai e, com a ajuda de Emma, se levantou e seguiu para o banheiro.
— O que diabos vocês andaram fazendo no passado? — Jesse perguntou. — Eu pedi tanto para vocês ficarem longe de merdas.
— Não fizemos nada demais. — respondeu. — Só tentamos limpar minha barra porque eu fugi da cadeia aquele dia.
— Vocês contaram uma história diferente da minha? — Jesse perguntou.
— Não. — Charlie respondeu. — Apenas demos mais detalhes e provas de que era inocente, que só havia sido preso para a segurança dele e de todos nós.
— Vocês não estão num filme de James Bond onde qualquer coisinha que digam dá certo. — Jesse suspirou. — Com certeza há policiais metidos nessa história toda. Acredito que estejam metidos na morte do Brian e nos últimos atentados. Tentei conseguir algo com uns antigos colegas, mas eles não sabiam tanta coisa. Mas me deram alguns nomes. Incluindo o maldito Jack, o corrupto que a gente nunca consegue pegar. — Jesse revirou os olhos. — Ele estava metido com o Crowley também. E com todos esses marginais que estão mortos agora, quase como um maldito informante. Precisamos do cofre.
— Não há condição de abrirmos o cofre. — Emma disse firme, aparecendo na sala. — Precisamos encontrar uma prova de verdade contra o Jack. Sem nenhum desgraçado que o pagava para abrir a boca vivo, fica complicado, porque ele jamais vai falar ou confessar, ainda mais pra limpar a barra da gente. Precisamos esquecê-lo e dar o nosso jeito. Abrir o cofre contra a lei e só vai piorar as coisas.
— É o que eu penso. — murmurou. — Mas... que opção temos se não tentar?
— Se já não abriram. — Emma sussurrou. — O irmão do Crowley ainda estava vivo enquanto estávamos tentando pegar o Castellamare. Não duvido de que Bill abriu e pegou o que precisava para fazer as merdas que fez antes de morrer.
— Crowley nunca deu a senha para ninguém. — Jesse disse firme. — Bill achava que tinha a senha, mas não tinha. Não era a senha de verdade, ou pelo menos não era do cofre de verdade.
— Precisamos que abra o cofre, Emma. — Charlie murmurou. — Há exatamente cinco anos estou atrás dessa coisa. Foi preciso Crowley voltar para Londres e morrer para eu encontrá-lo. Sabemos onde ele está. Só precisamos que você abra.
— Só se isso acabar assim que voltarmos da Itália. — Emma murmurou. — Quero que esse inferno acabe. Se for para eu abrir o cofre e irmos para a Itália, é para matar todos eles. E quando digo todos, são realmente todos. — ela engoliu a seco. — Se fizeram isso com Nicholas essa noite, imagine o que farão conosco. Prometam que isso acaba assim que eu destrancar aquele cofre.
— Não podemos prometer nada. — murmurou. — Não sabemos quem está metido nisso.
— Descubram. — Emma rebateu. — Quero garantir a segurança das pessoas que amo. Não quero ter que passar pelo desespero que passei esses últimos anos. Não quero passar pelo que passei essa noite de novo.
— Vai tudo acabar bem, Emma. — Jesse disse firme. — Você sabe que só confiamos em você para abrir o cofre.
— Só quero que isso acabe. — Emma suspirou. — Não aguento mais esse inferno. Se livre do seu passado, , se livre dessas malditas coisas que te cercam. Por Deus, Jesse, você é o único que pode ajudá-los. Me prometa que tudo isso acabará logo e eu faço o que quiserem, desde que meu filho continue vivo.
— Eu prometo, Emma. Tudo acabará bem. — Jesse disse firme, porém devagar. — Seu filho ficará bem. Todos nós ficaremos.

Emma encarou os três homens presentes e respirou fundo. Não queria se meter naqueles assuntos, eram coisas sujas demais; coisas que não tinham a ver com ela, coisas que ela ficara sabendo sem querer, coisas que a colocaram em perigo, que quase a mataram várias e várias vezes, coisas que precisavam ser destruídas, acabadas.
Após soltar um suspiro e prender os cabelos em um coque frouxo, Emma murmurou:

— Encontrem o cofre e digam o dia que eu preciso ir abri-lo.


