Última atualização: 17/02/2019
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Prólogo

- Isso, . Perfeito. – O professor de química falou para ela e a mesma bateu palmas animada, fazendo Alisson rir. – Esses são os exercícios que eu tenho dessa unidade, se quiser fazer e depois eu já corrijo... – Ela o interrompeu, erguendo um dedo rapidamente.
- Eu vou aceitar, professor, mas deu meu horário, eu preciso acompanhar meu pai numa consulta... – O professor assentiu com a cabeça.
- Sem problemas, . Faça que eu corrijo no final da próxima aula, pode ser? – Ele lhe entregou uma folha com os exercícios e ela guardou dentro do seu fichário.
- Pode sim! Obrigada, professor. Até quinta. – Ela se levantou e acenou para Alisson e ele sorriu, acenando de volta. – Tchau, gente!
- Tchau! – Alisson falou meio apaixonado, apoiando a cabeça na mão.
- Vamos para você, Alisson. – O professor mudou de cadeira, se sentando na frente do aluno mais velho. – Qual sua dúvida?
- Eu vou ser bem honesto contigo, professor. – Ele fez uma careta. – Eu vim aqui só para ficar perto da e agora que ela foi, eu... Bem...
- Ah, Becker, tu não vais levar bomba de novo, não é? – Ele fez uma careta e o professor revirou os olhos.
- Para começar que eu só reprovei em biologia, química eu fui bem...
- Vai, Becker. Vai atrás dela! – O professor falou sem paciência e o mais novo sorriu, colocando a mochila nas costas.
- Valeu! – Ele falou, seguindo correndo para o portão lateral da escola, passando pelo mesmo e vendo andando pela calçada.
- ! – Alisson a chamou, vendo-a virar para trás e desacelerou a correria ao seu lado.
- Oi, Alisson. – Ela falou.
- Posso te acompanhar até sua casa? – Ele perguntou e ela deu um pequeno sorriso.
- Claro! – Ela confirmou com a cabeça. – São só alguns quarteirões daqui.
- Não tem problema. – Ele falou, seguindo ao lado dela. – Posso levar seu fichário? – Ele perguntou e ela ponderou um momento e esticou o objeto.
- Valeu. – Ela falou, ajeitando as alças da mochila. – Então, meu pai disse que você foi convocado para a Seleção Brasileira Sub-17, é verdade?
- É sim! – Alisson sorriu.
- Nossa, Alisson! Isso é ótimo! – Ela falou animada. – Meus parabéns, mesmo! Meu pai fala que você é muito bom! – Ele sorriu.
- Obrigado! – Seu sorriso era largo e ele queria abraçá-la. – Fiquei bem feliz quando me disseram, nunca que eu imaginaria!
- Isso quer dizer que sua carreira está indo bem. – Ela falou.
- Sim! Estou animado! Vai ser na Nigéria e eu nunca saí do país. – Eles riram juntos.
- Depois quero saber como foi, nunca saí do país também.
- Prometo que te conto quando voltar. – Sorriam juntos.
- Quando vai? – Ela perguntou.
- Dia 20 de outubro, tem tempo ainda, vou perder um mês de aula... Bem, isso se a gente passar da fase de grupos. – Sorri.
- Você vai se dar bem. – Ela riu, abaixando a cabeça.
- Obrigado! – Sorri. - E você?
- O quê? – Ela se virou para ele.
- Você canta, não canta? – Ela franziu a testa.
- Como você sabe?
- Acho que todo mundo já te viu cantando no festival da escola, até meus pais já comentaram comigo. – Ela sorriu, ficando envergonhada. – Você quer seguir a carreira?
- Nunca pensei nisso. – Ela deu de ombros. – É um hobby para mim, ser a melhor no karaokê sempre. – Ele riu. - Por enquanto eu vou prestar vestibular.
- Vai prestar para o quê?
- Eu não sei ainda, para falar a verdade. – Ela coçou a cabeça e ele riu. – Eu coloquei humanas no ENEM, mas as inscrições dos vestibulares estão se aproximando e eu não faço a mínima ideia do que colocar. – Ela suspirou e se virou para ele. – E você? Pretende fazer alguma faculdade ou agora que você representa a seleção vai focar nisso? – Ele riu fraco, negando com a cabeça.
- Eu só vou prestar o ENEM esse ano porque a escola não para de martelar a gente com isso, mas eu vou ver o que vai acontecer depois desse mundial e aí eu me decido. – Ela confirmou com a cabeça, apontando para uma casa de dois andares branca do outro lado da rua.
- É aqui! – Ela falou e eles atravessaram juntos. – Tá certo! Tem que fazer o que te faz feliz. – Ela sorriu e ele devolveu o fichário para ela. - Obrigada pela companhia.
- Não precisa agradecer. – Ele sorriu. – A gente podia combinar de sair um dia desses. Tomar um sorvete ou quem sabe você ir assistir a um jogo meu. – Ele falou. – Bom, se você gostar de futebol, é claro.
- Eu nunca liguei, para falar a verdade. E não entendo nada. – Ela falou sincera.
- Se você conhecer minha família, isso vai mudar rapidamente, todos respiramos futebol. – Ela abriu um largo sorriso.
- Por que não? – Ela deu um sorriso que o deixou feliz. - Quer anotar meu celular?
- Claro! – Ele falou, pegando o aparelho da mochila e entregou a ela que digitou rapidamente no mesmo e o devolveu.
- A gente se fala, então. – Ela sorriu e ele se aproximou da mesma rapidamente, dando um beijo em sua bochecha, fazendo-a ficar vermelha e ele dar um largo sorriso.
- A gente se fala. – Ela acenou e empurrou o portão de sua casa, entrando rapidamente pela porta, deixando Alisson com um largo sorriso no rosto.
Assim que a moça fechou a porta, ele segurou nas alças de sua mochila e deu um giro animado na frente da casa da menina e parou em seguida, sentindo tontura. Ele pegou seu celular e discou um número rapidamente, aguardando no portão da casa de que o atendessem.
- Pai? Pode vir me buscar? – Ele perguntou, ouvindo a voz do pai do outro lado da linha.



Capítulo 01

ELA


Ouvi o despertador tocar e não precisei nem olhar para ele para saber que ainda era cinco e meia da manhã. Deslizei a mão pelo celular e me sentei na cama, sentindo a cabeça pesar, resultado de nunca dormir as horas necessárias. Joguei a pesada coberta para o lado e saí da cama, encaixando os pés nos chinelos felpudos.
Segui para o banheiro gelado e tirei o chinelo, pijama e meias e entrei direto no banheiro, me mantendo afastada da queda do chuveiro quando o primeiro jato gelado caiu. Logo a água quente começou a embaçar o banheiro e eu entrei confortavelmente embaixo da mesma, sentindo meu corpo relaxar.
Demorei o suficiente embaixo do chuveiro e, quando saí, puxei a toalha felpuda e me embrulhei na mesma, correndo de volta para o quarto para ficar protegida pelo aquecedor ligado. Me sequei com menos pressa e enrolei a toalha no cabelo molhado antes de seguir para meu closet à procura de uma roupa para o dia.
As luzes se acenderam sozinhas quando eu entrei no mesmo e observei as diversas prateleiras e cabides com roupas, sapatos e bolsas separados por cor, modelo e marca. Passei as mãos nas escolhas e inicialmente peguei um meia-calça preta fio 150 e a coloquei, desenrolando-a lentamente até chegar em meu quadril.
Voltei para o banheiro sentindo o gelado do mesmo se misturar com o embaçado, escovei os dentes e conectei o secador na tomada, ligando-o e pegando uma escova grossa, começando a fazer uma escova em meus cabelos, deixando-o cair em ondas sob meus ombros. Após finalizar, peguei minhas maquiagens e fiz com que as olheiras pretas de cansaço sumissem com bastante corretivo, base, pó e depois trabalhei em um olho leve e um batom rosado nos lábios.
Voltei para o closet e escolhi um tubinho preto da Michael Kors e um sobretudo vermelho de lã da Burberry. Coloquei algumas pulseiras, alguns anéis e meu anel de formatura com uma pedra de safira azul. Segui para os sapatos e escolhi um peep toe preto do Christian Louboutin e os calcei.
Fui para as prateleiras de bolsas e peguei uma de couro preto da Balenciaga e a apoiei na escrivaninha que tinha dentro do closet, colocando o que estava acumulado em cima dela do dia anterior: carteira, documentos, iPad e pastas do trabalho. Voltei para o quarto, pegando meu celular onde o havia deixado e o joguei na bolsa também.
Parei na frente do espelho e me olhei rapidamente, feliz com o resultado. Joguei os cabelos castanhos para trás e atravessei meu apartamento a passos largos. Enquanto descia pelo elevador, mandei mensagem para o motorista informando-o que já estava descendo. Cumprimentei alguns conhecidos e apoiei os braços na bancada quando parei na portaria.
- Buongiorno, signorina . – Sorri para o porteiro.
- Buongiorno, Matteo. – Coloquei meu italiano para funcionar. – Deixei meu apartamento aberto, Sandra disse que vem limpá-lo hoje, poderia indicar o caminho para ela? – Tirei alguns euros da carteira e entreguei ao mesmo.
- Claro! Com certeza! – Ele sorriu guardando o dinheiro na gaveta. – Aqui suas correspondências. – Ele me entregou um calhamaço de coisas como sempre, e eu sorri para ele.
- Grazie! – Falei, acenando e saindo do apartamento.
Um carro preto com bandeiras do Brasil e da Itália me esperavam já colados à porta, afinal, as ruas eram bem estreitas para que dois carros passassem. Entrei na mesma rapidamente e o motorista saiu antes que eu o cumprimentasse.
- Buongiorno, Filippo.
- Buongiorno. – Ele respondeu. – Vamos direto à embaixada?
- Não podemos nos esquecer do café do senhor Miguel. – Falei, checando as notificações do meu celular.
- E o seu também, imagino! – Ri fraco, sorrindo para o motorista.
- Por favor! – Sorri, voltando a prestar atenção no aparelho em minha mão.
Eu moro em Trevi, um dos 22 riones de Roma. Fica localizado no centro histórico da cidade e é um dos bairros mais famosos, afinal, é aqui que está localizado a Fontana di Trevi e o Palazzo del Quirinale, então acabo lidando e encontrando com turistas o dia inteiro.
O caminho de casa ao trabalho demorava cerca de 15 minutos, mas tinha alguns cantos com trânsito um pouco mais intenso, então tudo ficava levemente caótico. Peguei o café do senhor Miguel na Lungotevere Marzio, grande avenida que beirava o rio Tibre, e seguimos para a embaixada brasileira na Itália.
Ela fica localizada na Piazza Navona, uma das praças mais conhecidas aqui da cidade, foi até locação do filme “Anjos e Demônios”, adaptação de Dan Brown, anos atrás. Além da embaixada brasileira, ficava também Fontana del Moro, a Fontana dei Quattro Fiumi, a qual o último cardeal é jogado no filme, e a Fontana del Nettuno.
- Posso te deixar aqui? – O motorista me perguntou. Como já era de se esperar, a entrada para a Piazza estava abarrotada de turistas, era sexta-feira.
- Pode sim, Filippo. Grazie! – Falei, ajeitando minha bolsa no ombro e descendo na Via di Pasquino mesmo.
- Que horas te pego? – Suspirei com essa pergunta.
- Não sei, eu vou me virar na Piazza para almoço e te aviso quando sair, qualquer coisa pego um Uber. – Ele assentiu com a cabeça.
- Buon lavoro! – Ele disse e eu fechei a porta, segurando os cafés, a embalagem com alguns cannolis e minha bolsa, e coloquei meus saltos para andar nas ruas de paralelepípedo.
Estávamos no fim do inverno aqui em Roma, mas no começo da semana aconteceu uma nevasca, que mesmo caindo por cerca de 15 minutos, deixou as ruas esbranquiçadas. Alguns dias depois, as ruas ainda estavam cheias de neve, mas muita já tinha derretido, fazendo com que os córregos da cidade ficassem cheias de água e tudo grudento e gelado.
Eu odiava o frio, Roma dificilmente me decepcionava, mas as vezes acontecia e precisava me virar com isso. Pelo menos deixava a cidade mais bonita do que antes. Isso até eu tinha que assumir.
Passei os olhos rapidamente pela Piazza, vendo diversas famílias andando pelo local e segui em direção ao Palácio Pamphilj, Consulado Geral do Brasil em Roma. Era pouco depois das sete, então as portas ainda estavam fechadas para visitação ou atendimento do público, mas foi só eu empurrá-la com minhas costas que a pesada porta cinza se abriu.
Lá dentro eu estava em solo brasileiro novamente, fazia com que eu me sentisse mais perto de casa. Cumprimentei as poucas pessoas que já estavam trabalhando e segui escadas acima em direção ao gabinete do embaixador. Passei rapidamente pela área de comunicação, sorrindo para os empregados que tinham madrugado como eu e ouvi passos rápidos e vi Antonela aparecendo na minha visão periférica.
- Buongiorno! – Falei para ela que correu pegar minhas correspondências.
- Buongiorno. – A italiana falou. – Tem algo que eu possa fazer por você hoje, ?
- Só dá uma olhada nessas correspondências, por favor. Veja o que é para o embaixador e o que é para mim. – Respondi, entrando na antessala do gabinete do embaixador e coloquei os cafés, o saco com os cannolis e minha bolsa em cima da mesa. – Ele já chegou? – Perguntei apontando a cabeça para a porta fechada.
- Já estava aqui quando eu cheguei! – Ela respondeu e eu franzi a testa, vendo-a arquear os ombros e se afastar.
- Me chame se precisar de algo!
- Pode deixar! – Respondi e respirei alguns segundos, dando uma rápida olhada na decoração clássica e antiga da minha sala e suspirei, nem parecendo que era de alguém que tem um dos melhores empregos do mundo e somente 25 anos de idade.
Tirei meu casaco, pendurando-o na poltrona apoiada em minha mesa e apertei o botão, ligando o computador. Puxei minha agenda da bolsa que já estava aberta no dia de hoje, ela estava cheia de compromissos e eu precisava organizar isso e fazer ligações de confirmação para não ter dor de cabeça mais tarde.
Peguei o café com o nome de Miguel e separei um cannoli no guardanapo para ele e segui para sua sala. Dei dois toques na porta, antes de empurrar a mesma com o corpo novamente, ficando levemente cega com todas as luzes ligadas.
- Bom dia, Miguel! – Voltei à minha língua materna, olhando sua mesa vazia e ouvi um barulho de algo picado e o encontrei ao lado do picador de papel. – Gostaria que eu fizesse isso para você?
- Ah, , você já chegou? – Ele falou, parecendo visivelmente cansado e eu apoiei o café e o cannoli em sua mesa.
- Sim, depois de você, o que é algum tipo de milagre! – Brinquei e ele riu, passando a mão na testa visivelmente suada e eu morrendo de frio.
- Eu precisava finalizar algumas coisas, acabei vindo mais cedo. – Assenti com a cabeça.
- Vejo que está picando alguns papéis, quer que eu faça isso por você? – Perguntei.
- Não, obrigado. Já estou finalizando. – Assenti com a cabeça.
- Eu vou organizar sua agenda e volto em 30 minutos para uma reunião, pode ser?
- Combinado! – Ele falou como todas as manhãs e eu assenti com a cabeça.
- Qualquer coisa estou lá na frente.
- Obrigado, ! – Sorri e saí da sala, puxando a porta em seguida.
Voltei para minha mesa e coloquei minha bolsa no móvel ao lado e encarei o computador por um momento antes de começar a organizar a agenda do embaixador. Ele tem uma reunião com o presidente italiano, Sergio Mattarella, e outros embaixadores e eu teria que acompanhar. Respirei fundo e já imaginava o quão longa seria essa reunião e aposto que teria um jantar para acompanhar. Não chegaria em casa antes da meia-noite hoje.
Não fazia nem 20 minutos que eu tinha começado o trabalho quando ouvi passos altos pelos corredores da comunicação e sabia que já vinha bomba para eu lidar logo cedo. Antes que Antonela aparecesse por aquela porta eu beberiquei um pouco do café, respirando fundo.
- ! – Antonela entrou apressada e eu me levantei.
- O quê? – Apoiei as mão na mesa.
- A Polizia di Stato e a Interpol estão aqui. – Franzi a testa, saindo de trás da mesa.
- O quê? – Me assustei.
- Eles estão entrando no prédio agora.
- O que aconte... – Fui interrompida.
- ... – O embaixador apareceu na porta da sua sala. – Cancele meus compromissos de agora cedo, sim? Não quero receber nenhuma visita.
- Hum, senhor... – Falei, movimentando as mãos enquanto pensava em uma forma de explicar isso a ele.
- Sim? – Ele perguntou.
- Signor Miguel Pereira? – Me assustei com a pessoa na porta, vendo cerca de quatro oficiais das duas polícias entrarem no meu escritório.
- Sim... – Observei o embaixador afrouxar a gravata e nesse momento eu soube que estavam atrás dele.
- O senhor está preso por suspeita de desvio fiscal. – Arregalei os olhos, surpresa e me afastei quando os oficiais se aproximaram do meu chefe, ou ex-chefe, quando ele tentou correr para dentro do seu gabinete novamente, mas em vão, já que não tinha por onde ele sair.
- Temos mais dois mandatos de prisão e um de busca e apreensão para cumprir aqui. – O policial falou para mim e Antonela, me esticando três papéis. – O conselheiro fiscal, João Neves...
- Ele fica no andar de baixo. – Falei rapidamente. – Podemos te levar a ele.
- Certo e a adido . – Arregalei os olhos e senti meu coração parar por um momento.
- O quê? – Gritei, sentindo Antonela apoiar em meus ombros. - Eu? – Respirei fundo.
- Você está presa por cumplicidade no crime de fraude fiscal do senhor Miguel Pereira! – Ele falou, já me puxando pelos braços e me algemando.
- Mas eu não fiz nada, eu não sei de nada! – Falei, sentindo-os me puxarem e tudo começou a passar muito devagar.
Enquanto tentava lutar contra eles, eu era puxada embaixada abaixo, sendo presa por algo que eu não fazia a mínima do que eu tinha feito. As pessoas lá de dentro e lá de fora, me encaravam como se eu fosse um monstro e cochichavam às minhas costas. Um ano e meio em um cargo de confiança e agora sendo enfiada dentro do carro da Interpol por algo que eu tinha certeza que eu não tinha feito, não importava o que fosse.
Eu cansei de gritar com eles alguns minutos depois, eu não tinha feito nada, mas eles achariam algo para me incriminar se eu continuasse falando, então somente abaixei a cabeça no carro e respirei fundo, sentindo algumas lágrimas começarem a escorrer de meu rosto. O que estava acontecendo?
- Você tem o direito a um advogado, caso não tenha, o Estado lhe indicará um. – O oficial falava enquanto me tirava do carro e me levava para dentro da delegacia.
- Mas eu não fiz nada, oficial! – Falei baixo, tentando me manter mais calma do que antes, mas meu peito parecia uma escola de samba.
- Fique aqui! – Ele me colocou em frente a uma parede e um flash estourou em minha cara, me deixando cega. – Venha! – Ele me puxou novamente.
- Eu não fiz nada, caramba! – Reclamei novamente.
- Se isso for verdade, a justiça provará! – Ele disse e me arrepiei a ver uma pequena cela nos fundos da delegacia, onde outras mulheres estavam. – Mas você ficará aqui até que se prove isso! – Ele disse me puxando pelas mãos e tirando as algemas da mesma. – Em breve te chamaremos para você fazer uma ligação. – Ele me disse, me empurrando para dentro da cela e ouvi seu barulho metálico quando ela se fechou.
- Mas... – Falei confusa.
- Eu pegaria logo um espaço, o dia só está começando! – Ele disse apontando para dentro da cela e se retirou, me fazendo respirar fundo.
Virei para trás, vendo cerca de cinco mulheres de todos os jeitos e traços me encarando e olhei para minhas roupas, péssima escolha que eu tinha feito hoje. Me virei novamente para a frente, vendo alguns oficiais passarem por ali e soltei o ar lentamente, me vendo literalmente presa dentro de uma cela.

ELE


Procurei pela chave de casa e coloquei na porta, destravando a mesma e a abri, empurrando-a o suficientemente para que Natália entrasse no apartamento com Helena que dormia em seu colo após 16 horas de voos e conexão. Entrei logo atrás com minha mala de rodinhas.
- Amanhã cedo eu arrumo minhas coisas e vou embora o mais rápido possível. – Ela disse e eu suspirei.
- Você não precisa ir embora. – Passei a mão na cabeça, tirando o boné. – Eu posso encontrar outro lugar.
- É melhor não adiarmos isso. – Ela deu um sorriso de lado e eu assenti com a cabeça. – Afinal, eu vou voltar para Porto Alegre, você vai continuar aqui.
- Ok. – Falei ao não encontrar palavras melhores e olhei para minha filha que começava a se mexer em seu colo e eu estiquei minhas mãos para ela vir para o colo do pai.
- Eu falo para sua mãe trazê-la quando vier e você pode visitá-la quando for para Porto Alegre. – A segurei em meus braços, vendo-a abrir um largo sorriso ao me ver. – Pelo menos até ela crescer e podermos lidar melhor com isso. – Assenti com a cabeça.
- É! – Falei e me sentei no sofá da sala. – Eu vou ficar com ela enquanto você se organiza.
- Obrigada! – Ela disse e pareceu um tanto perdida com sua mala e a bolsa de Helena, mas logo puxou todas para dentro do nosso quarto e eu apoiei as costas do encosto do sofá, encarando aquela preciosidade loira que eu não teria mais em meus braços todos os dias.
A vontade de chorar veio instantaneamente, mas eu não queria perder meus últimos dias com Helena chorando e demostrando para Natália a falta que ambas fariam para mim. Eu não daria esse gosto a ela, tinha sido culpa dela tudo isso que aconteceu, mas agora era tarde. Os papéis já tinham sido assinados e em poucos dias elas iriam embora, me deixando aqui em Roma para continuar meus compromissos com meu time.
- Papai te ama, ok?! – Falei para Helena que me olhava curioso. – A gente vai fazer isso dar certo e eu não vou perder nenhum momento importante da sua vida, ok?! – A apoiei em meu peito e escorreguei as costas no sofá, me deixando levemente inclinado.
Suspirei enquanto ouvia os passos de Natália passando pelos cômodos da casa em busca de suas coisas e tentei prestar atenção rapidamente em algumas pessoas que eu seguia no Instagram. Outros jogadores, cantores famosos e poucos amigos da época que eu morava no Brasil. Amigos que eu gostava de rever quando voltava para casa.
Assim que Helena caiu no sono pesado, achei que estava na minha hora de me organizar também. Era segunda-feira e amanhã teria o primeiro jogo das oitavas de final da Liga dos Campeões na Ucrânia e, para ajudar, eu ainda não descansei do jogo de sábado contra o Udinese pelo campeonato italiano. O jogo foi fora de casa e ganhamos de dois a zero, mas eu tive que ir para Porto Alegre para resolver os papéis do divórcio.
Aproveitei que Natália saiu do quarto e peguei meu travesseiro e algumas cobertas para lidar com o frio que fazia na cidade. Não era muito comum nevar na cidade, mas dessa vez Roma tinha se superado. Eu já estava acostumado com o frio, mas para jogo era complicado, tudo ficava meio duro e gelado, fazia com que a gente se desgastasse muito mais.
- Boa noite, minha filha! – Dei um beijo na testa de Helena, cobrindo-a com a coberta e suspirei, saindo do quarto dela e dando de cara com Natália.
- Eu fico aqui com Helena, pode dormir na cama.
- Não se preocupe com isso. – Desviei dela para passar pela porta e segui para o banho.
Não enrolei muito no banho e já saí pronto para dormir. Eu deveria comer algo, mas meu estômago borbulhava de uma forma que eu sabia que qualquer coisa que eu comesse sairia com a mesma velocidade.
Puxei a parte retrátil do sofá, deixando-o mais confortável e liguei a televisão, vendo alguns dos desenhos que Helena assistia passar na TV a cabo. Bufei e dei alguns socos no travesseiro, tentando afofá-lo e apoiei a cabeça no mesmo, tentando relaxar.
Natália não apareceu mais naquela noite e Helena também não deu motivos para que eu fosse em seu quarto e, apesar de tudo isso, eu ainda não consegui dormir. Tinha muita coisa acontecendo nesses dias, mas agora com a finalização do divórcio, eu tinha que focar no time, tinha que arranjar motivos que me inspirasse a ser sempre melhor e quem sabe trazer grandes campeonatos para a Roma? Além da Copa do Mundo se aproximando e as grandes chances de eu representar meu país na Rússia.
Quando o despertador tocou no dia seguinte, eu ainda encarava o teto de casa. Me levantei devagar, empurrando as cobertas para o lado e fiz minha reza rápida e silenciosa de todas as manhãs. Segui direto para meu quarto, observando Natália dormindo na cama de solteiro que tinha no quarto de Helena e olhei rapidamente para ambas por um momento, abanando a cabeça e entrando em meu quarto.
Fiz minha higiene matinal, mas pulei o banho naquela manhã, só queria pegar minhas coisas e seguir logo para o treino, tinha reunião com a equipe técnica cedo. Olhei para meu rosto no espelho e estava precisando fazer a barba, mas não seria naquele momento.
Voltei para o quarto trocando o pijama por calça e casaco de moletom, com uma camisa de manga comprida neutra por baixo e um boné, e peguei minha mochila atrás da porta. Passei pelo quarto de Helena e entrei lentamente no mesmo, apesar de suspeitar que Natália também estivesse acordada e dei um rápido beijo na testa de minha filha, deixando-a dormir mais um pouco.
Puxei a porta e fui para a cozinha, à procura do meu companheiro de todos os dias. Peguei a chaleira e enchi de água, colocando-a em cima da boca do fogão e aguardando que ela esquentasse. Enquanto isso acontecia, peguei o pote com erva mate verde e coloquei em cerca de 2/3 da cuia, apoiando a mão na boca e inclinando-a para o lado, para que ela se ajeitasse de um lado só da mesma. Dei umas batidinhas na mesma e a coloquei novamente na vertical.
Tirei a chaleira do fogo e coloquei um pouco dentro da cuia para que ela umedecesse e inchasse a erva e coloquei a chaleira novamente no fogo, esperando que ela esquentasse um pouco mais, mas sem ferver. Segui até o escorredor de pratos e peguei o copo térmico e sua tampa que tinha ali.
Quando a chaleira começou a chiar baixinho, eu tirei-a do fogo e enchi a cuia e o copo térmico, fechando-o rapidamente. Peguei a bomba e tapei o bocal com a mão, enfiando-a na cuia, no meio da erva, deixando com que a mesma assentasse bem. Dei um gole na mesma, respirando fundo e suspirei. Que comece o dia!
Ajeitei a mochila nas costas e segurei a cuia e a térmica com as mãos. Peguei a chave do carro com certa dificuldade e fechei a porta com mais ainda, mas eu conseguia fazer isso todos os dias e hoje não seria diferente, com um pouco de equilíbrio tudo se ajeitava. Mesmo que as coisas não estivessem muito equilibrada nos últimos dias.
Cheguei na garagem e entrei em meu Porsche prata, sem ânimo para postar uma selfie diária no Stories do Instagram. Coloquei a cuia entre minhas pernas, segui para fora da garagem e dirigi os habituais 30 minutos entre Olgiata, meu bairro aqui em Roma, e o Centro de Treinamento da Roma em Trigoria, dando goles esporádicos no mate.
Entrei no CT sem precisar me identificar e fiquei aliviado por não ter torcedores acumulados na entrada, pelo menos hoje. Havia chegado mais cedo que o previsto, então não tive problemas em encontrar vaga para estacionar. Finalizei minha primeira cuia do dia ainda no carro o que facilitou minha saída, menos chances de derrubar coisas quentes em mim.
Saí do mesmo e segui para dentro do CT. Cumprimentei as poucas pessoas que já chegaram e começavam a trabalhar e passei pelo caminho de sempre até o vestiário vazio. Coloquei minha cuia e o copo térmico no canto do meu armário e comecei a tirar minha roupa e tênis, vendo a roupa já separada para o treino hoje.
Calça de frio verde por baixo, a convencional azul de treino da Roma por cima, uma segunda pele por baixo e a de manga comprida azul da Roma por cima de tudo. Calcei minhas chuteiras laranja da Nike e por conta optei pelo protetor de boca e o gorro vermelho e amarelo do time para proteger minhas orelhas.
Me sentei novamente no vão do meu armário e enchi a cuia novamente, sugando mais um pouco do mate que ainda borbulhava dentro da mesma e fechei os olhos por alguns segundos, aguardando a chegada dos outros jogadores e do treinador para que o treino começasse.
- Alguém madrugou hoje! – Ouvi um sotaque mineiro e ergui o rosto, vendo Juan aparecer no vestiário e me cumprimentar rapidamente.
- Não dava para ficar em casa. – Nos abraçamos rapidamente e ele seguiu para quatro armários ao lado.
- Como foi lá no Brasil? – Ponderei com a cabeça.
- Sem grandes surpresas. – Falei. – Nos encontramos com os advogados, eu assinei os papéis e acabou. – Ele fez um muxoxo com a boca.
- Não conversou com ela? – Bufei, balançando a cabeça.
- Eu não quero encontrar mais motivos ou desculpas para isso. Ela me pediu, eu aceitei. Minha mãe sempre dizia que “quando um não quer, dois não brigam”. – Arqueei os ombros. – Ela não quer, eu não vou brigar. Agora é tentar seguir em frente.
- Vai dar certo, amigo! – Ele falou com um sorriso no rosto e eu tentei imitá-lo, respirando fundo.
- Sempre dá! – Suspirei.
- E Helena? – Ele perguntou e eu dei mais um longo gole na cuia.
- Ela só tem 10 meses, ela vai ficar com a Nat... – Engoli em seco. – Com a Natália até que tenha idade suficiente para... – Abanei as mãos, rindo fraco. – Não sei! Para escolher com quem ela quer ficar ou dividirmos a guarda entre dois países. – Suspirei, coçando a cabeça e mexendo no gorro. – As opções não estão muito ao meu favor.
- Vai dar certo, irmão! – Juan falou. – Tudo no começo é mais difícil, ao longo do tempo as coisas vão se ajeitando. – Assenti com a cabeça.
- Minha mãe vem em algumas semanas me visitar e disse que traz ela, quando eu for para Porto Alegre também posso ficar com ela... – Ponderei com a cabeça. – Foi a melhor solução que encontramos para agora.
- Tente esquecer isso um pouco, focar no time, tentar focar na sua vida pessoal de novo... – Ri fracamente.
- Só você para pensar em mulher em uma hora dessas. – Ele deu de ombros.
- Eu não disse “mulher”, disse “vida pessoal”, você que está interpretando dessa forma. – Revirei os olhos, ouvindo sua gargalhada pelo vestiário.
- Buongiorno! – Ergui o rosto, vendo outros jogadores começarem a entrar no vestiário e me levantei para cumprimentá-los: Stephan El Shaarawy, Lorenzo Pellegrini, o também brasileiro Gerson, e outros que vinham aparecendo, incluindo o capitão do time, Danielle De Rossi.
- Como está tutti? – De Rossi se aproximou de mim, me abraçando e eu ponderei com a cabeça.
- Bene. – Falei fracamente e ele assentiu com a cabeça, dando leves tapas em meu peito.
- Tudo vai melhorar no seu tempo. – Concordei, sorrindo.
- Obrigado, capitano. – Dei uns tapinhas em suas costas e ele se afastou.
- Vamos ganhar uns campeonatos e eu aposto que isso fará com que se sinta melhor. – Rimos juntos.
- Aposto nessa também! – Sorrimos juntos e ele saiu para cumprimentar os outros membros do time.
- Buorgiorno a tutti! – Di Francesco, técnico do time, entrou no vestiário. – Se arrumem e nos encontramos em 20 minutos no campo. – Ele bateu as mãos rapidamente.
- Vamos trabalhar! – Juan falou e eu assenti com a cabeça, respirando fundo.

ELES


suspirou entediada no carro, passando as mãos uma na outra, sentindo-as suarem, mesmo com o tempo gelado lá de fora. Ela abriu a janela quando viu o estádio Beira-Rio se abrir diante de seus olhos e o ar gelado bagunçou seus cabelos castanhos. Apesar da longa viagem de 40 minutos, ela sentia que tinha valido a pena.
- Qual é essa rua? – Sua mãe perguntou, enquanto tentava olhar o nome da longa avenida.
- A gente combinou na Edvaldo Pereira Paiva. – A mais nova disse enquanto olhava as informações no papel que Alisson tinha lhe dado e sentiu seu corpo dar um solavanco quando sua mãe freou bruscamente no meio da rua. – Mãe! – Ela reclamou, feliz por estar de cinto de segurança.
- Desculpa! – Ela falou fazendo careta. – Estamos na rua certa. – Ela disse calmamente, dirigindo mais devagar, entrando em uma rua adjacente e depois passando por alguns estacionamentos beirando o grande estádio. – Aonde vocês combinaram de se encontrar?
- Na frente da capela! – disse, procurando o local com o olhar quando sua mãe freou bruscamente de novo. – Mãe! – Ela reclamou novamente e sua mãe gargalhou.
- Eu perdi 40 minutos do meu dia te trazendo aqui, não reclame! – Ela riram juntas e negou com a cabeça. – Aqui está, criança! – Senhora puxou o freio de mão e virou para seu lado, percebendo que Alisson já estava ali com a camisa vermelha do Internacional. O garoto percebeu o olhar da garota e seus olhares se encontraram. – É ele? – A mãe perguntou e a empurrou com o ombro para trás.
- É! – Ela disse fracamente e sua mãe riu.
- Ele é lindinho! – Ela cochichou próxima do ouvido da filha.
- Mãe! – reclamou novamente.
- O quê? – Sua mãe ergueu as mãos, apoiando-as novamente no volante.
se atreveu a virar o rosto para a janela do seu lado novamente e percebeu que seu encontro estava com o cabelo raspado e tinha um tímido sorriso no rosto enquanto lhe encarava. A mais nova mordeu o seu lábio inferior envergonhada e se virou para sua mãe que lhe cutucou.
- Eu vou ficar no shopping com Vanessa até as oito, caso queira carona de volta, me ligue antes disso, combinado? – confirmou com a cabeça.
- Combinado, mãe! – Ela falou sorrindo e virou o corpo, pegando sua bolsa no banco de trás.
- Divirta-se, ok?! E cuidado! – A mais nova franziu a testa ao olhar para ela.
- Mãe, você não está falando de...
- Sim, estou! – fez uma careta, franzindo completamente seu rosto.
- É a primeira vez que a gente sai junto, mãe! – A garota disse um pouco mais alto.
- Isso não impediu eu e seu pai...
- Ah! – Ela colocou as mãos nos ouvidos por alguns segundos, querendo fugir daquela história. Abriu a porta e colocou seu corpo para o lado de fora o mais rápido possível, batendo a porta em seguida.
- Me liga, ok?! – Sua mãe falou abaixando o vidro.
- Tá bem, mãe! – suspirou. – Posso ir agora?
- Não vai nos apresentar? – Sua mãe a provocou e revirou os olhos.
- Mãe! – falou cosquenta para sair dali.
- Tchau, sua chata! – Sua mãe falou acenando e tirou o carro dali o mais rápido possível, fazendo com que a menina respirasse mais aliviada, relaxando os ombros.
Ela se virou novamente para Alisson em frente à capela e o garoto alto olhou rapidamente para os dois lados da rua e a atravessou, seguindo em direção à menina que mantinha as duas mãos enfiadas no bolso do casaco.
- Oi! – Ele disse e a menina mordeu o lábio inferior levemente.
- Oi! – Ela disse, não sabendo como agir, o garoto se viu na mesma situação, mas se aproximou da menina, fazendo-a seguir o movimento e trocaram rapidamente um beijo na bochecha.
- Está com frio? – Ele perguntou, notando seu moletom fechado até em cima e as mãos afundadas no mesmo.
- Desde o dia em que eu me mudei para Nova Hamburgo! – Eles riram juntos.
- Ah, nem tá uma friaca! – Ele abanou a mão e fez um movimento com a cabeça, pedindo-a para andar com ele.
- Friaca? – Ela repetiu, olhando para ele. – Ah, frio, você quer dizer? – Eles riram, fazendo com que ele desse de ombros.
- É expressão aqui do sul! – A menina sorriu, andando ao lado dele.
- Não temos isso em Brasília. – Ela falou baixo, rindo em seguida. - Mas, então, aqui é o seu lugar feliz? – Ela mudou de assunto, observando o entorno do estádio vazio naquela sexta-feira a tarde.
- Acho que é meu lugar favorito no mundo inteiro. – Ele disse sorrindo. – Foi muito difícil chegar aqui? – Ele virou para ela. – Sei que é meio longe, mas... – abanou a mão, negando com a cabeça.
- Não, foi tudo certo. Minha mãe tem uma amiga em Porto Alegre, elas vão dar uma volta no shopping. – Ele assentiu com a cabeça e passamos para a área coberta do estádio.
- Eu te chamaria para vir com a gente, mas saí da escola e vim direto para cá.
- Não se preocupe! – Ela riu fraco. – Agora, por que você quis me encontrar fora de Nova Hamburgo? Querendo me esconder da família? Ou das vizinhas fofoqueiras? – Eles gargalharam juntos, sorrindo em seguida.
- Bom, eu te trouxe aqui porque está tendo treino do time principal para o jogo de domingo. Você disse que não gostava de futebol, então, achei que podia te mostrar um pouco.
- Eu não disse isso! – Ela disse, fazendo-o rir. – Só não ligo muito. – Alisson riu enquanto reparava em todos os detalhes do estádio, até ficando um pouco para trás.
- Quem sabe você não começa a ligar um pouco? – Ele disse e ela sorriu.
- Legal! – Ela respondeu animada. – Você me mostra algo que você gosta, depois eu te mostro algo que gosto.
- Vou gostar disso! – Ele disse e se viram nas partes privadas do estádio, onde parecia que Alisson tinha liberdade para ir e vir.
Eles entraram por um longo corredor, fazendo com que a visão da menina ficasse escura por um momento, mas logo clareou e ela se viu no gramado do estádio. Apesar de nunca ter se ligado em futebol e nem criado paixão por algum time, ela se sentiu abismada com o tamanho daquilo. Se sentia uma formiguinha com a imensidão.
Dentro do campo, alguns jogadores se mexiam de um lado para o outro, aparentemente em um aquecimento com materiais organizados no campo. Em um dos campos, os goleiros faziam outro tipo de treinamento e próximo de onde e Alisson estavam, os técnicos e equipe técnica conversavam.
- Ah, falando nisso... – Alisson falou após alguns segundos. – Meu irmão é o terceiro goleiro! – Alisson disse, deixando a garota estática e ela se virou para ele, sem palavras, observando-o subir alguns degraus da arquibancada.
- Irmão? – Ela falou, seguindo-o apressada, quase se desequilibrando nos degraus, e parou no que Alisson entrou, se sentando em uma das cadeiras.
- Sim, irmão! – Ele disse esticando as pernas na cadeira da frente e a garota andou na fileira, se sentando ao seu lado.
- E eu briguei com minha mãe quando ela falou se podia te conhecer. – Ele riu ao seu lado, enquanto mexia em sua mochila.
- Um pouco cedo para churrasco em família? – Ele perguntou, tirando um saco de amendoim da bolsa e abrindo-o, esticando para a menina que pegou alguns.
- Acho que sim! – Ela respondeu rindo. – Obrigada. – Disse, antes de jogar alguns na boca. – Você joga aqui? – Ela perguntou, erguendo os olhos para cima, feliz por estarem do lado com sombra, mas triste por estar congelando como um picolé.
- Não, não! – Ele riu fraco. – Só venho ver o Muri jogar. – Ela assentiu com a cabeça. – Meu sonho é ser goleiro do Inter um dia. – Ele disse em tom sonhador, fazendo a menina abrir um largo sorriso. – Usar a camisa número um, jogar na mesma posição que Taffarel jogou um dia. – Ele virou para ela, notando que estava falando demais e riu fraco. – Desculpe.
- Não! – Ela disse. – Você tem um sonho, uma meta! É bonito de ouvir! – Ele sorriu, erguendo o braço livre e passando pelos ombros da menina, fazendo com que suas bochechas corassem. – Siga seus sonhos que vamos te acompanhar, pode ter certeza! – Ele sorriu.
- Obrigado! – Ele disse, apertando-a contra seu corpo, deixando a garota confortável enquanto olhava o jogo começar a se montar em sua frente.
- Eu só tenho uma pergunta! – Ela se afastou do encosto da cadeira, se virando para ele.
- Fala! – Ele se esticou na cadeira também, encarando seus olhos castanhos.
- Quem é Taffarel? – Ela perguntou com um olhar ingênuo, fazendo com que o sorriso que antes estampava o rosto do garoto sumisse.
- Bom... – Ele ficou confuso com a pergunta, coçando a cabeça, mas logo em seguida a garota gargalhou na sua frente.
- Eu sou péssima no futebol, mas sei quem é o goleiro do tetra! – Ela respondeu rindo, fazendo o garoto abrir um sorriso aliviado e ela se virou novamente e apoiou as costas contra o corpo de Alisson, enquanto colocava amendoins na boca. – Só não sabia que ele era daqui.
- Então... – e Alisson se assustaram, fazendo com que a garota se levantasse e ele abaixasse as pernas quando um homem apareceu ao lado deles.
- Muri! – Alisson falou surpreso.
- Vai me apresentar sua amiga ou eu vou ter que descobrir sozinho? – Muriel Becker, irmão mais velho de Alisson, falou, deixando a garota envergonhada e o garoto querendo cavar um buraco para sair dali.
- . – A menina se prontificou nas apresentações. – Amiga do Alisson. – Ela frisou a palavra amiga, fazendo com que Muriel risse.
- Muriel. – O mais velho sorriu. – É um prazer te conhecer. – Ele apertou a mão da garota, vendo seu irmão mais novo fuzilá-lo com o olhar. - Então, você gosta de futebol? – Ele perguntou e a garota fez uma careta.
- Alisson está tentando fazer com que eu goste. – Ela deu de ombros. – Quem sabe?
- Espero que goste mesmo e se apaixone pelo Inter! – Muriel sorriu.
- Você é goleiro, né?! – A garota perguntou com certa afirmação na voz. – Por acaso é algo de família? – Ela se virou rapidamente para Alisson e depois para Muriel.
- Algo assim. – Alisson respondeu coçando a nuca.
- Bom, eu vou voltar lá embaixo. Vai embora comigo? – Muriel se dirigiu ao irmão.
- Claro! – Alisson respondeu e se virou para . – Quer voltar conosco? Aqui acaba umas seis. – deu de ombros.
- Pode ser! – Ela falou sorrindo.
- Não se importa em pegar trem? – Alisson perguntou.
- Claro que não! – Ela respondeu colocando o cabelo atrás da orelha, o que fez Alisson sorrir timidamente, ele adorava quando ela fazia isso. Muriel acenou com a mão, voltando a descer as arquibancadas.
Alisson e se sentaram novamente, ela encostando suas costas em seu corpo e voltaram a dividir o saco de amendoins que o garoto tinha trazido. Alisson sabia que tinha um pouco mais de dinheiro que ele, afinal, sua mãe havia lhe trazido ali, enquanto ele pegava o trem e uma baldeação de ônibus ainda. Por outro lado, nunca tinha precisado pegar um ônibus ou trem na vida, mas só a oportunidade de passar mais tempo com Alisson fazia com que ela tivesse vontade de descobrir coisas novas.

ELA


- ? – Ouvi me chamar e me levantei prontamente, já sentindo minha bunda quadrada daquele banco apertado.
- Sim! – Falei para o oficial.
- Você está livre! – Meu corpo se aliviou imediatamente, me aproximando da porta da cela.
- Muito obrigada! – Falei sentindo meu corpo até mais livre quando ele abriu a mesma e eu pude sair de lá, sentindo meus pés descalços deslizarem pelo chão sujo da delegacia.
- Me siga, o inspetor da Interpol quer falar contigo.
- Por quê? – Perguntei com a testa franzida, seguindo o homem na minha frente.
- Não é porque você foi solta que a sua investigação acabou. – O oficial falou e ele abriu uma porta, apontando para que eu entrasse.
Olhei rapidamente dentro da mesma e me vi em uma sala de interrogatório, como aquela que eu via incansavelmente em filmes. Um homem engravatado estava sentado em um dos lados da mesa e o oficial da polícia italiano me indicou a cadeira em sua frente.
- Senhorita . – O inspetor da Interpol falou em inglês. – Entende o que eu digo?
- Sim! – Respondi em inglês também, me sentando em sua frente.
- O defensor público te explicou o motivo de você ter sido presa? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça. – Por favor, fale para registro.
- Sim! – Respondi. – O embaixador brasileiro Miguel Pereira foi preso por fraude e desvio fiscal e meu nome é citado em diversos documentos. – Falei, engolindo em seco.
- Correto! – O inspetor falou. – Apesar disso, investigamos durante esses três dias que ficou aqui e não encontramos nada que te incriminasse, por isso somos obrigados a te soltar. – Senti um alívio passar pelo meu corpo. – Mas você ainda é parte da investigação e poderemos te contatar a qualquer momento para fazer depoimentos ou buscas em seu nome. – Assenti com a cabeça, mesmo não entendendo o que aquilo significava.
- Certo... – Suspirei. – E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que você pode ir para casa e andar como uma pessoa livre, mas com ressalvas. – Ele disse e puxou da cadeira ao seu lado algo que eu acabei descobrindo que era minha bolsa preta dentro de um saco plástico. – Até o fim das investigações, seu passaporte está retido...
- O quê? – O interrompi assustada. – Eu sou estrangeira, não consigo fazer nada sem meu passaporte.
- Exato! – Ele disse. – Você está proibida de sair do país. – Engoli em seco. – Além disso, seus bens estão congelados até o fim das investigações. Incluindo os itens de luxo encontrados em seu apartamento. Eles poderão ser usados como forma de pagamento em uma possível incriminação. – Engoli em seco, respirando fundo. Eu estava começando a hiperventilar.
- O que mais? – Ele tirou outro item da outra cadeira, me mostrando um aparelho celular bem antiquado.
- No momento em que esse telefone tocar, atenda. Será por ele que entraremos em contato para lhe informar sobre atualizações da investigação.
- O que isso quer dizer, senhor? – Perguntei. – Eu estou livre ou não? – Ele tirou seus óculos de grau, passando a mão no rosto.
- Eu não sei o que aconteceu, senhorita , mas me parece que o embaixador te colocou como um tipo de mula para transações, mas não há nada concreto que te ligue ao caso para que a polícia italiana ou internacional te culpe. – Assenti com a cabeça. – Mas seu nome ainda está ligado as investigações, foi expedido um mandato de prisão com seu nome. – Engoli em seco e ele suspirou. – Eu te aconselho a colaborar com as investigações, não fugir e atender esse aparelho quando necessário. – Assenti com a cabeça. – Se você foi só uma mula nas falcatruas de Miguel Pereira, a justiça provará. – Respirei fundo, levando as mãos à cabeça.
- Quanto tempo essas investigações podem demorar? Eu só quero voltar para casa. – Falei pensando em como meu pai se sentiria ao ouvir sobre isso.
- Esse tipo de investigações até chegar à corte dura em média seis meses. – Arregalei os olhos.
- Seis meses? – Puxei a respiração fortemente.
- Você não pode sair, senhorita, mas pode receber seus familiares e colegas normalmente. Só retemos seu passaporte por segurança. – Engoli em seco, segurança deles, não minha.
- E congelaram meus bens. – Gelei, como eu viveria seis meses em Roma sem dinheiro?
- Sinto muito, senhorita, mas esse é o protocolo. – Assenti com a cabeça, respirando fundo.
- Posso ir agora? – Perguntei e ele afirmou com a cabeça.
- Pode sim! – O inspetor se levantou e eu fiz o mesmo. – Todos seus bens, com exceção do seu passaporte e o tablet, estão na sua bolsa. Incluindo seus acessórios. – Ele falou e eu confirmei com a cabeça.
- Obrigada! Aguardarei a ligação de vocês! – Ele estendeu a mão e eu fiquei com receio de fazer isso, mas o fiz, cumprimentando-o e segui o oficial da polícia italiana para fora da sala de interrogatório.
Ele me levou para a parte da frente da delegacia e seguimos para uma sala lateral, lá ele me entregou meus sapatos de salto e um saco com minhas joias, me fazendo respirar aliviada. Coloquei o sapato nos pés e guardei as joias dentro da bolsa, depois lidaria com isso.
- Aqui! – Ele me estendeu um casaco novo da Polizia di Stato, me fazendo suspirar feliz, meu casaco havia ficado na embaixada. – Está frio lá fora. – Assenti com a cabeça, vestindo-o rapidamente e fechando-o até o topo.
- Obrigada! – Falei e ele assentiu com a cabeça.
Segui para a porta da delegacia e saí da mesma, sentindo o ar gelado da cidade. Andei até um canto e tirei minha carteira da bolsa rapidamente, pegando alguns euros que estavam ali dentro. Contei rapidamente e vi que tinha pouco mais de 200 euros ali dentro. Suspirei, guardando-o novamente na bolsa e decidi andar a pé.
Saí pela rua e vi que estava na Via dela Gatta. Fui pela esquerda e percebi que estava WunderMusaeum, na Pizza del Collegio Romano. Era perto de casa. Então tirei meus saltos altos, sabendo que não conseguiria andar muito tempo com eles e dei uma passada com as mãos em meus cabelos e segui andando pelas vias geladas de Roma.
Eu havia ficado por três dias, vendo pessoas entrarem e saírem daquela cela suja e quente enquanto esperava a minha vez. Foi a pior sensação do mundo, eu não tinha informações, eu não podia sair dali. Era sufocante! Além das outras presas que estava lá dentro e me provocavam pelas minhas roupas e pele bem cuidada.
O defensor público havia me explicado rapidamente o que estava acontecendo, mas se eu dependesse dele, tenho certeza que arranjaria algo para me incriminar, mesmo não existindo. Eu só queria chegar em casa, tomar um banho quente, ligar para meu pai que deveria estar preocupado e deitar na minha cama, esperando com que isso passasse como um passe de mágicas.
Aliviei quando cheguei à Fontana di Trevi e me vi tentada em jogar uma moeda na mesma, fazendo um pedido para que eu saísse dessa, mas eu não podia gastar dinheiro. Me desviei de alguns turistas e ambulantes vendendo lembrancinhas e andei mais algumas quadras antes de avistar meu apartamento, respirei aliviada quando entrei no mesmo e tirei o capuz do casaco da polícia.
- ! – Matteo saiu apressado de trás do balcão quando me viu e eu abri um sorriso ao vê-lo.
- Ah, Matteo! Como é bom te ver! – Suspirei, apoiando minha bolsa e sapatos no balcão.
- Como está? Você não aparece aqui há três dias, a polícia veio e vasculhou seu apartamento, não me deram nenhuma informação. Eu estava preocupado contigo! – Ele disse e eu assenti com a cabeça.
- Eu fiquei presa por três dias! – Falei um tanto raivosa e respirei fundo. – Três dias, Matteo! – Bufei alto. – Eles confiscaram meu passaporte, congelaram meus bens e eu ainda vou responder um processo por um crime que eu não cometi. – Falei brava, sentindo algumas lágrimas deslizarem pelo meu rosto, mas as limpei rapidamente. – Mas eu estou bem! – Suspirei. – Eu só quero subir, tomar um banho, dormir e procurar um advogado que aceite ser pago depois que meus bens forem descongelados. – Falei andando pelo lobby, mas Matteo parou na minha frente.
- Sinto muito, senhorita! Eu não posso te deixar entrar! – Ele falou e eu arregalei os olhos.
- Matteo? – Falei em tom de pergunta e ele suspirou.
- A polícia interditou seu apartamento e membros da embaixada brasileira já vieram informar que esse apartamento não pertence mais a senhora e que você não pode entrar. – Engoli em seco. – Seus bens foram recolhidos pela polícia e serão devolvidos quando as investigações acabarem, mas o apartamento... – Suspirei, apoiando novamente no balcão.
- Ótimo! Realmente não tinha como ficar pior! – Suspirei. – Eu tenho 200 euros na carteira, só tenho essa roupa, está frio para caramba em Roma e eu não tenho onde ficar. – Suspirei.
- Os membros da embaixada te deixaram isso também. – Ele me entregou um envelope lacrado com um selo da embaixada, somente li a palavra “carta de renúncia” nas primeiras linhas e suspirei.
- E eu ainda fui demitida. – Engoli em seco. – Perfeito! Está tudo perfeito.
- Talvez isso vá te ajudar! – Ele falou e tirou uma caixa de trás do balcão. – Sandra tirou suas roupas para lavar e eu ia enviar hoje, mas a polícia apareceu e achei que fosse precisar. – Abri um sorriso aliviado.
- Ah, Matteo! – Comecei a vasculhar a caixa, vendo somente roupas finas de marca que eu usava para trabalhar, mas que serviriam.
- Elas não foram lavadas ainda, mas não estão sujas. – Ele disse, me fazendo rir fraco.
- Muito obrigada, Matteo! Vão servir! – Suspirei, pegando a caixa em minhas mãos e joguei minha bolsa lá dentro.
- Eles não levaram seu carro também. – Ele falou. – Você não usa tanto, então imagino que ele esteja abastecido, pelo menos. – Ele me entregou as chaves e eu suspirei.
- Nem tudo está perdido. – Falei rindo e ele sorriu.
- Se você precisar de algo, eu posso te ajudar. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Obrigada, Matteo, mas pelo menos um de nós precisa trabalhar. – Ele riu fracamente. – Não vai ser bom para você ter ligação comigo.
- Sinto ouvir isso, signorina. – Apoiei a caixa no balcão novamente e dei um rápido abraço nele.
- Obrigada por tudo, Matteo! – Sorri para o senhor e ele assentiu com a cabeça.
- Se cuida, ok? – Ele disse e eu sorri.
Peguei a caixa novamente e saí do apartamento, seguindo até o estacionamento que ficava lá e encontrei meu carro, um Gol Wolksvagem que eu tinha comprado logo que vim para cá, mas que raramente saía da garagem. A vantagem da Itália era que os carros eram similares ao Brasil. Coloquei a chave na ignição e vi o hodômetro subir, vendo que tinha 3/4 de tanque, me fazendo respirar aliviada.
Saí do carro novamente e fui para o banco de trás, vendo se eu tinha esquecido alguma coisa aqui, era difícil de acontecer, mas vai que eu daria alguma sorte. Nada no banco traseiro. Fui para o porta-malas e até respirei aliviada. Lá dentro tinha meu tênis de corrida, botas baixas de cano alto e um sobretudo amarelo mostarda, similar ao que eu estava usando. Puxei-o e cheirei o mesmo, ainda cheirava amaciante.
Apoiei a caixa no porta-malas também e dei uma mexida rápida na roupa, vendo calças sociais, camisas, camisetas e moletons de ficar em casa e meias-calças e convencionais, toda minha roupa suja de duas semanas. Suspirei aliviada e fechei a porta do mesmo, entrando no banco do motorista novamente. Olhei nos compartimentos do carro e achei algumas moedas, abri o porta-luvas e encontrei uma bolsinha, abrindo-a empolgadamente e encontrei mais uns 30 euros e algumas moedas. Suspirei. Eu tinha quase 230 euros na mão e viver em Roma era exorbitante.
Pensei por alguns segundos e peguei meu celular dentro da bolsa, tocando nele, vendo que o mesmo não acendia. Apertei o botão de ligar e ele se acendeu em minha mão, me fazendo suspirar aliviada. Rezei para que minha linha telefônica não tivesse sido cortada e disquei os vários números para fazer uma chamada internacional e respirei aliviada quando ele chamou. Não deu cinco segundos e alguém atendeu do outro lado da linha.
- Filha? – Meu pai atendeu e suspirei. – Meu Deus, , você sumiu por três dias, o que aconteceu? Não falo contigo desde quinta-feira.
- Calma, pai! – Falei alto, vendo se ele me deixava falar. – Se acalme, eu estou bem, está tudo bem.
- Mas o que aconteceu? Ninguém me dava notícias. – Suspirei.
- Aconteceu um negócio no trabalho, pai. – Cocei a cabeça, pensando em como contaria isso para ele sem que ele surtasse.
- O que houve?
- O Miguel foi exonerado do cargo, ele tá envolvido em umas coisas erradas... – Suspirei. – Eu estou... – Pensei no que dizer. – Afastada por ser sua assistente pessoal.
- Mas está tudo certo, querida?
- Vai ficar, pai. Não se preocupe. Eu vou ficar com alguns amigos por um tempo até que isso passe. – Suspirei.
- , tem certeza? – Senti o choro subir à garganta, mas o engoli.
- Tenho, pai. Vai passar rápido, não se preocupe.
- Tá. Precisa de dinheiro? Eu te deposito. – Suspirei. Até precisava, mas minhas contas estavam congeladas, eu não conseguiria sacar.
- Não se preocupe, pai. Eu vou me virar, tudo isso vai passar e eu volto para casa o mais rápido possível.
- , você está me deixando preocupado. – Suspirei.
- Relaxa, pai. Vai ficar tudo bem. – Passei a mão no rosto, limpando uma lágrima solitária. – Eu te mantenho informado, ok?!
- Por favor, querida. Qualquer coisa eu pego o primeiro voo para Roma. – Dei um pequeno sorriso.
- Pode deixar, pai. Eu te amo, ok?! – Estalei um beijo no telefone.
- Ok, minha querida. Eu também. – Ele disse e eu desliguei o telefone.
Pensei por alguns segundos e disquei o número de Antonela, achando estranho a ligação cair duas vezes seguidas, mas insisti, deixando-o tocar um pouco. A ligação foi atendida, mas ninguém respondia do outro lado da linha.
- Alô? – Respondi. – Donatela, é a .
- Por favor, pare de me ligar! – Ouvi a voz fraca de Antonela do outro lado da linha e a ligação ficou muda novamente, me deixando com uma cara confusa.
Tentei o número de mais cinco amigos e conhecidos da embaixada e todos me ignoraram ou mandaram que eu não ligasse mais. Aquilo quebrou meu coração e me fez chorar igual uma criança. Eles realmente achavam que eu era culpada. Eu não tinha roupas, dinheiro e, agora, nenhum amigo para me oferecer um sofá nesse tempo turbulento.
Desliguei o celular novamente para economizar bateria e segurei com firmeza o volante respirando fundo, pensando o que eu faria e onde eu ficaria. Estava fora de cogitação pagar por hotel e deixar o carro na rua não era muito seguro, mas os vidros eram bem escuros, talvez desse para eu me virar. Dirigi um pouco pelas ruas da cidade, não querendo sair muito do meu rione e passei pela frente da Igreja de Santo Inácio de Loyola, uma grande e bonita construção. Virei nas ruas laterais e encontrei diversos carros estacionados na parede. Tinha placas de carros guinchados, talvez se eu ficasse aqui de dia e mudasse o carro durante a noite, talvez perto de pontos turísticos que era cheios o dia inteiro. Não sei, mas eu precisava me virar.
Eu vivi em meu carro convicta de que conseguiria me virar até o julgamento, mas isso durou apenar três semanas, até o dinheiro começar a acabar e eu ficar doente. Eu tentava economizar dinheiro ao máximo, mas qualquer coisa eram cinco euros e eu não tinha muito para gastar, além do banheiro público que eu precisava pagar toda vez que precisava usar. Eu era muito metida para fazer xixi dentro de uma garrafa.
No geral, eu vivia a base de frutas, tangerinas, maçãs, peras, coisas que eu podia comprar e comer sem precisava de facas para abrir. Além de alimentarem, elas eram suculentas, então reduzia um pouco a minha sede, mas eu sentia que meu corpo estava fraquejando aos poucos, minha gripe estava forte e eu não tinha como comprar remédio com o pouco dinheiro que restava. Cogitei milhares de vezes vender meu carro, talvez eu conseguisse uma grana boa o suficiente para me alimentar, comprar remédios e talvez até encontrar um lugar razoável para ficar, mas se fosse igual comprar um, eles pediriam várias referências e atualmente eu não tinha nada.
No começo da terceira semana, eu vasculhei minha bolsa à procura de algo que eu tinha escondido para uma emergência, meu anel de formatura. Observei a safira azul e os pequenos diamantes no anel de ouro amarelo e respirei fundo, apertando-a contra meus dedos. Era a coisa mais valiosa que eu tinha atualmente, não pelo seu valor monetário, mas por me lembrar de casa, já que tinha sido um presente do meu pai. Mas eu sabia que era safira de verdade e poderia vendê-lo e conseguir me manter por mais um tempo antes de assumir a desistência para meu pai e voltar a frequentar hotéis com chuveiros quentes. Que era o que estava prestes a acontecer.
Observei a pequena porta da loja de penhores, a mesma que eu já tinha parado na porta diversas vezes nos últimos dois dias e respirei fundo, entrando na mesma. O sininho tocou e o homem de meia idade me deu um sorriso.
- Buongiorno! – Ele disse e eu assenti com a cabeça, tirando o anel da minha bolsa, apoiando no balcão.
- Eu tenho isso. – Engoli em seco, vendo o homem do outro lado pegar a lupa e observar meu anel de perto.
- Está precisando de dinheiro, hein? – Ele falou observando-o e eu ponderei com a cabeça.
- Quem não está? – Brinquei e ele riu, se endireitando novamente.
- 300. – Ele falou e eu arregalei os olhos.
- 300? Esse anel vale pelo menos 500. – Falei suspirando.
- É pegar ou levar. – Ele falou, me fazendo respirar fundo.
- Fantástico! – Um senhor atrás do balcão falava enquanto olhava para a televisão onde um jogo de futebol estava passando.
- Não se empolgue muito, papai! – O homem mais novo falou e o senhor se virou.
- Escute o que eu digo, figlio. O scudetto será nosso. – O senhor falou animado. – Tudo por causa desse Alisson, que goleiro! – Arregalei os olhos, me debruçando sobre o balcão para tentar ver o jogo.
- O que o senhor disse? – Puxei o homem pela manga da camisa.
- Esse Alisson, goleiro da Roma é fantástico. Ele faz umas defesas sensacionais! – Ele falou encarando a TV. – Olha isso! – Ele falou e olhei para a televisão.
O plano estava aberto, então não poderia dizer se era o meu Alisson, mas o goleiro de verde escuro, aparentemente da Roma, observou a bola vindo em sua direção e o atacante do outro time chutou-a em sua direção, fazendo com que ele espalmasse com as duas mãos e caísse no chão, logo se levantando para pegar o rebote e defendendo novamente, me deixando boquiaberta.
- Alisson, senhor? – Virei para o homem novamente.
- É, Alisson Becker, brasileiro, chegou na Roma em 2016! Grande menino! Tem um futuro pela frente! – Arregalei os olhos, sentindo meu cérebro se acender como um vagalume.
- Eu tenho que ir! – Falei apressada, pegando meu anel novamente no balcão da loja e saindo correndo da mesma, sabendo exatamente para quem eu pediria ajuda.

ELE


- O bom filho à casa retorna! – Juan falou quando eu apareci no vestiário depois de voltar de viagem com a Seleção Brasileira.
- E aí, tudo certo? – Nos cumprimentamos rapidamente, acenei para outros jogadores e joguei minha mochila no meu espaço de sempre.
- Tudo certo e lá, como foi? – Ele perguntou e eu comecei a tirar minha roupa, feliz por estar menos frio em Roma.
- Tudo certo! – Falei. – Sempre tem aquela pressão ao enfrentar a Alemanha, mas ganhamos! – Falei animado e ele, Gerson e Bruno bateram palmas, animado. – Ganhamos da Rússia também, é um bom jeito de chegar na Copa do Mundo.
- Ah, mas a Rússia... – Interrompi Gerson.
- Os caras estão bons, viu?! Estão fazendo valer a Copa ser na casa deles. O Akinfeev está de parabéns! – Eles riram.
- Ele tem razão, o cara é bom! Não sei como não saiu da Rússia ainda. – Bruno falou e assenti com a cabeça.
Dessa vez eu coloquei uma segunda pele de manga comprida vermelha embaixo da convencional camisa azul de treino. As calças azuis e subi o meião até encontrar com a calça, fazendo com que nenhum lugar ficasse exposto. Me sentei no espaço, calcei minhas chuteiras e vesti as luvas, movimentando os dedos até ela ficar mais confortável em minha mão.
- Buongiorno, ragazzi! – De Rossi e o técnico entraram no vestiário e eu me levantei junto do resto do time.
- Primeiro de tudo, bem-vindo de volta aos jogadores que estavam com seus compromissos com suas seleções nacionais! – Assenti com a cabeça, dando um pequeno sorriso. – Agora sobre o time. – O técnico se aproximou. – Temos um jogo contra o Bologna no sábado, mas precisamos focar principalmente no jogo de quarta-feira da outra semana. – Ele disse. – É o primeiro jogo das quartas de final da Champions League e é contra o Barcelona. – Assentimos com a cabeça. – Como temos vários jogadores retornando, vamos fazer um treino mais leve hoje, com muita recuperação e relaxamento, beleza? – Assentimos com a cabeça.
- Beleza! – Falamos juntos.
- Também lembrando que hoje teremos treinamento aberto para a imprensa e para os torcedores! – Assentimos com a cabeça. – Interajam, tirem fotos, aquele esquema de sempre, mas vamos focar no treino, beleza? – Confirmamos novamente. – Vamos lá.
- Alisson, Bogdan e Lukasz, vamos treinar pênaltis, ok?! – Marco Savorani, treinador de goleiros, falou. – Se puder ceder alguns jogadores... – Ele falou para Eusebio e saímos do vestiário.
Seguimos para o campo principal e nos espalhamos como formigas. Segui com os outros dois goleiros para o lado direito do campo e olhei mais à frente e os torcedores se espremiam nas grades e ocupavam toda a pequena arquibancada de seis ou sete degraus.
Fui para meu posto principal, ouvindo alguns torcedores do canto gritarem para mim e eu ergui a mão, acenando rapidamente. Lukasz e Bogdan se colocaram nas laterais e Alessandro, Lorenzo e Stephan vieram fazer os chutes a gol.
Começamos por chutes diretos. Como cobrança de pênaltis mesmo. Os três jogadores de linha, três chutes em cada um de nós e revezamos por cerca dos primeiros 30 minutos de treino, tendo uma receptividade boa da torcida. Eu gostava de treino aberto, tinha certa pressão sobre isso, não fazer besteira e tudo mais, mas eles nos animavam, então era bom mostrar um bom trabalho.
Na segunda leva do treino, fizemos chutes duplos seguidos, para treinar o rebote, que é quando a bola é defendida, mas volta para a área, dando a oportunidade dos jogadores tentarem novamente. Era desse jeito que as bolas entravam. Stephan fazia o primeiro chute da linha do pênalti, depois Marco chutava de mais perto.
Aquilo cansava bastante, fazia com que eu abusasse bastante dos ombros, ao fazer as quedas de lado, deslizando o corpo pelo chão, deixando-o cheio de pedaços de grama. A intensidade desse tipo de treino era maior que no jogo de 90 minutos. Aqui fazíamos esse treino seguido por cerca de 10 minutos, correndo de um lado para o outro. No jogo eram ataques esporádicos.
- Pode respirar um pouco, Alisson! – Marco falou e eu fiz um polegar com a mão.
Saí da frente do gol, dando espaço para Bogdan treinar e peguei um squeeze no cooler do lado do gol e dei uma bela espremida em minha boca. Atravessei por trás do gol, encontrando Juan um pouco mais afastado e parei ao seu lado.
- E aí? – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
Espremi mais um pouco de água na boca e afrouxei as luvas um momento, olhando para as arquibancadas, vendo os torcedores um pouco mais distraídos na mesma, mas ainda acumulados nas arquibancadas. A cor vermelha queimada do uniforme principal tomava boa parte da minha visão, mas também tinha pessoas que usavam a camisa branca ou a preta da loja.
Meus olhos pararam em uma mulher de cabelos castanhos na arquibancada. Ela estava bem vestida demais para ver um simples treino aberto. Ela usava um sobretudo amarelo, um tom bem mais claro do que o amarelo da Roma, tinha as mãos enfiadas no bolso, mas à distância eu não conseguia ver muito bem seu rosto, mas quando ela ergueu a mão para colocar o cabelo atrás da orelha, senti que fui atropelado por um caminhão.
Há muitos anos tinha uma garota em minha vida que fazia esse exato movimento e me deixava cada vez mais apaixonado por ela, mas fazia muitos anos. Olhei mais um pouco em direção à moça, mas estava difícil enxergar, não era possível que fosse a...
- Bonita, né?! – Juan me assustou e eu olhei para ele, franzindo a testa. – A garota. – Ele apontou discretamente para a arquibancada.
- Você a conhece? – Perguntei, esticando a mão quando uma defesa de Bodgan veio em minha direção e devolvi a bola para Marco.
- Ela veio aqui umas duas vezes já, estava procurando por você. – Ele bebeu um pouco da sua água e me olhou. – Parecia que te conhecia. – Ele deu de ombros. – Não falou com mais nenhum jogador, nem tirou foto ou pediu autógrafo. Também não vem com a camisa do time.
Não era possível!
- E o que você disse a ela? – Me distraí de seu casaco amarelo e olhei para Juan que me olhava intrigado.
- Que você estava com a Seleção Brasileira e voltava hoje. – Ele disse e eu comecei a andar levemente para frente, em direção a grade que nos separava dos torcedores. – Por quê? Quem é ela, Alisson?
Deixei-o falando sozinho e andei devagar em direção aos torcedores. O meu ponto amarelo de referência começou a descer quando percebeu que eu estava me aproximando, vindo em minha direção.
- Alisson! Alisson! – Os torcedores se aproximaram de mim empolgados quando me aproximei da grade e eu me distraí por alguns minutos com algumas camisetas, canetas e selfies.
Eu tentava erguer o rosto e encontrar com seu olhar para tirar minha dúvida, mas as pessoas se acumulavam bastante, dificultando minha visão. Eu estava entrando em desespero, eles não deixavam com que eu enxergasse.
- Ciao, ragazzi! – Olhei para o lado, vendo Danielle se aproximar das grades e a maioria dos torcedores correrem em sua direção ao capitão do time, me fazendo respirar aliviado.
- Grazzie, Alisson! – Um torcedor falou quando eu assinei sua blusa e ele saiu correndo em direção a Danielle também.
Arregalei meus olhos quando o garoto saiu e a moça de sobretudo amarelo apareceu em minha frente, fazendo com que um caminhão de lembranças, emoções e sentimentos passassem por cima de mim, me fazendo engolir em seco.
Fazia cerca de seis anos que eu não pensava mais nela, que ela não fazia parte da minha vida, mas agora, sem nem esperar, ela estava na minha frente. Os cabelos castanhos longos e ondulados caindo em seus ombros, os grandes olhos castanhos da mesma cor dos cabelos e as bochechas levemente rosadas, provavelmente do frio, me fazendo lembrar de que ela era bem friorenta em Nova Hamburgo.
Seu rosto e corpo estavam mais finos do que eu estava acostumado, fazendo com que ela aparentasse mais alta do que já era. Ela ergueu a mão novamente, colocando a franja atrás da orelha e ergueu os olhos em minha direção, me fazendo engolir em seco.
Era ela mesmo!
Ela deu mais dois passos para frente, tirando as duas mãos de dentro do casaco e apoiou as mesmas na grade em minha frente, a única coisa que nos separava. Assim como eu, parecia que ela estava sem palavras em me ver, afinal, era muito tempo mesmo, desde que ela saiu de Nova Hamburgo. Mas agora ela estava aqui, ela está aqui em Roma, me encarando com aquele sorriso tímido e doce que só ela conseguia fazer, independente da situação. Suspirei baixo, achando que era melhor eu falar alguma coisa ou cairia duro no gramado em alguns segundos, mas tudo o que saiu da minha boca foi:
- ? – Perguntei, sentindo que minha voz saiu um tanto abobalhada.
- Oi, Alisson! – Ela falou com a mesma firmeza que eu me lembrava e eu senti vontade de sorrir, mas meu rosto não me obedecia.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntei e ela afastou as mãos da grade, enfiando-as fortemente dentro do seu bolso e seu olhar baixou novamente.
Percebi que sua respiração ficou um tanto mais agitada, fazendo com que ela entreabrisse a boca para que ajudasse a respirar melhor. Ela espirrou uma vez, passando a mão no nariz e engoliu em seco, respirando fundo. Ela ergueu os olhos para o céu e me vi tentado a fazer a pergunta novamente, mas eu sabia que ela tinha ouvido.
- Sei que não nos vemos há sete anos, mas eu preciso da sua ajuda. – Ela soltou aquilo como se estourasse um balão, fazendo com que seus ombros relaxassem e ela levou as duas mãos ao rosto novamente, começando a chorar e um ponto de interrogação aparecer em meu rosto.



Capítulo 02

ELA


Era a quarta vez que eu vinha para o Centro de Treinamento da Associazione Sportiva Roma e, para ajudar, esse negócio era longe da cidade. Ele ficava em Trigoria, era 50 minutos de onde eu estava ficando... Digamos assim. Eu havia economizado gasolina ao máximo, mas depois de quatro viagens, até meu carro econômico já estava começando a reclamar. O hodômetro já estava chegando ao vermelho e eu estava ficando cada vez mais desesperada.
Bem, acho melhor eu voltar a história um pouco! Depois que aquele senhor me disse que Alisson Becker, o meu Alisson Becker estava jogando na Roma, uma esperança foi renovada em meu coração como a força de mil fogos de artifícios, mas depois essa empolgação fraquejou um pouco. Afinal, ele não era o meu Alisson há sete anos, desde que eu fui embora de Nova Hamburgo.
Nós namoramos no último ano do ensino médio, lá em 2010, mas por culpa do destino, eu me mudei de volta para Brasília assim que eu me formei no ensino médio, cidade onde eu e meu pai nascemos. E, tirando algumas coisas esporádicas que meu pai me contava lá atrás, nós nunca tivemos mais contato. Meu pai até tinha seus pais no Facebook, mas minha vida acabou mudando de figura há uns quatro anos, eu saí de casa e Alisson parou de ser assunto na minha família. E mesmo criando amor pelo futebol, eu não tinha muito tempo para acompanhar o mercado da bola, jogos e transferências.
Mas quando eu descobri que Alisson Becker realmente tinha se tornado um goleiro famoso e estava fazendo carreira internacional, apesar de tudo o que passamos, aquilo me deixou feliz. Ele tinha chegado onde queria! Mas a possibilidade de reencontrá-lo e pedir ajuda me apavorou. Fazia muito tempo e não tínhamos terminado nos melhores termos, se quer saber! Tudo aconteceu muito rápido, um dia estávamos juntos e felizes, no outro eu estava preparando minha mudança para Brasília. Só que minha cabeça só conseguia pensar: vá atrás dele ou assuma a derrota. Eu não podia fazer isso, além de ser bastante orgulhosa, eu tinha conseguido o mundo com 25 anos, eu sairia dessa e continuaria de onde havia parado.
Depois que eu saí da loja de penhores, eu voltei desesperada para o carro, conectei meu celular no carregador portátil e fiquei com o carro ligado por uns 20 minutos para descobrir onde era o CT da Roma e acabei descobrindo que era bem fora de mão, mas eu estava tentada a passar por tudo isso, todas as diferenças e sete anos de mágoas e pediria ajuda a ele.
Mas não pense que eu não estava envergonhada em fazer isso, eu estava e muito! Mas Alisson era a única pessoa que eu conhecia em Roma e que não conhecia a minha história, pelo menos eu acho. Todos os meus ditos amigos me deixaram na mão no momento em que eu mais precisava e a polícia ainda fez a graça de reter meu passaporte me impossibilitando de voltar para casa, eu estava realmente em um mato sem cachorro.
Eu dirigi por mais de uma hora para chegar em Trigoria, era a primeira vez que eu ia para lá, então acabei errando algumas entradas ao confundir que era algum lugar diferente do que o grande e gigante condomínio dentro do bairro fora da cidade. Assim que cheguei na entrada do CT, o porteiro me informou que eu tinha que pagar 30 euros para fazer o tour, mas eu não queria fazer nenhum tour, eu não tinha 30 euros para fazer tour. Lhe expliquei isso e falei que queria ver os jogadores, não fazer tour pelo CT. Com isso, ele me entregou um calendário com datas de treino aberto, e o melhor, gratuitos! Olhei as datas e vi que tinha um dali dois dias. Agradeci ao porteiro e esperei. Pensei em ficar por ali em Trigoria, mas era um bairro melhor, portões, grades, condomínios e seguranças, não deu para ficar.
Dali dois dias eu voltei, entrei no CT, segui todos os torcedores barulhentos com camisa da Roma e esperei ansiosamente com que os jogadores aparecerem em campo. Todos jogadores apareceram, mas Alisson não estava lá. Me aproximei dos goleiros quando eles se separam para treinar e não, ele não estava lá mesmo. Esperei mais um pouco, até quando os jogadores se aproximaram da grade para dar autógrafos e tirar fotos, e perguntei onde estava Alisson para um dos vários que eu não conhecia.
- Alisson não está aqui hoje não! Tenta outro dia! – Ele falou, dando um sorriso charmoso e eu assenti com a cabeça. Apesar de estar tentada a tirar fotos com os jogadores, os seguranças dos shoppings que eu entrava para carregar o celular já estavam enjoados em me ver sentada pelos cantos, sem consumir nada.
Três dias depois eu voltei novamente para Trigoria, entrei com os torcedores, subi na arquibancada, esperei os jogadores aparecerem e nada. Pior que eu nem poderia xingar o senhorzinho da loja de penhores, eu tinha procurado na internet, Alisson realmente jogava pela Roma, e estava muito mais bonito do que quando namoramos, os anos – e o dinheiro – fizeram muito bem a ele! Quando os jogadores se aproximaram para falar com o pessoal, um moço de pele morena e um topete na cabeça se aproximou do meu lado.
- Alisson? – Perguntei para ele que fez uma careta.
- Alisson não tá aqui não, moça! – Ele falou em italiano com um forte sotaque mineiro, me fazendo franzir a testa.
- Você é brasileiro! – Falei em português e ele arregalou os olhos, me dando atenção.
- Você também! – Rimos juntos.
- Eu estou procurando o Alisson! – Repeti e ele finalizou de autografar uma camisa antes de se virar para mim.
- Ele tá em amistosos internacionais, contra a Alemanha e a Rússia, volta só depois do dia 27. – Arregalei os olhos.
- Alisson está jogando pelo Brasil? – Perguntei surpresa e empolgada ao mesmo tempo.
- Sim! – Ele falou como se fosse a coisa mais normal do mundo. – Desde 2016, desde o Dunga! – Ele disse e eu ri fraco.
- Oh, meu Deus! – Falei animada com um largo sorriso no rosto, mas balancei a cabeça, voltando a focar no homem. - Depois do dia 27, você disse? – Perguntei e ele afirmou com a cabeça.
- Sim! Pode vir dia 27 que ele vai te dar atenção. – Respirei aliviada.
- Muito obrigada! – Falei e dei espaço para que os torcedores chegassem perto dele.
E foi isso que me trouxe pela quarta vez à Trigoria. Quarta e última vez ou eu teria que penhorar meu anel, vender o carro, não sei. Confesso que eu já estava desistindo, um mês vivendo no carro? Eu tinha emagrecido muito, minha gripe não sarava de jeito nenhum e os investigadores também não me ligavam. Parecia que isso nunca ia se resolver.
Entrei junto com os torcedores e já ocupei um lugar na arquibancada próximo a um dos gols. O que foi fácil, os outros torcedores queriam ocupar o centro do campo, que eu havia notado das outras duas tentativas que era onde os jogadores seguiam primeiro para falar com o grupo.
Coloquei minhas mãos no meu casaco amarelo mostarda e delicadamente dei uma cheirada no mesmo, as vantagens de estar frio era que eu não suava, se isso acontecesse, minha situação com roupa já teria se agravado logo no terceiro dia. Me sentei na arquibancada e esperei mais uma vez. Não que eu tivesse muito o que fazer, mas isso já estava ficando feio demais. Era minha única chance, se Alisson não aparecesse no treino hoje, eu venderia meu carro e tentaria mais um pouco antes de ligar para meu pai. A gasolina só não poderia acabar até eu voltar para a cidade.
Fiquei em pé assim que vi os jogadores aparecerem no campo. Eu mexia as mãos no bolso nervosamente, esperando que eu encontrasse aquele garoto alto de olhos verdes que eu não via há muito tempo. Garoto... Essa era boa! O tempo passou, , lide com isso.
Prendi a respiração por alguns segundos quando eu finalmente o vi. Ele vinha com os outros dois goleiros do time, um deles que eu já tinha conversado na primeira vez que entrei. Ele estava muito mais bonito do que eu me lembrava, e ele já era bonito lá atrás. Fiquei levemente na ponta dos pés para enxergá-lo se colocar na frente do gol e se alongar rapidamente.
Os torcedores começaram a sentar quando o treino começou. Eu fiz o mesmo, mas não conseguia tirar os olhos daquela cabeleira preta iniciando o treinamento. Eu estava nervosa só em estar ali, sabendo que ele estava há cerca de 30 metros de mim, então eu batia com os pés no degrau debaixo e mexia as mãos uma na outra.
Após Alisson finalizar a segunda leva de exercícios, ele se afastou atrás do gol e pegou uma garrafa de água, espremendo-a em sua boca e observei o outro jogador, aquele que havia me dito que ele estaria aqui hoje, se aproximar dele. Nessa hora eu me levantei, tentando fazer com que ele me visse, eu não estava com esse casaco amarelo só por ser uma das minhas poucas opções, mas porque ele era facilmente visto de longe.
Observei que ele olhou em minha direção e senti meu rosto corar, mesmo que eu não conseguisse identificar seu rosto muito bem. Ergui a mão e tirei a franja que insistia em cair no meu rosto e coloquei atrás da orelha. Parece que ele se hipnotizou com esse movimento e deixou seu amigo sozinho e veio em minha direção!
Não era possível! Ele tinha me reconhecido? Depois de anos?
Desci dois degraus da arquibancada, mas os torcedores foram mais rápidos do que eu e já começaram a erguer seus celulares e a esticar camisetas da Roma para que ele assinasse. Eu acabei descendo outros degraus, me colocando no mesmo nível do campo, esperando que os torcedores saíssem e dessem espaço para outras pessoas.
Abaixei a cabeça para tossir e voltei a olhar para frente novamente, me assustando ao encontrá-lo me encarando e somente a grade nos separando. Droga! Engoli em seco e tirei as mãos do bolso, apoiando-as na grade, como uma segurança para que os torcedores não ocupassem aquele cantinho, além de eu poder me aproximar dele.
Eu não podia acreditar que era mesmo ele! Parecia tanto com ele, mas ele também estava tão diferente. Uma barba cheia no rosto, os cabelos mais longos, os braços mais fortes, fazendo com que ele até parecesse mais alto do que eu estava acostumada. Era ele, com certeza era! O rosto avermelhado devido à sua rosácea e os olhos verdes penetrantes, que me atingiam como facas, me deixando envergonhada, fazendo as bochechas rubescerem novamente. Eu deveria falar algo, mas meu corpo não permitia, eu estava muito estagnada para pensar em falar algo, nem se fosse para falar alguma besteira, mas ele foi mais rápido.
- ? – Ele falou em tom de pergunta e eu abri um sorriso, sentindo meu corpo relaxar. Ele se lembrava de mim.
- Oi, Alisson! – Falei seu nome, sentindo algo muito forte borbulhar dentro de mim, me fazendo suspirar.
- O que está fazendo aqui? – Ele perguntou e eu franzi o rosto.
Eu não tinha pensado nessa parte. O que eu falaria para ele? “Oi, Alisson, eu preciso de um teto?” ou “eu posso ser presa”, não era o tipo de coisa que você falava depois de ficar sete anos sem ver seu ex-namorado, eu precisava ir com mais calma, talvez conseguir a oportunidade de falar com ele em um lugar um pouco mais privado, sem que todas aquelas pessoas ficassem em volta. Senti que estava começando a hiperventilar e falei as primeiras coisas que vieram na minha cabeça.
- Sei que não nos vemos há sete anos, mas eu preciso da sua ajuda. – Derramei tudo em cima dele, sentindo as lágrimas chegarem a meus olhos novamente e coloquei as mãos no rosto, tentando evitar que elas caíssem.
- Ei, ei! – Ele se aproximou da grade e senti suas mãos com luvas tocarem em meu braço e eu o puxei de volta no automático, olhando até um tanto surpresa para ele.
- Desculpe! – Falei, abanando as mãos em frente ao rosto para que eu tentasse secar as lágrimas.
- O que aconteceu? – Engoli em seco e olhei para os lados, percebendo que alguns torcedores escutavam nossa conversa, espero que não entendessem Português e achassem que era só uma fã louca chorando por conhecer o ídolo dela.
- Podemos conversar em um lugar mais privado? – Perguntei, engolindo em seco novamente.
- Você pode esperar? – Ele perguntou e eu ri fracamente.
- Eu tenho todo tempo do mundo! – Ele assentiu com a cabeça.
- O treino aberto acaba na hora do almoço, eu dou permissão para você entrar e você almoça comigo, e conversamos. – Ele falou calmamente. – Pode ser?
- Pode sim! – Suspirei, abrindo um pequeno sorriso. – Eu estarei aqui! – Falei e ele assentiu com a cabeça, começando a se afastar.
- ! – Ele virou de novo e eu virei para trás. – Bom te ver! – Abri um pequeno sorriso, confirmando com a cabeça.
- Você também! – Dei de costas para ele e subi os degraus novamente, voltando a sentar no canto que eu estava. Olhei para minhas mãos rapidamente e elas tremiam muito. Fechei a mesma várias vezes e escondi-as dentro do casaco.
O pior passou... Em partes!

ELE

O resto do treino passou lentamente para mim. Pouco menos de duas horas e meia me distanciavam do almoço. Em dias normais, isso passava muito rápido, eu até reclamava de ter aquelas duas horas de almoço antes de voltar para o campo, mas hoje a hora simplesmente não passava.
Além disso, eu deixei com que todas as bolas que eram chutadas em direção ao meu gol entrarem. Fazendo até com que Marco e Eusebio me dessem vários xingos ao longo do treino. Até Danielle notou que tinha alguma coisa errada comigo. Claro que tinha! Minha ex que eu não via a sete anos voltou! Meu corpo estava reagindo, eu estava distraído e isso não era nada bom para um goleiro.
Toda vez que eu olhava para o meu lado direito, seu sobretudo amarelo brilhava como um cone de trânsito e eu não conseguia não olhar. Ela estava lá! Ali! Sentada naquela arquibancada! Não era algo que eu podia ignorar, a última vez que eu a vi estava indo embora de Nova Hamburgo em um carro chorando muito. Agora ela estava ali e ela não era mais a minha .
Parte da minha distração foram suas palavras. Ela precisava de ajuda. Por que ela precisava de ajuda? Algo tinha acontecido e minha curiosidade me matava para saber. Me lembrei das diversas vezes que minha mãe quis contar algo sobre ela ou seu pai e eu simplesmente ignorei, me afastando ou dando aquele olhar julgador por Natália estar por perto, mas naquele momento eu gostaria de ter ouvido, talvez matasse um pouco da minha curiosidade.
Ela estar aqui em Roma com certeza já era uma surpresa para mim. Era uma grande coincidência! Quais as chances disso acontecer? Eu não fazia a menor ideia do porquê, mas algo estava errado. Ela tinha uma posição na defensiva na arquibancada, quase igual a mim, como se esperasse o tempo passar loucamente para se livrar de um problema ou de algo.
Confesso que cogitei a opção de ela vir me contar que eu tinha um filho passou pela minha cabeça, mas ela não demoraria sete anos para vir me contar! Ou demoraria? Mas ela estava sozinha, pelo menos aqui no treino. E acho que ela não precisaria vir aqui me contar. Ou precisaria? Além de que só transamos uma vez na época que namoramos e posso te garantir que estava devidamente vestido.
Balancei a cabeça ao me levantar depois de outra bola entrar em meu gol e bufei alto, ouvindo o treinador apitar, finalizando o jogo. Puxei as luvas das minhas mãos frustrado e ouvi Eusebio nos chamarem, passei a mão na testa e respirei fundo.
- Vamos dar um tempo agora, voltamos depois do almoço! – Ele falou e começamos a nos dissipar. – Alisson! – Ele me chamou e eu fiz uma careta antes de me aproximar novamente.
- Signor. – Falei coçando a cabeça.
- O que está acontecendo? – Ele perguntou cruzando os braços.
- Só estou distraído, senhor. Problemas em casa! – Balancei a cabeça e ele assentiu com a cabeça.
- Não traga os problemas para o campo, ok?! – Assenti com a cabeça.
- Pode deixar, senhor! – Respirei fundo e o vi sair e respirei fundo.
Olhei para a galera novamente e vi os jogadores começarem a ser retirados. Encontrei facilmente no meio da galera e corri na direção de um dos seguranças próximo a ela. Ela viu que eu me aproximava e seguiu em minha direção também.
- Giuseppe! – Falei algo para o segurança que me encarou. – Pode deixar a mulher de casaco amarelo entrar, beleza? – Apontei para que esperava a arquibancada esvaziar para chegar em mim.
- Sim, senhor Becker! – Ele falou. – Qual o nome dela para eu colocar nos registros? – Olhei para , respirando fundo.
- . – Engoli em seco. – .
- Fechado! – Ele disse e eu olhei para .
- Segue o Giuseppe e me encontre no restaurante, pode ser?
- Pode sim! – Ela disse e eu segui para dentro do campo novamente, olhando para trás rapidamente vendo-a seguir por entre a multidão, me fazendo coçar a nuca.
Segui para dentro do vestiário junto do pessoal, evitando toda bagunça formada dentro dele e fui até meu espaço. Me livrei das luvas e das chuteiras e coloquei um tênis normal de corrida. Puxei minha blusa suada e troquei pela que eu vim para o treino, deixando-a estendida na mesma para que secasse nessas próximas duas horas.
- Então, já seu deu bem, hein?! – Virei para Juan e ri fraco, negando com a cabeça. – Já está seguindo em frente.
- Não acho que seja esse o caso. – Falei.
- Por que não? Ela é bonita, gostosa... – Ergui a mão e empurrei seu rosto com a mesma, fazendo-o rir.
- Eu sei, tá? – Ri fraco. – Mas duvido que a intenção seja essa. – Peguei minha carteira, guardando no bolso da calça de moletom de treino e fechei o armário.
- Pode ser! – Ri fraco.
- Acredite, não é! Ela é minha ex-namorada! – Falei, respirando fundo ao falar isso em voz alta.
- O quê? – Ele falou um tanto alto e eu o encarei. – Antes da Natália?
- Sim! – Assenti com a cabeça, bufando.
- O que ela... – Virei para ele.
- Podemos falar depois? Eu falei que almoçaria com ela.
- Claro! A gente se encontra depois! – Ele disse e trocamos um rápido cumprimento e eu saí do vestiário.
Segui até o restaurante pela parte de dentro do mesmo, chegando lá, eu rapidamente a vi. Ela estava sentada em um sofá na área externa da alimentação e olhava atentamente em suas mãos, mexendo-as rapidamente. Com certeza tinha algo errado! sempre foi animada, alegre, curiosa, interessada em tudo ao seu redor, principalmente se vivessem uma vida diferente da sua. Ali, assim, ela não parecia ter interesse nenhum.
- ! – A chamei e ela ergueu o rosto para mim, fazendo os cabelos caírem no rosto e ela colocá-lo atrás da orelha, fazendo as memórias voltarem.
- Ei! – Ela se levantou e deu alguns passos em minha direção. – Hum... – Nos olhamos por um tempo um tanto deslocados. Ela ponderou de um lado, eu ponderei do outro e trocamos um abraço rápido e desajeitado.
- Vem! – Disse ao nos afastar e segui em direção a uma das mesas do fundo do restaurante, se iríamos conversar que fosse em um lugar mais reservado.
Coloquei minha carteira e meu celular na mesa e puxei a cadeira, me sentando na mesma e ela se sentou em minha frente, apoiando os cotovelos na mesa e massageando as têmporas com a ponta dos dedos.
- Eu não sei por onde começar! – Ela respirou fundo, olhando para mim.
- Não quer comer antes? – Perguntei.
- O almoço é de graça para convidados? – Ela tombou o rosto para o lado, da mesma forma que ela fazia quando fazia alguma pergunta irônica.
- Não... – Falei franzindo a testa, não entendendo muito bem.
- Então, vamos precisar conversar antes! – Ela deu um sorriso de lado e abaixou as mãos.
- O que está acontecendo, ? O que você faz aqui em Roma? O que você faz aqui na Roma? – Ela bufou alto, respirando fundo.
- Eu não esperava por isso, ok?! Não esperava que você fosse minha última opção. Bem, penúltima, ainda tenho meu pai, mas...
- O que aconteceu? – Ela suspirou e me encarou.
- Eu vou te contar tudo do começo ao fim e gostaria de não ser criticada por isso, pode ser? – Assenti com a cabeça, não estava na pose para barganhar.
- Ok! – Ela bufou alto, olhando para o teto por um momento e se ajeitou na cadeira, cruzando as mãos na mesa.
- Vamos lá, do começo! – Ela falou empolgada. – Eu estou em Roma porque eu sou internacionalista, me formei em relações internacionais, comecei a trabalhar no Instituo Rio Branco, caí nas graças de um embaixador e, quando ele foi convidado para representar o Brasil aqui na Itália, ele me convidou para ser sua assistente pessoal! – Ela falou e notei orgulho em sua voz, enquanto ela intercalava com tossidas.
- Uau, ! – Falei sorrindo – Isso é demais! – Ela abriu um pequeno sorriso, assentindo com a cabeça.
- Eu tinha um dos melhores salários da Itália, conhecia grandes chefes de estado, presidentes, primeiros-ministros... – Ela deu um pequeno sorriso. - Sempre fiz meu trabalho da melhor forma possível, era a primeira a chegar, a última a sair e gostava muito do que fazia. – Ela suspirou. – Isso até um mês atrás. – Ela bufou alto, dando uma risada fraca. – Eu fui... – Ela fez uma pausa, até soltando uma risada sarcástica. – Nunca pensei que falaria isso.
- O que aconteceu? – Ela abaixou o rosto, se curvando em minha direção.
- Eu fui presa, Alisson! – Arregalei os olhos, afastando meu corpo da mesma, sentindo-o parar no encosto da cadeira. – É, você ouviu certo!
- Co-como? – Perguntei sentindo minha voz sair gaguejada. – O que aconteceu?
- Um mês atrás a Interpol e a Polizia di Stato entraram na embaixada brasileira para cumprir três mandados de prisão. Do embaixador e do conselheiro fiscal por desvio fiscal e meu, por cumplicidade. – Ela deu um sorriso de lado e negou com a cabeça, coçando os olhos avermelhados. – Aparentemente alguns dos documentos que ele pedia para eu assinar como testemunha, são provas contra ele e minha assinatura tá linda lá.
- Mas por que você assinou? – Perguntei no impulso.
- Você sabe quantos papéis passam por mim por dia para eu assinar dentro daquela embaixada? – Ela suspirou. – Passavam. – Ela respirou fundo. – Eu era a interina quando ele estava ausente, eu respondia por ele em 90 por cento dos casos... – Ela engoliu em seco.
- E o que vai acontecer agora? Você está livre? Acabou? – Ela riu fraco.
- Você acha que eu viria atrás de você se tivesse acabado? – Ela foi irônica e ponderei com a cabeça. - Eles me mantiveram presa por três dias, aparentemente não tem nenhuma prova substancial para me culpar desse crime, mas a investigação ainda tá rolando. Eu ainda posso ser julgada, eu ainda posso ser chamada para depor contra o embaixador e por aí vai... – Ela balançou a cabeça.
- E quando vai acontecer isso?
- Eles disseram que poderia demorar até seis meses para acontecer. – Ela tirou um telefone meio jurássico do bolso e estendeu na mesa. – No aguardo disso tocar para saber meu destino.
- E você está com um advogado bom? Um representante bom para te livrar disso? – Ela franziu a testa.
- Isso entra na segunda parte da história. – Ela suspirou alto, colocando a mão na boca para tossir. – Quando eles me soltaram, eles retiveram meu passaporte... – Arregalei os olhos. – E congelaram meus bens! – Ela deu um sorriso fofo de lado, mas sabia que ela estava quase explodindo por dentro.
- Espera aí! – Ergui as mãos. – Você está na Itália sem passaporte?
- Uhum! – Ela fez um som com a boca e eu coloquei as mãos na cabeça.
- Isso é loucura! – Falei alto, olhando em volta. – E sem dinheiro...
- Eu não consigo pagar um advogado bom. – Ela deu de ombros. – Mas a defensoria pública me indicou um, mas....
- Já é alguma coisa. – A interrompi.
- É, mas se depender dele, eu provavelmente serei dada como culpada. Ele é um bosta! – Ela falou me fazendo rir e ela riu junto de mim. – Não é engraçado, mas é isso.
- Ok... – Balancei a cabeça. – Você disse que isso aconteceu há um mês...
- Ah, esqueci! – Foi sua vez de me interromper. – Eu morava em um apartamento do governo brasileiro e fui despejada também! – Ela apoiou as mãos na mesa novamente, esticando o corpo na cadeira.
- Eu... – Oh meu Deus!
- Eu estou na merda, eu sei! – Ela suspirou.
- E como você está vivendo nesse um mês? Sem apartamento, sem dinheiro, sem documentos? – Ela apertou as mãos nos olhos novamente, respirando fundo. Ela queria chorar.
- Eles não levaram meu carro, então eu tenho dormido nele. – Ela franziu a testa. - Eu também tinha uns 230 euros na carteira para comer, mas qualquer coisa nessa cidade é cara.
- É por isso que você está tão magra! Você não tem comido?! – Suas lágrimas finalmente saíram quando eu falei mais alto e ela mordia seu lábio inferior para que elas parassem.
- Eu como frutas que são mais baratas, compro água só quando estou com muita sede... – Ela engoliu em seco. – Vou no banheiro e tomo banho em chuveiros públicos! – Ela respirou fundo. – Eu não sei viver assim, Alisson! – Ela escondeu os olhos nas mãos e eu tive a mesma vontade de chorar que ela, totalmente perdido no que fazer.
Talvez um filho perdido seria melhor.
- Você está... – Parei a frase, tentando reformulá-la melhor. – E seus amigos?
- Eu só tinha amigos na embaixada, quando eu fui algemada e arrastada embaixada abaixo, eles simplesmente me ignoraram quando eu pedi ajuda. – Respirei fundo.
- E sua família? – Ela fez uma careta e limpou os olhos. – Seu pai?
- Então... – Bati a mão na cabeça.
- Você não contou, não é?! – Ela fez uma careta. – Foi o orgulho, não foi? Eu me lembro, você era muito orgulhosa!
- Olha quem fala! – Ela disse cruzando os braços e parou por um momento, respirando fundo. – Eu não vou ser a chata aqui, eu preciso de você. – Ela respirou fundo, me fazendo dar um pequeno sorriso. – Meu pai enfartaria se eu contasse. – Ela suspirou. – Você o conhece. Além de que sim, eu não queria assumir minha derrota!
- Isso é muito maior que uma derrota, ! Você está sendo acusada de um crime internacional! A Interpol está metida nisso. – Falei.
- Obrigada por me lembrar, eu nem fazia ideia! – Ela foi irônica, tossindo novamente e eu suspirei.
- E como isso vai acontecer? Você vai ser julgada pelas leis brasileiras? Italianas? – Perguntei e ela balançou a cabeça.
- Eu não faço a mínima ideia, mas imagino que a italiana, senão eu já teria sido deportada há um mês. – Ela deu de ombros. – Teria sido até bom, eu não teria que me rebaixar tanto.
- E você fez isso? – Ela arregalou os olhos.
- Não, Alisson! Eu te juro! – Ela segurou suas mãos como uma oração. – Pela minha mãe, Alisson! Eu juro por tudo que é mais sagrado! Eu não fiz isso. – As lágrimas começaram a cair em suas bochechas também. – Eles me colocaram como mula, ou sei lá o quê, e eu fui pega no fogo cruzado.
Olhar minha ex-namorada, minha daquela forma fazia meu coração se apequenar dentro do meu corpo. Ela não era assim. Ela sempre estava disposta a tudo, animada com tudo, querendo sempre fazer as coisas e ajudar os outros. Corajosa e pronta para enfrentar qualquer coisa. Ela nunca foi medrosa e nunca se escondeu quando estava errada, apesar de ser orgulhosa. Então, vê-la chorando e com medo do que podia acontecer era novidade para mim.
- E... – Suspirei, esticando minhas mãos na mesa e segurando as suas. – Por que você demorou tanto para vir atrás de mim? – Ela deu uma risada fraca.
- Confesso que eu não me lembrava de você, Alisson! – Ri fracamente. – Eu não sabia que você tinha dado tão certo na vida. – Ela deu de ombros. – Muito menos que você estivesse fazendo carreira internacional. – Dei um sorriso, abaixando a cabeça.
- Você também deu certo na vida, . – Ela franziu a testa.
- Quem está na berlinda de ser presa? – Ela perguntou e rimos juntos. – Mas eu não sei se fiz a coisa certa, isso pode prejudicar sua carreira. – Abanei as mãos.
- Eu fui teu amigo antes da minha carreira. Você foi uma das pessoas que me apoiou no meu começo. – Ela assentiu com a cabeça. – Isso é prioridade para mim. – Ela assentiu com a cabeça.
- Obrigada! – Ela sorriu.
- Então, como eu te ajudo? – Perguntei apoiando as mãos na mesa.
- Eu preciso de um teto, Alisson. E um banho decente! – Ela fez uma careta e eu assenti com a cabeça.
- E um advogado e comida e roupas e dinheiro, imagino eu. – Disse e ela assentiu com a cabeça, espirrando três vezes seguidas e balançando a cabeça. – E remédios! – Ela assentiu com a cabeça.
- É só gripe! – Neguei com a cabeça.
- Não é só gripe, um mês na rua? Nesse frio? Eu vou te levar no médico, comprar remédios. – Ela suspirou com um sorriso no rosto.
- Eu prometo que te pago tudo quando descongelarem meus bens. – Ela falou apressadamente e eu ri, negando com a cabeça.
- Como você pode pensar nisso agora? Olha para você! O mundo está desabando aos seus pés e você falando em pagamento? – Não me contive em me exacerbar e ela passou as mãos nos olhos novamente, me fazendo respirar fundo. - Vamos focar em não ser presa antes, pode ser? – Ela relaxou os ombros, assentindo com a cabeça.
- Ok! – Ela respirou até mais aliviada.
- Vem cá! – Me levantei e ela fez o mesmo.
Passei meus braços pelos seus ombros e a trouxe para perto de mim, apertando-a fortemente em um abraço mais digno dessa vez. Ela passou as mãos em minha cintura, como fazia quando mais nova, me apertando também e senti que ela relaxou ali. Eu não sabia se ela era inocente ou culpada, mas nós fomos namorados, ela me acompanhou por todos os altos e baixos da vida e no começo da minha carreira e, para ajudar, quando ela mais precisou de mim, eu não pude estar lá por ela, eu poderia tentar compensar isso agora.
- E... – Ela falou quando nos afastamos, passando as mãos em seus olhos avermelhados. - Eu vou pedir para você não me julgar pela quantidade de comida que eu vou colocar no prato. – Ela fez uma careta. – Eu não como nada diferente de frutas desde o fatídico dia. – Soltei uma risada fraca.
- Você está morrendo de fome, não é?!
- O cheiro está me matando. – Ela falou e eu apontei em direção ao buffet.
- Vai! – Falei e ela sorriu, saindo animada em direção ao buffet do restaurante, me deixando cheio de dúvidas e uma grande confusão na minha cabeça.