Capítulo 7

(Capítulo betado por Mary).

parou em frente à porta do apartamento de e tocou a campainha, pouco se importando se ainda eram seis e meia da manhã. Não sabia porque, diabos, estava lá. Talvez só estivesse com saudades, talvez só precisasse de companhia, talvez só precisasse conversar e sabia que ela não trabalharia naquele dia, talvez só quisesse se despedir ou talvez só precisasse dormir um pouco com ela ao seu lado e saber que ela não sairia dali. Ele realmente não sabia, mas queria estar ali, apesar de ter certeza absoluta de que seria xingado. odiava ser acordada cedo, principalmente em seus dias de folga. Talvez ele tivesse aprendido com Charlie a estragar folgas alheias.
abriu a porta e preparou-se para soltar um palavrão qualquer, mas ao observar ali parado com um sorriso no canto dos lábios, fechou a boca.

— O que faz aqui a essa hora? — ela perguntou baixo enquanto dava espaço para ele entrar. — Eu avisei que era minha folga...
— Eu sei — respondeu dando de ombros e tirando o casaco que vestia. — É que... ontem foi uma noite cheia. Eu queria ter vindo aqui antes, mas... só agora tive uma folga.
— Ainda não dormiu? — ela perguntou sentando-se em seu lado no sofá. — O que houve?
suspirou.
— Pegaram o Nicholas. — ele sussurrou. — Aí eu fui para a casa do Charlie... um bom tempo depois o Nicholas apareceu. Ele estava machucado e cansado demais. — suspirou e passou as mãos pelo rosto. — Ele contou que falaram coisas do meu pai, da Kennedy e do . Sem contar o fato de que ainda bateram nele antes dele conseguir fugir.
— O Nicholas simplesmente fugiu deles na cara e na coragem? — deixou sua boca abrir em puro choque. — Céus, esse garoto está ficando como você.
riu fracamente.
— Pelo menos ele faz coisas boas. — fitou o chão e mordeu o lábio inferior. — Enfim. Eu só... queria pedir desculpas por não vir ontem.
sorriu fracamente.
— Era o seu trabalho. — murmurou, se aproximando mais de . — Eu nem tinha feito nada mesmo.

riu e a puxou pela cintura, fazendo-a sentar-se em seu colo. Mordeu o lábio inferior com mais força ao reparar que a camisola vermelha que usava subira com o movimento que fizera, deixando suas coxas à mostra.
balançou a cabeça negativamente, com um sorriso fraco no rosto, e arqueou uma das sobrancelhas, enquanto passava as mãos, lentamente, por suas coxas. Aproximou-se mais da mulher e grudou seus lábios em seu pescoço, também de forma lenta, fazendo-a suspirar.

— Ainda são seis e meia da manhã, . — sussurrou segurando-o pelos ombros, porém permanecendo de olhos fechados.
— Você está de folga hoje e eu posso chegar mais tarde no prédio. — respondeu, subindo os beijos lentamente pelo rosto de , parando no canto de seus lábios. — Temos o dia praticamente inteiro. Shhh.
sorriu fracamente e, em seguida, sussurrou o mais baixo e provocante que conseguiu:
— O que acha de tomarmos um banho?
soltou uma risada fraca e segurou-a firmemente pela cintura, respondendo enquanto se levantava com ela no colo:
— Seria perfeito.

***

PALERMO, SICÍLIA — ITÁLIA, 8h57min.


Apolo tirou os óculos escuros e sorriu para garota à sua frente. Ela era loira, seus olhos tinham um tom azul cristalino hipnotizante, seus lábios eram carnudos e sempre pintados de vermelho. A verdadeira perdição. Por um segundo, achou que não fosse se conter, achou que não fosse aguentar.
Aquela garota era incontrolável. Com rostinho de anjo e pensamentos de um demônio. Tão doce e sensual que ele chegara a pensar que enlouqueceria só de olhá-la.
Amanda era tão encantadora que Apolo pensou que perderia o controle e esqueceria o que fora fazer ali. Ele a conhecia há alguns meses, mas ela nem sequer sabia de sua existência até ele aparecer ali atrás de seu primo.