ELES


- Para! – Muriel disse para Alisson que não parava de bater o pé no chão, olhando para a janela mil vezes.
- Eu estou nervoso! – O mais novo disse e Muriel achava engraçado a atitude.
- Relaxa, eu já a conheço! A mãe vai adorar ela! – Muriel mexeu seu filho de dois anos em seu colo, enquanto equilibrava a mamadeira em sua boca. – Além de que você já conhece a família dela também, o que facilita muito.
- Mesmo assim... – Alisson olhou no relógio da parede e se levantou apressadamente quando o Vectra da mãe de parou na frente de sua casa, ele logo saiu, seguindo para o portão da frente.
- Eu te ligo quando for para me buscar, tá? – Alisson ouviu falar para seus pais quando ele saiu na calçada.
- Oi, Alisson! – Sua mãe acenou do banco do carona e ele se colocou ao lado do garoto.
- Oi, dona Sandra! Oi, seu Gilberto! – Ele acenou rapidamente para os pais de que sorriram ao ver o garoto abraçar a menina.
- Divirtam-se! – Seu pai falou e logo saíram com o carro.
- Oi! – Alisson falou quando a garota se virou para ele, fazendo-a rir.
- Oi! – Eles se aproximaram segurando as mãos e trocaram um rápido beijo.
- Como está? Pronta para conhecer os Beckers? – Ela riu fracamente com a pergunta do garoto e deu de ombros.
- Você enfrentou minha família bem. Vai dar tudo certo! – Eles riram juntos com o jeito largado da menina, que tentava não aparentar o nervosismo que crescia dentro do seu peito, e ele entrelaçou a mão na dela, puxando-a para dentro da sua casa.
- Sua família é de boa, minha família é um bando de loucos! – A garota gargalhou.
- Relaxa! – Ela disse.
- Espero que não tenha almoçado! – Ele comentou abrindo a porta de casa novamente. – Estamos fazendo churrasco.
- Eu comi só o lanche na escola, estou com bastante fome, só para deixar registrado! – Ela levantou um dedo, fazendo Alisson rir e eles viram Muriel na sala de casa.
- Muri! – falou animada, soltando da mão de Alisson e o irmão mais velho se levantou com a criança no colo, fazendo com que eles se abraçassem meio desengonçados.
- Tudo bem, ? – Muriel se afastou, segurando sua filha.
- Quem é esse lindo? – sorriu para a criança nos braços de Muriel que olhava curioso com tudo.
- Esse é o Franthiesco*! – Muriel falou sorrindo e o menino escondeu o rosto no ombro do pai.
- Ele é lindo – fez uma voz mais fina sorrindo.
- Vem, vamos lá no fundo. Pessoal está te esperando. – Muriel falou, colocando seu filho no chão e o casal deu as mãos novamente, seguindo para os fundos.
Enquanto eles entravam, Alisson mostrou rapidamente sua casa para . Sua casa era menor que a dela, mas Alisson já tinha passado por isso, eles estavam felizes juntos e era o que bastava. Eles seguiram para o lado de fora, fazendo com que engolisse em seco ao ver mais quatro pessoas que ela não conhecia lá fora. Todos, assim como ela, Alisson e Muriel, estavam com a camisa do Brasil. Hoje era a estreia do Brasil da Copa da África do Sul*, então, nada melhor do que assistir à estreia do Brasil junto de uma família de entendedores de futebol e com um delicioso churrasco sendo assado por gaúchos.
- Gente! – Alisson chamou seus pais e sua cunhada que já os olhavam chegando. – Essa é , minha namorada. – A garota sentiu suas bochechas se enrubescerem com essas palavras, estavam juntos há menos de um mês, ainda era estranho. – , esses são meus pais, Magali e José, a namorada de Muri, Elisângela, e a filha mais velha deles, Duda!
- Oi! – se afastou de Muriel, passando rapidamente pelas pessoas, cumprimentando-os com um rápido abraço e um beijo no rosto. – É um prazer conhecê-los. – Ela falou sorrindo.
- Ah, o prazer é nosso, querida! – Magali falou abraçando a menina.
- Ela é muito bonita, filho. – Seu José falou.
- Pai! – Alisson o repreendeu e riu ao meu lado.
- Obrigada! – Ela falou sorrindo.
- Então, , você gosta de churrasco? – O pai de Alisson perguntou para jovem enquanto seu namorado pegava duas cadeiras de lata para adicionar na mesa.
- Adoro! – A menina sorriu e ajudou Alisson com uma cadeira, abrindo-a e se sentando entre ele e Muriel, que agora segurou Duda em seu colo.
- Como você gosta da carne? – Seu José perguntou.
- Mal passada! – Ela respondeu, agradecendo a mãe de Alisson com o olhar quando colocou um copo de refrigerante em sua frente.
- Mesmo? – Ela se assustou com Alisson, Muriel e José perguntando ao mesmo tempo.
- Sim... – Ela falou indecisa. – Por quê?
- Aqui quando você fala que quer mal passada, é mal mesmo! – Alisson a alertou e a mesma assentiu com a cabeça.
- Se o boi estiver mugindo, melhor ainda. – Ela deu de ombros e seu José olhou significativamente para seu filho e estendeu uma travessa com alguns pedaços de picanha.
- Boa escolha! – Seu José falou baixo para seu filho mais novo e ambos riram antes de Alisson passar a travessa para que olhou rapidamente e pegou o pedaço mais avermelhado e com mais gordura na mesma, antes de passá-la para Muriel.
- Então, , Alisson disse que você não é daqui. – Magali, mãe dele, falou, olhando para a menina.
- Não, eu sou de Brasília. – Ela falou sorrindo.
- Bah, que legal! – Magali assentiu com a cabeça. – E como chegou aqui? – Ela perguntou.
- Minha mãe, na verdade! Ela é policial militar, ela foi transferida para cá.
- Barbaridade! – franziu a testa, já que sempre se confundia com o significado de algumas expressões do sul. – Que bacana!
- Há quanto tempo você está aqui? – Elisângela perguntou.
- Quatro anos no fim desse ano, as vezes minha mãe é forçada a se mudar, dependendo do andamento do seu trabalho, problemas e tudo mais, mas parece que ficaremos por aqui. – Ela sorriu.
- Que bom! – Magali falou.
- E seu pai? – José perguntou.
- Meu pai é arquiteto! – Ela assentiu com a cabeça. – Ele trabalha em uma empresa de Brasília mesmo, mas como ele nem sempre precisa estar lá para fazer os projetos, ele trabalha quase de forma freelancer. – Eles sorriram.
- Ah, que legal! – Muriel falou e sorriu, pegando mais um pedaço de carne e colocando na boca.
- Bem, são quase três e meia! – Alisson se levantou rapidamente e seguiu para a TV próxima a churrasqueira, ligando-a. – Quem vai apostar? – Ele tirou o boné da cabeça de Muriel e seu pai lhe entregou um papel e uma caneta.
- Quatro a zero para o Brasil! – Muriel falou, abrindo a carteira e tirando uma nota de cinco reais e colocou dentro do boné.
- Três a zero! – Seu José falou, também colocando a mesma quantia no boné.
- Como funciona? – perguntou, se virando para Alisson que escrevia os resultados com sua bonita caligrafia.
- Cada pessoa faz uma aposta de cinco reais e quem acertar o resultado, ganha todo o dinheiro. – Muriel explicou.
- E se ninguém acertar? – perguntou.
- O dinheiro volta para cada um. – A menina ponderou com a cabeça e se levantou, passando a mão no bolso de trás da sua calça, onde ela tinha certeza que colocou algumas notas por precaução.
- Eu não entendo nada de futebol, mas dois a um para o Brasil. – Ela disse, estendendo uma nota de cinco para Alisson.
- Acho que você vai perder seu dinheiro, mas... – Alisson falou anotando o resultado e ela franziu a testa.
- Por quê? – Ela perguntou rindo.
- É a Coreia do Norte! – Alisson disse, fazendo seu irmão rir. – Zero tradição de futebol, zero tradição de nada, na verdade! – Eles riram juntos.
- Tarde demais! O máximo que vai acontecer é eu perder cinco reais, acho que é um pequeno preço a pagar. – Ele sorriu para ela. – Ou eu posso ganhar... – Ela fez uma contagem rápida de pessoas. - 25 reais e te pago um sorvete mais tarde! – Ela sorriu feliz e Alisson riu.
- Apostado! – Ele falou e ambos trocaram um rápido beijo.
- Vai começar! – Seu José falou se afastando um pouco da churrasqueira e se sentando ao lado de sua esposa, vendo os jogadores entrarem para o hino nacional.
Alisson colocou sua cadeira ao lado da de para que não atrapalhasse os outros ao redor da mesa redonda. Ela encostou sua cadeira na dele, ele deu a mão para ela e ela apoiou sua cabeça no ombro do mesmo. Ela nunca foi muito chegada em futebol, mas quem não gostava de assistir à Copa do Mundo? Ela não entendia nada mesmo, só gritava quando foi gol e se estivesse desatenta, era capaz de gritar novamente no replay, mas ela estava acompanhada de dois jogadores de futebol, além de seu José ter jogado pelada no trabalho e dona Magali ter conhecimento pelos filhos, então acabava se interessando pelos comentários que eles faziam.
- Você sonha em jogar em uma Copa? – Ela cochichou para Alisson após um tempo de silêncio e jogo sem ânimos.
- Bah! – Ele respondeu, desviando os olhos da televisão um pouco. – Seria tri! – Ele disse, suspirando, fazendo-a sorrir. – Imagina? Representar meu país na Copa? – até o ouviu suspirar, fazendo-a rir.
- Seria sensacional! – Ela sorriu, passando a mão nos cabelos que cresciam novamente em sua cabeça.
- Eu acredito! – Ela sorriu. – Um dia você vai usar essa camiseta verde e amarelo, mas do time principal! – Ela puxou a blusa verde que ele usava da Seleção Sub-17. – Você já deu o primeiro passo. – Ele virou o rosto para ela sorrindo.
- Em quanto tempo você acha que consigo isso? – Ela ponderou com a cabeça um pouco.
- Umas três ou quatro Copas? – Eles ponderaram com a cabeça. – 2022 ou 2026!
- Eu estarei com 29 ou 33! – A menina franziu a testa.
- Ah, sem falar no futuro! – Eles riram juntos! – Mas você vai conseguir!
Ele sorriu, antes de apoiar a mão em sua nuca e dar-lhe um beijo apaixonado. Ele adorava essa menina! Chamá-la para sair foi a melhor decisão que ele tinha feito e desde aquele dia, cada dia com ela era uma novidade para ambos!
- Gol! – Ambos se afastaram ao ouvir o gol e se levantaram gritando como se realmente tivessem visto o gol feito por Maicon! Repetindo o grito durante o replay que fez ambos gargalharem e o menino abraçá-la pelos ombros e ela passar os braços pela sua cintura.
À partir daí o jogo começou a ficar mais interessante. 17 minutos após o primeiro gol, Elano fez outro, deixando-os cada vez mais animados, talvez desse o resultado de Alisson ou Muriel. realmente não se importava com o resultado, contanto que o Brasil ganhasse. Mas realmente parecia que a Coreia do Norte tinha mais dificuldades de passar a bola para o outro lado e conseguir uma abertura para fazer o gol.
Mas e não é que o inusitado veio aos 44 minutos do segundo tempo? Júlio César, goleiro da Seleção desde a copa de 2006, mesmo que como terceiro goleiro, fez uma saída errada do gol para defender o gol e a bola acabou entrando, fazendo com que os Beckers se surpreendessem e tivesse uma reação engraçada.
- Gol! – Ela disse se levantando, fazendo seu namorado colocar a mão na boca e o cunhado gargalhar.
- O jogo ainda não acabou. – Alisson falou.
- Faltam três minutos de acréscimo só. – Muriel implicou com o irmão quase seis anos mais novo. – Ela ganhou! – A família de Alisson riu da reação do mais novo, fazendo sua namorada abraçá-lo pelos ombros.
- Não se preocupe, eu pago o sorvete! – Ela estalou um beijo na bochecha do namorado emburrado, fazendo o resto da mesa rir do mesmo.
- Pelo menos começamos com o pé direito, agora em busca do hexa! – Seu José falou rindo e a menina sorriu.
- Tomara! – Muriel riu erguendo sua bebida e eles sorriam.
- Alguém quer mais carne, gente? – Dona Magali perguntou e todos na mesa negaram.
- Obrigada! – negou com a cabeça e o resto da mesa também agradeceu.
- Filho, pega a sobremesa lá dentro, por favor! – Magali pediu a Alisson e ele assentiu com a cabeça.
- Vem! – Alisson falou puxando e ambos entraram novamente, indo em direção à cozinha. – Eu que fiz a sobremesa! – Ele se gabou, fazendo a menina rir.
- O que você fez? – Ele abriu o forno e tirou uma assadeira na mesma, colocando na bancada onde a menina estava apoiada.
- Negrinho! – Ele disse animado, roubando um da assadeira e colocando na boca.
- Brigadeiro, você quer dizer? – Ela franziu a testa e ele ponderou com a cabeça.
- A gente tem umas expressões diferentes da sua. – Ele passou os braços pela cintura da mesma e ela pelos seus ombros, ficando levemente na ponta dos pés.
- Já notei isso! – Ele deu um rápido beijo nela, fazendo-a sorrir. – É para isso que me chamou aqui?
- Ah, um pouco de privacidade é bom! Ainda mais perto dos meus pais. – Ele disse, fazendo-a rir e ela fechou os olhos, sentindo os lábios do garoto sobre os seus novamente.

*O primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2010 foi contra a Coreia do Norte no dia 15 de junho, às 15:30, horário de Brasília. Brasil ganhou de dois a um com gol de Maicon e Elano e a Coreia fez um nos 89 minutos. Melhores Momentos
*Os filhos de Muriel se chamam Franthiesco e Maria Eduarda, e sua esposa se chama Elisângela.

ELA


Apesar de tudo, eu sentia meu corpo muito, muito mais leve depois de falar com Alisson. Além da minha barriga estar finalmente cheia por eu me empanturrar bastante no almoço. Tinha sido até feio, confesso! Meu prato parecia o do meu pai quando minha avó fazia feijoada, pratão de pedreiro mesmo! Mas, apesar de tudo, eu me sentia aliviada. Bem, em partes, a Interpol e a polícia italiana ainda estavam atrás de mim, eu seria investigada por um crime que não cometi, poderia até ser presa, mas eu sabia que tinha alguém para me apoiar.
Sei que deveria contar para meu pai, provavelmente facilitaria muito as coisas, principalmente em não ter que incluir Alisson nessa jogada. Uma jogada baixa, como ele mesmo diria, mas meu pai já tinha passado por tantas coisas na vida e, ver sua única filha presa, depois de lutarmos tanto para realizar esse sonho, não parecia justo com ele. Acho que não parecia justo com ninguém, para falar a verdade. Mas eu sabia que não conseguiria sozinha e pedir ajuda a Alisson era um primeiro passo. Com certeza não a melhor opção, isso é certeza!
Depois do almoço, Alisson conversou com o pessoal da Roma e eu pude esperá-lo lá dentro e não lá fora, no meu carro. Bem, eu já estava até acostumada, apesar das frequentes dores nas costas e no pescoço, mas ficar sentada naquela arquibancada por mais quatro horas foi muito mais prazeroso, principalmente porque pude ter alguns momentos nostálgicos ao ver Alisson treinando.
Definitivamente ele não era mais o garoto de 17 anos que eu via jogando nas categorias de base do Internacional ou na Seleção Brasileira Sub-17, sete anos tinha feito muita diferença em sua vida. Como goleiro, ele estava mais forte, mais ágil, rápido, seus reflexos trabalham de forma espetacular. Nesse treinamento, ele deixou vários gols entrar, mas sinto que parte disso era minha culpa, não se deve aparecer depois de anos jogando uma bomba dessas no colo do seu ex-namorado.
E como pessoa, ele estava bem diferente. Sua altura era a mesma de antes, mas não podia negar que ele estava muito mais bonito nos dias de hoje. Diferente de seus 17 anos, ele tinha aderido ao uso da barba e dos cabelos mais cheios. Os anos, o dinheiro, a fama, ou o que fosse, tinham feito muito bem a ele. Bem, se ares internacionais, dinheiro na conta e um bom trabalho tinha feito bem para mim, tinha feito bem para ele também.
O treino acabou pouco depois das seis horas, Alisson pediu para que eu o esperasse e seguiu com os demais jogadores para dentro do vestiário. Estávamos quase em abril, então Roma anoitecia por volta das oito horas, mas quando o sol começava a baixar, o vento ficava mais forte e as pessoas começavam a se esconder dentro de suas casas novamente.
- ! – Me desviei do gramado quando Alisson me chamou depois de uns 30 minutos e voltei para dentro do CT com ele.
Ele estava cheiroso, arrumado e com os cabelos puxados para trás. Usava um conjunto de moletom completo e carregava sua mochila nas costas. Ele cumprimentou alguns de seus colegas de time ao sair e notei que ele continuava a mesma pessoa animada, grata e humilde de sempre.
- Então, você disse que ainda tem seu carro? – Ele perguntou quando passamos pelo estacionamento dos jogadores.
- Sim! Está lá fora. – Falei, tirando a chave do bolso.
- Como está de gasolina? – Ponderei com a cabeça fazendo uma careta.
- No vermelho, mas talvez dê para chegar até sua casa. – Falei.
- Eu moro em Olgiata, é uma viagem de 40 quilômetros. – Soltei uma risada fraca.
- Por que não me surpreendo por viver no bairro dos famosos em Roma? – Ele riu fracamente, coçando a cabeça.
- Eu vim do impulso, não sabia onde viver...
- Eu não me importo, Alisson! – Falei e ele sorriu. – Você está bem, rico, famoso, pode morar onde bem entender! – Rimos juntos e ele ficou envergonhado.
- Eu vou sair com o carro e te encontro lá fora, ok?!
- Ok! – Falei, me afastando de costas e segui para fora do CT, encontrando meu carro solitário do lado de fora.
Entrei no carro, ligando-o e vendo o hodômetro ficar vermelho, finalmente tinha chegado à reserva. Só esperava que ele chegasse em Olgiata bem, provavelmente Alisson ia pela estrada, era mais rápido e com muito menos trânsito. Ouvi uma buzina e virei o rosto para trás, encontrando Alisson em um Porsche SUV branco e eu franzi os lábios, surpresa que até ele riu.
- Me segue! – Assenti com a cabeça e subi o vidro novamente, ligando o carro e seguindo atrás de Alisson.
Felizmente fomos pela estrada, então a viagem até que foi calma, mas já passavam das seis horas, então estava bem movimentada. Quando chegamos em Olgiata, grandes portais nos recebiam. Suspirei um tanto confusa, de pensar quantas vezes eu acompanhei o embaixador em grandiosos jantares aqui, e Alisson estava ali do lado. Se ele estava aqui desde o começo da temporada de 2016, eu vim seis meses depois, no começo de 2017, poderia ter nos esbarrado várias vezes.
Alisson falou com o porteiro, apontando para meu carro e logo nossa entrada foi liberada. O segui pelas ruas de Olgiata, passando pelas imensas e belas mansões de um dos bairros mais luxuosos de Roma. Ele entrou no recuo de uma grande casa bege e um jardim cheio de verde e pequenas flores nascendo pelo caminho da entrada. Ele abriu o portão da garagem e eu entrei no recuo do lado contrário e desliguei o carro logo que o vermelho do hodômetro começou a piscar, com certeza não era um bom sinal.
Ele desceu do carro e eu fiz o mesmo, pegando minha bolsa preta e enfiei tudo o que estava jogado no carro na mesma. Segui para o porta-malas e abri o mesmo, encontrando a conhecida caixa de papelão que Matteo tinha me dado lá atrás e também joguei o sapato de salto e outro casaco que estavam fora na mesma.
- Precisa de ajuda?
- Caramba! – Me assustei ao ver Alisson ao meu lado e ele tirou a caixa da minha mão.
- É tudo o que tem? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça, batendo a porta.
- Tenho que agradecer pela minha faxineira ter tirado minha roupa suja naquele dia, isso sim!
- Vem, entra aqui! – Ele disse e o segui pela garagem.
Ele apertou o botão para fechar a garagem e seguimos por uma porta lateral. Me vi entrando pelos fundos da casa. Passamos pela grande sala de estar e de TV. O local era impecável, com uma decoração muito similar à de meu apartamento, clean, simples e com diversas decorações dele e porta-retratos.
- Bem, o banheiro é logo ali, você pode tomar banho, fique à vontade. – Tirei a bolsa do ombro e coloquei na mesa. – A geladeira e o armário estão cheios, caso tenha fome. Eu vou pegar roupas limpas para você e colocar as suas para lavar. – Me sentei na cadeira da mesa de jantar e tirei minhas botas, sentindo meus pés relaxarem rapidamente. – Eu devo ter algum remédio para gripe, nada forte, mas deve...
- Alisson! – O interrompi, já que ele falava muito rápido.
- O quê? – Ele se virou para mim.
- Obrigada! – Sorri e ele assentiu com a cabeça.
- Não se preocupe com isso! – Ele baixou os olhos para a bolsa. – Balenciaga? Você é uma sem-teto com roupas de marca? – Revirei os olhos.
- Eu tinha uma vida boa, ok?! – Puxei a bolsa para mim e ele riu. – Pelo menos sou uma sem-teto com estilo. – Ele gargalhou.
- Só você para ser piadista nessa situação. – Dei de ombros.
- Acredite, isso tudo é culpa sua. – Sorri. – Por topar me ajudar! – Ele riu fraco.
- Vai lá, coloque essa roupa na porta que eu também coloco para lavar.
- Eu posso fazer isso depois, não se preocupe. – Puxei a caixa para mim novamente. – Têm roupas aqui que não são lavadas há mais de um mês, e algumas eram lavadas em banheiros públicos e com sabão que não faz espuma, então não vamos recomeçar nossa amizade com você mexendo no meu suor e odor. – Fiz uma careta e ele riu.
- Ok! Eu vou deixar uma toalha e roupas pendurada na porta. – Ele falou e eu sorri. – Você pode usar o sabonete, xampu, condicionador, desodorante, tudo que está ali.
- Obrigada! – Falei e segui com a caixa para dentro do banheiro, só para não ter perigo dele realmente querer lavar minhas roupas enquanto eu tomava banho.
- Eu vou arrumar as coisas para você e fazer algo para gente jantar.
- Beleza! – Sorri e entrei no banheiro, fechando a porta atrás de mim e trancando-a.
Observei o banheiro claro com pedras de granito e respirei fundo, sentindo as lágrimas finalmente saírem, depois de serem contidas o dia inteiro. Abaixei meu corpo no chão do banheiro e chorei como uma criança, mantendo a mão na boca para que o soluço não ficasse audível. Aquele choro não foi de tristeza, foi de alívio! Eu estava aliviada em poder contar com esse cara depois de tudo o que aconteceu entre nós anos atrás.
- , a toalha e a roupa já estão na porta. – Me assustei com Alisson falando atrás da porta e passei as mãos nos olhos.
- Obrigada! – Falei, me levantando.
Tirei minha roupa completa, jogando-a dentro da caixa e fui para dentro do boxe, ligando o chuveiro, sentindo a água quente bater contra meu corpo gelado. Aquilo aliviou meu corpo completamente. Parece que até o vapor fez com que meus pulmões se abrissem novamente. Peguei o xampu que estava na prateleira do boxe e enchi minha mão, passando-o em meus cabelos e esfregando-o bastante. Fazia muito tempo que meu cabelo não via xampu, estava ressecado de tanto sabonete ruim dos banheiros públicos.
Enxaguei-o logo em seguida e enchi a mão de condicionador, deixando com que agisse em meus cabelos longos. Peguei o sabonete, passando rapidamente nas mãos, sentindo o aroma de rosas subir em minha narina, me fazendo suspirar feliz. O esfreguei na bucha que estava apoiada ali do lado e passei repetidas vezes em meu corpo, especialmente nas mais importantes, como partes íntimas, axilas, cotovelos, joelho, pescoço, enfim, tudo.
Enxaguei tudo e me vi tentada à ficar embaixo da água quente por mais uns minutos, mas a expectativa em dormir em um lugar mais confortável que meu carro chamava mais atenção. Desliguei o chuveiro e passei as mãos em meus cabelos, espremendo-o bastante para ele parar de pingar e pisei no tapetinho do banheiro e corri rapidamente até a porta, destravando-a e abrindo uma fresta da mesma.
Encontrei tudo pendurado na porta e a puxei para dentro, batendo a porta novamente. Deixei tudo em cima da pia e peguei a toalha felpuda, esfregando-a em meu rosto e sentindo um prazer indescritível passar pelo meu corpo. Amarrei a toalha no cabelo e segui à procura do desodorante pelos armários e só achei o masculino de Alisson, na atual circunstância, eu não estava nem aí. Passei em meu corpo e peguei a roupa que Alisson tinha me entregado.
Uma cueca boxer, calças de moletom e uma blusa de manga comprida, tudo dele, imaginei, já que ficavam bem grandes para mim. As vesti feliz por não ter nada apertado em meu corpo e ignorei totalmente o uso o sutiã, não era como se meus seios pequenos ficassem tão à mostra com essa blusa larga. Tirei a toalha da cabeça e encontrei uma escova e penteei meus cabelos, suspirando com o gostoso cheiro de sabonete que reinava no banheiro e, consequentemente, em meu corpo.
Juntei tudo dentro da caixa novamente, junto da toalha que pendurei em meu ombro e saí do banheiro, quase tropeçando em um chinelo na porta do banheiro e coloquei o mesmo. Segui de volta para a sala e observei os porta-retratos colocados nos móveis. Eu tinha procurado sobre ele rapidamente, eu sabia que ele era casado e tinha uma filha, a qual ele chamava de Helena, mas eu não sabia o que tinha acontecido com elas, já que só tínhamos nós dois aqui.
Olhei para a foto de Helena e engoli em seco, sentindo algumas lembranças voltarem em minha cabeça e não evitei em abaixar o porta-retrato com a foto da loirinha para baixo e observei outra de Alisson com sua esposa e suspirei, eles eram bonitos juntos, quase como uma família de comercial de margarina.
- O que aconteceu com a mulher? – Parei na porta da cozinha, encontrando Alisson entretido na cozinha com cebolas e temperos e um sertanejo no fundo.
- O quê? – Ele se virou para mim, abaixando a música.
- A mulher nas fotos! – Falei. – O que aconteceu? – Ele suspirou alto e senti que pisei em um calo.
- Não está mais aqui! – Ele disse e eu assenti com a cabeça, dando o assunto como finalizado.
- Obrigada pelas roupas! – Falei mostrando as roupas largas e ele riu.
- Achei que se sentiria mais confortável do que nas suas roupas finas. – Rimos juntos.
- Nunca pensei que ficaria tão mais feliz de moletom e não com as minhas roupas. – Dei de ombros e atravessei a cozinha, entrando na lavanderia e apoiei a caixa na bancada, abrindo a máquina. – Só colocar a roupa, sabão no espacinho e ligar? – Perguntei.
- Você não vai separar sua roupa? – Ele perguntou e eu achei até engraçado ele fazer essa pergunta e eu ri fraco. – Seus Michael Kors, Gucci, Prada e sei lá mais o quê? – Ele perguntou e eu coloquei as mãos na cintura, me sentindo julgada.
- Eu encontrei uma máquina de lavar, estou nem aí se minhas meias ficarem vermelhas ou amarelas! – Ele riu fraco.
- Então sim, só colocar e ligar! – Ele disse e abri a máquina, pegando as roupas devagar e colocando dentro da máquina, deixando somente meu Louboutin, o tênis de corrida e a bota que ficou na sala de fora.
Alisson se afastou da cozinha um pouco, me mostrando onde estavam o sabão em pó e amaciante e eu coloquei tudo na máquina, fechei-a e liguei, ouvindo-a começar a se encher de água. Desmontei a caixa e coloquei do lado da lata de lixo e peguei meus sapatos, voltando para a cozinha.
- Uou! – Ele disse, pegando os saltos da minha mão. – Isso é um sapato ou uma arma? – Revirei os olhos.
- Segundo a polícia, pode ser usado como arma, já que eles não deixaram eu ficar com ele dentro da cela. – Ele gargalhou e eu puxei os saltos da sua mão novamente.
- Cadê aquela menina que adorava usar tênis? – Ele perguntou e eu ri fracamente.
- Conseguiu um emprego na embaixada! – Respondi rindo. – Mas eu ainda uso tênis, ok?! Quando preciso! – Levantei os tênis e ele riu fraco.
- Coloca tudo na sala e vamos comer. Arroz, feijão, bife e batata frita estão bons para você? – Ele falou e eu suspirei.
- Estão ótimos! – Dei um sorriso apaixonado e ele riu da minha feição. – Mas você mora na Itália e come comida brasileira?
- Tem coisas que não mudam nunca. – Sorri e assenti com a cabeça.
- Ah, Alisson! Sempre se mantendo às raízes. – Ele sorriu.
- Quando você for, nunca se esqueça de onde veio! – Sorri ao ouvir uma frase que seu pai já tinha me dito uma vez e assenti com a cabeça.
- Eu já volto. – Falei e saí da cozinha, suspirando.

ELE

Era tão estranho vê-la comendo na minha frente. Minhas roupas largas arregaçadas nos braços, o cabelo encaracolando conforme secava, o cabelo solto sendo frequentemente colocado para trás para não cair no prato... Parecia 2010 de novo, as noites que acabávamos ficando conversando até tarde, eu impedia que ela fosse embora para casa e emprestava algumas roupas para ela dormir em casa. No dia seguinte, acordávamos bem mais cedo para ela se trocar em casa antes da aula.
- Então... – Ela disse erguendo o rosto e abaixei a cabeça novamente, focando na minha comida.
- Então... – Repeti, erguendo o olhar para ela que suspirou.
- Eu ainda estou surpresa! – Ela falou, rindo em seguida.
- Do quê?
- De você! – Ela falou rindo. – Você conseguiu, Alisson! – Ela cruzou os talheres, apoiando os cotovelos na mesa. – Isso é fantástico!
- Você não sabia? – Perguntei também finalizando de comer.
- Confesso que depois que meu pai disse que você estava namorando de novo, eu decidi deixar o passado para trás. – Assenti com a cabeça. – Eu não soube sobre o Inter, sobre a Roma...
- Seleção Brasileira! – Falei.
- Seu colega de time me disse, isso é sensacional! – Ela abriu um largo sorriso.
- Você não sabia? Em que mundo você vive? – Perguntei assustado. – Achei que depois da gente você tinha criado gosto pelo futebol.
- Até criei, mas eu não tenho tempo! – Ela falou rindo. – Faculdade, estágio, trabalho, Itália! – Ela suspirou. – Tudo aconteceu muito rápido. – Ela se afastou na cadeira. – Eu acordo lá pelas cinco e durmo depois da meia-noite faz uns quatro anos já. – Suspirei. – Confesso que esse mês foi o que eu tive mais folga. – Ela riu fraco, negando com a cabeça e eu sorri.
- As vantagens e desvantagens do reconhecimento pelo seu trabalho. – Ela assentiu com a cabeça, suspirando.
- Mas, me diga, desde quando você está nos representando? – Ela apoiou os braços na mesa novamente e o rosto nas mãos.
- Desde 2015. – Ela abriu a boca surpresa. – Com o Dunga. – Ela assentiu com a cabeça. – Meu primeiro jogo foi contra a Venezuela, deixei um gol entrar, mas ganhamos de três a um. – Ela sorriu.
- Eu sempre disse que bons goleiros deixam sempre um gol entrar, não é?! – Ri fraco.
- Lembro vagamente disso. – Ela sorriu.
- E a Copa da Rússia? Quais as chances de você ser convocado? – Ela perguntou.
- Espero que 100 por cento, eu sou o titular do Tite desde que ele entrou. – Ela suspirou alto.
- Isso é demais, Alisson. Nem sei se eu tenho esse direito, mas estou orgulhosa de você! – Ela tossiu em seguida, colocando a mão na boca. – Você merece tudo isso!
- Valeu! – Sorri e ela suspirou. - E você? Largou a vida de cantora? – Me levantei, lembrando-me de pegar o remédio no armário.
- Só no chuveiro agora! – Ela riu fraco. – Bem, sempre foi só no chuveiro! – Ela deu de ombros. – Eu passei por muitas indecisões na minha vida, quando entrei em R.I., eu meio que parei de tentar ser uma cantora ou pelo menos me manter na área... – Ela deu de ombros. – Enfim, é a vida, acho que depois de uma marca na minha ficha criminal, terei sorte em conseguir um trabalho convencional no Brasil. – Encontrei o xarope e coloquei na mesa.
- Você sempre foi muito apressada! – Falei, me sentando novamente. – Calma! As investigações vão provar sua inocência, sua ficha vai ser limpa e você vai poder fazer o que quiser.
- E você sempre foi muito espirituoso! – Sorrimos cúmplice nos encarando por alguns segundos e eu balancei a cabeça.
- Então, isso é o que eu tenho agora, não sei se vai te ajudar, mas qualquer coisa eu te levo no médico amanhã. – Ela assentiu com a cabeça, abrindo o mesmo e tirando o frasco e o copinho do mesmo. – Eu costumo tomar de oito em oito horas.
- Beleza! – Ela falou, enchendo o copinho e bebendo-o rapidamente, fazendo uma careta em seguida. – Ew!
- Esqueci de falar que ele é ruim! – Ela riu fracamente, fechando os olhos como quando sentia seu corpo arrepiar.
- É péssimo, mas não estou com poder de escolha. – Ela suspirou. – Bom, acho que a máquina parou. – Ela se levantou e fiz o mesmo.
- Você pode pendurar aí mesmo, eu vou pegar roupa de cama para você. – Ela assentiu com a cabeça. – Você se importa em dormir aqui na sala? O sofá é retrátil e bem confortável.
- Durmo até no tapete, se preciso! – Ela falou rindo.
- O quarto da frente está uma bagunça, tem uma cama no quarto da minha filha, mas...
- No sofá está ótimo! – Ela falou rapidamente e eu entendi o recado.
Ela foi em direção à lavandeira e eu segui pelo corredor, abrindo o armário que ficava ali. Peguei uma roupa de cama limpa, algumas cobertas mais quentes e dois travesseiros. Voltei para a sala, colocando tudo na mesa de cabeceira e puxei a parte retrátil do maior sofá, deixando-o mais largo que uma cama de solteiro e tirei as almofadas do mesmo, jogando-as no outro sofá.
Arrumei o sofá, prendendo os lençóis nos cantos do mesmo e deixei os dois travesseiros para ela, um no lugar da cama e outro na lateral. Enquanto ouvia ela pendurando as roupas na lavanderia mesmo, eu segui para o quarto para me preparar para dormir. Escovei os dentes, passei uma água no rosto e troquei meu moletom esportivo pela calça velha de pijama e uma camiseta cinza.
- Você tem uma escova de dentes? – Ela apareceu na porta do quarto com um sorriso misturado com uma careta e não evitei em rir.
- É para ter na gaveta do outro banheiro. – Ela assentiu com a cabeça, se retirando.
Aproveitei que ela estava no outro banheiro e conferi rapidamente meus e-mails, vendo a agenda do dia seguinte. Teria treino só na parte da tarde, o que já facilitava um pouco para mim, daria para eu deixar algumas instruções para antes de sair. Ela provavelmente ficaria aqui em casa. Tinha que lembrar de sacar um pouco de dinheiro e deixar com ela caso precisasse.
Saí do quarto e ela já tinha saído do banheiro. Voltei para a sala e notei que ela já tinha apagado as luzes da lavanderia e cozinha e estava sentada no sofá com a cabeça abaixada, provavelmente rezando. Minhas suspeitas foram confirmadas quando ela fez um sinal da cruz e se virou em minha direção.
- Eu deixei dois travesseiros, não sei se ainda dorme com dois... – Ela sorriu.
- Sim, ainda sim! - Ela apoiou a mão no sofá.
- Você pode ligar a TV se quiser, tem TV a cabo, Netflix, um monte de coisas...
- Obrigada, mas acho que eu vou dormir bem rápido. – Assenti com a cabeça e um sorriso fraco.
- Se você precisar de alguma coisa no meio da noite, você pode me acordar que...
- Acho que não vai ser necessário, você já está fazendo muito mais do que deveria. – Suspirei.
- Você sabe que não. – Ela assentiu com a cabeça. - Fique à vontade! – Falei e ela sorriu. – Boa noite, .
- Boa noite, Alisson! – Ela falou e se deitou no sofá, puxando as cobertas para cima de si.
Segui para a cozinha para preparar meu amargo companheiro mais uma vez naquele dia. Depois desse dia, era o mínimo que eu podia pedir, apesar de eu achar que dessa vez isso não iria adiantar.
Enquanto eu preparava e bebia devagar, eu não conseguia parar de pensar em tudo o que tinha acontecido hoje. Primeiro de tudo, estava em Roma pelo último ano e pouco e eu não tinha a menor ideia! Quantas chances eu havia perdido de nos encontrar? Além disso, em um trabalho fantástico! Embaixada! Ela era assistente do embaixador brasileiro aqui! Isso com certeza era grande! Me lembro de que quando ela saiu de POA ela tinha prestado R.I. no ENEM, mas não tinha certeza se seguiria com isso.
Agora essa investigação! tinha sido presa? Sem passaporte? Bens congelados? Morando no carro? Isso parecia coisa de filme, não podia estar acontecendo com essa garota que eu amei tanto quando mais novo. Ela sempre me apoiou, sempre foi muito fiel, me ajudou em diversas situações, me acompanhou em jogos no Brasil inteiro, incluindo na Nigéria. E o pior de tudo era que parte de mim duvidava que ela era realmente inocente nesse crime. Fazia muito tempo, as pessoas mudam, certo? E nem sempre para melhor.
Mas outra parte de mim queria acreditar que tudo havia sido uma conspiração contra ela, usá-la como mula mesmo para fazer com que a culpa fosse passada para ela. Uma grande posição dessa vinha com muitas responsabilidades e talvez responsabilidades muito maiores do que ela conseguia aguentar.
Parei na porta da cozinha, observando-a já dormindo no sofá da sala, abraçada no travesseio que sobrou e senti meus olhos se encherem de lágrimas. Não, ela não podia ser culpada por isso. Ela estava mais bonita, se vestia com roupas mais caras, mas ela não podia ter feito isso. Minha garota nunca faria isso. Respirei fundo e passei as mãos em meus olhos, ela já não era minha garota há sete anos e parte de mim ainda sentia falta dela.
Suspirei e desliguei a luz da cozinha, seguindo direto para o quarto e fechei a porta quando entrei. Me sentei na cama e peguei meu celular que estava jogado no meio da mesma. Procurei pelos meus contatos, encontrando o nome de minha mãe e disquei o mesmo, feliz por estar cinco horas à frente.
- Alô? Filho? – Ouvi a voz da minha mãe do outro lado da linha e respirei fundo.
- Oi, mãe! – Falei um pouco baixo, passando a mão na cabeça.
- Oi, querido! Como você está? – Ri fraco.
- Tudo indo! – Suspirei. – E você?
- Tudo certo! – Sorri.
- Ei, mãe, deixa eu te perguntar, será que você poderia vir um pouco antes do programado?
- Acho que posso ir sim, vou dar uma olhada nos meus compromissos e falar com a Natália e já levo Helena junto. Mas, por quê? Aconteceu alguma coisa? – Respirei fundo, pensando que nunca usaria essas palavras, mas respirei fundo e falei, como se tirasse um band-aid.
- Eu estou com um problema, mãe! – Engoli em seco.
- O que aconteceu? – Ela perguntou e respirei fundo, deitando na cama.
- está aqui, mãe! – Respirei fundo.
- O quê? – Ela falou um pouco mais alto e eu passei a mão no rosto. – ? A ?
- Ela mesma. – Suspirei. – E ela está com um problema muito maior do que eu! – Respirei fundo.
- Eu vou chamar seu pai e você nos conte tudo! - Respirei fundo, sentindo minha cabeça começar a latejar.



Capítulo 03

ELA


E depois de uma bela noite de sono, eu estava acordada. Soltei um suspiro, abraçando mais forte o segundo travesseiro e respirei fundo. Eu estava nas nuvens! Meu pescoço nem minhas costas estavam mais doendo! Tudo estava bem, até eu abrir meus olhos.
O sonho sumiu e a realidade me atingiu rapidamente ao me encontrar no apartamento de Alisson, encarando sua televisão desligada. Virei meu corpo para cima, encarando o teto. A sala estava clara, o sol não estava entrando, mas a claridade penetrava pela cortina e fazia com que eu identificasse tudo no local.
Dei um longo bocejo e abracei o travesseiro fortemente, girando meu corpo no sofá e puxei as cobertas mais para cima, para que cobrisse meu pescoço completamente. Talvez eu pudesse dormir por mais alguns minutos. Franzi os olhos para enxergar o horário no DVD abaixo da televisão e arregalei os mesmos ao notar que já passava das 11 da manhã.
- Meu Deus! – Me sentei rapidamente.
- Oh, bom dia! – Virei o rosto para trás rapidamente, encontrando Alisson sentado na mesa de jantar com um notebook e sua cuia.
- Ah, eu dormi demais! – Passei a mão na testa.
- Desculpe, mas você tem alguma coisa para fazer? – Ele deu um sorriso presunçoso e eu revirei os olhos, deixando meu corpo cair no sofá novamente, me fazendo rir.
- Ainda não acostumei à folga! – Coloquei os dois travesseiros embaixo da minha cabeça e ele riu. – Você está aí há quanto tempo? – Virei a cabeça para trás.
- Uma hora ou duas. – Ele respondeu focando em seu notebook e eu suspirei. – Você ainda ronca e fala enquanto dorme. – Ele murmurou e eu bati as mãos no rosto.
- O que eu falei? – Respirei fundo. – Quer saber? Não importa. – Balancei a cabeça.
- E baba! – Passei a mão na lateral da boca, sentindo-a seca.
- Droga! – Suspirei.
- Então, dormiu bem? – Ele perguntou e eu sorri.
- Olha, eu tinha um apartamento incrível, uma cama que me deixava nas nuvens, mas esse é o sofá mais confortável que eu já dormi na vida! – Suspirei, fazendo-o rir.
- Talvez porque você dormiu no seu carro no último mês! – Ele atravessou a sala, seguindo para a cozinha e eu me sentei no sofá, jogando os cabelos para trás.
Juntei todo cabelo, enrolando bastante e prendendo em um coque. Me levantei, esticando rapidamente meu corpo, ouvindo-o estalar, começando a dobrar as cobertas, tentando deixar meu novo quarto o mais arrumado possível. Empilhei os travesseiros e coloquei tudo no canto e respirei fundo.
- Você pode deixar tudo aí, não tem problemas. – Ele voltou novamente com um balde com minhas roupas e me entregou. – Suas roupas já secaram. Se quiser passar, o ferro está lá na lavanderia também.
- Obrigada! – Segui até a mesa de jantar e coloquei o balde na mesma, dando uma rápida olhada nele e vendo que ele também tinha mexido em minha roupa íntima. – Pelo menos nada ficou manchado! – Falei e ele riu.
- Roupa boa! – Ele falou e eu sorri.
- Ei, você não tem treino? – Virei para ele.
- Meio dia, eu preciso sair daqui logo. – Ele falou e apoiou sua mochila na mesa de jantar ao meu lado. – Você se importa em se virar com o almoço aqui? Tem comida congelada, comida para esquentar, miojo no armário, fica à vontade!
- Claro, sem problemas! – Assenti com a cabeça e ele tirou umas notas da carteira, me entregando.
- Aqui, para você! Caso você precise. – Suspirei.
- Você não precisa fazer isso. – Estiquei os euros novamente.
- Ah, acho que preciso! – Ele colocou novamente na minha mão e a fechou. – Você não pode ficar trancada aqui. Abasteça seu carro, vá dar uma volta, se ocupe. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
- Talvez eu saia para procurar um emprego, não sei. – Suspirei. – Pensei nisso logo depois de tudo, mas eu morria de medo do meu carro ser roubado e ficar sem nada de vez. – Ele riu.
- E o que mudou agora? – Ele cruzou os braços e eu fiz uma careta.
- Eu tenho você? – Ele revirou os olhos.
- Não que tenha problema você ficar aqui nem nada, mas você precisa contar para o seu pai! – Suspirei.
- Passos de bebê! – Sorri. – Se importa se eu usar seu notebook para resgatar meu currículo no meu Drive?
- Sem problemas, tenho impressora no escritório, cartucho deve estar cheio.
- Obrigada! – Sorri.
- Não sei aonde você pretende procurar emprego, mas eu daria uma restringida no seu currículo. Ele provavelmente deve ser bem glamoroso baseado no que você me contou. – Franzi os lábios.
- Talvez! – Suspirei. – Talvez eu acrescente “presa por suspeita de desvio fiscal na embaixada brasileira da...”
- Você não vai colocar isso, não é? – Ele perguntou e eu ri fraco.
- Claro que não! Eu ainda quero um emprego. – Ele gargalhou ao meu lado.
- Ótimo, mas não é por nada não, pode ser difícil você conseguir um emprego sem documentos, sem pedido de antecedentes criminais e com seu rosto nos jornais internacionais...
- O quê? – Gritei e ele virou a tela do notebook, me mostrando uma notícia em um site italiano com uma foto minha saindo da embaixada.
- Eu encontrei isso hoje. Pela foto não dá para saber que é você, mas embaixo eles citam seu nome. – Coloquei as mãos na cabeça.
- Ah não! Será que meu pai viu isso? Deve ter passado nos jornais brasileiros. Oh, meu Deus! Ele vai ficar tão decepcionado, depois da minha mãe ele...
- ! – Alisson gritou meu nome segurando meus ombros. – Se acalma! Relaxa! Para de hiperventilar e respira fundo! – Ele falou firme e eu soltei o ar devagar pela boca. – Ele ainda não te ligou o que é um bom sinal para você e um péssimo sinal para mim. Além de que essa notícia é de quando aconteceu, já faz um mês. – Suspirei. – Pega o dinheiro que eu te dei, abasteça seu carro, tem um posto aqui em Olgiata mesmo, procure um emprego, vá passear, não sei, mas se acalma!
- Não é o seu que está na reta, não é?! – Cruzei os braços e ele me encarou. – Ok, vou relaxar! Mas eu vou atrás de alguma coisa sim, provavelmente não será tão glamoroso quanto meu antigo emprego, mas eu não posso ficar dependendo de você até o fim da investigação, já estou na sua casa, já é demais, além de que só Deus sabe quando isso vai acabar.
- Tudo bem, mas olha onde você vai se meter, um emprego que não exija documentos nem nada não é muito confiável. – Suspirei.
- Eu vou ver o que faço! – Dei um pequeno sorriso.
- Ok, qualquer coisa me liga. Você tem um celular, não tem?
- Tenho! – Procurei o mesmo na bolsa. – Esqueci de colocar para carregar ontem. – Ele puxou o notebook, abrindo um bloco de notas e anotando alguns números.
- Esse é meu número, me avise se você for ficar na rua até depois das sete. Talvez eu demore um pouco hoje, tenho jogo amanhã e os treinos acabam sendo estendidos.
- Ok, mãe! – Falei e ele me encarou do alto, odiava quando ele fazia isso.
- Você está na minha casa, faz parte de uma investigação, então, sim, você vai me dar satisfações como fazia com a sua mãe. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
- Ok! – Ele colocou a mochila novamente nas costas.
- Eu estou indo. Qualquer coisa você me liga, qualquer problema mais urgente você pode falar com os seguranças que ficam à paisana no condomínio. – Ele respirou fundo. – O que mais?
- Alisson! – Falei alto e ele se assustou. – Viu como é bom ser interrompido? – Ele revirou os olhos. – Relaxa, eu vou ficar bem! Eu conheço essa cidade como a palma da minha vida. Vai para o seu treino, defenda algumas bolas, faça seu time ter orgulho de você para ser convocado para a Copa. Você tem um jogo amanhã! – Falei animada e ele deu um sorriso de lado. – Prometo que não coloco fogo na casa!
- Ok. – Ele falou e acenou com a mão. – Até mais tarde. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Até mais! – Falei e o vi fechar a porta, me vendo sozinha em sua casa.
Parei por um segundos, pensando no que eu faria primeiro e aproveitei que estava ali e já dobrei as roupas que Alisson tinha deixado para mim e confesso que suas roupas confortáveis estavam muito melhores do que qualquer opção que tinha ali dentro, mas poderia ser útil para a busca de empregos mais tarde.
Assim que eu finalizei, segui para a cozinha, à procura de alguma coisa para almoçar, já era quase meio dia, então nem estava a fim de tomar café, acho que poderia pular direto para o almoço. Encontrei algumas vasilhas com o arroz e feijão da noite passada e esquentei o mesmo no micro-ondas. Pensei em descongelar um bife ou alguma outra coisa, mas me contentei em fritar um ovo e devorar tudo ainda com a mesma empolgação do dia anterior. Estava bem feio, parecia que eu nunca tinha visto comida na minha vida.
Aproveitei para tomar mais uma dose do remédio e saí da cozinha, seguindo para o banheiro, escovei os dentes e tentei dar um jeito em meu cabelo. Eu não tinha chapinha nem nada, mas eu tinha um lacinho perdido no bolso de algum casaco e teria que servir, se não meu cabelo ficaria muito armado. Peguei uma escova na gaveta e fiz um rabo de cavalo bem alto e o prendi com o lacinho, abaixando os fios rebeldes com a ponta dos dedos.
Voltei para a sala e encontrei minhas roupas, mexi nelas rapidamente, vendo minhas poucas opções e acabei colocando uma camiseta de mangas compridas, uma calça social preta, o casaco vermelho do fatídico dia e botas nos pés, feliz por poder colocar minhas calcinhas novamente, não sairia de salto alto para procurar emprego, afinal, nem saberia que tipo de emprego eu conseguiria.
Assistente administrativo? Secretária? Recepcionista? Ou será que alguma coisa envolvida com a minha área? Suspirei. Não, Alisson tinha razão, dificilmente eu conseguiria um emprego bom assim, todos pediriam meus documentos, antecedentes criminais e isso eram duas coisas que eu não podia me dar ao luxo em entregar.
O pior de tudo isso era pensar que minha mãe foi policial! Eu sempre a ouvi dizer sobre criminosos e em nunca confiar em ninguém, mas parece que isso não deu muito certo. Não que eu fosse confiar que o cara escolhido para ser o representante do Brasil na Itália, que passou em todos os testes, provas e avaliações, seria preso e ainda me levaria com ele.
Pensei em Miguel por alguns segundos, eu não tinha tido a chance de encontrá-lo, mas, com certeza, eu daria um belo soco na sua cara quando tivesse a chance! Como ele fez isso comigo? Eu fui uma assistente muito boa por um ano e meio, tirando os anos do Brasil onde eu também trabalhava diretamente com ele. Esse movimento dele tinha sido muito baixo, como ele podia ter feito isso?
Bom, como diria minha mãe, o que está feito, está feito. Eu só precisaria arranjar um jeito de me defender, precisava relaxar mais um pouco e pedir o contato de um advogado para Alisson, de preferência um que lidasse com casos de estrangeiros ou grandes casos, não sei o que era pior nessa situação.
Balancei a cabeça por um momento e respirei fundo, eu não poderia pensar nisso agora, eu ainda tinha pelo que lutar. Peguei meu celular e abri o WhatsApp, encontrando a conversa do meu pai com várias mensagens não respondidas e cogitei ligar para ele e contar toda a verdade, mas eu não poderia fazer isso com ele agora. Na verdade, eu nunca poderia fazer isso com ele, se doía em mim, imagina nele? Respirei fundo e apertei o botão de áudio.
- Oi, pai, como está? Desculpa o sumiço, as coisas ficaram um pouco mais complicadas aqui no meu trabalho e eu não conseguia tirar um tempo para falar contigo de jeito nenhum. Mas, deixa eu te falar, eu estou com o Alisson. Se lembra dele? Alisson Becker de Nova Hamburgo? Então, a história é um pouco mais longa que essa, mas eu estou sem apartamento por uns problemas lá no trabalho, mas está tudo bem, eu te prometo. Não se preocupe. – Suspirei. – Acabei entrando em contato com Alisson e ele está me dando abrigo por uns dias. Quando eu souber mais sobre, eu te conto, mas, por favor, não se desespere. Eu te aviso no caso de novidades. Eu te amo, ok?! Mande um beijo para o pessoal aí. Tchau! – Suspirei, enviando a mensagem.
Voltei para a mesa de jantar e peguei minha bolsa, conferindo rapidamente se minhas coisas estavam lá. Bem, minha carteira, já que a polícia tinha confiscado meu iPad e minha agenda, não que eu precisasse deles agora, mas eram coisas que eu estava acostumada a carregar, acostumada com o peso.
Observei o pequeno monte de euros em cima da mesa e respirei fundo, pensando alguns segundos entre pegar ou não pegar, mas o peguei, contei rapidamente a quantia e guardei em minha bolsa. Peguei meu celular e abri o bloco de notas, anotando a quantia. Alisson poderia não querer que eu o pagasse de volta, mas eu tentaria mesmo assim.
Passei pela sala e encontrei as chaves do meu carro no móvel junto das chaves que deveriam ser da casa. Observei o móvel e percebi que tinha algumas coisas faltando no mesmo, coisas que estavam ali no dia seguinte. Os quadros! Acho que Alisson percebeu que eu tinha virado para baixo o quadro de sua filha e o tirou dali. Bem, ele tirou todos, na verdade, só tinha as fotos dele com sua família, Taffarel e seus amigos.
Talvez ele não fizesse por mal, talvez ele entendesse o porquê eu não queria ficar encarando a foto da sua filha. Dei um pequeno sorriso e peguei as chaves e segui pela casa, apagando as luzes que ainda estavam ligadas e saí, puxando e travando a porta em seguida.

ELE


Acabei acordando cedo no dia seguinte, ou melhor, eu acho que nem tinha conseguido dormir. Saber que estava dormindo no meu sofá me deixou pensativo e não foi pela questão da investigação. Me fez lembrar de quando a gente namorava. As coisas começaram tão natural, mas terminaram de uma forma péssima.
Eu pensava se talvez tinha ganhado a oportunidade de consertar as coisas. Ela estava de volta, Natália tinha ido embora... Não sei. Foi inevitável para que os sentimentos e as lembranças voltarem. Droga! Eu ainda me lembrava de que ela dormia com dois travesseiros, caramba!
O pior de tudo foi encontrar o quadro de Helena virado para baixo na noite passada. Ela sabia e aquilo tirou boa parte do meu sono. Ela estava magoada e, mesmo que fizesse muitos anos, aquilo me magoava também. Foi um erro, mas creio que no fundo eu pensei nela quando tomei essa decisão.
Além disso, fiquei conversando com meus pais até mais tarde. Tentei contar tudo o que havia me contado, mas eu ainda estava muito chocado e com certeza os havia deixado também. Era muito difícil contar coisas surpreendentes sem poder gritar. Meu pai travou, da mesma forma de quando Muri contou que tinha engravidado Elisângela em 2007, já minha mãe ignorou totalmente a parte da investigação e pediu para eu tentar aproveitar a oportunidade para entender tudo o que aconteceu anos atrás, além de nos reaproximarmos. Não sei se foi da forma romântica ou não, mas ela sabia o quanto que eu sofri depois que terminamos.
Quando acordei, obviamente ainda dormia bem pesado. Assim que saí do quarto, podia ouvir seus roncos ecoando pela casa e eu só consegui rir, nada tinha mudado. Além disso, ela dormia com a boca aberta e o rosto enfiado no segundo travesseiro que já tinha uma pequena poça molhada no mesmo. É óbvio que, para meu momento nostalgia ser mais perfeito, ela balbuciava algumas coisas totalmente sem sentido.
- Hum, ná... Ah... Rom...
Era engraçado! Me lembrava de quantas vezes eu a enganei inventando que ela tinha falado coisas muito bárbaras enquanto dormia e, no final das contas, eu nunca entendia o que ela falava. Não fazia sentido, não formava frases, não eram nem palavras completas para falar a verdade. E obviamente eu fiz essa piada novamente, mas ou ela não acreditou ou ela ficou curiosa se eu poderia ter ouvido alguma coisa que a comprometesse. E claro que a minha curiosidade falava mais alto em saber o que ela estava pensando, mas eu me reprimi.
Já que eu não podia aproveitar minha manhã livre tocando violão para não acordar minha convidada, eu acabei ficando jogando um pouco no notebook. Não era muito chegado nesses jogos de computador, preferiria meu original FIFA, mas ligar a TV também estava um pouco fora de cogitação, além de que eu estava realmente entretido com toda balbuciação. Ela não parava!
Quando percebi que ela ia demorar para acordar, aproveitei para adiantar algumas coisas de casa, organizar a mochila para o treino, tirar suas roupas secas do varal, perdendo pelo menos alguns segundos em analisar que tipo de roupa ela tinha. Era tudo roupa social, vestidos, calças, sobretudos! Tá explicado porque ela estava um pouco chique demais no treino ontem, ela não tinha muita opção. Além da bota que ela usava, o tênis de ginástica e o salto alto que poderia matar alguém. Ela definitivamente precisaria de mais roupas.
Aproveitei esse pensamento para sacar dinheiro. Não sabia o que ela ia fazer para passar seus dias até a investigação, mas ela provavelmente não gostaria de ficar trancada todos os dias aqui em casa. Talvez nem eu gostaria de tê-la trancada aqui em casa todos os dias, eu tinha treino, jogo e outras coisas, e apesar dela poder se distrair com tudo aqui de casa ou em Olgiata, sem dinheiro ela não conseguia fazer muita coisa. E ela não tinha cara de ser alguém muito ativa a pé, ela não era nem em 2010, agora, vendo o tamanho desse salto, ela deveria ser bem menos.
Fui, voltei, lanchei, morri em várias partidas de CS e nada dela acordar, mas lá pelas 11 horas ela deu um pulo no sofá, me assustando. Eu tinha que estar no CT meio-dia e a viagem era longa, então tive que sair correndo de lá. Mas ela tinha me dito duas coisas que me deixaram feliz e intrigado. A primeira foi dela falar que ia procurar um emprego. A ideia era boa, mas eu não sabia muito do mundo obscuro de empregos em Roma, afinal, sem documentos e sem puxar os antecedentes criminais, ela não conseguiria algo decente, pensei em começar a acabar com sua felicidade, mas pelo menos ela se ocupava assim.
E a segunda coisa foi que ela disse “eu tenho você”, aquilo tinha caído como um baque e eu não fazia a menor ideia do que significava, mas de certa forma eu me senti responsável por ela, da mesma forma que em 2010. E eu não poderia pensar no que aconteceria se ela realmente fosse culpada pelas investigações e fosse presa. Acho que isso era o que pegava mais na minha cabeça: e se ela fosse culpada? Eu não parava de pensar nisso, eu queria acreditar que ela realmente não fez nada, mas parte de mim não conseguia ignorar que ela podia ser culpada.
Não, minha não faria isso... Bom, ela não era minha há muitos anos, da mesma forma que eu não era mais seu Alisson. Os anos passaram, crescemos, seguimos caminhos diferentes e, por sorte ou azar do destino, nos encontramos novamente. Acho que era isso, o destino estava tentando me dizer alguma coisa. Consertar erros do passado? Ajudar ela a passar por essa investigação? Nos reaproximar novamente? Não sei! Acho que eu teria que ver com o passar dos dias.
Mas era bom vê-la novamente. Ver que ela estava bem, bonita, feliz, tinha feito sucesso na carreira, apesar do efeito colateral. Mesmo com tudo isso, ela estava bem, sorrindo, bem diferente da última vez que eu a tinha visto com os olhos vermelhos, as lágrimas escorrendo pelo rosto e o coração machucado duas vezes. E eu não fiz nada para ajudar.
- Ei, Alisson! – De Rossi apareceu e eu dei um pulo na cadeira, derrubando o garfo. – Te assustei?
- Ei, capitano, não, só estava pensando. – Peguei um guardanapo e passei por onde o garfo tinha caído e deixado uma mancha.
- Estou vendo que você está meio tenso, distraído. Chegou mais cedo que o normal, se isolou para almoçar, perdeu todas as bolas do treino ontem... – Suspirei, passando a mão na cabeça. – Não imagino que seja sobre sua separação com Natália e sim com aquela mulher que almoçou contigo ontem.
- Ah, você não tem nem ideia. – Falei suspirando e ele puxou a cadeira na minha frente, se sentando.
- O que está acontecendo, Alisson? Nós precisamos de você focado, com você temos chances reais de ganhar a Champions League e o Campeonato Italiano. – Suspirei.
- Não sei, essa temporada se tornou muita maior chance aqui na Roma como titular, depois da saída do Wojciech* e parece que tudo se bagunçou nos últimos meses. – Apertei minhas mãos na cabeça.
- O que aconteceu? Não tem nada a ver com a Natália, não é? – Ele perguntou.
- Não, mas acho que meu azar começou quando ela pediu o divórcio. – Ele riu fracamente.
- Quem é aquela mulher que estava aqui contigo ontem? – Soltei uma bufada alta. – Você não precisa me contar, se não quiser.
- Eu preciso falar com alguém ou eu vou explodir, ainda não estou acreditando que isso está acontecendo! – Respirei fundo. – Aquela mulher que estava aqui ontem era minha namorada lá no Brasil. Ela foi minha primeira namorada. – Ele arregalou os olhos.
- Uou! – Assenti com a cabeça. – E o que ela está fazendo aqui? Filho perdido? – Ri fracamente.
- Eu cogitei! – Falei rindo. – Acho que seria melhor do que a real situação. – Suspirei.
- Desembucha! – Ele disse.
- Dando um pouco de passado, nós namoramos por uns oito meses, no final do ano ela foi embora e nunca mais nos vimos, nunca mesmo. Eu tentei esquecer ela, ela disse que fez o mesmo, enfim, passou, os anos se passaram e tal. – Dei de ombros.
- Quando foi isso? – Ele perguntou.
- 2010, eu nem tinha começado a jogar como profissional, isso foi só em 2013, titularidade só em 2014. – Ele assentiu com a cabeça. – Mas ela me apoiou bastante no meu sonho, até viajou comigo para a Nigeria no Campeonato da Seleção Sub-17, ela foi sensacional.
- Se ela era tão sensacional, por que vocês terminaram? – Suspirei, pensando um pouco.
- Para ser honestos, acho que nunca terminamos, nenhum dos dois colocou um ponto final nisso. – Dei de ombros. - Ela foi embora no fim do ano, mas falamos que ia tentar e não deu certo. Ela não tinha tempo para me visitar, eu não tinha dinheiro para ir para a cidade dela. A vida nos separou, na verdade. – Ri fraco.
- Acho que vocês não tentaram o suficiente. – Assenti com a cabeça;
- O pior é que eu concordo contigo. – Balancei a cabeça. – Dinheiro, tempo, hoje são coisas tão ridículas, talvez ainda pudéssemos estar juntos... – Ele assentiu com a cabeça.
- Bem, os anos passaram e ela está aqui agora. Talvez você esteja ganhando uma oportunidade de ficar com ela novamente, se ainda tiver sentimentos é claro. – Suspirei.
- Vê-la aqui, na Roma, com os mesmos trejeitos, o mesmo sorriso, os mesmos movimentos...
- Foi inevitável! – Ele falou e eu assenti com a cabeça, respirando fundo.
- Não sei, mas não consegui evitar em pensar no que poderia ter sido se tivéssemos juntos. – Ele assentiu com a cabeça. – As lembranças voltaram como um baque. – Ele sorriu.
- Talvez seja a vida te dando uma segunda chance. A Natália foi embora, sua ex voltou... – Ele parou. – Acho que saímos do motivo. – Ele riu fraco. – O que ela está fazendo aqui mesmo? – Gargalhei, vendo-o sorrir e balancei a cabeça.
- Ela veio para cá há um ano e meio para trabalhar na embaixada brasileira da Itália...
- Uou, grande coisa! – Assenti com a cabeça.
- É! Pelo jeito ela tinha o melhor trabalho do mundo, ela fala sorrindo sobre, sabe? – Ele assentiu com a cabeça. – Aí o embaixador foi preso por desvio fiscal, o que imagino que seja corrupção, lavagem de dinheiro e afins, e ela foi presa como suspeita de cumplicidade.
- Oh! – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Me diz se não é difícil focar depois dessa. – Ele coçou a cabeça.
- Puta que pariu, hein?! – Concordei, suspirando.
- O passaporte dela foi confiscado, os bens congelados e ela vivia em um apartamento do governo brasileiro e também foi tirado dela.
- Meu Deus! – Ele coçou a cabeça. – Por isso que ela...
- Veio atrás de mim. – Assenti com a cabeça. – E o mais engraçado é que ela não sabia que eu estava aqui, ela disse que descobriu do nada. Já faz um mês, De Rossi, ela veio atrás de mim agora.
- Caramba! – Ele respirou fundo. – Acho que agora eu entendo um pouco do seu nervosismo. – Assenti com a cabeça. – E você acha que ela é culpada? – Bati a mão na testa.
- Eu não sei. – Suspirei. – Se fosse em 2010 eu botaria minha mão no fogo para falar que não, mas agora... Eu não sei, faz muito tempo. Eu não sei o que ela fez, o que ela se tornou. – Ele assentiu com a cabeça. – Ela diz que não fez, acha que foi usada como mula, pois tinha muitas responsabilidades na embaixada, mas como eu vou acreditar nela?
- Como não, Alisson? – Ele me perguntou. – Para você, ela ainda é a sua menina de sete anos atrás, certo? – Continuei ouvindo. – Ajude-a, apoie ela no que precisar, ela já deve estar assustada o suficiente... – Assenti com a cabeça. – Além disso, aproveite e tente consertar o que é que fez com que vocês terminassem anos atrás, ou melhor, o que impediu que vocês colocassem um ponto final na história de vocês. – Suspirei. – Pensa no lado bom, a vida está te dando a oportunidade de continuar de onde você parou ou realmente colocar um ponto final em tudo, aproveita! – Ri fraco.
- Valeu, De Rossi.
- E, se ela realmente estiver vendo isso como uma segunda chance, ela está sendo honesta contigo e isso só vai ser uma dor de cabeça na vida de vocês dois. – Suspirei.
- Não sei se ela está vendo isso como uma segunda chance ou veio atrás de mim por eu ser a única opção dela. – Ele ergueu a mão.
- Ela chegou em você, certo? – Ri fraco. - Vai dar tudo certo! – Assenti com a cabeça. – Termina de comer e vamos para academia.
- Beleza, já estou indo. – Acenei com a cabeça e olhei para minha comida que já aparentava estar gelada.
*Wojciech Szczęsny, goleiro titular da Roma durante o primeiro ano do Alisson no time. Alisson ganhou a titularidade na temporada 2017/2018 quando ele foi transferido para a Juventus.

ELES


- Oi, querida! – Dona Magali abriu a porta, encontrando na mesma. – Tudo bem?
- Tudo bem e com vocês? – A mais nova cumprimentou rapidamente sua sogra que deixou-a entrar na casa.
- Tudo certo também! – tirou sua mochila da escola das costas.
- Estava na escola ainda? – Ela perguntou.
- Sim, plantão, como a diretora deixou a gente adiantar umas provas antes da viagem para a Nigéria, eu aproveitei o plantão para tirar as últimas dúvidas. – Ela riu fracamente.
- Deveria te obrigar a levar o Alisson para mais plantões. – sorriu.
- Eu tentei! – deu de ombros. – Ele já chegou do treino?
- Já sim, não sei se está no banho ou no quarto! Vai lá! – Ela piscou e sorriu, seguindo Magali por um tempo e quando ela seguiu em frente para a cozinha, entrou no corredor à esquerda e seguiu até o último quarto do corredor.
- Alisson, sou eu, estou entrando! – empurrou a porta entreaberta. – Ah! - Gritou quando encontrou seu namorado só de cuecas se olhando no espelho e puxou a porta novamente envergonhada.
- Pode entrar! – Ela ouviu novamente.
- Tá vestido? – Ela colocou os lábios na fresta da boca.
- Em partes! – Ele respondeu e abriu a porta devagar, vendo Alisson de boxer e a camisa do Internacional. – Estou apresentável para você? – Ela riu fraco, entrando no quarto e deixando sua mochila ao lado da porta.
- Desculpe, nós não chegamos... Nessa parte ainda. – Ela fez uma pausa, deixando ambos envergonhados.
- Eu ralei as pernas no jogo hoje, estava passando Merthiolate, mas tá ardendo para caramba... – olhou para os joelhos avermelhados de Alisson.
- Quer ajuda? – Ela perguntou e ele fez uma careta. – Senta aqui! – Ela se sentou na lateral da cama do garoto e ele foi ao seu lado, se sentando e esticando as pernas no colo da garota.
- Vai devagar! – Ele cochichou ao pé do ouvido enquanto pegava o algodão e molhava no remédio.
- Fica quieto! – Ela disse segurando as laterais do joelho do garoto e tocou no local, sentindo o garoto retrair a perna.
- Ah, isso arde, caramba! – Alisson reclamou enquanto afastava seu rosto com medo dele acertar com sua perna na retração.
- Cuidado! – Ela reclamou e ele puxou a perna, abraçando o joelho.
- Ah, tá foda! – Ele reclamou e revirou os olhos.
- Ah, que reclamão! – Ela se levantou. – Por que você não vai tomar banho? Aposto que vai doer bem menos depois de lavar isso com bastante sabão. – Ela pegou sua mochila próximo à porta. – Eu trouxe uns exercícios do plantão, se você estiver no clima de fazer.
- Eu faço a noite, meus pais vão sair daqui a pouco. – Ele deu de ombros. – Falando nisso, se quiser dormir aqui, você pode me ajudar e...
- Nem vem! – Ela o cortou. – Topo ficar e dormir aqui, mas não vou te ajudar! – Ela cruzou os braços e Alisson passou por cima da cama, se aproximando da menina.
- Ah, qual é! – Ele passou as mãos pela cintura da menina e deu um selinho nos lábios da garota.
- Você está cheirando mal! – Ele revirou os olhos, mas ela deixou com que ele colasse os lábios nos dela por mais alguns segundos.
- Eu te amo, sabia?! – Ele disse e ela assentiu com a cabeça.
- Eu também te amo! – Ela respondeu sorrindo. – Agora vai para o banho!
- Alisson! – Ambos ouviram a voz de dona Magali e se separaram antes da mesma abrir a porta. – Ah, querido, você não foi tomar banho ainda? – Ela bufou, fazendo rir.
- Estava falando isso para ele agora, sogrinha! – ergueu as mãos, se sentando na cama e puxando sua mochila para cima da mesma.
- Enfim, eu e seu pai estamos indo, vocês ficarão bem sozinhos?
- Sim, mãe! – Alisson respondeu.
- Muriel, Elisângela e as crianças vão ficar lá em Porto Alegre hoje, vão ver alguns apartamentos, nós devemos voltar depois das 10. – Ela respondeu e assentiu com a cabeça. – Você vai dormir aqui hoje, ?
- Se vocês não se importarem! – Ela deu de ombros e Magali riu, negando com a cabeça.
- Como se a gente fosse se importar! – Ela falou rindo. – Alisson, se vocês quiserem dormir na sala, sabe onde tem roupa de cama.
- Valeu, mãe! – Ele respondeu.
- E eu fiz um fricassé para vocês, é só colocar no forno, gratinar o queijo e colocar batata palha por cima. Pode fazer isso por mim, ?
- Claro! Melhor não deixar o Alisson perto do fogão. – falou fazendo sua sogra rir.
- Ei! Eu estou aqui! – Ele reclamou.
- Já deveria ter ido para o banho, vai. – o empurrou para fora e Magali deu licença para o mesmo.
- A toalha, Alisson! – Magali falou olhando para trás e riu. – Deve ter um pouco de sobra de arroz na geladeira para acompanhar, qualquer coisa vocês fazem um pouquinho.
- Pode deixar, não se preocupem.
- Vamos, Mag? – Seu José apareceu e cruzou os braços.
- Olha como vocês estão bonitos! – Ela percebeu o vestido de Magali e a roupa social de José. – Qual a ocasião?
- Jantar da firma do Zé. – Magali falou.
- Legal! – falou animada. – Divirtam-se, ok?! A gente vai ficar bem.
- Ok, qualquer coisa vocês me ligam ou liguem para seus pais, tudo bem?
- Tudo bem! Vamos ficar bem! – falou recebendo um beijo de Magali e um aceno de José e eles saíram do quarto.
- Filho, estamos indo! Se cuidem! – José gritou na porta do banheiro e logo eles saíram.
pensou por alguns segundos que também precisaria de um banho, mas sempre tinha uma troca de roupa na casa de Alisson, então não estava preocupada com isso. Pegou sua mochila e saiu do quarto dele, voltando para a sala. Ela apoiou sua mochila na mesa e seguiu até o sofá da sala, tirando as almofadas da mesma e afastou a mesa de centro para o lado e em seguida puxou o sofá, transformando-o em um sofá cama.
Se viu satisfeita com o resultado e devolveu às almofadas ao fundo do mesmo e voltou para a mesa da sala, pegando sua mochila e se sentando no sofá novamente, tirando os tênis e as meias antes de começar a tirar seus cadernos e apostilas da mesma, separando as coisas que tinha pegado para o Alisson no plantão. Ambos tinham muitas dificuldades em exatas, mas ela ainda tentava ir bem nas provas, já Alisson não largava do treino de jeito nenhum, mas ela não podia reclamar, era o sonho dele.
- Te achei! – Alisson apareceu só de bermudas e chinelos na sala alguns minutos depois.
- Separei as coisas aqui para você e aproveitei a ideia da sua mãe e já arrumei para gente!
- Eficiente essa menina, hein?! – Ele se sentou na ponta do sofá e deu um rápido beijo na testa dela.
- Aqui as coisas para você, se quiser dar uma olhada, eu acho que fiquei craque na matéria depois do plantão hoje, posso corrigir para você. – Eles riram juntos.
- Beleza, eu vou olhar aqui. Quer tomar banho enquanto isso?
- Eu vou aceitar, odeio ficar de uniforme! – Eles sorriram.
- Vai lá, pode usar minhas coisas e você sabe onde estão suas coisas no meu armário. – assentiu e se levantou enquanto Alisson olhava todas as folhas que ela havia lhe trazido.
Enquanto a menina tomava banho, Alisson ficou tentando fazer os exercícios. Alguns ele ainda tinha dificuldade, mas sua namorada fazia algumas anotações que o professor tinha lhe dito no plantão o que facilitava para ele. Logo que ela saiu do mesmo, de calças de moletom e regata, ela se sentou ao lado dele no sofá-cama. Alisson ainda achava engraçado quanto frio essa menina sentia, e não fazia pouco tempo que ela estava em Nova Hamburgo, no fim do ano já faria quatro anos.
Eles perderam cerca de uma hora nisso. Alisson fazia os exercícios enquanto lia um dos livros da aula de literatura e depois passava para ela corrigir, fazendo com que eles comemorassem um acerto ou fizessem ambos rir pela menina não saber identificar se estava certo ou não, e claro, perder alguns minutos com beijos e amassos em cima do material da garota.
Quando perceberam que suas barrigas estavam roncando, seguiram para a cozinha, colocando o fricassé de Magali no forno e foram fazer um pouco de arroz, já que a sobra não daria para a fome de ambos. achou seguro deixar Alisson cuidando da água do arroz evaporar enquanto ela avisava seus pais que dormiria ali e que eles apareceriam na casa dela na manhã seguinte.
Alisson acabou gritando por cima da garota para convidá-los para o jogo do Internacional no fim de semana, como Muriel era o terceiro goleiro do time, ele jogaria no time B da Copa Sub-23. Era legal, motivo que os Becker e se divertirem juntos. Depois disso, arrumou a mesa para os dois na cozinha mesmo, tinha só quatro lugares, mas eram só os dois mesmo, serviria!
- Tá pronto, eu acho! – Alisson falou do arroz e deu uma respirada mais forte.
- Tá queimando, isso sim! – Alisson desligou a boca do fogão rapidamente, tirou a panela e colocou na mesa.
- Pronto! – Eles riram juntos.
Eles tiraram o fricassé do forno que não tinha gratinado, mas já tinha derretido o queijo, o que era suficiente para ambos, a fome estava falando mais alto. Enquanto Alisson conferia se as bocas estavam desligadas, colocou a batata palha em cima de tudo e ambos se sentaram para comer. Entre queijo quente e puxado, línguas queimando, eles se deliciaram com a comida da mãe de Alisson.
- Meu Deus! Isso está muito bom! – falou fazendo uma cara de prazer e Alisson riu da mesma.
- É gostoso, né?! Minha mãe costuma fazer quando é para fazer algo rápido. – Alisson comentou fazendo ambos rirem.
- Eu vou superpedir a receita para sua mãe, isso é bom demais! – suspirou colocando mais uma garfada na boca. – Hum!
- É fácil, se eu não me engano ela bate tudo no liquidificador e mistura no frango, algo assim. – Alisson deu de ombros, cruzando os garfos ao terminar de comer.
- É muito bom! – suspirou, fazendo o mesmo. – Ah, deixa eu parar antes que eu coma a travessa inteira.
- Pode comer mais se quiser! – Ela riu fracamente.
- Não posso! Estou satisfeita já! – riu. – Agora vamos finalizar aqueles exercícios?
- Ah não, chega por hoje! – Alisson reclamou. – Vamos ver um filme.
- Não ficamos nem uma hora, Alisson. As provas para gente serão semana que vem, tu não quer ir bem no campeonato e se ferrar no terceiro ano, não é? – Ele suspirou, jogando a cabeça para trás.
- Eu estou cansado! – Ele suspirou. – Eu prometo que estudo mais no fim de semana, mas agora não, vai. – revirou os olhos. – Além do mais, eu comprei o piratão de “Eclipse” que eu sei que você gosta.
- Ah não, me comprar com Jacob Black é sacanagem! – Ela fez um bico e ele riu se levantando e deu um rápido selinho nos lábios da garota.
- Para você ver como eu sou um ótimo namorado e nem sinto ciúmes de você ficar olhando aquele cara lá sem camisa. – Ele tirou os pratos, levando-os à pia.
- Você é mais bonito que ele, satisfeito? – revirou os olhos.
- Agora sim! – Eles riram juntos. – Está na minha mochila, pega lá, eu vou só lavar essa louça rapidinho.
- Não quer que eu guarde isso não? – perguntou apontando para a comida na mesa.
- Deixa esfriar, depois do filme a gente guarda na geladeira. – A garota assentiu com a cabeça e estalou um beijo rapidamente na bochecha de seu namorado e se afastou para dentro novamente.
Ela encontrou o DVD pirata na mochila do garoto e foi animada colocar na televisão, feliz por ver que era realmente o filme e não outro DVD qualquer gravado por cima. Deixou na parte exata para dar play, esperando que Alisson voltasse.
Ele logo chegou com uma coberta e colocou em cima de ambos. Ele lhe entregou um bombom Sonho de Valsa que encontrou na cozinha e passou o braço pelos ombros da menina, deixando com que ela se aconchegasse em seu peito para que vissem o terceiro filme da saga que a garota tanto adorava.
Ele não era muito chegado nesse tipo de filme, mas gostava muito por ver com ela. Eles tinham ido assistir quando o filme lançara no cinema no meio do ano e agora a garota contava as horas para que a parte um do quarto filme lançasse ano que vem e ele estava ansioso em poder levá-la novamente ao cinema e ficar observando as reações da garota, até mesmo quando ela dormia no meio do filme de cansaço.
Alisson abriu um sorriso quando o rosto de tombou para seu lado e ele tentou fazer com que ela se deitasse de um jeito mais confortável no sofá-cama, mas não era muito fácil, então ele só a abraçou mais apertado e ficou de lado com ela, esperando que a câimbra não chegasse tão rápido ou que ela acordasse para se ajeitar. De um jeito ou de outro, ele estava feliz em ver lobos e vampiros lutando contra um exército de recém-criados só porque sua garota adorava.