— Olhe... se não me engano, o meu primo está na Inglaterra. — Ela disse educadamente, juntando as sobrancelhas. — Não faço ideia de quando ele volta.
— Tudo bem. — Apolo respondeu, ainda fitando-a. — Pode avisá-lo que Apolo Castellamare o procurou? Caso vocês se falem e tudo o mais. — Apolo sorriu amigavelmente. — Peça-o para me ligar. Até logo, Amanda.

A garota não disse nada, apenas sorriu e acenou. Balançou a cabeça negativamente assim que Apolo virou de costas e fechou o portão. Odiava quando estava prestes a sair e esses amigos, ou sei lá o quê, de seu primo a paravam para pedir informações. Se nem mesmo seu tio tinha informações demais sobre o primo, imagine ela.
Apolo puxou o celular do bolso após olhar para trás mais uma vez. Amanda já havia saído e as pessoas na rua eram comuns, nada tão ameaçador assim.
Ultimamente tem andando assim na rua; observando tudo e todos, um tanto quanto assustado, talvez. A Itália estava virando de cabeça para baixo e ele já sabia o motivo disso. Todo cuidado era pouco por ali. Charlie estava prestes a desembarcar com sua equipe por lá. E isso só aumentava os riscos.

— Jullie? — Ele murmurou ao ouvir a voz da mulher resmungar alguma coisa. — Pode me encontrar daqui uma hora?
— Poder até posso, mas não quero. — respondeu irritada. — Eu estava dormindo e você sabe como é meu humor matinal, Castellamare. Me procure depois. E só se estiver a fim de sexo e não informações.
Apolo soltou uma risada fraca.
— Podemos conversar sobre sexo também, querida. Mas preciso te encontrar agora na parte da manhã. — ele disse firme. — Sobre o seu chefe. Ou achou que eu não saberia que está metido com um dos ? Hmmm... jogou mal, coração. Me encontre daqui a uma hora. No restaurante de sempre.
Apolo podia jurar que Jullie engoliu a seco e piscou os olhos loucamente, enquanto se perguntava como diabos ele teve aquela informação.
— Não seja idiota. Não quero te encontrar agora de manhã. — Ela respondeu tentando manter-se tranquila. — ? Metade dos estão mortos, meu amor. Com quem diabos eu iria me relacionar?
— Não sei. Talvez o que está vivo na Inglaterra. — Apolo sorriu e teve certeza que Jullie estava nervosa e passava as mãos pelo rosto. — Venha me encontrar, Jullie.
— Você me irrita. — Ela disse completamente irritada — Juro que se pudesse eu te matava. Sabia que estão pagando pela sua cabeça?
— Sim, eu sei que mataria. Mas de prazer, meu bem. — ele riu fracamente. — Querem minha cabeça, mas ninguém, além de você, pode ter. — ele riu mais uma vez. — Céus, você me descontrola, Jullie. Vamos, pare de doce. Estarei te esperando. Até pago seu café, se quiser.
— Apolo, faça o favor de ir se foder e me deixar em paz, sim? — Jullie pediu firme. — Não vou te encontrar na parte da manhã.
— Opa. Foder você? Com todo prazer, amore mio. — Apolo rebateu com seu sotaque italiano carregado, ainda sorrindo enquanto caminhava pelas ruas tranquilamente. Provocar Jullie era uma das melhores coisas do mundo. — Estarei esperando você até às dez da manhã. Sei que aparecerá. Está curiosa. Quando começa a falar nesse tom comigo é por que está extremamente curiosa. Sei que quer saber onde descobri que você está com algum , mesmo que boa parte deles estejam mortos.
— Vá para o inferno. — Jullie murmurou pausadamente. — Meus trabalhos são meus trabalhos, não tenho que te dar satisfações de nada.
— Vou para o inferno e te arrasto comigo. — Apolo rebateu. — Te esperarei até às dez. Não passe disso. Tenho trabalhos para fazer, coração.

Apolo não deu chance de Jullier dizer algo, apenas desligou o celular e guardou-o no bolso em seguida. Conseguira irritar e atiçar a curiosidade de Jullie. Sabia que ela chegaria cedo, Jullie jamais se atrasaria para aquele tipo de assunto.

***

LONDRES — INGLATERRA, 7h57min.


Nicholas riu e balançou a cabeça negativamente.
— Você é louca. — ele murmurou enquanto se sentava na cama. Ainda sentia algumas dores pelo corpo. — Não acredito que sua mãe deixou você faltar aula só para ficar comigo hoje.
— Pois pode acreditar. — Colbie sorriu. — Ela ainda ligou para sua mãe para avisar, por isso sua mãe não se importou de ir dormir um pouco. Talvez não seja perigoso ficarmos por aqui durante o dia, né?
— É. — Nicholas suspirou, fitando o teto. — Esse trabalho deles é uma loucura.
— E como você está com tudo isso? — Colbie perguntou enquanto sentava-se ao lado de Nicholas na cama, enfiando-se debaixo das cobertas do garoto. — Digo, não deve ser fácil. Você está no mínimo perturbado.
— Eu acho que acostumei. Eu cresci nisso, Colbie. — ele suspirou e fitou a amiga. — Eu quero ser como o meu pai ou como o quando me formar.
— Seu pai Charlie ou seu pai Martin? — Colbie perguntou mordendo o lábio inferior. — O é um bom policial. Só um pouco doido, mas ainda assim...
Nicholas riu fracamente.
— Meu pai Charlie — respondeu baixo. — Eu não acostumei com isso ainda, aliás.
— Mas logo se acostuma! — Colbie sorriu e puxou-o para um abraço desajeitado, passando os braços pela cintura de Nicholas. — Vai tudo acabar bem, sempre acaba. Só, por favor, não nos dê mais um susto daqueles. Não saia sozinho, por favor, não com isso acontecendo. Converse com sua mãe. — Colbie suspirou, fechando os olhos enquanto Nicholas a abraçava de volta. — Deixe sua mãe feliz por você. Converse com Charlie também. Sabe que rebeldia não leva ninguém a lugar nenhum.
— Relaxa, Colbie. — Nicholas murmurou enquanto depositava um beijo no topo da cabeça da menina. — Eu tenho consciência das merdas que faço... e a maior delas foi dar essa crise. Tenho certeza que Charlie é um bom pai. Eu só... não entendi porque esconderam. Mas já passou.
— Isso, já passou. Só não se esqueça que o Charlie te ama tanto quanto a sua mãe. — Colbie sorriu e levantou o rosto para encará-lo. — Esquece o tempo que passou, o que aconteceu essas semanas. Tudo sempre acaba bem. Vamos assistir alguma coisa?
Nicholas suspirou e sorriu em seguida.
— Sinta-se em casa para escolher qualquer coisa. — murmurou. — Mas, por favor, nada de filmes do Chris Evans ou Matt Bomer. Não ligaria de ver um filme da Evan Rachel Wood ou Scarlett Johansson.
Colbie revirou os olhos e caminhou até a prateleira de filmes de Nicholas.
— Não sei o que vê nessas mulheres. — Colbie revirou os olhos. — Procurarei um desenho qualquer.
— Eu também não sei o que você vê nesses homens. — Nicholas foi firme. — Então procure um desenho. Antigo. Maratona de Os Cavaleiros do Zodíaco, que tal?

Charlie se afastou da porta do quarto de Nicholas com um sorriso no rosto.
Passava por ali quando ouviu que Nicholas conversava com Colbie sobre tudo o que vem acontecendo. Viviam perguntando e Nicholas mostrava saber lidar com a situação. Óbvio que Charlie sabia que era mentira. Era bom ouvi-lo dizer aquelas coisas, deixava-o mais aliviado. Aquilo fizera seu dia. Seu garoto estava bem e estava começando a aceitar a ideia de tê-lo como pai de verdade.
Pai de verdade. Quão louco aquilo soava?
Charlie balançou a cabeça negativamente e suspirou, sem tirar o sorriso dos lábios. Adentrou o quarto que dividia com Emma e ela fitava o teto.