ELA


Ah, como eu odiava que Alisson estivesse certo! É óbvio que eu não conseguiria nenhum emprego bom sem documentos ou antecedentes criminais. Isso era óbvio! Roma era uma cidade grande como todas as outras, então os empregos ditos como bons as pessoas sempre pediam por referências e, vamos dizer que eu não tinha muitas referências para entregar. Na embaixada estava sem condições, tinha perdido todos meus amigos e Alisson? Vai ser bem legal usar um jogador de futebol famoso como referência mesmo.
Mas, mesmo assim, meu orgulho ainda falou mais alto e eu quis ter a certeza na minha cara. Saí de Olgiata e pensei em seguir bairros ali perto. Olgiata não era perto de nada e demora de 30 a 40 minutos para chegar no rione que eu morava, então eu realmente não sabia onde começar e que áreas da cidade preencher, só queria algo perto e que eu não precisasse depender mais ainda de Alisson.
Depois de abastecer ali em Olgiata mesmo, eu acabei seguindo por alguns dos resorts e SPAs que tinham por perto, não sabia muito que posição estava procurando, talvez algo administrativo ou recepcionista, não sei, algo que meus anos de formação pudessem ser úteis. As pessoas que me atenderam foram oito ou 80. Pegavam o currículo na maior simpatia e diziam que quando abrissem vaga entrariam em contato ou nem pegavam o currículo e falavam que não tinha vaga, o que foi bem animador para o meu ego, obviamente!
Depois de Olgiata, segui para Labaro, que é um bairro também afastado de Roma, que fica às margens da rodovia Grande Raccordo Anulare, ao norte do centro da cidade. Era um bairro mais calmo, sem muitos centros comerciais, mas acabei deixando em consultórios de médico, apesar de que eu provavelmente odiaria trabalhar em Laboro, era muito parado.
Saí de Laboro e acabei caindo dentro de Roma novamente, passando por Castel Giubileo, Villa Spada, pelo aeroporto Roma Urbe, voltando a beirar o rio Tibre. Cogitei em deixar no aeroporto, mas eu não tinha tantos currículos assim, e provavelmente seria um lugar que eu precisasse me explicar, afinal, aeroporto! Consegui imprimir 32 currículos, antes de acabar com o cartucho da impressora do Alisson, falando nisso, precisava anotar de comprar isso para ele, afinal, ele me deixara com dinheiro.
De repente me vi dentro da cidade novamente, passando pelo Quartiere XVII Trieste, passando pelo Mausoleo di Santa Costanza, o que acabou dando um clique na minha cabeça. Eu poderia tentar trabalhar no turismo! Eu estava em Roma há um ano e meio, vivendo e aprendendo a cultura italiana todos os dias, convivendo com italianos todos os dias, além de saber falar português, inglês, espanhol e italiano! Talvez eu pudesse ser uma guia, atendente de informações ou algo relacionado.
Com isso em mente eu segui pelos diversos pontos turísticos espalhados pela cidade: Museu de Arte Moderna, Museo e Galleria Borghese, fazendo com que eu chegasse à Fontana di Trevi e tivesse algumas péssimas lembranças daquele lugar. Não, também não era para tanto, eu tinha sido muito feliz nesse bairro. Sempre tive orgulho em dizer que morava perto de um dos pontos turísticos mais famosos do mundo e lembro de sorrir sempre que eu via pessoas jogando suas moedas animadamente em qualquer momento que eu passasse, incluindo de madrugada.
Mexi rapidamente na minha bolsa, pegando o dinheiro que Alisson tinha me dado e peguei uma moeda de troco e me aproximei da fonte, pronta para repetir um movimento que eu fiz logo que cheguei aqui, o qual eu lembro perfeitamente que eu pedi para que desse tudo certo em Roma, no meu novo emprego e na minha nova vida, e quando meus parentes do Brasil vieram me visitar, que eu não sabia o que pedir, minha vida estava perfeita. No restante do tempo, eu só sentia uma alegria imensa em meu peito em ver as pessoas jogarem suas moedas efusivamente na fonte.
Me aproximei da mesma, tentando desviar dos diversos turistas que lotavam a fonte naquela sexta-feira à tarde e segurei firme minha moeda e fechei os olhos, tentando manter os pés firmes no chão enquanto os turistas esbarravam em mim e pensei na única coisa que eu precisava resolver naquele momento.
- Por favor, que dê tudo certo nessa investigação, que provem que eu sou inocente e que eu possa ir embora para casa. – Suspirei, jogando a moeda na fonte, vendo-a afundar na fonte. – Mesmo que isso me faça ter um trabalho fora da minha área para sempre. – Se eu fosse inocente, as coisas se ajeitariam aos poucos, mesmo que eu precisasse fazer alguns esforços a mais. Como minha mãe dizia: tendo saúde, o resto se ajeita.
Eu acabei me empolgando um pouco e peguei outra moeda na bolsa e segurei-a firme em meus dedos, respirando fundo e pensando mil vezes se queria fazer esse pedido mesmo, mas eu não podia negar a coincidência do destino.
- Que eu e Alisson consigamos deixar o passado para trás e nos resolver. – Joguei a moeda, vendo-a afundar novamente. – Mesmo que o nosso futuro não esteja mais traçado juntos.
Suspirei, fechando os olhos por um momento e segui para fora dali o mais rápido, caçando o carro, sendo obrigada a passar por todas as vielas que rodeavam à fonte, todas as ruas do meu rione.
Segui pelos pontos turísticos, passando pela Galeria de Arte Palazzo Colonna e segui descendo até chegar ao Coliseu. O local estava apinhado de gente como sempre, e impraticável de estacionar, o que acabou que eu não consegui descer, mas foi bom olhar para aqueles muros desnivelados novamente, sentir que estava na minha cidade, como se fosse a primeira vez que eu vinha até ali.
Saí do Coliseu e segui pelo rione X Campitelli, subindo novamente pelos pontos turísticos mais conhecidos. Passei pelo Teatro Marcello, Monte Capitolino, Galeria de Arte Doria Pamphilj, Panteão, até chegar nas portas da Piazza Navona novamente. Cogitei em entrar na mesma só para ver como tudo estava, mas eu não quis. Estava com medo demais de encontrar algum pessoal que trabalhou comigo e fizesse com que eu seguisse meus instintos e tentasse provar que eu não era aquela pessoa que eles estavam pensando, mas não valia à pena. Por que eu perderia meu tempo falando com pessoas que não se importaram em me ajudar quando fui presa?
Passei rápido pela Piazza e atravessei o lado de lá do rio Tibre e deixei meu último currículo no Castelo Sant’Angelo, sem esperanças nenhuma de ter resposta de algum desses lugares, acho que eu fui meio esperançosa demais, aposto que várias pessoas queriam trabalhar nos grandes pontos turísticos de Roma.
Saí do Castelo e notei que o sol começava a se pôr, chequei o relógio e estava próximo das seis horas, eu tinha ficado a tarde toda fora. Acho que estava na hora de ir embora. Olhei para meu lado direito e senti um arrepio passar pelo meu corpo. Ao longe, alguns quarteirões dali, eu podia ver o topo da Basílica de São Pedro, me fazendo respirar fundo e sentir meus olhos lacrimejarem.
Segui alguns metros e entrei na Via dela Conciliazione até chegar à Praça de São Pedro, sentindo meus pés doerem já, mas eu poderia perder alguns minutos do meu tempo olhando para aquela beleza de cidade-Estado por alguns segundos. Não entrei na Praça de São Pedro, pois sentia que não aguentaria voltar até o carro. Eu deveria ter colocado os tênis e não essa bota.
Fiz um sinal da cruz olhando para a cruz do Obelisco do Vaticano no centro da Praça, com a Basílica ao fundo e suspirei, repetindo o mesmo pedido que eu havia feito na Fontana di Trevi, talvez até pedindo por um milagre que me tirasse dessa. A polícia disse que não tinham provas para me manter presa, mas eu sabia que eu tinha assinado muitos papéis para o embaixador, eu ainda podia perder muito durante essas investigações.
Soltei a respiração e dei meia volta, seguindo lentamente para o carro. Pensei por alguns segundos e decidi voltar para Olgiata, eu estava sem currículos, cansada e com os pés doendo. Além de que não queria abusar muito da preocupação de Alisson comigo, era melhor eu ir embora.
- Oh, meu Deus! Alisson!
Eu tinha totalmente me esquecido de avisá-lo onde eu estava. Não que eu achasse que ele estava com o celular colado com ele o tempo inteiro, mas já que ele perguntou. Saí da Lungotevere Maresciallo Cadorna, avenida que beirava o rio Tibre e procurei alguma viela para parar, o bom é que os lugares estavam vazios, então era mais fácil.
Tirei meu celular da bolsa e o abri rapidamente, feliz pelo meu plano de internet ainda não ter sido cortado e conectei o mesmo, esperando algumas mensagens chegarem. A primeira que notei era de meu pai, mas não poderia lidar com isso agora. Respirei aliviada ao saber que não tinha mensagens no WhatsApp, me fazendo dar um pequeno sorriso, mas tinha uma solicitação de mensagem no Instagram que me deixou encafifada. Abri a mesma e o encontrei.
- Droga! – Gemi comigo mesma, vendo que ele pedia para me seguir e tinha mandado mensagem.
- “Esqueci de pegar seu número! Onde você está, tudo certo? Devo chegar um pouco tarde, reunião pós-treino”. - Respirei fundo e respondi rapidamente para ele.
- “Voltando para sua casa, te vejo lá”.
Enviei a mensagem e bati a cabeça no volante rapidamente, respirando fundo. Olhei para o lado e soltei uma risada fraca com a coincidência do destino, que me fez até sair do carro. Eu estava próximo ao Estado Olímpico, o lar da Roma, e um grande banner cobria um prédio do topo ao chão com Danielle De Rossi, Alisson e outro jogador que eu não conhecia em poses animadas de jogo. Suspirei e olhei o estádio de longe, aquilo era bonito mesmo. Será que o jogo de amanhã seria ali?
Balancei a cabeça e virei de volta para o carro, observando as diversas lojas e bares na travessa que homenageavam à Roma, eram vários e vários, todos decorados com o vermelho e o amarelo queimado do time, me fazendo sorrir. Se tinha uma coisa que o Alisson tinha feito era me afeiçoar ao futebol e era uma coisa bonita de se ver. A emoção, empolgação, paixão, tudo era simplesmente fascinante e realmente cativante.
Voltei para o carro e antes de entrar no mesmo, me distraí com um aviso pregado no vidro de um dos vários bares que tinham ali em volta. Fechei a porta do carro novamente e segui em direção ao mesmo, abrindo um pequeno sorriso ao realmente identificar a mesma coisa que eu vi de longe.
Precisa-se de garçonete/cantora”.
O bar já estava aberto, uma música baixa tocava no fundo e algumas pessoas já começavam a ocupar as mesas. O local era bonito, tinha as cores da Roma, mas não era tão pé-sujo como alguns dos botecos que eu vi pela rua, ele até que tinha estilo. Ele era fino e grande, quase retangular. Logo que você entrava, o balcão do bar ficava bem próximo à entrada com mesas e sofás ocupando os dois lados. Do lado direito, um pequeno holofote mostrava um palco, junto de um pedestal no centro e duas televisões colocadas no alto do mesmo.
Era um bar karaokê!
- Buona notte, signorina! – Virei o rosto, encontrando um senhor atrás do balcão. – Come posso aiutare? – Me aproximei do mesmo.
- Eu vi a placa. Vocês precisam de cantora e garçonete, certo?
- Sim, signorina. Quer se candidatar? – Ele perguntou.
- Eu não tenho nenhum currículo aqui agora, mas posso trazer... – Ele me interrompeu.
- Você sabe cantar? – Ele perguntou e eu apoiei as mãos no balcão.
- Sei. – Respondi. – E acho que muito bem.
- Experiência como garçonete? – Ele ergueu os olhos para mim.
- Nenhuma, para ser bem honesta. – Dei um pequeno sorriso.
- Vamos ver como é a sua voz, se for boa, resolvemos o problema de carregar bandejas depois. – Ri fraco, assentindo com a cabeça.
- Sim, signore. – Respirei fundo. – Posso só fazer uma pergunta?
- Sim. – Ele respondeu.
- Como vocês fazem o registro de funcionários aqui? – Perguntei, engolindo em seco.
- Aqui os funcionários são muito rotativos, muitos estudantes, então não tem registro, para falar a verdade. – Ele passou a mão na testa. – Eu pago por dia, porque se o funcionário não aparecer, eu já considero que ele não vai mais voltar. – Franzi a testa, mas assenti com a cabeça. – Isso é um empecilho para você?
- Não, nenhum! – Falei rapidamente.
- Perfetto! – Ele respondeu. – Vamos ver como é a sua voz?
- Claro! – Respondi sorrindo. – Estou um pouco rouca, estava doente, então...
- Não importa, escolha uma música, suba no palco e mostre o que você tem. – Ele disse e eu olhei para o pequeno palco e respirei fundo, antes de seguir em direção ao mesmo.
*Rione, são bairros de Roma, são divididos em 22. O termo é utilizado na cidade desde o século XIV.

ELE


Ah, eu estava exausto! O treino tinha prolongado até seis e meia e depois ainda tivemos uma reunião bem longa sobre o jogo de amanhã. E para ajudar eu ainda teria que acordar antes do sol nascer para ir para Bolonha. Com a liga dos Campeões, os jogos estavam cada vez mais próximos, então nem sempre dava para ir antes para o local do jogo. Além do jogo contra o Barcelona que estava esquentando a minha cabeça, seria quinta-feira no Camp Nou e com essa história do aparecimento de , as coisas não poderiam ter ficado mais confusas.
Espero que pelo menos isso não afete o jogo, eu estava no meu melhor momento aqui na Roma, estávamos medianos no Campeonato Italiano, mas estávamos nas quartas de final da Champions League, que era a nossa prioridade no momento. A Roma nunca tinha chegado tão perto.
Mas agora eu precisava focar no jogo de amanhã. Eu só queria chegar em casa, tomar um longo banho, comer alguma coisa e dormir o mais rápido possível. Chequei o celular antes de sair de Trigoria, tinha dado sinal de vida também, talvez ela já tenha chegado também ou não, eu estava precisando ficar sozinho por um tempo, depois que Natália foi embora eu mal tinha conseguido ficar. Os treinos eram com o time inteiro e em casa agora tinha .
Entrei na garagem de casa e observei que as luzes de dentro estavam acesas. Respirei fundo e pensei alguns segundos se deveria ficar ali, mas eu estava cansado demais para pensar em outro lugar para ir, então desliguei o carro e saí do mesmo. Segui para o porta-malas e encontrei minha mochila de mais cedo, já com o uniforme de viagem para ir para Bolonha no dia seguinte.
Passei pela porta da sala e ouvi uma música baixa sendo tocada por algum lugar que eu não consegui identificar. Tirei a mochila das costas e coloquei no sofá menor da sala, procurando rapidamente por . Encontrei a luz da cozinha acesa e segui até a mesma, sentindo o cheiro de algo gostoso no ar.
Parei na porta e estava na cozinha com meu moletom novamente, os cabelos molhados e os pés de meias no chão se mexendo no ritmo de alguma música em inglês que tocava no fundo enquanto olhava para a panela solitária no fogão. Ela sempre foi a fim de músicas em inglês, tive que aprender algumas coisas para agradá-la quando namoramos.
- Ei! – Dei uma batida no batente da porta, fazendo-a virar o rosto para mim.
- Ei, você chegou! – Ela fechou a panela e se afastou do fogão um pouco. – Recebeu minha mensagem?
- Recebi sim! – Falei, colocando as mãos no bolso. – Desculpa a demora, reunião pré-jogo sempre acaba demorando um pouco.
- Tudo bem, eu estou fazendo a janta, espero que não se importe! – Ela cruzou os braços.
- Não me importo, até agradeço, na verdade! Estou morto de cansaço. – Ela deu um pequeno sorriso.
- Dia cheio, hum? – Ela voltou para o fogão.
- Isso porque o treino foi só na parte da tarde. – Suspirei, cruzando os braços e puxei a respiração forte, sentindo um cheiro conhecido no ar. – O que você está fazendo?
- O fricassé da sua mãe! – Ela falou animada e eu dei um pequeno sorriso. – Era a única coisa que dava para fazer com milho, catupiry, creme de leite e frango. – Ela fez uma careta e eu ri.
- Eu preciso fazer compras. – Suspirei.
- Por que você não pensa nisso depois do jogo de amanhã? – Ela perguntou fofa. – Vai tomar um banho, dá uma relaxada que o jantar sai em 20 minutos! – Ela deu um sorriso e eu ri fraco, sentindo um grande déjà vu.
- Você parece... – Parei a frase no caminho, rindo fracamente.
- Eu mesma sete anos atrás. – Ela suspirou e eu assenti com a cabeça.
- Eu já volto! – Falei e ela assentiu com a cabeça, dando alguns passos para fora da cozinha novamente.
Peguei minha mochila e segui para meu quarto, fechando a porta. Antes de tomar banho, eu tirei todas as roupas da mochila de treino e separei o uniforme para a viagem de amanhã em cima da cadeira ao lado da cama. Tirei a roupa e segui para o banho, enrolando um pouco embaixo da água quente. Inicialmente foi para pensar, mas depois eu acabei ficando com preguiça de sair para o frio novamente.
Voltei para o quarto enrolado na toalha, me sequei meio apressado e peguei meu moletom atrás da porta, vestindo-o rapidamente para tentar fugir do frio. Voltei ao banheiro, passando a toalha nos cabelos e peguei um pente na gaveta passando rapidamente no mesmo. Me olhei no espelho ainda embaçado por causa da água quente e respirei fundo.
Saí do banheiro e segui de volta para a cozinha, observando tirar o fricassé do forno e colocar na mesa, dei um sorriso ao perceber que o mesmo estava bonito e gratinado. Segui até a lavanderia e pendurei a toalha no varal de dentro, voltando para a cozinha, observando colocar batata palha em cima do prato.
Percebi que a mesa estava bem arrumada, os pratos colocados frente a frente, copos virados para baixo, talheres cruzados em cima de um guardanapo dobrado delicadamente, ela tinha até colocado uma tolha na mesa. Ela virou para trás rapidamente e eu desviei o olhar, dando a volta na mesa e me sentando em um dos lugares.
- Está com uma cara boa! – Comentei e ela sorriu.
- Receita original da sua mãe! – Ela voltou para o fogão e pegou a panelinha e colocou no espaço vazio revelando o arroz branquinho. – Com algumas mudanças de marcas e localidade, é claro.
- Lembro de que você gostava muito disso. – Ela tirou as luvas térmicas, pegou as colheres e me entregou para me servir primeiro.
- Eu era viciada nisso. – Ela comentou apoiando os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos. – Eu fazia quase toda semana, principalmente quando minha mãe estava em missão e meu pai viajava. – Ela falou sorrindo.
- Eu lembro, acabei enjoando uma época por causa de você. – Rimos juntos, fazendo-a balançar a cabeça.
- Espero que esteja bom, faz muito tempo que eu não faço. – Ela suspirou. – Bom, faz muito tempo que eu não faço nada, para falar a verdade. Tenho só comido na rua.
- Entendo disso, vida corrida. – Suspiramos juntos. – Não tem quase nada em casa, fico surpreso por ter arranjado alguma coisa. – Ela riu fraco.
- Bom, o catupiry estava vencido há uns três dias, mas acho que não vai dar nada... – Franzi a testa.
- Seria muito engraçado me dar dor de barriga no meio do jogo. – Falei sério, mas ela caiu na gargalhada.
- Eu preciso ver esse jogo! – Ela falou animada e eu ri com ela. – Já aconteceu? – Ela ponderou com a cabeça. – De dar dor de barriga e afins? Afinal, imagino que deve dar nervoso a pressão e tudo mais.
- Ah, a barriga borbulhar acontece sempre, principalmente se for contra um time mais forte ou um jogo decisivo, mas nunca por dar dor de barriga mesmo... – Ri fraco. – Bom, o Ronaldo já mijou no meio de um jogo.
- Eca! – Ela reclamou, começando a rir em seguida. – Por quê? – Ela falou rindo.
- Deu vontade e foi no campo mesmo. – Dei de ombros e comecei a me servir, sentindo o cheiro idêntico à comida da minha mãe subir em meu nariz.
- Ah, que nojo! Esse mundo deve ser ótimo e nojento ao mesmo tempo. – Ela falou e eu não me contive em rir.
- Você já viveu nesse meio, nem vem. – Ela ponderou com a cabeça.
- Ah, Alisson, era diferente, vamos ser honestos. – Ela suspirou e eu entreguei a colher do fricassé para ela que começou a se retirar. – Os gramados eram tudo ralados, mal se via grama, as arquibancadas pareciam que iam desmontar, além dos perrengues que vocês enfrentavam. – Ela suspirou. – Eu acompanhava vocês porque me importava, mas que era tenso era... – Ponderei com a cabeça.
- O sonho de ser jogador de futebol nunca foi fácil, mas graças a Deus deu certo. – Ela deu um pequeno sorriso e eu dei uma primeira garfada, suspirando ao sentir o sabor em minha língua. – Meu Deus, do céu! – Falei, suspirando. – Oh, meu Deus! – Ela riu fracamente. – Está divino. Desde quando você cozinha bem? – Rimos juntos e ela me deu um tapa de leve no ombro.
- Não tem graça! – Ela falou. – A gente acaba se virando na faculdade, normalmente com gororobas, não passei fome. – Ela deu de ombros, começando a comer também.
- Como está seu pai? Trabalhando muito? – Ela suspirou e esperei não ter tocado no seu calcanhar de Aquiles.
- Ele está bem, depois que voltamos para Brasília ele acabou se afundando em trabalho, eu acabei ficando afastada por um tempo também, mas eu entendia, ele precisava de uma forma de se curar. – Ela suspirou. – Mas agora está tudo bem, pensei que ele fosse ficar mal quando eu vim para Roma, mas ele já é um homenzinho. – Ri fraco, achando graça na forma que ela falava de seu pai.
- E você? Tudo certo? – Ela deu de ombros.
- Fez sete anos já, Alisson, as feridas acabam curando depois de um tempo. – Assenti com a cabeça.
- Saiba que pensamos muito em vocês depois que foram embora. – Falei e ela sorriu.
- Eu sei, não é porque nos separamos que vocês deixaram de se importar. Vocês foram muito importantes durante todo o processo, seus pais principalmente. – Dei um pequeno sorriso. – Meu pai tem sua mãe no Facebook, então ela acabava sempre perguntando como estávamos. – Ela riu fraco, suspirando. – Mas, então, e Muri? Como ele está? No Inter ainda? – Ela mudou de assunto rapidamente.
- Tá em Portugal, na verdade. Jogando no Belenenses desde o ano passado. – Ela sorriu. – Eu acabei tomando a titularidade dele no Inter em 2014 depois que ele se machucou e ele acabou se tornando meu reserva. – Ela assentiu com a cabeça. – Fomos revezando por um tempo. – Ela suspirou.
- Imagino como deve ser para ele... – Franzi a testa.
- Como assim? – Ela suspirou.
- Ah, Becker, de certa forma, você deu mais certo que ele, não é? – Ela suspirou, me encarando com seus olhos castanhos. – Você representa nossa Seleção, ele já está com o quê? 31, 32 anos? É difícil. – Soltei um longo suspiro.
- Às vezes eu penso nisso, sabia? – Engoli em seco. – Eu segui os passos dele certinho e, de certa forma, eu acabei tomando à sua frente. – Ele suspirou.
- Têm coisas que a gente não consegue explicar. – Ela falou com um sorriso no rosto. – Mas eu vi alguns vídeos seus, eu ainda não entendo muito, mas você está muito bem. Além de que a Roma ir bem em algum campeonato? – Ela riu fraco. – Isso é milagre! – Sorri, suspirando.
- Valeu. – Suspirei, ainda sentindo que ela me apoiava. - E a busca de empregos? Como foi? – Foi minha vez de mudar de assunto e ela franziu a testa.
- Péssima, eu acho. – Ela apoiou o rosto na mão. – Eu acabei entregando em vários pontos turísticos, mas acho que não vai dar certo, entreguei em alguns SPAs e resorts aqui em Olgiata, não sei, acho que vai ser mais complicado do que eu pensei. – Ela deu um sorriso de lado.
- Você não precisa trabalhar, eu vou te ajudar independentemente. – Ela deu um pequeno sorriso.
- Eu sei, mas também não posso ficar aqui na sua casa sempre, eu preciso me ocupar. – Cruzei os garfos, finalizando a janta. – Você precisa ter seu momento de folga também. – Balancei a cabeça.
- Não importa, não se preocupe com isso. – Ela balançou a cabeça.
- Que horas é o jogo amanhã? – Ela mudou de assunto novamente.
- Meio dia e meia. – Ela arregalou os olhos.
- Que horário horrível! – Ri fraco e dei de ombros.
- Acontece.
- E o jogo é aqui?
- Em Bolonha. Tenho que estar de pé às cinco para pegar o trem as oito, chegar às 10 e ir direto para o estádio. – Ela franziu a testa.
- Cansativo. – Ponderei com a cabeça.
- A gente faz alguns esforços. – Ela riu fraco. – Não se importa em ficar sozinha? Volto amanhã mesmo.
- Ei, eu moro sozinha aqui faz um ano e meio, sei me cuidar. – Sorri, assentindo com a cabeça. – Não se preocupe, já tenho almoço e provavelmente ficarei aqui o dia todo, meus pés ficaram doendo depois de hoje. – Rimos juntos.
- Eu vou sair antes de você acordar, mas devo estar de volta por volta das seis da tarde. – Ela revirou os olhos.
- Relaxa, Alisson. – Ela se levantou, retirando os pratos da mesa. – Meu Deus, você não mudou nada! – Ri fracamente e ela se virou em minha direção novamente. – Bom, melhor você ir dormir, então, passam das nove, se você deitar agora, você ainda consegue dormir por quase oito horas. – Ela falou checando o relógio na parede, me fazendo rir.
- Ok, mamãe! – Me levantei da mesa. – Mas não antes de tomar meu amargo companheiro. – Peguei a chaleira que ficava no escorredor de pratos e enchi de água.
- Mate? – Ela falou surpresa e eu assenti com a cabeça. – Nossa! Faz muito tempo que eu não bebo isso. – Ela observou enquanto eu pegava as ervas e a cuia.
- Você gostava, lembra? – Ela riu fraco.
- Mas é claro que me lembro. – Comecei a preparar o mate dentro da cuia enquanto que a água esquentava. – Eu adorava como o gostinho amargo arrepiava meus pelos do braço. – Rimos juntos. – Sempre gostei de coisas mais amargas. – Ela deu de ombros, tirando as coisas da mesa e começar a trocar de vasilhas ou fechar com papel filme.
- É, você nem sempre foi um doce. – Rimos juntos e ela me empurrou com o ombro, me fazendo gargalhar. – Quer um pouco? – Perguntei quando a chaleira começou a fazer um barulho baixo e ela olhou para mim e quase vi seus olhos brilhando.
- Acho que vai ser bom para lembrar os velhos tempos. – Ela sorriu e eu coloquei a água na cuia, vendo-a borbulhar e peguei a bomba, entregando para a . – Ainda se lembra como faz? – Perguntei e ela sorriu.
- Obviamente. – Ela segurou a cuia e a bomba, tapando-a com o dedo e afundou na erva, soltando-a alguns segundos depois.
Ela aproximou a cuia do nariz e puxou a respiração, sentindo o cheiro da erva e eu sorri, era difícil para que alguém fora do sul gostasse do mate, mas me lembro que realmente gostava. Ela colocou a boca na cuia e deu um curto gole, fechando os olhos e suspirando em seguida.
- Ah, que saudades! – Ela falou, me fazendo rir. – Olha! – Ela estendeu o braço mostrando os pelos arrepiados e eu gargalhei.
- Só você! – Estiquei a mão e ela puxou a cuia para si.
- Perdeu! – Ela se afastou. – Essa é minha agora!
- Ah, meu Deus! Era só o que me faltava! – Gargalhei, revirando os olhos e segui pelos armários à procura de outra cuia.



Capítulo 04

ELA


Eu acordei no dia seguinte e Alisson realmente não estava lá. Afinal, passava das nove e meia da manhã e meu rosto estava até amassado de tanto que eu tinha dormido, além da boca toda colando por causa da baba seca que molhou bastante a fronha do travesseiro principal.
Ontem, depois da janta, nós perdemos ainda uns 15, 20 minutos tomando mate e passando algumas lembranças da infância. Eu não sei como, mas eu realmente tinha criado gosto pelo mate amargo quando namoramos, não sei, era gostoso! Meus pais faziam uma careta bem engraçada quando davam o primeiro gole, mas eu não, arrepiava, mas de um jeito bom. Talvez porque eu estava acostumada a sentir esse gosto no beijo do Alisson... Não sei.
Pensando nisso, a sensação do primeiro gole foi estranha, foi boa sim, mas não pude evitar em lembrar dos beijos de Alisson, o que me deixou realmente envergonhada. Obviamente, eu acabei encarando seus lábios escondidos por baixo daquela barba toda que ele tinha deixado crescer ao longo dos anos. Ainda bem que minha cuia esvaziou logo, fazendo tudo queimar dentro do meu corpo, porque isso não podia acontecer.
Eu estava aqui por causa de um favor e não para ter um remember do que poderia ser nosso futuro se ainda estivéssemos juntos. Ou podia? Não, . Não! Assim que essas investigações acabarem, eu vou embora para Brasília novamente, provavelmente ficarei escondida por lá durante o resto da minha existência em algum trabalho ordinário e, com sorte, ainda ter a oportunidade de conhecer alguns países que eu ainda não conheço do mundo, isso se eu não fosse proibida pela imigração de tal fato.
Balancei a cabeça e sentei no sofá, suspirando ao perceber que tudo estava da mesma forma da noite passada e passei as mãos nos cabelos, pensando primeiramente no que eu iria fazer. Peguei meu celular e dei uma checada nas notificações. Depois do rolo na embaixada, eu não tinha mais mil mensagens, e-mails e notificações, só tinha uma mensagem solitária de meu pai, como sempre e algumas notificações do grupo da família.
Abri a mensagem de meu pai e vi um simples “Precisamos conversar”, o que me fez franzir a testa. Pelo horário, ele tinha me mandado por volta da meia-noite, sete horas no Brasil. Pensei por alguns segundos o que podia ser, mas esperava que não eram mais problemas para o meu lado. De problemas, eu já estava cheia.
Aproveitei a casa vazia e já tomei uma ducha refrescante, o dia estava um pouco mais quente e eu tinha acordado suando com todas aquelas cobertas e moletons em cima de mim. Saí do mesmo e acabei colocando a calça de moletom novamente e uma blusa regata que eu usava como segunda pele embaixo das blusas sociais.
Enrolei um pouco mexendo no meu celular, vendo os stories das pessoas, acompanhando as postagens da Roma sobre o jogo de hoje e com isso a hora acabou passando até confortável. Por volta do meio dia eu peguei um prato e coloquei para esquentar um pouco da comida de ontem, que seria meu almoço de hoje. Eu tinha exagerado um pouco na quantidade, então provavelmente seria almoço e janta por alguns dias ainda.
Fui para a sala novamente e me ajeitei onde era minha cama e liguei a televisão, zapeando pelos canais à procura de onde passaria Roma e Bolonha. Encontrei o canal e os jogadores já estavam entrando em campo. Logo reconheci a Roma pelas cores vermelha e amarelo dos calções, mas hoje eles jogariam de branco, para não brigar com o uniforme azul e vermelho da Bolonha. A câmera passou rapidamente por Alisson e sorri ao ver o uniforme verde escuro do time.
Os jogadores se separaram, se posicionaram nos dois campos e o apito foi soado. A Roma começou com tudo, já saindo rapidamente para o ataque, mas a bola foi defendida pelo goleiro da Bolonha com as pontas dos dedos, mandando a bola para o fundo. Em um escanteio, a Roma teve outra chance de fazer de cabeceada, mas o goleiro defendeu e no rebote a defesa da Bolonha mandou para fora.
Eu estava ficando realmente interessada. Nossa! Fazia muito tempo que eu não parava para assistir a um jogo de futebol, e eu tinha criado certa paixão pelo jogo depois de conviver com os Becker. Afinal, todos jogadores, os dois filhos goleiros, a gente até fica interessada. E morando no país com um dos melhores e mais apaixonantes campeonatos do mundo, eu não podia aproveitar pela minha vida corrida.
A Bolonha decidiu ir para o ataque, dava para notar que os chutes deles eram mais desleixados e muitas vezes errados, quase como se eu estivesse ali no campo. Observei o pontinho verde bem penteado se misturando com a grama e o sol que batia e respirei fundo quando a bola passou por um, dois, três jogadores da Bolonha. Esse terceiro fez um chute errado e passou para outro jogador um pouco mais atrás de si que ajeitou a bola e deu um chute forte de fora da grande área e vi Alisson se jogar para o mesmo lado da bola, mas a mesma entrou, me fazendo franzir o rosto.
- Gol? – Falei baixo, colocando a mão livre na cabeça, coçando a mesma. – Tem quatro pessoas na área fazendo o quê? Passeando?
Meu Deus! Eu estava torcendo para a Roma! Eu estava torcendo para o Alisson da mesma forma que há sete anos.
O jogo se seguiu para o campo do Bolonha novamente, com uma tentativa fácil demais que acabou batendo na trava e depois mandava para fora pela defesa deles. Em outra tentativa solitária de um atacante do Bolonha, Alisson acabou se fazendo de freio para o jogador do Bolonha ou ambos dariam cara a cara, mas ele pulou em direção à bola e a segurou firmemente, me fazendo respirar aliviada.
Quando percebi, minha comida já tinha esfriado em meu colo e eu só tinha dado duas ou três garfadas na mesma. Comecei a comer direito quando o jogo foi para o intervalo. Mesmo a comida já fria, aproveitei aqueles 15 minutos para engolir e deixar o prato descansando na mesa de sempre.
O segundo tempo começou e me coloquei mais ereta no sofá para ver melhor. Os lances eram espaçados e parecia que a Roma estava começando a se desesperar. Creio que até eu. Seria legal ver o primeiro gol do time que eu tinha acabado de começar a torcer. Assim, rapidamente, nos últimos 50 minutos!
Em dois grandes lances da Roma, o goleiro conseguiu desviar a bola. Uma para fora e outra diretamente para suas mãos, me fazendo começar a roer minhas unhas. Não! Eu tinha parado com esse hábito também. Escondi as mãos embaixo do meu travesseiro e vi a bola sair de escanteio para a equipe do Bolonha, no campo da Roma. O jogador fez o chute, mas Alisson só precisou pular para que a bola se encaixasse em suas mãos.
A câmera focou nele por alguns segundos e eu até engoli em seco, prendendo a respiração por alguns segundos. Parecia que nada tinha mudado. A diferença é que eu não precisava mais sair de casa para ver o jogo, do contrário, eu perderia e os celulares da época nem eram bons para fazer live streamings e tudo mais.
O jogo já tinha passado dos 30 minutos do segundo tempo quando a Roma se aproximou do outro campo. O atacante, que eu não sabia o nome, se aproximou colando na linha de fundo, mas com uma marcação forte, sabia que não conseguiria chegar ao gol, por isso, ergueu a bola para outro jogador que estava mais perto e este meteu uma cabeçada na bola e foi para o fundo do gol.
- Gol! – Gritei animada, gargalhando em seguida. – Agora vamos que dá tempo de fazer mais um.
Tá, não deu tempo de fazer mais um, o jogo acabou empatado em um a um mesmo. A Bolonha parecia feliz com o resultado, agora a Roma não parecia tão satisfeita. Suspirei e peguei o celular, tentando procurar pela tabela do campeonato italiano, me fazendo arrepiar quando o telefone começou a vibrar em minha mão, mostrando o nome Gilberto no mesmo.
Droga!
- Alô? Pai? – Coloquei o aparelho na orelha.
- ! – Afastei o telefone ao ouvir um grito do outro lado da linha e minhas pernas começaram a tremer. Ah, meu Deus!
- Oi, pai. O que foi? – Perguntei na inocência, franzindo a testa.
- O que foi? Você pode me explicar que história é essa de estar respondendo a um processo por desvio fiscal, ter seu passaporte retido, bens congelados e estar morando no Alisson porque seu apartamento foi tirado de você? – Arregalei meus olhos, sentindo que eu estava começando a hiperventilar. – E o pior, eu tive que saber pelos outros?
- Pai... – Tentei falar.
- Imagine só, receber uma mensagem no Facebook de Magali Becker pedindo pelo meu telefone, pois ela precisava falar comigo urgente! Sabe há quantos anos eu não falo com eles? Eu pensei que você tinha morrido, . – Engoli em seco. – Como você me esconde isso? Você não tinha esse direito...
- Pai... – Tentei novamente.
- Não venha com “pai” agora, você morou um mês na rua, foi pedir ajuda para o Alisson porque ele era sua única opção e eu sou o quê? Um pato, por acaso? – Ele ainda gritava e o choro finalmente chegou aos olhos. – Eu sou a pessoa que mais me preocupo contigo na sua vida toda e você me deixa de lado nisso, ?
- Eu pensei que você não ia aguentar... – Falei fracamente. – Não dava para eu te magoar novamente.
- Ah, ! – Ele falou bravo e carinhoso ao mesmo tempo. – Eu sou seu pai, somos só nós dois, esqueceu? Nós precisamos nos apoiar. Você precisa confiar em mim, minha querida.
- Não queria te decepcionar. – Quando notei já estava soluçando.
- Decepcionar por quê? Olha tudo o que você conquistou, olha o posto que você recebeu aí, as pessoas que confiaram em você! Confiaram tanto que estão te arrastando para baixo com elas. – Não contive em soltar uma risada fraca, passando a mão embaixo dos olhos. - A Magali me contou tudo, querida. Tudo o que você contou para ela, e imagina minha reação em saber que minha filha estava morando no carro há um mês e sem comer? – Suspirei, prensando os lábios. – Você não poderia ter feito isso. – Suspirei.
- Me desculpe! – Choraminguei baixo.
- E eu não acho nem por um minuto que você seja culpada por tudo isso que estão te condenando, eu conheço muito bem a garota que eu e sua mãe criamos. E você vai provar isso, querida. – Suspirei.
- Eu não sei o que fazer, pai. Eu sei que sou inocente, mas eu também sei que eu assinei muitos papéis porque ele me pediu, muitos sem ao menos ler ou entender, era meu trabalho...
- Sim, eu imagino, querida. Você tinha o emprego mais importante da embaixada, você praticamente comandava a vida dele, mas agora Inês é morta e eu prometo que você vai sair dessa e vai vir para Brasília e esquecer que isso algum dia já aconteceu. – Suspirei.
- Eu só não sei como.
- Eu não consegui falar contigo ontem, creio que você já tinha ido dormir, mas nesse meio tempo eu falei com meu advogado, segundo ele, você tem boas chances de sair dessa sem nenhuma condenação ou multa. – Assenti com a cabeça. – Mas, só me responde uma coisa, querida. Você recebeu algum tipo de depósito ou dinheiro...
- Não! – Respondi rapidamente. – Pode conferir meu estrato bancário, todo dinheiro que entrava era do meu salário e eu devo ter todos os meus holerites guardados no meu apartamento. – Suspirei. – Isso se a polícia não tiver jogado fora.
- Não, eles podem usar isso como prova. – Ele suspirou. – Vai dar certo, querida. Te prometo que vai. – Balancei a cabeça. – Magali disse que Alisson iria te apresentar o advogado dele, algo assim...
- Ele ia procurar um que fosse mais focado nesse assunto, o advogado do Alisson foge mais para o mundo do showbiz. – Ele riu fracamente.
- Eu estou finalizando um trabalho aqui, preciso entregar uma planta em até três semanas, mas assim que isso acabar, eu vou para Roma...
- Mas...
- E não, você não vai me impedir de ver como você está. – Suspirei.
- Mas eu estou no Alisson, pai, agora as coisas estão melhores. Ele está sendo muito bom comigo. – Suspirei.
- E como vocês estão? Imagino que não deve estar sendo fácil viver com ele depois de todos esses anos.
- Não mesmo, a quantidade de lembranças que estão surgindo na minha mente são incontáveis... – Suspirei. – Confesso que senti falta, pai.
- Eu sei, querida. De certa forma vocês não terminaram, não é? – Ponderei com a cabeça.
- A vida terminou nosso relacionamento, pai. Ele é casado...
- Foi casado. – Ele me corrigiu. – Magali disse que eles foram há pouco mais de um mês para Porto Alegre assinar os papéis...
- Não importa, ele casou, tem uma filha, pai. A menina se chama Helena... – Suspirei.
- Imagino como você deve ter se sentido quando descobriu.
- Não muito bem. – Balancei a cabeça. – Mas é a vida, os anos passaram, cada um fez suas escolhas e agora preciso conviver com a realidade.
- Sim, e provar sua inocência. – Suspirei. – Vamos fazer o seguinte, eu vou dar uma olhada nas nossas economias e acho que consigo te mandar uns quatro mil euros...
- Mas isso são mais de 16 mil reais, pai. É muito dinheiro. – Falei um pouco mais alto.
- Peça a conta bancária do Alisson que eu vou depositar para ele assim que eu puder. – Ele continuou me ignorando.
- Pai, não faça isso...
- Não vai dar para você fazer muitas coisas aí, mas, pelo menos, não depende dele para mais nada além da residência... – Suspirei.
- Com essa grana toda dá até para eu ficar em um hotelzinho.
- Como se ele fosse deixar você sair daí agora. – Ri fraco. – Você conhece o Alisson, . Sempre se preocupou primeiro com os outros antes de si. – Suspirei.
- Eu sei! – Cocei a cabeça. – Não consigo acreditar que ele contou para tia Magali.
- E eu não consigo acreditar que eu precisei saber por eles. – Engoli em seco. – Prometa que nunca mais vai esconder algo assim de mim. Ou melhor, prometa que nunca mais vai me esconder nada, nunca na vida. Nem se for algo que eu não precise saber sobre namorados e afins. – Rimos juntos.
- Prometo, pai. – Suspirei.
- E eu também quero saber de você todos os dias, não importa se não tem nada para falar, mas me ligue para dizer oi. Assim que possível eu vou para Roma.
- Relaxa, pai. Eles disseram que as investigações podem durar até seis meses, foram nem dois ainda. – Suspirei.
- Vai dar certo, minha filha. – Assenti com a cabeça.
- Tomara!
- E mande um abraço para o Alisson, ele está aí?
- Em Bolonha, teve jogo hoje, estava vendo pela TV. – Dei um pequeno sorriso.
- E ganhou? – Ele perguntou, me fazendo rir.
- Empatou! – Suspirei. – E não acredito que não me contou que ele faz parte da Seleção Brasileira! – Lembrei desse fato.
- Filha, só eu sei o quanto você demorou para esquecer esse garoto e o quanto sofreu quando ficou sabendo que ele estava namorando outra. Achei que talvez esse buraco no seu coração ainda não tivesse curado, afinal, foi seu primeiro namorado. – Engoli em seco.
- Acho que ainda não curou, pai. – Suspirei. – Mas isso é conversa para outra hora, por favor. Estar aqui com ele, lembrando de todas as coisas que passamos, vendo tudo o que deixamos para trás já está fazendo maior estrago na minha cabeça. – Ele ficou quieto por alguns segundos.
- Entendo. – O ouvi suspirar no telefone. – Mas, me diga, você pensa em se ocupar de alguma forma enquanto a investigação não anda?
- Eu saí para entregar alguns currículos ontem, nada muito glamoroso, obviamente, mas não dá para eu ficar aboletada na casa do Alisson 24 horas por dia. Ele precisa de um tempo sozinho. – Suspirei.
- Entendo o que quer dizer, além de que você nunca foi muito do tipo que fica parada. – Ri fraco.
- Exatamente! – Ri fraco. – Vamos ver, talvez eu saia na segunda-feira de novo para tentar mais alguns lugares. Ser menos glamorosa. – Ri fraco. - Vou esperar ele voltar hoje.
- Mas me mantenha informado, ok? – Suspirei. – Qualquer passo, qualquer mudança, qualquer novidade da polícia ou do advogado.
- Pode deixar, pai. – Dei um pequeno sorriso.
- E vou aguardar a conta do Alisson, ok? Vamos fazer isso de forma certa.
- Obrigada! – Suspirei.
- Vou aguardar notícias suas, . Eu te amo, ok? Nunca se esqueça disso.
- Também te amo, pai. Muito! – Suspirei. – E desculpa por não ter sabido por mim.
- Eu te perdoo. – Ele respondeu. – Só nunca mais faça isso. Principalmente com coisas sérias. – Rimos juntos.
- Pode deixar!
- Eu tenho uma reunião agora, mas nos falamos depois, ok? Até mais.
- Até mais, pai! – Suspirei e desliguei o aparelho.
Joguei minha cabeça para trás e soltei um alto suspiro, sentindo como se um caminhão tivesse sido tirado das minhas costas. Olhei para o teto novamente e não sabia se ficava brava com Alisson por ter contado para tia Magali que acabou repassando a informação para meu pai. Balancei a cabeça, não, eu não poderia ficar brava, eu deveria ficar feliz por ele ainda se importar comigo a esse ponto. E principalmente por não ter que contar a história inteira desde o começo. Além do alívio que tinha saído de meu peito, era uma coisa a menos para eu me preocupar. Meu pai sabia, eu estava bem, agora eu só precisava provar que era inocente.

ELE


- Valeu pela carona, a gente se vê na segunda-feira! – Bati a mão na de Juan e acenei para Gerson e Leandro no banco de trás.
- Valeu, Alisson! – Os jogadores falaram e eu saí do carro, acenando para eles.
Segui pelo caminho em direção à casa, vendo o sol começar a se pôr em Olgiata. Chequei o horário no relógio e acabava de passar das sete da noite. Pelo menos o tempo estava um pouco mais fresco aqui. Peguei as chaves e abri a porta, entrando na sala de casa que estava com as luzes desligadas.
- Ei! – Fechei a porta e encontrei sentada no sofá da sala.
- Ei, como você tá? – Ela falou, tirando o travesseiro de cima do colo e ficando na beirada do sofá.
- Tudo certo! Ficou bem aqui? – Tirei a mochila dos ombros e joguei na poltrona.
- Fiquei sim, não saí hoje. – Ela apertou o travesseiro novamente. – Como foi o jogo? – Ela sorriu.
- Você que me diga, aposto que viu! – Me sentei no sofá ao seu lado, vendo-a ponderar com a cabeça.
- Eu vi sim. – Ela deu um pequeno sorriso, rindo em seguida. – Você deixou um entrar! – Revirei os olhos, passando a mão na testa.
- Ah, obrigado! – Rimos juntos.
- Mas foi culpa da defesa, o cara bateu muito mal na bola e você foi para o lado certo! – Sorri, balançando a cabeça.
- Desde quando entende de futebol, senhorita ? – Ela deu de ombros, se sentando mais para trás no sofá novamente.
- Sabe, quando eu era mais nova eu namorei um garoto em que a família inteira jogava futebol... – Ri fraco, ponderando com a cabeça. – Eu aprendi algumas coisas e a gostar do esporte. – Sorri.
- Esse garoto era um tonto. – Falei e ela gargalhou.
- Ah, o cara que eu namorei era tudo, menos tonto! – Ela cruzou os pés descalços em cima do sofá novamente e eu ri.
- Mais ou menos, né?! – Brinquei e ela sorriu. – Eu era meio tímido. – Ela riu fraco.
- Não, Alisson, você nunca foi tímido. – Ela cruzou os braços em cima do corpo. – Você era do tipo que come-quieto. E você sabia comer. – Senti meu rosto esquentar, vendo-a sorrir.
- Também não é assim! – Ela gargalhou.
- Ah, nem vem, Alisson. Fazia três anos que eu estudava com você e um dia, magicamente, você ficou no plantão de química, depois se ofereceu para me levar em casa e as coisas foram andando a partir daí. – Sorri, feliz por ela ainda se lembrar.
- Sabe por que eu comecei a ficar a fim de você? – Perguntei, apoiando os cotovelos nos joelhos e ela desviou o olhar da TV para me encarar.
- Acho que você nunca me disse. – Ela suspirou.
- Um dia eu estava conversando com o Willian e o Marcos lá na escola, falando das meninas da sala e você saiu no assunto. – Dei de ombros.
- Como eu saí no assunto, Alisson? – Ela colocou as mãos na testa.
- Que já era o último ano da escola, que nunca tínhamos namorado e aí eles me perguntaram por que eu nunca tinha dado bola para você. – Ela virou o rosto para mim. – Você era a única menina alta, era bonita, sempre foi muito de boa, discreta, nunca chamava atenção... – Virei para ela que deu um pequeno sorriso. – A partir daí eu comecei a prestar atenção em você e o resto é história. Acabei me apaixonando platonicamente por você. – Virei para ela que ainda sorria para mim e desviei o rosto. – As coisas entre a gente simplesmente fluíram.
- Bem, eu também tinha um grupo bem seleto de amigos, você era meu primeiro namorado e era meio famosinho na escola. – Ela deu de ombros. – Você deu uma espichada no primeiro ano e foi escolhido como garoto mais bonito da escola, seu irmão era goleiro do Internacional, além de que eu precisava proteger o que era meu. – Ela ficou envergonhada. - Eu não ia falar para todo mundo que estava saindo com o goleiro da Seleção Sub-17, né?! As meninas eram loucas por você! – Gargalhei, balançando a cabeça.
- Você pareceu meio surpresa quando eu te chamei para sair. – Ela suspirou, jogando a cabeça para trás.
- Para mim era complicado a possibilidade de gostar de alguém. Eu me mudava a cada quatro, cinco anos por causa da minha mãe. – Ela deu de ombros. – Mas quando você me chamou para sair eu falei com a minha mãe, ela disse que pensava em ficar em Nova Hamburgo mais uns dois, três anos e depois sair da polícia... Então, por que não? – Ela sorriu. – Eu estava lá só por coincidência do destino, mas você chegou todo simpático, bonito, me pareceu certo na época. – Assenti com a cabeça sorrindo. – Aí o destino pregou outra peça e...
- Não, não vamos lembrar disso! – Me levantei, me sentando ao seu lado no sofá. – Mas só para deixar explicado: o plantão foi o único jeito que eu vi de falar com você sozinha. – Ela riu fracamente, negando com a cabeça.
- Tempos que não voltam mais! – Suspiramos juntos e nos encaramos por um tempo, me fazendo engolir em seco e ela tossir, tirando os cabelos do rosto.
- Bem...
- Deixa eu te contar, falei com meu pai hoje. – Ela falou, virando uma perna em cima do sofá.
- Ah é? E aí? Contou para ele a confusão que está sua vida? – Olhei para ela que gargalhou falsamente.
- Não foi preciso, sua mãe já tinha contado todos os detalhes. – Ela me encarou e eu fiquei sem fala, com a boca entreaberta.
- Ah, então, eu falei com a minha mãe quando você chegou e... – Ela tocou meu braço e eu ergui os olhos para ela.
- Obrigada! – Ela disse e eu franzi a testa. – Acho que eu precisava de uma forcinha.
- E como ele levou a notícia? – Ela soltou um longo suspiro.
- Acho que a última vez que eu levei um esporro tão grande foi quando eu falei que eu estava namorando contigo. – Ela fez uma careta e eu gargalhei, jogando a cabeça para trás.
- Ei, seu pai gostava de mim! – Me liguei a informação e ela riu.
- Gostava sim, mas o começo foi uma surpresa, já que a “princesinha” dele estava namorando. – Ela fez aspas com as mãos e eu ri.
- Ufa! Achei que estava com a imagem ruim com o seu pai até hoje! – Ela gargalhou, negando com a cabeça.
- Não, não. Ele acompanha seus jogos até hoje. – Dei de ombros.
- Bom saber que alguém da família ainda se importa! – Me levantei e senti ela me bater com o travesseiro em minha perna. – Ei! – Reclamei e ela riu.
- Eu ainda bato! – Balancei a cabeça negativamente, rindo com ela.
- Bom, acho que eu vou tomar um banho. – Falei e olhei para a TV, percebendo alguns rostos conhecidos.
- O que você está assistindo? – Percebi alguns rostos pálidos e olhos avermelhados, me fazendo franzir a testa.
- “Amanhecer” parte um. – Ela falou se ajeitando no sofá novamente. – Tá acabando, vai começar a parte dois já, já. – Ela pegou o travesseiro novamente.
- Você ainda gosta? – Perguntei quando algumas lembranças passaram pela minha cabeça.
- Minha saga favorita até hoje. – Ela sorriu e eu me sentei ao seu lado novamente.
- Eu nunca terminei de ver, se quer saber! – Falei e ela olhou para mim com os olhos arregalados.
- Mesmo? Não é possível, eu era muito viciada nisso, você deve ter pelo menos ficado interessado em saber o final. – Suspirei.
- Exatamente! – Virei para ela. – Foi por você ser muito viciada que eu nunca terminei de assistir, me lembrava de você. – Ela mordeu seu lábio inferior e desviou seus olhos novamente para a televisão, fazendo que um silêncio se instalasse entre nós.
Aproveitei a deixa, me levantei, peguei minha mochila e segui para meu quarto, tirando o uniforme de viagens da Roma e segui direto para o banho. Mal tinha dado tempo de tomar uma ducha após o jogo, então aproveitei esse momento para dar uma relaxada embaixo da água quente.
Mas é claro que eu não estava sozinho, o sorriso de passava várias vezes em minha mente me fazendo pensar se essa não era a oportunidade perfeita para que pudéssemos ser algo novamente. Acho que em sete anos, nós só crescemos, conseguimos empregos sensacionais e nos viramos, mas lá dentro, ainda parecia que éramos as mesmas pessoas. Meu Deus! Ela ainda gostava de Crepúsculo! Sabe o quanto que eu fugi desse filme para não ter que me lembrar dela?
Agora ela estava ali, o filme estava ali, as lembranças estavam voltando e eu com certeza estava surtando! Saí do banho passando a toalha nos cabelos e procurei pelo meu moletom atrás da porta. Eu com certeza não sairia de casa hoje, acho que eu nem estava com pique para isso.
Respirei fundo antes de sair do quarto novamente e atravessei o corredor, notando que ainda estava na mesma posição de antes, atenta ao filme quando uma cena muito estranha, com muito sangue e uma Bella bem magra e cadavérica estava desacordada em uma maca. Ou será que estava morta? Não, eles não matariam a personagem principal, ou matariam?
- A Bella vai morrer? – Perguntei e pulou ao se assustar. – Desculpe.
- Eu não acredito que você realmente não viu! – Ela balançou a cabeça negativamente.
- Não mesmo, mas agora fiquei curioso – Falei, fazendo-a rir.
- Por que você não vai pendurar essa toalha e eu coloco no Netflix para você ver desde o começo? – Ela se virou para mim. – Não sei se você tem mais compromissos para hoje, mas...
- Tenho nada, não. – Ela sorriu.
- Então, podemos ver a parte um e a parte dois. – Ela deu de ombros e eu sorri.
- Aceita pipoca? – Perguntei e ela assentiu com a cabeça, tentando esconder um sorriso em seus lábios comprimidos.
- Eu não sou de negar pipoca. – Me levantei novamente e segui para a cozinha.
Passei pela lavanderia e pendurei a toalha no varal de dentro e voltei para a cozinha à procura dos pacotes de pipoca de micro-ondas. Tirei da embalagem e coloquei um no mesmo, apertando o botão e aguardando o micro-ondas fazer seu trabalho, enquanto eu procurava por uma tigela para colocar a mesma.
- Esqueci de te falar... – Virei para o lado, observando se encostar no batente da porta. – Meu pai pediu sua conta bancária para ele depositar um dinheiro para mim.
- Vocês não precisam. – Falei e ela riu fracamente.
- Eu sei! – Ela assentiu com a cabeça. – Mas não posso depender de você mais do que já estou. – Suspirei.
- Você sabe que não é um problema. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Eu sei, mas depois me passa, por favor. – Ela falou e eu confirmei com a cabeça.
- Ok. – Respondi e o micro-ondas apitou ao meu lado.
- Agora vamos. – Ela falou. – Ver a Bella e o Edward se casarem, a Bella se transformar em vampira e o Jacob se apaixonar pela filha da Bella! – Ela deu as costas e eu arregalei os olhos.
- O quê? – Falei um tanto alto e ela voltou alguns passos, aparecendo na cozinha de novo.
- O quê? – Ela repetiu minha pergunta.
- Tudo isso acontece de verdade? – Perguntei e ela deu de ombros com um pequeno sorriso no rosto. – Como assim, eu era team Jacob! – Ela gargalhou, negando com a cabeça.
- Não era nada! – Ela falou. – Você fazia questão de ser team Edward só porque eu era team Jacob. – Rindo, coloquei a pipoca na tigela e estendi a ela. – Além de que você viu o “Eclipse”, você viu o Edward pedir ela em casamento.
- Vamos logo, viciada. Antes que você me conte outro spoiler do filme. – Segui para fora da cozinha e ela foi na minha frente, se sentando no sofá.
Me sentei ao meu lado e ela deu play no Netflix novamente, fazendo com que o filme começasse e logo a voz da Bella foi ouvida enquanto Jacob aparecia furioso com um papel em suas mãos. Virei para o lado, observando atenta ao filme, nem parecia que ela tinha visto esse filme alguns minutos antes de eu chegar. Soltei um suspiro, fazendo-a virar o rosto em minha direção e dei um pequeno sorriso para ela que retribuiu e esticou a tigela de pipoca, fazendo com que eu pegasse um pouco e voltasse a atenção ao filme.

ELES


- ! – A garota se afastou rapidamente de seu namorado quando ouviu a voz de sua mãe e ambos começaram a rir com as respirações abafadas e os lábios avermelhados. – ! – Ela ouviu novamente.
- Estamos aqui! – falou meio sem ar, ouvindo os passos da sua mãe pela escada e logo a porta foi aberta.
- O que eu falei da porta, hein? – Sandra olhou para ambos, fazendo que e Alisson dessem sorrisos envergonhados por quase terem sido pegos no meio de um amasso na cama da garota.
- Desculpe! – falou. – Vocês estavam falando muito alto. – Ela falou a primeira desculpa que apareceu na sua cabeça e Alisson colocou a mão na boca segurando a risada.
- Uhum, tá! – Sua mãe disse. – E vocês precisam de silêncio para o quê, mesmo? – Ela suspirou, negando com a cabeça. – Esquece! Vem ficar aqui embaixo um pouco, seus avós vão embora em algumas horas. – assentiu.
- Ok, mãe! Estamos indo! – Ela falou e sua mãe fez questão de travar a porta no apoio atrás da mesma antes de sair do quarto, fazendo com que Alisson e caíssem na gargalhada enquanto o garoto passava os braços pelos ombros da garota.
- Está cada vez mais difícil ficar sozinhos. – Ele cochichou e virou o rosto, abrindo um sorriso para ele que colou os lábios de ambos novamente, mas só por alguns segundos dessa vez.
- Temos que aproveitar os dias que nossos pais estão fora. – respondeu ainda com os lábios colados.
- Como? Minha mãe é dona de casa, seu pai trabalha em casa, na escola os inspetores ficam em cima, é difícil! – Alisson se levantou, passando as mãos na cabeça.
- Vem, vamos descer um pouco, depois que minha mãe sair para levar meus avós para o aeroporto a gente tenta fugir um pouco daqui! – estendeu a mão para o garoto que a segurou, entrelaçando os dedos.
Ambos saíram do quarto da menina e seguiram escadas abaixo, fazendo com que os pés descalços batessem na escadaria de madeira da casa dela. Passaram pela sala de estar, pela sala de TV, pela larga cozinha e seguiram para os fundos, onde uma pequena festa de aniversário atrasada da menina estava para acabar. Agora só tinham os Becker e os ali, os outros colegas da escola já tinham ido embora há muito tempo, além de outros conhecidos de seus pais. Além de que eles estavam se escondendo no quarto há uns 20 minutos, antes da mãe dela os encontrar.
- Ah, apareceram! – Muriel foi o primeiro a fazer graça com seu irmão que deu um tapa no pé da orelha do mesmo quando passou.
- E aí, o que eu perdi? – deu um beijo rápido na bochecha de sua avó paterna e se sentou no chão.
- Zé estava tocando algumas músicas aqui! – O pai de falou e a mesma observou seu sogro com o violão no chão.
- Mas agora deixa para o Alisson! – Seu José falou, tirando o violão dos braços e esticando para o seu filho mais novo.
- Vai dizer que ainda toca? – Sandra comentou, fazendo sorrir.
- Múltiplos talentos. – falou sorrindo para o namorado que debruçou rapidamente sobre o mesmo e deu um beijo em sua bochecha. – Vai, toca alguma coisa. Eu gosto quando você toca.
- Vou começar com uma tradicional porque hoje é dia do gaúcho! – Alisson falou com um sorriso no rosto e sua família sorriu.
Ele começou a dedilhar uma música que já conhecia de cor depois de tantas as vezes que a ouvira em vários encontros na casa dos Becker desde que começaram a tocar, mas não se importou, apenas sorriu, ela gostava de ver seu garoto tocando e cantando. Ficava surpresa como alguém poderia ter tantos talentos.
- Quem quiser saber quem sou, olha para o céu azul e grita junto comigo, viva o Rio Grande do Sul! – Ele começou, fazendo sua família começar a acompanhá-lo cantando ou só repassando as palavras pelos lábios. – O lenço me identifica qual a minha procedência, na província de São Pedro, Padroeiro da querência...
- Ó meu Rio Grande, de encantos mil, disposto a tudo pelo Brasil. – Seu José começou a cantar empolgado com seu filho, fazendo e Muriel darem risadas escondidas embaixo dos lábios. – Querência amada dos parreirais, da uva vem o vinho, do povo vem o carinho, bondade nunca é demais! – Alisson finalizou a música no violão com algumas dedilhadas mais fortes, fazendo os familiares dos dois aplaudirem o menino, fazendo-o sorrir.
- Você deveria cantar algo que eu sei. – reclamou de brincadeira e Muriel gritou em direção a Alisson que riu, batendo no irmão mais velho que estava ao seu lado.
- Sertanejo, querida! – Magali falou para a nora, fazendo-a rir.
- Especial para você! – Alisson falou para e aí sim que Muriel gritou, fazendo até mostrar a língua para ele.
Muriel apoiava muito o namoro do irmão com . Ele via como o garoto tinha ficado mais relaxado ao encontrar aquela garota muito especial. Apesar de algumas diferenças claras entre ambos, eles tinham virado a vida de todos seus familiares de cabeça para baixo para ficarem juntos. Eles eram bem recebidos e bem queridos em qualquer uma das casas e ainda faziam questão de sempre juntar as duas famílias para algumas ocasiões importantes, principalmente quando todos conseguiam comparecer.
Mas Muriel era quem mais apoiava, quem sempre ficava feliz quando via ambos conversando ao pé do ouvido ou trocando beijos escondidos pelos cantos da casa. Seu irmão sempre fora muito vidrado em futebol, nunca pensou em outra coisa por muitos anos, então, ter essa garota aqui, fazendo parte da vida dele, trazendo mágica e opções para sua vida, o deixava muito feliz. Além de que era seu irmão mais novo, então fazia questão de zoar os pombinhos em todas as oportunidades que tinha.
- Como esquecer o beijo que você me deu, não sei se era pra esquecer ou lembrar. gargalhou ao ouvir as primeiras palavras da próxima música do garoto, fazendo sua mãe olhar assustada para ela, mas entendia que era uma piada interna entre ambos. - E ficou um pedaço de você em mim, e hoje eu quero te ver pra me entregar. Ah! – A menina mexeu a cabeça conforme a música, entrando no ritmo da mesma.
- Como eu quero de novo um beijo seu muito gostoso, do jeito que 'cê faz é carinhoso, por isso eu quero suas mãos em mim. – Ela começou a acompanhar o garoto com sua voz grave, fazendo-o parar de cantar por alguns segundos para abrir um sorriso para ele. Ele amava quando ela cantava, principalmente quando ela cantava as músicas que ele gostava. - Como eu quero o cheiro de amor que vem chegando, trazendo o seu corpo só pra mim.
- Como eu quero de novo um beijo seu muito gostoso, do jeito que 'cê faz é carinhoso, por isso eu quero suas mãos em mim. – A garota se silenciou, deixando com que ele se empolgasse sozinho com sua viola, como ele gostava de dizer. - Como eu quero, o cheiro de amor que vem chegando, trazendo o seu corpo só pra mim.
- Uhul! – Seu Zé gritou animado, aplaudindo o filho, fazendo-o ficar mais avermelhado do que o normal.
Alisson tirou o violão do colo por alguns segundos e o encostou na pilastra e deslizou o corpo pelo chão do quintal da casa de e passou o braço pela cintura da menina, trazendo-a para perto que passou um braço pelo seu ombro, sentindo-o estalar um beijo na têmpora da menina, fazendo-a abrir um largo sorriso. Além de várias pessoas ali em volta da mesa ou no chão, incluindo os avós da menina que aproveitaram a viagem para conhecer o namorado da menina e o adoraram.
- Você prometeu que me ensinaria a tocar violão. – cochichou para ele que virou o rosto para a mesma, observando a menina com o rosto bem próximo ao dele.
- Toda vez que eu tento você me diz que prefere que eu toque e você cante. – Ela riu fraco, escondendo o rosto na curva do pescoço do garoto, puxando o ar e sentindo o cheiro do perfume do mesmo.
- Eu sei, mas eu preciso aprender a tocar quando eu não tiver você! – A mais nova cochichou, fazendo-o rir.
- E por que você não me teria? – Ele colou os lábios nos da menina por alguns segundos, fazendo-a rir.
- Porque você ainda não aprendeu algumas músicas internacionais para me agradar. – Ela fez um pequeno beicinho que fez o garoto sorrir. – E eu já estou com vários sertanejos na ponta da língua...
- Mas você gosta, vai! – Ele tentou cantar a namorada que negou com a cabeça, fazendo-o rir.
- Eu gosto de você! E gosto de tudo o que você gosta! – Ela sussurrou. – Agora você precisa gostar de tudo o que eu gosto! – Eles riram juntos. – Katy Perry, Shakira, Rihanna, Kesha, Miley, Demi... – Ele riu fracamente, apertando-a pela cintura. – E alguns rocks, obviamente. Ficar ouvindo Pink Floyd e Metallica sempre já até me enjoou.
- Vamos devagar, ok?! Muitos nomes nessa lista aí! – Ela sorriu. – Mas eu já aprendi algumas coisas, saca só! – Ele puxou o violão novamente, arrumando as mãos nas cordas e olhando para sua menina. – Só que eu não sei cantar em inglês, então me acompanha nessa.
- Se eu souber... – Ela falou e ele piscou para ela.
- Você sabe. – Ela riu fraco e ele começou a dedilhar rapidamente as mãos nas notas, fazendo com que um som mais abafado saísse do mesmo, ao contrário da música original, onde uma guitarra crua saía da mesma.
- Ah! Eu conheço! Pai! – A menina falou animada, se levantando do chão, chamando a atenção do pai e esperou que Alisson repetisse a introdução da música para que ela começasse a acompanhá-lo. - I wish that I could fly, into the sky, so very high, just like a dragonfly. – Ela cantava com a voz bem diferente de Lenny Kravitz, mas Alisson achava muito mais bonita. - I'd fly above the trees, over the seas in all degrees, to anywhere I please, oh! I want to get away, I want to fly away.
- Yeah, yeah, yeah. – Seu Gilberto acompanhou a menina que dançava sozinha no chão, girando os quadris, chamando atenção dos outros presentes.
- I want to get away, I want to fly away, yeah, yeah, yeah. – Alisson tinha um sorriso largo no rosto quando via sua menina dançando e cantando como se estivesse sozinha em seu quarto. - Let's go and see the stars, the milky way or even mars. Where it could just be ours. – A garota olhou para baixo, sorrindo para Alisson. - Let's fade into the sun, let your spirit fly, where we are one. Just for a little fun, oh, oh, oh, yeah!
- I want to get away, I want to fly away, yeah, yeah, yeah. I want to get away, I want to fly away, yeah, yeah, yeah. e seu Gilberto cantaram juntos, com a voz da garota sobressaindo bem mais afinada sobre a dele, fazendo com que todo mundo aplaudisse animado, mas Alisson interrompeu a festa, parando de tocar.
- Ei! – virou para ele que gargalhou.
- Eu não sei o solo! – Ele falou erguendo uma das mãos, fazendo a garota rir. – Eu disse que aprendi algumas coisas, não tudo. – A menina abriu um largo sorriso, se ajoelhando na frente do namorado e segurando o rosto dele com as mãos.
- Já é um bom caminho! – O garoto alargou o sorriso ao ver a felicidade que sua menina ficava quando cantava o que gostava. – Está ótimo! – Eles colaram os lábios mais uma vez, deixando ambos com sorrisos mais largos ainda.
- Não sabia que cantava, Gil! – Eles se distraíram com seu Zé para o pai de .
- Ah, não. Eu só acompanho, minha menina que é a estrela! – e seu pai sorriram cúmplices.
- Ele me apresenta às músicas boas e eu canto! – sorriu. – Além de que nessa música ele só canta os “yeah” da vida! – denunciou, fazendo todo mundo gargalhar na roda.
- Valeu, filha! – Seu pai falou irônico e estendeu os polegares para a menina que mandou um beijo em direção ao mesmo.
- Eu te amo! – Ela disse.
- Bom, acho que está na nossa hora! – A avó de falou se levantando, fazendo com que todos fizessem o mesmo.
- Sim, melhor ir. – A mãe de falou, ajudando seu sogro a se levantar. – Temos quase uma hora de viagem até Porto Alegre ainda.
- Ah, mas foi tão rápido. – fez um pequeno beiço e se aproximou de seus avós com um largo sorriso. – Eu vou sentir saudades de vocês.
- Nós também, querida! – Seu avô falou segurando o rosto da neta com as mãos e lhe deu um beijo na testa.
- Mas agora ela tem um belo protetor para cuidar dela. – Sua avó falou sorrindo para Alisson. – Você é um ótimo garoto, filho. Cuida da nossa netinha, ela é preciosa, viu?! – ficou envergonhada com as palavras de sua avó, mas somente riu.
- Eu sei, dona Janice, ela é preciosa mesmo. – Ele sorriu para sua menina e abraçou fortemente os avós de .
- Foi um prazer te conhecer, rapaz. Boa sorte no futebol! – Seu Fernando falou sorrindo, dando alguns tapas nas costas do garoto.
- Obrigado! Espero nos vermos em breve!
- Com certeza, vá para Brasília da próxima vez, sim? – Seu Fernando falou já abraçando que tentava não derramar lágrimas, foram poucos dias com eles, mas foi muito bom.
- Pode deixar! – Alisson acenou, esperando que dona Janice soltasse sua namorada e sentiu um beijo estalado da senhora em sua bochecha, acenando para eles.
- Tchau, vó. Tchau, vô. Façam boa viagem, ok?! – falou sorrindo, vendo-os terminarem de cumprimentar o resto dos presentes.
- Eu vou levar eles e volto em mais ou menos duas horas, ok?! – A mãe de cochichou para a mesma que assentiu com a cabeça.
- Eu vou com você, amor. – Seu Gilberto falou.
- Pode deixar, Gil. – Dona Magali falou. – Eu vou com ela.
- Ah, você não se importa? – Sandra falou até aliviada em não precisar voltar de Porto Alegre sozinha.
- Claro que não! – Dona Magali falou.
- Perfeito! E vocês me fariam um grande favor se começassem a organizar tudo! – Sandra falou para seu marido que fez uma careta.
- Pode deixar, mãe. Eu, a Lis e a Duda gerenciamos a organização! – falou animada, vendo a namorada de Muriel rir da mesma. – Certo, Duda? – segurou a filha de cinco anos de Muriel que andava pelo jardim.
- Certo! – A menina brincou e assoprou sua barriga, fazendo-a gargalhar alto. – Para, ! – Alisson riu da cena, adorando a relação que tinha com sua afilhada e com Franthiesco que ainda era envergonhado com ela.
- Pode ir, amor. Prometo que arrumamos tudo, certo, rapazes? – Gilberto falou e olhou a feição de seu Zé, Alisson e Muriel que não pareciam nada empolgados.
- Logo voltamos! – Sandra acenou, saindo com Magali e seus sogros.
- Ao trabalho! – falou animada, colocando Duda no chão.
- Ah! – Os quatro reclamaram, fazendo e Lis rirem.
- Eu prometo que divido o resto do bolo com vocês se realmente ajudarem. – Ela tentou comprá-los e todos levantaram rapidamente, fazendo-a gargalhar. – E você... – Ela puxou Alisson pela blusa. – Ainda quero as aulas de violão.
- Relaxa, eu não vou sair daqui tão cedo hoje. – Ele comentou abraçando a menina pelos ombros. – Ou pensou que a festa tinha acabado? A gente vai organizar para acender a churrasqueira de novo mais tarde. – Ela negou com a cabeça, passando os braços pela cintura do garoto.
- Eu não consigo ouvir mais falar em churrasco. – Ela franziu a testa, sentindo alguns beijos do menino em sua face.
- Churrasco, churrasco, churrasco... – Ele falou repetidamente, fazendo-a franzir a testa.
- Ei, vamos ajudar? – Muriel separou ambos, movimentando as mãos para que eles começassem a se mexer e ambos riram, trocando um rápido selinho e saindo para lados separados sem saber muito por onde começar a limpar a festa de aniversário. Isso porque tinham sido somente cerca de 50 convidados. - Segura o Franthiesco. – Muriel estendeu o menino de dois anos que dormia para e a mesma sorriu para o garoto, passando as mãos nos cabelos escuros iguais de Muri.

ELA


Saí do banheiro com a toalha enrolada na cabeça e não evitei em dar uma rápida olhada para dentro do quarto infantil que ainda estava inteiro montado na casa do Alisson. Engoli em seco ao ver a decoração colorida e saí do mesmo, balançando a cabeça. Segui em direção à cozinha novamente, onde Alisson já estava sentado na mesa tomando o café da manhã e eu dei um sorriso para ele, me sentando no espaço vazio.
- Bom dia! – Falei para ele, tentando equilibrar a toalha na cabeça.
- Bom dia! – Ele respondeu com um pequeno sorriso no rosto. – Eu saí e trouxe pão italiano, tinha acabado de sair! – Ele apontou para o grande pão em cima da tábua ao seu lado.
- Ah, uma das melhores coisas desse país! – Falei sorrindo, fazendo-o rir e peguei a faca, cortando uma tira de pão para mim, enquanto o observava bebericar seu café.
- Café? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça. – A cafeteira está ligada ainda. Você ainda bebe café com leite? – Dei um sorriso de lado surpresa por ele se lembrar e assenti com a cabeça.
- Aqui! – Ele se levantou e foi até a geladeira, pegando o leite e me entregando e eu sorri, enchendo a xícara de leite e me levantei, seguindo até a cafeteira e coloquei um pouco de café só até o leite começar a escurecer.
Voltei a me sentar à mesa e seguimos comendo em silêncio. Peguei uma porção generosa de manteiga e passei na fatia do pão que ainda estava morno e me deliciei com uma das melhores e mais simples maravilhas do mundo. Ergui o rosto rapidamente para Alisson, sentindo que seus olhos estavam em mim e soltamos um riso cúmplice voltando ao café da manhã.
A noite de ontem tinha sido muito gostosa, realmente parecia que ainda era 2010. Assistimos “Amanhecer” parte um e eu acabei dormindo na parte dois. Acordei algumas horas depois e o Netflix e a televisão já estavam desligados, mas Alisson estava jogado para o outro lado do sofá, totalmente torto. Cogitei em tentar fazê-lo se ajeitar, mas antes de tocá-lo, lembrei-me de que eu nunca tinha conseguido fazer isso mesmo, da mesma forma que ele não conseguia também.
Peguei um dos travesseiros livres e arrumei um espaço para mim no sofá menor, puxando o retrátil para que ele ficasse maior. Obviamente metade das minhas pernas ficavam para fora dele, mas não importava, era melhor do que tentar dormir no maior e invadir o espaço de Alisson, ou vice-versa, na teoria, aquilo era minha cama. Antes de deitar, separei as duas cobertas que Alisson tinha me dado no primeiro dia e o cobri com uma e me cobri com a outra.
Tentei dormir, mas é óbvio que não deu muito certo, saber que Alisson estava ali e olhá-lo de esguio sempre, com certeza não me deixava confortável, principalmente depois da maior sessão remember de Crepúsculo com Alisson da minha vida. Era muito 2010!
Acabei dormindo eventualmente e acordei hoje pouco depois das sete, com o corpo todo torto no sofá pequeno. Cogitei em tentar dormir novamente, mas me levantei rapidamente quando percebi que Alisson não estava mais lá. O procurei rapidamente pela casa, mas a chave do seu carro não estava ali.
Aproveitei sabe-se lá quantos minutos sozinhas para tomar um banho. Ontem com Alisson chegando do jogo e a pequena sessão de filmes, nem consegui tomar outro banho antes de dormir. Mas assim que saí, ele já estava na mesa da cozinha me esperando para o café.
Confesso que achei fofo da sua parte sair para comprar pão, parecia quando eu dormia na casa dele e ele acabava acordando mais cedo por causa do treino, pegava pão para gente e me acordava para tomar café juntos. Eu costumava voltar a dormir logo que ele saía e depois ia para minha casa ou acabava ficando com sua família.
- Então, depois de ontem à noite, eu pensei um pouco e eu vou dar um jeito no quarto da frente, para que você tenha um espaço para você. – Ergui os olhos para ele, surpresa.
- Ah, Alisson...
- Não sabemos quanto tempo você vai ficar aqui, mas acho melhor você ficar num lugar mais confortável, ter seu espaço... – Assenti com a cabeça, com um sorriso no rosto.
- Você não precisa...
- Acredite, depois de dormir naquele sofá, sim, eu preciso! Ninguém merece aquilo! – Ri fracamente, negando com a cabeça.
- Acredite, o sofá é gostoso, mas sua posição não era das melhores! – Falei, bebendo o último gole do meu café.
- Mas mesmo assim, eu vou arranjar um espaço para você. – Ele sorriu.
- Obrigada, significa muito! – Sorri e ouvi um barulho ecoar pela casa.
- É a campainha! – Ele falou e eu assenti com a cabeça, esperando que ele levantasse. – É para você! – Arregalei os olhos e me levantei confusa. – Você precisa de um advogado, não é? – Ele se levantou também
- Eu vou tirar isso do cabelo, já vou! – Falei, seguindo correndo para o banheiro e puxei a toalha da cabeça, pendurando-a no boxe mesmo e passei o pente rapidamente no mesmo, somente que abaixasse o emaranhado na minha cabeça.
Voltei para a sala e o encontrei com duas pessoas. O homem era um pouco mais novo e usava um terno muito bonito e cumprimentava Alisson como se já o conhecesse e, do seu lado, uma mulher um pouco mais velha, mas não mais que 50 anos, com um terninho executivo que me fez lembrar das roupas que eu usava na embaixada.
- , esses são Leo, meu agente... – Alisson começou falando em italiano, o que me deixou até surpresa. – E Martina, sua nova advogada. – Engoli em seco.
- È un piacere! – Ambos falaram quase juntos e eu estendi a mão para eles, cumprimentando-os rapidamente.
- O prazer é meu. – Sorri.
- Por que não damos alguns minutos para elas? – Alisson falou para Leo, chamando-o para fora e eu me encontrei na sala sozinha com Martina.
- Como está, ? – Apontei para a mesa da sala e seguimos até a mesma, fazendo-a se sentar em uma das cadeiras e eu ao seu lado.
- Tudo certo e contigo? – Segui com a conversa em italiano com ela e ela apoiou suas coisas na mesa.
- Então, , eu sou Martina Vitale, sou advogada de defesa para sonegação fiscal. – Assenti com a cabeça. – Meu foco são casos de sonegação fiscais, mas o seu caso é similar, então posso te ajudar. – Confirmei novamente. - Eu falei com o senhor Becker um pouco e ele me contou brevemente sua história, disse que você está sendo acusada de desvio fiscal na embaixada brasileira pela Interpol e pela Polizia di Stato?
- Sim! – Respondi, sentindo minha respiração falhar. – Eu vim para Roma para trabalhar na embaixada brasileira na Itália, trabalhei lá por um ano e meio, pessoa de confiança do embaixador e prenderam ele, junto do conselheiro fiscal e eu fui de brinde. – Ela riu fracamente. - Estão me acusando de cúmplice por assinar e representar o embaixador em diversos documentos oficiais.
- E você recebeu alguma quantia? Tem alguma conta que não seja a sua aqui da Itália?
- Eu nunca recebi nenhuma quantia, posso te mostrar meu extrato bancário desde que eu comecei a trabalhar aqui. E eu até tenho outra conta, mas é a minha conta universitária do Brasil, está parada desde que eu saí de lá. – Ela assentiu com a cabeça, anotando em um bloco de notas.
- Perfeito, eu vou pedir para você esses extratos, das suas duas contas. – Assenti com a cabeça. – E você já assinou algum documento sem ler? – Ela perguntou.
- Sim, vários, para falar a verdade. Principalmente os que eu era colocada como testemunha. – Ela assentiu com a cabeça. – Os que eu precisava assinar por ele, quando ele estava fora, eu lia, mas as questões monetárias sempre eram passadas pelo conselheiro fiscal, acreditava que era confiável. – Ela assentiu com a cabeça.
- Certo! Eu dei uma procurada sobre seu caso, conversei com alguns investigadores, e me pareceu que eles não tem nada concreto para entrarem com um processo contra você... – Arregalei os olhos aliviada.
- Então, por que eles não encerram meu processo? Me devolvem meu passaporte e deixa com que eu vá embora para casa?
- Você ainda pode ser usada como testemunha no processo contra Miguel Pereira e não pode deixar o país. – Suspirei, passando a mão na cabeça. – Provavelmente é o que vai acontecer.
- E o que eu faço? – Perguntei assustada.
- Você já está com problemas suficientes, estávamos falando da Interpol, então, te indico falar tudo o que você sabe, não esconda nada, se não souber fale que não saiba, mas se souber, fale tudo! Dê detalhes, se livre disso. – Assenti com a cabeça.
- Claro! Com certeza!
- Se o seu processo não tiver provas que liguem sua cumplicidade, ele será descontinuado, não vai a julgamento e você poderá ficar livre após o julgamento de Miguel Pereira. Mas as chances do processo dele seguir até o julgamento são enormes. Ele realmente está encrencado. Então, pode demorar um pouco. – Assenti com a cabeça, suspirando.
- E quanto tempo isso pode demorar? Não sei se o Alisson te contou, mas fomos namorados na infância e não está muito legal ficar aqui, revivendo memórias do passado, lembrando de algumas coisas... – Ela riu fracamente.
- Eu não sabia disso, , mas o que eu posso fazer é dar uma pressionada nos investigadores para que eles chequem todos os itens retidos para adiantar o pedido de processo.
- O que seria isso? – Perguntei.
- Eles levaram um mandato de busca e apreensão junto ao mandato de prisão de vocês, certo? – Assenti com a cabeça. – Com esse mandato, eles retiveram documentos, computadores, sua agenda, seu notebook e tablet pessoal, além de várias outras coisas que podem ajudá-los com as investigações.
- Certo! – Falei para que ela continuasse.
- Como são muitos documentos e eles precisam ser checados minunciosamente atrás de qualquer evidência, pode demorar uma eternidade para isso acontecer. É por isso que eles dão um prazo de seis meses para cumprimento do julgamento. – Suspirei.
- Certo! – Cocei a sobrancelha. – Mas, como eles chegaram lá? Creio que se eu soubesse de algo eu mesma teria denunciado...
- Essa é a outra parte da investigação que está incerta ainda: eles receberam uma denúncia anônima, mas o que me adiantaram é que eles suspeitam que a pessoa que fez a denúncia pode ter plantado algumas provas para fazer com que o processo ande mais rápido.
- Alguém fez isso para me ferrar? – Acabei me exaltando.
- Não a você, mas o embaixador! – Assenti com a cabeça. – Pelo que eu falei contigo, com os investigadores, você só foi pega no fogo cruzado! – Suspirei aliviada, colocando a mão no peito.
- Quais são as minhas chances, Martina? – Perguntei sentindo a respiração parar por alguns segundos.
- Muito boas, senhorita . – Respirei aliviada. – Eu te prometo que você sairá dessa e voltará para sua família o mais rápido possível. – Ela deu um sorriso de lado e eu assenti com a cabeça. – Ou poderá ficar aqui e seguir Alisson para onde você quiser. – Ela cochichou e eu gargalhei, negando com a cabeça.
- Só eu para rir em um momento desses. – Ela assentiu com a cabeça.
- Você precisa de uma distração, eu vou tentar agilizar o processo, mas você não pode ficar parada pensando nisso.
- Eu entreguei alguns currículos para alguns trabalhos simples, estou esperando alguém me retornar, amanhã eu vou dar outra volta pela cidade. – Martina assentiu com a cabeça.
- Perfeito! Eu vou permanecer em contato contigo semanal, até termos alguma novidade desse processo. Caso eu tenha outras dúvidas ou precisa de alguma informação ou te passar alguma informação, eu posso entrar em contato por algum telefone?
- Claro! – Peguei a caneta da sua mão e escrevi os números do meu celular em seu bloco de notas e devolvi a ela.
- Perfeito, senhorita . – Nos levantamos. – Eu vou te ajudar a se livrar dessa. – Sorri. – Tem algo a mais que eu possa te ajudar por agora?
- Por favor, Martina, tente fazer com que isso não seja ligado ao nome de Alisson. – Pedi um pouco mais baixo. – Ele está começando a carreira agora e não quero ser a ex-namorada que destruiu a carreira dele.
- Pode deixar, senhorita, mas pelo que eu vi, ele não foi ligado a nada e me esforçarei para manter assim. – Sorri.
- Muito obrigada mesmo! – Suspirei. – Quanto eu te devo, Martina?
- Não se preocupe com isso, senhor Becker já cuidou de tudo. – Fiquei sem falas por um momento e suspirei.
- Eu vou chamá-los. – Falei e segui para a cozinha, passando pela porta da lavanderia e encontrando Alisson lá fora com Leo em uma das mesas, próximo à churrasqueira. – Alisson! – O chamei e ele se levantou.
Voltei para a sala com Martina e logo ambos apareceram novamente. Nos cumprimentamos novamente e Martina e Leo saíram, deixando eu e Alisson sozinhos novamente na sala deles. Assim que a porta foi fechada, eu suspirei, balançando a cabeça e sentei no sofá.
- E aí? – Ele se sentou no outro sofá e eu suspirei.
- Ela acha que eu tenho boas chances do meu julgamento ser descontinuado por falta de provas...
- Isso é ótimo! – Ele falou animado.
- Mas se isso acontecer, eles provavelmente vão pedir para eu testemunhar contra o embaixador...
- E você? – Virei para ele.
- O quê?
- Testemunha contra?
- Mas é claro! – Me levantei apressada. – O cara me colocou na maior encrenca da minha vida, espero não precisar nunca mais vê-lo, do contrário eu enfio um soco na cara dele! – Ele arregalou os olhos e riu em seguida.
- Vai dar certo! Só tenta evitar o soco, ok? Não queremos que arranjem motivos para te prender. – Assenti com a cabeça.
- Vai dar certo! – Repeti suspirando e ouvi um barulho baixo tocar.
- O que é isso? – Mexi rapidamente embaixo das cobertas ainda bagunçadas e encontrei meu celular.
- Meu celular! – Observei um número estranho e atendi o mesmo em italiano.
- Buongiorno? – Falei devagar.
- Signorina ? – Uma voz grossa falou do outro lado da linha.
- Sì? – Respondi incerta.
- Questo è Alessandro! – Ele disse. – Do bar vicino allo Estádio Olímpico. – Arregalei os olhos animado.
- Sì, mi ricordo di te.
- Eu e o resto da equipe analisamos sua apresentação e gostamos bastante. Gostaria de te convidar para fazer parte do nosso hall de cantores, o que acha? – Dei um pulo animado na sala, vendo Alisson me olhar com a testa franzida.
- Será ótimo, signor Alessandro. – Sorri.
- Se importa de começar hoje à noite? Teremos uma noite italiana e gostaríamos muito de te ter conosco.
- Claro que sim! – Sorri.
- Te vejo as seis, então. E prepare uma música italiana para cantar. – Ele disse.
- Pode deixar, obrigada! – Respondi sorrindo.
- E convide amigos. Ci vediamo.
- Tchau! – Falei, desligando o telefone. – Ah! – Dei um grito animada. – Os ventos estão mudando para mim.
- O que foi?
- Eu consegui um emprego! – Sorri, vendo-o se levantar.
- Isso é ótimo! – Ele me abraçou fortemente e eu o apertei também, me afastando logo em seguida.
- Eu vou ganhar 10 euros por hora, trabalhar das seis à meia noite de quarta à domingo, mas posso ganhar gorjetas e pontos que podem ser trocados por dinheiro dependendo da nota dada pelo público...
- O quê?
- Não é o melhor emprego do mundo, mas vai ser legal.
- Pontos, ? Notas? O que você está falando? – Alisson me segurou pelos ombros, me parando.
- Ah, eu esqueci de falar, é um bar karaokê! Eu vou ser garçonete, mas vou cantar também. – Abri um sorriso, vendo-o arregalar os olhos.
- E você está empolgada com isso? – Ele franziu a testa.
- Eu preciso me empolgar com alguma coisa, Alisson. – Dei de ombros. – O bar é bonitinho, o cara vai me pagar por dia e eu vou cantar. Sabe há quanto tempo eu não canto? – Ele abriu um largo sorriso.
- Me lembro que você cantava muito bem! – Sorri.
- Ainda canto, querido! – Sorri. – Ah, e sabe o melhor? É do lado do Estádio Olímpico, tem um banner seu gigante na frente! – Falei rindo. – Vai ter uma noite italiana hoje à noite, por que não chama seus amigos e aparece por lá?
- Acho que posso fazer um esforço! – Ele sorriu e eu retribuí animada.

ELE


Depois que Leo e Martina saíram, me ajudou com a louça do café da manhã enquanto falávamos do almoço e ríamos com a possibilidade de já estar com fome e preparar alguma coisa para aquele domingo. Comentei que tinha alguns cortes de carne no congelador e ela logo se animou, falando para que eu descongelasse algo logo, optei por um pedaço de contra filé.
Enquanto aguardamos a carne descongelar, chamei-a para me ajudar com o quarto da frente. Ele era quase como um grande e enorme escritório meu de coisas de futebol. Eu sempre acabava deixando ali os presentes dos torcedores, camisas trocadas por outros jogadores, além das minhas lembranças do Inter, da Seleção Sub-15, Sub-17 e Sub-20.
- Oh, meu Deus! – Ela falou quando eu abri a porta. – Ah, eu fico no sofá! – Ela falou rindo e eu a puxei de volta pelo braço.
- Nem está tão mal, vai! – Falei, vendo-a gargalhar.
- Está muito pior do que mal, Alisson. Isso está pior do que o quartinho lá da casa de Brasília, que eu aposto que meu pai não mexe desde que eu saí de lá! – Gargalhei ao seu lado e entrei no quarto, seguindo para a janela e abrindo a mesma, deixando a luz entrar.
- Só tem minhas coisas de futebol aqui, se a gente conseguir ajeitar tudo, a cama fica livre para você dormir. – Ela fez uma careta.
- Acho que está explicado o cheiro de suor! – Ela reclamou e eu empurrei-a com o ombro, fazendo-a rir.
- Sem graça! – Falei.
- Por que não juntamos todas as camisas e jogamos na máquina de lavar, depois de seca a dobra e guarda no armário? – Ela pegou alguma em cima da cama com a ponta dos dedos e jogou em minha direção. – E os papéis você ajeita?
- Você que manda! – Falei e vi seus olhos revirarem.
- Acho que vamos precisar de uma caixa aqui!
- Cadê a sua? – Perguntei e ela me bateu com uma camisa, me fazendo encolher os ombros.
Boa parte da organização até que deu certo. Enchemos uma máquina somente com as camisas que estavam jogadas pelo quarto, o que foi bastante coisa, e eu organizei os documentos que estavam acumulados em um canto do quarto. Quando foi possível ver o chão, peguei uma vassoura e enquanto eu passava pelo chão, ela dava uma passada de pano nos móveis.
Depois de tudo visivelmente ajeitado, peguei algumas roupas de cama e deixei ela arrumando a cama enquanto eu abri um espaço no armário para que ela colocasse suas roupas. Ela não tinha muita coisa, mas ela não deveria estar se sentindo bem com tudo acumulado na mesa de jantar desde o dia em que chegou aqui.
Cerca de duas horas depois, o quarto já estava bem mais apresentado que antes. Seguimos de volta para a cozinha e eu coloquei a carne na churrasqueira, temperando somente com sal grosso e fui ajudar a pendurar todas as camisas no varal lá de fora. Eu tinha um bom quintal, com um largo deck onde ficava a churrasqueira e uma mesa de madeira com largos bancos de madeira e um jardim grande.
Nos sentamos para comer e eu fiz questão de deixar a carne mal passada para . Ela era das minhas, então, além disso, eu peguei um Coca-Cola bem gelada e compartilhamos enquanto lembrávamos e ríamos da bagunça do quarto da frente.
Depois de tudo arrumado e organizado, ela disse que tiraria uma soneca para não ficar com sono durante seu novo emprego e para testar sua nova cama. Achei a ideia ótima e fui para meu quarto para fazer o mesmo. Eu demorei um pouco para dormir, fiquei pensando no que tinha dito sobre ter chances do seu caso ser descontinuado por falta de provas e aquilo me deixou muito feliz: nada havia mudado, ela não tinha mudado.
Acordei algumas horas depois no susto, eu tinha hibernado legal. Saí do quarto e a casa estava vazia. Chequei o horário e eram quase sete horas, entraria as seis. Passei pela sala e encontrei um bilhete com sua letra na mesma: “Saí para o bar, as músicas começam as oito, espero te ver lá! Aqui está o endereço, beijos”.
Ponderei com a cabeça por alguns segundos e mandei mensagem para Juan, Gerson e Bruno, minha turma mais próxima da Roma, eles já sabiam sobre , então expliquei que ela trabalharia nesse bar karaokê e que podíamos dar uma relaxada antes do treino de amanhã cedo e do jogo contra o Barcelona na quarta-feira. Todos toparam na hora, domingos costumavam ser tediosos.
Tomei um banho rápido, vesti jeans, camiseta, casaco e tênis e saí de casa um pouco apressado. Passei para pegar os caras e segui em direção ao Estádio Olímpico. havia dado o endereço, mas não era muito fácil encontrar as coisas em volta daquele complexo do Estádio. Eu sempre passava com o ônibus da Roma, acho que nunca tinha vindo para esses lados a pé.
Não foi muito fácil encontrar lugar para estacionar, as vielas eram finas e estavam cheias de carro, além de que para o lado do estádio era proibido estacionar. Já o bar foi fácil de encontrar, era o único bar que estava aberto para aqueles lados. Entrei no mesmo um tanto receoso, não sabia muito o que encontrar, estava com medo de ter entrado em outra enrascada, mas o bar era realmente bonitinho, como ela tinha dito.
Ele era fino e largo, as mesas redondas com quatro lugares, uma pequena vela no mesmo e luzes um pouco mais escuras, deixando o local bem aconchegante. No fundo contrário da porta, um balcão largo com diversas TVs na parede e do lado direito, um pequeno palco, para não mais que cinco ou seis pessoas e TVs colocadas no alto também.
- Buona notte! – A moça da porta falou para nós e sorrimos. – Vocês têm reserva?
- Ciao! – Falei confuso e balancei a cabeça, olhando para o pessoal atrás de mim que também olhava confuso. – Creio que não. – Falei.
- Chiara, esses são Alisson, Juan, Gerson e Bruno, arranje a melhor mesa para eles. – Um senhor apareceu atrás da mulher. – É um prazer conhecê-los, eu sou Alessandro.
- Ah, é um prazer conhecê-lo, signor. – Falei cumprimentando-o e ele fez o mesmo com os outros jogadores.
- Venham, por favor! – A mulher falou e seguimos com ela em direção a uma mesa próxima ao palco, exatamente no meio do salão.
- Grazzie! – Falei, tirando o casaco e me sentando na cadeira de frente para o palco.
- Fiquem à vontade! – Ela disse nos entregando alguns cardápios e sorri, vendo-a se afastar.
- É legal aqui! – Gerson falou.
- Cheio, cara! – Juan falou e eu ri. – Sua garota vai tocar aqui?
- Ela não é minha garota. – Falei rapidamente.
- Uhum, você conta essas mentiras a si mesmo para tentar dormir melhor à noite? – Ele falou e eu o empurrei para o lado.
- Então, você conseguiu chegar, é? – Ergui o rosto, encontrando em minha frente com um pequeno sorriso no rosto e uma bandeja em suas mãos.
- Ei, você está ótima! – Me levantei rapidamente, observando sua roupa. Ela estava com uma camisa social branca, uma gravata listrada vermelha, uma saia preta, meia-calça da mesma cor e os sapatos dela que pareciam armas de tão finos e os cabelos presos em um rabo de cavalo com a franja solta pelas laterais do rosto.
- A gente precisa se virar com o que temos! – Ela deu de ombros e eu dei um rápido beijo em sua bochecha, fazendo-a sorrir. – Vocês gostariam de alguma coisa para beber? Comer?
- Chope! – Juan falou e todos concordamos.
- Beleza! E uma porção de prosciutto com parmesão e mussarela de búfala! – Falei e assentiu com a cabeça.
- Beleza, eu já trago! – Ela sorriu, se retirou e eu me sentei novamente na cadeira.
- Não é sua garota, é?! – Juan me cutucou e eu o empurrei.
se aproximou alguns minutos depois com as canecas de chope andando bem lentamente até nós, fazendo com que a ajudássemos a tirar as canecas da bandeja e ela logo apareceu com a porção de frios, dando um rápido sorriso e seguiu, para atender as outras mesas. A acompanhei com o olhar por algum tempo, até que as luzes em cima do pequeno palco se acenderam e fizeram os presentes abrirem as cadeiras para assistir melhor.
- Buona notte! – Vi o homem que me recepcionou na entrada subir ao palco com um sorriso no rosto. – À partir de agora o microfone está aberto, quem se interessar em se apresentar aqui conosco, pode encontrar os cadernos com o número das músicas nos balcões e dar seu nome e número para aquela moça na porta. – A moça que nos atendeu na entrada acenou com a mão e o pessoal aplaudiu animado. – Lembrando que o tema de hoje é noite italiana e esperamos ouvir grandes clássicos vindos de vocês! – Ele sorriu e aplaudimos novamente. - Para começar, temos uma nova adição na nossa equipe que vai deixá-los de boca aberta! – Me ajeitei na cadeira empolgado. – Com vocês, signorina ! – A equipe aplaudiu animada, soltando alguns gritos e apareceu do fundo o bar, deixando sua bandeja no balcão e subiu no palco, cumprimentando o senhor e se colocou no centro do palco, ajeitando o pedestal para que ficasse da sua altura.
- Buona notte. – Ela falou com as bochechas vermelhas. – Espero que vocês gostem de mim. – Ela sorriu, antes de assentir com a cabeça para o pessoal do balcão e uma música começou a tocar lentamente.
Quando ouvi os primeiros acordes do violão, eu já reconheci a música, era Il Regalo Più Grande, de Tiziano Ferro, um dos cantores italianos mais famosos do mundo, ficando pau a pau com Andrea Bocelli. Mas além de reconhecer a música, eu senti meu corpo arrepiar com a espera em ouvir sua voz cantando depois de muitos anos. Observei seus olhos fechados acompanhando o começo da música antes que ela apoiasse suas mãos no microfone e abrisse os olhos em minha direção.
- Voglio farti un regalo... – Ela começou lentamente. - Qualcosa di dolce, qualcosa di raro. Eh, eh! – Ela respirou no microfone. - Non un comune regalo, di quelli che hai perso, o mai aperto, o lasciato in treno, o mai accettato. Eh, eh! – Ela ergueu a outra mão, apoiando-a no pedestal. - Di quelli che apri e poi piangi, che sei contenta e non fingi. – Ela abriu um largo sorriso e eu retribuí, ela estava cantando para mim. - E in questo giorno di metà settembre, ti dedicherò... – Ela suspirou, fechando os olhos novamente. - Il regalo mio più grande. – A música ficou um pouco mais rápida.
- Vorrei donare il tuo sorriso alla luna perché, di notte chi la guarda possa pensare a te, per ricordarti che il mio amore è importante, che non importa ciò che dice la gente perché. – Ela mexia suas mãos lentamente, acompanhando o ritmo da música, enquanto mantinha sua boca quase colada no microfone e cantava de olhos fechados. - Tu mi ha protetto con la tua gelosia che anche, che molto stanco il tuo sorriso non andava via, devo partire però se ho nel cuore la tua presenza. – Ela abriu um largo sorriso quando a bateria entrou na música, deixando sua voz mais alta e mais forte. - È sempre arrivo e mai partenza, il regalo mio più grande, il regalo mio più grande, eh, eh, eh... – Ela abriu um largo sorriso, se soltando mais com a música, fazendo meu coração bater mais forte. Sua voz ainda parecia um anjo cantando em meus ouvidos.
- Vorrei mi facessi un regalo, un sogno inespresso, donarmelo adesso. Eh, eh! - Ela abriu os braços, abrindo um sorriso em minha direção e eu engoli em seco, mordendo meu lábio inferior. - Di quelli che non so aprire, di fronte ad altra gente, perché il regalo più grande... È solo nostro per sempre. – Ela mordeu o lábio inferior, apontando em minha direção, me fazendo segurar a respiração por alguns segundos.
- Vorrei donare il tuo sorriso alla luna perché, di notte chi la guarda possa pensare a te, per ricordarti che il mio amore è importante, che non importa ciò che dice la gente perché. – Ela tinha um largo sorriso no rosto, fazendo com que eu retribuísse da mesma forma, quase como se eu quisesse rir para ela. - Tu mi ha protetto con la tua gelosia che anche, che molto stanco il tuo sorriso non andava via, devo partire però se ho nel cuore la tua presenza, e se arriva mai... – Ela puxou a respiração mais forte, tirando o microfone do pedestal.
- E se arrivasse ora la fine che sia in un burrone, non per volermi odiare solo per voler volare. – Ela começou a cantar com mais rapidez e mais força, e eu senti meu peito doer cada vez mais. - E se ti nega tutto questa estrema agonia, e se ti nega anche la vita respira la mia. – Ela abaixou o rosto e pude notar algumas lágrimas deslizando pelo seu rosto e eu engoli em seco. - E stavo attento a non amare prima di incontrarti e confondevo la mia vita con quella degli altri. Non voglio farmi più del male adesso amore, amore. – Ela passou a mão livre no rosto, segurando o pedestal e o microfone firme com a outra.
- Vorrei donare il tuo sorriso alla luna perché, di notte chi la guarda possa pensare a te, per ricordarti che il mio amore è importante, che non importa ciò che dice la gente e poi. – Ela mexeu a cabeça, deixando sua voz cada vez mais forte e grave. - Amore dato, amore preso, amore mai reso. Amore grande come il tempo che non si è arreso. – Ela ergueu o rosto novamente, olhando em minha direção. - Amore che mi parla coi tuoi occhi qui di fronte... – Ela soltou um suspiro. – E sei tu, e sei tu, e sei tu, e sei tu, e sei tu... – Ela balançou a cabeça, respirando fundo e abaixando o olhar novamente.
- ...Il regalo mio più grande. – Ela cantou as últimas palavras da música mais baixo e quando notei as pessoas já se levantaram para aplaudi-la e gritar por ela animadamente, incluindo meus colegas de time.
Ela abriu um largo sorriso, fazendo uma leve flexão com a cabeça levemente e seu sorriso era cada vez mais largo, além das lágrimas que deslizavam pela sua bochecha. Respirei fundo, ainda travado em minha cadeira como se tivesse sido atropelado por um trem, percebi que a música era sobre nós.
“E se lhe nega tudo com extrema agonia. E se lhe nega da vida, respira da minha. Amor tão grande quanto o tempo que não desistiu. Amor que fala comigo com os olhos na minha frente, é você o meu maior presente”. Depois de 2010, depois de termos lutado muito para ficar juntos, passando por diversas dificuldades, diferenças entre nós e nossas famílias, eu desisti de nós, ela desistiu de nós. Independentemente do que falamos para nós mesmos para nos sentir melhores à noite, nós dois desistimos de lutar pelos nossos sentimentos, desistimos de tentar ser algo a mais e a distância fez com que o sentimento fosse embora.
Mas não, ele não tinha ido embora ainda. Enquanto ela sorria largamente para as pessoas que a aplaudiam e derramava poucas lágrimas em sua bochecha, eu tive a certeza de que o sentimento ainda não tinha ido embora. Ele tinha ficado guardado em uma parte bem escondida da minha vida e, apesar de tudo que tínhamos passado, eu só tinha uma certeza na vida: eu ainda era apaixonado por .
E com ela cantando para mim daquela forma, uma música tão importante, com os olhos tão fixos aos meus, eu também soube que ela ainda sentia algo por mim também. Eu só não sabia o quê, mas esperava que pudesse descobrir o mais rápido possível.