— Está tudo bem. — Charlie sussurrou, beijando-a no rosto. — Vá descansar.
— E você? — ela perguntou.
— Adiantarei algumas coisas. Dormirei depois. — ele disse calmamente. — Vou adiantar as coisas da viagem, dar parabéns ao e arrumar nossas coisas.
— Você deveria dormir também. — Emma murmurou, virando-se para o
lado e fechando os olhos. — Temos tempo agora, Charlie. Temos tempo...
— Não custa nada adiantar. — ele sussurrou dando um beijo na nuca de Emma. — Descanse.

***

estava jogado na cama de , dormindo feito um anjo. riu baixo e balançou a cabeça negativamente. e anjo na mesma frase não tinha coerência alguma.
soltou um suspiro pesado ao ouvir o celular de apitar na mesinha ao seu lado. Pegou o aparelho e leu no visor o nome de Charlie. Revirou os olhos e abriu a mensagem, pronta para responder que estava dormindo.
Mas a única coisa que conseguiu fazer foi deixar a boca se abrir em puro choque.
Como assim as passagens já estavam compradas e eles iriam para a Itália no dia seguinte?
piscou os olhos rapidamente e largou o celular de de volta na mesa. Sentou-se na cama e suspirou mais uma vez. nem sequer a avisara da viagem. E naquele momento estava mais que óbvio que ele fizera a cabeça de Charlie para que ela não fosse avisada, já que não pretendia embarcar no mesmo dia que eles, de qualquer forma. Tinha seu trabalho, seus compromissos e combinou com Charlie de ir alguns dias depois, não havia necessidade alguma de esconder dela o dia que iriam. De qualquer forma, não era de sua 100% conta o que estava acontecendo, ela não era da equipe e muito menos fora chamada para a viagem. Bem, pelo menos não por . E ela respeitava aquilo. Mas não contá-la que estavam indo? Oras, aquilo já era demais. Não que fosse arrumar uma briga por isso ou algo assim, apenas queria que ele confiasse mais nela para contar-lhe as coisas de seu trabalho. Até porque, bem, em alguns momentos era seu trabalho também e ele sabia que ela eventualmente iria para Itália, caso eles precisassem levar mais que três dias lá. Haviam conversado tanto, tanto, sobre tudo aquilo.
era tão idiota às vezes que a irritava, mas, no fundo, ela sabia que tudo o que estava sentindo naquele momento era preocupação. Talvez por isso que tentara tirar férias adiantadas. não teria desculpa para deixá-la sozinha em Londres. Ela sabia dos riscos que todos corriam. Mas... a preocupava mais, era fato. Amava-o. Queria ir com ele para se certificar de que tudo ficaria bem, de que ele ficaria bem e não abalado com as coisas que descobriria assim que pisasse lá. estava totalmente ciente dos riscos, dos segredos que seriam revelados, dos medos que sentiria e tudo o mais. Só queria... estar lá para abraçá-lo sempre que necessário.
Observou o rapaz ao seu lado e ele abria os olhos devagar. não conseguia dormir muito quando virava a noite, pelo menos não de manhã. Achava que estava perdendo o dia, o trabalho etc.