Capítulo 05

ELA


Eu saí meio atordoada do palco. Para começar que todo o pessoal do bar se levantou para me aplaudir e a equipe que tinha acabado de me conhecer gritava animadamente também, batendo as mãos nas bandejas. E para finalizar, a cara de tonto de Alisson enquanto me encarava. Ele tinha travado e entrado em curto circuito naqueles quatro minutos de música e eu não conseguia parar de olhá-lo.
Quando signor Alessandro me disse para preparar alguma música italiana, se abriu um hall enorme em minha cabeça. Se uma coisa que a Itália tinha feito bem era me ensinar a apreciar melhor a música italiana sem seguir pelo óbvio como Laura Pausini, Andrea Bocelli, Luciano Pavarotti e Tiziano Ferro, mas assim que eu consegui aquela oportunidade, eu sabia que precisava usar para chamar a atenção de Alisson.
Eu não tinha muita certeza ainda dos meus sentimentos por ele, mas eu sabia que meu coração ainda batia por ele de alguma forma. Afinal, se você for ver, nunca tínhamos terminado de verdade. Quando eu soube que me mudaria de Nova Hamburgo, prometemos que tentaríamos, conversaríamos e visitaríamos um ao outro, como isso não deu muito certo, fomos nos afastando aos poucos, até não estarmos juntos. Um tempo depois ele apareceu namorando sua esposa e eu segui minha vida.
Seu sorriso, a forma que meu corpo encaixava com o dele em um abraço, as piadas, a intenção de me agradar em qualquer coisa, lembrar de pequenos detalhes da vida em que namoramos juntos: que eu dormia com dois travesseiros, que eu babava enquanto dormia, que eu amava Crepúsculo, isso são pequenos detalhes que só quem me conhece de verdade sabe. Eu não sei, eu tinha chegado aqui em Alisson como uma forma de desespero por não ter onde ficar, como viver e afins, mas agora eu achava que era o destino tinha encontrado uma forma muito bizarra e sem graça de me reunir a ele novamente e eu estava caindo igual um patinho.
Acabei escolhendo Tiziano mesmo, um dos grandes cantores italianos e uma das minhas vozes favoritas da música. Ele era um gênio, um poeta e parecia que cantava não só com a alma, mas também com o coração. Já a música, simplesmente surgiu em minha cabeça e me surpreendi pelo significado fazer tanto sentido em nossas vidas. O Maior Presente, essa era a tradução da música, falava sobre um presente que ele queria dar a alguém, que acabava sendo o sorriso dela para que todos pudessem vê-lo nos dias difíceis, para lembrar que o amor é importante, não importando o que as pessoas diriam. E que se algum dia esse amor chegasse ao fim, seria o abismo, uma extrema agonia, uma falta de ar, afinal, sendo um amor tão grande que nem o tempo se rendeu, é você o meu maior presente.
E parecia que eu me sentia assim, Alisson e eu tivemos um amor tão ingênuo, juvenil, com alguns percalços e diferenças pelo caminho, mas era tão grande que até hoje eu sentia por não ter lutado por nós. Tanto que isso dificultou muito minha vida amorosa. Não tinha ninguém como ele, não tinha aquela intensidade, cumplicidade, amizade entre nossas famílias, conhecimento e apoio um ao outro não importando a situação, ninguém chegava perto. E não era por ele ser lindo, jogador, tinha um futuro brilhante pela frente, é que com ele éramos Alisson e , ninguém seria como nós. Além de que ele foi meu primeiro namorado, não tinha nada como o primeiro amor.
Eu não conseguia parar de sorrir durante a música, talvez porque eu percebi que meu amor por ele ainda estava guardado em meu peito depois de tantos anos, mesmo depois de tantos trancos e barrancos. E pelo sorriso bobo dele, tive a impressão de que ele também ainda sentia alguma coisa, mas eu não consegui identificar se era algo bom ou ruim, para mim ele tinha travado.
- Vamos chamar Bianca Morello! – Falei quando as pessoas finalmente pararam de aplaudir e dei espaço para que o microfone fosse oficialmente aberto.
Apesar desse rebuliço de sentimentos que minha mente ficou, eu tinha ficado tão feliz em cantar de novo, mas tão feliz que foi como se um pássaro enjaulado tivesse sido solto após muitos anos. Depois que fui embora de Nova Hamburgo, eu não tive e nem criei situações em que eu pudesse cantar. Às vezes tocava um pouco de violão e cantava sozinha em meu quarto para relaxar ou passar o tempo, mas não mais em público. E cantar ali, com tantos estranhos e alguém tão importante na minha vida, foi incrível. Acho que esse era um dos motivos de eu não conseguir parar de sorrir. Do contrário, eu provavelmente estaria com a mesma cara travada de Alisson.
O resto da noite acabou sendo muito divertido. A maioria das pessoas estavam lá para se divertir, conversar com os amigos, tomar algumas cervejas e gargalhar em cima do palco, mostrando como eles cantavam mal, fazendo a risada ecoar pelo bar sem timidez, mas tinha pessoas ali que arrasavam no microfone! Pessoas de todas as idades subiam tímidas ou envergonhadas e davam um belo de um show!
Claro que eu estava lá para trabalhar como garçonete e tentar não gastar meu salário do dia compensando taças e travessas quebradas, mas acho que eu tinha me dado bem. Chiara, Bianca e Giorgia me deram algumas dicas de como carregar e equilibrar bandejas sem que tudo fosse para os ares, mas hoje Alessandro deixou que eu carregasse as bandejas de bebidas com as duas mãos, o que facilitou muito, mas eu ainda quebrei alguns copos. A sorte é que eu tinha feito isso atrás do balcão e na cozinha, o que não me deixou vermelha igual um pimentão.
- Mais uma rodada, garotos? – Me abaixei para a mesa de Alisson, pegando as canecas vazias e colocando na bandeja.
- É uma boa! – Todos se olharam assentindo com a cabeça e me retirei, apoiando a bandeja ao lado da chopeira.
- Quatro para a mesa 12, Enrico! – Pedi e ele assentiu com a cabeça, pegando quatro canecas, enchendo-as e colocando na minha bandeja.
Olhei para o palco, vendo um casal cantar uma música de Andrea Bocelli totalmente travados no palco e virei o rosto para trás, reparando o olhar de Alisson sobre mim ou minha bunda que ficava muito bem dentro daquele uniforme. Dei um sorriso de lado e voltei a olhar para Enrico. Tirei as canecas vazias da bandeja, colocando as cheias e carregando nos braços a bandeja de volta para a mesa de Alisson.
- Aqui, garotos! – Eles logo me ajudaram a tirar as canecas da mesa e me afastei para lateral.
- Gostando do trabalho? – Alisson sussurrou para mim e eu dei de ombros.
- Com certeza é mais animado que na embaixada. – Ele riu. - Estou me divertindo, mas é só o primeiro dia! – Ele sorriu. – Me chame se precisar de mais alguma coisa. - Falei e me afastei novamente, seguindo para as outras mesas.
Depois das dez da noite, o bar começou a esvaziar aos poucos, signor Alessandro disse que isso era bem normal, principalmente por ser domingo, muitas pessoas vinham, aproveitavam a noite e seguiam embora, mas ainda tinham cerca de 10 ou 12 mesas firmes e fortes, incluindo a mesa de Alisson. A cozinha fechava 11 horas, o microfone às 11 e meia e eu poderia ir embora à meia-noite.
Conforme eu andava pelo bar, levando comes e bebes para o pessoal, eu notava que os olhos de Alisson estavam sobre mim, eu confesso que também não conseguia desviar muito os olhos dele, mesmo me mantendo ocupada do começo ao fim.
- Agora temos um pessoal novo e famoso aqui! – Olhei rapidamente para Alessandro que falava no microfone. – Vamos receber os jogadores da Roma: Alisson, Bruno, Gerson e Juan! – Ele falou e eu abaixei a bandeja, parando ao lado da mesa que eu tinha acabado de servir, quase no fundo do bar.
Os quatro subiram no palco mais animados que criança no circo, também, acho que já tinha levado umas quatro ou cinco rodadas de chope para eles. Bruno já até trançava as pernas e Alisson estava mais vermelho do que o normal e suava. Apesar do tempo frio lá fora, aqui estava confortável, mas não para derreter de suar.
No palco tinham dois pedestais, Alisson se colocou no da esquerda e os outros três no da direita, me deixando realmente curiosa sobre o que eles tinham preparado. Alisson fez um sinal de positivo para Alessandro na mesa de som e uma das músicas italianas mais famosas começou a tocar, famosas que tocava em todas as festas italianas no Brasil pelo menos umas 20 vezes. O pouco pessoal que ainda estava no bar se atentou à música e prestou atenção no que aquelas quatro estrelas da Roma fariam.
- Aissera, manninè, me ne sagliette, tu saje addo'? – Alisson começou a cantar com os olhos fixos nas televisões no alto.
- Tu saje addo'? – O restante do trio o acompanhou com as mãos bem enfiadas nos bolsos das calças.
- Addo' 'stu core 'ngrato cchiu' dispietto, farme nun po'. – Alisson continuou e eu tentava segurar ao máximo a minha risada.
- Farme nun po'. – Dei alguns passos, ficando um pouco mais próxima do palco e apoiei minha bandeja no balcão, abrindo um largo sorriso.
- Addo' lo fuoco coce ma si fuie te lassa sta. – Que Alisson cantava bem não era nenhuma novidade para mim, talvez ele falar italiano muito bem, mas fiquei feliz pela música ainda fazer parte da vida dele.
- Te lassa sta. – Juan, um dos amigos que eu tinha realmente conhecido de Alisson, parecia um pimentão de tão roxo que estava.
- E nun te corre appriesso nun te struie sulo a guarda'. – Alisson abaixou o olhar para mim e eu abri um sorriso, negando com a cabeça.
- Sulo a guarda'!
- Jammo, jammo, 'ncoppa jammo ja'. Jammo, jammo, 'ncoppa jammo ja'. Funiculí, funiculá, funiculí, funiculá. – Os quatro cantaram juntos, fazendo movimentos quase sincronizados com a cabeça e também tentando se segurar para não rirem. - 'Ncoppa jammo ja', funiculí, funiculá. – Eles não aguentaram a risada e se soltaram mais no segundo verso.
Após a música, eles voltaram quietinhos para a sua mesa e pouco tempo depois encerraram sua conta. O serviço ainda rolou por mais alguns minutos, cerca de meia hora. Alisson acenou para mim rapidamente e eu só dei um rápido sorriso, vendo-o se retirar com seus amigos. Depois que todos foram embora, organizamos o bar rapidamente, para que o pessoal da limpeza pudesse organizá-lo melhor no dia seguinte e fomos até o escritório.
Signor Alessandro juntou a equipe lá dentro e pagou o referente do dia, além das gorjetas, o que as minhas foram razoáveis, levando em conta que eu ainda não sabia manusear uma bandeja muito bem e repassou as pontuações dadas pelos clientes, o que eu fiquei muito feliz por saber que só tinham me dado nota 10.
Segui com as outras garçonetes para o vestiário e só coloquei o casaco vermelho por cima do uniforme e peguei minha bolsa, junto do segundo kit de uniforme que signor Alessandro me deu e acenei para as meninas e para o pessoal de trás do balcão, seguindo para fora do bar. Empurrei a porta e senti o vento gelado de Roma bater em meu corpo e franzi a testa ao encontrar Alisson sentado na murada em volta do estádio do outro lado da rua.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntei e ele pulou da mesma, seguindo em minha direção.
- Pedi para Juan levar meu carro, se importa em me dar uma carona? – Abri um pequeno sorriso e assenti com a cabeça, movimentando a cabeça para o lado e seguindo em direção ao carro.
- Por que me esperou? – Perguntei, colocando as mãos no bolso.
- Acho que foi uma oportunidade de ficar sozinho contigo. – Ele disse e eu neguei com a cabeça.
- Está achando pouco na sua casa? – Ele gargalhou, fazendo sua voz ecoar pela rua vazia e negou com a cabeça.
- Queria saber o que você achou do trabalho, parece que se divertiu bastante. – Destravei o carro, entrando do lado do motorista.
- Ironicamente, eu gostei bastante. – Sorri, jogando minha bolsa no banco de trás e passando o cinto enquanto ele fazia a mesma coisa. – Eu sempre fui meio patricinha e mimada...
- Jura? – Ele foi irônico e eu bati em seu braço, ouvindo-o rir, antes de tirar meus saltos finos e também jogá-los no banco de trás.
- Mas foi divertido, eu nem sou tão má garçonete e o pessoal realmente gostou de me ver cantar. – Virei o rosto para ele que assentiu com a cabeça.
- Você ainda canta para caramba, . Foi muito bonito. – Sorri, assentindo com a cabeça e liguei o carro, saindo da vaga.
- Obrigada! – Sorri. – Mas acho que vai ser legal, cada dia da semana tem um tema especial, eu posso cantar, só preciso melhorar um pouco na parte de carregar as bandejas...
- Senti dificuldade nesse departamento! – Gargalhamos juntos e eu neguei com a cabeça.
- Estou acostumada a trabalhar atrás de uma mesa, não em pé, de salto, à noite toda. – Ele gargalhou.
- Vai dar certo! – Virei para ele rapidamente, sorrindo. – E vi que ganhou uniforme!
- Ah, fiquei tão feliz, estava precisando de mais roupas! – Ele riu, sorrindo para mim. – Mas vai ser bom, eu preciso me ocupar também, você tem seu treino, seus jogos, tem a Champions League, o Campeonato Italiano...
- Ah, nem fala nisso, eu vou para Barcelona depois de amanhã para o que vai ser o jogo mais difícil da temporada. – O olhei de esguio e o vi passar a mãos na cabeça, me fazendo sorrir.
- Vai dar certo, você vai ver! – Bati rapidamente em sua perna.
- Deus te ouça, e o de quarta-feira é só o primeiro, na outra terça-feira tem outro. Se ganharmos o primeiro, fica muito mais fácil para o segundo.
- Foca, Alisson! – Falei um tanto alto demais, assustando-o. - As pessoas te comparam com Gianluigi Buffon, você é grande, você é bom, você é uma muralha, fecha o gol, só se focar. – Suspirei.
- Como você sabe quem é Gianluigi Buffon? – Ele perguntou um tanto assustado.
- Você tinha um pôster dele no seu quarto quando criança e eu moro na Itália, pelo amor de Deus, todo mundo sabe quem é Buffon. – Virei para o lado, abrindo um pequeno sorriso.
- E sobre o foco, está um tanto difícil focar depois que você apareceu em casa! – Mordi meu lábio inferior, olhando fixamente para a rua, tentando não começar a hiperventilar novamente.
- Acontece! – Falei somente e suspirei.
O silêncio reinou no carro depois disso. A viagem até a casa de Alisson foi um pouco mais curta, com a cidade quase vazia, era bem mais rápido, não tinha nenhuma preocupação, a maioria dos semáforos estavam desligados, então foi tudo mais fácil. Por um momento eu até achava que Alisson tinha dormido ao meu lado, mas quase perto de Olgiata, ele deu um longo suspiro, me assustando.
- Posso fazer uma pergunta? – Ele perguntou.
- Mais uma? – Fui irônica e ele riu.
- Por que você escolheu aquela música? Ela é bem... Importante. – Suspirei. - Algum motivo especial? – Mordi meu lábio inferior, passando uma mão no rosto rapidamente, pensando em como eu sairia daquilo e soltei um longo suspiro antes de virar o rosto para ele.
- É, algum motivo especial! – Dei uma piscadela para ele, mordendo meu lábio inferior e voltei a focar na rua, ouvindo-o soltar um longo bufo ao meu lado.

ELE


Passei as mãos umas nas outras e joguei o cabelo para trás, dando alguns pulos enquanto estava na fila no túnel do Camp Nou. Eram as quartas de final da Champions League e tinha muito peso nas minhas costas e no resto dos outros jogadores. Apesar de ser o primeiro de dois jogos, precisávamos garantir alguns gols para um possível empate no proporcional e jogarmos com folga em casa.
Senti uma mão em meu ombro e abri um sorriso ao ver Ter Stegen se ajeitar na fileira do Barcelona. Trocamos um aperto de mão e um rápido abraço e voltei a olhar para frente. Tirei as luvas de baixo do braço e baguncei rapidamente os cabelos do menino de óculos ao meu lado e dei a mão para o mesmo me acompanhar na entrada do campo. A equipe liberou a entrada e seguimos atrás dos juízes para o campo.
Ergui as mãos aos céus assim que pisei para dentro da linha pedindo para que Deus nos abençoasse nesse jogo e que desse tudo certo e me coloquei ao lado de Danielle De Rossi, apoiando a mão no ombro da criança e ouvi o hino imponente da Champions League tocar. Seguimos cumprimentando os juízes e o time adversário, nos unimos para tirar a foto da equipe e segui correndo para o gol.
Coloquei as luvas rapidamente e estiquei os braços, girando para ambos os lados e estalei alguns ossos do corpo. Olhei para trás vendo a torcida em peso do Barcelona e respirei fundo, fechando os olhos por alguns segundos. Observei os jogadores se posicionarem no centro do campo e o juiz apitou, dando início ao primeiro jogo das quartas de final.
Barcelona era uma equipe forte e muito bem estruturada, então eles chegaram e passaram a defesa pelo lado esquerdo com muita rapidez. Em um passe impedido de Iniesta para Suárez, tentei segurar a bola, mas ela entrou com tudo pelo lado direito. Senti meu ombro bater forte no chão e logo me levantei, assinalando para o bandeirinha que já a tinha em pé, assinalando o impedimento.
O ataque veio rápido novamente, Messi aproveitou uma brecha bem grande da defesa e deu um chute de fora da área, espalmei a bola, mandando-a para frente e corri em sua direção, agarrando-a firmemente quando Fazio se aproximou para defendê-la também, pulando por cima de mim.
A bola veio de escanteio e a minha defesa tirou-a, mandando-a para fora da área, mas Kolarov fez o passe errado e Rakitic chutou em minha direção, eu pulei, perdendo-a para o lado, mas ela bateu na trave, saindo pela direita para os pés de Suárez que isolou a bola, me fazendo acompanhá-la com o olhar e gritei para a minha defesa se fechar mais.
- Fecha ma! Ma! – Gritei para eles, recebendo a bola de volta do gandula.
O ataque do Barcelona chegou novamente com Suárez que mandou a bola em minha direção, mas eu a defendi, jogando-a para o meu lado direito beirando a linha do gol e saiu pelo outro lado. A bola voltou novamente por meio Rakitic, Messi, Iniesta e... De Rossi! Pulei no susto quando vi que a bola não saiu pela lateral e sim veio em minha direção, mas eu estava atrasado, observei-a entrar em câmera lenta e rolei no chão quando caí, me levantando quase em seguida, bufando alto.
O capitão se jogou no chão com as mãos na cabeça e eu me aproximei do mesmo, esticando a mão para ele que se levantou. Balancei a cabeça para ele largar disso e apontei para o meio de campo novamente, onde a bola já era posicionada. Daí o jogo seguiu sem muitas surpresas. Cerca de 15 minutos depois, o primeiro tempo acabou e seguimos para dentro do vestiário para tomar uma água e ouvir alguns sermões do técnico. Não era como se precisasse, estávamos vendo que o jogo estava inteiro em nosso campo e que não conseguíamos passar a bola para o campo deles.
Não adiantou muito, o segundo tempo começou agitado novamente. Eu saí do gol quando Jordi Alba deu um chute em minha direção e bati os antebraços na mesma, quase como vôlei e ela foi para frente, tombei rapidamente e voltei quando Suárez a chutou de frente para o gol e mandou para fora, me fazendo respirar aliviado. Observei o bandeirinha com a mesma erguida e Suárez estava em posição de impedimento novamente.
O outro gol veio do lado direito do campo com um cruzamento de Rakitic e abri os braços quando Umtiti se aproximou com Manolas e em outra retirada errada, a bola foi para a trave, no que voltou, bateu nas pernas de Manolas novamente, passando por baixo das de Umititi e foi para dentro do gol. Agarrei a bola, com força, balançando a cabeça e suspirei.
- Scuse. – Manolas falou e eu abanei a cabeça, respirando fundo.
- Non importa! – Falei rapidamente, jogando a bola para o gandula e respirei fundo.
Nosso terceiro gol chegou pelos pés de Messi, ele fez uma passagem para Piqué que estava em má posição e passou para Suárez. Ele chutou, mas eu consegui defender a bola, diretamente para os pés de Piqué. Bati as mãos no chão antes de levantar e fiquei aliviado por Fazio estar fora dessa, do contrário teria sido o terceiro gol contra desse jogo.
Levantei sentindo os ombros amortecidos já e o jogo continuou, finalmente passando um pouco para o campo do Barcelona. El Shaarawy fez o lançamento e Defrel fez o chute, mas Ter Stegen estava em posição, dando o rebote, mas a defesa do Barcelona estava em cima e não deixou entrar. Logo em seguida, Defrel tentou outro chute, pouco à frente do meio de campo, o qual eu achei que seria gol, mas Ter Stegen pulou alto, espalmando a mão na bola e mandando-a pela linha de fundo.
Por volta dos 80 minutos, veio nossa esperança. A bola rolou pela lateral esquerda em uma saída de bola, fazendo um drible pelos jogadores do Barcelona abrindo espaço e Džeko mandou uma bem mais ou menos, quase deslizando na grama e passou pela lateral de Ter Stegen, fazendo nosso primeiro gol!
Comemorei como se fosse uma vitória, existia esperança para o segundo jogo! Mas aquilo não marcava o fim de jogo, ainda tinha uns 10 minutos e acréscimos. Denis Suárez mandou a bola para o meio da grande área e Suárez deu um grande chute, eu pulei em direção à bola, mas em vão, quatro gols, dois contras. Isso tinha sido pior que o esperado.
A festa do Barcelona começou logo após o apito final, mas não estávamos no pique de acompanhar, então puxei minhas luvas das mãos e já me retirei da mesma junto dos outros jogadores da Roma. Ninguém queria demonstrar sua decepção em campo. Segui para dentro do túnel, sentindo alguns companheiros de times dar aquele tapinha leve nas costas, mas ninguém estava muito empolgado com aquele resultado, tinha sido um desastre!
- Alisson! – Virei o rosto para o lado, vendo o assessor do Roma aparecer com sua prancheta. – Entrevista! – Revirei os olhos, sentindo-o me empurrar pelos ombros e bufei, seguindo para o corredor de entrevistas, entregando para o mesmo minhas luvas e puxando a camisa suada do jogo, ficando somente com a segunda pele vermelha.
- Eu já volto! – Falei rapidamente e segui para a fila, encontrando o primeiro jornalista brasileiro que eu já estava acostumado em outros jogos.
- Alisson está aqui conosco. Alisson, me diga sobre esse jogo, imagino que não foi nem de perto o esperado? – Ele estendeu o microfone para mim.
- Em outras oportunidades foi até pior, mas a gente tinha que fazer uma partida perfeita, para conseguir levar um empate positivo, um empate ou uma vitória, e não conseguimos fazer isso, não fomos capazes. – Cocei o rosto, apoiando as mãos na cintura em seguida. – Tivemos dois gols contra, o que dificulta um pouco, mas a gente começou junto, nossa equipe começou junto, tá trabalhando junto e tem que continuar assim. Futebol é jogado, agora tem a partida de volta, lógico que é muito difícil... – O repórter confirmou com a cabeça. – A gente tem que acreditar até o final.
- Você falou que era preciso um jogo perfeito aqui hoje, um jogo perfeito em Roma basta para eliminar o Barcelona? – Ele me devolveu a pergunta.
- É, o jogo perfeito é o jogo da classificação que a gente diz, mas é muito difícil... – Passei a mão na testa, sentindo o suor ainda escorrer. – Tem que respeitar muito o Barcelona, mas a gente tem que aproveitar também as oportunidades que a gente tem, ficar um pouco mais concentrado para tentar levar um resultado melhor para casa. – Respirei fundo, eu estava com dificuldades em falar ainda, o baque tinha sigo bem grande. – Não foi o que a gente conseguiu, mas tem a qualidade da equipe adversária também, a gente vai lutar até o final pela classificação. – Cruzei os braços.
- Tem muito time que diz que vir e jogar aqui no Camp Nou é muito difícil, dizem que esse campo parece maior que os outros, que o tempo parece que não passa nunca e que 90 minutos são longos demais, como é para quem vai jogar no Olímpico enfrentar a Roma lá? Se é que você ainda acredita que é possível? – Suspirei, engolindo em seco. Acreditar? A gente precisava acreditar sempre, apesar de lá dentro a chama estar morrendo aos poucos.
- Lógico que eu sempre acredito. Enquanto a gente tiver jogo para jogar, a gente vai jogar buscando nosso objetivo. Lógico que a gente complicou as coisas um pouco para o nosso lado, mas o futebol é jogado como eu falei primeiro. – Ri de nervoso. – É sempre difícil jogar contra nossa equipe no Olímpico, nossa equipe trabalha de uma maneira muito forte junto com a nossa torcida. O Barça está acostumado a jogar decisões, competições, vencendo tudo, então acredito que o que vai ser determinante é a gente concentrar e fazer uma bela partida e buscar até o final a classificação, mesmo que seja uma coisa que pareça impossível, a gente vai buscar. – Virei para o repórter novamente.
- Você acha que vai ser algo mais normal para você jogar aqui no Camp Nou, quem sabe a partir da próxima temporada como rival do Barça direto? – Dei uma risada fraca, sabendo dos rumores da minha ida ao Real Madrid, mas eu não estava pensando nisso agora.
- Eu prefiro pensar agora no meu momento, o que vai acontecer no próximo ano a gente pensa um pouquinho depois, depois do mundial, prefiro estar focado no meu trabalho com respeito a todos os meus companheiros e à Roma.
- Tá certo, Alisson, muito obrigado!
- Obrigado! – Assenti com a cabeça e me retirei da área de entrevistas, desviando de alguns companheiros de time.
Voltei para o vestiário, cumprimentando o técnico rapidamente e me sentei em meu espaço, começando a me arrumar para ir embora. Olhei para o resto da equipe e todos faziam as coisas meio no automático. De Rossi e Manolas eram os piores, eles pareciam bem chateados.
- Vamos nos preparar para voltar! – Eusebio falou e eu terminei de me arrumar alguns minutos depois.
Era pouco mais de oito da noite e ainda tínhamos duas horas de voo de volta para Roma, mas era melhor que voltássemos hoje, ficaríamos com folga amanhã pela manhã e voltaríamos após o almoço para tentar recuperar esse resultado e ver aonde erramos. Aposto que todos gostariam de dar palpites e tentar reverter o resultado, mas amanhã. Ninguém estava no pique para isso. Além de que tínhamos o jogo contra a Fiorentina no sábado antes do jogo de volta na terça-feira.
Segui junto do time e coloquei os fones de ouvido, colocando alguma música que pudesse me distrair um pouco. Juan se sentou ao meu lado no ônibus e no avião, mas ele também estava distraído com seus fones de ouvido, então nem conversamos muito.
Assim que chegamos em Roma, pegamos o ônibus de volta para Trigoria e de lá cada um pegou seu carro para ir para suas casas. Segui até Olgiatta pensando no desastre que tinha sido esse jogo. Quatro gols, eu tinha deixado quatro bolas entrar, isso é muito pior do que eu estava acostumado. Eu não sei o que está acontecendo comigo...
Não, na verdade eu sei exatamente o que estava acontecendo comigo, uma pessoa que eu não via há anos chegou em casa e transformou minha vida de cabeça para baixo. É isso que tinha acontecido, mas eu já deveria ter superado essa parte, já fazia uma semana, eu tinha que me acostumar com a presença dela aqui até que sua situação se resolvesse.
Confesso que eu tinha ansiedade em que sua situação se resolvesse. As chances de eu ir para o mundial em junho eram gigantescas, e eu não conseguiria pensar em deixá-la sozinha aqui em Roma, confesso que gostaria que ela fosse comigo, ou talvez que fosse para sua família, mas que não precisasse ficar presa em Roma por falta de passaporte.
Mas eu já tinha uma carta na manga e estava no aguardo para poder usá-la, eu não podia cuidar dela sozinha. Não que ela precisasse ser cuidada, ela parecia ter gostado do emprego novo, apesar de não ter muita experiência na área, ou nenhuma, mas era uma forma dela se ocupar, e ela amava cantar, parecia um anjo com aquela voz grave e forte. Me lembro de quando era mais novo que pensava do porquê dela nunca querer ter seguido a carreira. Apesar de ainda não ser tarde, essa investigação manchou a vida de , até eu sabia disso, então ela precisava saber que ainda importava, eu precisava mostrar que ela ainda podia começar a viver do zero, mesmo depois desse rolo na vida dela.
Parei na garagem de casa e observei que todas as luzes estavam desligadas e olhei para o relógio, era pouco antes da meia-noite, era para estar no trabalho ainda. Saí do carro até um tanto aliviado por ter alguns minutos sozinho e saí do carro, puxando minha mochila comigo e entrei na sala de estar pela porta da garagem.
Observei a casa da mesma forma que eu deixei, talvez até mais limpa do que no dia anterior e segui direto para o meu quarto. Deixei o uniforme de viagem do time no cesto de roupa suja e entrei embaixo da água quente, tentando fazer com que os pensamentos do jogo saíssem da minha cabeça, os pensamentos sobre e qualquer outra coisa que poderia estar me distraindo nos últimos dias.
Acabei enrolando um pouco no banho e só desliguei o chuveiro quando ouvi um barulho de porta batendo, talvez tivesse chegado. Saí do banheiro, passando a toalha em meu corpo e enrolei-a na cintura para voltar para o quarto. Procurei pelo meu pijama atrás da porta e ele não estava mais lá, franzi a testa, mas balancei a cabeça, seguindo para o armário e pegando outro na gaveta.
Me vesti e passei a toalha nos cabelos, jogando-os úmidos para trás. Abri a porta do quarto novamente, vendo a luz do quarto da frente ligada e era mesmo que tinha chegado. Me aproximei da porta, observando-a se livrar de sua bota virada de costas para a porta e dei dois toques na porta, vendo-a se virar em minha direção.
- Ah, Alisson. – Ela falou tirando o cachecol de volta do seu pescoço e seguiu em minha direção, me abraçando fortemente, me deixando com a maior cara de interrogação no rosto.
- O que foi? – Perguntei, vendo-a afastar o rosto, ainda me apertando pelos ombros e apoiou as mãos nos mesmos, se afastando alguns centímetros.
- O jogo? – Ela falou em tom de pergunta e eu balancei a cabeça, me afastando dela, sentindo suas mãos deslizarem para baixo.
- Por favor, não vamos falar disso. – Falei, entrando em seu quarto e me sentei na beirada da sua cama.
- Desculpa, é que... – Ela balançou a cabeça, se sentando ao meu lado, finalizando de tirar seus sapatos. – Nós vimos lá no bar.
- Eu já passei pela fase de raiva, puto, tristeza, agora estou tentando me manter forte para o próximo jogo. – Ela virou o rosto para mim.
- Você passou por tudo isso em um período de cinco horas? – Ela abriu um sorriso e rimos juntos.
- Você sabe como a vida de goleiro é... Sempre leva a culpa. – Ela negou com a cabeça.
- Eu não vi os comentários após o jogo, mas claramente o ataque estava nas mãos do Barcelona, você fez o que conseguiu fazer, tentou pular em todas as defesas, mas eles estavam melhor posicionados, além de que dois gols foram contra, isso acaba com qualquer um. – Ela apoiou a mão em meu ombro e se deslizou na cama, se aproximando de mim.
- Acho que estou distraído também, estava sempre alguns segundos atrás e defendia a bola para frente ao invés de para trás...
- Eu estou te distraindo, não é? – Ela falou, soltando seus cabelos presos no rabo de cavalo e eu preferi me calar. – Você pode dizer, eu tenho essa consciência. – Ela se levantou, puxando sua gravata para fora. – Vocês levou um gol no jogo do Bologna também, levou mais quatro hoje... – Ela apoiou suas mãos na cômoda atrás de si. – Pode falar, Alisson. – Suspirei, passando as mãos nos cabelos.
- Não é só você. – Falei, erguendo os olhos para ela. – Meu divórcio, a pressão da Champions, a pressão da Seria A...
- Eu aparecendo aqui depois de anos sem te ver. – Ela cruzou os braços e deu aquele sorriso sarcástico, me fazendo rir.
- Talvez! – Assumi e ela deu seu sorriso mais tímido.
- Bem, eu até posso dizer que sairei daqui para você focar mais, mas já passamos por isso e aposto que eu longe não melhoraria muita coisa. Então, eu te indico a voltar a prestar mais atenção e começar a ganhar jogos, ok?! – Ri fraco.
- Claro! Fácil assim! – Dei de ombros e me levantei, vendo-a correr para impedir minha saída pela porta.
- Relaxa, Alisson! – Ela suspirou, fazendo uma careta em seguida. – Bom, sei que é meio difícil com tudo que está acontecendo, mas esse é o seu momento! – Ela falou animada. – Você precisa aproveitar o máximo possível. – Ela deu um pequeno sorriso. – Se até eu estou conseguindo me desligar de tudo que está acontecendo, você também consegue.
- Você está conseguindo se desligar disso? – Perguntei, cruzando os braços.
- Vamos dizer que depois que Martina disse que meu caso provavelmente será descontinuado, eu fiquei bem mais aliviada. – Ela deu de ombros. – Além de que está bem legal lá no trabalho, eu estou fazendo novos amigos, estou conhecendo pessoas que não se importam de onde eu vim ou o que eu fiz ou quanto eu ganho. – Sorri. – E cantar... – Ela suspirou. – Isso me leva para um lugar muito melhor. – Assenti com a cabeça.
- É bom ouvir isso. Vou tentar ir para um lugar muito melhor também. – Ela riu, assentindo com a cabeça e saiu da minha frente.
- Vai treinar amanhã cedo?
- Não, só depois do almoço, vou tentar dormir o máximo que conseguir amanhã, tenho jogo sábado e depois na terça-feira.
- Vai dar certo! – Ela sorriu e eu confirmei. – Eu vou tomar um banho antes de deitar, parece que eu fico colando quando saio do bar por causa da cerveja. – Rimos juntos.
- Vai sim, nos falamos pela manhã. – Passei pelo batente do se quarto e saí do mesmo. – Ah, deixa eu perguntar, onde está meu pijama?
- Ah, eu lavei! – Ela falou, passando as mãos nos cabelos. – Aproveitei que você não estava aqui e dei uma limpada na casa, lavei e passei as roupas... – Ela balançou a cabeça.
- Você não precisava. – Falei, dando um pequeno sorriso.
- Eu tinha a vida um pouco mais agitada, com muito mais compromissos, então estou encontrando motivos para me ocupar. – Ela deu de ombros.
- É, acho que até eu estou precisando me ocupar mais um pouco. – Ela riu.
- Se ocupe por enquanto indo dormir, você deve estar cansado. – Ela sorriu.
- Você também, não demora! – Falei, seguindo para o quarto da frente.
- Pode deixar! Boa noite! – Ela sorriu e eu retribuí.
- Boa noite! – Falei antes de fechar a porta.