— Ei. — ele sussurrou voltando a fechar os olhos. — Por que já está acordada?
— Seu celular tocou. — mentiu. Nem sequer havia dormido após o banho maravilhoso que tomaram. — Era mensagem do Charlie avisando que as passagens para a Itália já estão compradas e tudo está certo para amanhã.
suspirou, apertando mais os olhos.
— Olha...
— Tudo bem, . — ela o interrompeu, cansada. — Eu já estava conformada por não poder ir com você agora, porque tenho meus trabalhos aqui e eles têm prazos; e não porque você não queria que eu fosse. É um fato de que eventualmente acabarei indo para ajudar vocês, ambos sabemos que precisam. Mas vocês vão amanhã. Pretendia me contar quando? No aeroporto ou só quando voltasse?
— Eu ia te contar ontem à noite. — ele respondeu baixo. — Mas estávamos com o Nicholas, , não deu. E hoje é meu aniversário, droga. Eu pensei que pelo menos um ano poderia ser diferente e o Charlie desistiria de ir amanhã. Emma tinha comentado algo assim. E sim, eu ia te contar hoje, mas... — ele deixou a frase no ar e deu de ombros. — Não precisa se preocupar com essas coisas, por favor.
— Como quiser. Só tome cuidado. Você vai descobrir coisas que não quer assim que pisar em Palermo. — fitou o chão e a encarou com curiosidade. — Você deveria ter lido o que Elizabeth deu a você, .
— Ah, então é verdade que você ainda se interessa pela minha vida? — ele perguntou, sentando-se na cama em um pulo. — Esquece a droga do meu passado. Delete da mesma forma que eu fiz.
— Você deveria saber mais da sua família. — murmurou. — Seu pai morreu sem saber, . Você não precisa ir pelo mesmo caminho.
revirou os olhos e se levantou da cama, passando as mãos pelo rosto.
— Esquece isso. — ele deu de ombros. — Você vai no aeroporto amanhã?
— Vou. — ela murmurou contra vontade. Não queria ir a droga de lugar nenhum se fosse para se despedir dele. — Ao que tudo indica, terei que trabalhar com Elizabeth por aqui.
— É. — respondeu enquanto vestia a camisa. Tudo estava tão tenso de repente. — Nós não vamos ficar muito tempo lá. Acho que três dias é o suficiente para resolvermos tudo.
— Charlie mandou você ligar para ele, na mensagem. — sentiu seu coração apertar. — Tem a possibilidade de vocês ficarem lá por mais tempo. Se isso acontecer, pode ter certeza que embarcarei o mais rápido possível. Não vou deixá-los sozinhos.
— Como é? — perguntou virando-se para ela. — Eu não fico mais de três dias naquele lugar se for para trabalhar.
pegou o celular e jogou-o para ele.
— Provavelmente ficará, sim. — ela deu de ombros e deitou-se na cama, fitando o teto. — Só não esqueça de avisar que chegou bem.
suspirou e jogou o celular em qualquer canto do quarto.
— Não fica chateada. — ele sentou-se na beira da cama. — Eu não quero que você sofra tudo o que sofreu de novo.
— O problema não é esse, . — ela se sentou de novo, encarando-o nos olhos. — Eu só... me preocupo.
— Não precisa. — ele sorriu fracamente e se aproximou dela, juntando seus lábios num selinho demorado. — Nós só vamos ver por que diabos estão segurando o corpo do Brian.

não respondeu, apenas suspirou e balançou a cabeça. Não queria esconder coisas de , mas algumas eram necessárias. Talvez Elizabeth a entendesse e apoiasse a ideia que se passava em sua cabeça, talvez realmente já estivesse na hora de contar para alguém o que sabia. E Elizabeth parecia saber de tantas coisas quanto ela. Investigar há três anos atrás servira de algo. Teria uma desculpa perfeita para que sua ida à Itália fosse irrecusável. No fundo, preferia manter-se longe de todas aquelas coisas enquanto pudesse, por isso não estava se importando tanto com o fato de que iriam no dia seguinte. Estava preocupada, claro, mas seria bom ter alguns dias para pensar e embarcar com tudo planejado.
Mas, pelo que estava vendo da situação, algo daria errado. Ela sentia. Só precisava da confirmação. E essa confirmação era Elizabeth e tudo o que ela sabia.


Continua...



Nota da autora: Oi! As atualizações serão bem rapidinhas sempre porque a fanfic já está concluída e a nossa beta é incrível e maravilhosa e rápida hahaha. Espero que estejam gostando. Lembrando que: a PMI é uma fanfic antiga e estou enviando a segunda parte só agora para o ffobs devido a muuuitos pedidos de vocês, logo, alguns trechos, falas, situações, séries e músicas citadas são bem antigas também. No mais, espero que estejam curtindo e com aquele gostinho de nostalgia, já que faz bastante tempo desde que a primeira parte foi concluída. Obrigada por tudo, até a próxima! <3



Outras Fanfics:
» Pull Me In
» Sombras do Passado
» Supernova

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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