ELES


e seus pais chegaram à igreja onde seria o casamento e foram em direção à entrada. A garota se colocou na ponta dos pés para procurar melhor e encontrou Alisson e os outros padrinhos na lateral esperando para entrar. O garoto tinha ajuda de sua mãe para ajeitar as abotoaduras do paletó e sentiu sua mãe ajeitar a alça de seu vestido rosa claro, que combinava com os vestidos das outras madrinhas.
- Está linda, querida! – Sua mãe falou e a menina sorriu.
- Obrigada!
- Vamos entrar, nos vemos lá dentro, ok? – Seu pai falou e a garota assentiu com a cabeça, acenando para eles.
- Boa sorte! – Sua mãe falou e a garota sorriu, passando uma mão na outra, nervosa.
se virou para a lateral da igreja e subiu alguns degraus para seguir em direção ao seu namorado e percebeu a presença do noivo ali, seu rosto estava vermelho e suado, ele deveria estar muito nervoso. Alisson percebeu a presença da garota e até deu uma desviada de sua mãe para observar melhor a linda menina que vinha em sua direção.
- Uau! – Ele falou e a garota sentiu seu rosto esquentar com a reação dele. Ela também não estava acostumada em ver Alisson tão charmoso daquele jeito dentro de um terno.
- O que você acha? – A garota perguntou e dona Magali até sorriu quando ambos se abraçaram e trocaram um selinho rápido.
- Você está linda demais! – Ele sorriu, apertando-a pela cintura.
- Você também! – Ela falou, apoiando as mãos nos ombros do garoto. – Como está seu irmão? – A garota desviou o rosto, vendo Muriel sendo amparado por seu pai.
- Ele vai surtar ou já está surtando. – Alisson falou baixo e a garota ponderou com a cabeça.
- Eu vou falar com ele. – disse um tanto indecisa e Alisson afirmou com a cabeça.
- Oi, gente! – se aproximou de Magali, José e Muriel, tentando dar seu melhor sorriso.
- Ah, querida, você está ótima! – Magali deu um rápido beijo na bochecha da menina e ela sorriu.
- Obrigada! – sorriu, esticando a mão para seu José, sentindo-o dar um rápido beijo na mesma. – Como você está, noivo? – Ela se virou para Muriel.
- Ah, eu... – Ela ouviu o noivo falar e riu do nervosismo do mesmo e passou os braços pela cintura do garoto, tentando passar um pouco de confiança para ele.
- Pensa que é a Elis! – Ela cochichou para Muriel. – Vocês namoram desde os 15 anos, já faz 10 anos! – Ele sorriu. – Você está pronto para isso. – Ela se afastou, segurando as mãos do cunhado. – Vai ser fácil! – Ele suspirou, assentindo com a cabeça e ergueu o rosto, passando a mão em uma lágrima que deslizava pelo rosto de Muri.
- Obrigado! – Ele sorriu e ela assentiu com a cabeça sorrindo.
- Pronto? – Ela falou animada e ele soltou o ar fortemente pela boca, assentindo com a cabeça.
- Então, vamos lá! – Dona Magali se aproximou deles e a garota sorriu para Muriel novamente, acenando com a mão e foi em direção a Alisson.
- Pronta? – Alisson lhe perguntou estendendo o braço e ela respirou fundo, passando as mãos nos cabelos presos para trás com uma fivela e afirmou com a cabeça.
- Vamos lá! – Ela estendeu o braço a ele, pegando o pequeno buquê de rosas da mesma cor do vestido e outras pequenas flores do campo branca que uma das organizadoras lhe entregou e ela se colocou ao lado de Alisson no primeiro lugar da fila.
- Podem ir! – A organizadora falou para ambos e apoiou sua mão melhor no braço que Alisson lhe mantinha estendido e ambos entraram na pequena igreja Evangélica de Nova Hamburgo.
O casamento era mais humilde, na verdade Muriel e Elisângela nem tinham planos em fazê-lo por agora, o moço estava focado na vida de goleiro e Elis na faculdade e nos dois filhos, mas essa ideia tinha vindo de Daniel Pavan, preparador de goleiros do Internacional. Ele alegou que Muriel precisava morar mais perto do Internacional e não ficar sofrendo para pegar trem e ônibus todos os dias, além de perder muito tempo com a viagem, ele perdia muito tempo em não estar com a sua família. Sem falar do cansaço, Muriel sempre chegava morto!
Então, eles acabaram dando o braço a torcer, então juntando suas economias nos últimos três anos, compraram um apartamento perto do CT do Internacional e ainda sobrou uma graninha para fazer uma cerimônia e uma pequena festa para seus familiares. O mais engraçado foi que até e Alisson entraram na onda, dona Magali fazia trufas maravilhosas e eles levavam na escola para vender. No começo os dois alunos do Ensino Médio vendiam na surdina, escondido dentro da mochila de Alisson, mas depois de um tempo até a escola entendeu o motivo e liberou, aí que a garota gritava a plenos pulmões em cima da carteira da sala, o que fazia com que a bolsa térmica esvaziasse antes do fim do intervalo.
E hoje era o resultado desse momento, com e Alisson como padrinhos principais do casal, além de outros três casais de padrinhos atrás de si, com Daniel e sua esposa como um dos casais, obviamente! e Alisson acenaram para seus pais em um dos primeiros bancos que sorriram emocionados ao ver ambos lado a lado, quase como se o casamento fosse deles. Eles chegaram no pequeno altar, se colocaram lado a lado e esperaram a entrada dos outros casais.
Após isso, seu José entrou com o pequeno Franthiesco segurando uma pequena cestinha onde estavam as alianças. Depois a música no teclado mudou, mostrando dona Magali entrando com Muriel ao seu lado, fazendo com que e Alisson dessem largos sorrisos em direção ao cunhado e irmão, respectivamente. A música mudou novamente, mas não era a marcha nupcial, Elis não queria que ela fosse tocada, do contrário, ela escolheu uma música gospel para a sua entrada. era da religião católica, então não conhecia, já Alisson a acompanhava baixinho. Duda entrou sozinha na frente da mãe, jogando pequenas pétalas de flores no tapete estendido no meio da igreja e sua mãe veio logo atrás.
sentiu uma lágrima deslizar pela sua bochecha, e deixou-a rolar, abrindo um largo sorriso quando Muriel desceu o pequeno degrau e cumprimentou o pai de Elis e deu um pequeno beijo na testa de sua noiva. Eles se posicionaram na frente do pastor e a mulher entregou o buquê para que o segurou junto do seu.
- Boa noite, queridos amigos e familiares! – O pastor começou. – Estamos aqui reunidos para celebrar o amor e união de Muriel Gustavo Becker e Elisângela Dimas Correia. – Ele estendeu a mão acima do casal. - Senhor Jesus, peço que abençoe o coração desse casal e abençoe suas vidas para que haja amor, respeito, harmonia, satisfação e felicidade. Que eles possam ser melhor a cada dia, e que possam se ajudar nas suas fraquezas para não caírem na tentação e livrai-os do mal. Derrame Sua graça sobre essa família, essa casa e ponha Teus olhos em seu favor, para que o projeto de vida deles se realize, para que sejam sempre fiéis a Ti. Pedimos que o Senhor participe da união e more em vossa casa. Conserve-os no amor puro e verdadeiro e que todas as bênçãos referentes ao matrimônio, estejam sobre eles. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
- Amém! – Todos falaram em coro.
- A história desses dois não é muito diferente da de outros casais que passaram por aqui. Eles já estão juntos há muitos anos e frequentam aqui há muito mais tempo. – O pastor começou a falar um pouco sobre a vida do casal. – Eles se uniram, aceitaram um ao outro e têm vivido como uma família há mais de cinco anos, tendo já dois filhos, a Maria Eduarda e o Franthiesco. – O casal sorriu. – Então, essa união, na presença do senhor, nada mais é do que uma confirmação desse amor, comprometimento e felicidade na vida de ambos. – O pastor sorriu para cada um deles. – Para que eles possam se unir mais em Vossa presença e poder trabalhar melhor como um casal unido em amor e felicidades com seus filhos. – e Alisson sorriram cúmplices, entrelaçando seus dedos.
O pastor seguiu falando outras palavras de amor e união, contando um pouco mais para os convidados presentes sobre a vida de Muriel e Elisângela, falando um pouco sobre o futebol, sobre a vida de ambos e as decisões que eles tomaram para chegar ali! e Alisson já conheciam essa história, então eles se distraíram um pouco, trocando olhares cúmplices e cochichos ao pé do outro, deixando o sorriso de ambos cada vez mais largos.
- Vamos a benção das alianças. – O pastor falou e seu José se aproximou com Franthiesco que entregou as alianças para os pais, fazendo com que cada um desse um beijo na bochecha do menino que já estava sonolento no colo do avô. - Muriel, você promete, diante de Deus e destas testemunhas, receber Elisângela como sua legítima esposa, para viver com ela, conforme as leis de Deus sobre o casamento?
- Sim! – Ele sorriu para Elis.
- Promete amá-la, honrá-la, cuidar dela na enfermidade ou na saúde, na riqueza ou na pobreza, e manter-se fiel a ela enquanto vocês viverem?
- Sim! – Muriel continuou, fazendo sorrir.
- Agora repita comigo... – O pastor começou a cochichar baixo para Muriel que o repetiu para Elis.
- Ao colocar essa aliança em seu dedo, uso-a como símbolo de nossa união e me caso com você. Nossos corações tornam-se unidos, assim como nossa vida. Você agora é participante de todos os meus bens e parte da minha caminhada. – Ele falou, deslizando a fina aliança de ouro no dedo de Elisângela.
- Senhor, proteja essas alianças e receba esse casal em Seu grande amor! – O pastor falou dando sua benção e se virou para Elisângela. – Agora você. – Ele disse. - Elisângela, você promete, diante de Deus e destas testemunhas, receber Muriel como seu legítimo esposo, para viver com ele, conforme as leis de Deus sobre o casamento?
- Sim! – Ela disse com a voz embargada.
- Promete amá-lo, honrá-lo, cuidar dele na enfermidade ou na saúde, na riqueza ou na pobreza, e manter-se fiel a ele enquanto vocês viverem?
- Sim! – Ela falou sorrindo.
- Agora repita... – Ele disse.
- Ao colocar essa aliança em seu dedo, uso-a como símbolo de nossa união e me caso com você. Nossos corações tornam-se unidos, assim como nossa vida. Você agora é participante de todos os meus bens e parte da minha caminhada. – Ela disse as mesmas palavras de Muriel, tendo dificuldades pela voz dela estar embargada, fazendo com que Muriel e os padrinhos sorrissem do nervosismo dela, enquanto ela deslizava a aliança no dedo dele.
- Senhor, proteja essas alianças e receba esse casal em Seu grande amor! – O pastor falou novamente e o casal segurou as mãos, olhando um para o outro. – Agora, eu os declaro marido e mulher conforme as leis divinas. – Ele disse sorrindo e os presentes começaram a aplaudir e soltar gritos animados. – Você pode beijar a noiva! – O pastor disse a Muriel que sorriu.
Muriel eliminou a distância dele e de Elis e a segurou pela cintura como tinha o costume de fazer e deu um longo beijo em sua agora esposa. Os presentes começaram a aplaudir mais forte pelo casal e precisou equilibrar os dois buquês nas dobras do braço, soltando gritos animados, fazendo Alisson rir mais dela se atrapalhando com os buquês do que da felicidade do seu irmão.
- Para finalizar, gostaria de pedir para que estendam suas mãos sobre o o casal. – Alisson segurou com um buquê para que ela pudesse fazer o gesto e a menina mordeu o lábio inferior, tentando segurar a risada. – Peçam para que o senhor envie Suas orações e bênçãos para esse casal, que dê força para esse casal nessa recém-união, que Deus sempre esteja presente em suas vidas e que o amor seja sólido, forte e verdadeiro, fundamentado nas graças do Senhor. – Ele disse, fazendo com que todos o acompanhassem de olhos baixos.
O pastor deu a cerimônia como finalizada e os noivos começaram a receber os abraços e cumprimentos dos padrinhos e pais de ambos os lados. Alisson e abraçaram os noivos animadamente, demostrando largos sorrisos no rosto e lágrimas nos olhos e logo os liberaram para que fossem esmagados pelos próximos convidados.
Após o cortejo final, teria uma pequena celebração no salão da própria igreja, somente uma pequena janta para os convidados com uma banda de amigos e bolos e doces. e Alisson logo se acomodaram em uma mesa junto dos pais de e observavam o casal andar de mesa em mesa para cumprimentar o pessoal que não tinha cumprimentado dentro da igreja.
não conseguia tirar os olhos do novo casal, ela estava feliz demais pelos dois e mais feliz ainda por ter conseguido fazer parte desse casal mesmo que somente por alguns meses antes do casamento, mas o que mais a deixava feliz era que ela pôde ser madrinha do casamento junto de Alisson que também tinha um largo sorriso, sabia o quanto seu irmão se opôs a isso, mas quando foi uma solução para ele crescer como goleiro, ele deu o braço a torcer.
Após o jantar ter sido servido e já ter cansado de parecer a cunhada bonita, feliz e contente e seus saltos terem ficado embaixo da mesa, o tipo de música que agradava os Becker começou a tocar, um sertanejo bem forte de raiz, o que fez com que Alisson, já sem paletó, se animasse rapidamente e até largasse parte do seu jantar no prato para estender a mão para sua namorada.
- Ah, não! – falou, segurando suas mãos nas laterais da cadeira, mas Alisson a puxou com muita facilidade, fazendo-a soltar um pequeno grito, fazendo Sandra e Gilberto rirem e o garoto a levou para a pista de dança, onde outros casais já dançavam. – Eu não sei dançar, Alisson!
- Eu sei! – Ele disse rindo e apoiou a mão na cintura de sua namorada e estendeu a outra.
- Não faça isso! – Ela disse rindo, sentindo-o tentar movimentar o corpo duro e totalmente sem remelexo da menina.
- Vai, você nunca dança comigo! – Ele reclamou e ela riu.
- É porque eu sou muito ruim! – Ela disse gargalhando, chamando a atenção de Muriel e Elis que dançavam do lado. – Se você quer dançar, vamos ter que entrar em um acordo! – Ela disse travando o corpo.
- Qual sua sugestão? – Ele perguntou cruzando os braços.
- Só me abrace! – Ela disse e ele abriu um largo sorriso, passando os braços na cintura da garota, enquanto ela passou os seus pelo seu pescoço. – Agora você pode me mexer devagar! Bem devagar! – Ela disse em seu ouvido, fazendo-o rir fraco em seu ouvido.
Alisson achava engraçado o jeito mandão da menina, mas a obedeceu. Ele sabia que ela era mais travada do que uma vara para dançar e não insistiu em rodá-la pelo salão, então somente manteve seu corpo abraçado ao dela, com a cabeça da mesma apoiada em seu ombro e desviavam dos casais mais animados das músicas sertanejas que Alisson e sua família adorava.
já estava distraída com o novo casal de marido e mulher dançando no meio do salão enquanto brincava com seus dois filhos que não se cansavam em atrapalhar o casal que só queria namorar um pouco. tinha um largo sorriso para eles, como era filha única e se mudava com frequência por causa do trabalho de sua mãe, tornando cada vez mais difícil com que ela ficasse próxima de seus pais, seu sonho se tornou ter uma família grande e louca. Depois de começar a namorar Alisson e ver isso de perto com Muriel, Elis e seus pais, se tornou seu sonho principal.
- 10 mil reais pelos seus pensamentos. – Ela ouviu Alisson sussurrar em seu ouvido e a mesma ergueu o rosto para encarar os olhos verdes de seu namorado.
- Eu os troco por um beijo! – Ela disse e o garoto sorriu, subindo sua mão direita para a nuca da menina e colou seus lábios nos dela apaixonadamente, fazendo-a abrir um largo sorriso ao se separar e apoiar sua mão em cima da dele.
- Conte-me! – Ele disse e ela suspirou.
- No futuro, eu quero ter tudo isso. – Ela disse mordendo o lábio inferior em seguida. – Um casamento, uma família grande, toda essa loucura que é a sua família. – Ela suspirou, fazendo Alisson abrir um largo sorriso.
- Pedindo para casar comigo, ? – Ele perguntou brincando e a menina gargalhou, apertando mais seus braços nos ombros do rapaz.
- Talvez! – Ela sorriu. – Mas quando formos mais velhos e do jeito certo. – Ele riu. – Casamento antes dos filhos.
- Acho que podemos fazer isso. – Ele disse. – Eu te amo demais, te dou até a lua se você quiser. – Ela negou com a cabeça.
- Não quero a lua, só quero teu amor para sempre. – Ele assentiu com a cabeça, tirando os fios que soltavam do penteado do rosto da menina.
- Tudo o que você quiser. – Ele abriu um largo sorriso e a menina colou os lábios de ambos por mais alguns segundos. – Mas me diga mais sobre esse sonho. Casamento, filhos? O que mais? – Ela suspirou, pensando por alguns segundos.
- Casamento no civil porque nenhum de nós precisamos largar nossas religiões para ficarmos juntos. – Alisson confirmou com a cabeça. – Talvez com uma bênção de um padre e de um pastor somente.
- Concordo! – Ele disse sorrindo.
- Vamos morar fora do país, porque você vai ser um jogador rico e famoso quando nos casarmos, então talvez estaremos morando em países legais como Itália, Espanha, Inglaterra ou Alemanha... – Ele gargalhou, apertando-a mais forte. – Eu talvez faça relações internacionais, então provavelmente vou ser embaixadora em algum desses países e conseguirei te acompanhar na sua carreira. – Ele riu alto, sentindo lágrimas se formarem em seu rosto.
- Estou gostando, o que mais? – Ele perguntou ficando levemente emocionado, apertando mais suas mãos na cintura dela.
- Nós provavelmente teremos filhos depois dos 30 anos, nossas vidas serão muito corridas e quando estivermos juntos só pensaremos em matar as saudades e não falar de futebol. – Ele sorriu e a menina estendeu o indicador para cima. – Mas antes dos 35, eu quero ter, pelo menos, dois filhos.
- Dois? – Ele sorriu.
- Um menino e uma menina! – Ela sorriu largamente. – Ele vai ter algum nome extraordinário que pode ser tanto para homem ou para mulher quanto o seu e o de Muriel... – Alisson gargalhou alto, fazendo a menina deixar escapar algumas lágrimas de emoção. – Algo como Ariel, Dominique, Max, Taylor ou Ramsés para usar seu nome do meio... – Eles riram juntos, trocando um beijo no meio da frase. – E a menina vai se chamar Helena. – Ela sorriu.
- Helena? – Ele perguntou surpreso. – Por quê?
- Eu não sei. – Ela suspirou. – Eu sempre gostei desse nome e minha mãe fala que estava na minha lista de nomes quando descobriram que eu era uma menina. – Ele sorriu, assentindo com a cabeça.
- Ok, Helena e Ariel, Dominique, Max e sei lá mais quem! – Eles riram juntos.
- Mas mais tarde. – Ela suspirou. – Quero aproveitar todas as etapas contigo, como aquele livro que eu estava lendo. – Ela disse.
- “Um Passo de Cada Vez”? – Ele perguntou e ela assentiu com a cabeça.
- É! – Ela sorriu.
- Ok, eu prometo te dar tudo isso e muito mais. – Ele suspirou, colando as testas de ambos.
Eles fecharam os olhos por alguns minutos, somente sentindo a presença um do outro enquanto Alisson movimentava o corpo deles lentamente, totalmente fora do ritmo sertanejo da música. Eles se afastaram quando a música foi parada abruptamente e olharam em direção aonde a banda estava e viram que Elis estava lá com o microfone na mão.
- Eu vou jogar o buquê! – Ela revelou e várias mulheres começaram a correr para o centro do salão.
- Talvez eu consiga pelo menos garantir nosso casamento! – brincou, dando um rápido beijo em Alisson que riu, vendo-a seguir para o meio de mulheres, amigas do casal.
Elisângela era alta, então fez uma conta bem louca de que ela mandaria para trás, o que poderia dar totalmente errado se ela errasse a mira e caísse baixo, mas a garota foi lá para trás, abrindo espaço entre as pessoas para que pudesse se mexer. Ela adorava casamentos, mas nunca tinha realmente participado de um, então agora estava toda empolgada em só pegar o buquê, principalmente depois das juras de amor que ela e Alisson fizeram.
- Um, dois e... – Elis gritou e jogou o buquê pelos ares.
O buquê foi mais alto do que esperava, ela foi acompanhando o buquê com o olhar, olhando para cima e dando passos para trás, feliz por ter tirado seu sapato de salto. Ela estendeu a mão e quando fechou o punho em cima do mesmo, sentiu sem corpo tombar para trás, caindo de bunda no chão.
- Ah! – Ela reclamou, segurando o buquê firme nas mãos e o pessoal começou a rir e aplaudir ela que estava mais vermelha que um pimentão no chão do salão.
- Ah, meu Deus! – Alisson correu para ajudar sua namorada que não parava de gargalhar enquanto o mesmo esticou sua mão.
- Eu estou bem! – Ela disse um tanto alto e abraçou Alisson, escondendo o rosto no ombro dele. – Me tira daqui! – Ela cochichou para ele que não parava de rir.
- Você foi demais! – Ele disse puxando-a para a mesa em que estavam sentados e Elis estava lá com Muriel entre sorrisos e risadas.
- Isso foi demais! – A noiva disse abraçando que não conseguia parar de rir.
- Que mico! – disse apoiando o buquê na mesa.
- Agora vai ter que casar! – Muriel disse apertando os ombros do irmão que ainda ria de sua namorada.
- Eu caso! – Alisson falou olhando para que sorriu. – No futuro! – Ela piscou para ele, deixando dúvidas na mesa dos outros três casais em volta deles, mas que preferiram não interromper o momento de ambos.
e Alisson se sentaram novamente, se abraçando lado a lado e ambos, despercebidamente, olharam para o buquê da noiva que agora tomava o centro da mesa em que estavam e esperaram esperançosos pelo futuro magnífico que os aguardava.

ELA


Olhei para o relógio e franzi a testa, já passava das duas da tarde e Alisson ainda não tinha chegado. Não que eu quisesse dar uma de mãe preocupada ou possível namorada, é só que agora as coisas tinham finalmente parado de ficar estranhas depois daquela surpresa, preocupação e afins, e a gente já conversava como dois amigos, jogávamos videogames, conversávamos enquanto ele fazia o jantar, fazia com que eu me sentisse menos sozinha e entediada. Acho que nesses poucos dias eu já tinha lido todos os livros e revistas que Alisson tinha em casa e ele tinha muitos livros evangélicos.
Fechei mais um livro ouvindo o barulho ecoar pela sala forte demais e o coloquei na mesa de centro. Joguei os pés para baixo do sofá e segui para a cozinha, vendo se ainda tinha um pouco da barra de chocolate que eu peguei no trabalho na sexta-feira e fiquei feliz por ter encontrado um último pedaço dentro da geladeira. Terminei o mesmo em quatro mordidas e aproveitei para pegar um copo de água antes de voltar para a sala.
Bati a ponta dos dedos levemente no rack agora sem porta-retratos e pensei no que fazer em seguida. Dormir era sempre uma boa ideia, mas era segunda-feira e eu não trabalhava à noite, poderia atrapalhar bastante meu sono, além de que no bilhete de Alisson ele disse que chegava depois do almoço, já passavam das duas da tarde e ainda nada. A tentação de ligar para ele era grande, mas ainda não tínhamos chegado nessa fase.
Segui para o corredor e parei na entrada do mesmo, observando o único quarto fechado da casa, o quarto que eu ainda não tinha tido coragem de entrar desde que viera morar aqui. Respirei fundo e me aproximei do mesmo, passando a mão na parede ao lado da porta e liguei a luz, observando a decoração em branco e detalhes em rosa pink, amarelo e azul-turquesa, me fazendo suspirar.
Do lado esquerdo do quarto tinha uma cômoda e uma cama de solteiro, em frente um berço e o trocador e ao lado direito uma estante. Sempre fiquei tentada em ver o que tinha na estante, mas a imagem de ver mais fotos de Alisson, sua ex-esposa e sua filha me deixava cada vez mais triste de tudo o que a gente sonhou e deixou de fazer no passado. Suspirei mais uma vez e dei um passo para dentro do quarto.
- , cheguei! – Me assustei, saindo correndo do quarto e batendo a mão no disjuntor novamente.
- Ei, você demorou! – Apoiei o corpo na entrada do corredor e o observei largando as chaves e tirando o cachecol e as luvas.
- Eu tenho uma surpresa para você... – Ele se posicionou mais para o meio da sala e eu franzi a testa.
- Para mim? – Cruzei os braços. – Porque você teria uma surpresa para... – Arregalei os olhos quando vi Muriel passar pela entrada da garagem e abrir um largo sorriso.
- Olha o que a maré trouxe de volta! – Ele falou um tanto alto e eu soltei um grito alto demais, correndo em sua direção, desviando dos móveis da sala.
- Muri! – Falei animada e o abracei fortemente, passando os braços pelos seus ombros e sentindo-o me girar rapidamente pela sala.
- Eu vou cair, eu vou cair! – Ele falou deslizando no tapete e eu ri, colocando os pés no chão.
- Ah, meu Deus! Você está aqui! – Falei animada, segurando seu rosto com as mãos e estalando um beijo em sua bochecha. – O que você está fazendo aqui? – Falei meio alto, mas a voz de Alisson se sobressaiu sobre a minha.
- Não só ele! – Alisson falou e vi que tinha juntado uma pequena fila atrás dele.
- Ah, como essa garota tá um arraso! – Vi Elis e coloquei ambas as mãos na boca por ver que ela também estava um arraso, ela estava mais magra do que eu lembrava dela e os cabelos mais escuros.
- Ah, Elis! Você está maravilhosa! – A apertei fortemente contra meu corpo, fechando os olhos por alguns segundos, suspirando.
- Eu? Olha para você, garota! O que aconteceu contigo? – Ela me segurou pelos ombros e me girou, fazendo com que eu risse e fizesse o que suas mãos mandaram.
- Provavelmente a mesma coisa que aconteceu contigo: dinheiro e maturidade! – Gargalhamos juntas e ela estalou um beijo em minha bochecha.
- Provavelmente! – Ela brincou rindo.
- Ei, está se esquecendo da gente? – Virei para o lado novamente, observando uma menina alta, por volta dos seus 10, 12 anos com os cabelos pretos e escuros iguais de seu pai.
- Duda? – Falei um tanto alto demais e arregalei os lábios, fazendo-a assentir com a cabeça rindo. – Ah, meu Deus, como você está linda! – Abracei-a fortemente, ficando um pouco inclinada para frente por ela ser mais baixa que eu e suspirei. – Você se lembra de mim, não é?! – Virei para ela que tinha pequenas lágrimas nos olhos e assentia com a cabeça. Senti que eu também tinha, fazendo que desse um sorriso engraçado.
- Claro que eu lembro, tia ! Faz tempo, mas eu lembro! – Passei a mão em seus cabelos longos, vendo os dentes tortinhos ainda e ela sorriu.
- E cadê o Franthiesco? – Desviei o olhar, vendo que o menino alguns anos mais novo que Duda estava um tanto avermelhado.
- Eu não me lembro de você, mas eu sei que você foi muito importante para gente. – Ele falou com a voz baixa e eu sorri.
- Você só tinha três anos quando eu fui embora! – Passei a mão no cabelo de tigelinha dele e ele tinha um canino faltando em seu sorriso. – Não me surpreende não se lembrar de mim. – Ele sorriu, mas, mesmo assim, me abraçou rapidamente, um tanto envergonhado e eu ri, abanando a cabeça.
- Eu fiquei surpreso quando soube que estava aqui, mas é tão bom te ver, minha querida! – Seu José veio em seguida, com os mesmos cabelos brancos e falhados, aquele sorriso torto e o nariz de batata no meio do rosto. – E você se tornou uma linda mulher! – Abri um sorriso, apertando-o fortemente.
- Ah, como eu estava com saudades de vocês! – Agora as lágrimas já não ficaram mais presas aos meus olhos, elas escorriam pelas bochechas, nariz e lábios, pingando em meu queixo e molhando o casaco das pessoas que eu abraçava.
- Nós também, minha querida! – Ele acariciou meu rosto, ficando visivelmente na ponta dos pés e eu abaixei a cabeça, sentindo-o estalar um beijo na minha testa. – É muito bom te ver, você não tem ideia!
- Acredite, eu tenho!
- E eu? – Abri um sorriso quando Magali abriu os braços ao lado de seu José e aí que as lágrimas começaram a escorrer de meus olhos, me fazendo passar os braços pela sua cintura, escondendo o rosto em seu ombro. Ela me lembrava minha mãe. – Ah, minha querida! – Ela passou a mão em meus cabelos, me fazendo suspirar em seu ombro, piscando os olhos diversas vezes para ver se as lágrimas dissipavam.
- Eu senti tantas saudades! – Falei baixo e ergui o rosto, passando as mãos nos olhos.
- Está tudo bem! – Ela disse colocando meus cabelos para trás da orelha. – Estamos aqui novamente! – Ela segurou meu rosto com as mãos e deu dois beijos em minhas bochechas, me fazendo suspirar. – Você está linda! – Assenti com a cabeça, suspirando.
- O que vocês estão fazendo aqui? – Perguntei, passando a mão nos olhos e virei de frente para a pequena roda que se formou e dei um passo para trás, notando uma criaturinha loira no colo de Alisson. – Oh! – Acabei deixando escapar.
Engoli em seco ao notar a presença da filha de Alisson ali na sala, provavelmente ela deveria ter passado de mão em mão enquanto eu abraçava os recém-chegados e nem tinha percebido sua presença ali. Todos notaram minha reação e vi que alguns até tentaram disfarçar, mas o silêncio se instalou e eu só conseguia olhar para o pacotinho loiro de moletom nos braços de Alisson.
- , essa é... – Ele engoliu em seco antes de falar. – Helena! – Mordi meu lábio inferior fortemente tentando conter alguma reação que fizesse o clima esfriar de novo. – Minha filha. – Ele finalizou e eu suspirei um tanto longo demais e todas as lembranças de 2010 e nossos planos de casamento e filhos vieram como uma bomba e acabei falando a maior idiotice do mundo.
- Oi. – Falei para ela, dando um aceno rápido, escondendo a mão novamente por dentro dos braços cruzados.
- Oi! – Ela respondeu acenando as mãos rapidamente, me assustando e eu olhei arregalada para o pessoal à minha volta que tentava esconder a risada ou a cara de espanto por baixo das mãos.
- Hum... – Cocei o pescoço, jogando o cabelo para trás e ponderei com a cabeça. – Então, que surpresa! – Abri um sorriso um pouco travado. – O que vieram fazer aqui? Já estava programado e eu não fiquei sabendo?
- Então... – Alisson tentou começar e olhei para Muriel e Elis que também mexiam as mãos como se pensavam no que falar.
- Alisson nos ligou depois que te encontrou. – Dona Magali falou e eu arregalei os olhos.
- Oh! Então isso é uma intervenção? – Perguntei, franzindo a testa e dando alguns passos para trás.
- Por favor, , não veja isso como algo ruim. – José falou.
- Estamos preocupados! – Muri assumiu e eu respirei fundo. – O que está acontecendo contigo é sério!
- E você acha que eu não sei? – Entrei no modo defensiva e engoli em seco, cruzando os braços em cima do corpo. – Desculpe, eu só... – Engoli em seco. - Eu já estou com problemas demais, não queria envolver mais ninguém nisso até tudo se resolver. – Falei olhando fixamente para Alisson que desviava o olhar para todos os lados.
- Nós viemos ajudar! – Elis falou e eu suspirei.
- Não sei se tem algo que vocês podem me ajudar, mas obrigada. – Me afastei um pouco. – Eu tenho que ir.
- Para onde? - Alisson falou rapidamente e segui até a mesa, puxando minha bolsa.
- Trabalhar! – Falei abanando as mãos.
- Mas hoje é segunda! – Alisson falou sabendo do meu horário.
- Então, eu tenho que ir no mercado... Ou no bar! – Dei de ombros fazendo uma careta para ele quando passei por ele.
- Mas, ...
- A gente se vê depois! – Acenei para o pessoal da sala, seguindo para a porta da garagem. – E você continua bocudo! – Apontei para Alisson do outro lado da sala. – Depois conversamos! – Engoli em seco e passei da porta que estava aberta e a bati.
Corri para o meu carro que agora ficava dentro da garagem e entrei rapidamente no mesmo, travando a porta caso Alisson viesse atrás de mim e abri o portão, saindo de ré e fechei o portão, sentindo o sol de Roma bater contra o para-brisa, me cegando um pouco. Dirigi rapidamente para fora do condomínio fechado e parei o carro novamente quando me vi para fora dos portais.
- Porra! – Gritei batendo a mão no volante, soando a buzina sem querer e me assustei com o barulho, respirando fundo.
Alisson não tinha mudado exatamente nada desde 2010, pelo menos não nesse fato. Ele contava tudo para sua família! Tudo! E quando eu digo “tudo”, é tudo mesmo! Não importando o assunto ou sobre o que fosse. Ok que eu já sabia que ele tinha contado para sua família, só não estava preparado em ter toda família Becker aqui em Roma tentando ajudar no meu caso.
Não que eu fosse metida e achava que fosse resolver tudo sozinha, eu sabia que não, do contrário eu não teria vindo pedir asilo para o Alisson por estar sem teto e sem dinheiro, mas porque eles não poderiam ajudar em nada, além de que se realmente existe um Deus lá em cima, meu caso vai realmente ser descontinuado e eu só vou precisar responder aos advogados de defesa e à Interpol ou a Polícia di Stato, que é que estava me acusando desse crime.
Respirei fundo e soltei o ar devagar, tentando entender o lado dele. Da mesma forma que foi difícil para eu vir até aqui pedir ajuda, deve ter sido difícil para ele me receber aqui. Não nos víamos há mais de sete anos, não terminamos em bons termos, ele acabou de se separar de sua esposa... É, sua cabeça deveria estar espiralando mais que a minha.
Mas acho que o que mais me assustou foi a presença de sua filha ali. Não que eu não soubesse da sua existência, sabia e muito bem, eu fiz uma pesquisa sobre ele e, pelo que eu percebi, sua ex e sua filha são meio que blogueiras até que famosinhas na internet, algo assim. Mas ela aqui fazia com que muitas lembranças voltassem para minha cabeça e um tanto de decepção em relação a Alisson, ele não podia ter feito isso, mesmo se nunca nos encontrássemos de novo. Ele não podia ter feito isso.
Respirei fundo pensando no que faria em seguida. Eu não poderia voltar assim tão rápido, provavelmente eles estavam falando de mim e tudo mais, e eu não queria me meter, não estava pronta para encarar tudo aquilo. A mãe de Alisson era muito amiga da minha mãe, então eu me lembrava muito dela e sabia que ela estaria preocupadíssima comigo por tudo isso. Provavelmente brigando comigo por não ter ido atrás dela de imediato, mas preocupada com minha vinda até Alisson novamente. Não sei, eu realmente não poderia imaginar, já fazia tantos anos, as vezes parecia que ela nunca fez parte da minha vida.
Olhei para o relógio rapidamente e estava cedo ainda, talvez eu pudesse realmente ir ao supermercado, comprar alguma coisa para fazer de janta para o batalhão que chegou ali e tentar fazer com que eu ficasse menos na defensiva e me abrisse um pouco. Pelo amor de Deus, era a família de Alisson, eles foram minha segunda família por muito tempo, talvez eu devesse isso a eles.
Liguei o carro novamente e respirei fundo antes de pisar no acelerador novamente, seguindo para o único mercado que eu conhecia em Olgiata. O bom de trabalhar no bar era que eu podia comprar essas coisas sem precisar pedir dinheiro para Alisson, mas ele comprava quase tudo que eu precisasse ainda, principalmente comida, até tentei pagar ele quando passou essa primeira semana, mas não deu muito certo. Entrei no estacionamento do Ipercoop e respirei fundo antes de sair do carro e puxar minha bolsa comigo.

ELE


- Acho que não deu muito certo! – Muri foi o primeiro a falar quando a porta bateu e eu respirei fundo.
- Você acha? – Entreguei Helena para Elis e segui pela porta, sentindo alguém segurar meu ombro.
- Deixa ela ir! – Meu pai falou e eu franzi a testa.
- Ele está certo! – Minha mãe falou. – Ela se sentiu encurralada. – Passei a mão nos cabelos.
- Eu não fiz por mal. – Falei.
- Sabemos. De você ter nos contado e sobre o nome de Helena também, mas mesmo assim. – Minha mãe suspirou. – Se ela não quer falar agora, não devemos pressioná-la. – Minha mãe acariciou meu rosto. – Ela vai voltar quando se sentir segura.
- Espero! – Engoli em seco. – Agora que as coisas estavam começando a ficar normais.
- “Normais” como? – Muri perguntou e eu ri fraco.
- Não de um jeito romântico, mas de um jeito que fique viável a convivência aqui nessa casa. Conversar sem parecer estranho, falar de assuntos nossos e da vida, conversar sobre meus jogos... – Dei de ombros.
- Imagino que deva ter sido estranho inicialmente, mas depois as coisas vão se ajeitando. – Duda falou e eu assenti com a cabeça.
- Exatamente! – Suspirei. – Bom, vamos mudar de assunto. Precisamos organizar as coisas aqui, quem vai ficar em cada quarto e tudo mais.
- Podemos ficar em um hotel, filho, não tem problema. – Minha mãe falou e eu ergui o indicador rapidamente.
- Não! – Falei. – Vocês ficam na minha casa. – Suspirei. – O que vai ser até bom para eu espairecer um pouco e para a . – Olhei firme nos olhos da minha mãe. – Principalmente você.
- Como assim? – Minha mãe perguntou.
- Você viu como ela começou a chorar quando te viu, mãe. – Muri falou antes de mim. – Ela se lembra da tia Sandra. – Senti meus olhos marejarem e respirei fundo.
- Vai ser bom para ela te ter por perto, nem que for por alguns dias.
- Espero que sim! – Minha mãe estendeu a mão para mim e eu a segurei, dando um rápido beijo em sua mão.
- Bom, quartos! – Suspirei. – Mãe e pai, vocês ficam no meu quarto. Elis, Duda e Franthiesco ficam no quarto da Helena junto dela e eu fico com Muri aqui na sala. – Falei rapidamente.
- O que aconteceu com o quarto da frente? – Muriel perguntou.
- Eu organizei um pouco e dei para ficar lá, ela estava dormindo no sofá. Achei que fosse se sentir mais confortável. – Minha mãe assentiu com a cabeça.
- Fez bem, querido. – Sorri.
- Além de que ela não se sentiria confortável no quarto da Helena. – Franzi os lábios.
- Imagino que não. – Elis falou e eu ri.
- Bom, eu acabei não me organizando para receber vocês. Voltei de Barcelona ontem, acabei não contando para para evitar exatamente o que aconteceu aqui... – O pessoal riu. – Ah, tudo está uma loucura! – Suspirei. – Vocês são de casa, então fiquem à vontade, se quiserem desmontar suas malas, tomar um banho, podem se ajeitar. Vocês sabem como funcionam as coisas. – Eles assentiram com a cabeça. – Muri, pai, vamos lá nos fundos pegar os colchões e colocar no sol um pouco, depois conversamos.
- Beleza! – Meu pai falou prontamente.
- Nós vamos tirando as malas do carro. – Minha mãe falou e eu sorri.
- E eu cuido da Heleninha! – Duda falou e eu sorri para ela, passando a mão em seus cabelos.
- Por aqui! – Falei com meu irmão e pai e seguimos pela cozinha, saindo para a porta dos fundos e cortamos o jardim até a pequena despensa que ficava próximo à churrasqueira e empurrei a porta, sentindo o cheiro forte de fechado.
- Filho, deixa eu te perguntar... – Meu pai falou enquanto eu começava a tirar três colchões do mesmo. – Quando saiu disparada igual um rojão, ela disse que ia trabalhar. Ela está trabalhando?
- Está sim, há uns 10 dias ela saiu para procurar, e começou na quarta-feira. Essa semana faz uma semana. – Falei rapidamente, erguendo os objetos e Muriel pegando do outro lado com meu pai.
- Ah, que legal! – Meu pai falou.
- Mas você não disse que tomaram o passaporte dela? – Muriel falou. – Como ela conseguiu um emprego?
- É em um bar! Próximo ao estádio da Roma, se quer saber. Ela é garçonete. Recebe por dia, trabalha só seis horas, cinco dias na semana... – Dei de ombros. – É algo informal.
- A de garçonete? Ah, essa eu gostaria de ver! – Muriel falou me fazendo rir.
- Ela não é tão ruim assim. – Abanei a cabeça e seguimos para o deck, apoiando os colchões na parede, onde o sol batia fortemente.
- Você já foi lá?
- Fui no dia em que ela começou, na verdade. É um bar karaokê, então além de servir, ela canta.
- Ah, agora está explicado! – Meu pai falou, nos fazendo gargalhar. – Ela pode não ser muito boa carregando bandejas, mas me lembro que ela tinha uma voz de rouxinol.
- Ainda tem, pai. – Dei um pequeno sorriso, suspirando e notei que eles me encaravam, me fazendo pigarrear e fingir uma tosse. – Mas isso é bom, os clientes dão pontos no final da noite para cada um dos funcionários que cantam e isso acaba dando uma grana extra para eles.
- Bacana! – Meu pai falou.
- E aqui com ela, como está? – Muriel perguntou.
- Agora está tudo bem, o susto passou. Leo conseguiu um advogado para ela e parece que está tudo certo, ela dá notícias sobre o caso quase que diariamente. Parece que a acusação de não vai sair, eles não têm provas o suficiente.
- Ah que ótimo! – Meu pai falou aliviado. – Confesso que só consigo pensar se ela realmente é culpada.
- Eu também, pai. – Suspirei. – Mas aí eu convivo com ela, passo os dias com ela e percebo que não é possível, sabe? Tirando alguns anos a mais, alguns quilos a menos e muito dinheiro a mais, ela é a mesma que eu conhecia lá atrás.
- Eu sabia que ela não nos decepcionaria. – Muri falou e eu neguei com a cabeça.
- Vai dizer que não ficou com dúvidas de que ela fosse culpada! – Virei para ele, cruzando os braços e me apoiando na parede.
- Eu fiquei com a pulga atrás da orelha sim, admito, mas eu achei muito estranho quando mamãe e papai falaram isso. Eu pensava “? A nossa ?”, não era possível, irmão. – Suspirei.
- Ela ainda está presa aqui, provavelmente vai ser testemunha chave no caso do embaixador e do conselheiro fiscal, mas espero que o caso dela realmente não vá para frente.
- Fé em Deus que tudo vai dar certo. – Meu pai falou e eu sorri. - Bem, se vocês não se importam, eu vou tomar um banho e tirar uma soneca, fiquei acordado o voo todo. – Meu pai falou e eu dei dois tapinhas em seu ombro, indicando-o para a entrada novamente.
- Acho que eu vou aproveitar a deixa também. – Muriel falou e eu sorri, assentindo com a cabeça.
- Vai lá! – Respirei fundo e olhei para o céu novamente, checando se não tinha nenhuma chance de chuva hoje para que molhassem os colchões.
Voltei para dentro e vi que todo mundo já começava a se ajeitar. Duda e Fransthiesco estavam na cama do quarto de Helena distraídos em seus celulares e tablets enquanto Helena havia sido colocado no berço e mordia um dos brinquedos que minha mãe havia trazido para ela. Elis também estava no quarto, mas com a mala em cima do trocador de Helena procurando pelos materiais dela e das crianças.
Coloquei a cabeça rapidamente para dentro da porta do meu quarto e observei minha mãe fazendo o mesmo, enquanto a porta do banheiro estava fechada, meu pai já deveria estar no banho. Passei pelo armário que ficava no corredor e peguei alguns jogos de cama e cobertas, começando a distribuir pelos cômodos da casa. Quando cheguei na sala, Muriel já estava deitado no sofá menor, dormindo com a boca aberta e eu ri, sentindo vontade de fazer a mesma coisa. Havia dormido pouco, cheguei tarde ontem à noite e hoje fui cedo para o treino, ou melhor, reunião de puxão de orelha sobre a perda de ontem e segui direto para o aeroporto Leonardo da Vinci, que meus pais chegariam no voo do meio dia.
Os minutos foram passando e as pessoas foram caindo pelos cantos, Muriel e Elis na sala, meus pais no meu quarto e as crianças no quarto de Helena. Até minha pequena loirinha acabou sendo vencida pelo cansaço e começou a ressonar baixinho no berço. Cogitei dormir também, mas queria falar com logo que ela chegasse, eu queria me desculpar, mesmo não achando que estava totalmente errado. Fomos a família um do outro por bastante tempo, estávamos acostumados a cuidar um do outro, além do mais, minha mãe e meu pai só queriam o melhor para ela, em qualquer situação da sua vida e poderiam ser mais úteis do que parece, mesmo que fosse só para jogar conversa fora um pouco.
Ela apareceu era quase seis da tarde. Ouvi o barulho do portão ser aberto e me levantei da mesa de jantar, abaixando a tela do notebook e segui para a garagem. Vi seu gol entrar e pude notar a cara de decepção dela quando me viu no topo da escada. Esperei que ela saísse do mesmo para descer os degraus e me aproximei dela.
- Me ajuda a descarregar o carro. – Foi o que ela falou, seguindo para o porta-malas.
- , por favor, me escute! – Segurei-a pelo braço, fazendo com que ela se virasse para mim. – Eu não fiz por mal. – Ela puxou o braço, cruzando os mesmos em cima do corpo. – Eu só falei para eles porque eu me preocupo. Todos nós nos preocupamos contigo. – Suspirei. – Eles podem ajudar.
- Por que se preocupar, Alisson? Isso é um problema meu, não acho certo você envolver todo mundo nessa história. – Ela engoliu em seco. – Vai que o pior acontece? Como é que a gente vai ficar? Eu ainda posso ser presa, ok?! Eles ainda podem descobrir algo que me incrimine ou eu ainda posso falar alguma besteira no julgamento e...
- Para! – A interrompi. – Nada disso vai acontecer, ok?! – A puxei para um abraço. – Em breve você vai responder por esse processo, vai ficar livre, vão te devolver seu passaporte e você vai voltar para Brasília com o seu pai. – Ela deu uma risada abafada pela boca estar enterrada em meu ombro.
- Você é muito espirituoso. – Ela sussurrou e eu ri.
- Não! – Suspirei. – Eu quero que você fique livre de tudo e possa recomeçar sua vida. Nunca que eu queria ver uma pessoa que eu amei desse jeito. – Ela se afastou devagar, dando um sorriso. – Você me fala, eu te ouço, mas não consigo imaginar o que você está sentindo.
- Agora eu estou me sentindo meio sufocada, confesso. – Ri fraco. – Mas acho que tem hora para surtar, agora não é o momento. – Ela afastou alguns passos para trás. – Aproveita esse momento! Sua família está aqui... Sua filha está aqui. – Fechei os olhos e franzi a testa, eu não tinha mais como fugir dessa. – Talvez te ajude a relaxar um pouco de mim, de campeonato italiano, de Champions League... – Ela continuou a frase e eu mal prestei atenção depois que ela mencionou Helena.
- Precisamos falar sobre isso também.
- Champions League? – Ela franziu a testa. – Vocês precisam melhorar e muito, eu entendo um pouco mais de futebol, mas o Barça é um time difícil, a Roma vai ter que fazer o impossível para passar de fase... – Neguei com a cabeça.
- Precisamos falar sobre Helena. – Vi que ela engoliu em seco novamente, se afastando um pouco.
- Por favor, Alisson. Eu prefiro que não. – Ela abriu o porta-malas começando a pegar o que estava ali dentro. – Ela já está aqui, eu vou ter que conviver com ela, vai ficar tudo bem... – Sua voz foi abafada quando ela abaixou a cabeça na mala do carro.
- Eu te devo um pedido de desculpas! - Falei rapidamente e vi seu rosto aparecer novamente. – Por favor, vamos falar disso. – Ela coçou a cabeça e notei que seus olhos começaram a marejar.
- O que você quer dizer? – Ela respirou fundo, cruzando os braços novamente.
- Quando a Natália ficou grávida, nós não quisemos saber o sexo do bebê... – Ela pareceu começar a ouvir. – Então nem pensamos em nomes, raramente falávamos sobre isso. – Senti minha boca começar a tremer. – E no dia em que ela nasceu, eu fiquei tão extasiado com a realidade de ser pai, de ter uma criatura tão pequena e indefesa para cuidar que quando a enfermeira perguntou qual seria o nome da criança, eu só consegui me lembrar de Helena. – Suspirei, sentindo que estava com os olhos marejados também. – Eu não me lembrei de você, eu não me lembrei da nossa história, eu não me lembrei de nada, só do nome que eu comecei a amar por sua causa. – Ela mordeu o lábio inferior, nervosa. – Só depois que meus pais vieram visitá-la e eu falei o nome dela e todos me olharam assustados, como se eu tivesse cometido algum crime...
- De certa forma... – Ela me cortou, suspirando.
- Me desculpe, . Eu não sei o que fazer para te compensar, mas eu sei que o que eu fiz foi errado, mesmo nossa história ter terminado lá atrás. Eu vi que você abaixou a foto dela, eu sei que você se lembrou disso também. – Engoli em seco. – Eu devia isso ao nosso passado, às nossas lembranças. Eu sei que eu errei.
- Você não tinha esse direito! – Ela falou com a voz trêmula e as lágrimas deslizando pelos olhos. – Você não podia ter feito isso! – Ela levou a mão à boca. – Era para ser o nome da nossa filha, da nossa família. – Ela puxou a respiração fortemente. – Isso não é justo! Mesmo depois que a gente terminou, ainda têm sentimentos bagunçados aqui. Te encontrar depois de todo esse tempo bagunçou tudo. – Ela negou com a cabeça, passando as mãos nas lágrimas. – Eu não deveria ter vindo. – Ela começou a andar e eu a puxei novamente, sentindo-a empurrar meu peito para longe.
- Não confunda as coisas! – Falei rapidamente. – O que eu fiz não muda nada do que a gente passou, não muda nada a preocupação minha e da minha família sobre você! – Falei um tanto alto. – Nós gostamos muito de você para deixar que vá embora, ainda mais agora que eles vieram por causa de você! – Falei firme. – Você pode me odiar o quanto quiser, pode ficar brava comigo pelo resto da sua vida, mas eu só deixo você ir embora daqui quando for para te levar no aeroporto para voltar para o Brasil, para o seu pai. – Ela soltou um largo suspiro, puxando e soltando o ar diversas vezes.
- Eu não te odeio. – Ela falou um tanto ofendida. – Mas sim, eu estou brava contigo por impedir que a gente tenha uma outra chance. – Ela falou suspirando e eu olhei fixamente para ela, tentando interpretar suas palavras de forma correta dessa vez.
- Está tudo bem aqui? – Me assustei com a voz de Muriel na porta da garagem e olhei para ele rapidamente, puxando o ar fortemente.
- Está sim! – foi mais rápida do que eu. – Eu trouxe algumas coisas para comer, assar uma carne, não sei. – Ela falou, passando por mim de mãos vazias. – Pode ajudar o Alisson, por favor? Parece que algumas horas sozinha não foram o suficiente! – Ela falou com um tom pesado e ouvi seus passos subirem as poucas escadas e sumir para dentro de casa.
- O que aconteceu? – Muriel apareceu ao meu lado e eu comecei a tirar e a entregar para ele as sacolas que tinha trazido.
- Nós brigamos, só para variar um pouco. – Neguei com a cabeça. – Eu vim me desculpar por dar o nome que ela queria ter dado à nossa filha em Helena...
- Então o assunto finalmente veio à tona? – Ele falou me encarando.
- Eu sabia que não seria um assunto fácil, mas ela precisava me entender. – Ele negou com a cabeça.
- Você só não falou toda a verdade. – Ele disse rapidamente e eu franzi a testa, confuso.
- Qual? – Perguntei.
- Que você ainda pensa nela! – Ele falou como se fosse óbvio. – Que você só ficou com Natália porque elas nunca estiveram contigo ao mesmo tempo. Não existiria Natália, nem Helena se ela não tivesse ido embora. – Ele deu de ombros. – E quando nasceu uma filha, você imediatamente ligou à , só não esperava que fosse encontrá-la alguns anos depois.
- Não mesmo! – Falei rapidamente e ele riu.
- E que história é essa de impedir que vocês tenham outra chance? – Ele perguntou negando com a cabeça.
- Eu juro que eu não faço ideia. Estou tão confuso quanto você.
- Aconteceu algo entre vocês...
- Não! – Falei rapidamente.
- Você quer que aconteça?
- Não... Sei. – Franzi a testa e ele riu.
- Você quer! – Ele falou rapidamente.
- Eu só penso que ela está aqui, cara. Eu posso consertar todos esses pequenos erros, de 2010 e os que eu cometi ao longo da vida sem ela. – Ele ponderou com a cabeça.
- Bom, acho que os únicos dois erros que você cometeu sem ela foi começar a namorar alguém 10 meses depois. Apesar de terem perdido contato um tempo antes, vocês não tinham colocado um ponto final na história ainda. – Ele franziu a testa. – E o nome de Helena, o resto acho que foi pouco antes dela ir embora. – Suspirei.
- Então! Eu não posso não pensar na possibilidade de consertar tudo, ficar com ela novamente, eu não sei. – Neguei com a cabeça.
- Bem, acho que você precisa parar com essa estratégia de consertar coisas do passado e tentar viver daqui para frente. Claro que nunca vão esquecer do passado, mas ele já foi, o que dá para fazer é tentar construir um futuro melhor. – Ponderei o que ele disse, respirando fundo.
- Acho que você tem razão. – Dei um pequeno sorriso e ele assentiu com a cabeça.
- Viu a falta que seu irmão faz? – Ele começou a se achar e gargalhamos juntos. – Agora vem, vamos levar as compras lá para dentro e eu vou lá bater um papinho com a moça chorosa que passou por aqui. – Rimos juntos novamente.
- Obrigado, irmão. – Ele sorriu.
- Eu fui intermediador de vocês dois por um bom tempo, não vai ser agora que eu vou parar. – Ele disse voltando para dentro com algumas compras e eu peguei o resto delas, fechando o porta-malas de e puxando a chave da porta, travando o mesmo.
Voltei para dentro e Muri já estava na cozinha colocando as coisas na mesa. Ele deu dois tapinhas em minhas costas e seguiu para o corredor. Me afastei para observar ele bater à porta do quarto de e entrar devagar. Voltei a focar nas sacolas quando a porta foi fechada com ele para o lado de dentro e comecei a prestar atenção no que tinha trazido ali que provavelmente não seria servido hoje, se o clima continuasse dessa mesma forma.





Continua...



Nota da autora: Finalmente descobrimos o motivo da pp ter tanto ranço pela filha do Alisson, não é mesmo? Agora mesmo que o circo vai pegar fogo! E essa intervenção da família Becker em peso em Roma? Vixi! Agora que a pp vai se confundir toda. 
Mas e essa briga toda dos pps? Será que finalmente tudo vai se ajeitar? Ou ainda tem algumas coisas inacabadas que precisarão de mais brigas para resolver?
Fica de olho que os próximos capítulos estão chegando cheios de intrigas e amor! 
Espero que estejam gostando da história e não se esqueçam de deixar aquele feedback lindinho na caixa dos comentários! É muito importante para todas as autoras!
Beijos.




Nota da beta: Ah. Meu. Deus. Finalmente o mistério foi resolvido e o ranço esclarecido, agora eu entendo muito a pp, e teria a mesma reação que ela, viu? Tadinha, o nome que ela sempre gostou, sendo usado na futura enteada, dói demais, que isso! Alisson, que vontade de te bater hhaha, mas eu também te compreendo, que situação, amiguinhos! Só continue <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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